Tópicos
do capítulo:
22 de junho,
5:30, a Rússia é atacada - Os insultos de Churchill
Erros de Stalin
29 de junho: o
Duna é atingido
O mistério da queda
de Brest-Litovsk
11 de julho: fim
da batalha do Duna e do Dnieper
Após 10 dias de
silêncio, Stalin prega a guerra total
Stalin,
comissário da Defesa; Chapochnikov, chefe do Estado-Maior
Murmansk salva
pela tundra
Luta difícil por
Leningrado
Os combates do
lago Ilmen
Os russos armam
barricadas em Leningrado
Guderian
vitorioso no Dnieper
Hostilidades em
ponto-morto na África
Missão Hopkins em
Moscou - os EUA arrastados à guerra
Hesitações
japonesas: ataque na Rússia ou no Pacífico?
O drama da Europa
cativa
A resistência nos
países ocupados
Sauckel procura
trabalhadores estrangeiros
8 de agosto:
encontro Churchill-Roosevelt - Carta do Atlântico
Hitler instala-se
em Rastenburgo
O Fuhrer sempre
tem razão
Drang Nach Osten A primeira voz que se eleva sobre as ondas, desde
5:30 do domingo, 22 de junho, é a de Joseph Goebbels. Lê uma declaração de
Hitler expondo as razões pelas quais ataca a Rússia. A declaração termina com esta frase: “Decidi
colocar novamente o destino do povo alemão, do Reich alemão e o da Europa nas
mãos de nossos soldados”. No momento em que o coxo do Terceiro Reich toma a
palavra, o embaixador alemão Von der Schulenburg deixa o Kremlin. Houve
declaração de guerra após uma hora da abertura das hostilidades. Molotov
parecia estupefato e incrédulo. Toda a manhã se escoa antes que, à exceção
das cidades bombardeadas, o imenso império soviético saiba que foi atacado
pela mais poderosa máquina de guerra da História. Afinal, às 12:15, Molotov
fala. Anuncia a agressão, a violação da fronteira, o bombardeio de Jitomir,
Kovno, Kiev e Sebastopol, 200 mortos e feridos. Recorda a derrota de Napoleão
em 1812 e chama o povo russo às armas. No entanto, o tom é angustiado e a
declaração produz um efeito de imensa consternação. Muitas mulheres choram.
Não há em parte alguma qualquer manifestação belicosa. Algumas horas depois uma terceira voz se eleva: a
de Churchill. Acordaram-no às 4 horas da manhã para lhe informar sobre a
invasão da Rússia. Ele fica colérico: "Eu disse que só queria ser
acordado pela invasão da Inglaterra..." Torna a dormir e depois, na
cama, prepara o discurso que pronunciará às 9 horas da noite. Jamais houve
melhor Churchill. A invectiva com que fere Hitler, a descrição da “catarata
de horrores nazistas” atinge o cume da eloqüência vingadora. Lembra que não
cessou de ser inimigo implacável do comunismo, que não retira coisa alguma do
que disse ou escreveu, mas que tudo se apaga diante do espetáculo do povo
russo, contra o qual avança o monstruoso exército de gafanhotos do patife
sanguinário, de Hitler. A Rússia será ajudada com todas as forças da
Inglaterra e, assim, a Inglaterra não fará senão ajudar-se a si mesma.
“Hitler quer destruir a Rússia para poder abater esta ilha que ele deve
vencer, ou pagar o preço de seus crimes. A invasão da Rússia não é senão um
prelúdio da invasão da Inglaterra...” Esta última opinião é a opinião do mundo inteiro.
O Secretário da Guerra, Stimson, envia ao Presidente Roosevelt um memorando
no qual estima que a Alemanha estará ocupada em bater a Rússia “durante um
mínimo de um mês e um máximo de três meses”- trégua preciosa e inesperada
que, diz Stimson, deve ser utilizada para intensificar a ação americana no
Atlântico. O ataque à Rússia foi acolhido, pelo público, mais com sarcasmo do
que com indignação: dois patifes lutam entre si e Stalin vai pagar o crime
que cometeu aliando-se a Hitler. A quarta voz que se levanta sobre as ondas é
a de Roosevelt, qualificando a nova agressão hitlerista com um rosário de
epítetos redundantes, traidora, ignominiosa, enganadora, hostil, homicida,
brutal, desesperada, mas o Presidente tem o cuidado de colocar em um mesmo
saco o comunismo e o nazismo. Os únicos que se colocam instantaneamente a
favor da Rússia são os comunistas. Os participantes de um comício dos
Fighters for Freedom (Lutadores pela Liberdade), no Harlem, tinham entrado no
meio de uma cadeia de piquetes, denunciando os intervencionistas como
joguetes do imperialismo britânico e lacaios da Wall Street. Quando saem, os
piquetes desapareceram: a agressão contra a Rússia, foi anunciada e na
América, como em toda parte, o Partido Comunista passou, de um momento para o
outro, da luta contra a guerra à luta em seu favor. Afinal, Roma... Eram 3 horas da manhã quando o
Príncipe de Bismark levou ao Duce uma longa carta de Hitler comunicando-lhe -
um quarto de hora antes - a intenção de invadir a Rússia. O imprevisível
Mussolini aceitou sem protestos esta ação, diante do fato consumado que de
tal modo supera em gravidade todas aquelas com as quais tanto se irritava. Dá
ordem de declarar imediatamente guerra à Rússia e de oferecer à Wehrmacht um
corpo de tropas italianas. Ciano convoca o embaixador soviético, para o que é
preciso retirá-lo do banho de mar, onde passava o domingo, com todos os seus
auxiliares. Ele chega, aperta a mão do ministro e retira-se com a declaração de guerra, tão desenvolto como
se estivesse acabado de receber um convite para jantar. A guerra tomou novas
dimensões. Os dados estão lançados. Ainda hoje não se conhece, de fonte russa, a
situação exata das forças soviéticas no começo da luta. De uma maneira geral,
de fonte russa só se conhece pouca coisa. Obras consideráveis foram
publicadas em Moscou, principalmente os seis volumes da História da Grande
Guerra Nacional da União Soviética, do Instituto Marxista-Leninista; a
História da Segunda Guerra Mundial, redigida por um grupo de oficiais e
editada por um deles, o Tenente-General Platonov; finalmente, o grande manual
de Tepulchowski, História da Grande Guerra Patriótica. No entanto, estas
obras só excepcionalmente contém estudos estratégicos, táticos ou técnicos. O
véu de segredo subsiste sobre uma guerra ocorrida há poucas décadas mas cujas
formas estão tão envoltas no passado como as da Guerra dos Sete Anos. Por outro
lado, todas as obras soviéticas sustentam, com grande veemência, temas de
propaganda sobre o pacifismo da União Soviética, o heroísmo de seu povo, o
papel dirigente do Partido Comunista, a monstruosidade bestial dos agressores
e a perfídia das potências ocidentais, que não cessaram de cooperar com
Hitler para consumar a perda do Estado proletário. Os seis primeiros meses são objeto de um blackout
particular. Enquanto Stalin vivia, entendia-se que tinha conduzido uma manobra
genial e que tudo se tinha desenrolado conforme suas previsões. A verdade
mudou. Tepulchowski, por exemplo, enumera implacavelmente os erros do ditador
que ele considerava infalível até 1954; erros de previsão sobre as intenções
de Hitler; erros de preparação que levaram a reativar tarde demais a
indústria da guerra; erros de organização que ocasionaram a supressão do
corpo blindado, em 1937; erros de desenvolvimento que facilitaram a invasão.
Desmente que tenha existido, como em 1812, um plano de retirada sistemática e
reconhece que partes importantes do espaço nacional foram perdidas somente
pela impossibilidade de defendê-las. Mas o relato circunstanciado das
operações e ao quadro concreto dos pesados desastres do início da campanha
continuam a faltar quase que completamente. Em 22 de junho, são mobilizados 80% do Exército
soviético. Este se concentra em proporção bem menor e seu dispositivo nada
tem de ofensivo. Está bem articulado em cinco frentes, representando grupos
de exércitos. Frente Norte, General Popov, com o 14o e o 7o
exércitos. Frente Noroeste, General Kusnezov, com o 8o, o 11o
e o 27o exércitos. Frente Oeste, General Pavlov, com o 3o,
o 10o e o 4o exércitos. Frente Sudoeste, General
Kirponos, com o 5o, o 6o o 12o e o 26o
exércitos. Frente Sul, General Tilulenjev, com o 9o Exército, o 2o
Corpo de Cavalaria e o 2o Corpo Motorizado. Muitas unidades se
encontram nas guarnições afastadas da fronteira e continuam a viver na rotina
dos tempos de paz. Atentos às ambições alemães, foi na Ucrânia que os
russos construíram a mais elevada densidade de tropas: cerca da metade das
divisões, mais da metade dos carros blindados. O grupo de exércitos alemão do
Sul, de von Rundstedt, empenha-se contra um adversário numérica e
materialmente superior. A surpresa foi total. Enquadrando o Grupamento
Blindado Von Kleist, o 6o e o 17o exércitos penetraram
na escuridão, sobre as margens descobertas do Bug e do San. Caem literalmente
sobre os russos adormecidos, atravessam os dois rios sem perder um homem. No
entanto, a reação russa se faz sentir com uma rapidez desconcertante para as
tropas acostumadas a exercer uma supremacia inapelável sobre o inimigo. Desde
a noite do dia 22, os corpos de exércitos de Reichenau e de Stulpnagel devem
quebrar vigorosos contra-ataques. Desde o dia 23, os soldados dos tanques de
von Kleist descobrem um carro blindado inédito, o T-34, admiravelmente
desenhado, fortemente armado, invulnerável ao canhão antitanque alemão de 37
mm, salvo nas lagartas ou no motor. A idéia da manobra alemã foi abrir
caminho diretamente para Kiev unindo os três corpos do grupamento blindado, 3o,
14o e 48o PK (Panzer Korps), através da rota de
Jitomir. A resistência russa é muito tenaz para permitir uma tal perfuração.
A luta toma um caráter de um combate frontal. O campo de batalha é uma planície ondulada,
coberta por um tapete espesso de trigo, milho e girassóis. As pequenas
cidades como Rovno, Dubno, Tarnopol, Luck, Kovel, ontem polonesas e cedidas à
Rússia pelo Tratado de Moscou, são pouco mais que guetos sórdidos e cheios de
sujeira. As aldeias são granjas de madeira rodeadas de altos girassóis. Os
camponeses recebem os alemães como libertadores, pedem permissão para reabrir
as igrejas e celebrar os ofícios religiosos. Mas o país é miserável e o calor
tórrido. Os soldados não possuem fardas de algodão, ensopam de suor suas
Feldgrau de fibra, cambaleiam e caem de insolação. Todas as tardes o céu
escurece, um vento tempestuoso faz levantar nuvens de poeira e a tempestade
explode com uma brutalidade surpreendente, alagando a planície em poucos
instantes. É preciso, em seguida, lutar com a lama. Os veículos,
particularmente os carros e as camionetas de entrega capturados na França,
foram construídos para trafegar em boas estadas ou, no máximo, em campos razoáveis.
Sucumbem com a mudança. Entretanto, ainda se está na antecâmara da Rússia. Os alemães prosseguem duramente. O 6o
Exército repele o inimigo ao longo dos pântanos de Pripet. O grupamento
blindado abre a linha do Styr. Lemberg, a apenas 50 km das posições de
partida, só no dia 30 é tomada pelo 17o Exército, que aí encontra
um matadouro: muitas centenas de nacionalistas ucranianos aos quais os russos
tiraram a tentação de colaborar com os alemães, fuzilando-os. Sorte
inesperada de Hitler, ávido de demonstrar que a luta contra o bolchevismo não
pode ser conduzida segundo um código da cavalaria. O sensível Dr. Goebbels
voa a Lemberg e faz uma descrição horrível do matadouro, no rádio: “Estou
lívido, estremeço de horror...”Além disso, os alemães encontram os primeiros
cadáveres de seus soldados mutilados e profanados. Começa a guerra da Rússia. A batalha se amplia no dia 2 de julho. O 11o
Exército alemão, de von Schobert, e os dois pequenos exércitos romenos de
Antonescu atacam, por sua vez, ao sul dos Cárpatos, atravessam o Pruth,
reconquistam a Bessarábia. Rundstedt tirou dos russos o que Ribbentrop lhes
tinha dado 20 meses antes, mas não rompeu seu dispositivo. Na outra extremidade da frente, a densidade das
forças soviéticas que barram a rota de Leningrado é três vezes menos forte do
que ao sul. Leeb ataca na mesma formação de Rundstedt: 18o
Exército de Küchler, ao norte, 16o Exército, de Busch, ao sul, e,
entre os dois, como o cavalo central de uma tróica, o 4o
Grupamento Blindado de Hoepner. A saída é muito mais bem sucedida do que na
Ucrânia. Um dos corpos blindados, o 56o, é comandado por Erich von
Manstein, que teve, juntamente com Hitler, a idéia da manobra de Sedan. Ele
se joga no meio do inimigo, alcança desde o dia 22 o vale encaixado do
Dubissa, toma de surpresa o viaduto que o atravessa, prossegue na rota de
Dunaburgo, progride 200 km em quatro dias e toma as grandes pontes do Duna
antes que os russos tivessem o cuidado de fazê-las explodir. A Blitzkrieg não
é ainda uma palavra vã! Entretanto, mesmo na proeza de Manstein aparece a
fraqueza estrutural do Exército alemão. O 56o Corpo Blindado conta
com uma única Panzer, a 8o DP, que tem somente três batalhões de
carros blindados. Sua divisão motorizada, a 3a DM, acompanha os
carros blindados, mas a terceira divisão do corpo de exército, a 290a,
é uma grande unidade de infantaria comum, que fica para trás. O outro corpo
blindado, o 41o PK, marcha em direção ao Duna, para Jacobstadt,
mas, seu chefe, Reinhardt, menos ousado ou menos feliz que o colega, não lhe
transmite impulso igual. Durante três dias, Manstein continua a avançar em
flecha a mais de 100 km na frente do grupo de exércitos, em combate defensivo
ingrato para se sustentar em Dunaburgo. A crise é superada no dia 29. O Duna é alcançado
pela totalidade do grupo de exércitos. O 17o exército limpou a
região de Kovno. O 18o toma Riga. Atravessado o rio, a progressão
continua rapidamente, alcança em 10 de julho o lago Peipus, onde dois anos
antes, acabava a República independente da Estônia. Dois terços do caminho de
Leningrado foram vencidos em 18 dias. Vinte divisões inimigas foram
destruídas ou desgastadas. Apesar disso, nenhum cerco importante aconteceu e,
atrás das fortificações da antiga fronteira, grandes massas russas impedem
que se conquiste Leningrado subitamente. As ofensivas excêntricas de Rundstedt e Leeb são
ações secundárias. Se se fizer uma comparação com a campanha napoleônica de
1812, dir-se-ia que um é Régnier e o outro MacDonald. O grande Exército é o
Grupo Bock. As forças opostas a este, 38 divisões de infantaria, 8 divisões
de cavalaria e 14 brigadas motomecanizadas, são superiores às que defenderam
os países bálticos, mas inferiores às que defendem a Ucrânia. É a única
região onde os alemães atacam com superioridade, com cinco por dez de seus
corpos blindados. No Bug, o ataque começou de maneira rápida. Depois
da passagem de um trem de cereais na ponte de Brest-Litovsk, tudo recaiu em
silêncio. No momento em que as baterias alemães abrem fogo, às 3:15, o
Oberleutnant Zumpe se lança sobre a ponte, comandando a 3a
Companhia do 135o Regimento de Infantaria. A ponte não é destruída
e da guarita da sentinela russa parte um único tiro de fuzil, que não fere
ninguém. Um minuto foi suficiente à Wehrmacht para atravessar um dos maiores
cursos de água da Europa. Ao norte de Brest, a travessia do Bug não foi
menos espetacular. Foram entregues e confiados à 18a Panzer 80 dos
carros submarinos que deveriam surgir, da Mancha, nas praias inglesas.
Conduzidos pelo Conde Strachwitz, esses veículos mergulham, desaparecem e
reaparecem na margem oriental, lançando automaticamente seus estojos
estanques, e espalham-se pela planície. Seguindo-os, os engenheiros põem-se
imediatamente a trabalhar e a infantaria passa em toda espécie de botes. Resta um nó: a velha fortaleza de Brest. Muito
grande, encerrando entre seus muros pomares e prados, a construção se espalha
por três ilhas do Bug. O assalto de surpresa do 135o RI, não consegue
tomar a ilha central, onde os russos se reagrupam. Resistirão até 30 de
junho, sob a ação da artilharia pesada e o martelar dos Stukas. No entanto,
seria preciso ao povo russo para ter conhecimento deste episódio histórico,
esperar 15 anos. Stalin proibiu a divulgação, mas os últimos defensores se
renderam depois de se terem esgotado os víveres e munições. Eles só deixarão
os campos de prisioneiros do Reich pelos campos de deportação da Sibéria. De um lado e de outro deste núcleo de resistência o
poderoso Grupamento Blindado Guderian, com 15 divisões, das quais 5
blindadas, com 930 carros, atravessa o Bug e o Lesna. Ao norte, o 47o
Panzer Korps, do General Lemelsen. No centro, o 12o Corpo, do
General Schroth. Ao sul, o 24o Panzer Korps, do General Geyr von
Schweppenburg. Na reserva, o 46o Panzer Korps, do General
Viethinghoff. Esta massa de homens e de máquinas se lança em direção a Slonin
e Baranovitch, derrubando todo na passagem, como uma torrente de aço de 100
km de largura envolta em uma enorme nuvem de poeira. O 4o
Exército, 4o, 7o, 13o e 43o
corpos, segue esta onda. Guderian se irrita por estar subordinado ao chefe
dessas forças, o Marechal-de-Campo von Kluge. A outra massa rápida do Grupo de Exércitos Centro,
o 3o Grupamento Blindado, do Coronel-General Hoth, foi reunido nos
confins da Prússia Oriental e da Lituânia. Mal humorado como Guderian, Hoth,
o condutor de Panzer, está subordinado a Strauss, condutor de infantaria e
comandante do 9o Exército. Hoth reúne sob seu comando o 39o
PK do General Rudolf Schmidt, o 57o PK do General Kuntzen e mais o
5o e o 6o corpos de exércitos, ou seja, 250.000 homens
e 840 carros blindados. A base de partida está a 50 km do Niemen, mas a
surpresa é tão completa, o avanço tão rápido, que a ponte do Merkina e as
duas pontes de Dolita são tomadas intactas na tarde do dia 22. As
dificuldades começam no dia seguinte, nas terríveis areias movediças de
Puszcza Rudnika, que diz, Hoth, jamais viram um automóvel e destroem
implacavelmente as viaturas francesas. O avanço não deixa de continuar a
grande velocidade. No dia 25, os conquistadores estão em Malodetschno, de
onde Napoleão, voltando da Rússia, teve a bondade de informar a seus súditos,
pelo 29o Boletim, que nunca sua saúde tinha estado melhor e que
havia perdido 600.000 homens. No dia seguinte, a 20a Panzer,
penetrando nos Bunkers (fortins) da Linha Stalin, atinge Minsk, capital da
República Soviética da Rússia Branca. Mais a leste ainda, a 7a
Panzer corta a auto-estrada de Moscou e Borisov, no Beresina. Hoth já
ultrapassou em 200 km o 3o, o 4o e o 10o
exércitos russos, em posição de um lado e outro do Niemen, na região de
Lida-Novogrodek. Guderian chega de Baranovitch para ajudar o colega, deixando
ao 4o e 9o exército o cuidado de fechar o bolsão
retalhado pelos blindados. Dois grandes rios, o Duna (Dvina), ao norte, e o
Dnieper, ao sul, fazem do Báltico ao mar Negro uma linha de água cuja
continuidade somente é interrompida por um istmo de 60 km de largura entre
Vitebsk e Orscha. Na opinião de Hoth, o primeiro objetivo da
campanha é forçar essa porta da Rússia. Desejaria, em seguida, cercar os
exércitos russos do Norte entre seu grupamento blindado e o de Hoepner,
depois disso abater-se em direção de Moscou para se unir a Guderian, chegando
a Smolensk. Mas estes vastos movimentos ultrapassam a imaginação dos generais
de infantaria, aos quais os generais dos blindados estão subordinados. Hoth e
Guderian são convidados pelo grupo de exército a não precederem de maneira
excessiva a infantaria e a cooperarem nas batalhas que ela deva travar. Hoth
envia um oficial a Angerburgo, para tentar influenciar o OKH, mas Brauchitsch
e Halder tem uma concepção ainda mais estreita que Bock. Exigem que os
grupamentos blindados se contentem em exercer o papel de um anel exterior durante
a liquidação dos exércitos soviéticos cercados. A tarefa é terminada em 1o de julho, em
torno de Baranovitch, Lida, Novogodrek, e, alguns dias depois, ao sul de
Minsk. A resistência russa foi desigual. Algumas unidades renderam-se
apressadamente, algumas vezes poupando aos alemães a tarefa de fuzilar os
comissários políticos. Outras dispersaram-se nas florestas. Algumas
resistiram bravamente. O comunicado do OKW anuncia, em 11 de julho, o fim
da dupla batalha e a captura de 328.898 prisioneiros, 1.809 peças de
artilharia e 3.332 engenhos blindados. Vitória estrondosa, que compensa a
decepção causada pela lentidão do avanço na Ucrânia. Das 164 divisões
soviéticas estimadas em 22 de junho no conjunto da frente, 89 são destruídas
total ou parcialmente. Halder escreve em seu diário que o objetivo
estratégico da primeira fase das operações, a destruição das forças russas a
oeste do Duna e do Dnieper, está alcançado. É verdade que escreve igualmente
o seguinte: “A extensão do teatro de operações e a obstinação da resistência
exigirão de nós ainda muitas semanas de esforços...” |
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Eclipse e reaparecimento de Stalin Nada parecia mais normal que o castigo de Stalin.
O homem que se aliara a Hitler, que tinha deixado que seu exército e seu país
fossem surpreendidos, deveria pagar por tal negligência pelo menos com a
perda do poder. Os jornais neutros anunciaram, escrevendo segundo a
imaginação a serviço da verossimilhança, ou que ele tinha sido fuzilado, ou
que se achava refugiado na Turquia, no Irã ou na China. Dez dias de eclipse e
de silêncio deram crença a esses rumores. Estes dez dias da vida do ditador permanecem
envoltos em trevas. O mito segundo o qual Joseph Stalin tinha salvo a Pátria
dos Trabalhadores, tomando desde o primeiro dia a direção da guerra, foi
destruído brutalmente por Nikita Khruschev, em 25 de fevereiro de 1956, no 20o
Congresso do Partido Comunista da URSS. Longe de ter previsto tudo, Stalin
desprezou as mais precisas advertências. Longe de ter tudo preparado, deixou
o Exército soviético entrar na guerra com um material insuficiente e
antiquado. Longe de ter tudo animado, tudo galvanizado, acreditou que tudo
estava perfeito, abandonou-se ao desespero e, segundo Khruschev, somente
“após ter recebido a visita de certos membros do Bureau político” retomou a
direção do Governo e do Exército. Mas Khruschev não sai dessas alegações
vagas. Continua-se a ignorar o que foram os dias de Stalin, o que foi a
história íntima do regime bolchevista no início das hostilidades. O silêncio stalinista foi rompido a 3 de julho.
Eram 6:30 da manhã e a Rádio de Moscou começava sua primeira emissão
informativa, quando se elevou sobre as ondas a pesada voz timbrada com acento
georgiano. Stalin começou por justificar o pacto com Hitler, afirmando que
tinha procurado uma trégua indispensável para a União Soviética, após o que
deu as instruções para a luta contra o invasor. Mais uma vez a Rússia deve
queimar sua terra, opor uma insurreição popular à superioridade técnica do
Ocidente. “Nenhum vagão, nenhuma locomotiva, nenhum quilo de
trigo, nenhum litro de combustível devem ser abandonados ao inimigo. Bandos
de guerrilheiros a pé ou a cavalo devem organizar-se nas regiões ocupadas,
para fazer uma guerra sem quartel, destruir as pontes e as estradas,
incendiar os depósitos, as localidades e as florestas. O inimigo deve ser
combatido até ser destruído...” Se houve pânico, está controlado. O Comando,
culpado de numerosas falhas, é retomado. Muitos generais pagam as derrotas
com sanções, indo, como no caso de Pavlov, até a execução capital ou ao
suicídio ordenado. Três generais da União Soviética, pilares do regime, tomam
o controle do Norte, do Centro e do Sul, opondo-se, marechal contra marechal,
aos três executores alemães. Vorochilov contra Leeb;
Timochenko contra Bock; Budienny contra Rundstedt. O primeiro é um antigo operário metalúrgico, cujo
principal feito de armas foi a repressão do motim de marinheiros em
Cronstadt, em 1920. O terceiro é um antigo oficiais dos Dragões, comandante
da cavalaria soviética durante a guerra civil, um personagem bigodudo,
truculento e ignorante. Somente o segundo, Timochenko, tem qualificações
profissionais de um chefe guerreiro. Calvo como uma bola de bilhar, duro como
uma pedra, austero como uma coruja, tinha restabelecido a situação militar na
Finlândia. É-lhe agora confiada a frente que cedeu sob o golpe do aríete
alemão - e a estrada de Moscou. Doze dias após ter saído do silêncio enigmático,
Stalin nomeia-se a si mesmo comissário da Defesa. Um pouco depois, a 7 de
agosto, reveste-se do Comando Supremo, reunindo em uma pessoa a contrapartida
de Brauchitsch e de Hitler. A de Halder é um diplomado do Exército tzarista,
coronel de 1917, o chefe do Estado-Maior, General Boris Chapochnikov. É,
entretanto, impossível formar idéia satisfatória das condições nas quais
funciona o Comando soviético - para apreciar o fardo de responsabilidades e a
parte de glória que tocam a cada um dos grandes chefes. Em 5 de julho o Grupo
de Exércitos Sul parte para o assalto à Linha Stalin. Esta consiste em uma
cadeia de obras, feitas com argamassa e reforçada por fortificações de
campanha, que fazem aparecer a habilidade tradicional com que os infantes
russos utilizam o terreno. “Como citadinos que somos - nota um combatente
alemão - só com repugnância nos servimos da pá, enquanto ela é companhia
inseparável dos russos. Nossos trabalhos tem ar de jogos infantis ao lado
deles. Um abrigo individual russo é uma toca que tem exatamente as dimensões
das espáduas. É impossível descobrir um atirador a 10 metros...” Neste campo de batalha fortificado, a infantaria e
os carros alemães progridem lentamente. São necessários dez dias de combates
para que o Grupamento Blindado e o 6o Exército atravessem a zona
fortificada e se apoderem de Jitomir. O 17o Exército, mais ao sul,
alcança em Vinitsa o Bug da Ucrânia, homônimo do Bug polonês. O Marechal
Rundstedt, cansado dos combates passo a passo, abandona a marcha frontal
sobre Kiev e manobra na direção sudeste com a intenção de cercar uma massa
inimiga entre seu grupo de exércitos e as forças
germano-húngaro-eslovacas-romenas vindas do Dnieper. O Marechal Budienny
tenta quebrar a manobra com um contra-ataque nos flancos das colunas alemães,
mas as grandes unidades blindadas acionadas por ele são manejadas menos
facilmente que seus esquadrões de cavalaria de outrora. Os ataques russos
fracassam e, em 2 de agosto, a pinça se fecha em redor da pequena cidade
hortícola de Uman. Rundstedt, por sua vez, sustenta a batalha de
aprisionamento. O 6o e o 12o exércitos soviéticos são
aniquilados de 2 a 8 de agosto, deixando ao vencedor 103.000 prisioneiros,
858 canhões e 317 carros blindados. Os dois comandantes dos exércitos, os
generais Musytschenko e Ponedeline, estão entre os prisioneiros. A vitória de Uman quebra a resistência russa no
Oeste da Ucrânia. O 4o Exército romeno bloqueia Odessa. O 11o
alemão dirige-se para as bocas do Dnieper. O 6o e o 17o
exércitos conquistam a embocadura do grande rio. Os soldados marcham de
noite, durante o calor abrasado do meridiano, dormem nos campos de trigo. A
majestade do Dnieper os impressiona: o grande rio correndo lentamente no meio
de um dédalo de ilhas com bosques, sob as escarpas da margem direita, e a
descida da margem esquerda se juntando no infinito em uma nuvem de calor.
Como na antiga Polônia, os alemães são recebidos como libertadores. Os
aldeões lhes trazem pão e sal. As primeiras grandes conquistas econômicas
lhes caem nas mãos: os campos de cereais, a região algodoeira de Kherson, o
manganês de Nikopol, o minério de ferro de Krivoi-Rog. Mas, ao contrário, o
objetivo inicial da ofensiva, Kiev, falta neste quadro. Falha um ataque
inesperado. A grande cidade, cercada de colinas, continua como uma poderosa
cabeça-de-ponte sobre a margem ocidental do rio Dnieper. Ferro e manganês ao sul, níquel no extremo
norte... Desde 22 de junho, o 19o Corpo de Montanha, de Dietl,
atravessou a fronteira norueguesa e o caudaloso Petsjoki, perto do cabo
Norte, e conquistou as minas que o circundam. Os objetivos econômicos e
estratégicos nestas altas latitudes são vastos. A península de Kola é uma das
partes da URSS que Hitler reserva para a Alemanha, por causa de suas
fabulosas riquezas minerais. Murmansk é o único porto oceânico da Rússia
livre de gelo todo o ano e, portanto, ponto de sutura entre a União Soviética
e seus aliados atuais ou virtuais, a Inglaterra e os Estados Unidos da
América. Para a Alemanha, tomar Murmansk é de uma importância que pareceria
ainda maior se Hitler pudesse admitir que a guerra com a Rússia não acabará,
de modo algum, antes do inverno. Dietl o tenta. A 29 de junho, os alpinos avançam
na tundra, onde enterram até as coxas, levantando nuvens de mosquitos
devoradores. Ultrapassam a antiga fronteira russo-finlandesa e alcançam o
pequeno rio Liza, ainda congelado entre salgueiros anões. Não irão mais
adiante. A tundra dá a Murmansk um cinturão mais fortificado do que a
argamassa. Os ingleses quiseram fazer alguma coisa. Stalin,
que viu friamente Londres desmoronar-se sob as bombas nazistas, já reclama
como seu débito uma segunda frente no continente. Como não pudesse dar-lhe
uma satisfação, Churchill cobre com flores oratórias a heróica resistência
russa, promete ao Exército vermelho 3 milhões de pares de sapatos e, em
seguida, apesar dos temores do Almirantado, decide arriscar no Ártico os
porta-aviões Victorious e Furious. Estes vão bombardear Kirkeness e Petsamo,
sob o comando de Wake Walker. Para felicidade dos navios, os Stukas estão
ocupados em outro lugar, mas um terço dos aviões ingleses não volta. O
resultado material do reide é nulo e o gesto deixa os russos perfeitamente
indiferentes. Impedidos de tomar Murmansk, os alemães pensam em isolá-lo,
cortando sua ferrovia. Através de horríveis pantanais, o 36o Corpo
de Exército chega a 30 km de Kandalakcha, capital da Carélia soviética. Mas
sua força está esgotada. Detém-se quase à vista da preciosa ferrovia. O interesse, mais ao sul, é Leningrado, cidade a
que Adolf Hitler atribui tão grande importância efetiva e simbólica. Apesar
do recuo que sua fronteira sofreu em 1939, os finlandeses estão somente a 100
km. No entanto, Hitler não quer receber essa conquista de mãos estrangeiras
e, por seu lado, o Marechal Mannerheim só reabre as hostilidades com
repugnância, limitando os objetivos à recuperação dos território perdidos em
1939. Falta o entusiasmo patriótico que tinha caracterizado a guerra de
inverno. Os finlandeses esperarão o dia 31 de julho para começar as
operações. O mês de agosto se escoará antes que tenham reocupado Viborg e alcançado,
entre os lagos Ladoga e Onega, a linha do Svir. A luta por Leningrado se desenrola ao sul da
cidade. A região é glacial e lacustre, coberta de turfa e de florestas, úmida
e negra. O lago Peipus é uma longa toalha de água sem profundidade, ligada ao
golfo da Finlândia pelo rio Narva, que viu passar Carlos XII e viu fugir
Pedro, o Grande. O lago Ilmen é uma pequena bacia interior, comunicando-se
com o lago Ladoga pela fossa de Volchov. Outros lagos são meras calhas
pantanosas em cujo fundo está estagnada uma película de água. Pequenas
colinas formam um relevo insignificante em altitude, mas difícil pela
importância dos obstáculos. O terreno é bem pouco propício para os carros
blindados. Algumas aldeias de língua finlandesa, limpas e industriais, lembram
que a região foi uma província da Coroa da Suécia, Ingermanland, anexada
pelos Romanov e reivindicada pelos nacionalistas de Helsínque. Mas a massa da
população é sombria, embrutecida, suja, miserável e hostil. A maioria dos
homens partiu, levando as crianças, deixando apenas velhos e velhas que
mendigam pão. O apelo de Stalin para a organização de guerrilhas
já foi ouvido e, saindo dos países bálticos, onde eram bombardeados com
flores, os soldados do Marechal von Leeb aprendem a conhecer a insegurança da
retaguarda, as emboscadas dos guerrilheiros, a guerra sem uniforme à qual
todos os exércitos do mundo só sabem responder com uma guerra sem quartel. O Grupamento Blindado Hoepner, desde o início de
julho, atravessou a antiga fronteira e faz uma brecha na Linha Stalin. Seu
chefe quer jogá-lo todo de uma vez sobre Leningrado, distante apenas 180 km,
mas as diretivas do OKH afastam esta manobra simplista. Leningrado deve ser
cercada. O esforço principal deve ser feito pela direita do Grupamento Blindado,
o 41o Corpo, de Reinhardt, marchando para Leningrado pela Estrada
de Luga, e o 56o Corpo de Manstein, deslocando-se na direção
leste, para contornar o lago Ilmen, tomar a antiga cidade hanseática de
Novgorod e ir cortar em Tchudovo a ferrovia Moscou-Leningrado. Os dois
exércitos de infantaria estão a duas semanas de marcha, o 18o
devendo dispersar os agrupamentos inimigos na região de Vilna. Entretanto, o
Alto-Comando hitlerista não hesita em abrir em leque, numa frente de 250 km,
um fraco grupamento blindado de 5 divisões, com um flanco aberto de 300 km,
numa região imprópria para a guerra rápida e diante de um inimigo longe de
estar completamente batido! As dificuldades de execução revelam-se
formidáveis. Na estrada de Luga, Reinhardt só avança passo a passo, em
conseqüência da impossibilidade de desembaraçar os carros blindados. Hoepner
presume que as condições sejam melhores diante da ala esquerda, nas
vizinhanças do golfo da Finlândia: assim, toma a decisão fazer manobrar o 41o
Corpo atrás do front, com o risco de enterrá-lo irremediavelmente nos
pântanos sem estradas que deve atravessar. As pancadas de chuva encharcavam
as tropas e os sapadores devem construir faixas de rolamento em tábuas de
madeiras, para fazer passar os veículos, mas, mesmo assim, o movimento se
conclui e, surpreendendo o inimigo, consegue um brilhante sucesso. O Luga,
último grande rio diante de Leningrado, é atravessado em 14 de julho. Os
russos lançam precipitadamente nesta direção a Escola de Cadetes de
Leningrado e as brigadas proletárias levantadas na grande cidade. Os alemães
encontram, pela primeira vez, cadáveres de mulheres-soldados. Na outra ala do grupamento blindado, Manstein
conhece momentos difíceis. Deixa-se cercar, ao sul do lago Ilmen, por uma
reviravolta ofensiva do 1o exército soviético. A Rádio de Moscou
narra, muito depressa, que um corpo de exército nazista foi cercado de
surpresa, pois Manstein se descarta depois de ter perdido algum material e
mesmo alguns documentos do Estado-Maior que colocam em perigo seu comando. A
crise é conjurada a 18 de julho. Apesar disso, a marcha do 56o PK,
sobre Tchudovo não é retomada, pois as margens do lago Ilmen foram
reconhecidas como impraticáveis aos carros blindados. Dias preciosos se escoam em seguida. Um debate
escolástico é travado nas altas esferas do Comando. Schwerpunkt (centro de
gravidade) à esquerda ou à direita ? Hoepner sustenta que a ofensiva deve ser
levada adiante pela ala esquerda, em uma zona quase sem inimigos. Mas os
métodos burocráticos de comando já prevaleceram na Wehrmacht, obrigando os
executantes às concepções apriorísticas da longínqua direção suprema. O OKH e
o OKW decretaram; Schwerpunkt à direita e é com esta diretiva que Hoepner
deve conformar-se. Afinal, Rastenburgo e Angerburgo não querem mais que a
ofensiva seja conduzida unicamente com o Grupamento Blindado. O risco,
subitamente, pareceu pesado demais. É preciso esperar que o 18o e
o 16o exércitos se aproximem de Luga antes de retomar a marcha
para a frente. A ofensiva recomeça em 8 de agosto. Hoepner ataca
entre o Narva e o Luga em cooperação com as vanguardas do 18o
Exército. Para participar da ação, Manstein faz uma marcha de flanco de 200
km por caminhos abomináveis, para se colocar no segundo lugar, atrás de
Reinhardt. Apenas chega ao seu novo PC, em Samro, e ordena ao seu
estado-maior, negro de poeira, que estabeleça uma cabeça-de-ponte no lago,
quando Hoepner o chama. Uma situação alarmante se desenvolve no setor que o
56o PK acaba de abandonar. Massas soviéticas descem do planalto de
Valdai cercando os dois corpos de exército, o 1o e o 10o,
que prosseguiram por sua conta na conquista de Novgorod. Pede-se a Manstein
para voltar atrás e restabelecer a situação. Marcha-à-ré. Reduzido à 3a
Motorizada e à Divisão SS Totenkopf, o 56o PK se embrenha nos
lodaçais de onde acaba de sair. Como um infante aguerrido que retém seu fogo,
Manstein dá aos russos tempo de avançar, atravessar o Lovat, cantar vitória
e, brutalmente, cai em seu flanco. O 38o Exército russo é partido
em pedaços, perdendo 12.000 prisioneiros e 246 canhões - entre os quais o
primeiro dos engenhos de tubos múltiplos que se tornarão célebres sob o nome
de “órgãos de Stalin”. As valentes e estóicas tropas russas ainda não tem a
capacidade de manobra e o rendimento tático da Wehrmacht. Por outro lado,
parece que esta se vê às voltas com tarefas cuja amplitude ultrapassa seus
meios. As divisões de infantaria não motorizada usam as pernas nos terrenos
esgotados da Rússia. As divisões blindadas, cujo efetivo de carros foi reduzido
de maneira excessiva, necessitam de um segundo reforço. Continuam em número
deficiente, multiplicadas em detrimento da potência unitária. Está claro que
faltava ao Grupamento Hoepner um terceiro corpo blindado. A menos que a
utilização de unidades mecânicas em uma região onde seu rendimento é tão mau
não seja um erro de princípio. Mas Hitler, que estudou com uma lente as
clareiras das Ardenas, não levou em conta os pantanais da Livônia. Eram um
obstáculo difícil de transpor. Apesar de tudo, os exércitos alemães estão
vitoriosos. Enquanto Manstein ganha a batalha do lago Ilmen, o 1o
Corpo se apodera de Novgorod em chamas. A ala esquerda do grupo de exércitos
atravessa o Luga. Tendo, afinal, liquidado as retaguardas russas na Estônia,
o grosso do 18o Exército chega em socorro, enquanto na outra ala o
39o PK, se desliga do Grupo de Exército Centro para fechar o cerco
em torno de Leningrado. A sorte da ex-capital parece selada. O Comando
russo examina a possibilidade de evacuá-la, mas Stalin a recusa e envia,
imediatamente, para defendê-la, seu delfim, Jdanov. O General Schvarov reúne
suas tropas, 12 divisões constituindo os 42o e o 48o exércitos. Novas brigadas
proletárias são recrutadas nas usinas. A população é requisitada para
construir uma linha dupla de fortificações de campanha, partindo de
Schlusselburgo, no lago Ladoga, seguindo o curso do Neva por 20 km, depois
descrevendo um semicírculo em torno da cidade industrial de Kolpino.
Leningrado se organiza para sustentar um assédio. No centro da frente, no setor principal, o
objetivo do Grupo Centro é a conquista de Smolensk. Nenhuma cidade exerceu
papel mais importante, e algumas vezes mais fatídico, na história das
invasões da Rússia. Todos os conquistadores que se dirigem para Moscou para
ali, retomam o fôlego, pesam suas chances. Napoleão decidira não ir além, em
1812. “Eu me deterei em Smolensk; ali o exército fará seus aquartelamentos de
inverno...” Depois, a esperança de conquistar o inconquistável, aquele
Exército russo fugindo como o horizonte, o seduziu... Os dois grupamentos blindados do Grupo Centro não
esperaram o último tiro da batalha de cerco de Minsk para tornar a avançar.
Hoth dirige-se para Vitebsk, Guderian marcha em direção ao Dnieper. A
resistência que encontram é frouxa. Suas tropas conservam um sentimento de
invencibilidade que as torna insensíveis ao caráter desmoralizante do morno
país em que se enterram. O calor é opressivo, falta água, a poeira atinge
proporções de um flagelo, o abastecimento é mau, os recursos locais são
nulos, os isbas que escaparam à tática da terra queimada estão cheios de
piolhos, vôos imensos de corvos satisfeitos enlutam o céu, milhares de moscas
atormentam os homens. Apesar disso, o moral continua elevado, porque se é
vencedor e marcha-se para Moscou. Os chefes estão mais inquietos com relação ao
material de aço do que quanto ao material humano. A poeira destroi os
motores. Nenhum filtro pode impedi-lo. Os cilindros se gastam, os
carburadores entopem, o rendimento baixa, as panes se multiplicam. Ora, da
retaguarda não chegam nem carros blindados de substituição nem motores de
troca. As Panzerdivisionen vivem de suas próprias dotações e cada máquina
fora de serviço abre um claro que nada vem preencher. A situação cada vez
mais se agravava. O problema de Guderian se chama, agora, Dnieper.
Se ele espera a chegada das divisões de infantaria para atravessá-lo, deverá
marcar passo durante quinze dias, deixando tempo ao inimigo para se
reagrupar. Mais uma vez corre o risco da audácia. Passará o Dnieper como
passou o Mosa, 14 meses antes, sem considerar a largura do rio e a obstinação
dos seus defensores. Os três comandantes de corpos reconhecem os pontos de
passagem: Geyr com o 24o PK em Stary Bichov, ao sul de Mohilev;
Vietinghoff com o 46o PK e Lemelsen com o 47o PK em
Schklow e em Kopys, entre Mohilev e Orscha. As datas são fixadas para 10 de
11 de julho. A história se repete. Como em Sedan, um superior
intervém para refrear Guderian. Desta vez é um oficial consciencioso e
difícil, como o marechal von Kluge. Uma reorganização do Comando reuniu sob
suas ordens o 3o e o 4o grupamentos blindados, enquanto
as divisões a pé eram reagrupadas em um 2o Exército, sob o comando
do Coronel-General von Weichs. Kluge desejaria esperar por este, mas Guderian
conseguiu impressioná-lo, dizendo-lhe que sua precipitação está conforme as
intenções do Fuhrer, com a decisão de acabar com a Rússia antes do inverno.
“As suas operações - observa Kluge - estão sempre suspensas por um fio de
seda. O senhor corre dois riscos: falhar na passagem do rio e cair
prisioneiros além dele...” O primeiro receio, é infundado: a passagem do
Dnieper se faz quase sem perdas. No dia 12 à noite, contornando Orscha,
cercando Mohilev, as nove divisões rápidas de Guderian estão na margem
esquerda, tendo aberto uma brecha de 100 km no segundo dos rios russos. As
vanguardas do 2o exército estão ainda em Berezina, 120 km na
retaguarda, e o grosso não ultrapassou Minsk. Timochenko, totalmente surpreendido no Dnieper,
procura realizar o segundo receio do Marechal Kluge, o cerco de Guderian. Um
grupamento de 20 divisões estava se reconstituindo na região de Gomel; ele se
lança no flanco da abertura alemã. A única divisão de cavalaria da Wehrmacht
e depois a 4a Panzer comandada por Von Arnim sustentam e quebram o
choque. As outras grandes unidades do Grupamento Blindado, desprezando a
ameaça, avançam para o leste. A 3a Panzer dirige-se para Roslavl.
A 10a Panzer e a Divisão Das Reich tomam Jelna. A 29a
Motorizada alcança Smolensk em 16 de julho e encontra a velha cidade intacta,
reatravessa o Dnieper para concluir a conquista, apoderando-se, na margem
direita, dos quarteirões industriais. No mesmo instante, Hoth chega ao norte da cidade
com o 39o e o 57o PK. Conduziu a ofensiva com o mesmo
vigor de Guderian, forçando o Duna, tomando Vitebsk, batendo e rebatendo em
direção ao sul os restos do 3o e do 11o exércitos
soviéticos. A cooperação entre os dois grupamentos blindados se organiza
espontaneamente. A 17a DP e a Divisão Das Reich ultrapassam Smolensk
e, a 26 de julho, fecham o cerco em Dorogobush, começando pelo 3o
Grupamento Blindado. Os russos lutam com fúria, procurando não somente
escapar ao cerco, mas também retomar Smolensk, cuja perda, anunciando a de
Moscou, é um choque moral tão severo que o governo soviético a nega durante
várias semanas. Nos últimos dias de julho, os estertores da fera encurralada
cessam progressivamente no perímetro cercado. Entretanto, nem todo perigo desapareceu. O flanco
direito do Grupamento Guderian continua aberto. Timochenko volta à carga.
Repelido no vale do Dnieper, estende a ofensiva até o Desna, com as 14
divisões do 13o Exército. Mais a leste, as divisões do 23o
exército ameaçam a saliência que os alemães constituíram em torno de Jelna. A
batalha fica em equilíbrio instável. Guderian, convocado a Borisov, QG do
grupo de exércitos, ouve exprimir-se as ansiedades que são reprovações
veladas à sua temeridade. Com surpresa, toma conhecimento de uma nova
diretiva do Fuhrer, censurando os movimentos de cerco muito extensos,
recomendando cooperação mais estreita entre a infantaria e os carros
blindados. Ele esperava a ordem de marchar sobre Moscou, mas tem conhecimento
de que Hitler proibiu os blindados ultrapassar Jelna. A única coisa que
momentaneamente se pede a seu grupamento é consolidar a situação do centro,
destruindo as forças inimigas que se encontram entre Roslavl e Gomel. Guderian cumpre brilhantemente sua tarefa, como
Manstein no lago Ilmen. Lança um ataque frontal com as forças de infantaria
colocadas à sua disposição, o 7o e o 9o e o 20o
corpos. Enquanto os russos aí resistem, o 24o Corpo Blindado
atravessa o flanco esquerdo. Entrando nas retaguardas como um corte de serra,
a 4a DP, do Major-General
von Langermann, percorre 80 km paralelamente à linha de fogo e vai
tomar Roslavl nas costas do inimigo. Nas vanguardas, perto da cidade,
Guderian vê surgir da espessa poeira do campo de batalha uma massa de carros
blindados; dá ordem de destruí-los - e reconhece, no último momento, que são
os seus próprios! A 5 de agosto, a resistência soviética cessa. Os bolsões de
Mohilev, Smolensk e Roslavl estão vazios. O número de prisioneiros feitos
apenas pelo Grupo Centro, desde 22 de junho, ultrapassa 650.000. Os alemães
avançam a seu bel-prazer na direção da Ucrânia. Por outro lado, os
reconhecimentos aéreos assinalam o reagrupamento de duas massas inimigas
importantes, uma entre Kalinine e Rjev e outra entre Viazma e Gjaisk, uma a
noroeste, outra a oeste de Moscou. Os russos reagrupam precipitadamente suas
últimas forças, para travar, diante de Moscou, uma batalha desesperada. O que acontece no mundo durante Barbarossa “Quando Barbarossa começar - tinha dito Hitler - o mundo prenderá a respiração...”
O desenrolar das batalhas da Rússia tornou-se, efetivamente, o acontecimento
quase único da guerra. A própria Inglaterra passa à categoria de espectadora.
Os reides sobre Londres praticamente cessaram - trégua que, no dizer de uma
testemunha, “imprime um alívio quase incrédulo nas faces e, ao mesmo tempo,
provoca um novo gênero de ansiedade”. As bombas eram os grandes estimulantes
do moral, pelo desafio que representavam. A lassidão, o aborrecimento, a
torpeza da guerra se sentem mais no desaparecimento do perigo. As hostilidades na África estão em ponto-morto.
Tobruk é fracamente assediada. Churchill desembaraçou-se de Wavell enviando-o
às Índias, mas, para sua grande decepção, o novo comandante-chefe, Claude
Auchinleck, mais rebelde ainda que seu predecessor, recusa-se terminantemente
a retomar uma ofensiva para a qual julga não possuir os meios indispensáveis.
A hostilidade de princípio do Alto-Comando britânico, no teatro do
Mediterrâneo, não se interrompe. Sir John Dill, chefe do Estado-Maior
Imperial, advertiu Churchill de que o reforço contínuo do Egito punha em perigo
a defesa da Metrópole. Acrescenta que, na sua opinião, Cingapura é mais
importante que Suez. Assim, é difícil a Churchill reanimar a guerra no
deserto, entorpecida pelo verão abrasador do Saara. Rommel, também ele, não está em condições de
fazê-la. As ordens lhe proíbem, desta vez de maneira categórica e, para não
correr riscos, o OKH enviou ao novo comandante-chefe italiano, Bastico, um
representante, o General Alfred Gause, encarregado de vigiar o “soldado
louco”. Só se pede a Rommel que tome Tobruk, tarefa à qual não estão
adaptados nem seus meios nem seu temperamento. Além disso, é suficiente que o
Afrika Korps conserve a posição vantajosa que ocupa. O Comando alemão conta
que a guerra na Rússia estará terminada no outono e que será tempo então, de
empreender a conquista do Oriente com forças ilimitadas. Os ocidentais fixam o termo da resistência russa
quase como os alemães. A violência das batalhas assusta Churchill mais do que
o tranqüiliza. Pensa que elas exercitam milhões de combatentes, que serão
adversários terríveis quando soar a hora contra a Inglaterra. Nos Estados
Unidos, acredita-se, mais ou menos, na estimativa inicial: é preciso três
meses para Hitler acabar com a Rússia. “O paralelo napoleônico - escreve
“Time” - nos leva a crer que os invasores, avançando na enorme Rússia, serão
vencidos pelo clima e pelas distâncias, como foi Napoleão Bonaparte. No
entanto, com seus aviões e caminhões, Adolf Hitler é ligeiro como uma
bailarina. Demolirá o pesado Exército Vermelho antes que este tenha tempo de
levá-lo bastante longe para enfraquecê-lo...” Esta Rússia condenada, mas valente, oferece um
problema: é necessário ajudá-la? Tudo o que representa, o comunismo, ateísmo,
a ditadura, é odioso para os Estados Unidos tanto quanto o nazismo. Um
realismo sadio consistiria em deixar que os dois regimes totalitários, as
duas tiranias igualmente
desprezadoras dos direitos do indivíduo, igualmente sanguinárias, se
entredevorem. Favorecendo a agressão hitlerista, ajudando a Alemanha até o
instante que esta se lançou sobre ela - o trem de cereais das 2 horas da
manhã! - a Rússia deu à Inglaterra e aos Estados Unidos o direito moral de
fazê-lo. O mundo veria desenrolar-se contra o hitlerismo duas guerras
paralelas mas independentes uma da outra, a das democracias e a do comunismo
- com uma maravilhosa chance de ver os dois totalitarismos se enterrarem
mutuamente. A impulsividade de Churchill tornou impossível tal
política. Esse campeão do anticomunismo colocou-se, espontaneamente, sob a
chantagem soviética, prometendo desde o primeiro instante ajudar uma Rússia
que nada ainda lhe tinha pedido. Alguns dias depois, conclui uma aliança, em
boa e devida forma, comportando a obrigação de uma ajuda mútua e a proibição
de paz em separado. A partir daí, as exigências russas tem base jurídica e
Churchill vai ser constrangido a aceitar exigências cada vez mais insolentes.
O Embaixador Maiski o acusa frontalmente de trair a aliança, permitindo a
transferência de 40 divisões alemães do Oeste para o Leste. Na falta de uma
segunda frente, Stalin reclama 30 divisões inglesas para a batalha da Rússia,
o que não impedirá os historiadores soviéticos de acusar os ocidentais de
terem querido enviar tropas à Rússia com o fim de ali restabelecerem o regime
capitalista. Para sustentar o esforço de guerra russo, a Inglaterra partilha
seus estoques, divide a ajuda americana, ocupa a Pérsia e organiza os
comboios de Murmansk e Arkhangelsk, que serão os mais terríveis de toda a
guerra. Mas só receberá suspeitas e injúrias como agradecimentos. Roosevelt é, no início, mais circunspecto, devido
à susceptibilidade da opinião pública. A eminência-parda, Harry Hopkins, é
enviada a Moscou, à procura de uma idéia exata da situação. Por causa de sua
fobia de avião, Hopkins faz a viagem, da Escócia ao mar Branco, em um lento
Catalina PBY, enfrentando o perigo das bases alemães na Noruega,
acrescentando ao perigo aéreo das altas latitudes. De Arkhangelsk, um
bombardeiro soviético, voando baixo sobre as florestas, o deixa quase morto
de medo em Moscou. Ele descobre a desconfiança russa, o temor doentio da
espionagem, a impossibilidade de obter o menor indício militar ou econômico.
Volta com pedidos tão grandes quanto
vagos, mas também com a convicção de que a situação russa é menos
desesperadora do que parecia de longe. Cai, assim, uma das objeções à ajuda,
de que ela chegaria muito tarde. Apesar disso, os russos não são admitidos
imediatamente no benefício da Lei dos Empréstimos e Arrendamentos. Roosevelt
dirige seu favor a Lei da Neutralidade, permite entregas americanas pelos
portos do Pacífico e aceita o envio de uma missão militar que espanta as
autoridades de Washington pela jactância e rudeza. Mas até o fim de outubro a
Rússia deve pagar por todos os fornecimentos que recebe. Encomenda 92 milhões
de dólares, dos quais 42 milhões são depositados em dinheiro. Depois disso,
Roosevelt transpõe o último passo, aproveitando-se do movimento sentimental
criado pela valentia russa, e admite a URSS em benefício da Lei de
Empréstimos e Arrendamentos. O primeiro gesto de hostilidade americana para com
a Alemanha se dá a 10 de abril: tendo recolhido uma tripulação de náufragos,
o tenente-comandante Durgin, do contratorpedeiro Niblack, não resiste à
tentação de lançar algumas cargas submarinas contra o autor do naufrágio. No
mês seguinte, o cargueiro americano Robin Moor é afundado pelo U-69. O
comandante é punido por Hitler, mas Roosevelt aproveita a ocasião para
estender a zona de segurança americana até o 26o grau de longitude
oeste. Os Estados Unidos patrulham dois terços do Atlântico Norte, admitem os
navios britânicos em seus comboios, ajudam a Royal Navy a localizar os
submarinos, declaram actuated by an unfriendly interest toda entrada de um
vaso de guerra na zona de segurança... com exceção daqueles que pertenceram a
uma potência que tenha colônias no Hemisfério Ocidental. O princípio de
Washington é dar toda a ajuda possível à Inglaterra, exceto entrar na guerra.
Mas, de semana em semana, os Estados Unidos ficam mais perto dela. Os americanos desembarcam na Islândia a 7 de
julho. A Task Force 19, da Marinha dos EUA, escoltou até Reiquejavique a 1a
Brigada de Marines dos EUA, do Brigadeiro-General John Marston. A permissão
islandesa foi obtida in extremis do Primeiro-Ministro Hermann Jonasson. Os
ingleses, que ocupavam a ilha desde a invasão da Dinamarca, em 1940, cedem
prazerosamente o lugar aos primos. Roosevelt fundamenta sua decisão na
necessidade de defesa do Hemisfério Ocidental. Ninguém se ilude. O movimento
é ofensivo. Os Estados Unidos se aproximam da Alemanha, tomam pé em um país
que nominalmente faz parte da Europa. Os protestos isolacionistas, as
declarações de Wheeler e Lindberg quase se igualam aos apelos à revolta. Mas
os líderes do Congresso aprovam o Presidente. A guerra no Pacífico ganha terreno simultaneamente
com a do Atlântico. Os dois oceanos já não são as grandes fossas protetoras
que foram durante tanto tempo para uma América concentrada em si mesma.
Arrastam-na irresistivelmente ao imenso conflito. O ministro japonês dos Negócios Estrangeiros
assinou, a 13 de abril, um tratado de não-agressão com a URSS. É singular na
aparência, mas na realidade lógico, que a Alemanha o tenha encorajado. Hitler
está seguro ao ponto de empreender uma guerra contra a Rússia, mas também
está convencido de que não tem necessidade alguma de ajuda para ganhá-la -
enquanto a Inglaterra fica como a última inimiga. Desta forma é hábil desviar
o Japão da presa soviética, para orientá-lo em direção ao Sudeste Asiático.
“O Fuhrer - disse Ribbentrop a Matsuoka - é o maior experto militar vivo. Ele
poderá ajudar-lhes a conquistar Cingapura comunicando-lhes os métodos que
fizeram maravilhas contra as fortificações do Oeste”. O amarelo não compreende. A Alemanha lança-se sobre a Rússia algumas semanas
mais tarde. Matsuoka compreende que os maquiavéis de Berlim o enganaram.
Insiste para que o Japão dê marcha-à-ré, atacando imediatamente o Exército
Vermelho do Extremo Oriente. As presas de guerra seriam magníficas:
Vladivostock, a província marítima, o vale do Amur. Somente com dificuldade a
Rússia poderá defender suas províncias longínquas, no momento em que recebe o
choque da Wehrmacht em pleno coração. No entanto, Matsuoka esgotou seu crédito e a
preponderância da Marinha determina a opinião do Estado-Maior. A direção do
Sul leva vantagem. As fáceis e superabundantes riquezas, o arroz, o petróleo,
o estanho, a borracha, estão nas Filipinas, na Indochina, na Malásia, nas
Índias Holandesas. Ora, o Japão asfixia-se com suas necessidades. Está em
guerra com a China há quatro anos. Devastou-a mas desgastou-se. Reina a
miséria, o arroz está racionado, o açúcar desapareceu, os cigarros são
impossíveis de encontrar, faltam as matérias-primas, a indústria têxtil
trabalha com 40% de sua capacidade. As conquistas para o norte significam,
como na Manchúria, uma valorização, que, exigindo investimentos, aumenta
apenas momentaneamente o produto nacional. As conquistas para o sul querem
dizer lucros. Diplomaticamente, Matsuoka adoece. O Gabinete inteiro pede
demissão e o octogenário Príncipe Konoye o reforma. No Ministério dos
Negócios Estrangeiros, existe apenas um executor das instruções do
Estado-Maior, um pálido almirante. Um almirante mais vivaz, Kichisaburo Nomura, é o
embaixador em Washington há quatro meses. Conhece os Estados Unidos onde foi
adido militar em 1917, tendo freqüentado, nessa época, o Assistant Secretary
of the Navy, Franklin Roosevelt. Seus esforços para prevenir uma guerra
nipo-americana são sinceros e incansáveis. Mantém quarenta conferências com o
velho Secretário de Estado, Cordell Hull, cuja saúde abalada e recaídas
constantes interrompem freqüentemente as negociações. Mas a tarefa de Nomura
é ingrata. Influências contraditórias se entrechocam em Tóquio, umas
conciliadoras, outras belicosas. A intransigência reina na Casa Branca.
Alimenta-se de uma fonte secreta que Cordell Hull teme trair por uma palavra
irrefletida: a Marinha decifrou o código japonês de tal maneira, que os
americanos conhecem os planos nipônicos de expansão. Sabem que não podem
evitar um conflito no Pacífico a não ser que consintam na sua realização. “O
Japão - disse o Príncipe Konoye ao embaixador americano - deseja que a
expansão para o Sudeste Asiático se faça de maneira pacífica, a menos que as
circunstâncias não o permitam...” O mercado que Hitler oferecera à
Inglaterra, as mãos livres em troca da paz, encontram a réplica no Extremo
Oriente. A guerra russo-alemã precipita os acontecimentos.
O receio de deixar passar uma ocasião histórica atormenta os militares
japoneses. O governo francês informa ao embaixador de Roosevelt, o Almirante
Leahv, em 15 de julho, que o Japão reclama a ocupação total da Indochina.
Leahy prega a resistência, mas Vichy somente pode expor sua impotência. Mais
vale, ainda uma vez, fazer o jogo e estender em benefício do Japão o
condomínio de 1940. O acordo é assinado: a bandeira tricolor ainda flutua; os
administradores franceses continuam a exercer suas funções; o Almirante
Decoux conserva seu lugar; mas Saigon e a baía de Cam Ranh tornam-se bases
nipônicas, nas quais se prepara abertamente a conquista do Sudeste Asiático.
A resposta de Roosevelt consiste em congelar os bens japoneses e interromper
o intercâmbio comercial com o Japão. O governo britânico e o governo holandês
no exílio alinharam-se a Washington e o Japão encontra-se privado dos mais
necessários ingredientes para a indústria da guerra: petróleo, borracha,
máquinas, estanho. A guerra está amadurecida mas, apesar disso, não ocorre. Nimura
volta à carga, as conversações são retomadas, um projeto de encontro entre
Roosevelt e Konoye é elaborado, escritores militares demonstram que um
conflito entre a América e o Japão é impossível. “Dois pescadores de anzol -
escreve uma dessas sumidades - de um lado e de outro de um grande rio se
ameaçam com suas varas. O Pacífico continuará a merecer o nome que tem...” Panorama na Europa cativa Na Europa, a fome e o fascismo ganham terreno. A alimentação
está racionada em cada um dos 20 países do continente, compreendidos os
miraculosos e neutros suecos e suíços. As rações diárias correspondem a 800
calorias na Polônia, 960 na Bélgica, 1.500 na Noruega, 1.600 na França, 1.900
na Holanda, 2.250 na Alemanha e 2.800 na Inglaterra. A pobreza dos recursos
alimentares, a interrupção das comunicações e a dureza dos vencedores fazem
reviver, na Grécia, uma fome de outra era. A distribuição diária de pão cai
para 30 gramas em Atenas, apinhada de refugiados. Carroceiros apanham os
cadáveres nas ruas e vão lançar nas fossas comuns sua carga de esqueletos com
ventres inchados. Fome e tirania... A Gestapo, ou polícia secreta
alemã, torna-se a primeira das instituições pan-européias, tendo, em toda
parte, auxílios locais, à base de fanatismo, lucro ou covardia. O decreto
Noite e Nevoeiro, organiza a deportação sistemática de todos os indivíduos
considerados como perigosos para o Reich alemão. Os campos de concentração,
abertos desde 1933 para os adversários do sistema hitlerista, adquirem
caráter cosmopolita, ao mesmo tempo que tomam monstruoso desenvolvimento. A
Europa se afunda no medo e no horror, sob a censura, o arbítrio
administrativo e o terror policial. Os judeus estão no centro do drama. Sua condição foi
definida pelas chamadas Leis de Nuremberg. Na Alemanha, estas são agravadas.
Fora da Alemanha, são exportadas. O porte da estrela amarela, ordenado em 1o
de setembro de 1941 aos judeus alemães, e em pouco tempo generalizado em toda
a Europa conquistada - com exceção da França de Vichy que a isso se recusa.
Implica na proibição de freqüentar os principais lugares públicos - como os
Champs-Elysées - e de se apresentar nas lojas fora de certas horas - o que,
com as insuficiências do abastecimento, agrava de maneira dramática a
condição alimentar dos judeus. Uma outra ordenança os obriga ao trabalho
forçado. E medidas muito mais graves ainda, como o plano de genocídio,
amadurecem na imaginação dos dirigentes nazistas. A doutrina nacional-socialista, primitivamente,
não ia além da expulsão. Após ter-se escravizado, o judeu devia limpar de sua
presença o solo da Alemanha. O governo hitlerista tinha favorecido a
imigração na Palestina, após ter considerado a possibilidade de arrancar
Madagascar à França vencida para lá fazer uma reserva israelita. Como os
oceanos estão fechados para ela, a Alemanha fica concentrada em soluções
continentais. A aplicação da fórmula de Hitler “empurrar todos os judeus da
Europa além dos Urais” encontra-se, por sua vez, adiada pela resistência
soviética. A zona de deportação reduz-se à parte da Polônia organizada em
Governo-Geral sob Hans Frank, o antigo Ministro da Justiça. Os guetos já
superpovoados se superpovoam ainda mais com uma multidão miserável, arrancada
de seus lares na Alemanha ou na Europa Ocidental. Nenhum ganha-pão é
permitido a esses desenraizados, nem mesmo aqueles que vieram agravar a
situação desesperada. Uma ordenança proíbe a agricultura aos judeus; outra os
expulsa “de todo comércio, especialmente do comércio de produtos agrícolas e
alimentares”; uma terceira lhes suprime toda distribuição de “carne,
alimentos de carne, de ovos, produtos de farinha (com exceção de pão), de
leite integral ou desnatado...” Em um diário de 43 cadernos, que nem mesmo
procurou destruir antes de sua prisão, o Governador-Geral Frank escreve que é
necessário encarar a morte por inanição de 1.200.000 judeus e que, se isto
não acontecer, será preciso tomar outras providências. A política de
deportação vai acabar na do extermínio. Frank não se engana. A fome é arma muito lenta. O
ex-ministro da Justiça, presidente dos juristas nacional-socialistas, não
demora em se queixar das dificuldades administrativas e dos riscos de
epidemia que a acumulação de judeus provoca para o Governo-Geral. “Onde quer
que os judeus estejam - escreve em 16 de dezembro de 1941 -, devemos
exterminá-los. A máquina de extermínio está em marcha. Uma conferência reuniu
em Wannsee, a 20 de janeiro de 1942, os chefes das principais repartições
administrativas do Reich. Decidem eles dar à questão judia “uma solução
final” pela deportação e outras medidas adequadas. Está em curso, misturada
com a guerra, uma tragédia mais cruel que a própria guerra. A França não ocupada continua como uma ilhota de
liberdade relativa no meio da Europa escravizada. Por sua vez, ela se
endurece. Pétain chamou para a direção dos Negócios Estrangeiros, após e
demissão de Laval, um dos dirigentes do regime deposto, Pierre-Etienne
Flandin. Assim como a Missão Rougier, a escolha é um desses gestos pelos
quais se traduzem as aspirações ao mesmo tempo profundas e ambiciosas do
velho soldado. Flandin foi um caloroso partidário de Munique, mas suas
origens sociais, suas doutrinas políticas, suas ligações e seus interesses
fazem dele um anglófilo. Os Estados Unidos, que acabam de enviar ao Marechal
um embaixador de importância como o Almirante Leahy, amigo pessoal de
Roosevelt, manifestam curiosidade e esperança. A experiência dura seis
semanas. Ribbentrop e Abetz recusam-se a reconhecer o novo Ministro dos Negócios
Estrangeiros. A linha de demarcação permanece hermeticamente fechada. Flandin
entende e solicita demissão É a hora de Darlan. Proclamado delfim do Marechal,
ele toma todos os poderes e governa a França através de seus almirantes. A
astúcia de Pétain procura elementos de equilíbrio, cria um Conselho Nacional,
para o qual designa os membros, introduz no Governo algumas figuras de
projeção como Romier e Barthélémy, deixa que se manifestem algumas jovens
cabeças como Pucheu e Marion, irrita o autoritarismo vaidoso de Darlan
fazendo-lhe sentir suas limitações. Todavia, a maior frustração do Almirante
é a impossibilidade de ser aceito completamente pelo vencedor, cujo Quisling
continua a ser Laval. A mais grave ameaça, o presságio mais funesto para seu
poder é o reatamento de relações entre Laval e o Marechal. Isto aconteceu em
18 de janeiro de 1941, sem o conhecimento de Darlan, em pleno campo, como um
encontro de conspiradores. O comunicado, redigido pelos dois homens de comum
acordo, caiu como um golpe de clava sobre o delfim ridicularizado. Nada mudou superficialmente. Tudo mudou
profundamente. Weygand continua na África, mas em uma posição hesitante, sob
torrentes de denúncias provenientes de hitleristas franceses e alemães. O
Almirante Leahy constata, progressivamente, o caráter quimérico das
esperanças fundadas na afirmação do Governo de Vichy diante da potência
ocupante. As influências totalitárias e pró-alemães se reforçam ao redor do
velho marechal. Grande encenação, a 12 de agosto, em Vichy. Exibe-se
Boris Godunov no Grande Cassino, diante dos embaixadores e da elite da
capital das termas. A representação é interrompida para ser lida uma mensagem
do Marechal. “Franceses, tenho graves coisas a vos dizer...” Trata-se de uma
enumeração de medidas totalitárias: supressão de todos os partidos políticos,
duplicação da polícia, tribunais de exceção, reorganização cooperativista da
economia, etc. Este passo do governo francês ao encontro do
nacional-socialismo não impede que seja implacavelmente denunciado pelos
hitleristas de Paris, que nisso vêem uma sobrevivência reacionária, um foco
antialemão, uma vã recusa de se voltar para o sol nascente. A Rússia está
virtualmente vencida, a Inglaterra perdeu a guerra, os Estados Unidos são uma
farsa, o bolchevismo, o capitalismo, o judaísmo, o liberalismo vão
desaparecer e somente existe futuro para os povos da Europa na Nova Ordem
levada por Adolf Hitler e não pela senil revolução nacional francesa! O desenvolvimento progressivo do espírito de
resistência responde à capitulação insidiosa do governo francês. Nasce um
fenômeno sem precedentes na história das guerras. Não é limitado à França,
longe disso; estende-se a toda a Europa, compreendendo até a Alemanha. A cruz
gamada cobre o continente. Os poderes constituídos que subsistem nos países
ocupados são auxiliares do Terceiro Reich e da Wehrmacht, por bem ou por mal,
por adesão ideológica ou por coação. Os recursos econômicos, a força de
trabalho, os instrumentos de controle dos espíritos estão à disposição discricionária
do vencedor. No entanto, o solo é minado sob o passo deste vencedor triunfal.
A vitória não teve sentido de conseguir a adesão dos vencidos. Acontece o
contrário. Subjugados de início, tentados algumas vezes, os vencidos se
emendam em um processo lento e poderoso. A primeira manifestação pública, na França, do
espírito de resistência, foi um desfile de estudantes, em 11 de novembro de
1940, que tentou ir até o Túmulo do Soldado Desconhecido, cantando a
Marselhesa e brandindo duas varas (deux gaules) que saudavam com um
trocadilho mudo o Homem de Londres, ainda tão misterioso e tão discutido. O
conflito que se seguiu com os soldados alemães fez seis feridos e um morto,
acarretando como sanção o fechamento da Universidade de Paris, durante seis
semanas. Já existem, nessa época, alguns esboços de
resistência. O primeiro de todos os grupamentos é, provavelmente, o do Museu
do Homem, na Região Norte, criado em setembro de 1940 por alguns
intelectuais. A prioridade, na Região do Sul, pertence, sem dúvida, ao
embrião do grupo Combat, imaginado pelo capitão Henri Frenay e pela
assistente social holandesa Berthie Albrecht, cuja cabeça rolará sob o
machado de um carrasco alemão. O Intelligence Service britânico executa sua
tarefa reconstituindo redes de informações em toda a Europa, especialmente na
Noruega e na Holanda. Os emigrados de Londres, franceses e outros, tentam
sair do isolamento apoiando-se nos compatriotas contrários à submissão.
Missões de contato, enviados pelo Estado-Maior degaullista, percorrem a
Bretanha e a Normandia, desde o verão de 1940. Os comunistas são os apóstolos da colaboração
franco-alemã, enquanto Stalin permanece aliado de Hitler. O comitê dirigente
declara que é preciso considerar a derrota francesa “como uma vitória” e o imperialismo alemão “como um aliado
ocasional”. Procuram conferenciar com as autoridades de ocupação para fazer
reaparecer “L’Humanité” e os sindicatos exigem que o trabalho seja retomado
na metalurgia parisiense, necessariamente em benefício do inimigo. Cobrem De
Gaulle com as mesmas injúrias que os hitleristas franceses. “Os jovens
franceses e francesas - escreve o “Avant-Garde” - nada tem a esperar de um
general traidor, a soldo do imperialismo inglês...” Outros textos afirmam que
o nacional-socialismo trabalha para o bem dos operários e reclamam uma paz de
reconciliação com o Reich, seguindo o exemplo dado pela URSS. Mudança instantânea em 22 de junho de 1941. Os
comunistas entram na Resistência. A luta contra o ocupante toma uma forma
muito mais brutal, definitivamente incompatível com as convenções
internacionais que tentaram codificar e limitar os atos de guerra. Uma mão
comunista inicia os atentados individuais contra os miliares alemães, em 21
de agosto, abatendo o aspirante Mozer, da Kriegsmarine, na plataforma do
metrô Barbès-Rochechouart. Hitler dá às autoridades de ocupação ordem de
prender 100 reféns, dos quais 50 devem ser fuzilados imediatamente. Vichy
interfere para salvá-los, mas deve pagar sangue com sangue, lançando mesmo na
guilhotina seis indivíduos, dos quais três são comunistas e três delinqüentes
comuns. Um ciclo terrível está aberto. Ainda não é possível falar de resistência
generalizada. As principais organizações, como Liberation Nord et Sud, Combat,
Front National e Organisation civile et militaire, somente virão à luz ou
tomarão consistência e poder em 1942. Os jornais clandestinos começam a
aparecer. Um dos primeiros, “Petites Ailes de France”, redigido por Berthie
Albrecht, só começara sua carreira em abril de 1941, em Lião. A derrota está
ainda muito próxima, a impressão causada pelo poderio alemão é muito forte
ainda, a confiança no Marechal é ainda muito intensa para que a nação se
envolva numa luta contra o ocupante. Com maior razão, as florestas e as montanhas não
começaram ainda a povoar-se de revoltosos. Mas o agente recrutador, Fritz
Sauckel, ex-marinheiro, comissário da mão-de-obra do Reich, já se põe ao
trabalho. Recebeu a missão de incorporar na economia de guerra alemã sete milhões
de trabalhadores estrangeiros. A França, em seus cálculos, enviará um milhão,
mas as esperanças de colaboração, que não foram completamente abandonadas,
impedem ainda Sauckel de começar a requisição ou conscrição. Experimenta
encontrar voluntários pela ambição do alto salário e de uma alimentação menos
miserável. Escutam sua voz, de outubro de 1940 a junho de 1941, 100.000
jovens. Depois do desencadeamento da guerra germano-russa, o número mensal de
voluntários baixou à metade, e os repatriamento tendo ajudado, o número de
civis franceses em trabalho na Alemanha decresceu em vez de aumentar. Cairá a
70.000 em julho de 1942. Sauckel o declarará “ridículo” e imporá ao Governo
de Vichy a cessação da sabotagem aos seus esforços. O Serviço de Trabalho
Obrigatório, STO, terá início depois deste ultimato e, por sua vez, aumentará
o número de maquis. Poder-se-ia prosseguir, por longo tempo, no quadro
da Europa cativa até o momento em que, com a agressão contra a Rússia, a
guerra toma novo rumo. O movimento de resistência na Bélgica, foi suscitado
pela primeira vez pelo Coronel Lentz. A caça aos judeus, na Holanda, toma
aspectos sinistros, mas algumas precauções para com os “alemães do mar”,
permitem a Sauckel recrutar, em alguns meses, 140.000 trabalhadores holandeses.
Na Noruega, Quisling não chega a cumprir sua promessa de conduzir o povo
ariano e nórdico no rastro hitleriano. Toda a Europa resiste, com as nuanças
peculiares às condições e aos temperamentos nacionais diferentes. Na Alemanha
mesmo, as vitórias da Wehrmacht não dispensam manter o moral através de uma
repressão cada vez mais severa. Os arquivos do Ministério da Justiça,
independentemente das sentenças pronunciadas pelos conselhos de guerra,
revelarão que o número de penas capitais pronunciadas por motivos políticos
contra súditos alemães se elevou de 1.146 em 1941 para 3.393 em 1942. Seria
preciso mais tempo para que tais cifras atingissem o mesmo nível nos países
ocupados. É principalmente nos países balcânicos e eslavos,
impiedosamente pressionados, que a resistência a mão armada logo principia.
Os gregos começam-na em 31 de maio de 1941, dia em que dois heróicos meninos
de Atenas subiram ao mastro da Acrópole para arrancar a bandeira nazista. Na
Iugoslávia não existe solução de continuidade entre a luta militar, que
continua fraca, e a luta revolucionária: recusando render-se, o coronel Draga
Mihailovitch dirige-se à Herzegovina e, no rude Ravna Gora, começa a
organização das guerrilhas. Tito somente entrará em cena três meses depois,
algum tempo depois do começo das hostilidades entre a Alemanha e a Rússia. O caso é idêntico na Polônia. No dia seguinte ao
da derrota, o General Conde Komorovski estava em Cracóvia, pronto a passar
para a Hungria. Muda de idéia, considera que seu dever é combater no solo
nacional, adota o nome de guerra de Bor e, ligando-se ao governo polonês no
exílio, organiza a Sluzba Zwyciestwa Polski, a Liga pela Vitória da Polônia.
O subterrâneo da Caixa Econômica de Varsóvia é o berço desse exército
nascente cujo recrutamento é assegurado pelo Governador-Geral Frank ao
executar as ordens de Hitler: desorganizar da maneira mais completa a vida da
Polônia, para que a Alemanha possa aproveitar a rica reserva de mão-de-obra
que ela representa. A partir de 1939, bem antes que os comunistas tivessem
levantado o dedo mínimo contra a Alemanha, a SZP, provoca explosões em trens
e ataca as tropa alemães. Em 1941, ela conta com 4.000 oficiais, 16.000
suboficiais, 100.000 homens e 1.500 unidades. Sanções, como a prisão de todos
os professores da Universidade de Cracóvia e a execução de 107 reféns, em
Waver, perto de Varsóvia, já deram resposta a essas manifestações de
ativismo. De repente, chega uma mensagem do Novo Mundo a
essa Europa que geme e treme. Roosevelt e Churchill encontram-se secretamente,
a 8 de agosto, em uma baía da Terra Nova. Churchill chegou no Prince of
Wales, reparado dos estragos feitos pelo Bismark. Roosevelt, ostensivamente,
partiu para um cruzeiro de pesca e, deixando seu iate continuar na rota, para
iludir, passa para o cruzador Augusta. Os serviços de informações inimigas
nada sabiam a respeito deste encontro. A Carta do Atlântico é uma surpresa
total para Hitler: ele limita-se a dar de ombros, repetindo que Roosevelt é o
instrumento do sionismo e que Churchill está desatinado. Goebbels dá
instruções à imprensa alemã escravizada para que seja ridicularizado o
manifesto anglo-saxão. Ele próprio escreve: “Se Stalin ganhasse a guerra,
Roosevelt e Churchill veriam o que ele faria desse papelucho...” Foi Roosevelt quem quis esse documento ideológico.
Churchill pensava discutir principalmente sobre a ajuda americana, a
capacidade de resistência russa e os projetos dos japoneses. No entanto, o
americano julgava indispensável que as duas nações quase aliadas proclamassem
de maneira solene os objetivos da luta que, para uma delas, ainda não tinha
começado. Chegaram a um acordo, sem discussões, sobre oito princípios:
desinteresse dos aliados; exclusão de qualquer mudança territorial a não ser
pelo consentimento das populações; livre escolha, pelo povo, de suas
instituições; livre acesso às matérias primas; cooperação econômica: abolição
do medo e da necessidade; liberdade dos mares; desarmamento. Mas o mundo,
para o qual se dirigem estes poderosos artigos de catecismo, ficará convencido
de que eles escondem cláusulas secretas, que os chefes do governo britânico
não fez uma perigosa viagem marítima para referendar truísmos e que a
participação dos Estados Unidos na guerra foi planejada na baía de Argenta.
Churchill nada fará para dissipar estas ilusões. No dia seguinte ao da assinatura, domingo 10 de
agosto, um serviço religioso consagra as nobres intenções anglo-americanas no
convés da popa do Prince of Wales, com o Presidente e o Primeiro-Ministro
cantando Onward Christian Soldiers sob a descarga de canhões de 14 polegadas.
A Carta do Atlântico recebeu o batismo democrático e religioso. Falta nela o
selo do singular companheiro de armas, do poder ateísta e liberticida ao qual
a Inglaterra e a América se encontram aliadas. Decisão de Hitler: primeiro a Ucrânia Hitler começou a 23 de junho a vida reclusa em que
se manteria até a morte. Trens especiais transportaram o OKW para a Prússia
Oriental, até estação de Forst Gorlitz, 5 km a leste da pequena aldeia de
Rastenburgo, em uma floresta fresca, silenciosa e perfumada. Um hexágono de
campos de minas e de arames farpados delimita Die Wolfschanze, o antro do
lobo. Alguns chalés floridos, espalhados entre as árvores, servem de
escritórios e de alojamento a Keitel, Jodl, Bormann, Speer, a um número
bastante reduzido de oficiais e servidores. Hitler tem uma sala de mapas, o
Bunker (abrigo subterrâneo) e, além disso, sempre pronto para partir, o trem
blindado. Não deixarão de reinar neste recinto uma vida monacal, um
isolamento de claustro e um tédio profundo. Na Wolfschanze, o Fuhrer dos alemães desperta às 10 horas, almoça na cama e toma conhecimento das notícias preparadas pelo Auswartiges Amt (Ministérios dos Negócios Estrangeiros). Como ele só conhece o alemão, todos os resumos da imprensa estrangeira são traduzidos; porque ele é extremamente míope, os textos são datilografados em grandes caracteres, com auxílio de uma máquina especial. O grande relatório diário começa ao meio-dia e dura até às 14 horas. A tarde é consagrada a uma sesta, que se prolonga até 18 ou 19 horas. Depois, Hitler dá algumas audiências, janta no meio de um círculo de íntimos e de convidados. Não é uma vida laboriosa, porque ele detesta o trabalho burocrático e confia mais na intuição do que no estudo; é simplesmente uma vida sedentária. Ele visitava, no começo da guerra, os regimentos e até fazia refeições (vegetarianas) no meio dos soldados. A partir da campanha da Rússia, essa convivência acaba. A frente, onde tantos alemães morrem, será um mundo desconhecido para o Fuhrer: jamais exporá a pele aos azares de um projetil nem a sensibilidade ao espetáculo de um hospital. A guerra tornar-se-á, para ele, cada vez mais uma abstração, na qual imperam a tirania do mapa e o mito de sua vontade heróica, que impõe sua lei aos homens e aos fatos... O Alto-Comando do Exército (OKH) e o da Força
Aérea (OKL) instalaram-se em Angerburgo, na margem de um lago a 40 km de
Rastenburgo. Os Chefes do Exército, Brauchitsch e Halder, só vão ao QG do
Fuhrer quando convocados, utilizando uma velha litorina. Gozam de maior
autonomia que durante a campanha da França porque Hitler intervém menos nos
detalhes das operações. Apesar disso, os Diktats da Wolfschanze são
suscetíveis de perturbar seus planos a todo momento. Em 19 de julho, tomaram conhecimento de um desses
diktats die Weisung Nr 35. Dá ordem de desmembrar o Grupo Centro e orienta
uma parte das forças para Leningrado e, posteriormente, a outra parte para a
Ucrânia, a fim de facilitar o estabelecimento de uma base de partida para o Cáucaso
ao Grupo Sul. Hitler permanece fiel a suas idéias preconcebidas e faz passar
a conquista de Moscou para um terceiro plano. O mundo inteiro espera a
conquista iminente da capital do bolchevismo e as terríveis bombas caindo no
eixo napoleônico, Vilna-Vitebsk-Smolensk, parecem provar que o Austríaco
segue as pegadas do Corso. Não acontece isto. Brauchitsch e Halder tentam fazer com que Hitler
volte atrás de sua decisão em 23 de julho. Afirmam que Moscou é o objetivo
primordial, mesmo que se se atenha a considerações estritamente miliares.
Mostram que a articulação das comunicações do adversário, a única ligação da
Rússia do Norte com a Rússia do Sul, da Rússia asiática com a Rússia
européia, se acham em Moscou. Citam Hitler contra Hitler: o Fuhrer não cessou
de dizer que o objetivo da campanha é a destruição das forças inimigas; ora,
é diante de Moscou, é em defesa de sua capital que os russos acumulam todos
os meios que ainda podem reunir. É lá, por conseguinte, que é preciso
procurar o meio do aniquilamento. Parece que os argumentos dos dois generais
abalaram Hitler mais do que ele deixou transparecer. De noite, Halder escreve
em seu diário - “No momento, Moscou não interessa ao Fuhrer, mas apenas Leningrado”-,
porém, alguns dias depois, ele pode perder a esperança de que o
desmembramento do Grupo Centro não se efetue. Em 30 de julho, o Fuhrerweisung
Nr 34 suspende o envio do Grupamento Blindado n° 3 nas alturas de Valdai e
decide que será concedida aos Panzer uma trégua, durante a qual as
comunicações serão restabelecidas. A necessidade se faz sentir. As raras
estradas, a começar por aquelas a que chamamos com boa-vontade Autobahn,
estão estragadas. A transformação das ferrovias russas pela colocação de uma
terceira linha se processa lentamente e as destruições feitas pelas tropas
soviéticas em retirada são gigantescas. Enquanto se organizam estes trabalhos
difíceis, os Panzer recuperarão seu fôlego, farão os seus homens repousar e
limparão os seus tanques. Os generais de Angerburgo começam a esperar que os movimentos de
diversificação sonhados pelo Fuhrer sejam abandonados em proveito de uma
batalha decisiva e simples, visando à conquista de Moscou. Halder suspira de
alívio em seu diário: “O pesadelo se dissipa. Enfim, um raio de esperança...” Subitamente, tudo muda novamente. Os comandantes
de exército do Grupo Centro são convocados a Novy Borissov, em 4 de agosto,
ao QG de Bock, Strauss, Von Kluge, Von Weichs, Hoth, Guderian... Têm a
surpresa de lá encontrar Hitler, que nenhum deles tinha visto desde o começo
da campanha. O Fuhrer lhes declara que vem consultá-los sobre o objetivo das
próximas operações, mas que deseja ouvir as opiniões deles separadamente, sem
que se possam consultar e influenciar uns aos outros. São isolados em
diversos escritórios e comparecem um a um ao confessionário. São unânimes:
querem tomar Moscou. A seguir, há uma conferência geral, Hitler explica que é preciso visar primeiro Leningrado, porque essa conquista eliminará os russos do Báltico, fará desaparecer toda ameaça sobre as importações do minério sueco e privará o inimigo de seu mais precioso arsenal. A questão “Moscou ou Ucrânia?” impor-se-á depois. “Minha decisão, diz Hitler, ainda não está tomada, mas a Ucrânia me parece, em princípio, mais indicada, por causa dos recursos agrícolas e industriais. A conquista da Criméia impõe-se, igualmente, já que esta é um porta-av |