Invasão da Itália

 

Badoglio assume o poder

            

A Queda de Mussolini

 

 

No dia 23 de janeiro de 1943, no momento em que as rádios anunciavam a queda de Trípoli, último reduto do outrora vasto império colonial italiano, Mussolini realizou em Roma, uma conferência com seus ministros. A notícia da perda de Trípoli significava para os dirigentes fascistas o fim de um sonho que haviam acalentado durante longo tempo: o domínio do Mediterrâneo. Era, em resumo, o prelúdio do fim do regime instaurado por Mussolini em 1922.

 

O Duce, porém, apesar da consternação visível que embargava todos os presentes, tentou dar à situação uma visão quase otimista assinalando que, apesar das derrotas sofridas nas frentes terrestres, o Eixo havia conseguido retumbantes êxitos na campanha submarina. O Conde Ciano e os outros dirigentes ouviram em silêncio as palavras de Mussolini. Contudo, mais tarde, Ciano escreveria no seu Diário uma opinião categórica acerca da verdadeira situação: “Temo que sejam apenas esperanças fugazes... Continua (Mussolini) vivendo de muitas e perigosas ilusões que lhe deformam a visão precisa da realidade tala como é, e tal como já aparece a todos”.

 

Iniciara-se o processo de desvinculação de Ciano e de outros destacados líderes fascistas do regime vigente. Haviam já perdido a fé no homem em que confiaram cegamente durante anos. Logo haveriam de passar, pressionados pelos acontecimentos, de uma surda oposição para uma franca rebeldia. Mussolini, por sua vez, compreendia que a guerra estava praticamente perdida.

 

Em repetidas oportunidades o Duce solicitou a Hitler a realização de um acordo com Stalin, terminando assim com a luta na frente oriental, para poder concentrar todos os efetivos na frente ocidental, a fim de enfrentar a iminente invasão anglo-americana. Hitler não atendeu aos apelos de Mussolini e, na conferência que com ele manteve em Salzburgo, a 7 de abril de 1943, conseguiu superar em parte, com suas otimistas apreciações, o abatimento moral do Duce. Goebbels relatou desta forma a entrevista: “O Duce sofreu uma mudança completa... Quando desceu do trem, na sua chegada, o Fuhrer viu um homem envelhecido e esgotado. Quando partiu, quatro dias depois, estava cheio de entusiasmo e pronto para levar a cabo qualquer iniciativa”.

 

 

Inicia-se a conspiração

 

O agravamento progressivo da situação militar da África, que culminaria com a derrota total das forças do Eixo, deu lugar a que se intensificassem as atividades conspiratórias dos diversos grupos que alentavam a esperança de poder salvar a Itália de um desastre irreparável. O Conde Ciano, antes de ser afastado de seu cargo, de ministro por Mussolini, iniciara já conversações com diversas personalidades que buscavam uma saída. No seu Diário registrara, já a 28 de janeiro de 1943, a repercussão que tivera a idéia de que a Itália somente se salvaria, firmando a paz em separado com os Aliados. Dizia: “Esta é uma idéia que vai germinando. Falou-me dela, e de maneira não hostil, até a própria irmã do Duce”. Assim como Ciano, muitos líderes fascistas, entre os quais se destacavam Dino Grandi, o Marechal De Bono, Bottai e outros, acreditavam que a situação estava chegando a um ponto insustentável e que era necessário mudar radicalmente de orientação, a fim de salvar o que ainda poderia ser salvo. Consideravam, porém, que o fascismo poderia sobreviver à crise, se Mussolini fosse eliminado do poder. O Duce era para eles o único obstáculo que se interpunha entre o desastre iminente e a possibilidade de uma solução do grande problema da Itália

 

Paralelamente, o Rei Vítor Emanuel e os altos chefes militares estavam unidos num plano conspiratório para derrubar Mussolini. Os principais personagens deste episódio eram o ministro da Casa Real, Duque de Acquarone, e o chefe do Estado-maior do Exército, General Ambrosio. Outras personalidades se movimentavam, com intenções semelhantes, entre as quais o Marechal Badoglio, que entrou em contato com o Duque de Acquarone e com o General Ambrosio. De suas reuniões surgiram as linhas gerais do plano: prisão imediata de Mussolini e dos principais líderes fascistas, e neutralização das forças da Milícia que se achavam sediadas nas cercanias de Roma. Discutiu-se, também, o problema que representava a presença de forças alemães em solo italiano, e o escolho que a aliança com a Alemanha significava no plano de firmar um armistício com os Aliados.

 

Badoglio estabeleceu contato com os agentes ingleses na Suíça, a fim de sondar a posição aliada com respeito à possível concretização do armistício. Não obteve, no entanto, nenhuma resposta.

 

Os líderes aliados Churchill e Roosevelt, entretanto, em declarações públicas, efetuadas entre os meses de maio e junho de 1943, haviam feito um apelo ao povo italiano, incitando-o a cooperar no combate ao regime fascista e na expulsão dos alemães do solo peninsular. O resultado seria, segundo suas palavras, uma nova oportunidade, para a Itália, de viver integrada com o resto das nações livres. Estas declarações alentaram os conspiradores no seu trabalho e os decidiram a ir até as últimas conseqüências.

 

Conferência de Feltre

 

Na manhã de 10 de julho de 1943, recebeu-se na Itália a notícia esperada e temida: os Aliados acabavam de desembarcar na Sicília. As rádios noticiaram o acontecimento com as seguintes palavras: “O inimigo iniciou esta noite, com o apoio de poderosas forças aéreas e navais, e com o lançamento de pára-quedistas, o ataque contra a Sicília. As forças armadas do Eixo enfrentam decididamente a ação do adversário. Desenrolam-se dispersos combates ao longo da costa sul-oriental”.

 

Nos dias seguintes, o povo italiano seguiu com angustiosa tensão o desenvolver dos acontecimentos, informado pelos raros comunicados que chegavam da frente. Na tarde de domingo, 11, as comunicações oficiais anunciavam vitoriosos contra-ataques das forças do Eixo e o iminente reembarque das derrotadas unidades aliadas. Pouco depois, no entanto, a triste realidade se tornou evidente. Uma nova comunicação anunciava, de forma lacônica, que os Aliados estavam firmes no território da Sicília: “O inimigo, que alimentara continuamente sua ofensiva com novos contingentes, conseguiu ultrapassar a faixa do litoral, penetrando na zona montanhosa no sudeste da Sicília e avançando até as planícies da Catânia. Em toda a frente, as tropas italianas e alemães estão empenhadas em duros combates”. Este comunicado provocou uma imensa comoção na população civil e nos círculos do governo; a marcha aliada para Roma estava iniciada. Ante a magnitude do desastre e pressionados pelos chefes militares, Mussolini combinou uma entrevista com Hitler, na qual deveria solicitar autorização ao Fuhrer para firmar a paz em separado com os Aliados.

 

Um dos principais conspiradores, o General Ambrosio, acompanharia o Duce na sua entrevista com Hitler, em Feltre, no norte da Itália. Caso Mussolini fracassasse em sua gestão junto ao Fuhrer, resolvera-se passar sem vacilações para a ação, e derrubar o ditador italiano.

 

A reunião ocorreu no dia 19 de julho de 1943. Durou cinco horas, durante, as quais Hitler falou praticamente sozinho, repetindo sempre os mesmos argumentos em favor da continuação da luta. Enquanto a entrevista ocorria, entrou na sala um ajudante, visivelmente excitado. Depois de pedir desculpas, se aproximou de Mussolini, anunciando-lhe, com voz emocionada: “Nesse momento, Roma está sendo bombardeada violentamente pela aviação inimiga”. Pela primeira vez em sua história, a capital dos Césares era objeto de um ataque pelo ar. A dramática notícia comoveu profundamente todos os presentes. Assim, num clima de abatimento e desmoralização, o Duce permaneceu silencioso, sem discutir o problema capital que o havia levado até ali. A reunião terminou e ambos os ditadores empreenderam vôos com rumos opostos. Nesse momento, nenhum deles suspeitava que a entrevista havia selado a sorte da fascismo. Mussolini acabava de perder a sua última oportunidade.

 

A noite de 24 de julho

 

Ao chegar a Roma, Mussolini avistou do avião as grandes colunas de fumaça que cobriam a cidade. O aparelho aterrissou no aeródromo de Ciampino, onde eram visíveis as marcas do recente ataque. As pistas estavam cobertas de crateras das bombas e os hangares e dependências, na sua maioria, estavam destruídos.

 

À sua chegada, Mussolini era esperado por um reduzido grupo de funcionários e dirigentes fascistas. Rapidamente tomou o seu automóvel que, imediatamente, a grande velocidade, o conduziu à sua residência, Villa Torlonia.

 

No caminho, o Duce pôde observar com amargura a multidão que fugia rumos aos campos. Homens, mulheres e crianças, levando consigo os seus pertences, em todo tipo de veículos, se afastavam precipitadamente da cidade.

 

No dia seguinte, Mussolini visitou os lugares que haviam sido destruídos pelo bombardeio. A estação ferroviária e o aeródromo de Ciampino estavam praticamente arrasados. O Duce comprovou, pessoalmente, a amplitude dos danos e o grau de desalento que tomara conta da população. A guerra chegara ao coração da Itália.

 

Posteriormente, Mussolini se entrevistou com o rei, para informá-lo dos resultados adversos da conferência de Feltre. O monarca, visivelmente alterado, lhe manifestou: “Esta situação não pode continuar. A Sicília já está perdida... a lenda da “cidade santa” terminou. É necessário discutir esses problemas com os alemães”. O Duce nada pôde responder. No dia anterior havia comunicado ao General Ambrosio que resolvera finalmente escrever uma carta categórica a Hitler, na qual lhe comunicava abertamente que a Itália estava disposta a retirar-se da luta. Ambrosio lhe declarou nessa oportunidade que em Feltre se havia perdido a ocasião propícia e que a carta, se fosse enviada, não teria resposta, como em tantas oportunidades anteriores.

 

Assim, os fatos se precipitaram para um desenlace definitivo. O grupo conspirador de líderes fascistas tomou então a iniciativa e na reunião do Grande Conselho, que se iniciou na tarde de 24 de julho de 1943 e se prolongou até a madrugada do dia seguinte, conseguiu que se aprovasse por maioria de 19 votos, a ordem do dia proposta por Dino Grandi: a resolução de entregar a autoridade suprema das forças armadas e o governo do país ao Rei Vítor Emanuel III, “para salvaguardar a vida e o porvir do povo italiano”.

 

Na manhã do dia seguinte, domingo, 25, ecoou por toda Roma a sensacional notícia de que o Grande Conselho havia decidido alijar Mussolini do poder. Imediatamente, o segundo grupo de conspiradores se pôs em ação. Mussolini se entrevistou com o rei às 5 da tarde. O monarca lhe manifestou que, em virtude da crise, havia resolvido colocar o governo nas mãos do Marechal Badoglio. Mussolini aceitou passivamente as palavras do rei e se limitou a desejar boa sorte ao homem que o sucederia. Às 5h20 da tarde abandonou o palácio. Era esta a última entrevista que manteria com o monarca que havia compartilhado com ele 20 anos de vicissitudes. Ao sair do edifício foi preso e conduzido ao quartel dos carabineiros.

 

Badoglio assume o poder

 

De acordo com o planejado, o Duque de Acquarone se apresentou na casa do Marechal Badoglio e lhe comunicou que o rei desejava conferenciar imediatamente com ele. Ao mesmo tempo, informou-o da entrevista entre o Duce e o monarca.

 

Badoglio, rapidamente, vestiu seu uniforme de marechal e se dirigiu ao palácio real. Ali, Vítor Emanuel lhe detalhou a conversa mantida com o Duce e o convidou a assumir o cargo de chefe de governo. Badoglio, depois de aceitar, informou-o que tinha já em seu poder uma lista de personalidades políticas com as quais pensava integrar o seu gabinete. O rei, porém, manifestou-se absolutamente contrário a tal procedimento, lembrando que era necessário agir com extrema rapidez e energia, evitando as complicações que derivariam da intervenção de elementos políticos. “Vossa Excelência necessita de um ministério de técnicos, que executem as ordens que se lhes dê”, disse Vítor Emanuel, ao mesmo tempo que lhe entregava uma nova lista de ministros. E acrescentou: “Todos esses homens são funcionários experimentados e capazes e com eles poderá trabalhar intensamente”.

 

Em seguida, Badoglio e o rei resolveram, ante a impossibilidade de reagir a uma intervenção alemã, não declarar imediatamente a intenção de por um fim à guerra. Depois, o monarca mostrou a Badoglio as proclamações já impressas dirigidas ao povo italiano com o comunicado da mudança de governo. Uma delas era assinada pelo rei e a outra por Badoglio; nesta última se declarava concretamente que a Itália continuaria a luta junto com a Alemanha. Estes documentos, precedidos pelo anúncio da demissão de Mussolini, foram propalados pela rádio de Roma a todo o mundo. A repercussão foi imensa em todos os países. Na capital da Itália, a multidão festejou a queda do ditador. Muitos dos centros fascistas foram assaltados e incendiados. Assim, dramaticamente, terminava um regime que durante mais de 20 anos havia dominado com mão de ferro o povo italiano.

 

Hitler reage

 

As primeiras notícias da crise italiana chegaram à Toca do Lobo, na Prússia Oriental, na tarde de 25 de julho. Os informes diziam apenas que o Grande Conselho fascista se havia reunido. Ao cair da noite, chegou finalmente a notícia da queda de Mussolini. Às 21h30, o Fuhrer convocou os seus auxiliares imediatos e disse: “O Duce renunciou. Badoglio, nosso inimigo mais rancoroso, se apossou do governo”. Iniciou-se então uma áspera discussão acerca das medidas a serem tomadas. O General Jodl achava prudente esperar até receber uma informação mais completa de Roma. Hitler, reagindo violentamente, disse: “Está certo, mas temos que planejar o que acontecerá depois. Indubitavelmente, com a sua traição, eles proclamarão que continuarão leais a nós, porém isso não passa de traição. Não permanecerão leais, e embora esse miserável (Badoglio) tenha declarado imediatamente que a guerra continuaria, isso nem se cogita. Eles tinham que dizer isso, porém continuam na traição. Jogaremos o mesmo jogo enquanto nos preparamos para eliminar o grupo todo de um só golpe”.

 

Imediatamente, o Fuhrer, dirigindo-se a Jodl, lhe ordenou que tomasse as medidas necessárias para que as tropas alemães que se achavam nas vizinhanças de Roma, entrassem na cidade, capturassem o rei, o príncipe herdeiro e todos os membros do governo. Nessa mesma noite, o Fuhrer ordenou que se ocupassem os desfiladeiros dos Alpes para assegurar a entrada das forças alemães no interior da Itália, e chamou à sua presença o Marechal Rommel, chefe do grupo de exércitos “B”. Rommel chegou à Toca do Lobo no dia 26 e compareceu a uma reunião em que estiveram presentes todos os grandes líderes políticos e militares. Também comparece o líder fascista Farinacci, que havia conseguido evadir-se de Roma, e que informou a Hitler que se esperava que o governo de Badoglio fizesse propostas de paz aos Aliados no prazo aproximado de uma semana a dez dias. Também manifestou a sua convicção de que os britânicos e americanos desembarcariam logo na zona de Gênova.

 

Como resultado da reunião, Hitler, às 23 horas, determinou a Jodl que pusesse em marcha a fase de alerta do plano Alarico, operação planejada anteriormente para ocupar o norte da Itália.

 

No dia seguinte, efetuou-se uma nova reunião, para discutir novamente a situação criada na Itália. Jodl se opôs a tomar qualquer medida violenta contra o governo de Badoglio, enquanto não se completasse a movimentação das unidades alemães no interior da Itália. O Almirante Doenitz apoiou esse ponto de vista. O Marechal Kesselring, por sua vez, declarou que se poderia confiar no governo de Badoglio e se opôs a qualquer intervenção. Como tantas outras vezes, o Fuhrer passou por cima das objeções dos seus imediatos e apenas ouviu as suas próprias opiniões. Declarou então: “Devemos agir imediatamente; do contrário, os anglo-americanos tomarão a iniciativa e ocuparão os aeródromos. O Partido Fascista está, atualmente, somente adormecido; se levantará novamente, por trás das nossas linhas. Devemos, portanto, restaurá-lo... Este é um assunto que um soldado não pode compreender. Somente um homem com visão política pode enquadrá-lo claramente”.

 

Ao término dessa reunião, o Fuhrer já havia elaborado uma série de alternativas possíveis para pôr em ação. A operação Student visava a ocupação, de surpresa, de Roma e a restauração do governo de Mussolini nessa cidade. A operação Eiche previa o resgate de Mussolini pela Luftwaffe e pára-quedistas, caso se encontrasse na península, e pela Marinha, caso se encontrasse numa ilha. A operação Schwarz seria para assegurar a ocupação militar de toda a Itália. Finalmente a operação Achse visava a captura e destruição de toda a frota italiana.

 

Enquanto Hitler tomava as disposições necessárias para efetuar o resgate de Mussolini, emitia paralelamente a ordem de pôr em marcha a operação Alarico (ocupação do norte da Itália).

 

A 31 de julho as forças alemães iniciaram o cruzamento das passagens alpinas. Sete divisões cruzaram a cadeia montanhosa e se situaram nos arredores de Gênova, setor onde se esperava um desembarque aliado. Paralelamente, as outras unidades que já se achavam na península receberam ordem de agrupar-se em torno de Roma. Desta forma, tudo ficou pronto para a ação.

 

O armistício

 

No dia 1o de agosto, Hitler enviou um telegrama a Badoglio, propondo-lhe a realização de uma conferência, a ser assistida, como delegados alemães, por Ribbentrop e Keitel, para discutir a situação. O chefe do governo italiano, a fim de não despertar suspeitas, aceitou a proposta. Decidiu ao mesmo tempo, junto com o ministro de relações exteriores Guariglia, enviar um delegado a Lisboa, para iniciar as negociações de paz com os Aliados. No dia 4, o delegado italiano se entrevistou com representantes diplomáticos aliados e recebeu deles a comunicação de que somente seria tratada a questão do armistício, do ponto de vista estritamente militar, na base de rendição incondicional. Entrementes, o ministro Guariglia e o General Ambrosio se reuniram na localidade de Tarvisio, com Keitel e Ribbentrop. De ambas as partes, buscava-se exclusivamente ganhar tempo. O objetivo, de fato, foi conseguido. A 12 de agosto partiu de Roma o General Castellano, rumo a Lisboa, com a missão de estabelecer contato com os chefes aliados. Tinha instruções para declarar claramente que a Itália não poderia separar-se da Alemanha sem a ajuda militar anglo-americana. Devia aconselhar, paralelamente, que os desembarques teriam que efetuar-se ao norte de Roma. Castellano fez escala em Madri, onde comunicou ao embaixador britânico, Sir Samuel Hoare, que havia sido autorizado pelo rei e por Badoglio a firmar o armistício. Depois continuou a sua viagem para Lisboa, onde se entrevistaria com os enviados militares que representavam Eisenhower, Generais Bedell Smith e Kenneth Strong, este último britânico.

 

Enquanto isso, os acontecimentos na Itália se precipitavam. Badoglio havia ordenado reforçar as defesas em torno de Roma. Ainda mandara duas divisões a La Spezia para proteger a esquadra de um possível golpe alemão. Hitler, por sua vez, emitia ordens destinadas a intensificar a busca de Mussolini, cujo resgate havia sido entregue ao oficial da SS Otto Skorzeny.

 

A 17 de agosto, as tropas aliadas completaram a conquista da Sicília e se aprontaram a lançar-se ao assalto contra a península. O desenlace da crise estava próximo.

 

Dois dias mais tarde, Bedell Smith e Strong se entrevistaram com Castellano em Lisboa e lhe entregaram um documento em que constavam os termos para a rendição militar da Itália. Castellano regressou para a Itália no dia 28 e apresentou ao monarca Vítor Emanuel o documento. Tanto o rei, como Badoglio e os restantes membros do governo acharam necessário retardar o anúncio do armistício até que os Aliados tivessem desembarcado, com forças suficientes, ao norte de Roma. Ordenou-se então a Castellano que viajasse para a Sicília e manifestasse aos Aliados a necessidade do desembarque ao norte de Roma.

 

O chefe italiano chegou à Sicília a 31 de agosto e apresentou aos generais Bedell Smith e Strong a proposta do seu governo. Os chefes aliados se negaram terminantemente a aceitá-la.

 

Não restou aos italianos outra alternativa senão aceitar a rendição nos termos propostos pelos Aliados. A 1o de setembro, o rei deu a sua aprovação. Dois das mais tarde, no momento em que as lanchas de desembarque aliadas se aproximavam das costas da península italiana, conduzindo as tropas do 8o Exército de Montgomery, Castellano firmava, no quartel de Cassibili, na Sicília, a ata de rendição, na presença do General Eisenhower. Determinou-se, então, que a notícia do armistício somente se daria a conhecer cinco dias mais tarde, a  8 de setembro. Coincidiria assim, com o desembarque americano nas praias de Salerno. Havia-se projetado também fazer descer uma divisão aerotransportada em Roma. Para esse fim, enviou-se secretamente o General Maxwell Taylor a Roma, para coordenar a ação com as forças italianas. Taylor se entrevistou com Badoglio na madrugada de 8 de setembro e foi informado por este de que a descida das tropas aliadas não poderia ser apoiada pelas unidades italianas até a noite do dia seguinte. A operação, em vista disso, foi cancelada. Assim perdeu-se a oportunidade de tomar a capital da Itália com uma audacioso golpe.

 

Badoglio, por sua vez, enviou um cabograma a Eisenhower no qual lhe dizia que “devido a mudanças na situação, ocasionadas pela disposição das forças alemães na área de Roma, já não nos é possível aceitar o armistício imediato, pois poderia provocar a ocupação da capital e a violenta tomada do governo pelos alemães”. Eisenhower respondeu imediatamente, prevenindo-o de que ele mesmo, pessoalmente, iria transmitir a notícia do armistício pelo rádio, naquela mesma noite, 8 de setembro, e que se o governo italiano não fizesse o mesmo, cancelaria o acordo.

 

Tal como havia antecipado, Eisenhower deu publicidade ao histórico evento. Ao ser captada a sua mensagem em Roma, Badoglio se dispôs por sua vez, três horas depois, a divulgar pelo rádio o seguinte aviso: “O governo italiano, depois de reconhecer a impossibilidade de continuar a luta desigual contra o poderio do inimigo, e tomando em conta a sua intenção de poupar à Nação desgraças e penalidades de maior gravidade, pediu armistício ao General Eisenhower, comandante-chefe das forças aliadas anglo-americanas. A petição italiana foi aceita. Por conseguinte, todo ato de hostilidade contra as forças anglo-americanas deverá terminar por parte das forças italianas, em qualquer ponto em que possa se produzir. Em troca, deverão reagir contra os eventuais ataques que tenham qualquer outra origem”.

 

Às sete da noite, o embaixador alemão Rudolf Rahn, que já estava a par dos acontecimentos, se apresentou no Ministério das Relações Exteriores italiano, chamado pelo seu titular, o Barão Guariglia. Este, sem preâmbulos, lhe disse: “Devo informá-lo que o Marechal Badoglio, em vista da desesperada situação militar, foi obrigado a solicitar um armistício”. Rahn, contendo a cólera, respondeu: “Isso é uma traição à palavra empenhada”. Nesse mesmo momento, o General Jodl, que se havia inteirado da notícia pela BBC de Londres, mantinha uma conferência telefônica com o Marechal Kesselring, para obter deste a confirmação das novidades que haviam chegado ao seu conhecimento. Kesselring, assombrado, respondeu que ignorava o que estava ocorrendo. Porém, diante da confirmação dos fatos, pôs em marcha imediatamente a operação Achse para a ocupação total da Itália.

 

A situação das forças alemães era sumamente crítica. Nos arredores de Roma estavam localizadas cinco divisões italianas e ali Kesselring somente contava com duas divisões (uma de pára-quedistas). O marechal alemão esperava que as forças de invasão aliadas, que já haviam sido avistadas navegando ao sul de Nápoles, desembarcassem nas proximidades de Roma e que unidades de pára-quedistas inimigas apoiassem o ataque, descendo nos aeródromos da capital italiana. Se isto acontecesse, a sorte de todas as forças alemães acantonadas no sul da Itália, num total de oito divisões, estaria selada.

 

Na noite de 8 de setembro, Hitler e os chefes da Wehrmacht, depois de estudar detidamente a situação, consideraram definitivamente perdidas as tropas de Kesselring. Emitiram, em conseqüência, determinações para estabelecer rapidamente uma nova linha defensiva, mais ao norte. Porém, os planos aliados, traçados com inexplicável cautela, não cogitavam de uma ação audaciosa contra a capital italiana. Na madrugada de 9 de setembro, o 5o Exército americano, de Clark, iniciou o desembarque nas praias de Salerno, ao sul de Nápoles. Também foi cancelado o ataque de pára-quedistas planejado contra Roma. A desmoralização se espalhou pelas fileiras do exército italiano, sediado em Roma. Sem vacilar, Kesselring ordenou que suas forças atacassem. Travaram-se imediatamente violentos combates nos subúrbios da capital. Badoglio, juntamente com o rei e os membros do gabinete, abandonaram Roma e se dirigiram apressadamente para Brindisi, no extremo sul da Itália. Na manhã seguinte, as tropas italianas capitularam em Roma. Com este episódio ficou solucionada a grave ameaça que durante dois dias mantivera as tropas alemães em situação de iminente aniquilamento.

 

A 11 de setembro Kesselring emitiu um comunicado declarando que todo o território italiano, incluindo Roma, passaria a converter-se num novo teatro de guerra sob o controle militar das forças alemães.

 

Resgate de Mussolini

 

Enquanto se sucediam os acontecimentos narrados, a operação ordenada por Hitler para libertar Mussolini estava em vias de execução. O Capitão Otto Skorzeny, depois de receber instruções precisas, diretamente do Fuhrer, transladou-se para Roma, juntamente com 50 homens do seu batalhão especial da SS. Ali, com a ajuda do Serviço de Inteligência do Exército, dedicou-se imediatamente a procurar pistas que lhe dessem a chave da localização do Duce. Este, três dias depois da prisão, fôra transportado para a ilha de Ponsa, no mar Tirreno, a 50 km da costa, nas proximidades de Nápoles.

 

Skorzeny teve conhecimento, afinal, mediante a intervenção casual de um comerciante com quem travou amizade num restaurante em Roma, do possível paradeiro de Mussolini; de fato, um cliente desse comerciante tinha a seu serviço uma doméstica que mantinha relações amorosas com um guarda da penitenciária de Ponsa. Este, em uma carta recentemente enviada à amante, lhe dizia que na ilha estava prisioneira uma personagem importante. Valendo-se dessa insólita pista, Skorzeny dirigiu suas investigações nesse sentido, e comprovou que, efetivamente, a importante personalidade detida em Ponsa era Benito Mussolini.

 

Porém, antes que se pudesse organizar uma expedição de resgate, o Duce foi levado para a ilha de La Madalena, situada no estreito de Bonifácio, entre as ilhas da Córsega e Sardenha. Skorzeny obteve, um pouco depois, dados que o tornaram conhecedor desse detalhe. Enviou então um de seus homens, disfarçado, com a missão de investigar no local e confirmar o fato. O enviado de Skorzeny, guiado por um vendedor de frutas que visitava diariamente a vivenda onde Mussolini se encontrava detido, pôde aproximar-se do edifício e viu o Duce sentado num terraço.

 

Ao receber a informação do seu agente, Skorzeny decidiu agir rapidamente. Como primeira medida, dispôs-se a tirar, pessoalmente, fotografias aéreas da região. No dia 18 de agosto de 1943, um bombardeiro Heinkel He 111 sobrevoou a ilha de La Madalena. Viajava nele Otto Skorzeny. O aparelho, porém, quando procurava escapar a dois caças aliados que apareceram, precipitou-se no mar. Depois de permanecer uma hora na água, Skorzeny e os demais tripulantes foram salvos por um cruzador italiano. O comandante, ignorando a missão dos alemães, os transportou de regresso à península.

 

Enquanto isso, no QG de Hitler receberam-se informações de que Mussolini não estava em La Madalena, mas sim na ilha de Elba. Diante da confusão reinante acerca do paradeiro do Duce, Skorzeny, junto com o General Student, entrevistou-se com o Fuhrer. Na sua presença lhe deu a conhecer os resultados de suas investigações, que testemunhavam sem sombra de dúvidas a presença do Duce em La Madalena. Hitler, convencido, deu imediatamente ordem de suspender o projetado ataque de pára-quedistas contra Elba. Depois, sem perda de tempo, aprovou o plano de Skorzeny tendente a resgatar Mussolini, mediante o uso de lanchas-torpedeiras tripuladas por homens da SS. Ao despedirem-se, Hitler, estreitando calorosamente a mão do oficial alemão, lhe disse: “Você conseguirá, Skorzeny. Confio em você...”. Otto Skorzeny comentou posteriormente: “Suas palavras eram tão convincentes que me deixei contagiar pela sua fé. Tinha ouvido falar muito sobre a força persuasiva, quase hipnótica, de Adolf Hitler; aquele dia tive ocasião de comprová-lo pessoalmente”. O plano, contudo, não se pôs em marcha. Dias mais tarde verificou-se que Mussolini fôra transferido de La Madalena para um lugar desconhecido.

 

Na manhã de 28 de agosto, de fato, o Duce foi levado, num hidroavião ambulância, até a península. Em território continental italiano, foi instalado num hotel para esquiadores, situado no Gran Sasso, monte nos Apepinos. A esse local somente se podia chegar por meio de um teleférico. Era, portanto, praticamente inacessível. Para custodiar o ditador italiano, foi destacada uma guarda de 250 soldados da Polícia Militar.

 

O grande golpe

 

Skorzeny, sem desanimar, continuava a busca do líder italiano. Mais uma vez a sorte o favoreceu. Seus agentes conseguiram, ao cabo de alguns dias, estabelecer a localização de Mussolini, no Gran Sasso. Skorzeny e seus homens se dedicaram febrilmente a ultimar os detalhes destinados a resgatar o Duce. Novamente, o oficial alemão sobrevoou a zona, explorando-a. Avistou o hotel, chamado Campo Imperatore, situado em plena montanha e rodeado pelos cumes do Gran Sasso. Atrás do edifício avistou um terreno plano, extenso, coberto de grama, destinado à aprendizagem dos aficionados de esqui. “Já encontramos nosso campo de aterrissagem”, disse, sem vacilar, ao seu acompanhante.

 

No dia 10 de setembro, Skorzeny discutiu com o General Student as possibilidade de êxito que podiam ocorrer na realização do seu plano. Ambos estavam de acordo sobre a impossibilidade de efetuar-se um ataque por terra, que seria uma operação muito custosa e lenta. Impraticável, portanto. A surpresa e a rapidez eram essenciais. Existia, também o perigo de que a guarda houvesse recebido instruções no sentido de eliminar o Duce, antes de permitir a sua libertação. Skorzeny declarou então que a melhor tática seria uma descida de surpresa com planadores, na pista de grama próxima ao hotel. Simultaneamente, um batalhão de pára-quedistas avançaria pelo vale, no sopé do Gran Sasso, e ocuparia a estação terminal do teleférico para assegurar a retirada.

 

Os oficiais das unidades de pára-quedistas afirmavam que o plano era muito arriscado, pois jamais se havia tentado um assalto com planadores numa posição tão difícil. Calculavam ter, no mínimo, 70% de baixas. Porém, ante a inexistência de outra alternativa, o General Student aprovou o plano de Skorzeny. A operação começaria às 6h da manhã de 12 de setembro. Interviriam 12 planadores, num total de 108 homens.

 

No domingo, 12 de setembro, às 5h da manhã, Skorzeny e seus homens se reuniram no aeródromo. A chegada dos planadores se atrasara, e a operação sofre então um adiamento. Ao ataque se produziria às 14 horas. O General Soletti, alto chefe dos carabineiros, acompanharia os alemães; sua missão consistiria em tratar de dissuadir a guarda de Mussolini, para evitar qualquer resistência.

 

Depois de receber uma última saudação do General Student, os pára-quedistas e 17 soldados da SS se aprontaram a embarcar nos planadores. De súbito, soaram os alarmes. Várias esquadrilhas aliadas sobrevoaram em vôo rasante o aeródromo. O ataque, porém, não causou nenhum dano aos planadores e as pistas resultaram ligeiramente danificadas. À uma em ponto, a esquadrilha de planadores se elevou, rebocada opor vários aviões de transporte.

 

Poucos minutos antes da hora fixada para o ataque, Skorzeny e seus homens estavam sobre o objetivo. A ordem de desenganchar os planadores foi dada rapidamente. Os grandes aparelhos sem motor, silenciosamente, deslizaram para a terra e, um a um, foram aterrissando, com dificuldade, dada a inclinação da pista improvisada. Skorzeny, à frente dos SS, lançou-se em direção ao hotel. Havia ordenado para que ninguém disparasse se ele não o fizesse. O chefe alemão procurava, por todos os meios, evitar um choque e o conseqüente derramamento de sangue.

 

Entrementes, de uma janela, Mussolini testemunhara a descida dos planadores e o posterior avanço dos soldados alemães. Enquanto os carabineiros se aprontava para a defesa, Mussolini distinguiu no grupo de alemães que avançava a silhueta de um oficial italiano. Era o General Soletti. O Duce então, gritou energicamente aos soldados que se dispunham a abrir fogo: “O que estão fazendo? É um general italiano! Não disparem! Está tudo em ordem!”. Skorzeny, por sua vez, gritou ao Duce: “Saia da janela!”.

 

Em seguida, o chefe alemão, acompanhado pelos SS, irrompeu no interior do hotel e abrindo passagem entre os carabineiros que o contemplavam estupefatos, subiu correndo a escada até o primeiro andar. Ali abriu uma das portas e deparou com Mussolini. Dois oficiais italianos estavam com ele. Violentamente, Skorzeny os golpeou com sua metralhadora e os fez sair do quarto. A missão havia sido cumprida. O Duce estava a salvo. Não se haviam passado ainda três minutos do instante em que o primeiro planador havia tocado o solo.

 

Uma vez dominada a guarnição italiana e restabelecida a calma, Skorzeny se perfilou diante de Mussolini e lhe disse: “Duce, o Fuhrer me enviou para libertá-lo”. Mussolini, abraçando-o, respondeu: “Eu sabia que o meu amigo Adolf Hitler não me abandonaria”.

 

Em seguida, Skorzeny decidiu tirar Mussolini do Gran Sasso num pequeno avião. Tratava-se de um “Storch”, comandado pelo Capitão Gerlach. Este, depois de efetuar uma acidentada descida na pista reduzida, tornou a levantar vôo, conduzindo a bordo Mussolini e Skorzeny. O aparelho se elevou a duras penas e esteve a ponto de capotar na extremidade da pista que desembocava no vazio. Porém, com dificuldade, recuperou a estabilidade e tomou altura, afastando-se dali.

 

Ao chegar a Roma, o Duce foi transladado para um bombardeiro alemão e se dirigiu, em companhia de Skorzeny, para Viena, onde se reuniu com a família. A 13 de setembro, finalmente, voou até a Toca do Lobo, na Prússia Oriental. Ali era aguardado por Hitler. Goebbels assim descreveu a cena: “O encontro foi excepcionalmente amistoso. O Fuhrer estava fora do seu bunker em companhia do filho do Duce, Vittorio. Hitler e Mussolini se abraçaram depois da longa separação. Foi um exemplo profundamente comovedor de lealdade entre homens e camaradas”.

 

Nas conversações que ambos os ditadores mantiveram, resolveu-se que Mussolini estabeleceria um novo governo, com sede no norte da Itália.

 

A 18 de setembro, o Duce dirigiu, da rádio de Munique, uma mensagem ao seu país. Começou dizendo: “Depois de um longo silêncio, minha voz chega novamente até vocês...”. Em seguida anunciou a sua decisão de criar uma república “que será nacional e social no mais alto sentido da palavra; isto é, será fascista, voltando assim à nossa origem”. Na hora da derrota, Mussolini realizava uma última tentativa para devolver a vida a um movimento que agonizava: o fascismo. Não obstante, o Duce apenas conseguiria, com o apoio militar alemão, consolidar um governo carente de qualquer autoridade e apoio popular. A época da sua glória estava definitivamente encerrada.

 

Anexo

 

Caiu Mussolini!

Transcrevemos os comunicados transmitidos no dia 25 de julho de 1943, pela rádio de Roma, dando conhecimento ao mundo da queda de Mussolini.

A renúncia

“Sua Majestade o Rei aceitou a renúncia de seus cargos de chefe do Governo, Primeiro-Ministro, e Secretário de Estado, que lhe foi entregue por Sua Excelência, cavalheiro Benito Mussolini, e nomeou chefe do Governo, Primeiro-Ministro e Secretário de Estado a Sua Excelência, o Marechal da Itália, Pedro Badoglio”.

Proclama do rei

“Italianos: a partir de hoje assumo o comando de todas as forças armadas. Neste momento solene do destino do nosso país, cada um deve voltar a ocupar o seu posto de dever e de luta. Não se deve tolerar nenhuma dispersão. Não se deve permitir nenhuma recriminação. Cada italiano deve permanecer firme frente ao perigo em que se acha o sagrado solo da pátria. A Itália, com a coragem de suas forças armadas e a vontade resoluta de todos os italianos, reencontrará o caminho do seu futuro.

“Italianos: encontro-me mais do que nunca indissoluvelmente unido a todos vós na inquebrantável fé na imortalidade da Pátria - Vítor Emanuel. 25 de julho de 1943.

Proclama de Badoglio

“Por ordem do Rei, assumo o governo militar do país com todos os seus poderes. A guerra continua. A Itália, duramente castigada, com suas províncias invadidas e com suas cidades destruídas, mantém lealmente sua palavra empenhada de zelosa guardiã de suas tradições militares. Todos devem agrupar-se em torno de Sua Majestade o Rei, viva imagem da pátria e exemplo para todos.

“A palavra de ordem dada é clara. A determinação que recebemos é precisa e será escrupulosamente cumprida. Quem quer que tente prejudicar o seu normal cumprimento ou tencione alterar a ordem pública, será castigado de forma implacável. Viva a Itália! Viva o Rei! - Marechal da Itália, Pietro Badoglio. 25 de julho de 1943.

 

 

“... Sou o homem mais odiado da Itália...”

“De acordo com o previsto por Mussolini, a reunião do Grande Conselho devia ser confidencial; tratava-se de uma reunião na qual tudo poderia acontecer; era uma espécie de intercâmbio de idéias secretas. Prevendo uma longa discussão, em lugar de marcarem paras as 22 horas, como sempre, o Grande Conselho foi convocado para as 17 horas.

“Todos os membros do Grande Conselho estavam de uniforme: camisa negra. A reunião se iniciou pontualmente às 17 horas. O Duce ordenou a Scorza fazer a chamada. Não faltava ninguém. Mussolini começou sua exposição, conservando sobre a mesa os seus documentos. Os pontos essenciais do seu discurso foram: “Neste momento - disse - sou o homem mais detestado, mais odiado da Itália e isso é perfeitamente lógico por parte das massas ignorantes, sofredoras, esquerdizantes, desnutridas e submetidas aos sofrimentos físicos e morais dos bombardeios “libertadores” e das sugestões da propaganda inimiga... Ei não solicitei em nenhum momento que se entregasse o comando das forças armadas em operações... A iniciativa pertence ao Marechal Badoglio. Tenho aqui uma carta datada de 3 de maio de 1940...: “Reconhecemos a necessidade de uma direção única para as forças armadas. Criou-se a chefia de SM porém suas atribuições foram definidas somente para tempo de paz e não para caso de guerra. Agora é indispensável chegar a esta organização, porque a situação atual não permite adiamentos...”. Badoglio ... ao confirmar-se o cargo de SM como chefe, passa a desempenhar “um primeiríssimo plano”... Continua dizendo a carta: “Se tenho um orgulho é o de lhe haver servido fielmente, com devoção ilimitada”.

“Tal como as coisas estão, Mussolini não dirigiu nunca as operações militares. Não eram de sua competência. Uma vez apenas substituiu o Estado-Maior (por ausência de Cavallero) e foi na ocasião da batalha aeronaval de 15 de junho de 1942, que se desenrolou nas águas de Pantelleria. Aquela vitória pertence a Mussolini... Enfermo desde outubro de 1942, Mussolini pensava abandonar o comando militar, porém não o fez: lhe pareceu desonesto abandonar o navio “no meio da tempestade”. Esperava fazê-lo num “dia de sol” que até hoje não tivemos.. “Falou-se muito da ajuda alemã. Pois bem: é necessário reconhecer que a Alemanha se aproximou de nós generosamente. Mussolini pediu ao ministério correspondente a lista de elementos recebidos nos anos de 1940, 1941, 1942 e primeiro semestre de 1943. O total era impressionante: carvão, 40 milhões de toneladas; metais, 2 milhões e meio de toneladas; borracha, 222.000 toneladas; gasolina de aviação, 2220.000 toneladas; gasolina comum, 421.000 toneladas.

“Outro dos argumentos dos partidários da rendição é o seguinte: “Ninguém quer esta guerra!”. Pois bem; ninguém quer guerra nenhuma. Alguém quis por acaso a guerra de 1914-1918? A verdade é que nenhuma guerra é desejada quando começa, e se compreende perfeitamente porque. Chega a ser bem vista, se vai bem. Se vai mal, converte-se em repudiada. Até a guerra da Etiópia se tornou popular depois da vitória de Mai Ceu. A massa do povo é disciplinada e isso é o essencial.

“Hoje a ordem-do-dia de Grandi chama a Coroa à cena. Não é um pedido que faz ao Governo, mas sim ao rei. As possibilidades são duas: o rei poderá me dizer que as coisas não vão bem, mas que podem melhorar; e que, de acordo com o Estatuto do reino, considerando-me responsável pela situação, me elimina. Os círculos reacionários e antifascistas e os elementos devotados aos anglo-saxões apoiarão esta última medida.

“Senhores - conclui Mussolini - atenção! A ordem-do-dia de Grandi pode colocar em perigo a existência do regime.

“Estes foram os pontos essenciais do discurso de Mussolini. A discussão então foi aberta. Começou o Marechal De Bono, defendendo o exército das acusações que lhe eram feitas de sabotar a guerra. Não foi da mesma opinião o “cuadrunviro” De Vecchi, que afirmou que muitos oficiais superiores estavam cansados e exerciam uma perniciosa influência sobre as tropas.

“Depois falou Grandi. Foi uma violenta filípica o discurso de um homem que desafogava um rancor longamente acumulado. Criticou duramente a atividade do Partido, especialmente durante a gestão Starace (de quem foi um entusiasta defensor) e se declarou desiludido também com Scorza, que havia começado prometendo muito. “Minha ordem-do-dia - disse - tende a criar uma “frente nacional interna” que até hoje nunca existiu... É hora do rei assumir a responsabilidade. Depois de Caporetto, ele tomou posição e lançou uma pelo à Nação. Hoje se cala. Ou assume a parte de responsabilidade histórica que lhe corresponde, ou, não o fazendo, ele denuncia a carência da dinastia”.

“Seguiu com a palavra o Conde Ciano, que demonstrou que a Itália não provocara a guerra e que fizera o impossível para evitá-la; depois concluiu declarando que apoiava a ordem-do-dia de Grandi.

“Tomou a palavra Suardo, Presidente do Senado, e disse que faltava clareza à ordem-do-dia de Grandi. Declarou que se absteria de votar.

“Pediu e obteve a palavra o Ministro da Justiça, De Marsico, que falou vagamente, sem rferir-se à ordem-do-dia de Grandi.

“Um discurso de adesão a Grandi foi pronunciado por Bottai. Contra Grandi falou Biggini.

“À meia-noite, o Secretário Scorza propôs que se levantasse a sessão até o dia seguinte. Grandi, de pé, gritou: “Não! Estou contra a proposta. Começamos e devemos terminar esta noite”.

“Após um intervalo de 15 minutos, a sessão recomeçou. Falara, Bignardi, Frattari, Federzoni, Bastianini e Polverelli.

Em seguida, tomou a palavra Bottai, muito excitado, e depois Cianetti. Mais tarde, voltou a falar Scorza. Defendeu o Partido das acusações de Grandi, atacou os Estados-Maiores, e terminou afirmando que o Partido, livre da escória, representava o eixo da frente interna.

“Já antes da votação, podia-se vislumbrar as posições de cada um: existia um grupo de traidores, que havia compactuado com a monarquia; um grupo de cúmplices e um grupo de incautos que, provavelmente, não perceberam a importância do voto. E, no entanto, votaram!

“O secretário do Partido leu a ordem-do-dia de Grandi e chamou os presentes. Dezenove responderam  sim. Sete, não. Dois se abstiveram: Farinacci, que votou pela sua própria ordem-do-dia, e Suardo.

“Mussolini se levantou e disse: Vocês provocaram a crise do regime. A sessão está encerrada!”.

“O secretário Scorza ia fazer a “saudação do Duce”, quando Mussolini o deteve com um gesto e lhe disse: “Não. Dispenso isso”.

“Todos se retiraram em silêncio. Eram 2h40 do dia 25 de julho.

“O Duce se retirou ao seu gabinete, onde se reuniram os membros do Grande Conselho que haviam votado contra a ordem-do-dia de Grandi. Eram 3 horas quando Mussolini deixou o Palácio Venezzia. Scorza o acompanhou até Villa Torlonia. As ruas estavam desertas.

“Nessa noite, que será recordada como ‘a noite do grande Conselho’, discutira-se durante 10 horas. Talvez o copo já estivesse cheio, mas aquilo foi a gota que o fez transbordar”.

Este texto foi publicado pelo jornal Corriere della Sera. Autor: Benito Mussolini

 

 

“... O senhor é o homem mais odiado da Itália...”

“na manhã de 25 - domingo - Mussolini chegou, como sempre fazia havia 21 anos, ao seu gabinete. Eram, aproximadamente, 9 horas. Nas primeiras horas da manhã haviam circulado versões alarmantes a respeito da sessão do grande Conselho, porém o aspecto da cidade era extremamente tranqüilo. Scorza telefonou para dizer que ‘a noite fizera acordar a reflexão de muitos e havia arrependimentos’. ‘Muito tarde’, respondeu Mussolini. De fato, como Scorza havia dito, pouco depois chegou uma carta de Cianetti. Ela manifestava o seu arrependimento por haver votado favoravelmente à moção de Grandi, renunciava ao Ministério das Corporações e solicitava sua incorporação ao Exército, como capitão de artilharia.

“Por volta de 11 horas, o subsecretário do interior, Albini, entregou ao Duce as notícias das últimas 224 horas. A mais importante era o bombardeio de Bolonha. Depois de ler o informe, Mussolini perguntou a Albini: ‘Por que, ontem, votou a ordem-do-dia de Grandi? ... O senhor não é membro do Grande Conselho!’. Albini, pareceu perturbado diante da pergunta e respondeu: ‘Posso ter cometido u erro, porém ninguém pode colocar em dúvida minha absoluta devoção pelo senhor, devoção que não é de hoje, mas de sempre’.

“Um pouco mais tarde, Mussolini mandou telefonar ao General Puntoni para saber a que horas o rei estaria em condições de receber o chefe do Governo. O general respondeu que o rei o receberia às 17h, em Villa Ada.

“Às 14 horas, o Duce, acompanhado pelo General Galbiati, visitou o bairro Tiburtino, que fôra parcialmente afetado pelo atentado terrorista do dia 19 de julho.

“Às 16h50 Mussolini partiu para a Villa Ada. O Duce se encontrava absolutamente tranqüilo. Levou consigo uma pasta contendo o regulamento do Grande Conselho, a carta de Cianetti e outras notas, das quais se concluía que a ordem-do-dia do Grande Conselho era sem valor, dada a sua função puramente consultiva.

“Às 17 horas em ponto o automóvel entrou na Residência. No interior via-se um grupo de carabineiros, porém isso não despertou nenhuma suspeita. O rei, com uniforme de marechal, estava na porta da Villa. No vestíbulo havia dois oficiais. Depois de entrar em um pequeno salão, o rei, nu estado de agitação fora do normal nele, com a voz alterada, disse: ‘Querido Duce, as coisas vão mal. A Itália está num momento difícil. O exército está moralmente destruído. Os soldados não querem combater. Os alpinos cantam uma canção onde dizem que não querem mais guerrear por conta de Mussolini. O voto do Grande Conselho é tremendo. Dezenove votos pela monção de Grandi. O senhor não deve ter ilusões acerca do que os italianos pensam. Nesse momento, o senhor é o homem mais odiado da Itália. O senhor não conta mais senão com um só amigo. Uma apenas lhe resta: eu. Por isso lhe digo que não deve se preocupar por causa de sua segurança pessoal; eu me encarregarei de protegê-lo. Acho que o homem para esta situação é o Marechal Badoglio. Ele começará formando um ministério para administração e para continuar a guerra. Roma inteira conhece a ordem-do-dia do Grande Conselho e todos esperam mudanças’.

“Mussolini respondeu: ‘O Senhor está toando uma medida extremamente grave. A crise, neste momento, significa fazer o povo acreditar que a paz está próxima, se se afasta do poder o homem que declarou a guerra. O golpe moral será sério para o Exército. Se os soldados, alpinos ou não, não querem guerrear por Mussolini, não tem importância, desde que estejam dispostos a guerrear pelo  senhor. A crise será considerada um triunfo do binômio Churchil-Stalin, principalmente deste último, que assistirá à retirada daquele que foi seu antagonista de 20 anos de luta. Compreendo o ódio do povo. Não tive nenhuma dificuldade em reconhecê-lo esta noite no Grande Conselho. Não se governa tanto tempo e não se impõem tantos sacrifícios sem que isso provoque ressentimentos mais ou menos duradouros. De qualquer maneira, desejo sorte ao homem que tomar a situação nas mãos’.

“Eram exatamente 17h20 quando o rei acompanhou Mussolini até a porta de entrada. Estava pálido e parecia ainda mais baixo. Estreitou a mão de Mussolini e depois entrou novamente. Mussolini desceu a escadaria...

“Nesse momento, um capitão dos carabineiros o deteve e lhe disse: ‘Sua Majestade me encarregou de protegê-lo’. Mussolini em seguida quis dirigir-se a seu automóvel, mas o capitão, indicando com um gesto, uma ambulância que se encontrava ali perto, disse: ‘Não. É preciso utilizar aquele carro’. Mussolini subiu na ambulância, e com ele o seu secretário, De Cesare, Junto com o capitão, subiram um tenente, três carabineiros e dois agentes a paisana. Fechada a porta, a ambulância partiu a toda velocidade. Mussolini acabava de ser preso”.

Artigo publicado no Corriere della Sera. Autor: Benito Mussolini.

 

 

A resolução decisiva

Texto original da Ordem-do-dia aprovada pelo Grande Conselho Fascista, na histórica sessão que se prolongou entre a tarde de 24 e a madrugada de 25 de julho de 1943. Esta resolução determinou a queda de Mussolini.

“O Grande Conselho Fascista, depois de se ter reunido nesta hora de perigo, dedica uma saudade, antes de mais nada, aos heróicos combatentes de todas as armas que, ombro a ombro com a valorosa população da Sicília, que deu uma extraordinária demonstração da fé unânime do povo italiano, renovaram as nobres tradições de valor temerário e o indômito espírito de sacrifício de nossas gloriosas forças armadas.

“Depois de examinar a situação interna e internacional, a direção política e militar da guerra:

“Proclama o sagrado dever de todos os italianos de defender a todo custo a unidade, a independência e a liberdade da Pátria, os frutos dos sacrifícios e esforços de quatro gerações desde o ‘Risorgimento’ até nossos dias, assim como a vida e o futuro do povo italiano.

“Afirma a necessidade da união moral e material de todos os italianos nesta hora grave e decisiva para os destinos da nação.

“Declara que, para alcançar esse fim, é necessário o restabelecimento imediato de todas as funções estatais, atribuindo à Coroa, ao Grande Conselho,. Ao Governo, ao Parlamento e às Corporações, os feitos e responsabilidades fixadas por nossas leis estatutárias e constitucionais.

“Convida o Governo a rogar à Majestade do Rei, para o qual se dirige, fiel e confiante, o coração de toda a nação, a fim de que o Monarca se digne, pela honra e salvação da Pátria, assumir o comando das Forças Armadas de terra, mar e ar, segundo o artigo cinco do Estatuto do Reino, e a suprema iniciativa de decidir, que lhe atribuem nossas instituições, e que sempre tem sido, em toda nossa história nacional, a gloriosa prerrogativa de nossa augusta dinastia”.

Esta resolução foi assinada por: Ciano, De Bono, Grandi, De Vecchi, De Marsico, Acerbo, Pareschi, Cianetti, Federzoni, Balella, Gottardi, Bignardi, De Stefani, Bottai, Rossoni, Marinelli, Alfieri, Bastiani, Albini.

Votaram contra: Biggini, Polverelli, Tringali, Frattari, Scorza, Buffarini, Galbiati

Abstiveram-se: Suardo e Farinacci

 

 

Reação em Londres

(Vista pelos jornais da época)

A notícia da renúncia de Mussolini se propagou em Londres com um rastilho de pólvora. Apesar da hora tardia, a informação transcendental foi circulando de boca em boca nos termos em que os ouvintes escutavam o anúncio urgente feito pela BBC. A primeira impressão foi de incredulidade, porém logo os comentários chegaram a “Por fim Mussolini se foi!”. É evidente que o público começava a tomar consciência que se tratava do começo do fim da Itália e, em menor grau, da Alemanha. Observou-se que a frase de proclamação do rei: “Cada um deve voltar a ocupar seu posto de dever”, implica que muitos estavam ausentes de seus cargos. Os Aliados sabiam que na Itália estavam ocorrendo greves, desordens, etc., porém não sabiam ser graves a ponto de constituir obstáculo para a defesa do país. A frase podia indicar que as desordens públicas obrigaram Mussolini a renunciar e o rei a assumir a responsabilidade da situação. Além disso, os Aliados vinham fazendo uma grande campanha de propaganda para debilitar internamente a Itália. Espera-se que tal campanha seja intensificada, juntamente com as operações militares, para tirar todo o proveito possível da crise italiana. A “renúncia” de Mussolini apanhou realmente os Aliados de surpresa. Ainda que ela fosse prevista como inevitável, nunca se pensou que ocorresse tão depressa. Se bem que, de acordo com as declarações de Badoglio, a Itália continuasse na guerra, é evidente que uma nação não apeia do poder num momento de perigo um homem que por 20 anos regeu os seus destinos. Por outro lado, ainda que no momento não haja sintomas de divergências na Itália, é indiscutível que a renúncia e suas conseqüências terão fundas repercussões no país. Enquanto os meios oficiais britânicos observavam uma reserva jubilosa, a autorizada agência noticiosa Associated Press comentava: “Estão contados os dias da Itália como membro do Eixo e, em conseqüência, como aliada beligerante da Alemanha. Esta noite não podemos interpretar de outro modo os surpreendentes acontecimentos anunciados pela Rádio de Roma, tão inesperadamente. Mussolini caiu, e com ele todo o regime fascista deve, inevitavelmente, desabar em ruínas”. Sir Frederick Kenyon, Presidente da Sociedade Amigos da Itália Livre declarou: “Espero que isto signifique a retirada da Itália da guerra, e que se dê aos italianos a oportunidade de eleger seu governo, livres da Alemanha e do fascismo”.

 

 

O armistício

Às 17h15 de 3 de setembro de 1943, o General Castellano, representante do governo do Marechal Badoglio, assinou, no QG aliado, na localidade de Casibile, Sicília, o armistício com as nações aliadas. Reproduzimos as cláusulas do histórico documento:

1o - Cessação imediata de toda atividade hostil das forças armadas italianas

2o - A Itália fará todo o possível para privar a Alemanha de facilidades que possam desfavorecer as Nações Unidas.

3o - Serão imediatamente entregues ao chefe supremo aliado todos os prisioneiros ou internados das Nações Unidas, nenhum dos quais será evacuado para a Alemanha nem agora nem nunca.

4o - Translado imediato da frota e da aviação italiana aos lugares determinados pelo chefe supremo aliado, que fixará os detalhes para o desarmamento.

5o - O chefe supremo aliado poderá requisitar a marinha mercante italiana para fazer frente às necessidades do seu programa militar e naval.

6o - Rendição imediata aos Aliados da Córsega e de toda a Itália, tanto ilhas como região peninsular, para seu uso como base de operações ou outros fins que os Aliados considerem conveniente.

7o - Imediata garantia de livre emprego pelos Aliados de todos os aeródromos, e portos navais em território italiano.

8o - Imediata retirada, para a Itália, de todas as forças italianas que cessarão a sua atuação na guerra atual, nas zonas em que se encontrem lutando.

9o - Garantia do governo italiano de que, caso seja necessário, utilizará as forças armadas disponíveis para assegurar o imediato e exato cumprimento de todas as condições deste armistício.

10o - O chefe supremo aliado se reserva o direito de adotar qualquer medida que na sua opinião possa ser necessária para a proteção dos interesses das forças aliadas. O governo italiano fica obrigado a tomar medidas administrativas ou outras que o chefe aliado requerer e, principalmente, o chefe supremo aliado estabelecerá um governo militar aliado em qualquer parte do território italiano, segundo julgue conveniente, em benefício dos interesses militares das Nações Unidas.

11o - O chefe supremo aliado terá pleno direito de impor os meios de desarmamento, desmobilização e desmilitarização.

12o - Mais tarde serão fixadas outras condições de caráter político, econômico e financeiro que a Itália terá a obrigação de cumprir.

 

 

Badoglio

Nasceu em Grazzano Monteferrato, a 28 de setembro de 1871. Formou-se na Academia Militar de Turim como oficial de artilharia em 1890. Tomou parte na campanha da Eritréia entre 1896 e 1897. Após cursos na Escola de Guerra foi promovido a capitão de Estado-Maior. Participou na guerra da Líbia, sendo promovido a major. Durante a guerra ítalo-austríaca, foi coronel chefe do Estado-Maior do 4o Corpo de Exército, passando em 1916 a comandar uma coluna de infantaria, com a qual conseguiu apoderar-se do maciço montanhoso de Sabotino, importante posição da Goritzia, cuja conquista havia preparado cuidadosamente, marcando com esse feito o início da série de promoções por méritos de guerra. O nome do General Badoglio está unido às vitórias de Vodice, Monte Santo, Piave, e Vittorio Veneto. Depois de deixar o comando do 27o Corpo de Exército, em novembro de 1917, foi nomeado segundo chefe do Alto-Estado-Maior, junto com o Genral Diaz, de quem foi o mais eficaz colaborador. Na projetada operação para invadir a Alemanha através da Áustria, em novembro de 1918, Badoglio deveria assumir o comando do exército destinado àquela empresa, composto em grande parte por unidades italianas reforçadas por elementos aliados. Ao terminar a guerra européia, foi chefe da comissão italiana de armistício e depois comissário extraordinário na Venecia-Julia. Posteriormente desempenhou os seguintes cargos: chefe do Estado-Maior do exército (novembro 1919-21); enviado extraordinário na Romênia e na América do Norte (1921); embaixador no Brasil (1924-25); chefe do Estado-Maior-Geral e, depois governador da Líbia (1929-1933).

A 16 de novembro de 1935 foi nomeado alto comissário das colônias da África oriental e poucos dias depois comandante superior das forças coloniais, porém sem abandonar a chefia do Estado-Maior-Geral. A campanha da Abissínia culminou com sua entrada triunfal em Addis Abbeba, a 5 de maio de 1936. Cinco dias depois era nomeado vice-rei da Etiópia, cargo que deixou a 21 de junho para reintegrar-se plenamente em suas funções de chefe do Estado-Maior-Geral. A 21 de setembro de 1937 foi eleito presidente do Conselho Nacional de Riqueza. Badoglio foi nomeado marechal da Itália em junho de 1926. Ostentou os títulos de Marquês de Sabotino, concedido e, 1929 como lembrança daquela conquista, e de Duque de Addis Abbeba, em 1936. Foi senador do reino desde 1919 e lhe foi outorgado o colar da Annunziata, suprema condecoração da Itália. Badoglio morreu em 1956.

 

 

À beira da morte

Otto Skorzeny relata a dramática decolagem do pequeno avião Storch, em que deixou, junto com Mussolini, o monte Gran Sasso

“O Duce apareceu na porta do hotel trajando um capote preto, com a cabeça coberta por um chapéu mole de feltro preto. Fomos até o Storch, que estava prestes a decolar. Eu me apertei atrás do segundo assento e Mussolini se acomodou quase aos meu pés. Ao subir a bordo eu havia notado nele uma expressão de dúvida, e me lembrei que ele era piloto também e que tinha consciência de que forçávamos a viver uma aventura que na tinha de sensata. Murmurou algo entre os dentes. Eu só pude entender: - Se o Fuhrer assim deseja!

“O motor se movimentou. Fizemos uma última saudação de despedida aos nossos camaradas que ali ficavam. Agarrei fortemente, com ambas as mãos dois tubos de aço do aparelho e procurei aumentar o equilíbrio do avião, oscilando o meu corpo, a fim de ajudá-lo a levantar vôo. Começamos a rodar. Através das janelinhas, me pareceu que meu homens e os italianos nos gritavam algo, alertando-nos. Apesar da velocidade aumentar e de estarmos já quase no final da improvisada pista, continuávamos pregados ao solo. Procurei fazer contrapeso com todas as forças do meu corpo e percebi que em alguns momento saltávamos uns obstáculo do terreno... Inesperadamente, nosso ‘pássaro’ levantou vôo. Graças a Deus! Porém... a roda esquerda do avião bateu fortemente contra o solo, o avião se inclinou um pouco para a frente e começou a trepidar. Fechei os olhos! Sabia que não podia fazer nada! Contive a respiração e aguardei resignadamente que chegasse o nosso fim...

“O vento ululava cada vez mais forte em torno de nós. Creio que o perigo durou apenas uns poucos segundos. Quando voltei a abrir os olhos, Gerlach (o piloto) havia recuperado o domínio do aparelho e o mantinha em vôo horizontal... Havíamos superado a difícil prova! Os três estávamos extremamente pálidos, porém nenhum de nós disse uma só palavra. Deixei de lado toda cerimônia e pus minha mão no ombro de Mussolini, a quem acabávamos de salvar pela segunda vez”.

 

 

 

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