Setembro a Dezembro de 1943

 

Salerno, Kiev e Teerã

 

Tópicos do capítulo:

 

9 de setembro: desarmadas as tropas italianas

Desembarque americano na Península

1o de outubro: os King’s Dragoons Guards entram em Nápoles

Skorzeny liberta Mussolini no Gran Sasso

O governo de Salo entregue aos italianos

Speer e as novas armas

A grande retirada alemã no Dniéper

Queda de Smolensk

A rota de Teerã

22 de novembro: conferência do Cairo

Vatutine conserva Kiev, conquistada a 6 de novembro

Em Teerã, Churchill isolado entre Roosevelt e Stalin

A França em 1944. A Resistência. Laval fica onde está

 

 

Alvorada da vitória

 

A palavra convencional “Ashse”, causadora do desarmamento das tropas italianas, foi lançada pelo Marechal Kesselring no dia 9 de setembro, às 19h30, alguns instantes antes da confirmação do armistício por Badoglio. As disposições tomadas previamente pela Wehrmacht tornaram fácil a operação. Na França, o 4o Exército não opôs a menor resistência. Na Croácia e em Montenegro, grupos de soldados italianos juntaram-se aos partisans. Na Sardenha e no norte da Itália, algumas unidades preferiram, pelo contrário, continuar a lutar ao lado dos companheiros de armas alemães. Foram saqueados, como normalmente se saqueia um exército destruído e um país conquistado. Os homens de 80 divisões firam tratados como prisioneiros de guerra. A lista do material tomado pelos alemães aponta 1.250.000 fuzis, 38.383 metralhadoras, 9.980 canhões, 970 tanques, 4.553 aviões, 287.502 toneladas de munição, 15.500 caminhões, 67.000 cavalos e mulas, 196.000 toneladas de minério de ferro, 3.400 toneladas de mercúrio, ... 1.139.000 camisas, 352.000 metros de tecidos, etc... “A abundância - observa Jodl - por algum tempo voltou ao Exército alemão. Este é o único serviço que a Itália um dia nos prestou...”

 

Os alemães só encontraram realmente oposição em volta de Roma. A 3a Divisão de Granadeiros Blindados e a 2a Divisão de Caçadores Pára-quedistas sobrepujaram as resistências locais, sendo a do General Roatta a mais viva, no GQG de Monte Redondo. A rendição do General Calvi di Bergolo, genro do rei, poupou às tropas alemães o trabalho de entrar à força na Cidade Eterna; Kesselring deixou-lhe a Divisão Piave, para manter a ordem na capital, e encarregou-o de mandar os soldados das outras formações de volta às suas casas. Na hora em que começa a invasão, o Comando alemão na Itália está ao mesmo tempo dividido e desunido. O norte, até a linha Ancona-Piombino, constitui a zona do Grupo de Exércitos B, comandado por Rommel. O resto pertence ao Grupo Sul, que obedece às ordens de Kesselring. Os dois marechais se detestam e têm concepções opostas. Pessimista, Rommel queria abandonar Roma e transportar a defesa para a altura de Florença. Otimista, Kesselring acredita que os invasores devem ser empurrados para as praias. Hitler, a quem os assuntos do Mediterrâneo aborrecem, não arbitra. Rommel tenta impor-se tratando Kesselring de superior a subordinado, mas o OKW não lhe apoia a pretensão. A Itália fica dividida entre dois rivais ciumentos.

 

Sob as ordens de Rommel acham-se sete divisões de infantaria, duas blindadas, entre as quais a SS Adolf Hitler, e ainda uma brigada de montanha. Dispersadas do Passo de Brenner, estas dez grandes unidades se desinteressam da batalha ao sul de Roma. Todos os pedidos, todas as queixas de Kesselring não encontram o menor eco.

 

O Grupo Sul conta com duas divisões blindadas e 2 divisões de pára-quedistas. Dividem-se em 3 corpos de exército: o 72o, que amortece o avanço prudente de Montgomery na Basilicate e na Apúlia; o 14o Corpo Blindado, que ocupa a região de Roma. Na Sardenha, a 90a Pz Gr recebe ordem de retirar-se da ilha. Passará primeiramente pela Córsega, de onde, reunida à guarnição local, a Brigada SS Reichsfuhrer, vai-se retirar, pela ilha de Elba, para o continente.

 

A Operação Avalanche não pega Kesselring desprevenido. Enquanto a baía de Nápoles está interditada por fogos cruzados de artilharia, o golfo de Salerno está completamente aberto, e os grupos de caça com base na Sicília ainda estão longe de intervir. A 16a Divisão Panzer se instala no setor em início de setembro e, à primeira notícia da rendição italiana, apossa-se de todas as fortificações, dos ninhos de metralhadoras, das posições de artilharia, etc., construídos pela 222a Divisão de Defesa Costeira, fuzilando o General Ferrante Gonzagua, que tenta opor resistência. Os dois regimentos de granadeiros estão dispostos ao longo do litoral, e o regimento de tanques, agrupados no centro, em Battipaglia, está reservado para os contra-ataques. Apesar de seu nome, 5o Exército dos Estados Unidos, e da nacionalidade de seu chefe, o General Mark Clark, o exército aliado que parte para a conquista da Itália, na noite de 8 para 9 de setembro, é composto de 100.000 ingleses contra 69.000 americanos. O escalão de assalto compreende a 46a e a 56a divisões inglesas, formando o 10o Corpo, sob o comando do General McCreery e a 36a Divisão americana, pertencente ao 6o Corpo dos Estados Unidos. Esta desembarca em Paestum, ao pé dos templos de Poseidon, nas praias Azul, Amarela, Verde e Vermelha. Uma zona pantanosa de uns 15 km, formada pela foz de um riacho, o Sele, separa os americanos dos ingleses, que desembarcaram ao sul de Salerno, nas praias Roger, Sugar e Uncle. Dois batalhões de “comandos” britânicos e três batalhões de Rangers americanos prolongam a ação além de Salerno, até a vizinhança de Amalfi.

 

As praias estão relativamente acessíveis. A parte de trás da região é de acesso penoso. O sul do campo de batalha, isto é, o setor americano, está dominado pelo cone do monte Sottine e pelo diedro do monte Soprano. A planície litoral, coberta de ricas culturas, encaixa-se no vale do Sele, de onde se desprende, na margem esquerda, o sulco semicircular de seu afluente, o Calore. Acima de Salerno, em direção de Eboli, as montanhas ainda se elevam, ultrapassando os 1.600 metros, e ligam-se à admirável península de Sorrento, atrás da qual se desenvolve a baía de Nápoles. Nunca tanta doçura e tanta história cercaram combates humanos. A idéia da manobra é a de se estabelecer no fundo do golfo, de Maiori e Agropoli, e, depois, dar uma volta em torno de Salerno, para desembarcar e tomar Nápoles. Vindo do sul, o 8o Exército britânico se alinhará ao 5o Exército americano e prolongará a frente até o Adriático.

 

Os planos aliados estão feitos até a linha do Volturno, mas as polêmicas anglo-americanas sobre a importância do teatro de operações italiano e sobre a sua utilização do teatro de operações italiano e sobre a sua utilização posterior não cessaram.

 

A noite merece o nome de divina. Os transportes e os grandes navios de guerra tiveram que parar a 12 milhas da costa, por causa dos campos de minas, mas o mar está tão calmo que a dragagem dos canais e a proximidade dos companheiros de desembarque não encontram dificuldades sérias. Saciado pelos precedentes de Gela, de Siracusa e de Reggio, exaltado pelas notícia da capitulação italiana, o maior otimismo reina no exército invasor. Clark pensa que talvez fosse mais prudente entrar direto na baía de Nápoles e desembarcar no próprio porto. O comandante do 10o Corpo britânico exigiu uma preparação de artilharia, mas o comandante do 6o Corpo americano, Ernest Dawley, decidiu jogar a 36a Divisão às praias da Paestum sem antes disparar um só tiro de canhão. Vinda de Orã, a divisão ainda não abriu fogo.

 

São 3h30 e a escuridão é profunda.. Os pescadores de Amalfi saíram como todas as noites e os pirilampos de seus barcos deslizam em águas onde estão 450 navios, carregando 55.000 soldados e sua imensa equipagem. Em sete vagas sucessivas, as centenas de LST, de LCVP, de LCI, de caminhões anfíbios ou DVKW aproxima-se da costa, aparentemente adormecida. Em direção à Salerno, os canhões dos navios ameaçam a terra muda. Na direção de Paestum, o primeiro ruído que rasga o silêncio é a voz de um alto-falante com sotaque alemão: “Vocês estão sob mira! Avancem e rendam-se!” Foguetes clareiam a praia. As armas falam. O desembarque-milagre na Calábria, o desembarque fácil na Sicília não estão destinados a se reproduzirem na Apúlia. Os alemães estão lá, com ordem de resistir energicamente.

 

À insolente intimação, os americanos respondem com o entusiasmo. Jogam-se às dunas, tomam Paestum, atravessam a estrada e a via férrea, atingem os objetivos da jornada, armam uma cabeça-de-ponte de 5 km de profundidade, sobre a qual logo se acumula uma montanha de material. Os ingleses, muitos já veteranos da guerra do deserto, tem menos sucesso do que os novatos da 36a Divisão dos EUA. Não conseguem tomar nem a pequena cidade de Battipaglia nem o pequeno aeródromo de Montecornino. Contudo, bem amarrada, à esquerda, pelo desembarque dos “comandos”, sua cabeça-de-ponte não está menos sólidas do que na primeira noite.

 

No dia seguinte e no outro, os ingleses ainda tem dificuldades em se apoderar de Salerno, Montecornino e Battipaglia, mas os americanos sentem a resistência alemã curvar-se diante deles. O 142o Regimental Combat Command toma a aldeia de Altavilla, situada em local elevado, que comanda o vale do Calore. Clark desembarca sua reserva flutuante, a 45a Divisão americana, onde passam a estrada e a via férrea que, depois de terem atravessado o Eboli, penetram na luminosa pobreza do Mezzogiorno. Parece que o encontro com Montgomery está próximo e que a invasão tem sucesso.

 

Mas as disposições tomadas por Kesselring foram hábeis e súbitas. Tirando vantagem da prudência excessiva de Montgomery, ele fez desengatar a 26a Panzer e a 29a Panzer Grenadier, para jogá-las no flanco direito da cabeça-de-ponte. Joga sobre o flanco esquerdo as duas divisões, 3a Pz Gr e a 2a F Jg, que acabam de regularizar a questão de Roma. Em direção ao centro, onde a frente alemã ameaça abrir-se, dirige os vestígios da Hermann Goering e da 15a Pz Gr. No momento em que Clak pensa estar vitorioso, os contra-ataques brutais caem sobre seus soldados inexperientes. Os dois dedos que ele fazia avançar sobre Ponte Sele estão severamente machucados. Altavilla, facilmente conquistada, volta a ver luta séria. No vale do Sele, a manufatura de fumo de Persano vê enorme destruição de tanques americanos. A 13 de setembro, o General Von Vietinghoff, comandante da frente de Salerno, anuncia a Kesselring que espera por os invasores mar afora naquela mesma noite. Clark está tão perto de se resignar, que chega a pensar em incendiar os estoques de abastecimento desembarcados na praia.

 

Nesta luta, está em jogo uma grande carreira militar. Eisenhower acaba de ser avisado de que o comando da Operação Overlord voltará a um americano, e não ignora que está na primeira linha, no caso previsível de parecer difícil apartar Marshall de suas funções de chefe de estado-maior. O fracasso do desembarque destruiria suas chances. “Se o caso de Salerno acabar mal - diz ele, filosoficamente -, estou frito...”

 

No campo de batalha, a poeira tornou-se uma nuvem asfixiante. Os homens usam lenços como máscaras, como bandidos de cinema. Os alemães pressionam com todas as suas forças. No dia 13, às 18h30, 15 PzKw-4 atingem a ponte incendiada que franqueia o Calore perto do seu encontro com o Sele, a menos de 7.000 metros do mar. Clark dirige pessoalmente o 158o e o 179o grupos de artilharia de campo, que cobrem de granadas o vale e detêm os tanques. Duas horas depois, 2.500 pára-quedistas da 82a Airbone, disponível em vista do abandono da idéia de descer em Roma, caem com precisão perto da foz de Sele, exatamente no local mais ameaçado da cabeça-de-ponte. O perigo da jornada está afastado.

 

Nos dias 14 e 15, os alemães ainda atacam. Mas o dinamismo da batalha voltou. A superioridade da aviação aliada é opressiva. Os grandes navios ancoram no golfo, uma vez retiradas as minas. O cruzador americano Savannah e o velho Warspite são avariados por bombas radioguiadas, nova arma alemã, mas o fogo da artilharia naval, interditando as estradas e abatendo os carros à vista, tira dos alemães toda a chance de apagar a cabeça-de-ponte de Salerno antes de serem vencidos pelo 8o Exército. Kesselring resigna-se. Ordena a volta à primeira posição de barragem, chamada Rheinhard Stellung, que segue o curso do Volturno e encontra o Adriático por Compobasso e Termoli. A retirada se efetua metodicamente, com vivas ações de retaguarda e demolições que amortecem o avanço dos vencedores.

 

A 1o de outubro, os King’s Dragoons Guards entram em Nápoles. A cidade acha-se em terrível estado. Os alemães sabotaram o porto, incendiaram os bairros baixos, dinamitaram as canalizações de água e de eletricidade, destruíram até as fábricas de espaguete, juntado ao rigor das necessidades militares ao furor da vingança. Os americanos e os ingleses devem encarregar-se de um milhão de civis abandonados à fome e à epidemia.

 

A 6 de outubro, Capore é tomada e Volturno atingida. Um quarto do território italiano está conquistado.

 

 

 

Cativeiro e libertação do Duce

 

Mussolini, caído do pedestal, ainda era um problema. Ele havia sido transferido para a ilha de Ponza, ao largo de Nápoles, e depois, a 8 de agosto, para a ilha de Madalena, ao norte da Sardenha. O governo Badoglio sabia que os alemães pensavam em levar o ex-Duce, assim como não ignorava os esforços dos serviços secretos aliados para descobrir, com os mesmos fins, o lugar de sua detenção. Quer Mussolini fosse capturado por Churchill ou libertado por Hitler, as conseqüências só poderiam ser desagradáveis, se não funestas, para o marechal e para o rei.

 

Em Ponza, onde a corveta Persephone o havia deixado, o cativo, miseravelmente alojado, tinha passado semanas de aflição. A ilha havia servido para degredo dos antifascistas, e um certo Zaniboni, que havia atirado contra Mussolini, ainda ali estava detido. O 60o aniversário do Duce, para o qual Hitler programara a celebração entusiástica de uma amizade heróica, tinha-o passado na solidão. Alguns dias depois, tinha-se trazido o presente do Fuhrer, as obras de Nietzsche. Rachele, mais humildemente, havia feito chegar a seu marido roupas de baixo, 10.000 liras e uma Vida de Jesus.

 

Ponza estava exposta a um ataque inglês. A Madalena, pequeno arquipélago transformado em base naval, apresentada o inconveniente inverso, uma divisão Panzer de Granadeiros, ocupando ainda a Sardenha. No dia 18, uma avião alemão, que sobrevoava a ilha, alertou Roma. No dia 28, um hidroavião-ambulância veio buscar Mussolini. Instalado em uma casa confortável, cercada de ciprestes, ele havia começado a leitura de Nietzsche e se felicitava pela nova estada. Encarou a transferência com má-vontade.

 

O hidroavião pousou no lago Bracciano, na campina romana. A viagem prosseguiu num trem-ambulância e acabou pelo teleférico de Gran Sasso da Itália. Nada designava este ponto culminante do Apepino, uma grande aresta lisa entre Aquila e Pescara, para o papel de prisão. Situado a 1.226 metros de altitude, a estação de esportes de inverno chama-se Campo Imperatore, traço amargo para o Duce caído. Foi instalado, entre 200 policiais, no hotel do mesmo nome. Pouco faltou para que Mussolini fosse levado da base de Madalena. O avião de 18 de agosto levava a bordo o Sturmbannfuhrer Skorzeny, e uma golpe era iminente quando o prisioneiro foi levado ao continente. Adolf Hitler, que tinha como único sentimento humano o companheirismo, prometera livrar de uma sorte quase necessariamente fatal aquele do qual nenhuma decepção o tinha separado. Tendo o serviço de informação alemão rapidamente revelado o novo lugar de detenção, o Fuhrer preparou pessoalmente os detalhes de sua ida.

 

A 12 de setembro, às 2 horas da tarde, aviões apareceram nos caminhos do Gran Sasso. Dos 12 planadores, 8 vieram aterrar na relva do Hotel Campo Imperatore. Chegando à janela do quarto, Mussolini viu chegar os salvadores e fugirem os carcereiros; 1.000 metros mais abaixo, um outro destacamento de SS, chegando pela estrada, apossava-se do teleférico. Carmine Cenise, retomando suas funções de chefe de polícia, havia sabido da passagem deste último grupo para Aquila, mas se abstivera de tomar providências. Há quatro dias que o armistício se tornara público e, no caso de haver guardado Mussolini, Badoglio se veria forçado a entregá-lo aos Aliados. Hitler poupava-lhe este gesto odioso. Uma vez libertado, Mussolini não manifestou a menor alegria. Pediu para voltar a Rocca delle Caminate, mas Skorzeny fê-lo saber que tinha ordem de levá-lo à base alemã de Patricia di Mare, perto de Roma. Um pequeno avião de dois lugares acabara de aterrar com dificuldade diante do hotel. Sem barbear-se, dançando dentro de uma grossa capa, um chapéu disforme na cabeça, o ar de um velho imigrante, Mussolini embarcou, sem dissimular a apreensão. O corpulento Skorzeny apoderou-se do ouro único lugar para passageiro. Todos os presentes acreditavam que o avião falhasse na decolagem e se estraçalhasse.

 

O risco era supérfluo. Mussolini teria podido viajar pela estrada, assim como o general italiano Soletti, chegado em dos planadores, ou o comissário de polícia Guali, que, encarregado por Badoglio de guardar o Duce caído, tinha-se ligado à sua sorte. Os dois homens chegaram a Patricia di Mare em tempo de embarcar no Heinkel que partia para Viena, aonde Mussolini chegou à meia-noite, morto de cansaço. Ao telefonema de boas-vindas de Hitler, ele respondeu que estava doente e precisava dormir. Partiu no dia seguinte para Munique, onde Dona Rachele o esperava com os filhos menores, Romano e Anna Maria.

 

Dois outros membros da família encontravam-se em Munique, Edda e Galleazo Ciano. Tinham deixado Roma com a ajuda da Wehrmacht, munidos de um passaporte espanhol e convencido de que poderiam voar para Madrid no dia seguinte. Estavam esperando havia 15 dias.

 

O novo contato entre Hitler e Mussolini ocorreu em Rastenburgo, a 15 de setembro. Um historiador muito inteligente ali estava, na pessoa do Dr. Goebbels, como Ministro da Propaganda; ele havia dado à exploração do Gran Sasso uma ressonância formidável, mas, como estadista, falava com reservas: “Além do Tirol do Sul - dizia Goebbels em seus escritos -, nossa fronteira deve englobar a Venécia. Vai ser difícil conseguí-lo se o Duce reaparecer na política”. Keitel e Rommel pensavam, igualmente, que um governo fascista complicava a tarefa alemã e que uma ocupação militar pura e simples seria preferível.

 

Libertado, Mussolini atrapalhava os seus libertadores. Fazia pior: decepcionava-os. “A primeira coisa que eu esperava encontrar em Mussolini - diz Hitler a Goebbels - seria uma bravia vontade de vingar-se de todos aqueles que o traíram. Mas ele não é capaz disso, com o que mostra suas limitações. Ele é por demais tipicamente italiano para ser um revolucionário como Stalin e eu. Tive todas as dificuldades do mundo para fazê-lo admitir que Grandi é um traidor comprovado... A influência de sua filha Edda é detestável. Ela veio ver-me, há alguns dias, para dar-me ciência de sua intenção de emigrar com o marido para a América do Sul e, ao pedir-me autorização para converter em pesetas seis milhões de liras, teve a audácia de em oferecer uma comissão! Em Munique, ela começou a promover a reconciliação de Ciano com seu pai. É evidente que o Duce não pode castigar os traidores, já que ele poupa seu próprio genro. Estou muito desapontado...”

 

A Hitler, bastaria pôr de lado o homem que lhe causava esta decepção. Alquebrado, Mussolini só aspirava ao descanso. Dizia, com uma bela inconsciência, que queria voltar à vida privada e, para exprimir sua renúncia, havia feito esta fórmula: “Não se transpõe o Rubicão aos sessenta”. Tendo Hitler se oposto à sua volta imediata à Itália, ele passou uma semana no meio de uma floresta da Baviera, no velho castelo do banqueiro de Bismarck, Bleichröder, perguntando-se se não teria apenas mudado a forma de prisão. Enquanto isso, os alemães reorganizavam a Itália. O Alto Adige e a Venécia Juliana estavam postos sob o controle dos Gauleiters Hofer e Rainer. O resto do país dividia-se em uma zona de operações, submetida aos comandantes dos exércitos, e em uma zona de ocupação.

 

O fascismo já não parecia achar lugar nesse quadro. Entretanto, renascia fracamente. Permanências reabriam, milícias se constituíam, os líderes presos depois de 25 de julho saíam das prisões, onde os democratas os substituíam nas celas. O partido recebia o nome de “republicano”, denunciando “a traição total e deliberada da monarquia”. Nomeado secretário-geral, Pavolini estava em Roma, onde as autoridades alemães se opunham diretamente a seus esforços. Perguntava-se se não ficaria sem efeito o comunicado de 15 de setembro anunciando que Mussolini retomava suas funções, mas o concurso do Marechal Graziani, aceitando por ódio a Badoglio o Ministério da Defesa, voltou a movimentar o mecanismo governamental. A 23 de setembro, consolidado por essa reunião imprevista, Mussolini deixou Munique e, por Fordi, chegou a Rocca delle Caminate. Durante três semanas, sua residência particular foi a sede do governo. Ali ele retomou forças, ganhou novo apetite, e, rapidamente, deu a impressão de ser de novo o homem que sempre fora.

 

O sinal material da restauração do Duce teria sido sua volta a Roma. Os alemães a consideravam impossível. A ficção Roma “cidade aberta” coloriu a transferência do neofascismo numa capital irrisória, a cidadezinha de Salo, na margem ocidental do lago de Garde. Mussolini ali chegou a 10 de outubro e instalou-se, com Dona Rachele, na Villa Feltrinelli, perto de Gargano. A dupla vida que levava em Roma, perpetuava-se pela vizinhança de Clara Petacci, que, presa pela polícia de Badoglio e liberta pela Gestapo, ocupava uma casa na cornija de Gardone. Os ministérios estavam repartidos pelas grandes cidades no norte da Itália. O standing internacional do governo é medido por uma nota espanhola respondendo a um pedido alemão. Dizia: “Não é possível reconhecer uma sombra”. Um destacamento SS guardava a sede do neofascismo e instalado na Villa Feltrinelli, um oficial alemão controlava  as audiências do Duce, dando contas dos gestos deste, diariamente aos seus superiores. Outro italiano foi restituído pelos alemães à Itália. Num avião, o Conde Ciano foi escoltado até Verona e entregue à polícia italiana, quer o encarcerou na prisão dos Scalzi. Ali ele entrou com desenvoltura, de capote escuro, dizendo que estava contente de se ver livre dos carcereiros alemães. Alguns dias depois, ao descobrir que dois SS lhe guardava a porta, teve medo.

 

Luta contra um hidra

 

A ofensiva soviética contra a saliência de Orel tinha obrigado a Wehrmacht a abandonar sua própria ofensiva contra a saliência de Kursk. No mesmo dia dessa decisão, 17 de julho, duas outras ofensivas russas se jogaram contra a ala direita do Grupo de Exércitos Manstein, uma sobre o Mius, ao norte de Taganrog, a outra sobre o Donetz, ao leste do Isjum. Obtiveram sucessos importantes, cavaram nas linhas alemães brechas de 20 a 30 km de profundidade, colocaram sob perigosa mira a região industrial de Stalino-Vorochilovgrad, ameaçaram Kharkov.

 

A luta prosseguiu na fornalha de julho. A 1o de agosto, o Comando alemão fez um balanço satisfatório. Pegando em sua ala esquerda o 3o PzK e o corpo blindado SS, Manstein tinha detido os russos, levado sai frente a dois rios, feito 18.000 prisioneiros, destruído 700 tanques e 900 canhões. Na saliência de Orel, a batalha defensiva também tinha tomado rumo relativamente favorável. O avanço de Gorbatov tinha sido detido a 6 km de Orel e a tremenda abertura do caminho de Bagramian em direção à única via férrea do setor havia sido contida pela Divisão Grossdeutschland. Hitler, de resto, acabara de autorizar a retirada da saliência. Von Kluge calculava que a diminuição da frente lhe permitiria retirar da batalha 17 divisões, com a ajuda das quais ele poderia reconstituir a massa de reserva que até então lhe tinha faltado.

 

A crise de verão na frente oriental parecia desviada. Hitler declarou a Zeitzler que o Mediterrâneo era, em 1943, “mais importante do que a Rússia”. Reforços, e especialmente as divisões SS, cujas batalhas de julho tinha retardado a remessa, receberam suas cartas de viagem para a Itália.

 

O precioso descanso dura três dias. A 3 de agosto, 3.000 peças de artilharia abrem fogo em volta da saliência de Kharkov. As batalhas de julho haviam sido apenas um prelúdio. Começa a verdadeira ofensiva soviética.

 

É agora que um assombroso e quase um pânico se apossa dos chefes civis e militares da Alemanha. Uma palavra o comprova: as cabeças da hidra. Mostrando por um instante sua máscara de otimismo fanático, Goebbels confia a Guderian que é preciso compreender que os russos podem chegar até Berlim e ter idéia de envenenar as mulheres e os filhos dos alemães. Contra um monstro cuja capacidade de reconstituição parece sem limites, as próprias vitórias não adiantam. No ano anterior, até os generais alemães menos levados a esposar as ilusões de Hitler acharam que o Exército Vermelho estava enfraquecido. No entanto, em 1943, uma terceira onda de poderio, mais alta do que as duas precedentes, levanta-se da imensidão soviética e faz submergir a Wehrmacht.

 

Diante das 29 divisões de infantaria e das 13 blindadas de seu grupo de exércitos, Manstein identifica, em julho, 109 divisões e 9 brigadas de caçadores, 7 corpos de cavalaria, 7 corpos mecanizados, 10 corpos, 20 brigadas e 16 regimentos autônomos de tanques. Por mais elevados que sejam, estes dados, concordam com o quadro geral do Exército soviético em 1943: 513 divisões ou brigadas de infantaria, 41 divisões de cavalaria, 290 brigadas mecanizadas ou blindadas. As formações russas são organicamente menos guarnecidas do que as unidades alemães correspondentes, mas há nestas últimas alguns vazios abertos. O Grupo Sul, por exemplo, perde em julho e agosto 133.000 homens e recebe apenas 33.000 substitutos. A Rússia está banhada em sangue, mas mantém um potencial humano, em classes de idade, quatro vezes mais numeroso do que o das classes alemães. Além disso, ela só combate um inimigo.

 

Sob o ponto de vista material, a Alemanha consegue uma reparação magnífica. Para substituir Todl, morto a 8 de fevereiro de 1942 em um acidente de aviação, Hitler colocou como Ministro do Armamento um arquiteto de 36 anos, Albert Speer, construtor dos coliseus nazistas de Nuremberg, planificador da futura Berlim. O projeto é ambicioso, mas Speer é um gênio. Em alguns meses vê-se encarregado de toda a produção de guerra, e o exército do trabalho cosmopolita colocado sob suas ordens passa de 2.600.000 a 14.000.000 de homens. As investidas dos Aliados mutilam as fábricas, perturbam os transportes, desorganizam o trabalho, esgotam os trabalhadores - e, entretanto, a produção alemã de armas dobra e redobra. O peso dos tanques postos em serviço passa de 36.000 toneladas em 1940 a 150.000 toneladas em 1942 e a 590.000 toneladas em 1944. O resto é proporcional.

 

Speer reanima a própria aviação, tão despojada que, segundo Udet em seu desespero, o chefe do Estado-Maior da Luftwaffe, Jeschonneck, se suicida. De 1940 a 1942, o número de aparelhos construídos na Alemanha só se tinha elevado de 10.247 a 15.409. Speer o levará a 24.807 em 1943 e as 405.593 em 1944.

 

Mas ele não negligencia os novos meios de ataque. A Alemanha prepara uma bomba voadora chamada A1 (futura V1), instrumento simples, leve (2.200 kg), lento (166 m/segundo), fácil de construir (286 horas/operário), pouco custoso (3.500 RM), pela qual Hitler se interessa. O Fuhrer, entretanto, está cético quanto ao projeto A4 (futura V2). Trata-se, desta vez, de um instrumento revolucionário, de um foguete longo e pesado (14 metros e 12.6 toneladas), supersônico (1.520 m/s), viajando a 90 km de altitude, arma aterradora, mas cujo preço em trabalho e dinheiro faz tremer um exagero de esforços para um resultado aleatório. As dúvidas se dissipam depois de uma visita organizada por Speer ao polígono de Peenemunde, de onde Hitler volta extasiado, fazendo dar imediatamente ao A4 todas as prioridades. É sob o efeito desta revelação que, em Feltre, ele contará a Mussolini seu segredo para ganhar a guerra “arrasando Londres até a última pedra”.

 

De um império-acanhado, de um território arrasado, de recursos decrescentes, a Alemanha tira mais forças do que na época de sua maior expansão. No entanto, os russos fazem melhor! A cadência mensal da produção de tanques chega a 2.000 unidades, ou seja, duas vezes a produção alemã. A arma russa favorita, o canhão, conhece impulso ainda mais rápido: 30.000 tubos de um calibre superior a 100 mm em 1943. Isso permite constituir as divisões e os corpos de artilharia que reintroduzem na guerra o Trommelfeuer de 1916-1918. A densidade das peças nos setores ofensivos chega rapidamente a 300 por quilômetro e o ataque de Biegorod é apoiado por cerca de 6.000 bocas de fogo.

 

Em matéria de tática, os russos quase não inovam. A batalha de Kharkov reproduz com mais poder as batalhas anteriores. O principal esforço cai sobre a junção do 4o Exército Panzer com o 8o Exército (Ex-Destacamento Kempf). A 8 de agosto, uma brecha de 50 km se abre entre os dois. No lugar de precipitar-se nesse vazio, como teria feito a Wehrmacht, os russos como anteriormente o Marechal Foch, estendem e diversificam sua ofensiva, para fixar e desgastar as reservas inimigas. No Centro, atacam na direção de Smolensk. No Sul, retomam seus esforços contra o Mius e o Donetz. No Extremo Sul, fazem pressão sobre a cabeça-de-ponte do Cubã. O preço é sangue. Insuficientemente apoiados, os ataque de fixação acarretam as hecatombes, mas o resultado é atingido. Em 13 de agosto, a frente da estepe, comandada pelo General Hagen, ultrapassa Kharkov. Manstein, cujo grupo de exércitos suporta o peso principal da luta, se cansa em vão pedindo reforços. No dia 22, ele deve ordenar a retirada da grande cidade. Cai sem combate o cinto de fortificações construído em torno dela.

 

Em 27 de agosto, Hitler tem de novo, por um dia, seu antigo QG de Vinitza, a fim de conferenciar com Manstein. O marechal pede o abandono do Donetz, que declara ser indefensável. Hitler responde que é preciso sempre resistir “até o momento em que o inimigo se convença da inutilidade de seus ataques”. Cedendo aos pedidos de Zeitzler, afastando a repugnância por tudo o que parece revelar uma intenção de se dobrar, ordenou a construção de uma posição defensiva, chamada Panther, que partirá do Báltico até Narva, ganhará o Dniéper, por Vitebsk e Gomel, seguirá o curso do grande rio até Zaporojie e irá, por Melitopol, até o mar de Azov. Mas, se a retirada se torna necessária, isso deverá ser feito lenta e metodicamente, salvando o material e desgastando o inimigo em combates de retaguarda. Enquanto espera, Manstein deve bater-se energicamente nas linhas em que se encontra. Hitler promete-lhe reforços, que tirará dos Grupos Norte e Centro.

 

No dia seguinte, o Marechal Von Kluge acorre a Rastenburgo. Não tem, é ele quem o diz, uma única divisão a ceder. Os russos atacam violentamente diante de Smolensk e diante de Jelna. E ainda não empenharam na luta, segundo os quadros do OKH, 134 divisões de infantaria e 187 brigadas de tanques. “Como, pergunta Kluge, tiraria eu a minha roupa para vestir Manstein, enquanto estas massas, podem, de um momento para o outro, juntar-se contra mim?”

 

A luta seguiu-se nessas condições. Nada tem solução. Tudo é contraditório. Com o verão, a atividade dos guerrilheiros intensificou-se; apenas nos dias 2 e 3 de agosto, coincidindo com a primeira investida soviética, houve 8.422 dinamitações de trilhos das ferrovias e 1.748 emboscadas. Retardam-se os movimentos de tropas e a insegurança reina na retaguarda, mas seriam necessárias dezenas de divisões para limpar as florestas, e as divisões faltariam mesmo nos setores de maior atividade da frente. Hitler quer guardar tudo, imobiliza as tropas na margem do oceano Ártico, às portas de Leningrado, nos avanços do Cáucaso, nas ilhas do Egeu, mas tudo lhe escapa em detalhe. Stalino cai a 8 de setembro. Dois corpos do 6o Exército (ressuscitado depois de Stalingrado) ainda estão cercados à beira do mar de Azov e metade de seus efetivos está destruída. No Cubã, as tropas do Cáucaso Norte desembarcam em Novorossisk na retaguarda do 8o Exército. Mais ao norte, o 9o Exército abandona Briansk, o 4o Exército é arrancado de Jelna e o 3o Exército perde Velish. Hitler escreve a Von Kluge que a batalha não é mais uma questão de habilidade tática, mas unicamente de estoicismo: os exércitos devem inspirar-se no precedente do inverno de 1941-1942, enfiar os pés no solo, morrer ali mesmo: O estado-maior do Grupo Centro, onde reina um violento espírito de censura, tem a audácia de responder ao Fuhrer que as circunstâncias não são as mesmas e que a comparação não tem valor.

 

Um nome, Dniéper, obseda os generais alemães fatigados. Atrás de seu grande esconderijo, eles esperam retomar o fôlego, reorganizar suas divisões, estabelecer uma linha de defesa, reconstituir e manobrar sua reservas. A 8 de setembro, mudando ainda uma vez de lugar, Hitler chega ao QG de Manstein, em Zaporojie, onde ouve a demanda do marechal para uma retirada por trás do rio. Responde que as considerações econômicas e as razões de prestígio se conjugam para evitar-lhe esta renúncia.

 

Desde o dia 14, Manstein ensaia um novo grito de angústia. Hitler o convoca a Rastenburgo, tenta convencê-lo de que a situação militar vai dar uma tremenda reviravolta com a entrada de um novo tanque pesado. Manstein responde com as cartas e relatórios de seus lugar-tententes. Hitler termina por ceder. A massa do Grupo Sul voltará a cruzar o Dniéper. O Grupo de Exército Centro o prolongará no Ssoh, afluente do grande rio, depois se ligará por Vitebsk ao Grupo de Exércitos Norte, que mantém suas posições. Hitler não quis sacrificar a Carélia e os outros postos avançados de Leningrado, por temer as repercussões políticas na Finlândia. Recusou igualmente sacrificar a Criméia, cuja perda poderia sacudir a Romênia. Destaca do Grupo Manstein o 6o Exército, que, ligado ao Grupo Kleist, deve barrar a estepe nogasca, 150 km de horizontalidade, e interditar o acesso ao istmo de Perekov.

 

A grande retirada começa. Pesadas carretas fazem rolar na Ucrânia massas de poeira. As quatro únicas vias férreas espalham procissões de trens transformados em blockhaus rolantes, para a defesa contra os guerrilheiros. Duvida-se, até o último momento, da perda do 4o Exército Panzer, perseguido na frente de Voronej. Ele chega, in extremis, a escoar-se pelas pontes de Kiev e de Tcherkassy.

 

A 25 de setembro, as vanguardas russas atingem o Dniéper entre Zaporojie e Dniepropetrovsk. Momento emocionante. Dois anos antes, os soldados alemães tinham sido tomados de emoção, quase de vertigem, quando envolveram com os olhos a imensidão do rio, e, além de seu leito cheio de ilhas, a planície infinita afundada numa bruma de calor. Os soldados russos reencontram o gigante que lhes tinha dado um sentimento de derrota e inferioridade. Isto não lhes tira o entusiasmo. Uma brigada de pára-quedistas estabelece uma cabeça-de-ponte perto de Krementchug. Uma unidade de infantaria toma pé no anel de Perejeslav, ao sul de Kiev. Ao norte da cidade, os guerrilheiros favorecem a infiltração das tropas soviéticas na zona pantanosa vizinha da embocadura do Pripet. A barreira do Dniéper já não está intacta. Inversamente, sob a ordem categórica de Hitler, cabeças-de-ponte alemães são mantidas, na margem esquerda, diante de Zaporojie, Dniepropetrovsk, Krementchug e Kiev. O comando local objeta que isso exige demais das tropas e enfraquece a defesa do plano de água.

 

Ao centro, a frente de Kalinine, em 24 de setembro, retomou Smolensk. Libertação simbólica, primeiro acontecimento saudado em Moscou, pelo canhão da vitória. A queda de Smolensk, em 1941, parecia fazer soar a salva da capital; sua retomada significa que Moscou está fora de perigo.

 

O caminho de Teerã

 

Nesta capital, mas ainda submetida a severas restrições, os ministros das Relações Exteriores da coalizão se reúnem no decorrer de outubro. A finalidade de sua conferência é preparar um encontro dos chefes de governo. Fazer um contato direto com Stalin tornou-se em Roosevelt uma idéia fixa. O que está em pauta, a seu ver, é muito mais que a condução das hostilidades: é a visão do futuro. Se bem que a guerra ainda esteja longe de ser ganha, a urgência o aflige. “As Nações Unidas - escreve ele a Stalin - não devem esperar o fim das hostilidades para jogar as bases do mundo futuro. Senão, os laços de amizade que existe entre nós já estarão afrouxados e talvez mesmo desfeitos. Seremos arrebatados por nossos interesses particulares, e nossos esforços dispersados não chegarão a construir a paz para a qual tantos homens morrem...”

 

Quanto ao método, Roosevelt não hesita: é unicamente entre Stalin e ele que as decisões capitais podem ser tomadas. Churchill é um anacronismo. Sua etiqueta conservadora, seu apego à monarquia, sua aversão ao comunismo, seu colonialismo, até sua eloqüência, sua roupa e seu estilo parecem caducos a Roosevelt. Sua Inglaterra, à qual o Presidente dos Estados Unidos persiste em recusar a honra de uma visita, é apenas uma pequena ilha, fraca, na extremidade de um continente condenado, e o Império do qual ela vangloria, um monumento de opressão que não deve sobreviver à vitória da América. Stalin e a União Soviética estão ao contrário, no vento da história. Roosevelt repele com irritação a interpretação daqueles que, como seu adido militar em Moscou, Deane, vêem na coligação dos Estados Unidos com o bolchevismo uma “estranha aliança” destinada a desaparecer com o esmagamento do inimigo comum.

 

O primeiro projeto de Roosevelt é então uma entrevista só dos dois. Propõe romanescamente que se realize numa ilha do estreito de Behring, a meio caminho entre o império americano e o império soviético. “Terei comigo apenas - escreve ele a Stalin - Harry Hopkins, um intérprete, um estenógrafo, e espero que o senhor reduza do mesmo modo o número daqueles que o acompanharão”. Afasta a idéia de um encontro na Islândia, ou na África, “porque, francamente, seria então difícil não convidar Churchill...”

 

A carta data de 5 de maio de 1943. Stalin deixa passar a ocasião de introduzir um tópico na aliança anglo-americana - porque realmente tem um medo louco de avião e não existe outro meio de ir a Moscou a não ser pelo estreito de Behring. Informado das intenções de Roosevelt por Harriman, Churchill protesta a 25 de junho, se bem que a forma de seu protesto seja por demais débil: “Façam vocês o que fizerem, aqui tentarei explicar a sua atitude da melhor maneira...” O encontro será um encontro a três, reunindo-se previamente os ministros das Relações Exteriores, para sondar o terreno. Estando Cordel Hull velho e doente, os americanos tentam obter que Molotov venha a Washington ou, ao menos, a Londres. Os russos são intratáveis. Os ministros das Relações Exteriores se encontrarão em Moscou, ou em lugar nenhum.

 

É apenas uma escaramuça. A verdadeira batalha se desenrolará no local onde os Três Grandes se encontrarão.

 

Stalin argumenta que a planificação das operações o impede de deixar a Rússia, mesmo por uma semana. Roosevelt responde que é igualmente o comandante-chefe de uma grande nação e que a Constituição dos Estados Unidos o obriga a promulgarem em dez dias, apondo-lhes sua assinatura, as leis votadas pelo Conselho. Aceita fazer a maior parte do caminho, mas pede a Stalin que não se imponha por inteiro.

 

A 25 de outubro, Cordel Hull é recebido no Kremlin. A conversa com Stalin começa por uma comparação sobre a maneira de semear o trigo na Rússia e no Tennessee, depois Hull expõe as razões de alta significação histórica pelas quais o Presidente dos Estados Unidos julga indispensável encontrar o chefe supremo da União Soviética. Este responde que, para ser condescendente com o Presidente Roosevelt, irá a Teerã. Uma ligação telefônica existe entre essa capital e Moscou. E quem diz isso não é o Marechal, Teerã é acessível por terra.

 

Roosevelt já recusou Teerã. As montanhas tornam perigosa a chegada por via aérea, e as ligações são incertas. Tendo Stalin recusado Fairbanks, Scapa Flow, Asmara, Ancara, Beirute, Chipre e Cairo, assim como um encontro em alto-mar, Hull bate para que ele aceite ao menor ir a Bagdá. São em vão seus esforços. “As gerações futuras - escreveu Roosevelt a Stalin - olhariam como uma tragédia que uma questão de algumas centenas de milhas impedisse um encontro no qual sua sorte dependeu...” este entusiasmo afetado deixa o georgiano completamente frio. “Se - diz ele a Hull - o Presidente Roosevelt não pode vir a Teerã, será então preciso adiar nosso encontro para o ano que vem. Aí irei aonde ele quiser - até mesmo a Fairbanks”.

 

Hull deixou Moscou, convencido de que o encontro não se realizaria. Estava desenganado no caminho de volta. Ao chegar a Washington, Roosevelt, fremente de impaciência, o esperava no aeroporto. “Ele esperava  aquele encontro com Stalin - conta Hull - com o entusiasmo de um menino...”

 

A China complicava as relações entre os coligados. Cultivando a paz com o Japão, a Rússia esforçava-se por ignorar Chiang Kai-chek. Churchill - de acordo com Stalin nesse ponto - considerava muito fraco o valor da cooperação militar chinesa. Roosevelt, pelo contrário, via a China, assim como na Índia, a grande força do futuro, o terceiro membro de uma trindade que, com os EUA e a URSS, iria guiar o mundo. Desde que não tinha sido possível eliminar a Inglaterra de um encontro russo-americano, Roosevelt teria preferido que a China participasse também - mas Moscou recusou-se. A solução foi a de uma conferência dupla ou mesmo tripla: Roosevelt e Churchill encontrariam Chiang, acompanhado de Madame, indo a Teerã; depois, na volta, ocorreria nova deliberação para a adaptação eventual, ao Extremo Oriente, dos planos feitos com o dirigente da Rússia.

 

A 11 de novembro, Roosevelt embarca, na baía de Chesapeake, no couraçado Iowa. Sendo sexta-feira, ele faz retardar os preparativos de partida até os primeiros minutos do dia seguinte. No curso da viagem, um torpedo, lançado acidentalmente pelo destróier de escolta William D. Porter, passa raspando pelo navio presidencial. Sem outro acidente, a travessia marítima acaba em 20 de novembro, em Orã. O quadrimotor da Casa Branca, chamado Sacred Cow reveza-se com o Iowa até Túnis, depois até o Cairo, onde pousa no dia 22, às 9h35. Churchill e o casal Chiang Kai-chek esperam Roosevelt.

 

Entremeada de festividade, a conferência se desenrolará durante quatro dias. É difícil achar nela um sentido. Roosevelt teve com os Chiang entrevistas muito fechadas, durante as quais se falou numa ajuda grandiosa  à China e de uma independência geral da Ásia. Churchill, que julgava os negócios com a China “complicados e de menor importância”, se dava conta que o império Britânico estava sendo roubado, fazia então prova de um mau humor que Roosevelt combatia por bons métodos pessoais. Entre os estados-maiores, a querela continuava. Brooke e King quase chegaram às vias de fato quando o americano apresentou um plano que visava à retirada do Mediterrâneo para armar a Birmânia, em benefício da China, uma operação anfíbia. Acabou-se por convir que nenhuma decisão seria tomada antes da volta de Moscou.

 

Até o último momento, estudou-se a possibilidade de chegar a Teerã pela estrada de ferro transiraniana, para evitar os perigos aéreos que os cortesãos de Roosevelt exageravam grosseiramente. Foi preciso resolver-se enfrentá-los. A 27 de novembro, às 7h07 da manhã, o Sacred Cow decolava do aeródromo do Cairo, levando Franklin Roosevelt para o seu primeiro encontro com aquele em que via o outro arquiteto do mundo futuro.

 

Movimentos na Ucrânia

 

No dia 27 de novembro, enquanto os vencedores virtuais se dirigem para seu primeiro encontro, a situação militar na Rússia conhece grandes e violentos movimentos. A batalha de Dniéper faz enraivecer. De Smolensk a Kherson, da vizinhança de sua nascente até a foz, o grande rio é disputado em furiosos combates.

 

Pela continuação da seca o Schlammperiode foi excepcionalmente breve e o prazo com que contavam os alemães encurtou. Desde 7 de outubro, uma ordem do dia do Marechal Stalin anuncia que a ofensiva da libertação é lançada de Vitebsk ao Cubã. Os exércitos russos foram redistribuídos e os nomes das frentes transformados: frente do Volkhov; primeira e segunda frentes do Báltico; primeira, segunda e terceira frentes da Rússia Branca; primeira, segunda, terceira e quarta frentes da Ucrânia, tais são doravante os grupos de exércitos que vão empenhar-se na luta. Sem prejuízo de abundantes reservas estratégicas, essas forças enquadram 69 exércitos, agrupando 330 divisões, contra 197 divisões alemães e alguns contingentes de seus aliados.

 

As esperanças do Comando soviético são vivas. Os sucessos da batalha de verão ultrapassaram suas esperanças. O próprio Stalin dirá a Roosevelt que o exército hitlerista é “muito mais fraco” do que ele pensava. Graças aos três milhões de alemães fixados no Oeste pela ameaça anglo-americana, a Rússia possui sobre seu adversário uma margem de superioridade que nenhum movimento de sorte das armas poderia destruir.

 

É no Sul que os russos alcançam sua primeira vitória. A 14 de outubro, o 1o Exército Blindado é obrigado a evacuar sua cabeça-de-ponte de Zaporojie. No dia seguinte, a 2a e a 3a frentes da Ucrânia atacam, entre esta última cidade e Krementchug, com 61 divisões de infantaria e 37 brigadas blindadas. Elas invadem o grande anel do Dniéper, atingem Krivoi-Rog, ameaça cercar o 1o Exército Blindado. Manstein o salva, com a ajuda da 14a e da 24a Panzer, trazidas da França. Os russos transportam então seu esforço principal ao longo do mar de Azov. Melitopol cai a 22 de outubro. O istmo de Perekov é atingido a 1o de novembro, o 17o Exército entrincheira-se na Criméia, enquanto o 6o Exército, por sua vez, cruza de novo o Dniéper, mantendo apenas uma pequena cabeça-de-ponte a leste de Kherson.

 

No início de novembro, as peripécias da batalha deslocam-se para o Norte. O que está em jogo leva um nome retumbante: Kiev. Em 1942, os russos sacrificaram, para defendê-la, todo um grupo de exércitos e perderam mais de meio milhão de prisioneiros. Para retomá-la, travarão em batalha encarniçada.

 

Cercada de colinas, voltada para o seu rio, Kiev não deixa de ter uma certa analogia com Stalingrado. Duas cabeças-de-ponte a ameaçam: uma ao norte, na frente da confluência com o Desna; a outra ao sul, em volta do anel de Perejaslav. Por causa do terreno mais firme, Vatutin, comandante da Primeira Frente da Ucrânia, decide atacar pelo sul. Mas todos os esforços do 3o Exército Blindado da Guarda são destruídos pelo 4o Exército Blindado.

 

Brilhantemente, Vatutin inverte as disposições. Sua massa de choque ultrapassa o Dniéper, transporta-se da ala sul à ala norte e atravessa o rio, para retomar o ataque de uma direção oposta. A 3 de novembro, 30 divisões de infantaria e 34 brigadas mecanizadas caem sobre o solitário 19o Corpo alemão. A brecha irresistível corta a grande estrada de Jitomir. Retomando a ofensiva do sul, o 3o Exército Blindado da Guarda corta, no dia seguinte, a ligação ferroviária em Fastov. A ordem de retirada foi dada em tempo para permitir ao grosso das tropas alemães sair da armadilha. Alguns elementos cercados opõem fraca resistência. A 6 de novembro, Kiev é arrancada ao invasor.

 

“A tomada de Kiev - escreve Goebbels em seu cadernos - constitui naturalmente uma grande sensação para os bolchevistas e para todo o campo inimigo. Mas nossos homens e nossos oficiais perguntam com raiva por que uma Parede do Leste ainda não foi construída ao longo do Dniéper...” O Ministro da Propaganda ignora os princípios militares e psicológicos de seu Fuhrer. “Se - diz Hitler - os generais sentem atrás de si uma posição de recuo, eles só terão uma idéia: afrouxar o pé, para se encolherem”. O autor da manobra de Sedan chega a condenar a própria manobra: “Se um general lhe fala de manobras, você pode estar certo de que isto quer dizer: recuar...”

 

No dia 7, Manstein chega ainda uma vez a Rastenburgo. Sua situação é dramática. O 4o Exército Blindado, ala esquerda de seu grupo, está dividido em três partes. O 59o Corpo de Exército é jogado para o norte. O 7o CE tenta conter o inimigo ao sul de Fastov. O 13o está em plena retirada para o oeste. As colunas soviéticas avançam rapidamente rumo ao Jitomir, para onde convergem cinco estradas e quatro vias férreas. O comandante do exército, Hot, é substituído por Rauss, mas é mais fácil trocar os chefes do que a sorte dos combates. Manstein tem a intenção de exigir a retirada do anel do Dniéper e um reagrupamento dos exércitos.

 

Para sua grande surpresa, encontra Hitler mediocremente inquieto. O Fuhrer reconhece que a investida russa em direção a Jitomir representa um risco, mas declara-se prestes a assumi-lo. É, diz ele, no extremo sul da Rússia que se acham os pontos de maior interesse no jogo; a Criméia, porta-aviões terrestre de onde os russos podem incendiar o petróleo romeno, e Nikopol, cujas minas de manganês são indispensáveis à indústria de guerra do Reich. Longe de querer abandonar o baixo Dniéper, ele prepara uma ofensiva do 4o Exército, para reabrir o istmo de Perekop.

 

A discussão é longa. Manstein, que apoia o inspetor das tropas blindadas, Guderian, teria querido que todas as forças móveis fossem reunidas para uma contra-ofensiva geral na ala norte de seu grupo de exércitos. Hitler recusa-lhe dispor livremente do 40o e do 57o corpos blindados, só lhe entregando três divisões blindadas, a 1a , a 25a e a Leibstandarte, chegando do oeste. Reunidas às três outras Panzer, elas são agrupadas no 48o Corpo Blindado, sob o comando do General Balck, e reunidas ao sul da via férrea Kiev-Jitomir. Os russos que se apossam desta última cidade a 12 de novembro, não notam a nuvem que se forma em seu flanco.

 

Os alemães atacam no dia 15. O tempo está relativamente frio e a neve não chega a ser suficientemente densa para constituir sério obstáculo. Balck teria preferido caminhar direto até Kiev, conter originalmente sua chaga aberta na frente alemã. Rauss o obriga a se jogar primeiro contra Jitomir. A velha cidade é retomada a 20 de novembro, pela 7a Panzer. Voltando para leste, Balck corta em pedaços o 60o Exército russo e restabelece a continuidade da frente alemã. Tenta então marchar para Kiev, mas um brusco degelo deságua sobre seus tanques, cobrindo até as torres, depois o restabelecimento do inimigo leva a ofensiva a ponto-morto. Kiev, conquista principal, fica para os russos, mas, no conjunto, a situação alemã melhorou. O fim de 1943 ainda verá a Wehrmacht agarrada a longos trechos do Dniéper, e Nikopol e Krivoi-Rog, manganês e ferro, entre suas mãos. Entretanto, o bloqueio da Criméia não terá sido possível. Penosamente abastecido pelo mar e pelo ar, o 1o Exército conhecerá, na Costa Azul soviética, um inverno negro.

 

Teerã: Stalin e Roosevelt contra Churchill

 

No Mediterrâneo, como na frente russa, a conferência de Teerã coincide com um movimento da sorte das armas desfavoráveis aos Aliados. A vitória de Salerno e a tomada de Nápoles ficam sem seguimento imediato. A unidade do comando alemão foi restabelecida sob Kesselring e toda veleidade de retirar-se de Roma está afastada. Na bacia oriental, a capitulação italiana levou Churchill a querer apoderar-se de Rodes ou do Dodecaneso, com a esperança de puxar a Turquia para a guerra, mas, convencido de que se tratava de novo estratagema para adiar o desembarque na França, Roosevelt recusou-lhe asperamente todos os meios que ele pedia. Os alemães tiveram tempo de apoderar-se do controle das ilhas, e assim, que quis executar seu plano com as próprias forças britânicas, Churchill chegou a uma derrota menor, mas total. Uma brigada inglesa deposta na ilha de Leros capitulou, depois que as tentativas feitas para evacuá-la tinham custado à Royal Navy seis preciosos destróieres.

 

Aí estão as pequenas sombras. Os cinco dias de Teerã, do domingo, 28 de novembro, a quinta feira, 2 de dezembro, são iluminados pelos sol nascente da vitória. Contêm assim em germe as desavenças que farão desta vitória o próprio ponto de partida para um novo conflito.

 

Os Três Grandes só são iguais diante do protocolo. Churchill que não havia sido desejado, era relegado a plano secundário. O primeiro gesto de Stalin é convidar Roosevelt para vir instalar-se na Embaixada Soviética, sob o pretexto de que Teerã está cheia de agentes inimigos e que qualquer mudança é perigosa. Churchill, não incluído no convite, tendo sua vida aparentemente preço menor, compreende o sentido simbólico dessa estada sob o mesmo teto, mede as facilidades que ela estabelece para o contato, mas as considerações de segurança invocadas impedem que ele levante objeções. Em seguida, recebe uma recusa de Roosevelt, quando lhe sugere um almoço a dois, para troca de opiniões. Responde-lhe o Presidente que não quer dar a Stalin a impressão de que os ingleses e os americanos estão agindo em combinação. E no entanto, uma conversa, sem qualquer outro terceiro além do intérprete, ocorre todos os dias entre Stalin e ele. As próprias relações pessoais são mordazes. Stalin pega Churchill para alvo de sua ironia e Roosevelt, pelo ar divertido que toma, o encoraja. Estoura uma cena muito divertida, em parte por causa do Coronel Elliot Roosevelt, filho muito abusivo do Presidente. Por ocasião de um jantar, Stalin declara que será preciso liquidar sumariamente as 50.000 a 100.000 cabeças que fazem a força econômica e técnica da Alemanha. Churchill responde que a concepção britânica se insurge contra qualquer execução sumária e que ele prefere ser fuzilado imediatamente, no jardim, a consentir nisso. Mas Roosevelt filho resolve apoiar ruidosamente o ditador soviético, e Roosevelt, pai, chefe da maior democracia do mundo, tem a indignidade de não juntar o seu protesto ao do inglês. Churchill, cheio de raiva, deixa a mesa e sai, mas Stalin corre atrás dele e o trás de volta, dizendo que se tratava de uma brincadeira. Os apartes de Roosevelt e de Stalin são sobre a França. O russo, cuja reparação militar foi precedida de um recuo de 1.500 km e pela captura de 4 milhões de prisioneiros, não tem a menor piedade pela derrota de um país que não pode pagar o mesmo preço em território e rebanho humano. Para Stalin, a França “abriu suas fronteiras para o inimigo”, continua a ajudá-lo e deverá ser “castigada por essa colaboração criminosa”. Roosevelt declara-se “100% de acordo”. “O Sr. Churchill - diz ele - sustenta que a França deve ser reconstituída como uma grande potência, mas esta não é minha opinião. Longos anos de trabalho serão necessários antes que a França mereça ser restaurada. A primeira necessidade é de retransformar os franceses em cidadãos honestos”. Stalin acrescenta que Pétain, e não De Gaulle, representa a verdadeira França. Seria incompreensível que um país tão culpado encontrasse novamente seu império e sua importância política no fim das hostilidades. Roosevelt repete que está 100% de acordo.

 

Uma outra entrevista é consagrada à organização da paz. Stalin ouve com paciente ceticismo os planos que Roosevelt apresenta com vaidade de autor: assembléia-geral das nações, juridicamente iguais e constituição de um grupo de “quatro policemen”: Estados Unidos, Rússia, Inglaterra e China, que farão respeitar a ordem mundial. O que interessa a Stalin é que a Alemanha seja posta definitivamente fora de condições de causar prejuízos. Ele não acredita na mudança da mentalidade do povo alemão e prevê que este “provocará nova guerra dentro de 20 anos” se não estiver submetido às mais rigorosas contenções. Revista nas discussões dos três, a questão do tratamento da Alemanha provoca novo choque com Churchill. “O Primeiro-Ministro - constata Stalin - não consegue desfazer-se da simpatia que tem pelos alemães...”

 

A sorte das nações limítrofes da URSS é sumariamente encarada. A restituição, à Rússia, dos territórios orientais da Polônia e a indenização desta pela atribuição de territórios alemães são admitidas na discussão. Sobre a Finlândia, que combate ao lado dos alemães, Stalin declara que não tem a intenção de anexá-la. Mas, ao contrário, corta pela raiz as tímidas tentativas americanas para assegurar a sobrevivência dos três países bálticos: Lituânia, Letônia e Estônia. Na véspera da separação, Roosevelt lhe pede uma última entrevista. Vai, diz, expor-lhe seu problema francamente: sem dúvida, será novamente candidato em 1944, e não faz a menor questão de perder as vozes de vários milhões de cidadãos americanos de origem polonesa ou báltica. Consequentemente, queria a certeza de que “alguma expressão da vontade dos povos” será prometida antes de qualquer anexação daqueles países à URSS. Stalin limita-se a responder que as três repúblicas bálticas não tinham autonomia antes de 1914 e que ele não vê por que lhes reconheceria o que os czares não lhes tinham dado. Todos estes problemas são abordados sem ordem do dia e sem plano. Stalin apenas lhes dá uma atenção limitada. O que ele reclama - com menos aspereza aliás do que ano anterior - é a abertura imediata da verdadeira segunda frente, com um desembarque na Europa ocidental. Qualquer outra operação militar, aos seus olhos, é secundária - novo terreno em que uma conjunção soviético-americana se estabelece contra Churchill.

 

Na sessão do plenário de 28 de novembro, Churchill traça brilhantemente o quadro da situação estratégica do Oeste. Dezenove divisões britânicas, cada qual representando um efetivo duplo de uma divisão alemã normal, devem participar do desembarque na França. Serão juntadas às forças vindas diretamente dos Estados Unidos, a fim de dar a cerca de 50 divisões a importância global do corpo expedicionário. Ficarão no Mediterrâneo 22 divisões, britânicas na maioria. Churchill pensa que suas operações, distintas da Overlord, devem ser perseguidas sem desfalecimento. Um punhado de divisões deve ser empregado na conquista das ilhas Egeu. Ao preço talvez de um curto adiamento da Operação Overlord - “um ou dois meses depois”- será assim determinada a entrada da Turquia na guerra. Um exército sólido se ligará às forças da coalizão e, em lugar da terrível rota polar, em lugar da incômoda rota iraniana, a ajuda americana à Rússia entrará aos borbotões pelos Dardanelos.

 

Mas Stalin não faz questão da abertura dos Dardanelos: isso poria a Rússia, já salva, em contato muito direto com o Ocidente. Ele insiste e reinsiste para que a atividade aliada se limite à invasão da França. Quer a suspensão da ofensiva na Itália e propõe que as divisões disponíveis no Mediterrâneo sejam imediatamente desembarcadas na Provença. Levanta a questão do comando da Operação Overlord: “Só acreditarei nisso quando souber que general é responsável por sua execução”. Finalmente, interpela Churchill: “Gostaria de fazer-lhe uma pergunta direta. O Sr. realmente acredita na Operação Overlord?” A resposta é ao mesmo tempo enfática e condicional: “Desde que as condições convenientes sejam realizadas no exato momento, sim, sim, e sim!”.

 

Teerã não resolve nada. Seu único resultado é um comunicado pelo qual os Três Grandes declaram deixar-se “amigos de fato, amigos em espírito e amigos no propósito”. O protocolo militar anota que a Operação Overlord ocorrerá em maio de 1944, em combinação com um desembarque no Sul da França, e que o Marechal Stalin lançará uma ofensiva na mesma época, para evitar a transferência de forças alemães para o Oeste.

 

Para Churchill e Roosevelt, o itinerário de volta passa novamente pelo Cairo. Encontram a Esfinge, cujo sorriso vão estudar, ao por do sol. Chiang e Senhora foram substituídos pelo frágil, branco e surdo General Ismet Inonu, que se desdobra em protestos de amizade, mas deixa bem claro que a Turquia ficará neutra. Desapontado, Churchill se consola matando a operação anfíbia do golfo de Bengala. Depois, repentinamente envelhecido, parte para Marraquexe para curar-se da pneumonia que pegou em Teerã.

 

Quadro da França em 1943

 

Para essa França, que o Marechal Stalin considera francamente como a auxiliar de Hitler, o ano que acaba foi negro e dramático. Prossegue a expiação da derrota.

 

Entretanto, é conveniente reavivar alguns detalhes que as retórica e os álibis ulteriores tenderam a apagar. O quadro da França, mesmo no terceiro ano de ocupação, não é uniformemente o de desespero e servidão. Os franceses morrem, mas os franceses vivem - sem necessariamente se colocar a serviço do inimigo. Personalidades marcantes por sua ação ou suas opiniões subsistem pacificamente. Sob uma cobertura mínima de prudência. Sartre faz representar As Moscas, que, com O Sapato de Cetim, de Paul Claudel (autor de uma “Ode ao Marechal”), e Sodoma e Gomorra, de Giraudoux, dá vivo brilho à estação teatral de 1943. A brava moda da miséria de tecidos para criar extravagâncias é que provoca esta pergunta de um oficial alemão a uma parisiense: “Que chapéus poria você, se tivesse ganhado a guerra?”. Sob muitos pontos de vista, a condição dos vencidos franceses é melhor de que a dos vencedores. Eles só conhecem uma fração dos bombardeios que devastam a Alemanha e não tem que passar pela terrível sangria do povo alemão na frente oriental.

 

Por mais rigorosa que seja, a própria vida material é felizmente menos trágica do que poderia ser se pensarmos nos dados brutos, dados de morte por inanição lenta, as rações alimentares. Províncias inteiras escapam às privações da boca. Além do mercado negro propriamente dito, circuitos de abastecimento de uma flexibilidade notável atenuam a fome oficial. Para 80 toneladas de entrega legal, consistindo sobretudo em pão e em nabos, Lião, por exemplo, recebe 50 toneladas de caixotes familiares cheios de alimentos mais substanciais. Apesar dos progressos da tuberculose, a saúde pública continua razoavelmente boa, e com ajuda da redução do alcoolismo, os hospitais tem menos doentes do que antes da guerra. Esta condição relativamente satisfatória, sem dúvida a menos ruim de uma Europa subjugada, não seria possível se a França estivesse entregue a Gauleiters, se uma administração francesa não se impusesse entre ocupantes e ocupados. Entretanto, as últimas páginas de Vichy são pungentes. Contam a identificação cada vez mais estreita daquilo que ainda se chama Estado francês com a causa hitlerista. O serviço do trabalho obrigatório, fornecedor de mão-de-obra à Alemanha, é instituído em fevereiro de 1943. A milícia, tirada da Legião Francesa dos Combatentes, recebe o estatuto de uma polícia supletiva. Os judeus são recolhidos como animais e enviados para um destino cujo horror ainda é desconhecido. Os hitleristas franceses invadem e anexam a capital provisória, depois de terem cometido outros ultrajes: Brinon, Bonnard, Gabolde, Henriot, Marion, Darnand, Déat, novos ministros, secretários de Estado, secretários e comissários gerais de um governo que não é mais que um satélite do Terceiro Reich. Como chefe, Pierre Laval, que, realmente, tenta limitar as exigências alemães, mas cuja opção de princípio - “Desejo a vitória da Alemanha...”- ecoou para a imensa maioria dos franceses como um desafio.

 

Ano da degradação de Vichy, 1943 foi o ano do desenvolvimento da resistência. É inútil, ainda hoje, querer traçar um quadro verídico desse vasto fenômeno. Um obscurecimento, protegendo facções políticas e reputações pessoais, é mantido em torno das fontes mais elementares. Para citar apenas um exemplo, se tentou uma comunicação com o que parece ser uma relação objetiva da atividade militar da Resistência: as 1.500 páginas do relatório sobre as forças francesas do interior, estabelecido pelo major americano Bourne-Paterson, com a ajuda de vários oficiais franceses. Bateram contra um muro. Em Washington, o relatório é classified, quer dizer mantido em segredo, sob a imposição do governo francês, e em Paris a comissão oficial para a História da Segunda Guerra Mundial declara mesmo que não lhe teve sucesso. Nessas condições, só se pode deixar a um futuro mais esclarecido o cuidado de redigir um capítulo de história dramático e confuso.

 

O que é claro é a luta civil entremeada à luta contra o ocupante. Elemento preponderante da resistência, tendo aliás sofrido castigos bárbaros, suportando-os com heroísmo, o Partido Comunista visa a mais do que a vitória sobre a Alemanha. A adesão de uma parte importante da burguesia ao Marechal Pétain permite liquidações sumárias. A introdução, na repressão da milícia, com seus homens dispostos a tudo e seus bandidos profissionais, aumenta a ferocidade das lutas. Crimes e desforras se seguem, ensangüentando a França, de norte a sul.

 

Os atentados contra os membros do Exército alemão abrem outra cadeia de represálias. Certos comandantes de território tentam limita-los; outros praticam uma política de pavor. As grandes execuções de reféns começaram em 1942, com os 50 fuzilados de Châteaubriand. O governo de Vichy primeiramente lutou contra essa aplicação trágica do princípio da culpabilidade coletiva, mas o desenvolvimento da resistência, a insegurança crescente cercando os militares isolados, os comboios e os locais alemães tornam mais pesada a repressão. Todas as polícias, todos os serviços secretos do Reich hitlerista trabalham na região conquistada para capturar por todos os meios, e principalmente pela tortura, os filhos das conjurações nacionais contra um vencedor que cada vez menos o é. É fato que os alemães acham sempre ajuda local; que reforçam a Gestapo alemã com Gestapo francesa, polonesa, norueguesa, etc.; que recrutam traidores em todos os movimentos de resistência; que colecionam tantas denúncias, que estas se desvalorizam como moeda em tempo de inflação. Os homens que se dedicam à ação oculta, sob todas as formas, vivem rodeados de perigos hediondos e freqüentemente encontram, ante postes de execução, morte de herói.

 

Um outro fato de 1943 é a aparição de grupos de rebelados designados pelos nome de maquis. Ainda aí falta um quadro verídico desses grupos, que vão de unidades militares disciplinadas até maltas de bandidos cobertos de crimes. No início de 1943, o maciço do Vercors, entre o Isère e o Drôme, torna-se um verdadeiro campo de treino, onde, sob o comando do General Delestraint, dito Vidal, oficiais do exército do armistício introduzem voluntários vindos de Grenoble e de Lião. O Maciço Central, o Jura, os Alpes, os Pirineus e a Bretanha povoam-se de jovens fugitivos do STO. Para limpar essas regiões difíceis, seria preciso ou a ajuda ativa das populações, que procuram cada vez mais ficar neutras, ou a dos efetivos que os alemães não possuem.

 

A partir de 1940, os ingleses criaram, sob o nome de Special Operations Executive, um órgão com a finalidade de reconstituir na Europa suas redes de informações. Por sua vez, as autoridades gaulesas criaram o Bureau central de informações e de ação destinado a animar e explorar as resistência interna francesa. Os atritos são freqüentes entre os dois órgãos, mas são ainda bem mais numerosos entre os movimentos que vêm de ou vão para todos os pontos do horizonte político. O Comitê de Londres e, depois, o governo provisório da Argélia procuram coordenar e conter essas forças tumultuosas.

 

Na noite de São Silvestre, em 1942, o antigo prefeito de Chartres, Jean Moulin, pousa, na Provença, de pára-quedas. No fundo duplo de uma caixa de fósforo dissimula um microfilme. Trata-se de uma delegação de poder, do General De Gaulle. A 27 de maio de 1943, ele consegue reunir à mesa de um restaurante da Rue du Four, em Paris, os representantes dos principais movimentos do Norte e do Sul da França. Nasce o Conselho Nacional da Resistência. Contudo, Jean Moulin, que assume a sua presidência, é o primeiro a não ter ilusões quanto à fragilidade de sua obra. Sua missão decorreu em meio a conflitos e querelas, que o opuseram naturalmente ao primeiro chefe da resistência interna, Henry Frenay, e mesmo a dois outros emissários de Londres, Dewavrin e Brossolette. E termina, seis semanas depois, em Caluir-et-Cuire, às portas de Lião, por uma prisão favorecida por traição. Torturado, Jean Moulin sucumbe por ocasião de sua transferência para a Alemanha. O professor e jornalista católico Georges Hidault sucede-lhe na direção do CNR. A unificação permanece superficial ou artificial. Os movimentos continuam bravamente autônomos e freqüentemente opostos. O único ponto real de convergência - com muitas reticências e dissimulações - é a figura do General De Gaulle, que cada vez mais aprece como o chefe da nação.

 

Em contraste, Pétain está no crepúsculo. O velho chefe torna-se estranho a um povo que tanto o amou e venerou. O outono de 1943 vê seu último esforço para furtar-se à engrenagem fatal. Mais uma vez ele decide despedir Laval. Imagina estar novamente a caminho da 3a República, constituindo uma universidade de personalidades que, em volta de Lucien Romier e de Léon Noel, convocarão a Assembléia Nacional. Laval, prevenido, alerta o representante da Alemanha em Vichy, Krugg Von Nidda. A mensagem do Marechal já gravada em disco; Nidda proíbe a difusão. Pétain replica, declarando que exonera-se das funções de chefe de Estado, mas esta greve senil não comove Hitler. “Nunca - faz este saber - tolerarei a reaparição de uma Assembléia que declarou guerra à Alemanha”. Ela já está declarada fora da lei pelo degaullismo, por causa dos plenos poderes que votou para Pétain. Os dois lados põem em férias a legalidade da 3a República.

 

Tudo acaba com a submissão do Marechal diante do Embaixador Abetz, escoltado por Skorzeny e por duas companhias blindadas de SS Laval fica em seu lugar. A aventura encerra virtualmente o papel de Vichy capital. Esta definha durante o inverno, paulatinamente abandonada pelos serviços públicos, que se dissolvem ou voltam a Paris. Os maquis cercam Vichy, ameaçam-na, fazem nela reinar a angústia e o medo.

 

 

 

 

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