Tópicos do
capítulo:
O Governo de
Vargas reconhece a existência de estado de guerra com o Eixo
Partida dos
escalões da força expedicionária
12 de dezembro de
1944: uma data amarga
A “longa trégua
branca”
A conquista de
Monte Castelo
Rendição da 148a
Divisão de Infantaria alemã
A FAB na Itália
O inimigo no mar
- Trampolim para a África
Agressão e revide O Brasil foi o único país da América Latina que
participou diretamente da Segunda Guerra Mundial. A Força Expedicionária
Brasileira (FEB) permaneceu na Itália cerca de 11 meses, dos quais quase oito
na frente de luta, em contato permanente com o inimigo. Embora o Brasil, fiel às suas tradições
antibelicistas, houvesse procurado manter-se à margem do conflito, já em
agosto de 1942 nele se via envolvido, ao serem covardemente torpedeados seus
indefesos navios mercantes. Esses afundamentos traumatizaram a opinião
pública brasileira e levaram o Governo de Getúlio Vargas, no dia 22 desse
mês, a reconhecer a existência de estado de guerra entre o Brasil e as
potências do Eixo. No ano seguinte - 1943 - a participação do Brasil
na Segunda Guerra Mundial tornou-se ainda mais efetiva, com a decisão do
Governo de enviar à Itália um corpo expedicionário constituído de três
divisões. Mas apenas em julho de 1944 é que forças brasileiras partiram para
o teatro da luta. O final da guerra, em maio de 1945, impediu que a 2a
e 3a divisões fossem juntar-se, na Itália, à 1a Divisão
de Infantaria Expedicionária (DIE), o contingente brasileiro que lutara, como
integrante do 5o Exército, ao lado dos soldados americanos,
ingleses e sul-africanos. Uma ordem de combate, datada de 13 de setembro de
1944, e uma mensagem sucinta, assinada pelo major chefe do Estado-Maior da
148a DI alemã, no dia 28 de abril de 1945, e que foi o primeiro
passo para a rendição de toda essa divisão inimiga, além de outras forças,
são os dois documentos históricos que balizam o começo e os últimos dias da
campanha da FEB na frente italiana. A ordem de combate, do comando do 4o
Corpo de Exército americano dava à 1a DIE, a sua primeira missão:
“Substituir elementos do 2o/730o RI americano, às 19h
de 15 de setembro”. A mensagem do major Kuhn, em resposta ao ultimato
que o coronel Nelson de Melo, comandante do 6o Regimento de
Infantaria, enviara ao comando da 148a Divisão de Infantaria
alemã, estava assim redigida: 28/4/45 - Cel. Nelson de Melo - Depois de
receber instrução do Comando Superior, seguirá a resposta. Major Kuhn Esta rendição só se efetuaria formalmente no dia
30, quando o General Otto Fretter Pico, comandante daquela unidade alemã,
chegou às linhas brasileiras, acompanhado de seu Estado-Maior, sendo recebido
pessoalmente pelo General Mascarenhas de Moraes. |
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A FEB lutou 7 meses e 19 dias Exatamente sete meses e 19 dias foi quanto durou a
guerra da FEB: de 16 de setembro de 1944, quando um batalhão do 6o
Regimento de Infantaria iniciou a marcha na frente do rio Serchio (entre
Pietrassanta e Luca), que redundaria na conquista de Camaiore, até 2 de maio
de 1945, dia em que a ordem de cessar fogo, vinda do comando do 4o
Corpo de Exército, deteve o 3o Batalhão do 11o
Regimento de Infantaria na localidade de Vercelli, no vale do Pó, nas
proximidades de Novara. Nesses quase oito meses de guerra, a 1a
DIE (FEB) lutou em duas frentes. A primeira, a do rio Serchio, durante o
outono de 1944; a segunda, muito mais ingrata, a do rio Reno (não é o Reno
alemão), ao norte de Pistóia, na Toscana, em plena cordilheira apepina. Aí,
por mais de dois meses, atravessaria a fase mais cruel do inverno da
montanha, com temperatura que às vezes chegava a 15 graus negativos, e sob
constante hostilidade do fogo inimigo. E daí marcharia, tendo como ponto de
partida o QG avançado de Porreta-Terme, para a conquista dos seus maiores
feitos: a vitória de Monte Castelo, a 22 de fevereiro de 1945, a de Montese,
a 14 de abril, até o aprisionamento de toda uma divisão alemã, a 148a
e restos de uma DI italiana e de forças blindadas do Afrika Korps - sucesso
que ocorreu a 28 de abril de 1945, o mesmo dia em que, quilômetros adiante,
na região do lago de Como, Benito Mussolini caía nas mãos dos partigiani Nessa guerra de menos de oito meses, a FEB perdeu 443 homens, entre soldados e
oficiais, e mandou para os hospitais da retaguarda perto de 3.000 feridos.
Por outro lado, fez 20.573 prisioneiros, inclusive dois generais - o general
Otto Fretter Pico, comandante da 148a DI alemã, e o General Mario
Carloni, comandante do que restava da desbaratada Divisão de Bersaglieri
Itália. Da conquista de Camaiore, na frente do rio Serchio, à rendição da 148a
DI alemã, em Collechio-Fornovo, a 1a DIE não deixou de cumprir uma
só das missões que lhe foram atribuídas pelo General Willys Dale Crittenberg,
comandante do 4o Corpo de Exército, ao qual a tropa brasileira
estava incorporada. Mas nem sempre foi fácil ou teve êxito imediato à
execução das missões recebidas do 4o Corpo, como é o caso da
conquista do Monte Castelo, só consumada depois de quatro tentativas
rechaçadas pelos alemães. Durante a maior parte do inverno apenino, os
alemães dominaram dos cumes de Monte Castelo, do Monte della Torracia e do
Soprassasso, obrigando a tropa brasileira, que hibernava no vale do Reno, a
disfarçar seus movimentos sob a proteção do nevoeiro artificial produzido
pela queima de óleo diesel. Entre 2 de julho de 1944, data da partida do 1o
Escalão, e 8 de fevereiro de 1945, quando seguiu o 5o e último, os
navios-transporte americanos General W A Mann e o General Meigs desembarcaram
na Itália, no porto de Nápoles, um total de 25.445 expedicionários
brasileiros, oficiais e soldados. Era o efetivo de uma divisão, porque a
guerra da FEB foi a guerra de uma divisão. Dos oficiais superiores da FEB,
98% pertenciam à ativa do Exército, como da ativa era 97% de seus capitães.
Em compensação, 49% dos subalternos da tropa pertenciam à reserva - isto é,
eram civis convocados nas mais diferentes partes do Brasil para completaram
os quadros da FEB. No seu conjunto, a 1a DIE se compunha
do 1o Regimento de Infantaria (o “Sampaio”), do Rio de Janeiro, o
6o Regimento de Infantaria, de Caçapava, o 11o RI, de
São João del Rei, de quatro grupos da Artilharia, do 9o Batalhão
de Engenharia, de Aquidauana (Mato Grosso), de um esquadrão de reconhecimento
(Cavalaria), do 1o Batalhão de Saúde, organizado em Valença, além
das chamadas tropas especiais e de corpos auxiliares, inclusive 67
enfermeiras. Na relação dos soldados brasileiros tombados na Itália, o 1o
RI vem em primeiro lugar, com 158 mortos. O 11o RI, perdeu 134
homens, e o 6O RI, 109. Todos os Estados brasileiros estavam representados
na FEB, e entre todos São Paulo foi que teve o maior número de mortos - 92.
Minas Gerais perdeu 80 homens; o Estado do Rio, 63; o então Distrito Federal
chorou a morte de 50 cariocas; 29 paranaenses e 28 catarinenses ficaram no
cemitério de Pistóia, ao lado de 21 gaúchos, 17 goianos, 13 pernambucanos, 12
capixabas, 11 baianos, 6 cearenses, 6 paraibanos, 6 rio-grandenses-do-norte,
6 sergipanos, 5 alagoanos, 4 paraenses, 2 piauienses, 1 acreano e 1
amazonense. Apenas o Maranhão não teve um morto na campanha. No conjunto do dispositivo militar da frente
italiana, onde operavam o 5o Exército americano e o 8o
britânico, a 1a DIE estava incorporada ao 4o Corpo de
Exército americano, que, por sua vez, além da divisão brasileira, compunha-se
de uma divisão blindada (americana), uma divisão sul-africana e outra
inglesa, e ainda da 10a Divisão de Montanha (americana), que lutou
ao lado dos brasileiros em fevereiro de 1945, quando da tomada de Monte
Castelo. A ação do 4o Corpo cobria uma frente de 80 km, e nessa
frente a 1a DIE ficou responsável, a partir de novembro de 1944,
quando se deslocou para o front apepino, por uma área de 10 km de extensão.
Algumas vezes, no entanto, como quando da ofensiva de abril de 1945, a frente
da 1a DIE chegou a medir 20 km, por demais ampla para a guerra de
uma divisão. Na frente apepina, a 1a DIE instalou o seu QG
avançado em Porreta-Terme, 30 km ao norte de Pistóia. Porreta-Terme, onde
viveu a longa e por vezes asfixiante noite que durou de dezembro de 1944 a 22
de fevereiro de 1945, fica no vale do Reno, emparedada entre as cristas da
cordilheira e é, em tempos de paz, uma estação termal cujas fontes sulfurosas
são famosas em toda a Itália. Uma data amarga: 12 de dezembro de 1944 Como acontece com toda unidade combatente, a
história da 1a DIE, na campanha da Itália, está repleta de datas
não apenas gloriosas, mas também amargas. Se alguém perguntasse, hoje, ao
Marechal Mascarenhas de Moraes, comandante da FEB, qual, no seu entender,
fora o dia mais negro da campanha na Itália, a sua resposta certamente seria
esta: “12 de dezembro de 1944”. Data profundamente triste para os soldados
brasileiros, que naquele dia, com o recuo do 2o e do 3o
batalhões do 1o RI diante dos alemães, viam frustrada pela
terceira vez a esperança de conquistar Monte Castelo antes do inverno. O
General Mascarenhas, naquela noite mesmo, no QG do 4o Corpo de
Exército americano, explicou ao General Crittenberger os motivos do insucesso dessa operação. E
ainda naquela madrugada, no seu pequeno quarto do QG Avançado da FEP, em
Porreta-Terme, escreveria longa carta ao comandante do 4o Corpo,
detalhando, por escrito, os motivos, já dados na noite anterior, pelos quais
a 1a DIE não vinha conseguindo desalojar do cume do Monte Castelo
a poderosa guarnição alemã que lá se mantinha. Dizia ele, num trecho de sua
carta, hoje arrolada entre os documentos capitais da história da FEB: “Antes
de tudo, eu desejo assentar a minha resposta na seguinte compreensão: a
capacidade ofensiva de uma tropa repousa no aparelhamento dos meios, na sua
instrução, num poderoso esforço adequado à frente de combate e na experiência
de guerra. Os meios materiais da Divisão estão hoje em situação normal. A sua
instrução foi simplificada mediante a condição de que poderia completá-la em
situações apropriadas de combate. Recebeu, no vale do Reno, um grande setor
defensivo, onde cerrou ativamente o contato com o inimigo. Logo em seguida
atacou por duas vezes, nas condições seguintes: posições organizadas; - terreno
exclusivamente favorável ao inimigo (grandes alturas, em qualquer parte, na
mão do inimigo); - em virtude da grande frente, não pôde, nas duas vezes,
fazer uma concentração de esforços para uma ação ofensiva correspondente à
missão recebida”. E rematava o comandante dos “pracinhas”: “Não posso,
portanto, dizer a V.Exa que a minha Divisão não tem capacidade ofensiva”. Mas era preciso que a 1a DIE mostrasse
a sua capacidade ofensiva - e aquele 12 de dezembro arraigou ainda mais no
General Mascarenhas a convicção de que a conquista de Monte Castelo era uma
questão de honra para os soldados sob seu comando. Os alemães de Monte
Castelo teriam de ser derrotados de qualquer maneira pelos “pracinhas” e
somente por eles. O setor mais difícil da frente apepina Em princípios de novembro de 1944, a 1a
DIE deslocou-se da frente do rio Serchio, no setor Luca-Pietrassanta, onde
vinha combatendo desde setembro, para a frente do rio Reno, na cordilheira
apepina. Na frente do Serchio, em menos de dois meses de combate, tivera 13
mortos, 87 feridos e 215 acidentados. Na frente do Reno, o QG Avançado do General
Mascarenhas, em Porreta-Terme, era como um pátio, no vale do rio, cercado de
montanhas, num raio de 15 km, dominadas inteiramente pelos alemães. Entre o
monte Belvedere, a oeste, e o monte della Vedetta, a leste, o inimigo detinha
posições privilegiadas, erguendo diante dos expedicionários brasileiros, uma
parede de montanhas, e submetendo-os a uma vigilância diuturna. E para tornar
a situação ainda mais crítica, o inverno, que se antecipara, prometia ser dos
mais rigorosos - como de fato o foi. O frio era intenso e as chuvas,
contínuas, haviam transformado as estradas, severamente castigadas pelos
aviões aliados, em rios de lama. Do alto de suas grimpas, mais de uma divisão alemã
tinha os olhos sobre os “pracinhas”, acuados lá embaixo. Entre os cumes
dominados pelos alemães, um se destacava pela sua posição estratégica: Monte
Castelo. Não fosse ele dominado, seria impossível às forças do 4o
Corpo de Exército prosseguir a marcha em direção à Bolonha, objetivo que o
General Mark Clark, comandante das forças aliadas da Itália, pretendia
atingir antes que começassem a cair as primeiras neves do inverno próximo.
Cabia, assim, aos brasileiros, naquele fim de outono e em todo o inverno que
se seguiria, a responsabilidade de defender e dominar o setor talvez mais
ingrato de toda a frente apepina. Para cumprir tal missão, a 1a
DIE, tropa ainda bisonha e mal treinada, teria muito que aprender. Mas o
tempo era escasso - e as ordens do comando do 5o Exército
transmitidas ao General Mascarenhas pelo comando do 4o Corpo,
foram taxativas: Bolonha teria que ser conquistada antes do Natal, e para que
isso fosse possível cabia à 1a DIE remover do caminho das forças
aliadas o incômodo e importante obstáculo que era Monte Castelo. Ataque e contra-ataque O General Mascarenhas instalou o seu QG em
Porreta-Terme no dia 6 de novembro de 1944. Três dias depois, os soldados
brasileiros substituíam na frente do Reno a 1a Divisão Blindada
americana, que, depois de muitos meses de luta, se retirava para o descanso
na retaguarda. No dia 24, o Esquadrão
de Reconhecimento e o 3o batalhão do 6o RI da 1a
DIE juntavam-se à Task Force 45, americana para a primeira ofensiva contra
Monte Castelo. A princípio, a operação foi bem sucedida, chegando elementos
da Task Force a alcançar o cume do Castelo, depois de tomarem o monte
Belvedere, ao lado. Mas a contra-ofensiva dos soldados da 232a DI
alemã, que defendia Castelo e o monte della Torracia, foi violenta, obrigando
os soldados americanos e brasileiros a abandonarem as posições já
conquistadas. Somente o monte Belvedere não foi devolvido. Os dias 24 e 25 de
novembro, datas da primeira tentativa de conquista do Castelo, assinalam o
início da segunda fase da luta da FEB na Itália - a fase mais exigente e mais
penosa e, também, a decisiva. Desses primeiros contatos com o inimigo, na
frente do Reno, amargas lembranças trouxe o 3o Batalhão do 3o
RI, que ali deixaria os seus primeiros mortos. É preciso acrescentar que nos
ataques dos dias 24 e 25 de novembro o comando das operações da tropa mista
(brasileiros e americanos) não coube ao General Mascarenhas, mas ao
General-de-Brigada Paul Rutledge, comandante da Task Force 45. Segundo assalto a Monte Castelo Mas o segundo assalto a Monte Castelo, planejado
para o dia 29, apenas quatro dias após os primeiros insucessos, seria da
total responsabilidade da 1a DIE, que na operação teria apenas a
ajuda de três pelotões de tanques americanos. Para esse segundo ataque, o comando
da divisão organizou um grupamento constituído do 1o Batalhão do 1o
RI, do 3o Batalhão do 6o RI, já provado na primeira
investida, e do 3o do 11o Regimento. O grupamento foi
posto sob o comando do General Zenóbio da Costa, comandante da Infantaria Divisionária,
que teria, no seu avanço, a cobertura de dois grupos de artilharia,
brasileiros, e possivelmente de um grupo de artilharia do 4o
Corpo. Um lamentável imprevisto, no entanto, se
verificaria naquela noite do dia 28, véspera do segundo ataque a Monte
Castelo: em inesperado e fulminante contra-ataque, as tropas da 232a
DI alemã expulsaram os americanos do monte Belvedere, conquistado quatro dias
antes, deixando, assim, descoberto o flanco esquerdo das forças brasileiras. Pensou o comando da 1a DIE em adiar o
assalto para os dias seguintes, na esperança de que Belvedere fosse
reconquistado, mas isso seria desaconselhável, visto que as tropas já se
achavam nas posições das quais iniciariam o ataque. Às 7h da manhã do dia 29
de novembro tinha início a segunda ofensiva brasileira contra Monte Castelo.
As condições do tempo não podiam ser piores - chuva, céu encoberto, o que
dificultou e chegou a impedir a atuação da força aérea; e muita lama, o que
praticamente anulava ou reduzia ao mínimo a participação dos tanques. “Até o meio-dia - conforme narraria mais tarde o
General Mascarenhas em seu livro A FEB, pelo seu comandante - tudo parecia
indicar um bom êxito para o grupamento do General Zenóbio, porquanto o
batalhão do Major Uzeda (1o Btl. Do 1o RI) progredia
regularmente, embora já possuísse alguns elementos detidos, e o batalhão do
Major Cândido (3o Btl. Do 11o RI) estavam bem próximo
do seu objetivo”. Mas o contra-ataque alemão não demorou e, cerca de
uma hora depois, o avanço das tropas brasileiras foi barrado pelos soldados
alemães dos 1044o, 1043o e 1045o RI
inimigos. E, no fim da tarde, os dois batalhões brasileiros voltaram às
posições de onde haviam iniciado o ataque, sem que durante toda a luta,
devido às condições do tempo, tivessem podido intervir eficazmente os tanques
e os aviões. O terceiro ataque a Monte Castelo No dia 5 de dezembro de 1944, chegava ao QG
Avançado da 1a DIE, em Porreta-Terme, a Ordem do 4o
Corpo: “Cabe à DIE capturar a crista do Monte della Torracia - Monte
Belvedere”. Significava dizer que Monte Castelo, localizado no centro da
linha Belvedere-Torracia, seria mais uma vez o objetivo principal da próxima
ofensiva brasileira - ofensiva que o General Mascarenhas determinou tivesse
início no dia 12. Às 6:30h de 12 de dezembro, iniciava-se o terceiro
assalto dos expedicionários brasileiros a Monte Castelo. A luta não demorou
mais de cinco horas. Contra a ofensiva dos brasileiros, voltaram a se
conjurar os mesmos fatores negativos que haviam frustrado as tentativas
anteriores: o céu fechado aos aviões, o frio intenso, a chuva persistente, o
lamaçal escorregadio em que se transformara a terra de ninguém, entre Gaggio
Montano e o Castelo, impedindo a progressão dos tanques. Mesmo assim, as
vanguardas brasileiras conseguiram chegar além da metade do caminho que
levava a Monte Castelo. À esquerda, os “pracinhas” conquistaram Zolfo, a
apenas 200 metros do cume, e ao centro, chegaram a Abetaia, onde foram
detidos por uma cerrada cortina da artilharia alemã. Ali em Abetaia, ante-sala
do Castelo, mais de 20 brasileiros tombariam mortos, naquele malfadado 12 de
dezembro, e seus cadáveres, enrijecidos e enegrecidos pelo frio, só seriam
retirados no dia 22 de fevereiro, depois da conquista de Monte Castelo. Esse terceiro ataque a Castelo provou mais uma vez
que os planos táticos para a conquista da posição teriam que ser inteiramente
modificados. Era evidente que Monte Castelo não poderia ser arrebatado aos
alemães apenas com o concurso de algumas unidades da 1a DIE, mas
sim, com o empenho na ofensiva de toda a divisão. Particularmente agora,
quando os alemães alertados pela insistência do comando aliado na conquista
de Monte Castelo, perceberam que aquela era uma posição que não deveriam
entregar. A prova disso é que o inimigo tratou logo - após o segundo ataque a
Castelo - de reforçar suas tropas no cume e no lado norte do morro,
substituindo os regimentos que o defendiam por unidades novas e descansadas,
trazidas da retaguarda. Estabeleceu-se, então, entre os brasileiros e
alemães, uma determinação paralela: por parte dos brasileiros, a de que
Castelo teria de ser dominado e conquistado de qualquer maneira; por parte
dos alemães, a de que o monte não deveria se abandonado em hipótese alguma. Tinham sido difíceis e cruentos os três primeiros
ataques a Monte Castelo, e somente o do dia 12 de dezembro havia desfalcado
os batalhões brasileiros atacantes em mais de 150 homens. O quarto ataque - e
que seria o último - prometia ser ainda mais difícil e mais sangrento. A longa trégua branca Enquanto isso, o inverno, que de fato se mostrou
um dos mais rigorosos registrados nos últimos 50 anos na região apepina,
começou a estender o seu lençol branco por toda a frente italiana. Na
cordilheira, os termômetros baixaram subitamente 10, 15 e até 19 graus
negativos. E a neve, que começou a cair antes de 24 de dezembro, já cobria
todo o setor onde operavam os soldados brasileiros. Viram-se, assim, os
nossos combatentes, diante de um outro inimigo para eles até então
desconhecido. Como seria possível aos expedicionários brasileiros, gente dos
trópicos, que da guerra sabiam apenas o que nela havia aprendido, enfrentar o
mar branco e gelado que os cercava e os fazia tiritar? Foi, portanto, com
alívio, e até mesmo com alegria, que a vanguarda da 1a DIE, estendida
por 15 km entre o monte Gorgollesco e a Torre de Nerone, recebeu a notícia de
que o comando do 5o Exército havia voltado atrás na sua decisão de
“chegar a Bolonha antes do Natal”, e que, assim, ficava suspensa a ofensiva
geral planejada para os próximos dias. A frente italiana entrava em recesso - numa longa
trégua branca. Até fevereiro, na frente apascentada pela neve, os esmorecidos
homens que a defendiam limitariam sua guerra, dos dois lados, a operações de
patrulha, à modorrenta vigilância nos fox-holes, os ouvidos embalados pelo
esporádico e fragmentado duelo entre a artilharia alemã e a aliada. Durante
mais de dois meses - ou, precisamente, durante dois meses e 10 dias - o
compasso de espera deu, na frente italiana, o ritmo da guerra, num intermezzo
que só seria interrompido no dia 19 de fevereiro, data estabelecida pelo
comando do 5o Exército para o começo da nova - e última - ofensiva
que levaria as tropas aliadas, e entre elas a 1a DIE, para além do
vale do Panaro, para além do vale do Pó, até as fronteiras com a França. Um plano chamado “Encore” O plano chamava-se Encore; nele seriam empregadas
todas as forças do 4o Corpo de Exército e seu objetivo seria o de
expulsar o inimigo do setor do Reno e perseguí-lo, em seguida, através do
vale do rio Panaro. No dia 16 de fevereiro de 1945, visando coordenar
e estabelecer a estratégia e a tática da nova ofensiva, convocou o General
Crittenberger ao seu QG todos os comandantes de unidades (a brasileira,
americanas, inglesas e sul-africanas) que constituíam o 4o Corpo
de Exército. Lá se encontravam, entre outros oficiais-generais, O General
Mascarenhas, o general Hays, comandante da 10a Divisão de Montanha
americana, e o General Williams, comandante da Artilharia do 4o
Corpo. Como assessor, o General Mascarenhas levou o então tenente-coronel
Humberto de Alencar Castello Branco - que viria a ser Presidente do Brasil -,
chefe da 3a Seção (Operações) do Estado-Maior da 1a
DIE. No plano Encore, o papel dos brasileiros seria,
mais uma vez, o de desalojar os alemães do Monte Castelo. Dessa vez, no
entanto, a tática seria outra - exatamente a mesma que o General Mascarenhas
sempre defendera, ou seja, a que partia da premissa de que a poderosa posição
alemã, situada no setor mais agressivo e mais íngreme do espinhaço apepino,
só poderia ser conquistada se no seu assalto fosse empregada toda a divisão
brasileira. E foi exatamente esse ponto de vista do comandante brasileiro que
se impôs na reunião dos comandantes do 4o Corpo de Exército. O assalto final No dia 20 de fevereiro, as tropas brasileiras
colocaram-se em posição de combate, com os três regimentos da divisão prontos
para convergir na direção de Monte Castelo. À esquerda dessas forças, a 10a
Divisão de Montanha americana, experimentada tropa de elite, devia
apoderar-se do monte della Torracia, garantindo, assim, o flanco mais
vulnerável do setor defendido pelos brasileiros. Como correspondente de guerra na frente italiana,
Joel Silveira (este relato é dele) teve oportunidade, nos dias 20, 21 e 22 de
fevereiro de 1945, de acompanhar de perto - de início do Posto de Comando do
General Cordeiro de farias, comandante da Artilharia da 1a DIE e,
depois, ao lado da tropa - todo o desenrolar da ofensiva brasileira, que
resultaria, no começo da noite do dia 21, na conquista definitiva de Monte
Castelo. A 1a DIE, na sua totalidade, seria
convocada para o último assalto a Castelo, mas coube aos três batalhões do 1o
RI a missão de avançar sobre o Castelo, dominá-lo e de lá expulsar os alemães
da 232a Divisão de Infantaria. O ataque teve início na hora prevista: seis da
manhã. O Batalhão Uzeda avançou pela esquerda, o Batalhão Franklin (do então
tenente-coronel Emílio Rodrigues Franklin), seguiu na direção frontal do
monte, enquanto o Batalhão Sizeno Sarmento (o 2o), aguardava, nas
posições avançadas que ocupara durante a noite, o momento de juntar-se aos
outros dois batalhões. Segundo o Plano Encore, deveriam os brasileiros chegar
à crista do Castelo no mais tardar às 6 da tarde - ou seja, uma hora após a
conquista do monte della Torracia pela 10a Divisão de Montanha
americana, prevista para as 17 horas. Porque era agora convicção do comando
do 4o Corpo de Exército que Monte Castelo não poderia ser
tomado sem que, antes, o monte della
Torracia também o fosse. O fato, porém, é quando às 17:30h, quando os
primeiros soldados do 3o Batalhão (Franklin) do 1o RI
chegaram ao cume do Castelo, os americanos da 10a Divisão de
Montanha ainda não haviam conseguido quebrar a resistência alemã. Os
americanos só alcançariam seu objetivo noite adentro, quando os brasileiros
já haviam de há muito completado a
sua missão e começava a ocupar, na crista de Monte Castelo, as
privilegiadas trincheiras e as formidáveis casamatas recém-abandonadas pelos
alemães. Além da perfeita coordenação entre os três
batalhões do Regimento Sampaio, um outro fator, igualmente preponderante,
contribuiu para a grande vitória naquele 22 de fevereiro. Refiro-me a atuação
da Artilharia Divisionária, sob o comando do General Cordeiro de Farias, cuja
concentração de fogo, entre as 16 e 17 horas daquele dia, transformou o cume
do Castelo na imagem viva de um vulcão em atividade. Os primeiros
prisioneiros alemães feitos então pelos “pracinhas”, surpreendidos ainda nas
casamatas do Castelo, mostravam, com seu olhar esgazeado e o completo
descontrole nervoso, o que havia significado para eles o implacável
bombardeio da nossa artilharia. Após a barreira de fogo, o pico do Castelo
havia-se transformado numa superfície lunar, com mil crateras abertas na neve
até então inviolada. “Estou no cume do Castelo” Joel Silveira narra: Às 17:30h daquela tarde do
dia 21, eu me encontrava no Posto de Comando do general Cordeiro de Farias,
quando escutei a voz rouca do tenente-coronel Franklin, vinda pelo rádio de
campanha: - Estou no cume do Castelo. E pedia que a artilharia começasse a hostilizar as
posições inimigas além do Castelo - na direção de La Serra, de Bela Vistas e
de Caseline, posições que nos dias seguintes não seriam mais que marcos no
longo caminho que levaria a 1a DIE, na veloz arrancada que iria
começar, à conquista de Montese, de todo o vale do Panaro, até o encontro
final coma 148a Divisão
alemã, cujos 15.000 homens, sob o comando do general Otto Fretter Pico, iriam
render-se aos “pracinhas”, em Fornovo e Collechio (ao sul de Milão), no dia
29 de abril. “Com a conquista de Monte Castelo - as palavras
são do coronel Manoel Thomaz Castello Branco, autor de O Brasil na Segunda
Grande Guerra -, com esse sedento feito, a FEB saldou um dos seus mais sérios
compromissos na Itália, pelos aspectos morais que encerrava. O Monte Castelo
já não era mais um simples objetivo a conquistar, mas um desafio a enfrentar
e uma vingança a executar, cujo
desfecho ou seria a consagração apoteótica ou a ruína acabrunhadora”. No dia seguinte à consolidação das posições
brasileiras em Monte Castelo, o General Mascarenhas foi inspecionar as tropas
vitoriosas. E “alguns praças - segundo conta, ainda, o coronel Manoel Thomaz
Castello Branco -, não podendo conter o seu entusiasmo, correram rudemente ao
seu encontro aos gritos de “Viva o General!”. Se não lhe ergueram novos
hurras, foi porque o bravo chefe não sabia rir com largueza, limitando-se a
cumprimentar os soldados com um leve aceno, enquanto galgava as últimas
escarpas entre os grupos que se erguiam, respeitosos, à sua aproximação”. A volta e os que ficaram Anos após terminada a guerra, os generais Mark
Clark, comandante do 5o Exército e Willys Crittenberger,
comandante do 4o Corpo, reconheceram, nos livros que publicaram
sobre a campanha da Itália, que a FEB fora reservado, na última fase da
guerra, o mais difícil setor da frente nos Apepinos. Basta dizer que somente
a partir do dia 22 de fevereiro de 1945, quando Monte Castelo foi
conquistado, é que a cidade de Porreta-Terme, sede do QF Avançado da 1a
DIE, pôde livrar-se da cortina artificial
que durante perto de três meses a havia escondido dos alemães. Mas não foi apenas o inimigo no front italiano que
a FEB teve de enfrentar e vencer. Além dele, um outro ainda mais sério,
porque insidioso e persistente, teve pela frente: a atuação da quinta-coluna
nazi-fascista no próprio Brasil. Aos simpatizantes do Eixo ou aos com ele
comprometidos não interessava, por motivos claros, a presença de uma força
expedicionária brasileira na Europa. Mas, apesar de tudo, a FEB foi. E na
Itália cumpriu com a sua missão. Quando o primeiro escalão retornou ao Brasil - no
dia 18 de julho de 1945 -, após mais de sete meses de luta nas frentes do rio
Serchio e na apepina, e, em seguida, nos vales do Panaro e do Pó, a FEB havia
deixado no pequeno e florido cemitério de Pistóia perto de 500 mortos, e
trazia consigo a carta positiva de tantas vitórias e o saldo negativo de
dezenas de mutilados e de centenas de enfermos. Asas do Brasil nos céus da Itália Na campanha da Itália, outra força brasileira
desenvolveu ação marcante: o 1o Grupo de Caça da FAB, incorporado
ao 22o Comando Aéreo Tático, que dava apoio ao 5o
Exército americano, no qual se integrava a 1a DIE. Mais eloqüente que as palavras, os números falam
melhor do que foi a atividade dessa unidade das Força Aérea Brasileira (FAB),
chegada à Itália em setembro de 1944. Já nos
quatro primeiros meses de 1945, o Grupo de Caça brasileiro realizaria 1.738
incursões contra o território ocupado pelo inimigo, enfrentando o nutrido
fogo das baterias antiaéreas alemães. Nessas missões, os P-47, Thunderbolt,
agiam como caça-bombardeiros, castigando em vôo rasante e em bombardeio de
picada pontos sensíveis das vias de transporte, posições de artilharia,
depósitos e instalações em poder do inimigo. Dava, assim, efetivo apoio às
forças terrestres, cumprindo também missões de escolta e reconhecimento, nas
quais encontrava o pesado fogo dos canhões 88 mm alemães. Durante a campanha, o grupo realizou 2.546 saídas
ofensivas. Dos 48 oficiais que participaram das operações, cinco foram mortos
e oito feridos, abatidos pela artilharia antiaérea alemã. Em relação a estas
perdas, o inimigo sofreu danos vultosos: 2 aviões, 13 locomotivas, 1.034
veículos motorizados, 250 vagões ferroviários, 25 pontes, 85 peças de
artilharia, 6 fábricas, 31 depósitos de combustível e munição, 5 usinas
elétricas, 19 embarcações, e número bem superior de alvos danificados. Também
no ataque a Monte Castelo, a atuação dos pilotos da FAB foi destacada. Atingindo
as posições e os locais de reservas alemães, contribuiu para o
desenvolvimento das operações de infantaria da FEB rumo ao baluarte germânico
dos Apeninos. No mar, o inimigo invisível Seis meses antes de entrar em guerra, o Brasil já
sofria as primeiras perdas. A partir de fevereiro de 1942, os submarinos do
Eixo, em desenvolta ação no Atlântico, passaram a atacar os navios mercantes
brasileiros. No dia 14 foi afundado o Cabedelo, com seus 54 tripulantes; a
16, o Buarque foi torpedeado e afundado em águas da costa dos Estados Unidos;
a 18, foi posto a pique o Olinda; em 7 de março, o Arabutã, e a 9, o Cairu;
em 1 de maio, o Parnaíba; a 18, o Comandante Lira; e, a seguir, mais seis
outros barcos. De 15 a 18 de agosto, ao largo das costas do Estado de
Sergipe, foram afundados o Beapendi, o Aníbal Benévolo, o Araraquara, o
Itagiba, o Arará e o Jacira, perdendo-se muitas vidas humanas. Esses
afundamentos levaram o Governo brasileiro a reconhecer a existência do estado
de guerra com a Alemanha e a Itália. Em 1943, adotado o Comando Único aliado para as
operações estratégicas na área oeste do Atlântico Centro-Meridional, ficou a
Marinha de Guerra brasileira representada entre as forças marítimas
integradas nesse esquema. Coube à Força Naval do Nordeste incorporar-se à 4a
Esquadra dos Estados Unidos, comandada pelo Vice-Almirante Jonas Howard
Ingram. Em sua missão de patrulhamento do litoral
brasileiro e na tarefa de proteger os navios mercantes aliados, a Marinha de
Guerra do Brasil teve saliente papel: realizou 251 comboios, sendo 181 em
águas brasileiras e 70 em águas estrangeiras, tendo perdido três belonaves, o
navio-auxiliar Vital de Oliveira, a corveta Camaquã e o cruzador Bahia, com a
perda total de 468 homens, entre praças e oficiais. Nos 32 barcos mercantes
afundados, pereceram 469 tripulantes e 502 passageiros. Trampolim para a África A utilização, pelas forças americanas, das bases
aeronavais de Natal e Recife representou valiosa cooperação, não só para o
desembarque dos Aliados na África do Norte, ainda em 1942, como para o
desenvolvimento das operações nessa região e a neutralização do poder
ofensivo das forças navais do Eixo no Atlântico Sul, durante o resto do
conflito. Na defesa da costa brasileira, a Marinha de
Guerra, que nas águas do Nordeste, área mais infestada pelos submarinos
inimigos, empenhava dois cruzadores, o Rio Grande do Sul e o Bahia, 11
destróieres, 8 corvetas, 16 caça-submarinos e 1 tênder, fundeou em Salvador o
couraçado Minas Gerais e no porto de Recife o São Paulo, para defesa fixa
dessas cidades. Em fins de 1942, foram reforçados os efetivos da FAB nas
bases aéreas de Ibura, próximo a Recife, e Parnamirim, em Natal. E o Exército
concentrou numerosas unidades em Natal, Recife e Campina Grande. Já antes disso se instalara no arquipélago de
Fernando de Noronha um destacamento misto, compreendendo unidades de
artilharia, infantaria e contingentes de engenharia. Os canhões de costa de
um GMAC - Grupo Móvel de Artilharia de Costa - e as baterias antiaéreas do
I/2o RAAAé tinham por missão defender de uma possível incursão
inimiga as estratégicas ilhas. Com a ocupação da África do Norte pelos
Aliados, desvaneceu-se tal perigo, mas passou Fernando de Noronha a
representar um trampolim para a África. Aí pousavam, em escala para Dacar,
numa excelente pista construída em tempo recorde pelos americanos no decorrer
de 1943, os quadrimotores B-24, Liberator, de bombardeio, e vários outros, de
transporte. Aviões PBY “Catalina” e bimotores Veja-Ventura davam proteção
aérea ao arquipélago. Sobre o papel desempenhado no arquipélago pelo
soldado brasileiro, contou o Marechal Tristão de Alencar Araripe, que, como
general o destacamento: “Lá o vimos sob o sol escaldante, a chuva e o vento,
de calção e tronco nu, transformado em jangadeiro, pontoneiro e
estivador...”. Relata a extrema dificuldade de abastecimento, diante da
intensificação da ofensiva submarina inimiga, e a penúria de alimentação e
água: “A água para beber vinha das velhas cisternas do tempo do presídio, e
de poços de pequena profundidade. Era pesada e salobra, e não chegava para
matar a sede. A pequena capacidade das cisternas e poços obrigava o
racionamento do líquido indispensável... O corned beef foi por meses a fio a
alimentação essencial da ilha, e, por isso, criou-se-lhe ódio... A falta de
cigarros, o suplício dos fumantes... A nostalgia, a neurose da solidão e da
saudade contribuíram para desajustamentos profundos em muitos jovens. No
cemitério do Alto da Floresta, em Fernando de Noronha, há sepultado um
punhado de bravos anônimos...” A disenteria e o beribéri ceifaram muitas
vidas. |