7 de Junho a 31 de Julho de 1944

 

Hitler não está morto!

 

Tópicos do capítulo:

 

Ao amanhecer de 7 de junho, os Aliados consolidam suas posições

Ofensivas aliadas contra Caen e Carentan

13 de junho: as V1 caem sobre Londres

Cherburgo ameaçado

Rommel contra o massacre de Oradour

O mau tempo retarda os Aliados

Libera-se Cherburgo

Kluge substitui Rundstedt no Oeste

Os pântanos detêm a ofensiva de 3 de julho

9 de julho: tomada de Caen

Está pronta a bomba destinada a Hitler

O Coronel Von Stauffenberg prepara o atentado

A conjuração

Rommel ferido em Bernay

Saint Lô é libertada

20 de julho: a explosão poupa Hitler

Falha o complô: encontro Hitler-Mussolini

Recusa de Kluge. Suicídio de Stülpnagel. A repressão

No Cotentin, os bombardeiros aliados rompem o front

29-30 de julho: libertadas Coutances e Avranches

 

 

Fiasco

 

O sol se levanta. A batalha se reanima. Trata-se, para os Aliados, de consolidar e unir as cabeças-de-ponte e, depois, atingir o mais rápido possível a linha que esperavam alcançar na véspera à noite.

 

Trata-se para os alemães, de repelir os invasores antes que estes tenham tempo de alargar a brecha que acabam de fazer nas defesas do Continente. No Cotentin, novo esforço é dirigido contra Sainte-Mère-Eglise. Mas os velhos reservistas do 1.058o RI debandam, ao verem surgir uns 60 tanques americanos. O General Von Schlieben precisa acorrer pessoalmente à frente para impedir a fuga. O 795o Batalhão de Osttruppen, ao sul de Sainte-Mère, ouve um ex-coronel do Czar que lhe promete um suave cativeiro e se entrega como um só homem. Uma unidade de elite, um batalhão do 6o Regimento de Fallschirmjäger (pára-quedistas), é totalmente capturada, com exceção de 25 homens que conseguem alcançar Carentan. A má qualidade e o baixo moral das tropas alemães que aparecem nestas fraquezas inquietam o Comando e suscitam a cólera e a desconfiança de Hitler.

 

A resistência da 352a Divisão de Infantaria alemã, na praia de Omaha, diante do 5o Corpo americano, esgotou-se na noite do dia 6. O General Kraiss, desobedecendo as ordens de Hitler, envia para a retaguarda os remanescentes da divisão, para evitar sua destruição total. O avanço aliado é mais rápido no próprio setor onde os alemães acreditavam poder repelir a invasão. A junção com os ingleses é feita no dia 8, em Port-en-Bessin. Isigny é tomada no mesmo dia e, no dia seguinte, uma vanguarda da 22a DI americana, novamente desembarcada, avança até a pequena estação de Lison, a 12 km de Saint-Lô. O PC do 84o Corpo alemão muda-se precipitadamente a e vai instalar-se em um velho seminário, na estrada de Coutances, pronto para mudar outra vez de lugar.

 

Entretanto, o Comando americano está inquieto. Desde os primeiros passos, a invasão encontra um gargalo. Somente quatro quintos dos 107.000 homens, apenas metade dos 14.000 veículos e unicamente um quarto das 14.500 toneladas de provisões que deveriam estar desembarcadas nas praias o estão durante os dois primeiros dias. O inimigo em nada contribui para esta falha, nas previsões logísticas. Alguns fracos reides noturnos causaram poucos estragos; três pobres destróieres, que saíram corajosamente da Gironda para atacar a frota de invasão, são despedaçados; os submarinos e as vedettes torpedeiras são mantidos à distância respeitosa, mas a transformação de praias, que somente e sempre serviram para banhos de mar, em cais de desembarque apresenta mais dificuldades ainda do que se tinha imaginado. Inicia-se precipitadamente a construção dos portos Mullberry em Arromanches e em Omaha.

 

No dia 7, por ocasião de uma primeira visita às praias, Ike deu ordem para passar para primeiro lugar, como objetivo principal e urgente, a junção dos corpos 7o e 5o, o que significa a tomada de Carentan. Os alemães não tiveram qualquer trabalho para imaginar o que a atividade americana anunciava nesta região: o Ostbataillon n° 439 capturou, em Fontenay-sur-Mer, no corpo do Beachmaster (capitão comandante dos serviços administrativos da praia) de Utah, morto na sua barcaça de desembarque, o plano de operações do 7o Corpo: isolamento do Cotetin e conquista de Cherburgo. Rommel decide, em conseqüência, lutar por Carentan. Devidamente autorizado por Hitler, chama do Anjou e da Bretanha a 17a Pz Gr SS, a 3a Divisão de Pára-quedistas, as 77a e 365a DI, bem como um grupo misto das 375a . Estas tropas tomam posição ao leste de Saint-Lô, reunidas ao 2o Corpo de Pára-quedistas.

 

No entanto, qualquer movimentação do 15o Exército está - rigorosamente proibida. Hitler se opõe, igualmente, ao retorno, para o continente, da guarnição das ilhas Anglo-Normandas, onde a 319a DI, uma brigada de DCA e um regimento de carros blindados, perfazendo um total de 35.000 homens, vivem em uma tranqüilidade de férias. Cansado da insistência de Rommel, acaba proibi-lo de voltar a falar no assunto.

 

A aviação aliada tem o que dizer sobre o envio dos reforços alemães. Quinhentos bombardeiros colocam fora de uso a rede ferroviária, destruindo os entroncamentos de Alençon, Mayenne, Rennes, Fougères, Pontaubault, etc., e fecha, com a ajuda de bombas de 6 toneladas, o túnel de Saumur. A Resistência bretã realiza, então, importantes sabotagens de um lado e outro de Rennes. Como exemplo, eis aqui a história do Kampfgruppe Heintz, da 275a DI: embarca em Redon, no dia 6, em 14 comboios: 12 devem ser descarregados entre Redon e Fougères, por causa da interrupção das linhas; o 13o deverá sê-lo em Ponterson e o 14o alcançará Folligny apenas para ser pulverizado por um ataque aéreo. Os reforços dirigem-se à Normandia em marcha noturnas forçadas. Aparecem ali com atraso de muitos dias.

 

Quando o 2o Corpo de Pára-quedistas toma posição, é tarde demais para defender Carentan. A 101a Airbone tomou a cidade no dia 11 de junho. O Major Von der Heydte, tendo fracassado em cumprir a ordem de defender a cidade até a morte, somente escapa da vingança de Hitler graças à glória de que se cobriu em Cassino.

 

O General Erich Marcks, para retomar Carentan, decide comandar pessoalmente um contra-ataque. No momento em que deixa o PC, o chefe de seu estado-maior, o Coronel von Criegern, respeitosamente o censura por expor-se demais. Marcks lhe responde que, doravante, o único destino digno de inveja, na situação em que a Alemanha se encontra, é uma morte de soldado. Minutos depois, Criegern e seus oficiais ouvem o tiro característico de um Typhoon. Um dos generais alemães mais capazes e um daqueles a quem Hitler honrava com um ódio especial, não mais existe. Seu sucessor, Fahrmbacher (substituído, dias depois, por Von Choltitz), tenta, por sua vez, reconquistar Carentan. Fracassa.

 

Nos setores britânicos, os dias 7, 8 e 9 de junho, viram a fusão das cabeças-de-ponte, a redução das ilhotas de resistência - com exceção da de Douvres-la-Délivrande, que ainda resiste - e a tomada de Bayeux, miraculosamente intacta. Em compensação, em torno de Caen, chave estratégica da Normandia, os progressos são extremamente difíceis. O setor compreendido entre o Dive e o Seulles, destacado do 8o Exército alemão, está a cargo do Grupamento Blindado West, sob o comando de Geyr von Schweppenburg. Hitler lhe dá ordem de jogar os ingleses ao mar.

 

Mas Geyr começa mal. Seu QG é coberto por um tapete de bombas, no momento em que ele acaba de se instalar no Castelo de Caine, a 30 km de Caen. Salva-se com uma forte comoção, mas o chefe de seu estado-maior, Ritter und Edler von Dewans, é morto com todos os oficiais. Desorganizado na cabeça, o grupo blindado é igualmente batido nos membros. As Panzer só chegam ao campo de batalha com um grande atraso e pesadas perdas. Combatem por frações e, em lugar do grande contra-ataque ordenado por Hitler, devem consagragar-se a ingratas missões defensivas contra um adversário que, no quinto dia de invasão, superou a vulnerabilidade do primeiro instante.

 

Montgomery imaginou, para tomar Caen, uma manobra envolvedora. O 1o Corpo avançará, pela margem direita do Orne, até Cagny, a  sudeste da cidade. O 30o Corpo, com a 7a Divisão Blindada, partirá da região de Bayeux, tomará Tilly-sur-Seulles, Villers e Noyers-Bocage e, descendo pela esquerda, conquistará as alturas de Evrecy, ao sudoeste de Caen. O último ato do cerco consistirá em lançar no intervalo entre Cagny e Evrecy a única divisão aerotransportada que não foi utilizada no dia 6 de junho, a First British Airbone. Ela espera, na Inglaterra, inteiramente pronta. No dia 10, um ataque alemão e um ataque inglês são desfechados ao mesmo tempo, ao sul de Bayeux. O ataque alemão fracassa. O ataque inglês é apoiado ainda pelos canhões de 16 polegadas do Nelson, que, adernando para aumentar o alcance das peças, chega a atirar a cerca de 30 km. O bocage - terreno coberto de bosques, característico da Normandia - é completamente estranho para a 7a Armoured, os “Ratos do Deserto”, cuja experiência de guerra foi adquirida nas planícies rasas da Líbia. Entretanto, a tropa progride rapidamente, a cavaleiro na estrada de Bayeux a Tilly, e, no primeiro dia, perde apenas 4 carros blindados. No dia seguinte, muda o aspecto do combate. Toda a Pz Lehr, comandada por Bayerlein, veterano da campanha da África, está escondida nos bosques, do leste de Tilly até o norte de Villers. Os granadeiros se escondem nas sebes em torno de armas antitanques. Os carros blindados se transformam em moitas e ficam à espreita, prontos para atirar e fugir. A melhor das divisões blindadas alemães adotou uma tática de chounas, de guerrilhas, feita de paciência e de emboscadas. Os enxames de Jabos, procuram alvos, encontram alguns, por vezes fazendo de um valado um lugar de morticínio. No entanto, de um modo em geral, a espessa verdura normanda lhes esconde a caça.

 

Todo o dia 11 se escoa em combates parciais. A 7a Armoured somente penetra em Tilly para ser repelida por um contra-ataque. A situação é ainda mais desfavorável a leste do Orne. Os campos de batalha da grande noite de 5 para 6, Breville, Amfreville, Ranville, tornam a ver soldados alemães rechaçando os ingleses para o mar. O excelente tiro dos navios quebra estes retornos ofensivos.

 

Enquanto estas ações se desenrolam na zona britânica, os americanos da praia de Omaha tem diante de si apenas os vencidos de 6 de junho. Comprimindo o flanco esquerdo para cobrir Saint-Lô, os destroços da 352a Divisão deixam, à direita, um vazio profundo. Rommel esperava preenchê-lo com os reforços vindos da Bretanha, mas os acontecimentos de Carentan os monopolizaram no Cotentin. Só era preciso, para Gerow, lançar-se na abertura e ultrapassar, ao mesmo tempo, Saint-Lô e Caen. Mas ainda não tinha soado a hora da audácia americana.

 

O 5o Corpo contenta-se em ocupar a floresta de Cerisy e avançar prudentemente para Balleroy e Caumont-L’Eventé.

 

Quem cuida de utilizar a brecha para contornar a oeste a porta de Tilly é o General Buchwall, comandante do 30o Corpo britânico. A 7a Armoured desloca-se para a direita, travessa o Aure e contorna o ferrolho defensivo alemão. Surge, no dia 13, nas cristas de Villers-Bocage, entra na localidade e, tendo atravessado a cidade, avança na estrada de Caen. Bayerlein está preso pela retaguarda!

 

É então que acontece uma reviravolta dramática da sorte. A vanguarda da 7a Armoured, que consistia de uma esquadrão londrino de Sharpshooters (atiradores peritos), pára no marco 213, na estrada de Caen, acima do vale encaixado do Odon. Ninguém vê surgir um destacamento de 5 Tigres, que, desfilando ao longo da coluna surpresa, como couraçados diante de uma linha de fragatas, incendeia todos os veículos: 25 tanques, 14 caminhões blindados, etc. Outros carros blindados alemães atacam a extremidade oriental de Villers-Bocage e repelem o 8o e o 11o regimentos de Hussardos. Os intrusos que acabam de empanar o brilhante sucesso dos “Ratos do Deserto” pertencem à 2a Pz, colocada à disposição do Grupo Geyr por uma tardia decisão de Hitler. Ela vinha da região de Beauvais, somente se deslocando de noite e tendo atravessado o Sena nas pontes de Paris: assim, a divisão escapou da vigilância da aviação aliada. Devia, no dia 13 de junho, reparar seu material, mas o Obersturmfuhrer Wittman e o Hauptsturmfuhrer Mödin descobriram os ingleses onde eles não deveria estar e, espontaneamente, atacaram. O General Von Lüttwitz sustentou-os com todos os elementos disponíveis de sua divisão.

 

Villers-Bocage está perdida. Erskine, o comandante da 7a Armoured, aproveita a noite e diminui os estragos, retirando-se para as alturas de Tracy-Bocage. No dia seguinte, a atividade da aviação, o apoio da 1a DI americana e os ataques da 50a DI britânica contra Tilly restabelecem um pouco a situação. Mas novos indícios de concentrações alemães determinam que Montgomery retire a 7a Armoured de uma posição muito arriscada. Ela sai na noite de 14 para 15 e retira-se para Livry, com o barulho da retirada coberto pelo alarido de 300 bombardeiros pesados. A ofensiva de Caen, tanto no oeste como no leste do Orne, é abandonada.

 

 

 

Bombas voadoras sobre Londres

 

No dia da refrega de Villers-Bocage, o início da ofensiva das V1 falhava na Alemanha. Os primeiros disparos deveriam ocorrer no dia 12, 20 minutos antes da meia-noite, mas as inspeções feitas nos sítios de lançamento acusaram dificuldades que o oficial responsável, o Coronel Watchel, modificou a hora H. Às 3h30 do dia 13 de junho, ele não ousou tomar a responsabilidade de retardar mais tempo a entrada na História da arma impacientemente esperada pelo seu Fuhrer: 500 engenhos estavam nos lugares, perto de 54 rampas terminadas; somente 10 puderam ser lançados, 5 explodiram na decolagem, um sexto caiu na Mancha e, dos quatro que atravessaram a costa inglesa, somente um atingiu Londres, onde matou seis pessoas em Bethnal Green. Watchel e seu superior, o General Heinemann, escaparam por pouco da decepção de Hitler.

 

A trégua dos londrinos é breve. O lançamento é retomando no dia 15 e, no dia 16, ao meio-dia, 244 mísseis são lançados. Destes, 144 caem na Inglaterra, dos quais 73 na Grande Londres. O sistema de direção automática é rudimentar, a impressão é muito grande, engenhos se perdem em Norfolk, mas a deflagração é poderosa e os estragos são muito importantes. Londres, desde 1941, tinha saído praticamente da guerra aérea: esta volta e é um choque doloroso. A alegria e o espírito de desafio que tinham, psicologicamente, colocado em xeque a Blitzkrieg de 1940, não se observam nesta nova provocação. A Inglaterra está cansada e, como nota Churchill, a natureza impessoal da nova arma produz um efeito deprimente.

 

O setor de Caen, na Normandia, se acalma, mas a ofensiva para Cherburgo se desenvolve. Toma duas formas: uma ofensiva direta para norte e um movimento de leste para oeste, para cortar em dois a península do Cotentin.

 

A ofensiva direta se choca com a posição de Montebourg, avançada da defesa terrestre de Cherburgo. A bravura e a iniciativa de um simples soldado, Ralph Riley, permitem conquistar a bateria de Azeville, mas, as baterias de Crisbecq e de Queneville resistem a assaltos repetidos. Os objetivos do dia 6 são alcançados apenas a 13 de junho.

 

A ofensiva para oeste encontra primeiro as inundações do Merderet. O riacho insignificante está transformado em uma barreira aquática e lamacenta de 2.000 a 3.000 m de largura. Restam somente três pequenos encraves da tentativa da 82a Airbone para estabelecer uma cabeça-de-ponte na noite de 5 para 6, defendidas pelos coronéis Millet, Timmes e Shanley. Algumas centenas de pára-quedistas do 507o e do 508o, amontoados como ouriços, esperam que o grosso do 5o Corpo, tendo limpado a região de Sainte-Mère-Eglise, venha levantar o bloqueio a eles imposto.

 

No dia 8, à noite, dois soldados descobrem que é possível atravessar a inundação, utilizando um caminho subterrâneo perto do povoado de La Fière. Por este itinerário precário, um batalhão do 325o Regimento de Planadores vai reunir-se ao Destacamento Timmes, mas, no momento em que este reforço toma posição, o Destacamento Shanley se rende e a ação imaginada para conquistar a margem ocidental do Merderet termina em um fracasso. Ridgway decide, então, forçar a passagem, atacando na Estrada Departamental n° 15, que se eleva acima da inundação. Este campo de batalha com 5 metros de largura assiste a uma intensa ação de carros blindados e de infantaria, conduzida pelo adjunto de Ridgway, o Brigadeiro-General James Gavin. O povoado de Cauquigny, as aldeias de Motey, de Amfreville, de Gueutterville são conquistadas. O Marderet, que associou seu nome a uma das batalhas decisivas da história, desaparece do relato das operações. O objetivo seguinte é Saint-Sauveur-le-Vicomte, pequena cidade de 2.000 habitantes, na margem direita do Douve. Collins dá ordem para tomar posição a uma divisão fresca, a 90a, recrutada no Texas e no Oklahoma, mas espera-o uma pungente decepção. A 90a, “uma divisão problema”, como diz Bradley, não entra em combate. O primeiro batalhão empregado foge e aqueles que se tenta fazer avançar em seu lugar se colam ao solo. Collins substitui do comando o General MacKelvie e dois coronéis, mas estas sanções não são suficientes para dar o menor valor combativo a uma grande unidade amedrontada. Deverá ser substituída pela 9a DI ao preço de um grande atraso. No dia 12, o 7o Corpo ainda não alcançou a linha que deveria ter ocupado no dia 6.

 

No dia 13, em compensação, parte da resistência alemã se desmorona diante da 82a Airbone, na ala esquerda do ataque. Os pára-quedistas tomam Pont-L’Abbé, arrasada até o chão. No dia 16, entram em Saint-Sauveur, da qual os alemães fogem desordenadamente. À direita, a 9a DI progride rapidamente. Atravessa o Douve, em Néhou, e, no dia 17, lança uma coluna na estrada de Carteret, que alcança a costa ocidental do Cotentin, em Barneville-sur-Mer. Cherburgo está isolada.

 

Rommel tinha proposto a evacuação da península. Hitler proibiu-a, o 84o AK deve dividir-se em dois. O Grupamento Hellmich defenderá a base do Cotentin e o Grupamento Von Schlieben, compreendendo a 109a, a 91a, a 243a e a 77a divisões de infantaria, defenderá o vértice. Assim, quatro divisões são levadas à destruição para retardar por uma semana a queda de Cherburgo.

 

Rundstedt e Rommel, nesta fase da batalha, são convocados bruscamente a Margival, perto de Soissons, com os seus chefes de estado-maior. Em 1940, aí foi construído um PC cimentado, de onde o Fuhrer esperava dirigir a invasão da Inglaterra. Pela primeira vez, ali está Hitler, para examinar com dois marechais os problemas oferecidos pelos outros invasores. Rundstedt, Rommel, Blumentritt e Speidel encontram-no macilento, envelhecido, divertindo-se morbidamente com uma quantidade de lápis de cor. Apenas ele se senta, deixando os dois marechais em pé, como se fossem dois acusados. Declara-lhes que o exército do Oeste se “deixou surpreender dormindo” e que o inimigo já estaria jogado ao mar se não fosse a moleza dos chefes e a covardia das tropas. O que tem a dizer e a propor os dois marechais responsáveis?

 

Rundstedt cede a palavra a Rommel. Este defende suas tropas, sublinha a valentia de sua luta desigual, torna a pedir a retirada do Cotentin e o abandono de Caen, declara-se convencido de que, doravante, o desembarque normando constitui o principal esforço aliado, e propõe, como conseqüência, o reforço da frente da Normandia com a maior parte do 15o Exército. Hitler contradiz agressivamente. Exige que Cherburgo seja defendida até a morte. Constata que 80 divisões inglesas e americanas (avaliação errônea do Serviço da Abwehr (contra-espionagem) se encontram na Inglaterra; que apenas 20 desembarcaram na Normandia; que é preciso cuidar da irrupção das outras na costa do Passo-de-Calais; que assim, é impossível tocar no 15o Exército. As tropas que travam a batalha da cabeça-de-ponte devem sustentá-la com seus próprios meios. Aproxima-se o momento em que a Inglaterra, apavorada pelos engenhos Vergeltung (Vingança), implorará a paz. Uma crença fanática na vitória iminente deve animar os soldados da frente ocidental.

 

Lá em cima, soa o alarma. Hitler desce para o abrigo. Ali se encontram somente os dois marechais e o ajudante-de-campo, General Schmundt. Rommel aproveita a ocasião desta estranha intimidade. Protesta contra o massacre da população de Orandur-sur-Glane, cinco dias antes, pela Divisão Das Reich: tais excessos - diz ele - somente podem originar um furor de vingança e tornar impossível para sempre qualquer cooperação com os franceses. Hitler corta-lhe a palavra: “Não se meta em política; ela me diz respeito. Ocupe-se da frente da invasão!”.

 

A entrevista, completamente estéril, é seguida de um almoço, com o espetáculo comum de Hitler devorando sem educação um enorme prato de arroz e legumes. Às 16 horas, Rommel e Rundstedt retornam a estrada.

 

Tudo o que obtiveram é que Hitler se aventure, dois dias depois, a ir até La Roche-Guyon. Contam colocá-lo em contato com oficiais da frente, cujo testemunho, esperam, o esclarecerá sobre as condições reais da batalha no Oeste.

 

No dia seguinte, de manhã, Blumentritt telefona para Margival para saber da organização da viagem do Fuhrer. Ouve a resposta de que ele deixou a França de noite. Uma V1 fora da rota, caiu a 3 km do PC e Hitler imaginou uma tentativa de atentado. Partiu logo, dizendo que não queria dar a criminosos “ocasião de feri-lo pelas costas...”

 

O cerco de Cherburgo se estende. Von Schlieben recebeu ordens estritas: recuar somente passo a passo e manter, de qualquer maneira, a linha Saintt-Vaast-la Houge-Vauville, apoiando-se na frente terrestre de Cherburgo. Mas um lento combate, em retirada, é impossível, com unidades de tração animal atacadas pela aviação inimiga, e uma defesa prolongada das linhas de Cherburgo é quimérica. O porto militar, como era antigamente Cingapura, fortificado do lado do mar, está aberto pelo lado da terra. O General Marcks tinha reclamado cimento para construir um cinturão de fortificações, mas o cimento foi monopolizado pelas rampas das V1. As trincheiras, cavadas às pressas, não tem proteção de arame farpado e muitas posições de combate são simples abrigos feitos de madeira. As tropas são deficientes, tanto pela qualidade como pela quantidade. Das quatro divisões de Schlieben, três são esqueletos em torno dos quais se colocou um pouco de carne de canhão, incorporando nos batalhões de infantaria os homens dos serviços auxiliares, os jovens da Organização Todt, os velhos da Flak (artilharia antiaérea), etc. Schlieben diz, à outra divisão, a 77a DI, que ela somente enfraquecerá a defesa de Cherburgo, devido aos recursos limitados da praça. O General Stegmann tenta, então, reunir o 84o Corpo, atravessando as linhas americanas entre os prados pantanosos e o mar. A tentativa consegue êxito parcial. Parte da infantaria escapa ao longo da costa, mas a artilharia e os comboios são destruídos. O próprio Stegmann é morto por um caça-bombardeiro. Como Hellmich teve a mesma sorte na véspera, este é o quinto general alemão que, em 12 dias, cai na frente do Oeste.

 

Quando os americanos atacam, no dia 19, encontram apenas uma resistência simbólica, em Montebourg. Além disso, em toda parte avançam em coluna na estrada, até ter contato com a frente de Cherburgo. Três divisões, a 9a, à esquerda; a 79a, ao centro, e a 4a, à direita, se preparam para o assalto. A 90a é deixada na retaguarda. O SHAEF (Supreme Headquarters of Allied European Forces) propôs dissolvê-la, mas Ike poupa esta humilhação ao Texas, decidindo reorganizá-la.

 

O calendário da libertação é adiado

 

O mau tempo voltou. A eficiência da aviação diminui. Uma miraculosa divisão alemã, a 355a DI, chega da Bretanha, sem perder um único homem, dando uma coluna vertebral ao 84o Corpo amputado para a defesa de Cherburgo. Na noite do dias 18 para 19, levanta-se forte vento de noroeste, acompanhado de aguaceiro. Após as dificuldades do início, o rendimento das praias estava-se tornando quase satisfatório e a construção dos portos artificiais progredia rapidamente. Tudo se torna problemático por causa da tempestade, Centenas de landing crafts (barcaças de desembarque) são destruídas pelas ondas, esmagadas nos rochedos e atiradas tão longe, em terra firme, que será preciso esperar uma boa maré para que flutuem novamente. Na praia de Omaha, o quebra-mar é lançado na costa, o dique inacabado parte-se, dez pesados caixões “Phoenix” para a construção do porto, que estavam sendo rebocados, devem ser abandonados, o porto flutuante é torcido como se fosse pela mão de um gigante. A calmaria sobrevem na manhã do dia 22, mas o Mullberry americano é um espetáculo desolador. O Mullberry britânico, tendo recebido o assalto de um ângulo diferentes, sofreu menos.

 

Esta tempestade de verão, por mais impressionante e desastrosa que seja, está longe de ser um ciclone. O vento não ultrapassou cerca de 50 km por hora, correspondente à força 6, pela escala de Beaufort, como “forte brisa”. As operações, nas praias, não foram interrompidas, embora a média diária de homens e veículos desembarcados tenha caído, respectivamente, de 34.712 para 9.945 e de 5.624 para 2.426. Mas a brilhante idéia de Churchill, dos portos sintéticos, exige condições absolutamente excepcionais e constitui, mesmo no verão, uma aposta contra a meteorologia. Os ingleses começam a reparar Arromanches, mas, com o relatório do Amirante Hall, os americanos decidem abandonar o seu Mulberry.

 

A tempestade adia a nova ofensiva britânica contra Caen. Dá, por outro lado, um grau suplementar de urgência, na ofensiva contra Cherburgo. No dia 21, Collins intima, em alemão, russo, polonês e francês, a guarnição a que se entregue. Não havendo resposta de Von Schlieben, o ataque começa, no dia seguinte, com um violento bombardeio aéreo. As três divisões americanas avançam metodicamente em terreno acidentado até a rendição apressada. No dia 24, Von Schlieben comunica a seus chefes que o valor combativo das tropas diminui rapidamente e que duvida poder resistir a novo ataque. No dia 25, o 47o RI americano toma de assalto o velho Forte de Roule, a cujos pés se encontra Cherburgo. O rádio noturno de Von Schlieben descreve a situação nos seguintes termos: “Tropas esgotadas e encurraladas... Perda inevitável da cidade em breve prazo... 2.000 feridos sem meios de socorro. É ainda necessário o sacrifício dos sobreviventes? Resposta urgente”. Rommel limita-se a responder: “Conforme a ordem do Fuhrer, deveis resistir até o último cartucho...”

 

No dia 26, o 37o RI toma Octeville e cerca, no subúrbio de Saint-Sauver, o PC de Von Schlieben. Mil homens desmoralizados encontram-se no abrigo, cujo sistema de ventilação não funciona mais e onde se espalha a asfixia. Escutam-se as britadoras americanas cavando o solo, preparando a mina que fará explodir a praça de armas subterrânea. Schlieben conforma-se, dá ordem de içar a bandeira branca, sai no meio de seus soldados, contentes por se render. Pergunta-se a Bradley se ele quer convidar o chefe vencido à sua mesa. “Se o bastardo tivesse capitulado quatro dias mais cedo - responde - eu o teria feito. Agora é muito tarde. Dêem-lhe uma ração K”.

 

Mesmo porque Von Schlieben se recusou da dar ordem geral de baixar as armas. Os alemães retiram-se para o arsenal, enquanto os sapadores acabam a destruição do porto, fazendo explodir a estação marítima, cujos destroços enchem a baía dos transatlânticos. O arsenal capitula no dia 27. O Capitão-Tenente Witt, comandante do porto, alcança o Forte do Oesfe, em um pequeno iate a vela, na extremidade do grande dique, e ali se mantém, ainda, durante 48 horas. O último ninho de resistência, na península  de La Hague, é silenciado no dia 1o de julho.

 

Hitler não gosta dos prisioneiros. Confere, por uma raríssima exceção, a cruz de carvalho ao Almirante Hennecke, que se rendeu ao mesmo tempo que Von Schlieben. “A destruição completa do porto de Cherburgo - diz sua citação - é sem precedentes nos anais da defesa costeira”. Fundando-se no estado do porto de Nápoles, os americanos acreditaram poder utilizar Cherburgo no fim de quatro dias. Serão necessárias várias semanas para consegui-lo.

 

Não é somente por causa das condições do porto de Cherburgo que o calendário da libertação da Europa se atrasa. A nova ofensiva britânica, a Operação Epsom, começa no dia 25 de junho, atravessa o Odon, alcança as alturas a sudeste de Caen, mas ainda não chega a conquistar a cidade. A Operação Overlord previa que no dia 1o de julho (D + 25) o perímetro da cabeça-de-ponte passaria por Trouville, Lisieux, Alençon, Rennes e o Monte Saint-Michel. Apenas um quinto foi conquistado do território delimitado desta forma foi conquistado pelos Aliados.

 

É claro, entretanto, que a tomada de Cherburgo finaliza a primeira fase da campanha da Europa. A invasão não pode ser repelida como se fosse um ataque de Dieppe ampliado. A 1o de julho os aliados desembarcaram na Normandia  920.000 homens, 586.000 toneladas de material e 177.000 veículos. Bastante iguais, o exército britânico e o exército americano colocam em linha, juntos, de 15 a 16 divisões, com 8 divisões americanas e 6 divisões anglo-canadenses em fase de embarque na Inglaterra. Apesar da falta de espaço, 33 campos já estão em serviço na cabeça-de-ponte, aumentando ainda mais a  eficácia de uma aviação que, desde 6 de junho, totaliza o número fenomenal de 160.403 saídas. As perdas, 61.732, entre mortos, feridos e desaparecidos, são inferiores às previsões e mais que compensadas pelas substituições, de maneira que as unidades estão completas. A Alemanha, enfraquecida, é totalmente incapaz de repelir um bloco de poderio tão sólido, tão denso e tão dispendioso. A estratégia de Hitler estava fundamentada na derrota rápida da invasão; deve agarrar-se a outras esperanças.

 

No dia 20 de junho, os marechais Von Rundstedt e Rommel estão novamente a caminho. Convocação a Berchstesgaden, com proibição de utilizar avião ou trem. Rodam 24 horas seguidas para chegar no tempo marcado e esperam durante seis horas na antecâmara. O velho Rundstedt, furioso e exausto, declara ao ordenança que morrerá como o comandante do 7o Exército, o General Dollmann, fulminado na véspera por uma crise cardíaca. A conferência não é mais que um longo discurso de Hitler diante de um numeroso auditório condescendente. Declara que anula o plano de contra-ofensiva geral, estabelecido a 20 de junho, no fim do qual três corpos blindados deviam atacar ao mesmo tempo os exércitos americano e inglês. O exército do Oeste e seus chefes deixaram passar o momento de jogar a invasão ao mar. O que devem fazer agora é confiná-la na sua cabeça-de-ponte no bocage, impedir-lhe o acesso às planícies abertas do Norte da França, enquanto as V1, e em seguida as V2, atacarão a Inglaterra. Cada valado normando deve ser disputado como se tratasse da última trincheira do Destschtum (espírito germânico)!

 

Ora, logo que Rommel volta a La Roche-Hguyon, em 30 de junho, à meia-noite, encontra em sua mesa duas propostas concordantes. Geyr von Schweppenburg pede a evacuação da saliência de Caen. O sucessor de Dollmann, Paul Hausser, primeiro general SS a chegar ao comando de um exército, pede o recuo da frente até Villers-Bocage e Saint-Lô. Rommel, em seguida, toma como sua essas proposições e as transmite a Rundstedt, que as endossa mais rapidamente. São transmitidas ao OKW a partir de 3h30 da manhã. Essa manifestação de desafio é levada a Hitler com o seu almoço.

 

Às 17h30, Keitel chama Rundstedt para lhe dizer que suas propostas foram rejeitadas e que todo abandono de terreno está proibido pelo Fuhrer. Rundstedt solicita sua substituição num comando no qual toda iniciativa lhe é impedida. “Herr Generalfeldmarschall - pergunta cerimoniosamente o pesado Keitel - que deve ser feito, na sua opinião? “. “A paz, idiota!” - responde Rundstedt, desligando bruscamente o telefone.

 

No dia seguinte, 2 de julho, o Tenente-Coronel Borgmann leva a Saint-Germain as folhas de carvalho para a cruz de cavaleiro do Marechal Gerd von Rundstedt. O Fuhrer aceita o seu pedido de exoneração e o substitui pelo Marechal Von Kluge. Schweppenburg, que, no seu pedido de retirada de Caen, criticou de uma maneira total a estratégia de Hitler, foi substituído menos cerimoniosamente por Eberbach. Rommel, tendo conhecimento desses fatos, dá de ombros: “O próximo, sou eu...”

 

Assim, Kluge entra em cena no teatro ocidental. Soldado capaz, destemido e ascético, de caráter estranho e instável, sinuoso e timorato, brutal e flutuante. Ele diz que é preciso matar Hitler, “dieses Schwein!”, mas “esse porco” o convidou para passar oito dias em Berchtesgaden e convenceu-o de que somente a indisciplina e a moleza impedem os exércitos do Oeste de liquidar com os guerreiros amadores ingleses e americanos. Cheio de duros preceitos da frente oriental, Von Kluge chegou com a resolução de redisciplinar e de levar ao heroísmo os debilitados soldados do Oeste. O primeiro contato com Rommel é violento. Na sala de guardas de La Roche-Guyon, na presença do chefe  e do primeiro oficial do Estado-Maior do grupo de exércitos, Kluge interpela o seu subordinado: “Marechal Rommel, a partir de hoje, o senhor mesmo deve obedecer! Aconselho-o a não esquecer isto!”. Violenta discussão segue essas palavras; depois, por escrito, Rommel coloca o novo comandante-chefe na obrigação de justificar suas críticas. Não obtém resposta.

 

Mas Kluge tem ao menos, uma qualidade: é excepcionalmente corajoso. Desde o dia seguinte ao da posse no comando, ele visita os postos avançados e se decepciona com a característica da batalha do Oeste. Vista da frente russa, é uma guerra com punhos de renda, para a qual todas as mãos se elevariam se se pedissem voluntários. Mas Kluge descobre o calvário dos combatentes sob um céu que, a cada instante, lhe cai na cabeça. Como todo mundo, deve mandar retirar as portas de seu carro, para poder atirar-se de cabeça na trincheira quando ressoar o grito “Jabos!” O exército está desprovido de veículos, de equipamento, de víveres, de material sanitário, de obuses e mesmo de cartuchos, diante de um adversário ao qual todas as prodigalidades são permitidas. Registram-se, na verdade, falhas numa tropa ou muito velha ou muito jovem, cheia de russos a quem se pede que se deixem matar na França, a fim de defenderem a Alemanha contra os americanos! Mas, no conjunto, os soldados do Oeste combatem com valentia e abnegação. Kluge o constata e, sem se desculpar, reconhece seus erros, juntando-se ao julgamento de Rommel: aproxima-se o momento em que a frente da Normandia arrebentará como um elástico muito esticado.

 

Essa ruptura já se teria produzido não fosse a natureza do campo de batalha. “Nossa arma secreta - diz um oficial do Estado-Maior do 84o AK - são estas macieiras”. Exceto em torno de Caen, a progressão dos Aliados não faz mais do que afundar-se na verdura, cuja espessura e dureza os surpreendem desde o dia D. As sebes! Tirando Alan Brooke, que leu a história dos chouans - rebeldes realistas depois da revolução francesa, no Norte e no Oeste da França - ninguém cuidou em prevenir a enorme máquina que é o SHAEF. Ninguém  foi avisado de que as sebes normandas não são simples arbustos, mas altas e sólidas elevações de terra encimadas de árvores e ladeadas de caminhos fundos. Nenhum dos aliados deu importância suficiente aos lodaçais que as dissimulam entre as colinas arborizadas. Quatro grandes zonas se estendem em torno da baía de Carentan: os vales do Douve, do Taute, do Vire e, finalmente, uma vasta bacia praticamente ao nível do mar, chamada Prados Pantanosos de Georges. Essas extensões porosas, essas turfeiras cheias de charcos e cortadas por canais, só são acessíveis para os caminhantes que conhecem as raras veredas sólidas. Obrigam a combater sobre istmos, favorecendo, assim, um adversário inferior em número e poderio. Os Estados Unidos sonharam com uma guerra móvel na qual o número infinito de seus motores devia assegurar a vantagem; encontra uma guerra disputada palmo a palmo.

 

O exército americano, em 3 e 4 de julho, parte para o ataque, de um lado e do outro dos prados pantanosos. A finalidade da ofensiva é sair do Cotentin, contornar o canto da Bretanha, para trazer às dimensões previstas o “alojamento” dos exércitos aliados. A vitória de Cherburgo fortificou o moral americano. As informações sobre o inimigo autorizam o otimismo. As forças alemães de qualidade são retidas na região de Caen. O 1o Exército dos EUA só tem diante dele o 84o Corpo, apenas reconstituído, e, na margem esquerda do Vire, o enfraquecido 2o Corpo de Pára-quedistas. Acreditava-se possível desbaratá-los desde o primeiro dia.

 

A oeste dos Prados, o 8o Corpo, do General Troy Middleton, põe em posição 3 divisões: 79a, 82a e 90a. A chuva coincide com o início da ofensiva. Chove sem cessar, durante uma semana, ampliando os pantanais, inundando os valados, encharcando as sebes, reduzindo o apoio aéreo e quebrando o moral dos soldados. Tendo sido colocada em posição, a leste do corpo de exército, a 90a DI, encarregada de conquistar o pequeno maciço do monte Castre, não se reabilita dos fracassos que a inutilizaram durante a batalha do Merderet. Na outra ala, diante das alturas de Montgardon, a 79a fica parada da mesma maneira. Os pára-quedistas e os infantes aerotransportados são de um energia melhor, mas a divisão é substituída desde o início da batalha, para ser reenviada à Inglaterra, onde deverá ser reconstituída. O relato oficial dos combates é um filme de unidades frouxas, penosamente reconduzidas à linha de fogo, retidas por um punhado de inimigos dias inteiros, povoando os postos de socorros com a neurose de guerra, eufemismo para “covardia”. Os soldados que desembarcaram no começo de julho pertencem, na maior parte, às divisões de formação recente, que não tem nem espírito combativo nem disciplina suficiente para substituí-lo. O monte Castre não caiu, após uma semana de ofensiva. A pequena cidade de La Haye-du-Puits, a seus pés, continua em poder do inimigo. O avanço médio é igual aos das piores ofensivas da Primeira Guerra: 500 metros por dia.

 

A história se repete no leste dos Prados Pantanosos. O 7o Corpo, comandado por Lawton Collins e composto da 83a, da 4a e da 9a DI americanas, esperava tomar a aldeia de Sainteny no primeiro dia, a pequena cidade de Périers no segundo e, em seguida, cortar a estrada Coutances-Saint Lô. Mas Collins pode empregar apenas uma única divisão no istmo de 3 km de largura que se estende entre os Prados e os pântanos de La Taute. A 83a, designada por ele, recebe o batismo de fogo debaixo de uma forte chuva e toda a energia de soldado de Collins não consegue empurrá-la para a frente. Périers, no dia 7 de julho, ainda pertence à 17a Pz Gr SS.

 

No mesmo dia 7 de julho, a ofensiva se estende aos dois corpos da ala esquerda, o 19o e o 5o do 1o Exército americano, entre Vire e Caumont. É intensificada sobretudo em torno de Caen.

 

Montgomery nunca deixou de apresentar uma fisionomia filosoficamente calma contra aqueles que o criticavam por ser tão lento em tomar uma cidade incluída entre os objetivos do primeiro dia, e não cessará de sustentar que sua idéia de manobra, incompreendida por Eisenhower, consistiu sempre em ocupar as forças alemães na ala esquerda da frente de invasão, para permitir aos americanos avançar na outra ala, para a bacia do Loire. Caen, em si mesma, não tinha qualquer valor particular. Sofreu um martírio. A artilharia naval, a artilharia terrestre e a artilharia aérea bombardearam-na cada qual uma vez. A Kommandantur (Comando Militar) tinha dado ordem à população para fugir, mas o prefeito de Calvados, Cacaud, esquivou-se dessa ordem. Considerando que seus administrados corriam menos perigo nos abrigos do que nas estradas bombardeadas e metralhadas. Os Aliados se esforçaram em poupar uma “ilhota sanitária”, traçada em redor da Basílica de Sasint-Etienne, chamada “Abadia dos Homens”, mas as bombas são cegas e o número de vítimas inocentes foi elevado. Caen esperava ser libertada no desalento, e aterrorizada - mas Montgomery considerava que a obstinação dos alemães em se manter ali servia ao seu projeto. Vendo em Caen a porta de Paris, e em Paris a chave da França, Hitler deixava usar na cabeça-de-ponte do Orne a flor do exército do Oeste.

 

A nova ofensiva começa em 4 de julho, com a tomada do aeroporto de Carpiquet. No começo da noite do dia 7, a preparação aérea começa por um bombardeio que pulveriza as extremidades ao norte de Caen, cortando de sua retaguarda as tropas em posição. Às 4h30, toda a artilharia começa a atirar, compreendendo os canhões de 16 polegadas do Rodney, atirando cerca de 31 km. Às 7 horas, em uma manhã fresca e ligeiramente enevoada, os bombardeiros da 9a US Air Force executam a tarefa de neutralizar as pontes, encruzilhadas, QGs, etc. Às 7h30, começa o ataque. É conduzido pelo 1o Corpo, cujas três divisões, 3 a e 59a britânicas e 3a canadense, apertam concêntricamente a 12a Pz SS.

 

Todas as aldeias da região noroeste, Buron, Ardenne, Couvre-Chef, Epron, Lebisey, foram transformadas em centros de resistência que os ingleses e canadenses devem esmagar um por um. Após dois dias de luta, o Oberpruppenfurher Heinz Meyer, apelidado “Panzermeyer”, faz aquilo que os chefes SS ousam fazer mais freqüentemente do que os chefes do Exército: recusam-se a sacrificar sua divisão. Faz com que ela retorne para a margem direita do Orne, com a infantaria reduzida ao efetivo de um batalhão.

 

Caen é, assim, libertada - em parte, pois os quarteirões do leste continuam em poder dos alemães. Mais de um mês de combates, uma formidável  aviação, o desembarque de um milhão de homens, conseguiram a conquista de meia prefeitura e a libertação de um centésimo do território francês.

 

A guerra se atenua e, como foi o caso das ofensivas de 1914-1918, os adversários retomam forças para novas matanças. Não é se admirar, de forma alguma, que críticas violentas apareçam na imprensa anglo-americana e que Montgomery seja criticado pelos americanos como Eisenhower o é pelos ingleses. Inversamente, a lentidão dos progressos da invasão deveria provocar um certo júbilo nos estados-maiores alemães: mas isto não acontece. A importância da luta é muito grande para autorizar o menor renascimento de otimismo. Todos os oficiais informados sabem que a frente Oeste está condenada, que todas as vitórias defensivas somente podem retardar um pouco a derrocada. Para os membros da conspiração anti-hitlerista, esta fatalidade vem acrescentar um grau de urgência em matar Hitler. É preciso que o tirano seja abatido e que o nazismo seja derrubado, enquanto o exército do Oeste ainda está de pé.

 

O tempo é curto. No dia 9 de julho, dia da tomada de Caen, um dos agentes de ligação da conspiração, o tenente-coronel da reserva Cäsar von Hofacker, apresentou-se em La Roche-Guyon para perguntar a Rommel quanto tempo acreditava que fosse possível ainda conter a invasão. Resposta do marechal: “Quinze dias a três semanas no máximo”.

 

Mas a bomba que deve matar Hitler já está confeccionada. E o homem encarregado de colocá-la nos pés do Fuhrer é um dos corações mais puros e mais intrépidos que jamais bateram.

 

A bomba é idêntica à que Fabian com Schlabrendorff colocou no avião de Hitler no dia 13 de março de 1943. É idêntica à que os conspiradores quiseram fazer explodir, alguns dias depois, no Zeughaus (Museu Militar) de Berlim, em uma festa de caridade em benefício dos soldados da frente - mas Hitler encurtou a visita. É idêntica, ainda, àquela que o Tenente Ewald Heinrich von Keist, descendente de uma família ilustre da Pomerânia, tinha pedido para levar ao novo uniforme que devia apresentar ao Fuhrer em 11 de fevereiro de 1944, oferecendo-se em holocausto pela reabilitação da Alemanha - mas um bombardeio inesperado destruiu os modelos e a apresentação não se realizou. O explosivo é sempre de plástico inglês, fornecido pelo Barão Von Freytag-Lothringen e obtido em suas funções na contra-espionagem. Assegurou-se da sensibilidade da cápsula, para não correr o risco de uma decepção como a de 13 de março.

 

O executor é o Coronel Claus Shenk von Stauffenberg. Ele tinha deixado, no começo de 1943, suas funções no OKH para servir na Tunísia. Uma mina arrancou-lhe o braço direito, o olho esquerdo e dois dedos da mão esquerda. No leito do hospital, em uma cegueira temporária, meditou sobre o dever de um nobre e de um cristão. Muitos de seus camaradas anti-hitleristas tinham escrúpulos por causa do juramento fatal que tinham prestado: “Juro perante a Deus fidelidade incondicional ao Fuhrer... e estarei a qualquer momento pronto a dar a minha vida por este juramento sagrado”. Outros receiam que Hitler se transforme em um mártir e outros hesitam ainda em dar uma punhalada nas costas da Alemanha, diante de uma adversário que não admite outra solução para a guerra que não seja a rendição incondicional. Como Beck, Tresckow e Oster, Stauffenberg afasta estes escrúpulos pesados e falaciosos. É preciso matar Hitler, não somente porque seu desaparecimento representa a única chance de evitar inteiramente o desastre, como também porque o extermínio do monstro que a Alemanha produziu é uma obrigação de consciência para um alemão. A Alemanha, exangue, recupera os destroços dos campos de batalha. Entretanto, hesita-se em aceitar o pedido do Conde Stauffenberg, solicitando para continuar no Exército, apesar de suas diversas mutilações. Faz ver que sua visão está parcialmente restabelecida, que aprendeu a escrever com os três dedos que lhe restam, e que com isso mais um oficial irá para a frente em seu lugar. Tendo obtido satisfação de seu pedido, ele manobra para obter um posto que lhe dê acesso junto ao Fuhrer. O que consegue, em dezembro de 1943, é, deste ponto de vista, razoavelmente satisfatório. Chefe do Estado-Maior do Exército do Interior, o Ersatzheer, sob as ordens do Coronel-General Fromm, Stauffenberg só excepcional e irregularmente será convocado ao Legebesprechung (Centro de Decisões) do OKW.

 

Mas, em compensação, o Ersatzheer, agrupando os comandos territoriais, fornece um instrumento para a tomada do poder após o assassinato de Hitler. Assim, Stauffenberg propõe matar-se também, para estar seguro de não falhar em sua tentativa. Demonstra-se-lhe que ele é indispensável; assim, deve sobreviver ao atentado. O esquema combinado consiste em utilizar o plano de alerta geral estabelecido na hipótese de tumultos interiores e, especialmente, para o caso de uma revolta dos milhões de prisioneiros e de trabalhadores estrangeiros. Com a palavra chave Walküre, os comandantes regionais devem assumir todos os poderes. A sede do Ersatzheer, no Ministério da Guerra, na Bendlerstrasse, torna-se o centro de toda a autoridade. Fromm é cúmplice apenas por assentimento tácito, e é do chefe de seu estado-maior que dependem as horas decisivas que seguirão a este grito retumbado no mundo: “Hitler está morto!”. O Ersatzheer desarmará as SS, dissolverá as organizações nazistas e prenderá seus dirigentes. Tarefa pesada e complexa, da qual Stauffenberg é o principal encarregado. Não tem, pois, o direito de se sacrificar. Deve sair vivo do lugar aonde for levar a morte. Os chefes da conspiração acrescentam, a esta condição já difícil, uma outra: a bomba que matará Hitler deve matar, ao mesmo tempo, Goering e Himmler. Um é o duque da Luftwaffe, o outro o príncipe das Waffen SS, dois poderosos exércitos privados, em face dos quais o Ersatzheer é somente um amontoado de recrutas e mutilados. Mas nem Goering nem Himmler assistem regularmente às audiências de Hitler e a conjunção de suas presenças esporádicas com as convocações irregulares de Stauffenberg representa uma fraca probabilidade.

 

No dia 11 de junho, Stauffenberg é convocado a Berchtesgaden. Parte com um de seus adjuntos, o capitão Kalusing, cada um levando um quilo de plástico explosivo. Stauffenberg repetiu cem vezes os gestos vingativos. Destravará a bomba com a ajuda de uma pinça que maneja dificilmente com os três dedos, irá depositá-la na sala de conferências, sairá sob qualquer pretexto, para reunir-se a Klausing, que permanece ao volante do carro, e correrá para o aeródromo de Freilessing, a fim de voltar a Berlim e colocar em ação o mecanismo para a tomada do poder.

 

Chegando a Berchtesgaden, Stauffenberg toma conhecimento de que Himmler não estará ao lado do Fuhrer. Assume o risco de telefonar para o General Friedrich Olbricht, chefe do 1o Escritório do Estado-Maior Geral (Allgemeins Heeresamt) e um dos principais conspiradores, para perguntar-lhe se deve, assim mesmo, perpetrar o atentado. Resposta negativa. O explosivo fica no carro com Klausing.

 

À noite mesmo, em Berlim, Beck e Olbricht reconhecem que foi cometido um erro. Decidem que doravante a presença de Himmler ou Goering não mais será condição necessária para matar Hitler. Mas uma ocasião rara e preciosa foi desperdiçada.

 

Nesta segunda semana de julho, grandes batalhas, desastrosas para a Wehrmacht, desenrolam-se na frente oriental. Na frente normanda, o 19o e o 5o corpos avançam lentamente para Saint-Lô. Reconciliado com Kluge, Rommel amadurece sua resolução. No dia 16, redige um relatório que, hierarquicamente dirigido ao Oberbefehlshaber West (Supremo Comando do Oeste), tem, na realidade, o Fuhrer como destinatário. Descreve a deterioração implacável do exército do Oeste. Perdeu 97.000 homens e 358 chefes de corpos e recebeu como substituição apenas 6.000 homens. Perdeu 225 carros blindados e recebeu 17. Combate heroicamente, mas uma crise insuperável é iminente. “O inimigo está prestes a quebrar nossa delgada frente e penetrar profundamente no interior da França. A luta desigual aproxima-se do fim”. Na minuta datilografada, Rommel acrescenta à mão: “Acredito ser necessário pedir-vos deduzir as conseqüências políticas desta situação. Rommel. Feldmarschall”. Refletindo, elimina a palavra “políticas” diante da qual Hitler ficaria vermelho de raiva. O texto, pensa ele, está bastante claro. Diz, sem equívocos, que a guerra está perdida e que é necessário tratar ao menos com os ocidentais.

 

Tem ilusões? Acredita que Hitler, vendo a partida perdida, poderia sacrificar-se para poupar a Alemanha? É o problema que o Almirante Ruge coloca perante ele. “Cometerá o suicídio?” - “Não - responde Rommel, - conheço o homem. Continuará a guerra sem a menor piedade pelo povo alemão, até o momento em que não mais existir uma só casa na Alemanha”. Porém, com uma certa inconseqüência, persiste em recusar sua adesão ao assassinato. “Dou-lhe - diz a Speidel - a última chance. Se não fizer nada, agirei...”. Ele considera a possibilidade de examinar um armistício com o Alto-Comando Aliado. A composição da delegação que espera enviar a Eisenhower está formada em seu espírito.

 

Mas ele será seguido? As viagens que multiplica constituem sondagens. Muitos generais não hesitam em se colocar adiante. O Conde Schwerin, comandante da 116a Panzer, ousa assinar um memorando no qual, declarando falar em nome de sua tropa, pede o fim da guerra e a derrubada do regime. O Barão Von Lüttwitz, comandante da 2a Panzer, ratifica a linguagem de seu colega. Aqueles a quem Hitler chama, com ódio, “nobreza de almanaque”, se levantam contra um aventureiro meio eslavo, sem dúvida bastardo, que arrasta a Alemanha para um maëlstrom, para um maremoto, para uma catástrofe. Um sobrinho-neto de Bismarck, um sobrinho-neto de Moltke, os descendentes do grande Yorck de Wartemburg, do grande Seidlitz, de inúmeros nomes associados à glória da Prússia-Alemanha repudiam Adolf Hitler.

 

Há outros, especialmente os generais das SS. Também eles perderam a confiança. No dia 17 de julho, Rommel inspeciona o 1o Corpo SS. Seu chefe, Joseph, apelidado Sepp Dietrich, é o antigo chofer, o antigo guarda pessoal, o antigo confidente de Hitler. Declara, encolerizado, que a situação é insustentável; que caminha para o absurdo; que não é mais possível continuar a guerra sem abastecimentos, sem substituições e, sobretudo, sem aviação; que, de uma maneira ou de outra, é preciso acabar com ela. Os comandantes de divisão Bittrich e Meyer exprimem-se com a mesma veemência. Os próprios pretorianos perderam o fanatismo, duvidam do Fuhrer!

 

Por volta das 16 horas, Rommel põe-se a caminho para La Roche-Guyon. Faz calor e o dia está claro: tempo mortífero. O carro é conduzido pelo chofer Daniels, tendo a seu lado o Sargento Holke, vigiando o céu. Atrás, com Rommel, o Major Neuhaus e o Capitão Lang. Contorna Livarot, por um caminho secundário, com aviões inimigos em cima, mas saindo na Estrada Nacional n° 179, entre Livarot e Virmoutiers, perto da aldeia de Montgomery, Holke grita: “Jabos!”. Daniels tenta jogar o veículo a um valado, mas, atirando com todas as armas, os dois caças-bombardeiros, surgem com terrível rapidez. Daniels é mortalmente ferido. O carro dá uma guinada para a esquerda, salta, atravessa a estrada e arrebenta-se na vala da direita. Rommel jaz a vinte passos, inanimado, com uma fratura dupla no crânio. Só recuperará a consciência no hospital de Bernay, onde os médicos não respondem por sua vida.

 

No dia seguinte ao desastre com Rommel, o exército britânico ataca a leste do Orne, para completar a conquista de Caen e quebrar a saliência da frente alemã. No dia seguinte, 19 de julho, uma segunda prefeitura francesa, Saint-Lô, é libertada. Foi bombardeada com uma intensidade extraordinária e suas ruínas, sob as quais estão enterradas 1.200 vítimas civis, fornecem clichês dramáticos aos jornais hitleristas de Paris (“Como eles libertam a França!”). Os americanos entram na cidade levando o corpo do Major Thomas Howie, morto durante o último assalto, e o expõe nos escombros da catedral, dizendo que os mortos devem assistir à vitória com os vivos. Vitória prorrogada, pois se está no 44o dia da batalha da Normandia; Saint-Lô devia cair no sexto dia.

 

20 de julho: Hitler está salvo, o “putsch” fracassa

 

O 20 de julho começa com um ria radioso em toda a Europa. Berlim, excepcionalmente, não foi bombardeada durante a noite. As 7 horas, um avião de ligação decola do aeródromo de Rangsdorff. O Coronel Von Stauffenberg e seu adjunto, o Tenente Werner von Haeften, estão a bordo. Cada um leva uma pesada pasta. Cada pasta contém uma bomba. Estas bombas são as mesmas que, no dia 11, fizeram a viagem de ida e volta a Berchtesgaden. Quatro dias depois, fizeram a viagem de ida e volta a Rastenburgo, para onde Hitler acabava de voltar - mas a conferência do Fuhrer foi cancelada à última hora. Pela terceira vez em dez dias, Stauffenberg voa para matar Hitler.

 

Sabe que é a última tentativa. O laço se aperta. Um dos conspiradores mais importantes, Julius Leber, antigo deputado socialista no Reichstag, acaba de ser preso. A miraculosa impunidade que cobriu uma conspiração tão extensa e tão indiscreta já não pode prolongar-se por muito tempo.

 

Em Berlim, o governo provisório está formado. Presidente: Beck. Chanceler: Gördeler. Negócios Estrangeiros: Von Hassell. Comandante-Chefe: Marechal Von Witzleben, etc. Stauffenberg deve, após ter executado a missão, de tarde, vir tomar lugar entre eles como Secretário de Estado da Guerra. O comandante militar da Grande Berlim, o General Von Hase, e o chefe de polícia, Conde Helldorf - um conspirador de 1938 - estão com eles. Hase conta com a Escola de Infantaria de Döbenitz, com a Escola de Unidades Blindadas de Krampnitz e com o batalhão blindado da Divisão Grossdeutschland, à qual, por causa de um rodízio, tem a honra de defender a cidade de Berlim. Não se duvida a adesão de Fromm - que, apesar disso, não suspeita com que intenções o chefe de seu estado-maior voa para a Prússia Oriental. No caso de sua fuga, será substituído na chefia do Exército do Interior por uma das vítimas ilustres de Hitler, o Coronel-General Hoeppner.

 

Três horas de vôo, em um dia ensolarado, acima do Brandenburgo e da Prússia... A primeira visita de Stauffenberg, depois da aterragem, é o General Erich Fellgiebel, chefe de comunicações do OKW, elo importante da cadeia da conspiração, pois deve, depois do atentado, isolar o QG do Fuhrer morto. Através de diversos postos de controle, que verificam as identidades mas não se preocupam com a carga, o carro enviado ao aeródromo deixa Stauffenberg, diante do alojamento de Keitel. Ele desce, carregando penosamente a pasta com os três últimos dedos de sua única mão. A outra bomba fica no carro, com Haeften. Constitui uma duplicata inútil, pois Stauffenberg está, fisicamente, impossibilitado de entrar na sala de Hitler com duas pastas. Mesmo porque os artífices da conspiração se sentem garantidos de que somente um engenho, explodindo em um espaço fechado, bastará para não deixar sobrevivente. Com Keitel, Stauffenberg esboça o assunto que o traz a Rastenburgo: as novas divisões formadas pelo Ersatzheer, levantadas com uma terceira proclamação e às quais Hitler deu o nome pomposo de Volksgrenadieredivisionen (Divisões de Granadeiros do Povo). Quando Keitel apanha o quepe para sair, Stauffenber vai ao vestiário, tranca-se e, com a ajuda de uma pinça, quebra a cápsula contendo o ácido que deve libertar a espoleta. Nada pode impedir a explosão da bomba dez minutos depois.

 

Do lado de fora, o marechal-de-campo se impacienta. O horário está sobrecarregado por causa de uma visita de Mussolini, que, depois de ter inspecionado quatro divisões italianas em formação na Alemanha, deve chegar à estação de Rastenburgo, no começo da tarde. Stauffenberg sai, desculpando-se. Keitel se oferece para carregar a pasta. Ele recusa com um sorriso afável. Amor-próprio de mutilado.

 

A conferência realizou-se no Lagebaracke (Quartel), como acontecia todas as vezes que a região não estava em estado de alarma aéreo. Uma casa de madeira, protegida por uma escassa camada de cimento, iluminada por dez janelas, tendo, na frente, uma central telefônica, diante da qual um suboficial vigia. Stauffenberg, com voz bastante clara, diz-lhe que espera uma comunicação urgente de Berlim e, depois, atrás de Keitel e do General Buhle, entra na sala de conferências. Já são mais de 12h30, a sessão foi aberta há alguns minutos e o General Heusinger expõe os últimos acontecimentos da frente oriental. Keitel interrompe para explicar a presença de Stauffenberg. Somente Hitler está sentado, no meio de vinte pessoas em pé; dirige uma pequena saudação ao coronel mutilado; depois, pede a Heusinger que termine sua exposição. Stauffenberg coloca sua pasta junto a um dos pés de madeira que sustentam a mesa do lado de dentro, ou seja, em direção ao Fuhrer. Recua um passo, espera alguns segundos e sai.

 

Keitel não viu a saída, mas constata a ausência. Sai por sua vez, com a intenção de dizer a Stauffenberg que sua vez de falar está próxima e que ele deve estar preparado. O coronel não está na antecâmara. Keitel perplexo, volta.

 

Neste instante, às 12h42, há a explosão da bomba. Stauffenberg e Haeften já tinham deixado o Sperrkreis 1 (Círculo de Controle 1), ou seja, o recinto do Fuhrer. Esperavam, fumando um cigarro, no segundo círculo, diante do escritório de Fellgiebel. A detonação que ouvem é comparável a de um obus 150. Vêem chamas e ouvem gritos de dor. O trabalho está feito.

 

Conduzido por Haeften, o carro dirige-se para o campo de aviação. O zelo de um chefe de posto, intrigado com a explosão que acabou de ouvir, o retém um instante na barreira exterior, mas Stauffenberg desembaraça-se, telefonando para o Capitão Möllendorff, adjunto do comando do GQG. Alguns minutos depois, voa para Berlim.

 

Pousa em Rangsdorff às 15h41 e telefona ao General Olbricht, para dar a boa nova: Hitler está morto!

 

Olbricht corre para Fromm, informa-o do grande acontecimento e apresenta-lhe, para assinar, a ordem de execução do Plano Walküre (Valquírias). Fromm, um homem enorme, de 2.04 m de altura, a maior entre os generais alemães, reclama confirmação dos fato. Olbricht liga o telefone e chama Keitel com urgente prioridade - convencido de que Rastenburgo não responderá, pois Fellgiebel devia bloquear as centrais. Mas, em segundos, Keitel está na linha. Fromm, que tomou o aparelho, diz-lhe que correm rumores, em Berlim, de um atentado contra o Fuhrer. Keitel confirma. O Fuhrer, diz, não foi seriamente ferido, graças a Deus! Foi esperar Mussolini na estação de Rastenburgo. Não! Não é preciso tomar medidas particulares e executar o Plano Walküre. Mas, saberia Fromm onde estaria o Coronel Von Stauffenberg, chefe de seu estado-maior? Ele se encontrava no Lagebaracke alguns instantes antes da explosão. Desapareceu. Fromm responde de boa-fé, que não sabe de coisa alguma.

 

Não se suspeitou imediatamente de Stauffenberg. A explosão foi de uma violência terrível. Quatro homens foram mortos imediatamente: o ajudante-de-campo, General Schmundt, o General Korten, da Luftwaffe, um Coronel Brandt, que, mudando de lugar a pasta de Stauffenberg, na qual tropeçara, salvou, talvez, a vida de Hitler, e, finalmente o estenógrafo Berger. Os sobreviventes saíram cobertos de sangue, as fardas em farrapos, negros como breu, gritando de dor, mas o primeiro pensamento foi o de que um avião isolado acabava de lançar uma bomba no alvo. O Lagebaracke fora reconstruído recentemente e imaginou-se, em seguida, que trabalhadores estrangeiros da Organização Todt tinham colocado uma máquina infernal sob o chão. Depois, Keitel - o único que não recebera qualquer arranhão - lembrou-se de Stauffenberg...

 

Hitler foi o mais calmo no momento. Quando o trem de Mussolini entrou na estação - após uma longa demora, que fez com que os passageiros suspeitassem de um acontecimento fora do comum - ele estava na plataforma, coberto de uma grande capa preta, diante de Goering, Himmler, Ribbentrop, Bormann, etc., que haviam acorrido dos QGs vizinhos. A saudação com o braço esquerdo, a mão esfolada, uma tampa de algodão enterrada na orelha direita com o tímpano arrebentado, eram os únicos sinais visíveis do atentado. “Duce - diz - uma máquina infernal acaba de explodir contra mim. A Providência protegeu-me”. Chegado ao Wolfsschanze, desculpa-se e fecha-se com Himmler e, durante este tempo, os italianos assombrados vêem os outros grandes chefes nazistas discutirem e Goering ameaçar Ribbentrop com seu bastão de marechal. “Sente-se Judas no ar...” - dirá o Marechal Graziani.

 

O retorno do Fuhrer traz de volta a compostura. Himmler parte para Berlim com a nomeação de comandante-chefe do Exército do Interior, após o que Hitler dá ao outro ditador - desta vez ligeiramente condescendente - a vigésima demonstração de sua certeza na vitória. Somente na hora do chá é que a raiva contida se manifesta. Hitler entra em crise de histeria vingativa, promete aos traidores, às suas famílias, à sua classe social, os mais horrorosos castigos...

 

Uma outra cena se desenrola na Bendlerstrasse. Stauffenberg, chegado de Rangsdorf, jura a Fromm que Keitel mente, que Hitler está morto, que viu seu corpo sair do Lagebaracke despedaçado. Fromm recusa-se a acreditar. Hoeppner, que Hitler excluíra do Exército em 1941, chegou, trazendo seu uniforme em uma valise, e, no vestiário, vestiu-se, novamente, como coronel-general. Quer expulsar Fromm do escritório. Fromm resiste. Os dois homens se esmurram. Sacam dos revólveres - mas não atiram. Fromm, desarmado, é preso. A guarda do Ministério obedece a Olbricht, bloqueia as saídas, patrulha os corredores. Centenas de oficiais trabalham nos escritórios sem suspeitar do drama que se desenrola ao lado deles.

 

Aliás, tudo se desenrola frouxamente. Atravessando Berlim, Stauffenberg teve a decepção de não constatar qualquer movimentação de tropas. Quando chega a Bendlerstrasse, irrita-se em saber que a palavra de ordem Walküre tinha sido lançada há pouco e, ainda, somente graças à energia do Coronel von Quirheim, que se substituiu aos seus superiores hesitantes. Beck, doente, quase morrendo, somente chegou ao Ministério às 16h30. Witzleben foi para Zossen, a 40 km de Berlim para conferenciar com o primeiro-general intendente Wagner. A Escola de Infantaria de Doberitz não está alertada. Os generais, que, segundo o exemplo de Fromm, se pronunciam contra o putsch, como Kortzfleisch, comandante da Wherkreis 3a (Terceira Região Militar), são presos, em vez de serem abatidos na hora. Os conspiradores tiveram, diante dos olhos, os métodos implacáveis do nacional-socialismo; sabem que, se fracassarem, somente tem a esperar uma morte horrível. Apesar disso, exercem sua tarefa com considerações de homens educados e lentidão de velhos.

 

O batalhão da guarda de Berlim é comandado pelo Major Otto Ernst Remer, de 32 anos, oficial da frente, ferido nove vezes, recentemente condecorado com a cruz de cavalheiro pelas mãos do próprio Fuhrer. Helldorf advertiu Beck e Witzleben que seria melhor afastá-lo de Berlim, em virtude de seus sentimentos políticos serem duvidosos, mas os dois velhos gentlemen não prestaram atenção a esta observação. Raciocinavam com um silogismo: um soldado obedece; Remer é um soldado; portanto, Remer obedecerá. Convocado por Von Hase à Kommandantur da Unter den Linden (uma das principais avenidas de Berlim), é informado da morte do Fuhrer e ouve a enumeração das trinta missões confiadas ao seu batalhão, para manter a ordem: ocupação das estações de rádio, defesa do quarteirão dos Ministérios, ocupação da sede da Gestapo, prisão do Doutor Goebbels, etc. Não levanta objeções, nas faz perguntas; volta a Döberitz, dá as ordens e parte, ele próprio, com alguns blindados, para prender Goebbels. O negócio, dirá após o golpe, lhe pareceu suspeito. Apesar disso, Witzleben e Beck, até aqui, tem razão: o soldado Remer obedece.

 

Mas Goebbels foi advertido. Um certo Hagens, tenente da reserva e oficial de doutrinação política do batalhão, preveniu-o. Quando por sua vez, entra Remer, com o revólver na mão, encontra um Goebbels cheio de sangue-frio. Que quer o Herr Major? Prendê-lo. Por que? Porque o Fuhrer está morto. Levanta os ombros. O Herr Major é vítima de uma mistificação. Mas traz no pescoço a cruz de cavalheiro. Ela não lhe foi dada pelo Fuhrer? É certo. Então conhece a voz do Fuhrer? Muito bem, escute.

 

São necessários trinta segundos para que Goebbels consiga a ligação com o Wolfsschanze. Dá o telefone a Remer. Hitler  diz ao jovem comandante que traidores da pátria alemã tentaram, é verdade, assassiná-lo, mas que ele próprio não está ferido e o castigo está a caminho. Encarrega-o de, pessoalmente, prender os conspiradores e, esperando a chegada do Reichfuhrer Himmler, pede-lhe que obedeça somente ao Doutor Goebbels. Conta com seu zelo, fidelidade e honra.

 

Nesse momento, aproxima-se as 18 horas. Embora doravante duvidem da morte de Hitler, os conspiradores imaginam que estão prestes a ganhar a partida, pois são senhores do Ministério da Guerra e da sede do Estado-Maior. De Zossen, Witzleben proclama-se, finalmente, comandante-chefe da Wehrmacht. Da Bendlerstrasse, Stauffenberg, usurpando o nome de Fromm, lança aos comandantes das Wehrkreise (Regiões Militares) ordens para a prisão dos Gauleiter (chefes de distritos), Statthalter (governadores), chefes da Gestapo, da SD (Sicherheitsdienst, Serviço de Segurança), dos campos de concentração, etc. O contato é estabelecido com Paris, onde Stülpnagel põe-se de acordo com o entusiasmo. Kluge está na frente de batalha, mas espera-se a qualquer momento sua volta a La Roche-Guyon. Ninguém duvida da sua adesão ao movimento. Ele disse cem vezes que era preciso matar “esse porco do Hitler” e liquidar uma guerra perdida.

 

O dia foi terrível para Kluge. Volta coberto de suor e de terra, por ter-se jogado dez vezes às valas. Depois do desastre com Rommel, reuniu em sua pessoa o supremo comando do Oeste e o comando do Grupo B. Percorrendo diariamente a Normandia, conhece agora a experiência da inferioridade esmagadora sob a qual combatem as tropas que ele acreditava serem fracas e covardes. A conferência que acaba de presidir, reunindo os generais do Panzergruppe West, realizou-se em um bosque perto de Saint-Pierre-sur-Dives, pois qualquer movimento em torno de uma habitação constitui suicídio. O dia está magnífico, o que significa grande ação da aviação inimiga. O céu é uma colméia barulhenta e todos os aviões que cortam o azul levam a estrela branca. A conferência foi sinistra. A ofensiva britânica a leste de Caen prossegue há 48 horas. O tapete de bombas, lançado no primeiro dia por 2.000 aviões aniquilou as tropas alemães de primeira linha e foi necessário apelar imediatamente para as reservas. Todos os Panzer combatem em uma delgada frente pressionada incessantemente, de Troarn a Bourguebus. Será rompida? Aborrecidos e extenuados, todos os generais o predizem.

 

Speidel, continuando como chefe do Estado-Maior do grupo de exércitos, narra a Kluge os acontecimentos do dia. Acrescenta, como se tratasse de um detalhe do serviço, que foi perpetrado um atentado contra a vida do Fuhrer e que parece ter tido êxito. Kluge não se sobressalta, não pisca, não comenta. Apenas uma pergunta: “Nada mais?” E uma única palavra: “Obrigado”.

 

Estranho Kluge! O acontecimento em que, talvez, tanto tenha pensado, o assassinato de Hitler, acaba de acontecer sem causar nele uma reação perceptível. Toma banho e muda a roupa branca. Para recuperar as forças e ter tempo de ver com clareza.

 

Às 19 horas, Berlim chama. Ludwig Beck no outro lado da linha. “Kluge, o Fuhrer está morto. Reúna-se imediatamente ao nosso movimento... Lembro-lhe nossas conversas e a posição que você tomou. Não, a situação não está ainda absolutamente clara. A morte de Hitler é provável; mas não é bem certa... Pouco importa, nossa ação esta desencadeada e irá até o objetivo final. Tudo repousa no Exército do Oeste, em você! Exijo uma resposta sem equívocos”. Kluge deixa passar o fluxo de palavras nervosas do velho homem que foi seu comandante. “Devo - diz - consultar meu estado-maior. Chamarei dentro de meia hora”.

 

Um pouco mais tarde, Stülpnagel se apresenta, trazendo com ele o Dr. Horst, cunhado de Speidel, e o mais entusiasta, o mais persuasivo dos conspiradores, Cäsar von Hofacker. Fecham-se com Kluge - que não cumpriu ainda e nem cumprirá jamais a promessa de chamar Beck. Hofacker, simples tenente-coronel da reserva, toma a palavra: “A guerra está perdida... Ponham um paradeiro no massacre... impeçam que a mais terrível das catástrofes se abata sobre o povo alemão...” Esta eloqüência jorra sobre um icebergue. Kluge levanta-se. “Senhores - diz - o atentado fracassou...” - “Mas - atalha - Stülpnagel - pensei que o senhor soubesse” - “Acabo de sabê-lo diretamente de Rastenburgo...” Qualquer outra palavra seria inútil. Stülpnagel e Hofacker compreenderam. Stülpnagel e Hofacker - e tantos outros, milhares de outros - acabam de receber a sentença de morte. O Marechal Günther von Kluge assim decidiu.

 

Acabou? Nem tudo. Kluge é o anfitrião. Os visitantes de Paris são convidados para jantar. Toma-se lugar, segundo a ordem hierárquica, na sala nobre de refeições do velho solar. O longo crepúsculo de julho morre e, tendo sido a eletricidade cortada pelos bombardeios, são trazidos candelabros. Candelabros fúnebres. Ninguém come, a não ser Kluge. Ninguém fala, a não ser Kluge. Conta lembranças das campanhas da Rússia, anedotas da vida de caserna. Ri. De repente, Stülpnagel baixa o guardanapo. “Senhor Marechal-de-Campo, posso dizer-lhe algumas palavras em particular?”. Kluge hesita, concorda, dirige-se com seu subordinado para uma sala vizinha. Na sala de jantar, o silêncio volta a ser total. Repentinamente, a porta de abre. As roucas explosões de voz próprias de uma decompostura militar ressoam como se fosse na escada de serviço de um quartel. O Feldmarshall Von Kluge pragueja como um Feldwebel (sargento). “É incrível! É insensato! É um ato de insubordinação! O Senhor General Von Stüpnagel deu ordem para prender o General Oberg, os SS e os SD de Paris! Blumenritt, telefone, revogue-me esta ordem imbecil! Sofort! Imediatamente!”

 

Em Paris, tudo se passa às mil maravilhas. Os soldados executavam com entusiasmo a ordem de encarcerar os suportes do regime. Estes não opunham nenhuma resistência. Colunas de caminhões da Wehrmacht transportavam para a prisão de Fresnes e para o Forte de Saint-Denis cerca de 1.200 indivíduos que, há quatro anos, faziam imperar a lei nazista na capital francesa. No Hotel Raphael, os oficiais de Stülpnagel bebiam champanha, esperando a volta de seu chefe. A rádio tinha anunciado que o Fuhrer tinha escapado de um atentado, mas todos estavam convencidos de que o Marechal Von Kluge se tinha reunido ao putsch e que iria tratar com os Aliados.

 

Por volta de 23 horas, o chefe do Estado-Maior, Coronel Von Linstow, recebe uma chamada telefônica de La Roche-Guyon, ordenando suspender a caça aos nazistas; responde que é muito tarde, que a operação está no final. Meia hora depois, Berlim, chama. Linstow, cardíaco, afunda-se na cadeira, vitimado por uma síncope. Stauffenberg, pessoalmente - muito calmo, sem um estremecimento na voz - informa aos cúmplices de Paris que o putsch fracassou e que devem cuidar apenas de sua segurança pessoal. O Batalhão Grossdeutschland mudou de campo. Em vez de proteger o Ministério da Guerra, cerca-o e invade-o. Os SS, membros da Gestapo, marcham com os soldados. “Estão à porta de meu escritório... Estão chegando...”

 

Em La Roche-Guyon, Kluge voltou à mesa. Insistiu para que Stülpnagel retomasse o lugar à sua direita. Depois do conhaque, conduz o general até o carro e, voltando a ser bom camarada, sopra-lhe um conselho no ouvido: “Em seu lugar, eu me vestiria como civil e tentaria desaparecer”. Stülpnagel não ouve e, quando o marechal lhe estende a mão, ele não vê.

 

Chegou a hora da decisão em Berlim, Fromm, libertado, é tomado de fúria vingativa, superexcitado pela pressa em ver desaparecerem homens dos quais foi cúmplice por assentimento tácito. Witzleben, que fez apenas breve aparição na Bendlerstrasse, volta para esperar a prisão. Gördeler, que não apareceu durante o dia, foge. O general-intendente Wagner se suicida, Hoeppner, a quem Fromm oferece o mesmo tipo de saída, em nome da velha camaradagem, responde que espera poder justificar-se e deixa-se conduzir para a prisão militar de Moabit. Alguns conseguem fugir. Outros, entre os quais Yorck, Schwerin e Berthold von Stauffenberg, irmão de Claus, são conduzidos à Gestapo, na Prinzregenstrasse. Beck dá um tiro na cabeça, arranha a testa, desmaia, volta a si e recomeça o mesmo insucesso. Fromm pede a um suboficial que “ajude o velho cavalheiro”; o suboficial leva o antigo chefe do Estado-Maior-Geral nos braços e vai acabar de matá-lo em uma sala vizinha.

Restam quatro prisioneiros, que, em escalões diferentes, eram todos colaboradores do Coronel-General Friedrich Fromm. Bastam a este algumas palavras cochichadas com Remer e Skorzeny, para declarar que uma corte marcial condena à morte o General Olbricht, o Coronel Mertz, o Tenente Haeften e “este coronel cujo nome não quero pronunciar” (Stauffenberg). Eles são levados ao pátio principal e executados à luz de faróis de um automóvel - enquanto ressoa o bombardeio efetuado por uma esquadrilha aérea que esmaga um quarteirão do norte de Berlim.

 

2.246 aviões rompem a frente do Cotentin

 

O estranho e terrível acontecimento de 20 de julho foi, sistematicamente, minimizado entre os Aliados. Os governos conheciam, através dos próprios conspiradores, a antigüidade e extensão da conspiração, mas constantemente se recusavam a dar o menor encorajamento a esta forma alemã de resistência. Ela contradizia a idéia-força de uma identidade absoluta da Alemanha com o seu Fuhrer. Chocava-se com o postulado de uma cumplicidade automática, entre o nacional-socialismo e o militarismo prussiano, simbolizado pela classe dos Junkers. Ainda hoje, poucas pessoas tem o cuidado de observar que, entre os grandes chefes nazistas, não houve praticamente prussianos e, ainda menos, aristocratas, mas quase unicamente alemães do Oeste e do Sul, geralmente de origem católica e sempre de origem social humilde ou modesta: Hitler, Goering, Himmler, Goebbels, Bormann, Ley, Sauckel, etc. A revelação de que uma elite social e espiritual reconhecia os crimes do regime e concretizava o patriotismo no castigo dos criminosos, trazia um golpe no princípio da rendição sem condições. A Alemanha deveria permanecer, integralmente, como o gênio do mal. As guerras são conduzidas com princípios simples e imperativos curtos.

 

Assim, Hitler e os Aliados concorreram para apresentar o 20 de julho como um episódio de menor significado. Quando o Fuhrer falou pelo rádio, por volta da meia-noite, para narrar o atentado que o transformara em protegido da Providência, sublinhou que os conspiradores eram “uma súcia muito pequena, uma súcia extremamente reduzida” de oficiais criminosos e estúpidos, perseguindo sórdidas ambições pessoais. Churchill, embora conhecesse de maneira bem particular os antecedentes da conspiração, limitou-se a declarar que o atentado contra “o velho bastardo”, provava, muito simplesmente, que o Estado-Maior alemão reconhecia que a guerra estava perdida. Antes de suicidar-se, com uma granada, entre as linhas alemães e russas, Von Tresckow escreveu: “Deus prometera poupar Sodoma se ali encontrasse dez justos. Espero que Ele não consentirá em destruir a Alemanha, por causa do que tentamos fazer. Nenhum de nós pode queixar-se da sorte. Todo aquele que aderiu ao movimento de resistência vestiu a túnica de Nesso...” Mas seriam necessários anos de pacificação para que fosse reconhecido no 20 de julho aquilo que o historiador Maurice Beaumont chama de “o esforço heróico de alguns para quebrar as cadeias em que todos se puseram voluntariamente”.

 

Uma terrível repressão começa a 21 de julho. Hitler jura apagar o nome de Stauffenberg e os puros nazistas prometem aniquilar totalmente a aristocracia. Detentos são assassinados na prisão, entre os quais o Conde Sponek, condenado à morte por desobediência, mas cuja pena fôra comutada por Hitler. Foram constituídos, para conduzir o inquérito e julgar os acusados, respectivamente, uma comissão especial, Sonderkommission 20 Juli, e um Tribunal do Povo, Volksgerichthof. Vários milhares de prisões são ordenados. A cabeça de Gördeler é colocada a prêmio por um milhão de marcos. Os corpos de Stauffenberg, de Olbricht, de Mertz e de Haeften são desenterrados, queimados e as cinzas lançadas ao vento, “não em terras cultivadas - precisa Himmler - mas em campos incultos”. Um Tribunal de Honra, Ehrenhof, é constituído no Exército para designar os oficiais que devem ser entregues à Justiça nazista, e o Marechal Rundstedt se desonra, aceitando a sua presidência. Hitler, aliás, não espera suas decisões para castigar. Fromm, transformado em suspeito pela pronta execução de Stauffenberg, é preso. O chefe do Estado-Maior Geral, General Kurt Zeitzler, não foi cúmplice dos conspiradores, mas manteve relações de amizade com muitos deles: Hitler expulsou-o do Exército, com a proibição de usar uniforme. Guderian aceita sucedê-lo.

 

Em Paris, os SS e os SD tem o bom-senso de preferir a repressão à exposição ridícula e perigosa de sua prisão sem glória. Hofacker, Linstow e um outro coronel chamado Finckh puderam ter, durante alguns dias, a ilusão de que haviam escapado do cerco, mas a Gestapo os despista e os envia para a Alemanha, para a tortura e a morte. A sorte de Stülpnagel é ainda mais trágica: convocado a Berlim, para se explicar, dá ao chofer ordem de fazer um desvio pelo campo de batalha de Verdun. Perto de Vachereauville, onde combatera em 1916, dá um tiro na cabeça, mas consegue acertar apenas os dois olhos e, no hospital, sob o efeito do anestésico, pronuncia o nome de Rommel...

 

O ardor da luta, na frente da Normandia, não deixa aos combatentes, de forma alguma, tempo para se interessar pelo atentado de Rastenburgo. Montgomery, bruscamente, toma a decisão de suspender a Operação Goodwood. Os britânicos avançaram 10 km e fizeram 2.000 prisioneiros - resultado medíocre dos meios desenvolvidos e das esperanças suscitadas. Vivas críticas abrem caminho na imprensa inglesa e americana. Eisenhower está inquieto. Um precedente pesa nos espíritos: a expedição dos Dardanelos. Como em 1915, estabeleceu-se e consolidou-se uma cabeça-de-ponte, mas não se consegue sair dali e a campanha se condensa em uma guerra de assédio... Enquanto isso, no Leste, a frente alemã desmorona e o Exército Vermelho, vindo do Volga, atinge o Niemen...

 

Para quebrar o impasse, o SHAEF estudou outros desembarques, examinou a Alta Normandia, o Norte da Bretanha, Quiberon, etc. Tudo bem considerado, pronuncia-se a favor de uma nova tentativa no Cotentin. As horríveis sebes e os abomináveis caminhos esburacados desanimam os soldados americanos, mas, a custa de estudar os mapas, Bradley acredita ter encontrado uma zona de ataque, relativamente favorável, logo a oeste de Saint-Lô, entre as aldeias de Hébécrevon e de Montreuil. O terreno é acidentado, mas firme e relativamente pouco arborizado. Os corredores de penetração estão orientados para sudoeste, entre cristas de pequena altura. Chega-se, em seguida, a uma parte do bocage normando onde os campos são mais vastos, as sebes menos espessas, a lama menos pegajosa, os caminhos menos esburacados. Esta direção do ataque conduz a Avranches, na base da Bretanha, e permite avançar para o Loire e, assim, empreender o grande movimento envolvente que constitui a idéia estratégica do Plano Overlord. Aliás, um rasgo de engenhosidade melhorou as condições da luta no bocage. Um sargento, Curtiss Culin Jr, do 102o Esquadrão de Reconhecimento, imaginou um dispositivo que permite ao tanques Sherman atravessar as sebes. O comandante de Corpo Gerow e o próprio Bradley vieram conhecê-lo. Com as ferragens apanhadas na praias e um maçarico encontrado nas ruínas de uma garagem, Culin efetivamente construiu uma espécie de escudo prolongado por quatro pontas de aço. Dá ao tanque um meio de abrir caminho e, ao mesmo tempo, o dispensa de abrir o ventre vulnerável aos tiros da defesa antitanque. O Sherman escava na base da sebe, rugindo como um javali, e força a passagem no meio de uma erupção de terra e verdura esmagada. Fez-se vir da Inglaterra o material necessário e logo se promove a multiplicação da invenção do Sargento Culin. Mas Bradley proíbe que os tanques modificados sejam usados nas operações rotineiras. Devem constituir uma surpresa para o dia do ataque.

 

Bradley hesita um pouco sobre o modo deste ataque. Os comandantes de corpos, generais clássicos, pronunciam-se por uma penetração prévia de artilharia. “Eu seria desta opinião - diz Bradley - se tivesse dez vezes mais canhões”. Com aqueles de que dispõe, seria necessário um bombardeio de vários dias, e assim o inimigo estaria alerta e faltaria a surpresa. O avião não tem a precisão do canhão, mas tem a seu favor a rapidez, o efeito opressivo, a capacidade de desorientar os defensores. Todo o problema é alcançar um grau satisfatório de saturação, aplicando assim uma tonelagem de bombas adequada sobre uma zona correspondente ao objetivo tático visado.

 

Para formar a artilharia aérea, Bradley volta à Inglaterra. Os resultados da procura a que se entrega ultrapassam a expectativa. São colocados à sua disposição 1.500 bombardeiros pesados, 396 bombardeiros médios e 350 caças-bombardeiros. Poderiam ainda ser mais numerosos, mas os Lancaster da RAF estão preparados apenas para lançar bombas de grande calibre e, receando as falhas que entravaram o avanço britânico na região de Caen, Bradley os elimina.

 

A zona na qual será aplicada a preparação aérea é um retângulo de 7 km de comprimento por 3 km de largura, com um dos lados coincidindo com a Estrada Périers-Saint-Lô. Serão revolvidos 20 km² de terra normanda por 2.246 aviões, ou seja, um aparelho por hectare. Três divisões de infantaria, a  9a, a 4a e a 30a, penetrarão na brecha aberta pela massa aérea. Serão ultrapassadas pelas divisões blindadas 2a e 3a que, orientando-se para sudoeste, correrão para Coutances, Granville e Avranches e cercarão as forças inimigas em posição entre Périers e Lessay. Conta-se fazer cair com um único golpe toda a defesa do Cotentin.

 

Do lado alemão, recuou-se passo a passo das alturas de La Haye-du-Puits até o desaguadouro dos Prados Pantanosos de Gorges, terminando por um largo estuário. Alguns dias antes, a Panzer Lehr e a 12a Pz SS foram empregadas a oeste de Saint-Lô, em vã tentativa de salvar a cidade. Agora, Kluge pensa que a ofensiva inglesa vai prosseguir e quer recuperar as duas divisões blindadas para levá-las até a região de Caen. A 2a Pz SS já foi substituída. A Panzer Lehr deveria sê-lo, pois Hitler consentiu, afinal, em retirar algumas divisões do Passo de Calais. Mas o comando local tem de tal forma consciência da fragilidade de suas linhas, que retém os carros blindados e os homens de Bayerlein. São eles a elite do Exército do Oeste, que mantém a frente entre Montreuil e Hébécrevon, com alguns grupos de pára-quedistas e os destroços da 275a DI.

 

Chove, porém. O ataque americano, com o nome convencionado de “Cobra”, no princípio marcado para o dia 18, é adiado por duas vezes. Decide-se pelo dia 24. As formações aéreas levantam vôo, mas o céu escurece tão rapidamente que lhes é dada a ordem de voltar. Muitas formações não a ouvem, executam suas missões, atiram 800 toneladas de bombas, matam e ferem alemães, mas também 157 americanos, provocando pânico e uma retirada. Os veteranos da Panzer Lehr alegram-se em ver o inimigo fugir das próprias bombas, apesar de suas perdas.

 

No dia seguinte, 25 de julho, um relatório espantoso parte das primeiras linhas para os QG alemães: “Retirada geral do inimigo...” A artilharia aérea se aproxima, desta vez inteira, e as cenas da véspera impressionaram tanto os americanos, que, recebendo ordem ou espontaneamente, regimentos inteiros recuam. Mas a satisfação alemã é curta. O furacão que se abate no retângulo desenhado por Bradley ultrapassa tudo o que se vira no correr da guerra em todas as frentes. As posições alemães são destroçadas. As munições explodiram. As armas e os carros blindados são destruídos. As sebes são revolvidas. Os homens são despedaçados ou só sobrevivem em estado de bestas amedrontadas. Soldados que acabavam de travessar cinco anos de guerra tremem e soluçam. Muitos ficaram loucos. A terra estremece. Em Saint-Lô, muito perto, e infelizmente sofrendo o efeito da guerra, a população civil grita que é o fim do mundo e outros pensam que um dos beligerantes inventou uma nova e terrível arma. Finalmente, iluminada pelo napalm atirado pelos caças-bombardeiros, uma onda de chamas cobre a zona atacada. Parece impossível que um homem possa sobreviver nesse inferno.

 

Os americanos também pagam. Como na véspera, rosários de bombas caem ao norte da Estrada Périers-Saint-Lô. Muitas centenas de homens são mortos ou feridos. O General Lesley McNair, vindo como espectador, é pulverizado em seu jipe: ele comandava na Inglaterra, um grupo de exércitos fictício, destinado a entreter o inimigo no receio de um novo desembarque, e é preciso guardar segredo de sua morte para não ser descoberto o ardil.

 

Às 11 horas, enquanto os canadenses atacam em volta de Caen, para fixar as reservas alemães, os americanos atravessam a Estrada Saint-Lô-Périers. Foi-lhes dito muitas vezes que o bombardeio aéreo arrasaria todos os defensores. Em Lozon, La Chapelle-en-Juger, Hébécrevon, os sobreviventes levantam a cabeça, encontram algumas armas e combatem. Ainda intimidados, os coronéis e os generais-de-divisão contêm os batalhões que avançam sem encontrar resistência, e o General Collins, considerando que a brecha aberta pela infantaria não é suficiente, atrasa o emprego de suas divisões blindadas. De noite, o avanço não ultrapassa 2 km e nem Marigny, nem Saint-Gilles, objetivos do primeiro dia, são alcançados. A decepção é profunda. Traduz-se por uma acerba crítica à aviação. “Até aqui - diz o General Hobbs - não vimos traços de bombardeio”.

 

Julgamento injusto. A fraqueza do avanço decorre principalmente da falta de audácia do ataque da infantaria. O bombardeio aéreo virtualmente destruiu a Panzer Lehr, e realmente fez uma brecha nas linhas inimigas. Nos dias 26 e 27, as resistências locais desmoronam. No dia 28, duas poderosas colunas blindadas lançam-se às estradas de Coutances e de Avranches. O exercício do comando alemão torna-se impossível, as linhas telefônicas estão cortadas, as emissoras de rádio atraem a aviação e os oficiais de ligação são bombardeados nas estradas pelos Jabos. O General Von Choltitz, surpreendido em Térence, em chamas pela súbita aparição dos carros blindados americanos, escapa através dos campos e só retoma contato com seu estado-maior para saber que foi substituído à frente do seu 84o Corpo pelo General Elfeldt. O chefe do Estado-Maior do 7o Exército, Pemsel, é igualmente substituído, pagando por seu chefe, o General SS Hausser, que, contrariando as intenções de Kluge, recuou sua ala esquerda para sudeste, perdendo contato com a costa do Cotentin. O mar já não cobre o flanco do exército alemão. No dia 29 de julho, os americanos entram em Coutances. A 30, tomam Avranches. A 31, conquistam Pontaubault, última localidade normanda na estrada da Bretanha.

 

Eles deveriam estar lá a D + 20. E estão a D + 54. Mas estão lá.

 

Vercors, onde a Resistência deixou cair a máscara

 

A luta dos combatentes do Vercors constitui um dos mais nobres episódios da Resistência interior francesa.