Tópicos do
capítulo:
Distorção das
linhas alemães na Rússia
Stalingrado,
objetivo acessório, para o alvo principal
Hitler destrói
List e Halder
19 de novembro:
ataque russo no Don
O Fuhrer recusa o
abandono de Stalingrado. Paulus obedece
Manstein assume o
comando do Grupo Don
Paulus condenado
a permanecer cercado
Derrota italiana.
Agonia do 6o Exército alemão
8 de janeiro: os
russos propõem uma capitulação
31 de janeiro:
fim em Stalingrado, fúria de Hitler
Paroxismo Já é hora de voltarmos à estepe russa. A tragédia
que aí se desenrola eqüivale em intensidade dramática à do inverno de 1941,
em frente a Moscou, e ultrapassa-o em alcance histórico. De Voronej ao Cáucaso, a extensão e distorção das
linhas alemães atingiram um grau espantoso. O Grupo de Exércitos Sul começara
sua campanha de verão numa frente de 800 km. Fracionara-se em dois, A e B,
cujas frentes, somadas, representavam nada menos de 2.600 km. A ligação dos
combatentes com as bases que os abastecem resume-se em estradas que a mais
leve chuva torna intransitáveis e em ferrovias, geralmente de linha única,
cujos trilhos estão colocados no chão sem qualquer escora de cascalho ou
pedras. A circulação do material rodante, extremamente lenta, é ainda
agravada pelos atentados dos partisans, que atingem a média de 700 por mês,
sendo que repressão alguma consegue diminuir seu índice de crescimento. O objetivo da ofensiva era a conquista da
Transcaucásia. Essa tarefa cabia ao Grupo A, comandado pelo Marechal-de-Campo
Von Kleist. O Grupo B, confiado sucessivamente ao Marechal Von Bock e ao
General Von Weichs, tinha apenas uma missão de cobertura, contudo grandiosa.
Deveria prolongar a barreira do Don, aferrolhando o istmo de 60 km que separa
o Don do Volga, e aproximar-se paulatinamente do curso deste último, que
acompanharia até Astracã. No final da campanha, isto é, antes da chegada do
inverno, as posições alemães ao sul da URSS deveriam ser limitadas pelo
litoral do mar Negro, a depressão transcaucásica de Batum e Bacu através de
Tíflis, o litoral do mar Cáspio e, finalmente, o Volga e o Don. Seria absurda essa ambição? Sim e não. Não: o plano de Hitler daria à Alemanha o petróleo
do Cáucaso. Eliminaria os russos do mar Negro, fazendo desaparecer a ameaça
de contra-ofensiva na direção da Criméia, da Ucrânia e da Romênia. O Volga
tonar-se-ia o extenso e sólido pilar do edifício alemão na Rússia. O
prosseguimento da campanha acarretaria operações num perímetro de 4.200 km,
mas a vitória permitiria reduzir a frente efetiva em cerca de 1.000 km, da
foz do Volga ao curso médio do Don. Era essa, na verdade, a única
possibilidade de vitória, já que desaparecera a esperança do pronto e total
aniquilamento do Exército Vermelho. O absurdo flagrante e fatal residia na
desproporção entre fim e meios. Para realizar o plano de Hitler, os exércitos
alemães deveriam dispor de efetivo duplo, tríplice mobilidade e aviação
quádrupla. As tropas deveriam estar repousadas e reintegradas. Vinham
combatendo sem tréguas desde o início da guerra com a Rússia, e as perdas
sofridas não haviam sido reparadas quer em pessoal quer em material. Muito
raramente o efetivo das companhias ultrapassava 60 homens, e os das
Panzerdivisionen, 80 tanques. Hitler, que jamais ia ao front, e nunca
permitira que seus colaboradores próximos lá fossem, não tinha a menor idéia
concreta do desgaste que seus exércitos acusavam em meio das vitórias
obtidas. Caso o conhecesse, ter-lhe-ia sido impossível sacar, de uma Alemanha
insuficientemente preparada para o impasse de uma guerra mundial, os recursos
que agissem como paliativos nessa instância. À inquietação que se elevaria em torno dele, o
Fuhrer respondia apoiando-se no argumento de que os exércitos soviéticos
estavam a um passo do fim. Acolhia calorosamente todos os indícios
comprovadores do esgotamento do inimigo, e repelia com furor toda prova em
contrário. A audácia dessa estratégia justificava-se, sustentava Hitler, pela
proximidade do último quarto de hora. Toda guerra é ganha com restos; diante
dos destroços russos, as sobras dos alemães conservavam o poder da decisão. Passara-se o verão. Passa-se o outono. Tórrido
ainda ontem, o vento da estepe volta a ser glacial. A neve cai na montanha e
surge na planície. Os chefes dos corpos de tropas redigem relatório sobre
relatório, pedindo o aceleramento do envio de equipamentos de inverno.
Segundo o calendário do Alto-Comando, os objetivos de 1942 deveriam estar
atingidos. Em que medida o são, ou ainda podem sê-lo, antes que de fato se
instaure o verdadeiro inverno? Batum, junto ao mar Negro, deveria ser tomada;
faltam ainda 500 km para isso. Nenhum progresso importante, foi realizado
após a tomada de Novorossisk, e, no interior, a escalada do Elbruz (5.800 m)
parece ter marcado com uma proeza esportiva o limite do esforço alemão. O
Subgrupo do Exército Ruoff, composto do 17o Exército alemão e do 3o
Exército romeno, combate em sublimes paisagens; florestas virgens, gargantas
selvagens, esporões rochosos, de onde se descortina a verdejante planície
costeira e a grande mancha escura do mar. Fracassaram, porém, todas as
tentativas para descer até essa costa. No Cáucaso central, Tíflis já deveria ser alemão.
Não o é nem ao menos seu vestíbulo, Ordjonikidze. O 1o Exército
Blindado reuniu no cotovelo do Terek todas as forças que pôde sacar de seus
700 km de frente, a 13a Divisão Panzer tentou subir de novo as
gargantas que introduzem diretamente à estrada militar da Ossetia: as
dificuldades do terreno, a penúria de gasolina e a resistência russa conjugaram-se
para detê-la. Mais a leste, a Divisão Viking, formada por voluntários
nórdicos, tentou apoderar-se da importante zona petrolífera de Grozny. Foi
feita uma cabeça-de-ponte sobre o Terek, ao preço de sobre-humanos esforços,
mas faltava inteiramente o reforço necessário para tirar partido desta
vantagem. A 12 de novembro, em meio duma tempestade glacial, os Vikings
tornaram a cruzar o rio. Em parte alguma a Wehrmacht irá mais longe do que
isso. O objetivo real da campanha era Bacu. Nenhum
soldado alemão dela se aproximará, a não ser num raio de 600 km. “Se não tomo
o petróleo de Bacu - dissera Hitler -, ver-me-ei obrigado a acabar com a
guerra”. Entre o Terek e o baixo Volga, na estepe calmuque,
uma única divisão, a 16a Motorizada, atravessou o vazio de 400 km
existente entre os grupos de Exércitos A e B. Os próprios russos, na verdade,
não conseguem saturar tão enormes espaços. A 16a Motorizada toma
Elista, capital dos nômades, e uma patrulha, conduzida por um certo
Oberleutnant Gottlieb, avança até a 25 km de Astracã. Corta a linha férrea de
Bacu, incendeia um trem de petróleo e volta sem ter visto um único soldado
inimigo. Um vazio praticamente total se estende entre os exércitos que
combatem no Cáucaso e os que se comprimem no Volga. Ao norte de Elista, o 4o Exército
romeno, composto de dois débeis corpos, esboça uma frente ofensiva, formando
ao longo de uma cadeia de lagos, comprovantes de um antigo curso do Volga. À
sua esquerda, o 4o Exército Blindado, do General Hoth, alcança o
grande rio perto do cotovelo que este desenha, para deixar a direção do mar
Negro e tomar a do Cáspio. Até 16 de setembro, essa força participara da luta
por Stalingrado, e depois cedera parte de suas unidades ao 6o
Exército, encarregado de concluir a conquista da cidade. Reduzido ao 4o
Corpo e à 29a Divisão Motorizada, o 4o Exército
Blindado se encontrava em condições de apoderar-se das alturas de
Krasno-Armensjk, de onde os russos dominavam suas linhas. Entramos no setor do 6o Exército, nos
limites de Stalingrado. O oficial que o comanda, General Friedrich Paulus, é
o mais recente dos grandes chefes alemães. Com apenas 52 anos de idade,
ex-general-intendente, ex-chefe do Estado-Maior do Marechal Reichenau, ele
fora chamado, não sem despertar ciúmes, para ficar à frente de uma das
principais peças do tabuleiro do xadrez militar. Hitler, entretanto, tem os olhos sobre ele para
outro papel, menos invejável: pretende, quando Paulus conquistar Stalingrado,
confiar-lhe as funções de Jodl, promovendo-o a seu estrategista particular. O favor político não influi na brilhante promoção
de Paulus. Oriundo de um meio de modestos funcionários, elevado socialmente
por sua aliança com uma boa família romena, ele é neutro em política, como é
morno de personalidade. A obediência é o principal esteio do Exército, mas a
desobediência leva regularmente à glória os grandes chefes. Paulus é incapaz
de desobedecer. A incumbência que lhe fora confiada para a
campanha de 1942 torna-se cada vez mais pesada. As operações do 6o
Exército só haviam sido inicialmente previstas para o ferrolho do Don,
permanecendo Stalingrado como objetivo suplementar, antes uma presa do que
uma meta. Depois, o que era acessório revestiu-se da maior importância.
Hitler começara por declarar que não exigia a ocupação da cidade,
contentando-se com a destruição de seu potencial industrial. Vê agora, pela
feroz batalha que ele provoca, o impasse capital e decisivo da luta contra a
Rússia. O cerco teve início a 2 de setembro, pela junção,
nas colinas que dominam a cidade, do 6o Exército e do 4o
Exército Blindado. A causa parece perdida para os russos. Todas as
comunicações terrestres de Stalingrado são cortadas, e o abastecimento da
guarnição só é realizável pelo Volga. O General Lopatine, comandante do 62o
Exército, considera a cidade indefensável, e solicita autorização para tornar
a cruzar o rio. Voltando, porém, ao sistema de defesa elástica adotado no
início do verão, Stalin acaba de proclamar que a Rússia não pode mais ceder
território algum. O comandante do grupo de exércitos, Eremenko, e seu novo
comissário político, Kruschev, substituem Lopatine pelo General Tchuikov,
recém-chegado do Extremo Oriente. Suas ordens resumem-se a uma frase:
conservar Stalingrado, ou morrer. Stalingrado é um cais do Volga. Vira as costas à
estepe e contrai-se ao longo da enorme massa líquida. As margens escarpadas
interrompem-se por um declive abrupto, o que complica as relações da
aglomeração e do rio, fornecendo contudo um ângulo morto às armas de longo
alcance. Os barrancos erodidos, os balkas da estepe, prolongam-se pela cidade
por uma série de depressões, sendo a mais profunda ocupada pelo rio, que
conservara o nome de Tzaritza, quando a Tzaritzina se tornara Stalingrado. A
cidade velha fica ao sul. A cidade central, cujo coração é a Praça Vermelha,
desce por vários lances de escada da colina Mamai ao desembarcadouro do
ferry, que substitui as pontes ausentes. Desenvolve-se em direção ao norte a
faixa das pequenas cidades industriais. A fábrica de produtos químicos Lazur
ocupa o centro de um entroncamento ferroviário nitidamente visível em
fotografias aéreas, provindo daí seu apelido, Raquete de Tênis. Vem a seguir
a Usina Siderúrgica Outubro Vermelho, a fundição de canhões Barricada e a
fábrica de tratores Djerjinski. Os subúrbios de Spartokovska e de Rynok
prolongam Stalingrado até a vasta superfície líquida a partir da qual a
extensa sangria do Achtuba começa a desmembrar o Volga. O comprimento total
dessa cadeia urbana e industrial ultrapassa 50 km. A largura raramente excede
3.000 passos. A cidade velha caiu primeiro. A conquista do
grande silo pela 29a Divisão Motorizada foi o primeiro dos
combates fantásticos que dão um caráter único à batalha de Stalingrado. As
detonações, a ressoar na enorme carapaça de concreto, arrebentavam os tímpanos,
quais elásticos esticados em demasia. O edifício ainda estava cheio de trigo:
russos e alemães matavam-se em meio a uma dourada cascata. Os alemães levaram
vantagem. No meio de outubro, haviam conquistado, no setor sul, 10 km de
margem, de Kuperovskie ao pé das escadas da Praça Vermelha. No setor norte,
ocuparam uma ala eqüivalente, de uma ponta a outra de Rynok. Se os russos fossem razoáveis, teriam desistido.
Só conservavam, de Stalingrado, uma parte dos bairros industriais do Norte,
como também, na cidade central, o sopé da escarpadura: uma faixa de algumas
dezenas de metros de largura, finalizando em bisel à entrada do
desembarcadouro. A batalha, contudo, revestira-se de caráter irracional. Não
mais punha em choque dois comandos sensíveis à lógica militar, e sim jogava,
um contra o outro, dois incontroláveis fanatismos. Do lado alemão, o absurdo
era ainda mais flagrante. Quando se constatou, em outubro, que o Grupo de
Exércitos A perdera qualquer possibilidade de conquistar em 1942 o petróleo
do Cáucaso, a ponta de Stalingrado ficou destituída de interesse estratégico.
Sua última justificativa econômica, a intercepção do tráfego do Volga,
encontrava-se às vésperas de desaparecer, pois o congelamento do rio deveria
interromper a navegação muito mais efetivamente do que a presença dos
soldados de Paulus em Rynok e a dos de Hoth em Kuperovskoie. A principal
tarefa do Comando alemão constituiria, daí em diante, em receber o segundo
inverno russo em melhores condições do que o primeiro, encurtando e consolidando
uma desmesurada frente. O avanço em direção a Tíflis e a punção até o Volga
encabeçavam os sacrifícios a serem admitidos. Hitler, porém, desligara-se da realidade, e os que
tentavam fazê-lo voltar a ela pagavam caro por isso. No começo de setembro, um general fora massacrado
por sustentar a necessidade da limitação da marcha para a frente, e um outro
caíra em desprestígio por havê-lo defendido. O primeiro era o
Marechal-de-Campo List; o segundo, o General Jodl. Ao voltar de uma missão ao
QG do Grupo de Exércitos A, Jodl ousara lançar ao rosto de Hitler que as
faltas reprovadas a List eram conseqüência das ordens que o próprio Fuhrer
dera. Este deixou o recinto lívido, como se fosse desmaiar, vagueou durante
horas pelos bosques de Vinnitsa, e fechando-se de vez num círculo de solidão,
deixou para sempre de fazer as refeições à mesa de seus oficiais. Destituído
de seu comando, List desaparece da história das hostilidades. No fim de setembro, Halder, por sua vez,
desaparece. Mantivera-se no posto de chefe do Estado-Maior Geral do Exército
desde a crise de Munique. Mas seu espírito crítico, seu discurso, seus
protestos, advertências, somadas a seu catolicismo, indispunham-no junto a um
ditador que se deixava proclamar por seus cortesão como “o maior gênio de
todos os tempos”. A taça transbordou em 24 de setembro. “Tanto os seus nervos
como os meus - disse Hitler - estão esgotados. Não é de um mestre-escola, mas
de um homem imbuído do fanatismo nacional-socialista, que necessito para
conduzir minha guerra na Rússia..” Kurt Zeitzler, que substituiu Halder, não passa de
um simples general-major - No Exército alemão, as patentes de general
obedecem à seguinte hierarquia: general-major (sem estrelas); general-tenente
(1 estrela); general-capitão (2 estrelas); general-coronel (3 estrelas). Seu OKH tem por única atribuição a frente
oriental, ficando os palcos de operações colocados diretamente sob a
autoridade do OKW, isto é, Keitel. Na realidade, tudo se torna confuso sob a
onipotência caprichosa e verborrágica de Adolf Hitler. Depois do rompante
contra Jodl, estenógrafos registram todas as conferências com caráter de
relatório Lagebesprechungen feitas em seu QG. Delegarão assim à história um
lenga lenga fantástico, onde se vê Hitler passar das mais sublimes considerações
a pormenores sem importância, mostrando-se a cavaleiro do mundo, para, no
minuto seguinte, deslocar uma companhia, sem contudo sentir-se tentado uma só
vez a ir ao front, ou de roçar-se em outros Feldgrauen que não são os heróis
condecorados, enluvados e desinfetados que faz trazer à sua presença de vez
em quando. Em vez de renunciar a Stalingrado, o Exército
alemão encarniça-se em mantê-la. Todos os batalhões de engenharia militar são
trazidos em aviões e formados em grupos de assalto para abrir caminho à
infantaria nos grandes bastiões industriais. Os combates desenrolam-se no
meio da confusão da maquinaria quebrada das fábricas, de pontes rolantes
tombadas, de estruturas espatifadas de edifícios. Os alemães sabem que nada
lhes será cedido, e que até a última pedra de Stalingrado deverá ser regada
com seu sangue. A 9 de novembro, na 19a celebração do
Putsch de Munique, Hitler alardeia: “Eu quis atingir o Volga na própria
cidade que leva o nome de Stalin. Tomamos essa cidade, exceção feita de duas
ou três insignificantes ilhotas. Perguntam-me: “Por que não acaba mais
depressa com ela?”. Respondo: Porque não quero saber de um segundo Verdun.
Deixo a pequenos grupos de assalto o cuidado de ultimar a conquista de
Stalingrado”. Ao dizer que Stalingrado se encontrava
inteiramente conquistada, o Fuhrer em nada falseara a verdade. Os russos
conservavam o desembarcadouro, agarravam-se à Raquete de Tênis e detinham uma
parte da Usina Outubro Vermelho, assim como as saídas orientais das fábricas
Barricada e Djerjinski. Tudo mais, correspondendo a nove décimos de
Stalingrado, 50 km de ruínas, estava nas mãos do inimigo. Todos os imóveis de
madeira, queimadas, ficando apenas os vestígios de milhares de chaminés
enegrecidas. Não podendo transpor o Volga, a população fugira para a estepe
desprovida de recursos, e milhares de inocentes morreram de fome. Mas Hitler subestima sua platéia ao fazer crer que
os combates de Stalingrado se resumem agora à tarefa de uns poucos varredores
de destroços. A totalidade do 51o Corpo, repartido em oito
divisões, está empenhada na batalha das ruas. Os melhores elementos do grupo
de exércitos são por ela sorvidos. Ao invés de perder tempo em diletantismos,
o Fuhrer apressa-se em terminar a operação. A 17 de novembro, de Berchtesgaden,
para onde fora após o desembarque anglo-americano na África do Norte, ele se
dirige a todos os coronéis que ocupam postos de comando em Stalingrado.
“Conheço as dificuldades de sua tarefa. As que os russos enfrentam não são
menores, e os gelos flutuantes irão aumentá-la. Conto com sua energia para
tirar proveito dessa circunstância favorável, e conquistar definitivamente a
fábrica de canhões e a siderúrgica”. Os regimentos alemães correspondem a esse apelo. A
19 de novembro, Djerjinski e Barricada encontram-se inteiramente em seu
poder. São conquistadas várias centenas de metros do rio. Os gelos que
flutuam no Volga efetivamente interrompem o abastecimento dos defensores.
Tchuikov dá a conhecer que está à míngua de munição, de víveres, de sangue... O cerco aproxima-se do fim. E é então que chega ao
comandante do 6o Exército uma ordem completamente inesperada:
suspender todos os ataques na frente de Stalingrado... |
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O flanco de vidro do aríete O exército de Paulus não combate apenas em
Stalingrado. Dobrando-se, qual braço protetor, barra o istmo que separa o
Volga do Don. Transpõe este último e, rodeando o ferrolho de Kremenskaia, em
poder dos russos, estende-se até Kletskaia. Dois corpos de exércitos, o 8o
e o 11o, guardam essa frente defensiva. Além de Kletskaia, até a vizinhança de Voronej,
estendem-se os setores mantidos pelos aliados da Alemanha: romenos, italianos
e húngaros. Os três exércitos eqüivalem-se em fraqueza. Uma
testemunha italiana, que vira passar em Viena seus compatriotas a caminho da
Rússia, assim registrou suas impressões: “Nossos soldados não tem boa
aparência. Estão sujos, mal equipados e principalmente mal enquadrados e
muito mal armados. Caso venham realmente a combater contra o Exército russo,
encontrar-se-ão logo em má situação. Nosso coração está apertado por causa
deles”. A motorização dos três exércitos é, a bem dizer, nula. Equipamento,
vestuário, transmissores, material óptico, etc, são de última categoria. A
artilharia é antiquada. A defesa antitanque não dispõe de canhão superior ao
canhão 37 hipomóvel. O moral é incerto. Como os contingentes estrangeiros no
Grande Exército, os soldados tem consciência de que essa guerra não é deles,
e não podem deixar de ressentir-se da inferioridade material e moral com que
combatem. Numericamente, a contribuição húngaro-ítalo-romena
à guerra de Hitler é considerável. O 2o Exército húngaro, mais
próximo à Voronej, conta com três corpos, e o 4o Exército romeno,
mais próximo à Stalingrado, com quatro - somando-se aos dois corpos do 3o
Exército alinhados na estepe e às sete divisões que combatem ao lado do 17o
Exército alemão. Como húngaros e romenos são inimigos hereditários, foi
preciso intercalar entre eles o 8o Exército italiano, com quatro
corpos, entre os quais o corpo alpino. Trinta e duas divisões, 24 das quais
dispostas ao longo do Don, perfazem assim a ordem de batalha da Wehrmacht.
Mas ainda se estará fazendo uma estimativa generosa reduzindo-lhes o número
de dois terços, ao avaliar seu poder combativo pelos padrões alemães. Os generais alemães sempre pediram para que esses
débeis auxiliares fossem “cintados”, isto é, diluídos nas tropas alemães. Mas
considerações de alta política opuseram-se a isso. Os governos satélites
queriam exércitos constituídos, sob o comando de nacionais. Devido a seu
fraco valor ofensivo, foram confiadas frentes passivas a esses exércitos. É
esse motivo pelo qual a proteção dos dois flancos da ofensiva dirigida a
Stalingrado se encontra quase exclusivamente confiada aos seus aliados. Sobre a gênese da contra-ofensiva - sobre a
preparação de uma das mais belas vitórias da história russa - as fontes
soviéticas são, mais uma vez, profundamente decepcionantes. A história da
guerra mundial editada pelo General Platonov diz que os planos começaram a
ser elaborados no mês de setembro, resumindo-os de maneira bastante clara. A
narrativa, entretanto, reveste-se de extremo laconismo. São omitidas as
condições em que foi armada a manobra magistral, assim como as discussões a
que deu lugar. Temos de nos contentar com esse estilo convencional e
declamatório, com essa verdade oficial que sucede a uma verdade oficial
totalmente diversa. Até 1953, o único vitorioso de Stalingrado era Stalin. De
1956 em diante, Stalin morre para a história: seu nome nem ao menos figura no
texto de Platonov. Três frentes, ou grupos de exércitos, cercavam a
eminência de Stalingrado: Frente Sudoeste, comandada por Vatutin; Frente do
Don, comandada por Rokossovski; Frente de Stalingrado, comandada por
Eremenko. A manobra consistiu em atacar simultaneamente ao norte e ao sul,
para trancar o ferrolho do Don; uma concepção mais ampla, que teria selado o
destino de toda a direita alemã, consistiria em visar diretamente Rostov, ou
mesmo Stalino, nó vital das comunicações inimigas. Ignoramos se foi
considerada. “A estepe - diz Platonov - não favorecia a
concentração soviética, que conseguimos, contudo, camuflar. Todos os
movimentos foram feitos à noite. Ao primeiro clarão da aurora, as tropas se
detinham, dissimulando-se nas aldeias ou colando-se ao chão dos balkas. Nossa
ofensiva foi uma surpresa total para o Comando inimigo”. Platonov engana-se. O ataque era esperado. A
fragilidade do flanco defensivo consistia há muito tempo uma fonte de
inquietações. Hitler assinalara, desde agosto, a fraqueza da linha do Don, ao
lembrar que o exército dos russos brancos fora batido em 1920, quando atacava
Tzaritzina, por uma ofensiva procedente do rio. Movimentos nas retaguardas e
concentrações de tropas nas perigosas cabeças-de-ponte haviam sido
assinaladas inúmeras vezes. Nos estados-maiores, discutia-se apenas um
problema: recairia o golpe sobre húngaros, italianos ou romenos? “Eu dormiria
melhor se o Don estivesse guardado por alemães” - dizia Hitler. A 7 de novembro, na conferência do Fuhrer, o novo
chefe do Estado-Maior, Zeitzler, comunicou uma informação do serviço de
espionagem, revelando que uma grande ofensiva soviética sobre o Don fora
decidida pelo Kremlin quatro dias antes. A única reserva mecanizada, o 48o
Corpo Blindado, que se encontrava atrás do 8o Exército italiano,
recebeu ordens para vir colocar-se atrás do 3o Exército romeno.
Comandado pelo General Von Heim, o corpo de exército compunha-se da 22a
Panzer e da 1a Divisão Blindada romena. Esta, de formação recente,
possuía apenas cerca de 40 veículos tchecos, fracamente armados de um canhão
de 37 mm. A 22a, por sua vez, estava longe de encontrar-se em
condições mais satisfatórias. Seu regimento de tanques fora cortado em dois,
para formar o núcleo da 27a Divisão Panzer, e a maior parte das
armas que recebera em substituição consistia em PzKw 2 e 3, sem condições
para medir-se com o T-34. Além disso, uma cômica surpresa aguardava Von Heim.
Como não fora abastecido de gasolina, havia deixado os tanques da 22a
camuflados sob a palha. Quando os descobriram, constatou-se que os ratos, que
infestavam a palha, tinham devorado os revestimentos de guta-percha (espécie
de látex) e inutilizado a aparelhagem elétrica. Dos 104 tanques da divisão,
apenas 60 se puseram em marcha para cobrir o percurso de 250 km, por uma
estrada coberta de gelo. Apenas 32 chegaram ao novo estacionamento; nos dias
seguintes, outros 12 vieram juntar-se a eles. A 19 de novembro, o 48o
Corpo Blindado, única força de contra-ataque do ferrolho do Don,
constituía-se de um punhado de tanques romenos desemparelhados e de 44
tanques alemães, dos quais 31 leves. A noite de 18 para 19 era fantasmagórica. O
nevoeiro, segundo as testemunhas, era “um leite”. À meia-noite, a neve
começou a cair. Às 4 horas, a artilharia russa iniciou um pesado bombardeio,
concentrado em dois limitados setores: as cabeças-de-ponte de Serafimovitch e
Kremskaia. Às 8 horas, surgiram os tanques, trazendo pencas de soldados de
infantaria agarrado às superestruturas. O ataque do oeste, com o 5o
Exército Blindado, abateu-se sobre o 2o Corpo romeno. O ataque, do
leste, com o 3o Exército
de Choque, caiu, sobre o 4o Corpo romeno. Os romenos estavam longe
de ser os mais medíocres aliados dos alemães. Muitas de suas unidades eram
aguerridas; alguns de seus generais, excelentes; os soldados eram muito
resistentes, mais acostumados ao clima, com melhor preparação ideológica para
uma guerra contra a URSS do que os húngaros e, principalmente, os italianos.
Nem por isso a derrota foi menos fragorosa. A irrupção dos tanques russos produziu
o mesmo efeito que a dos tanques alemães em Sedan. A debandada propagou-se
cava vez mais, empolgando unidades que nem ao menos se viam atacadas. Entre
as duas investidas, um grupamento comandado pelo General Lascar escorou-se no
Don e defendeu-se com bravura, mas, de modo geral, o 3o Exército
romeno se desagregou. Pelas estradas cobertas de neve, massas de homens
chicoteados pela intempérie fugiam às cegas. A única saída consistia num
contra-ataque. As perdas e a dispersão, contudo, haviam enfraquecido a
Wehrmacht numa extensão difícil de ser concebida. Uma intervenção espontânea
da 14a Panzer, à esquerda do Exército de Paulus, conseguiu liberar
o 11o Corpo alemão, mas o 48o Corpo Blindado, sacudido
por ordens contraditórias, turbilhonou a esmo pelo campo de batalha
enregelado, submergindo em hordas de fugitivos e chocando-se em toda parte
contra forças superiores. Para não ser envolvido, terminou por fugir. Von
Heim, que tivera metade dos seus carros blindados inutilizados pelos ratos,
foi apontado como responsável pelo desastre e permaneceu encarcerado na
prisão militar de Moabit até 1945. A 20 de novembro, enquanto Vatutin e Rokossovski
galopavam a oeste do Don, Eremenko, por sua vez, atacava ao sul de
Stalingrado. O 4o Corpo alemão susteve o choque, mas o 4o
Exército romeno desintegrou-se, como fizera na véspera o 3o . O 51o
Exército soviético correu em direção a Kalatch, principal passagem do Don,
gargalo vital das comunicações de Paulus. Quando a atingiu, no dia 22, a
ponte já fora tomada pelos soldados de Rokossovski. O grupo de DCA que a
guardava e a bateria de 155 que lhe dava cobertura estavam tão longe de
esperar uma penetração russa, que tomaram os T-34 que se aproximavam do Don
pelos tanques, capturados do inimigo, que a companhia de instrução de Kalatch
utilizava. Alguns minutos depois a ponte, intacta, encontrava-se em poder dos
russos. O 6o Exército estava cercado! O próprio Paulus quase fora aprisionado.
Encontrava-se sem eu PC de Globulinskaia, 15 km ao norte de Kalatch, na
margem ocidental do Don, quando, às 14 horas, surgiram os russos. O
Estado-Maior escapou pelo Don enregelado, abandonando o material da companhia
e utensílios de cozinha. Paulus e seu chefe de estado-maior, General Arthur
Schmidt, levantaram vôo em dois Fieseler-Storch e foram pousar no QG de
inverno do exército, em Nijni-Tchirkaia, na confluência do Don e do Tchir,
isto é, fora do bolsão demarcado pelo inimigo. Poucas reviravoltas da sorte
foram tão brutais. Na antevéspera, Paulus podia considerar uma questão de horas
a tomada de Stalingrado, vitória que iria ilustrar seu nome. Na véspera,
recebera do comandante do grupo de exércitos, General Von Weichs, a
inesperada ordem de reenviar suas unidades móveis e direção ao oeste. Pela
manhã, procurava compreender o que teria tão repentinamente acontecido ao
exército vizinho. Ao meio-dia, sem ter sido vencido, encontrava-se na
ridícula situação de um general separado de seu exército, fugindo antes de
qualquer soldado! Ao escapar da armadilha, Paulus acreditou por um
momento poder dirigir do exterior as operações de salvamento de seu exército.
Um telegrama de Hitler chamou-o a uma concepção draconiana do dever: “O
Oberbefehlschaber (Generalíssimo) do 6o Exército voltará a
Stalingrado. O Exército se organizará em uma frente fechada e esperará novas
ordens”. A situação era das que pedem reações imediatas, iniciativas ousadas.
As primeiras instruções de Hitler - ditadas de Berchtesgaden - impunham
espera e imobilidade. Pronto a voar para Stalingrado, Paulus vê aparecer
um companheiro de infortúnio, Hoth, comandante do 4o Exército
Blindado. Ele perdera tudo; tanto suas unidades alemães, cercadas no bolsão
de Stalingrado, como as romenas, dispersadas pela estepe. Os adeuses são
rígidos, embora carregados de emoção entre os dois chefes: um representa um
exército aniquilado, o outro vai juntar-se a um exército condenado. Em
seguida, o pequeno avião de Paulus voa baixo, sobre a planície branca, e
pousa perto da estação de Gumrak, a 15 km de Stalingrado, onde já funciona o
novo PC do exército. Paulus é um exemplar oficial de estado-maior:
rapidez de análise, facilidade de exposição. A partir das 16 horas, dirige ao
OKH um lúcido resumo da situação. O 6o Exército, cercado, conserva
uma cabeça-de-ponte a oeste do Don, mas tem o flanco sul a descoberto;
falta-lhe combustível e só dispõe de víveres para seis dias. Ainda que a exposição seja clara, as conclusões
carecem de firmeza. Paulus hesita. Trava-se uma discussão em Nijni-Tchirkaia.
Por-se em ferrenha defensiva, como deseja Hitler, implica num abastecimento
aéreo até o momento do cerco ser rompido pela intervenção de um novo
exército. O comandante da 4a Luftflotte, Wolfram Von Richthofen,
foi categórico: manutenção, por via aérea, de 200.000 a 300.000 homens,
empenhados em duros combates, ultrapassa a capacidade da aviação de
transporte. O general de DCA Martin Fiebig opinara no mesmo sentido, ao dizer
a Paulus que só lhe restava uma coisa a fazer: retirar seu exército da
armadilha, sem perda de uma única hora. Mas o chefe de estado-maior Schmidt
mantivera parecer oposto: uma retirada, dissera ele, seria “napoleônica”,
exigindo o abandono de enorme material e 15.000 feridos. Indeciso, Paulus
limitara-se a pedir ao Fuhrer liberdade de ação, e licença para abandonar
Stalingrado “caso o 6o Exército não conseguisse fechar seu flanco
sul”. Vinte e quatro horas depois, as idéias de Paulus
evoluíram. A situação lha parece sob uma luz mais sombria, e a nova mensagem
que endereça ao Fuhrer propõe a abertura imediata de uma brecha, ao menos
para salvar “preciosos combatentes”. Acrescenta - sob o risco de ser acusado
de conjuração - que os comandantes dos cinco corpos de seu exército, Heitz,
Von Seydlitz, Strecker, Hube e Jaennicke, compartilham de sua opinião. Nesse meio-tempo, o comandante do grupo de
exércitos, Von Weichs, falara mais energicamente ainda. O abastecimento aéreo
de 20 divisões, notifica ele a Angerburgo, só poderá satisfazer um décimo das
necessidades das mesmas. Cercado, o 6o Exército se vê condenado a
perder em alguns dias a maior parte de seu valor combativo. Uma tentativa
para abrir caminho acarretará a perda de considerável material, porém não há
outro meio de evitar um desastre total. Hitler chega a Rastenburgo no dia 23, à uma hora
da manhã. Zeitzler, que o esperava devorado de impaciência, é avisado que o
Fuhrer se encontrava cansado da viagem e que só daria audiência ao meio-dia.
Zeitzler protesta, alega urgência, consegue fazer-se receber e, para sua
grande surpresa, encontra um homem sereno. Ao trabalhar com Jodl, em seu trem,
Hitler encontrara um meio de conjurar a crise de Stalingrado: chamar do
Cáucaso uma, talvez duas divisões blindadas, que reabrissem as comunicações
com o 6o Exército. Zeitzler retruca que seriam necessários 15 dias
para transportar uma divisão, e que o 6o Exército, a essa altura,
já estaria completamente esgotado. Mas quando propõe a abertura imediata de
uma brecha, Hitler pergunta-lhe com ar ameaçador se tenciona abandonar
Stalingrado. Ao obter resposta afirmativa, bate com o punho na mesa e grita
inúmeras vezes: “Nunca deixarei o Volga! Nunca deixarei o Volga!” Durante o dia, as notícias pioram. A
cabeça-de-ponte a oeste do Don é penosamente mantida. Voltando à carga,
Zeitzler abala Hitler e, às duas horas da manhã, telefona a Von Sodenstern,
chefe do estado-maior do Grupo de Exército B, dizendo que o Fuhrer concorda
em reconsiderar a questão, e que dará a conhecer sua decisão às 8 horas.
“Parece fora de dúvida - acrescenta - que essa decisão consistirá na ordem de
abrir imediatamente passagem para sair. O 6o Exército pode começar
seus preparativos. “Por uma linha telefônica que os russos cortarão um minuto
depois, Sodenstern comunica a notícia ao PC de Gumrak. Esta de espalha pelo
bolsão, propiciando a sensação de alívio que conhecem os emparedados ao receberem
a primeira lufada de ar puro. Às 10 horas, nenhuma outra comunicação alcança o
grupo de exércitos. Inquieto, Sodenstern telefona para Rastenburgo, nada
obtendo além de um impaciente convite a ser paciente. Alguns minutos depois,
o rádio de escuta capta uma ordem direta de Hitler a Paulus. O 6o
Exército é convidado a organizar-se na seguinte frente: Stalingrado - Norte,
cota 137, Marinovka, Zybenko, Stalingrado - Sul. Isto desenha no mapa uma
espécie de ameba com cerca de 60 km de comprimento e 40 de largura. A
cabeça-de-ponte no Don, possível porta de evasão, deve ser abandonada. O
Fuhrer termina sua mensagem dizendo que o 6o Exército pode contar
com ele para um abastecimento satisfatório, assim como para ser tirado do
cerco a tempo... Assim, Hitler não pôde resignar-se a abandonar
Stalingrado! Quando Zeitzler se apresentou em sua residência, às 8 horas, o
Fuhrer trazia nos lábios uma nova expressão; Stalingrado é uma fortaleza. E o
6o Exército é sua guarnição. Uma guarnição não abandona a fortaleza
que lhe é confiada. “Se for necessário, a guarnição de Stalingrado sustentará
o cerco durante todo o inverno e eu a libertarei com minha ofensiva de
primavera”. Quando Zeitzler tentou demonstrar que Stalingrado nada tinha de
fortaleza, Hitler recomeçou a agitar o punho no ar. “Nunca deixarei o
Volga!”. Primeira e última palavra a ilustrar a servidão em que o chefe
militar é mantido pelo condutor de massas: o estrategista submisso ao
demagogo. A 9 de novembro, em Munique, Adolf Hitler pronunciara as seguintes
palavras: “Aquilo que o soldado alemão guarda, força alguma no mundo poderá
arrancar-lhe”. Como poderia ele aceitar um desmentido tão rápido? Zeitzler encolerizou-se, e exclamou por sua vez:
“Meu Fuhrer! Seria um crime abandonar o 6o Exército! Isto significaria
a morte ou a captura de um quarto de milhão de valentes soldados. E mais
ainda! A perda de um grande exército quebraria a coluna vertebral da frente
oriental!”. Ao ouvir a palavra “crime” - verbrechen - Hitler
estremeceu. Mas conteve-se, chamou o SS de serviço e ordenou que
introduzissem no recinto o Marechal Keitel e o General Jodl. Declarou em tom
compenetrado que estava na iminência de tomar uma grave decisão, e que não
desejaria fazê-lo sem que seus melhores colaboradores lhe dessem a conhecer
sua opinião, com a mais completa liberdade: “Feldmarschall Keitel?” “Meu
Fuhrer, não abandone Stalingrado!”. Keitel falou num tom de quem dita posição
de sentido, com inflexões teatrais, os olhos flamejantes. Jodl, ao contrário,
pesou os prós e os contras, mas acabou por concluir que, ao menos até nova
ordem, era preciso permanecer em Stalingrado. Interrogado por sua vez, Zeitzler manteve sua
conclusão: abertura imediata de uma brecha, e retirada. Hitler ouviu-o
calmamente, e depois retrucou, com polidez glacial: “O senhor está vendo,
general, que não sou o único a defender minha opinião. Ela é compartilhada
por dois oficiais, ambos mais graduados e mais experientes que o senhor.
Atenha-se pois à decisão que tomei. Ordeno que se defenda a fortaleza de Stalingrado”. Uma questão, todavia, condiciona tudo: a
possibilidade de abastecer o 6o Exército por meio de uma “ponte
aérea”. Fizera-se isso, no inverno anterior, pelo bolsão de Demiansk, mas
este continha menos de 100.000 homens, e a fortaleza de Stalingrado abriga o
triplo disso. Interrogado, o 6o Exército informou
que, para satisfazer o mínimo de suas necessidades, precisaria, por dia, de
750 toneladas de munições, combustível, forragem, víveres (40 toneladas
unicamente para o pão). Interrogado, o chefe da aviação de transportes
respondera que 350 toneladas representavam o máximo de suas possibilidades.
Segundo a tradição militar, considerara-se a primeira cifra uma
superestimação sistemática, e a segunda uma subestimação prudente. Goering, o
eterno ausente, encontrava-se em Paris, que, decididamente, ele considerava
uma estância mais refinada que Rastenburgo. Consultado por telefone, declarou
que a verdade estava na medida áurea, in dem goldenen Mittelweg. Sua
Luftwaffe disporia de meios para depositar 500 toneladas por dia na fortaleza
de Stalingrado. Poderia, assim, responder pelas necessidades primordiais do 6o
Exército. Seu chefe de estado-maior, Jeschonnek, veio assegurar isso a
Hitler, omitindo uma comunicação de Von Richthofen, em que este pedia que
fosse levada ao conhecimento de Hitler sua opinião sobre a impossibilidade da
“ponte aérea”. Para os sitiados, a decisão de Hitler fora um
golpe terrível. A palavra “fortaleza” poderia iludir um público ignorante.
Stalingrado encontrava-se inteiramente em ruínas. As poucas localidades do
perímetro cercado haviam sido queimadas até o chão. A estepe achava-se
rigorosamente nua. Na frente norte, alguns trabalhos para organizar o terreno
haviam sido executados durante o verão, mas as frentes oeste e sul não tinham
uma só vala a demarcá-las. Não era mais possível cavar o solo enregelado. Não
havia madeira alguma para a construção de abrigos. Os soldados teriam apenas
a lona de suas tendas como proteção contra o fogo inimigo e as tempestades de
neve, de 40 graus negativos. A primeira reação dos generais é de revolta. O
comandante do 4o Corpo, Jaennicke, exclama, dirigindo-se a Paulus:
“Reichenau não obedeceria!”. Paulus abaixa a cabeça: “Ich bin kein Reichenau”
- “Não sou um Reichenau”. E abafa os protestos de seus subordinados com o
argumento incontestável de que a um soldado só compete obedecer. Um único general não se resigna: Von Seydlitz
Kurbach, comandante do 51o Corpo. Estava tão convencido de que
iria romper as linhas inimigas, que fizera evacuar seus postos avançados e
destruído todos os itens supérfluos e intransportáveis, inclusive suas calças
e capote sobressalentes. Ele escreve uma nota a Paulus exigindo que este a
transmita aos escalões superiores. Ainda que 500 aviões transportassem 1.000
toneladas por dia, sustenta ele, as necessidades do 6o Exército
não seriam atendidas. Urge aproveitar o breve instante em que o inimigo ainda
se encontra fraco ao sudoeste de Stalingrado, para romper através de suas
linhas em direção a Kotelnikovo. “Se o OKH mantém a ordem de resistir in
loco, o dever de consciência para com o Exército e o povo alemão exige
imperiosamente que o senhor tome nas mãos a iniciativa de evitar uma grande
catástrofe, o aniquilamento de 200.000 combatentes e a perda de seu material.
Não há escolha possível!”. O nome Seydlitz figura entre os mais altos
expoentes da história militar da Prússia. O Seydlitz da guerra dos Sete Anos,
amigo íntimo do grande Frederico, é considerado como um dos melhores generais
de cavalaria de todos os tempos. As linhas citadas acima, o mais ousado
desafio que um oficial fez chegar a Hitler, constituem ao mesmo tempo uma
sentença de morte. Seydlitz fica à espera de que um avião venha buscá-lo,
para jogá-lo diante de um poste de execução. Von Weichs, porém, intercepta o
memorando, e o que chega a Seydlitz é apenas a ordem de assumir o comando de
toda a frente norte do bolsão. “Que pretende fazer o senhor?” - pergunta-lhe
Paulus. “Já que o senhor não desobedece - diz ele -, só me resta obedecer”. A “ponte aérea” começa a funcionar. Uma centena de
trimotores Junker decola dos aeródromos de Tazinskaia e Morosovskaia, no
ferrolho do Don e, depois de percorrerem 200 km, pousam em Pitonik ou em
Gumrak. Retornam carregados de feridos. As perdas ocasionadas pelo inimigo não
são, a princípio, muito elevadas, porém as que resultam das más condições
atmosféricas e do desgaste do material revelam-se desde logo extremamente
pesadas. O rendimento cotidiano começa com cerca de 50 toneladas e só
lentamente atinge uma centena. A Luftwaffe pede que os sitiados tenham
paciência, dizendo ser-lhe necessário algum tempo para organizar-se. Arrolam-se no bolsão o 4o, o 8o,
o 11o e o 51o Corpos de Exército, e o 14o
Corpo Blindado; as divisões de infantaria números 44, 71, 76, 79, 94, 100, 113,
295, 297, 305, 371, 376, 384, 389; as divisões motorizadas números 3, 29 e
60; as divisões blindadas números 14, 16 e 24; o 8o Corpo de DCA;
os regimentos de canhões de bombardeio 243 e 245; 12 batalhões de engenharia
militar; e mais 149 formações independentes, que vão da artilharia pesada ao
correio militar; e, finalmente, duas divisões romenas e um regimento croata.
Um grande, possante e denodado exército... Manstein entra em cena A fim de libertar o exército cativo, Hitler apela
para seu mago militar, o estrategista que dispunha com ele a glória do plano
Sedan, o artilheiro que esmagara Sebastopol, o idealizador das manobras que
impediram o levantamento do cerco de Leningrado: Marechal-de-Campo Erich von
Manstein. À tardinha do dia 21, em Vitebsk, Manstein recebe
a ordem para assumir o comando do Grupo de Exércitos do Don. O despacho que
determina sua missão revela a que distância da realidade se encontra o
Alto-Comando, e também a decadência a que chegara o pensamento militar
alemão. Manstein deve “sustar a ofensiva inimiga e restaurar as antigas
posições exatamente da mesma maneira”. O general “Fechar a Brecha e Retomar”,
Gamelin, tornara-se mestre de seu vencedor. Manstein não se apressa. A correr o risco de um
vôo entre as tormentas de neve, prefere viajar em seu trem de comando, só
chegando no dia 24 a Starobelsk, QG do Grupo B, que deve desmembrar a fim de
formar o seu. Ali, ele avalia a gravidade da situação, o peso de seu encargo
e a pobreza de meios de que dispõe para realizá-lo. Haviam sido colocados sob as ordens de Manstein o
6o Exército (encerrado em Stalingrado e pregado ao solo por ordem
de Hitler), o 4o Exército Blindado (reduzido à 16a
Divisão Motorizada), o 3o Exército romeno (que só apresenta
intacta a ala esquerda) e o 4o Exército romeno (ainda mais
mutilado do que o 3o). Dispõe ainda dos restos do 4o
Corpo Blindado e o Destacamento Hollidt, formado por um conjunto de tropas
alemães e romenas. E, finalmente, encontram-se a caminho várias divisões
blindadas. Duas, a 23a, proveniente do Cáucaso, e a 6a,
a chegar da França, vão reconstituir
ao sul de Stalingrado o 4o Exército Blindado, encarregado
de tirar Paulus do cerco. Uma outra, a 17a juntar-se-á
posteriormente a elas. Concentradas e repousadas, essas forças seriam
suficientes para a dupla tarefa de deter a ofensiva soviética e salvar o 6o
Exército. Encontram-se, porém, fatigadas, incompletas e dispersas. Os
reforços provenientes do Cáucaso e da França demoram-se em ferrovias
desconjuntadas, com os homens a padecer o inferno do frio em vagões abertos
ao quatro ventos. As outras unidades estão disseminadas por um campo de
batalha de 800 km, que vão do Don, no qual Hollidt apoia sua ala esquerda,
até a estepe, onde a 16a Divisão Motorizada dá prosseguimento, no
descampado, à missão de ligar o Cáucaso ao Volga. É um milagre que os russos
parem no Tchir, diante de uma salada de exércitos formada por fugitivos
detidos na debandada, membros da Luftwaffe, soldados do exército de Paulus em
licença, etc - em vez de correrem até Rostov, onde barrariam as linhas de
saída do Grupo de Exércitos A. Mas a metódica estratégia russa não quer
passar o carro adiante dos bois, não se atira sobre oportunidades muito
brilhantes e não avalia bem a deterioração do formidável adversário do ano
anterior. O Comando soviético poderia impor a Manstein uma batalha
desesperada por Rostov. Deixa-lhe o vagar de fazer uma suprema tentativa por
Stalingrado. Esta tentativa suprema, declara o Marechal
Eremenko, teria conseguido bom êxito caso houvesse sido conduzida com
audácia. “Até o dia 24 de dezembro - diz ele -, só tínhamos
forças de menor importância no setor de Kotenikovo. O 51o Exército
encontrava-se muito enfraquecido, e o 4o Corpo de cavalaria
representava uma densidade de menos de um pelotão por quilômetro. Desde 4 de
dezembro, a 6a Divisão Panzer, completíssima e inteiramente
repousada, uma vez que chegava da França, poderia ter aberto caminho até os
sitiados... Uma vez mais, os adeptos de Hitler foram vítimas da rotina.
Manstein nos deu 10 dias de presente”. Manstein preparara de início uma engenhosa
manobra. No ferrolho do Don, Hollidt deveria atacar, para retomar Kalatch. O
48o Corpo Blindado, reconstituído com a 2a Divisão
Panzer, desembocaria da cabeça-de-ponte que conservara diante de
Nijni-Tchirkaia, a fim de apoiar o ataque principal, realizado pelo 47o
Corpo Blindado, procedente da região de Kotelnikovo. O Grupamento Hollidt,
porém, estava absorvido pela defesa de Tchir e, ao invés de participar da
ofensiva, o 48o Corpo Blindado é expulso da cabeça-de-ponte. Em
lugar de uma pressão concêntrica, a tentativa para romper o cerco reduz-se a
um solitário esforço do 57o Corpo. Fixado para 2 de dezembro, o
ataque é adiado para 8, depois para 12, devido à desesperante lentidão dos
transportes. Existe, além do mais, um conflito entre as
concepções de Manstein e Hitler. O rompimento do cerco de Stalingrado é
considerado pelos dois homens com objetivos inteiramente diversos. O marechal quer recuperar o 6o Exército
para reintegrá-lo nas forças móveis da frente oriental. Vê seu escoamento
pela brecha aberta, para reconstituí-lo na região de Rostov. Vê igualmente o
Grupo de Exércitos A a retirar-se do Cáucaso até o Don. Tendo o conjunto de
manobras reconstituído pela diminuição do teatro de operações, Manstein acredita
ser possível dobrar a ofensiva soviética e talvez infligir ao Exército
Vermelho a tão esperada derrota decisiva. Aspira a dirigir o quadro da
batalha e, quando demonstra a necessidade de um comandante-chefe na frente
oriental, não há dúvida possível sobre a identidade do titular que tem em
vista... Ninguém contesta que Manstein seja o mais apto
talvez mesmo o único homem para desempenhar essa tarefa. A hora militar de
Hitler já passou. Se é bem verdade que ele tivera, no início da guerra,
admiráveis inspirações; se é indiscutível que salvara as Forças Armadas
durante o inverno de 1941-1942; se é fato verídico que o plano de sua
campanha de verão representara a última oportunidade de evitar a derrota
total da Alemanha, é igualmente verdadeiro que o Fuhrer constitui agora um
imenso perigo para suas tropas, configurando-se em seu mais cruel inimigo.
Apagou-se em seu cérebro todo e qualquer raciocínio estratégico, permanecendo
apenas a vontade cega e feroz de manter tudo o que conquistara. Romper o
bloqueio de Stalingrado não significa para ele a recuperação de um exército,
para depois retomar a iniciativa das operações, mas unicamente a
possibilidade de manter o pé fincado no Volga. A marcha sobre Stalingrado tem uma brilhante
estréia. Das duas divisões blindadas do 47o Corpo, a 23a,
procedente do Cáucaso, está reduzida a cerca de 40 tanques, porém a 6a,
procedente da França, encontra-se completa. O primeiro choque leva-a à
passagem do monte Akssai, que franqueia no dia 13. À direita, apesar de sua
fraqueza, a 23a progride ao longo da ferrovia, na qual consegue
acumular 3.000 toneladas de víveres e combustível para os sitiados. Mo dia
19, Mischkova é atingida. São cobertos 130 dos 180 km que separam o 6o
Exército do 4o Exército Blindado, e os libertadores vêem no céu as
luzes dos projetores dos que defendem Stalingrado. Manstein, entretanto, não alimenta ilusões. Sabe
que os acontecimentos a precipitar-se diante de Rostov só lhe deixam um
limitado espaço de tempo para agir. A única possibilidade de salvação para o
6o Exército consiste em ajudar-se a si mesmo, dirigindo-se com
rapidez ao encontro de Hoth. Manstein ordena-lhe que o faça, multiplica as
conversações radiofônicas com Paulus e, preocupado com as reticências deste, envia ao bolsão um
oficial de seu estado-maior, o Major Eismann - que retorna confirmando o
singular estado de espírito em que se encontravam o comandante do 6o
Exército e seu chefe de estado-maior. A tese destes era a de que não fôra a
troco de nada que se encontravam cercados, e, logo, tinham direito de esperar
a libertação. Estimavam-se que a mobilidade da centena de tanques que lhe
restava limitava-se a 30 km, aproximadamente, e, dessa forma, sofreria pane,
condenando-se à mais completa destruição caso atacasse antes que Hoth atingisse
ao menos aquela distância. Eismann retruca vivamente que o risco que recusam
correr nada é perto do de morrer de fome ou apodrecer na prisão. Paulus e
Schmidt são inabaláveis, e quando Eismann invoca a autoridade do Marechal Von
Manstein, eles invocam outra ainda mais alta, a do Fuhrer. E é realmente Adolf Hitler quem proíbe a saída da
guarnição de Stalingrado. A Zeitzler, que a requer noite e dia, ele responde
que considera o 6o Exército praticamente fora de perigo, e que,
longe de admitir o abandono de Stalingrado, tem em mira a expansão de suas
forças pelo Volga. Certo dia, acreditando tê-lo convencido, Zeitzler
apresenta-lhe a ordem de abrir passagem, a fim de que a assine. Hitler
assina, e depois acrescenta de seu punho a seguinte condição, que invalida
tudo: “sob a expressa reserva de que o Exército alemão continuará a manter a
linha do Volga...”. Quanto ao mais a situação é bem nítida. Uma nova
catástrofe atinge as forças do Eixo e sela o destino do exército sitiado em
Stalingrado. Após a derrota romena, a frente situada a oeste do
Don estabilizara-se aos poucos. Ela segura
o curso do rio até Veschenkaia, dobrara em direção ao sul, alcançara
novamente o Tchir, no qual se fundira até seu confluente, e reencontrara o
Don ao norte de Potemkiskaia. Inteiramente enregelados, os cursos de água não
apresentam o menor valor como obstáculo. As posições defensivas são
inexistentes e, à progressão dos tanques, a estepe opõe apenas sua superfície
coberta de neve. O termômetro baixa a 30 ou 35 graus negativos, para grande
surpresa dos italianos, a quem seus aliados haviam garantido que o frio, no
sul da Rússia, não ultrapassava jamais os ou 5 ou 6 graus. Insuficientemente
agasalhados, mal alimentados, os homens sofrem. Algumas vezes, o sol faz
magias na neve, mas o tempo normal é o de um nevoeiro grelado, que só
desaparece para descobrir um céu cor de chumbo. Na direção leste-oeste, a frente é sustentada
pelos restos do 3o Exército romeno, o destacamento do Exército
Hollidt, o 8o Exército italiano e o 2o Exército húngaro.
Ninguém ignora que o elo mais frágil dessa longa corrente é o italiano.
Hitler se inquieta por causa dele, ao ver o relatório de 12 de dezembro,
porém não existe nenhuma força alemã disponível para “cintar” as divisões do
General Gariboldi. Estendendo-se por 270 km de frente, quatro corpos do
Exército italiano, o 29o, o 35o, o 2o
alpino, esperam um embate cuja preparação é lida pelos estados maiores como
uma carta aberta. O encontro ocorre no dia 16 de dezembro. O 1o
Exército Soviético da Guarda cruza o Don em meio ao nevoeiro e abate-se sobre
o centro da frente italiana. A estepe é novamente invadida por massas em
debandada. Uma testemunha, o general alemão Fretter-Pico, descreve o efeito
surrealista produzido pelos bandos de soldados italianos, “tendo por única
arma um violão”, e andando rumo ao oeste a cantar, malgrado o rigor do frio.
Hitler telegrafa a Mussolini, pedindo que lance um apelo a seus soldados,
para que interrompam a fuga. O Duce, irritado, não responde. Durante o dia 16, os russos avançaram 25 km. Nos
dias seguintes, a ofensiva se estende. À direita russa, o 6o
Exército marcha sobre Vorochilovgrado e Stalino. À esquerda, o 3o
Exército da Guarda e o 5o Exército Blindado prolongam o ataque na
frente do Tchir. Obrigado a voltar-se, o Grupo Hollidt combate em difíceis
condições. As passagens do Donetz inferior, Kamensk, Schatinsk e Forchstadt,
são ameaçadas. Rostov está em perigo. Tem-se em vista uma Stalingrado
ampliada, uma Stalingrado de um milhão de homens! A situação do 4o Exército Blindado é
particularmente arriscada. Enquanto a frente alemã se desmorona e o avanço
russo ameaça Rostov, ele se agarra à passagem da Mischkova, esperando que o
exército de Paulus se decida a sair de Stalingrado. O caráter sagrado de sua
missão, que consiste em salvar 200.000 camaradas, sustenta o moral, mas Hoth
não cessa de advertir que sua presença ali pende por um fio, e que sua
retirada é apenas uma questão de horas, se o 6o Exército não vier
a seu encontro. Na antevéspera do Natal, um apelo do grupo de exércitos
precipita esta retirada: Manstein, ao informar Hoth da situação a oeste do
Don pede-lhe a cessão de uma de suas divisões blindadas, para tentar
restabelecer o combate na região de Morosovskaia. Hoth, consciente do perigo
designa a mais forte, a 6a. Esta se põe a caminho em direção a
Potiomkinskaia, entre uma nevasca, levando a última oportunidade de salvação
dos sitiados de Stalingrado. A agonia do
6o Exército Deixou-se passar o Natal, para depois reduzir de
200 para 100 gramas a quota de pão. No dia 1o de janeiro, o
serviço de saúde assinala as primeiras mortes por inanição. Esta provado que
o 6o Exército não pode ser abastecido por via aérea. Para manter a
promessa de seu chefe culposo, a Luftwaffe faz, em vão, um heróico esforço,
admitindo perdas que, contando 536 aviões de transporte, 149 caças e 123
bombardeiros, farão de Stalingrado, uma batalha aérea tão dispendiosa quanto
a da Inglaterra. As condições do tempo, contudo, são especialmente
desfavoráveis: quando o céu se apresenta claro sobre Stalingrado, geralmente
está nublado na região de Rostov, e vice-versa - de tal forma que o
funcionamento da “ponte-aérea” se vê entravado tanto na partida quanto na
chegada. Como os russos haviam tomado Tazinskaia e Morosovskaia, os
aeródromos de partida são transferidos para Salsk, Novocherassk e Cheretkovo,
o que duplica a distância e reduz o rendimento dos aparelhos. A média diária
de entregas, durante o cerco, não ultrapassará 94 toneladas, menos de um
quinto do prometido por Goering! A fim de conferir-lhe as folhas de carvalho da
cruz de comandante, Hitler faz sair do bolsão o General Hube. “Meu Fuhrer -
diz-lhe Hube -, o senhor mandou fuzilar vários generais do Exército. Por que
não manda fuzilar o general da Aeronáutica que lhe prometera abastecer
Stalingrado?”. Esfuma-se toda esperança de libertação. Hoth
batera em retirada, a princípio, passo a passo, com dor no coração, depois às
pressas. O início de 1943 encontra o 4o Exército Blindado junto a
Kuberle, a 200 km de Stalingrado. É inapelável o abandono do 6o
Exército. No bolsão, a situação é indescritível. A ração de
pão está reduzida a 50 gramas. A gasolina é tão escassa que os únicos
veículos autorizados a movimentar-se são as motocicletas com side-car. Os
únicos feridos evacuados são os que tem força para arrastar-se até os
aeródromos. A neve alteia-se em montículos: cadáveres de homens mortos de
fome e frio. A 8 de janeiro, uma bandeira branca flutua diante
dos postos avançados. Três parlamentares soviéticos vem oferecer a Paulus uma
capitulação honrosa. Seguindo ordens de Hitler, Paulus a repele, determinando
responder com fogo a qualquer nova tentativa de parlamentação. No dia
seguinte, os russos atacam. Os alemães defendem-se desesperadamente. O móvel
da batalha é o terreno de Pitomnik, pelo qual se escoa a maior parte do
tráfego aéreo. Os russos apoderam-se da área no dia 16. Agora o abastecimento
só é possível pelo terreno ruim de Gumrak, tomado logo depois, e a seguir por meio de pára-quedas. Quatro
quintos do bolsão foram perdidos. Os alemães são repelidos até o Volga,
enclausurados em sua fatal conquista - as ruínas de Stalingrado. A 24 de
janeiro, Paulus se comunica com Hitler. Não tem sentido, diz ele, o
prolongamento da resistência: 18.000 feridos jazem sem assistência nos porões;
o tifo alastra-se com virulência; esgotaram-se os víveres e munições. O
comandante do exército solicita, em conseqüência disso, autorização para
capitular, e o comandante do grupo de exércitos, Manstein, apoia seu pedido
em uma conversação de 45 minutos com Hitler. Este permanece intratável.
“Proíbo qualquer capitulação. O exército
deve resistir até a última bala. Seu heroísmo é uma inesquecível
contribuição para o salvamento do Ocidente”. No dia 25, os ataques russos recomeçaram. No dia
26, o 62o Exército reúne-se ao 21o, na colina Mamai. O
6o Exército alemão é cortado em dois. Ao norte, o que sobra do 51o
Corpo entrincheira-se na fábrica de tratores. Ao sul, os despojos de quatro
outros corpos amontoam-se no setor central da cidade, e Paulus instala seu
último QG no subsolo da Univermag da Praça Vermelha. Com pressa de liquidar o
inimigo, os russos bombardeiam furiosamente as ruínas de Stalingrado. Nenhum
canhão responde, mas, quando a infantaria tenta avançar entre os destroços,
os últimos cartuchos barram-lhe o caminho. No dia 30, Hitler nomeia Paulus
Generalfeldmarschall. “Nunca - diz ele a Keitel - um marechal alemão se
rendeu”. O Fuhrer só espera um gesto do oficial que acaba de elevar à mais
alta dignidade militar: o suicídio. Ignora que Paulus interditara
precisamente essa porta de saída aos oficiais, ao dizer que deveriam
compartilhar até o fim da sorte de seus soldados. No dia 31, a luta se encontra praticamente
terminada. Uma das últimas emissões radiofônicas do 6o Exército
descreve dessa maneira a situação: “Os soldados vagabundeiam; poucos ainda
combatem; o comando não é mais exercido...”. Um momento após, às 5h45: “Os
russos estão diante do bunker (abrigo contra bombardeio); vamos destruir o
posto...”. Depois, por três vezes repetidas, o sinal: “CL”, significando:
“Esta estação encerra suas irradiações”. Os russos alcançam efetivamente a
Univermag, cujo porão abriga o mais recente marechal, o primeiro marechal da
derrota criado por Hitler. Ninguém atira. Um parlamentar soviético adianta-se
e exige a rendição. É conduzido ao bunker, de onde sai um Paulus esquelético,
quase indiferente. Sim, capitula. Nada tem a acrescentar ao “Heil Hitler!”
que proferira ainda na véspera. O modelo dos oficiais do Estado-Maior parte
em silêncio para o cativeiro. Conhecemos, pelo texto estenográfico, as
imprecações de Hitler. “Há que matar-se com a última bala... Desprezo um
soldado que se rende, como Giraud... 20.000 pessoas se suicidam por ano na
Alemanha e é absurdo que um general não seja capaz de fazer o mesmo que uma
mulher ultrajada...Não farei mais marechais... o heroísmo de dezenas de
milhares de soldados é manchado pela covardia de um só... Verão que antes de
oito dias os russos farão Paulus e Seydlitz falaram no rádio. Eles incitarão
os homens do bolsão, incitarão toda a Wehrmacht a render-se...” Paulus nem teve tempo para incitar os homens do
bolsão a render-se: os últimos deles capitularam a 2 de fevereiro. Adolf Hitler se enganava igualmente em relação à
data em que Paulus convidaria o Exército e o povo alemães a depor as armas. O
Nationalkomitee Freies Deutschland (Comitê Nacional da Alemanha Livre) só foi
fundado em 13 de julho de 1944, sob a presidência do Conde Bismarck-Enkel e
do General Von Seydlitz. O plebeu Paulus demorou-se mais do que esse nomes
históricos a aderir à resistência alemã no exterior. Só deu esse passo depois de 20 de julho de 1944,
quando soube do suplício a que foram submetidos alguns dos soldados por quem
experimentara o maior respeito, como Witzleben e Hoeppner. “Paulus - diz um de seus biógrafos - tinha muita
dificuldade em tomar decisões, e raramente distinguia o falso do
verdadeiro...”. Os maiores talentos militares não teriam salvado o Exército
alemão da derrota em 1942; as deficiências pessoais de Paulus contribuíram
para dar-lhe um caráter esmagador”. |