Tópicos
do capítulo:
Alfred Horn é
Rudolf Hess
A Inglaterra
sobrevive sob as bombas
Os temíveis
U-Boote
22 de maio: o
Almirantado desfecha a caça ao Bismark
Atingido, o
Bismark entra em agonia
20 de maio:
invasão aérea de Creta
A Cruz de Lorena
na conquista da Síria
Paulus prepara a
Operação Barbarossa
As forças alemães
na frente oriental
Guerra na Rússia:
desacordo entre Hitler e seus generais
Últimas horas de
paz: um trem soviético entra na Alemanha
Reviravolta O misterioso personagem tinha sido levado até a
caserna Maryhill, em Glasgow. Ele tinha declarado que se chamava Alfred Horn
e que queria falar pessoalmente com o Duque de Hamilton. O Duque, Wing
Commander da RAF, chegou à caserna no dia seguinte, domingo, 11 de maio.
Encontrou um homem pálido, de olhos fundos e expressão atormentada: “O senhor me conhece? O senhor almoçou na
minha casa por ocasião dos Jogos Olímpicos de Berlim... Sou Rudolf Hess...” Só depois de alguns instantes Hamilton se lembrou
de que Rudolf Hess representava o Fuhrer junto ao Partido Nacional-Socialista
e de que, realmente, o havia encontrado em Berlim. Hess disse que tinha
partido de Augsburgo no dia anterior, de avião, mas, que temendo ser abatido
pela DCA, preferira saltar de pára-quedas. Pedira para ver o Duque de
Hamilton porque o tinha na conta de um inglês razoável, capaz de auxiliá-lo
na missão que se atribuíra espontaneamente. Viera, arriscando sua segurança
pessoal, com o objetivo de por um fim à luta fratricida na qual estavam
envolvidas a Alemanha e a Inglaterra. Hamilton recusou-se a continuar ouvindo. Não
estava absolutamente certo da identidade do personagem, e não se achava em
condições de iniciar conversações com o fantástico emissário que caíra do
céu. Mas um enviado do Foreign Office, Sir Ivone Kirpatrick, que servira em
Berlim, reconheceu Hess, sem sombra de dúvida, e tomou nota de suas
declarações. Ele queria lançar as bases de uma reconciliação anglo-alemã. A
Alemanha se comprometeria de respeitar escrupulosamente o Império Britânico e
chegaria até a oferecer-lhe sua colaboração contra as ambições
norte-americanas; em troca, pediria, apenas, carta-branca no continente
europeu. Hess frisou que tinha tomado essa iniciativa sem que Hitler delas
tivesse conhecimento, mas que estava certo de que ela representava a
convicção íntima e desejo mais sincero do seu Fuhrer. Hoje em dia, não resta a menor dúvida de que
Hitler não teve, realmente, qualquer relação com a extravagante aventura do
homem que tinha sido seu secretário e continuava a ser seu favorito. Dela
teve notícia em Berchtesgaden, através de uma carta do fugitivo, e
causou-lhe, mais consternação do que raiva. “Parece-me que ainda o vejo -
disse Keitel - andando para cima e para baixo no seu grande escritório e
batendo na testa com o dedo dizendo que Hess devia ter sofrido um
desequilíbrio mental...” Mente exaltada, sujeito a alucinações, misticamente
devotado a Hitler, Hess estava realmente convencido de que iria dar início a
uma negociação. O governo britânico comunicou-lhe que ela era um prisioneiro
de guerra e seria tratado como tal até o fim das hostilidades. Hess surpreendeu-se. Ele acreditava na força das
ameaças nas quais baseava os seus sentimentos pró-britânicos. “O senhor tem
que se convencer - disse ele a Kirpatrick - de que a Alemanha ganhará,
certamente, a guerra. Hitler faz tudo de modo maciço e genial. O senhor não
tem a menor idéia do número de aviões e de submarinos que ele está
construindo...” Diante da fleuma de Kirpatrick, ele se zangou. “Minha viagem
lhes dá uma última oportunidade; se não a aproveitarem, Hitler terá razão em
reduzi-los à escravidão. Estará no seu direito, e, até, no seu dever”. As ameaças de Rudolf Hess, no momento em que foram
proferidas, estavam longe de ser vãs. Fazia dez meses que a Inglaterra lutava
sozinha. Conseguia tão-somente sobreviver. Continuava a ser devastada por
violentos bombardeios, como o de 19 de abril, que matara, em Londres, 2.300
pessoas. Não se via qualquer caminho que pudesse afastá-la do abismo de
sangue, suor e lágrimas que lhe prometera seu líder. Das vitórias obtidas no inverno, na primavera,
resta apenas uma: a destruição da África Oriental italiana. Todas as outras
vantagens, alcançadas contra os italianos, os alemães haviam anulado. A
Grécia continental está perdida. Os pára-quedistas conquistaram as ilhas do
Egeu. A única ambição britânica é conservar Creta, mas seu defensor, o
general neozelandês Bernard Freyberg, que já foi ferido 36 vezes, avisa ao
governo de Wellington que suas tropas estão numa armadilha. Na África, o Eixo
voltou à fronteira egípcia. Os ingleses estão de tal modo apreensivos em
relação à divisão blindada que ainda vai chegar para Rommel, que o
Almirantado aceita a proposta de Churchill de sacrificar o encouraçado Barham
para bloquear o porto de Trípoli. O Almirante Cunningham protesta
violentamente contra o sacrifício de um grande navio de guerra, e para não
consenti-lo assume o risco de levar toda a frota para bombardear Trípoli. A
surpresa é total. Em quarenta e dois minutos, a esquadra despeja 530
toneladas de obuses sobre o porto, mas os resultados não correspondem à
grandiosidade do espetáculo: a 15a PD continua a efetuar seus
desembarques. De repente, abre-se uma nova ferida. A Inglaterra
já não sabe se o mundo está a seu favor ou contra ela. Estivera do seu lado
durante a guerra anterior, quando a Inglaterra o sublevava contra os seus
senhores de então, os turcos. Mas o patrocínio que ela exercera em favor do
sionismo tinha canalizado para o Eixo as simpatias muçulmanas. Se Sidi
Mussolini se cobre de ridículo ao proclamar-se Sabre do Islame, em
compensação, a figura de Hitler, seu anti-semitismo exterminador, suas
vitórias retumbantes, apaixonam o Oriente Próximo. Os ingleses não ignoram
que o Cairo se cobrirá de cruzes gamadas se Rommel lá aparecer. Não ignoram
que, do Indo ao Nilo, o ódio fermenta. Em abril, o Iraque revela-se. O tratado se aliança
de 1930 concede aos ingleses duas bases, Shaibeh, perto de Baçorá, e
Habbaniya, no vale do Eufrates. Mas o regente Abdul Illal é derrubado por uma
conspiração militar que coloca novamente no poder um inimigo jurado dos
ingleses, Rachid Ali el-Gailani. As tropas do Iraque dirigem-se para a base
de Habbaniya e guarnecem com seus canhões o planalto que a domina. A base
vivia como em tempo de paz, cercada apenas por uma grade, as famílias
misturadas com os soldados. A ameaça torna-se tão séria, que, apesar de
Wavell, que advoga a negociação, Churchill autoriza o Air Vice-Marshal Stuart
a usar a força para dispersar os agrupamentos hostis. São pedidos reforços na
Índia, e uma brigada que se dirige para a Malásia é interceptada ao passar.
Hitler prevê a possibilidade de uma grande insurreição árabe e promete ajuda
ao Iraque. Deste modo, as forças britânicas são submetidas a uma dispersão
crescente e a um esforço impiedoso. No momento em que a verdadeira luta pela
sobrevivência se desenrola nas águas do Atlântico. Entre todas as ameaças de
Rudolph Hess, a mais sinistra para os ingleses é esta: “Vocês não podem imaginar
a capacidade de Hitler para construir submarinos...” Felizmente, o jovem representante do Fuhrer
exagera um pouco. As prioridades concedidas às construções de submarinos
estão longe de satisfazer às quotas pedidas por Raeder e Doenitz. Tendo conseguido
fabricar um excelente barco de guerra, o VII-C Atlantik U-boote (770
toneladas, 12 torpedos, 18 nós, 15.000 milhas de cruzeiro), desde 1939, eles
tentam conseguir a sua construção em grande escala, mas Hitler insiste em
acreditar que a guerra contra a Inglaterra será breve e que seus dois
almirantes se estão precipitando. Eles pedem 850 U-boote. Esta quota é
reduzida a 372 e a produção planejada, 25 unidades por mês, está longe de ser
atingida. Na primavera de 1941, o número de submarinos disponíveis é
visivelmente o mesmo que quando do início das hostilidades. O aumento das
perdas britânicas, que, de 320.000 toneladas em janeiro, em abril chegaram a
654.000 toneladas, deriva, essencialmente, do aperfeiçoamento das táticas e
da crescente ousadia dos comandantes dos submarinos alemães. Dentre os comandantes de U-boote, o primeiro a
tornar-se célebre foi Gunther Prien. Seguem-se outros. Em dezembro de 1940,
Schepke ganha as folhas de carvalho sobre sua cruz de cavaleiro, por ter sido
o primeiro a destruir mais de 200.000 toneladas de navios mercantes.
Kretschmer ultrapassa-o, com 380.000 toneladas e 3 contratorpedeiros. Mas, no
dia 8 de março, a base de Lorient chama inutilmente o U-47, comandado por
Prien, cuja última mensagem assinalou um mergulho precipitado. No dia 17, o
mesmo silêncio responde aos apelos enviados ao U-99, comandado por
Kretschmer, e ao U-100 comandado por Schepke. Em nove dias, os três ases da
força submarina tinham chegado ao fim de suas carreiras. Prien, atacado pelas
granadas do Woolverine, afundou com seu barco, Schepke, esporeado pelo Vanoc,
foi esmagado entre a passarela e a proa do contratorpedeiro; Kretschmer,
atirado ao mar no momento da abordagem do U-99 pelo Walker, foi feito
prisioneiro. Essas vitórias aliviaram os ingleses. Por outro
lado. Agrava-se a situação. O porto de Londres está reduzido a um quarto de
sua capacidade. A tonelagem das importações está reduzida à metade. Os
estaleiros estão sufocados por 2.600.000 toneladas de navios avariados.
Febrilmente, vêm sendo construídas unidades de escolta, corvetas reduzidas, e
aperfeiçoam-se todos meios de luta contra os submarinos, mas os alemães
também estão aperfeiçoando os métodos de ataque. A tática dos lobos foi
auxiliada pela entrada em ação dos quadrimotores Focke-Wulf 200, que efetuam
imensas patrulhas entre Brest e Bergen e cuja eficiência seria muito maior se
Goering (“Tudo o que voa me pertence”) não tivesse negado a subordiná-la ao
Almirante Doenitz. Muitos comboios encontram fim trágico. Atacado por sete
U-Boote, o SC-26 perde seis barcos. Atacado por nove U-Boote, o HX-126 perde
10. A vida das tripulações mercantes, sobretudo das dos navios-tanque,
transformou-se num pesadelo. Aos submarinos, juntam-se as unidades de
superfície. Os corsários alemães levam a devastação até os confins da terra.
Navios mercantes armados como cruzadores-auxiliares, eles navegam nos mares
longínquos, abastecem-se em encontros clandestinos, transformam ilhas
desertas, como as Kerguelen, em bases secretas, realizam verdadeiras proezas
de resistência e de imaginação. Em vinte meses, o Atlantis atua em três
oceanos e afunda 22 navios, num total aproximado de 145.697 toneladas;
termina sendo destruído no Atlântico Sul pelo cruzador Devonshire, mas a sua
tripulação recolhida pelo U-126, volta à Alemanha no navio-tanque Python. O
Pinguin dirige-se para as regiões geladas do Antártico, encontra a frota
baleeira norueguesa, destroi três navios-fábricas e sua flotilha de
arpoadores, volta para continuar sua devastação nos mares quentes e sucumbe no
oceano Índico, diante do cruzador Cornwall. A maioria dos corsários termina
deste modo, sob os golpes de um adversário irresistível, mas alguns, como o
Kormoran, conseguem voltar à Europa e até mesmo, como o Thor, trazer presas.
Tanto um como o outro partirão para um segundo cruzeiro, do qual não
retornarão. Os grande barcos de guerra não estão inativos. O
couraçado de bolso Admiral Scheer fica no mar durante cinco meses, percorre
46.419 milhas, destroi 100.000 toneladas, e ainda o cruzador-auxiliar Jerviz
Bay. Depois de prolongada estadia nos estaleiros, para reparar as avarias da
Noruega, os cruzadores de batalha Scharnhorst e Gneisenau voltam ao mar no
início de 1941. Através do estreito da Dinamarca, que separa a Islândia da
Groelândia, atingem a zona de dispersão dos comboios, ao longo da Terra Nova.
Massacre de navios - 21 vítimas de 22 de fevereiro a 13 de março - e volta
triunfal a Brest. |
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A caça ao “Bismark” É nestas condições que o Almirantado recebe a
notícia que há várias semanas o preocupa: o Bismark foi lançado ao mar. No dia 22 de maio, um reconhecimento aéreo
identifica o grande barco, que faz preparativos de aparelhamento no fiorde de
Kors, ao sul de Bergen. Um segundo reconhecimento, algumas horas depois,
encontra o fiorde vazio. Cinco comboios estão no mar, dois dos quais, o SC-31
rumo a leste e o OB-324 rumo a oeste, se acham na rota provável do couraçado,
na saída do estreito da Dinamarca, e um terceiro, o NB-8B, transporta as
tropas que se destinam ao Egito. Todas as escoltas, inclusive os velhos
navios de linha como o Ramillies e o Revenge não passam de casca de noz
diante do navio de guerra mais poderoso do mundo: 42.000 toneladas de
deslocamento, 28 nós, 8 peças de 15 polegadas... Os dois couraçados ingleses
que acabam de entrar em ação, o King George V e o Prince of Wales, não chegam
sequer a igualá-lo. A saída do Bismark poderia significar uma ofensiva
geral da frota de superfície alemã. Um cruzador pesado, também novo, o Prinz
Eugen, acompanha o gigante. O Almirante Raeder dispõe ainda do couraçado de
bolso Lutzow, dos cruzadores Hipper, Koln, Emden e, em Brest, da poderosa
divisão dos cruzadores de batalha Scharnhorst e Gneisenau. Sir John Tovey,
sucessor do Almirante Forbes no comando da Home Fleet, está diante de uma
batalha da qual pode depender o destino do Reino Unido. Mas a sorte - uma sorte cheia de heroísmo - sorriu
para os ingleses. No dia 6 de abril, apenas com uma formação de 4 aparelhos,
o Flying Officer Campbell, do Coastal Squadron n° 22 atingiu a enseada de
Brest, e, de modo suicida, torpedeou a Gneisenau. Este acontecimento dissuade
o Almirante alemão de fazer com que a divisão de Brest, reduzida a uma única
unidade, participe da saída do Bismark. O grande barco, no qual embarca o
Almirante Lutjens, não passa de um
corsário solitário confiante na sua estrela. No dia 23 de maio, as condições no estreito da
Dinamarca são singulares. Nessa alta altitude, a noite de maio não passa de
um crepúsculo prolongado, mas a bruma transforma o dia em um outro
crepúsculo, cheio de uma claridade leitosa que fere os olhos. O gelo obstrui
o estreito, deixando, do lado da Islândia, apenas um canal de algumas milhas.
Os dois cruzadores de 8 polegadas do Contra-Almirante Wake Walker, o Suffolk
e o Norfolk, patrulham os limites das geleiras. Às 19:22 horas, o Suffolk
avista o Bismark seguido do Prinz Eugen, a uma distância de menos de 8
milhas. O navio inglês volta a entrar na bruma, e continua a seguir o inimigo
pelo radar. Uma hora depois, quando clareia um pouco, o Norfolk recebe impunemente,
a menos de 6 milhas, o primeiro obus que o Bismark lança contra o inimigo.
Por sua vez, o Norfolk penetra na bruma e, lado a lado com o Suffolk, segue a
esteira dos dois navios alemães. As rajadas de neve, os efeitos de miragem
produzidos pela fosforescência da banquisa, o gelo esmagado pelas rodas da
proa à velocidade de 28 nós, a luz crua da noite boreal criam uma atmosfera
fantástica em torno dessa corrida de morte. Do sudoeste, a uma distância de 600 milhas, vem o
Almirante Holland. Comanda o Hood, cruzador de batalha, o maior navio de
guerra do mundo. Vem seguido do Prince of Wales, que, se não fora o Bismark,
seria a mais poderosa belonave do mundo. Mas o Hood é velho demais - tem mais
de 20 anos - e o Prince, demasiado novo: acaba de sair dos estaleiros e ainda
não está em plena forma. O Almirante Tovey está quase a enviar um sinal,
ordenando ao Prince of Wales, melhor protegido que o Hood, que tome a frente
da fila. Mas, lembrando-se da antiguidade de Holland, cala-se. A
aproximação é difícil. Pretendendo surpreender o inimigo, Holland não quer
utilizar o radar nem o rádio: separa-se dos quatro contratorpedeiros que
tinham conseguido seguir esses grandes barcos e que se perdem em uma
tempestade de neve. O inimigo é descoberto pelo Hood às 5:35 horas, mas está
numa posição em que pode utilizar toda a sua artilharia, enquanto os ingleses
só podem fazer uso de uma parte da sua. Não tendo velocidade, Holland não
pode aproximar-se para combater e, a distância, o ângulo de incidência dos
obuses do Bismark é perigoso para o velho Hood, que não tem ponte blindada. Às 5:53, os dois barcos ingleses fazem fogo a
24.231 metros. Os canhões alemães respondem como eco. A terceira salva do
Bismark atinge o Hood. Diante da chaminé, crepita uma labareda. Alguns
segundos depois, formidável explosão faz em pedaços o maior navio do mundo. O
Hood perece do mesmo modo que o Queen Mary e o Indefatigable, na Jutlândia,
vítima, como eles, de um defeito de construção que permite a propagação de um
incêndio aos paióis de munição. Dentre os 95 oficiais e os 1.342 homens da
tripulação, apenas o aspirante Douglas, o timoneiro Briggs e o marinheiro
Tilburn são salvos das águas geladas pelos torpedeiros ingleses. Tendo ficado só, o Prince de Wales é atingido
quatro vezes em quatro minutos. O Almirante Wake Walker toma a
responsabilidade de ordenar ao couraçado que abandone o combate. Com o
Suffolk e o Norfolk, conduzirá até o Bismark as forças arrasadoras que o
Almirantado pôs em ação. O Bismark, por sua vez, não está ileso. Do seu
flanco, arrombado por um obus do Prince of Wales. Sai um grosso rastro de
óleo. A prudência aconselharia que Lutjens levasse o seu navio atingido para
as altas latitudes, a refugiar-se em um porto norueguês, levando consigo a
brilhante vitória que acabava de acrescentar ao ativo da marinha de Hitler.
Atendendo a razões cujo segredo ele levará ao seu túmulo marinho, ele
persiste em descer para o sul, e às 8:01 comunicando ao Almirantado alemão
que a sua velocidade ainda se mantém em 28 nós, anuncia sua intenção de
atingir Saint-Nazaire. Contra ele, mobiliza-se o Atlântico. Tovey traz de
Scapa o King George V, o Repulse e o porta-aviões Victorious. O Ramillies, o
Revenge e o Rodney abandonam suas missões de comboios para tomar parte na
perseguição. Somerville traz de Gibraltar o Ark Royal, o Renown, os
cruzadores Sheffield e Dorsetshire. Os alemães por sua vez, ordenam aos seus
submarinos que se dirijam para o Bismark, mesmo que já não disponham de
torpedos, com o objetivo de multiplicar os alarmes falsos. Sem torpedos, é o
caso do U-556. Num mar encapelado, seu comandante Wohlfarth, vê desfilarem
diante do periscópio o porta-aviões Ark Royal e o couraçado Renown a toda
velocidade, levantando ondas de espuma que os recobrem da proa à popa.
Espetáculo magnífico e desesperador. O submarino já não tem torpedos para
impedir tal desfile! Durante todo o dia 24, o Prince of Wales, o
Suffolk e o Norfolk escoltam a respeitosa distância o Prinz Eugen e o
Bismark. Às 18:00, os dois barcos alemães se separam, o cruzador intacto
segue a sua rota para o sul, enquanto o couraçado dobra para sudeste. À
meia-noite, uma esquadrilha de Swordfishes, lançada pelo Illustrious, acha o
Bismark, e, apesar da noite, apesar da tempestade, apesar da inexperiência
das tripulações, consegue acertar-lhe um torpedo no meio do costado. Mas,
três horas depois, os perseguidores são atingidos por um desastre: o Suffolk,
depois de um ziguezague anti-submarino, não mais consegue encontrar o Bismark
no seu radar. Churchill, que está a par da perseguição minuto a minuto,
sucumbe sob o golpe. A pista está perdida! A Câmara dos Comuns, cuja sala de
reuniões acaba de ser destruída por um bombardeio, está quase indo reunir-se
ao QG da Igreja da Inglaterra, Church House. De que modo se apresentaria ele
diante do Parlamento para confessar-lhes que o Bismark, depois de ter
assassinado o Hood, regressa tranqüilamente a sua terra? Passam-se o dia e a noite. A perseguição acaba-se
por si só. Os navios, com os paióis quase vazios, um a um se dirigem para os
portos mais próximos. O Revenge ruma à Terra Nova. O Victorious, o Prince of
Wales e o Repulse vão para a Islândia. O King George V e o Rodney são
obrigados a imitá-los. Aliás, o Almirantado está convencido de que os últimos
esforços são inúteis. Voltando sobre a sua esteira, em direção ao norte,
Lutjens, provavelmente, já está fora de alcance. Por desencargo de
consciência, as patrulhas de Catalinas procuram-no da Bretanha até a
Islândia. É nas paragens desta última que se espera encontrá-lo, livre do perigo... O patrulheiro que se encontra mais ao sul é
pilotado pelo Flying Officer Briggs, da esquadrilha 209, do Coastal Command.
O tempo está horrível, o céu cheio de turbulências, as nuvens espessas. Às
10:30 do dia 26, Briggs avista um grande barco. Tem que descer muito baixo
para identificá-lo - e o fogo antiaéreo que isso provoca é tão preciso, que
por pouco ele não mais voltaria. Sambando no meio das explosões, ele volta
para o colchão de nuvens, enquanto seu rádio lança a grande novidade. O
Bismark foi reencontrado! Pensavam que o barco estava em algum lugar sob o
círculo polar, quando se achava a 690 milhas a oeste de Brest! A salvo? Não há dúvida. O Bismark tinha
ultrapassado de 100 milhas a força principal do Almirante Tovey. A partir de
então, estaria, sem interrupção, sob a proteção da Luftwaffe. Os únicos
barcos ingleses capazes de interceptá-lo são os que chegam de Gibraltar. Mas
o velho Renown não está a altura de um Bismark, mesmo avariado. Tudo depende
do Ark Royal. Os Swordfishes decolam com grande dificuldade de
uma ponte em movimento, e no meio da bruma. As nuvens e as ondas se
encontram. Na posição indicada por Briggs é detectada uma embarcação. Os
torpedos correm pelas águas revoltas e os aviões sobrevoam, a ponto de quase
tocá-la, a embarcação sobre a qual atiraram. Horror! Os pilotos reconhecem
sua vítima. Briggs se enganara em 25 milhas na sua estimativa! Os Swordfishes
tinham torpedeado o Sheffield! Mas não! Em manobra rápida, o cruzador tinha
conseguido evitar os torpedos. Aborrecidos, os pilotos fazem os Swordfishes
voltar para o Ark Royal. Desta vez, é, realmente, a última oportunidade.
Conduzidos pelo tenente-comandante Poole, 15 Swordfishes partem novamente.
Decolam às 19:10, sob uma claridade que o mau tempo já começa a escurecer. Se
errarem novamente, a noite cobrirá o couraçado e, pela madrugada, o Bismark
estará entrando no canal de Iroise, sob poderosa cobertura aérea... Às 20:47, está quase totalmente escuro. Os aviões
que chegaram dispersados pela tempestade têm que atacar isoladamente. A ação
dura 38 minutos. Um torpedo atinge o Bismark, mas na carcaça e, como o da
véspera, não lhe causa senão ligeiras avarias. Outro torpedo se dirige para a
popa. As condições deficientes de iluminação e a agitação do mar atrasam em alguns
segundos a manobra de fuga. Alguns segundos que significam alguns metros que
significam a diferença entre o triunfo e a morte. O torpedo atinge as hélices
e arranca o leme. A velocidade cai para 3 nós. O Bismark está desamparado. Começa a noite de agonia. Às 1:20, uma divisão de
5 contratorpedeiros, conduzidos pelo capitão Vian, entra em cena. Fazendo
voltas em torno do gigante quase imobilizado, as pequenas embarcações
conseguem torpedeá-lo duas vezes. Ao amanhecer, quando surgem o Rodney e o
George V, o Bismark está praticamente parado. O mar e o vento atingem
respectivamente as forças 5 e 7, e retardam para 8:45 o início do canhoneio.
O revide do Bismark enfraquece rapidamente. Às 10:15, o couraçado está
envolto em chamas, com todos os canhões mudos. Tovey, a braços com problemas
de máquinas em pleno mar agitado, dirige-se para a Inglaterra e ordena aos
cruzadores que acabem de destruir o inimigo vencido. O Norfolk e o Devonshire
encarregam-se dele. O Bismark desaparece às 10:36. Apesar do mau tempo, são
salvos 110 dos seus marinheiros. A conquista de Creta pelos ares Vitória e derrota... No momento em que termina a
perseguição ao Bismark, Churchill designa-se a abandonar o projeto ao qual se
apegou tão obstinadamente. No próprio dia anterior ele tinha telegrafado a
Wavell dizendo que uma vitória em Creta seria indispensável. Tem então que
aceitar as propostas do comitê dos chefes do Estado-Maior, a retirada da ilha
na qual ele contava encontrar uma substituição para a frente balcânica que
falhara. Depois da Grécia continental, a Grécia insular também está perdida. Hitler tinha hesitado em empreender essa invasão
aérea de Creta. Kurt Student, o general dos pára-quedistas, conseguiu
convencê-lo de que se tratava de empresa brilhante e fácil, questão de oito
dias, que, quase sem perdas, afastaria do petróleo romeno os bombardeiros
britânicos, asseguraria a proteção dos Bálcãs e consolidaria a supremacia
aérea alemã no Mediterrâneo. Esta promessa faz Hitler decidir-se: todas as
tropas de elite devem estar prontas no momento em que começarem as
hostilidades contra a Rússia. A invasão começa a 20 de maio. O plano de
operações foi elaborado pelo Estado-Maior da Luftwaffe e todas as forças que
devem participar dele, inclusive a 5a Divisão de Montanha, lhe estão
subordinadas. O trabalho de preparação requereu esforços gigantescos. Foi
necessário estabelecer bases na Grécia meridional para os 228 bombardeiros,
os 205 Stukas, os 119 caças e os 114 caça-bombardeiros do 8o
Flieger Korps, comandado por Von Richtofen, mais 10 grupos de Ju-52, 520
aparelhos, que deviam deixar o 11o Flieger Korps, os
pára-quedistas do General Student. Foi preciso improvisar aeroportos em
Corinto, Megara, Tanagra, Topolia, Dedion, Elêusis, Falera. As ilhas vizinhas
de Creta tiveram que ser ocupadas e transformadas em praças de armas: Cítera
e Anticítera, em bases de DCA; Milo, em base para as tropas terrestres;
Scarpanto, em base para os Messerschmitt e os Stukas. Algumas dificuldades
materiais tinham sido subestimadas. Uma delas era a lentidão do abastecimento
dos reservatórios, de transporte manual de 3.600.000 litros de gasolina por
dia. Outra era a formação de enormes nuvens de pó, levantada pelos aviões que
decolavam das pistas de barro e impediam a visibilidade, como espessa cerração. A 100 km dos dedos do Peloponeso, Creta é uma
faixa marítima de 260 km que se estende diante de uma cadeia de montanhas
cujos picos se elevam brutalmente até 2.700 metros. As cidades, a única
estrada existente, praticamente tudo o que existe, encontram-se na costa
norte, de frente para a invasão, uma vez que a costa sul não passa de um
grandioso caos batido pela fúria do mar. Na realidade, a conquista consiste
em apoderar-se dos três aeroportos, Malema, Heráclion, Rétimo, e da capital,
Canéia. O General Freyberg tinha limitado seu plano de defesa à ocupação
desses quatro setores. Suas tropas compõem-se de 50% de gregos e 50% de
britânicos, dos quais a metade é de australianos e neozelandeses. A divisão
dos efetivos é a seguinte: 11.859 homens em Malema, 14.822 em Canéia-Suda,
61.730 em Rétimo e 8.029 em Heráclion. Praticamente, eles não dispõem de
artilharia e tem apenas 16 tanques leves e médios. O que mais faz falta aos defensores é aviação. Na
véspera da invasão, Freyberg devolveu ao Egito os quatro pobres Hurricanes e
os três infelizes Gladiators, os únicos que tinham sobrado das esquadrilhas
33, 80, 112 e 805. A superioridade aérea alemã é, portanto, absoluta. Em
compensação, a inferioridade naval alemã é total. Para transportar para Creta
a 5a Divisão de Montanha, o Almirante Schuster requisita os
caíques do mar Egeu, pesadas embarcações a motor de 100 a 200 toneladas, cuja
velocidade não passava de 6 nós. O Almirante Cunningham dispõe de 4
couraçados, 1 porta-aviões, 11 cruzadores e 40 contratorpedeiros. Nada há a
temer da frota italiana, que, depois da refrega que sofreu na cabo Matapan,
despediu-se do mar. Entretanto, ele é violentamente contrário a arriscar seus
navios sob um céu totalmente inimigo. Deste modo, Creta é uma experiência sem
misturas: o poderio aéreo contra o poderio marítimo. Às 7:05, os pára-quedistas e os planadores do
Regimento de Assalto caem sobre o setor de Malema. Os do regimento da 7a
Flieger Division caem sobre o setor de Canéia. Os Ju-52 voltam para buscar os
dois regimentos que deverão soltar sobre Heráclion e Rétimo. Dos 493
aparelhos, apenas 7 não respondem à chamada e as tripulações declaram que a
operação dos pára-quedas obteve pleno êxito. Não é verdade. A dispersão tinha
sido excessiva e as perdas dos transportados foram muito mais pesadas do que
as dos transportadores. O Tenente-General Sussmann, comandante do grupo
central, morreu de um acidente na ilha de Egina e o Major-General Meindl, que
comandava o grupo do oeste, feriu-se gravemente ao cair ao solo. Os ingleses
não conseguiram destruir o inimigo, mas os alemães também não conseguem
dominar a resistência inglesa. À noite, o território de Malema não passa de
uma terra de ninguém e o vale das Prisões, via de acesso para Canéia,
continua bloqueada por um regimento grego. Em Heráclion e em Rétimo, o ataque da segunda
investida realizou-se em condições ainda mais desfavoráveis, uma vez que a
poeira e a lentidão do abastecimento de gasolina tinham desarticulado o
horário. Nenhum dos aeroportos foi tomado. Não se atingiu qualquer dos
objetivos daquele dia. Student compreende que, se não superar a crise, se
arriscará a ser derrotado e a cair em desgraça. No dia seguinte, lança os
últimos pára-quedistas sobre Malema e ordena aos Ju-52 que pousem no
aeroporto, apesar da artilharia e da fuzilaria inglesas. Assim, um batalhão
do 100o Regimento de Montanha desembarca dentro de um matadouro de
aviões. Ao cair da tarde, Malema é tomada. Nesta mesma noite, o mar assiste a muitos dramas.
Os alemães tinham decidido atravessar o primeiro comboio de caíques a motor;
2.300 soldados de infantaria se amontoam à borda de 25 embarcações e partem
de Milo escoltados apenas um pequeno torpedeiro italiano. À meia-noite,
através de um mar Egeu aveludado, eles completaram quatro quintos da travessia.
O radar denuncia-os à força naval do Contra-Almirante Glennie, constante de 3
cruzadores e 4 contratorpedeiros. Os caíques de dispersam, mas os ingleses
vão em sua perseguição; 10 são destruídos e seus ocupantes de afogam. Os
outros fazem meia volta. Pelo mar, não chegará a Creta qualquer reforço
alemão. Mas esta proibição não é gratuita. As perdas
navais multiplicam-se de modo assustador. Os cruzadores Naiad e Carlisle
estão danificados. O Warspite, um lucky ship por excelência, é duramente
atingido por uma bomba de grande calibre. Na manhã do dia 22, o
contratorpedeiro Greyhound avista um caíque que se refugia em Cítera. Zarpa
em sua direção, afunda-o, mas atrai sobre si dois Stukas, cujas bombas o
cortam em dois. Os cruzadores Gloucester e Fiji, enviados para socorrê-lo,
tem o mesmo destino. Nos dias seguintes, é a vez dos contratorpedeiros Kelly
e Kashmir serem afundados. As unidades mais preciosas da esquadra, os
couraçados Valiant e Barham, são postas fora de combate. O Formidable, único
porta-aviões do Mediterrâneo oriental, escapa por pouco. Inicialmente, o
Formidable tinha ficado fora da luta, mas, Cunningham, tendo encontrado 12
Albacores para acolher a bordo, enviou-os para bombardear o ninho de Stukas
de Scarpanto; atingido por duas vezes, o porta-aviões parte para Alexandria
fazendo muita água. O almirante Cunningham vê com tristeza sua frota
reduzir-se sob os golpes do céu. Tenta poupá-la, retirando-a, durante o dia,
das águas mais perigosas, mas recebe censuras violentas de Londres. Churchill
quer que a luta em Creta seja levada avante com fúria. A esquadra não deverá
temer expor-se, tanto de dia como de noite, para interceptar os reforços
alemães. Ilude-se Churchill ao pensar que os defensores
dominam a situação enquanto só tem que lutar com as tropas transportadas por
aviões. O destino de Creta decide-se quando fracassa o contra-ataque,
comandado pelo Brigadeiro Hargest, para retomar Malema. Agora, os Ju-52
transportam os reforços sem interrupção. A frente de Canéia encontra-se sob
pressão cada vez maior. Não param os bombardeios aéreos. Na baía de Suda,
sobem dez gigantescas colunas de fumaça de dez embarcações em chamas. O
valente Freyberg telegrafa dizendo que continuará resistindo “se a situação
no Oriente Próximo é tal que uma questão de horas é de importância vital”,
mas que não há esperanças para a defesa. No dia 27, Wavell assume a
responsabilidade de ordenar a retirada, advertindo a Londres que “um
prolongamento da luta, que consumirá os recursos das três forças,
comprometerá a defesa do Oriente Próximo mais gravemente do que a perda de
Creta”. Os chefes do Estado-Maior aprovam. Finalmente, Churchill pode
distender-se... Mais uma vez, os ingleses embarcam, Mas nem todos.
Os defensores de Rétimo capitulam. Os de Heráclion são levados por
contratorpedeiros, dois dos quais, o Imperial e o Herreward, abarrotados de
soldados, são afundados no estreito de Kaso. Os sobreviventes do setor
central escalam o caminho a que Freyberg chamou Via Dolorosa, a montanha
pedregosa que atravessa a ilha. Mais uma vez os alemães reagem mal numa
partida difícil. Um punhado de pára-quedistas poderia impedir o caminho, Mas
eles não os lançam. À custa de grande canseira, sob um sol abrasador, os
fugitivos atingem Sphakia, uma aldeia primitiva de pescadores no sopé de uma
montanha cuja brancura fere os olhos. O embarque que é extremamente difícil,
devido à ressaca que castiga a costa aberta. Mas eles não são incomodados
pelos Stukas. As baixas do Exército britânico ascenderam a 1.742
mortos, 1.747 feridos e 11.893 prisioneiros. As da Marinha, 1.828 mortos. O
massacre dos navios de guerra foi terrível: 9 afundados, dos quais 3
cruzadores, 15 avariados, dos quais 3 couraçados, 1 porta-aviões. A frota de
Alexandria ficou momentaneamente neutralizada. Se a frota italiana, que ainda
dispunha de 4 navios de linha, se colocasse na ofensiva, asseguraria para si
o domínio do mar. Mas ela não se lembrou disto. A derrota moral é ainda mais pesada. Veio
juntar-se a novos reveses na África do Norte, onde fracassa uma tentativa de
romper o bloqueio de Tobruk. Novamente a Inglaterra se encontra em posição de
inferioridade. A impressão de invencibilidade que a Wehrmacht dá é mais forte
do que nunca. Para a Alemanha, a conquista de Creta custou
muitas vidas. Dos 22.000 combatentes que tomaram parte na luta, perderam-se
6.616 homens, dos quais 1.990 mortos. Com estes, o total de mortos na
campanha dos Bálcãs foi de 5.650, conservando, assim, a característica da
guerra hitlerista de que tanto se orgulha seu autor: a economia de sangue.
Apesar disso, as perdas da 7a Divisão de Flieger impressionam
Hitler. No momento em que entrega a Student a cruz de cavaleiro, não pode
deixar de dizer: “Creta demonstrou que os grandes dias dos pára-quedistas
terminaram. O sucesso de sua utilização depende de um efeito de surpresa que
não é mais possível”. A Alemanha foi a primeira a usar o pára-quedismo de
combate. Desistiu dele no dia seguinte ao seu maior sucesso. Mas os Estados
Unidos e a Inglaterra o aproveitarão. De Gaulle e a Síria Com a queda de Creta, as atenções se concentraram
sobre a Síria. A guerra que aí se trava é um reflexo dos acontecimentos do
Iraque. A rebelião tinha sido fogo de palha. A ajuda prometida por Hitler
reduziu-se à intervenção de alguns aviões, as forças britânicas recuperaram
Bagdá e, no dia 31 de maio, Rachid Ali refugiou-se na Alemanha. Mas,
obedecendo a ordens de Vichy, o General Dentz, residente-geral no Oriente
forneceu armas aos iraquianos e permitiu que passassem por Damasco alguns
aparelhos alemães. Aí está o pretexto para intervenção inglesa. Churchill
acha-o excelente. Wavell é contrário. Pela décima vez, ele descreve
a dispersão do Middle East Command, e pede que não se abra, sem necessidade,
uma nova frente. Mas a paciência de Churchill para com Wavell chega ao fim, e
a exoneração dele demora apenas alguns dias. Apesar do motivo alegado, a
rebelião iraquiana ter desaparecido, a decisão de conquistar a Síria é
mantida. Tal fato coloca De Gaulle diante de um grande
problema, semelhante ao de Dacar, com o agravante de que a persuasão ou a
leve intimidação seriam inúteis. Nova luta está começando, e trata-se de uma
agressão britânica contra a França. De Gaulle deve lutar contra ela?
Associar-se a ela? Manter-se afastado? Foi, para ele, difícil sobreviver durante os meses
que se seguiram ao fracasso de Dacar. O seu movimento ainda estava muito
fraco, e tanto nas províncias de ultramar quanto na metrópole, a nação
francesa achava-se, na sua quase totalidade, firmemente coesa ao lado do
Marechal Pétain. O que devia de melhor dentro do degaullismo, os pequenos
bandos de Leclerc, de Arnano, de Legentilhomme, de Génin, de Muselier, tinham
alcançado sucesso em uma incursão no Saara italiano, tinham participado dos
combates da Eritréia, dos comboios do Atlântico, mas constituem uma ninharia
na miscelânea dos povos, e não chegam sequer a colaborar na luta contra a
Alemanha na mesma medida em que fazem os poloneses, os holandeses e os
noruegueses. O próprio De Gaulle está em situação insólita. Sua pretensão de
representar a França, de identificar-se com a França, de ser a própria
França, é uma atitude mística, e também uma posição política extremamente
hábil, mas que não é juridicamente aceitável por um governo estrangeiro. Os
grupos de europeus que a conquista nazista expulsou para as praias do Reino
Unido possuem, todos eles, governos que trouxeram a soberania nacional nas
poucas bagagens de refugiados, enquanto, no caso da França, a soberania de
fato e de direito, incontestavelmente, ficou no território francês. Todos os esforços do General De Gaulle para
conseguir que se admita sua legitimidade fracassam diante da oposição de
princípio do Foreign Office. O único título que lhe pode ser reconhecido é o
de chefe dos Franceses Livres. Profeta e mercenário, é o seu status - no
momento em que a Inglaterra vai atacar territórios que estão sob a bandeira
francesa! No começo de março, De Gaulle tinha consultado
seus assessores a respeito da atitude que deveria ser tomada no caso de uma
intervenção inglesa na Síria. A maioria, inclusive o sagaz Leclerc, tinha-se
pronunciado contra a participação militar francesa. Mas o governo da França
Livre não é um problema escolar. De Gaulle passa adiante: a cruz de Lorena
estará presente na conquista da Síria. Dentro da guerra mundial, incrustar-se-á
uma guerra civil francesa. De Gaulle justifica-se através da necessidade de
impedir que os direitos da França sejam anulados por uma vitória só da
Inglaterra. Não se cogita de converter o mandato sírio-libanês, cujo abandono
ele considera inevitável depois da guerra, mas apenas de conservar o
privilégio da França de renunciar a ele. No dia 8 de junho, começam as hostilidades. As
forças inglesas constam da 7a Divisão australiana, de um grupo de
brigadas indianas, de 2 regimentos de cavalaria, de um regimento de tanques e
de diversos Comandos. Os Free French acrescentaram, sob, o comando do General
Legentilhomme, 6 pobres batalhões, 8 canhões, 10 tanques, 6.000 homens ao
todo. Diante deles, Dentz com 18 batalhões, 40.000 soldados e 90 tanques. Fracassaram todas as esperanças de uma resistência
simbólica. O coronel Collet traz para Legentilhomme seu esquadrão tcherkesse,
mas os franceses fiéis ao Marechal lutam encarniçadamente contra os ingleses,
e com fúria contra os degaullistas. Quando capitulam, a 24 de julho, vencidos pela impossibilidade
de reabastecimento, exigem que o General Catroux, representante do Comitê da
França Livre, seja ignorado, e que a Convenção de Santa Joana D’Arc seja
assinada apenas com as autoridades britânicas. De Gaulle, em virtude da
ficção da soberania de que se reveste, gostaria de incorporá-los ao seu
exército. Os ingleses estabelecem a livre opção, e, dos 37.736 homens, 5.688
oficiais e soldados deixam-se convencer. Os restantes voltam para a França,
carregados de ressentimento. O plano de campanha alemão contra a Rússia Um dos enigmas da guerra na Síria é a abstenção
alemã. De Creta a Beirute, a distância não ultrapassa 800 km. Rodes fica
ainda mais perto, e, depois do massacre da esquadra de Alexandria, Chipre
está a disposição. A temeridade de Churchill, a participação degaullista na
questão da Síria abrem novo teatro de operações no qual Hitler encontra
pronta a possibilidade de cooperação militar franco-alemã que ele havia
buscado em Montoire. Entretanto, abstêm-se de intervir. Ninguém consegue
descobrir, à época, a razão disso. Ela é grandiosa. Como a pantomima que precede o
circo, o teatro mediterrâneo está fechado. Do Báltico ao mar Negro, 3 milhões
de homens, 600.000 cavalos, 600.000 veículos automóveis e 19.000 trens estão
em marcha. O encontro com o destino a que eles se dirigem é um dos mais
importantes da história universal. O Plano Barbarossa está em prática. De acordo com as instruções de Hitler, os
preparativos para a guerra contra a Rússia tinham começado no verão de 1940.
O primeiro oficial do Estado-Maior do Exército a ser encarregado de estudar a
estratégia foi um homem a quem Hitler detestava, o General Erich Marks,
ex-colaborador do General Schleicher, assassinado por ocasião do expurgo de
1934. Admirador de Moltke, grande conhecedor das operações de 1870, Marks
planejou a maior batalha de frentes invertidas da história. A Wehrmacht
atacaria na Ucrânia, iria até Rostov sobre o Don, e, em seguida, fazendo um
giro de 90o, marcharia sobre Moscou e pegaria pela retaguarda a
totalidade dos exércitos russos... A concepção é genial, mas Hitler recusa-a,
alegando ter ela saído de um cérebro demasiado complicado. A Marks sucede Paulus. As distâncias, a influência
das comunicações e a dificuldade de reabastecimento atemorizam-no. Ele
elimina a Ucrânia da zona das operações rápidas, devido à ausência, quase
total de estradas. O principal esforço será dirigido rumo a Moscou, sobre um
eixo localizado onde há calçamento sólido e uma ferrovia aceitável. Depois da
batalha inicial, a progressão alemã marcará uma parada na altura de Smolensk,
com o objetivo de possibilitar a reorganização dos transportes e a adaptação
das ferrovias à bitola européia... Mas Hitler afasta este plano intrincado e
metódico. Quer um esquema ofensivo mais amplo e que as operações prossigam
ininterruptamente. A guerra da Rússia deverá terminar em uma única campanha,
antes do inverno. Finalmente, as grandes linhas estratégicas são
fixadas pelo próprio Hitler na Diretriz n° 21, chamada Barbarossa, datada de
18 de dezembro. Enuncia os princípios gerais da guerra que quer organizar
contra a Rússia: campanha breve, envolvimento das forças inimigas,
impedimento de um recuo dos russos para as suas imensidões, conquista de uma
linha Volga-Arkhangelsk, de onde a Luftwaffe estará em condições de destruir
o último arsenal soviético, as fábricas do Ural. Três grupos de exércitos
dividirão a tarefa entre si: dois ao norte, um ao sul dos pântanos do Pripet.
Os preparativos devem estar terminados até o dia 15 de maio, para que a
campanha tenha início a partir do fim do degelo... Já se sabe que a loucura
que Mussolini cometeu nos Bálcãs retardou a campanha da primavera para o
verão. O trabalho do Estado-Maior realiza-se em Zossen,
perto de Berlim, onde a Casa Brauchitsch-Halder, o Oberkommando des Heeres,
se estabeleceu depois da vitória sobre a França. Diversamente do que tinha
acontecido quando do planejamento das campanhas do Ocidente, Hitler não
interfere nos detalhes. Jodl, estrategista particular do Fuhrer, mantém-se,
ou é mantido, também à distância. “Nem uma única vez - diz Warlimont -, nem
como participante, nem como observador, o General Jodl assistiu aos
Kriegspiele sobre a campanha da Rússia...” Hitler olha para diante, prevê os
dias futuros de uma vitória que ele tem como certa, a reorganização do
Oriente, o recuo dos russos para a Ásia, instalando-se, no lugar deles,
populações germânicas, inclusive colonos holandeses e ingleses. Nos seus
monólogos diante dos íntimos, sonha em voz alta: “Transformarei num éden os
territórios conquistados”. Uma das últimas pessoas a quem o Fuhrer ainda se
esforça por convencer é Goering. No princípio de 1941, comunica-lhe sua
determinação de atacar a Rússia, dando como motivo o volume ameaçador dos
preparativos soviéticos e a política de envolvimento que ele descobrira nas
declarações de Molotov. Goering pede permissão para refletir durante a noite
sobre os argumentos do Fuhrer e apresentar-lhe suas objeções no dia seguinte.
Ele sustenta que uma guerra no Oriente interromperá a ofensiva aérea contra a
Inglaterra no momento em que se inicia a fase dos grandes resultados. Teme
que a força alemã se afunde na imensidão russa. Propõe o contrário do plano
de Hitler, ou seja, transformar o Tratado de Moscou em aliança, e atirar a
Rússia contra a Índia. “O Fuhrer - dirá ele - ouviu-me calmamente, mas meus
argumentos não conseguiram abalá-lo”. O essencial a respeito dos preparativos do
Barbarossa é fixado no grande conselho de guerra de 2 de fevereiro. São
organizadas quatro remessas de tropas. Às 25 divisões que já se encontram na
Polônia e na Romênia se juntarão 7 divisões em março, 13 em abril, 30 em maio
e 51 em junho, os grupamentos mais importantes serão mantidos, até o último
momento, a oeste da linha Radom-Varsóvia-Neidenburg. Apesar das estradas de
rodagem e da densidade da rede ferroviária alemã, muitas unidades se
movimentam a pé. Algumas percorrem, assim 800 km para voltar dos Bálcãs. O comando continua o mesmo das grandes vitórias
sobre a França. Se bem que o suporte cada vez com mais dificuldade, se bem
que se queixe da falta de inteligência do primeiro, e despreze o catolicismo
do segundo, Hitler mantém o Marechal Von Brauchitsch e o Coronel-General
Halder nos seus respectivos postos de comandante-chefe e chefe do
Estado-Maior do Reichsheer. A galeria dos comandantes de exército e de força
aérea expõe as mesmas figuras, e o trio dos grandes mestres de 1940, Von
Leeb, Von Bock e Von Rundstedt, está novamente à frente dos grupos de
exército. Ao norte, Leeb, Heeresgruppe Nord (Grupo de
Exércitos Norte). Ele alinha ao longo do Niemen o 18o Exército,
comandando por Von Kuchler, o 4o Grupamento blindado, chefiado por
Hoepner, e o 16o Exército, sob as ordens de Busch, ou seja, 29
divisões e 570 tanques. A 1a Luftflotte, sob a chefia do
Coronel-General Keller, emparelhou com ele. Duas estradas boas lhe fornecem
dois eixos de operações, uma na direção de Riga e outra na direção de
Dunaburgo. Elas se encontram ao sul do lago Peipus e rumam a Leningrado. No
centro, Bock, Heeresgruppe Mitte (Grupo de Exércitos Centro). Desta vez, ele
tem o papel principal e os meios mais importantes: o 9o Exército,
comandado por Strauss, o 2o Grupamento blindado, sob as ordens de
Hoth, o 3o Grupamento blindado, comandado por Guderian, o 4o
Exército, com Von Kluge à frente: 49 grandes unidades, 930 tanques, além dos
serviços da força aérea mais importante, a Luftflotte n° 2, sob o comando do
Marechal Kesselring. Sua missão inicial consiste em derrubar o centro do
dispositivo soviético, tomando como eixo de trabalho a auto-estrada
Brest-Moscou. Brauchitsch queria que esta última cidade fosse designada como
objetivo do grupo de exércitos, mas provoca uma resposta terrível da parte de
Hitler: “Somente um cérebro petrificado em concepções fossilizadas pode
deixar-se hipnotizar por uma capital inimiga. Moscou é apenas um nome. As
cidadelas do bolchevismo são Leningrado e Stalingrado. No momento em que
forem conquistadas, o bolchevismo desaparecerá”. O Grupo Mitte deveria,
portanto, ir até a região de Smolensk, onde receberia ordens adequadas à
situação do momento. Ao sul, Rundstedt, Heeresgruppe Sud (Grupo de
Exércitos Sul): 6o Exército, comandado por Von Reichenau, 1o
Grupamento blindado, sob o comando de Von Kleist, 17o Exército,
sob Stulpnagel, 11o Exército, comandado por Von Schobert: 42
divisões, 750 tanques, e a 4a Luftflotte, do Coronel-General Lohr.
Cabia-lhe o encargo de conquistar a Ucrânia. Em vista dos pântanos do Pripet
- do tamanho da França -, não haverá possibilidade de qualquer tipo de cooperação
entre Rundstedt e Bock antes que ambos tenham atingido o Dnieper. Como na disposição clássica das legiões romanas,
os auxiliares se localizam nas alas. Na ala esquerda, a Carélia constituirá
um palco distinto, no qual o Exército finlandês, 16 divisões, receberá o
apoio das 5 divisões alemães, das quais duas divisões de montanha do General
Dietl, o Rommel do Norte. Na ala direita, a Romênia fornecerá dois exércitos,
o 3o e o 4o , entre os quais se intercalará o 11o
Exército alemão. A Hungria e a Eslováquia enviarão, dos Cárpatos, uma, 3
brigadas rápidas, e a outra, 2 divisões ligeiras. Apesar da sua preocupação
com o segredo, o Comando alemão tem que fornecer aos estados-maiores
finlandês, romeno, húngaro e eslovaco um mínimo de indicações necessárias
para organizar a cooperação. Em compensação, com referência ao Comando Supremo
e ao grande amigo Mussolini, silêncio total. No dia 2 de junho, por
iniciativa de Hitler, e contra a vontade do Duce (“Estou cansado de ouvir
discursos”), realiza-se nova entrevista no Brenner. Durante horas Hitler
discursa sobre a perda do Bismark e, derramando lágrimas, sobre a fuga de
Hess. De volta, o perspicaz Mussolini diz a seu genro que o Fuhrer não tem um
plano preciso e que a solução de uma paz de compromisso está, mais do que
nunca, na ordem do dia... Na frente do Leste, a Alemanha disporá de 139
divisões, às quais se juntarão 51 divisões aliadas. Duas Panzer e 11 divisões
de infantaria ainda estão no interior do Reich. Duas grandes unidades
blindadas combatem na Líbia. O resto das forças alemães se engarregará das
conquistas. List ficou nos Bálcãs, com o seu 12o Exército reduzido
a 7 divisões. Na França, o Marechal Von Witzleben comanda, de
Saint-Germain-en-Laye, o Grupo D, formado pelo 15o Exército,
comandado por Hasse, pelo 7o Exército, sob as ordens de Dollmann,
e pelo 1o Exército, subordinado a Von Blaskowitz; ao todo, 38
divisões. Sete divisões, sob as ordens de Von Falkenhorst, mantêm-se na
Noruega e uma oitava ocupa a Dinamarca. Os efetivos da Wehrmacht se elevam a 6.673.000
homens, dos quais 4.900.000 do Reichsheer (72.5%), 1.485.000 da Luftwaffe
(22%), 298.000 da Kriegsmarine (4.4%) e 80.000 das Waffen SS (1.1%). A
mobilização está longe de ter atingido todos os homens válidos, e o total de
mortos ou estropiados a partir de setembro de 1939 é de pouco mais de
100.000. O potencial humano do Reich está intacto. O plano de operações contra a Rússia está longe de
ser genial. Abre-se em leque no território russo, o que significa que
permitirá ao Exército russo esquivar-se - a manobra de retirada que Hitler
declara querer evitar. É bem verdade que, depois da ruptura do centro, o
Fuhrer pretende realizar grandes recuos para cercar e capturar as massas
inimigas. Ele prevê que o Grupo Centro, quando chegue à região de Smolensk,
se desmembrará, cedendo parte das suas unidades rápidas ao Grupo Norte, para
a conquista de Leningrado, e a outra parte, ao Grupo Sul, para a conquista da
Ucrânia. A preocupação de não copiar Napoleão, que Hitler considera um
estrategista de segunda categoria, inferior a Frederico II e ele próprio,
desempenha importante papel na desvalorização sistemática de Moscou como
objetivo militar. Entretanto, Hitler não despreza as experiências
dos seus dois predecessores na invasão da Rússia. Sabe perfeitamente que
Carlos XII e Bonaparte fora vencidos pelas distâncias, pelo clima, pelo
desaparecimento do inimigo e pelo desgaste das suas forças, causado pela
imensidão. Mas acha que com o motor pode enfrentar as distâncias. Napoleão
perseguiu Kutuzov a pé. Loevenhaupt transportou em carros de bois o pão que o
Rei Carlos pedira para tomar Moscou. Ele, Hitler, tem os blindados que vão em
10 dias de Eifel à Mancha, da Tripolitânia ao Egito, do Danúbio ao Egeu.
Dispõe dos transportes aéreos que auxiliarão os transportes terrestres em um
momento de crise. Os precedentes dos séculos XVIII e XIX não se aplicam à sua
Wehrmacht. Resta o adversário. Dentre todos os povos, os
alemães são os que tem tido as melhores oportunidades de conhecê-lo. Ate o
fim da República de Weimar, numerosos oficiais da Reichswehr, inclusive o
futuro comandante-chefe Walther von Brauchitsch, fizeram estágios na URSS,
com o objetivo de adquirir conhecimentos a respeito das armas proibidas pelo
Tratado de Versalhes. Entretanto, parece que as informações alemães sobre o
inimigo são de utilidades duvidosa, e que a avaliação da força vermelha varia
de acordo com o que querem demonstrar. Ora o Exército soviético é descrito
como uma força terrível prestes a arrasar o Reich, ora como um edifício carcomido
que desabará ao primeiro empurrão. Algumas vezes tais informações invocam a
guerra da Finlândia, outras discorrem sobre os preparativos gigantescos que
transformam a Rússia num quartel e num arsenal. No dia 2 de fevereiro, Halder faz uma exposição
sumária sobre o Exército russo, em que chega à seguinte conclusão: “Nossas
forças são sensivelmente iguais em número e muito superiores em qualidade”.
No princípio de abril, a Abteilung Fremde Heere Ost descreve um quadro mais
sério. Numa base de um milhão e meio de homens por classe, a Rússia poderá
dispor de pelo menos 12 milhões de homens jovens, e as dimensões de seu
exército só dependerão de suas possibilidades industriais. As forças móveis
da Europa são formadas por 145 divisões de infantaria, 26 divisões de
cavalaria e 40 brigadas motomecanizadas, isto é, 211 grandes unidades para
190 da Alemanha e de seus aliados. No Extremo Oriente, ainda há 25 divisões
de infantaria, 8 de cavalaria, 5 brigadas mecanizadas, mas não se pode
calcular qual a porção desta massa que ficou disponível depois do pacto de
não-agressão assinado, algumas semanas antes, entre a União Soviética e o
Japão. Se bem que haja grande abundância de material, a maior parte está
desorganizada e antiquada. Colocam os tanques em toda parte, transformando as
divisões ordinárias em batalhões blindados orgânicos, e o número total de
armas chega a 10.000, ou seja, o triplo do que possuíam os alemães. Em
compensação, o Exército soviético não tem Panzerdivisionen, e os dois tipos
de tanques de que dispõe, o T-26B, de 8 toneladas, cópia do Vickers inglês, e
o BT-34, de 10 toneladas, cópia do Christie, são carros de combate fracos e
imperfeitos. A Abteilung Fremde Heere Ost sabe que, na Espanha, tinham sido
usados tipos mais poderosos, mas não acha que sejam em número suficiente para
desempenhar papel decisivo. Em conjunto, os alemães não tem dúvidas quanto as
sua superioridade militar. Contam com um arrasamento do Exército russo
igualmente rápido e ainda mais espetacular do que o do Exército francês. A
causa da apreensão de tantos oficiais de alta patente, no momento em que
entram na Rússia, não é uma comparação técnica que cause preocupações entre
os meios soviéticos e os meios hitleristas. Deriva das recordações de 14-17,
da inquietação gerada pela imensidão russa, da decepção de entrarem novamente
lutando em duas frentes, do ceticismo quanto ao fim de uma guerra na qual o
acúmulo de vitórias conduz apenas a novos combates. Externamente, a Wehrmacht está esplêndida. O
número total das divisões elevou-se a 208; o de divisões blindadas subiu de
10 para 21 e das divisões motorizadas, de 8 para 17. O material foi submetido
a prova em muitas campanhas e, o que é ainda mais importante, os homens tem
larga experiência de combate. “O menos bom dentre os infantes alemães - diz
Hitler - é melhor do que o melhor dos infantes estrangeiros”. Superior em
todos os setores da técnica, a Wehrmacht também o é no material humano, ainda
mais necessário que o valor das armas. Suas sucessivas, repetidas e
inexoráveis vitórias demonstraram-no. É esta a aparência. A dura realidade vem
obscurecer esse brilho. É bem verdade que dobrou o número das
Panzerdivisionen mas o total de batalhões de tanques aumentou apenas de 35
para 57 e o número médio de canhões reduziu-se de 258 para 196 por divisão. A
indústria tem seu primeiro insucesso: deveria entregar 600 tanques por mês e
entrega 227. A Alemanha atira-se a um país devorador como a Rússia com apenas
756 tanques a mais do que contra a França: 3.330, em vez de 2.574. As 15 divisões
motorizadas que lança contra a frente russa representam apenas um oitavo de
sua infantaria, da qual sete oitavos irão a pé pelas estepes abrasadoras,
enquanto não venham a lama e a neve. A maioria dos grupos de artilharia e dos
comboios de regimentos é hipomóvel e nem as carroças nem os veículos foram
adaptados para os lamaçais que os esperam. Ora, já não se cogita de que essa
infantaria modelo 1918 se limite a seguir os Panzer para recolher os
prisioneiros. Terá que desdobrar-se e lutar sem parar. Por sua vez, a Luftwaffe está longe de ter
recebido reforço correspondente ao aumento de sua tarefa; 1.500 aparelhos
continuam encarregados de prosseguir na luta ofensiva contra a Inglaterra. A
parte designada para a frente russa compreende apenas 720 caças, 1.160
bombardeiros e 120 observadores, efetivos totalmente insuficientes, quase
irrisórios, diante da extensão e da profundidade das frentes que se vão
abrir. As hostilidades nem sequer começaram e já surgem
dificuldades de abastecimento. A fabricação de buna, ou borracha sintética, é
de tal modo insuficiente, em quantidade e qualidade, que é necessário
utilizar os pequenos carregamentos de borracha natural trazidos pelos
rompedores de bloqueio. A grande preocupação de Hitler em relação à proteção
dos poços de petróleo romeno explica-se quando se sabe que os carburadores à
base de carvão fabricados em Leuna cobre menos de 30% das necessidades e que
os estoques só darão para três meses de operações, quanto à gasolina, e um
mês, quanto ao benzol. Deste modo, Hitler ataca a Rússia com um
aparelhamento militar não somente muito fraco, como também muito mais fraco
do que aquele que a Alemanha poderia ter fornecido, se o seu chefe tivesse
tido paciência de prepará-lo durante mais alguns anos. Aquele instrumental
militar tinha sido amplamente suficiente para obter as vitórias fulminantes
de 1939 a 1941, seja contra exércitos muito menos poderosos, como na Polônia
e nos Bálcãs, seja contra exércitos que foram vítimas de uma surpresa
técnica, como na França. Na Rússia, o adversário é gigantesco, e o país
neutralizará a velocidade, não tanto pela enormidade das distâncias, quanto
pelas condições do terreno. Mas, quando Brauchitsch quer abordar esta
questão, para expor suas observações sobre as limitações da guerra motorizada,
Hitler, brutalmente, manda que ele se cale. Está cansado de ouvir as objeções
daqueles militares que estão sempre enganados. Hitler também se recusa a considerar os pedidos
que recebeu no sentido de providenciar para o Exército proteção contra o frio
russo. A fabricação em massa de equipamento especializado daria o sinal de
alarme, e um dos postulados é que o Exército vermelho será destruído antes
das geadas. Cerca de um quinto das forças alemães ficará na Rússia, montando
guarda à nova fronteira européia, do mar Cáspio ao mar Branco: as previsões
de agasalhos e de ingredientes para o inverno tinham sido feitas a partir
destes dados. “Desmobilizarei o resto do Exército - anuncia o Fuhrer - e
continuarei a guerra contra a Inglaterra com a Luftwaffe e a Kriegsmarine”. A natureza da guerra provoca nova disputa entre
Hitler e seus generais. “Entre ele e eles - dirá Jodl - havia uma
discordância fundamental a respeito da natureza da guerra com a Rússia. Os
generais viam nela um conflito entre dois exércitos, enquanto o Fuhrer queria
que ela fosse encarada como uma luta entre duas formas incompatíveis de
civilização”. No dia 30 de março, os comandantes de exércitos
são convocados à Chancelaria. Hitler apresenta-se diante deles de olhar
turvado e rosto crispado. “A guerra contra a Rússia - diz - não pode ser
levada com cavalheirismo. Trata-se de uma luta ideológica e de uma luta de
raças que requer um grau de dureza sem precedentes... Os oficiais deverão
abandonar suas concepções cavalheirescas ultrapassadas e deixar de pensar que
tudo acabará num armistício depois do qual o vencedor e o vencido se
cumprimentarão... Sei muito bem que isto ultrapassa a compreensão dos meus
generais, mas tomem nota de que quero ser obedecido. A Rússia não reconheceu
as convenções de Genebra. Não terá piedade para com os meus SS. Assim, os
comissários políticos do Exército Vermelho não serão considerados como
combatentes e, se capturados, deverão ser sumariamente liquidados...” Não é
possível esboçar qualquer protesto. Hitler já abandonou, furiosamente, a
sala. Em torno de Brauchitsch, a discussão continua. Os
três comandantes de grupos de exércitos cercam o comandante-chefe, dizem-lhe
que tinham sido insultados e intimam-no a protestar em nome deles. Mas
Brauchitsch está cansado. Reconhece que os reclamantes tem razão, mas diz-lhe
que é preciso evitar exasperar o Fuhrer e que procurará um meio de fazê-lo
desistir, sem barulho, da sua decisão. Seus débeis esforços não conseguem
impedir que a ordem para exterminar os comissários seja dada a 6 de junho
pelo OKW. No dia 13 de maio, foi tomada uma decisão cujas
conseqüências serão ainda mais sérias. As retaguardas dos exércitos alemães
na Rússia serão organizadas de modo inteiramente novo. Os poderes dos
generais cessarão nos limites das frentes. Nos calcanhares dos combatentes
virão o Partido, a Gestapo, os SS, todos os órgãos ideológicos, repressivos e
depredadores do estado hitlerista. Um técnico meio demente, Alfred Rosenberg,
será nomeado Ministro dos Territórios do Leste. Uma vasta organização,
designada pelo nome convencional de Oldenburg, é preparada para o saque
sistemático das conquistas. A Rússia será dividida em seis governos
econômicos e entregue aos mais duros dentre os Gauleiters: Koch, Terboven,
etc. Serão retirados todos os recursos utilizáveis. Aos executantes é
lembrado que não deverão levar em consideração os sofrimentos e nem mesmo a
sobrevivência das populações. Quanto mais russos morrerem de fome, menor será
o número dos que terão de ser expulsos para dar lugar aos colonos alemães. Evidentemente, a política utilizada poderia ser
outra: a que consistiria em aliar-se ao povo russo. A tirania stalinista tem
muitos inimigos. A questão agrária agita o mundo rural. Um exército alemão
que dissolvesse os Kolkolses e desse a terra aos camponeses produziria imenso
abalo. Mas as instruções do Ministro dos Territórios do Leste prescreverão o
contrário: não será permitido tocar nas fazendas coletivas e dever-se-á
exigir dos Kolkosianos as mesmas prestações que as autoridades soviéticas
exigem. Não se trata de liberar o povo russo, mas, sim, de fazê-lo recuar
para a Ásia. "O futuro - diz, o semidemente Rosemberg, reservou muitos
anos duros para o povo russo. Mas, daqui a cem anos, ele nos agradecerá por
ter sido devolvido por nós ao seu habitat natural". A seu ver, o russo é
um Untermensch, um sub-homem, em relação ao qual o super-homem alemão, tem as
mesmas obrigações que em relação aos animais: não haverá crueldade gratuita,
mas um direito discriminatório de vida e de morte. Últimos dias
de uma amizade... No dia 1o de maio, em Moscou, a amizade
alemã está no auge. Stalin e o Marechal Timochenko celebram-na em uma
mensagem à nação e ao Exército. Cinco dias depois, Stalin, que até agora tem
apenas o título de primeiro-secretário do Partido Comunista, assume
pessoalmente a direção do Governo, com o título de presidente do Conselho de
Comissários do Povo. O fiel Molotov, silenciosamente, escorrega para o
segundo plano. O embaixador alemão é um grão-senhor, o Conde Von
der Schulenburg. Detesta Hitler, mas serve à Alemanha. Esforça-se por manter
uma paz cuja ruptura significará o reaparecimento do pesadelo das duas
frentes. Incansavelmente, todos os seus despachos para a
Wilhelmstrasse frisam que “Stalin e Molotov fazem tudo o que podem para
evitar um conflito”, e até (15 de junho) estão “dispostos a fazer as
concessões mais extremas”. A União Soviética salda os compromissos comerciais
que assumiu e seus principais fornecimentos, petróleo, trigo, madeira,
algodão, estão absolutamente em dia. As manobras inglesas em Moscou
fracassaram. O aristocrata vermelho, Sir Stafford Cripps, que Churchill
enviou para lá, retorna a Londres. Corria o boato de que ele se tinha
desiludido e não mais voltaria. Entretanto, os movimentos das tropas alemães não
podem passar despercebidos. Todos os serviços de informações do mundo tomam
conhecimento disso. Todos os diplomatas acreditados em Berlim verificam que a
estrada de ferro e as Autobahne estão sobrecarregadas pelos transportes
militares que se dirigem para o Leste. Em todas as embaixadas se comenta a
iminência de uma guerra germano-russa - enquanto os viajantes que chegam de
Moscou se espantam e declaram que, na Rússia, ninguém está preocupado. Stalin
parte de férias para as margens do mar Negro. Aos avisos secretos de
Churchill, Molotov responde através de um comunicado da Agência Tass, datado
de 13 de junho: “Os meios responsáveis soviéticos julgam necessário declarar
que esses rumores (concentração de tropas, intenções agressivas alemães) são
manobras desatinadas daqueles que tem interesse na ampliação e no
prolongamento da guerra”. O governo russo mantém-se escrupulosamente fiel ao
Pacto de Moscou. No dia seguinte ao comunicado da Agência Tass, uma
galáxia militar reúne-se na nova Chancelaria do Reich. O fato não passa
despercebido em Berlim, onde se comenta que essa reunião de marechais
significa hostilidades iminentes contra a Rússia. Hitler à frente, cercado
pelos principais oficiais do OKW, Keitel, Jodl, Warlimont; do OKH,
Brauchitsch, Halder, Paulus; do OKM, Raeder e Fricke, comparecendo
sucessivamente os comandantes da frente da Noruega, Falkenhorst e Stumpff; do
Grupo de Exércitos Sul, Rundstedt, Reichenau, Stulpnagel, Kleist, Schobert e
Lohr; do Báltico, Carl e Schmundt; do Grupo de Exércitos Norte, Leeb, Busch,
Kuchler, Hoepener e Keller; do Grupo de Exércitos Centro, Bock, Kluge,
Strauss, Guderian, Hoth e Kesselring. Eles prestam conta ao Fuhrer dos seus
preparativos e respondem às suas questões. Um almoço, ao qual também
comparecem os coronéis-generais Fromm e Udet, vem interromper essa prestação
de contas ao Fuhrer. É aí que Hitler pronuncia um discurso no qual retoma seu
tema habitual: quando a Rússia estiver vencida, a Inglaterra pedirá a paz.
Para vencer a Rússia serão necessárias quatro semanas de árdua batalha,
seguida de ações de uma violência decrescente. O grosso do Exército deverá
regressar à Alemanha, o mundo encarnará a modificação como conseqüência do
Natal. Falta ainda uma coisa: a data da agressão. No dia 17, ela é fixada para
domingo, 22 de junho. A derradeira decisão será tomada no dia 21, às 13
horas. A palavra Altona significa a anulação do ataque. A palavra Dortmund o
confirmará. A palavra Dortmund já foi dada há muitas horas
quando, na noite de 21 para 22, Molotov convoca o Conde Schulenburg. Abre-lhe
o coração. Diz-lhe o quanto está preocupado. O governo soviético percebeu
certo descontentamento do governo alemão. O governo soviético gostaria de
saber a sua causa, para ver o que poderá fazer para remediá-lo. Schulenburg promete
que transmitirá esse pedido a Berlim. Quando volta à embaixada, seu serviço
de criptologia acaba de decifrar o telegrama de Ribbentrop ordenando-lhe que
entregue a Herr Molotov a declaração de guerra do Reich. As últimas horas, a última noite, são pesadas,
cheias de grande melancolia. O chefe do Estado-Maior, Franz Halder, tinha
querido sobrevoar o campo de batalha iminente: volta deprimido pela impressão
de imensidão, de vastidão, que sentiu. O comandante de corpo de exército Von
Manstein passa a noite de 21 de junho em uma casa amiga, na Prússia Oriental:
demora-se muito tempo na varanda, na noite estival, com o sentimento do preço
incalculável dos segundos que caem da ampulheta. O próprio Guderian... Ele
está a postos, com seu grupamento blindado, na frente Brest-Litovsk, que
tomou na campanha da Polônia e que deverá retomar no dia seguinte. O Bug,
ainda na enchente, brilha sob as estrelas. Guderian tinha observado
minuciosamente a margem oriental. Nenhum preparativo de defesa e, na velha
cidadela, os soldados russos faziam um exercício de desfile... Portanto, mais
uma vez, o inimigo será surpreendido - mas a expectativa de uma nova página
de ação e de glória não consegue diminuir a opressão que se sente no peito
depois que se soube que o Fuhrer está empreendendo uma guerra no Leste antes
de ter ganho a guerra no Oeste. Na tropa, numerosos soldados esperam há três dias
nos tanques e caminhões. Outros terminam a marcha de aproximação pelos
caminhos arenosos da Polônia oriental. Receberam trinta cigarros e uma
garrafa de Schnaps para cada quatro, mas, apesar dessas liberalidades, muitos
não acreditam na guerra. “os Ivãs são nossos aliados. Estão contra a
Inglaterra. Abrem-nos seu território para irmos ao encontro de Rommel pelo
Cáucaso. Eles venderam a Ucrânia a Hitler e nós vamos ocupá-la...” Às 10:00
horas, uma locomotiva apita na ponte de Brest-Litovsk. Um trem carregado de
trigo russo está entrando na Alemanha. Os fiscais aduaneiros de ambos os
lados cumprem as formalidades de rotina. A fronteira está adormecida. Os
russos dormem nas suas casernas. Stalin dorme - ou talvez se diverte, aquele
boêmio - na sua vila do mar Negro. Em Berlim, acordaram o Embaixador
Dekanosov, por quem Ribbentrop, em Ausvartiges Amt, espera andando de um lado
para outro e repetindo que Hitler tem razão em querer acabar com a Rússia.
Como o embaixador não sabe alemão, o intérprete Pavlov tem que traduzir o
longo discurso de queixa que Ribbentrop acha necessário pronunciar. Quando
Dekanosov percebe que é a guerra, levanta-se, faz leve reverência e só abre a
boca para pedir seu passaporte. Em seguida, Ribbentrop passa à sala de
conferência, onde estão os diplomatas e os correspondentes estrangeiros que
também foram convocados. Algumas senhoras trajadas a rigor se misturam aos homens
arrancados do leito, dentre os quais alguns se exaltam, falando da maior
noite da história, e outros não disfarçam seu temor e abatimento. Quando eles
saem para telegrafar ao mundo a grande notícia, o sol está nascendo e os
pássaros cantam no Tiergarten. No front, a artilharia tinha aberto fogo às 3:15,
no momento em que uma parte do céu se coloria de rosa sobre a Rússia. |