Tópicos do
capítulo:
Iminente a
invasão da Europa
O exército alemão
do Oeste: uma torre de Babel
Ordem de Hitler a
Rommel: conserve o litoral
Ordem de batalha
da Wehrmacht. As V1
Fraqueza da
Kriegsmarine e da Luftwaffe
Eisenhower e a
preparação da operação Overlord. Os Malberry-ports
4 de junho:
Churchill informa a De Gaulle, irritado
Decisão crucial
para o Alto-Comando
As cinco zonas de
desembarque
Hora H dos
pára-quedistas
Primeira hora: aí
vem os planadores
Dificuldades para
os americanos
Proibido
despertar Hitler
De
Sainte-Mère-Eglise a La Roche-Guyon
Últimas horas: a
embriaguez da vitória. De Gaulle fala
Obra-Prima Essas democracias qualificadas de tagarelas, atormentadas por uma imprensa indiscreta e por parlamentares inquisitoriais, escondem melhor seus segredos militares do que um Terceiro Reich cuja regra primordial é que cada um não deve ser informado senão do que lhe concerne diretamente. A invasão da Europa é certa e iminente - e contudo as intenções aliadas se mantêm envoltas em uma obscuridade total. A única coisa que os alemães sabem com certeza é que uma formidável expedição se prepara na Inglaterra, tudo o mais se mantém desconhecido. Por não saber, os alemães tentam deduzir. No mês
de abril, as restrições às viagens aéreas civis à Inglaterra, a
intensificação dos ataques aéreos, o quadro das fases da lua e das marés
fornecem ao Comando Supremo Oeste (OB West) os elementos de um estudo que lhe
permite fixar, “de uma maneira certa”, a data do desembarque para o dia 18 de
maio. Passado o 18 de maio, os especialistas sustentam que, por uma razão
desconhecida, os Aliados deixaram passar essa data propícia e que o perigo de
invasão se transfere para o mês de agosto. O local tem ainda mais importância do que a data,
porque condiciona as disposições gerais da defesa. Não que os Serviços
especiais não possuam indicações; ao contrário, recolhem uma multidão delas,
porém frágeis e inconciliáveis. Da Grécia à Noruega, todas as costas
européias, inclusive as da Espanha e Portugal, são designadas sucessivamente
como as portas de entrada da invasão. No começo de 1944, a Abt. Fremde
Heere-West declarou-se convencida de que os preparativos aliados na Mancha
são uma simulação e que o verdadeiro desembarque se produzirá em outro local.
O caso Anzio permite acreditar que esse outro local é o Mediterrâneo, mas
depois as idéias evoluem, e no dia 27 de abril, o serviço de
contra-espionagem alemão designa a Noruega. Um mês depois, transfere para a
Mancha as intenções inimigas: “A ilha de Wight - diz a síntese do dia 23 de
maio - marca o centro dos preparativos de invasão. O litoral, do Escalda à
Normandia, assim como a costa norte da Bretanha devem ser considerados como
os setores mais ameaçados...” De Antuérpia a Brest, abre-se um grande leque. O
Comando alemão procura fechá-lo. Hitler, depois de ter por muito tempo
acreditado em um desembarque nos Bálcãs e, em seguida, na Noruega, pensa
bruscamente que as duas penínsulas francesas, cada uma terminada por um
grande porto, Bretanha e Cotentin, são as zonas mais tentadoras para um
invasor. Esta maneira de ver encontra uma maioria de
contraditores. A Marinha elimina o Calvados, por causa de seus rochedos. O
Exército crê que os Aliados escolherão a mais curta travessia marítima, bem
como o mais direto itinerário em direção ao Ruhr. A Força Aérea pensa que a
duração da intervenção dos caças, com base na Inglaterra, determinará a ação
aliada. O passo de Calais ou, de maneira mais geral, o litoral de Ostende até
o Somme são considerados, assim, como o mais provável caminho de invasão da
Fortaleza Europa. Da defesa, da guarnição dessa Fortaleza Europa, as
imensas batalhas da frente oriental fazem um problema irritante. É difícil
para a Alemanha ter um exército à mercê de todos os horrores do clima e da
guerra russos, e um exército que, na doce França, conhece apenas as tarefas
tranqüilas da ocupação. Uma rotação regular, solução eqüitativa, tornou-se
demasiado onerosa devido à distância. As transferências de oeste para leste,
e vice-versa, só se fazem sob a exigência das crises, das necessidades
prementes da frente oriental. O Leste absorve os mais vigorosos elementos do
oeste e lhe envia, em lugar destes, as sobras. Os homens que sofreram mutilações que não os
liquidam totalmente, os que sofreram queimaduras de terceiro grau provocadas
pelo frio, os afetados por perturbações visuais, auditivas, respiratórias são
designados para o Oeste. Uma divisão inteira, a 70a DI, compõe-se
de dispépticos, aos quais é preciso dar uma alimentação especial e pão de
regime. Nas divisões estáticas, a média de idade ultrapassa quarenta anos.
Muitos oficiais são cegos de um olho, manetas, pernetas, cinqüentões ou
sexagenários. A terrível sangria sofrida pela Wehrmacht na frente oriental -
2.086.000 homens fora de combate em 1943 - faz-se sentir por uma baixa
profunda dos padrões físicos e militares do Oeste. Uma mistura intensa acompanha essa degradação da
qualidade. As contradições de Adolf Hitler são espantosas. Partiu do
princípio que “só alemães devem empunhar armas”; contudo, chegou a comandar o
mais mesclado, o mais cosmopolita dos exércitos que existiu desde Xerxes. A Waffen SS, originalmente a própria expressão do
germanismo racial, foi o primeiro instrumento desta multinacionalização da Wehrmacht.
Esta se abriu aos voluntários ocidentais desde 1940, em virtude de uma idéia
pessoal de Himmler, através do Regimento Germânia, que se tornou a Divisão
Viking. As divisões Carlos Magno, Wallonia, Flandern, Nederland e Nordland
trouxeram, em seguida, contribuição francesa, belga, holandesa, escandinava,
etc. - sem prejuízo para unidades distintas da Waffen SS, como a Divisão
Azul, espanhola, e a Legião de Voluntários, francesa. Os nomes, de resto, não
nos devem iludir. Ou bem as divisões estrangeiras são apenas fracos grupos
(700 homens na Divisão Wallonia, de Léon Degrelle, em março de 1944), ou bem
são completadas por tropas puramente alemães. Modesta contribuição numérica,
determinada pela ideologia ou pelo aventureirismo, elas não causam problemas,
combatem na frente oriental e lutarão desesperadamente até o fim. O caso do Leste é muito mais complicado. Vlassov
fracassou. Surgiu, mesmo, perto de um milhão de voluntários, mas a oposição
de Hitler à constituição de um exército nacional russo não esmoreceu e, com a
reviravolta da sorte nas armas, o momento favorável escapou. Vlassov continua
congelado na sua mansão de Berlim-Dahlerus, cercado de um pequeno grupo de
alemães desapontados. Recebeu o título de General der Osttruppen, mas é
através de outros que o Terceiro Reich tenta utilizar o potencial humano do
Leste. Uma primeira noção é a das minorias
antibolchevistas e anti-russas: formam as Osttruppen propriamente ditas,
unidades cossacas, ucranianas, georgianas, azerbaijanas, mongóis, etc., recrutadas
ou no próprio local, ou ao sabor das conquistas, ou nos campos de
prisioneiros. Uma segunda noção é a dos Volksdeutschen, indivíduos
presumidamente de origem alemã, mas de países não germânicos. Dá-se-lhe uma
oportunidade de adquirir a nacionalidade alemã, depois de um período
probatório de dez anos, e, enquanto aguardam, concede-se-lhes a honra de
incorpora-se na Wehrmacht. Servem na proporção de 8 para 100 dos efetivos,
nas unidades ordinárias, mas suas possibilidades de promoção não ultrapassam
o posto de soldado de primeira classe, Gefreite. Volksdeutschen ou Osttruppen, esse auxiliares
desaparecem progressivamente da frente oriental, onde a confiança que
inspiram decresce com a repetição das derrotas. Encontramo-los no exército do
Oeste. No começo de 1944, 76 batalhões, um sexto da infantaria, consistem em
Osttruppen, dando às populações espantadas o espetáculo desses baluartes do
Reich ariano, caracterizados por traços asiáticos, e falando todas as
línguas, exceto o alemão. Nesta torre de Babel, esperando o golpe
libertador, o historiador oficial americano Harrison enumera os seguintes
povos: “Franceses, italianos, croatas, húngaros, romenos, poloneses,
finlandeses, letões, lituanos, norte-africanos, negros, asiáticos, russos,
ucranianos, rutênios, basques, norte-caucasianos, georgianos, azerbaijanos,
armênios, turcomanos, tártaros e fineses do Volga, tártaros da Criméia,
calmuques e até mesmo hindus”. É justo acrescentar que, com seus contingentes
de todo o Império Britânico e seus representantes de todos os países da
Europa, o exército da invasão não deve ser menos cosmopolita. Desde 1942, o Oberbefehlshaber West, o Marechal
Gerd von Rundstedt, chamou a atenção do OKW para as lacunas da defesa. Suas
advertências não começaram a ser levadas em consideração por Hitler senão a
partir do outono de 1943. “No Leste - diz a diretiva geral n° 51, datada de 3
de novembro - nos é possível consentir em perdas do território. No Oeste, o
problema muda de aspecto. Uma brecha inimiga numa vasta frente teria, em
curto prazo, conseqüências incalculáveis... Não é pois admissível que o Oeste
continue a ser enfraquecido, em benefício dos outros teatros de operação.
Decidi, ao contrário, reforça-lo”. A Muralha do Atlântico, ou Westwall,
torna-se um poderoso tema de propaganda. Milhões de europeus cativos estão
convencidos de que qualquer tentativa de invasão da Europa pelos
anglo-americanos irá bater num obstáculo intransponível e terminará em
desastre. A introdução de Rommel na técnica e na mística da
defesa do Oeste data do mesmo momento. Desapossado do comando da Itália por
Kesselring, lhe é confiada a missão de inspecionar as defesas do Atlântico,
depois o comando do Grupo dos Exércitos B, cujo setor se estende da fronteira
germano-holandesa até a embocadura do Loire. Seu nome constitui o segundo
argumento com que a propaganda nazista pretende demonstrar que os invasores
da Europa serão lançados ao mar. Rommel concebeu, sobre as formas da guerra
no Oeste, princípios táticos ditados por sua experiência africana. Todos os
aspectos da luta são comandados, todas as possibilidades da defesa são
limitadas pela acabrunhante superioridade aérea anglo-americana. Toda manobra
de vulto, todo movimento diurno, por conseguinte toda batalha de conjunto
contra um inimigo desembarcado, estão fora de cogitação. Se o desembarque for
um sucesso, a invasão processar-se-á. A única oportunidade é a se sustá-la no
exato momento em que ela deixa seus navios, acumulando as armas e os
obstáculos sobre o litoral próximo, dispondo as reservas a curta distância,
fazendo do contra-ataque automático a resposta a todo avanço. Assim, o general da guerra de movimento fica
restrito, pelas transformações das condições da batalha, a uma defesa linear.
Mas não tem, junto a seus pares, uma autoridade semelhante a seu prestígio
diante do público. Rundstedt duvida que “Rommel esteja realmente qualificado
para um grande comando”. Nota-se que lhe falta formação de estado-maior.
Vê-se nele um soldado de frente de batalha, que circunstâncias particulares
tornaram ilustre, e cujo, caráter foi estragado por bajulações. Guderian,
sobrepujado por ele na hierarquia e na glória, tenta discutir suas
concepções, e se encarniça “numa reação extremamente acalorada e
desagradável”. Comandando o grupo blindado, posto em reserva geral, Geyr von
Schweppenburg também combate as idéias de Rommel, considera que a peripécia
decisiva da batalha da França será o grande encontro dos blindados que se
seguirá ao desembarque, e insiste, assim, em conservar seu punhado de
Panzerdivisionen agrupado em sua mão, ao sul de Paris. Rommel, tenta, em vão,
obter que Geyr lhe seja subordinado. Querendo dirigir pessoalmente a batalha
do Oeste, Hitler obstina-se em manter o sistema de comando complicado e
dividido que instaurou. Sob um aspecto, as ordens de Hitler estão de
acordo com os preceitos de Rommel: a proibição de ceder um metro de terreno,
a obrigação, pois, de lutar com todas as forças no litoral. Uma razão
particular dita esta tática: depois de longas demoras, devido ao bombardeio
aliado, os engenhos Vergeltung (vingança), a bomba voadora V1, o foguete V2,
vão entrar em ação. Suas bases de lançamento, vizinhas das costas da Mancha,
devem ser conservadas a qualquer preço. A Muralha do Atlântico não é uma ficção. Mas não é
também o sistema de fortificações sem falhas descrito por Goebbels. Bolonha,
Havre, Cherburgo estão poderosamente organizadas. Algumas grandes obras foram
construídas no Passo de Calais, mas o resto é freqüentemente um esboço ou
apenas um desenho. Hitler pedira à Organização Todt 15.000 pontes de concreto
para o dia 1o de maio de 1943. Um terço apenas está pronto a 1o
de maio de 1944. De 547 canhões de costa, apenas 299 estão instalados em
casamatas. O tempo e os materiais faltam para completar o programa. O
Terceiro Reich, uma vez mais, pagou pelas aparências, demagogia e ilusões.
Para mitigar a falta de concreto, Rommel faz um prodigioso gasto de
atividade, de imaginação e de energia. Seu adjunto naval, o Almirante Ruge,
contou suas voltas febris, dia a dia, da Dinamarca à Provença, passando como
um vagalhão, sacudindo indolências com cóleras brutais ou com exortações
inflamadas, não vendo no Monte Saint-Michel senão seus abrigos, e sonhando em
mandar fazer, pela manufatura de Sèvres, arcabouços de minas de porcelana,
esquecendo-se de comer e de dormir, exigindo que todas as unidades
combatentes, inclusive os estados-maiores divisionários, fossem compelidos a
ir para o litoral. “A Hauptkampflinie, principal posição de resistência - diz
ele -, é o próprio litoral. Fortifiquem-no sem tréguas e lutem por ele até a
morte”. A intenção de Rommel é conseguir cobrir as costas
do Oeste com uma floresta de obstáculos que aniquilarão o entusiasmo dos
invasores. Uns, submarinos, outros, na orla das praias ou na zona da
retaguarda, propícias a um desembarque de transportes aéreos. Improvisa,
utilizando todos os recursos que lhe são possíveis ter à mão. As “grades
belgas”, fixadas no limite da zona descoberta pela maré baixa, não são outra
senão elementos De Cointet, que haviam sido tão ineficazes em 1940, contra
seus próprios carros. Os “ouriços tchecos” são feitos de trilhos soldados. Os
“tetraedos” são fabricados no local, com betoneiras ao acaso; os “cavalos de
frisa”, munidos ou não de minas ou de gumes para estripar as canoas de desembarque,
são cortados na floresta normanda. Para armar seus “aspargos”, estacas fixas
nas campinas contra as aterragens de planadores, Rommel desencava estoques
consideráveis de velhos obuses franceses, destruídos há muito tempo, segundo
se afirmava. Além do mais, desejaria minas terrestres, 100, 200 milhões de
minas terrestres, para transformar numa zona mortal uma faixa de 10 km ao
longo do litoral francês. A míngua de aço e de explosivos o impedirá de
colocar mais de 2 a 3 milhões de minas. Estranha esquizofrenia! Esse marechal alemão, que
faz tal esforço para rechaçar a invasão ocidental, sabe que a guerra está
perdida e que a única maneira de limitar o desastre consiste em eliminar
Hitler, antes da derrota extrema. O primeiro contato entre Rommel e a conjuração
anti-hitlerista data somente do mês de abril de 1944. Os conjurados hesitaram
longamente, antes de abordar um soldado cujo nome e cujas virtudes nazistas
foram tão exaltadas pela propaganda. Um companheiro da Primeira Guerra, o
burgomestre de Stuttgart, Karl Strölin, arrisca-se a falar-lhe, a pedido de
Gördeler. Rommel deseja refletir sobre o assunto e, alguns dias depois, toma
a iniciativa de uma segunda entrevista. Esta transcorre no dia 27 de maio, em Freudensradt, na Floresta
Negra, no domicílio do novo chefe do estado-maior do Grupo B, o
Tenente-General Dr, Hans Speidel. Rommel dá sua aquiescência à eliminação de
Hitler e à queda do regime. Em seguida, seria promovida a retirada das forças
alemães de todos os territórios do Oeste, reconduzir-se-ia o exército para a
Linha Siegfried; tentar-se-ia um entendimento com os ocidentais e, se
possível, de acordo com eles, pensar-se-ia num meio de manter os russos fora
das fronteiras ocidentais da Alemanha. Para o futuro, Rommel imagina uma
federação européia, fundada nos princípios cristãos. Todos os altos estados-maiores do Oeste se
envolvem no complô. Speidel é um dos elementos ativos. Geyr é atraído à
causa. Os dois comandantes territoriais, na Bélgica e na França, os generais
Alexandre von Falkenhausen e Heinrich-Karl von Stülpnagel, fizeram parte da
junta militar que já em 1938 tentara por Hitler sem ação. O único grande
chefe que fica à parte é Rundstedt. Detesta Hitler, tolera à sua volta as
mais sacrílegas palavras e, como outrora Hindenburg, despeja seu desprezo
sobre esse “cabo da Boêmia” - mas, embora saiba de tudo a respeito da
conjuração, recusa-se a tomar conhecimento dela. Sua atitude, diz, Speidel,
era “eine sarkästische Resignation”. Não concebia que um marechal prussiano
pudesse, em presença do inimigo, trair seu juramento e insurgir-se contra o
chefe do exército - mesmo sendo esse um Hitler. Rommel, por sua vez, opunha uma reserva aos
projetos dos conjurados: repelia o assassinato de Hitler, sustentava que este
devia ser entregue a um tribunal alemão e, com singular otimismo, chegava a
encarar a possibilidade de que Hitler consentisse na própria abdicação,
quando lhe demonstrassem que a guerra estava perdida. “unicamente depois de
termos esgotados os outros meios - dizia ele - é que poderemos passar à
ação!”. No dia 5 de junho, Rommel deixa, de automóvel, seu
QG, o Castelo de La Rochefoucauld, em La Roche-Guyon. Quer passar a noite em
casa, em Herrlingen, festejando o aniversário de sua mulher, e, no dia
seguinte, estar em Obersalzberg, para a audiência que obteve com o Fuhrer. O
diário que o capitão Aldiger mantém para ele anota que “as marés dos próximos
dias são muito desfavoráveis e que um desembarque não parece iminente”.
Segundo o mesmo documento, Rommel propõe-se esclarecer Hitler a propósito das
fraquezas de seu grupo de exércitos e pedir-lhe duas novas Panzer, um corpo
de DCA e uma brigada de lança-foguetes. Pensa ele em alguma outra coisa? Encara a idéia de
aproveitar sua conversa com Hitler para dizer-lhe brutalmente que tudo está
perdido e que é preciso encontrar uma solução final? Não se sabe. |
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Infantaria de bicicleta. Céu e mar vazios Neste 5 de junho, à noite, eis a composição, a
divisão e o valor das forças que esperam a invasão. Dois grupos de exércitos:
G, do Generaloberst Blaskowitz, e B, do Generalfeldmarschall Rommel. Comandante-chefe, Generalfeldmarschall Von Rundstedt. Grupo G: 1o Exército, do General Von
der Chevallerie, do Loire aos Pirineus; 19o Exército, do General
Von Sodenstern, de Port-Bou até Menton. No total, 21 DI, e uma reserva móvel composta da 9a Pz, da 11a
Pz, da 2a Pz SS e da 17a Pz Gr SS Grupo B: 88o AK, Holanda: 15o
Exército, Generaloberst Von Salmuth, do Escalda até Dive; Generaloberst
Dollmann, do Dive ao Loire. 25 DI, 3 divisões de pára-quedistas e uma reserva
móvel composta da 2a, da 21a e da 11a Pz. Reservas gerais, Generaloberst Geyr von
Schweppenburg: Pz SS n° 1, Pz SS n° 12, Pz SS n° 17, Pz Lehr, ou divisão
blindada de aplicação. Essas grandes unidades, estão à disposição exclusiva
do OKW, quer dizer, de Hitler. Hitler reserva-se igualmente o direito de
autorizar qualquer transferência de força de um exército para o outro, mesmo
no interior do mesmo grupo de exércitos. Com os engenhos V, os exércitos do Oeste
representam, na primavera de 1944, a grande esperança do Fuhrer. Acredita que
eles transformarão o desembarque num desastre, fazendo desaparecer por muito
tempo a ameaça anglo-saxônica. Poderá então antecipar, para o Atlântico, 50
divisões, que, lançadas contra a frente oriental, revolucionarão a balança
das forças e trar-lhe-ão a vitória. Para desempenhar este papel capital e de
acordo com as promessas de Hitler, os exércitos do Oeste foram reforçados. O
número das grandes unidades de Rundstedt, diminuído para 46, em março, no
momento da grande crise da frente ucraniana, elevou-se para 59. Contudo, as
necessidades do Leste são tão prementes, que a política de reforço do Oeste
está atravessada de contracorrentes. Precisamente no dia 5 de junho, o
General Bayerlein mandou em direção à Rússia muitos elementos da sua
excelente Panzer Lehr. Outras devem partir nos dias seguintes. Algumas
unidades de Rundstedt estão em muito boa forma. As divisões da SS estão, em
geral, pletóricas: 21.386 homens da 1a Pz SS, 17.950 na 9a,
etc. Por outro lado, uma dezena de divisões está em vias de reconstituição ou
mesmo de formação. Tenta-se igualmente melhorar as velhas divisões de
ocupação, restabelecendo-lhes um pouco da antiga mobilidade e modernizando
seus equipamento. Mas a Alemanha está realmente esgotada. O único
engenho que encontra para colocar alguns milhares de soldados de infantaria é
a bicicleta. A artilharia é quase completamente hipomóvel, vulnerabilidade
trágica numa guerra predominantemente aérea. O material é uma mistura de
origem alemã, francesa, tcheca, polonesa, italiana, russa, etc. Um general
assinala que os 57 automóveis de que dispõe pertencem a 50 marcas ou modelos
diferentes. Mais da metade das divisões, 32 em 59, mantém-se absolutamente
estática, Bodenständigendivisionen, atravancadas de homens gastos e contando
com um batalhão de Ostrruppen em cada três. Ora, esses grupos heterogêneos guardam setores
defensivos enormes: de 30 a 50 km, na Mancha, sem falar do Atlântico, que, de
Saint-Nazaire até Bayonne, conta apenas com duas divisões. Toda a costa de
Honfleur até Barfleur não é mantida senão pelas divisões 709a, 711a
e 716a, esta última reduzida a seis batalhões. A 709a
abrange no seu redor todo o Cotentin oriental, com apenas uma ponte de apoio
de concreto, em lugar as 42 que deveria possuir. Contudo, a maior fraqueza alemã não reside na
insuficiência de tropas terrestres: reside na impotência da Marinha e da
Força Aérea. A frota alemã de superfície está liquidada. Seu
último grande navio válido, o Scharnhorst, foi incendiado e afundado no dia
26 de dezembro, em plena noite polar, no decorrer de um ataque contra os
comboios do Ártico. Seu irmão, o Gneisenau, jaz como destroço no porto de
Gdínia e o Tirpitz, gravemente
avariado, está bloqueado no Kaatfjord. O Almirante Krancke tem sob suas
ordens 5 destróieres, parcialmente disponíveis e uns 15 S-boote, vedettes
lança-torpedos. Força ínfima, diante da armada que apoiará o desembarque. A frota submarina é ligeiramente mais convincente.
Krancke tem 22 submarinos nos portos noruegueses, 15 em Brest, 11 divididos
entre Lorient, Saint-Nazaire e La Pallice, mas muitos estão avariados e
somente 7 dispõem do schnorchel. Os que podem lançar-se ao mar estão em
estado de alerta, com as licenças suprimidas, torpedos embarcados,
compartimentos e reservatórios cheios. Podem, com sorte, infligir aos
invasores algumas perdas; mas não podem contribuir de maneira apreciável para
rechaçá-los. Quanto à aviação, a estimativa da superioridade
anglo-americana é de 50 para 1. Não é exagerada. Os 1.000 caças a jato
Düsenjager, prometidos por Hitler aos defensores do Oeste, não saíram das
fábricas. A 3a Luftflotte, comandada pelo Marechal Hugo Speerle,
tão truculenta no momento das vitórias, não conta, no dia 31 de maio de 1944,
senão com 891 aparelhos de toda natureza, entre os quais somente 497 podem
operar. O número de bombardeiros é de 150 e o de caças, 266. A 5a
Divisão de caças, agrupando metade destes últimos, é, aliás, mantida em Metz,
para tentar interceptar as esquadrilhas de bombardeiros aliados que arruinam
a Alemanha. É somente no momento do desembarque que deverá vir para bases nos
territórios do Oeste. Na realidade, a Luftwaffe está quase tão
completamente aniquilada quanto a Kriegsmarine. O esforço de Albert Speer
mantém e até desenvolve a produção das fábricas da aeronáutica, porém aviões
não bastam para fazer uma aviação. A penúria de combustível obriga a reduzir
de 260 para 110, ou mesmo para 50, as horas de treinamento de um piloto - e
as perdas por acidentes quase se igualam às perdas em combate. Uma ofensiva
incessante esmaga os campos de pouso; Nancy, Dijon, Avord, Saint-Dizier,
Evreux, Cormeilles, etc. Os generais alemães mais otimistas, como Geyr e
Rundstedt, persistem em acreditar que a superioridade aérea do inimigo não
bastará para imobilizar no solo o exército terrestre. Mas nenhum pensa que a
Luftwaffe possa disputar o domínio do céu. Desde o mês de março, este domínio se exerce
através de operações de uma intensidade extraordinária sobre a França e a
Bélgica. A ofensiva - prólogo evidente da invasão próxima - visa a inutilizar
a rede de comunicações e, particularmente, seu instrumento mais vulnerável, a
estrada de ferro. O Estado-Maior alemão procura ler o plano inimigo no mapa
dos bombardeios, mas estes são tão numerosos e tão dispersos que qualquer
conclusão é impossível. No dia 1o de maio, por exemplo, as
instalações ferroviárias atacadas foram as de Mantes, Montigny-sur-Sambre,
Douai, Monceaux, Valenciennes, Charleroi, Haine-Saint-Pierre, Saint-Ghislain,
Amiens, Arras, Troyes, Reims, Bruxelas, Liège, Sarreguemines e Metz. No
decorrer do mês os bombardeios não cessaram sobre toda a Bélgica e o Norte da
França, mas estenderam-se a Thionville, Mulhouse, Belfort, Epinal, Chaumont,
Etampes, Tonnerre, Creil, Oissel, Vernon, Juvisy, Maison-Laffitte, Rouen,
Melun, Conflans, Le Mesnil, Poitiers, Niort, Saint-Etienne, Nice, Antibes,
Lião, Cheburgo, Grenoble, Avinhão, Marselha, Nimes, etc. Que ler neste mapa
senão a prodigalidade de um inimigo bastante rico para camuflar suas
intenções atrás de uma cortina de bombas, que cai sobre a Europa, do
Mediterrâneo ao mar do Norte? O croqui recapitulativo de maio, indica, ao
norte do Loire, 495 ataques aéreos contra a rede ferroviária. Os atos de
sabotagem da resistência franco-belga acrescentam mais 29. No dia 4 de maio, o ataque às passagens do Sena
começa. Executado a baixa altitude pelos B-26 atirando bombas de 907 kg,
consegue um tal sucesso com um gasto de projeteis relativamente pequeno. No
fim do mês, todas as pontes sobre o Mantes são não apenas destruídas, mas
também conservadas em estado de destruição por visitas tão regulares quanto
as do carteiro. Novo índice de iminência da invasão. Os Aliados procuram
isolar um campo de batalha, interditando todo movimento de reforços de uma a
outra margem do rio. Se obedecessem à lógica rigorosa da guerra,
destruiriam também as pontes de
Paris, fariam da região parisiense um obstáculo, jogando às ruas os escombros
dos prédios. Abstêm-se. Muitos franceses se esquecerão de agradecer-lhes por
isto. Na quinta-feira, 5 de junho, o boletim
meteorológico divulgado pela Luftwaffe anuncia mar agitado, visibilidade
reduzida, ventos de 5 a 6 m/s, chuva abundante, condições que parecem excluir
a possibilidade de um desembarque. Um Kriegspiel, interessando a todo o 7o
Exército foi organizado em Rennes para o dia seguinte; é confirmado pelo
General Dollmann. Seu chefe de estado-maior, o Major-General Pemsel, pediu
aos participantes que não deixassem seus PC antes das 10 horas da manhã, mas,
conhecendo as dificuldades dos roteiros e assegurados pela meteorologia,
muitos partiram desde o fim da tarde. Ao 15o Exército, cujo PC se encontra em
Tourcoing, uma ordem de alerta é dada bruscamente às 22 horas. Alguns dias
antes, informado por um traidor cuja identidade se manteve desconhecida, o
Abwehr comunicou várias mensagens que devem ser dirigidas à Resistência
francesa nas 48 horas que precederão à invasão. Os serviços de escuta
radiofônicos os captam, principalmente os três últimos versos de um sexteto
de Verlaine, cujos três primeiros, transmitidos nos dias 1, 2 e 3 de junho,
constituíam, segundo a Abwehr, uma ordem preparatória. Do Escalda a Vire, as
guarnições das fortificações costeiras ficarão de prontidão. Menos vigilante
ou mais cético, o 7o Exército não reage. O Corpo da direita deste
7o Exército, o 84o AK, guarda a região compreendida
entre o Vire e o Monte Saint-Michel. Abrange as divisões estáticas 716, 709,
243, a 352a Divisão de Infantaria e a 91a Divisão de
Pára-quedistas. Seu comandante é o austero e competente General Erich Marcks,
cujo plano de campanha contra a Rússia foi repelido por Hitler, que o
detesta. Depois disso, Marcks deixou na terra russa uma perna de um olho. Ao bater meia-noite, no seu secretariado de
Saint-Lô, ele é surpreendido ao ver entrar três de seus oficiais, o Coronel
Von Criegern e os majores Hayn e Viebig, trazendo uma garrafa de Chablis. Vêm
pedir a um chefe severo, mas respeitado, a permissão de celebrar seu 53o
aniversário. A cerimônia é breve. O trabalho urge. Marcks deve pôr-se a caminho
ao primeiro clarão da aurora, como reza o Kriegspiel de Rennes. O tema é um
desembarque de pára-quedistas inimigos na Normandia. Esta é a face alemã do evento. E agora a face
aliada Gigantesco preparativo da Operação Overlord A preparação técnica da invasão da Europa foi
confiada, em dezembro de 1942, ao general inglês Frederick Morgan. O
estado-maior que o assessora é batizado segundo as iniciais de sua função:
COSSAC, de Chief of Staff Supreme Allied Commander. Durante um ano, até a
nomeação de Eisenhower, esse Comando permanece como uma estátua sem cabeça:
Morgan não sabe para quem trabalha, e isto é apenas uma das anomalias de sua
missão. As divisões que coloca em cena não existem, na maioria, a não ser em
esboço. O domínio do mar, condição sine qua non, é sempre disputado por
muitas centenas de U-Boote. Os navios e embarcações de desembarque das quais
se serve estão por construir, às vezes por desenhar. Além de tudo isso, o
conflito de pontos de vista estratégicos britânicos e americanos torna duvidoso
um desembarque na Europa ocidental. Morgan e seus oficiais tem a impressão de
que trabalham no irreal. No entanto, trabalham. O método é o seguinte: o
Comitê combinado dos chefes de estado-maior (CCS), com sede em Washington,
torna conhecidos do COSSAC os meios que deve levar em consideração; em função
deste dado, o COSSAC estabelece propostas de solução, que são aceitas,
rejeitadas ou modificadas pelo CCS. O detalhe deste trabalho pode ser
considerado, conforme o ponto de vista, como de um interesse apaixonante ou
como de intensa aridez. Conservado em insondáveis arquivos, constitui o mais
vasto documento de estado-maior que jamais se edificou. A questão solucionada com maior facilidade é a da
zona de desembarque. A Holanda está fora de cogitação, devido às inundações.
As praias belgas são eliminadas, por causa da violência das correntes
costeiras. A Bretanha apresenta facilidades tentadoras, mas está um pouco
longe demais das costas inglesas e suas comunicações com o interior da França
são defeituosas. O Passo de Calais apresenta muitas vantagens, mas está
poderosamente fortificado, e faltam-lhe, aliás, praias propícias. Restam, na
competição, a alta e a baixa Normandia: Havre-Dieppe contra Caen-Cheburgo.
Morgan organiza duas equipes que trocam argumentos e contra-argumentos sobre
a exposição e a acessibilidade dos litorais, o escoamento das praias, a
solidez das organizações alemães, etc. A equipe baixo-normanda ganha,
conquista para os Calvados e o Cotentin, o privilégio de receber o furacão de
fogo e aço. No começo de 1944, um plano é estabelecido. O
desembarque será executado por três divisões, e mais uma divisão de
transportes aéreos, da embocadura do Orne à ponta de Hoc. Dezesseis divisões
britânicas e vinte americanas, das quais a metade transportada diretamente
dos Estados Unidos, chegarão em seguida, às praias e aos portos conquistados.
O primeiro objetivo estratégico é a criação, entre o Sena e o Loire, de um
“alojamento” de onde partirá a ofensiva geral em direção ao Reno. De acordo
com as disposições estabelecidas em Teerã, serão simultâneos um desembarque
na Provença e outro na Normandia. A data da dupla Operação Overlord e Anvil é
fixada para o dia 1o de maio. Morgan, aliás, não dissimulou que
achava seu próprio plano insuficiente. Entretanto teve de circunscrever-se ao
quadro das possibilidades que lhe haviam apresentado. No dia 14 de janeiro, Eisenhower assume o comando,
instala-se em Londres, em Grosvenor Square n° 20, e começa a constituir um
estado-maior anglo-americano com o nome de SHAEF (Supreme Headquarters Allied
Expeditionary Force). O COSSAC é absorvido por este mastodonte e o
planificador Morgan é rebaixado ao posto de deputy chief of Staff, abaixo do
primeiro colaborador de Eisenhower, Badell Smith. Mas o plano apresentado pelo COSSAC não resiste às
críticas. Montgomery, que deve comandar o conjunto das forças terrestres
durante a fase de desembarque, é um dos primeiros a sustentar que a frente de
ataque é muito estreita. A energia de sua intervenção, seu modo de exigir (“Mudem
seus planos ou mudem-me de posto...”) contribuem muito para que seja decidido
fazer modificações profundas. O número das divisões de assalto é elevado de
três para cinco e o número das divisões de transportes aéreos, de uma para
três. A extensão da Operação Overlord faz reconsiderar o
problema de Anvil. “O General Marshall e eu - diz Eisenhower -
consideraríamos o ataque ao sul da França como uma característica integral e
necessária da principal invasão através do Canal”. Mas os navios e os aviões
designados para este ataque são requisitados para uma ampliação do
desembarque na Normandia. Depois de acirradas discussões, os americanos
consentem em uma transferência sine die da Operação Anvil. Além disso, a data
inicial da Operação Overlord é adiada de 1o de maio para 1o
de junho, a fim de fortalecer a invasão com um mês de produção industrial.
Moscou pensa, naturalmente, que se trata de um pretexto e que uma segunda
frente jamais será aberta. Na Inglaterra, forças colossais se reúnem.
Expurgado dos submarinos de Doenitz, o Atlântico é a avenida da libertação da
Europa. Fazendo a travessia sem escolta, os dois Queens, Mary e Elizabeth,
transportam, duas vezes por mês, o pessoal de uma divisão. As outras tropas,
o material e os abastecimentos chegam nos comboios, praticamente
invulneráveis. Alojar na pequena Inglaterra essas massas humanas e seu imenso
equipamento torna-se um problema sério. Tem-se dificuldade em encontrar os
133 terrenos reclamados pela US Air Force e sobretudo os espaços necessários
para completar a instrução das unidades. Com 1.750.000 soldados do Reino
Unido, 100.000 soldados americanos, 175.000 soldados do Império Britânico e
44.000 voluntários de várias nacionalidades, é um exército de 3.500.000
homens e de 20 milhões de toneladas de equipamento que pesa sobre o solo
inglês. “Se a Inglaterra não afunda - comenta-se -, é unicamente porque é
sustentada pelos milhares de balões de barragens antiaéreas”. A passagem de um exército tão numeroso e tão
pesado para o continente constitui um empreendimento inaudito. Os precedentes
da África do Norte, da Sicília, da Itália, de Guadalcanal, de Bougainville e
de Kwajaleim fornecem apenas ensinamentos de valor parcial. Trata-se de
desembarcar de 10 a 20 vezes mais homens e material, em face de um inimigo
muito mais forte. Trata-se em seguida de alimentar as operações de vasta
amplitude e de ritmo rápido que devem seguir-se ao desembarque. O ramo da
arte militar para o qual os americanos autorizam o neologismo “logística” -
logistics, de to lodge, “alojar” - adquire importância jamais sonhada. É notável que os ingleses - acusados de
desinteressados - hajam refletido tão maduramente sobre o problema de um
desembarque na Europa. Desde outubro de 1940, Churchill se interessou pelo
primeiro exemplar de um LCT (Landing Craft Tank), chata com uma parte
passível de abrir-se, permitindo desembarcar tanques numa praia. Sozinha,
diante de uma Alemanha cuja vitória parecia irremissível, a Inglaterra já
preparava a reconquista do continente! Desde então, uma vasta família cresceu. As
unidades de desembarque se dividem em dois grande tipos, landing ship e
landing craft. Em geral - porém não como regra absoluta - um landing craft
deve ser transportado ou rebocado até a proximidade da margem, enquanto um
landing ship é capaz de fazer as travessias marítimas através de seus
próprios meios. Numerosas subdivisões correspondem a utilizações específicas:
LSH, LSI, LST, por Landing Ship Headquarters, Infantry, Tank; LCI, LCG, LCF,
LCT, LCVP, etc., por Landing Craft Infantry, Gun, Flak, Tank, Vehicle and
Personal, etc., sem prejuízo dos DUKW e dos DD, que são caminhões e tanques
anfíbios. Todo um conglomerado marítimo transportado por tripulações
improvisadas. Landing Ships e Landing Craft não suprimem o
problema dos portos. Instalações protegidas são necessárias, a curto prazo,
para a manutenção de um grande exército de operações. Uma solução consiste em
apoderar-se, desde os primeiros dias, de um grande porto - mas é preciso
levar em consideração o inimigo, também pela resistência que oporá, quanto
pelas destruições que executará. A resposta e a solução transitória residem
nos dois portos artificiais, um para a zona do desembarque britânico, outro
para a zona americana, que, sob o nome convencional de Mulberry, crescem nos
ancoradouros e nos estuários do Reino Unido. A idéia é de Churchill. Recomendando-a ao CCS,
numa carta de 30 de maio de 1942, ele escreveu: “Não discuta o assunto; as
dificuldades serão discutidas por elas mesmas”. As dificuldades são,
efetivamente, enormes. A Mancha é um mar difícil, cheio de correntes
contraditórias, de marés desiguais, de caprichos brutais, e os portos
artificiais que lhe foram impostos, como Dover e Cherburgo, exigiram séculos
de trabalho. Mas as guerras abrem, no homem, fontes maravilhosas de
capacidade. Esses portos Mulberry, simples em seu princípio,
são de uma complexidade técnica fascinante. O trabalho será desenvolvido de
forma clássica, afundando diante das praias velhos vapores chamados
Gooseberries, lastreados de cimento de solidificação rápida. Esses
quebra-mares sumários serão reforçados por alinhamentos flutuantes de
cilindros de aço e de concreto, ou Bombardons. As peças mestras serão
colocadas depois: caixões de concreto armado, ou Phoenix, altos como casas de
5 andares e que deverão ser rebocados através da Mancha. Os diques assim improvisados, estendendo-se por
muito quilômetros, protegerão superfícies de água de mil hectares, onde cais,
chamado whales, formados de grandes caixões, serão ligados às margens por
faixas metálicas flutuantes. Sete liberty ships e uma trintena de landing
crafts poderão ser desembarcados ao mesmo tempo. A capacidade de um porto
sintético eqüivalerá à de Dover. Prazo concedido para a construção: 15 dias. 4.126 navios
no ataque à Europa Um elemento de grande importância, mas cuja
avaliação objetiva é extraordinariamente difícil, pesa nas considerações
anglo-americanas: a situação da França. A seu respeito, tudo pode ser
afirmado. É uma aliada, porque entrou em guerra ao mesmo tempo que o Império Britânico
e combateu ao lado deste até que o aniquilassem. É uma inimiga, pois tem
convênios com Hitler e o chefe de seu governo, Pierre Laval, declara que
deseja a vitória da Alemanha. Existe, sem dúvida, na França, um movimento
popular, uma resistência ativa contra o ocupante, mas existem também formas
manifestas de colaboração. A própria resistência está sujeita às mais
contraditórias apreciações. As informações que chegam sobre ela são
tendenciosas, tanto num sentido quanto noutro. A impressão de conjunto é uma
confusão total. Que julgamento fundado podem fazer os Aliados sobre um
fenômeno de tantas faces? Que ajuda podem esperar na preparação e na execução
de uma operação militar que, para os franceses, é, ao mesmo tempo, uma
libertação e uma invasão? De maneira geral, os grandes chefes aliados estão
céticos. O Marechal-do-Ar Sir Arthur Tedder, primeiro adjunto antes do
desembarque, lhe pedem 25 dos seus 15.000 parelhos, para intensificar o
fornecimento de armas, através de pára-quedas, aos maquis. Os 808 atos de
sabotagem contra locomotivas, que a Resistência alega ter praticado nos três
meses de 1944, não são levados a sério, e o realismo do Plano Verde,
elaborado pelo BCRA, 571 ataques contra ferrovias no momento do desembarque,
é posto em dúvida. É a mesma coisa no que se refere às possibilidades das
Forças Francesas do interior, das quais o General Koenig acaba de ser nomeado
comandante-chefe. Depois de trocas de argumentos, o SHAEF decide considerar a
Resistência francesa como um bônus. Serão acolhidos com gratidão os serviços
que ela puder prestar, mas há recusa em tomá-la em conta nas previsões das
operações. De Gaulle complica o problema. Roosevelt teria
provavelmente invadido a França metropolitana como tinha invadido a África do
Norte francesa, sem que o general, desde então chefe de um governo
provisório, fosse avisado disso. A insistência inglesa poupa-lhe esta
omissão, mas, convocado a Londres no dia 4 de junho, De Gaulle começa a criar
dificuldades. “Resmungou e reclamou - escreve Churchill a Roosevelt -, mas
Massigli e outros ameaçam pedir demissão do Comitê de Libertação se ele
recusar meu convite. Se vier, Eisenhower o verá durante uma meia hora e lhe
exporá a situação unicamente do ponto de vista militar. Não acredito que
possamos conseguir grande coisa de tudo isso...”. A carta acaba de ser
enviada, quando o General, acompanhado de Éden, que foi buscá-lo em Argel, se
apresenta todo irritadiço. “Acabo de saber - diz - que, apesar de minhas
advertências, o corpo expedicionário desembarcará na França com uma moeda
fabricada no estrangeiro e que o Governo da República não reconhece
absolutamente”. Ele acha que o general Eisenhower tomará a França sob sua
autoridade e a submeterá ao AMGOT (Allied Military Government Occupied
Territories). E a isto se opõe com todas as suas forças. Ele, De Gaulle,
representa a legitimidade. Recolocará seu pé sobre o solo francês com o poder
reconhecido pela imensa maioria da nação e é unicamente a ele que pertence o
direito de fixar, com toda a soberania, as condições através das quais as
autoridades e as populações francesas cooperarão com os Aliados. A entrevista é áspera. Grandes memorialistas, quer
dizer, ilusionistas da verdade, Churchill e De Gaulle a contam em termos
sensivelmente diferentes, mas não deixam dúvidas sobre a violência do choque.
Churchill ameaça De Gaulle de mandá-lo reconduzir a Argel. Afirma claramente
que, tendo de escolher entre ele e os Estados Unidos, a Inglaterra se
colocará ao lado destes. De Gaulle declara que compreende bem a razão e
"with this ungracious remark" a entrevista termina. Eisenhower está em Southwick, perto de Brighton.
Churchill leva De Gaulle até lá, no seu trem especial. Preocupações
arrasadoras, uma terrível responsabilidade pesam sobre o comandante-chefe. O
Dia D deveria ser amanhã, quinta-feira, 5 de junho. Na véspera, centenas de
navios estavam já no mar, quando, às 4h30 da manhã, as condições e previsões
meteorológicas levaram Ike (contra a opinião de Montgomery) a determinar um
adiamento de 24 horas. As perturbações que resultam desta resolução,
refletindo no mecanismo delicado do desembarque, são alarmantes. As que
resultariam de novo adiamento poderiam ser desastrosas. Passado o dia 7, a
primeira data propícia não se apresenta antes de 19 de junho. Far-se-ia necessário
desembarcar as tropas, entre as quais algumas que já passaram muitos dias a
bordo dos transportes, em condições de extremo desconforto. Seria impossível
manter as rigorosas medidas de isolamento, tomadas depois da última semana de
maio, para a conservação do segredo. Novo adiamento obrigaria a uma
reorganização completa do desembarque, poderia até levar ao abandono da
operação. Por outro lado, um desembarque na tempestade pode converter-se em
desastre, repetindo, em proveito de Hitler, o milagre fatal à Invencível
Armada... No meio deste prodigioso dilema, é uma prova da
grandeza de alma de Eisenhower receber o zangado general francês com uma
urbanidade e uma paciência que irritam Churchill. Mas diante da cólera de De
Gaulle qualquer encanto perde o valor. Ele ouve friamente a exposição do
Plano Overlord, depois, ao receber comunicação da proclamação de Eisenhower à
nação francesa, declara inaceitável o que chamará nas suas Memórias de Guerra
“ce factum”. Cheio de elogios vibrantes ao Exército e à população francesa, o
documento contém, efetivamente, duas frases de lesa-De Gaulle. São elas: “A
obediência rápida e solícita às ordens que darei é essencial” e “Quando a
França for libertada vós próprios escolhereis o governo sob o qual quereis
viver...” Havia sido combinado que o Rei da Noruega, a
Rainha da Holanda, a Grã-Duquesa de Luxemburgo e o Primeiro-Ministro da
Bélgica usariam da palavra sucessivamente, pelo rádio; depois, Eisenhower
leria sua proclamação e, por fim, o General De Gaulle encerraria o cortejo
das mensagens da libertação. Ele recusa: sua voz não se associará à dos
chefes de Estados e dos governos na saudação ao desembarque anglo-americano
no solo subjugado da Europa. Ainda mais: os 200 oficiais de ligação franceses
junto ao SHAEF ficarão na Inglaterra. E, para acrescentar a todas as suas
recusas um gesto simbólico de mau-humor, o Grande Dissidente declina de um
convite para jantar e recusa regressar a Londres no trem de Churchill. Quando De Gaulle parte, a espera recomeça. O
acampamento de Eisenhower, que consiste em algumas barracas e grupos de
tropas, situa-se numa floresta encharcada de umidade, a 1.609 metros da
Prefeitura Marítima de Southwick. O tempo concorda com o sombrio quadro dos
meteorologistas: chuvas espessas e ventos de 25 a 31 nós. Todas as docas, de
Plymouth e Newhaven, estão cheias de
uma multidão de navios que dançam na água agitada. Ao largo, o mar
está fora de si. O Almirantado comunicou a todos os navegadores, sinais de
tormenta. Às 21h30 realiza-se nova conferência na biblioteca
de Southwick. O chefe meteorologista, comandante de Grupo J.M. Stagg, da RAF,
começa sua exposição sustentando que o desembarque no dia 5 - quer dizer,
dentro de poucas horas - desencadearia um desastre. Agora, o mapa do tempo
traduz ligeira tendência à melhora: o vento deverá moderar-se e o céu
descobrir-se parcialmente. Acuado por perguntas, Stagg recusa outras
promessas: “Se eu lhes respondesse, não seria um meteorologista; seria um
adivinho...” A ciência falou. É a vez da estratégia tomar uma
decisão. A Aeronáutica está cética: os marechais
Leigh-Mallory, comandante das forças aéreas, e Tedder, adjunto de Eisenhower,
duvidam que os bombardeiros pesados e médios possam ter papel satisfatório no
estado em que se encontra o céu. A Marinha está ansiosa: o Almirante Ramsay
adverte que a ordem de partida deve ser dada dentro de meia hora, pois, do
contrário, os comboios ficarão na impossibilidade de respeitar o horário. O
Comando das forças de terra está mais confiante: Bedell Smith sublinha o perigo
de um adiamento para 19 de junho e Montgomery pronuncia-se de novo a favor da
execução. Dadas as opiniões, o peso fatídico cai novamente sobre os ombros do
general Eisenhower. Em algumas palavras, ele resume os prós e os
contras. Depois: “Dou esta ordem com pesar. Mas é preciso...” Faltavam apenas alguns minutos para soar 22 horas,
limite para uma decisão positiva. Mas ainda é possível, como na véspera,
sustar a ordem, nas primeiras horas da manhã. Uma última deliberação está
marcada para as 3h30, na biblioteca de Southwick. Quando Ike se põe a caminho, um vento de
tempestade sacode seu pequeno acampamento nos bosques. A estrada está
enlameada e, diante dos faróis de comando, a chuva, vinda do mar, parece cair
horizontalmente. O Capitão Stagg mantém pura e simplesmente suas conclusões
da véspera, à noite: o tempo deve normalmente melhorar durante o dia e a
noite seguinte; não lhe é possível dizer mais nada. O resto é com Deus! Dois exércitos participam do desembarque. A oeste,
o 1o Exército americano, cujo general é Omar Bradley, empenando o
5o e o 7o Corpos, cada um com uma divisão reforçada. A
leste, o 2o Exército britânico, comandado pelo General Sir Miles
Dempsey, engaja a 1o e o 3o Corpos, um com duas
divisões, o outro com uma apenas. Os americanos embarcam nos portos
compreendidos entre Salcombe e Poole; os britânicos, nos portos compreendidos
entre Solent e Newhaven. Dez divisões, chamadas follow up, seguem
imediatamente as unidades de assalto. Embarcam por via aérea. Os americanos
em Plymouth e em Falmouth, os britânicos no estuário do Tâmisa, em Sheernes,
Southend e Harwich. A travessia da Mancha exigiu um plano, dito
Netuno, de extraordinária complexidade. Trata-se de atravessar um mar
difícil, minado pelo amigo e pelo inimigo, com 4.126 lanchas de desembarque,
divididas em 26 categorias, a maior parte das quais são notáveis pela sua má
qualidade náutica e, além disso, por ter tripulação constituída por
marinheiros de ocasião. Apesar de seu nome “craft”, os LCT, com sua pesada
maquinaria traseira e sua dianteira não flutuante, fazem a travessia por seu
próprios recursos. Tinha-se o direito de esperar que se empenhassem nessa
aventura numa bela noite de verão; enfrentarão o mar com ocos de 2 metros e
ventos contrários de 28 nós. Os marinheiros profissionais tremem... Esta massa de lanchas de desembarque, como a
maioria dos 1.213 navios de guerra que as escoltam ou as apoiam, deve passar
por uma verdadeira estação reguladora, uma zona dita Z e apelidada “Picadilly
Circus”. Medindo 10 milhas de diâmetro, ela tem seu centro a 18 milhas a
sudoeste de Wight. Diagramas de velocidade extremamente rigorosos, chamados
“Mickey Mouse Diagrams”, foram entregues a cada formação ou comboio. De Picadilly Circus parte “the Spout”, o Coletor,
abrindo-se até uma linha pontilhada de Barfleur-cap de Antifer. O Spout
atravessa o grande campo de minas alemães submersas no meio da Mancha, com
cinco pares de canais, tráfego lento e tráfego rápido, em manobra de
dragagem. A operação, iniciada na tarde do dia 5, prossegue sem parecer
despertar a atenção do inimigo. Saindo do Spout, os comboios navegarão em leque,
em direção às cinco zonas de desembarque, cada uma correspondente a uma
divisão. De oeste para leste, recebem os seguintes nomes convencionais: Utah
(4a Divisão dos EUA); Omaha (1a Divisão dos EUA), Gold
(50a Divisão britânica), Juno (3a Divisão canadense) e
Sword (3a Divisão britânica). As esquadras que participam desta fabulosa
travessia da Mancha foram divididas entre uma Western Task Force, do
Almirante Alan Kirk, geminada com o 1o Exército americano, e uma
Eastern Task Force, do Almirante Sir Philip Vian, geminada com o 2o
Exército britânico. Seguem, à frente de seus 213 navios, 7 couraçados (4
ingleses, 3 americanos), 23 cruzadores (16 ingleses, 3 americanos, 2
franceses, 1 polonês), 168 destróieres e fragatas (79 ingleses, 36
americanos, 3 franceses, 3 noruegueses, 2 poloneses). Dois terços desta frota
sem precedentes são, pois, britânicos, depois de 5 anos de guerra e da perda
de 3 couraçados, 2 cruzadores de batalha, 8 porta-aviões, 45 cruzadores e
cruzadores auxiliares, 136 destróieres, etc. Prova impressionante de
vitalidade e de energia. A maior parte das unidades de combate deve apoiar
o desembarque, atirando contra os objetivos terrestres. As outras vigiam as
entradas da Mancha ou estendem cortinas de segurança contra os submarinos e
as veddettes inimigas. Por mais fracos que sejam os alemães no mar, não são
totalmente inofensivos. Em maio, um grupo de S-Boote interveio num exercício
de desembarque, pondo a pique três preciosos LST, afogando 700 soldados e
marinheiros. Com os milhares de alvos que enchem a Mancha, alguns comandantes
enérgicos podem causar desastres, na proporção de 1 contra 100. O apoio aéreo não é menos gigantesco que o apoio
naval. O Marechal-do-Ar Sir Trafford Leight-Mallory, tem sob suas ordens
13.000 aviões operacionais, dos quais 11.590 disponíveis. A RAF e as diversas
formações que lhe são subordinadas, Royal Canadian, Australian, New Zealand,
forças aéreas polonesas, francesas, belgas, holandesas, norueguesas,
concorrem para esse total com 5.510 aparelhos. A 8a US Air Force,
comandada pelo General Doolittle, contribui com 6.080. Os 3.440 bombardeiros
pesados noturnos e diurnos são: Halifax, Lancaster, B-17 ou Fortalezas Voadoras,
B-24 ou Liberator, transportando entre 1.800 e 6.350 kg de bombas. Os 930
bombardeiros leves consistem em Mitchell, Boston, Mosquito, B-26 ou Marauder
- A-20 ou Havoc. Mais de 1.500 aparelhos, pertencentes a uma dezena de
categorias, representam o reconhecimento, a coordenação, a vigilância
costeira, a luta anti-submarina, o serviço sanitário, etc., e 1.360
aparelhos, mais 3.500 planadores, constituem a frota de transportes: Hamilcar
e Sterling, ingleses; C-47 ou Dakota, americanos. Enfim, a coorte dos 4.190
caças e caças-bombardeiros, Spitfire, Typhoon, P-38 ou Lightning, P-47 ou
Thunderbolt, P-51 ou Mustang. O SHAEF avalia em 15 contra 1 sua superioridade
aérea. A avaliação alemã, de 50 contra 1, está mais próxima da verdade. Esta formidável aviação já abriu brechas na
Muralha do Atlântico, sobretudo colocando fora de serviço a maioria dos 64
radares que, do Texel ao cabo Frehel, vigiavam os litorais. Deve, no dia D,
consagrar todo o seu poderio ao esmagamento das defesas costeiras.
Infelizmente, por causa do mau tempo, muitos bombardeiros deverão realizar-se
em vôo guiado por instrumentos. Temem-se erros que arriscariam dizimar tropas
amigas. A hora do ataque deu lugar a uma arbitragem das
vantagens e dos inconvenientes. Um desembarque vesperal era recomendável por
muitas razões. Preferiu-se um desembarque matinal, por temor da confusão que
a noite poderia causar. Quanto à maré, teria sido racional utilizá-la para
conseguir atingir o ponto mais próximo à costa; preferiu-se, contudo, a maré
baixa - iludindo, assim, o prognóstico de Rommel, porque a maré baixa
descobre os arrecifes artificiais colocados pelo inimigo. Levando-se em conta
as variações locais da hora da maré baixa, a abordagem das praias foi marcada
para as 6h30 (Utah e Omaha), 7h25 (Gold e Sword), 7h35 e 7h45,
respectivamente, para a direita e a esquerda de Juno. As cinco zonas de desembarque não são nem
justapostas nem idênticas. Cada uma representa um problema particular e foi
objeto de um plano especial. Sword se estende da embocadura do Orne à pequena
estação balneária de Lion-sur-Mer. A costa é uniformemente plana e arenosa. A
estrada que margeia a costa, RN 814, está bordada de casas e mansões
contínuas que se adensam nas pequenas aglomerações de Riva-Bela e do
Ouistreham, término do canal marítimo de Caen. A forma envolvente do litoral
facilita concentrações de fogo contra os navios. É a razão pela qual aí se
colocou um pesado apoio naval, compreendendo sobretudo o Warspite, o
Ramillies, o monitor Roberts, encarregados de fazer calar as baterias de
Villerville, de Berville e de Houlgate. Para guiar o desembarque da 3a
Divisão britânica e da 27a Brigada Blindada, enviou-se o submarino
de bolso X-23, comandado por dois oficiais, à embocadura do Orne. Deveria
emergir no dia 5, de manhã, e orientar os comboios. Tendo sido adiado o
desembarque, o X-23 recebeu ordem de esperar, submerso, 24 horas
suplementares. Ele espera. Esta zona Sword tem importância devido à sua
proximidade com Caen. A cidade, considerada como porta de saída da Normandia
para Paris, deve ser tomada já no dia D. Tarefa pesada, para a qual se
justapôs, ao desembarque nas parias, um desembarque de tropas
aerotransportada. Comandada pelo Major-General Gale, a 6a
Divisão aerotransportada britânica é encarregada da operação. Sua missão
consiste em tomar a margem direita do Orne, para cobrir o flanco esquerdo da
invasão. A 3a e a 5a brigadas de pára-quedistas
saltarão ou serão levadas por planadores, nas três dropping zones (zonas de
salto): V, perto de Varaville; K, perto de Touffréville; N, perto de
Amfréville. Deverão apoderar-se de surpresa das pontes sobre o Orne e o canal
marítimo, em Benouville e Rainville; fazer explodir as pontes sobre o Dives,
em Péries, Robehomme e Troarn; enfim, destruir a bateria de Merville, na desembocadura
do Orne. Rebocando seus trens aéreos, os grupos da RAF 38 e 46 levantam vôo
da região de Oxford, num céu de tormenta. Devem transpor a costa francesa à
meia-noite. Oito km a oeste de Lion-sur-Mer, começa a zona
Juno. A costa é precedida de arrecifes rochosos, que tornam difícil um
desembarque com a maré completamente baixa. O que levou a retardar
ligeiramente a hora do ataque. Um outro submarino de bolso, o X-20, espera o
comboio que traz a 3a Divisão canadense, cujo setor se estende de
Saint-Aubin até Courseulles-sur-Mer. Ela deve, durante o primeiro dia,
ultrapassar a estrada de Bayeux a Caen e apoderar-se do aeroporto de
Carpiquet. Na zona Gold, a 5a Divisão britânica e
a 8a Brigada Blindada devem apossar-se da região entre o povoado
de La Riviére e o povoado do Hamel. Nada hospitaleira, a costa é muito menos
habitada que ao longo de Riva-Bella. Além das praias, estendem-se pântanos,
contornados pela RN 814. O Plano prevê que as tropas desembarcadas se
estenderão para oeste, a fim de apoderar-se de Arromanches-les-Bains, onde um
porto Mulberry deve ser construído. Internando-se no interior, a outra ala de
ataque deve libertar, logo na primeira noite, a pequenina Subprefeitura de
Bayeux. Vinte e cinco km separam o setor britânico do
setor americano. A costa e o interior da região mudam. Os problemas do
desembarque e do pós-desembarque se emaranham em dificuldades. Omaha Beach se estende de Port-en-Bessin até a
ponta e o redemoinho de Percée. Rochedos de aproximadamente 30 metros de
altura o emolduram nas duas extremidades. A praia, dominada por um espesso
cinturão de dunas, não é transitável senão através de pistas arenosas que
conduzem às aldeias de Grand-Hameau, Colleville-sur-Mer,
Saint-Laurent-sur-Mer e Vierville-sur-Mer. Esses caminhos íngremes, que os
documentos de estado-maior designam por um americanismo, draws, são as únicas
saídas de Omaha Beach para a 1a DI americana e os elementos que
constituem a primeira onda de ataque. Do outro lado, o terreno é desfavorável às
operações de um exército fortemente motorizado. A planície livre dos
arredores de Caen torna-se um bosque coberto de campos de macieiras, cortado
por caminhos escavados, dividido em uma multidão de parcelas fechadas por
elevações de terra e cercas espessas. Um fosso se junta a esse labirinto: o
Aure, que, desde Bayuex, corre paralelamente ao mar. Naturalmente pantanoso,
inundado pelos alemães, seu vale é intransponível entre o burgo de Trévières
e a cidadezinha de Isigny. O plano prevê que as duas localidades serão
atacadas na noite do desembarque. Através de Trévières, contornar-se-á a zona
inundada. Através de Isigny, serão forçadas as embocaduras do Vire e
tentar-se-á, em direção a Carentan, a junção com as tropas desembarcadas no
Cotentin. A ponta do Hoc (que as obras americanas teimam em
chamar a ponta do Hoe) é objeto de atenção especial. A bateria encimada neste
alto rochedo triangular é considerada como “a mais perigosa de toda a
Mancha”. Suas seis peças de 155 mm, de um alcance de 22.000 metros, têm, em
mira de fogo, não somente Omaha Beach, mas também, na costa do Cotentin, Utah
Beach. Reservam-lhes, por conseguinte, os obuses de 14 polegadas do Texas, e,
além disso, um ataque confiado ao tenente-coronel texano James Rudder. Na
hora H, seu batalhão de Rangers desembarcará ao pé da ponta, descoberta pela
maré baixa. Um canhão lança-cabo, prenderá escadas de cordas no flanco
vertical sobre o qual será tentado, igualmente, aplicar duas escadas
corrediças, emprestadas pelos bombeiros de Londres. Os ensaios executados nos
rochedos de greda da ilha de Wight mostraram que este exercício de alpinismo
à beira-mar não é impossível - pelo menos, na ausência de fogo inimigo... Utah Beach levantava problemas ainda mais
difíceis. A praia, diz Ike, “miserável - larga, porém lodosa e cercada por um
cinturão de pântanos, ultrapassáveis unicamente numa estreita faixa que
conduz às aldeias encarapitadas na Departamental 14. Quatro dessas faixas, as
de Pouppeville, de Houdienville, Audouville e de Saint-Martin-de-Varreville,
estão designadas como saídas n° 1, 2, 3 e 4. Desembocam num bosque cerrado;
depois, além do planalto de Sainte-Mère-Église, as grandes inundações do
Douve e do Merderet estendem um dos mais sérios obstáculos diante de um
exército que procura penetrar no interior do Cotentin! A grande operação americana de transporte aéreo -
2 divisões, 13.200 pára-quedistas, 822 aparelhos de transporte e 900
planadores - tem por objetivo dominar essa dupla dificuldade. Cabe à 101a Airbone, do General Maxwell Taylor, controlar as saídas
provenientes de Utah Beach, a fim de que a 4a DI dos EUA,
desembarcada na praia, não se arrisque a ser imobilizada nas estradas que um
punhado de homens e de armas é suficiente para bloquear. Cabe à 82a
Airbone, do General Matthew Ridgway, instalar-se no planalto de
Sainte-Mère-Eglise e, além disso, conquistar uma grande cabeça-de-ponte junto
ao Douve e ao Merderet. Para os pára-quedistas, a hora H é a meia-noite. Abordam o Cotentin
não pelo leste, mas através do oeste, como se partissem para a Bretanha e, no
meio da Mancha, mudassem bruscamente de inspiração. Decolando de nove bases
do Devon, das Midlands, do Berkshire, do Wiltshire, etc., seus aviões passam
todos por um ponto Elko, ao norte de Southampton. Prosseguem depois até um
ponto Hoboken, fazem uma volta de 90 graus, mudam ainda de direção antes de
chegar à costa, nos pontos Peoria e Reno, e, dez minutos depois, devem estar
sobre suas seis dropping zones, quatro a leste, duas a oeste do Merderet.
Cada zona é um oval de 1.600 m de comprimento e 460 m de largura. Decolando
20 minutos antes do grosso das divisões, os batedores, os Pathfinders,
esforçam-se em reconhecê-las e, com lanternas portáteis, em balizá-las. ... Este é o esquema, muito simplificado, desta
gigantesca Operação Netuno, fase inicial da invasão da Europa, ou Operação
Overlord. Tentemos seguir, hora por hora, o seu desenrolar. Primeira hora: 0h - 1h Logo no primeiro minuto, seis grandes planadores
Horsa, da 6a Divisão Aerotransportada britânica, penetraram na
costa francesa, acima de Houlgate. Um pousa na área coberta de arame farpado
que protege a ponte de Bénouville, no canal de Caen. Dois outros pousam ao
lado da ponte de Ranville, no Orne. Total surpresa: em menos de quinze
minutos, duas pontes pertencem ao 2o Oxfordshire and Buckinghamshire
Light Infantry. Enquanto isso os Pathfinders pousam nas dropping zones. Seus
vaga-lumes se acendem no solo. É uma hora da manhã quando o grosso da 6a
British Airbone começa a cair ou a deslizar do céu. Na outra extremidade da frente de assalto, no
Contentin, a operação americana começou no mesmo instante. Os Pathfinders da 101a Airbone saltaram
em primeiro lugar, 15 minutos depois da meia-noite. O céu está nublado, a
terra coberta de lama, a lua intermitente. A 0h50, a leste de Monteburgo, o
Tenente-Coronel Hoffmann, que comanda um regimento de posição da 709a
DI, vê, a um raio de luar, corolas que se aproximam do chão. Suas sentinelas
atiram. Uma metralhadora de mão americana responde. 2a
a 6a hora: 1h - 6h A 1h11 o 84o Corpo alemão, em Saint-Lô,
recebe, de Caen, uma comunicação de sua 716a DI: “Pára-quedistas a
leste das embocaduras do Orne, região Ranville-Bréville e orla norte da
floresta de Bavent”. A 1h45, recebe, recebe de Valones uma mensagem da 709a
DI: “Pára-quedistas inimigos ao sul do Saint-Germain-de-Varreville e perto de
Sainte Marie-du-Mont. Segundo grupo a oeste da grande estrada
Carentan-Valognes, dos dois lados do Merderet”. As duas regiões indicadas estão nas duas alas do
corpo de exército. A operação é, assim, importante. O General Marcks cancela
sua viagem a Rennes. A realidade substitui a ficção. Além, o céu está terrificante. Enormes espirais de
fumaças avermelhadas ensangüentam o horizonte. O barulho de milhares de
motores - todos inimigos - enche a noite. Às 2 horas, novas informações chegam a Caen e de
Valognes. Pára-quedistas foram capturados. Pertencem à 3a Brigada
Aerotransportada britânica e aos regimentos 501o, 505o
e 506o de pára-quedistas americanos. Três, das quatro divisões de
infantaria aérea conhecidas pelo inimigo, estão, pois, comprometidas. Os
grandes chefes são acordados: Dollmann no Mans, Salmuth em Tourcoing,
Rundstedt em Saint-Germain-en-Laye. Em Roche-Guyon, Speidel ainda espera,
antes de alertar Rommel, que está em sua casa de Herrlingen. A leste do Orne, as principais missões da 6a
Airbone são realizadas. A cabeça-de-ponte de Rainville consolida-se. São
dinamitadas as pontes do Dives, a de Troarn inclusive, destruída quase que
unicamente pelo Major Roseveare, na retaguarda de sua guarnição. O Castelo de
Varaville é tomado. Cai a bateria de Merville. Foi atacada às 2h45, pelo 9o
Batalhão de Pára-quedistas, que sabia sua lição de cor. Às 3h45, depois de
vivo combate, o Tenente-Coronel Ottway solta o pombo-correio com a
comunicação: bateria tomada. Percebe-se então que a bateria não continha
senão os canhões 75 quase inofensivos em vez dos temíveis 150 que os
invasores queriam amordaçar. Às 3h30, chega o General Gale, com a terceira
vaga, que traz material pesado. Sua divisão toma o Orne, semeia a confusão
entre o Orne e o Vire, captura homens pertencentes à 716a DI e à
21a Pz. Suas perdas graves são poucas, porém mais da metade de
seus 4.800 homens estão dispersos, por causa dos erros da aterragem, e não
responde à chamada. A operação de transporte aéreo americana é muito
complicada. Os historiadores oficiais não se julgaram aptos a reconstituí-la
com exatidão. A sebes e a bruma apareceram para isolar os pequenos grupos de
pára-quedistas e povoar de fantasmas o campo estranho onde caem os rapazes que
vêm das grandes planícies do Novo Mundo. Os brejos e as inundações causam
vítimas. Não é exato que regimentos inteiros tenham sido tragados pelos
baixios do Merderet, segundo a versão romanceada que compara o episódio com o
que ocorreu nos pântanos de Saint-Gond ou nas águas estagnadas de Austerlitz;
mas é absolutamente verdade que muitos pára-quedistas fazem um esforço
sobre-humano para sair do lamaçal, e alguns se afogam sob o peso do próprio
equipamento. De 13.000 homens das duas divisões de transportes aéreos, menos
de 2.500 se reagrupam imediatamente. Como instrumento de reunião, receberam
matracas, que enchem a noite normanda, saturada de umidade, de um estranho
concerto de cigarras. Mas seus gritos são abafados na espessura dos bosques. Na 101a Airbone, o 502o
Regimento deve tomar as saídas norte da Utah Beach, as aldeias de
Saint-Germain e Saint-Martin-de-Varreville, Mésières, Audouville-le-Hubert; o
506o deve apossar-se das saídas de sul, dos povoados de
Houdienville, Pouppeville, Sainte-Marie-du-Mont; o 501o deve
estabelecer-se no Dove, ao norte de Carentan. Mas o nevoeiro, o vento e a DCA
baralham estas combinações longamente estudadas sobre o mapa. Os homens
juntam-se ao primeiro oficial que encontram. As escaramuças verificam-se na
obscuridade, com fracos destacamentos inimigos acantonados nas aldeias e
também, provavelmente, com grupos amigos, vítimas de equívocos. Ao clarear do
dia poucos são os elementos da 101a que se conservam nos lugares
programados. Mas a irrupção de tantos soldados do ar nas suas retaguardas
desorganizou a defesa costeira alemã. Compõem a 82a Airbone, o 505o,
o 507o e o 508o regimentos de pára-quedistas. O 505o
deve apossar-se de Sainte-Mère-Eglise e garantir as passagens do Merdetet até
Chef-du-Pont e La Fière. Os dois outros regimentos devem constituir a
cabeça-de-ponte para oeste, entre o Douve e o Merderet. Quando o céu se torna róseo, uma parte do 507o
e do 508o ainda patina nas campinas inundadas. Uma outra parte
desceu num terreno sólido, perto de Amfreville, mas as sebes são espessas e o
reagrupamento se faz muito lentamente. Nada teria sido feito se um grupo de
pára-quedistas não houvesse entrado no pátio de um pequeno castelo, perto de
Picauville. Uma Mercedes aparece. Deslizando rumo ao campo de exercício de Rennes,
o general comandante da 91a Divisão de Fallsschirmjäger, William
Falley, resolveu voltar ao seu QG quando a ressonância dos bombardeios aéreos
o convenceu da seriedade dos acontecimentos que iriam marcar esse dia
nascente. Um deles é sua própria morte. Uma rajada colhe seu carro. Ele sai,
de pistola em punho. Outra rajada o derruba. A divisão que defende o centro
de Contentin perdeu seu chefe no começo do combate. Na outra margem do Merderet a sorte sorri ao 505o.
O episódio da tomada de Sainte-Mère-Eglise é o mais célebre do desembarque. O
mundo inteiro viu no cinema a casa do Sr. Hairon queimar, os bombeiros de
capacete de cobre combaterem o incêndio, sob a vigilância dos soldados
alemães, e o soldado Steel, preso pelas correias de seu pára-quedas, na ponta
do campanário. Em linguagem militar, assim se passaram as coisas: se bem que
alcançado em parte pelo fogo antiaéreo, o 3o Batalhão do 505o
pousou com notável exatidão na dropping zone 0, 1.500 metros a noroeste de
Sainte-Mère-Église, no lugar chamado vale da Miséria. O Tenente-Coronel
Edward Drause reagrupou rapidamente seu pessoal e, quando ao assalto à
localidade, deu ordem para utilizar apenas granadas e facas. Havia uns 30
alemães e mais a turma de um comboio de passagem. Foram rapidamente mortos ou
presos. Durante essas escaramuças, o alerta se propaga nos
escalões do Comando alemão. Em Saint-Lô, Marcks dirige, rumo ao Carentan, seu
único regimento de reserva. No Mans, Dollmann dá ordens de liquidar, através
de uma ação concêntrica, os pára-quedistas que descerem em torno de
Sainte-Mère-Église. Em La Toche-Guyon, Speidel prescreve à 21a Pz,
reserva do Grupo B, a limpeza da margem direita do Orne. Em Saint-Germain,
Rundstedt alerta a Pz Lehr e a 12a Pz SS, prevenindo-as de que
deverão rumar para Caen. Um pouco antes das 6 horas, o chefe de estado-maior
Blummentritt chama a Berchtesgaden o adjunto de Jodl, Warlimont, informa-o
das decisões de seu marechal e assegura-lhe que a invasão está desencadeada.
O sono de Hitler é intocável, mas Warlimont telefona a Jodl. Este desperta um
homem cético: as descidas de pára-quedas são uma simulação; o verdadeiro
desembarque não se efetuará na baixa Normandia. Na Mancha, o vento sopra com força 5. As vagas
espumam. O enjôo põe à prova a maioria dos passageiros do Grande Cruzeiro. No
horizonte, trovões e relâmpagos indicam o terrível embate que está sofrendo a
costa normanda: 1.056 Lancaster da RAF se encarniçam contra as dez principais
baterias alemães. Começaram pelas de Merville, Fontenay e Saint-Martin-de-Varreville,
sobre as quais o bombardeio devia preceder a intervenção das divisões
aerotransportadas; continuam por La Pernelle, Maisy, ponta do Hoc, Longues,
Mont-Fleury, Quistreham e Houlgate. Nos navios, calma absoluta. No mar,
dilúvio de fogo. Às 2h29 o LSH Bayfield, conduzindo o General
Lawton Collins, comandante do 7o Corpo dos EUA, ancora a 17 braças
de profundidade, 11 milhas ao largo de Utah Beach; 20 minutos depois, o LSH
Ancon, levando o General Gerow, comandante do 5o Corpo fundeia,
nas mesmas condições, diante de Omaha. Em torno dos dois QG flutuantes, todos
os navios de imobilizam. Sete minutos depois, os botes de desembarque começam
a dançar sobre as vagas. Um ligeiro clarão de lua dilui a escuridão, mas a
costa está invisível. É irreal, quase angustiante, proceder aos preparativos
para o maior desembarque da História, diante desse litoral que estaria
totalmente silencioso, se não fosse o tapete de bombas que, a intervalos
regulares, se abatem sobre ele. Na água agitada, entre os pálidos salpicos de
espumas, formam-se os comboios de assalto. À frente, os barcos-pilotos,
seguidos pelos lançadores de fumaça. Depois, em colunas, as unidades
especializadas, de PC ou patrulheiras, LCT encarregadas de levar os carros
anfíbios; outras LCT lotadas de carros comuns; LCA inglesas e LCVP americanas
transportam uma seção de infantaria; LCG trazendo a artilharia; LCF
conduzindo a DCA; LST entupidas de homens de material; LCR trazendo as
baterias de lança-foguetes. Os destróieres, galgos escoltando tartarugas, estabelecem
seu posto nos flancos. Uma frota sai de outra frota e mergulha na noite, rumo
a uma terra de mistério de perigo. A distância da costa impõe uma navegação de três
horas, sobre vagas de mais de um metro de altura, a esta frota de quilha
rasa, dificilmente manobrável, reagindo brutalmente ao balançar das ondas. O
enjôo chega mesmo a afetar as tripulações, tão recentemente habituadas ao
mar. A Força U, vogando para Utah Beach, protegida pelo posto avançado de
Cotentin, entra progressivamente em águas mais calmas. A Força O, ao
contrário, continua a sofrer nas vagas como se fosse feito de cortiça -
enquanto lentamente, como contra a vontade, o dia nasce. Nas praias atribuídas aos ingleses, a aproximação
foi mais tardia. Os transportes avançaram apenas até 7 milhas da costa. Às
5h05, no momento em que a noite começa a dissolver-se, clarões verdes na
superfície das águas provam que o X-20 e o X-23 estão no seu posto de
balizas. Alguns instantes depois, os navios, entre os quais o Warspite e o
Ramillies, ancoram e os aviões da Fleet Air Arm lançam uma cortina de fumaça
para esconder a frota das baterias pesadas do Havre. A formação de tropas de
assalto começa em seguida. Mas, no nevoeiro artificial, surgem três flechas.
Três vedettes torpedeiras, T-38, Jaguar e Möwe, três mosquitos, uma trintena
de homens, uma centena de toneladas, atacam os senhores do mar. Uma
artilharia terrível os acolhe. Fazem, pois, meia-volta, retornam à cortina de
fumaça - mas depois de ter lançado seus torpedos. Um destes atinge o
destróier norueguês Svenney nas suas caldeiras. O barco afunda imediatamente. Este ataque alemão, insignificante e intrépido,
mostra que se conhece a aproximação da frota de invasão. Às 3h09, um dos
últimos radares alemães revelou enfim numerosos navios ao largo do
Port-en-Besin. O Almirante Krancke deu ordem de intervenção às flotilhas de
Cherburgo e do Havre. A de Cherburgo ficou imobilizada no porto, diante da
ação da aviação inimiga. A do Havre fez uma vítima: um navio de guerra entre
1.200! Partem de terra alguns tiros de canhão. No ar, uma
carga de 1.630 Liberartors da USAF substitui os Lancaster da RAF. No mar, os
couraçados e os cruzadores atingiram as Fire Support Areas, a 10 braças de
profundidade. Seus canhões abrem fogo às 5h30, contra Sword, Juno e Gold.
Sobre Omaha e Utah o ataque só principia às 5h50, havendo do americanos
preferido a surpresa à demora de uma preparação. As lanchas de desembarque
estão a 3.000 metros das praias. A maré é a mais baixa possível. O sol ainda
não surgiu. 7a
a 12a hora: 6h - 12h Utah Beach. Um dos primeiros americanos que pisa a terra francesa, exatamente às 6h39, é o Brigadeiro Theodore Roosevelt Jr, fiel à tradição de bravura dos Roosevelt de Oyster Bay, homônimos e rivais de Roosevelt de Hyde park e do “New Deal”. Adiante, em cima, atrás dele, os foguetes lançados pelo LCR fazem um barulho infernal. Roosevelt, que tinha estudado o terreno, não o reconhece. Compreende que uma corrente afastou os barcos para o sul, até a aldeia de Madeilene, onde termina o caminho de Sainte-Marie-du-Mont. Lá estava um blockhaus armado com uma peça de guerra e uma velha torre de proteção de tanque, constituindo o ponto de apoio n° 5. Os defensores, que pertencem à 3a Companhia do 919o RI, foram enterrados pelo bomb |