Tópicos do
capítulo:
47 dias depois da
brecha de Saint-Lô, a Alemanha é alcançada
Dificuldades
aliadas para o abastecimento
Montgomery
defende violentamente seu plano
Hitler decreta o
alistamento em massa
Ofensiva aliada
rumo ao Leste. Revés em Nimega e Arnhem
Outono de
angústia para os Aliados
As V2 sobre
Londres
Rommel escolhe o
suicídio
Marcado pela
morte, Roosevelt é reeleito Presidente
Dura batalha para
libertar Antuérpia
23 de novembro:
Estrasburgo libertada
Hitler prepara
sua ofensiva nas Ardenas
16 de dezembro:
ao alvorecer, o ataque alemão (a batalha do Bulge)
Em Bastogne,
MacAuliffe diz uma palavra histórica
22 de dezembro:
Patton contra-ataca. 2a ofensiva de Hitler
Atolamento A 1o de setembro, os canadenses tem a profunda satisfação de tomar Dieppe, onde tantos dos seus tombaram inutilmente em 1942. O 2o Exército inglês atravessa Arras sem se deter, capturando de passagem o general dos Panzer, Eberbach, que o batera tão severamente em Caen. No dia seguinte, a guarda avançada inglesa entra na Bélgica, toma Tournai, enquanto os americanos se apoderam de Noyon e Saint-Quentin. No dia 3, data da libertação de Lião, os ingleses libertam Bruxelas e os americanos cercam 30.000 alemães perto de Mons. A 4, o 2o Exército britânico se apodera de Antuérpia e a 45a DI dos EUA toma Bourg-en-Bresse. O dia 5 é uma jornada triunfal: o Exército de Hodges transpõe o Mosa, em Sedan; o Exército de Patton liberta Nancy; o Exército de Crerar toma Boulogne e aproxima-se de Calais. Dia 6, o 1o Corpo de Exército francês, comandado por Béthouart, entra em formação à direita do 7o Exército, ao longo da fronteira suíça. No mesmo dia, o 1o Exército americano atinge a linha Tirlemont-Namur e, no dia seguinte, guarnece o canal Albert: a guerra volta ao ponto de partida de maio de 1940. Retorna também aos campos de batalha de 1870, com o 3o Exército americano forçando o desfiladeiro de Santa Maria das Montanhas e apoderando-se de Saint-Privat. À extrema direita, o 7o Exército americano toma Besançon. Na primeira semana de setembro, os Aliados atingem do Sena ao Mosa, da Provença ao Doubs. No dia 8, a velocidade do ataque se mantém. As tropas de Le Lattre tomam Beaune e Autun. As tropas de Patton tomam Briey. As de Hodges tomam Liège e Maestricht. As tropas de Dempesy transpõem o canal Albert. As tropas de Crerar tomam Bruges. No dia 9, não há vitória, mas a 10, a invasão vinda do canal da Mancha e do Mediterrâneo fazem junção na cidadezinha borgonhesa de Sombernon, com o encontro de duas divisões francesas, a 2a DB e a 1a DFL. No mesmo dia, um corpo de exército francês toma Dijon, um corpo de exército americano toma o Luxemburgo, outro americano entra, sem encontrar resistência, no Forte Eben-Emael, cuja queda, a 10 de maio de 1940, marcara o fim dos exércitos de Gamelin. Na Bélgica e na França, as multidões loucas de alegria precipitam-se ao encontro de seus libertadores, os braços carregados de presentes os mais preciosos nestes dias de penúria: vinho, cigarros, tomates, frutas. Há um acontecimento grandioso no dia 11 de setembro, às 18h55. Uma patrulha a pé do 85o Esquadrão de Reconhecimento dos EUA transpõe a fronteira alemã perto da cidadezinha luxemburguesa de Stolzenburgo. O limite dos dois países é um riacho, o Our, mas a ponte está intacta, e os batedores americanos o atravessam sem molhar os pés. Ninguém dispara contra eles. Avançam até os dentes de dragão da Linha Siegfried. Assim, a Alemanha está invadida! Quarenta e sete dias depois do rompimento das linhas de Saint-Lô, 96 dias depois do desembarque da Normandia, seu solo sente o ultraje de uma bota inimiga! Contra todas as previsões, é do Oeste que chega o primeiro invasor. No decorrer de suas grandes vitórias do verão, os russos mal roçaram a fronteira da Prússia Oriental. Não a transpuseram em parte alguma. Mas surge grave crise diante do exército vitorioso: a intendência não o acompanha. A gasolina, “o sangue rosa da guerra”, está na primeira linha de necessidades. Em período de operações exaustivas, cada um dos quatro exércitos de Eisenhower queima de 1 a 3 milhões de litros por dia. O serviço dos combustíveis (POL) tenta prolongar o oleoduto flutuante da Mancha por um oleoduto terrestre. As populações rurais, maravilhadas, vêem os especialistas americanos montarem, 20 a 30 km por dia, uma serpente de aço simples, duplo ou triplo, sem que nenhum acidente do terreno ou rio interrompa o seu desenvolvimento. Mas aí! Heróis infames do mercado-negro arriscam a vida para perfurar o tubo nutriente da vitória e, para furtar pequenas quantidades de gasolina, fazem correr em abundância “o sangue rosa da guerra”. Além disso, o oleoduto funciona mal, por causa da insuficiência das estações de bombeamento e, à medida em que aumenta, exige o transporte de uma tonelagem proibitiva de materiais. Decide-se que seu término provisório será Dourdan. Nos exércitos clássicos, inclusive a Wehrmacht, as estradas de ferro são o principal instrumento estratégico. O próprio Exército americano não pode passar sem elas. Mas é muito trabalhoso recolocar em funcionamento as estradas de ferro. O primeiro itinerário ferroviário que sai do Cotentin utiliza os troncos de linha singela, ziguezagueando por Pontaubault, Saint Hilaire-du-Harcouët, Fougères, Mayenne e Le Mans. Sem sinalização, o tráfego é controlado a mão; de dia, com a ajuda de bandeiras, de noite, ajudado por faroletes. Depois da vitória de Falaise, reabre-se a grande linha Vire-Argentan-Dreux, e o primeiro trem entra em Paris-Batignolles a 30 de agosto, somente quatro dias depois da libertação da capital. Em meados de setembro, 5.400 km de vias férreas estão novamente em funcionamento, 40 pontes em reconstrução, as vias férreas aliadas atingem Liège, Verdun e Toul. Mas o movimento dos comboios continua entrecortado e lento. Na rodovia, o General Ross organiza The Red Ball Highway (Auto-estrada Círculo Vermelho), assim denominada pelo círculo vermelho que a identifica. A via ascendente é a estrada Saint-Lô-Argentan-Deux-Versalhes, onde se separa em dois braços, um em direção a Soissons, outro em direção a Sommesous. A via descendente retoma Saint-Lô por Fontainebleu, Chartres e Alençon. Os veículos rodam 24 horas por dia, a uma distância de 20 metros e a uma velocidade uniforme de 40 km. À noite, os faróis se acendem, como se a aviação não tivesse sido inventada, e uma cadeia de luzes sem fim atravessa a França. Assim, consegue-se caminhar até 12.000 toneladas por dia. E ainda não é suficiente! Com os víveres e as munições, e sem falar do reabastecimento de Paris, seria necessário transportar de 20.000 a 30.000 toneladas, dos depósitos da Normandia à frente móvel. A chave da solução é Antuérpia. O porto fora conquistado quase intacto. Sua capacidade de descarga atinge 80.000 a 100.000 toneladas por dia, e as distâncias que o separam dos principais exércitos são pequenas. Infelizmente, o 15o Exército alemão mantém fechadas as embocaduras do Escalda. Uma estratégia metódica consistiria em reabri-las antes de empreender nova grande série de operações. A esta estratégia metódica, Montgomery opõe uma estratégia audaciosa. Na África, na Itália, na Normandia, fora uma tática extremamente prudente. Agora, pensa que a coluna vertebral do inimigo está quase quebrada e, segundo suas próprias palavras, chegou o momento de arrancar-lhe ousadamente os meios de continuar a guerra. Deixando aos canadenses o cuidado de libertar as costas do mar do Norte, queria manter fechadas na mesma mão - a sua - o 2o Exército britânico, do General Dempsey, e o 1o Exército americano, do General Hodges. Lançaria este bloco diretamente sobre o Ruhr, que, apesar da enorme destruição causada pelos bombardeios e da desconcentração industrial realizada por Speer, constitui ainda o principal arsenal do Terceiro Reich. Conquistado o Ruhr, os dois exércitos aliados se dirigiriam para Elbe, e depois para Berlim. A capital alemã podia ser tomada, e a guerra terminada antes do Natal. Esta concepção implica em que o 3o Exército americano se coloque na defensiva. Punho direito das forças de ataque, depois da invasão da Normandia, proporcionou ao inimigo um golpe fulminante. Deveria agora, pôr-se em guarda, enquanto o punho esquerdo dá seus golpes. Mas o 3o Exército é Patton. Seu nome saiu da cortina de silêncio do início do verão. A América identifica nele o herói que salvou a batalha da Normandia e conquistou a França a galope. Apaixonado por barulho, ávido de fama, Patton é o melhor fornecedor de matéria para os correspondentes de guerra, cuja influência excessiva pesa sobre as decisões do Comando. Sabe usar seu serviço de imprensa e, através dele, utilizar suas lamentações como opiniões apaixonadas. “Meus homens - diz aos jornalistas - podem comer seus cinturões e mesmo seus sapatos, mas não podem urinar a gasolina de que tem necessidade para movimentar seus tanques...” Seu orgulho fanático do 3o Exército, sua intoxicação de ofensiva, sua animosidade particular a Montgomery, fazem com que veja, no plano deste, uma manobra para vestir os ingleses com a roupa de vitória que os americanos tiraram do prego. Patton combate Montgomery abertamente, sabendo que a idolatria americana o torna intocável. O esquema oposto ao ataque concentrado de Montgomery é uma ofensiva simultânea dos exércitos aliados sobre a totalidade da frente. Os meios não estão à disposição, mas existem. Trinta divisões estão esperando nos Estados Unidos. Darão às forças expedicionárias um poderio irresistível, mas não podem ser empenhadas na Europa antes da reabertura de vários portos e da reconstrução do sistema de transporte. Elas representam a certeza da vitória na primavera de 1945. O plano de Montgomery constitui a última oportunidade de vitória em 1944. A escolha é de Ike. Mas raramente as decisões de Ike são em preto no branco. Além disso, ele não está em sua melhor forma. Ao voltar a seu incômodo QG de Granville, muito longe dos exércitos, ele luxou o joelho, numa aterragem forçada. É deitado em sua poltrona do avião, e gemendo de dor, que resiste a um assalto apaixonado de Montgomery, a 10 de setembro, no aeroporto de Bruxelas. Em certo momento, o tom torna-se tão arrebatado, que seu rosto fica vermelho: “Monty! Calma! Não me fale neste tom. Sou seu comandante!”. Uma troca de respostas mostra os temperamentos opostos dos dois generais. “As guerras - diz Eisenhower - ganham-se com a opinião pública”. “Não - retruca Monty - ganham-se com as vitórias”. Enfim, Eisenhower esquiva-se a escolher. Não paralisa Patton, que se empenha, perto de Metz, em operações dispendiosas e sem grande alcance. Não impede Hodges, que é paralisado no Westwall, no terreno desfavorável do Schnee Eifel. Admite que o impulso em direção ao Ruhr constitui a operação essencial da campanha do outono, mas a divisão das forças não está de acordo com esta afirmação. “Minha intenção - escreve ele a Marshall - é conquistar ao mesmo tempo o Sarre e o Ruhr, e libertar simultaneamente o Havre e a Antuérpia...” Durante essas disputas interaliadas, a Alemanha se recompunha. O boletim de informações do SHAEF, de 2 de setembro, assim pintava a situação do adversário: “O Exército alemão não é uma força coesa, mas um bando de grupos de combate fugitivos, desorganizados e até desmoralizados, com poucas armas e equipamentos”. Nesse momento, o quadro era totalmente exato. Alguns dias mais tarde, já não o era na mesma medida. Um novo erro aliado favorece a obstinação da Alemanha, que se reagrupa cerrando fileiras em torno de sue Fuhrer. Reunidos pela segunda vez em Quebec, de 13 a 16 de setembro, os ingleses e os americanos adotam o plano que tem o nome do secretário do Tesouro de Roosevelt, Henry Morgenthau Jr., para o tratamento a ser dispensado ao povo alemão depois da capitulação incondicional. Toda a indústria alemã será destruída! Todas as fábricas serão demolidas! A Alemanha “será transformada em um país agrícola de caráter pastoril!”. Saberemos depois que o Plano Morgentahu é obra de um agente comunista, de nome Dexter White, que se suicidará alguns anos depois, na véspera de sua prisão. Saberemos também que os protestos são inúmeros, que Churchill, Eden, Stimson, Cordel Hull, Hopkins e De Gaulle denunciam um projeto que condena a morte um dos povos essenciais da Europa; que Roosevelt deu apenas uma adesão de princípio, imediatamente retirada por influência de seus conselheiros. Mas essas tomadas de posição deverão esperar que o canhão se cale. No outono de 1944, o Plano Morgenthau fornece aos alemães uma razão de morrer com as armas na mão. Para reconstituir seus exércitos destruídos, Hitler decreta alistamento em massa de todos os alemães de 16 a 60 anos. Cria divisões de novo tipo, Volksgrenadieredivisionen, divisões de granadeiros do povo. Recebem o nome e as insígnias das grandes unidades desaparecidas na França, mas a redução dos regimentos a dois batalhões e a compressão de todas as outras formações baixam seu efetivo de base a 10.000 homens. Seu pessoal consiste em feridos que saem dos hospitais, recuperados da Kriegsmarine e da Luftwaffe, em velhas classes e em combatentes muito jovens. Mesmo assim, farão número, e se baterão talvez melhor que as divisões estáticas e sobrecarregadas de Osttruppen do Muro do Atlântico. O material não falta, apesar de não ser muito abundante. A guerra aérea que pulveriza tantas cidades artísticas, ainda não começou a reduzir a capacidade da indústria alemã. Esta fabrica mais fuzis, armas automáticas e canhões antitanques que o ano anterior. Produz quase tantos tanques e aviões em bem maior quantidade. O recorde mensal absoluto da produção aeronáutica alemã é atingido em abril de 1944, com 4.103 aparelhos, e 1944 é também o ano-recorde, com 40.953 aparelhos. Ainda em matéria aeronáutica, a Alemanha prepara a reação do reator. Em maio de 1941, um Me-163 ultrapassou 1.000 km por hora, pela primeira vez o mundo. Dois aparelhos estão sendo fabricados em série, o Me-220, birreator, e o Arado 234, turbo-propulsor. O amadorismo de Hitler se obstina em fazer do excelente Me-220, mais bombardeiro que caça, o bombardeiro ultra-rápido - Schnellst Bomber - ao qual o Fuhrer atribui o poder de transformar em desastre qualquer tentativa de invasão anglo-saxã. Dois grandes chefes da aviação alemã, o General Galland e o Marechal Milsch, destroem-se tentando opor-se a isso. No Oeste, o General Model pediu transferência de seu comando supremo, para poder dedicar-se a um grupo de exércitos. Hitler o satisfaz, tirando Rundstedt da reforma pela segunda vez. O velho marechal - já tem 70 anos - jurara furiosamente nunca mais assumir um comando. A 1o de setembro, torna-se perjuro. Hitler convoca-o a Rastenburgo, adula-o, e, de sua parte, declara-se encantado por Rundstedt. Diz a Jodl: “Ele é formidável. Se tivesse 10 anos menos, dar-lhe-ia o comando dos exércitos alemães. Sei muito bem que não é um nacional-socialista e não gosta de mim, mas a história me fará a justiça de reconhecer que só me guiei pelo bem do serviço...” Por seu lado, Rundstedt encontra uma desculpa: “Quando tantos soldados jovens combatem, os mais velhos soldados alemães não podem permanecer em seus lares...” Dois dos chefes do Estado-Maior do Oeste, um, Speidel, acabara de ser preso por sua participação no complô de 20 de julho; o outro, Blumentritt, cai em desgraça. O novo braço-direito de Rundstedt será Siegfried Westphal, ex-colaborador de Rommel e Kesselring. Convocado também a Rastenburgo, perceberá que Hitler não tem a menor idéia da gravidade da situação no Oeste. Vê na perda da França o resultado de uma série de circunstâncias, erros e traições. Vê na penetração anglo-americana até as fronteiras da Alemanha uma simples “ponta blindada”, que é muito necessário quebrar. A reorganização dos exércitos alemães do Oeste está em processo. O Grupo B, sob as ordens do Marechal Model, compreende o 15o Exército, que, muito reduzido, mantém bloqueadas as embocaduras do Escalda, o 1o Exército de Pára-quedistas, formação nova, cuja zona se estende de Nimega a Maestricht, e o 7o Exército, ressuscitado, tendo por limite meridional uma linha Coblença-Luxemburgo. Ao sul, começa o Grupo G, do Coronel-General Blaskowitz: o 1o Exército, com sua débil frente até Nancy, e o 19o Exército, que, evadido da armadilha de Lião, tenta firmar-se diante de Besançon. Retirado da frente, o 5o Exército Blindado deverá, mais tarde, reforçar este dispositivo. O total se eleva a 48 divisões de infantaria e 14 divisões e 4 brigadas blindadas - mas somente 18 dessas 66 grandes unidades são qualificadas de volkämpfig, de pleno valor combativo. Várias estão reduzidas a seu QG. Na retaguarda do front, restaura-se mais ou menos a Linha Siegfried, sem suas armas, sem suas blindagens, despojada de suas minas em benefício do Muro do Atlântico. Várias semanas são necessárias para esta restauração. Várias semanas? Os Aliados concordarão? No Franco Condado, as forças franco-americanas se aproximam dos Vosges. Na Lorena, o impetuoso Patton, temendo ser levado a assumir “o melancólico papel de um defensor”, investe contra Metz, na esperança de irromper no Sarre antes que Montgomery tenha tido tempo de pôr-se em marcha para o Ruhr. Na fronteira germano-luxemburguesa e na brecha de Aachen, o 5o e o 7o Corpos de Exército dos EUA encontram as organizações defensivas alemães. No momento em que a crise de transportes é mais aguda, os exércitos americanos atacam em conjunto, numa extensão de mais de 300 km, dispersão manifesta de esforços. Os fatos confirmam o erro. Patch e De Lattre são paralisados por falta de abastecimento. Patton atola-se na lama da Lorena. Na fronteira luxemburguesa, a 5a Divisão Blindada americana transpõe o Sauer, rompe a Linha Siegfried, progride rapidamente ao sul de Eifel - mas os reforços não a seguem, Rundstedt contra-ataca, como um comandante de batalhão, com os elementos disparatados que reúne pessoalmente, e o Comando americano decide transpor novamente o Sauer. Mais ao norte, o 7o Corpo de Exército, do General Lawton Collins, tenta ultrapassar Aachen pela orla da floresta de Hürtgen. Apodera-se de várias localidades alemães, inclusive a romântica cidadezinha de Monschau, miraculosamente intacta, mas é bloqueado pelos contra-ataques, e a luta volta à guerra de trincheiras. Na Holanda, desenvolve-se tentativa muito mais ambiciosa: forçar os grandes rios da Europa norte-ocidental: o Mosa e o Reno. Fora constituída na Inglaterra, sob as ordens do general americano Lewis Brereton, The Allied First Airbone Army, o primeiro exército aerotransportado do mundo. Dispendioso e frágil, constitui uma reserva ultramóvel, uma cavalaria alada destinada às batalhas decisivas, aos esforços supremos. Decide-se lançá-la sobre Eindhoven, Nimega e Arnhem, apara apoderar-se das passagens do Mosa e do Reno inferiores, para transpor a Linha Siegfried! A falha da idéia é chegar em um mau momento. Os exércitos aliados estão tensos e estafados. A crise de transporte atinge o auge. A estratégia é incerta e dispersa. A massa de manobra terrestre, necessária para explorar o desembarque aéreo, não existe... Mas Montgomery espera que o sucesso da operação aerotransportada (nome em código: Market Garden) leve Eisenhower a abandonar a concepção da ofensiva em leque, para concordar inteiramente com o esforço concentrado. Sua ordem de operações diz explicitamente: “Nosso objetivo real é o Ruhr”. É a última cartada para terminar a guerra em 1944. O dia 17 de setembro é um soberbo domingo de fim de outono. O grande exército aéreo chega no começo da tarde, sob um sol glorioso, vindo da Inglaterra por duas rotas convergentes. O comandante do exército alemão atacado, o 1o Exército de Pára-quedistas, é o mesmo General Student, que, quatro anos antes, se lançara contra essa mesma Holanda, comandando uma medíocre divisão aerotransportada. Em seu PC de Vught, perto de Bois-le-Duc, fica mudo, mais de admiração e inveja que de temor. Nuvens de caças escoltam 1.068 aviões lotados de pára-quedistas, e 478 aparelhos rebocam igual número de planadores. A caça alemã é nula. A DCA, arrasada por terrível bombardeio precedente, está extremamente fraca. As perdas - 18 planadores, 35 aviões - são muito inferiores às previsões, e devidas quase unicamente a acidentes. Os primeiros relatórios são entusiásticos. O inimigo parece completamente surpreendido, o sucesso deverá ser total. A intenção de Montgomery é desenrolar o que ele chama de um tapete sobre cinco linhas de água - canal Guilhermina, Zuid Wilems-Waart, Mosa, Waal e Reno - que, de leste a oeste, se opõem ao avanço dos Aliados. O eixo da operação é a estrada de Eindhoven e Arnhem. A divisão blindada de vanguarda, precedendo a totalidade do 30o Corpo de Exército britânico, lança-se para fazer junção com os infantes do ar e consolidar a brecha profunda, aberta nas linhas inimigas. Numa terceira fase, a cabeça-de-ponte de Arnhem será prolongada até o Zuiderzee. As forças alemães de ocupação da Holanda serão cercadas, e estabelecido um ponto de partida contra o Ruhr. É verdade que este projeto audacioso tem como opositores não apenas Patton, que somente sofre quando um inglês tem o papel principal, mas também Bradley, inteiramente ligado ao tenente indócil que tentara afastar no princípio da batalha da Normandia. “Quando tomei conhecimento do plano - diz com graciosidade soldadesca - fiquei tão surpreendido como se tivesse visto o sóbrio (teetotaller) Monty entrar em minha casa com bafo de bebida...” Três divisões aerotransportadas, a serem eventualmente reforçadas por uma quarta, ainda na Inglaterra, participam da operação. O campo de batalha é uma região verdejante, cheia de cidades de vilarejos, e espantosamente intacta e pacífica para o sexto ano de guerra. Os holandeses estão fora de suas casas, aproveitando o belo domingo, apesar da proximidade da frente. Vêem abrir-se milhares de pára-quedas. Explodem de entusiasmo, diante do espetáculo da libertação caída do céu. “A recepção - conta um oficial americano - foi formidável. O ar vibrava de ódio aos alemães...” A 101a Airbone, comandada por Maxwell Taylor, desceu, quase sem perdas, ao norte de Eindroven. Apodera-se da cidade na manhã do dia 18 e, ao cair da noite, é reunida pela divisão da guarda. Infelizmente, a ponte do Zon, sobre o canal Guilhermina, foi dinamitada, e são necessárias 12 horas para restabelecer a passagem. A 82a Airbone tem tarefa mais difícil e complexa. Deve tomar duas enormes pontes, sobre o Mosa e o Waal, além de quatro pontes secundárias sobre o canal que liga os dois rios. Deve apoderar-se da importante cidade de Nimega, e fazer sua cobertura a leste, ocupando o maciço coberto de florestas de Groesbeek, cujo prolongamento forma, em território alemão, a floresta de Reichswald. Caem do céu 7.277 homens, com o comandante da divisão, James Gavin, e o comandante do corpo de exércitos, o general inglês Browning. A aterragem é esplêndida. As perdas são ainda mais insignificantes que as da 101a. O relatório é um modelo de laconismo triunfante: “Aterragem quase sem oposição”. A ponte de Grave, sobre o Mosa, de 7 arcos e 600 metros de comprimento, foi arrebatada em três horas, pela 501a de pára-quedistas de infantaria. As pontes sobre o canal caem também. O maciço de Groesbeek, com seus 80 metros de altura, parecendo uma montanha no meio da planície holandesa, é ocupado sem combate, e reconhecimentos avançados no Reichswald provam que os “mil tanques” que se dizia haver ali eram puramente imaginários. Pelo contrário, perdeu-se a ocasião de tomar sem luta a soberba ponte do Waal. Era guardada somente por 16 soldados do exército ocupante, mas as duas companhias de pára-quedistas encarregadas de tomá-las perdem-se em Nimega, e o General Bittrich, comandando o 2o PzK teve tempo de enviar para lá defensores mais vigorosos. A presença deste 2o PzK entre Nimega e Arnhem constitui desagradável surpresa. Os poderosos serviços de informação aliada não o tinham identificado. Falha singular. Garantir-se-á quer o agente duplo holandês Lindemann, denominado King Kong, informou aos alemães sobre o Plano Market Garden e que Rundstedt, no último momento, enviou as duas divisões de Bittrich para a região visada. Documentos alemães e investigações holandesas após a guerra não confirma tal versão. No dia 19, o tempo enevoa-se, impedindo novos lançamentos de pára-quedistas. Os contra-ataques alemães que partem da Reichswald são bloqueados no maciço de Groesbeek e, à noite, a divisão avançada faz junção em Nimega com a 82a Airbone. Dois terços do caminho de Arnhem estão franqueados, mas a estrada é interrompida pela ponte do Waal, defendida por 500 SS. Todas as tentativas para abordá-la pelo Hunner Park, que se estende entre a ponte e Nimega, foram frustradas. Monta-se um novo ataque para o dia D + 3, 20 de setembro. Os tanques britânicos progridem no Hunner Park, enquanto os pára-quedistas americanos atravessam o Waal, para surpreender os defensores por trás. Sob as ordens do Tenente-Coronel Julian Cook, o 3a Batalhão do 504a lança-se numa corrente de 15 km por hora, em 26 botes de lona reforçados com placas de madeira, conduzidos pelos ingleses. O fogo que vem da margem é tão intenso, que, segundo uma testemunha, a água se abre em plumas, “como se um cardume de cavalas nadasse na superfície”. Somente 13 embarcações completam a travessia, e partem novamente em busca de novo contingente. O entusiasmo é irresistível. Os SS são exterminados. A ponte não salta pelos ares. Segundo a versão holandesa (expressa em um monumento erigido sobre a ponte), Jan Van Hoof, jovem da Resistência, que será morto no dia seguinte sobre um tanques inglês, arranca, sob tiroteio, os fios através dos quais se provocaria a explosão. Segundo a história oficial americana, existe em apoio a esta façanha somente vaga e inconclusiva referência. Considerando a importância da ponte de Nimega, o Marechal Model proibira fazê-la explodir. Deveria ser defendida, não destruída. A passagem do Wall está conquistada. Só resta a reunir-se à 1a Divisão Aerotransportada britânica, que combate em Arnhem há três dias. Sua aterragem foi ainda mais perfeita que as duas divisões americanas. Não perdeu um só de seus 335 aviões e 319 planadores. Seus objetivos, bem ordenados, são duas pontes, ferroviária e rodoviária, que atravessam, na própria Arnhem, o Nader Rijn, ou Reno inferior. Infelizmente, os pára-quedistas foram lançados muito longe da cidade, superestimando-se a DCA. Os Red Devils (Demônios Vermelhos) da First British Airbone tem 10 km a percorrer antes de entrar em combate. Depois da aterragem magistral, o reagrupamento é muito lento. Em virtude de um método muito minucioso, os pára-quedistas ingleses perdem de vista que a temeridade é a melhor prudência, numa operação revolucionária. Os civis não facilitam as coisas. As multidões saem delirantes de alegria das casas elegantes de Wolfheze, Renken, Haveadorf, agitando bandeiras tricolores ou ostentando condecorações alaranjadas, puxando os soldados ingleses para tomar chá em suas casas. Os Red Devils marcham para o combate no meio de uma quermesse. Além disso, só uma brigada dirige-se para os objetivos, pois a outra se desloca em defensiva, ao redor da área de desembarque. Como dois batalhões se deixaram deter na orla de Oosterbeek, é de fato um só batalhão, sob as ordens do Tenente-Coronel Frost, que deve executar a missão de toda a divisão. Diante do jipe de Frost, a ponte ferroviária salta “torcendo-se como um verme”. Prosseguindo sua marcha pelas ruazinhas de Arnhem, o batalhão chega às 20h30 à beirada da grande ponte rodoviária. Nada belicosos, fogem como um só homem os 25 velhos Feldgrauen que a guarnecem. Em vez de tomar posse imediatamente das duas passagens, Frost envia prudentemente uma patrulha, e, quando ela sofre o fogo de uma peça de DCA, decide esperar pela aurora na margem direita. Todos os relatórios alemães sobre a batalha acentuarão que os ingleses desperdiçaram sua oportunidade, pela lentidão compassada de seus movimentos. Perseverantes, muitas vezes heróicos na defensiva, eles não tem a centelha que faz cintilar o sucesso ofensivo. Caiu a noite. Frost se entrincheira nas primeiras casas de Numeegsweg, apesar dos protestos dos habitantes, e de uma velha holandesa que chegou às vias de fato, batendo com um rolo de amassar pastéis nos libertadores de seu país, devastadores de seu lar. Os alemães que vieram em socorro entrincheiraram-se nas casas da margem esquerda. Todos dormem, num silêncio sobrenatural, mas, ao nascer do sol, a batalha se trava com violência. O batalhão de Frost, com apenas 500 homens, tenta em vão transpor a ponte, livre na véspera, à noite. Fracassam todas as tentativas para reforçá-lo. Os ingleses estão azarados. Seu comandante, o Major-General Urquart, desapareceu, e só reaparecerá 36 horas depois, bloqueado no sótão de uma casa cheia de alemães. O nevoeiro que se formou sobre a Inglaterra impede o envio do segundo escalão da divisão. Esta se fecha progressivamente perto de Oosterbeek, em redor do hotel de onde o comandante-chefe do grupo de exércitos alemães, Model, fugiu precipitadamente no momento do desembarque. Os ingleses poderiam tê-lo prendido, com um pouco mais de presteza ou perspicácia. Por outro lado, os alemães fazem um esforço sobre-humano. Compreendem que se joga a invasão da pátria, em uma batalha a alguns quilômetros da fronteira. De Rastenburgo, as ordens arquejantes de Hitler enviam para Arnhem todos os que podem empunhar uma arma. Vê-se aparecer um batalhão formado exclusivamente por mutilados, comandado por um major coxo, que vai de muletas para a linha de fogo. A única oportunidade de salvação da First British Airbone consiste na chegada imediata de forças terrestres. De Nimega e Arnhem, a distância é de apenas 17 km, mas a estrada atravessa prados saturados de água, onde é impossível aventurar qualquer máquina blindada. Em Ressen, um batalhão SS e duas baterias de 88 mm detém a divisão de vanguarda. Uma outra divisão do 30o Corpo de Exército, a 43a , alinha-se a sua esquerda, mas avança penosamente em estradas secundárias. Joga-se a última cartada, decidindo lançar ao sul de Oosterbeek a brigada de pára-quedistas poloneses do General Sosabovski. Somente algumas dezenas de soldados, duramente perseguidos, conseguem atravessar o Reno, para unir-se aos soldados de Urquart. Nesse momento, Frost, ferido, rende-se com os 200 combatentes que lhe restam. A operação de Arnhem fracassa. Salvam-se os destroços. Durante duas noites chuvosas, 2.398 dos 10.085 homens lançados ao norte do Reno reatravessaram em embarcações improvisadas o grande rio que tinham atravessado sobre asas. A 43a Divisão os recolhe. Os outros estão prisioneiros ou mortos. |
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Outono de
angústia O revés de Arnhem inaugura um outono negro. O tempo é excepcionalmente mau. Trombas de água inundam a Europa ocidental, aumentam os rios, transformam os campos de batalha em mares de lama. A neve aparece desde o princípio de novembro. O moral está de acordo com a situação meteorológica. Extinguiu-se a chama alegre do verão vitorioso. Os Aliados deixaram escapar a vitória. A Alemanha se recupera. A guerra se eterniza. Entrevira-se a saída do túnel e agora se reencontrava a noite. As duas primeiras V2 caíram na região londrina a 8 de setembro. Uma em Chiswick, numa curva do Tâmisa, perto de Chelsea, outra na floresta de Epping. Caíram mais 25 nos dias seguintes. Depois, os disparos se interromperam a 17, início da operação de Arnhem, para recomeçar com crescente intensidade no dia 25. As V2 são disparadas da ilha de Walcheren e dos arredores de Haia, o que constitui, com o bloqueio do Escalda, a segunda razão alemã para aferrar-se à Holanda. Supersônica, a V2 chega sem a menor advertência. Seu raio de morte e sua devastação ultrapassam muito os da V1. Ouvida livremente na Inglaterra, a rádio alemã levanta o moral, ao prometer engenhos ainda mais poderosos. Ferida e cansada, a Inglaterra não vê o fim de uma prova que já dura cinco anos. Na França, a situação continua sendo de extrema preocupação. A escassez de víveres, combustíveis e roupas é mais severa que em qualquer época da ocupação alemã. Apesar do imenso prestígio do General De Gaulle, a autoridade do Estado se restabelece com muita dificuldade em um país devastado e dividido. A 28 de outubro, passando por cima da indignação ruidosa do CNR (Comitê Nacional de Resistência), De Gaulle dissolve as “milícias patrióticas”, despojando os comunistas de seu exército de guerra civil. Espera-se uma rebelião aberta contra esse gesto temerário e necessário. Felizmente não há. De volta à França, anistiado por sua deserção de 1939, Maurice Thorez dá ordem de obedecer. Para a maioria dos franceses, a libertação da França eqüivale ao fim da guerra. De Lattre tenta misturar os guerrilheiros com seu 1o Exército. Koenig e Larminat tentam tirar das FFI (Forças Francesas do Interior) um corpo de exército, para reduzir os bolsões do Atlântico. Os resultados são bons quando as guerrilhas foram organizadas em bases militares, como nos Alpes, onde renascem batalhões e meia brigadas de caçadores e depois a 27a Divisão de Infantaria Alpina. Com os guerrilheiros de essência romântica e insurrecional, os reveses prevalecem sobre os sucesso parciais. O exército francês que combate contra a Alemanha permanece composto, em sua grande maioria, de franceses e muçulmanos da África do Norte - futuros extremistas de direita, destinados a ser expulsos de sua terra natal, e futuros quadros da insurreição argelina contra a França. A 16 de dezembro, De Lattre envia a De Gaulle uma carta angustiada: “De um extremo a outro da hierarquia, a impressão é de que a Nação nos ignora e abandona. Alguns vão até a imaginar que o exército regular vindo de além-mar é sacrificado deliberadamente... A causa profunda desta desgraça é a não participação da Nação na guerra”. De Lattre termina pedindo, para o 1o Exército, “o mais cedo possível, os 8.000 a 10.000 jovens franceses que lhe são necessários para recuperar seu equilíbrio moral e seu valor combativo”. De Gaulle promete; terá muita dificuldades em fornecê-los. Na Itália, a situação é ainda mais dramática. Miséria indescritível, desmoralização sem limites. “Exceto o Papa - escreve o “Saturday Evening Post” - todo mundo está à venda a quem der mais”. “A fibra da sociedade - constata Pietro Nenni - se decompõe”. A prostituição, o mercado-negro, todas as formas de roubo não conseguem aplacar a fome italiana; 360.000 romanos, muitos deles membros da burguesia, alimentam-se com as sopas populares. A guerra prossegue com violência, continua a acumular ruínas. Depois da retirada do Corpo Expedicionário Francês e do 6o Corpo americano, os exércitos do Marechal Alexander receberam tropas de substituição, inclusive um corpo de exército brasileiro, e retomaram a iniciativa. A tomada de Florença é seguida de um ataque do 5o Exército americano, no Apepino central, contra a posição fortificada que os alemães chamam de die Grüne Linie, e os Aliados Linha Gótica, mas o inverno cobre de neve a montanha e bloqueia as operações diante de Bolonha. Os 15 milhões de italianos que ainda vivem sob a autoridade nominal de Mussolini conhecem o horror dos bombardeios e o terror nazista. No resto do país, as instituições que devem substituir o fascismo ainda não se apresentam e, no vazio, os comunistas tomam posse do país. A Grécia está em plena tragédia. Evacuada pelos alemães a 12 de outubro, Atenas é imediatamente ocupada pelo corpo britânico do General Sir Ronald Scobi. Mas a EMA, emanação do Partido Comunista, e seu braço militar, a ELAS, ignoram um acordo Stalin-Churchill que coloca a Grécia em zona britânica, em contrapartida à Romênia e à Bulgária, concedidas à URSS. A 3 de dezembro, a insurreição comunista explode no centro de Atenas, atrás de um escudo de mulheres e crianças. Churchill telegrafa a Scobi para fazer frente “sem derramamento de sangue, se possível; com derramamento de sangue, se necessário”. Mais do que nunca sob o feitiço soviético, os Estados Unidos protestam, e travam-se discussões acerbas entre os dois aliados do Atlântico. Churchill resiste, mas serão necessários 40 dias de esforços mortíferos dos soldados britânicos e dos regulares gregos, para obrigar os comunistas a deixar a capital. Estes voltam a reagrupar-se na montanha e prosseguem a luta - princípio de um novo conflito mundial interferido com o conflito ainda ardente. Para a Alemanha, a batalha de Arnhem foi um tônico nacional. Três semanas mais tarde, a 3a Frente da Rússia Branca penetra na Prússia Oriental, atinge Gumbinnen, mas é despedaçada pelo 4o Exército, e passa novamente a fronteira, deixando 1.000 tanques no terreno. É somente um êxito defensivo local, mas faz esquecer a retirada dos Bálcãs, a perda de Belgrado e a investida russa na Puszta húngara. A primeira incursão russa em terra alemã foi, além disso, marcada por atrocidades, violações, pilhagens, assassinatos de civis alemães e prisioneiros franceses, que darão aos alemães nova razão para lutar até a morte. A 2 de setembro, o Marechal-de-Campo Erwin von Witzleben, condenado à morte pelo tribunal do povo, foi pendurado pela garganta a um gancho de açougueiro. A 14 de outubro, o Marechal-de-Campo Erwin Rommel, em convalescença em sua casa, em Herrlingen, vê chegar os generais Burgdorf e Maisel, que lhe oferecem a escolha entre o tribunal do povo e o suicídio. Escolhe o suicídio, bebe o veneno que os emissários de Hitler trouxeram, é enterrado com honras nacionais, um telegrama lacrimoso do Fuhrer e uma oração fúnebre do Marechal Rundstedt, simplório ou comparsa. A espantosa repressão que se abate sobre os conspiradores de 20 de julho estende-se até seus nomes. Goerdeler, denunciado pela empregada de uma estalagem, pelo prêmio de um milhão de marcos, é preso, torturado e assassinado: Hitler ordena, além disso, que o nome de Goerdeler desapareça do registro civil alemão. A neurastenia do outono não poupa a América. No Canadá, uma extensão da conscrição provoca perturbações na Província de Quebec, hostil desde o princípio à participação da Comunidade Britânica na Guerra. Nos Estados Unidos, onde eram esperados “os rapazes para o Natal”, o adiamento do retorno vitorioso provoca uma decepção que se reflete em uma baixa da produção de guerra. A quarta eleição de Roosevelt é um assunto penoso. A camarilha da Casa Branca maquila-o para mostrá-lo ao público e faz suprimir as fotos que revelam seu rosto tocado pela morte. Seu médico, McIntire, cumulado de sinecuras, inesperadamente nomeado almirante, reduz o tempo de trabalho do Presidente a quatro horas por dia e comete a indignidade de publicar um boletim de saúde afirmando que nunca o candidato Roosevelt esteve em melhor forma. Mas o país não é inteiramente pateta. Reelege Roosevelt, contra Ton Dewey, que limpara Nova Iorque de seus gangsters, mas por uma maioria reduzida à metade, e mais por resignação que por convicção. Ainda assim, Roosevelt teve de ceder à onda conservadora que se levanta nos Estados Unidos: deixou seu vice-presidente quase vermelho, Henry Wallace, e substituiu-o por um obscuro senador do Missouri, chamado Harry Truman. Antuérpia, livre
do bloqueio, Estrasburgo libertada... Apesar do revés de Arnhem, Montgomery ainda emprega sua ilustre tenacidade para que prossiga o esforço concentrado em direção ao Ruhr. Só se inclina a 16 de outubro, diante da vontade de Eisenhower, mas galantemente e sem restrição mental. “Já lhe exprimi meus pontos de vista, e o senhor me fez conhecer sua resposta. Não mais me ouvirá falar do assunto. Empregar-me-ei 100% para executar sua decisão. Dei a Antuérpia a prioridade principal nas operações do 21o Grupo de Exércitos...” As embocaduras do Escalda são mantidas pelo 15o Exército alemão, comandado agora por Von Zangen, substituto de Von Salmuth, suspeito de ter participado do complô de 20 de julho. Encurralada na embocadura meridional, principal canal de Antuérpia, uma parte do exército, 80.000 homens, foi evacuada por acaso para a ilha de Walcheren e a península de Beveland. A 64a Divisão de Infantaria foi deixada no lugar, para manter uma cabeça-de-ponte em redor do pequeno porto de Breskens. Outra divisão se aferra aos limites de Antuérpia, e mais duas estendem uma frente débil, do canal de Antuérpia a Turnhout. A ofensiva começa a 6 de outubro, pelo ataque do 2o Corpo canadense contra o bolsão de Breskens. É a batalha dos pôlderes, abaixo do nível do mar, na água e na lama. “Suja e onerosa tarefa”- diz o histórico canadense. A redução do bolsão exige 15 dias de combate, mas deixa aos canadenses 12.707 prisioneiros. Neste meio-tempo, os alemães deixam o canal de Turnholt, e a Bélgica é o único país da Europa ocidental inteiramente libertado. Atingindo o Mosa, o esforço se volta para o leste. Zuid Beveland é conquistada a 31 de outubro, numa conjugação de um ataque contra o istmo e uma operação anfíbia. Para que o Escalda esteja livre, só falta tomar a ilha de Walcheren, que Hitler batizou de fortaleza e que ordena defender furiosamente. Tudo é estranho. A ilha inteira está abaixo do nível do mar, com exceção de uma almofada de dunas e da cercadura formidável de diques. Sua guarnição é a 70a Divisão de Infantaria, a divisão das doenças de estômago, chamada Weissen Brot, por causa da alimentação especial que tem de ser fornecida a seus soldados. O General Simonds, que substitui provisoriamente o General Crerar no comando do exército canadense, tem a idéia de fazer a RAF torpedear os diques. O mar entra precipitadamente, inundando a ilha, expulsa dos diques, desordenadamente, soldados alemães e civis holandeses. O ataque começa a 1o de novembro, e a 6 o General Daser capitula. Os Aliados fizeram 41.000 prisioneiros e perderam 12.170 homens, feridos, mortos ou desaparecidos. O Escalda está aberto. A 28 de novembro, o primeiro comboio entra no rio. Começa mais uma terrível prova para Antuérpia. Hitler manda neutralizá-la com as bombas V. Três mil e setecentas V1 e V2, mais do dobro da quantidade empregada na Inglaterra, são consagradas a esta tarefa; 1.250 atingem a zona urbana, matando e ferindo 10.000 pessoas, das quais 858 no Cinema Rex, a 16 de dezembro. Esta chuva de morte, agravada por uma greve de estivadores, reduz o rendimento cotidiano do porto a uma dezena de milhares de toneladas e frustra os cálculos logísticos dos Aliados. Do lado aliado, foi decidido um último esforço para tentar terminar tudo em 1944. No dia 18 de outubro, em Bruxelas, os grandes comandantes decidiram uma ofensiva geral de todos os grupos de exércitos. O 21o concluirá a libertação dos Países Baixos. O 12o (acrescido de novo exército, o 9o americano, do General William Simpson) atacará as Ardenas, de um lado a outro. O 6o, do General Devers, composto do 7o Exército e do 1o Exército francês, atingirá e transporá o Reno, nos arredores de Estraburgo. Espera-se que a resistência alemã desmorone sob tantos golpes simultâneos. Suspensa por um momento, a batalha de Aachen se reanima. A cidade está em ruínas. Seu interesse estratégico é nulo, mas sua significação simbólica é considerável. Apoderando-se da primeira grande cidade alemã, os Aliados quebrarão o feitiço que protegeu até agora as fronteiras do Reich. Hitler invoca, na cidade de Karl der Grosse, berço do Santo Império, uma chama de germanismo que deve ser mantida a todo preço. Os executantes, Hodges e Simpson, procedem com um rigor inflexível. As duas pinças que se fecham sobre Aachen são precedidas de um bombardeio esmagador da artilharia e aviação. A 16 de outubro, as 16h35, os dois braços se unem, cercando a cidade num funil indefensável. Hitler lança seu apelo de sempre: sepultar-se sob as ruínas. O Coronel Wilck faz o que fazem cada vez mais comandantes de lugares sitiados: responde ao Fuhrer por uma proclamação grandiloqüente e, depois, a 21 de outubro, iça bandeira banca. A 16 de novembro, o 9o e o 1o Exércitos lançam ofensiva geral, com a ambição de ira até o Reno. Atacando numa brecha da Linha Siegfried, o exército de Simpson deve tomar uma a uma as numerosas localidades espalhadas na planície de Eschweiler. O exército de Hodges luta nas encostas de Eifel, acidentadas, cheias de florestas, cobertas de neve. As perdas e os sofrimentos são pesados. Os combates são extremamente encarniçados. A cidadezinha de Hürtgen, na floresta do mesmo nome, mudou de mãos 14 vezes, e a de Vossenach, na floresta de Monschau, 28 vezes. Em meados de dezembro, os dois exércitos americanos guarnecem parcialmente o Roer, mas não se apoderam nem de Jülich nem de Düren. O Reno ainda está longe. George Patton jurou atingir o Reno primeiro, pela Lorena e pelo Palatinado. As chuvas de outono fizeram-no afundar-se na lama, a crise de transportes paralisou seu 3o Exército durante todo o mês de outubro. Ele se lança impetuosamente a 8 de novembro, de acordo com as decisões de Bruxelas, mas sem advertir Bradley nem Eisenhower, tal o seu temor de receber ordens para aguardar Hodges e Simpson. Toleráveis no primeiro dia, as condições do tempo tornaram-se execráveis. O luxo americano - as companhias recebem diariamente, junto com as rações, um par de meias para cada homem - não impede certas divisões de ter 3.000 casos de “pé de trincheira” (micose). Patton obriga seu capelão, aturdido, a redigir uma prece pedindo imperativamente a Deus todo-poderoso que faça pararem as chuvas. O resultado é excelente, mas o general só teve a idéia próximo do Natal - bem tarde. O primeiro objetivo do 3o Exército é Metz. Em primeiro lugar, como em Aachen, a cidade é cercada. Apoiada pela 10a Armoured, a 90a DI - uma das melhores divisões do Exército americano - força a passagem do Mosela nos arredores de Thionville e volta-se, de repente, na direção nordeste. Faz-se a junção a 19 de novembro, na estrada de Boulay. As inundações, o estado do solo, a má visibilidade e o frio rigoroso prejudicaram o ataque, mas os alemães, mal vestidos e mal abastecidos, sofreram terrivelmente. A ala direita de seu 1o Exército se desagrega. Sem esperar a queda de Metz, a 10a Divisão Blindada toma a direção do Sarre. Naturalmente, Hitler decretou que Metz seria defendida até o fim. Suspeito de fraqueza, o General Lübbe foi substituído pelo General Kittel, obrigado pelo Fuhrer a prestar um juramento especial de heroísmo. Mas o Estado-Maior do 1o Exército tomou a responsabilidade de retirar as melhores tropas da ratoeira, e um regimento SS pouco desejoso de ser aprisionado, enfraquece ainda mais as forças de defesa, raspando-se por iniciativa própria. O que Kittel consegue é apenas ser ferido mortalmente no campo de batalha. Metz é libertada a 20 de novembro, sem sofrer desgastes muito graves. Atacando à direita do 3o Exército, o 12o Corpo de Exército americano atravessou a Linha Maginot perto de Saint-Avold. A fronteira é atingida a 29 de novembro, e a 2 de dezembro o Sarre é transposto perto de Saarlouis. O otimista Patton já prepara a passagem do Reno entre Worms e Spire - mas, como em Aachen, a resistência aumenta quando em terra nacional. É preciso conquistar casa por casa, para tomar certas ruas de Saarlouis. Em meados de dezembro, o 3o Exército está praticamente paralisado. O fogoso Patton estão tão longe do Reno quanto o metódico Hodges, Como para os outros dois grupos de exércitos, outubro é um mês de frustração para o 6o Grupo. Suas comunicações com Marselha se restabelecem com dificuldade, e a falta de gasolina e obuses amortece os combates. Além disso, ele é solicitado insistentemente em duas direções opostas. Os franceses querem entrar na Alsácia pela brecha de Belfort, enquanto o SHAEF deseja o Grupo Devers em direção ao norte, para uni-lo a seus exércitos. No princípio de dezembro, o grupo de exércitos estende-se de Lunéville às proximidades de Montbéliard, com exceção de uma DI francesa e um grupamento anglo-americano, que guarnecem os desfiladeiros alpinos. O plano de Bruxelas designa-lhe como missão forçar a brecha de Saverne, tomar Estrasburgo e estabelecer uma cabeça-de-ponte na margem direita do Reno. A tarefa principal cabe ao 7o Exército americano. O 1o Exército francês, além de ameaçado dos bolsões do Atlântico, deve limitar-se a prolongar sua ação e cobrir seu flanco direito. De Lattre resiste. Estabeleceu um plano para a tomada de Belfort e declara-se em condições de entrar na Alsácia pelo sul. Com muita insistência, consegue carta-branca. Duas operações distintas se desenrolarão simultaneamente ao norte e ao sul dos Altos Vosges, uma pela brecha de Saverne, outra pela brecha de Belfort. 14 de novembro. Na véspera, uma tempestade de neve. Manhã ainda escura. A 338a Divisão de Granadeiros do Povo, que mantém 30 km de frente entre a Suíça e a estrada Belfort-Besançon, não espera ser atacada de forma alguma. O General Oschmann, seu comandante, inspeciona os postos avançados. O ataque dos atiradores marroquinos da 9a DIC, surpreende-o num bosque e ele é morto por uma rajada. Sua divisão é composta por elementos disparatados, inclusive um batalhão só de surdos. Defende-se com honra, mas sem esperança. À direita, um grupo da 9a DIC ladeia a fronteira suíça e, às 18h30 do dia 19, atinge o Reno em Rosenau, perto de Basiléia. À esquerda, o ataque estende-se sobre a totalidade da frente do 1o CE. Hérimoncourt, Montbéliard, Sochau e Héricourt são libertadas. Hitler decreta que a “porta da Borgonha” será defendida under allen Umständen, mas os reforços chegam muito tarde para salvar Belfort. A cidade é libertada no dia 20, pela 2a DIM. Ao norte dos Altos Vosges, a 44a DI dos EUA ataca a brecha de Saverne, a cavaleiro sobre a grande estrada de Estrasburgo, por Avricourt, Sarreburgo e Phalsburgo. A 79a DI dos EUA ataca pela estrada secundária de Dabo e o desfiladeiro de Wolfsberg. Fracionada em quatro grupamentos táticos, a 2a DB apoia esses dois esforços. A 19 de novembro, rompem-se as linhas defensivas. Phalsburgo se manteve, defendida com vigor, mas os americanos tomaram Blamont e Cirey, abrindo caminho aos tanques franceses. Estes entranham-se na floresta de Wangenburgo, transpõem o desfiladeiro de Wolfsberg, descem sobre Saverne, contornam Phalsburgo. Os quatro grupamentos táticos de Leclerc convergem, sob forte aguaceiro, para Estrasburgo. Três são paralisados pelos fortes do Oeste - Pétain, Kléber e Joffre. O quarto, que fez uma volta por Brumath, entra na cidade a 23 de novembro, às 14h30. Corre até a ponte de Kehl, prestes a prosseguir seu avanço sobre a margem direita do Reno. A ponte salta pelos ares a sua frente. Assim, por um desenrolar inteiramente imprevisto, os sucessos mais brilhantes da campanha do outono foram conseguidos pelos exércitos da ala direita, de Patton, Patch e De Lattre. Infelizmente, não levam a direção estratégica alguma. Pelo contrário, elevam a um grau excessivo o otimismo dos estados-maiores. Depois da tomada de Belfort, Mulhouse e Estrasburgo, o General Dovers concluiu que “o 19o Exército alemão cessou de existir como força tática”. Em conseqüência, considera o 1o Exército francês suficiente para concluir a limpeza da Alta Alsácia, e pensa poder colocar seu 7o Exército americano à direita de Patton, para cooperar na invasão do Palatinado. No mês de dezembro, o 15o e o 16o Corpos de Exércitos americanos estão empenhados em sombrias batalhas, de um lado e outro dos baixos Vosges, em direção a Sarreguemines, Bitche e Wissemburgo. Gênese da ofensiva
das Ardenas (A Batalha do Bulge) Mas Hitler jamais aceitou a perda da batalha no Oeste. Está absorvido, desde setembro, na preparação de uma contra-ofensiva destinada a fazer os Aliados pagarem caro suas vitórias na Normandia e na Provença. A 9 de outubro, são apresentadas a Hitler as diferentes hipóteses que ele pedira ao OKW que estudasse. São cinco. Holanda, região de Aachen-Liège, Luxemburgo, Lorena, Alsácia. Todas são contra-ofensivas de objetivos limitados, invectivas comparáveis às surtidas de um local sitiado. Exemplos: a contra-ofensiva Luxemburgo propõe-se a reconquista das minas de ferro de Longwy; a contra-ofensiva Alsácia contenta-se em retomar Vesoul, etc. Hitler não se pronuncia imediatamente. Pede os arquivos do 4o e 12o Exércitos, da campanha de 1940. São os dois exércitos que atravessaram as Ardenas e abriram passagem no Mosa. Descobre-se que os documentos exigidos pelo Fuhrer já não existem: um bombardeio reduziu a cinzas essas atas da vitória. Durante o mês de outubro, os exércitos alemães do Oeste se reforçam e reagrupam. Doravante, serão articulados do seguinte modo: 1o - do mar do Norte à altura de Dusseldorf, Grupo de Exércitos H, do Coronel-General Student; 2o - até ao Mosela, Grupo de Exércitos B, do Marechal-de-Campo Model; 3o - até Karlsruhe, Grupo de Exércitos G, do Coronel-General Balck, substituindo Blaskowitz; 4o - até a fronteira suíça, Grupo de Exércitos Oberrhein, para cujo comando Hitler toma a decisão insólita de chamar o Reichsfuhrer SS Heinrich Himmler. Nenhum destes grandes comandantes está a par das intenções do Fuhrer. A ofensiva que ele planeja tomará na História o nome de “ofensiva Von Rundstedt” mas, de fato, o papel do marechal-de-campo em sua concepção, preparação e execução foi sem importância. Hitler trabalha sozinho, numa desconfiança feroz de seus próprios soldados. O que não é possível dissimular, nem aos comandantes de exércitos, nem aos serviços de contra-espionagem inimigos, é que tropas de elite são retiradas da linha de fogo ou trazidas de volta da frente oriental. O 5o Exército Blindado, comandado agora por um pequeno general de 45 anos, que usa um dos grandes nomes da história militar prussiana, Hasso von Manteuffel, desaparece da batalha do Lorena. Dois corpos blindados SS, fixados a leste, constituem em grande segredo um 6o Exército Blindado; Hitler confiou seu comando ao antigo açougueiro de Munique, que foi seu motorista e guarda-costas, o Obersturmfuhrer SS Sepp Dietrich. Igualmente limitados a hipóteses, os generais alemães e os estados-maiores aliados pensam que se trata da constituição de uma massa de contra-ataque que disputaria as cercanias do Ruhr, se a frente do Roer desmoronasse. A 24 de outubro, o véu começa a rasgar-se nos altos escalões da Wehrmacht. Convocados à Prússia Oriental, os chefes do estado-maior de Model e de Rundstedt, generais Krebs e Westphal, ouvem o Fuhrer expor seu pensamento. Adolf Hitler reconhece que o restabelecimento das fronteiras da Alemanha, depois das grandes derrotas do verão, não passou de um milagre. Mas um milagre não se repete. Prosseguir na batalha defensiva é somente adiar a invasão do Reich. Quando os americanos reabrirem o porto de Antuérpia, a onda de poderio que se precipitará nesta avenida marítima virá bater a frente alemã de modo irresistível. Em conseqüência, é imperiosamente necessário, absolutamente indispensável retomar Antuérpia! Tendo definido o objetivo, Hitler demonstra que existem os meios. O inimigo está cansado e suas 70 divisões são insuficientes para manter a frente de 700 km. Na frente russa, a batalha está estabilizada, o que permite reforços antecipados. O Grupo de Exércitos B, encarregado da ofensiva, poderá receber um reforço de 20 divisões de infantaria, 10 divisões blindadas e 10 corpos de artilharia ou de Nebelwerfer. Para a cobertura aérea, o Reichsmarschall prometeu 3.000 caças; Goering é Goering, talvez seus 3.000 caças não cheguem a 2.000, mas estarão incluídos os 100 primeiros aviões a jato Düsenjäger, muito superiores a tudo o que possuem os americanos e os ingleses. Finalmente, o mau tempo, previsível nesta estação, reduzirá o papel da aviação. Resta o ponto de aplicação da ofensiva, Hitler revela aos dois chefes de estado-maior que opinou por um ataque nas Ardenas. Reconhece que o gelo e a neve tornam sua travessia mais difícil que em maio de 1940. Mas o inimigo está fraco nesta região e, se o segredo for bem guardado, há uma chance em nove de que seja surpreendido. Westphal e Krebs relatam a seus comandantes este plano ambicioso. Mas estes estão cépticos. Rundstedt e Model são partidários de uma ofensiva, mas consideram quimérica a idéia de marchar sobre Antuérpia e desejam um objetivo mais realista. Westphal suplica a Rundstedt que vá dizer isso a Hitler pessoalmente, mas o velho adoece com este pensamento. Sabe que o ditador lhe cortará a palavra à primeira frase e que o fará agüentar uma fantástica arenga, da qual nada compreenderá. A 3 de novembro, Jodl chega ao OB West, onde os comandantes de exército o esperam. Antes de tomar a palavra, declara que Meine Herren os marechais e generais tem uma formalidade a cumprir. Por ordem do Fuhrer, devem assinar o compromisso de nada divulgar do que vão ouvir e reconhecer como passíveis de pena capital os que isso não cumprirem. Olham-se, humilhados, abaixam a cabeça e assinam o documento de compromisso. O orgulho do Alto-Comando alemão está bem quebrado. Jodl está quase um ancião. Com voz hesitante, expõe o que o Fuhrer espera de seus soldados do Oeste. Nada menos que a mudança do curso da guerra, e a vitória da Alemanha no momento em que seus adversários a proclamam virtualmente vencida! A ofensiva das Ardenas estará a cargo do Grupo de Model. Seu exército da direita, o 15o, do General Gustav von Zangen, executará um ataque de fixação em direção a Maestricht. Seu exército da esquerda, o 7o, do General Erich Brandenberger, atacará em direção sul, e se estabelecerá no Semois, cobrindo a operação contra uma previsível reação de Patton. Os dois exércitos blindados, 5o e 6o, se incumbirão do esforços de ruptura e da manobra de exploração. Seu papel é desigual. Fortalecido com quatro divisões Panzer e três de infantaria, o exército de Manteuffel transporá o Mosa entre Fumay e Namur, contornará Bruxelas pelo sul e marchará para o estuário do Escalda, quebrando toda contramanobra inimiga. Com quatro divisões Panzer SS e cinco de infantaria, o 6o Exército Blindado, de Sepp Dietrich, está encarregado da missão principal: forçar o Mosa de um lado e outro de Liège, transpor o canal Alberto e apoderar-se de Antuérpia. Segundo Jodl, intérprete sem convicção de Hitler, são incalculáveis os resultados a esperar da ofensiva. A única salvação dos exércitos inglês e americano, separados um do outro, será um embarque precipitado. Um segundo Dunquerque será seguido do segundo rompimento das linhas defensivas das Ardenas. Mas o Fuhrer insiste na importância primordial da velocidade: quer que o Mosa seja atingido desde o segundo dia. No fundo, Model toma a palavra. Habilmente, propõe uma alternativa sedutora. Em torno de Aachen, a frente faz uma saliência. Se, em vez de se aventurar além do Mosa, empreender uma marcha de 200 km com os flancos distendidos, a ofensiva se voltar para norte, conjugada com o avanço do 15o Exército partindo do Limburgo, as forças americanas empenhadas nesta saliência, umas 20 divisões, poderão ser cercadas e destruídas. Então será possível empreender, contra um inimigo batido e enfraquecido, e em condições muito mais favoráveis, a reconquista de Antuérpia. Jodl recusa discutir o assunto, limita-se a responder que relatará ao Fuhrer as concepções do marechal-de-campo. A ofensiva fora planejada para o dia 27 de novembro. A crise dos transportes obriga a adiá-la para 16 de dezembro. Enquanto isso, prossegue a discussão do plano. Como Hitler deixara definitivamente o Wolfschanze, ameaçado pelos russos, desenrola-se na nova chancelaria, a 2 de dezembro, uma deliberação de sete horas. A exposição de Model é tão forte, que Hitler não o interrompe uma só vez. Mas permanece inabalável. O Plano Model, die kleine Lösung, uma pequena solução, não passa de eine halbe Lösung, uma meia solução. Seu plano, o plano de Hitler, será executado integralmente. Para cortar o debate, envia a Rundstedt uma nota escrita, onde especifica que a pena de morte será infligida aos comandantes que não executarem rigorosamente as ordens recebidas. Falta aumentar a confiança dos executantes. A 11 e 12 de dezembro, em duas turmas, Hitler reúne todos os comandantes de corpos e divisões que tomarão parte da ofensiva. São conduzidos pelos SS a um ponto de encontro, revistados, desarmados, depois enfiados em automóveis, que lhes parecem andar em círculos na noite. Nenhum deles conhece o lugar onde tem ordem de descer: o Castelo de Ziegenberg, no Hesse, transformado desde 1940 em PC secreto do Fuhrer. O bunker para onde os fazem descer é exíguo. Os generais SS devem ficar de pé, os generais do Exército, sentados - não se trata de uma honra, mas de uma precaução. Atrás de cada poltrona há um “gorila”, de mão no coldre da pistola. “Nenhum de nós - dirá Bayerlein - se arriscaria a tirar o lenço...” Seria como tirar a própria mortalha. Hitler aparece. O choque é terrível. O homem está em ruínas. Anda arrastando a perna. Mantém o braço esquerdo com a mão direita para dominar o tremor. Sua própria voz é estrangulada, como se se elevasse no nevoeiro de angústia dos pesadelos. Entretanto, durante as duas horas em que fala, reencontra, intermitentemente, a flama sombria que fez dele o tirano da Alemanha e o flagelo do mundo. Entra em vastas considerações históricas, relembra as lutas, a tenacidade, o triunfo de Frederico II, demonstra que a coalizão aliada está prestes a se romper e que o sucesso da ofensiva das Ardenas determinará esta ruptura. Os generais tem várias perguntas e objeções. Gostariam de ter informações precisas sobre os meios que ainda são simples promessas, a cinco dia da data irrevogável fixada para a ofensiva. Além disso, são todos partidários da “pequena solução” sustentada por Model. Mas a discussão não pode ser reaberta. Os generais subalternos não foram levados ao Fuhrer para emitir um parecer ou fazer uma queixa, mas apenas para receber o viático de sua palavra. Ainda assim, o efeito falhou completamente. Para os práticos da guerra, cansados e desiludidos, o palavreado político, os apelos ao fanatismo soam como desespero. Eles partem profundamente abatidos. As forças reunidas para a ofensiva elevam-se a 30 divisões, 250.000 combatentes, 1.900 canhões e 970 tanques. Os 3.000 caças prometidos por Goering são apenas 1.500, e os Düsenjäger não estão prontos. A falta de gasolina só permitiu dar aos Panzer a metade dos 500 km de autonomia, considerados como o mínimo necessário para atingir Antuérpia. A infantaria consiste unicamente de Volksgrenadiere-divisionen - grandes unidades improvisadas, cheias de homens muito jovens ou muito velhos. Mas são elas que devem abrir as brechas, pelas quais os Panzer se lançarão. Nem um só oficial de estado-maior acredita na possibilidade de se atingir o Mosa no segundo ou mesmo quarto dia - mas é prudente agir como se acreditasse. Na tropa, o moral é bastante bom. Diz-se aos soldados do último quarto de hora que 1940 recomeça e que eles vão reconquistar a França. Mas eles prefeririam que fizesse menos frio. A noite de 15 para 16 de dezembro é glacial. Na floresta das Ardenas, a neve chega a 60 cm de altura. Da cidadezinha alemã de Monschau ao vilarejo luxemburguês de Echternach, os 130 km que serão atacados pelos alemães são mantidos pelas divisões americanas 2a, 99a, 106a, 28a e 4a, do 5o Corpo de Exército, de Léonard Gerow, e do 8o Corpo de Exército, de Troy Middleton, tanto um como outro conduzidos a este setor tranqüilo depois de muito maltratados no Roer. Parte da 9a Divisão Blindada está na linha de frente no sentido estrito da palavra. Os americanos ocupam cadeias de pequenos postos, e alojam-se nas localidades de Schönberg, Saint-Vith, Houffalize, Bastogne, Clerveaux, etc. Muitos, de noite, suspirando de tédio, estendem-se numa cama quente. A atividade militar é muito fraca. Camponeses e soldados alemães de licença circulam na terra de ninguém. Uma das divisões americanas, a 106a, do Major-General Jones, está quase completamente isolada no pequeno maciço rude de Schnee Eifel, mas vive numa tranqüilidade de estação de esportes de inverno. “Estamos tão em segurança aqui quanto na Inglaterra”- escreve a sua mão o jovem soldado Schachtmann. A única coisa que espantou um pouco, nas últimas noites, foi uma grande quantidade de aviões alemães dando volta no céu sem razão aparente. Ninguém percebeu que queimavam sua preciosa gasolina para cobrir o ruído dos tanques e tratores de artilharia subindo em formação. Nos estados-maiores, não faltam razões para acreditar numa concentração de forças alemães. Apesar do mau tempo e dos dias curtos, os reconhecimentos aéreos constatam um tráfego intenso nas rodovias e estradas de ferro. Divisões famosas, como a Panzerlehr, ressuscitadas, são localizadas nas proximidades da frente. A melhoria do moral dos prisioneiros impressiona os oficiais informantes. Entretanto, apesar do precedente de 1940, as Ardenas não atraem a atenção. O relatório do dia 15 diz: “Nada a assinalar neste setor...” Às 5h30, violenta preparação de artilharia interrompe o sono dos americanos. Apontados para cima das nuvens, os projetores de DCA criam um luar artificial para favorecer o trabalho da infantaria. A surpresa e a confusão são tais, que quatro horas depois do início do ataque não chegou qualquer notícia dele ao 12o Grupo de Exércitos. O relatório das 9h15 menciona que não houve mudança alguma na frente do 8o e do 9o Corpos. Bradley está em Versalhes, no Trianon, para onde Eisenhower transferiu o SHAEF. Os dois generais, discutem o problema de substituições na infantaria com o chefe do estado-maior, Bedell Smith, quando um coronel entra discretamente para anunciar que os alemães atacaram nas Ardenas e fizeram alguns progressos. No princípio da tarde, uma ordem do dia captada pela 99a DI informa que se trata de um esforço supremo do inimigo. Bedell Smith põe a mão no ombro do comandante do 12o Grupo de Exércitos: “Então, Brad, você desejava uma contra-ofensiva; ei-la”. “Sim, mas não a desejava tão grande!”. As tropas se organizam. Todas as forças blindadas disponíveis são encaminhadas aos setores atacados. Só ficam duas divisões aerotransportadas na reserva do GQG, a 82a e a 101a, estacionadas na região de Reims. Depois de hesitar um pouco, Eisenhower envia-as também. Manda a 82a para Houffalize e a 101a para Bastogne, no centro dos maciço das Ardenas. A notícia de que os alemães atacam violentamente pelas fatais Ardenas cria um princípio de pânico na Europa recém-libertada. Uma frase de Hitler - “A França será para os americanos uma imensa ratoeira” - ressoa sobre as ondas. Alguns, que aderiram tardiamente à Resistência, preparam nova conversão. Na Bélgica e no Norte da França, a população prepara sua magra bagagem, pestes a fugir. Em Sigmaringen, os emigrados do hitlerismo francês afirmam que estarão em Paris no Ano Novo, e traçam planos de horríveis vinganças. Mas 1944 não é 1940. A ofensiva se choca com dificuldades inauditas. Seu abastecimento pelas estradas estreitas, sinuosas, cobertas de neve e gelo, é infernal. O material está no fim. Muitos soldados da infantaria estão em farrapos. A suprema surtida da Alemanha, sitiada na paisagem hibernal das altas Ardenas, parece-se mais com uma página da retirada da Rússia que com o impulso primaveril dos primeiros exércitos de Rundstedt. Para cumprir o papel decisivo que a confiança do Fuhrer lhe designou, Sepp Dietrich só recebeu um setor de 25 km. Seu corpo da direita, o 67o CE, ataca voltando-se para o norte, a fim de estabelecer um flanco defensivo numa linha Monschau-Eupen-Liège. Seus dois corpos blindados sucedem-se um atrás do outro, a 1a Pz SS na frente, 2a Pz SS, no seu rastro, para tomar o Mosa e fazer a pausa para a corrida rumo a Antuérpia. Três divisões de Volksgrenadiere dão combate à infantaria, abrem passagem aos carros blindados. A 16 e 17 de dezembro, os progressos do 67o CE são pequenos. Não consegue apoderar-se de Monschau nem tomar o pequeno maciço de Elsenborn, defendido pela 78a DI dos EUA. A sua esquerda, as divisões de granadeiros do 1o SS Pz K desorganizaram a 99a DI dos EUA e conseguem abrir a seus blindados os corredores tortuosos do Warche e do Amblève. Os dois riachos convergem em Stavelot e, sob o nome do segundo, unem-se ao Ourthe, que se lança no Mosa em Liège. Mas os dias seguintes são muito duros. Hodges suspende sua ofensiva contra o Roer e utiliza as forças disponíveis para manter solidamente o flanco da saliência, rompida pelo avanço alemão. O 67o CE, decididamente, não consegue ampliar a ofensiva voltando-se para o norte. A sucessão dos dois corpos blindados sobre estradas arruinadas produz um engarrafamento fantástico das retaguardas, torna-se quase impossível a utilização do 2o SS Pz K. Dietrich e os generais nazistas pagam caro a inexperiência de seus estados-maiores e o violento particularismo que os leva a rechaçar a colaboração dos profissionais. Para cúmulo da má sorte, uma operação de pára-quedistas, conduzida pelo Coronel Von der Heydte, fracassa completamente, e uma operação imaginada por Skorzeny para sabotar as retaguardas inimigas, usando soldados vestidos com uniformes americanos, termina também num fiasco. A 19 de dezembro, o 1o Corpo Blindado SS toma Trois-Ponts, na confluência do Amblève e do Warche, e chega até a vila de La Gleize, perto do ponto culminante do alto Fagne, Hohe Venn, que domina o vale de Spa e a planície de Liège. Não irá além disso. Isolada pela aviação, a 1a Pz SS está quase completamente destruída. Contra-atacada pela 82a Airbone, a 9a Pz SS é obrigada a transpor novamente o Amblève. Uma tentativa para transferir a investida do exército para sul só faz aumentar sua desorganização. No dia de Natal, o 6o Exército Blindado SS põe-se na defensiva, esgotado. À sua esquerda, o 5o Exército Blindado ataca numa frente duas vezes maior, com forças menores. Seu corpo da direita, 66o CE, choca-se com a 7a Divisão Blindada americana, que lhe disputa, até o dia 23 de dezembro, a pequena encruzilhada de Saint-Vith. Seus dois corpos da esquerda, o 58o e o 47o Pz, transpõem o Our, cercam a 106a Divisão de Infantaria americana no Schnee Eifel, afugentam a 28a, atravessam o Grão-Ducado de Luxemburgo. No 58o Corpo, a 116a Pz, ressuscitada de suas cinzas normandas, toma Houfallize, na estrada de Arlon a Liège. A 2a Pz e a Panzerlehr, duas outras ressuscitadas do 47o Corpo, avançam estorvadas pelas demolições, em direção às grandes florestas que se estendem em torno de Saint-Hubert. A Panzerlehr, sempre comandada por Bayerlein, está, ao cair da noite do dia 19, diante de Bastogne. A cidadezinha tinha sido ocupada algumas horas antes pela 101a Airbone, que chegara precipitadamente de Reims. Em Bastogne, passa a grande estrada de Luxemburgo a Bruxelas, por Namur. Dela se destaca outra grande estrada, que se dirige para Liège. Quatro estradas secundárias irradiam para Neufchâteau, La Roche, Trois Vierges e Ettelbruck. Em 1940, o Grupo de Exércitos de Rundstedt conseguira apoderar-se de Bastogne desde a manhã do dia 10 de maio, capturando sem combate o nó das comunicações nas Ardenas. Sua tomada é ainda mais necessária nas duras condições de inverno. Manteuffel está diante de um dilema. Pode lançar sobre Bastogne todo o seu 47o PzK ou contornar a cidade, bloqueando-a. Com a primeira solução, tem a oportunidade de suprimir rapidamente um obstáculo maior, mas também o risco de quebrar o ritmo da ofensiva. Com a segunda, pode prosseguir sem interrupção sua marcha para o Mosa, mas conserva um perigoso coágulo em seu fraco sistema arterial. Manteuffel adota uma solução de compromisso. Deixa diante de Bastogne um regimento da Panzerlehr, para ajudar a 26a Divisão de Granadeiros do Povo a tomar a cidade, reforça os sitiantes com a Fuhrer-Begleit Brigade, reserva blindada do 47o Corpo, e com elementos da 15a Divisão de Granadeiros Panzer. Além da 101a Airbone, a guarnição compreende elementos da 9a e 10a Divisões blindadas, cuja retirada foi cortada, e algumas formações das retaguardas, compostas principalmente de soldados de cor. O comandante é o Brigadeiro-General McAuliffe, substituindo provisoriamente Maxwell Taylor. Antes de atacar, o comandante dos sitiantes, General Heinz Kokott, julga necessário - “sem minha aprovação”, anota Manteuffel - intimar os sitiados a render-se. Seu parlamentar traz a resposta escrita de McAuliffe. Uma sós palavra: Nuts! Literalmente, quer dizer “Nozes”. Mas a gíria americana é como exclamar “Doidos!”. O cerco começa. Enquanto isso, as divisões Panzer continuam sua marcha para o Mosa. Marcha trabalhosa, retardada pela valente resistência inimiga, entravada pelas dificuldades do terreno, interrompida por falhas do abastecimento de gasolina. Ao norte, a 116a Pz toma La Roche-en-Ardenne, transpõe o Ourthe em Hotton, mas, tendo perdido 48 horas por um erro de comando, choca-se com uma divisão americana inteiramente renovada, a 84a, que lhe barra o caminho. Ao sul, a Panzerlehr toma Saint-Hubert, Rochefort, investe seus elementos avançados até Ciergnon, a 20 km de Dinant. A 2a Pz, entre as duas, fica imobilizada durante 36 horas, por falta de gasolina. Parte a 22, quebra uma barragem defensiva entre Marche-en-Famenne e Rochefort, e seu grupo de reconhecimento, no dia 24, atinge Foy-Notre-Dame, na primeira crista do Mosa. O rio está sob seus olhos, apenas a 6 km. Os soldados de Rommel o tinham visto do mesmo lugar, 53 meses antes! Mas desta vez, trata-se de uma ponta rombuda. Forças esmagadoras conjugam-se contra a 2a Panzer, que se aventurara perigosamente. O céu está claro e a aviação cumpre seu terrível trabalho. Tapetes de bombas caem sobre todas as estradas. As retaguardas próximas ou longínquas são submetidas a incursões repetidas que quebram todas as comunicações do grupo de exércitos. Cortada em duas, esmagada pela artilharia, atacada por nuvens de caças-bombardeiros, a 2a Panzer é praticamente aniquilada. Bayerlein que foi valentemente em sua ajuda, recolhe alguns sobreviventes que conduz em direção a Rochefort com sua Panzerlehr, que também sofrera duramente. A ofensiva alemã fracassou. Começa a resposta aliada. É impossível, no meio de testemunhos contraditórios, dizer com certeza qual foi o comportamento de Eisenhower sob o golpe imprevisto das Ardenas. Segundo as fontes inglesas, perdeu a cabeça: “Ele estava muito excitado ao me telefonar”- conta Montgomery. - “Falava a toda velocidade, e urrava ao telefone. Eu não conseguia compreender o que ele dizia. Felizmente, a comunicação foi cortada antes que ele acabasse...” Os ajudantes americanos do generalíssimo não são mais lisonjeiros. “Eu entrava no QG de Hodges - escreve a Brooks um oficial de estado-maior inglês - como Cristo vindo limpar o templo... Desde o início da batalha, ninguém viu Bradley...” Segundo os testemunhos americanos, Ike e seus ajudantes, pelo contrário, foram pilares de força, resolvendo a situação com habilidade e sangue-frio. A 19 de dezembro, há um grave conselho de guerra em uma caserna de Verdun: Eisenhower, Tedder, Bradley, Devers, Patton, etc. O comentário desse último é o seguinte: “É necessário deixar esses porcos irem até Paris, saltar-lhes nas costas e fervê-los num caldeirão!”. Ike responde que não é o caso de deixar os alemães transpor o Mosa. Pensa em contê-los na face norte da saliência, e contra-atacar na face sul. Quando Patton pensa poder lançar uma ação de seis divisões em direção a Bastogne e Houffalize? Patton responde que está em condições de marchar a partir do dia 22, mas somente com três divisões. A rapidez, sustenta, é preferível ao número: é enquanto o adversário está em equilíbrio instável que se deve atacar. Ike concorda. No dia seguinte, 20 de dezembro, há um fato novo. Considerando que a investida alemã rompeu as ligações, Eisenhower decide confiar a Montgomery todas as forças aliadas que se encontram ao norte da saliência, o que faz passar a seu comando o 9o e o 1o Exércitos americanos. Assumindo esse encargo, Montgomery não deixa de acentuar a desordem e mesmo o pânico que reinam nos setores americanos. Em vez de lançar no tumulto o 30o Corpo Britânico, todo sob seu controle, manda-o guarnecer as passagens do Mosa. “Agora e sinto tranqüilo...” Só uma brigada blindada de vanguarda é empenhada no dia 24, a leste de Dinant; ajuda a desbaratar a 2a Panzer. Patton cumpre sua promessa. Sua ofensiva começa a 22 de dezembro, às 4 horas da manhã, com a 26a, a 80a e a 4a Divisões blindadas. Choca-se com o 7o Exército alemão, que, fortalecido com três divisões de granadeiros do povo e uma divisão de pára-quedistas, cobre o flanco esquerdo alemão. O progresso americano é muito lento, a princípio, numa neve profunda e por caminhos abomináveis. Mas a oração redigida pelo capelão de Patton é atendida: no dia 23, o sol levanta radioso sobre a paisagem hibernal. A aviação pode atuar, o avanço é acelerado, Patton exulta: “Tempo maravilhoso para matar alemães!...” Reabastecida pelo ar, graças à melhoria do tempo, Bastogne se mantém. Os libertadores se aproximam. No dia 26, pela manhã, a 4a Divisão Blindada, ultrapassou Vaux-les-Rosières, na estrada de Neufchâteau. Às 14 horas, seu comandante, o General Gaffey, telefona diretamente a Patton: “Posso correr um grande risco?” - “Naturalmente. De que se trata?” Gaffey propõe lançar em flecha sobre Bastogne seu Comando de Combate R, do Coronel Wendell Blanchard. O terreno, solidamente gelado, é favorável aos tanques, e a divisão está a apenas 10 km dos sitiados. O Comando de Combate se lança. Evita Sibret e a estrada de Neufchâteau, toma uma estrada rural, esmaga o vilarejo de Assenois, avança no meio de grupos alemães desmantelados. Às 16h50, uma pequena coluna de três tanques Sherman e alguns semitanques, conduzida pelo primeiro-tenente Bogess, vê na fumaça um grupo de soldados de cáqui atacando um blockhaus. São sapadores do 326o Batalhão de Engenharia. Rompeu-se o cerco de Bastogne. Não é ainda o fim da batalha das Ardenas. As tropas alemães só abandonam saliências indefensáveis, mas aferram-se a uma linha defensiva, que cobre ainda a metade dos territórios conquistados desde o dia 16 de dezembro. Em torno de Bastogne, a luta continua furiosamente, absorvendo neste único setor três corpos de exércitos alemães. Os combatentes se perguntam por que se aferrar tão encarniçadamente a alguns restos de florestas. A 22 de dezembro, Rundstedt pediu uma retirada atrás da Linha Siegfried. Model e Guderian se associam a sua proposta. Hitler a rechaça. O novo segredo do Fuhrer é o seguinte: a batalha das Ardenas será retomada. Mais de 100.000 homens foram sacrificados; um material insubstituível foi perdido; todos os generais sabem que o Exército alemão está condenado; quase todos pensam que é necessário cessar a luta no Oeste e tentar tudo para impedir a invasão da Alemanha pelos russos. Mas Hitler sustenta que uma vitória no Oeste é sempre necessária e possível. O que é necessário, preliminarmente, é consumir as reservas inimigas em setores secundários. O Fuhrer escolheu a Alsácia. Das posições conservadas nas Ardenas, partir-se-á em seguida à conquista de Antuérpia. O ano de 1944 só tem mais uma hora de vida. O 7o Exército americano estabeleceu-se de Saarlouis ao sul de Estrasburgo. De um lado e outro dos Vosges, entre Sarreguemines e Haguenau, o 6o Corpo enfileira suas três divisões. É sobre ele que, em plena noite de São Silvestre, cai o primeiro ataque diversionista de Hitler. |