Maio a Setembro de 1943

 

Sai o Duce

 

Tópicos do capítulo:

 

2 e 3 de maio de 1943; Hitler quer atacar na Rússia

O major Martin, “o homem que jamais existiu”

Falência da guerra submarina alemã

Capitulam Pantelleria e Lampedusa

Revés da Operação Zitadelle em Kursk

10 de junho: desembarque aliado na Sicília

A conspiração contra o Duce

22 de julho: queda de Palermo

24 de julho: destituição e prisão de Mussolini

6 de agosto: tormentosa entrevista em Tarvis

Conferência de Quebec. Preparação da Operação Overlord

Um plano de tomada de Roma

O armistício de 3 de setembro

A mensagem de Eisenhower

 

 

Queda

 

A 2 e 3 de maio - seis dias antes da queda de Túnis - uma importante conferência militar reuniu-se em Munique, em torno do Fuhrer. Assistem a essa reunião o marechal Keitel, os marechais Von Kluge e Von Manstein - que comandam, respectivamente, os grupos de exércitos Centro e Sul -, o Ministro do Armamento, Speer, os generais Zeitzler e Jeschonnek - chefes do estado-maior do Exército e da Força Aérea -, o Coronel-General Model, comandante do 9o Exército -, enfim, um espectro, o Coronel-General Guderian. Hitler tirou-o do infortúnio no qual o havia mergulhado desde dezembro de 1941 e nomeou-o inspetor-geral da arma blindada. Com este título, ele participa da elaboração de uma decisão capital: deve a Alemanha, pelo terceiro verão consecutivo, retomar a iniciativa na Rússia? Deve, ao contrário, ficar na defensiva, economizando suas forças em função de uma guerra doravante aberta sobre duas frentes? Sobre um ponto, Hitler e todos os seus conselheiros estão melancolicamente de acordo: a ofensiva de 1943 não se assemelhará à dos verões precedentes. A ofensiva de 1941 visava o aniquilamento do Exército russo. A ofensiva de 1942 tinha por objetivo conquistas que tornassem a Alemanha invulnerável econômica e estrategicamente. A ofensiva de 1943 pode propor-se restabelecer o equilíbrio na frente oriental. O Exército soviético pagou caro seu triunfo de Stalingrado e a batalha do inverno, diante do Dniéper, terminou por uma vitória alemã. Uma nova vitória, ainda que limitada, poderia colocar a Rússia na impossibilidade de retomar a ofensiva durante vários meses, dando à Wehrmacht a trégua necessária para liquidar a ameaça do Oeste.

 

Após a trégua da lama, as linhas russas desenham ao redor de Kursk uma saliência quadrangular de cerca de 200 km de lado. A tentativa de estrangular esta hérnia, de destruir ou capturar as tropas que aí se encontram nasce ao primeiro olhar sobre o mapa. Zeitzler preparou um plano, chamado Zitadelle, que consiste em dois ataques indo adiante um do outro, o do norte pelo Grupo de Exércitos de Von Kluge, e o do sul pelo Grupo de Exércitos de Von Manstein. É uma tentativa de reeditar, em escala reduzida, as batalhas de encadeamento de 1941, que valeram à Alemanha suas colheitas fantásticas de prisioneiros.

 

Para constituir os dois ramos de seu tronco, Zeitzler despoja os outros setores. O ramo norte será o 9o Exército, comandado pelo enérgico Model, mal curado de um ferimento proveniente de um tiro de um guerrilheiro: Zeitzler confia-lhe 4 divisões blindadas, 2 divisões de granadeiros blindados (novo nome das divisões motorizadas) e 7 divisões de infantaria. Ao sul, as forças de ataque repartem-se entre o destacamento do exército de Kempf e o 4o Exército Blindado, do Coronel-General Hoth, enquadrando o conjunto 11 divisões blindadas e 7 divisões de infantaria. O total das forças consagradas a Zitadelle eleva-se assim a 33 divisões, das quais 16 blindadas. Com pouca diferença, é este o esforço máximo que a Wehrmacht está ainda em estado de fornecer.

 

Hitler não está entusiasmado. Propõe uma condição: a ofensiva Zitadelle não deve pôr em perigo a Ucrânia industrial, portanto, enfraquecer os dois exércitos, o 1o Blindado e o 6o, reconstituído, que guardam a bacia do Donetz. O Fuhrer impõe prazos: primeiro para permitir a entrada dos tanques Pantera, em ação; segundo, diz, porque, antes de se empenhar a fundo na Rússia, quer ver claro na África do Norte. Na reunião de Munique, ele ouve sobretudo os autores de objeções: Model, sustentando que o momento propício passou; Speer e Guderian, temendo perdas desproporcionais aos resultados táticos. A decisão acaba sendo novo adiamento, pois Hitler declara que necessita refletir. Os generais convocados a Munique tentaram em vão obter esclarecimentos sobre a situação no Mediterrâneo. A estes simples executantes da frente russa, Hitler aplica o princípio hitlerista de que cada um só seja informado do que lhe concerne diretamente. Limita-se a declarar que a cabeça-de-ponte da Tunísia será mantida. Uma semana depois, essa afirmação é desmentida: Túnis está perdida e todo o exército teuto-italiano capturado. A questão agora é de saber onde os Aliados vão aplicar seu próximo esforço. A esta questão, a maré de 30 de abril respondeu trazendo à praia de Hueva o corpo de um oficial britânico, o Major Martin, dos Royal Marines. As autoridades espanholas apoderaram-se de seus papéis e, após alguma hesitação, deram conhecimento deles ao adido militar alemão. Membro do Estado-Maior de Lorde Louis Mountbatten, o infeliz William Martin era portador de uma carta pessoal dirigida pelo subchefe do Estado-Maior Imperial, Archibald Nye, ao comandante-chefe britânico no Mediterrâneo, o Honorable Sir Harold Alexander. Deduz-se dessa carta que, depois de consolidada sua vitória na Tunísia, os anglo-americanos propõem-se desembarcar na Grécia. Os preparativos que prosseguem contra a Sicília são apenas um disfarce.

 

Nesse documento vindo do mar e da morte, Hitler encontra a confirmação de seus prognósticos. Não cessou de sustentar, contra a opinião de Mussolini, que os aliados não desembarcarão na Sicília, que não empreenderão a longa subida da bota italiana, mas que se dirigirão aos Bálcãs. A Alemanha e a Itália tiram dali cobre, alumínio, cromo e petróleo. As populações em parte sublevadas esperam os invasores. O flanco direito dos exércitos alemães na Rússia seria atacado pela retaguarda e os ingleses obteriam provavelmente o que procuram há muito: a intervenção da Turquia. A carta confiada ao Major Martin estabelece que o Comando anglo-saxão raciocina como Adolf Hitler. O cadáver prova sua autenticidade.

 

A 14 de maio, as diretivas do OKW dão prioridade ao Peloponeso. Os principais reforços alemães são dirigidos para os Bálcãs, incluindo a melhor de todas as divisões blindadas, a 1a, que seu antigo chefe, Guderian, tenta reter em vão. Rommel é encarregado da defesa da península. Na Sicília, as tropas alemães reduzem-se a duas fracas divisões e a alguns escalões atrás das grandes unidades destruídas na África. Embora os italianos creiam na invasão da ilha - evita-se dar-lhes ciência dos papéis do Major Martin -, as medidas que tomam são totalmente insuficientes. Voltando de uma investigação, o Sondherfuhrer SS Constantin von Neurath, filho do antigo ministro das Relações Exteriores, descreve a Hitler a desmoralização dos soldados, o espírito antialemão das populações e as veleidades de traição dos generais. À saída dessa audiência, Hitler escreve a Mussolini uma carta violenta, mas - orientação característica de seu espírito - é sobretudo a respeito dos Bálcãs que faz censuras a seu aliado: encorajando os ardis nacionalistas, reprimindo com brandura a atividade dos guerrilheiros, os generais italianos põem em perigo uma região primordial para a condução das hostilidades.

 

O estádio das censuras está ultrapassado. “Im Falle einer italienische Schweinerei”, Hitler ordena preparar, sob o nome apropriado de Alaric, um plano para a ocupação militar da Itália. Um plano análogo, diz Constantin, é dirigido para os Bálcãs.

 

O Major Martin é produto da engenhosidade britânica. Não caiu de um avião acidentado; foi posto na água, numa corrente propícia, pelo submarino Seraph - o mesmo que desembarcou Clark em Cherchell e embarcou Giraud no Lavandou. O morto foi fornecido por um hospital de Londres e provido de uma identidade convincente. Autêntica, no sentido de que foi escrita pelo seu signatário, a carta do General Nye é uma armadilha. Nada mudou nas disposições de Casablanca: após a libertação completa da África, os Aliados desembarcarão na Sicília. Em compensação, a etapa seguinte permanece indeterminada, e a controvérsia estratégica anglo-americana prossegue, mais azeda que nunca. A 12 de maio, transportou-se para Washington. Para a conferência chamada Trident, Churchill chegou a bordo do Queen Mary com seu magnífico estado-maior. Encontrou os americanos em guarda, armados de desconfiança, mais convencidos do que nunca que a guerra mediterrânea é um empreendimento no qual a Inglaterra tenta utilizar seu poder para os fins imperialistas. Alan Brooke expõe-se às suspeitas dizendo que não crê possível a invasão da Europa ocidental antes de 1945 ou mesmo 1946. Apesar desta opinião de seu conselheiro militar, Churchill deve ceder à pressão americana, aceitando fixar o dia 1o de maio como data do desembarque na França. Deve admitir que sete divisões serão levantadas no Mediterrâneo para aumentar as forças que se concentram na Inglaterra. Continua a desejar, com todas as suas forças, que o objetivo próximo do Aliados seja “expulsar a Itália da guerra”. A Sicília não deve ser um “sofá” sobre o qual os exércitos vitoriosos da África se deixem cair; deve ser um “trampolim” que lhes permitirá pular sobre a Itália peninsular para obrigar Mussolini a capitular.

 

Uma fórmula de conciliação é encontrada por Eisenhower. A amplitude das operações na Itália dependerá da feição da batalha da Sicília. Se a resistência for fraca, se por exemplo a ilha pode ser conquistada antes de 15 de agosto, as tropas aliadas atravessarão o estreito de Messina e ampliarão sua vantagem na Itália continental. Se a batalha for dura e indecisa, tudo farão a fim de atender às suas necessidades. Em todo caso, e Churchill fez disso promessa, as operações na Itália não deverão entravar os preparativos da Operação Overlord.

 

 

 

Falência da guerra submarina

 

No momento em que se desenrola a conferência Trident, os Aliados dão um passo de gigante em direção da vitória. A hipoteca mais pesada sobre sua estratégia foi saldada. A guerra submarina está chegando ao insucesso.

 

De todas as reviravoltas da fortuna surgidas com a guerra, só as derrotas alemães diante de Moscou e Stalingrado podem comparar-se em brutalidade a esta bancarrota dos U-Boote. No começo da primavera, eles chegavam à vitória. No começo do verão são expulsos dos mares.

 

A tática dos lobos estava no ponto. Cem submarinos operavam simultaneamente no Atlântico, em flotilhas de 12 a 20. Em março, eles afundaram 85 navios mercantes, dos quais 21 eram dos comboios HX-229 e SL-122, que somavam 35 navios. Em abril, apesar de algumas travessias mais felizes, 350.000 toneladas foram ainda a pique. As próprias perdas dos submarinos, 5 por mês, mal atingiam a quinta parte das novas embarcações em serviço. Do lado aliado, o balanço entre a tonelagem construída e a destruída permanecia deficitário. Do lado alemão, a frota submarina continuava a crescer. Em vista desses dados, uma invasão da Europa continuava uma impossibilidade.

 

De repente, tudo muda. Os submarinos desaparecem em cadeia, freqüentemente no decorrer de uma travessia de retorno, no momento em que o estado-maior do Boulevard Suchet os considera fora de perigo. Os relatórios de bordo dos comandantes que sobreviveram à nova forma de ataque permitem reconstituir sua desventura. O U-Boot navega na superfície, à noite, recarregando as baterias, renovando seu oxigênio, compensando a lentidão mortal da navegação submarina. Súbito, faróis acendem-se no céu e bombas chovem. A multiplicação dos porta-aviões de escolta, graças à adaptação de navios de passageiros a esse fim, e a colocação de um radar de 10 cm em serviço permitem aos Aliados essa caça implacável. A noite, que era a amiga, o refúgio dos submarinos, agora os trai!

 

Maio é catastrófico! 38 submarinos, um em três, não voltam à base. Doenitz pede audiência ao Fuhrer e sobe a Obersalzberg para comentar com ele o desastre. Para uma destruição de 240.000 toneladas de navios mercantes, a perda de 2.000 oficiais e marinheiros de elite, mais insubstituíveis que os submarinos, é um preço arrasador. Embora se declarem prontos para o sacrifício, os comandantes mais experimentados, os titulares da cruz de cavalaria com folhas de carvalho e espadas, um Roskill, um Lehmann-Willerbock, um Schloz, julgam impossível continuar a luta com navios que desenvolvem 9 nós em profundidade e devem subir a tona a cada 24 horas, para respirar. Eis por que, esperando haver encontrado uma parada, Doenitz tomou a decisão de retirar seus submarinos do Atlântico Norte. Eles operarão provisoriamente nos mares longínquos - se sobreviverem às travessias que devem fazer para alcança-los. A réplica de Hitler é de uma veemência extraordinária. Rugindo, ele caminha a passos largos por seu vasto salão. Não pode admitir a conclusão de seu grande-almirante. Não pode crer que os ingleses - não se trata nunca dos americanos - tenham bastante porta-aviões e aviões para vigiar a totalidade do Atlântico Norte. Não lhe é possível, absolutamente, renunciar à guerra submarina. “O Atlântico é meu fosso defensivo. Se a guerra submarina for abandonada, a invasão da Europa tornar-se uma certeza...”. Dá ordens imediatas para que todas as prioridades reclamadas por Doenitz lhe sejam concedidas e para que o próprio Goering seja obrigado a por a Luftwaffe à disposição de um almirante a que detesta. Doenitz colocará em seus navios dispositivos anti-radar e baterias antiaéreas. Acelerará a utilização do Schnorchel, que, bombeando o ar da superfície, permite viajar em profundidade com os motores Diesel e dispensa a imersão a intervalos freqüentes. O Schnorchel é apenas solução provisória. Não se trata - ora! - de construir o submarino de circuito fechado que o professor Walter propõe há anos. Mas trabalharão com denodo no tipo 1, que, submerso, poderá atingir a velocidade de 17.5 nós. Tem-se o direito de esperar o recrudescimento da guerra submarina para o começo de 1944.

 

Em junho, o total da tonelagem dos navios afundados no Atlântico cai a 27.000 e, no conjunto dos mares, a 157.000. Em julho, após as ordens de Hitler, os números das destruições sobem, respectivamente, a 136.000 e 389.000 toneladas, mas a perda de 25 submarinos dá razão a Doenitz e obriga a diminuir as operações. Em agosto, os Aliados só perdem no Atlântico 4 navios, perfazendo 27.941 toneladas. Pela primeira vez desde o começo da guerra, a tonelagem construída sobrepuja a destruída na totalidade dos oceanos, incluindo o Pacífico. Uma batalha capital é ganha. O caminho dos grandes empreendimentos está livres.

 

Kursk, nova etapa da derrota

 

Entre a África e a Europa, a ilha de Pantelleria, pirâmide vulcânica de 850 metros de altura, considerada inexpugnável, é a anti-Malta. Eisenhower deseja-a, para dispor de uma pista de aviação a pouca distância das costas da Sicília. O Governador, Almirante Gino Pavesi, tem sob suas ordens uma guarnição de 11.000 italianos e 87 alemães. Dois grupos de B-25, três grupos de B-26 e quatro grupos de B-17 são encarregados de enfraquecê-la. A 1a Divisão britânica, comandada pelo Major-General Clutterbuck, é encarregada de desembarcar ali.

 

A 11 de junho, após 12 dias de bombardeio, a ilha fumega como se o vulcão houvesse despertado. Os lanchões de desembarque dirigem-se para suas praias raras. O destróier Laforey assinala que avista uma bandeira branca flutuando no posto de semáforo. Os soldados britânicos são acolhidos por outra bandeira branca. O Almirante Pavesi assina sua rendição dizendo não ter mais água, mas os invasores encontram cisternas cheias. Graças aos excelentes abrigos abertos na montanha, a guarnição não tem 100 homens fora de combate. “Nosso único ferido no curso da operação - dirá o relatório britânico - foi um soldado mordido por um chacal...”

 

Vinte e quatro horas depois, a ilha de Lampedusa, na qual também existe uma pista de aviação, rende-se a um sargento americano, que ali fez uma aterragem forçada.

 

Esta dupla e fácil conquista termina por convencer Hitler da deserção italiana, mas em nada  lhe altera a convicção de que o próximo desembarque aliado será realizado nos Bálcãs. Mussolini geme como um homem ferido. “Pantelleria é um sinal de alarma; o destino soa...”

 

A frente russa, por sua vez, desperta. Após longas hesitações, Hitler ordena a execução do Plano Zitadelle. A 5 de julho, o Grupo de Exércitos Von Kluge e o Grupo de Exércitos Von Manstein atacam, um em direção ao outro. O tempo e o terreno são perfeitos para uma ofensiva blindada. Kempf, Hoth e Model dispõem, os três, de 1.081 carros, dos quais 200 Panther de 45 toneladas e 90 Tiger de 55 toneladas. Acrescentem-se a isto modelos da arma blindada mais ressente, o Ferdinand, de 70 toneladas, quase invulnerável, mas lento e mal armado para o combate a curta distância. No QG do Fuhrer, mal se respira. Embora haja consentido, em princípio, numa batalha de objetivo limitado, Hitler é tomado de esperança renovada. Repete que a Rússia perdeu 11 milhões de combatentes e que só se mantém de pé por um fantástico esforço. Quem sabe se o Plano Zitadelle não será o choque que fará o edifício ruir?

 

Sobre a face norte da saliência de Kursk, Model ataca com três corpos blindados, o 46o, o 47o e o 41o, formados em triângulo, a ponta à frente. Seu adversário é o Marechal Rokossowsky, que comanda a frente central. No meio de um emaranhado de organizações defensivas, os alemães se cansam muito depressa. O 47o Corpo Blindado consegue atingir Olkhovatka, a 25 km de sua base de partida, mas contra-ataques violentos obrigam-no a interromper a investida. A partir do dia 7 a ofensiva do norte é contida.

 

Manstein ataca a outra face da saliência, de uma parte a outra de Bielgorod. À sua direita, o Destacamento Kempf, composto do 3o Corpo Blindado e o do 11o Corpo, é mal sucedido diante da posição principal soviética. À esquerda, o 4o Exército Blindado, guarida do 48o Panzer Korps, do Corpo Blindado SS e do 11o Corpo de Exército, penetra em direção de Oboian.

 

Manstein tenta alimentar seu sucesso lançando tropas frescas na brecha, mas Hitler proíbe-lhe dispor do 24o Panzer Korps, que deve assegurar a inviolabilidade do Donetz. A 11 de julho, um contra-ataque na frente da estepe degenera em imenso torneio de tanques. Os russos perdem várias centenas de engenhos, mas o impulso da ofensiva alemã é rompido. Manstein avançou 50 km, porém mal está a meio caminho de Kursk.

 

No dia seguinte, 12 de julho, Von Kluge e Von Manstein são convocados a Rastenburgo. Hitler dá-lhes notícia dos últimos desenvolvimentos da situação. Quarenta e oito horas antes, os anglo-americanos desembarcaram na Sicília. Os italianos não lutam. É necessário retirar forças da frente russa para enfrentar o perigo crescente no Mediterrâneo - interromper, pois, a Operação Zitadelle. Hitler acrescenta lamentar ter que dar consentimento a isso, contra sua intuição, mas que seria absurdo perseverar.

 

Manstein protesta: os pesados sacrifícios permitidos na Operação Zitadelle teriam sido feitos em pura perda se for paralisada uma batalha que ainda pode ser ganha. Mas Kluge se resigna. O 9o Exército, diz ele, é mais do que incapaz de prosseguir a ofensiva: deve voltar a suas posições de partida. A situação mudou. O problema do Grupo Centro não é mais amputar a saliência de Kusk, é impedir que a saliência de Orel seja amputada e que se percam as tropas alemães que aí se encontram.

 

Essa saliência de Orel é o inverso da saliência de Kursk: as linhas alemães penetram profundamente nas linhas russas. Os preparativos para liquidar essa protuberância estavam em curso quando a Operação Zitadelle começou. Stalin recusou-se a interrompê-las. Os reforços destinados à frente de Briansk não foram desviados. A preparação da ofensiva soviética prosseguiu conforme os princípios que produziram maravilhas no Don e no Tchir: formidável preparação de artilharia, atravessada sobre a frente estreita com o auxílio de tanques de acompanhamento, exploração profunda pelas grandes unidades mecânicas. A situação tática é excelente. A saliência de Orel é irrigada por uma única via férrea. Se os russos conseguirem cortá-la, encontrarão a matéria de um novo Stalingrado.

 

Os tiros de aniquilamento são disparados na madrugada de 12 de julho. Duas horas depois, quatro golpes de lanceta transpassam a verruga alemã. Ao norte, Bagramian. A nordeste, Belov. A leste, Gorbatov. A sudeste, Pukhov. Os ataques convergem em direção a Orel, exceto o primeiro, que ruma para a via férrea entre Orel e Briansk. Vinte e dois meses de estabilização permitiram aos alemães construir uma posição fortificada, mas os setores são muito longos e a densidade de ocupação é muito insuficiente. A situação só poderia ser restabelecida pela manobra de reservas, mas o 2o Exército Blindado, sobre o qual recai o choque, foi raspado até o osso em benefício da Operação Zitadelle. Desde a primeira noite, a posição principal é penetrada. O avanço de Bagramian, o mais perigoso, ultrapassa 25 km. Os alemães só podem resistir passo a passo, enquanto, apressadamente, o Comando desguarnece outras partes da frente, para represar a inundação. O relato desses terríveis combates prosseguirá nos capítulos seguintes. O que é necessário registrar, antes de voltar ao Mediterrâneo, é um fator decisivo da campanha da Rússia, tão importante quanto os de Moscou e Stalingrado. A primeira dessas batalhas destruiu a invencibilidade alemã. A segunda pôs termo às ofensivas de objetivos gerais. Menos vasta e menos ilustre, a Batalha de Kursk significa para a Alemanha a perda total e definitiva da iniciativa na frente oriental. A defensiva-ofensiva não está mais ao alcance da Wehrmacht. Ela nada mais é que um boxeador tarimbado respondendo cada vez mais fracamente a uma tempestade de golpes.

 

A perda da Sicília desmonta o Fascismo

 

A costa sudeste da Sicília é uma planície que se alarga e se estreita conforme o balcão montanhoso que a domina, ao se afastar ou se aproximar do mar. Vales se abrem em funil, delimitando compartimentos de terreno separados por saliências da montanha. Umas estrada de ferro e uma rodovia passam de um compartimento a outro, serpenteando entre a franja das ondas e o sopé dos montes; outras estradas sobem para o interior. A seca reina nas colinas e a malária grassa nas terras baixas. Os portos são medíocres e as cidades pequenas. A menos insignificante é Gela, cuja história retrocede até o século VII AC, mas cuja feição moderna é de pobreza e negligência; acha-se sobre um golfo muito aberto, sem proteção contra os três quartos da rosa-dos-ventos.

 

Essa Gela medíocre marca o centro do 7o Exército americano, confiado a George Patton. Um grupo de Rangers é encarregado de tomá-la de golpe, enquanto a 1a Divisão dos EUA desembarcará nas praias vizinhas. A 3a Divisão desembarcará à esquerda, perto do pequeno porto de Licata, e a 45a à direita, de uma parte e de outra da povoação de Scogliti. Temem-se os caprichos imprevisíveis do mar.

 

Menos desfavorável, o setor do 8o Exército britânico cobre o ângulo sudeste do triângulo siciliano, desde a península de Pechino até as portas de Siracusa. Os soldados de Montgomery devem desembarcar nos mesmos areais que percorreram os atenienses de Alcebíades e Nícias. O 13o Corpo, composto da 5a e da 50a divisões, estabelecerá uma cabeça-de-ponte sobre o golfo de Noto. A 51a Divisão escocesa e a 1a Divisão canadense, esta última chegando sem escalas da Inglaterra, investirão diretamente a leste e a oeste de Pechino. Britânicos e americanos farão junção na planície de Ragusa, antes de estender suas operações para o interior.

 

Alguns dias antes, os jornais italianos publicaram uma arenga de Mussolini diante do diretório do Partido Fascista: “Se o inimigo desembarcar na Itália, será exterminado até o último homem sobre a linha de areia onde acaba a água, onde começa a terra. Se ele ocupar um fragmento da pátria, será em posição horizontal, nunca vertical, e para sempre!”.

 

Comandante do 6o exército e governador militar da Sicília, o General Alfredo Guzzoni leva a responsabilidade de manter essa palavra flamejante do Duce. Com a idade de 66 anos, e um dos vencidos da Albânia, suas ilusões desvaneceram-se há muito. Miseravelmente armadas, suas 6 divisões de defesa costeira são desdobradas em setores de 100 km e, de suas 4 divisões de intervenção, só a Livorno possui um núcleo de velhos tanques franceses provenientes do butim alemão de 1940. As duas divisões da Wehrmacht que se encontram na Sicília estão apenas nominalmente à sua disposição, pois seus chefes recebem ordens diretamente de Kesselring ou de seu oficial de ligação, o General Von Senger. Elas são, aliás, bastante fracas. A 15a Panzergrenadier possui apenas 46 tanques leves. A Divisão Hermann Goering, cuja maior parte foi sacrificada na Tunísia, tem 90 tanques, dos quais 17 Tigers, mas somente dois batalhões de infantaria.

 

Os Aliados estão longe da tranqüilidade. Abordam pela primeira vez a Fortaleza Europa e, apesar de sua vitória na Tunísia, o prestígio militar da Alemanha enche-os de apreensão. A aproximação da costa, na noite de 9 a 10 de julho, não encontra oposição, mas o mar está agitado e pôr em terra, simultaneamente, 7 divisões, compostas em parte de tropas inexperientes, constitui empresa arriscada. A primeira experiência de apoio transportado por via aérea é ilusória, devido ao vento violento que dispersa por toda a Sicília pára-quedistas e planadores. Nas praias, numerosas embarcações de assalto quase encalham e, em certos casos, uma fraca fuzilaria é suficiente para que os soldados americanos se recusem a deixar a proteção das LCI ou das LCVP. Uma defesa resoluta teria feito encalhar o primeiro assalto.

 

Mas os bombardeiros a que são submetidos há seis semanas tiraram dos defensores o pouco que lhes resta de moral. A 206a e a 207a divisões costeiras fogem como um só homem. Gela é ocupada mais do que tomada e a cabeça-de-ponte americana consolida-se desde a primeira noite.

 

Entre os ingleses, o sucesso é ainda mais notável. Atribuía-se a uma capacidade de resistência considerável à Praça Marítima Augusta-Siracusa, organizada em campo entrincheirado anfíbio, sob o comando do Almirante Leonardi. Cento e vinte e sete planadores deviam depor na península Madalena uma brigada aerotransportada, encarregada de um assalto de surpresa; somente 12 conseguiram pousar. Mas os oito oficiais e os 60 homens que se apoderam da ponte-estrada sobre o Anapo, via de acesso a Siracusa, mantém-na durante 12 horas, dando à 5a Divisão tempo de intervir. Leonardi faz dinamitar algumas instalações e retira-se para Augusta. Na próxima noite do desembarque os ingleses se tornam donos de uma cidade de 50.000 habitantes e de um bom porto. A Divisão Hermann Goering contra-ataca no dia seguinte, retardada pela travessia das longas aldeias e ruas demasiadamente estreitas para os tanques. A saída na praia costeira, pelas estradas de Nimesci e de Biscari, provocou entre os americanos um começo de pânico e alguns reembarques precipitados. O cruzador Savannah salva a situação, canhoneando com suas peças de 5 polegadas um grupo de PzKw4 no campo de aviação de Ponte Olivo. O cruzador Boise, os destróieres Shubrick, Jeffers, Buttler e Glennon juntam-se a ele, destruindo notadamente vários Tigres na estrada costeira. O reaparecimento dos caças-bombardeiros, que a bruma matinal havia neutralizado, termina por dissipar o perigo.

 

A 15 de julho, toda a planície costeira é dos Aliados, desde Empédocles até Augusta. “A linha de areia onde acaba a água, onde começa a terra” não foi o túmulo dos invasores.

 

Na Itália, a invasão da Sicília desmonta o regime abalado. O pequeno rei, cujas lágrimas inundam o velho rosto, prossegue sua conspiração cautelosa com o Marechal Badoglio, com Bononi, antigo presidente do Conselho, e até  com os mussolinistas caídos em desgraça, como Carmine Cenise, ex-chefe de polícia. Os dignitários do regime dividem-se em duas correntes: aqueles que, como Granti, Bottai e Ciano, querem a todo preço retirar a Itália da guerra, e os que, seguindo Farinacci querem a solidariedade de vida e de morte com a Alemanha. Scorza, novo secretário do Partido Fascista, promete ao Embaixador Von Mackensen uma perturbação nacional “comparável à da França em 1793”. Com os Convencionais em missão, os hierarcas vão percorrer todas as províncias da Itália, proclamar que a pátria está em perigo, lançar a palavra de ordem: a vitória ou a morte. Alguns aceitam, outros recusam. Contam-se, entre estes últimos, Dino Grandi, que se opõe a deixar sua cidadela política de Bolonha, e o genro do Duce, Galeazzo Ciano, pretextando estar em precário estado de saúde. Aqueles que aceitam são insubmissos e estão divididos. Manifestam a pretensão, antes de empreender sua cruzada patriótica, de conferenciar com o Duce, e, a 16 de julho, se fazem receber, em número de dezenove, no Palácio de Veneza. Muitos estão em traje civil, o que traz aos lábios de Mussolini esta pergunta agressiva: “Quem são estas pessoas mal vestidas?”. A discussão é tempestuosa. Farinacci ataca os generais, pede a cabeça de Ambrosio, de Roatra, de Guzzoni, reclama a convocação do Grande Conselho, para insuflar à guerra um espírito revolucionário. Com objetivos diverso, Bottai pede igualmente o Grande Conselho: “Não, Duce, para desmembrar ou diminuir teu poder, mas para dividir tuas responsabilidades”. Caído na semi-anestesia da dor, Mussolini resigna-se: “Os senhores querem o Grande Conselho? Bem, nossos inimigos dirão que é para capitular. Mas os senhores querem isso...”. Fixa-se  para 24 de julho a data da sessão, o que deixa às intrigas oito dias inteiros para frutificar.

 

Enquanto isso, nova confrontação reuniu os dois parceiros de diferente têmpera do Pacto do Aço.

 

A debandada da Sicília mergulhou a Alemanha em indignação. Hitler pede a acusação do Almirante Leonardi, que, após Siracusa, deixou que Augusta fosse tomada sem combate. A 29a Divisão de Panzergrenadier e a 1a Divisão de Pára-quedistas, que se encontravam na Calábria, passaram à Sicília, mas Jodl opõe-se  ao envio de novos reforços, dizendo que os “traidores italianos” querem atrair à ilha o maior número possível de tropas alemães, “para ali serem destruídas”. Chamado para consulta, Rommel ouve perguntar se ele conhece um líder fascista capaz de galvanizar a resistência e de salvar a cooperação ítalo-alemã. Não contemporiza em sua resposta: “Um italiano assim não existe...”.

 

Hitler tenta um último esforço. A 18 de julho, o Embaixador Von Mackensen convida o Duce para um encontro. Com esse objetivo, diz ele, o Fuhrer, desdenhando toda consideração de segurança pessoal, declara-se pronto para atravessar os Alpes. O encontro é fixado para realizar-se em Féltria, ao pé dos Dolomitas, em uma villa de estilo cacofônico - “uma palavra cruzada”, dirá Mussolini - pertencente a um senador, Gaggia. Os dois ditadores tomaram contato, pela primeira vez, não longe daí, em Veneza, dez pequenos anos antes - Adolf Hitler ainda em seu guarda-pó de empregado pobre, Benito Mussolini já acostumado às fanfarras do poder. A entrevista de julho de 1943 é a décima terceira. Na véspera de seu sexagésimo aniversário, Mussolini é um velho devastado pela derrota e a pela doença. Hitler tem ainda atrás de si um país forte e bravo, mas a iniciativa da guerra escapa-lhe e as ondas da adversidade o encobrem. No momento em que se põe a caminho de Féltria, a ofensiva russa de Orel estende-se até o mar de Azov e a totalidade da frente oriental está em perigo.

 

Os italianos haviam-se preparado para uma conferência de três dias. Souberam no aeródromo de Trevisto que o Fuhrer estava obrigado a voltar a seu QG na mesma noite. Os 85 km de Trevisto a Féltria exigiram quase duas horas de estrada de ferro, durante os quais dois encontros se realizaram separadamente: Mussolini e Hitler, Ambrosio e Keitel. O rude general italiano atacou o alemão, obrigou-o a reconhecer que a Wehrmacht estava reduzida à defensiva e que a campanha de 1943 estava perdida. A questão do comando único na Itália, objetivo da viagem alemã, não foi abordada, pois, no Palácio Gaggia, italiano e alemães não foram, diante de Hitler, mais que ouvintes mudos. O Fuhrer lançou-se em uma dissertação econômico-militar demonstrando que a situação do Eixo permanecia fundamentalmente favorável. A única novidade, nessa exposição repisada, era a seguinte: a Alemanha utilizaria, antes do fim do ano, duas invenções que arrasariam Londres completamente.

 

Hitler continuava falando quando um ajudante-de-ordens entrou e entregou uma nota a Mussolini. Londres, nos planos do Fuhrer para o futuro, acabava de ser destruída, mas Roma era bombardeada no presente.

 

O ataque contra a capital da Cristandade não havia sido decidido sem hesitações sérias. Mas os aeroportos de Littorio e Ciampino, as triagens de Littorio e de San Lorenzo, por onde passava todo o tráfego ferroviário do sul da Itália, constituíam objetivos militares essenciais. Quatorze grupos da US Air Force derramaram sobre eles 1.000 toneladas de bombas. As recomendações feitas às tripulações e os avisos lançados na véspera à população não preservavam nem os edifícios sagrados nem as vidas humanas. Contaram-se 2.000 mortos e metade da Basílica de São Lourenço Fora dos Muros foi destruída.

 

Mussolini pareceu menos aterrorizado pelo próprio bombardeio que por sua ausência num tal momento. “Que vão dizer os romanos ao saber que o Duce não estava na sua capital no momento em que as bombas caíam sobre ela...”. Hitler só manifestou impaciência ao ser interrompido e apressou-se em retomar o fio de suas considerações. Deu à Itália uma longa lição de coragem e declarou que a Alemanha não se obstinaria na defesa da Sicília se as fraquezas italianas não fossem reprimidas com extremo vigor.

 

A hora do almoço chegara. Hitler parou e desapareceu. Ambrósio aproveitou para interpelar Mussolini: Por que não havia interrompido Hitler? Por que não lhe perguntara  se, sim ou não, a Alemanha poderia reforçar a frente italiana? Por que não lhe havia dito que a Itália deveria encarar a possibilidade de se retirar da guerra em quinze dias? Mussolini foi dispensado de responder por um oficial que veio dizer-lhe que o Fuhrer o esperava para almoçarem. Os dois ditadores comeram sós, depois refizeram juntos o percurso ferroviário de Féltria a Veneza. Nenhuma espécie de decisão havia sido tomada nem por eles mesmos nem por seus subordinados.

 

Às 17 horas, o avião de Hitler prosseguia vôo. A consternação reinava na delegação italiana, mas Mussolini parecia reconfortado. Declarou que conhecia agora o segredo de Hitler e sabia, de fonte segura, como a Alemanha sairia do conflito totalmente vitoriosa.

 

Nesse mesmo dia, 20 de julho, os Aliados tomaram a ofensiva na Sicília. Os ingleses penam na planície de Catânia, infestada de malária, mas os americanos avançam rapidamente em outros setores. No dia 20, a 1a Divisão apodera-se de Enna. A 21, a 3a transpõe Agrigento. A 22, Patton põe-se à frente de uma coluna blindada e, por uma sucessão de longas aldeias, entra em Palermo no meio de uma multidão que grita: “Abaixo Mussolini!”. No dia 23, a 82a Airbone termina a conquista do oeste da Sicília, apoderando-se, sem perda de um só homem, do porto de guerra de Trapani. Só resta ao Eixo um dos ângulos do triângulo siciliano, fortificado pela massa formidável do Etna.

 

No dia seguinte, 24 de julho, às 5 horas da tarde, no Palácio de Veneza, reúne-se o Grande Conselho da Revolução Nacional Fascista.

 

Queda e prisão de Mussolini

 

Esta instância que entra em cena num momento dramático da história italiana é um relicário do fascismo. Composto de 28 membros, sob a presidência do Duce, o Grande Conselho reúne dois dos quadriúnviros da Marcha sobre Roma, os velhos marechais De Bono e De Vecchi; personalidades políticas como Farinacci, Ciano e Grandi; ministros há muito dóceis como Polvarelli e Cianetti; os mais altos dirigentes das organizações corporativas e sindicalistas, como Gottardi, Frattari e Balella; os principais dignitários do partido, como o secretário Scorza e o comandante dos Camisas-Pretas, Balbiati; o embaixador em Berlim, Alfieri; o presidente da Academia da Itália, Federzoni; enfim, simples funcionários como Bastianini e Albini, administradores das duas pastas, Relações Exteriores e Interior, que o Duce atribuiu a si. Este mosaico não se reunia desde 1939. Considerava-se que o Grande Conselho se havia tornado sem objetivo, pelo princípio da autoridade, pela infalibilidade política reconhecida ao Duce. É para depor o Duce que ela  aí está. As posições estão tomadas. Voltando de Bolonha, Grandi redigiu uma moção pedindo “a restauração imediata de todas as funções do Estado” e convidando o chefe do Governo - Mussolini - a pedir ao rei que assumisse “a iniciativa suprema, tomando o comando das Forças Armadas”. Nenhuma menção foi feita à aliança com a Alemanha, do prosseguimento da guerra ou do Partido Fascista. Nenhuma palavra de gratidão ou confiança é pronunciada em relação a Mussolini.

 

Farinacci opõe-se a Grandi. Sua moção restitui igualmente ao rei o supremo comando, “para mostrar ao mundo que a nação, unânime, está em combate”, mas proclama uma lealdade inquebrantável em relação ao regime e “uma fidelidade estrita às alianças contraídas pela Itália”.

 

O dia é o mais quente do verão. Ainda não se dissipou o odor de fogo proveniente dos quarteirões devastados cinco dias antes. Multidões fugiram de Roma, apesar do protesto enérgico do Santo Padre, dizendo que espera que o sacrilégio de 19 de julho não se renovará. Nenhum cerimonial exterior revela a reunião do Grande Conselho. Somente no interior do Palácio de Veneza permanece alguma coisa do ouropel fascista - botas, punhais, bonés de franjas. Mussolini vestiu seu uniforme de cabo da milícia, camisa negra, túnica branca e uma grande insígnia triangular no braço esquerdo. Entra na sala do Conselho ante uma ala de saudações romanas, responde com um gesto imperial ao gritos “A noi!” e ordena que se faça a chamada. Sua onipotência nada mudou, aparentemente. Mas ele emagreceu 20 kg e vive só de leite.

 

Junto aos conjurados, a inquietação reina. Ninguém está seguro de sair vivo e livre do Palácio de Veneza. Vários se confessaram, outros tem no bolso um revólver ou granadas de mão.

 

Durante duas horas Mussolini fala. Traça a situação militar, defende a Alemanha da censura de haver abandonado a Itália, afirma que não existe salvação fora da fidelidade incondicional à Aliança. O apelo ao rei proposto por Grandi abre uma alternativa com dois aspectos, um dos quais é vão e o outro funesto. Ou o soberano manterá, a ele, em suas funções, ou este liquidará o regime. Os amigos da Inglaterra, os reacionários, levam-no a este caminho.

 

Grandi não cede. A força de sua palavra contrasta com a elocução penosa do Duce. Uma velha conta se liquida. Toda a orientação do regime há 20 anos é posta sob acusação: “O Fascismo morreu no dia em que substituímos em nossos pendões a velha divisa “Liberdade e Pátria” pela senha “Crer, Obedecer, Combater”. Não foi o fascismo que perdeu a guerra, foi a ditadura...”.

 

O debate prossegue durante toda a noite. Por um momento, Mussolini, esgotado, isola-se em seu gabinete de trabalho. Farinacci e Galbiati vêm juntar-se a ele e propõem-lhe prender os conjurados. Mas a energia do ditador está quebrada. Ele retoma seu lugar na sala do Conselho, onde a discussão gira sobre os mesmos argumentos, como uma carroça sobre uma pavimentação gasta. O único que produz uma última sensação é o embaixador em Berlim, Alfieri: “O que a Alemanha quer é fazer da Itália um campo de batalha, para retardar a invasão do seu território. Nada mais”. O homem foi um fanático do Eixo, um instrumento dócil do Terceiro Reich. Contudo, é de sua boca que sai a verdade.

 

Todo mundo está esgotado. Dino Grandi coloca diante de Mussolini sua moção com 19 assinaturas. Desdenhosamente, Mussolini passa-a a Scorza, pedindo-lhe que a ponha em votação. Scorza lê os 19 nomes. Sucedem-se os “sim”, começando pelo do Marechal De Bono: De Vecchia, Grandi, De Marsico, Acerbo, Pareschi, Cianetti, Federzoni, Balella, Gottardi, Bignardi, De Stefani, Bottai, Rossoni, Marinelli, Alfieri, Ciano (um “sim” calmo e natural), Bastianini, Albini. Os 19 ratificaram sua assinatura, proclamaram a queda do regime e a de Mussolini. Muitos pronunciaram sua própria sentença de morte.

 

Contudo, o voto não tem qualquer caráter constitucional. Vinte anos antes, quando dava suas instituições ao fascismo triunfante, Mussolini especificou que o Grande Conselho “não era um pequeno Parlamento e que não se procederia aí a votação”. No momento em que uma onda de frescor anuncia a alvorada próxima, enquanto os conjurados buscam seus automóveis, espantados de estarem livres e pensando nas precauções necessárias para assim continuarem, os fiéis do Duce consultaram os textos e demonstraram a insensatez do acontecimento que acabava de desenrolar-se. Mussolini, no entanto, não parece inquieto. Volta à Villa Torlonia, onde Dona Rachele, de pé, derrama seu furor romano contra o genro traidor, o Galeazzo, de quem tanto falara que traria infelicidade à família. O Duce dorme um pouco e, às oito horas, como cada manhã há 20 anos, toma lugar atrás de sua mesa de canto, no ilustre salão da Mappemonde. Dir-se-ia que o Palácio Veneza está purificado dos miasmas da discórdia da noite.

 

O dia, um domingo, 25 de julho de 1943, anuncia-se tão quente como na véspera. Roma está deserta. Ciano e a maioria dos “sim” procuraram asilo, no qual devoram suas angústia. A Embaixada da Alemanha tem apenas uma idéia confusa do que se passou no Grande Conselho. Mackensen telegrafa a Berlim que o Duce está em conferência secreta com o rei, desde as 10 horas da manhã e que se trata de apelar “para o político da Primeira Guerra Mundial, Orlando, de 83 anos”.

 

Mussolini vê o rei regularmente, duas vezes por semana, segunda e quinta-feira. Excepcionalmente, solicitou-lhe audiência para o mesmo dia, às 17 horas. Queria pôr o soberano a par da rebelião do Grande Conselho e obter uma reafirmação da confiança real. Enquanto Rachele está torturada pela inquietação, nenhum pressentimento atravessa o espírito de seu marido. Ele acalma o General Galbiati, da Milícia, dizendo-lhe não ser necessária uma repressão com grande aparato. O rei fará tudo voltar à ordem. “Tenho plena confiança nele. Há 20 anos nada faço que não seja de acordo com ele. Estará firmemente a meu lado...”. Ao receber o novo embaixador japonês, Mussolini sustenta sua idéia favorita: fazer cessar a guerra teuto-russa. “Não pensei um só minuto - dirá o embaixador - que o homem que me falava não estivesse seguro de seu poder”.

 

A falência crônica dos regimes policiais é fonte reconfortante de surpresa. Doze horas após, o chefe do fascismo ignora que, saindo do Grande Conselho, Grandi dirigiu-se à presidência da Câmara, onde o esperava o Duque de Acquarone, ministro da Casa Real e mola-mestra da conjuração. Os dois homens partiram juntos e prosseguiram sua conversação, até o começo da manhã, em uma casa da Via Giulia. A coalizão da Coroa e do chefe dos fascistas em revolta teria sido uma indicação eloqüente, mas Mussolini não soube disso. Tinha ainda à sua disposição todos os recursos do Estado e, para sua segurança pessoal, Himmler lhe havia organizado uma divisão pretoriana armada de 36 Tigres, que precisava de apenas duas horas para chegar a Roma. Nem por isso deixou de precipitar-se na armadilha. Às 17 horas, chegou, de paletó, ao Quirinal. O carro de seu guarda-costas foi retido no portão e ele entrou no palácio.

 

A única testemunha auditiva do que se seguiu é o chefe da Casa Militar, o General Puntoni, que, escutando atrás de uma porta entreaberta, só pôde pegar fragmentos do diálogo. Mussolini tomou a palavra. Vítor Emanuel atalhou-a e, em frases retalhadas, entremescladas de dialeto piemontês, falou do desastre em que mergulhavam o Exército e a Nação. “Você - disse ele ao Duce - é o homem mais detestado da Itália. Quanto a mim, quero-lhe bem. Já o provei defendendo-o muitas vezes. Mas desta vez, devo pedir-lhe que se demita...”

 

Nenhum homem produzia impressão de energia mais forte que Mussolini. Mas o coração do carvalho havia sido destruído por uma acumulação inusitada de desastres e humilhações. Desmoronou diante do pequeno soberano que tomava a mais amarga das desforras. Puntoni ouviu um gemido de empregado demitido tocaiado pela miséria: “Então, está tudo acabado? Que vai ser de mim e de minha família?”. Depois as vozes se confundiram numa acirrada discussão, o rei acusando, o Duce recriminando. O nome de Badoglio surgiu. “Ele já tomou - disse Vítor Emanuel, a direção do governo...”Puntoni ouviu ainda esta palavra do rei: Assumo toda responsabilidade por sua segurança pessoal”. Em seguida, Vítor Emanuel reconduziu à saída o homem a quem acabava de destruir. “Ele me pareceu - contará Mussolini - menor ainda que de costume, quase um anão. Apertou-me a mão com grande calor”. Enquanto se realizava a audiência, o motorista do Duce, Ercolo Battoro, havia sido preso discretamente. Mussolini, dirigindo-se para o carro, foi abordado por um capitão de carabineiros: “Sua Majestade encarregou-me de vossa proteção. Subi”. Designava um automóvel de ambulância, no qual um capitão, um tenente, três carabineiros e dois policiais armados de metralhadoras amontoaram-se com Mussolini e seu secretário. Partiram a toda velocidade para o quartel do Trastevere, a seguir, após breve parada, para a caserna da Via Legnano, onde o fundador do fascismo passou uma noite tórrida em um leito de campanha.

 

Às 10h45, três comunicados sucessivos anunciavam à cidade e ao mundo a queda de Mussolini. Não houve uma só agitação. O Exército e a Polícia haviam ocupado as estações de rádio, as centrais telefônicas, as sedes da milícia. Farinacci havia fugido. Scorza, Galbiati, Bufarini tinham sido presos, este último ao lado de Dona Rachele, na Villa Torlonia, aonde havia ido muito tarde para dissuadir o Duce de ir à audiência real. O organizador do golpe de Estado era Carmine Cenise, o chefe da polícia mussolinista caído em desgraça. No dia seguinte, os garis das ruas romanas varreram milhares de insígnias PNF (Partido Nacional Fascista) para as bocas de esgoto.

 

Quando Hitler soube do resultado da sessão do Grande Conselho, voltou sua cólera contra  o ultragermanófilo culpado de o haver provocado: “Esse Farinacci tem sorte de ser italiano. Se ele me houvesse feito isto a mim, eu o teria entregado a Himmler...” O Fuhrer não se equivocou sobre a significação da substituição de Mussolini por Badoglio: “Os italianos vão dizer-me que continuam a guerra. Naturalmente isto será mentira. Vão negociar com os ingleses...”

 

A 26 e 27, planos vigorosos foram agitado. A 3a Panzer estava ao norte de Roma. Hitler pensou em lança-la sobre a capital, para varrer o novo regime: “É preciso agarrar toda a súcia, o príncipe herdeiro à frente...” Depois o tom baixou sensivelmente. Nada saiu de quatro longas conferências, exceto a decisão de retirar da frente oriental a Divisão Leibstandarte, para enviá-la à Itália: “Meus SS são bons propagandistas. Eles reanimarão o ardor dos fascistas, momentaneamente desencorajados”. O Fuhrer recusava admitir que os Camisas-Pretas houvessem voltado ao pó, que o partido do qual ele havia copiado o seu NSDAP desaparecesse. Quando Jodl lhe contou a história das insígnias fascistas varridas para o esgoto, deu de ombros: “É preciso ser um general para crer nestas coisas...”

 

A razão deste retorno artificial às ilusões é clara. Uma tensão impiedosa se apoderou das forças alemães. Toda sobrecarga representava uma ameaça de ruptura. Por mais fraca que estivesse a Itália, seu abandono trazia o risco de abrir nas posições alemães uma brecha catastrófica. Não era possível negligenciar a oportunidade de vê-la de pé, por menor que fosse.

 

Na Rússia, Manstein havia restabelecido brilhantemente a frente do Mius. Mas havia alguma coisa de apocalíptico na faculdade de recuperação dos russos. A 3 de agosto, no momento em que Rastenburgo se congratulava com o sucesso de Manstein, a Frente de Voronej e a Frente da Estepe haviam desencadeado contra Kharkov uma ofensiva de extrema violência. Mais ao norte, Orel sucumbia e, praticamente destruído, o 2o Exército Panzer desaparecia da ordem de batalha alemã. No decorrer dos dois anos precedentes, o verão havia sido uma estação de vitórias alemães, com o Exército Vermelho compensando-se durante o inverno. Rompia-se a regra em 1943, tornando-se todo o ano uma ratoeira para a Wehrmacht. Paralelamente com a guerra na Rússia, a guerra aérea toma um rumo assustador. Os Aliados prosseguem a operação chamada Pointblank, a destruição sistemática das cidades inimigas. Em março, Berlim é bombardeada pela primeira vez, com o emprego de bombas incendiárias. Em abril, a metade de Dusseldorf é destruída. Em maio, 19 aviões Lancaster da RAF torpedeou as barragens do Eider, do Möhre e do Sorpe, provocando grandes inundações, em que se afogam 2.000 pessoas, paralisando o Ruhr e exaurindo suas águas industriais. Hamburgo, cujos habitantes se orgulhavam de ser poupados, em virtude de seus sentimentos anglófilos, é a grande vítima do verão. As bombas de fósforo queimam o asfalto das ruas, e a depressão atmosférica produzida pelo incêndio faz da cidade o centro de um ciclone, que felizmente, traz a chuva. 70% dos 1.400.000 habitantes estão sem abrigo; o cortejo dos fugitivos, muitos deles queimados, loucos ou cegos, é um espetáculo raramente ultrapassado na história das torturas da humanidade. Berlim, vizinha, treme. Seu Gauleiter, o Doutor Goebbels, faz distribuir a domicílio notícias convidando a sair da capital todos os berlinenses cuja presença não é indispensável. As estações são tomadas de assalto. Os caminhos se cobrem de uma multidão acossada pelo medo. “À noite - diz uma testemunha -, um animal enorme deita-se sobre a cidade silenciosa: o Medo”.

 

Outro episódio da guerra aérea produz em Hitler uma impressão profunda. No dia seguinte ao do bombardeio de Roma, os cinco grupos de B-24 que participaram da ação foram retirados da área de batalha italiana, enviados à Líbia e conduzidos ao bombardeio a altitude muito baixa. A 1o de agosto, eles voam com um efetivo de 177 aparelhos, levando 1.725 americanos, 1 inglês, 311 toneladas de bombas e 330 caixas de produtos incendiários. Sobrevoam Corfu, a Albânia, a Iugoslávia, a Bulgária, atravessando o Danúbio a jusante das Portas de Ferro. Seu destino é a cidade das refinarias, Ploesti, capital do petróleo romeno. Erros de navegação atrapalharam a execução do plano, mas as tripulações substituem o método pela fuga, mergulham sucessivamente em nuvens de fumaça, desafiando o risco dos balões de barragem, das altas chaminés e das erupções de chamas. As perdas são pesadas: 44 aparelhos, 532 aviadores. Mas os estragos causados sobrepujam 40% da capacidade de refinação de Ploesti, pela qual passam 60% dos 9 milhões de toneladas de petróleo brito romeno.

 

É em vista desta cascata de desastres que se deve apreciar a reação de Hitler após a queda de Mussolini. “O golpe de Roma - havia dito ele no primeiro instante - é a repetição do golpe de Belgrado. Eu o tratarei da mesma maneira”. Mas, em 1941, foi-lhe suficiente um gesto para lançar sobre os Bálcãs um magnífico exército completo, repousado, irresistível. Em 1943, é com expedientes que deve fazer face aos acontecimentos italianos.

 

“Nossa situação - dirá Jodl - era dramática. As medidas a tomar em caso de traição aberta (o Plano Alaric) haviam sido fixados nos mínimos pormenores, mas os traidores espalhavam-se em promessas de fidelidade tão calorosas, que elas encontravam fé, junto a certos oficiais alemães incapazes de conceber tal profundeza de infâmia... Nossa tarefa consistia em manter tanto território quanto possível, a fim de evitar um desembarque no norte da Itália. Além disso, era necessário não fornecer as italianos um pretexto para consumar sua traição...”

 

O Eixo militar sobreviveu, pois, momentaneamente, à queda de Mussolini. Badoglio envia a Hitler o adido militar em Berlim, o General Marras, acompanhado - Alfieri havia prudentemente ficado em Roma - do ministro conselheiro da Embaixada, Michel Lanza. A entrevista se realiza na presença de Jodl, de Schmundt e do Embaixador Hewel, os quais, conta Lanza, ficam de pé; “a mão direita no bolso do paletó, os olhos alerta e prontos para sair das órbitas”. Entretanto, Hitler mostra-se cortês e mesmo amável com os dois italianos. Aceita como boa moeda a expressão de sua fidelidade à aliança, desculpa-se de não poder aceitar o convite do rei da Itália, prodiga suas exortações familiares ao heroísmo. “O dia de nossa vitória virá, ainda que seja preciso esperar 300 anos, e, nesse dia, nós nos vingaremos”. Em relação à mudança de regime, limita-se a dizer que teria gostado de ser informado antes e que gostaria de ter notícias do Duce. “Ele vai muito bem”- diz Marras, um tanto  secamente. Longe de mostrar desagrado, Hitler simula cordialidade. Nova entrevista teuto-italiana é combinada para o dia 6 de agosto, na estação de Tarvis, no desejo de “esclarecer definitivamente” as relações teuto-italianas. De uma parte e de outra, a delegação é dupla, meio militar, meio diplomática: Keitel e Ambrosio; Ribbentrop e o novo ministro das Relações Exteriores italiano, Raffaello Guariglia. Chegando a Berlim, o Barão Lanza é surpreendido pela atmosfera de férias, pela opulência calma reinante na Alemanha do Sul, contrastando com a tragédia da Alemanha do Norte. Novo contraste, a Itália febril e decomposta, cheia de homens em armas e de fermentos de anarquia. Nas gargantas da montanha repercutem os primeiros tiros trocados entre as forças armadas e grupos de partisans. Não longe de lá, em Arnoldstein, a fronteira é fechada por ordem de Ambrosio diante da 44a Divisão de caçadores Tiroleses, que deve ocupar o Passo de Brenner, e diante da 305a DI, destinada à região de Livorno. Se os alemães entendem o jogo italiano, a recíproca é verdadeira. Ambrosio compreende perfeitamente que a Wehrmacht quer ocupar a Itália, onde já se encontram dez de suas divisões.

 

Ribbentrop e Keitel chegam à Itália como a um país inimigo. O ministro deu ordens de deixar os códigos e todos os documentos secretos em território alemão, por considerar possível que os italianos, “esses canalhas”, tentem roubá-los, para entregar os alemães aos ingleses. De metralhadora em punho, uma nuvem de soldados da SS toma posse da estação, rodeia o vagão-salão de Ribbentrop, em que é entabulada uma discussão de cortesia gélida.

 

A questão das tropas alemães é tratada entre Keitel e Ambrosio. O alemão declara que não compreende que elas experimentem dificuldades em penetrar num país que acabam de defender. O italiano retruca que o solo da Itália será mais bem defendido com o repatriamento das tropas italianas que se encontram na França e nos Bálcãs.

 

Entre Guariglia e Ribbentrop a discussão é mais acerba ainda. O ministro de Hitler pergunta ao ministro de Vítor Emanuel se ele pode dar-lhe certeza de que nenhuma negociação foi empenhada entre a Itália e os Aliados. O hábil Guariglia responde  que é sempre possível que personalidades sem mandato tomem iniciativas incontroláveis, mas que não há qualquer colóquio de caráter oficial em curso. Se a Itália pensasse tomar a iniciativa avisaria previamente ao governo alemão. Ribbentrop fixa Guariglia: “É a palavra do governo italiano?”. Guariglia sustenta o olhar: “É a palavra do governo italiano”.

 

Encerradas as discussões, Keitel, Ribbentrop e um grupo de oficiais toma os carros que fizeram vir da Alemanha. Uma barragem fecha o caminho diante dos italianos que tentam segui-los. Durante duas horas, trocando conjecturas ansiosas, os representantes de Badoglio dão, na sala de espera, entre as metralhadoras dos SS, um passeio de prisioneiros. Keitel e Ribbentrop reaparecem, dizendo que eles próprios foram abrir a fronteira e que suas tropas entram na Itália. A separação produz-se em um ambiente de nostalgia e ódio, ao mesmo tempo. Quando o trem alemão se põe em marcha, os italianos, em vez de saudar à romana, ficam imóveis, os braços ao longo do corpo.

 

Dando a certeza de que nenhuma negociação oficial havia sido feita entre a Itália e os Aliados, Guariglia não mentiu positivamente. Ex-chefe do gabinete de Ciano, o Marquês Ajeta, que tomou contato em Lisboa com o embaixador britânico Campbell, não é, ao pé da letra, um negociador oficial. É apenas, com o pleno conhecimento do Ministro Guariglia, enviado oficioso do governo Badoglio.

 

Acrescentando que a Itália informaria a Alemanha no caso de entabular negociações, Guariglia mentiu por antecipação. A intenção, o objetivo, a razão de ser do novo regime são de concluir uma paz em separado com os Aliados. Sua esperança e seu calculo são de passar das hostilidades à aliança, a fim de poupar à Itália as conseqüências mais pesadas da derrota. Seu medo e seu terror são de expor-se à vingança alemã. Seu ideal é, por conseqüência, colocar-se sob a proteção anglo-americana no momento preciso em que fará seu salto perigoso. Trata-se de uma operação complicada e difícil, implicando uma sincronização escabrosa, exigindo um segredo rigoroso.

 

As dissonâncias anglo-americanas não favorecem o descarte italiano. Henry Stimson, o velho e fervoroso secretário de Defesa dos EUA, passa por Londres e pela Argélia para encontrar aí plena confirmação de seus temores: a Inglaterra, e especialmente Churchill, ardendo por vingar-se de sua derrota de 1915 nos Dardanelos, querem sacrificar a invasão da França ao prosseguimento de sua política mediterrânea. Stimson denuncia a Roosevelt a engrenagem para qual os Estados Unidos estão sendo empurrados pela pérfida Albion: primeiro, o desembarque na África do Norte e a total conquista desta; em seguida, a invasão da Sicília; agora, a passagem do estreito de Messina, aceito pelo Comando americano. A queda de Mussolini e as oportunidades crescentes de impelir a Itália para fora da guerra fornecem à Inglaterra novos pretextos e obriga os Estados Unidos a resistir com mais denodo. A declaração de Badoglio, de que a Itália continuará na luta ao lado da Alemanha, é acolhida por Washington com alívio. Mata o problema que prometia redemoinhos mais violentos que o caso Darlan: é preciso negociar com a monarquia da Casa de Savóia, que aceitou e apoiou o regime fascista; com o Marechal Badoglio, que foi o principal instrumento militar de Mussolini, o conquistador da Etiópia e o invasor da Grécia? Antes da invasão da Sicília, Roosevelt, juntamente com Churchill, havia pedido ao povo italiano que desertasse da causa fascista e voltasse à sua tradição democrática: ele se apressa agora em especificar que a cláusula de rendição incondicional continua a ser aplicável com todo o rigor para a Itália. O regime que derrubou Mussolini não deve encontrar perdão. “Nenhuma flexibilidade de minha imaginação - escreve o conselheiro íntimo de Hopkins - consegue pintar-me Vítor Emanuel e Badoglio como forma democrática de governo...”

 

A Itália, para sua felicidade, tem agudo o próprio senso de sua conservação, para deixar-se acuar a uma luta desesperada. A rudeza do acolhimento não corta as propostas de paz. Depois de Ajeta, depois de Berio, cônsul-geral italiano em Tânger, um mensageiro mais importante entra em cena: o general Giuseppe Castellano, que Badoglio escolheu como chefe do Estado-Maior. Ele se apresenta a 15 de agosto, após ter viajado com passaporte falso, ao embaixador britânico em Madrid, Sir Samuel Hoare, e o que oferece não é nada menos que uma reviravolta das alianças, uma meia volta completa da Itália!

 

O duplo jogo teuto-italiano não prossegue menos de uma parte e de outra. No mesmo dia em que o General Castellano se apresenta a Sir Emanuel Hoare, uma conferência militar se desenrola em Bolonha. Hitler delegou poderes ao precioso Jodl, e Ambrosio, a seu braço direito, Roatta. Rommel está igualmente presente, assim como Kesselring e Rintelen. Os bombardeios que destroem as cidades italianas (no decorrer da semana, Milão é atacada quatro vezes, Turim três vezes, Gênova e Roma uma vez) parecem desmentir todo tratamento com o inimigo, e entretanto, como em Tarvis, os alemães chegam rodeados de SS e almoçam com os italianos tendo o revólver pousado sobre a mesa. Depois disso, organizam em comum um plano de batalha. As forças ítalo-germânicas se dobrarão passo a passo até uma linha Pisa-Florença-Ravena, onde resistirão a todo custo. Os italianos aceitam fleumaticamente um plano que entrega aos horrores da terra queimada a maior parte de seus país.

 

E a Sicília? O episódio termina. Sacrificando a ilha, o Eixo poupa uma segunda Túnis.

 

A decisão não foi tomada sem dor. O Almirante Doenitz levantou-se contra um abandono que daria aos Aliados o domínio completo do Mediterrâneo. Enviado à Sicília, o general maneta Hans Hube, que, havendo chegado em primeiro lugar a Stalingrado, teve a oportunidade fenomenal de sair de lá alguns dias antes da capitulação, recebe ainda ordens para defender a ilha passo a passo. A 3 de agosto, os Aliados encontram severa resistência ao lançar uma ofensiva de três pontas convergindo em Messina. O maciço do Etna e a cadeia de montanhas Nebrodici canalizam o atacante em estreitos corredores de ataque e sobre as cornijas costeiras. A luta desenrola-se sob o concerto estridente das cigarras, a 40 grau à sombra e ante uma aridez intensa. A sede tortura os combatentes, mas a superioridade naval e aérea anglo-americana é demasiado esmagadora para deixar uma oportunidade séria a Guzzoni e a Hube. O flanco sul do Etna, de Catânia a Taormina, é conquistado pelo 8o Exército britânico, de 6 a 14 de agosto. No flanco norte do vulcão, o 7o Exército americano toma sucessivamente Nicósia, Troina e Randazzo. Messina é submetida a uma interdição aérea contínua, e seu estreito corre o risco de tornar-se totalmente impraticável. Dos quatro navios que o serviam, três já estão afundados.

 

Hube e Guzzoni determinam-lhes ordenar a retirada que, começada a 9 de agosto, se desenvolve de maneira brilhante. Cada noite, tudo o que pode flutuar anda numa roda viva entre a Sicília e a Calábria. A 17 de agosto, quando Patton entra em Messina, 40.000 soldados alemães e 62.000 italianos passam o estreito sem perdas notáveis. Os Aliados quase nada fizeram para que sua vitória na Sicília termine, como a de Túnis, pela captura do inimigo.

 

Haviam levado seis meses para conquistar a África do Norte. Apoderaram-se da Sicília em 38 dias. O plano inclinado da vitória foi atingido?

 

A Inglaterra perde o comando da Operação Overlord

 

No momento dessas primícias encorajantes, novos encontros aliados estão em curso. Realizam-se desta vez em Quebec, em concessão à suscetibilidade britânica, sem obrigar o Presidente dos Estados Unidos a ir à Inglaterra, onde ele receia indispor sua clientela eleitoral irlandesa. A velha cidadela, perto das planícies de Abrãao, que viram selar o destino do Canadá francês, foi preparada para Churchill e Roosevelt, enquanto seus estados-maiores se instalam no enorme Hotel du Chateau Frontenac, bem acima do largo rio São Lourenço.

 

Estas sessões de Quebec, chamadas “conferências Quadrante”, vêem um novo e severo confronto anglo-americano. Um episódio mostra a tensão dos espíritos. No decorrer de uma conferência muito fechada dos chefes dos estados-maiores, seus colaboradores, comprimidos na antecâmara, ouvem com terror um choque, um grito, uma detonação. Mountbatten trouxe uma amostra de gelo supergelado, cujo inventor, um Sr. Pyke, propõe fazer aeródromos flutuantes para a invasão da Europa. Arnold, o mais forte dos chefes do estado-maior, tentou fender o bloco com um golpe de machado: choque. O pedaço era tão duro que lhe fez luxar a escápula: grito. Mountbatten, para completar a demonstração, deu um tiro de pistola e a bala ricocheteou no gelo: estampido. Mas os oficiais tiveram todos o mesmo pensamento: “Meu Deus! Eles se matam!”.

 

Os assuntos de litígio são sempre os mesmos: Mediterrâneo contra a Europa ocidental e ideologia americana contra o imperialismo britânico. A proximidade manifesta da vitória acresce a severidade dos choques. O problema do mundo de amanhã começa a desprender-se da fraseologia vaga e fácil que foi a da Carta do Atlântico. O futuro lugar da Rússia no mundo e o futuro do sistema colonial são dois grandes temas que comandam as flutuações da estratégia.

 

O último desses grandes assuntos provoca em Quebec uma crise estranha. Os americanos querem que os britânicos tomem a ofensiva na Birmânia, para livrar Chiang Kai-chek do bloqueio, mas exigem que a Inglaterra não tire dessa ação qualquer benefício político. Churchill desperta-lhes desconfiança, torna-se suspeito de querer levar o colonialismo ao Sudeste Asiático, propondo estender a operação a Sumatra. A prestação definitiva de contas do Japão deve regularizar-se após a derrota da Alemanha, mas os Estados Unidos entendem que os ingleses não se devem envolver nisso. Chefe de uma nação em guerra, há mais de quatro anos e que se esgotou ao repelir, sozinha, a violência alemã, Churchill deve exigir, deve fazer com que seja situado seu lugar nos últimos combates do Pacífico. Ainda que por enorme inconseqüência Roosevelt deseje ardentemente a participação dos russos na execução dos agressores de Pearl Harbor, pagará um preço monstruoso por isto. No debate Mancha contra Mediterrâneo, Churchill é perfeitamente explícito. Foi contra a Operação Sledgehammer em 1942 e contra a Roundup em 1944. É inequívoca sua opinião quanto à Overlord em 1944. Porém mantém o ponto de vista de que o prosseguimento das operações ativas no Mediterrâneo, longe de ser incompatível com o desembarque na Normandia, constitui a preparação disso. Ainda faltam 10 meses para chegar à data mais próxima cogitada para a Operação Overlord. Fechar o teatro mediterrâneo seria conceder à Alemanha esse prazo. Uma campanha da Itália dispersará suas forças, fará dissolver suas reservas, comprimirá o círculo de ferro que a oprime, enfraquecerá o inimigo para o golpe decisivo.

 

As coberturas de Badoglio reforçam a tese de Churchill. Marshall reconhece que, doravante, é ação realista prosseguir na Itália a campanha vitoriosa da Sicília, e Eisenhower, de acordo com esse intento, monta duas operações: Baytow, isto é, a invasão da Calábria, e Avalanche, ou seja, um desembarque nas proximidades de Nápoles. Examina-se a possibilidade de tomar Roma, de obrigar a Itália a sair da guerra, e, em vez dos Alpes e do Pó, atingir a linha Livorno-Ancona antes do inverno.

 

A controvérsia anglo-americana ressalta sobre a exploração deste avanço eventual: “Estaremos em condições - diz Churchill - de estender a mão, através do Adriático, aos patriotas dos Bálcãs sublevados”. Como a palavra “Sumatra”, a palavra “Bálcãs” eriça a desconfiança de Roosevelt. Ele compreende - mas reprova - os motivos inconfessáveis de Churchill. “O Presidente - diz a história oficial americana - não acreditava que a Rússia tivesse a intenção de apoderar-se dos Bálcãs”. O desejo de Churchill de lá chegar em primeiro lugar não era pois precaução legítima contra a expansão do comunismo e do eslavismo, mas nova manifestação do incorrigível imperialismo inglês. Para a execução da operação Overlord, sete divisões devem deixar o Mediterrâneo e ir junta-se às forças em curso de junção na Inglaterra. Churchill pede sus substituição por sete divisões enviadas dos Estados Unidos. Embora tenham uma pletora de tropas e a crise da tonelagem esteja virtualmente superada, os americanos recusam. “Substituir as sete divisões - diz um relatório de Marshall a Roosevelt - seria incitar o Sr. Churchill a servir-se disso para uma invasão dos Bálcãs...”

 

Outra questão pesava sobre as relações anglo-americanas: o comando da operação Overlord.

 

Tendo os Estados Unidos recebido a chefia das operações no Mediterrâneo, havia-se combinado que um inglês dirigiria a invasão da Europa ocidental. Churchill havia informado a Alan Brooke que esse glorioso e pesado manto ia cair-lhe nos ombros. Mas objeções e queixas não tardaram a elevar-se nos meios militares e governamentais americanos. Voltando da Argélia e de Londres, Stimson fez-se intérprete delas: “Não podemos racionalmente alimentar a esperança - escreveu ele a Roosevelt - de atravessar a Mancha sob comando britânico. O Primeiro-Ministro e seu chefe do Estado-Maior estão francamente em desacordo com este projeto... Deram-lhe adesão da boca para fora, mas seu coração não concorda. É preciso mais rigor, independência e fé do que é razoável esperar de um comandante-chefe britânico, para sobrepujar as dificuldades da operação”. Roosevelt, disse Stimson, aprovou todos os termos desta carta. Aprovou, igualmente, a sugestão de confiar o comando da Operação Overlord ao General Marshall.

 

Churchill acreditou ser bom levar adiante uma exigência que não julgava possível recusar. “Tomei a iniciativa, em Quebec, de propor ao Presidente a nomeação de um americano para o comando da Operação Overlord... Ele mostrou-se encantado com esta oferta, que, ouso dizê-lo, ia ao encontro de seus desejos. O General Brooke aceitou o desapontamento com uma dignidade de soldado. Na realidade, Brooke ficou cruelmente mortificado. “O golpe foi para mim devastador - disse -, mas Winston não se preocupou com isso um só instante. Não me ofereceu nem a expressão de seu pesar nem simpatia, e tratou do caso como se tratasse de uma questão de pormenor”.

 

A questão do titular - Marshall ou Eisenhower? - permaneceu aberta. Em vez disso, convencionou-se que, em compensação, os dois comandos interaliados secundários ficariam com os ingleses. Mountbatten foi encarregado do Sudeste Asiático. O Mediterrâneo foi prometido a Alexander. Churchill viu nesta última concessão vantagens pelas quais se explica sua fácil resignação à perda do comando da Operação Overlord. O desembarque na Normandia permanecia uma operação ainda remota e parcialmente hipotética, enquanto os acontecimentos se precipitavam na Itália.

 

A Itália capitula incondicionalmente

 

Badoglio manobrava desesperadamente. Ao novo representante alemão, um decidido nazista chamado Rudolf Ranh, ele prostituía seu nome, seu título e seu passado. “Sou o Marechal Bodoglio. Sou, com Mackensen e Pétain, o mais antigo marechal da Europa. A desconfiança do Governo alemão em relação a mim é inadmissível. Dei-lhes minha palavra. Os senhores devem crer nela...” Perjúrio patético! No momento em que Badoglio pronunciava estas palavras vibrantes de emoção, seu novo emissário, o General Giacomo Zanussi, chegava a Lisboa, acompanhado, como interlocutor, pelo mais ilustre prisioneiro de guerra inglês, o General Adrian Carton de Wiart. O que ele vinha propor era nada menos que um plano para a tomada de Roma por um golpe de surpresa combinado entre os italianos e os Aliados.

 

“Nas proximidades de Roma - dizia Zanussi - há apenas uma divisão alemã. Seis divisões italianas, convenientemente equipadas, ocupam a capital e seus arredores. Que os Aliados lancem sobre Roma uma divisão aerotransportada, e nossas tropas se unirão a ela. A Itália, à voz de seu rei, se revoltará contra o alemão odiado. As tropas alemães que se encontram no sul de Roma serão divididas e tomadas. Em alguns dias, a Itália pode ser libertada até os Alpes e a fronteira alemã estará alcançada...”

 

Ainda hoje, apesar de uma soma de revelações, seria temerário pretender que a verdade total sobre este curioso episódio da guerra fosse divulgada. Eisenhower adotou a idéia, designou a 82a Airbone e, de Quebec, Roosevelt e Churchill dirigem-lhe, juntamente, um telegrama de aprovação. Em compensação, nenhuma espécie de atenuante foi consentida à capitulação incondicional. O generalíssimo recebeu dois documentos, um dito short term, relativo à capitulação militar, outro dito long term, que só devia ser entregue aos italianos após a assinatura do primeiro. O honesto Ike não escondeu sua reprovação diante do que chamou a crooke deal, um procedimento desonesto, nem seu desacordo diante do regime impiedoso previsto para os vencidos. “Este documento - disse ele - não será publicado antes de 10 anos após o fim da guerra”. Com o que, nota Murphy, ele subestimava a longevidade desse vergonhoso segredo: a guerra terminou há mais de 50 anos e as condições políticas ditadas à Itália após a sua rendição não caíram no domínio público.

 

Os militares não preparavam menos a conquista de Roma com o recurso destes italianos que punham de joelhos. Comandante adjunto da 82a Airbone, o General Maxwell Taylor acompanhado do Coronel William Gardiner, foi levado em um hidroavião à ilha de Ischia, onde uma fragata italiana o conduziu a Geta. Em trajes civis, correndo o risco de serem presos e fuzilados, e levando um radiotransmissor numa mala, os dois oficiais americanos chegaram a Roma. As informações que lhes deu o General Carboni, comandante da guarnição, não concordavam com os dados mais otimistas fornecidos por Zanussi. Os alemães possuíam 12.000 homens nas cercanias da cidade e 35.000 num raio de 100 km. Os italianos, com falta de cartuchos, não podiam prometer a posse dos aeroportos. Taylor procurou Badoglio; este confirmou as palavras de Carboni e pediu o adiamento do desembarque.

 

Eram duas horas da madrugada de 8 de setembro e Badoglio estava de pijama em seu quarto. O dia que começava ia ser, para o vice-decano dos marechais da Europa, rico de emoções.

 

Nessa data de 8 de setembro, a invasão da bota italiana começara havia uma semana. No dia 2, após haver gasto uma fortuna na preparação de artilharia completamente inútil, Montgomery havia decidido atravessar o estreito de Messina, como Eisenhower o pressionava a fazer desde o dia 17 de agosto. A resistência havia sido nula. O único regimento alemão que se achava no litoral havia voltado para a montanha e fugido para norte tão rapidamente como as estradas calabresas o haviam permitido. A Calábria havia sido conquistada em três dias pelo 13o Corpo britânico. A audácia era tão fácil, que o Almirante Cunningham improvisava uma expedição contra Tarento e os navios ingleses entravam como uma esquadra em visita ao porto de guerra do qual Mussolini havia dito com freqüência que dominava o Mediterrâneo. Brindisi e Bari deviam estar ocupados nas mesmas condições nos dias seguintes. Também nesse momento de 8 de setembro, 2 horas da madrugada, fazia uma semana que a Itália capitulara incondicionalmente. Mas o mundo e a Alemanha de nada sabiam ainda.

 

Vindo um da Argélia e outro de Roma, Zanussi e Castellano haviam-se encontrado, a 31 de agosto, no QG de Alexander, em Cassibili, perto de Palermo. Haviam tentado subordinar a capitulação italiana à operação aerotransportada de Roma, sustentando que um desembarque limitado ao sul da Itália entregaria o rei e o governo italianos à vingança alemã. Havendo-lhes sido recusada qualquer segurança, voltaram para Roma, de onde regressaram a 2 de setembro declarando que não tinham poder de assinar a capitulação se não se estabelecesse concomitância entre esta e a invasão. A intimidação foi posta em prática. Alexander, conta Murphy, apareceu usando botas brilhantes e recoberto de condecorações diante dos dois italianos. Fingindo esta tomando conhecimento do adiamento da decisão italiana, entrou em furor simulado, falou de traição e declarou que Roma seria bombardeada se a capitulação não fosse assinada em 24 horas. Castellano e Zanussi passaram essas horas em angústia, esperando a resposta de seu governo. É completamente inverossímil que os alemães não tenham sido informados desses movimentos de homens e de ondas de comunicações que prosseguiam havia 15 dias no longo circuito Roma-Madrid-Lisboa-Quebec-Argélia-Palermo-Roma. Esta inverossimilhança parece verdadeira. Os alemães farejaram a traição: mas não a descobriram. “Até o último momento - afirma Kesselring - mantive com o Comando italiano excelentes relações...”

 

A autorização para capitular chegou a Castellano na manhã do dia 3. Eisenhower veio de Túnis, para assistir à assinatura do documento chamado de short term, o único de que os italianos tem conhecimento. A cerimônia realizou-se às 15h15. Embaraçado e resmungão, Eisenhower eclipsou-se logo, deixando a Bedell Smith a missão desagradável de mandar os italianos o documento que abolia, até uma data indeterminada, a existência jurídica de seu país. Castellano ouviu consternado a leitura do texto. Mas dominou-se e declarou com voz débil que assumia a responsabilidade de não comunicar o long term surrender ao marechal e ao rei.

 

A Itália havia capitulado quase exatamente quatro anos depois do rebate da guerra. Um dos três adversário contra os quais o “Mundo Livre” se havia aliado com seu oponente, a Rússia Soviética, estava fora de combate. Mas a sensacional notícia ficava provisoriamente em segredo, por haver Eisenhower se reservado a escolha do momento para anunciá-lo, tendo Badoglio se comprometido a confirmá-la logo a seguir. Os Aliados pretendiam sincronizar a notícia da capitulação italiana a do sucesso da Operação Avalanche, isto é, o desembarque na baía de Salerno. Todo compromisso e toda informação haviam sido recusados a Castellano, mas as conversações sobre a operação aerotransportada de Roma prosseguiam e os italianos ainda podiam esperar que se realizasse.

 

Em Roma, o governo real havia vivido em imensa angústia o estranho período da capitulação clandestina. As últimas horas alcançaram uma intensidade de pesadelo. Após as informações alarmistas dadas por Carboni a Taylor, o desembarque da 82a Airbone é anulado uma hora antes do momento em que os pára-quedistas deveriam tomar lugar a bordo dos aviões. Os italianos não sabem que Keitel acaba de lançar a palavra convencional Achse - escolha estranha! - isto é, a ordem de desarmar todas as unidades italianas, mas os movimentos das tropas alemães são ameaçadores. Aqueles que detêm o segredo tem a impressão que este foi como uma autoclave fendida. O embaixador Rahn obtém uma audiência do rei, que, a seus pedidos de explicação, responde com garantias enfáticas: “A Itália está ligada à Alemanha na vida e na morte. Continuará a lutar até o fim. Jamais capitulará...”

 

Nesse momento, é meio-dia de 8 de setembro Roma inundada de sol, brilhante em suas velhas pedras, é rodeada pelo alarido da guerra. Os bombardeiros americanos esmagam Frascati, QG de Kesselring. Às 18h30 - duas horas antes do início das operações em Salerno -, uma voz radiofônica, em inglês, abala o éter: “Quem fala é o General Dwight Eisenhower, comandante-chefe das Forças Aliadas. O Governo italiano determinou a suas forças armadas render-se incondicionalmente... As hostilidades entre as forças armadas dos Estados Unidos e as da Itália terminaram de uma vez. Todos os italianos que quiserem ajudar a expulsar o invasor germânico do solo italiano terão a assistência e apoio das Nações Unidas”. Gravada num disco, e seguida da tradução italiana, esta declaração é repetida por todas as estações dos países aliados.

 

No QG de Eisenhower, ouve-se o eco: a declaração concordante de Badoglio. Ela tarda. Às perguntas dos alemães, os oficiais alemães respondem que a mensagem é uma armadilha para semear a confusão na Itália às vésperas de novo desembarque. Enfim, Rahn chega a conseguir falar com Guariglia ao telefone. “É exato - responde gravemente o Ministro das Relações Exteriores - que, diante do caráter desesperado da situação, o Marechal Badoglio pediu e obteve um armistício”. “Mas - diz Rahn -, o marechal deu-me sua palavra de soldado a 3 de setembro..”. “Esse foi - atalha Guariglia - o dia em que se assinou o armistício”. A comunicação se afoga num chuveiro de injúrias. Alguns instantes depois, às 10h45, a rádio italiana confirma a mensagem de Eisenhower.

 

Só resta aos autores deste golpe teatral salvar sua pele. O rei, a rainha e a família real, o marechal, os ministros, os generais e os miliardários deixam precipitadamente seus palácios. Durante a noite, a fuzilaria crepita entre algumas unidades italianas e as colunas alemães que marcham sobre Roma. Os fugitivos ganham a estrada do Adriático, atravessam penosamente os ferozes Abruzos e chegam pela manhã a Pescara, onde duas corvetas transportam o rei e as principais personagens a Brindisi. Murphy, que para lá se dirigirá alguns dias depois, encontra esse governo e essa corte em derrota acampados nos sombrios edifícios do Almirantado, tendo sob suas janelas, uma corveta com as caldeiras sob pressão. O destino da monarquia de Savóia é melancólico. O rei tem apenas, diz ele a Murphy, o uniforme que usa e a rainha está privada de ovos frescos. Cruéis sofrimentos dos grandes numa guerra que esmaga tantas carnes jovens.<