1o de Janeiro a 31 de Março de 1942

 

Do Ártico à Nova Guiné

 

Tópicos do capítulo:

 

O general Conde Sponeck é condenado à morte

Situação desesperada no Grupo Centro

Ofensiva invernal do Exército Vermelho

Três meses de lutas encarniçadas no frio

O degelo: segunda estação da lama

Graças a Hitler, a Wehrmacht sobrevive

Churchill se lança à conquista da África do Norte

19 de dezembro: torpedos humanos em Alexandria

Rommel decide atacar

31 de janeiro: Cingapura, sitiada, converte-se novamente numa ilha

Invasão japonesa de bicicleta

10 de fevereiro: cai a última linha de defesa

Rendição de um império

Em Java, os corajosos holandeses lutam sozinhos

Os “bastardos de Bataan”

MacArthur: “Voltarei”

 

 

 

Abalos

 

Na Prússia oriental, uma corte marcial se reúne, nos primeiros dias de janeiro de 1942, sob a presidência do Reichsmarschall Hermann Goering. O acusado é o General Conde Sponeck. Sentença: a morte.

 

O crime do General Conde Sponeck é ter desobedecido à Ordem Fundamental, à diretiva de 20 de dezembro que obriga toda tropa atacada a uma resistência localizada. Colocado entre esta relação tirânica de Hitler e a tradição prussiana, pela qual um chefe subordinado é juiz de sua situação tática, Sponeck, membro da aristocracia militar, escolheu a tradição. Sua decisão não provocou catástrofe alguma, mas o Fuhrer sabe defender o Furherprinzip (Princípio do comando único). Os generais não são feitos para opinar, mas para obedecer.

 

Sponeck teve sua hora de glória em maio de 1940. Comandava a 22a Divisão Aerotransportada, que fez capitular em quatro dias a Fortaleza Holanda. Na Rússia, comandando o 42o Corpo de Exército, contribuiu para forçar o istmo de Perekop e, enquanto o grosso do 11o Exército atacava Sebastopol, conquistou a península de Kertch. Cadeia de colinas peladas, entre as quais borbulham vulcões de lama, Kertch fecha quase completamente o mar de Azov; entre o mar e a costa de Kuban há somente um estreito quase vadeável, de 5 km de largura. A importância que Hitler dá a essa regra provém da proximidade do Cáucaso. Não chega a haver 200 km entre Kertch e o primeiro dos campos de petróleo, Maikop.

 

Quando o Conde Sponeck conquistou Kertch, seu 42o CE, compunha-se da 46a, da 73a e da 170a DI. Mas o ambicioso Manstein tem pressa de se apossar de Sebastopol. Retomou duas das três divisões, deixando a Sponeck apenas a 46a para defender todo o Leste da Criméia. Os guerrilheiros complicam a situação. Se os alemães encontram populações simpatizantes na Criméia, encontram também uma infra-estrutura de guerrilhas implantadas na cadeia costeira de Jaila, entre Yalta e Feodósia. A tropa de montanha romena os persegue, em vez de reforçar o débil cordão litoral armado por Sponeck ao redor da península de Kertch.

 

Os russos atacam no dia de Natal. Transpõem o estreito parcialmente gelado, metidos até o pescoço na água gelada. Sponeck consegue expulsá-los, mas está sem a menor reserva. Informa sua situação a Manstein, pedindo-lhe autorização para recuar ao istmo de Parpatch, muito mais fácil de defender. Manstein responde pela ordem do Fuhrer: resistir sem recuar um passo.

 

Há um acontecimento grave a 29 de dezembro. Os russos desembarcam em Feodósia, às costas do 42o. Não se trata de uma simples operação de comando. Um cruzador pesado, vários navios de guerra, uma frota de navios transportes, o 44o Exército russo participam da operação. O perigo é sério para os sitiantes de Sebastopol: correm o risco de ser bloqueados na Criméia, se o adversário marchar audaciosamente pelo estreito terrestre de Perekop. O perigo é ainda maior para o 42o, ameaçado de ser encurralado. Sponeck toma a decisão de recuar para o istmo de Parpatch. Avisa Manstein pelo rádio.

 

Manstein reage de acordo com a Ordem Fundamental. Proíbe Sponeck de se mover, mas este desmonta a antena de seu rádio e não recebe a ordem expressa. Seus 10.000 soldados já começaram a retirada, numa temperatura de 30o negativos, numa estrada coberta por uma fina camada de gelo. A doce Criméia é um inferno. Centenas de dedos e narizes se enregelam. Os cavalos arrebentam de cansaço. Os canhões tem de ser abandonados. O terror do cativeiro fustiga os homens. Estes conseguem percorrer 120 km em 72 horas, escapar da ratoeira e combater ainda para se opor ao avanço inimigo.

 

Manstein enfrenta o perigo com seu usual espírito de decisão. Interrompe o ataque a Sebastopol no momento em que o coronel Von Choltitz se apodera da baía de Svernaja. Libertadas do cerco, a 22a e a 170a DI reúnem-se à 46a e reconquistam Feodósia. Os russos conservam a península de Kertch, mas perderam a ocasião de infligir um desastre à Wehrmacht. A retirada do Conde Sponeck, em lugar de prejudicar a contramanobra de Manstein, ajudou-a. Uma condenação à pena capital somente sanciona sua desobediência esclarecida à ordem de Hitler.

 

Sponeck não será executado imediatamente, pois Hitler comutou sua pena em prisão. Depois do atentado de 20 de julho de 1944, a Gestapo encontra o ex-comandante do 42o na Fortaleza de Gemersheim e fuzila-o sem processo algum. Alguns dias depois da corte marcial do General Conde Sponeck, o Alto-Comando alemão sofre outro ultraje. Um comandante de tropas blindadas, quase tão famoso quando Guderian, o Coronel-General Hoeppner, é demitido de seu comando e expulso do Exército por “desobediência e covardia”.

 

Promovido à categoria de 4o Exército Blindado, seu grupamento resistia a uma forte pressão na linha do Russa. Hoeppner pediu ao novo comandante do Grupo Centro autorização para reduzir sua frente. Herói de coragem física, instalando seu PC nos lugares mais expostos, estendendo sua cama de campanha nos postos avançados, soldado austero e fanático, o Marechal Von Kluge não tem coragem moral. Responde a Hoeppner que se dirija diretamente ao Fuhrer. Durante um dia, Hoeppner tenta ligação com Rastenburgo e, não o conseguindo, retifica ligeiramente sua posição por conta própria. O caso é tão insignificante que o conselheiro jurídico do OKW recusa abrir processo contra o general, mas Hitler marca-o como infame, excluindo-o do Exército e proibindo-o de usar o uniforme. Depois, responde aos escrúpulos dos juristas fazendo o Reichstag votar uma lei que lhe confere poderes judiciários ilimitados e direito legal de vida e morte sobre todos os cidadãos do Reich. Nisto os generais não se enganam: este instrumento de terror será usado, em primeiro lugar, contra eles.

 

Os golpes inexplicáveis se multiplicam. Rundstedt, Stülpnagel, Brauchitsch, Guderian e Hoeppner desapareceram; Reichenau morreu de uma congestão cerebral, Bock, demitido do Grupo Centro, é colocado no comando do Grupo Sul, mas suas relações com o OKW tornam-se péssimas. O digno Marechal Von Leeb declara que o exercício do comando é impossível e não pode manter a responsabilidade do Grupo Norte: é substituído por Von Kuchler. O Coronel-General Strauss, comandante do 9o Exército, volta, doente. Inúmeros comandantes de exércitos e divisões são reenviados para a Alemanha. A desconfiança e a animosidade mútuas entre Hitler e seus comandantes do Exército aumentam cada vez mais. Até ao servil Keitel, Hitler chama de “porteiro de cinema”. Em lugar do exército clássico, ele pretende o desenvolvimento em grande escala da Waffen SS.

 

Em primeiro lugar, é necessário quebrar a ofensiva do inverno russo. É preciso salvar a Wehrmacht.

 

No Grupo de Exércitos Centro, a situação é quase desesperadora. Numa frente em ziguezague de 1.500 km, que não pode retificar nem reduzir, Von Kluge dispõe de 68 divisões. Em frente, a Divisão de Exército Estrangeiro enumera 12 exércitos soviéticos, 88 divisões de infantaria, 15 divisões de cavalaria, 24 brigadas mecanizadas, ao todo 190 grandes unidades, repartidas entre a frente de Kalinin, comandada por Koniev, a frente oeste, comandada por Zhukov, e a asa direita da frente sudoeste, comandada por Sakharov. O frio de dezembro não foi simples vaga, mas o princípio de uma estação rigorosa. O termômetro desce cotidianamente até 30o graus negativos, freqüentemente a 40o negativos e algumas vezes até 50o negativos. As roupas quentes coletadas por Goebbels apareceram, mas são insuficientes e inadequadas. Os enregelamentos dizimam os regimentos. A neve esgota os homens e os animais. Prejudica mais ainda as colunas mecanizadas, que tem sua velocidade média a 2 km por hora. Para todos os soldados alemães, o primeiro inverno de guerra na Rússia será um pesadelo.

 

No centro do Grupo Centro, o 4o Exército passou ao comando do Coronel-General Heinrici. Ele mantém a posição, mas sua resistência frontal aumenta o perigo nos flancos do exército. Deverá esperar a segunda quinzena de janeiro para que Hitler, relaxando um pouco a Ordem Fundamental, autorize a retirada de posições tão avançadas como Kaluga e Medyn. Simultaneamente, o 4o Exército Blindado, no qual Ruoff substituiu Hoeppner, e o 9o Exército com Model no lugar de Strauss são autorizados a abandonar Russa e Volokolamsk, e recuar para a Winterstellung, ou posição de inverno. Exatamente como em seu caso com Rundstedt, Hitler retifica ou até amplia as decisões pelas quais destruiu seus generais.

 

Winterstellung é uma linha traçada sobre um mapa. Não há posição em lugar algum. A terra gelada impede qualquer trabalho de aterro e o conselho de Hitler, fazer cadeias de crateras com tiros de morteiros, parece engraçado se se considerar a pequena quantidade de munição de artilharia. Cada divisão defende setores de 20 a 40 km, com companhias reduzidas a 50 homens, uma frente contínua está fora de cogitação. Cada unidade se organiza num ponto de apoio fechado, esforçando-se em proteger pelo fogo os pontos de apoio vizinhos. Os serviços de retaguarda e os PC fazem barricadas nas cidades, nas escolas, nos kolkhozes. Os QGs de exército, como o de Heinrici em Juchnov, correm risco de um ataque de surpresa. Só há segurança bem na retaguarda, isto no caso da região não ser infestada de guerrilheiros. De fato, a frente é uma zona de profundidade de 100 a 150 km, onde, do general ao soldado de segunda classe, do metralhador ao intendente, todos estão na linha de fogo. O recuo parcial do 4o Exército foi tão tardio que suas chances de escapar ao encurralamento parecem duvidosas. Duas pinças se fecham sobre eles, convergem em direção a sua artéria principal, a auto-estrada de Moscou. Entre a direita do 4o Exército e a esquerda do 2o Exército Blindado, no qual Rudolf Schmidt substituiu Guderian, abriu-se uma brecha enorme. O 10o, o 50o e o 49o exércitos soviéticos precipitam-se por ela. Só tem à frente a 216a Divisão de Infantaria, transferida da França, sob o comando do General Barão Von und zu Gilda. Ele só pode aferrar-se à cidadezinha de Sukhinichi, cruzamento das ferrovias Smolensk-Kursk e Briansk-Moscou. Massas russas a sitiam. Outras ameaçam a estrada pavimentada Roslavl-Juchlov, essencial para o sistema de abastecimento alemão. Todo o flanco do 4o Exército está descoberto. Se o sustentáculo de Sukhinichi se desmorona, está perdido.

 

Nas ruínas atravancadas de cadáveres, Gilda defende-se encarniçadamente. Para resgatá-lo, o grupo de exército apela para a 18a Panzer, comandada pelo antigo chefe do estado-maior de Guderian, Nehring. São necessários dez dias de esforços - durante os quais o Comando alemão espera, hora a hora, a queda de Sukhinichi - para retirá-la do setor do Orel e fazê-la transpor os 150 km desde seu ponto de partida. Mas o ataque é vitorioso. A 18a Panzer penetra no círculo russo, liberta a 216a DI, reintegra-a nas linhas alemães, consolida a frente frágil da estrada de Roslavl. Como na Criméia, o Exército russo não soube explorar um sucesso inicial. Mas as condições climáticas o afetam também. Os russos não são super-homens; mas também soldados que enregelam vivos e unidades bloqueadas pelas geadas.

 

Momentaneamente afastado na ala direita de Heinrici, o perigo renasce, maior e muito mais grave, na ala esquerda. Não se trata somente do 4o Exército, mas também do 4o Exército Blindado, do 9o Exército e do 3o Exército Blindado; é um terço das forças alemães na Rússia que se vê ameaçado de um grandioso encurralamento.

 

O golpe vem do norte. A 5 de janeiro, a ala esquerda da frente de Kalinin, composta do 19o, do 30o e do 39o exércitos soviéticos, toma a ofensiva. O ataque visa as retaguardas longínquas do Grupo Kluge: Veliki Luki, Vitebsk, Smolensk, Viazma, a auto-estrada e a ferrovia de Moscou. O movimento iguala em amplitude os cercos mais vastos da Wehrmacht. O fim estratégico é a destruição da totalidade do centro inimigo. A ambição soviética iguala a ambição de Hitler: este queria esmagar o Exército soviético em uma curta campanha de verão; Stalin tenta, por sua vez, esmagar o Exército alemão em uma breve campanha de inverno. É uma pena não ser possível conhecer melhor a gênese deste plano magistral. É pena também não se conseguir apreender por meio de que mecanismo, de que esforços, de que façanhas, tantas forças puderam ser recuperadas, reorganizadas, reequipadas, reativadas; como, do exército esmagado em novembro, pôde surgir o poderoso exército russo de janeiro, roçando a vitória, acercando-se da sovietização total da Europa desde 1941.

 

O primeiro esforço soviético é sobre Rjev, sustentáculo norte do 9o Exército. Seu novo chefe, o general de tropas blindadas Model, chega em plena crise ao QG de Sytschewa. Os russos atacaram o QG, onde os secretários de estado-maior, os plantões, os correio tiveram de atirar. Atacaram a estação, onde a pilhagem de alguns vagões de conhaque favoreceu o contra-ataque bem sucedido de um grupo da 1a Panzer. O único meio de abastecimento do exército, a ferrovia, que se ramifica em Viazma, na linha de Smolensk, continua com os alemães. A situação é extremamente crítica. Quando Model, que comandava uma simples divisão blindada a algumas semanas, assumiu o comando, seus oficiais lhe perguntaram ansiosamente o que trazia. Ele riu e respondeu: “Eu”. O OKW, o OKH e o grupo de exércitos não tem nenhuma força de reserva. O comando local deve salvar-se sozinho.

 

O 9o Exército está cercado por três lados. A leste, defende a fictícia Wintersllung, em ligação com o 4o Exército Blindado pela auto-estrada. Ao norte, defende a represa de Rjev. A oeste, a ofensiva russa obriga a manter uma terceira frente, que o avanço do 29a Exército russo alonga dia a dia. A cavalaria russa, ajudada por guerrilheiros, atinge a região de Viazma, aproxima-se da auto-estrada. O 9o Exército e também o 4o Exército Blindado estão ameaçados de um cerco total.

 

A 8 de janeiro, os russos prolongam sua ofensiva para norte. A ala direita da frente de Kalinin e a ala esquerda da frente noroeste, o 11o, o 22o e o 34o exércitos e o 1o e o 3o exércitos de Choque partem para o ataque. A investida mais violenta é no ponto de ligação dos grupos de exércitos Kluge e Kuchler, na região do lago Saliger. Os exércitos de Choque que o empreendem são formações selecionadas, mais cuidadosamente abastecidas, mais solidamente enquadradas, mais bem politizadas que os exércitos comuns. Lacustre e pantanosa, a região é quase impraticável no verão, mas o inverno solidificou os pântanos, e os lagos, recobertos de um metro de gelo, dão passagem aos tanques. De suas águas geladas os alemães verão surgir os ataques mais perigosos.

 

O vício do plano russo está nas intenções divergentes e nas ambições muito grandes. Enquanto rompem em direção a Vitebsk, os russos atacam entre o lago Saliger e o lago Ilmen, para reconquistar o planalto de Valdai, inteiramente coberto de neve. Ainda mais ao norte, prepara-se uma ofensiva de três exércitos sobre o Volchov, entre o lago Ilmen e o lago Ladoga, para romper o bloqueio de Leningrado. Recaindo no erro de Hitler, por sua vez, subestimando o adversário, Stalin abre seus exércitos em leque, enfraquecendo seus golpes com tal multiplicação. É bem possível que a Wehrmacht tenha devido sua salvação a essa presunção.

 

No lago Saliger, a frente alemã voa em pedaços. O curso inferior do Lovat é tomado, apesar da resistência desesperada de algumas companhias, mesmo encurraladas, conseguiram manter-se por algumas semanas, combatendo até o extermínio. Mas, em vez de dar força total e máxima velocidade à investida para Vitebsk, o 1o Exército de Choque volta-se para o norte: é detido diante das ruínas de Staraia Russa pela 18a Divisão Motorizada. O 3o Exército de Choque, progride, primeiramente, em terreno livre, avança 120 km e abre uma brecha entre o Grupo Norte e o Grupo Centro. O general alemão Scherer lança-se na cidadezinha de Cholm, no alto Lovat, pára e reagrupa as tropas debandadas, reúne-as às formações de retaguarda, compondo uma força heterogênea onde há frações da 123a e da 218a DI, caçadores alpinos do Tirol, voluntários dinamarqueses, um destacamento da Kriegsmarine, aviadores, etc. Cercado pelo avanço russo, transforma Cholm em uma fortaleza que resiste a todos os ataques. O bloqueio só é levantado em maio; resistiu mais de três meses sem uma peça de artilharia e abastecido unicamente por intermédio de planadores.

 

Muito mais importante foi o cerco realizado pelos russos no Valdai. As forças que o ocupam - de acordo com a Haltebefehl! - todo o 2o Corpo e frações do 10o, não se movem enquanto o 1o Exército soviético contorna o planalto e une-se ao 11o Exército de Lovat. Seis divisões, 100.000 homens, sob o comando do Conde Brockdorff-Ahlefeldt, só tem como saída, o céu. Um dos cercos mais célebres da guerra, que teria conseqüências profundas, influenciando a decisão de Hitler na hora de Stalingrado. Demiansk, no centro do Valdai, é a mais sombria das aldeias, na região mais desolada da Rússia; este passa a ser o nome de uma das batalhas mais longas e significativas da guerra no Leste.

 

O objetivo da ofensiva é a região Vitebsk-Smolensk. Se os russos conseguirem atingi-lo, todo o centro inimigo estará bloqueado a leste do Duna e do Dnieper. O início é promissor. O 3o Exército de Choque toma Toropez, onde as tropas são alimentadas com os depósitos da intendência alemã. Uma divisão alemã está encurralada em Bjeljoe. No fim de janeiro, depois de 20 dias de avanço, os russos estão diante de Veliki Luki, Nevel, Usvisty, Velish, Demidov. A estrada de ferro de Smolensk está somente a 30 km, a auto-estrada, apenas a 60 km. A ofensiva de inverno de Stalin é um sucesso! Para não ser cercado, o Grupo de Exércitos Centro só conta os reforços vindos da França, o 59o Corpo de Exército, a 83a, a 205a e a 330a divisões de infantaria, sob o comando do General Kurt von der Chevallerie. As unidades foram transferidas antecipadamente da Bretanha e da Normandia. Os homens tiveram duas semanas de aclimatação na Polônia e calçaram botas forradas. A princípio, são mais afetados pelo caráter bárbaro da guerra do que pelo frio. Espantam-se de encontrar as estações em estado de sítio, mas calculam a atividade dos guerrilheiros pela quantidade de viaturas estendidas ao longo da estrada, e nas intermináveis paradas, nas quais se enregelam vivos, apesar das estufas em brasa dos vagões. Já desembarcam em ambiente de desastre. Um batalhão é recebido a tiros de canhão ao descer do trem, a 10 km de Vitebsk. Um regimento que se dirige a Veliki Luki, pela neve extenuante, é atacado brutalmente pelo flanco e sofre perdas severas. Muitas unidades chegam da Polônia a pé, apesar da urgência. Atravessam um país arrasado, florestas cheias de emboscadas, cidades inteiramente destruídas, onde as crianças esfarrapadas só sabem uma palavra alemã: Brot (pão). A cada passo, nessa imensidão sinistra, o paraíso perdido que é a França brilha com mais nostalgia.

 

Kurt von Chevallerie só tem uma idéia confusa da situação, mas sente sua gravidade. Toma a atitude simples de impulsionar seus batalhões, à medida que vão chegando, em direção aos lugares ameaçados: as tropas encontram por toda parte um começo de decomposição, não combatentes debandados, pessoal de terra da Luftwaffe abandonando seu material. Recolhem pequenos grupos de homens esgotados, com os narizes, orelhas, dedos de pés e das mãos enregelados; restos da brigada de cavalaria das SS, da 123a e a 81a DI, das unidades de segurança desbaratadas em Ostaschkov, Andreapol, Toropez. Os russos os perseguem. Travam-se combates violentos, em meio às uivantes tempestades de neve de fevereiro. Mas, também esgotados, os russos não conseguem ir além. Violentamente atacados, cercados, Veliki Luki, Demidov, Velish e Bjeljoe resistem estoicamente. Nem Vitebsk nem Autobahn são atingidas e, progressivamente, a violência da ofensiva decresce.

 

Esta trégua se deveu, em parte, ao brilhante sucesso de Model, a oeste de Rjev. Surgindo do Volga gelado, a ofensiva russa cortou em duas a ala esquerda do 9o Exército, isolando completamente o 23o Corpo. Model deixa passar a vaga e, nas costas do 19o Exército russo, retoma o curso do Volga e refaz sua junção com o 23o Corpo. Atalhando Szytchevka, o 46o Corpo Panzer consegue encurralar o 19a Exército. Os combates duram de 23 de janeiro a 17 de fevereiro, numa temperatura que vai do degelo a 52o negativos. Os ataques russos, para resgatar o exército cercado, são de uma violência inaudita. As perdas alemães são enormes; o regimento SS Der Fuhrer, que defende o Volga, é reduzido a 35 combatentes - mas Model não deixa sua presa escapar, esmaga sete divisões russas, paralisa toda a ofensiva. Entretanto, o comunicado do OKW de 22 de fevereiro pode deixar pensativos todos os alemães que se lembram dos boletins de vitória, das devastações humanas colossais do outono anterior: “O inimigo deixou 27.000 cadáveres no solo e fizemos 5.000 prisioneiros...”

 

Ao norte do lago Saliger, no setor do Grupo de Exércitos Von Kuchler, há batalhas encarniçadas durante o primeiro trimestre de 1942.

 

A 22 de janeiro, a ofensiva do 2o Exército de Choque sobre o Volchov desmantela a 216a Divisão alemã. A brecha é estreita, de uns 15 km, mas os russos aí precipitam várias divisões, que formam, na retaguarda das linhas alemães, um bolsão de contornos confusos. Em cinco dais percorrem 150 km, metade da distância de Leningrado. Ao sul de Schlusselburgo, o 54o Exército soviético ataca, tentando apanhar numa pinça o 1o Corpo de Exército alemão, o da Prússia Oriental. Há poucas batalhas tão insólitas e, ao mesmo tempo, tão terríveis como essas ao sul de Leningrado. A região é toda coberta por florestas, a terra gelada é tão difícil de furar quanto o ferro, e há poucas cidades onde os soldados possam encontrar abrigo. É espantoso o tributo de sacrifício exigido pelo frio. O 426o RI por exemplo, perdeu a metade de seu efetivo em algumas horas, sem combate, apenas porque houve uma queda brusca de temperatura, e seus homens são mutilados ou fulminados pelo frio.

 

Os russos, entretanto, não chegam a finalizar sua ação. Todo o mês de fevereiro e as duas primeiras semanas de março são perdidas em tentativas confusas. Quase impossibilitado de se reabastecer, o 2o Exército de Choque, morre de miséria em seus bosques. O 54o Exército, não consegue reunir-se a ele. Os alemães retomam a iniciativa, decidem cortar o fino cordão umbilical, o simples atalho florestal Erika-Schneise, pelo qual o bolsão de Volchov se comunica com suas retaguardas. O novo comandante do 18o Exército, Von Lindemann, envia a 58a DI sobre a brecha, antes das forças de ataque a Leningrado. Ela atacará de sul para norte, enquanto a Divisão de Polícia SS atacará de norte para sul. E 250 aviões da Luftflotte n° 1 fornecerão apoio aéreo de densidade sem precedentes na guerra da Rússia.

 

A operação merece passar à História. A temperatura é de 50o negativos, no dia 15 de março. Na floresta, a neve atinge a altura de um homem. O duplo ataque, mesmo assim, é bem sucedido. O atalho florestal Erika é cortado. O 2o Exército de Choque é encurralado. Deste sucesso alemão resultarão várias conseqüências, entre as quais: Stalin, para salvar seu exército de elite, enviará ao bolsão de Volchov um general de elite, titular de uma brilhante folha de serviço, nas batalhas de Kiev e Moscou, Andrei Andreievitch Vlassov...

 

Cercados ao norte do lago Ilmen, os russos cercam ao sul. O bolsão de Demiansk, onde estão Brockdorff-Ahlefeldt, seus 100.000 homens e seus 20.000 cavalos, foi envolvido a 8 de fevereiro. Começa a primeira ponte aérea da história. Cinco grupos de Ju-52 devem transportar, todos os dias, 300 toneladas, de acordo com as seguintes normais: dois terços de ração para os homens, meia ração para as armas, um quarto de ração para os cavalos. Normalmente são necessários 85 aparelhos, mas as perdas e as condições atmosféricas obrigam a Luftflotte n° 1 a dobrar o número. Os encurralados sofrem e combatem. A 15 de fevereiro, o Comando soviético lança no bolsão vários batalhões de pára-quedistas, mas os alemães os exterminam. Já uma ofensiva visando romper o bloqueio é mal sucedida. O bolsão de Demiansk permanece isolado, ligando-se com o exterior apenas através dos enxames de aviões que atravessam a neblina, a neve, a DCA, pousam em terrenos devastados pela artilharia, descarregam suas caixas de obuses ou seus sacos de aveia, e partem carregados de feridos.

 

Na imensa frente de gelo, os combates não cessaram em lugar nenhum. A ala direita do Grupo de Exércitos Centro foi desorganizada várias vezes, principalmente a 20 de fevereiro, quando os russos, utilizando unidades aerotransportadas, tentaram novamente separar o 4o Exército do 2o Exército Blindado. Diante do Grupo Sul, o 40o Exército russo tentou tomar Kursk, e o 38o Exército tentou tomar Kharkov. Mas, no Donetz, houve realmente um desastre. O diário de Halder, 217o dia de campanha da Rússia, traz a seguinte exclamação: “Bei der 17e Armee, grosse Schweinerei! - grossa porcaria!” No momento exato em que a situação atingia o máximo de gravidade ao norte de Smolensk, todo o sul da frente alemã escapou de ser destruído!

 

O objetivo soviético era a reconquista da Ucrânia industrial. O 6o, o 57o, o 9o e o 37o exércitos atacaram numa frente de 150 km, de Balakleia a Kreminaya. O ponto de junção do 17o Exército alemão cedeu. Os russos avançaram 120 km em 8 dias, retomando Kramatorsk, Barvankowo, Losovaya, arrependidos talvez de ter destruído tão meticulosamente as minas e usinas para as quais voltavam depois de uma ausência tão curta. A ferrovia Dniepropetrovsk-Stalino, vital para o Grupo de Exércitos Sul, foi cortada em Postychevo. Como ao centro e ao norte, a sorte dos exércitos alemães está por um fio.

 

O homem da situação foi o Marechal Von Kleist. Reunindo sob o seu comando o 17o Exército e seu próprio Exército Blindado constituiu três grupamentos blindados de infantaria, que se reabasteciam na frente do Mius, e aproveitando um momento de trégua da ofensiva, lançou contra-ataques concêntricos sobre a hérnia inimiga, que estrangulava os sustentáculos, ainda de pé, de Balakleia e Slaviansk. Os russos bateram em retirada, com graves perdas. No Donetz, como em outros lugares, suas realizações estiveram aquém de suas ambições. Não souberam transformar em vitória um sucesso inicial.

 

O degelo chegou. Começa a segunda estação da lama para os exércitos alemães na Rússia. Ao contrário da primeira, é a estes que ela trará uma trégua! Os russos podem combater no inverno mais rigoroso; mas não podem combater mais que os outros quando os rios se alargam a perder de vista, e toda a planície se transforma em um mar de lama. Além disso, estão esgotados pelos esforços sucessivos de 10 meses.

 

Realmente, faltam testemunhas, documentos que permitam saber como o Comando e o governo soviético consideraram sua batalha de inverno. Não se sabe se estão satisfeitos de ter colocado a Wehrmacht em tantas situações difíceis, ou decepcionados de tê-la deixado recuperar-se tantas vezes. Não se sabe que crítica fazem de suas operações. O que se impõe a um julgamento objetivo é a dispersão de esforços. Os russos parecem não ter ainda a noção de Schwerpunkt, centro de gravidade ao qual tudo deve ser subordinado. Atacam todos lugares de uma vez e em esforços sucessivos. Se os generais alemães estão presos a uma defensiva rígida, parece, pelo contrário, que os generais soviéticos se restringem a uma ofensiva automática. Esta iniciativa constante, mantida em todas as circunstâncias, foi paga caro. E não conseguiu um sucesso decisivo.

 

Do lado alemão, o balanço da batalha de inverno dá uma satisfação relativa. A Wehrmacht foi o único exército a sobreviver a esta prova. As perdas são pesadas. Atingem, em 31 de março, a cifra de 1.074.607, quase 35% dos efetivos de junho de 1941, dos quais, 33.223 oficiais. Houve 223.553 mortos, 799.389 feridos e 61.665 desaparecidos - o que significa, que apesar dos cercos, os russos fizeram poucos prisioneiros. Todas as unidades cercadas, superiores a um batalhão, defenderam-se ou defendem-se vitoriosamente. A Wehrmacht mantém a superioridade técnica e tática. Outra coisa sobreviveu à crise do inverno: a infalibilidade de Hitler. A Ordem Fundamental de 16 de dezembro é justificada pelo resultado da batalha. Toma corpo uma doutrina oficial: Hitler salvou o Exército alemão, surpreendido pela precocidade e violência do inverno, ordenando-lhe uma resistência localizada. Se os generais apavorados tivessem sido ouvidos, o Exército alemão se teria dissolvido na retirada para o Dnieper, o Bug e o Niemen. Suas vitórias defensivas de fevereiro e março, sobre as forças inimigas muito superiores às forças cercadas, só foram possíveis porque as tropas inimigas estavam detidas nos arredores de Demiansk, Cholm, Velish, Slaviansk, etc. Deve-se combater a fobia do encurralamento, considerar que ele é, muitas vezes, vantajoso. Mas foi preciso que Adolf Hitler aprendesse isso com os militares profissionais.

 

Com a primavera, retornam os fluídos de vitória. Na verdade, a entrada dos Estados Unidos na guerra modifica a situação mundial. Retira da Alemanha a possibilidade de uma rápida solução do conflito. Pelo contrário, o Exército soviético está liquidado. Transferida de 1941 por um acidente climatológico, sua destruição será a tarefa de 1942. Apoiado nas riquezas da Ucrânia e do Cáucaso, o Reich terá outra vez invencibilidade suficiente para enfrentar as duas democracias ocidentais. A guerra durará mais tempo que o previsto por Hitler, mas seu império sobreviverá vitoriosamente - como a Wehrmacht sobreviveu ao inverno russo.

 

Só há uma questão atual no Rastenburgo: a preparação da campanha do verão de 1942.

 

 

 

Rommel reconquista a Cirenaica

 

O drama da Wehrmacht na Rússia durante o terceiro inverno de guerra atraiu a atenção do mundo para dois êxitos imprevisíveis: as façanhas de Rommel e os triunfos japoneses.

 

No início de 1942, os ingleses vêem Rommel como um general vencido. Salvou seu exército graças a uma retirada precipitada, mas só tem, daí por diante, meios para um combate de retaguarda. O otimismo mais ingênuo impera no Estado-Maior do Oriente Médio. De Washington, Churchill telegrafa a Auchinleck sobre sua decepção, ao constatar que sete divisões germânicas não puderam “virar de bordo”, e recuar para a Tripolitânia. “De fato - responde Auchinleck - mas só são divisões no nome... Desorganizadas, esgotadas por nossa pressão contínua, sem oficiais experientes, sem material, certamente não tem poder de combate correspondente a sua denominação”.

 

A 5 de janeiro, escondido por uma chuva torrencial, Rommel retirou-se até o fundo da Syrte, na pequena posição de Mersa el-Brega, entre o mar e a depressão do Wadi el-Faregh. Estabelece-se no ferrolho da Tripolitânia, para disputar aí seu último combate defensivo. Ao mesmo tempo, as guarnições assediadas de Halfaya Pass e Bardia se rendem. O General Schmidt acrescenta mais veneno às relações germano-italianas, declarando a um correspondente do Daily Herald que capitulou por comandar soldados italianos. Os 13.000 prisioneiros alemães, contra perdas britânicas duas vezes menores. A reconquista da Cirenaica, Operação Crusader, foi um sucesso. É tempo de pensar nas seguintes: Acrobat, Gymnast e Super Gymnast, com a ocupação total da África do Norte como objetivo final.

 

Esta tomada de iniciativa no Mediterrâneo é um dos assuntos da vasta conferência anglo-americana, chamada Arcadia que, iniciada em Washington em 23 de dezembro, continua ainda no início de janeiro. Churchill remeteu a Roosevelt um memorando segundo o qual “deve ser lançada, em 1942, uma campanha para conquistar toda a costa da África do Norte, inclusive Dacar”. O projeto já existia no início da Operação Crusader, quando a Inglaterra lutava sozinha. Com a entrada dos Estados Unidos na guerra, adquire possibilidades maiores. À Operação Gymnast, transportar três divisões da Inglaterra à Argélia, deve-se acrescentar a Operação Super Gymnast, desembarque de três divisões americanas no Marrocos. Churchill acha que esta grande empresa poderá estar bem encaminhada a partir do mês de março.

 

A pressa de Churchill causa reticências nos Estados Unidos. Invulneráveis atrás do fosso ainda intransponível de seus dois oceanos, os americanos não consideram o seu conflito com as mesmas coordenadas cronológicas dos ingleses. Muitos pensam numa guerra de dez anos. Traça-se imenso programa de armamento, 45.000 aviões e 45.000 tanques em 1942; 100.000 aviões e 75.000 tanques em 1943, etc. Começa a funcionar um organismo centralizador, a Comissão de Produção de Guerra, sob a direção do presidente dos grandes magazines Sears and Roebuck, Donald Nelson, com a participação de Knudsen, presidente da General Motors, e do sindicalista Hillman. Mas é preciso um tempo considerável para transformar a economia de paz americana em uma economia de guerra, e, enquanto isso, há um contraste chocante entre o poderio industrial da nação e a insuficiência de seu armamento: Wake é defendida por quatro aviões, ao passo que os submarinos alemães afundam navios mercantes à vista dos portos americanos. A opinião pública se insurge, mas os responsáveis pela produção pedem prazos, esclarecem todos os gargalos de garrafa que devem transpor antes que o Victory Program se precipite como uma torrente.

 

Por seu lado, o Estado-Maior reage contra qualquer iniciativa prematura. Sua hostilidade de princípio contra uma operação de importância na zona mediterrânea não cede. “Tenho a convicção - diz o oráculo estratégico de Marshall, o General Stanley D. Embick - de que a África do Norte é uma cena mais favorável aos alemães do que a nós”. O precedente da Grécia, o engajamento temerário de forças britânicas insuficientes num terreno perigoso, fortalece a argumentação americana, diminui a autoridade de Churchill, responsável por esse erro e desastre. O apoio de Roosevelt, por questões mais pessoais que militares, só assegura a Churchill um sucesso pela metade. Mantém-se o princípio da Operação Super Gymnast, mas a data e os meios permanecem em estudo. De qualquer forma, a Operação Acrobat deve ser efetuada em primeiro lugar. O desembarque no Marrocos e na Argélia fica condicionado pela conquista da Tripolitânia.

 

O 8o Exército está sob o comando de um jovem oficial, o General Neil Ritchie, um colosso de homem, mas menos graduado e experiente que seus comandantes de corpos. Auchinleck pensa remediar este inconveniente “dando uma mão” a Ritchie. Considera a nova ofensiva como a combinação de uma ação frontal e um desembarque na retaguarda das linhas de El-Agheila. A rota costeira será cortada, e o Afrika Korps, inteiramente preso numa rede.

 

Há muitas sombras velando essas esperanças. Nos últimos meses, as perdas navais inglesas foram desastrosas. Na noite de 18 para 19 de dezembro, dois homens-rãs italianos foram capturados numa bóia do porto de Alexandria. Recusaram-se explicar sua presença, mesmo depois de serem encerrados no porão do couraçado Valiant. Somente às 5h50, quando uma explosão já danificou o petroleiro Sagona, informaram ao comandante que seu navio explodiria em alguns instantes. De fato, 15 minutos depois, o Valiant era destroçado por um torpedo preso a seu casco, e quatro minutos depois, o Queen Elizabeth, navio-capitânia, tinha a mesma sorte. Conduzidos até a entrada do porto de Alexandria, seis valentes, pilotando três torpedos, puseram fora de combate os dois últimos navios da esquadra do Mediterrâneo oriental, depois da destruição do Ark Royal e o Barham por submarinos alemães.

 

Os torpedos humanos privam a Operação Acrobat de seu apoio naval. O reforço do poderio aéreo inimigo é mais grave ainda. Depois da chegada de Kesselring, Malta está quase neutralizada, e os últimos comboios de Nápoles e Palermo, poderosamente escoltados, chegaram sem perdas a Trípoli. A RAF e a Fleet Air Arm perderam o controle do céu.

 

Em terra, os alemães mantém a superioridade técnica e humana. O 8o Exército não tem o equivalente do 88 antitanque-antiaéreo da Wehrmacht. Nenhum de seus carros blindados lhe é superior. Seus Stuart, de fabricação americana, não passam de tanques leves. O armamento de seus Crusader, Valentine, Matilda, só atingem o calibre 37, inteiramente insuficiente contra o calibre 50 e 75 dos PzKv 3 e 4. É interessante constatar que estes últimos são inferiores aos poderosos T-34, usados na Rússia, enquanto vencem na África os tanques ingleses.

 

Um último fator de enfraquecimento é a transferência de tropas para a guerra do Pacífico. A 18a DI estava a caminho do Egito: é deslocada para Cingapura, enquanto os comboios WA 14 e WS 122, com 2 regimentos de DCA e 2 regimentos antitanques, 18 esquadrões e 100 tanques, são subtraídos a Auchinleck. As tropas australianas, 6a e 7a DI partem para seu país, ameaçado. O potencial britânico encarregado de liquidar Rommel está sensivelmente reduzido.

 

Entretanto, Auchinleck e Ritchie estão tranqüilos. Calmamente, reequipam o 8o Exército para o novo esforço ofensivo. Só a 22a Brigada Blindada de vigilância travou combate, na dura prova de 29 de dezembro. Atrás, no Djebel Akhdar, a 7a Divisão Blindada foi substituída pela 1a, que, recém-chegada da Inglaterra, nunca entrou em combate. A 4a Divisão hindu é disseminada ao redor de Bengasi. As outras grandes unidades se recuperam na região de Tobruk. As informações vindas da Tripolitânia, confirmadas por rumores de Roma, dizem que Rommel se prepara para evacuar El-Agheila. As explosões ouvidas nas linhas inimigas indicam que eles destroem o material não transportável. A opinião do Estado-maior britânico é de que ele se retirará até Trípoli, e isto não lhe agrada, pois ficará adiada a batalha de aniquilamento.

 

A 21 de janeiro, Neil Ritchie está no Cairo. É informado de que duas colunas germano-italianas saíram de sua posição de Mersa-Brega, uma pela Via Balbia, outra ao longo do Wadi el-Faregh. Ritchie fica altamente feliz. O inimigo, diz ele, quer esconder a retirada do Afrika Korps com uma demonstração de força. Mas saiu da concha; é uma ocasião enviada por Deus para atacar violentamente!

 

Auchinleck não se engana ao julgar difícil a situação de Rommel. Seu comando foi elevado à categoria de exército blindado, e a denominação de Deutscher Afrika Korps passou ao agrupamento da 5a e 21a divisões Panzer, sob o comando do General Crüwell. Mas a elevação do nome não aumenta suas forças reais. Os efetivos alemães caíram a 12.500 homens. Os italianos tem o dobro, mas Rommel só tem sob o seu comando duas divisões, as do 20o Corpo Rápido, Aríete e Trieste, aliás as únicas capazes de fazer a guerra no deserto, comandadas por um excelente condutor de tropas blindadas, o General Zingales. O comandante-chefe na África do Norte é ainda o maléovo Bastico, e Rommel não pode contar, para melhorar suas relações com os italianos, com o Marechal Kesselring, comandante-chefe alemão no Mediterrâneo.

 

No total, Rommel só dispõe de um punhado de homens e máquinas. A chegada inesperada de um comboio intacto, reforça-o em 54 PzKw 3 e 4, aumentando para 270 o efetivo de seus tanques, além de completar suas reservas de carvão. No dia 13, depois de passar a noite estudando seus mapas, anuncia a seus oficiais: “Senhores, nós atacamos...” Está louco? Não, é sábio. Sabe, por seus operadores de rádio, da dispersão das forças britânicas. Percebe que é uma chance fugaz. Esperar, permanecer na defensiva, é resignar-se à derrota. Atacar dá-lhe uma oportunidade de permanecer na África do Norte, talvez até o momento em que a direção suprema da Wehrmacht compreenda a importância do Mediterrâneo e lhe forneça forças apropriadas.

 

O céu está com os alemães. Tempestades de areia camuflam a tomada de posição para o ataque. A surpresa é total. A 22a Brigada é destruída. Rommel entra no Djebel e dirige-se para o entroncamento das estradas de Msus, com a intenção de encurralar a 1a Divisão Blindada. Contrariado por não ter sido consultado, por ter acreditado em um recuo, como todo mundo, Bastico intima Rommel a voltar a suas linhas de Mersa-Brega. Não sendo atendido, chama em seu socorro o chefe do Estado-Maior, Cavallero. A explicação é tempestuosa. Rommel declara ao marechal italiano que continuará a ofensiva enquanto tiver forças, e que só o Fuhrer tem poderes para fazê-lo parar. Cavallero responde que retirará as tropas italianas. Rommel replica, sem delicadeza, que passará sem elas.

 

Também entre os ingleses a discórdia campeia. O comandante do 13o Corpo, Godwen-Austen, ordena uma pronta retirada, mas, sem acreditar na importância do ataque alemão, Ritchie anula a ordem. Mal orientada, mal aclimatada, açoitada por tempestade de areia e de chuva, a 1a Divisão Blindada é despedaçada. Rommel lança-se sobre Bengasi, atravessa o deserto que a cerca, considerado intransponível, e entra triunfalmente na cidade, cercado da alegria histérica dos árabes, que, à sua passagem, tremulam o estandarte verde do Profeta. Uma brigada indiana é capturada. Consomem-se estoques imensos. As tropas britânicas, derrotadas retiram-se em desordem, abandonam o talude de Derna sem defendê-lo. Só se restabelecem em Gazala, a 50 km de Tobruk, porque o vencedor já não tem gasolina para perseguí-las. Toda a Cirenaica ocidental é reconquistada, e este não é o  aspecto mais importante da vitória alemã. O fundamental para o Eixo é que ela enterra a Operação Acrobat, transfere sine die o desembarque anglo-americano no Marrocos e na Argélia. Em seu diário, Goebbels está maravilhado. “Os últimos sucessos de Rommel são prodigiosos...” É feito todo o possível para que Bengasi faça esquecer Demiansk e Kharkov.

 

Queda de um sustentáculo do Ocidente, Cingapura

 

As vitórias japonesas são ainda mais espetaculares. Causam inquietação até aos nazistas. Os racistas alemães se perguntam se o grande triunfador da guerra não será um povo de cor. Os últimos britânicos entraram na fortaleza de Cingapura a 31 de janeiro, ao nascer do sol. Dois homens que tocam em gaitas de fole uma marcha das Highlands “Hiellan laddie...” precedem, na barragem do Johore, os 90 sobreviventes do Batalhão Argyle, marchando com passo cadenciado. O Tenente-Coronel McStewart vem por último. Atrás dele, ressoa uma explosão violenta. A água entra borbulhando pela brecha aberta na barragem. Cingapura é novamente uma ilha... Mas a brecha só tem 50m de largura, e na maré baixa, a altura da água não chega a 4 pés.

 

Nos dias precedentes, houve na barragem do Johore um destes êxodos que a guerra multiplica em todo o mundo. Centenas de milhares de pessoas, multidão variada, pela diversidade dos habitantes da Malásia, europeus, malaios, chineses, hindus, em todos os escalões, da riqueza excessiva à miséria absoluta. Há um engarrafamento dramático. Nos bairros indígenas a multidão dorme ao ar livre, e antes do início do cerco, há falta de víveres. Os bombardeios aéreos fazem vítimas, mas todas as tentativas para cavar abrigos foram detidas pela existência de água a um metro de profundidade. O cheiro das multidões mal lavadas e dos cadáveres mal enterrados começa a impregnar Cingapura.

 

A campanha conduzida em 65 dias pelo 25o Exército japonês, do istmo de Kra ao estreito de Johore, é inexplicável. Os japoneses foram sempre inferiores em número. Desembarcaram com 12 batalhões, enquanto a guarnição da Malásia tinha 31. Posteriormente, as forças japonesas se elevam a 30 batalhões, com a chegada da Divisão de Vigilância Konoye, mas os ingleses, por seu lado, receberam reforços de 15 batalhões. Esta constante superioridade numérica não adiantou nada. Na batalha de Jitra, por exemplo, uma vanguarda japonesa de dois batalhões, comandada pelo Tenente-Coronel Sakki, desorganizou toda a 27a Divisão hindu e, sofrendo apenas 27 baixas, apoderou-se de 50 canhões e de 3.000 prisioneiros. A superioridade aérea e os tanques não explicam tudo. O fator moral é o decisivo. Os amarelos marcham para a luta como para uma cerimônia religiosa. Cada êxito e cada sacrifício provocam transportes de exaltação expressados por torrentes de lágrimas. A guerra é uma cruzada, a revanche de um orgulho humilhado O cansaço é neutralizado. O medo é anestesiado. A morte é uma comunhão. O exército é um bloco de fé em marcha.

 

Mas a própria fé tem de ser reabastecida. A conquista-relâmpago da Malásia não teria sido possível sem os estoques Churchill, nome que os japoneses, gratos, dão a todos os caminhões, rações, munições, carvão de que se apoderam.

 

Em Jitra, conseguiram três meses de víveres, e em Alor Star, seus oficiais, mortos de fome, instalaram-se ao redor da refeição quente servida na salas dos oficiais britânicos. Seus aviões pousaram no aeródromo - um aeródromo Churchill! - onde encontraram centenas de tonéis de gasolina, e um estoque de bombas que só tiveram de levar para bordo. A história se repetiu com tanta regularidade, que os japoneses contam agora, quase que exclusivamente, com o reabastecimento fornecido pelo inimigo. Podem fazer isso, uma vez que uma ordem do QG britânico proíbe destruir os estoques de munição e incendiar os depósitos, pelo pânico que toma os soldados hindus quando vêem e ouvem, às suas costas, chamas e explosões.

 

O problema do transporte inquietava o Comando nipônico. Prevendo os cortes das estradas e ferrovias, adicionou ao corpo expedicionário seis companhias de pontoneiros e dois regimentos ferroviários. Um enorme oficial do Estado-Maior, o Coronel Hondo, dirige as operações mancando, pois sofreu uma torção terrível, ao desembarcar nas vagas de Sangora. Mas as dificuldades são reduzidas pelos caminhões Churchill - tão numerosos que a 5a Divisão Motorizada tem três vezes mais veículos que a quantidade normal. Tudo que não anda sobre quatro rodas, anda sobre duas, graças às bicicletas importadas do Japão e encontradas no local: rodam sobre o excelente asfalto das estradas Churchill. A infantaria de invasão avança como um bando de ciclistas de domingo: cantando, assobiando e tagarelando.

 

Contudo, em Cingapura, ninguém está muito preocupado. O que houve no continente estava previsto - embora mais depressa do que se pensara. A verdadeira batalha, o cerco, começa. Evidentemente, é lamentável que se tenha de destruir a base naval - 63 milhões de libras! - evacuar o pessoal especializado para o Ceilão, afundar o dique flutuante, explodir o dique fixo, incendiar o arsenal. Mas a fortaleza Cingapura está intacta e inexpugnável. A 1 de fevereiro, dia do bloqueio, o coquetel da Raffles é mais freqüentado do que nunca, e dança-se como toda noite no Tanglin Club.

 

Em Londres, a ilusão com Cingapura termina brutalmente a 29 de fevereiro. Nesse dia, o chefe da casa militar de Churchill, o General Sir Henry Ismay, encontrou seu chefe lançando contra a estupidez dos militares imprecações dignas de Adolf Hitler. Um telegrama de Sir Archibald Wavell, substituto de Brooke-Popham no comando do Sudeste Asiático, informa-o de que Cingapura é indefensável. Churchill espuma de raiva. Como foi possível gastar 63 milhões de libras na construção de uma fortaleza que eqüivale a uma canoa furada? Como se pôde guarnecer Cingapura exclusivamente com canhões voltados para o largo? Como, depois de três anos de hostilidades, ainda não se encontrou um general para construir fortificações de campanha, cavar fossos antitanques, minar o estreito, encher o pântano de armadilhas? Os japoneses chegam a toda velocidade. Tomaram Kuala Lumpur, capital da Federação da Malásia Aproximam-se do sultanato do Johore. Estão às vésperas de atacar Cingapura. E o que é Cingapura? Uma ilha nua!

 

Churchill tem razão, mas a indignação de nada adianta. Cingapura está perdida. É razoável sacrificar todo o exército da Malásia para prolongar sua defesa por alguns dias? É permitido ainda lançar lá tropas frescas - se se pode considerar assim a infeliz 18a Divisão, abalada por três meses em dois oceanos? Seria certamente mais realista embarcar todas as forças possíveis para a defesa da Birmânia, antecâmara da Índia, porta de reabastecimento de Chiang Kai-check. Churchill resolve-se a isso.

 

Quem se opõe a isso é o novo Primeiro-Ministro australiano, um trabalhista duro chamado John Curtin. Já teve o atrevimento de publicar um artigo no “Melbourne Herald” dizendo que a Austrália já não pode contar com a velha-pátria para ajudar sua defesa, e deve voltar-se para os Estados Unidos. Informado do projeto de retirada de Cingapura, telegrafa a Churchill: “Isto seria uma traição inqualificável...”

 

Uma vez mais, a política viola a estratégia. Churchill não quer um conflito com seus domínios do outro lado do mundo. Recua também perante a cólera que o abandono de Cingapura provocaria na Inglaterra. A ilusão da inexpugnabilidade, a lenda da fortaleza invencível são ainda poderosas na opinião pública. Somente os membros do Gabinete de Guerra e alguns especialistas conhecem a verdade. Churchill tomou sua decisão. A glória da Inglaterra deriva das vitórias, mas também das derrotas. Em Dunquerque, um desastre transformou-se em uma honrosa operação de salvamento. Em Cingapura, será o contrário. Combater-se-á até o fim. O mundo terá o espetáculo do leão britânico lutando pela honra.

 

As ordens sobre a defesa de Cingapura especificam que não pode haver condições para rendição e que todos devem encerrar-se nos escombros. Quinze dias após esta decisão épica, chega o momento de cumpri-la. A batalha de Cingapura, uma das mais espetaculares de toda a guerra, começou.

 

Enormes colunas de fumaça atravessadas de chamas elevam-se sobre os depósitos de carvão incendiados. Uma chuva negra e brilhante cai sem parar. Quando chega a tempestade cotidiana, torrentes de tinta descem sobre o campo de batalha e precipitam-se nos esgotos profundos de Cingapura. Os atores da tragédia não conseguem conter o riso ao se verem: defensores e atacantes, militares e civis, europeus e asiáticos, todos se tornam em negros com a fuligem que cai do céu.

 

Toda a cidade está sob o fogo da artilharia. Os obuses pulverizam as leves construções indígenas, levantando nuvens de estuque. Aviões com o emblema do sol nascente metralham rente aos telhados, fazem vítimas às centenas, alternando com o lançamento de folhetos que convidam a população a abreviar seus sofrimentos revoltando-se contra os colonialistas ingleses. Quarteirões inteiros estão em chamas, mas é impossível qualquer socorro organizado, pois as ruas estão obstruídas pelos escombros e não há água. O cheiro acre do incêndio se mistura ao cheiro infecto de podridão e excrementos. Os serviços de limpeza pública desapareceram e os cadáveres se decompõem em algumas horas no ar quentíssimo.

 

Um outro cheiro se incorpora de modo indelével à lembrança que guardarão os sobreviventes. Temendo uma enorme bebedeira dos vencedores e vencidos, as autoridades mandaram jogar aos esgotos os estoques de otimismo, acumulados na previsão de um grande cerco. Vinte milhões de litros de licores, uísque, gim, vinho e bebidas chinesas dão um hálito de bêbeda à agonizante Cingapura.

 

O ataque japonês à ilha começou na noite de 8 para 9 de fevereiro. Uma  semana depois, os nipônicos só tem 5 km a conquistar para apagar do mapa um dos estabelecimentos mais famosos do mundo branco. Novamente, os ingleses não tiveram intuição. Percival, dispôs dois terços de suas forças - o corpo de exército hindu, a 18a Divisão inglesa - a leste da barragem de Johore, na convicção de que os japoneses desembarcariam no cais da base naval. A oeste, um lodaçal recoberto por uma planta de raízes salientes, considerada impenetrável, foi confiado somente à 8a Divisão australiana, enfraquecida por perdas e deserções. Mas Yamashita fez o contrário do que se esperava. Lançou no lodaçal duas de suas três divisões, fazendo somente uma manobra diversionista do lado da base. Em vez de impedir seu avanço, a planta de raízes salientes foi usada pelos japoneses em sua infiltração. Mesmo depois da decepção do relatório de Wavell, Churchill esperava que Percival pudesse disputar o estreito de Johore durante dois meses!

 

Nunca o moral japonês teve tão alto. Regimentos inteiros choraram, lágrimas brilhantes de orgulho, vendo a ilha de nome mágico que eles vêm conquistar. Antes do ataque, oficiais e soldados trocaram a roupa interior, pela primeira vez desde o início da campanha, e é realmente em estado de pureza mística que chegaram ao objetivo final de seu esforço sobre-humano.

 

A 10 de fevereiro, o ataque japonês desemboca no centro da ilha, região onde os brancos se instalaram para sua saúde e satisfação. O ponto culminante é a colina de Bukit Timah, com 117 metros de altitude, coroada por um magníficas amendoeiras. A artilharia ainda não chegou. Os comandantes das duas divisões, Matsui e Mutagushi, decidem atacar assim mesmo. Nuvens de incêndio misturam-se à nuvens do equador, fazendo um céu apocalíptico. Quando as tropas começam a se movimentar, um relâmpago colossal as atravessa. Começa uma ventania pavorosa. A chuva castiga a terra. O crepúsculo transforma-se numa obscuridade sinistra cortada por raios, e  sacudida pelos trovões. Os defensores brancos procuram qualquer abrigo contra o dilúvio e o furacão. Os atacantes amarelos escondem-se neles, como se escondiam nas raízes do lodaçal. Seus instrutores lhes ensinaram que a tempestade e a noite são suas aliadas. Têm razão. Os infantes japoneses ocupam Bukit Timah e massacram os defensores apavorados. A artilharia do céu substituiu a artilharia do Tenno.

 

Noite de desastre, dirá o comunicado britânico oficial. Caiu a última linha de defesa de Cingapura.

 

Ao amanhecer, os vencedores de Bukit Timah ouvem à sua direita, violentas explosões. Os ingleses fazem explodir a bateria de Buona Vista, de 15 polegadas, e as peças gigantescas que tornariam Cingapura invencível. Não dispararam um só tiro.

 

Como sempre, o dia começa na paz e na glória. O vento da terra inclina para o mar a chama dos incêndios. Muito emotivos, os japoneses choram novamente. O panorama que tem a seus pés vale todos os cansaços, todas as mutilações, todas as mortes: o campo de corridas, golfe, os terrenos de críquete, uma leiteria-modelo com uma cerca branca, magníficos bangalôs rodeados por belos gramados verdes. À esquerda, bem perto, a conquista de amanhã, os reservatórios Richtie e Pierce, cuja água é uma questão de vida ou de morte para o milhão de habitantes de Cingapura. A própria Cingapura está lá! O duplo aterro retilíneo de Bukit Timah Road e o aterro sinuoso de Holland Road penetram no conjunto das casas, vão convergir para o grande eixo urbano de Ochard Road. Ao longe, o mar brilha. Os cruzadores da cruzada asiática vêem Jerusalém!

 

Em Londres, o orgulho de Churchill está ferido. “A honra da nossa raça está em jogo... Vossos efetivos são superiores aos do inimigo... A batalha deve continuar a qualquer preço, até o fim... Não se trata de salvar as tropas ou poupar a população civil... Os generais devem morrer com seus soldados... Tendes ocasião de entrar para a História...” Estas frases, ditadas numa voz vibrante, no gabinete de trabalho de Downing Street, tem por destinatário um homem amargo. O Marechal-de-Campo Wavell instalou seu QG em Java, mas não tem ilusões sobre suas chances de defender as Índias Holandesas quando Cingapura cair. Ora, a queda de Cingapura é uma questão de horas, e toda a retórica de Churchill nada mudará.

 

Em cinco parágrafos glaciais, Wavell responde ao Primeiro-Ministro. Volta de uma inspeção de 24 horas a Cingapura. A situação é má. Percival possui realmente superioridade numérica, mas suas tropas lutam com complexo de inferioridade. Ele fez o possível para levantar o moral. Não se gaba de ter sido bem sucedido.

 

Um sexto parágrafo termina o relatório. Depois da inspeção, Wavell desceu ao cais para tomar a lancha que o trouxera de Java. O cais estava escuro. Ele escorregou e caiu. Embarcou torcendo-se de dor. O médico acaba de informá-lo de que quebrou dois ossinhos na base da espinha. “Nada de grave, mas tenho de ser hospitalizado e estarei inutilizado por duas ou três semanas”. Talvez Churchill tenha acreditado que sua eloqüência convenceria o comandante-chefe de se fechar em Cingapura para dar aí o exemplo dessa morte histórica que ele reclama de seus generais... O comandante-chefe baixa ao hospital.

 

Em Cingapura, o moral se abate ainda mais. O apelo dos dois ausentes, Churchill substituído por Wavell, produz o efeito contrário. Comandantes de companhias acusam-se mutuamente diante de seus homens. As unidades se desfazem. Desertores brancos invadem a cidade. De revólver na mão, tentam assaltar as últimas embarcações que deixam o porto. Rechaçados, refluem para o centro da cidade, misturados à multidão, pilham as lojas atingidas pelos bombardeios. Diante da Army and Navy Stores, símbolo do colonialismo britânico, uma francesa, refugiada de Johore, viu, sob a abóbada de fuligem, o espetáculo surrealista de soldados australianos dançando com mulheres nuas, manequins de cera roubados das vitrinas. O cheiro dos mortos que apodrecem nos escombros torna-se alucinante, e a sede une-se ao cansaço e ao medo.

 

No domingo, dia 15, Percival reúne em conferência os comandantes de setor. O QG foi transferido para Fort Canning, em plena cidade, mas toda Cingapura está na frente de batalha. O ataque japonês atinge todo o perímetro da ilha, do Swimming Club à olaria de Bukit Vhermin. Os generais convocados tem enorme dificuldade em conseguir uma via de acesso. Ainda não atingiram Fort Canning quando uma explosão retumbante os faz compreender que o depósito de munições da Caserna Alexandra, um dos últimos recursos dos sitiados acaba de ir pelos ares. No mesmo momento, os japoneses atingem o hospital do mesmo nome e matam a baioneta todos que encontram, inclusive um ferido na mesa de cirurgia. O próprio Fort Canning está cercado pela fumaça. Os obuses caem sem parar, e ouvem-se tiros de metralhadoras no gramado do Raffles College, ao lado.

 

Um capelão reza e dá comunhão a quem o desejar. Depois, o Brigadeiro-General Simson, Diretor da defesa passiva, toma a palavra para uma comunicação preliminar. Em 24 horas, a água vai faltar completamente. Serão necessários muitos dias, depois do término dos combates, para restabelecer o fornecimento. A ameaça, neste clima tórrido e pútrido, não é a sede, mas a peste!

 

Em seguida, falam os comandantes de setores. A leste, o ataque está contido, mas a oeste, a frente se desmorona. Depois de ter-se comportado além de todas as esperanças, a 1a Brigada malaia retirou-se bruscamente ao longo da costa, deixando a descoberto o flanco esquerdo da divisão australiana, enquanto o recuo da 54a e 55a brigadas inglesas descobria o flanco direito. O General Bennett já tomou suas providências para escapar quando a capitulação inevitável for decidida, mas não informa isso ao Conselho, limitando-se a declarar que suas poucas munições só podem ser usadas na defesa de seu próprio setor.

 

As janelas foram obstruídas por sacos de areia. Os ventiladores não funcionam. O suor inunda o rosto, os braços e os joelhos nus dos generais: quase nenhuma água, víveres, munição, carvão. Os estoques acumulados prevendo o sítio de Cingapura eram imensos: os japoneses os tomaram. A única maneira de prolongar a resistência é retomá-los. Os generais acham possível contra-atacar para reconquistar Bukit Timah e as lojas mais importantes, que, apesar das destruições, ainda existem?

 

Não, os generais não acham isso possível. Pensam que é totalmente impossível, completamente fora de questão.

 

“Se é assim - diz Percival - a única alternativa é capitular”.

 

Tira do bolso um radiograma que acaba de receber. Em Java e em Londres, as disposições inacessíveis dos dias precedentes são abrandadas. Churchill acha que não tem sentido um massacre, se já não há nenhuma chance de vitória. Wavell telegrafou a Percival dando-lhe poderes para decidir o momento de cessar a resistência.

 

“Agora”, decide Percival.

 

Esta palavra não foi seguida de nenhuma cena pomposa. O Major Wilde é designado para levar ao inimigo a oferta de capitulação. Fazem-lhe uma bandeira branca de um guardanapo da copa dos oficiais. Ele sobre a Bukit Tamah Road numa Land Rover, desfraldando seu emblema de derrota. O aterro está deserto, mas, nas calçadas, civis e soldados vêem passar com absoluta indiferença a rendição de um império. Depois da encruzilhada de Adams Road, um japonês aparece e faz sinal a Wilde para avançar. O fogo cessa. Surge um homenzinho de bigodeira, com agulhetas e um grande sabre: é o comandante Fujita, um desses espantosos oficiais de Estado-Maior que estão sempre na linha de fogo. Detalhe que explica sua túnica aberta, no mais rigorosos dos exércitos. Fujita estão com os ombros engessados, pois fez a campanha com a clavícula quebrada. Não seria este que baixaria ao hospital por uma distensão no cóccix!

 

Capitulação? Que seja. Os japoneses estão de acordo, com a condição, naturalmente, de que seja uma rendição pura e simples, e que o comandante-chefe do exército inimigo, o Tenente-General Percival, venha pedi-la pessoalmente. E, exigência rigorosa, com a bandeira britânica ao lado da bandeira branca. A foto preparada desta forma, passará a História como o símbolo mais retumbante da mais irremediável das derrotas do Ocidente.

 

Queda de um outro império, as Índias Holandesas

 

Contra o ataque japonês, os Aliados erigiram uma muralha de iniciais: ABDA, American-British-Dutch-Australian. O Sudeste Asiático terá um Comando comum. A direção é novamente de Wavell; o chefe do Estado-Maior, outro inglês, Sir Henry Pownall; e um terceiro inglês, o Marechal-do-Ar Sir Richard Peirse, comanda as forças aéreas. Os Estados Unidos exercerão o comando das forças navais com o Almirante Hart, e a Holanda o das forças de terra, com o General Hein ter Poorten. A missão da ABDA é a defesa da “barreia malaia”, termo vago, que inclui tanto a Malásia propriamente dita, quanto Amboim e Timor. Os meios materiais para realizar uma tarefa tão vasta são insuficientes e mal adaptados. Cada uma das iniciais representa uma direção divergente e pontos de vista estratégicos inconciliáveis.

 

Os japoneses tem objetivos extremamente ambiciosos, mas métodos de uma prudência incrível. Traçaram seus planos com um tratado entre o Exército e a Marinha, concluído algumas semanas antes do ataque a Pearl Harbor. Três grandes tentáculos se inserem nos arquipélagos indonésios. O tentáculo ocidental, partindo da baía de Camranh, na Indochina Francesa, atinge o Norte de Bornéu e vai-se enroscar sobre Sumatra. O tentáculo central parte de Formosa e, apoiando-se nas Filipinas, comprime, pelo estreito de Macassar, o oeste das ilhas Célebes, o leste de Bornéu, Lombok e Bali. O tentáculo oriental parte do arquipélago de Palau e, apoiando-se também nas Filipinas, entra no mar das Molucas, toma Amboim e Timor, ameaça a Austrália. Deslocam-se sistematicamente de ilha em ilha, só fazendo novo movimento de avanço depois de ter consolidado a tomada anterior, com a ajuda de uma base aeronaval. O centro para o qual se dirigem é Java. A conquista da opulenta ilha consagrará a posse do Sudeste Asiático insular. Com a Malásia, a Indochina, o Sião, a Birmânia, a China e a Manchúria, ele constituirá, sob o nome modesto e filantrópico de esfera da Co-Prosperidade, um império fabuloso.

 

O plano magistral prossegue, antes e depois da queda de Cingapura. O setor britânico de Bornéu foi conquistado em dezembro, e também o sul de Mindanao, onde os japoneses estabeleceram, em Davau, uma grande base de descanso. Em janeiro, os desembarques são em Tarakan e Balikaapan, a leste de Bornéu; em Menado e Kendari, nas ilhas Célebes, e também em Amboim. Em fevereiro, é a vez de Timor e Macassar; depois a de Bali e Sumatra. Nunca são operações espetaculares. Alguns navios-transporte, escoltados por alguns cruzadores, desembarcam um batalhão ou dois, que tentam tomar intactos um porto, um estoque de borracha ou uma refinaria de petróleo. Os destacamentos holandeses e britânicos resistem o mais que podem e, algumas vezes, como em Sarawak, internam-se na floresta para não serem capturados. Mas nada se opõe seriamente à conquista da Indonésia. Os Estados Unidos não estão preparados para a contra-ofensiva. O Almirante King e o Almirante Nimitz limitam-se a manter aberta a comunicação entre a Austrália e a Califórnia. É necessário reconstituir uma frota, antes de ir além disso.

 

Na segunda quinzena de fevereiro, Java está inteiramente isolada. Os potentes tentáculos japoneses se fecham sobre ela. A oeste, após falhar um lançamento de pára-quedistas, um regimento japonês se apoderou de Palembang, na ilha de Sumatra, onde encontrou, intacta, uma fortuna em petróleo. A leste, um bombardeio aéreo devastador interrompeu as comunicações entre Java e a Austrália, destruindo a cidade, o porto e o aeroporto de Darwin. Adiantando-se ao exército das Filipinas, ocupou Bali, separada de Java apenas por um fino estreito tortuoso. Os japoneses vêem com seus próprios olhos a presa que, com Cingapura, representa o coroamento de sua grandiosa empresa. O que parecia inconcebível dois meses antes, a destruição de dois grandes impérios europeus, a subversão de uma ordem estabelecida há três séculos, cumpriu-se com uma rapidez e uma facilidade mágicas. Revanche colossal da Ásia.

 

Em Java, a confusão é indescritível. Destroços das derrotas refluíram sobre a ilha. Milhares de civis e militares conseguiram sair de Cingapura e atingir as possessões holandesas, uns, por evacuação regular, como os 10.000 soldados da RAF, outros, como fugitivos ou desertores. Foram dizimados por aventuras trágicas, mas, ainda assim, é uma multidão, que duplicada pelos refugiados de Sumatra, invadiu a ilha. O porto de Batávia, Tanjonk Priok, submergiu, não resistindo à dupla multidão de homens e navios. A base naval de Surabaia está numa situação pior ainda, por causa dos bombardeios. Os indonésios, apavorados, fogem às cegas, provocando uma ameaça asiática de fome e epidemia. Falta tudo, inclusive óleo para os navios, num país abarrotado de petróleo, onde os japoneses tomam, brincando, estoques colossais de carvão. O sol ardente e as chuvas torrenciais esgotam e desmoralizam os europeus, aferrados a seu conforto colonial, reduzidos à condição de refugiados sem abrigo. Derrota e humilhação dos Tuans.

 

Wavell não tem a bravura necessária para dominar esta situação trágica. Saiu do hospital, mas anda curvado, lamentando ora suas costas feridas, ora seu funesto destino. Sua ABDA não funciona. O velho almirante americano Hart, chamado por Roosevelt, depois de suas altercações com os holandeses, está de acordo com ele em que as Índias Holandesas são indefensáveis, e que Java é uma armadilha na qual não quer cair de forma alguma. Desencoraja o comitê de chefes de Estado-Maior da intenção de enviar o corpo australiano retirado do Oriente Médio, e ele próprio pede a dissolução de seu comando. O pesar que expressa - “Detesto a idéia de abandonar estes corajosos holandeses”- talvez seja sincero. Contudo, é com muita pressa e um alívio inexprimível que, a 25 de fevereiro, o Marechal-de-Campo Sir Archibald Wavell deixa Java.

 

Os holandeses ficam sós. Injustiça: durante a campanha da Malásia, durante o cerco de Cingapura, cooperaram com todas as suas fracas forças para a resistência britânica. Seus poucos e velhos submarinos afundaram mais tonelagem japonesa que todo o poderio naval e aéreo da Inglaterra e dos Estados Unidos, juntos. Reduzidos a Java, estão lutando por seus lares. Meio milhão de botavos tinha-se instalado na ilha, a maioria sem a intenção de voltar. O sangue estava misturado por uma miscigenação infinita. A dominação holandesa é tão antiga, que ninguém poderia pensar, indonésios ou holandeses, que ela pudesse ser abolida. Quando a Holanda caiu, em maio de 1940, todo o espírito de resistência da nação se transferiu para suas Índias. Sua invasão representa um segundo aniquilamento. A imaginação se recusa a admitir isso. Ao derrotismo de seus aliados, o Governador-Geral Jonkheer, Dr. Van Starckenborgh-Stachouwer, o general Hein ter Poorten, os almirantes Helfrich e Doorman respondem que os japoneses não são invencíveis. Ante o fato consumado do abandono, declaram: ‘Nós combateremos até o fim”.

 

A 27 de fevereiro, no começo da tarde, o Almirante Doorman volta a Surabaia depois de um ataque em vão. No cais, recebe uma ordem do Almirante Helfrich: atacar as forças inimigas que surgem a leste de Bawean. É uma ilhazinha, a umas 60 milhas de Surabaia. O ataque a Java começou.

 

Doorman comanda os navios aliados remanescentes no Sudeste Asiático: o cruzador pesado inglês Exeter, o cruzador pesado americano Houston, o cruzador leve australiano Perth, os cruzadores leves holandeses De Ruyter e Java, e alguns destróieres. A superioridade da força japonesa que ela ataca as 16h16 não é muito grande, embora uma torre do Houston não funcione, e os cruzadores pesados Haguro e Nachi tenham 20 canhões de 8 polegadas, contra os 10 de Doorman. Mas o caráter heterogêneo da frota, a falta de um código comum e a falta de confiança dos comandantes em seu almirante pesam muito. Com sua caldeira atingida, o Exeter deixa a linha de fogo e se refugia, cambaleando, em Surabaia. O Java e o De Ruyter, torpedeados, afundam, e, neste último, morre o valente Almirante Doorman. O Houston e o Perth chegam a Tanjok Friok, mas são afundados a 1o de março, ao tentarem deslizar entre Java e Sumatra para fugir ao Índico. O Exeter, que tenta a mesma evasão por uma rota diferente, tem a mesma sorte no mesmo dia. As forças navais aliadas no Sudeste Asiático estão aniquiladas: a sorte de Java está selada.

 

A 1o de março, atrasados apenas 24 horas pelo sacrifício de Doorman, os japoneses desembarcam a leste e a oeste. A guarnição terrestre consiste de quatro regimentos holandeses, 25.000 homens, reforçados por uma batalhão australiano, e um esquadrão de hussardos, inglês. A aviação compõe-se somente de 150 aparelhos disparatados. Os japoneses concentram contra a ilha 6 divisões e uma esmagadora aviação naval, três vezes mais do que seria necessário.

 

A leste, o desembarque se desenrola em uma maravilhosa noite tropical. A 48a Divisão marcha simultaneamente para cortar Java em duas, e sobre Surabaia, para tomar um arsenal de reputação mais poderosa que suas defesas. Os dois objetivos são atingidos no dia 7, com poucas perdas.

 

A oeste, o desembarque da 2a Divisão tem o mesmo êxito. Uma coluna avança para Batávia pela estrada costeira. Outra marcha para Buitenzorg pelo interior. Desembarcado mais a leste, o 230o Regimento de Infantaria aborda a montanha de frente e marcha em direção a Bandoeng. Criação européia, paraíso de frescor sobre a fornalha das planícies, a cidade é um reduto de defesa, e há inclusive um projeto de guerrilha, para prolongar a resistência nas montanhas que a cercam. Mas os holandeses terão uma surpresa: os sundaneses, habitantes da região, não manifestam as boas disposições que se esperava de sua tradicional lealdade. Foi uma das considerações do General Ter Poorten, no conselho de guerra do dia 5, para descrever a situação em suas cores sombrias. Batávia foi abandonada sem resistência. Buitenzorg foi tomada à força. Todos os contra-ataques fracassam; começam a faltar víveres, munições, gasolina; os hospitais de Bandoeng estão cheios de feridos e os indígenas acolhem os japoneses mais como libertadores...

 

Decide-se resistir assim mesmo. Não por muito tempo. No dia 7, chegando de oeste e de norte, os japoneses estão nas fronteiras de Bandoeng. É necessário capitular, morrer lutando, ou partir para a guerrilha na selva úmida... Vence a primeira hipótese. Como Percival, em Cingapura, o que o General Ter Poorten e o Jonkheer van Starckenborgh levam aos postos avançados do inimigo, não é a capitulação de um exército, mas a renúncia de um império.

 

MacArthur deixas as Filipinas: “Eu voltarei...”

 

Numa das extremidades de seu ataque, que se alastra, os japoneses entraram na Birmânia a 16 de janeiro e tomaram Rangum a 7 de março. Na outra extremidade, invadiram o arquipélago de Bismarck e tomaram Rabaul a 24 de janeiro. A primeira conquista significa que a ligação terrestre com Chiang Kai-chek está quase cortada, e a Índia, às vésperas de ser atacada. A segunda, a menos de 1.200 milhas de Brisbaine, significa que a rota da Austrália está em perigo.

 

No centro de alastramento do ataque, a península de Bataan e a ilhota de Corregidor ainda arvoram a bandeira dos Estados Unidos. Os japoneses facilitaram esta resistência, tomando de Homma sua melhor unidade, a 48a Divisão, para enviá-la à conquista de Java.

 

Os atacantes que continuam são velhos reservistas, a Marinha Imperial está ocupada em outros lugares, e a aviação é de segunda ordem. O Estado-Maior de Tóquio não tem razão alguma para fazer grandes sacrifícios por uma posição cujo interesse intrínseco é nulo, e a queda, fatal. O único inconveniente, que cresce de semana para semana, é o prestígio que o prolongamento da luta dá aos Estados Unidos: a invencível Cingapura caiu, mas o insignificante Corregidor ainda se mantém!

 

A situação dos defensores é trágica. Apesar da fraqueza dos japoneses, os combates são duros. MacArthur estabeleceu seus dois corpos de exércitos - Wainwright à esquerda, Jones à direita - em frente a Abucay, mas, infiltrando-se na floresta escarpada do monte Natib, o coronel Takechi toma a metade da península aos americanos. Os japoneses tentam, em seguida, acabar com o assunto, desembarcando atrás das linhas inimigas. São detidos, mas refugiam-se nas grutas dos cabos Quinauan e Longoskewayan, resistindo com tanta designação, em suas covas marinhas, que, apesar das centenas de homens vítimas do fogo e da fome, os americanos só fizeram um prisioneiro. Além disso, o esforço esgotou os atacantes. O mês de fevereiro transcorre numa calma quase total.

 

Calmo ou não, cada dia mais aproxima os defensores de Bataan de sua perda. A península espetacular, com seus dois grandes vulcões e sua vegetação luxuriante, é extremamente insalubre. A disenteria, a malária e o beribéri aumentam a devastação. O quinino acabou, faltam medicamentos, os dois hospitais de campanha são necrotérios. Os americanos comem meia ração por dia. Os filipinos só recebiam um pouco de arroz, até o momento em que MacArthur estabeleceu um pouco de igualdade na miséria. Comem búfalos selvagens, macacos e répteis. A miséria física enfraquece os corpos; o tédio e o desespero corroem os corações. Uma canção de soldados, composta realmente no local, traduz, exprime, mantém e aumenta a amargura resignada dos homens, que já sabem não poder esperar socorro algum: “We’re the battling Bastards of Bataan - No, Momma, no Poppa, no Uncle Sam... - and nobody gives a damn”.  No princípio, MacArthur mentiu muito, em uma ordem do dia, que a ajuda iria chegar; milhares de homens, centenas de aviões estavam a caminho. Ninguém mais acha que valha a pena manter esse sonho.

 

Para os encurralados de Bataan, Corregidor é um paraíso. A rocha está a 1.500 metros da península: parece um mundo de segurança e abundância, de privilégios exorbitantes. Na realidade, é um ninho de brigas e frustrações.

 

O Presidente Quezon espuma de raiva. Um discurso de Roosevelt dando prioridade à guerra contra Hitler lança-o numa crise de furor que é quase fatal a sua frágil saúde. Levanta-se de sua cadeira de rodas, gritando que não quer mais ouvir falar na Inglaterra, não quer mais ouvir falar na Europa, que seu povo queima e morre numa guerra que lhe é estranha, sob uma bandeira incapaz de protegê-lo. Telegrafa a Roosevelt um protesto delirante, exigindo que os americanos se retirem das Filipinas, para que estas possam proclamar sua neutralidade. Por fim, MacArthur consegue tirá-lo dali. Um submarino conduz o fervoroso patriota a Mindanao. Aferra-se ainda por duas semanas ao sol filipino, depois resigna-se a passar à Austrália, e vai morrer no exílio, em Washington.

 

Resta o próprio MacArthur. Rosa de Tóquio, a locutora da traição, anuncia que ele será enforcado diante do palácio imperial. Em vez de capitular, o general prefere penetrar nas linhas inimigas e ir organizar guerrilhas nas montanhas. Mas Roosevelt decide de outra forma. A 22 de fevereiro, propõe ao Almirante King e ao General Marshall chamar MacArthur e confiar-lhe o Pacífico Sul, para pôr fim à anarquia provocada no comando, pelo desmoronamento da ABDA e pela disputa Churchill-Curtin. Apesar de sua antiga desavença com MacArthur, Marshall concorda. A ordem correspondente é enviada ao campo de batalha.

 

Apesar de seu esquisitismo, MacArthur é um autêntico homem de honra e um bravo. A idéia de ser o capitão que deixa o navio em primeiro lugar lhe é extremamente desagradável. Começa por recusar-se a obedecer, depois adia durante 15 dias. Enfim, a 15 de março, convoca Wainwright e transfere-lhe um comando que só pode terminar na morte ou na prisão. Parte à noite, no cais de Corregidor, devastado pelas bombas. Por uma mesura exagerada, ele não quis um submarino. As quatro lanchas lança-torpedos PT que permanecem e