Tópicos do
capítulo:
Natal de 1943: os
russos retornam ao ataque diante de Kiev
Um terço das
forças armadas alemães detidas ante Vitebsk
Hitler recusa
mudar de estratégia. Queda de Kirovograd
Fevereiro: queda
de Nikopol, Tcherkassy e Krivoi-Rog
O Dniéster
transposto, a Romênia invadida, a Hungria ameaçada
Mussolini deixa
fuzilar seu genro
O Exército
francês combate na Itália
Derrota em Anzio,
vitória em Cassino
Os Aliados
consolidam-se. Batalha da Linha Gustav
Arrasamento de
Monte Cassino
Ataque a
Garigliano. Ação do corpo francês
Corrida a Roma. 4
de junho: chegada do Escargot
Primavera O prazo para o Exército alemão conseguido pela
contra-ofensiva de Kiev não é de longa duração. Vatutin volta ao ataque na
noite de Natal. A celebração a festa nas trincheiras e alojamentos alemães é
brutalmente interrompida. Manstein, que passava a noite com os granadeiros
da 20a Divisão, volta precipitadamente a seu QG de Vinitza. As
notícias que ali o esperam ultrapassam seus temores. Os cinco exércitos da 1a
Frente da Ucrânia lançaram uma investida da maior envergadura em ambas as
partes da estrada de Kiev-Jitomir. Mal consolidado depois dos violentos
combates das semanas anteriores, o 4o Exército Panzer recebe um choque
de surpresa e violência totalmente imprevistas. A última semana de 1943 vê o desabamento da frente
alemã. Jitomir, que havia sido retomada em 20 de novembro, volta para os
russos em 1o de janeiro. O 4o Exército Panzer é
deslocado. A luta é extremamente penosa. A temperatura abrandou-se, mas uma
imensa chuva de neve derretida envolve a Ucrânia. As ordens que prescrevem às
tropas resistir em suas posições são transgredidas diante das ameaças de
cerco. A retirada transforma-se às vezes em derrota, acarretando importante
perda de material. A condição do sitiante está, aliás, longe de ser
uniformemente brilhante. As unidades chamadas “da Guarda” e as formações
blindadas conservam sua qualidade, mas a massa das divisões soviéticas
enche-se de uma multidão cada vez mais estranha. A 1a Pz D
assinala que metade dos prisioneiros tem menos de 18 anos e que se encontram
entre eles garotos de 13 anos. O General Von Vormann, comandante do 47o
Corpo Blindado, descreve: “São massas apressadamente reunidas, apenas de uniforme...
inclusive batalhões de mulheres que, há algumas semanas, em Rostov,
cozinhavam para nós e lavavam nossa roupa”. Em mil prisioneiros feitos por
seu corpo de exército, um em vinte contava com uma arma, e mais da metade
estava descalça. “Essas massas quando se chocam com uma tropa intacta, sofrem
perdas aterradoras”, mas se renovam como as ondas do mar. A 4 de janeiro, Manstein volta ao GQG, armado de
uma resolução que ele acredita brava. Pede uma entrevista com Hitler sem
outra testemunha a não ser o chefe do Estado-Maior Zeitzler. O começo de sua
proposta é a seguinte: “Meu Fuhrer, deve ser claramente compreendido que
nossos reveses não são causados apenas pela superioridade material do
inimigo; também decorrem da maneira pela qual a guerra é conduzida por
nós...” Diante destas palavras, o rosto de Hitler torna-se a cabeça de
Medusa. Sua resposta é de uma brutalidade ofegante. Ninguém a não ser ele,
Hitler, é capaz de comandar os exércitos alemães. Ninguém além dele está apto
a carregar o fardo da guerra. “Será que por acaso você imagina, que você,
Manstein, se faria obedecer melhor que eu, Hitler?...” Manstein volta à batalha sem nada ter obtido. A
rapidez da progressão russa decorre da Blitzkrieg: de 30 a 40 km por dia. A
ofensiva se abre em leque com uma coragem sem precedentes. O ramo norte
dirige-se para Korosten, apodera-se de Novgorod-Volynsk e vai tomar Sarny, no
limite dos pântanos de Pripet. O ramo central transpõe a fronteira de 1938 e
vai tomar Luck e Rowno, durante muito tempo cidades polonesas em que as
guarnições vigiavam a União Soviética. O ramo sul apodera-se de Berditchev e
dirige-se para o Bug da Ucrânia. Contra-atacando com dois corpos de
exércitos, Manstein chegou a partir esta ponta do tridente no momento em que
ela atingia Vinitza e aproximava-se de Uman. Nas outras direções, o
prolongamento das comunicações e o estado do terreno detêm o avanço russo.
Mas uma cunha grande e profunda, de 500 km introduziu-se na frente alemã. Os
grupos de exércitos Centro e Sul são separados. O mais impressionante é que uma ofensiva dessa
dimensão não esgota a força soviética. Ao mesmo tempo em que batem os alemães
diante de Kiev, os russos os repelem diante de Leningrado. O Grupo Norte,
comandado pelo Marechal Von Kuchler, só tinha conhecido, durante dois anos,
movimentos menores. O 16o Exército fora forçado a afrouxar a sítio
de Leningrado, abandonar Schlusselburg, renunciar à redução da
cabeça-de-ponte soviética de Oranienbaum, mas guardava uma janela para o
Neva, detinha uma parte de Volkhov, Novgorod e o lago Ilmen. O 18o
Exército se havia retirado do bolsão de Demiansk, mas se apegava a
Stáraia-Russa e ao Cholm. A luta era uma guerra de trincheiras,
alternadamente sob um frio polar e um calor pantanoso, no coração de uma
natureza bravia. Kuchler tivera de ceder a outros grupos de exércitos uma
parte de suas forças, embora estendendo seu setor por várias vezes. Delas
conservou apenas 48 divisões, da quais, é verdade, nenhuma blindada.
Incluindo a Finlândia, um terço das forças alemães na Rússia estavam
imobilizadas ao norte de Vitebsk. Tal proporção era despropositada. Desde que os
alemães tinham renunciado a apoderar-se de Leningrado, a ala norte de sua
frente oriental só apresentava um fraco interesse estratégico e a retirada
pedida por todos os generais para o Narva ou mesmo para o Duna, no sentido de
encurtar a frente, reduzir as linhas de etapas, reconstituir reservas, estava
de acordo com as novas realidades. Mas Hitler dizia não e não. Temia
abandonar a Finlândia e que o recuo proposto desse aos russos posições
marítimas que lhes propiciasse ameaçar o tráfego dos minérios de ferro
suecos. Revelados desde o outono, os indícios de uma
ofensiva se multiplicavam a partir de 1 de janeiro. No dia 14, dois exércitos
soviéticos, o 42o e o 2o de Choque, surgem no encravo
de Oranienbaum, atacando em direção de Tsarskoie-Selo. No mesmo dia, o 59o
Exército parte para o ataque a Volkhov, de ambas as partes de Novgorod. A
ponta de convergência dos dois ímpetos é Luga, junto ao rio Luga, centro das
retaguardas alemães. A finalidade é o cerco e a captura do 18o
Exército. O inverno é relativamente suave e a neve fraca,
mas a falta de caminhos, a profundidade das florestas, a hostilidade dos
guerrilheiros põem à prova as tropas alemães. Descontente com Kuchler, Hitler
o substitui pelo homem das situações difíceis, Walter Model. Sua conhecida
energia não é supérflua para salvar os exércitos alemães do Norte. A 20 de janeiro, os russos tomam a cabeça-de-ponte
de Oranienbaum. Na noite de 21 para 22, as forças alemães que se achavam em
flecha entre o Neva e o Volkhov fogem, abandonando sua artilharia. Model
tenta estabilizar a frente do rio Luga, mas a posição é insustentável. A 12
de fevereiro, os exércitos russos partidos de Leningrado e os exércitos
russos partidos de Novgorod fazem junção - muito tarde, aliás, para capturar
o 18o Exército. Este escapa para as duas extremidades do lago
Peipus, Narva e Pleskau, maltratado, mas salvo. O perigo se transporta agora para o 16o
Exército. Ameaçado de cerco em sua ala norte, ele está obrigado a uma
retirada precipitada na direção sudoeste, através de imensas florestas sem
caminhos. Duas cidades decantadas pela propaganda alemã, os dois
sustentáculos que detiveram a arremetida soviética do inverno de 1941-1942,
Stáraia-Russa, perto do lago Ilmen, e Cholm, última posição alemã no Lovat,
são abandonadas. Girando à direita, o 16o Exército recua 200 km
para unir-se novamente ao seu vizinho do norte. A 1o de março, os exércitos russos
fizeram o que os generais alemães tinham em vão pedido a Hitler: a frente dos
grupos de exércitos Norte é trazida de volta à posição defensiva chamada
Panther. Leningrado já não ouve o canhão e a URSS volta à sua fronteira de
1938. Na Ucrânia, a derrota de Kiev não pôde decidir
Hitler a modificar nem sua estratégia nem sua tática. O Exército alemão
perdeu a maior parte da linha do Dniéper, mas se agarra ao rio por um bolsão
de 50 km de largura, acima de Tcherkassy. A frente descreve em seguida uma
curva profunda diante de Kirovograd e Krivoi-Rog, depois encontra o Dinéper
na frente de Zaporojie e o atravessa para cobrir, por cabeça-de-ponte, as
jazidas de níquel de Nikopol. Passando por trás do Dniéper, acompanha-o até a
sua desembocadura, em Kherson. As ordens do OKH exigem que essas linhas tortuosas
e perigosas sejam defendidas sem a menor concessão. Três exércitos, um ligado ao Grupo A (Von Kleist),
os outros ligados ao Grupo Sul (Von Manstein), dividem a tarefa. O do Sul, 6o
Exército, do Coronel-General Hollidt, cobre Nikopol. O do Norte, 1o
Exército Panzer, do general das tropas blindadas Hube, guarda uma ligação
precária com o 6o Exército Panzer. Entre os dois, no bolsão cujo
fundo se estende até o Dniéper, se insere o 8o Exército, do
general de artilharia Wöhler. Todas as representações feitas a Hitler sobre o
absurdo desta saliência de flancos
frágeis foram inúteis. Como ele não quis abandonar o Volga em Stalingrado,
ele também não quer abandonar o Dniéper em Tcherkassy. Os nomes simbólicos
governam sua estratégia. A tomada de Kirovograd,. No começo de janeiro,
agrava, a situação alemã. O perímetro do bolsão ultrapassa 40 km. Quatro
corpos de exército, o 7o, o 42o, o 11o e o
47o Blindado atapetam o interior dessa volumosa protuberância, mas
a deterioração do campo de batalha e o desmembramento das unidades reduziram
sua força. O regimento blindado da 14a Pz D consiste, por exemplo,
em sete Pz Kw-4, quatro Sturmgeschütze, ou carros de assalto pesados, e
quatro Flammenpanzer, ou tanques lança-chamas - ou melhor, o equivalente a
uma companhia. Os regimentos de granadeiros, cujo efetivo regulamentar voltou
a ser de 1.100 homens, raramente contam com mais de 500. As divisões defendem
os setores de 18 a 25 km, com 3.000 combatentes em linha, frágil cortina de
homens sem nenhuma reserva digna do nome que possa reparar os rasgões.
Entretanto, qualquer retificação da frente, qualquer recuo voluntário, por
secundário que seja, estão proibidos sem o consentimento prévio do Fuhrer. A 25 de janeiro, a 1a e a 2a
Frentes da Ucrânia atacam os dois lados da saliência. Juntam-se, no dia 28,
em Svenigorogka, à beira de um riacho de margens escarpadas, Guiloi Tikitsch.
Dois corpos de exércitos alemães, o 11o e o 42o, são
cercados. Contam com 5 divisões de infantaria, a Divisão Blindada SS Viking e
a Brigada Blindada SS Wallonie. Hitler é incorrigível. Sua reação diante dessa
nova catástrofe é a mesma de Stalingrado. O comandante das tropas
aprisionadas, General Stemmermann, recebe ordem de conservar a totalidade do
bolsão. Os dois corpos de exércitos serão abastecidos pela aviação do campo
de Korsun e sua libertação será o objeto de uma grandiosa operação da qual
Hitler conta poder fazer participar 8 divisões blindadas. A 16a, a
17a, a Leibstandarte e a 1a Panzer atacarão do oeste
para o leste, no quadro do 1o Exército Panzer. A 11a e
a 13a, a 14a e a 24a Panzer atacarão do
leste para o oeste, no quadro do 8o Exército. O inimigo será
esmagado. Na hora, as coisas se passam menos comodamente do que no mapa. A
concentração das divisões blindadas encontra dificuldade incríveis. O solo
degela durante o dia, gela de novo durante a noite, pouco a pouco engole os
veículos nos poços de lama e os aprisiona numa canga dura como argamassa. A 3
de fevereiro, somente uma fração das forças visadas está no local. Mas já não
é possível adiar o ataque. No bolsão, as forças se esgotam. O reabastecimento
aéreo só traz uma parte do indispensável e o aeródromo de Korsun é ameaçado.
Durante dez dias, os dois grupos blindados investem valentemente em direção a
seus camaradas cercados. O da direita, o 47o Pz K, do General Von
Vormann, choca-se contra a resistência feroz do 5o Exército
soviético e é forçado a deter-se a 30 km do bolsão. O da esquerda, o 3o
Pz K, do general Breith, chega a 13 km dos sitiados. Mas é também detido. O drama de Stalingrado recomeça. Menos dócil do
que Paulus, Stemmermann transgride as ordens de Hitler, afrouxa o Dniéper,
estica suas forças para oeste, na direção dos barcos de salvamento. Mas seus
homens morrem de fome e suas munições se esgotam. Os russos o intimam a
entregar-se. O Coronel Fouquet recebe a mensagem, faz reconduzir o
parlamentar a suas linhas - e vem a
saber que Hitler o quer levar a conselho de guerra por negociações com
o inimigo. Em nome do Nationalkomitee Freies Deutschland, o General Von Seydlitz
e o neto de Bismarck, o Conde Von Eisiedel, conclamam seus camaradas a
capitular. Os sitiados fazem-se de surdos, mas suas forças estão no fim. O
bolsão é reduzido a três quartos e o aeródromo de Korsun está perdido. É então que Manstein faz o que não ousou em
Stalingrado: dá a Stemmermann ordem de romper o cerco de qualquer maneira. A 17 de fevereiro, de noite, os canhões alemães
atiram seus últimos projéteis. Todos os homens válidos se alinham em três
colunas, atrás dos últimos tanques. A noite é opaca e o gelo noturno
consolidou o solo. A arma para o rompimento é a baioneta. Os russos estão
surpresos diante do bando desesperado que se lança sobre eles. O cerco é
rompido, no meio de combates tão descosidos que os sobreviventes são
incapazes de fazer um relatório coerente sobre o fato. O General Stemmermann
e o Coronel Fouquet, cuja pele Hiter queria, tombaram na luta, mas 30.000
homens, dos 54.000 do bolsão, conseguem juntar-se ao 3o Pz K. A propaganda hitlerista celebra essa noite como um
feito heróico. “Nossos homens - diz sardônicamente o General Von Vormann -
ficaram estupefatos quando souberam ter conquistado uma grande vitória...” De
fato, dois novos corpos de exércitos foram destruídos e a batalha de
Tcherkassy intensifica a oportunidade que os russos não cessaram de ter desde
Stalingrado: a de isolar os exércitos alemães do Sul e fazê-los recuar para o
mar, a fim de liquidá-los. Nas embocaduras do Dniéper aos Cárpatos, quatro
frentes russas desenham uma curva envolvente em torno dos grupos de exércitos
de Manstein e Kleist. As costas cobertas pelos intocáveis pântanos do Pripet,
a Primeira Frente da Ucrânia, em cuja cabeça Zhukov substituiu Vatutin,
gravemente ferido, faz frente ao sul, contra o 4o Exército Panzer,
estendido e deslocado, e contra o 1o Exército Panzer, esgotado.
Enfim, enquanto persegue o bloco da Criméia, a 4a Frente da
Ucrânia, de Tolbukhine, encerra o 6o Exército nas posições
absurdas que as exigências de Hitler o obrigam a tomar no baixo Dniéper e
adiante. A batalha de Tcherkassy ainda não está terminada e
o 6o Exército já conhece a derrota. Nikopol, para o qual tantos
sacrifícios foram feitos, lhe é arrancado a 8 de fevereiro. A caminho do
norte, para participar do rompimento do bloqueio dos dois corpos de exército
de Stemmermann, a 24a Panzer (ex-1a Divisão de
Cavalaria) é prontamente enviada de novo para o sul, mas, depois de ter-se
batido contra a lama, chega tarde demais para salvar a cidade do níquel.
Também não salva a cidade do ferro, Krivoi-Rog, tomada no dia 22, depois do
rompimento das linhas alemães em Apostolovo. Fazendo uma conversão para o
sul, os russos encurralam o 6o Exército no Dniéper, perto de
Kherson. Ele se desembaraça penosamente, luta junto a dois rios paralelos, o
Ingulez e o Ingul, sem conseguir estabilizar a frente. Irresistivelmente, os
russos se aproximam de Odessa, onde 10.000 guerrilheiros, refugiados nas
imensas catacumbas, frustam há dois anos todos os esforços alemães para
enchê-los de fumaça e privá-los de comida. Ao norte da Ucrânia, uma nova partida é jogada. A
4 de março, Zhukov ataca ambas as partes de Chepetovka. Seu objetivo é
Chernovitz, capital da Bucovina, que fôra romena de 1919 a 1939. Os russos
penetram, como de hábito, e, desde o segundo dia, ameaçam a grande linha
Lemberg-Odessa, o único caminho que liga diretamente as regiões do mar Negro.
Os alemães contra-atacam com três divisões blindadas, mas não chegam a
impedir os russos de cortar a preciosa via férrea perto de Tarnopol.
Doravante, o reabastecimento do Grupo de Von Kleist só será possível ao preço
de longos desvios pela Tchecolosváquia e pela Hungria. O Schlammperiode chegou. Se os russos se
conformassem com o precedente estabelecido pelas duas primaveras anteriores,
as operações parariam durante várias semanas. Longe de parar, eles recomeçam
de maneira diferente - para consternação do Comando alemão, que contava com
uma trégua da estação. Nenhuma campanha será um dia descrita pelos
combatentes em termos mais aterradores, e a lembrança de suas retiradas
angustiantes, com lama até as coxas, os veículos afundados a cada virada de
roda, e o terror da captura pesando sobre os ombros, parece um pesadelo. É
claro que os russos também patinham na lama, que seus movimentos são
afrouxados, que o vulto de suas operações é reduzido e que o esgotamento de
suas tropas é acelerado. Contudo, as perdas são relativas. Como à neve, eles
se adaptam melhor à lama do que seus adversários. Os veículos de
abastecimento são mais leves e suas máquinas se apoiam nos caminhos mais
largos, conservam mais mobilidade do que os tanques e os tratores da
Wehrmacht. Os golpes se sucedem. A 6 de março, a 2a
Frente da Ucrânia arrasa o 8o Exército alemão e marcha para Uman.
Tomada a cidade, o avanço continua para o Bug, que é atingido e ultrapassado
no dia 20. Voltando ao ataque, Zhukov vence o 4o Exército Panzer,
ultrapassa o Dniéster e, no dia 24, toma Chernovitz. Em três semanas, apesar
da lama, o avanço da 1a e da 3a Frentes da Ucrânia
ultrapassa 200 km. A Romênia é invadida, a Hungria é ameaçada e, o que ainda
é mais grave, um exército alemão, o 1o Panzer, se acha cercado! Mais uma vez a responsabilidade cabe a Hitler.
Este só fica resignado in extremis quanto ao abandono da saliência que o 1o
Exército Panzer desenhava além do Bug, prescrevendo mesmo que Vinitza fosse
organizada uma praça-forte e defendida até o fim. A última ordem foi violada,
o velho QG do Fuhrer e a elegante aldeia campestre construída para Goering
foram entregues às chamas, mas a retirada do Bug ao Dniéster em pleno degelo
representava para o 1o Exército Panzer o equivalente a uma batalha
perdida. Atrapalhados pela lama, os soldados da infantaria jogam fora seus
equipamentos e até mesmo as armas. Os condutores abandonam seus veículos
afundados. Os rios, transformados em lagos, são de acesso difícil nas pontes
engarrafadas e oscilantes. A progressão inimiga ultrapassa o 1o
Exército Panzer e atinge, antes dele, as duas margens do Dniéster. A 23 de
março, o 1o e o 4o Exércitos blindados soviéticos fazem
junção à sua retaguarda, ao sul de Kamenez-Podolsk. Dez divisões estão
cercadas. Seu chefe, Hube, que teve a célebre sorte de sair de Stalingrado,
está novamente na boca do lobo. A história morna recomeça. Os Ju-52 estabelecem
uma ponte-aérea. O cerco russo é brando, a oposição da DCA ainda é fraca, e
entretanto as entregas são bem inferiores às necessidades elementares. Hube
pede para atravessar diretamente pelo sul, apesar das dificuldades que
apresenta a fortificação do Dniéster, mas, como em Stalingrado, Hitler o
proíbe de abandonar as posições avançadas. Manstein precipita-se para
Obersalzberg, onde a entrevista se desenrola no salão de vastas janelas
abertas para o pacífico panorama dos Alpes de Salzburgo. Hitler está cheio de
reprimendas, lembra que Manstein pediu-lhe um recuo para trás do Don, para
trás do Donetz, para trás do Dniéster, para trás do Bug, prometendo todas as
vezes que conteria o inimigo numa frente mais vantajosa - e todas as vezes o
inimigo o forçou a estabelecer uma nova barreira. Terminou entretanto por
aderir à propostas do Marechal. A defesa da Romênia será assegurada por Von
Kleist, que juntará a seu comando o 8o Exército. O 1o
Exército Panzer achará um caminho para si, não pelo sul, como pede Hube, mas
para oeste, a fim de ligar-se ao 6o Exército Panzer e impedir que os
russos irrompam na planície húngara. Para maior segurança, a Hungria está
ocupada. Hitler impôs ao regente Horthy um Primeiro-Ministro pró-hitlerista,
o ex-embaixador em Berlim, Sztojaj, que tenta galvanizar o país ameaçado. Penosamente, o bolsão móvel do 1o
Exército Panzer dirige-se para o oeste, paralelamente ao Dniéster. Grandes
quedas de neve tardias cobrem a planície como um leito macio cuja harmonia
entretém o mar de lama. A passagem de vales cobertos de mata e escarpados,
como a do Sereth, representa enormes dificuldades, exige ásperos combates. A
aviação russa faz chover folhetos como o seguinte: “Vocês estão completamente
cercados. O prolongamento de sua resistência é absurdo. Dou-lhes até o dia 2
de abril para capitular. Depois dessa data, um entre três prisioneiros será
fuzilado. Assinado: Zhukov, Marechal da União Soviética”. Na realidade, o
anel de bloqueio permanece muito fraco e as forças que o constituem são
atacadas, à retaguarda, pelo 2o Corpo Blindado SS, que marcha
adiante do 1o Exército. A 6 de abril, em Buczecz, junto ao Strypa,
a junção está feita. O General Hube, que foi o Marechal Ney dessa retirada, é
convocado a Berchtesgaden para receber a cruz de carvalho com folhas de
cadeia de brilhantes. O avião que o leva de volta a seu exército cai e o
mata. Alguns dias antes, 30 de março, o Marechal Von
Manstein foi acordado para ser informado de que o avião pessoal de Adolf
Hitler chegava a Lemberg, para levá-lo a Berchtesgaden. O Marechal Von Kleist
fôra transportado, na véspera, nas mesmas condições imprevistas. Aos dois
marechais, Hitler declara que eles não mais convêm à forma de guerra que
prevalecerá doravante na frente oriental. A era das manobras já passou. A
principal virtude militar é uma vontade de resistência fanática, servida por
uma energia imperecível. É por isso que Hitler substitui os dois aristocratas
por dois plebeus: Walter Model, que assume o comando do Grupo de Exércitos
Sul, rebatizado Norte da Ucrânia, e Ferdinand Schörner, que toma o comando do
Grupo de Exércitos A, rebatizado Sul da Ucrânia. Algum tempo antes, um outro
gentil-homem, o Marechal Günther von Kluge, ferido num acidente de automóvel,
tinha sido substituído na direção do Grupo Centro por um outro nazista, Ernst
Busch. A 2 de abril, o Fuhrer pega a caneta para
concluir. “A ofensiva russa - diz seu Operationsbefehl n° 7 - está em
declínio. O russo esgotou suas forças. Chegou a hora de detê-los de maneira
definitiva”. Dos pântanos do Pripet ao mar Negro, a linha dessa detenção
definitiva é traçada da seguinte maneira: Kovel - Brody - Tarnopol - o sopé
dos Cárpatos entre Kolomea e Targul - Neampt - Jassy - Kichinev. Depois dessa
última cidade, a frente se deslocará para diante, seguirá o rio costeiro
Tiligut, a fim de cobrir Odessa, porto de reabastecimento do 17o
Exército, cercado na Criméia. Depois de Manstein e Kleist, depois do próprio
Model, Antonescu pediu a evacuação da península onde combatem sete divisões
romenas necessárias à defesa do território nacional. Hitler recusou. Não é o
momento em que o inimigo pára, completamente ensangüentado, que convém
fazer-lhe donativos gratuitos. Visão profética: seis dias mais tarde, 8 de abril,
um violento ataque se faz contra as linhas de Perekov. A vez da Criméia
chegou. |
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Vingança e combates na Itália O caso Ciano está em pauta. O genro do Duce
continua sob guarda alemã na prisão de Verona. Ligada à sua esposa, uma
senhora Beetz, agente da Gestapo, faz jogo duplo: “Ela se cola a mim como um
selo postal - diz Ciano a seu juiz de instrução italiano -, mas eu sei o que
querem os alemães: meus cadernos. Eles não os terão nunca”. Por outro lado,
sempre fazendo o seu papel de espiã, Frau Beetz ligou-se ao prisioneiro e
tenta salvar-lhe a vida. Cinco dos membros do Grande Conselho que votaram a
25 de julho contra Mussolini caíram nas mãos dos neofascistas e partilham do
destino de Ciano: o Marechal De Bono, os ex-ministros Pareschi e Cianetti, o
chefe da Confederação do Trabalho, Gottardi, enfim Marinelli, que presidiria
a título individual. No Congresso neofascista de Verona, algumas semanas
antes, moções violentas pediram suas cabeças. A Condessa Ciano tenta vir
interceder pelo marido junto ao pai, mas os alemães lhe fecham a porta, e,
duvidando da utilidade da vingança, Mussolini se declara impotente. Os nove
juízes são escolhidos pelo governo de Salo entre militantes fascistas de
extensa folha de serviços. O processo começa a 8 de janeiro, em
Castelvecchio. Um frio negro tortura os acusados. O Marechal De Bono, com 74
anos de idade, foi trazido do hospital, e os outros, da glacial prisão de
Scalzi. Eles têm advogados, mas o direito de convocar testemunhas lhes é
recusado. O processo se encerra em 48 horas. Os acusados
sustentaram que, em seu espírito, o voto de 25 de julho não contava com a
eliminação do Duce. Ciano e De Bono conservaram a dignidade, mas Marinelli
chorou e suplicou, dizendo que era vítima de sua surdez e estupidez. Em
câmara de conselho, o tribunal se inclinava para a clemência quando uma
brutal interferência do juiz Vezzalini aterrorizou os colegas. As
circunstâncias atenuantes já concedidas ao velho marechal foram retiradas dos
demais, e somente Cianetti escapa ao castigo supremo. Edda Ciano escreve a
Mussolini, escreve a Hitler, ameaça fazer revelações terríveis, oferece os
caderno de seu marido em troca de sua vida, mas seus tons apaixonados são
inúteis. Os pedidos de clemência assinados pelos condenados nem sequer são
transmitidos a Mussolini, por intervenção de Pavolini que diz que não seria
humano pedir a um homem que ratificasse a sentença de morte do pai de seus
netos. Ciano, De Bono, Pareschi, Gottardi e Marinelli são fuzilados pelas
costas, no polígono de tiro do Forte San Zero, por um pelotão tão inábil que
é preciso atirar uma segunda vez sobre as vítimas que gritam. Ao mesmo tempo,
Edda passa pela Suiça, onde os cadernos - tão acusadores para seu marido
quanto para Mussolini ou Ribbentrop - estão em segurança. Essa tragédia doméstica e política é a única
página notável de um regime que não chega a sair do tédio. Mussolini
apagou-se tanto que nem assiste ao Congresso de Verona, sobre o qual se
exprime em termos sarcásticos. Os bandos de partisans, os assassinatos de
personagens neofascistas se multiplicam, mas, no conjunto, a resistência ao
governo de Salo e a seus mestres alemães é bastante fraca. Uma greve
fomentada pelos comunistas nas fábricas Fiat é facilmente subjugada, se bem
que não haja em Turim mais de 200 alemães. No Norte, dominado pelos alemães,
como no Sul, conquistado pelos Aliados, a massa do povo italiano só aspira à
paz. Nenhum dos dois marechais inimigos, Graziani e Badoglio, chega recrutar
algo que se assemelhe a um exército. Roma é disputada sem que mais do que um
punhado de soldados italianos contribua a decidir a sua sorte. O campo de batalha é célebre. O caminho do litoral,
prosaicamente batizada Estrada n° 7, é a Via Appia. O do interior, n° 6, é a
Via Latina ou Cassilina. Militarmente falando, nenhuma das duas é boa. A
estrada do litoral atravessa vários desfiladeiros e passa por planícies
inundáveis. A estrada do interior passa pelo Volturno, em Cápua, e pelo
Rápido, em Cassino, atravessando em todo o seu percurso um terreno
extremamente acidentado. Além do Cassino, abre-se o vestíbulo de Roma, o vale
Latino, ou vale do Liri, que é dominado pela mãe das abadias beneditinas,
soberbamente construída na fortaleza natural do monte Cassino. Depois da vitória de Salerno e da tomada de
Nápoles, a conquista de Roma é calculada para a segunda metade de outubro. O
desencanto vem logo. A doçura italiana é uma máscara. O país real é uma
montanha interrompida, pobre em estradas, na qual um outono precoce
diversifica torrentes de chuva, depois que um rude inverno enterra tudo sob a
neve. O exército americano é muito pesado para uma infra-estrutura
mediterrânea: estradas interrompidas, unidades enterradas, abastecimentos
entravados, etc. De resto, o inimigo não se retira, como se imaginava
ilusoriamente depois da queda de Nápoles. Trava um duro combate, a fim de
ganhar tempo para construir uma muralha. O traçado escolhido por Kesselring para essa
muralha tem por origem a embocadura do Garigliano, no golfo do Gaeta, e acaba
no Adriático, na embocadura do Sangro. De uma costa à outra, a posição
(Gustavstellung) adere a montanhas de 1.559 a 1.669, 2.070, 2.252 metros, que
procuram vistas e facilidades de tiro nas margens meridionais mais baixas do
Garigliano, do Rápido e do Sangro. A organização Todl dirige os trabalhos, e
os batalhões de trabalhadores levados pelo governo neofascista fornecem a mão
de obra. Todos os recursos da fortificação semipermanente foram utilizados,
notadamente para puxar o ferrolho poderoso diante da entrada do vale do Liri,
em Cassino. Enquanto os trabalhadores italianos constroem a
linha Gustav, os combatentes alemães fazem-nos pagar o acesso. A conquista
das posições avançadas, ou linha de inverno, exige do 5o Exército
americano e do 8o Exército britânico um longo combate disputado
passo a passo. De 15 de novembro a 15 de janeiro, o terreno ganho pelos
americanos não ultrapassa 15 km. Os ingleses avançam ainda mais lentamente.
Os chefes negaceiam em pagar o preço do sangue. Explicam aos generais
americanos que a Inglaterra esgotou seu potencial humano e que se aplica a
limitar as perdas, não apenas porque as substituições se tornaram difíceis,
mas ainda porque é preciso pensar no futuro econômico e demográfico de seus
país. Em número de grandes unidades, os adversários
estão em igualdade. Se bem que agora tenha sob suas ordens a totalidade das
forças alemães na Itália, ou Grupo C, o Marechal Kesselring não pode dispor
livremente do 14o Exército, pois Hitler continua a pensar num
desembarque no golfo de Gênova. A luta é mantida unicamente pelo 10o
Exército, comandado por Von Vietinghoff e elevado a 12 divisões por um
reforço de 3 divisões, em que uma, a 5a de Montanha, chega da
tundra finlandesa. Mas as divisões alemães são reduzidas a seis, ou mesmo a
quatro batalhões de infantaria, cujo efetivo não ultrapassa 400 homens.
Kesselring estima em 3 por 1 a superioridade inimiga em efetivos e em 10 a 1
a superioridade em potência de fogo. Do lado aliado, o 8o Exército conta com
4 divisões britânicas e 1 divisão canadense. O 5o Exército conta
com 4 divisões americanas e 3 divisões inglesas. Os dois exércitos são
reunidos no 15o Grupo de Exércitos, comandado por Sir Harold Alexander,
que é subordinado ao comandante-chefe no Oriente Médio, outro inglês, Sir
Henry Maitland (Jumbo) Wilson. Eisenhower, designado para a Operação
Overlord, deixou o Mediterrâneo, e Montgomery, que lhe é dado como
lugar-tenente, está prestes a segui-lo. Em meados de novembro, a vanguarda de um poderoso
reforço, a 2a Divisão de Infantaria marroquina, 2a DIM,
desembarca em Nápoles. Na Tunísia, o Exército francês tinha combatido com sua
organização de armistício, com seu material antigo e insuficiente. Reaparece
na Itália, reaparelhado por seus aliados. Doloroso renascimento do Exército francês Esta reaparição é o fruto, aliás tardio, dos
acordos de Anfa, concluídos, perto de dois anos, entre o General Giraud e o
Governo dos Estados Unidos. Previam a constituição de um exército de 3
divisões blindadas e de 8 divisões de infantaria motorizada, assim como de
uma aviação de 500 aparelhos de caça, 300 bombardeiros, 200 transportes, etc.
Os efetivos em vista eram da ordem de 400.000 homens, e esperava-se atingir a
proporção de um europeu para dois muçulmanos norte-africanos. Este programa, Giraud apressa sua execução com uma
energia cega. Dando-se como divisa “Uma só finalidade, a vitória”, seu ideal
é unicamente voltar ao combate. Ultrapassa os acordos de Anfa, constituindo
unidades de elite, o Corpo Franco da África, o batalhão de choque e sobretudo
os Tabors marroquinos, que eqüivalerão a uma forte divisão. Infelizmente, as
cruéis desavenças francesas atrasam e comprometem a ressurreição militar da
França. A 3 de junho de 1943, a dualidade da França
exterior cessou teoricamente. Chegando à Argélia quatro dias antes, o General
De Gaulle divide com o General Giraud a presidência do Comitê de Libertação
Nacional. Mas trata-se, mesmo sob o ponto de vista militar, de uma
justaposição e não de uma fusão. Dois exércitos franceses hostis se rivalizam
sob os olhos dos americanos, fatigados. Um se cobre de glórias de Bir-Hakeim
e se prevalece da opção heróica que tomou no momento em que tudo parecia
perdido. O outro, nascido do exército de armistício, marcado pelo juramento
que prestou ao Marechal Pétain, é penetrado pelo ressentimento deixado por
Mers el-Kebir, Dacar e São João d’Acre. O menos numeroso, o exército
degaullista, é o mais agressivo. Lança-se a uma campanha de desmoralização,
pregando o desprezo dos oficiais que foram soldados de Vichy. A rivalidade se
transporta até Nova Iorque, onde o couraçado Richelieu, enviado para ser
concluído nos estaleiros de Brooklyn, perde 120 homens de sua tripulação que
os agentes degaullistas, homens e mulheres, recrutam para a frota da França
Livre. Uma fusão dos dois exércitos franceses, enfim decidida a 22 de junho,
só fará sentir seu efeito lentamente. Roosevelt segue a querela francesa com irritação.
Adverte Churchill de que não “permitirá a De Gaulle, pessoalmente ou por seus
partidários, fazer passar o Exército francês para seu controle”. Convida
Giraud a ir aos Estados Unidos e o recebe com deferências quase idênticas às
devidas a soberanos. A seus olhos, De Gaulle persegue com uma energia
inflexível e uma grande elasticidade de escrúpulos a finalidade de ser o
único senhor, e o perfil de um ditador novo, numa Europa que ainda não está
livre de seus ditadores antigos, se afigura para o futuro. É por isso que o
Presidente pensa várias vezes em deter o rearmamento francês. Algumas
divisões a mais na ordem de batalha aliada não valem, pensa ele, que se forje
novamente um exército para um poder totalitário em embrião. Um acontecimento repentino, a liberação da
Córsega, precipita as evoluções em curso. Conseqüência da capitulação
italiana, a ordem de evacuar a ilha foi dada por Hitler a 12 de setembro. A
90a Divisão de Granadeiros Blindados, com a Sardenha, e a Brigada
SS Reichsfuhrer, guarnição da Córsega, retiram-se para Bastia, porto de
embarque para Elba e o continente. Positivamente em sua casa na Córsega, o
maquis inquieta as colunas alemães e pede ajuda. Bem no desembarque de
Salerno, americanos e ingleses se declaram fora de estado de intervir, mas
Giraud, que prepara de longa data um desembarque na Cósega, precipita o
movimento com suas forças próprias. A 13 de setembro, à uma hora da manhã, o
fugitivo de Toulon, o submarino Casabianca, depõe no cais de Ajaccio, já
liberado, 100 homens do batalhão de choque, vanguarda de um pequeno corpo
expedicionário de 15.000 homens que os cruzadores Montcalm e Jeanne-d’Arc, os
destróieres Fantasque e Terrible trazem nos dias seguintes. A intervenção foi
precedida por uma atividade subterrânea, entremeadas de lutas políticas corsas,
e na qual os serviços degaullistas e giraudistas são ignorados. De Gaulle,
diante do fato consumado da expedição, declara-se “descontente e prejudicado”
e adverte que examinará “as conseqüências que se impõem”. Na Córsega, as coisas se passam convenientemente.
Giraud vai pessoalmente para lá, organiza entre o General Martin, comandante
da expedição, e o General Mogli uma cooperação franco-italiana. Os alemães
são obrigados a se bater em volta de Bastia para cobrir o embarque. A 4 de
outubro, os goumiers (forças compostas de marroquinos do Exército francês)
entram na cidade, quatro horas depois da partida do último membro da
Wehrmacht. As perdas francesas para a libertação do primeiro departamento
metropolitano se elevam a 72 mortos e 270 feridos. À relação do OKW, Hitler
exprimirá ao General Fridolin von Senger und Etterlin, “seu mais alto apreço”
- pela brilhante conduta na retirada. A marinha e a aviação americana
deixaram 3.000 homens atravessar impunemente um braço de mar, com a maior
parte de seu material. As “conseqüências” anunciadas por De Gaulle são
prontamente vistas. Desde o início de outubro, uma reorganização do Comitê
Nacional elimina Giraud da co-presidência. Ele aceita o fato, aspirando a
aquartelar-se nas funções militares que lhe são abandonadas. O passo decisivo
para a queda está dado. Nesse meio-tempo, o programa de Anfa atravessava
crise após crise. Os franceses se declaravam afogados pela organização
americana, aturdidos diante de serviços que comportavam até lavanderias de
campo, objetos de risadas. Os americanos reprovavam os franceses por terem
pedido mais divisões do que podiam preencher com os recursos humanos
quantitativos e qualitativos, que possuíam. As rivalidades francesas renascem
a cada passo. O reequipamento da 1a DFL foi motivo do primeiro
conflito entre o General De Gaulle e o Comitê. Permite a Giraud medir a
vaidade de um título de comandante-chefe, que ele não guardaria muito tempo. Em novembro, nenhuma das divisões blindadas
previstas pelo plano de Anfa está totalmente formada. Várias outras ficaram
no limbo, por falta dos serviços correspondentes. As duas únicas prontas são
a 2a Divisão de Infantaria marroquina, 2a DIM, e a 3a
Divisão de Infantaria argelina, 3a DIA. Reunidas sob o comando do
General Juin, reforçadas por um grupo de Tabors, elas são enviadas à Itália e
colocadas à direita do 5o Exército, no centro da bota, nos
Abruzzos, parte mais montanhosa e mais rude da frente. Derrota em Anzio e vitória em Cassino No momento em que o Exército francês aparece na guerra
da Itália, americanos e ingleses acabam duramente a conquista da linha de
inverno. Sob massas de água, o 10o Corpo britânico e o 2o
Corpo americano levam 10 dias para tomar Camino, maciço de 900 metros de
altitude pendente do Garigliano. O monte Sammucro, de 1.025 metros, e a
aldeia de San Pedro exigem igualmente 10 dias de lutas e milhares de
toneladas de bombas. Mais a leste, a 45a Divisão americana e,
depois, o Corpo francês travam combates intensos nos dois caminhos tortuosos
que ao pé dos montes Maio e Mare, de 1.259 e 2.021 metros, conduzem ao alto
vale do Rápido. A 15 de janeiro, depois de uma rápida progressão dos
marroquinos com a ala direita e a tomada do monte Troccio pelos americanos, a
Linha Gustav é atingida em toda sua extensão. As preliminares da marcha sobre
Roma acabam, portanto, três meses depois da data prevista para sua conclusão. Para Churchill, a mortificação é cruel. Sua
imaginação lhe havia fornecido a imagem do “ventre mole” do eixo do
Mediterrâneo. O ventre é de ferro! A esperança volta à batalha anfíbia, que deve
permitir a encurtar a rota trágica, o desembarque de Anzio-Netuno. Foi
decidido em Túnis, a 25 de dezembro, e confirmado a 8 de janeiro em
Marrakech, Havia-se primitivamente pensado num movimento acessório, associado
à segunda fase da marcha sobre Roma. Trata-se de um meio de fazer cair a dura
Linha Gustav, ultrapassando-a. O desembarque visa os montes Albanos, cuja
conquista cortaria as estradas 6 e 7, artérias do 10o Corpo
alemão. Os planos são refeitos e ampliados. O número de
participantes chega de 24.000 a 110.000. No lugar de uma divisão, é todo o 6o
Corpo, compreendendo a 1a Divisão britânica e a 3a
Divisão americana, que desembarcará na praia de Anzio e no porto de
pescadores de Netuno. O local é propício. Uma vasta planície, de percurso
fácil, se eleva regularmente até os cumes moderados dos montes Albanos. O
canal Mussolini, dreno principal dos antigos pântanos Pontinos, fornece um
largo fosso antitanques que cobre a direita do desembarque. As informações sobre
o inimigo dão conta de que este tem três divisões disponíveis na região de
Roma, dispõe do resto do 14o Exército em direção a Livorno e, além
disso, há possibilidade, para o Comando alemão, de chamar uma parte das
forças que ocupam o Sul da França e os Bálcãs. Mas a aviação aliada julga
estar apta a interditar, com uma destruição profunda da rede de comunicações,
a chegada de reforços ao campo de batalha. A preparação do desembarque começa, a 17 de
janeiro, por uma série de ataques tendo por fim fixar as tropas alemães da
Linha Gustav. O 10o Corpo britânico transpõe o Garigliano;
violentamente contra-atacado, guarda uma parte da cabeça-de-ponte que
conquistou ao pé do monte Faito e diante da aldeia de Castelforte. Três dias
depois, dentro da espessa bruma, uma divisão do Texas, a 36a dos
EUA, atravessa o Rápido em direção a Cassino; deverá cruzá-lo de volta 36
horas mais tarde, deixando na margem inimiga 875 prisioneiros. Ao norte de
Cassino, a 34a Divisão americana é um pouco mais feliz: tendo
igualmente atravessado o Rápido, consegue manter-se na outra margem. Mas a
ruptura dos diques inunda o vale e torna difícil a progressão dos americanos.
Eles ocupam as casernas de Cassino, mas não chegam a tomar a cidade. Com
tropas bem adaptadas à guerra de montanha, os franceses conseguem resultados
um pouco mais importantes: o 4o Regimento de Atiradores tunisino
conquista brilhantemente o Belvedere e o Abate. Os alemães retomam o segundo,
os tunisinos mantêm o primeiro, mas Juin não tem as forças necessárias para conquistar
Cifalco, cuja massa potente, fortemente defendida, pende de seu flanco
direito. Clark, de resto, não manteve sua idéia de romper profundamente a
Linha Gustav. Apega-se teimosamente à idéia de romper o ferrolho de Cassino,
com a convicção de que lhe é suficiente ter acesso ao vale do Liri para que o
caminho de Roma lhe seja aberto. As perdas do 5o Exército são pesadas e
a Linha Gustav está apenas roída. Por outro lado, uma nova inesperada reanima
as coragens: o desembarque de Anzio-Netuno foi executado sem combate. Um
ensaio da operação, alguns dias antes, na baía de Nápoles, tinha trazido a
confusão, provocado grande perda de material e feito temer um desastre. A
realidade foi menos custosa do que a ficção. A noite de 22 de janeiro estava extremamente
escura. As ondas de assalto tocaram a terra com uma precisão matemática. Os
alemães ficaram completamente surpresos. Os primeiros prisioneiros foram
quatro artilheiros num carro de estado-maior. Algumas companhias de
infantaria sem descanso, alguns velhos canhões de campanha italianos ou
franceses ensaiam uma resistência rapidamente quebrada. O porto de Netuno é
tomado intacto: 36.400 homens e 3.067 veículos são desembarcados já no
primeiro dia: o General Clark, o General Alexander e o General Donovan
precipitam-se em uma lancha PT e ligam-se, logo no início da manhã, ao
comandante do 6o Corpo, o General John Lucas, para gozar do
espetáculo. Ao meio-dia, as tropas atingiram seu perímetro de fim de jornada.
Dois milhões de panfletos chovem sobre Roma, anunciando a chegada dos
Aliados. Já no dia seguinte, os alemães se tranqüilizam. O
jornal do OKW dá conta de que o inimigo “está tranqüilo na cabeça-de-ponte” -
em vez de se precipitar para as estradas e vias férreas sem defesa pelas
quais flui o abastecimento dos defensores de Cassino. Hitler ordena ao 10o
Exército que fique na Linha Gustav e ao 14o Exército que “faça
desaparecer a verruga de Anzio”. As medidas preparadas em vista de um
desembarque na região de Roma, sob o nome de Fall Marder, entram em aplicação.
Nove divisões acorrem para o novo campo de batalha. Algumas vêm de Caríntia
ou de Provença, mas a Força Aérea Americana superestimou os danos infligidos
às estradas e ferrovias. Os transportes são às vezes retardados, jamais
interditados. Lucas deixou passar uma ocasião brilhante,
perseguindo burocraticamente a organização de sua cabeça-de-ponte, enquanto o
caminho de Roma estava aberto. Patton, que o visita, aconselha-o a fazer-se,
“se não matar, ao menos ferir gravemente, porque não se critica um general
ferido”. Churchill escreve que pensava ter lançado na praia de Anzio um “gato
selvagem, e não uma baleia encalhada”. Alexander diz, mais sobriamente, que
Lucas “apenas perdeu a oportunidade”. Clark, pelo contrário, substituindo
Lucas por Truscott, declara que teria sido temerário ocupar os montes Albanos
ou marchar sobre Roma. Condena da mesma maneira a própria expedição - absurda
se não possuía os meios apropriados à finalidade. A 1o de fevereiro, a Operação Anzio
fracassou. Os ataques sem convicção lançados contra Cisterna e Campoleone são
interrompidos por um primeiro afluxo de tropas alemães. A cabeça-de-ponte é
batida pela artilharia, notadamente por duas peças montadas sobre vagões
ferroviários, que tornam insustentável conservar o porto de Netuno. O 6o
Corpo perdeu 6.487 homens, entre mortos, feridos e desaparecidos. Recebe um
reforço da 1a Divisão Blindada e da 45a Divisão de
Infantaria americana, depois a 56a Divisão de Infantaria inglesa,
mas só há ordens defensivas: retrair-se para conservar a cabeça-de-ponte.
Esta mede 11 km de profundidade e 24 km de largura, e 150.000 homens a
enchem. A contra-ofensiva alemã começa a 3 de fevereiro,
sob a direção do comandante do 14o Exército, Eberhard von
Mackensen. No dia 10, o 1o
Corpo de Pára-quedistas e o 76o Corpo Blindado arrancam dos
ingleses a estação de Carroceto e o centro agrícola-modelo de Aprilia. No dia
16, Mackensen junta todas as suas forças, 61 batalhões, apoiados por 270
tanques, dentre os quais 75 Tigres. Hitler segue a batalha hora após hora,
sublinhando em cada relatório do OKW a necessidade militar e política de uma
vitória total. Atacando sem preparo de artilharia, o regimento de aplicação,
Infanterie Lehr Rgt, chega a romper as linhas aliadas de ambas as partes da
estrada de Albano, na junção da 1a Divisão britânica e da 3a
Divisão americana. O batalhão dos Loyals do North Lancashire se sacrifica
para impedir a exploração da brecha. No dia 19, às 14h30, o General Westphal,
chefe do estado-maior do Marechal Kesselring, deve-se resignar a fazer
conhecer ao OKW que o furor da resistência, a superioridade da aviação
inimiga e a artilharia dos navios de guerra não permitem jogar o adversário
ao mar. O ataque é suspenso. Retomada a 29, a contra-ofensiva alemã é de novo
paralisada a 1o de março. Repleto de trincheiras, coberto de
farpados, o triângulo Anzio-Netuno torna-se um setor da Primeira Guerra
Mundial. Hitler externa sua decepção. A disputa de Anzio é nula. Os Aliados
perderam a vez, mas os alemães não levaram a vitória de que precisavam. Na
Linha Gustav, a luta prossegue. Clark persevera em sua idéia de abrir caminho
de Roma, fazendo saltar o ferrolho de Cassino. Três dias antes da data fixada para o ataque,
Freyberg impõe uma condição e levanta um problema: exige o bombardeio do
monte Cassino e a destruição da abadia. Encarapitada num rochedo, cuja única via de acesso
é uma estrada vertiginosa, a abadia não interrompeu sua vida de oração. Os
frades uniram-se em torno de seu abade-bispo octogenário, Gregório Diamase.
Os tesouros da erudição e da arte foram transportados, pelos cuidados do
Exército alemão para a cidade do Vaticano. Multidões de refugiados acorrem
para esse local elevado, completamente cercado pelo furor da guerra, mas
alçado sobre ela como a trégua de Deus. A pedido de Sua Santidade, Kesselring
fez traçar em volta da abadia um cerco de 300 metros de raio. É estritamente
proibido aos soldados alemães, mesmo feridos, atravessarem-no. Apenas um
transgrediu a detenção, o pio general Fridolin von Senger un Etterlin, que
quis ouvir a missa de Natal na cripta onde dorme São Bento. As disposições
escritas pelos religiosos estabelecerão que jamais houve, dentro da abadia,
nem guarnição alemã nem depósitos alemães. Na época, um testemunho único, mas de peso,
sustentava o contrário. O comandante-chefe do Mediterrâneo, Sir Henry
Maitland Wilson, teve a coragem de sobrevoar o monte Cassino a 75 m de altura
em seu Piper Cup. Afirma que viu antenas acima do mosteiro e movimento de
soldados alemães. Freyberg se apoia nessa afirmação do grande chefe para
reclamar o bombardeio da abadia. Clark consulta o comandante da aviação, Ryder, e o
comandante do 2o Corpo americano, Kayes. Um contesta o testemunho
de Jumbo Wilson e o outro atesta que os soldados jamais receberam um tiro de
fuzil partido da abadia. Clark, consequentemente, se opõe ao bombardeio,
mas Freyberg não é um subordinado comum. Comandando o corpo expedicionário
neozelandês, corresponde-se diretamente com o seu governo, que pode, a
qualquer momento, chamar seu contingente. Consequentemente, ele tem voz
forte. “Se - notifica ele a Clark - o senhor se recusa a bombardear o
convento, assume a responsabilidade de um fracasso eventual do ataque...”
Clark responde que manteria certamente sua recusa com relação a um general americano,
mas que deve levar em consideração a situação excepcional de Freyberg e
referir-se a isso a Alexander. Alexander, por sua vez, refere-se a Wilson,
que, na fé de seu perigoso reconhecimento pessoal, declara possuir a “prova
irrefutável” de que o mosteiro do monte Cassino está incluído no sistema
fortificado alemão. De qualquer forma, a conservação da abadia mais ilustre
da cristandade não podia ser posta na balança com a participação do Domínio
da Nova Zelândia na guerra. O bombardeio foi decidido e executado a 15 de
fevereiro. Os que disso foram testemunhas, como o General
Juin, guardam a impressão de um sacrilégio. Sob as 247 toneladas de bombas
lançadas por 142 Fortalezas Voadoras, com uma precisão rara, o velho mosteiro
pareceu literalmente ter entrado em erupção, expelindo um formidável cogumelo
de fumaça e chamas. Imediatamente depois da passagem dos grandes
bombardeiros, a artilharia pesada abriu fogo com todas as suas peças, depois
uma segunda onda aérea, composta de 82 B-25 e B-26, jogou sobre o monte
Cassino uma chuva de bombas de 100 kg. O cume reapareceu, coberto por uma
massa uniforme, semelhante às fantasias orográficas de Montpellier-le-Vieux.
A cripta que encerra o túmulo de São Bento foi poupada, assim como os
beneditinos ali refugiados. Mas o venerável abade, descendo ao vale, morreu
alguns dias depois. O bombardeio do monte Cassino somente serviu aos alemães.
Das ruínas do mosteiro, neutralizado na véspera, eles fazem uma cidadela, que
é ocupada pelo Fallschirmjäger Rgt n° 3, do coronel Heillmann. Poderosamente
reforçada de artilharia de exército, a divisão de que faz parte, 1a
de Pára-quedistas, do General Richard Heidrich, detém todo o setor do
Cassino. Deriva da 7a Divisão de Flieger, que começou a ganhar
fama a 19 de maio de 1940 nas superestruturas do Forte de Eben-Emael, mas
como, desde Creta, Hitler não acredita mais nos pára-quedistas, ela combate
como uma unidade comum de infantaria. O espírito da tropa e o gosto dos
feitos heróicos sobreviveram plenamente a esse sepultamento. Até o mês de abril, a luta por monte Cassino
torna-se uma pequena batalha de Verdun na qual cada elemento de trincheira,
cada pedaço de parede é bravamente disputado. Os Aliados podem permitir-se
desvios de munições, como os da última semana de março, no decorrer da qual
não atiram menos de 588.094 bombas - e entretanto o Corpo Freyberg se esgota
em esforços sangrentos. Todos os assaltos que lança em direção ao monte
Cassino fracassam. Em Cassino, ocupa a metade da estação, uma parte da área
norte, a colina do castelo. Os fracos progressos não molestam seriamente a
posição alemã. O acesso ao vale do Liri continua proibido. O caminho de Roma
continua fechado. O fim de abril traz de volta a calma. Como o
bolsão de Anzio, a frente do Rápido-Garigliano só conhece tomadas de postos
avançados. Mas os alemães não acreditam em uma paralisação durável das
operações e procuram frustrar as intenções inimigas. Uma das questões que vem no início do plano de
informações alemão é a seguinte: onde se acha o corpo expedicionário francês?
Ele recebeu duas novas divisões, a 1a Divisão Motorizada, ex-1a
DFL, comandada por Diego Brosset, e a 4a Divisão Marroquina de
Montanha, equivalentes a uma quinta divisão, e uma brigada blindada, que
elevam seus efetivos em 99.000 homens. Kesselring e seu chefe de
estado-maior, Westphal, pensam que a localidade desta sólida força designará
o setor principal da ofensiva. Mas, até aqui, só a 4a DMM está em
linha, numa frente muito extensa, na cabeça-de-ponte do Garigliano. Os outros
elementos do CEF parecem achar-se em volta de Nápoles - no descanso, talvez;
talvez em instância de embarque para a segunda operação anfíbia que os
alemães esperam em direção de Roma ou Gaeta. Kesselring esforça-se por evitar todos os riscos.
Faz preparar novas posições defensivas - a Linha Azul ou Gótica, barrando a
Itália ao nível de Florença; a Linha César, ao sul de Roma - e, imediatamente
na retaguarda da frente, a Linha Adolf Hitler, que o Fuhrer faz rebatizar e
que toma mais modestamente o nome de Senger-Riegel (Ferrolho Sanger).
Constitui reservas: as divisões blindadas n° 26 e Hermann Goering, as
divisões de Pz G 15, 29 e 90. Mas o Estado-Maior alemão só espera a ofensiva
a partir de 25 de maio. É a razão pela qual o comandante do 14o
Exército, Von Vietinghoff, e o comandante do 14o Pz K, Von Sanger,
partem para receber na Alemanha as folhas de carvalho ganhas na defesa de
Cassino. No decorrer da noite do dia 10 para o dia 11, um
desertor marroquino atravessa as linhas e anuncia uma grande ofensiva para a
noite seguinte. Mas o que ele conta é mal compreendido e não se dá a devida
importância. A noite seguinte começa como as que se precederam.
O dia foi nublado e choveu. A frente está quase silenciosa. A lua deve
levantar-se às 23h31. Às 23 horas, a um sinal dado diretamente de Londres
pela BBC, o horizonte transforma-se em brasa. Rugem 2.000 bocas de fogo. A
ofensiva sobre Roma ultrapassa as previsões de Kesselring Pouco faltou para que deixasse de ocorrer essa
ofensiva sobre Roma. A derrota de Anzio e a vã sangria de Cassino haviam
desencorajado o Comando aliado. Aproxima-se a data da Operação Overlord e as
disposições convencionadas em Teerã prevêem que o desembarque na Provença
(Operação Anvil) se faça simultaneamente com o desembarque da Normandia, e os
americanos insistem para que o programa seja respeitado. Mas a Operação Anvil
deve ser adiada, por falta de meios marítimos suficientes e, a 9 de abril, o
Comitê combinado dos chefes de estado-maior fixa para os exércitos de
Maitland Wilson a missão de cooperar na Operação Overlord, “destruindo ou
imobilizando no Mediterrâneo o máximo de forças possíveis”. A marcha sobre
Roma torna-se uma contribuição antecipada à marcha sobre Paris. Para uma nova ofensiva, a articulação dos
exércitos da Itália foi modificada. Um corpo independente encarrega-se da
frente do Adriático. O 10o Corpo britânico, que ocupava a esquerda
do dispositivo aliado, é transportado para o centro, do baixo Garigliano ao
alto Sangro, e transferido para o 8o Exército, passado às ordens
do General Leese. Com o 2o Corpo polonês e o 13o Corpo
britânico, Leese estende sua ala esquerda à embocadura do Liri, só deixando a
Clark e a seu 5o Exército uma frente estreita sobre o Garigliano.
O CEF, que os serviços de informação alemães crêem em Nápoles, é concentrado
além do riacho, em frente ao monte Majo e a Castelforte. O 2o
Corpo americano, cujas duas divisões novas, a 85a e a 88a,
ainda não viram uma batalha, prolonga o Corpo francês até o mar. O 2o Corpo polonês, o 13o
Corpo britânico, os corpos expedicionários franceses, o 2o Corpo
dos EUA, mais o 6o Corpo dos EUA, no bolsão de Anzio, são os
grandes atores coletivos da batalha. Diante deles, o 51o Geb. K,
no Rápido; o 14o Pz K, no Garigliano, o 1o Fall K e o
76o Pz K em volta de Anzio. No total, 22 divisões aliadas contra
18 alemães. O plano de Clark é heterogêneo. O 8o
Exército retoma por sua conta a abertura direta do vale do Liri. Formadas
depois das aventuras romanescas e cruéis, as duas pequenas divisões polonesas
do General Anders - ele próprio ex-prisioneiro político na URSS - devem fazer
o que não puderam realizar os americanos e neozelandeses: apossar-se do monte
Cassino. O 13o Corpo britânico deve atravessar o Rápido e, depois
de ter tomado e contornado Cassino, dar a mão aos poloneses na Via Cassilina.
No 5o Exército, enquanto o Corpo americano progredirá ao longo da
costa, em direção a Anzio, o corpo francês se livrará de duas tarefas;
primeiramente, conquistar o monte Majo, pilastra sul da posição alemã de
Cassino; em segundo lugar, abrir, pelos maciços de Aurunci e de Petrella, uma
brecha profunda, ultrapassando as organizações defensivas do Liri. Juin
insistiu para essa concepção, simétrica a que havia vãmente sustentado em
fevereiro, quando, depois da tomada do Belvedere, quis marchar sobre Atina,
em lugar de tomar o rumo de Cassino. Os primórdios do ataque anglo-polonês são pouco
frutuosos. Em três dias de combates, a 3a Divisão britânica e a 8a
Divisão indiana não chegam a tomar pé além do Rápido. Apesar de perderem
muito sangue, a 3a e a 5a divisões polonesas fracassam
totalmente diante da cota 593, que devem ocupar para abordar o monte Cassino.
Ataque e defesa são igualmente valorosos, mas a última palavra cabe aos
defensores. No setor francês, a totalidade do Corpo
Expedicionário está acumulada a oeste do Garigliano, na pequena planície do
Sujo. Ajuntamentos de material, baterias, postos de comando emaranham-se com
bivaques nos quais homens mal tem lugar para deitar-se. Mantido por centenas
de potes fumigatórios, um véu cinzento suja os uniformes e irrita as
gargantas, mas permitiu essa reunião temerária de um exército ao pé da
artilharia inimiga: os alemães nada viram. Seus canhões ficaram mudos, quando
uma contra-preparação no vale causaria perdas trágicas, desorganizaria toda a
operação. Quarenta minutos depois do início da tempestade de
aço, a infantaria parte para o ataque. A surpresa, a violência da fuzilaria,
a neutralização das baterias, o isolamento dos postos de comando e a ruptura
das ligações não impedem que os soldados da 71a e da 94a
divisões alemães resistam com energia. Atacando à direita, a 1a
DMI é detida pelos lança-chamas automáticos e pelos fogos de flanco do monte
Girofano. Atacando à esquerda, a 3a DIA ganha um pouco de terreno
diante de Castelforte. O papel principal é reservado à 2a DIM, do
General André-Marie Dody. Partindo do monte Ornito, a 750 m de altitude, seus
atiradores se agarram a penhascos pedregosos cobertos de urzes, que eles
escalam engatinhando. Os do 4o RTM despedaçam-se diante das
fortificações do monte Cerasola. Os do 8o RTM se lançam sobre a
longa aresta do monte Faito, atingem o cume e ali se mantém. Na madrugada do
dia 12, o ganho mais importante do CEF e de todo o 5o Exército é
um dedo de luva de cerca de 1.500 m de largura dominando a depressão de Mass
Ruggero. O monte Majo, posição-chave, continua em poder do inimigo. No começo da manhã, Juin vem ver pessoalmente as
coisas. Sob as bombas de morteiro, sobe ao cume do Ornito. Está inquieto,
teme que o entusiasmo dos marroquinos seja quebrado. A coisa, diz ele, vai
mal; é preciso consertá-la. Às 3h20 da noite do dia 13, 18 grupos de
artilharia recomeçam a martelar as posições alemães. Às 4 horas, depois às 8,
o 5o RTM, regimento reservado da 2a Divisão marroquina,
parte para o ataque sobre os dois eixos da véspera. À direita, o 3o
Batalhão domina o inimigo, toma o Cerasola, apaga os fogos que bloqueavam a
progressão da 1a DMI em direção ao Liri. À esquerda, no Faito, um
contra-ataque inimigo extremamente resoluto retarda até às 10h45 a participação
do 2o Batalhão na ofensiva. Enfim, ele parte. Do Ornito, vêem-se
pequenas colunas partir do Faito, transpor os penhascos do Feuci, atingir seu
cimo, desaparecer na depressão que o separa do Majo, reaparece no meio das
explosões no flanco desnivelado do Majo. Espera-se a reação inimiga a
qualquer minuto... Nada de produz. O contra-ataque sobre o Faito,
detido pelo 8o RTM, era o supremo esforço alemão. Uma ordem de
recuo geral seguiu-se ao revés. Os alemães retiraram-se desordenadamente do
funil de Mass Ruggero, não disputam o Majo a não ser por tiros esparsos. Às
15 horas, o cume, a 940 metros, é atingido. Pouco mais tarde, o ruído de uma
aclamação que explode no vale chega até os combatentes das primeiras linhas:
hasteada pelo ajudante-de-ordens Pomiès, com os prisioneiros alemães dando a
mão-de-obra, uma grande bandeira tricolor, visível em toda a região,
materializa a tomada decisiva do monte Majo. Desde então, a batalha pela posse de Roma toma
ritmo rápido. No dia 13, a 1a DMI atinge o Liri e, no dia 24,
progride, à margem direita, até San Giorgio. Na outra ala do corpo
expedicionário, a 2a DIA, do General De Monsabert, apossa-se de
Castelforte, abrindo caminho para o grupamento chamado Corpo de Montanha,
que, sob o comando do General Guillaume, reúne os Tabors e um regimento da 4a
DMM, num total de 12.000 homens e 4.000 mulas. São eles que constituem a
força designada para abrir a profunda brecha e a ampla operação de “limpeza”
previstas por Juin. Homens e animais, esses montanheses reencontram a montanha.
Entram por trilhas de cabras na cadeia do Aurunci, escalam o monte Rotondo,
descem o vale do Ausente. Uma barragem colocada pela 15a Pz, detém
um de seus subgrupamentos, mas este a contorna e, com a ajuda da 3a
DIA, prossegue sua marcha de viés em direção à Via Cassilina. Os dois outros
subgrupamentos atravessam o Ausente, sobem novamente o maciço de Petrella,
tomam no dia 15 o monte Revole, e no dia 18
cortam a principal linha de comunicações do 10o Exército
alemão, a Estrada de Pico em Itri. Os atiradores percorrem 60 km em linha
reta, e certamente o dobro ou o triplo nos dentes de serra do relevo. A surpresa do Comando alemão é total. Considerando
Aurunci impraticável a um ataque, Senger und Etterlin limitara-se a resistir
barrando os corredores com fracos destacamentos. Estes são contornados pelas
cristas, cercados e capturados. A única contribuição do motor à operação é um
reabastecimento aéreo, que, aliás, fracassa parcialmente. No meio da guerra
mecânica e metódica se insere um capítulo da guerra pedestre - e, por um
curioso contorno das coisas, é esse arcaísmo que reencontra a mobilidade. A
Linha Gustav, que havia resistido quatro meses a assaltos frontais e a uma
imensa despesa de material, cai em quatro dias, diante de uma incursão. De um lado e do outro da penetração francesa, tudo
desmorona. O 2o Corpo americano avança rapidamente ao longo da
costa, toma Itri, ocupa Gaeta, e, no dia 25 faz junção com o 6o
Corpo, que arrebentou o fundo da bolsa de Anzio. Em Cassino, largamente
ultrapassado, os poloneses lançam contra a abadia novo ataque sangrento e
supérfluo, mas os pára-quedistas alemães só se inclinam ante uma ordem
pessoal de Kesselring obrigando-os a abandonar “seu” Cassino para fugir a
toda pressa pela Via Cassilina, ainda aberta. Tendo usado reservas, o Comando
alemão já não pode empreender ações de retardamento. Vivos combates
desenrolam-se em Pico, em Cisterna, em Valmontone, em Velletri. Mas a sorte
está lançada. Os alemães retiram-se de Roma, da qual o 6o e o 13o
corpos americanos se aproximam pelas estradas de sudoeste, enquanto a CEF e o
8o Exército britânico ultrapassam a cidade pelo leste. A 4 de junho, às 18 horas, o Combat Command A, da
First Armoured Division, atravessa a Ponte San Giovanni, no meio de uma
multidão que, diz um oficial americano, “consegue o que os alemães jamais
conseguiram: deter nossos tanques”. ... Todos os muros da Europa ocupada estão
cobertos por cartazes de propaganda que ilustram a marcha sobre Roma: um
caracol cujos “chifres” arvoram uma bandeira dos Estados Unidos e uma
bandeira inglesa. Equipes requisitadas arrancam precipitadamente os cartazes.
O caracol chegou. |