Tópicos
do capítulo:
Budienny evacua a Ucrânia
Desmoronamento da
resistência no Desna
19 de setembro:
Kiev sucumbe - Hitler, chefe supremo das operações na Rússia
20 de outubro:
ofensiva contra Moscou
Forças de Von
Bock para a Operação Taifun
Vitórias
em Viazma e Briansk
Começa a
evacuação de Moscou - Zhukov, comandante-chefe da frente central russa
Um aliado dos
russos: a lama
Queda de Odessa,
Perekop, Stalino, Kharkov e Kaluga
Hitler recusa a
campanha de inverno
Uma trégua para a
Inglaterra
O Japão prepara
Pearl Harbor
Vencedor em
Rostov, Rundstedt cai em desgraça
Malgrado o frio,
a Wehrmacht chega 22 km de Moscou
Começa a segunda
retirada da Rússia
Desastres O Fuhrer tem sempre razão! Nunca a confiança
fanática do General Jodl pareceu mais justificada. Os resultados da batalha
da Ucrânia ultrapassam todas as esperanças e todos os precedentes. A temeridade de Budienny coopera com a vitória
alemã. Ele amontoa 6 exércitos soviéticos, com um milhão de homens, cujas
duas únicas linhas de cooperação são as ferrovias, extremamente expostas, de
Kiev a Kursk e a Kharkov, na enorme saliência formada pelos cursos do Dniéper
e do Desna. A finalidade desta colossal imprudência é a conservação de Kiev.
A grande cidade forma, na margem ocidental do Dniéper, uma cabeça-de-ponte
defendida por 11 divisões, cuja completa destruição ultrapassa as
possibilidades do 6o Exército alemão. A propaganda soviética pode
sustentar que, na décima semana de guerra, nenhuma das grandes cidades da
URSS foi conquistada pelos hitleristas, mas, para oferecer tal espetáculo de
prestígio, todo um grupo de exércitos é posto a perder. Uma conseqüência mais positiva da resistência de
Budienny é a evacuação das indústrias da Ucrânia. A ordem foi dada no começo
de agosto. No dia 7, começara a mudança da laminação de tubos de
Diniepropetrovsk e, no dia 14, a da siderurgia de Zaporojie, especializada em
aços finos. A mesma transferência ocorre em todos os territórios ocidentais
da Rússia européia. Um milhão e meio de vagões e de plataformas deslocarão,
de julho a novembro, 1.360 estabelecimentos industriais, dos quais 419
provenientes da Ucrânia e 498 provenientes de Moscou. Serão remontadas 450
nos Urais, 210 na Sibéria ocidental e 250 no Casaquistão, no coração da Ásia.
Tal movimento, em uma precária rede ferroviária, embaraçada com transportes
de tropas, representa um desses tours de force russos inexplicáveis, segundo
as normas técnicas do Ocidente. Estas usinas em marcha, são talvez, a razão pela
qual o OKH é levado a acreditar que Budienny evacua o Oeste da Ucrânia. Em
conseqüência, as disposições tomadas visam a fechar a pinça o mais a leste
possível, a fim de prevenir a retirada, no espaço russo, das massas inimigas.
A manobra merece o qualificativo de gigantesca. De Krementchug, no Dniéper,
de onde deve partir o ataque de sul, à região de Roslavl, de onde deve se
lançar o de norte, a distância em linha reta ultrapassa 600 km. Ainda que
algumas estradas, os principais rios sejam orientadas de leste para oeste, as
operações dirigidas segundo os meridianos beneficiam-se com um mínimo de
facilidades e encontram um máximo de obstáculos. Deve-se fazer os eixos de
comunicação girarem 90o, enviar o abastecimento através da estepe,
contornar as florestas, os pântanos e as areias. Estas dificuldades
materiais, reunidas à resistência de um inimigo superior em número, tudo isto
coroado de um êxito total, fazem da batalha da Ucrânia a obra-prima da
Wehrmacht. O ataque ao norte, é desencadeado no dia 25 de
agosto. É conduzido pelo 2o Exército, de Von Weichs, composto dos
13o, 33o e 35o Corpos de Exército e pelo 2o
Grupamento Blindado, reduzido aos 24o e 47o PK. Os soldados que entram na Ucrânia,
saindo da miserável sombria Rússia Branca, apreciam o contraste. “As espessas
florestas tornaram-se exceções, a região e os habitantes causam melhor
impressão, as casas são floridas, as pessoas mais limpas, melhor vestidas e
mais cordiais...” Porém, as distâncias continuam exaustivas e a poeira é mais
espessa ainda do que nas cercanias de Minsk e de Vitebsk. O primeiro grande obstáculo é o Desna, quase tão
largo quanto o Dinéper e, como este, complicado por um dédalo de ilhas
arborizadas. Na ala direita da frente de ataque, o 2o Exército
estabelece laboriosamente uma cabeça-de-ponte, levando consigo o 6o
Exército, que completa o cerco de Kiev. Na ala esquerda, as Panzerdivisionen
de Guderian dão à ofensiva aspecto mais vivo. As 17a e 18a
derrotam os russos no curso superior do Desna. A 3a, comandada por
um brilhante comandante de divisão, o Tenente-General Model, avança para
Novgorod-Seversky, onde uma ponte de madeira com 700 metros de comprimento
atravessa o rio. O Oberleutnant Buchterkirch mergulha em violenta barragem de
artilharia, à frente de um pequeno destacamento blindado, e conquista a
ponte, antes que os russos tenham tempo de incendiá-la. Budienny responde com
enérgicos contra-ataques, sacrifica sua aviação acima da ponte perdida, atira
seus carros blindados em massa, tenta manobrar nas retaguardas inimigas,
obriga o pessoal dos serviços auxiliares inimigos a combater, inclusive o de
uma padaria de campanha, que se cobre de glória em Korop. Mas a cópia dos
métodos alemães exige um aprendizado sangrento que os russos ainda não
concluíram. No fim de uma semana, a resistência no Desna se desmorona. O Sejn
é travessado por sua vez. A estrada de ferro de Kursk é cortada em Konotop.
Romny é tomada. A 250 km nas costas dos defensores de Kiev, os carros de
combate marcados com um G branco de Guderian, precipitam-se ao encontro dos
tanques marcados com o K de Von Kleist. No Grupo Sul, a travessia do Dniéper, rio
extremamente largo, a jusante de Krementchug, deu lugar também a uma façanha
militar. No dia 31 de agosto, na hora mais improvável, às 2 da tarde, e no
local mais inesperado, uma calha de 1.500 m de largura, o 207o
Regimento de Caçadores lança seus botes de assalto e alcança a margem
esquerda. Ao cair da noite, os caçadores subiram as escarpas que margeiam o
rio e conquistaram uma cabeça-de-ponte de 3 km. O outro regimento da 27a
Divisão passa, por sua vez, seguido da totalidade do 52o Corpo.
Como no Desna, os russos fazem um esforço desesperado para restabelecer a
integridade da barreira do Dnieper e lançam várias brigadas blindadas contra
a cabeça-de-ponte. A coordenação é má, do lado alemão: os tanques da testa da
16a DP, vanguarda do Grupamento Blindado de Von Kleist, somente
atravessam o rio no dia 11 de setembro. Durante 11 dias, tendo pela
retaguarda um dos rios mais largos da Europa, um corpo de exércitos isolado
quebra incansavelmente vagas sucessivas de infantaria, de cavalaria e de
carros blindados. Como Napoleão até o momento em que deu lições de guerra à
Europa, o Comando alemão ainda pode pagar seus erros com a superioridade
tática de seus soldados. A junção dos dois grupamentos blindados é feita no
dia 16. Os restos do Grupo de Exércitos Budienny encontram-se comprimidos no
triângulo Kiev-Tcherkassy-Priluki. O 2o exército aperta o lado
norte. Os grupamentos blindados dilaceram o flanco leste. Os reconhecimentos
aéreos relatam imagens incríveis desse bolsão gigantesco, no qual se debatem
mais combatentes do que a Wehrmacht cercou em Flandres. Grandes colunas de
infantaria, massas de cavalaria e carros blindados, comboios de toda
natureza, movem-se em desordem sob uma formidável nuvem de poeira. O 8o
Flieger Korps martela implacavelmente esses vencidos. Toda direção de
conjunto e todo comando desapareceram. As tropas alemães arrebatam uma presa
colossal. Tomam até fábricas encaixotadas, já carregadas nos trens que não
tiveram tempo de partir. No dia 18, fracassa a última tentativa de levantar
o bloqueio do Grupo Budienny. Kiev sucumbe no dia 19. O vasto bolsão é
subdividido. Uma enorme massa russa está isolada pelo 6o Exército
entre Borispol e o Dnieper. O 2o Exército fez junção com a ala
esquerda do 17o Regimento, contornando pela retaguarda a batalha
agonizante, a ala direita deste último, o 52o e o 55o
CE, já invade a Ucrânia oriental, toma Poltava e Krasnogrado. Jamais a
Wehrmacht fez, de uma só vez, tantos prisioneiros: 655.000. Muitos morrem de
fome, sem que se trate, aliás, de qualquer crueldade sistemática do Exército
alemão, mas sim pela impossibilidade de alimentar tantos cativos em um país
devastado. Nesta vitória, quase sem comparação na História,
há um único ponto negro: o tempo. A chuva começou e cair no dia 3 de
setembro, e não se compreendeu logo que ela nada tinha de comum com as
tempestades dos princípios do verão. É uma chuva sem barulho, uma chuva forte
e densa, atrás da qual não há mais o sol ardente que secava em alguns minutos
o lodo superficial formado pelas nuvens de tempestade. A lama que nasce desta
chuva metódica adquire uma consistência e uma força de sucção
extraordinárias. O solo transforma-se num atoleiro e, em um país sem estradas
pavimentadas, o menor deslocamento exige esforços e demoras incríveis.
Guderian levou 5 horas para percorrer 75 km e, depois de várias vezes, os
horários alemães foram perturbados pelas péssimas condições do tempo e do
solo. Ainda não é o Schlammperiod (período da lama), a rasputitsa, a estação
sem caminho dos russos; é apenas uma amostra. |
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Hitler decide: “Nach
Moskau!”
A vitória da Ucrânia é um triunfo pessoal para
Hitler. Mais uma vez, contra a oposição de seus generais, ele cobriu de
glória as suas bandeiras. Depois de tantas lições de audácia, é uma lição de
prudência que acaba de dar. Eles queriam marchar diretamente sobre Moscou,
fascinados, como Bonaparte, pelo nome da cidade, deixando o flanco aberto a
um exército de um milhão de homens! Ele, Hitler, ficou com a verdade
estratégica, destruindo primeiro a ameaça. Provou, nesta operação magistral,
a flexibilidade e os recursos sempre renovados de seu gênio. A batalha de
cerco da Ucrânia, extrapolação gigantesca da batalha de Cannes (entre os
cartagineses de Aníbal e os romanos, 216 a.C.), é o inverso da batalha de
Sedan. Clássico e revolucionário, estrategista e psicólogo, tático e
visionário, o Fuhrer ganhou o título que lhe outorga a pequena corte melancólica
de Rastenburgo: o maior general de todos os tempos... É neste momento que Adolf Hitler toma,
pessoalmente, a direção das operações na Rússia. O OKH lhe parece como um
órgão inútil, como uma interposição deformante entre os estímulos que dá a
resposta dos executantes. Angerburgo, a partir da batalha da Ucrânia, é
apenas um transmissor de ordens. As vastas sínteses estratégicas que Franz
Halder continua a fazer tornam-se simples confidências para seu diário
secreto: já não lhe é permitido abrir a boca diante do Fuhrer. E como Keitel
e Jodl são apenas máquinas que dizem “sim”, é definitivamente consigo mesmo
que Adolf Hitler tomará, daqui para diante, os conselhos. Ele se encontra diante da mais grave decisão de
sua carreira aventurosa. Sua intenção era abater a Rússia com uma só campanha
e acabar com ela antes do fim de 1941. Será possível ainda? Ou será preciso
reconhecer que a aniquilação do Estado soviético deve ser adiada para o ano
seguinte - e assim Hitler deve conformar-se com uma campanha de inverno?... A batalha da Ucrânia terminou no dia 26 de
setembro. A guerra entra no quarto mês. Assim, já foi necessário consagrar à
Rússia duas vezes mais tempo do que à França - enquanto todos os peritos
concordavam em dar ao Exército francês um coeficiente de valor duplo ou
triplo do Exército russo. A primeira surpresa veio da coragem dos combatentes
- enquanto se supunha que o patriotismo estivesse destruído pelo bolchevismo
e se contava com o desmoronamento do moral. A segunda surpresa provém da
abundância de material e, notadamente, do número de carros blindados russos.
A terceira surpresa reside na rapidez com que o Exército soviético - como
certos organismos primitivos - se reconstitui. Halder, que qualificava a
Rússia como um colosso de pés de barro, o constata: “Começamos a guerra
prevendo 200 divisões inimigas; encontramos 360. Destruímos uma dúzia; surge
uma nova dúzia!”. Hitler não experimenta a menor surpresa. As palavras que
deixa escapar diante de Guderian, ele repete diante dos íntimos: “Se soubesse,
não teria começado esta guerra. São coisas que se pode dizer quando se tem a
vitória na mão”. Noutras palavras, o Fuhrer está consciente de ter corrido o
risco. Está igualmente certo de que sua estrela não o abandonou e que o
perigo está superado. Essa última convicção é alimentada pela batalha da
Ucrânia. Ela parece atestar que a capacidade de reconstituição do inimigo
chega ao fim e que sua vontade de combater está, finalmente, quebrada. Grande
número de prisioneiros rendeu-se apressadamente. Muitos oficiais superiores
maldisseram o regime e vilipendiaram o Alto-Comando vermelho. Muitos soldados
eram reservistas idosos e muitas unidades de formação recente tinham somente
um armamento incompleto. O valor do Exército Vermelho era maior do que o Estado-Maior
Alemão imaginara. Os esforços para destruí-lo foram mais violentos do que se
tinha previsto. Mas, assim mesmo, o resultado está sensivelmente alcançado: o
inimigo não se agüenta mais. O estado do Exército alemão, pelo contrário, não
inspira inquietações. No dia 1o de setembro, segundo aniversário
da entrada da guerra, Alfred Jodl mostrou ao Fuhrer um quadro comparativo: as
perdas alemães se elevaram, durante esses dois anos de hostilidades, a
418.805 homens, dos quais 90.441 mortos e 29.687 desaparecidos; durante os
dois primeiros anos da Primeira Guerra Mundial, a cifra alcançara 3.117.797
dos quais 416.672 mortos e 371.321 desaparecidos. A guerra hitlerista, assim,
custa 8 vezes menos do que a guerra imperial e, por este baixo preço de
sangue, Adolf Hitler, após ter conquistado a Europa, está jogando a Rússia
para a Ásia! Comparativamente, o material sofreu mais que os
homens. Os relatórios dos exércitos estão repletos de enumerações de carros
blindados, da canhões, de caminhões, de transportes de munições e de víveres,
de ambulâncias, destruídos pelo fogo ou afundado na lama. O déficit de
cavalos é muito importante, e será ainda maior, com os cavalos alemães
suportando mal o clima russo e sem que haja grande remonta feita às custas do
inimigo. Apesar disso, Hitler sabe que não devem ser encaradas tragicamente
as queixas dos comandantes de unidades. Toda guerra se ganha com restos
contra restos. Os dos russos, depois da perda de 3 milhões de prisioneiros e
de um imenso material, são ruínas. O dos alemães são consideráveis. Os
efetivos da infantaria não chegaram a diminuir 15%. De 70 a 80% dos tanques
dos grupamentos blindados números 1, 3 e 4 foram repostos. O Grupamento
Blindado n° 2, que pagou por um longo desvio pela Ucrânia, será recompletado apenas
com 50% de seus carros de assalto. Ainda é percentagem satisfatória para
acabar uma campanha. A única consideração que preocupa é a data. O
verão está terminando. As chuvas de advertência do começo de setembro
cessaram, mas a verdadeira estação da lama se aproxima. Ela enlodaça a
guerra, como a tudo mais, e depois vem o frio com todo seu vigor. Se o
Exército alemão parasse agora, organizasse seus aquartelamentos de inverno,
restabelecesse as comunicações, organizasse suas conquistas, estaria estabelecido
em um magnífico mapa de guerra e poderia colocar-se bem para receber em
condições toleráveis o assalto do General Inverno. Em compensação, é
temerário empreender em outubro, mesmo contra um inimigo enfraquecido, a
série de operações de grande envergadura que continuam no programa da
Wehrmacht para 1941: completar a ocupação da Ucrânia, conquistar a Criméia,
avançar no Cáucaso, tomar Moscou, alcançar a linha Astracã-Arkhangelsk! As
distâncias e a pobreza das comunicações representam, por si só, handicaps
quase proibitivos. Mas Hitler é prisioneiro do calendário que
formulou. Desfazer-se da Rússia, em 1941, é indispensável ao desenrolar de
seus planos. Uma campanha de inverno significa que a Wehrmacht ficará
imobilizada no Leste até o verão de 1942. A Inglaterra, que devia ser abatida
na primavera, recebeu nova trégua. Os Estados Unidos, desde o Pacto do
Atlântico, passaram a um estado de quase-beligerância. A Rússia pode
encontrar um segundo fôlego com a ajuda das potências ocidentais. A ocupação
do Irã indica que os Estados Unidos e a Inglaterra estão prontos para os
maiores sacrifícios a fim de ajudá-la. A transferência das forças russas do
Extremo Oriente para a Rússia européia - conseqüência da aproximação
russo-japonesa favorecida por Hitler - está em curso. “De Chita a Krasnoiarsk
- narra um viajante do Transiberiano - contei 200 trens militares rodando
para o Oeste. Cada trem era composto de 25 vagões, 10 para a tropa, os outros
para o material, inclusive aviões encaixotados...” Deixar passar o inverno
eqüivale, pois, a permitir a reconstituição de um grande exército russo
contra o qual se terá que recomeçar uma campanha quase ganha. Uma razão de prestígio pesa nas condições de
Hitler. Durante a preparação da campanha, ele se opôs com vigor à concepção
de uma vitória em dois tempos. Era a idéia de Brauchitsch, que queria
contentar-se, em 1941, em tomar Leningrado; de Rundstedt, que considerava o
máximo possível a conquista de uma linha Odessa-Kiev-Orscha-Riga; de Kluge,
que tinha em vista um avanço frontal até Moscou, após o que seriam
estabelecidos novos planos para 1942. Contra essa coalizão de espíritos
timoratos, Hitler manteve a opinião de que a totalidade dos objetivos
estratégicos e econômicos poderia ser e seria alcançada em 1941. Foi por isso
que se recusou categoricamente a ouvir aqueles que lhe falavam em equipar o
exército contra o grande frio. “Não quero mais ouvir falar - declarou - nas
dificuldades que nossas tropas possam encontrar durante o inverno. Proíbo que
alguém me fale disto. Pois não haverá campanha de inverno...” seria
necessário, agora, que ele se desmentisse! Enquanto se está apenas em
setembro, o tempo se tornou esplêndido; o calor excessivo caiu, o solo está
duro como asfalto, o flagelo da poeira diminuiu de intensidade, o inimigo
está batido e os soldados cobrem os muros de seus acampamentos e as chapas
dos veículos com as palavras Nach Moskau! A 15 de setembro, Hitler prescreve o recomeço da
ofensiva em toda a frente. Fixa a data: 2 de outubro. Dirige ao Exército e ao
povo alemão duas proclamações, frisando o caráter grandioso da peripécia que
começa: “Esta última batalha do ano significa o esmagamento de todos os
responsáveis pela guerra, inclusive a Inglaterra! Afastareis do Reich alemão
e da Europa um perigo igual àquele que representaram os Hunos e os Mongóis...
Falo assim porque o inimigo já está batido e nunca mais tornará a se
levantar...” Para esta última batalha na Rússia, importantes
modificações foram introduzidas no dispositivo alemão. A ofensiva deve
recomeçar do golfo da Finlândia ao mar de Azov, mas a dosagem das forças
traduz a hierarquia dos objetivos. Ao norte, Leeb se limitará a apertar o cerco de
Leningrado. Não procurará tomar a cidade, pois o Fuhrer a considera como
neutralizada e não está disposto a alimentar os 2 milhões de habitantes que a
povoam. “Nenhuma capitulação será aceita... Nenhum soldado alemão deverá
penetrar no interior de Leningrado... Brechas tão estreitas quanto possível
permitirão o êxodo da população para o interior da Rússia, mas quem quer que
tente abandonar Leningrado, refugiando-se nas nossas linhas, será repelido a
bala...” Para estas tarefas os blindados são inúteis. O 18o
Exército, de Von Kuchler, é reduzido, assim, a 10 divisões de infantaria, que
prosseguirão, contra a numerosa guarnição da antiga capital, numa guerra de
trincheiras. O outro exército do norte, o 16o, de
Busch, está em posição em torno do lago Ilmen. Conserva, além de 13 divisões
de infantaria, o 39o Corpo Blindado, de Schmidt, com 2 Panzer e 3
divisões motorizadas. A razão desta dotação de unidades rápidas é a ofensiva
insólita prescrita a Busch. Ele deve atravessar o Volchov e atacar em direção
do Nordeste. O único objetivo estratégico nesta direção é Arkhangelsk - mas
ela está separada das posições alemães por 200 km de florestas compactas já
tomadas pelo inverno. Hitler, entretanto, recusa-se a renunciar a este
movimento ofensivo excêntrico. Busch tomará, na primeira etapa, o
entroncamento ferroviário de Tichvin, tomar as jazidas de bauxita de
Boksitnogorsk e fará junção com os finlandeses, no Svir. Uma impressionante convergência de meios foi
realizada para o grupo de exércitos principal, o do Centro. Leeb cedeu-lhe
seu grupamento blindado, que, transportado para o centro da frente, formará 5
Panzer, 2 divisões motorizadas e 2 divisões de infantaria. Rundstedt, se seu
lado,. É despojado de 5 divisões de infantaria, 2 Panzer e de uma divisão
motorizada. Para a operação Tifun (Tufão), nome convencional da ofensiva
contra Moscou, o Marechal von Bock vai dispor das forças mais poderosas
jamais agrupadas sob o comando de um general subordinado: 22 corpos de
exército, 46 divisões de infantaria, uma de cavalaria, 15 blindadas, 9
motorizadas, 6 de polícia, uma brigada de cavalaria das SS - totalizando 100
grandes unidades, que representam perto de um milhão de homens. As forças
aéreas compreendem os 7o e 8o Flieger Korps, formando a
2a Luftflotte, sob o comando do Marechal Kesselring. Recursos imensos, é verdade! Adolf Hitler emprega
na batalha do Moskova, o décuplo dos efetivos que Napoleão pusera em linha em
Borodino. Seu problema é o mesmo: bater, de maneira decisiva, a principal
massa russa antes de fazer sua entrada em Moscou. Mas, embora tão importante
que sejam por si mesmos, os recursos de Von Bock só podem ser apreciados de
uma maneira relativa. De Veliki Luki a Romny, a frente do Grupo de Exércitos
do Centro mede, em linha reta, 750 km. Bock, assim, ataca em uma frente que é
o quádruplo da frente ofensiva de toda a Wehrmacht em 12 de maio de 1940,
enquanto a densidade de estradas de que dispõe representa apenas um décimo da
rede ferroviária franco-belga. Suas forças aéreas são de uma fraqueza
impressionante. Que significam 549 aparelhos de reconhecimento, sobre uma
área geográfica imensa, coberta de espessas florestas? Um simples corpo
blindado em Sedan podia contar com um apoio aéreo tão importante. Este poderoso Grupo de Exércitos Von Bock está
subdividido em três massas, compreendendo, cada uma, um exército e um
grupamento blindado. Strauss e Hoth, ao norte, com o 9o Exército e
o 3o Grupamento Blindado, compreendendo, no conjunto, 5 Panzer e
17 divisões de infantaria, das quais 2 motorizadas. Kluge e Hoeppner, ao
centro, com o 4o exército e o 4o Grupamento Blindado,
com 5 Panzer e 15 divisões de infantaria, das quais 2 motorizadas. Weichs e
Guderian, ao sul, com o 2o Exército e o 2o Grupamento
Blindado, com 5 Panzer e 20 divisões de infantaria, das quais 4 motorizadas.
Todas estas forças devem, primeiro, participar da batalha de cerco, que,
segundo os termos da Diretiva n° 35, deverá “aniquilar o Grupo de Exércitos
de Timochenko”. Depois, a ala esquerda e a ala direita atravessarão o
meridiano de Moscou para ira até as margens do Volga, de Rybinsk a Gorki. A
força do centro cercará e tomará Moscou. O “Grupo de Exércitos Timochenko”, que e trata de
bater de maneira decisiva, já estivera em Baranovitch, Minsk, Borissov,
Vitebsk, Smolensk e Roslavl. Participa desta assombrosa faculdade de
reconstituição de que se maravilha Halder. Em julho, a rota de Moscou estava
aberta: a aviação assinalava um completo vazio a leste de Smolensk. No começo
de outubro, o serviço de contra-espionagem alemão estima que o Grupo de
Exércitos Timochenko está reconstituído em razão de 62 divisões de
infantaria, 9 de cavalaria, 11 brigadas ou divisões blindadas, mais umas 20
divisões mal identificadas, suportando sem descanso uma sucessão de fracassos
sangrentos, obrigando os alemães, com sacrifícios, a evacuar a saliência de
Jelna. Depois, em setembro, cessaram os ataques; os russos refugiaram-se na
defensiva, confirmando a impressão de que alguma coisa se quebrou no Exército
soviético. Em compensação, prosseguem os trabalhos de fortificação com
energia intacta: nunca se removeu tanta terra quanto durante o outono de
1941, diante do objetivo atacado, Moscou. Ao sul do Grupo Centro, o Grupo Sul se prepara,
igualmente, para recomeçar a ofensiva. A vitória de setembro, na Ucrânia
setentrional, abriu, realmente, um vazio completo. A aviação assinala vastas
regiões totalmente desprovidas de tropas inimigas. Rundstedt, depois das
cessões que fez ao Grupo Bock, ainda possui 35 divisões de infantaria, 3
Panzer, 3 divisões motorizadas e mais 6 brigadas romenas, 2 brigadas
húngaras, uma eslovaca, um regimento croata e 3 divisões italianas, que Mussolini
conseguiu fossem aceitas por Hitler. Teria sido possível fazer com que estas
forças consideráveis participassem na ação contra Moscou, seja prolongando
até Voronej a frente de ataque do Grupo Centro, seja, de preferência,
constituindo uma massa de reserva. Mas esta não é a concepção de Hitler. No
Sul, mais do que em qualquer outro lugar, chegou o momento da exploração da
vitória - e é no Sul que se encontram os principais objetivos econômicos.
Longe de se concentrar para o esforço final, o Exército alemão ainda se abre
como um leque. O 6o Exército, de Reichenau, com 12
divisões de infantaria (DI), tomará Kharkov. O 17o exército, de
Von Stupnagel, com 14 DI, conquistará as grandes aglomerações industriais e a
foz do Donetz: Losovaya, Slavjansk, Artemosk, etc. O 1o Grupamento
Blindado, de Kleist, com 3 DP, 2 DI motorizadas e 1 DI, o ajudará nesta
tarefa, conquistando Stalino por sua ala esquerda; pela ala direita, tomará
Rostov e estabelecerá uma cabeça-de-ponte no Don, em direção de Maikop e
Batum. O 11o Exército, com 8 DI, estará empenhado em uma direção
ainda mais excêntrica: reforçado pelo pequeno 3o Exército romeno,
tomará a Criméia e, depois, atravessará o estreito de Kertch, para participar
do assalto ao Cáucaso. Como seu chefe, Von Schobert, fez uma aterragem fatal
em um campo de minas, Hitler chamou paras substituí-lo o hábil Manstein, que
para isso foi retirado da frente de Leningrado. Diante do Grupo de Exércitos Rundstedt,
encarregado de tantas missões divergentes em uma imensa frente de 1.200 km, o
serviço de contra-espionagem alemão enumera dois grupos de exércitos russos,
na frente sudoeste e na frente sul, compreendendo, respectivamente, o 40o,
o 21o, o 38o, o 6o, o 12o e o 18o,
o 37o, o 9o, o 56o e o 51o
exércitos soviéticos, com um total de 82 grandes unidades. Se a Ucrânia do
Norte parece quase sem defesa, a rota do Cáucaso e os limites da Criméia, em
compensação, estão barrados por forças poderosas. Mas admite-se que se trata
de formações medíocres e que a Wehrmacht pode desprezar o cálculo dos
efetivos. 9 de
outubro: primeira neve Dois de outubro, data da ofensiva alemã, é um dia
ideal, fresco e luminoso. Em Moscou, houve um acontecimento importante. Uma
missão anglo-americana, chefiada por Lorde Beaverbrook e Averell Harriman,
assina com Stalin um acordo pelo qual as duas potências ocidentais precisam a
ajuda que se obrigarão a entregar à URSS, de 1o de outubro de 1941
à 1o de julho de 1942: 3.000 aviões, 4.000 carros blindados,
30.000 caminhões, 100.000 toneladas de combustível, etc. Em troca, o Governo
soviético dá uma espécie de adesão à Carta do Atlântico, fazendo, em todo
caso, retirar dos benefícios que ela promete a liberdade de opinião e de
religião. Os russos recebem com altivez a ajuda que lhes é dada, declaram que
isso não é mais que uma pobre substituição à abertura de uma segunda frente. Moscou ainda está longe da guerra. Desde 22 de
julho, a Luftwaffe dirige alguns reides intermitentes contra a cidade: os
aviões topam com uma artilharia antiaérea infernal e são mínimos os estragos
que causam. Os abrigos são raros e as missões diplomáticas procuram a
segurança, dispersando-se pelas datchas (casos de campo) suburbanas. A
camuflagem da cidade, em compensação é sensacional. O Kremlin foi convertido
em edifício de apartamentos e o Teatro Bolshoi é substituído por um labirinto
de ruelas. A população parece indiferente e cansada. As notícias da frente
publicadas com grande atraso, referem-se unicamente aos combates que se
desenrolam nas duas alas, na Ucrânia e em Leningrado. Falou-se do setor
central, em agosto, para celebrar a heróica defesa de Smolensk e, em
setembro, para cantar a retomada de Jelna. Os moscovitas tem a impressão de
que uma vitória defensiva fora alcançada diante da capital e que a frente que
lhes interessa diretamente está estabilizada para o inverno. Esta convicção é
a mesma de Timochenko. Quando o ataque do Grupo Centro é desencadeado, a
surpresa é total. As fortificações construídas pelos russos, a terra que
estes removeram, as divisões que foram reconstituídas, tudo é inútil. Mais
uma vez, o Exército soviético se desmorona completamente diante do assalto da
Wehrmacht. Esta, apoiando-se nos resultados já obtidos, avançaria com mais
ímpeto. Ao norte da frente de ataque, as unidades Panzer
do 3o Grupamento Blindado atravessaram a posição fortificada em
uma manhã. O 41o PK, a 1a DP e a 36a
Motorizada cobre a manobra, dispersando as unidades russas que defendem o
entroncamento rodoviário de Blejoi. O 51o PK, a 6a e a
7a DP avançam diretamente sobre Viazma. Eis Cholm e, novamente, o
Dniéper, bem próximo de sua nascente. Uma brigada blindada soviética
contra-ataca, mas o confronto dos tanques ainda dá vantagem aos alemães, que
lançam uma ponte sobre o rio nascente e continuam a correr para sudeste.
Viazma, onde Napoleão insultou Berthier, é uma pequena cidade de uns 20.000
habitantes, em um vale verde. Os russos a defendem penosamente. O grupamento
blindado toma a cidade em 7 de outubro, apenas cinco dias depois do início da
ofensiva. Mais uma vez, combate com a frente voltada e a retaguarda exposta
para leste, enquanto o 5o, o 6o e o 8o
corpos vem ao seu encontro através das massas inimigas. O braço sul da pinça de Viazma não mostrou poder
menor de perfuração nem velocidade menor na exploração da abertura. No dia 8
de outubro, a 10a Panzer, de Hoeppner, e a 7a Panzer,
de Hoth, dão as mãos em um campo de batalha juncado de uma quantidade
prodigiosa de material inimigo. A agonia do novo “caldeirão” dura somente
cinco dias. Os russos se rendem em massa. Novamente intermináveis colunas de
prisioneiros põem-se a caminho para o Oeste, semeando a estrada de homens
mortos de disenteria e de privações. A ala direita do grupo de exércitos tem maior
trabalho. A batalha da Ucrânia fez Guderian descer até Romny, entre Kiev e
Kharkov, a 700 km de Moscou. É preciso, agora, que ele torne a subir para o
Norte, com a dupla missão de cercar as divisões russas que se encontram na
região de Briansk e, por Tula, cortar as comunicações de Moscou com o sul da
Rússia. Os caminhos são tão ruins que a menor coluna de caminhões os
arrebenta e qualquer chuva os transforma em lamaçais. Voando sem cessar de um
PC a outro, em seu Fieseler-Storch, Guderian se assusta com o tipo de
dissolução que a extensão da frente fez com que sofresse o poderoso e numeroso
grupamento blindado sob seu comando. Cem carros de assalto de substituição,
que finalmente conseguiu arrancar de Hitler, são bloqueados em Orscha pelas
dificuldades ferroviárias. Seus corpos de infantaria e seu 48o
Corpo Blindado ainda estão no coração da Ucrânia. Divide em duas as forças
que tem sob seu comando. O 24o PK, de Geyr von Schweppenburg,
marcha para nordeste com um movimento tão rápido, que os bondes ainda
circulam quando os tanques irrompem nas ruas de Orel. O 47o PK, de
Lemelsen, bifurca-se para noroeste, a fim de cortar a estrada ao 3o
e ao 13o Exércitos russos repelidos para leste pelo 2o
Exército alemão. É preciso combater constantemente, às vezes contra os T 34,
tão difíceis de destruir. No dia 9 de outubro, dois bolsões são fechados; um
ao sul, o outro a leste de Briansk, em uma paisagem branca, pois a primeira
nevasca caiu na véspera. Mas a fraqueza do 2o Exército não permite
limpar por completo as profundas florestas da região, nas quais unidades
inteiras vão reunir-se aos elementos empenhados em guerrilhas. A dupla vitória de Viazma e de Briansk não é menos
triunfal. Igual à batalha da Ucrânia. Foram destruídas 80 divisões; 663.000
prisioneiros capturados. As condições táticas destes grandes sucessos
sublinham a sua perfeição. Ataca-se um inimigo entrincheirado atrás de uma
frente contínua, na qual era preciso, antes de manobrar e cercar, abrir uma
brecha com ataque frontal. Esta dificuldade suplementar não retardou de um
único dia a vitória. A frente foi atravessada em toda parte desde o primeiro
assalto. O russo é um adversário duro como o couro, que sabe utilizar o
terreno e freqüentemente se bate com obstinação. Entretanto, mesmo no combate
defensivo, que mais lhe convém, é incapaz de fazer frente à infantaria alemã.
Hitler sustenta que o pior de seus soldados é melhor que o melhor dos
soldados estrangeiros. A confrontação está, agora, feita com todas as nações
militares do mundo: por conseguinte, é conclusiva. A infalibilidade continua a revestir o Fuhrer. Sem
ser tão retumbantes quanto a vitória do centro, as operações nas alas não
trazem nenhuma catástrofe, como receavam os generais, com uma dispersão de
esforços tão grande. No Grupo Norte, a queda de Leningrado estava
próximo quando Hitler, em 15 de setembro, retirou dos assediantes seus aviões
e carros blindados. Schlusselburg fôra tomada de assalto pela 20a
Divisão Motorizada. O 46o Corpo Blindado tinha atravessado as
defesas e alcançava os limites da aglomeração. As 1a e 291a
divisões abriram caminho até o golfo da Finlândia, isolando diversas divisões
russas no bolsão de Orianenburg. A guerra de cerco sucedeu a esta ofensiva,
sob a chuva fria que gela os soldados. Em compensação, o 16o
Exército atravessou o Volshov rumo a Tichvin. No Grupo Sul, o 6o e o 17o
exércitos avançam através das grandes regiões industriais do Donetz. No
extremo sul, Von Kleist e Manstein cercaram um exército russo nas margens do
mar de Azov e o destruíram, fazendo 65.000 prisioneiros. O grupamento
blindado continua sua marcha para Rostov-sobre-o-Don, enquanto o 11o
exército recebe o encargo de conquistar a Criméia, forçando o istmo de
Perekop. Movimentos tão divergentes criam, entre os
exércitos, hiatos com que os generais tendem a se amedrontar, e que tentam
reduzir. Hitler vigia, para que não cedam à timidez. Descontente com Heinrich
von Stulpnagel, tira-o do comando do 17o Exército, que é confiado
a Hoth. Este transmite seu grupamento blindado a Reinhardt. Intervém duas
vezes, porque o Corpo de Exércitos Rundstedt tenta subir para o Norte,
procurando alinhar-se na ofensiva do Centro. É preciso que o Volga e o Cáspio
sejam alcançados antes do Natal e que o petróleo do Cáucaso comece a
alimentar a economia de guerra alemã em 1942. Bruscamente, o pânico apodera-se de Moscou. A
queda de Orel e de Viazma concretiza a aproximação da invasão. A censura
abafa as notícias, mas os rumores correm, pintando a situação com as cores
mais sombrias. No dia 15 de outubro, nada pode dissimular aos moscovitas que
o Corpo Diplomático e o Governo abandonam a cidade. Um trem abarrotado leva
os embaixadores para destino desconhecido. Outro trem leva os ministros, os
altos funcionários e o Corpo de Baile do Bolshoi. Os víveres são raros, as
paradas, em plena estrada, para deixar passar os trens de tropas duram horas
e é uma horda esfomeada que, depois de 5 dias de viagem, desembarca em
Kuibytchev, no Volga, a 900 km de Moscou. Falta uma única figura no trem
governamental: Stalin. Ficou no Kremlin - mas não sabemos, ainda hoje, se foi
com a intenção de sepultar-se em suas ruínas ou se esperava reunir-se à
capital provisória no último instante. O relato do que se passou em Moscou nessa época é
igualmente incerto. Segundo a história oficial, o Partido Comunista tomou a
defesa nas mãos, galvanizou as massas, arregimentou os trabalhadores,
identificou-se com grande esforço patriótico da capital e da nação. Segundo
outras fontes, o Partido Comunista se desagregou, os altos funcionários
fugiram e os número dos aderentes se multiplicou. Explodiram desordens, lojas
foram saqueadas, e policiais, assassinados. Foram os militares que retomaram
o controle da cidade. Substituindo Timochenko, que Stalin enviara para
comandar o Sul, George Zhukov, chegando da Sibéria, tomou a direção da frente
central. Decretou o estado de sítio, reprimiu as desordens, mandou fuzilar os
soldados debandados que apareceram nos subúrbios. A população foi convocada.
Procissões de formigas humanas deixaram Moscou e se dirigiram para os dois
fossos contra tanques, que Zhukov fizera cavar em torno da capital. Do alto do
céu, os aviões alemães viam uma fina linha negra, um verdadeiro cinturão
humano sobre o qual lançavam panfletos com versos mal feitos: “Mulherzinhas
de Moscou - Não tenham tanto trabalho - Pois nossos grandes tanques chegam -
E encherão os pequenos fossos”. O rádio exaltava o patriotismo e lembrava
1812. Mas as estradas do Leste se cobriam de fugitivos e multidões imensas
tomavam de assalto as estações de Kazan e Iaroslavl. No dia 14 de outubro, novas instruções são dadas
aos exércitos do Grupo Centro. Cercarão Moscou. O 9o Exército e o
3o Grupamento Blindado se dirigirão para Riev e Kalinin. O 4o
Grupamento Blindado passará pelos limites da cidade, ao norte. O 4o
Exército atingirá a frente de Mojaisk-Kaluga e depois retomará a progressão
até os subúrbios ocidentais da cidade. O 2o Exército, assim que
tenha limpado os bolsões de Briansk, se dirigirá para sudeste, a fim de
fechar a brecha que está aberta entre o Grupo Centro e o Grupo Sul. O
Grupamento Guderian, promovido ao título de 2o Exército Blindado, tomará
Tula e Kolomna. Como em Leningrado, o Fuhrer proíbe aceitar a capitulação da
cidade. É preciso obrigar sua população a fugir, tangida pela fome ou pelos
bombardeios para que ela aumente, com seu êxodo, o caos reinante nas
províncias orientais da Rússia. Somente se entrará em Moscou quando esta
estiver vazia. Uma ordem particular de Hitler prescreve fazer explodir
imediatamente o Kremlin. Os generais, mais uma vez, estão em desacordo com
as diretivas de Hitler. Bock as considera inexeqüíveis. Queria concentrar
suas forças, atirar-se sobre Moscou, tomar a cidade com um ataque frontal e
lá se manter pelo restante de 1941. Enquanto isso, Hitler já traça nos mapas
os eixos das progressões ulteriores: Kalinin-Iaroslavl, Moscou-Gorki,
Kursk-Saratov... Ele não renunciou à intenção de ocupar toda a linha do Volga
antes do Natal. Na realidade, mesmo o movimento limitado desejado
por Von Bock é, momentaneamente, impossível. Uma primeira catástrofe
meteorológica acaba de se abater sobre o Exército alemão: há muita lama. As grandes chuvas, misturadas com nevascas
prematuras, começaram em 10 de outubro. Os alemães as esperavam, mas, apesar
de suas experiências polonesas na Primeira Guerra Mundial, estavam longe de
prever a amplitude do fenômeno no coração da Rússia. Todos os rios saem dos
leitos. Inundações a perder de vista fazem surgir obstáculos intransponíveis.
Os caminhos desaparecem em uma lama sem fundo. Os veículos se enterram até o
eixo, os cavalos até o ventre. A marcha torna-se um calvário, com a lama transbordando
acima das botas, incorporando-se às fardas, maculando o rosto, sujando as
armas, manchando os alimentos. Todo bivaque se torna impossível e, como as
casas foram incendiadas, as tropas exaustas deixam-se cair na lama. O frio
ainda não é intenso, mas a umidade o torna penoso e os pedidos de roupas de
inverno continuam sem resposta. Aliás, nada mais chega da retaguarda, além de
um pouco de pão. Os sapadores restabeleceram, com esforço titânico, as
ferrovias até Smolensk, Gomel, Dniepropetrovsk, mas a colocação de uma
terceira linha ainda não está terminada e, pela falta de material rodante
russo, o rendimento continua extremamente baixo: dois trens de 400 toneladas
por dia - uma miséria - na linha para Moscou. Das estações mais próximas das
tropas em posição, restam a percorrer distâncias que alcançam, às vezes, 200
km. Os caminhões, construídos para as estradas da Europa, atolam-se e
quebram-se. Seria necessário dispor-se de correntes, para aumentar a
aderência dos pneus, e de tratores com lagartas, para rebocar os veículos.
Pensar-se-á nisto para as próximas campanhas de outono. O mundo considerava a
Wehrmacht como o instrumento de guerra mais bem regulado, o mais inexorável
que jamais fora construído; não se duvida que houve um fracasso de previsão e
que é uma improvisação o que Adolf Hitler, temerariamente, empreendeu na
Rússia. É na Ucrânia, na terra negra, que a lama alcança a
maior intensidade. “No outono - diz o provérbio ucraniano - uma colherada de
água produz um balde de lama”. Outro provérbio diz que na Ucrânia não se
encontra nem uma vara nem uma pedra para enxotar um cão. Com exceção das
regiões de forte densidade industrial, aí as estradas sólidas são
desconhecidas. O Grupo Kleist (transformado em 1o Exército
Blindado), em marcha para Rostov, deve resignar-se a esperar o gelo, para
retirar os veículos do mar de lama. As tropas vivem apenas das batatas que
encontram nas fazendas, já que está suspenso todo abastecimento. A amplitude
das destruições deixa-as espantadas. Todas as localidades estão queimadas,
todas as fábricas estão pilhadas, toda as pontes foram pelos ares. Todos os
silos estão destruídos, milhares de cabeças de gado apodrecem no campo.
Contudo, ainda é graças aos cavalos prisioneiros de guerra, atrelados aos
telegas camponeses, que os alemães ainda conservam alguma mobilidade. A maior
parte de seus próprios cavalos, como os de Murat, estão mortos de privações,
mas os cavalos ucranianos são admiráveis: agüentam tudo. No Centro a situação não é nada melhor. Existe no
mapa uma linha majestosa, a auto-estrada de Moscou; mas o que é uma única
via, quase sem conexões laterais, quando se trata de abastecer cinco
exércitos? Além disso, a auto-estrada tem uma única pista de rolamento,
inacabada, cujo cimento se interrompe por várias léguas e cujas partes
sólidas estão recobertas por um metro de lama. O rio de veículos que ela
suporta avança somente com infinitas penas. No dia 20 de outubro, a
velocidade do escoamento do tráfego motorizado cai para 3 km por hora, entre
Gjask e Mojaisk. No dia seguinte, cai a zero. Cinco mil caminhões carregados
de víveres, de munições e de combustível ficam presos no lodo, sem esperança.
A auto-estrada já não funciona. Tenta-se passar para a antiga estrada do correio -
a estrada napoleônica: é melhor passar pela planície. Finalmente, como na
Ucrânia, são os cavalos russos e as carroças camponesas que salvam o grupo de
exércitos de uma paralisia total. A esse fenômeno natural, reúne-se um fenômeno
humano ainda mais inesperado: a aparição dos guerrilheiros. A teoria está em
Karl Marx: “Uma nação que combate pela sua liberdade não está obrigada a
observar as leis da guerra. Levantes em massa, procedimentos revolucionários,
guerrilha generalizada, tais são os únicos meios pelos quais lhe é possível
resistir a um adversário materialmente superior...” Pré-datando a teoria, o
precedente histórico de 1812: os camponeses sublevados atormentam o Grande
exército, seqüestrando estafetas, massacrando os retardatários. Apesar de sua
obsessão pelos franco-atiradores, os alemães não levaram a sério a
consideração de um perigo que parecia pertencer a um passado romântico. A
segurança das retaguardas está confiada a meia-dúzia de divisões chamadas de
segurança, compostas de velhos soldados do Exército Territorial, fracamente
armados. O SD, Sicherheit Deinst, ramificação militar da Gestapo, reúne a
elas temíveis especialistas em repressão, mas seus meios militares são
irrisórios: 4 Einsatzgruppen, cujo efetivo global não ultrapassa 4.000
homens. Ninguém imagina que a luta contra os guerrilheiros possa tomar a
forma de verdadeiras operações. Alguns enforcamentos serão suficientes para
fazer desaparecer toda a veleidade de brincar de guerra com a Wehrmacht... A desilusão chega rápido. O OKH, desde 25 de
julho, alertou o Exército contra as sabotagens das comunicações. O duro
Reichenau, em outubro, dá ordens repressivas ao 6o Exército, que
fazem Halder declarar: “Todo oficial decente deve jogá-las nas cestas de
papéis”. Mas, da sossegada Prússia Oriental, Halder não mede o caráter implacável
desta luta sem lei. Os soldados isolados capturados pelos guerrilheiros são
torturados, empalados, profanados. Represálias bárbaras respondem em vão a
esses atos de barbaridade. As zonas de insegurança se estendem. Conta-se
onze, desde o outono, na zona do Grupo de Exércitos Norte, das quais uma, de
Dino a Cholm, mede 100 km de diâmetro. No centro, as regiões florestais de
Briansk, de Orscha, de Vitebsk, e as regiões pantanosas de Borodino, de
Nevel, de Glusk tornam-se antros que seria preciso dezenas de milhares de
homens para limpá-los. Nas frágeis comunicações dos exércitos alemães, a ação
fustigante dos patriotas russos se intensifica dia a dia. O avanço prossegue apesar destas dificuldades.
Odessa é tomada no dia 16 - mas, em uma façanha militar notável, 70.000
homens da guarnição são retirados, pelo, mar, para Sebastopol. A conquista da
Criméia começa dois dias depois: o 11o Exército começa o assalto
às linhas de Perekop e delas se apodera após 10 dias de combate. Na Ucrânia
meridional, o 1o Exército toma Stalino e, no dia 30 de outubro,
atravessa o Mius, última barreira antes de Rostov-sobre-o-Don, antecâmara do
Cáucaso. Na Ucrânia setentrional, o 6o Exército entra em Kharkov
no dia 24, depois de ter patinado na lama de uma maneira fantástica. No Grupo
Centro, os dois bolsões de Briansk são esvaziados de 17 a 25. O 2o
Exército Blindado chega, no dia 30, diante de Tula, que o Regimento
Grossdeutschland em vão tenta tomar de surpresa. Diante de Moscou, o marechal
das vanguardas, Von Kluge, instala seu PC em Maloiaroslavets, quase na linha
de fogo: seu 13o Corpo apodera-se de Kaluga e o 57o
Corpo toma Borovsk, a 80 km do Kremlin. O 4o Grupamento Blindado,
mais ao norte, progride no eixo da auto-estrada: a 7a DI e a 10a
DP conquistam o povoado e a estação de Dorochovo, onde identificam a 82a
Divisão soviética, chegando da Mongólia Exterior depois de três semanas de
viagem pela ferrovia. Finalmente, o 9o Exército e o 3o
Grupamento Blindado se aproximam de Rjev. Hitler, em Rastenburgo, não tem qualquer razão
para recear que a campanha da Rússia esteja fracassando. Irrita-se com a
lentidão com que prossegue a marcha para frente, mede impacientemente o
caminho que falta percorrer até o Volga, atormenta Bock, mandar dizer a
Guderian que não compreende por que ele “não aumenta a cabeça-de-ponte no Oka
com a ajuda de suas unidades rápidas”. Porém, no conjunto, o plano é
cumprido. O OKH já não está pessimista. Generais que se revestirão de uma
clarividência retrospectiva, como Halder, julgam que a situação se torna
definitivamente favorável, que o russo está batido e que é possível alcançar,
antes do inverno, os objetivos essenciais da campanha. Nem Hitler, nem
Brauchitsch, nem Keitel, nem Jodl, nem Halder foram à frente uma única vez,
para ver com seus olhos as condições do terreno, das tropas e do inimigo. O
Alto-Comando alemão cai no erro que foi fatal, no ano anterior, ao
Alto-Comando francês: conduz a guerra abstratamente. Concretamente, o Exército alemão se esgota. A lama
o mata. Para marchar sobre Tula, Guderian manda revestir de tábuas a estrada,
mas esse assoalho improvisado desaparece na lama e as unidades rápidas
(Hitler censura-o por não saber utilizá-las) são incapazes de ultrapassar a
velocidade de um homem a pé. Elas alcançam, aliás, o limite da deterioração.
Restam 50 carros de assalto ao 24o Corpo Blindado, que Guderian
reagrupa sob o comando do Coronel Eberbach, reduzindo duas divisões blindadas
a uma fraca brigada. O desgaste da infantaria não é menor. As perdas
estatísticas ainda não alcançam 20% dos efetivos engajados em junho, mas a
maioria das companhias caiu ao efetivo de uma seção. A artilharia deixou os
canhões na lama. Os homens estão esfomeados. O General Heinrici observa que
seu corpo de exército não come pão há 15 dias. O calçado está gasto: muitos
infantes marcham com botas esburacadas e sem sola. Todas as manhãs o
Feldgrau, uniforme da Wehrmacht, parece mais fino, sob a brisa cortante, cada
vez mais cruel. Muitos soldados não tem cobertores: jogaram-nos fora, no
verão. O exército ainda marcha estoicamente. Mas o moral está alterado, pois
a realidade desmente uma propaganda que, depois da vitória de Viazma, tinha
proclamado que o Exército Vermelho deixara de existir. Os homens que combatem
diariamente contra um adversário aparentemente indestrutível ruminam
amargamente as fanfarronadas do Doutor Goebbels. Estrategicamente falando, a característica da
ofensiva é a total ausência de reservas. Todas as divisões estão em linha.
Não mais existe qualquer possibilidade de manobra para uma Wehrmacht que, há
alguns meses, obtinha suas vitórias mais pela manobra do que pelo combate. Um
esforço bergsoaniano leva adiante uma frente linear contra uma crescente
resistência de coisas e de homens. Hitler receia de tal forma uma mudança na
vontade dos generais, que proíbe a organização de posições de recuo. Para
evitar uma campanha de inverno, ele recusou-se a distribuir agasalhos de
inverno; para afastar a possibilidade de um recuo, não permite que se cave o
solo. Para abolir a lama, a neve, os maus caminhos, o desgaste das unidades
blindadas e dos calçados, ele se recusa a ir vê-los. Uma conferência reúne-se em Orscha, em 13 de
novembro. Halder convocou os chefes de estado-maior dos grupos de exércitos.
Escuta suas lamentações e suas sugestões. A de Von Leeb duvida ser possível
prosseguir a ofensiva contra Tichvin. A de Von Rundstedt leva a advertência
categórica do marechal: o Exército não agüenta mais, chega o inverno, é tempo
de parar a ofensiva. A de Von Bock sustenta, pelo contrário, que é necessário
continuá-la. Veio o gelo, solidificando o solo, permitindo recuperar os
veículos enterrados e restabelecer os transportes. O frio permanece moderado
e há sol. Pode-se contar com quatro semanas deste pré-inverno, antes das
baixas temperaturas e das neves profundas. A única coisa impossível é
hibernar nas linhas atuais, no meio de um país devastado. É preciso ou tomar
Moscou ou retroceder às posições do começo de outubro, recuar 200 km,
conceder a vitória ao inimigo, abandonar um terreno regado de sangue... É
preferível um último esforço. As tropas estão prontas a fazê-lo, para
alcançar o fim que nunca deixou de ser o delas desde o começo da campanha:
Moscou. A advertência dos chefes de estado-maior não tem
qualquer importância. Hitler tomou suas decisões e Halder é apenas seu
ditafone. Ele transmite as ordens que traz para aquilo que, apesar do
adiamento da estação, recebe o nome de Herbstoffensive, ofensiva de outono.
Não somente Moscou será tomada, mas os objetivos previstos para 1941 -
Maikop, Stalingrado, Gorki, Vologda, Iaroslavl - continuam válidos. O Fuhrer
exige que a Wehrmacht, no mínimo, não pare antes de uma linha que parta do
lago Onega e vá até Rostov pelas cidades de Rybinsk, Tarbov e pelo curso
inferior do Don. Isto representa avanços de 200 a 600 km para os exércitos,
mas, segundo Halder, a resistência diante de Moscou é o último esforço de um
Exército Vermelho agonizante. O inimigo já não está em condições de manter
uma frente contínua do Báltico ao mar Negro. Ele se retira da região entre o
Don e o Volga para se entrincheirar no triângulo Moscou-Satatov-Vologda. É
este último bastão que, de uma vez por todas, se trata de quebrar. O Japão escolhe a guerra Trágica temeridade de Hitler! Enquanto se exaure
na Rússia, a guerra inacabada no Oeste se volta inexoravelmente contra ele.
Forças imensas se levantam contra o Reich. A trégua é quase total para a Inglaterra. Os
reides aéreos praticamente cessaram. Os submarinos são tão bem combatidos,
que o número de suas vítimas cai de 154, em abril, para 34, em novembro.
Melhor aprovisionada de matérias-primas, livre dos ataques aéreos que
interrompiam a produção, a indústria inglesa aumenta rapidamente o potencial
militar da nação. Com 2.100 aparelhos de primeira linha, a RAF domina. Daqui
para diante, a Luftwaffe sobre todos os teatros de operação europeus e
africanos. O número de divisões do exército de terra se eleva a 99: 57 das
quais 12 de artilharia antiaérea, guardam o Reino Unido, 16 incluem-se no
Exército do Nilo, 9 estão no Iraque e no Irã, 8 nas Índias, etc. Apresenta-se
o problema do emprego destas forças intactas. A opinião pública, instigada
pelos agentes comunistas, pergunta a Churchill se ele vai deixar o Exército
inativo enquanto a URSS combate sozinha contra Hitler. O único teatro no qual a Inglaterra julga ser
possível aumentar a atividade terrestre é o contorno do Mediterrâneo. A
situação é favorável. As forças aéreas alemães de Creta e da Sicília
desaparecem, absorvidas pela frente russa. Os comboios ingleses tomam
novamente a rota direta de Alexandria. Malta, que vivia sob a ameaça de uma
operação do tipo da efetuada em Creta, tornou-se base ofensiva, de onde os
ingleses interceptam o tráfico destinado à África do Norte italiana. A
proporção das perdas germano-italianas durante a passagem era, em agosto, de
33%; em outubro, se eleva a 63% e, em novembro; Rommel avisa ao OKW que
recebeu apenas 8.093 toneladas das 600.000 que lhes tinham sido prometidas. O
Afrika Korps conta agora com 3 divisões - 15a Panzer, 21a
Panzer e 90a Ligeira. Os italianos reúnem 7 divisões de infantaria
e 1 divisão rápida, mas estas forças devem manter o assédio de Tobruk e a
insuficiência do abastecimento as paralisa. Tudo se conjuga para permitir que
a Inglaterra retome a iniciativa na Líbia. Churchill vê mais longe. Estuda, sob o nome
convencional de Whipcord, um projeto de invasão da Sicília com forças
transportadas da Inglaterra e desembarcadas de surpresa. Mas os chefes de
estado-maior se opõem. Ainda se está em outubro, a Wehrmacht continua
vitoriosa e a possibilidade de Hitler fazer voltar pelo menos um terço de seu
exército da Rússia é encarada para os dois meses seguintes. E, assim,
contra-indicado arriscar uma resposta alemã e enfraquecer a defesa do Reino
Unido quando uma nova Seelowe pode surgir. Contenta-se, assim, com a reconquista da
Cirenaica, designada sob o nome convencional de Crusader. O 8o
Exército (nome novo do Exército do Nilo) é colocado sob as ordens do
conquistador da África Equatorial italiana, o Tenente-Coronel Sir Allan
Gordon Cunningham. Seu irmão, o Almirante Sir Andrew Browne Cunningham,
comanda as forças navais, e um quase homônimo, o Vice-Marechal-do-Ar
neozelandês Arthur Coningham, comanda a aviação. A guarnição de Tobruk,
composta de 5 brigadas, participará da ofensiva com uma surtida. Os ingleses
consideram que têm superioridade de 2 para 1 nos carros blindados e de 4 para
1 nos aviões. Esperam, diz a ordem do dia redigida por Churchill: “uma página
da história que se igualará a Blenheim e a Waterloo...” A ofensiva começa a 18 de novembro, sob chuvas
torrenciais. Cinco dias antes, o luto cobriu a Marinha: um dos primeiros
submarinos enviados por Doenitz ao Mediterrâneo torpedeou o Ark Royal e todos
os esforços para manter à tona o veterano, reputado como insubmersível, foram
inúteis. A guerra entre a Alemanha e os Estados unidos, no
Atlântico, continua a se aproximar. No dia 11 de setembro, depois do ataque
ao contratorpedeiro Greer, Roosevelt dá a ordem “Atirem primeiro” a todos os
navios em patrulha na zona de segurança. Em 31 de outubro, o contratorpedeiro
Reuben James não é o primeiro a atirar e é afundado por um U-Boot,
acarretando a morte de 115 marinheiros americanos. As negociações com o Japão prosseguem
laboriosamente. O Imperador queria salvar a paz: intervém muitas vezes para
que todas as saídas diplomáticas sejam exploradas antes do recurso às armas.
O Príncipe Konoye, o Embaixador Nomura, muitos estadistas, um certo número de
almirantes e um número menor de generais partilham deste desejo. A apreciação
do poderio americano, salvo entre uma minoria de fanáticos, é extremamente
alta e a perspectiva de uma guerra com o gigante do outro lado do Pacífico é
encarado com receio. Por outro lado, o Japão está estrangulado. Embarcou no
“incidente chinês”: pode abandonar suas conquistas, voltar ao princípio da
“porta aberta”, renunciar ao campo de expansão pelo qual pagou sacrifícios
tão pesados? Optou pelo Sudeste Asiático, pelas riquezas da Indochina e da
Indonésia: pode enterrar-se, aceitar sua continuação como potência dependente
dos alimentos indispensáveis à sua indústria? É o que os Estados unidos lhe
pedem e, para conseguí-lo, o estrangulam. O embargo sobre o petróleo criou
uma situação dramática. O Japão armazenou combustível para um ano de
hostilidades; se consumir esta reserva insubstituível, não mais terá nem óleo
para seus navios nem gasolina para seus aviões. Se a guerra é fatal, é melhor
que venha logo. Mais tarde, será muito tarde. Em 6 de setembro, uma conferência reúne em Tóquio,
sob a presidência do Imperador, os chefes civis e militares do Japão. O
nervosismo é extremo, pois nenhum povo é mais emotivo e todos percebem o
caráter fatídico do debate. Faz-se uma lista de “exigências mínimas”:
não-intervenção anglo-americana na questão chinesa, fechamento da estrada da
Birmânia e supressão da ajuda a Chiang Kai-check, liberdade de acesso do
Japão às matérias-primas. Se, no começo de outubro, pelos meios diplomáticos,
parecer impossível a aceitação destas exigências, então será inevitável a
guerra. O Japão prorroga a paz por um mês. O Príncipe Konoye tenta utilizar esta curta
chance. É um homem muito idoso, muito sensato, que sobrevive há meio século
no meio das violentas agitações da política nipônica. Para dar mais força ao
Almirante Nomura, mandou a Washington o mais ocidentalizado de seus
diplomatas, Sabura Kurusu, marido de uma americana, e não desespera de todo
de realizar uma conciliação. Mas, em 7 de outubro, o Ministro da Guerra Tojo,
pede-lhe audiência. É para apresentar o ultimato do Exército: este não admitirá
que a retirada das forças japonesas da China seja considerada nas negociações
com os Estados Unidos. Konoye compreende: pede demissão mas, desta vez, sem
esperança de voltar. O novo Primeiro-Ministro é o próprio General Tojo.
A linha divisória entre a guerra e a paz está transposta. O ataque a Pearl
Harbor se prepara há uns dez meses, independentemente das flutuações
políticas. O promotor da idéia é o comandante-chefe das esquadras japonesas,
Almirante Isoroku Yamamoto. Ele conhece o poderio dos Estados Unidos e
preferiria que não houvesse a guerra do Pacífico. Se houver, é preferível que
se desenrole da melhor maneira possível para o Japão. Ele deve andar
depressa, levando em conta a modicidade de seus recursos, apoderar-se o mais
rapidamente possível das ricas presas que cobiça: Hong-Kong, a Malásia,
Cingapura, Sumatra, Bornéu e principalmente Java, a cornucópia de abundância
do Sudeste Asiático. Será possível? Sim. A guerra da China estendeu ao máximo
as forças da nação; as tropas terrestres são em número limitado, mas, por seu
lado, as forças inglesas, americanas e holandesas no Sudeste Asiático são
insuficientes, medíocres, dispersas, e o domínio do mar abre à agressão
japonesa todas as penínsulas e todos os arquipélagos. A Marinha de Guerra nipônica é a mais moderna do
mundo: 10 couraçados, 10 porta-aviões, 35 cruzadores, 111 contratorpedeiros,
64 submarinos e mais, em acabamento, 2 supernavios de linha, os maiores
jamais construídos, o Yamato e o Musashi, ambos de 63.000 toneladas e com
canhões de 400 mm. Este poderio naval e uma estratégia de surpresa prometem
ao Japão sucessos iniciais sensacionais. O que inquieta Yamamoto são as conseqüências. Os
Estados Unidos contra-atacarão. O Havaí é posição favorável para cair sobre
as linhas de comunicações marítimas que a dispersão das conquistas que se têm
em vista vai estender perigosamente. É prudente prevenir-se contra este
perigo, infringindo tais perdas à esquadra americana, que esta será obrigada,
durante certo tempo, a renunciar a todo movimento ofensivo. Yamamoto
certamente prevê que os Estados Unidos substituirão seus navios destruídos e
farão mais do que isto. Porém os dois ou três anos necessários a esta tarefa
permitirão ao Japão, enriquecido pelas conquistas, estabelecer-se solidamente
em um perímetro marítimo, desafiar todos os assaltos e esperar vitoriosamente
a hora da paz. A elaboração da surpresa de Pearl Harbor começa em
janeiro. Yamamoto encarrega disso, o chefe de seu estado-maior, Almirante
Tahijiro Ohnishi, que tem como adjunto o capitão-de-fragata Minoru Genda,
brilhante tático aeronaval de 36 anos. O banco de experiência escolhido é a
baía de Cagoxima, na ilha de Quiuxu, bem ao sul do arquipélago, por causa da
semelhança que tem com a enseada de Pearl Harbor. Um excelente serviço de
espionagem, baseado no Consulado-Geral do Japão em Honolulu, fornece todas as
informações necessárias. As repetições dos ensaios do ataque se multiplicam. Em compensação, nas altas esferas do Comando, o
plano de Yamamoto só encontra objeções. O Estado-Maior Geral o rejeita. O
comandante dos porta-aviões, Almirante Chuichui Nagumo, não acredita no
sucesso. O próprio Almirante Ohnishi se desencoraja e aconselha ao seu amigo
Yamamoto renunciar à idéia. Porém Yamamoto é o mais obstinado dos japoneses.
Põe sua demissão na balança: não conservará o comando das esquadras
combinadas se o Estado-Maior Geral mantiver sua oposição ao ataque surpresa a
Pearl Harbor. No dia 5 de novembro, a obstinação de Yamamoto
triunfa. O Estado-Maior Geral cede. Salvo um acordo diplomático de última
hora, a operação de Pearl Harbor se realizará em 8 de dezembro - data
japonesa, correspondente ao dia 7 das ilhas Havaí. Seria preferível o dia 10,
devido às condições da lua - mas o dia 7 é um domingo e os americanos têm o
costume de fazer os navios voltarem ao porto aos sábados, para que os
marinheiros não sejam privados do weekend... Os navios designados para participar do ataque
começam a deixar a base de Kure, um a um, em 10 de novembro. Alcançam a baía
deserta de Hitokappu, nas Curilas. Lá já é inverno, a neve cobre o
arquipélago e as equipagens tiritantes não tem a menor idéia por que razão
tantos navios se reúnem em um lugar tão desolado. Os pilotos dos aviões, eles
sim, sabem. No dia 5 de outubro, Yamamoto reuniu-se a bordo do Akagi, na baía
de Sbibushi. Revelou-lhes a finalidade e a data da operação para a qual
trabalharam tão assiduamente. A opinião geral foi de que se tratava de um
reide suicida. Oito dias de licença foram concedidos, em seguida. Tendo nas
mãos o maior segredo da guerra, convencidos de estarem marcados para morrer,
várias centenas de rapazes se dispersaram por todo o Japão. Nada transpirou. Um dos que, naturalmente, ignoram tudo é Adolf
Hitler. Pagam-lhe na mesma moeda. A aliança totalitária vai proceder mais uma
vez como uma tempestade tão inesperada pelos amigos como pelos inimigos. Moscou a 22 km: a Wehrmacht faz meia-volta A vida volta ao exército alemão na frente russa.
Um a um, como os retardatários reunindo-se à bandeira, os canhões retomam o
lugar nos grupos de artilharia e os caminhões nos caminhos da frente. Muitos
se arrebentam com o esforço dos tratores para arrancá-los da lama congelada,
mas ainda há bastante para que seja possível restabelecer as distribuições e
guarnecer novamente os depósitos de víveres. As ferrovias são postas
novamente em serviço até Rjev e Mojaisk. Aumenta o moral da tropa. O
termômetro, à noite, desce até 15 graus abaixo de zero, mas o frio ensolarado
das horas do dia permanece suportável e a idéia de tomar Moscou sustenta a
coragem. Este nome mágico associa-se a idéia do fim da guerra. A volta das
tropas para a Alemanha e a desmobilização do Exército começarão no Natal. Porém, as circunstâncias mudaram profundamente. O
Exército alemão ataca no limite do fim de suas forças. Hitler, na sua
presunção, esqueceu-se de alimentar as vitórias. Faltaram as ondas de
reforço, o material sobressalente, as tropas de reserva, os poderosos meios
necessários à restauração da retaguarda. Do Báltico ao mar Negro, a Wehrmacht
emprega na sua suprema ofensiva menos de 1.900 carros blindados e 1.000
aviões. As tropas frescas que a ela se juntaram desde o princípio da campanha
se reduzem a 2 divisões blindadas, a algumas unidades especiais, a um corpo
de exército italiano, à Divisão Azul espanhola e a três batalhões de
voluntários franceses, que receberam o batismo de fogo perto do campo de
batalha do Moskova. A Rússia, pelo contrário, concentrou seus recursos. As
fábricas dos Urais trabalham há seis meses sem que uma única bomba diminuísse
sua atividade. As tropas do Extremo Oriente chegam à linha de fogo. Moscou
está repleta de todas as vantagens de uma grande cidade: quartéis,
mão-de-obra, estoque de víveres e de combustível, aeródromos cimentados,
instalações ferroviárias, etc. A posição avançada construída por Zhukov é uma
zona fortificada de vários quilômetros de profundidade, partindo de Klin,
seguindo o curso do Istra, atravessando o Moskova em Svenirogog e a
auto-estrada em Kubinskoye, seguindo depois o Nara até a confluência com o
Oka e vindo apoiar-se no baluarte de Tula. As florestas que cercam Moscou
servem para a sua defesa, localizando os eixos do ataque nos caminhos.
Inumeráveis blockhaus os defendem, campos de minas os calçam, pilhas de
árvores cortadas os obstruem e as pontes estão carregadas de explosivos. O ataque começa, em 17 de novembro, com o tempo
claro e um frio forte. Os combates são encarniçados. A 2a Panzer,
a noroeste de Moscou, fica estupefata ao ver surgir dos bosques de
Volokolamsk toda uma divisão mongol em uma carga de cavalaria, brandindo os
sabres sob o fogo da artilharia e dos tanques. Alguns dias depois, a mesma 2a
Panzer captura o primeiro tanque inglês e ouve as críticas desdenhosas da
equipagem sobre as “caixas de ferro branco” que Churchill lhes envia. Apesar
do valor da resistência, os progressos nas duas alas do ataque são
substanciais. Ao norte, o 3o e o 4o Grupamento
blindados se aproximam de Klin, atingindo o canal Moscou-Volga, e forçam, com
perseverança, o cinturão fortificado. Ao sul, Guderian combate em uma região
com menos florestas, mais povoada, entremeada de aglomerações industriais.
Ele toma Jefremov, Jepifan, Dedilovo, Bocholovo, assim como Iásnaia Poliana,
berço de Guerra e Paz, onde se percebe a tempo que os russos minaram a
sepultura de Tolstoi. Tenta levar seu exército na direção norte, para
atravessar o Oka, mas seu flanco direito está descoberto e Tula é um espinho
enterrado em seu flanco. Excelentes notícias chegam do Grupo Sul aos
estrategistas reunidos em Rastenburgo. Rundstedt tomou, em 21 de novembro,
Rostov-sobre-o-Don, porta do Cáucaso. Manstein assedia Sebastopol depois de
ter conquistado rapidamente o resto da Criméia. Ao norte, o Grupo de
Exércitos Leeb tomou Tichvin - desmentindo o chefe, que dizia não ter sequer
meios materiais indispensáveis para semelhante expedição em tal época do ano.
Isso reforça Hitler sem eu princípio de ordem: exigir dos generais o que eles
chama de impossível, para obter o mínimo. A situação se grava de repente para o Grupo
Centro. Em 20 de novembro, antes da estação, uma onda de frio acompanhada de
fortes nevascas se abate sobre a Rússia central. O termômetro desce a 30
graus negativos. Muitos veículos motorizados estão fora de serviço, porque
não se distribuiu glicerina para os radiadores. A neve e a geada paralisam os
transportes. O abastecimento e o combustível deixam novamente de chegar. Como
não se pode deixar em funcionamento permanente os motores, é preciso
esquentar os carros blindados com a ajuda de grande fogueiras de madeira, se
se quer que eles tornem a partir. Os sofrimentos da tropa tornam-se
intoleráveis. Regimentos assinalam 400 casos de congelação dos pés. As
retiradas são extremamente difíceis e, sob as tendas dos hospitais de
campanha, os feridos são congelados vivos. Os homens não recebem a menor
refeição quente e alguns têm calças leves, como no mês de agosto. O Exército
ainda ataca. O 3o e o 4o grupamentos blindados tomam
Klin, atravessam o canal Moscou-Volga, cortam a ferrovia Moscou-Leningrado.
Porém o limite das forças humanas está próximo. As perdas de oficiais são
terríveis. Muitas companhias são comandadas por sargentos e regimentos por
tenentes. Guderian deixa seu PC, em Iásnaia Poliana no dia
23 e voa até Orscha, para descrever a situação da frente a Von Bock. Sugere
suspender a ofensiva, utilizar os carros blindados como fortins, equipar as
retaguardas e, na primavera, tomar Moscou. Bock deixa que ele fale, depois
liga o telefone, chama Angerburgo e, com seu subordinado na extensão do
telefone, repete fielmente o que acaba de ouvir. A voz longínqua de Halder
responde que não se trata de adiar a tomada de Moscou. A ofensiva deve
prosseguir até o limite das forças. O OKH conhece a resolução do Fuhrer e
recusa-se a levar-lhe as lamentações dos executantes. Uma advertência inequívoca é dada ao Alto-Comando,
cinco dias depois. O principal vencedor da campanha da França, Von Rundstedt,
é demitido. Ele tinha tomado Rostov-sobre-o-Don. A cidade, inteiramente
minada, explodiu literalmente sob os passos da Leibstandarte Adolf Hitler, vanguarda
do 3o Corpo Blindado. As pontes foram dinamitadas, os
franco-atiradores se esconderam nos subúrbios e a 128a Divisão
soviética contra-atacou com perseverança no Don gelado. O 38o e o
9o exércitos soviéticos, ao norte da cidade, entraram por uma
brecha da frente, ameaçando envolver toda a ala direita do 1o
Exército Blindado. A 13a e a 14a Panzer de Manteuffel
deram meia volta, contiveram o ataque, mas Rundstedt considerou que a ponta
de Rostov estava muito exposta e ordenou uma retirada geral para trás do
Mius. Era a primeira vez, desde o início da guerra, que um exército alemão
recuava! A chave do Cáucaso, Rostov, fora tomada somente para ser perdida uma
semana depois! A repercussão foi mundial. O Marechal-de-Campo Gerd von Rundstedt, relatando
a retirada que tinha ordenado, acrescentou que não poderia conservar a
responsabilidade do Grupo de Exércitos Sul se sua decisão fosse desaprovada.
A ordem de entregar o comando ao Marechal Von Reichenau lhe vem logo. A
Reichenau chega a ordem de retomar imediatamente Rostov. Ele voa ao QG de Von
Kleist, constata a gravidade da situação e, velho hitlerista, ousa telefonar
diretamente para o Fuhrer, dizendo que não tem qualquer alternativa senão
encurtar a frente, recuando até o Mius. Hitler não insiste. Mas Rundstedt já
voltou para a Alemanha e a medida que o atingiu não é revogada. O Don, que desemboca perto de Rostov, nasce perto
de Tula. Um dos Corpos de Guderian, o 53o PK, atravessa o rio em
26 de novembro: brilhante operação que ainda rende 4.000 prisioneiros e 42
canhões. Mas os russos replicam, lançando a 239a Divisão Siberiana
contra a 29a Divisão Motorizada alemã: esta cede sob o golpe,
deixa seus cadáveres espalhados na neve, restabelece-se penosamente no
momento em que Guderian, acorrendo, pensa se o golpe de aríete russo não vai
acarretar o deslocamento de seu exército. Os esforços mais custosos não
conseguem dar aos alemães um sucesso decisivo neste setor. Hoeppner ainda progride ao norte de Moscou. Toma
Dimitrov, no canal Moscou-Volga, a 32 km do Kremlin. Toma Istra, depois de
combates implacáveis entre os SS da Divisão Das Reich e a 78a
Divisão Siberiana. Mas as condições tornam-se cada vez mais difíceis. A
obscuridade não se dissipa antes das 10 horas da manhã e se restabelece às 3
horas da tarde. O termômetro cai até 40 graus negativos com breves subidas
seguidas de quedas profundas que gelam os homens até a medula dos ossos. Na
retaguarda, as locomotivas congelam. Na vanguarda, as culatras dos canhões
não se abrem e o mecanismo das armas automáticas não funciona, em
conseqüência do congelamento do óleo e do endurecimento da graxa. Tanques
devem ser abandonados porque é impossível desgrudar as lagartas do solo. A
manteiga fica dura como mármore. O pão é cortado a machado. Teve-se a idéia
de enviar um trem de vinho francês para sustentar o moral dos Feldgrauen:
chega - enquanto que os obuses não chegam - sob a forma de blocos de gelo
rosado, saindo dos vagões arrebentados. Todo ferimento é mortal: os pacotes
de ataduras individuais são duros como madeira e um ferido imobilizado
congela em alguns minutos. É perigoso satisfazer as necessidades naturais: a
urina gela e perecem homens pelo congelamento do anus. Os soldados tem apenas
um capote de tecido sintético, botas de couro falso e, às vezes, um cachecol
e um par de luvas. Cobrem-se com tudo o que lhes cai na mão, sacos velhos,
farrapos de peles encontrados nos isbas. O cadáver do inimigo torna-se uma
bóia de salvação, pois os russos estão melhor agasalhados e particularmente
suas botas de feltro salvam um homem. Os mortos são postos a degelar em torno
das fogueiras dos bivaques e os soldados tiram a sorte pelas roupas que lhes
conseguem arrancar. Guderian e Hoeppner atormentam o Marechal Von
Kluge. Seu pesado 4o exército, interposto entre os ataques dos
blindados, continua parado entre o Moskova e o Oka. Chega até o Nara,
afluente deste último, diante de profundas florestas. Sua esquerda alcança a
zona das datchas e sua divisão de ala, a 197a, ocupa a colônia de
férias dos artistas de Moscou. De noite, as sentinelas vêem o braço de luz da
artilharia antiaérea soviética dançando um bailado no céu. Os homens resolvem
esperar, abrigam-se do frio o melhor possível, pensam que, segundo o costume,
a marcha para a frente recomeçará quando as unidades blindadas tiverem
cercado o inimigo. Mas Hoeppner e Guderian protestam contra a imobilidade do
vizinho. Ele não está mais servindo, conforme o plano. A última chance de
tomar Moscou é que Kluge saia de suas linhas e ataque ao mesmo tempo que
eles. Kluge acaba consentindo. O 4o Exército começará a ofensiva
em 30 de novembro. Supremo esforço. Nos longínquos QGs bem aquecidos, começa a se
fazer uma luz parcial sobre a situação das tropas alemães. Os boletins de
informações sobre o inimigo mencionam a entrada em linha de 34 divisões
frescas, das quais 20 diante de Moscou, tropas siberianas acostumadas ao frio
e equipadas contra o inverno. Do lado alemão, resta como reserva uma só e
única divisão, a 255a DI. “Estamos - observa Halder - no limite
extremo de nossas forças”. De Orscha, Von Bock telefona, em 1o de
dezembro, fazendo longo relatório, contendo esta frase que resume tudo: “O
ataque, assim, apresenta-se sem sentido, uma vez que se aproxima o momento em
que a força das tropas estará completamente esgotada”. Munido deste
documento, Brauchitsch se faz receber por Hitler, com a intenção de
propor-lhe a suspensão da ofensiva contra Moscou. Sai da entrevista prestes a ter uma crise de
nervos. Hitler cortou-lhe a palavra, cobriu-o de injúrias, humilhou e
ridicularizou em sua pessoa a casta arcaica e estúpida dos militares
profissionais. Mas eles não ficarão por cima! A ofensiva continua. “Quero
Moscou! Terei Moscou! Você não me impedirá de ter Moscou!” O 4o Exército, lá longe, atravessa o
Nara e penetra nas florestas da margem esquerda. O trator afasta, diante da
tropa, uma neve dura como chumbo. Os instrumentos de óptica ficam
desregulados. A gasolina congela. O aço queima como se acabasse de sair do
alto-forno. Os invasores avançam, titubeando na tempestade. Os soldados que
progridem melhor são ainda os de Hoeppner. A 106a Divisão abre uma
brecha até Krásnaia Poliana, subúrbio industrial situado a 27 km de Moscou. A
35a DI, do General Barão Roman, no setor do Istra, toma as aldeias
de Alabuschevo, Kajukovo, Matuschkino, e vê, em uma encruzilhada, esta placa:
Moscou, 22 km. O grupo de reconhecimento da 258a DI, no setor do 4a
Exército, alcança os terminais de bondes, entrevê as torres do Kremlin na
fumaça da batalha. Mas isto é apenas uma estreita brecha e, no conjunto, o ataque
do 4a Exército fracassou. Von Kluge decide suspendê-lo. Guderian, ao sul da frente do ataque, ainda tentou
fazer cair o bastião de Tula. O 43o Corpo cerca totalmente a
cidade em 4 de dezembro e sua queda é só questão de horas. Porém Guderian
sente que é iminente a contra-ofensiva russa. Grandes grupamentos foram
assinalados na região do Oka e estão em curso desembarques na linha de
Riazan. Se essas massas caírem sobre o 2o Exército Blindado,
distendido e exausto, podem deslocá-lo e destruí-lo. O sol do domingo dia 6 de dezembro, 168o
dia da campanha da Rússia, raia em um céu miraculosamente limpo de nuvens de
chumbo. Toda a planície se assemelha a um cristal. As grandes florestas de
bétulas e pinheiros cintilam sob os capelos da geada. Nunca fez tanto frio.
Em Iásnaia Poliana, o termômetro pendurado fora da casa de Tolstoi caiu a 50
graus negativos. Guderian não mais hesita. Chama Von Bock pelo telefone e
pede-lhe que dê ordem a seu exército para retirar-se da saliência de Tula.
Espremido entre uma batalha perdida e um Fuhrer apavorante, Bock tenta
contemporizar. Pede a Guderian que vá à frente, para julgar de perto, antes
de tomar uma decisão tão grave. “Pensa que estou em Orel?” - responde
Guderian. “Estou em Iásnaia Poliana e combate-se ao lado do meu PC...” No mesmo momento, como se existisse telepatia
entre os condutores dos blindados, Hoeppner suspende igualmente a ofensiva,
decide reconduzir seu grupamento blindado para o Istra. Os alemães dão
meia-volta às portas da capital inimiga! Retirada custosa. Centenas de carros
blindados e de caminhões são imobilizados por falta de gasolina ou ficam
grudados ao solo, pelo gelo: é preciso destruí-los. Nas unidades com cavalos,
tem-se falta de parelhas e é indispensável sacrificar uma parte do material para
salvar a outra. Do dia 6 ao dia 12 de dezembro, os russos tomarão 386 carros
blindados, 704 tratores, 305 canhões, etc. O tempo claro não dura, o céu se
encobre, o vento sopra forte, os soldados alemães vão em pequenos grupos, a
arma a tiracolo, em meio a uma espécie de crepúsculo cuja poeira de neve
enche as horas do dia. O terrível precedente, que não deixou de atormentar os
espíritos desde o começo da campanha, impõe-se como uma força alucinante. A
segunda retirada da Rússia começa... Moscou está salva. A Alemanha deixou de ser
invencível. Adolf Hitler perdeu a batalha de Moscou, a guerra da Rússia, toda
a guerra. Pugilista ligeiro, ele devia abater o monumental adversário no
primeiro assalto. Mas os golpes que deu não foram suficientes. A Rússia encontrou
um segundo fôlego, esta respiração profunda que tira de sua imensidão. Daqui,
por diante indestrutível, apoiada no mundo anglo-saxão, senhor dos mares, ela
não vai deixar de pesar sobre a pequena nação européia que é a Alemanha, com
todo o poder de um continente. Tudo o que Hitler empreenderá a partir de
agira só servirá para adiar a queda, prolongar a agonia. Neste momento, a situação do Exército alemão é
terrível. Desde 6 de dezembro contra a ala esquerda do Grupo Centro, desde 7
de dezembro contra a ala direita, os russos passaram à contra-ofensiva. O
comando alemão está completamente desprovido de reservas. É preciso,
portanto, que as próprias tropas em retirada se restabeleçam, operação
difícil, que alguns estrategistas consideram impossível. Em que linha? A
única satisfatória é a do Duna e do Dnieper, o que significa que será preciso
recuar 500 km até Riga, Vitebsk e Kiev. O precedente napoleônico surge
novamente. A retirada, no auge do inverno russo, aniquilou o Grande Exército.
Por que 1942 será diferente de 1812? O frio é extremamente rigoroso. As vias
de comunicações estão detestáveis. Imenso material embaraça o Exército. Seu
emprego é bastante defeituoso, pois dois terços das forças alemães se acham
em volta de Moscou, de Dimitrov a Tula, em um setor de 300 km, e as alas
estão muito fracas. Agora, o russo está duas vezes no seu elemento: o país e
o inverno. O moral alemão, ao contrário, está quebrado pela bancarrota do
sonho de tomar Moscou. Uma alma tão forte como Guderian está afundada no desespero,
percorrendo planície branca após planície branca na poeira da neve,
envolvendo os fantasmas em farrapos que foram os vencedores de Sedan. Chega o
momento em que os exércitos da melhor têmpera se dissolvem na desmoralização.
A Wehrmacht está à beira do abismo. ... No momento preciso em que a guerra se estende
novamente de uma maneira colossal, na hora de Pearl Harbor! |