Outubro de 1944 a Fevereiro de 1945

 

Leyte, Estrasburgo, Varsóvia, Ialta

 

Tópicos do capítulo:

 

Demissão do gabinete Tojo. Koiso quer lutar a todo custo

Fraquezas e perdas da Marinha japonesa

20 de outubro: começa a batalha de Leyte

A frota de Ozawa escapa ao desastre

O plano de operações na Ásia.

Bombas sobre o Japão

Deterioração da frente alemã no Leste. Budapeste tomada

Eisenhower quer evacuar a Alsácia. Angústia dos franceses

3 de janeiro: De Gaulle consegue que Estrasburgo seja defendida

7 de janeiro: triunfa a ofensiva aliada

12 de janeiro: ofensiva geral russa, derrocada alemã

Liquidação do bolsão de Colmar

9 de fevereiro: em Ialta, Churchill defende a França

A Polônia sacrificada. A URSS vai combater o Japão

 

 

Crescendo

 

A perda de Saipan e a derrota no mar das Filipinas foram advertências sinistras para o Japão. Mas nada pode modificar o destino de uma nação empenhada na aventura totalitária de uma guerra moderna.

 

O General Tojo e seu gabinete pedem demissão a 18 de julho de 1944, desculpando-se humildemente pela ansiedade que causaram a Sua Majestade, o Imperador. O novo Primeiro-Ministro, General Kuniaka Koiso, antigo governador-geral da Coréia, retoma as mesmas palavras de ordem de seu predecessor: luta de vida ou morte, até os inimigos se inclinarem diante da invencibilidade do Japão.

 

São frases vazias. Três anos de guerra esgotaram o poderio japonês. Os dirigentes japoneses tinham imaginado que a conquista do Sudeste Asiático, com seus recursos inumeráveis, permitiria ao país suportar indefinidamente o peso de um conflito. O erro é flagrante. É necessário defender o império que conseguiram, e contra um adversário que sempre pode escolher o lugar onde empregará sua imensa superioridade material. Como o Japão pode estar forte em todos lugares se, apesar de seus recuos, os territórios onde flutua sua bandeira ainda se estendem das Filipinas à Birmânia, das Curilas à Manchúria?

 

Os homens e as nações ameaçadas acreditam facilmente na magia das palavras. Os planos de defesa estabelecidos pelo Grande QG trazem um nome convencional retumbante: Sho (Vitória). Longe de ser absurdo, seu princípio leva a uma situação impossível, a única tentativa de solução concebível. Constitui-se uma reserva móvel para cada região ameaçada. O atacante talvez consiga uma surpresa inicial, mas verá convergirem imediatamente sobre ele forças imponentes que tentarão esmagá-lo.

 

Os planos Sho são quatro. Sho-1 se aplica às Filipinas; Sho-2, a Formosa e ao sul da China; Sho-3, as três grandes ilhas metropolitanas, Xonxu, Xicocu e Quiuxiú; Sho-4, à quarta-ilha: Hocaido.

 

Para o Estrado-Maior japonês, a hipótese mais plausível é Sho-1. Instalados nas Filipinas, os americanos estariam em posição para bombardear as ilhas metropolitanas. Poderiam interceptar o fluxo de material estratégico, petróleo, borracha, estanho, etc., que flui em direção ao Japão, das ilhas de Sonda e da Malásia. Militares e industriais estão de acordo: conservar as Filipinas é questão de vida ou morte.

 

As Filipinas compõem-se de 7.000 ilhas e ilhotas e são vulneráveis por todos os lados para um adversário que tem o domínio do mar!

 

O grupo de exércitos responsável pelo Sudeste Asiático é o do Marechal Conde Hisaichi Terauchi, com QG em Manila. Em seu quadro, a defesa das Filipinas compete à 14a Zona Territorial, para cujo comando foi chamado o vigoroso vencedor de Cingapura, Tomoyhi Yamashita. Além das guarnições nas principais ilhas, cerca de 150.000 homens foram divididos em duas partes: uma ao norte, na ilha de Luzon, outra ao sul, na ilha de Mindanao. É indispensável poder concentrá-las rapidamente sobre toda a zona atacada o que exige liberdade de transportes marítimos. A concepção da defesa das Filipinas, os planos Sho, em geral, conduzem à idéia tão acariciada pelos marinheiros japoneses: uma grande batalha naval que restitua ao Japão - pelo menos momentaneamente - o domínio do mar.

 

Mas a Marinha imperial está longe das condições satisfatórias e seus esforços para recobrar o equilíbrio chocam-se com dificuldades intransponíveis. Para substituir os porta-aviões destruídos, foram parcialmente reparados os velhos couraçados Ise e Hyuga, e utilizou-se o casco do Amagi, irmão de estaleiro do grande Yamato. Com o Zuikaku, veterano de Pearl Harbor, e os porta-aviões leves Shiyoda, Chitose, Junyo e Ryujo, está reconstituída a base de uma força de aviação naval. Leva o nome de 3a Frota, ou Corpo de Batalha. O teimoso e infeliz combatente do mar das Filipinas, Almirante Tokyzaburu Ozawa, continua no comando.

 

A base está reconstituída: falta o cimo. O massacre que prossegue desde a batalha do mar de Coral praticamente aniquilou as tripulações de elite que fizeram maravilhas em Pearl Harbor. A formação de novos pilotos - relativamente fácil na Marinha americana - é extremamente trabalhosa com o material humano japonês. Começa-se a dizer, entre os jovens oficiais fanáticos, que não é necessário tanto treino para se abater contra um navio inimigo e treinar na morte, mas está doutrina sublime dos futuros kamikazes ainda não tem a aprovação das autoridades navais. A frota de Ozawa, dentro do mar interior do Japão, espera a lenta formação de seus aviadores.

 

Aparentemente, a situação dos navios clássicos é melhor. O Yamato e o Musashi, de 65.000 toneladas, com canhões de 460 mm, ainda são os mais poderosos navios de guerra do mundo. Ainda é considerável o número de couraçados mais antigos e de cruzadores pesados. Em contraste, há grande falta e destróieres, embarcações auxiliares e, sobretudo, petroleiros. Ainda que os japoneses estejam medíocres em todos os setores ofensivo e defensivos da guerra submarina, os americanos mostram-se incomparáveis neste domínio, e as perdas que infligem às embarcações de transporte, principalmente navios-tanque, são desastrosas. Todas as autoridades navais japonesas interrogadas depois da guerra colocarão no primeiro nível dos fatores da derrota o trabalho dos submarinos americanos.

 

As dificuldades de abastecimento levaram a aproximar das refinarias de Bornéu e Sumatra o grosso das forças navais japonesas. A pequena esquadra do Vice-Almirante Shima, 3 cruzadores e 4 destróieres, ficou sozinha em Kure e Sasebo, com os porta-aviões sem aviões de Ozawa. O resto, sob o comando do Almirante Takeo Kurita, transferiu-se para a baía de Ligga, perto de Cingapura. É ainda uma magnífica armada: 7 couraçados, 11 cruzadores pesados, 2 leves e - apenas 19 destróieres.

 

A parte naval do Plano Sho-1 é traçada com esses componentes. Traz a marca do desespero, para o qual o Japão é impelido, sem o admitir. A esquadra de Ozawa, com seus porta-aviões imponentes, servirá de isca. Atrairá para si, deliberadamente, os grandes navios do Almirante Halsey, dando a Kurita a oportunidade de destruir as forças navais e terrestres com as quais os Estados Unidos tentarão invadir as Filipinas! O momento se aproxima visivelmente. Em setembro, MacArthur ataca e toma a ilha de Morotai, entre a Nova Guiné e Mindanao. Ainda este mês, Nimitz ataca e toma o pequeno arquipélago de Palau, 500 milhas marítimas a leste de Mindanao. As Filipinas parecem ser o próximo objetivo, e o ritmo usual dos movimentos americanos permite prever o ataque para novembro. Mas os japoneses não sabem se o inimigo atacará ao norte ou ao centro - Luzon, Mindanao ou uma das ilhas agrupadas no mar de Visaya: Panay, Negros, Cebu, Leyte, Samar...

 

 

 

As três batalhas de Leyte

 

Os americanos continuam asperamente na controvérsia estratégica.

 

Vencedores das ilhas Marianas, os oficiais da marinha sustentam cada vez com mais energia que podem visar diretamente o coração do Japão. MacArthur mantém, com toda a sai eloqüência, a opinião de que a estrada para Tóquio passa pelas Filipinas, e somente por elas.

 

Em julho, o general é convocado por George Marshall a Honolulu. Tem a surpresa de encontrar aí o Presidente Roosevelt, desejoso de formar uma opinião pessoal sobre a disputa estratégica do Pacífico. O Almirante King ficou retido em Washington, mas o Almirante Nimitz sustenta a tese da Marinha: concentrar todas as forças sobre seu comando e desembarcar em Formosa. A ilha é parte integrante do Império japonês desde 1895. Sua ocupação cortará o Japão de todas as suas conquistas, incluindo a Birmânia, a Malásia e as Filipinas, neutralizando mais de um milhão de homens. Tóquio estará a três horas dos B-29, e todas as chances de obrigar o Japão a declarar-se vencido pelo bloqueio e o bombardeio estarão reunidas ao máximo.

 

Militarmente, a tese de Nimitz é convincente. Mas os argumentos de MacArthur vão além da estratégia, apelam para considerações políticas, psicológicas, passionais. Os filipinos tem uma promessa dos Estados Unidos: serem libertados. Esperam na fidelidade da confiança, mantendo uma intensa guerra de guerrilhas contra o ocupante. Os Estados Unidos não podem deixar 17 milhões de amigos “secar no galho”, até a capitulação ainda longínqua do Japão, sem provocar uma decepção nacional que repercutirá durante anos nos negócios do Pacífico. Senhor de Morotai, MacArthur está quase saltando para Mindanao, de Mindanao a Leyte, de Leyte para Luzon. A Marinha deve colocar-se a serviço do Southwest Pacific para facilitar esse grande giro.

 

A entrevista de Honolulu nada resolve. A discussão prossegue no comitê dos chefes de estado-maior. A controvérsia evolui para uma solução de compromisso. Considera-se que Nimitz tomará a base insular de Yap, enquanto MacArthur se apoderará de Mindanao e Leyte. De acordo com as circunstâncias desta última conquista, decidir-se-á ou terminar a libertação das Filipinas, tomando Luzon, ou lançar-se diretamente sobre Formosa - em março de 1945.

 

Enquanto isso, a rotina da guerra continua. O Almirante Halsey conduz, no Pacífico, uma esquadra gigantesca, a TF (Força-Tarefa) 38: 17 porta-aviões, 6 couraçados, 13 cruzadores, 58 destróieres. As bases japonesas são bombardeadas uma após outra, os aviões destruídos às centenas, no ar ou em terra. A resistência é fraquíssima, principalmente a 9 de setembro, quando a TF 38 bombardeia Mindanao, e a 12, quando, à vista de Samar, ataca as ilhas do mar de Visaya. No dia 13, Halsey chega a uma conclusão e faz uma proposta: a coluna vertebral do inimigo está quebrada - por que não apressar-se, por que não atacar diretamente Leyte, centro e chave do arquipélago filipino?

 

Esta proposta repentina parece ter sido trazida por um vento enfeitiçado. Transmitida por Nimitz, vai diretamente até a conferência de Quebec. King, Marshall e Arnold interrompem um jantar de gala para examiná-la. Noventa minutos depois, a concordância parte para o pacífico Sul: o General MacArthur e o Almirante Nimitz são convidados a abandonar as operações intermediárias, exceto a ocupação das ilhas Palau, para executar, no prazo mais breve possível, um desembarque em Leyte. O 24o Corpo, já embarcado para Yap, é transferido para o Southwest Pacific Area, e une-se ao 10o Corpo para constituir, sob o comando do General Walter Krueger, o 6o Exército. Mudam-se os planos, modificam-se as disposições logísticas, a controvérsia Exército-Marinha é enterrada na improvisação e na ação.

 

A 20 de outubro, começa a batalha terrestre de Leyte. Com 150 km de comprimento e 30 de largura, a ilha foi comparada por um autor americano, a um molar desfalcado, e, por outro, à Vitória de Samotrácia. Estende-se entre Mindanao e Samar, separada da primeira pelo largo estreito de Surigau, e, da segunda, por algumas centenas de metros do tortuoso estreito de San Juanito. Três quartos de sua superfície são montanhas ou pântanos. A parte útil encontra-se no norte, em dois vales, vale de Leyte e vale de Ormoc, separados por uma cadeia de montanhas, cujos cimos, cobertos de selva, ultrapassam 1.200 metros de altura. Desde a invasão da África do Norte, dois anos antes, a técnica americana de desembarques fez prodigiosos progressos. O de Leyte, com 700 navios e 175.000 homens, desenrola-se como uma peça de teatro, rodada por numerosas apresentações. O 10o Corpo - 1a Divisão de Cavalaria, 24a Divisão de Infantaria, desembarca na baía de San Pedro, no fundo do golfo de Leyte, nas proximidades da pequena capital de Tacloban. O 24o Corpo - 96a e 7a DI - desembarca uns 20 km ao sul, perto da cidadezinha e aeródromo de Dulag. Conhecendo o poder arrasador do fogo americano sobre as praias, os japoneses não fortificaram o litoral, organizando a defesa em profundidade. Tacloban e seu aeroporto, Palo e Dulag, são tomados desde o segundo dia. MacArthur desceu à terra, na tarde do primeiro dia. Patinhou majestosamente na água até aos joelhos e, na própria praia, enviou pelo rádio uma mensagem cheia de um fervor quase místico, à nação filipina. Dois dias depois, instalou solenemente em Tacloban o sucessor de Manuel Quezon, Sérgio Osmena. Tinha já recusado o alto-comissário que Washington lhe quis impingir para a administração do arquipélago. A legalidade é restaurada, as instituições recomeçam a funcionar neste primeiro retalho de território libertado.

 

Mas a batalha terrestre de Leyte passa a segundo plano. A sorte da ilha não se joga aí, mas no mar. Uma complexa e patética batalha naval está em curso.

 

A 18 de outubro, o Almirante Toyada deu ordens para executar o Plano Sho-1. A esquadra de porta-aviões, cujo papel é atrair sobre si a força de combate americana, não tem mais de 110 aparelhos, tripulados por pilotos na maioria incapazes de mergulhar. Os couraçados restaurados Ise e Hyuga não tem nenhum avião e, como lhes tiraram sua principal artilharia, estão praticamente impotentes - mas decide-se levá-los, ao menos para reforçar a impressão que a esquadra sacrificada, a esquadra-isca, deve dar. “Eu esperava - dirá o Almirante Ozawa - a destruição total da minha frota, pois a única coisa que importava era que Kurita pudesse cumprir sua missão...” Parte ostensivamente, a 20 de outubro, com o Ise, o Hyuga, o Zuikaku, o Zuiho, o Chitose, o Chiyoda, 3 cruzadores, 8 destróieres, numerosos navios de carga e petroleiros, também para fazer número.

 

Por seu lado, Kurita deixou Lingga Roads e dirigiu-se para Brunei, na costa norte de Bornéu. A 22, deixa Brunei. Sua armada se fraciona em duas partes. A menos importante, sob o comando do Almirantre Nishimura, compõe-se dos couraçados Fuso e Yamashiro, do cruzador pesado Mogami e de 4 destróieres. Deverá ser engrossada pelos sete navios do Almirante Shima e encaminhar-se para o estreito de Surigau, para contornar Leyte pelo sul. A força principal, sob o comando de Kurita, compreende os couraçados Yamato, Mushashi, Nogato, Kongo e Haruna, 11 cruzadores e 15 destróieres. Deve atravessar o estreito de São Bernardino, entre Luzon e Samar, contornar esta última ilha e irromper no golfo de Leyte ao mesmo tempo que Nishimura. Espera-se que, neste momento, o Almirante Halsey já tenha sido burlado pela frota de Ozawa. Prevê-se um massacre das velhas embarcações americanas diante de Leyte, o isolamento das tropas desembarcadas, o revés da invasão das Filipinas...

 

Começa o dia 23 de outubro. Agitado por um tufão durante os dias precedentes, o Pacífico retoma lentamente a sua serenidade. Um dos quatro grupamentos de porta-aviões do Almirante Halsey, o TG 38.1, se reabastece em Ulithi. Os outros três cruzam ao largo de Samar. Encarregada da execução e da proteção imediata do desembarque, a outra frota americana, a 7a, do Almirante Thomas Kinkaid, enche o golfo de Leyte com um conglomerado de navios de todos os tamanhos, de todas as denominações e especializações. São acompanhados pelos seis velhos couraçados Mississippi, Maryland, West Virginia, Tennessee, Pennsylvania e California. Os americanos não esperam uma batalha naval. Não suspeitam que há três frotas japonesas convergindo em sua direção.

 

À aurora, a esquadra que vem de Brunei entra no canal que separa a longa ilha de Palauán de um baixio conhecido como Dangerous Ground (Zona Perigosa). Navega em duas alas; a da direita é conduzida pelo cruzador Atago, que arvora a bandeira do Almirante Kurita. Alguns minutos depois das 6 horas, vários torpedos atingem o navio, inundam as caldeiras, arrancam as hélices e o leme. O cruzador seguinte, o Takao é também torpedeado, e, às 6h40, o Maya, terceira embarcação da ala direita. O Atago afunda, o Maya explode, o Takao se arrasta com dificuldade em direção a Cingapura. Atacado pelo Dace e o Daster (este último naufragará algumas horas mais tarde na Zona Perigosa), a Marinha Imperial é novamente vítima de sua imperícia na luta anti-submarina. Kurita transfere sua bandeira para o Yamato e prossegue seu caminho, enfraquecido e localizado.

 

Também a esquadra do Almirante Nishimura foi localizada, durante o dia, por patrulhas americanas. A única das três forças japonesas de que os americanos ignoram a presença no mar é a que procura ser vista, para desviar o castigo sobre si. Ozawa navega sem incidentes durante todo o dia e, durante a noite, desvia-se para sudoeste, a fim de aproximar-se de Luzon.

 

O dia 24 é ardente. Os americanos tentam esmagar as esquadras de Kurita e Nishimura antes que elas atinjam os estreitos. Os japoneses usam sua aviação que tem base nas ilhas. Marcam o primeiro ponto. No princípio da manhã, o TG 38.3, do Contra-Almirante Federick Sherman, sofre o ataque resoluto de 150 aviões. O último da última vaga joga um torpedo sobre o Princeton. Um fantástico cogumelo de fumaça brota do porta-aviões. A luta para salvá-lo durará até a noite. Será necessário decidir acabar com ele.

 

Mas os japoneses pagam. A esquadra de Kurita é atacada às 10h26, 10h45, 12h45, 13h50 e 15h50. Sua potente DCA não substitui os caças que faltam. Os navios são crivados de projeteis. Outro gigante, o Mushashi, atingido doze vezes, queima durante todo o dia e afunda ao por do sol. Kurita pensa em retroceder. Tóquio lhe reitera que deve cumprir sua missão custe o que custar, e até o fim.

 

Durante esses duros embates, Ozawa prossegue seu caminho, desanimado de ser descoberto. Lançou todos os seus aviões, na esperança de que eles encontrariam os alvos. A maioria pousou em Luzon, sem ter visto um só navio, e somente 23 puderam voltar aos porta-aviões.

 

Somente à tardinha os aviões de reconhecimento americanos sobrevoam a frota japonesa. Ozawa sabe que foi descoberto. Suas tripulações sabem que estão condenadas. O Almirante Halsey compreende, com um suor de angústia, que se deixou surpreender. Enquanto permanecia hipnotizado no mar de Visaya, enquanto deixava suas esquadrilhas para cercar as duas esquadras de couraçados e cruzadores que navegavam em direção a Surigau e San Bernardino, a principal força inimiga (todos os porta-aviões!) avançava para atacá-lo pelas costas. É tempo de eliminar esta ameaça. Já que o inimigo pede a batalha, é preciso dar-lhe com o maior vigor.

 

As ordens partem no princípio da noite. Os três TG presentes diante de Samar agrupam-se e dirigem-se para o cabo Engaño, ponta norte da ilha de Luzon. Espera encontrar o inimigo pela aurora, e travar o combate no princípio da manhã.

 

A partida da 3a Frota deixa sem defesa o estreito de San Bernardino, descobre o flanco direito da 7a Frota. Vários subordinados de Halsey alarmam-se com isso, mas o almirante está tranqüilo. Durante todo o dia, aviadores atingiram as esquadras arcaicas que se dirigiam para os estreitos e, sem sofrer perdas sensíveis, infligiram prejuízos devastadores. Um supercouraçado foi afundado. Todos os outros grandes navios foram bombardeados e torpedeados. O inimigo deve pensar suas feridas e, provavelmente, fazer meia-volta, aproveitando a noite. Halsey está tão confiante, tem tanta pressa em bater-se com os porta-aviões, que nem mesmo deixa um destróier de sentinela na saída de San Bernardino. Chega a esquecer-se de avisar Kinkaid de que o flanco direito da 7a Frota vai ficar descoberto. Investe sobre Ozawa impetuosamente - na forma exata como Ozawa e o Estado-Maior imperial esperavam...

 

A noite está tórrida. Os homens sufocam nos porões dos navios. No golfo de Leyte, todos os movimentos cessaram ao por do sol. Os navios de combate da 7a Frota preparam-se para navegar, e dirigiram-se para sul, a fim de barrar o estreito de Surigau. Na costa norte, o Almirante Kinkaid está tranqüilo, convencido de que Halsey e seus poderosos navios velam diante do estreito de San Bernardino.

 

Durante todo o dia, o Almirante Nishimura prosseguiu seu caminho através do mar de Mindanao. Entra no estreito de Surigau à meia-noite, sem se deter para esperar os sete navios do Almirante Shima, que o segue a umas trinta milhas. Está dentro do horário. Será possível chegar pela aurora no golfo de Leyte, simultaneamente com Kurita que vem do norte...

 

Sobre a água adormecida e escura, acendem-se os refletores. Silhuetas baixas arremessam-se a toda velocidade. A artilharia japonesa troveja. Quarenta e cinco PTB atacam em várias vagas, mas por inexperiência ou falta de sorte, nenhum dos 180 torpedos atinge um casco inimigo. Às 2 horas, Nishimura atinge incólume a parte mais fechada do estreito, entre Mindanao e uma pequena ilha costeira de Leyte, Paneon.

 

A luta se reanima. Depois do enxame de PTB, a divisão de destróieres do comandante Jesse Coward ataca por sua vez.

 

Três navios surgem de leste, lançam 27 torpedos e se retiram, em ziguezague entre feixes pálidos levantados pelos obuses japoneses. Oito minutos mais tarde, ouvem-se explosões. Um dos dois couraçados de Nishimura, o Fuso, gira sobre si mesmo e inclina-se para estibordo, fora de combate.

 

O segundo ataque vem do oeste, conduzido por dois outros navios da divisão. Um destróier japonês explode; um segundo começa a afundar, um terceiro fica atrás, adernando. O couraçado-capitânia Yamato também recebe um torpedo. Mas dele vem relatório: capacidade combativa intacta, rota inalterada...

 

Mas o tratamento continua. Por sua vez, os grandes destróieres do Comandante McManes atacam. O Fuso ilumina o estreito com um feixe de chamas, antes que dele irrompa o fogo de artifício da explosão final. Restam apenas três navios japoneses, o Yamashiro, o cruzador pesado Mogami e o destróier Shigura. Outro torpedo atinge o Yamashiro, imobiliza-o por um instante, mas logo ele retoma um pouco de velocidade e, com obstinação sublime, prossegue a execução de sua missão. Rodeou o calcanhar de Leyte e dirige-se para norte.

 

Diante do Yamashiro, o horizonte se incendeia. Os seis couraçados e os oito cruzadores da 7a Frota formaram, de um lado a outro do estreito, uma barragem tripla. Utilizando o radar, abrem terrível fogo. O Yamashiro responde: um obus, talvez, contra 50. Vêem-se sobre sua silhueta várias explosões, depois uma imensa chama, que o recobre inteiramente. O couraçado vira e afunda. São 4h19. A batalha do estreito de Surigau, uma das três que compõem a grande batalha naval de Leyte, terminou.

 

Trezentas milhas ao norte, começa a batalha do cabo Engaño. O TG 38.1 não pôde unir-se ao corpo de combate, mas as forças conduzidas pelo Almirante Halsey e por seu lugar-tenente, Almirante Mark Mitscher, são suficientes para qualquer tarefa. São 64 navios novos, 5 porta-aviões pesados, 5 leves, 6 couraçados, 2 cruzadores pesados, 6 leves, 40 destróieres, 700 aviões. Essa coluna cerrada avança a 25 nós por hora contra as 17 embarcações heterogêneas do Almirante Ozawa e os 29 aviões que pousaram na véspera. Nenhum combate é possível. Trata-se de um massacre.

 

Ozawa fez meia-volta, foge na direção norte, não para escapar, mas para atrair o inimigo o mais longe possível. Os reides começam às 9 horas da manhã. A primeira incursão afunda o porta-aviões Zuikaku. A segunda fere mortalmente o porta-aviões Chiyoda e a avaria o cruzador Tama. A terceira acaba com o Zuiho e avaria o couraçado Ise. Os navios equipados com canhões aproximam-se para acrescentar obuses às bombas. Não parece haver possibilidade alguma de salvar a frota de Ozawa da destruição integral, prevista e aceita por seu almirante...

 

E, no entanto, há! Pois a terceira das batalhas de Leyte, a de Samar, já começou também. Chegando ao estreito de San Bernardino, o Almirante Kurita esperava para lutar. Passa sem dar um tiro de canhão, a 20 nós, faróis acesos por sua ordem. Apressa-se, pois está com seis horas de atraso, e sabe que a única aliada nesta empresa temerária é a velocidade.

 

O dia surge com um céu carregado de cúmulo-nimbos. O mar está calmo, e o vento, caprichoso. Kurita desloca seus navios, os destróieres nos flancos, os cruzadores em primeiro escalão, os couraçados em duas colunas. O Yamato e o Nagato à direita, o Kongo e o Haruna à esquerda. Às 7 horas seus vigias distinguem silhuetas de porta-aviões no horizonte. Com uma alça de mira de 32.000 metros, Kurita abre fogo.

 

Entre os americanos, o alerta só foi dado às 6h47 - e pelo hidroavião de uma patrulha antisubmarina, que descobre, estupefato, uma poderosa frota inimiga a oeste de Samar. O Almirante Clifton Sprague, pensou a princípio ser uma confusão, e que se tratava dos navios de Halsey. Quinze minutos depois, reconheceu, com seus próprios olhos, os mastros em forma de pagode, característica dos grandes navios japoneses. Então, obuses enormes fizeram brotar repuxos em torno dele. A surpresa é completa. Os principais navios da 7a Frota estão ao sul de Leyte, onde acabaram de vencer a batalha de Surigau. O esqueleto que permaneceu no local é constituído pelo grupo de Clifton Sprague e dois grupos semelhantes, compostos de porta-aviões de escolta. Mas os porta-aviões de escolta são, de fato, navios mercantes, acompanhados de uns 30 aviões, e os destróieres de escolta, desenhados também para a proteção dos comboios, só tem velocidade de 20 nós. Na hora em que se consuma a derrota de Nishimura, em que começa a de Ozawa, Kurita pode vingá-los!

 

Mas os americanos lutam valente e habilmente. Sprague oculta-se atrás de uma cortina de fumaça, reforçada por um oportuno aguaceiro. Seus destróieres contra-atacam com resolução. Seus bombardeiros, reforçados rapidamente pelos dos outros dois grupos, atacam furiosamente o inimigo. As perdas se equilibram. Do lado americano, os destróieres Hoel e Johnston, o destróier de escolta Samuel Roberts e os porta-aviões de escolta Gambier e Saint-Lô são afundados pela poderosa artilharia japonesa. Mas os cruzadores pesados Chokai, Suzuka e Chikuya afundam, sob as bombas e torpedos americanos; os cruzadores Kumano, Tone e o couraçado Kongo são atingidos. Às 9h21, Kurita interrompe o combate e retira-se para norte.

 

Neste momento, vários pedidos de ajuda de Kinkaid, várias ordens de Nimitz chegaram ao Almirante Halsey. Pedem-lhe, ordenam-lhe que venha em socorro da 7a Frota em perigo.

 

Halsey hesita. Está aniquilando o inimigo que persegue. Seus couraçados ganham dos navios japoneses, ou mais velhos, ou avariados. Seus porta-aviões estão prestes a se recuperar e lançar novamente as vagas que infligiram os primeiros golpes. Contenta-se primeiramente em ordenar ao TG 38.1, 2 porta-aviões pesados e 2 leves, que se dirijam a Samar, em vez de reunir-se a ele, como tentava desde a véspera. Depois, com os pedidos do Almirante Lee, os 5 porta-aviões do Almirante Bogan, ele próprio, Halsey, a bordo do New Jersey, abandonam a perseguição e tomam a direção sul.

 

As bombas diminuem sobre os navios de Ozawa. Um último ataque, às 7h10, só faz uma vítima. O almirante japonês, que transferiu sua bandeira para o cruzador leve Oyoto, navega pela noite adentro, estupefato de estar vivo. Reconduzirá ao Japão seus dois couraçados, 8 destróieres e 3 cruzadores.

 

Kurita também escapa, salvando 4 de seus 5 couraçados. Passa novamente o estreito de San Bernardino, à meia-noite, com 10 horas de vantagem sobre Halsey. As esquadrilhas aéreas enviadas no dia seguinte à sua procura não o encontrarão.

 

Assim, a vitória americana em Leyte é incompleta, mas não deixa de constituir a derrota final da Marinha japonesa. As perdas que esta sofreu, a destruição de todos os seus porta-aviões, impedem-na de participar novamente de uma ação de conjunto, pois estes representavam as últimas oportunidades da Marinha japonesa. O destino do império insular está selado.

 

Entretanto, o Japão se obstina! É constituído um  35o Exército, sob o comando do Tenente-General Sasaku Suzuki. De Luzon, Cebu e Mindanao, pequenos comboios conduzem reforços para a ilha atacada. Depois de seus sucessos iniciais, os americanos tinham pensado numa conquista rápida. Devem prosseguir uma campanha dura, dificultada ainda mais pelas monções. Marchas na lama, batalhas sob trombas de água.

 

Mesmo no mar, os japoneses continuam temíveis. Entram em cena os kamikases, os ventos de Deus. O Contra-Almirante Arima “acendeu a chama”, no dia 15 de outubro, lançando-se com seu avião sobre um navio americano. Oito dias mais tarde, seu superior, o Vice-Almirante Onishi, que comanda a 1a Frota Aérea constitui por sua própria iniciativa um corpo de voluntário da morte. A 27 de novembro, os kamikases aparecem no golfo de Leyte, avariam o cruzador Montpelier e o couraçado Colorado. Dois dias depois, colocam fora de combate outro couraçado, o Maryland. Independentemente dos prejuízos materiais, o sacrifício teatral dos kamikases causa um choque moral, reforça a idéia de que será necessário, para vencer o Japão, exterminar os japoneses. Ordens expressas proíbem os correspondentes de guerra mencionar isso.

 

Lentamente, o 6o Exército invade o vale de Leyte e rechaça os japoneses para o vale de Ormoc. Um desembarque da 77a Divisão de Infantaria permite a tomada do pequeno porto, o último que restava aos japoneses. Desagrega-se a resistência organizada, mas, seguindo a regra, não se pede a capitulação. Os melhores elementos são evacuados furtivamente para as ilhas vizinhas. Os outros se dispersam na montanha, perecem nas emboscadas ou morrem de privações.

 

Reabertura da China. Chuva de morte sobre Tóquio

 

Entre a China e a Índia, a Birmânia apresenta problemas estratégicos, tanto para os Aliados quanto para os japoneses. Para os primeiros, trata-se de reconquistá-la, a fim de restabelecer suas comunicações terrestres com Chiang Kai-chek. Para os segundos, abre-se uma opção: ou considerar a Birmânia como um simples flanco defensivo ou como uma base ofensiva, que permita incendiar a Índia por uma insurreição nacional, coincidindo com a irrupção de seus soldados.

 

A segunda concepção prevalece quando assume o comando da Birmânia o General Mutaguchi, dono de forte personalidade. O agitador Subhas Chandra Bose, trazido da Alemanha por um submarino, rei sem coroa de Bengala, instala o Governo Provisório da Índia Livre em Cingapura. Assim que os japoneses penetrarem em Assam, Bose irá para lá e lançará o apelo libertador aos 400 milhões de indus. Para essa grande campanha. Mutaguchi, obtém do Estado-Maior-Geral Imperial um reforço de 3 divisões, que se unem às 5 divisões do 15o Exército.

 

A situação militar e política dos Aliados é extremamente complicada. O teatro de operações do Sudeste da Ásia é restituído aos ingleses e, desde Quebec, está sob o comando do Almirante Lorde Louis Mountbatten. A Inglaterra fornece a maior parte das tropas terrestres (14o Exército britânico, comandado pelo General Slim) e da aviação de combate. Mas a ponte-aérea do Himalaia, única via de abastecimento da China, é uma colossal tarefa americana. Os Estados Unidos são também preponderantes na China, onde o General Claire Chennault comanda a aviação chinesa e o General Joseph Stilwell exerce teoricamente as funções de chefe do Estado-Maior de Chiang Kai-chek. As confusões de comando e organização nascem desta complexidade, num país tórrido, montanhoso, freqüentemente selvagem, e fazem do teatro sino-birmanês o mais difícil campo de batalha do conflito mundial.

 

As relações pessoais são péssimas. Stilwell, diz Vinegar Joe, é um soldado capaz e honesto, mas um caráter desconfiado. Chiang não o suporta. Madame sente-se visada por suas reflexões sobre a corrupção chinesa. Os companheiros de Chennault combatem-no com violência. Os sinófilos de Washington acusam-no de odiar os asiáticos e suspeitam-no de parcialidade pelos colonialistas europeus. Entretanto, Stilwell não pode suportar os ingleses. Enche seu diário de reflexões injuriosas sobre sua falta de coragem e seu welshing, que é uma das maneiras inglesas de dizer “sair à francesa”. Agregado a Mountbatten, aguça sua verve sobre o jovem aristocrata. A cadeia do comando range, e o clima não concilia nada.

 

O programa de 1944 comporta três operações: 1a - uma ofensiva do 15o Corpo britânico na região costeira; 2a - uma ofensiva do 4o Corpo britânico no centro; 3a - uma ofensiva na Alta Birmânia, com a ajuda de três divisões chinesas congregadas por Stilwell e apoiadas por diferentes formações anglo-americanas. As duas primeiras constituem a primeira etapa da marcha para Rangum. A terceira tem por objetivo construir uma rodovia e o estabelecimento de um oleoduto, partindo de Ledo e unindo-se à estrada de Mandalay além de Lashio. Será restabelecida uma ligação terrestre com a China, sem esperar a reconquista da Birmânia central. Mas o esforço necessário é hercúleo. Mountbatten considera a empresa utópica e só se inclina diante da insistência dos americanos.

 

Os japoneses precedem seus adversários. Atacam a baixa Birmânia desde o mês de janeiro, encurralando a 7a Divisão britânica no maciço de Arakan; depois, quando Slim pensa ter restabelecido a situação, lançam uma ofensiva de três divisões na planície de Infal, no centro da frente. A estrada de ferro de Ledo, o vale do Bramaputra estão em perigo. Mas os japoneses perderam a capacidade de penetração de suas marchas triunfais na Malásia ou em Java. Em junho, toda a ameaça contra a Índia está afastada definitivamente. A planície de Infal é reconquistada e, sob o furor das monções, o 14o Exército começa a arrojar o inimigo no vale de Chindwin.

 

Durante estes combates britânicos na Birmânia central, Stilwell conduz pessoalmente seus chineses em direção ao vale do Irrawadi, através de 725 km de montanhas e florestas. A aeródromo de Myitkyina, chave da região, é tomado a 14 de maio, mas os japoneses se aferram à cidade, bloqueando a progressão em direção à fronteira chinesa. Aproveitando a ocasião, Mountbatten propõe que se mantenha lá. O organizador das guerrilhas antijaponesas, o homem que ensinou o europeu a aliar-se à natureza asiática O.C. Wingate, morrera algumas semanas antes, num desastre de avião, mas seu sucessor, o Brigadeiro Lentaigne, opera com forças importantes no médio vale do Irrawadi, em direção a Indaw. Mountbatten pensa em fornecer-lhe os meios de transportes aéreos consideráveis exigidos pela coluna Stilwell. Novo assunto de discórdia anglo-americana.

 

A discussão é longa e pormenorizada. Enquanto prossegue, as forças japonesas se esgotam. A guarnição Myitkyina sucumbe, reduzida a 400 esqueletos. A estrada de Ledo é terminada no início de 1945, e o primeiro comboio entra na China a 28 de fevereiro. Stilwell não está presente para celebrar um sucesso de que é o autor. Chiang e Mountbatten pediram que fosse chamado e Vinegar Joe sucumbiu sob a coalizão de seus inimigos. A estrada de Ledo liga-se à entrada do B-29 em cena. Os chefes de estado-maior decidiram que o superbombardeiro, com um raio de ação de 5.600 km e capacidade para 4 toneladas de bombas, não seria utilizado na Europa, mas reservado ao Pacífico. No início de 1944, a única possibilidade de usá-los contra o Japão consiste em estabelecer sua bases na China. Uma 20a Air Force é constituída com esta intenção, sob o comando do General Curtiss Le May. Multidões de coolies constroem terrenos apropriados em Liliang e em Chengtu. Enquanto se espera a reabertura das comunicações terrestres, é preciso fazer voar, sobre o Himalaia, rios de gasolina. O B-29 faz sua estréia contra Bangcoc, a 5 de junho. No dia 15, fere o Japão pela primeira vez, devastando a fábrica de aço Yamata, na ilha de Quiuxiú. Durante os meses seguintes, são bombardeadas as usinas metalúrgicas da Manchúria, a base naval de Sasebo, a cidade de Nagasáqui. Mas as dificuldades levantadas pelas bases chinesas são desencorajantes, e o rendimento das incursões não é proporcional a seu custo. No princípio de 1945, a 20a Força Aérea cede e transfere-se para as ilhas Marianas, recentemente conquistada, em Guam, Saipan e Tinian. Doravante, está somente a 1.200 milhas de Tóquio.

 

Hitler entre o Leste e o Oeste

 

Na Europa, o ano começa com duas ofensivas alemães. Uma no Danúbio, outra no Reno.

 

O princípio destas duas ofensivas foi motivo de uma cena violenta, no QG de Ziegenberg, quatro dias antes. Guderian levou ao Fuhrer as avaliações do chefe de seu serviço de contra-espionagem, General Gehlen, relativas à frente oriental. A superioridade numérica russa é calculada em 7 por 1 em tanques, 11 por 1 para a infantaria, e 20 por 1 para a artilharia. Quando tais massas ameaçam as províncias orientais da Alemanha, quando é iminente uma ofensiva geral, é razoável empreender uma operação secundária a oeste? É mesmo razoável querer disputar Budapeste a todo preço? Não será melhor lançar diante da Prússia, diante de Berlim, todas as forças que a Alemanha ainda tem - negociando, se possível, com os americanos e os ingleses?

 

A reação de Hitler foi de extrema violência. Bramiu contra Gehlen, culpado de prestar-se “ao maior blefe desde Gengis-Kan”. Os russos enganam o serviço de contra-espionagem alemão com informações fantásticas! Nunca possuíram tal número de grandes unidades! Além disso, a frente oriental ainda está no Vístula, enquanto a frente ocidental já chega ao Reno. “No Leste, nós ainda podemos ceder terreno; no Oeste, não mais podemos...” É por isso que o Fuhrer mantém a contra-ofensiva da Alsácia, que paralisará a invasão.

 

Na Hungria, a situação se deteriora cada vez mais, desde o outono. Malinovski, a 29 de outubro, rompeu a frente diante de Kecskemet e avançou até os subúrbios de Budapeste. Alguns dias mais tarde, Tolbukhine conseguiu romper as linhas ao sul da capital, mas o esforço soviético volta-se novamente para o sul. O Danúbio foi transposto numa larga frente, e o grupo de exércitos do General Fretter Pico, 4o Exército alemão e 3o Exército húngaro, foi repelido até a chamada “die Margareten stellung”, posição fortificada fictícia, que vai do lago Balaton à colina de Buda. O Fuhrer substituiu Friessner por Woehler no comando do Grupo de Exércitos Sul, mas esta mudança de pessoas não impediu que fosse irresistível a ofensiva soviética de 19 de dezembro. A 3a Frente da Ucrânia rompeu a Posição Margareten e desorganizou o 6o Exército. A 2a Frente da Ucrânia desorganizou o 8o Exército e atinge o Danúbio em Komaron e em Gran. Budapeste está cercada. O Fuhrer nomeou comandante do local o Obergruppenfuhrer SS Winkelmann, com ordens de defender a cidade “durch Kampf Haus um Haus”, e conclamou a população às armas contra o bolchevismo. Mas os húngaros se comportam de maneira singular. Suas tropas içam a bandeira branca; os operários de Miskloc não combateram contra os russos, mas com eles, e em Budapeste a resolução antecipada de ignorar a guerra é flagrante. No dia do bloqueio, 23 de dezembro, a bela cidade vivia quase como nos tempos de paz. Os bondes circulavam, as lojas  estavam abertas e os habitantes faziam suas compras de Natal!

 

Hitler resolveu defender esta Hungria que não se defende. Explica razão a Guderian. Budapeste é o escudo de Viena, como no tempo das invasões mongólicas. Além disso, a única fonte de petróleo que resta ao Reich se encontra na Hungria e no Burgenland. Por isso será desencadeada uma ofensiva para romper o cerco de Budapeste e expulsar os russos para além do Danúbio. O 4o Corpo Blindado SS - divisões Totenkoph e Viking - chega da Prússia Oriental para se encarregar disso. Guderian objeta que se trata de uma fração importantes das fracas reservas da frente oriental. Hitler, mais calmo, põe a mão no ombro de seu chefe de estado-maior: “Meu caro Coronel-General Guderian, não penso absolutamente que os russos ataquem, acredite-me, não passa de um blefe gigantesco. Estou convencido de que nada acontecerá no Leste”.

 

Para o SHAEF, não tem nada de angustiante a ofensiva alemã que começou na noite de São Silvestre, na Alsácia. Os meios de que ela dispõe são avaliados em 2 ou 3 divisões Panzer e 6 ou 7 divisões de infantaria ou VGD (Divisões de Granadeiros do Povo). Muito fraca para não ser destruída rapidamente, ela não dirige a exploração em sentido algum. Nem mesmo faz desviar o Comando americano da operação a que dá prosseguimento para cortar pela base o tumor, the Bulge, que a retirada limitada de Model deixou subsistir nas Ardenas. Com a condição, entretanto, de que as forças americanas empenhadas no beco sem saída delimitado pelos Vosges, pelo Lauter e pelo Reno não se deixem cair na armadilha.

 

Toda progressão profunda na região de Sarrebourgo, toda ameaça contra a brecha de Saverne e a grande estrada Nancy-Estrasburgo colocaria o 6o Corpo americano em grave perigo.

 

Em virtude dessas considerações, Eisenhower toma a sábia decisão já cogitada desde 16 de dezembro: evacuar a Alsácia, transferir sobre as cristas dos Vosges a frente do 6o Grupo de exércitos.

 

A ordem é telefonada de Versalhes na noite de 1o de janeiro. As instruções vem no dia seguinte. O 6o Corpo deve retirar-se primeiramente para a Linha Maginot, depois, girando sobre sua esquerda, ocupar sucessivamente uma linha Bitche-Niederborn-Bischwiller, uma linha Bitche-Ingwiller-Estrasburgo, enfim, uma linha Bitche-La Petite Pierre-Dabo. Esta última, que coincide com a crista dos Vosges, deve ser atingida a 5 de janeiro. “Não se preocupem - escreve o General Devers ao General Patch - com as conseqüências políticas desta medida. Devem consentir o abandono de todo o território a leste dos Vosges, inclusive Estrasburgo...”

 

As vantagens dos dois primeiros dias da ofensiva são bastante modestas. A oeste dos Vosges, o 15o Corpo americano cedeu sob o choque da 14a Divisão Panzer, e  o objetivo do primeiro dia, Rohrbach, não é atingido. A leste, o 6o Corpo executou sem dificuldades seu primeiro passo atrás. No centro, nos próprios Vosges, a saliência de Bitche se acentuou um pouco, por uma progressão alemã em direção a Althorn e Wingen. Mas os serviços do 7o Exército americano partem um tanto precipitadamente, dando a impressão de confusão na retaguarda. O QG retira-se de Saverne para Lunéville. Nas estradas cobertas de neve, pesados comboios dirigem-se para oeste.

 

A 3 de janeiro, em Lunéville, um pouco depois da meia-noite, um oficial de ligação traz uma carta angustiada do General Schwartz, governador de Estrasburgo. O abandono da Alsácia, diz Schwartz, constitui uma catástrofe, entrega ao massacre, a horríveis represálias, populações que é materialmente impossível evacuar!

 

Devers chega ao QG do Exército algumas horas mais tarde. Patch e seu chefe de estado-maior, o General White, valorizam os argumentos de Schwartz, acentuando que ainda é tempo de deter a retirada do 6o Corpo nas fortificações da Linha Maginot. Devers responde asperamente que Estrasburgo será evacuada, e que se pede do comandante do 7o Exército não se prestar às pressões, políticas ou outras, que se exercem sobre ele.

 

O comandante do grupo de exércitos ainda não deixou Lunéville quando chegam novas ordens do SHAEF. Mudou tudo! A retirada deve ser paralisada, e Estrasburgo, defendida. As propostas de Patch e White, minutos atrás, transformam-se em ordens. O 6o Corpo se prenderá à Linha Maginot. O 15o Corpo lançará um contra-ataque, a fim de repelir o inimigo para o oeste dos Vosges. A Alsácia e Estrasburgo, abandonadas um momento antes, tornam-se o trunfo de uma resoluta batalha! De Gaulle está na origem desta mudança. Quando soube das intenções do SHAEF, telegrafou a Roosevelt e Churchill, dizendo que não aceitaria o abandono da Alsácia, e ordenou a De Lattre que defendesse Estrasburgo por conta própria. Churchill volta de Atenas, onde passou um Natal dramático, tentando fazer cessar a luta sangrenta desencadeada pela ELAS. Corre a Versalhes e está no gabinete de Eisenhower, no início da tarde, quando este recebe o chefe do Governo Provisório francês. Abstém-se de tomar parte na discussão, mas, antes, demonstrara a Eisenhower e Bedell Smith os múltiplos e graves inconvenientes de um abandono de Estrasburgo.

 

Ike não tem dificuldade alguma para justificar sua decisão, do ponto de vista militar. Não deixa de acentuar que a situação seria melhor se o exército francês tivesse vencido o bolsão de Colmar, e que a força deste exército seria mais considerável se o governo francês mantivesse suas divisões com os efetivos completos. De Gaulle responde que Estrasburgo será defendida de qualquer maneira, mesmo se as tropas francesas tiverem de retomar sua independência em relação ao comando aliado. Ike replica que basta uma palavra sua para que as tropas francesas não recebam um só cartucho, ou litro de gasolina. De Gaulle responde que a França, “em seu furor”, retiraria aos Aliados “a utilização das ferrovias e as transmissões necessárias às operações”. A ameaça é exagerada, mas não deixa indiferente um generalíssimo preocupado em evitar qualquer dificuldade em sua retaguarda. Churchill já tinha ganho a causa de Estrasburgo e, apesar da vivacidade de seu temperamento, Ike é muito político para que a brutalidade de sua explicação com De Gaulle o faça obstinar-se em sua primeira atitude. Aceita dar a Devers instruções imediatas para limitar o recuo do 7o Exército à retirada das saliências indefensáveis, e para que Estrasburgo seja mantida firmemente. A tempestade termina numa xícara de chá. “Nós nos despedimos como bons amigos” - conta De Gaulle. E Ike: “Ele partiu de bom humor, exprimindo uma confiança ilimitada em meu talento militar”.

 

Também a 3 de janeiro começa a ofensiva geral aliada nas Ardenas. O 1o Exército americano, ainda sob as ordens de Montgomery, ataca o flanco norte da saliência, visando Houffalize com o 7o e o 18o Corpos. O 3o Exército acentua seu esforço em direção a Bastogne e Saint-Hubert, com o 8o e o 3o Corpos. A abundância da neve leva os combates para as estradas e favorece a defesa, restringindo os movimentos dos atacantes. Hitler intervêm cotidianamente  para que o Grupo de exércitos B saia da defensiva, retome “das Gesetz des Handelns”, a iniciativa das operações. Model responde que o estado de suas forças e seu abastecimento o colocam na defensiva. Luta-se ardorosamente por minúsculas localidades ardenesas, Lierneux, Odeigne, Bihain, Villers-la-Bonne-eau, Flemierge, etc., no meio de grandes florestas geladas. Os dois braços da pinça americana fecham-se com lentidão.

 

Na França, fracassa a tentativa alemã de fechar a brecha de Saverne por uma progressão a oeste dos Vosges. A saliência de Bitche, para dilatar-se, depois, sob pressão do 15o Corpo, começa a contrair-se. Os americanos retomam Wingen. A densidade de seus fogo enfraquece as unidades alemães. Um batalhão da 362a DI está reduzido a 60 homens; um outro, a 15.

 

Depois do revés alemão, muda a forma de batalha da Alsácia. Hitler modifica seu plano. O essencial das operações se desenrolará não mais a oeste, mas a leste dos Vosges. O ataque do 1o Exército partirá da região de Wisemburg e será orientado para Wesselone e Molsheim. O 19o Exército atacará em seu encontro por Erstein e, transpondo o Reno à altura de Haguenau, a 553a VGD servirá de ponto de descanso, entre os dois ataques. Estrasburgo, secundária, na concepção primitiva, tornar-se-á assim o centro da batalha. O Fuhrer não precisa o objetivo, pois este não se modificou. Pelo leste ou pelo oeste, trata-se sempre de apoderar-se da brecha de Saverne e “aniquilar as forças inimigas entre os Vosges e o Reno”.

 

A 553a VGD transpõe o rio a 5 de janeiro, às 7h45, 25 km ao norte de Estrasburgo, entre Kilsitt e Drusenheim. O setor é guarnecido pela Task Force Linden, composta de 5 batalhões da 42a DI dos EUA. Estes perdem a cidadezinha de Gambsheim e recuam até as fronteiras de Bischwiller, a 8 km de Haguenau. Do lado de Estrasburgo, a cabeça-de-ponte estende-se até Wantzneau, local de veraneio dos estrasburgueses.

 

A defesa da cidade foi transferida do 7o Exército americano para o 1o Exército francês. De Lattre encarrega disso a única grande unidade disponível, 3a DIA, que chega dos altos Vosges, escorregando no gelo das estradas. Além de Estrasburgo, devem manter um setor de 30 km, entre a cabeça-de-ponte de Gambsheim e Erstein. À sua direita, a 1a DFL contorna o Reno até Renau, depois do bolsão de Colmar até Sélestat. Situação arriscada! Sem dúvida, De Gaulle tinha razão ao afirmar que Estrasburgo não podia ser abandonada. Eisenhower não estava errado ao afirmar que a arte militar aconselhava esse abandono.

 

A nova ofensiva começa a 7 de janeiro, ao norte e ao sul de Estrasburgo. Os atacantes pintaram seus tanques de branco e puseram blusas brancas sobre seus uniformes. Ao sul, a 198a DI, apoiada por uma brigada blindada SS repele para o I-11 a 1a DFL, e abre uma passagem até Erstein. O principal ataque vem do norte. São sete divisões, das quais três Panzer. Mas as divisões de infantaria estão esgotadas e as blindadas reduzidas a um punhado de tanques.

 

A luta se trava na orla da floresta de Hagenau. Os vilarejos de Buhl, Haten, Rittershoffen, principalmente o cemitério deste, são palcos de lutas encarniçadas. A 9 de janeiro, o 1o Exército alemão se declara no fim. Não tem munições e infantaria para apoiar os tanques.

 

Hitler recusa resignar-se. Contenta-se em deslocar ainda o eixo do ataque para leste. A batalha se trava na planície do Reno. O 19o Exército recomeçará o esforço e o 1o Exército se unirá ao bolsão de Gambsheim. De fato, a campanha da Alsácia perdeu toda a significação de conjunto, a destruição de uma fração importante das forças aliadas tornou-se impossível. A única vantagem que Hitler ainda pode esperar é um clarão que estimule o moral alemão: “Tomei Estrasburgo!”.

 

Nove de janeiro é um dia de tempestade em Ziegenberg. Guderian chega de uma inspeção à frente oriental com a convicção de que o desencadeamento da grande ofensiva soviética é questão de horas. Hitler responde que esta idéia é “vollisch idiotisch” e que o chefe do serviço de contra-espionagem, Gehlen, deve ser internado em um hospício. “Interne-me num também - replica Guderian - pois meu ponto de vista é exatamente o mesmo”. A discussão continua com violência, Hitler repete que não abandonará a iniciativa no Oeste e que todos os quadros que lhe traçam dos exércitos russos são grosseiramente falsos. Mas Guderian consegue alguma coisa. Finalmente, Hitler concorda retirar das Ardenas o 6o Exército SS, com a 1a, a 2a, a 9a e a 12a Divisões SS Panzer, completá-lo, e transferi-lo para o Leste.

 

Os dois dias seguintes são de rotina. Cerca de 70.000 homens, dos quais 33.000 alemães, entrincheiram-se em Budapeste, reabastecidos por meio de pára-quedas, esperando ansiosamente o desencadeamento da ofensiva que deve libertá-los. O resto da frente oriental continua a dormir. As operações na Alsácia estão em ponto-morto. Nas Ardenas, a situação alemã torna-se insustentável com a partida das divisões SS. O 30o Corpo britânico toma Laroche. O 1o Exército americano toma Bihain. O 3o Exército dos EUA toma Saint-Hubert. Houffalize, ponto de convergência dos exércitos aliados, está apenas a uns 10 km. Todos os generais alemães querem deslocar-se para trás da Linha Siegfried. Rundstedt vai mais longe e propõe, num memorando ao OKW, um recuo para a margem direita do Reno. “Os soldados - escreve ele - detestam fechar-se nestes bunkers de teto frágil, verdadeiros ninhos para os lança-chamas. Preferem combater ao ar livre...” Hitler, autor da Linha Siegfried, rechaça colericamente o memorando e ordena que se continue a defender o terreno passo a passo.

 

Derrota alemã no Vístula

 

Na frente oriental, ninguém concorda com Hitler, que de forma alguma acredita numa ofensiva dos russos. Mas numerosos indícios provam que estes fazem grandes transportes e de que o choque é iminente.

 

Cercado por terra, reabastecido por mar, o Grupo Norte, do Coronel-General Schörner, compreendendo o 18o e o 16o Exércitos, com 22 divisões, continua aferrado aos Países Bálticos, e todas as pressões exercidas sobre Hitler para ordenar sua retirada, enquanto é tempo, continuam infrutíferas. A frente alemã retorna ao Niemen, com o Grupo Centro, do Coronel-General Reinhardt, que compreende o 3o Panzer, o 4o e o 2o Exércitos; o Grupo A, do Coronel-General Harpe, que reúne o 9o, o 4o, o 17o Panzer e o 1o Exército, sucede-lhe perto de Varsóvia. Além, através da Eslováquia e da Hungria, estende-se o Grupo Sul, do Coronel-General Wöhler. Liga-se, sobre o Drave, com o teatro de operações sudoeste, que, sob o comando do Marechal Kesselring, defende a Croácia e a Itália do norte.

 

Estabilizada desde o outono, a frente segue aproximadamente o contorno da Prússia Oriental até o Narew; do Narew até sua confluência com o Vístula; do Vístula até seu encontro com o Wisloka; do Wisloka até os montes Cárpatos. O valor defensivo dos rios é reduzido por uma espessa camada de gelo e pelas cabeças-de-ponte sustentadas pelos russos contra todas as tentativas alemães de destruí-las. Cada exército tem de 5 a 11 divisões. As reservas gerais constituem de 12 divisões móveis, blindadas ou motorizadas. Mostrou-se a Hitler sua insuficiência para uma frente de 700 km, ameaçada por poderosas forças inimigas. Hitler respondeu que a frente oriental deve manter-se com o que tem. “Desmoronará como um castelo de cartas”- prediz Guderian.

 

A ofensiva russa começa a 12 de janeiro, da cabeça-de-ponte de Baranov, a noroeste de Cracóvia. Conduzida pela 1a Frente da Ucrânia, sob as ordens do Marechal Koniev, desenvolveu-se em dois eixos estratégicos; um, secundário, em direção à Alta Silésia de Oppeln; o outro, principal, que visa o Óder entre Breslau e Glogau. Koniev dispõe de 60 divisões de infantaria, 8 corpos blindados e, sobretudo, de uma artilharia esmagadora. O 4o Exército Panzer é rompido em uma infinidade de pontos. Desde a primeira noite, as unidades blindadas russas atingem localidades situadas a 25 km de seus pontos de partida.

 

No dia seguinte, ataca por sua vez a 1a Frente da Rússia Branca, do Marechal Zhukov, que parte das cabeças-de-ponte de Pulawy e Magnuszew, ao sul de Varsóvia. Dois dias depois, a ofensiva se estende à 2a e à 3a frentes da Rússia Branca, dos marechais Rokossovski e Tcheniakovski; o primeiro surge da cabeça-de-ponte de Pulstusk, junto ao Narew, em direção a Dantzig; o segundo beira a Prússia Oriental de leste a oeste. A 1a Frente do Báltico e a 4a Frente da Ucrânia estendem a ofensiva em duas alas, uma em direção a Königsberg, outra em direção a Ratibor. A URSS lança na batalha todas as suas forças, um conglomerado indescritível que vai dos tanques Joseph Stalin, os mais modernos do mundo, até hordas asiáticas mal armadas.

 

A reação alemã é excepcionalmente fraca. Não foi preparada qualquer contramanobra de conjunto. Mantidas muito perto da frente, por ordem expressa do Fuhrer, as reservas são logo dizimadas pela artilharia ou desorganizadas pela rapidez da progressão russa. Perto de Kielce, o 24o Corpo Blindado é cortado em dois: reagrupa-se, graças à energia de seu comandante, Walter Nehring, e bate em retirada no meio das massas inimigas, aglutinando em torno de si os elementos deslocados do 4o Panzer e do 9o Exército. O Corpo Blindado Grossdeutschland, do General Saucken, é retirado da Prússia Oriental por Hitler, para ser empenhado na região de Posen; perde vários dias na estrada de ferro e, como sua zona de desembarque já fora invadida, escapa por pouco à destruição. Procura-se em vão uma idéia diretora na defensiva alemã; só se encontram combates sem nexo, esforços sem ligação contra uma maré bravia que se precipita entre os diques rompidos.

 

A 14 de janeiro, o avanço russo é geral do Báltico aos Cárpatos. Zhukov toma Kielce no dia 15 e Radom no dia 16. Nesse mesmo dia, Hitler concorda em fim em paralisar as ofensivas no Oeste e volta a Berlim, onde se enterra para sempre no bunker da nova Chancelaria. Ainda neste mesmo dia, Guderian, consternado, toma conhecimento de que o 6o Exército Panzer SS, retirado das Ardenas, não se dirige para o Óder, mas para o Danúbio, a fim de participar da batalha de Budapeste. Neste mesmo dia 16, Harpe, bode-expiatório, é substituído no comando do Grupo A por Schörner. No dia seguinte, 17, a 1a Frente da Ucrânia toma Czestchowa e a 1a Frente da Rússia Branca atinge Varsóvia. Em conseqüência de um erro devido à ruptura das ligações, informa-se prematuramente a Hitler a queda da cidade: ele grita que é sabotagem, manda a Gestapo prender o Coronel Bonin e dois oficiais da seção de operações e promete quebrar “a quadrilha de intelectuais do 20 de julho que é o Estado-Maior-Geral”. No dia 19, caem Lodz e Cracóvia. Tilsit, dia 20 e, a 21, Gumbinnen e Tannenberg. Reinhardt mandou dinamitar o monumento a Hindenburg e expediu para Berlim o ataúde do marechal e o da sua esposa.

 

Os vivos também fogem. A ex-Polônia Ocidental foi reanexada e dividida em duas “Gaue”: Westpreusen (Prússia Ocidental), capital Dabtzig, e Wartheland, capital Posen. Ali foram reimplantadas as minorias étnicas alemães desenraizadas em 1939-1940, em conseqüências da aliança Hitler-Stalin: barões ou camponeses oriundos das velhas terras de colonização germânica que eram a Curlândia, a Livônia, a Galícia, a Transilvânia. Tinham reconstruído um lar e feito três ou quatro colheitas. A pausa terminou; os russos voltaram; é preciso partir.

 

Partir? Surpresa! No próprio dia em que a frente alemã desmoronava, o ministro-adjunto da propaganda, Alfred Naumann, reunia em Posen todas as autoridades de Warthegau, explicava que as linhas do Vístula tinham a solidez do aço e que a batalha ora iniciada acabaria com a retomada da marcha alemã em direção a Moscou. Os Kreisleiters deram repercussão a essa palavra autorizada, disseram às populações que não tinham razão alguma para abandonar suas casas. Muitos foram dormir nesta certeza e acordaram com o ruído dos tanques nas ruas, tanques que não confundiram por muito tempo com os Panzer. Outros fugiram precipitadamente no último momento, quando o grito inacreditável - “Os russos chegam!”- foi confirmado pela primeira vaga de fugitivos.

 

Êxodo horrível. Começo de uma avalancha humana que ultrapassará em volume e horror todos os movimentos de população que a guerra provocou no Oeste. As estradas estão cobertas de neve. O termômetro marca 20 graus negativos. Os meios de transporte reduzem-se a alguns carros puxados por bois ou cavalos que logo será impossível alimentar. Multidões de mulheres e crianças partem a pé, em trenós ou mesas transformadas em trenós. Nunca de saberá quantos milhares de pessoas morreram.

 

O tempo torna-se ainda pior durante a última semana de janeiro. Diz-se que é a neve mais abundante do século. Os rios gelados suportam veículos pesadíssimos. Pensa-se em quebrar gelo do Óder, para transformar o rio novamente em um obstáculo: convocado ao bunker do Fuhrer, o meteorologista Schuster demonstra que a idéia é impraticável. Com forte ventania, a batalha prossegue de uma extremidade a outra da frente oriental. Em muitas circunstâncias, não passa de uma fuga extenuante, diante de um invasor muito mais prejudicado pelos enregelamentos que pelas armas da Wehrmacht.

 

Schörner chega de Riga, e só pode assumir o comando do Grupo de Exércitos A a 20 de janeiro. Sua divisa é a seguinte: “Kraft durch Furcht” - A Força pelo Medo - paródia da “Kraft durch Freude”- a Força pela Alegria - da Frente de Trabalho. Plebeu e bávaro, odeia a aristocracia prussiana e acredita perdidamente em Hitler. É a este zelo, a esta brutalidade que é confiada a tarefa de salvar o último arsenal do Reich, a Silésia.

 

O Ruhr e o Sarre estão devastados. A Silésia está intacta. Além de Dresden, Breslau, é a única grande cidade alemã que não recebeu uma só bomba. As indústrias vitais foram transportadas progressivamente para esse santuário. Se a Silésia cair, será quase impossível prosseguir a guerra.

 

Mas a Silésia é invadida no próprio dia em que Schörner assume o comando. O Óder é atravessado em Briegs e Steinau, de um lado a outro de Breslau. Na Alta Silésia, a preciosa bacia industrial está desguarnecida e penetrada. Para restabelecer a situação, seria necessária uma massa de tropas frescas jogadas contra um adversário desorganizado por seu avanço rápido. Essas tropas não existem.

 

Fracassam todos os esforços parciais. As tropas estafadas de Nehring chegam a salvar o Corpo Blindado Grossdeutschland, mas fracassa sua tentativa de restabelecer a linha do Óder. Relativamente intacto, o 17o Exército é encarregado de defender a bacia industrial; é impotente para impedir a tomada de Katowitz, Oppeln, Gleiwitz, o cerco de Beuthen. Ao ver que se aproxima o desastre total, Schörner resolve-se a pedir autorização a Hitler para uma retirada no leste do Rhur. Talvez pela primeira vez a reação de Hitler é a de um homem resignado. “Se pensa não haver mais nada a fazer, Schörner, faça-o”.

 

Com o crescimento devido à guerra, Breslau tem um milhão de habitantes O Gauleiter Hanke começou por decretar que ninguém deveria deixar a cidade. Quando esta é declarada “Festung” por Hitler, Hanke muda de política e ordena a retirada dos civis. Carros com alto-falantes percorrem a cidade anunciando que as mulheres e crianças devem deixar Breslau a pé, imediatamente, pela estrada de Liegnitz. A temperatura é de 20 graus negativos e há 25 cm de neve sobre as estradas.

 

Há idêntica tragédia na Posnânia. Para defender Posen, regermanizada, o General Petzel só tem 2.000 alunos da escola de cadetes e alguns batalhões de recuperados. Greisel abandona seu posto. O cerco começa no último dia de janeiro.

 

A pinça se fecha sobre a Prússia Oriental. Tcherniakovski isola Königsberg. Rokossovski avança por Allenstein e Osterode e, a 27 de janeiro, atinge o Frisches Haff, perto de Elbing. São isolados dois exércitos: o 3o Panzer, do General Rauss, e o 4o, do General Hossbach. Hitler ordena a Rauss que defenda Königsberg e o porto de Frisches Haff, Pillau. Manda Hossbach rodear o lugarejo de Lötzen, entre os lagos Mazures. Rastenburgo, ex-Wolfschanze de Adolf Hitler, está somente a 20 km. Depois do atentado de 20 de julho, o Sperrkreis do Fuhrer foi reconstruído como uma verdadeira fortaleza. É dinamitado sem nunca ter sido ocupado.

 

Hossbach desobedece. Tem a seu redor 350.000 soldados, aos quais quer poupar um novo Stalingrado, e uma multidão incalculável de prussianos do Oeste (Ostpreussen), que aspiram ardentemente a prosseguir no calvário que é a sua fuga para o Oeste. O 26o CE, comandado pelo General Matzky, é encarregado de reabrir a estrada de Dantzig. Reinhardt, comandante do grupo de exércitos, torna-se cúmplice, oculta as intenções e os movimentos de seu subordinado. Uma marcha de 200 km leva a 131a e a 171a Divisões de infantaria da região de Lötzen à região de Wormditt. Elas atacam no dia 26 à noite, com uma temperatura de 30 graus negativos e uma lua esplêndida, que torna feérica a paisagem de neve. Muitos russos surpreendidos nas aldeias, bêbedos ou deitados com mulheres, são massacrados impiedosamente. No dia seguinte, novas tempestades de neve aumentam as dificuldades, mas o mais ínfimo soldado alemão ataca com a energia de um prisioneiro que se evade. Dia 29, a 170a DI está em Preussisch Holland, a 20 km de Elbing, onde o 2o Exército ainda resiste. Hossbach espera que o contato seja restabelecido durante o dia.

 

Mas a queda de Lötzen, evacuada sem combate, e as denúncias de Erich Koch, Gauleiter da Prússia Oriental, revelaram a Hitler a desobediência de Hossbach. Sua mente intoxicada pelo 20 de julho encontra uma explicação: o abandono da Prússia Oriental é uma conspiração para proclamar sobre um território alemão um governo anti-hitlerista que emana do Comitê da Freies Deutschland (Alemanha Livre). “Hossbach e Reinhardt - dia ele - estão de combinação com Seydlitz. É uma traição! Eles merecem ir a conselho de guerra!”. Reinhardt é substituído pelo austríaco Rendulic, professor transformado em general, fanático de Hitler. Outro nazista convicto, o General Friedrich Wilhelm Müller, substitui Hossbach. A ofensiva da evasão é paralisada e o 4o Exército aprofunda-se na direção leste para unir-se ao 3o Panzer. Milhares de refugiados tentam escapar pelo leito gelado do Frisches Haff, sob o fogo da artilharia russa. Cadáveres amontoam-se sobre o gelo.

 

No início de fevereiro, o alongamento de suas linhas de etapa refreia o exército soviético. Mas a derrota alemã é apavorante. O Óder é transposto em grande extensão. Ao sul, o avanço soviético aproxima-se da Lausitzer Neisse, a Neisse de Lusace, fronteira ocidental da Silésia. Em torno de Frankfurt, os alemães mantém duas cabeças-de-ponte a leste do Óder, mas os russos estão na margem esquerda, a 70 km de Berlim.

 

Para fechar a enorme brecha que se abriu diante de sua capital, Hitler constitui um novo grupo de exércitos, ao qual dá o nome de Weichsel, embora reconquistar o Vístula seja tão impossível quanto alcançar de novo o Volga. Guderian pede que o comando seja confiado ao Marechal Von Weichs. Hiter recusa. Não tem confiança, diz, em Maximilian Maria Josef, Reichsfreiherr von und zu Weichs zur Glon, velho soldado e cristão praticante. É a Himmler, que acaba de chegar ao alto Reno, onde fez seu aprendizado de Feldherr, que confia a tarefa de proteger Berlim. Neste momento, conta-se na frente oriental com 103 divisões de infantaria e 33 divisões blindadas alemães. Na frente ocidental, há 65 divisões de infantaria e 12 blindadas. Quase todos os generais se perguntam por que não levar para o Leste todas as forças do Oeste, mesmo - e talvez, sobretudo - se esta transferência significar a ocupação total da Alemanha pelos aliados ocidentais.

 

A batalha de Colmar

 

As batalhas do Oeste não tem o caráter grandioso, selvagem e desesperado da luta sem quartel que se desenrola nos confins teuto-russos. Mas a temperatura não é menos rigorosa. “Os mortos - anota Patton - gelam instantaneamente e toma uma cor horrível de borra de vinho... Fiquei atônito ao ver pontos negros espalhados na neve; descobri que eram os dedos dos mortos...”

 

A 16 de janeiro, o 41o Esquadrão de Cavalaria americano, do 3o Exército, une-se em Houffalize ao 41o Regimento de Infantaria Blindado, do 1o Exército. Esta junção encerra a batalha das Ardenas. As tropas americanas voltam a suas posições de 18 de dezembro. A contra-ofensiva de Hitler proporcionou-lhe um mês de prazo contra os adversários do Oeste. Deu ao adversário do Leste, o mais implacável, possibilidades de progredir na invasão da Alemanha e conquistar a Europa Central.

 

A surpresa das Ardenas custou aos Aliados 8.000 mortos, 48.000 feridos, 21.000 desaparecidos. Intelectualmente, deixa cicatrizes. Eisenhower considera mais necessário do que nunca o método da prudência, o avanço contínuo e simultâneo sobre a totalidade da frente. Montgomery volta à carga por sua ofensiva única ao norte do Ruhr, e sua candidatura ao comando do conjunto dos exércitos aliados na Europa Ocidental é apoiada por todas as correntes da opinião britânica. Mas a auréola de Ike não se desvanece suficientemente com os acontecimentos de dezembro, e os americanos tem 60 divisões, contra apenas 15 da Comunidade Britânica. O comandante, certamente muito medíocre, que é Bradley, volta à ordem do dia, depois de praticamente afastado no momento do perigo. Dois dias depois de Houffalize, Eisenhower entrega-lhe o 1o Exército dos EUA, deixando somente o 9o ao Grupo Montgomery.

 

Para a continuação das operações, Ike estabelece o que imagina ser um plano. Consiste, numa primeira fase, limpar a margem esquerda do Reno; numa segunda, transpor o Reno; a terceira fase, consiste em progredir além do Reno. Segundo os especialistas do SHAEF, a altura da água e a violência da corrente tornam impossível a passagem do rio antes do mês de maio. Ike se concede então cinco meses para executar a fase número um de seu programa.

 

Começa por uma ofensiva franco-americana na Alsácia. A ameaça que pesa sobre Estrasburgo não está afastada. O 1o Exército alemão faz junção com o bolsão de Gambsheim; o 7o Exército americano, que abandona a orla norte da floresta de Haguenau, retira-se até o Moder, e a 3a DIA destrói vários ataques violentos contra Estrasburgo. O Comandante aliado considera, com razão, que a melhor maneira de clarear a situação da Alsácia consiste em fazer desaparecer o bolsão de Colmar, que pesa sobre sua ala direita há três meses.

 

No bolsão, o 19a Exército passou ao comando do General Rast. Dispõe do 64o CE ao norte e do 63o CE ao sul. Suas oito divisões estão desfalcadas e fatigadas, e umas delas, a 2a de Montanha, composta de austríacos, que chega da Noruega, fornecerá um número considerável de desertores. As tropas francesas e americanas também acusam cansaço. O tempo é violentamente hostil para uma ofensiva. Tormentas de neve varrem a Alsácia. A aviação permanece geralmente em terra. Os transportes são extremamente difíceis. O rendimento das melhores unidades é prejudicado pelo cansaço e sofrimento dos soldados.

 

Comandado por Béthouart, o 1o CE é o primeiro a entrar em combate, contra o flanco sul do bolsão, entre Thann e Mulhouse. Sua ala direita deve atingir o Reno em Fessenheim. Sua ala esquerda deve subir ao longo dos Vosges e unir-se ao 2o CE em Rouffach, mas os resultados são decepcionantes. A 4a DMM é paralisada pela neve nas encostas dos Vosges e a 2a DIM se impaciente, diante de Mulhouse. Béthouart propõe suspender o ataque até que o tempo melhore. É estimulado por De Lattre, mas os progressos continuam dolorosos e lentos.

 

Monsabert ataca o flanco norte do bolsão, no dia D + 2, com 4 divisões, das quais a 3a e a 28a DI dos EUA deve ultrapassar Colmar para atingir o Reno em Neuf-Brisach. Duas outras pontas da ofensiva se dirigirão para Roufach e Sainte-Croix-en-Plaine, ao encontro do 1o CE.

 

Os resultados iniciais são mais satisfatórios que ao sul. O inimigo afrouxa a formação triangular que cravara em direção a Estrasburgo, entre o III e o Reno. Faz-se uma limpeza na floresta de Colmar e o canal de Colmar é atingido. Mas falta a De Lattre uma divisão para manter o dinamismo do ataque. A princípio, ele reclama em vão. Depois, a 25 de janeiro, Devers lhe envia todo um corpo de exército, o 21o, do Major-General Milburn. Entra em formação à direita de Monsabert.

 

Depois de uma pausa, o ataque se reanima. A 2 de fevereiro, a 3a DI dos EUA liberta Colmar - e eclipsa-se, para deixar os tanques franceses da 5a DB entrem primeiro na cidade. O avanço prossegue em direção a Rouffach, apesar de um degelo que transforma em torrentes todos os riachos que descem dos Vosges. O 1o Corpo retoma sua progressão, e a 75a DI dos EUA chega primeiro a Rouffach. A junção é feita a 5 de fevereiro. O bolsão de Colmar está cortado em duas partes. As tropas alemães que se encontram na parte dos Vosges, ao redor de Minster e Guebwiller, são capturadas, pouco a pouco, nos dias seguintes.

 

A velha fortaleza de Neuf-Brisach cai sem combate a 6 de fevereiro. No dia 9, os últimos soldados alemães ganham a margem direita pela ponte ferroviária de Chalampe, miraculosamente intacta. A ponte explode atrás deles. A Alsácia está livre.

 

Ialta, cartório de registro público

 

Como em Teerã em 1943, o primeiro conflito de vontades trava-se no local da conferência. Churchill combateu com todas as suas forças este encontro na Criméia. “Poderíamos levar 10 anos - telegrafou ele a Roosevelt - à procura de um lugar tão detestável. Só é um paraíso para os piolhos”. Ofereceu Edimburgo, Nassau, Malta, Atenas, Chipre, Cairo, Jerusalém, Roma - cidades intactas, com amplas facilidades de alojamento, aeroportos bem equipados, redes de comunicação completas e seguras. Tudo foi inútil. Stalin exige que a entrevista dos Três Grandes seja em terra soviética. Primeiro, por que tem medo de aviões, e recusa expor sua existência de Pai dos Povos aos riscos de uma viagem aérea. Depois, por querer demonstrar que é o maior de todos. No ano anterior, consentira penosamente em ir até Teerã. A vitória em marcha ainda o valoriza mais, e seu novo edito foi categórico. “Virão aqui, ou não haverá conferência”.

 

Só Roosevelt estaria em condições de se opor a sua vontade. Quando Stalin alega que conduz uma batalha imensa, Roosevelt pode responder que a sua é ainda mais vasta, pois engloba o Pacífico. Além disso, Roosevelt está tão doente que uma viagem pela metade da terra constitui uma prova acima de suas forças. Sim, Roosevelt poderia ter invocado seu encargo e sua saúde para que o Marechal Stalin fizesse pelo menos a metade do caminho. Mas se Roosevelt se inclina, que pode fazer Churchill, segundo tenor?

 

A única vantagem penosamente obtida por Churchill é um encontro preliminar anglo-americano em Malta, a caminho de Ialta. Roosevelt concorda com muita dificuldade, objeta que a entrevista poderia indispor Stalin, dar-lhe-ia a impressão de que os ocidentais queriam apresentar-se em frente única. A 2 de fevereiro, sob um sol escaldante, o Primeiro-Ministro espera o cruzador Quincy no porto de Valletta. Fica apavorado com a aparência arrasada de Roosevelt. Ainda não sabe - pois a saúde do Presidente é um segredo de Estado ferozmente guardado - que Roosevelt não deixou a cabina durante toda a travessia, e que seu médico, Almirante McIntire, trabalha noite e dia a fim de prepará-lo para a conferência.

 

Roosevelt, esse moribundo, é acompanhado por outro moribundo, Hopkins. O corpo débil da Eminência Parda foi usado até o fim, e, como seu patrão, Hopkins atravessou o Atlântico enclausurado e acamado. O Departamento de Estado, preparou, para Roosevelt e para ele, magníficos relatórios sobre os problemas da Europa Oriental. mas, como mortais que respiram com o peso da morte sobre o leito, se absorveriam nos dossiês?

 

A conferência de Malta carece de qualquer interesse, pois Roosevelt recusa-se a discutir as questões que deverão ser levantadas em Ialta. Desde o dia seguinte, uma verdadeira ponte aérea conduz à Criméia as 150 pessoas que compõem as duas delegações. As condições de vôo são muito difíceis, e as facilidades na Criméia, tão medíocres, que foi preciso uma doce violência à neutralidade orgulhosa dos turcos, para que estes deixassem entrar no mar Negro o navio de passageiros inglês Franconia e o navio-tansporte americano Cococtin. Serviriam de bases flutuantes e estações para as comunicações.

 

Os aviões pousam no aeródromo de Saki, perto de Eupatória. Duzentos quilômetros e uma cadeia de montanhas o separam de Ialta. O percurso dura seis horas. Ao longo da estrada, as tropas estão alinhadas bem junto ao comboio. As cidades e as pontes são poderosamente guarnecidas. Muitos soldados são mulheres, volumosas criaturas bochechudas, tão altas quanto corpulentas, sem o menor traço de feminilidade. Tanques demolidos, caminhos calcinados, todos os despojos de um campo de batalha atestam a violência dos combates mantidos para a posse desta antiga estrada Romanov, via estratégica da Criméia. O vento sopra com força. Atravessa-se Simferopol, queimada até o chão. As centenas de solavancos, as curvas brutais da montanha arrasam Roosevelt. Ele chega cadavérico, mas McIntire tranqüiliza os que se inquietam. “Eu o conheço... Um pouco de cansaço... Logo ele estará remoçado...”

 

Stalin vem de Moscou por via férrea. Informa que só chegará na manhã do dia seguinte. Astúcia protocolar que o dispensa de receber os dois chefes de governo que fez virem de tão longe.

 

Os resmungos antecipados de Churchill estavam justificados. O desconforto é total. Churchill é alojado a uns 10 km de Ialta, no antigo Palácio Vorontsov, completamente pilhado, e foi necessário uma luta encarniçada da Senhorita Joan Bright, membro do destacamento precursor, para que se desse a seu patrão uma cama grande conforme seus hábitos. A delegação inglesa compreende três marechais, dois almirantes, várias dezenas de generais, coronéis, oficias superiores, além da elite do Foreign Office, com o secretário permanente, Sir Alexander Cadogan. Os mais graduados são alojados no Palácio Vorontsov, quatro ou cinco em cada quarto, e os outros são amontoados em dois sanatórios distantes vários quilômetros. Há um banheiro para cada 20 generais e, como só há um lavabo em cada alojamento, é preciso enviar um SOS ao Franconia, para que envie bacias, a fim de que o pessoal do Estado-Maior civil e militar do Reino Unido possa, pelo menos barbear-se. Os americanos não tiveram melhor sorte. Seu alojamento é o Palácio Livadia, residência de inverno de Nicolau II, mas, em cada quarto, ficam, respectivamente, 8 generais ou 16 coronéis. A atmosfera da conferência se ressentirá desta promiscuidade. Entretanto, os russos se esforçam ao máximo. Não havia recurso algum no local. Todo criado-mudo, todo espelho, toda garrafa de vodca foram remetidos de Moscou; 1.500 vagões fizeram uma viagem de cinco dias para levar à Criméia essas amenidades que americanos e ingleses consideram de necessidade trivial. O próprio pessoal de serviço fez a viagem. Quando foram requisitados, no Hotel Nacional e no Metrópole, garçons, cozinheiros e camareiras, pensavam que seriam enviados para a Sibéria. Detalhe eternecedor: desencavou-se, para as moças, um estoque de sapatos de saltos altos e, sem hábito, as coitadas torcem os tornozelos. Mas tem aparência muito boa, em seus vestidos negros muito limpos e com seus lenços imaculados.

 

Até os jardins foram refeitos. Ciprestes e laranjeiras foram trazidos da Geórgia e replantados num terreno onde nem mesmo as minas haviam sido todas retiradas. Os peixes vermelhos foram esquecidos, mas basta que o Marechal-do-Ar Portal faça a observação para que eles apareçam nos tanques no dia seguinte. Um outro inglês observa que não há cascas de limão para os coquetéis. Na mesma noite, um limoeiro carregado aparece entre os leões de pedra do terraço.

 

Stalin instalou-se na Vila Koreiz, a alguns quilômetros de Ialta. Cavalheiresco e para poupar as forças de Roosevelt, a quem impôs um esforço mortífero, decide que as sessões plenárias serão realizadas no Palácio Livadia. A primeira, marcada para as 17h10 é precedida de um destes encontros que o Presidente dos Estados Unidos concede com tanta dificuldade ao Primeiro-Ministro da Inglaterra. O principal tema da entrevista é a França. Stalin conta a visita que De Gaulle lhe fez em Moscou, e da qual o general trouxe novamente um enigmático tratado de amizade franco-russo. “Não creio - diz Stalin - que De Gaulle seja um personagem muito complexo, mas ele não tem realismo algum para apreciar o papel da França na vitória”. “Em Casablanca - diz Roosevelt - ele se comparava a Joana D’Arc e a Clemenceau”. “Em Moscou, declarou-me que o Reno era a fronteira natural da França e as tropas francesas deviam ocupá-la permanentemente... A propósito, pensam ser necessário conceder aos franceses uma zona de ocupação na Alemanha? Seria um presente de nossa parte!”.

 

O grande estúdio (23 metros por 10) é a antiga sala do trono. Os lustres de Veneza e os apliques de cristal desapareceram na grande demolição da guerra. De dia, vê-se o mar, cor de ardósia, ao pé dos grandes jardins sumariamente restaurados. Mas as escuridão cai depressa, e a vasta sala torna-se sinistra com sua iluminação improvisada: nenhuma outra figura geométrica poderá melhor exprimir a igualdade protocolar dos três gigantes. Um círculo, três arcos. Abraçados, dissemelhantes, contrastados, opostos.

 

O arco britânico é sóbrio, rígido, preocupado. O único civil é Anthony Eden. Com exceção do Almirante Cunningham, os militares Brooke, Alexander, Portal, Ismay, usam a simples farda de batalha ou o uniforme azul da RAF. Churchill recuperou-se de uma indisposição recente, mas continua aborrecido e irritado. Durante toda a guerra, apagou-se atrás de Roosevelt, de quem tinha tanto a esperar; agora mede o declínio a que chegou a Inglaterra, às vésperas de uma vitória que não teria sido possível sem sua obstinação heróica e solitária de 1940-1941. Na realidade, há em Ialta dois grandes e meio. A perseverante Senhorita Bright conseguiu alargar a cama de seu chefe. Não compete a ele alargar sua poltrona.

 

No arco russo, predominam os civis: Molotov, Gromyko, Maisky, Pavlov. Stalin não tem a aparência de um verdadeiro militar, apesar de seu uniforme de marechal da URSS. Nunca esteve de melhor humor. Seus exércitos diante de Berlim e seus aliados inclinam-se diante de sua vontade. São essas pequenas coisas que tornam felizes os grandes homens.

 

O arco americano é trágico. Roosevelt está morrendo. Suas mãos tremem, os olhos pesam como chumbo, o pescoço é o de uma múmia egípcia, com o pomo-de-adão saliente e anéis de cartilagem levantando a pele fanada. Está sentado entre o insignificante Stettinius e Harry Hopkins, também tão doente que só se levanta para sentar-se à mesa de conferências e logo se deita novamente. Na derrocada de um corpo em ruínas, o espírito, entretanto, permaneceu intacto. O olhar doloroso de Hopkins vai sem cessar dos traços devastados de seu chefe à máscara de Stalin, de quem tenta interpretar as menores crispações. De vez em quando, pendura-se à orelha de Roosevelt ou estende-lhe, com a mão magra, um bilhete rabiscado. Avisos de prudência, advertências, conselhos de silêncio ou brevidade. Mas não! Roosevelt fala e fala. Esgota-se num esforço pungente para reter um mundo que se afasta dele. Depois, deixa cair a cabeça sobre o peito e pede que se abrevie um debate que ele mesmo ampliou.

 

Os outros americanos são militares: Marshall, Deane, Kuter, McFarland, King, Leahy. O poderio material sob seu comando é indescritível. Suas esquadras dominam os oceanos, invadem o Japão, precipitam no fundo do Atlântico cardumes de submarinos, que o transformam num cemitério de navios. Suas forças aéreas, seus enxames de fortalezas-voadoras, arrasam as cidades alemães. Seus exércitos atingem 11 milhões de homens multiplicados por um armamento poderosíssimo e meios de deslocamento extremamente rápidos. Tem atrás de si um imenso país intacto, uma indústria de guerra que ainda não atingiu pleno rendimento, e uma bomba atômica, cuja construção é uma questão se semanas. Em boa lógica, em bom cinismo, os americanos deveriam ser os dominadores dessa conferência de Ialta, pois são os mais fortes e os mais vigorosos. Entretanto, vieram com complexo de inferioridade. Apresentam-se como pedintes.

 

Os Estados Unidos procuram, antes de tudo, obter a participação da Rússia na guerra do Pacífico. O desejo é legítimo, mas seria de uma habilidade elementar acentuar que o Japão já está seriamente atingido, sua frota está destruída, os B-29 começam a devastar suas ilhas, e uma participação soviética adiada para depois da derrota da Alemanha só tem valor relativo e hipotético. Os Estados Unidos adotam a atitude contrária. Pedem a intervenção russa com insistência, aceitam pagar qualquer preço.

 

Os princípios de Roosevelt explicam estas duas atitudes contraditórias. A bordo do Quincy fez esta declaração espantosa: “Estou certo pelo menos de uma coisa: Stalin não é um imperialista”. Para Churchill tem esta linguagem: “Winston, você tem no sangue 400 anos de conquistas. Não pode admitir que uma nação não se apodere de um território, se tem possibilidade de fazê-lo. Mas começou um novo período na história da humanidade e você deve adaptar-se a ele...” E ainda isso: “Não posso admitir que nós combatamos o escravismo fascista, e, ao mesmo tempo, nos recusemos a libertar todos os povos que vivem sob um sistema colonial. A paz não deverá tolerar a manutenção de nenhum despotismo...”

 

O déspota é o inglês, prisioneiro do passado. O russo, apesar das reservas que possa suscitar, é de fato um democrata, um homem de futuro, um emancipador!

 

Os Estados Unidos demandam, também, em favor da filha querida de Roosevelt, a Organização das Nações Unidas. Stalin aceitou finalmente participar dela, mas exige que todas as 16 repúblicas soviéticas tenham voz na assembléia-geral. A exigência é considerada inaceitável pelos planificadores americanos do futuro. É preciso obter que Stalin desista dela, e em conseqüência, fazer-lhe concessões em outros terrenos.

 

As sessões sucedem-se, sempre iguais. Nunca uma conferência se desenrolou com tal incoerência. Nenhuma questão fora preparada. Não se seguiu qualquer ordem do dia. Encurtadas por causa do cansaço de Roosevelt, as reuniões dos Grandes tornam-se conversações sem nexo, onde os mesmos assuntos vão e voltam nas discussões. As deliberações dos ministros de Negócios Estrangeiros, as conversações dos chefes de estado-maior tornam-se insignificantes, pelo autoritarismo que um exercício muito longo do poder provoca, tanto em Roosevelt, quanto em Stalin. Por fim, Churchill luta sem entusiasmo, consciente da inutilidade de seus esforços. É um homem cansado que volta toda noite para seu longínquo alojamento de Vorontsov. Os americanos acalentam ainda sua quimera, continuam a viver na esperança de que o mundo saia da guerra unificado na mesma fé democrática, nos mesmos princípios de respeito à personalidade humana e do governo do povo pelo povo. Ele, Churchill, sabe que o mundo sairá da guerra mais dividido do que nunca. O título que dará ao último tomo de suas Memórias, “Triunfo e Tragédia”, já está escrito em sua mente.

 

As relações pessoais ressentem-se da tensão das idéias. Churchill é alvo aberto da ironia dos russos. Mas dissimulam sua impaciência quando ele evoca o calor com o qual o Parlamento e a opinião pública britânicos abraçaram a causa dos poloneses, que fizeram tantas proezas nos céus de Londres. Consideram as referências dos chefes das democracias ocidentais à opinião pública de seus países como argumentos de má-fé, a menos que sejam indícios de uma imensa fraqueza. “Vocês deveriam - diz Vichinsky a Bohlen, seu vizinho de mesa - ensinar os americanos a obedecer a seu governo”. No mesmo jantar, Stalin importuna Churchill: “Você parece - diz ele - aterrorizado pela Câmara dos Comuns e pelas próximas eleições”. “De nós três - responde Churchill - sou o único que pode ser afastado a qualquer momento pelos representantes de meu país, e orgulho-me disso”. “Tio Joe” ri gostosamente. É um gênero de orgulho de que ele não partilha!

 

A França é calorosamente defendida pelos ingleses. “Churchill e Eden - dirá Hopkins a seu amigo Sherwood - bateram-se pela França como leões”. Nas horas mais negras de 1940, quando a aliança franco-britânica se desmoronava no turbilhão da derrota, Winston Churchill dizia que, vitoriosa, a Inglaterra restauraria a França “em sua dignidade e grandeza”. Quando chega o momento, Churchill mantém sua promessa. Mas, embora ele seja um sentimental, não é movido somente por razões sentimentais; também por sua visão de estadista.

 

Os que olham a Europa, neste mês de fevereiro de 1945, vêem ruínas materiais, cidades devastadas, cidades em chamas, cidades arrasadas, campos incultos, campos submersos por multidões famintas... Mas um estadista vê ruínas ainda mais graves: as ruínas políticas, que, depois que o canhão se calar, farão da Europa, um vácuo. Em Casablanca, a Alemanha foi condenada à capitulação incondicional e, em Teerã, foi decretada a abolição do próprio Estado Alemão. Se a França permanece impotente, a viuvez política se estenderá até as falésias do canal da Mancha, atraindo a expansão soviética como uma ventosa. Não é intrinsecamente de grande importância que a França receba uma zona de ocupação na Alemanha, agora que há tantas tarefas para o país devastado. O que está em causa é o estatuto de grande potência da França. Stalin é impiedoso. “Os sofrimentos da França foram menores que os da Bélgica ou da Holanda. Sua participação na guerra, com oito divisões, é inferior à da Iugoslávia, que tem nove, ou da Polônia de Lublin, com onze”. E, sobretudo: “A França abriu suas portas ao inimigo”. Stalin não se lembra de que deu ordens para isso, pois em 1940 era aliado de Hitler e, sob as ordens de Moscou, o partido Comunista francês sabotava a defesa nacional. A rigor, se ingleses e americanos querem dar-lhe um lugar na Alemanha, dividam suas parte, mas não peçam à Rússia que reduza sua zona de ocupação, a zona de pilhagem que lhe for atribuída. Não mais lhe peçam que a França seja admitida nos organismos de controle onde se assentam os Três Grandes. Por fim, Churchill ganha. A zona de ocupação e participação no controle são concedidas, primeiro por Roosevelt, em seguida por Stalin. A França não é relegada ao pelotão das potências secundárias. Certamente, deverá sair de sua humilhação material e moral; ficará durante longos anos sob o estigma de sua abominável e imperdoável derrota de 1940. Pelo menos, assenta-se em pé de igualdade teórica em todas as mesas diplomáticas, e pode retomar progressivamente a palavra, para influenciar o curso dos acontecimentos mundiais. Ela o deve a Winston Churchill.

 

Sobre o tratamento a ser dado à Alemanha, Ialta não acrescenta nada a Teerã. Se o princípio do desmembramento é reafirmado (mas convém guardar segredo até a capitulação incondicional), resta definir as modalidades. A questão das reparações permanece indefinida, apesar de um plano soviético que prevê o desmonte de 80% da indústria alemã e sua repartição de acordo com o duplo critério de prejuízos sofridos e (o que, segundo os russos, elimina a França) contribuição para a vitória. O único acordo concerne à delimitação das zonas de ocupação e o princípio de uma ocupação de Berlim sem divisão.

 

A Polônia açambarca a maior parte dos debates. Os esforços encarniçados de Churchill e os esforços mais reticentes de Roosevelt fracassaram completamente. Stalin está decidido a transformar o Estado polonês em um satélite, rigorosamente subordinado a Moscou, um escudo para a fronteira ocidental da URSS. A guerra começou por causa da Polônia, a quem a Inglaterra garantiu a integridade territorial, a liberdade política, a restauração integral. “Para nós - diz Churchill - é uma questão de honra”. “Para nós - responde Stalin “é uma questão de vida ou morte...”

 

Churchill abandona uma parte, para salvar o principal. Aceitou, apesar dos protestos dos patriotas poloneses, que a fronteira oriental da Polônia, volte à linha proposta em 1919 por Lorde Curzon. Não insiste nem para que Lvov permaneça sob bandeira polonesa. O traçado de uma fronteira é secundário. O essencial é que a Polônia seja soberana de seu destino, livre de seguir a vocação profunda e apaixonada que a liga ao Ocidente. A batalha se trava somente a esse respeito.

 

Está perdida de antemão. Quando o Marechal Stalin declara querer uma Polônia “forte e democrática”, exprime-se claramente e sem rodeios. Forte, isto é, a Polônia deve estender-se até o Óder (ultrapassando-o, para englobar Stettin, tão polonesa quanto Bornéu) e até ao Neisse ocidental. Democrática, isto é, suas instituições devem coincidir com as do totalitarismo soviético. Os homens do Comitê de Londres, saturados de acusações as mais abomináveis, jamais reverão a pátria pela qual lutaram. As eleições livres, prometidas formalmente, nunca serão concedidas. O Comitê de Lublin completa Katyn e Varsóvia prosseguindo na exterminação da burguesia. Quem poderia opor-se a isso, com os exércitos alemães no local, prontos a quebrar qualquer oposição?

 

O que é verdadeiro para a Polônia o é com muito maior razão para os outros países da Europa oriental, balcânica e do Danúbio. Recebem as mesmas garantias de liberdade e independência, eleições livres e livre escolha de suas instituições. Garantias superficiais. Stalin é bastante realista. Acha que os exércitos levam consigo a ideologia das nações a que pertencem. Tudo o que for libertado pela bandeira vermelha será vermelho. O resto, provisoriamente, não lhe interessa.

 

Ialta é pouco importante, apesar da ressonância de seu nome. Diz-se que nela foram entregues ao império soviético 100 milhões de europeus: isto só é verdade a título simbólico. Quando a conferência se reuniu, a Romênia, a Bulgária, a Iugoslávia, a Hungria, um pedaço da Tchecoslováquia, a Polônia, a Prússia e a Silésia já tinham sido conquistadas pelos russos. Ialta foi somente um cartório de registro público. A delegação americana deixa a Criméia bastante otimista. Traz garantias verbais sobre o destino dos povos europeus. Traz a adesão da URSS às Nações Unidas; Stalin se contentou com três vozes na assembléia-geral, em vez das 16 que reivindicava. Traz principalmente a promessa russa de uma intervenção russa contra o Japão “nos dois ou três meses que seguirão à capitulação da Alemanha”. As formas e os limites desta intervenção são entregues à discrição do Kremlin.

 

Mas o preço é fixado. A Rússia só entrará na guerra depois de entregas industriais e militares variadas: 12.000 toneladas de gasolina com a cota de 100 octanos, 30.000 caminhões, 500 aviões, etc. receberá em pagamento as ilhas Curilas, a parte Sul de Sacalina, Port Arthur como base militar, Dairen como porto de comércio, e a co-administração das ferrovias do Leste asiático e do Sul da Manchúria. Às escondidas de seu secretário de Estado, Roosevelt dispôs do que pertence a seu aliado Chiang Kai-chek. Quando pediu a Stalin que moderasse suas exigências, uma vez que terminara a época do colonialismo, ele respondeu que só estava pedindo o restabelecimento da situação no Extremo Oriente ao que era ao tempo do antepenúltimo czar da Rússia.

 

 

 

 

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