O primeiro embate na Itália
Invasão aliada da
península italiana:
Ataque inglês pelo sul (Calábria)
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Poucos dias depois do desembarque aliada na Sicília, o Primeiro-Ministro britânico Winston Churchill entrevistou-se em Londres com o Secretário da Guerra americano Henry Stimson. Churchill, decidido partidário da invasão do território continental italiano, explicou, mais uma vez, as múltiplas razões que o inclinavam a apoiar essa tática. Já em carta ao Marechal Smuts lhe expressara os alcances do seu ambicioso plano: “Não só devemos tomar Roma e marchar rumo ao norte, tanto quanto seja possível na Itália, mas também a nossa mão direita deve ir em auxílio dos patriotas dos Balcãs. Tenho confiança em que se obterá um resultado favorável e farei tudo o que estiver ao meu alcance para conseguir a aprovação dos nossos aliados”. Estes mesmos argumentos foram transmitidos a Stimson, não só por Churchill, mas também por Eden, ministro da guerra britânico, que declarou claramente que a guerra não deveria limitar-se à Itália, mas estender-se também à Iugoslávia e à Grécia. Stimson aventou que, se fosse empreendida essa operação, seria impossível efetuar a invasão do continente europeu, num prazo razoavelmente curto, por meio de um desembarque nas costas francesas. Churchill, por sua vez, afirmou que a invasão deveria se efetuar apenas quando os britânicos e americanos estivessem em condições de realizá-la e não quando a pressão das exigências russas os fizessem sentir-se obrigados a efetuá-la. O primeiro-ministro inglês sustentou, em seguida, que uma tentativa prematura poderia redundar numa verdadeira catástrofe. Entrementes, o General Eisenhower, a quem Roosevelt e Churchill haviam dado carta branca para decidir qual seria o passo seguinte, após a conquista da Sicília, estudava as possibilidades alternativas, para chegar ao objetivo que lhe haviam indicado: eliminar a Itália como força combatente. |
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Decide-se o ataque
à Itália A 28 de junho de 1943, Eisenhower enviara um informe às autoridades militares em Washington, expondo os seus pontos de vista. Caso a invasão da Sicília se desenrolasse favoravelmente, e o Governo italiano não demonstrasse claramente o seu desejo de abandonar a luta, efetuaria a invasão do território continental, desembarcando tropas na região da Calábria. Esta operação seria secundada, se necessário, por outros dois desembarques, um mais ao norte, e outro na Sardenha. O Estado-Maior-Conjunto aliado aprovou, a 17 de julho, o plano de Eisenhower e expressou, também, o seu interesse num possível desembarque efetuado diretamente em Nápoles. Aprovou-se, nessa mesma ocasião, e com o objetivo de permitir a Eisenhower levar adiante os seus projetos, o envio ao setor do Mediterrâneo de 66.000 soldados de reforço. Os americanos, porém, deixaram claramente estabelecido que esse constituiria o último contingente de tropas de importância que enviariam a esse setor. Recusaram-se portanto a atender o pedido dos britânicos no sentido de que outros 50.000 homens engrossassem as forças do Mediterrâneo, e se mantiveram firmes na sua posição de enviar sete divisões aliadas, após a conquista da Sicília, para a Inglaterra, com o objetivo de começar o adestramento para a operação Overlord (invasão da França). Churchill, por sua vez, procurou impedir o transporte das tropas, como os americanos exigiam, porém nada conseguiu. O Alto-Comando americano não alterou os seus propósitos. Tanto Marshall como Eisenhower achavam que as operações na Itália deveriam ser de alcance estritamente limitado. O objetivo imediato da invasão seria ocupar a grande base aérea de Foggia, ao sul da península, para localizar ali as esquadrilhas de bombardeiros aliados que se destinariam a golpear o setor sul da Alemanha. O segundo objetivo, de alcance estratégico, consistia em obrigar os alemães a empenhar na luta, em defesa de Roma e dos centros industriais do norte da Itália, a maior quantidade de tropas possível. Isso seguramente acarretaria a necessidade de retirar unidades da zona do Canal da Mancha, onde os Aliados pensavam em desembarcar no ano seguinte. Por volta de 20 de julho tornou-se evidente que os italianos ofereceriam escassa ou nula resistência a uma invasão da península. Eisenhower resolveu então suspender o ataque contra a ilha da Sardenha e empregar o 5o Exército americano do General Clark, designado para essa operação, na invasão direta do território continental italiano. Desta decisão surgiu um novo plano inteiramente novo. As forças inglesas desembarcariam, como já estava previsto, na extremidade da “bota”. O 5o Exército de Clark, por sua vez, desembarcaria ao norte, na zona de Nápoles, nas praias de Salerno. Este desembarque recebeu o nome de Avalanche. A 25 de julho de 1943, produziu-se a queda de Mussolini. Com a instauração do governo do Marechal Badoglio, os italianos iniciaram as negociações para depor as armas, fato que abriu perspectivas favoráveis nos planos aliados de invasão. O Estado-Maior-Conjunto decidiu então aprovar os projetos Avalanche e Baytown (desembarque do 8o Exército de Montgomery no extremo sul da península). Conferência de
Quebec Por iniciativa de Churchill, que empreendeu viagem através do Atlântico, efetuou-se na cidade de Quebec, no Canadá, uma importante reunião, da qual participaram o primeiro-ministro inglês, o Presidente Roosevelt, e altos chefes militares ingleses e americanos. O objetivo da entrevista era determinar, de maneira definitiva, a estratégia a seguir, num futuro imediato, tendo em vista uma rápida derrota das forças do Eixo. A conferência, cognominada de Quadrant, efetuou-se entre os dias 12 e 24 de agosto de 1943. Enquanto Churchill se encontrava ainda em viagem, o Presidente Roosevelt combinou com seu chefes militares insistir com o primeiro-ministro, em que o plano de invasão do continente europeu através do Canal da Mancha fosse levado à prática o mais cedo possível. Paralelamente, não se deveria avançar além de Roma - achava o Alto Comando americano - até que se concretizasse o ataque à França. No decorrer da reunião, Churchill opôs novamente uma série de críticas à posição americana de concretar o esforço máximo na preparação da invasão da França. O primeiro-ministro inglês, todavia, concordou que se iniciasse sem demora a prontidão das forças. Concordou também com a data prevista: maio de 1944. O consentimento de Churchill ficava estritamente ligado à evolução militar, caso na época houvesse condições favoráveis. Para o primeiro-ministro era imprescindível que a aviação alemã fosse debilitada ao máximo, antes da operação. Também não poderia existir na zona costeira do norte da França uma força superior a 12 divisões móveis alemães. As exigências de Churchill eram, efetivamente, fundamentadas, posto que os alemães, obrigados pelo avanço russo, se veriam compelidas a deslocar para a frente do leste a quase totalidade de suas unidades. Por outro lado, as divisões alemães que custodiavam a “Muralha do Atlântico” eram constituídas, em sua maioria, por tropas de segunda classe. Também, grande quantidade de prisioneiros de guerra (russos, poloneses, etc.) haviam sido designados para o serviço das baterias antiaéreas e trabalhos de manutenção. Nas discussões que se travaram, Churchill tentou, mais uma vez, que os americanos emprestassem maior importância ao teatro de guerra do Mediterrâneo. Porém, depois de três dias de acalorados debates entre os chefes militares, resolveu-se definitivamente que o plano Overlord, (Invasão da França através do Canal da Mancha) tivesse prioridade absoluta sobre as demais operações. Com relação ao Mediterrâneo, mantinha-se em pé o plano de Eisenhower: desembarcar no sul da Itália, avanço para Roma, e conquista da Sardenha e da Córsega. Aprovaram-se também outras medidas de grande importância. Dar-se-ia o máximo apoio ao plano Point-Blank) ofensiva combinada anglo-americana de bombardeio aos cetros vitais da Alemanha); autorização a MacArthur para continuar as suas operações ofensivas rumo às Filipinas; ocupação das ilhas Gilbert, Marshall e Marianas, no Pacífico; ofensiva no norte da Birmânia, para reabrir a rota para a China; instalação de bases aéreas na China, para serem usadas pelas B-29 (“super-Fortalezas Voadoras”, cuja construção então se iniciara). A conferência de Quebec chegou assim ao fim, depois de autorizar a realização de medidas militares que seriam vitais e decidiriam o destino da guerra. A última
tentativa de Churchill No dia 8 de setembro de 1943 anunciou-se oficialmente a capitulação da Itália. No dia seguinte, teve lugar uma reunião na Casa Branca em Washington. Foi assistida pelo Presidente Roosevelt, Winston Churchill, e pelos altos chefes militares aliados. O primeiro-ministro britânico decidiu aproveitar o auspicioso clima criado pela rendição italiana, para fazer uma última tentativa em favor de seus planos ofensivos no Mediterrâneo. Com sua verbosidade habitual, leu um extenso memorando, no qual resumia os seus argumentos a respeito da luta no Mediterrâneo. Acreditava o primeiro-ministro que, como ações imediatas, seria necessário incorporar as forças militares italianas do lado aliado, suavizando os termos do armistício. Também, as tropas aliadas, uma vez ocupada Nápoles, deveriam avançar o mais possível para o norte, pressionando os alemães contra os Alpes. Deveriam também efetivar um acordo entre as tropas italianas que permaneciam nos Bálcãs e os movimentos locais de guerrilheiros. Isso permitiria o estabelecimento de cabeças-de-ponte nas costas iugoslavas, das quais as tropas aliadas, enviadas da frente italiana, poderiam avançar para o norte, rumo à Hungria, à Bulgária, à Áustria e à Tchecoslováquia. Assim, pela primeira vez, Churchill expôs claramente ante os americanos o vasto alcance de sua estratégia no Mediterrâneo. A ofensiva aliada, que se iniciara como uma operação limitada contra a Itália, passaria a converter-se num movimento decisivo que levaria os soldados americanos e britânicos ao coração da Europa. À luz dos acontecimentos posteriores pode-se deduzir como era extraordinária a visão de Churchill. De fato, se o seu plano tivesse sido adotado, os países da Europa oriental teriam tido um destino muito diferente do que lhes tocou no após-guerra. Churchill ampliou a sua argumentação com um vaticínio sumamente auspicioso. A seu ver a ação dos Aliados nos Bálcãs provocaria, assim como na Itália, a defecção da Bulgária, Romênia e Hungria da causa do Eixo, fato que, muito provavelmente, impulsionaria finalmente a Turquia a tomar partido na guerra junto com os Aliados. As palavras de Churchill, porém, caíram no vazio. Os chefes militares americanos já haviam resolvido qual a estratégia que segundo o seu critério, era a única que permitiria concretizar, a curto prazo, e de forma total, a derrota da Alemanha: invasão em grande escala, através do norte da França e avanço direto rumo ao centro vital da Alemanha (zona do Rhur). Esta empresa só se poderia alcançar utilizando como base a Inglaterra, posto que as ilhas britânicas eram o único ponto apto para efetivar a concentração de uma tal massa de homens e materiais, e servir, inclusive, posteriormente, como centro de abastecimento. Assim se concluíram as conversações entre os principais líderes aliados. Como assinalou o Secretário de Guerra americano Stimson, o “plano Overlord a partir desse momento se convertia definitivamente na carta de triunfo dos Aliados”. Paralelamente, a luta na Itália passava a converter-se no que as tropas chamaram “a guerra esquecida”. Preparativos para
o desembarque Enquanto essas reuniões ocorriam, na Sicília e na África do Norte ultimava-se a elaboração dos planos e a concentração de forças. A operação Avalanche (ataque contra Salerno) seria efetuada pelo 5o Exército do General Clark, que incluía o 6o Corpo americano (divisões de infantaria 34a, 36a, 1a blindada e 82a Aerotransportada) e o 10o Corpo Britânico (divisões de infantaria 46a, 56a e 7a blindada). A operação Baytown (desembarque no extremo da península) dirigida por Montgomery, seria realizada pelo 13o Corpo de Exército (divisões 5a britânica e 1a canadense). Eisenhower decidiu também ocupar o porto de Tarento, desembarcando ali a 1a Divisão Aerotransportada britânica. A efetivação dos movimentos aliados oferecia, apesar de sua superioridade em homens e material, riscos consideráveis, especialmente na zona de Salerno. Embora as praias fossem especialmente aptas para um desembarque, as montanhas vizinhas que poderiam ser utilizadas pelos alemães para localizar suas baterias, significavam um grande risco e anulavam a vantagem da amplidão da praia. Se os Aliados ficassem bloqueados na cabeça-de-ponte, os alemães poderiam transferir rapidamente suas forças do norte e do sul e lançar ao mar as tropas de Clark. Sob o comando do Marechal Kesselring, os alemães contavam, no sul da Itália, com três divisões Panzer, duas Panzergrenadier e duas de pára-quedistas. Estas forças contavam, também, com forte proteção aérea. Ante as evidentes dificuldades que poderiam surgir, o General Clark estudou a possibilidade de desembarcar no norte de Nápoles, e não na baía de Salerno, pois ali o terreno era plano e não existia nenhuma barreira montanhosa que bloqueasse o avanço para o interior. Porém, os chefes da aviação aliada argumentaram que os caças careciam de suficiente raio de ação para operar nessa zona. Portanto, finalmente, decidiu-se correr o risco de levar adiante o desembarque em Salerno. A operação se empreenderia a 9 de setembro. Lançar-se-ia às praias cerca de 125.000 soldados. Clark, por sua vez, planejara lançar os pára-quedistas ao norte da cabeça-de-ponte, sobre as margens do rio Volturno, com a missão de dinamitar as pontes desse rio e bloquear os caminhos, a fim de impedir que as forças alemães estacionadas na zona de Roma convergissem sobre Salerno. A 23 de agosto, Clark e Montgomery celebraram a última reunião com Eisenhower, Alexander, Spaatz, o Almirante Cunningham e o Marechal-do-Ar Tedder, para dar os toques finais nos planos da invasão. Aprovou-se o projeto operativo de Clark, especialmente no tocante ao lançamento de pára-quedistas da 82a Divisão. Decidiu-se também, definitivamente, com a aprovação de Montgomery, que a investida do 8o Exército contra o extremo da península seria uma manobra de distração. O ataque principal estaria a cargo do 5o Exército de Clark, em Salerno. No último momento, a 3 de setembro, dia fixado para o ataque das tropas inglesas no extremo sul, produziu-se uma inesperada alteração nos planos. Nesse dia, de fato, o general Castellano, delegado do Marechal Badoglio, comunicou aos Aliados a resolução do seu governo de formar o armistício, apondo, em seguida, a sua rubrica no mesmo. Anunciou, porém, a grande preocupação que existia em Roma acerca da atitude que, na emergência, os efetivos alemães tomariam, quando cinco dias depois, se desse publicidade ao texto da capitulação. Eisenhower resolveu então apoiar os italianos lançando a 82a Divisão Aerotransportada sobre Roma. E comunicou essa resolução ao General Clark, o qual, profundamente contrariado, compreendeu que a decisão de Eisenhower jogava por terra o plano de anular, com os pára-quedistas, as pontes do Volturno. Disse então ao seu superior: “Tirar-me a 82a no momento de começar a luta é como cortar o braço esquerdo”. Apesar dos seus protestos, Clark não conseguiu que Eisenhower voltasse atrás em sua decisão (A 82a Divisão Aerotransportada, no entanto, acabou não sendo lançada sobre a capital da Itália. Foi empregada, posteriormente, para reforçar a cabeça-de-ponte de Salerno). A ofensiva aérea Com o fim de abrir caminho às forças de invasão, a aviação aliada efetuou uma série de devastadores e ininterruptos ataques contra o território continental italiano. Estas ações tinham por objetivo principal, em primeiro lugar, anular a capacidade da aviação alemã. Para tanto, os bombardeiros pesados haviam já iniciado com muita antecedência o ataque aos aeródromos inimigos situados na Itália meridional e central. Por volta de 18 de agosto o objetivo havia sido praticamente alcançado. Com exceção da grande base de Foggia, a aviação americana e britânica havia arrasado a quase totalidade dos campos de aterrissagem da Itália meridional. Resolveu-se então, destruir Foggia. A 25 de agosto, 140 caça-bombardeiros P-37 efetuaram uma incursão contra o aeródromo de Foggia, destruindo os aviões estacionados em terra e causando grandes estragos nas instalações. Em seguida, e pelo espaço de 30 minutos, 136 Fortalezas-Voadoras B-17 lançaram 240 toneladas de bombas explosivas e de fragmentação, arrasando os edifícios da base e destruindo mais de 60 aviões alemães. Este reide teve decisiva influência no curso das operações, pois eliminou praticamente a aviação de caça do Eixo do teatro de operações. Conseguida a supremacia aérea, os bombardeiros aliados foram dirigidos contra o sistema de comunicações inimigo, com o propósito de retardar o movimento das reservas até a zona de luta e isolar os futuros campos de batalha. A maior parte dos abastecimentos e reforços alemães que chegavam à Itália meridional deviam atravessar, no seu trajeto para o sul, por via férrea, os grandes centros ferroviários de Roma, Nápoles e Foggia. Conseguindo-se a destruição dos pátios de manobras desses centros, o transporte de homens e materiais se veria seriamente comprometido. Decidiu-se, portanto, que os bombardeiros atacariam esse alvos. Cumprindo este plano, as esquadrilhas aliadas realizaram desde 18 de agosto até a véspera do desembarque mais de 4.500 incursões contra as linhas de comunicações do inimigo, lançando perto de 6.500 toneladas de bombas. O reide mais devastador foi realizado contra os pátios de manobras da estação de Foggia; 162 Fortalezas-Voadoras e 71 Liberators lançaram uma chuva de 600 toneladas de bombas sobre o objetivo. Os caças e a artilharia antiaérea alemã ofereceram encarniçada resistência à incursão e conseguiram abater cinco bombardeiros e avariar outros 17. A missão porém, coroou-se de pleno êxito. Para isso contribuiu um segundo ataque realizado nessa mesma noite, por várias esquadrilhas de bombardeiros Wellington, da RAF. Como resultado do ataque se conseguiu cortar todas as linhas férreas que uniam Foggia com Nápoles e Bari. Destruíram-se centenas de vagões e locomotivas e causaram-se graves danos ao pátio de manobras e às fábricas vizinhas. As Fortalezas-Voadoras estenderam os seus ataques ao norte da Itália, para interromper as comunicações da Alemanha com a península. No dia 31 de agosto, 152 B-17 bombardearam Pisa, onde lançaram 450 toneladas de bombas. O ataque se prolongou posteriormente a Bolonha e Pescara. Finalmente, às vésperas do desembarque aliado, se efetuou uma incursão contra a linha vital do Passo de Brennero, que, através dos Alpes, unia a cidade de Innsbruck, em território alemão, com Bolzano, na Itália. Vinte e quatro B-17 destruíram uma das pontes que conduziam ao sul, sobre o rio Iscara. Posteriormente, outras 19 Fortalezas-Voadoras inutilizaram outras duas pontes sobre o rio Afígio. Desta forma, a rota do Passo de Brennero, a mais curta e direta entre a Itália e a Alemanha, ficou temporariamente bloqueada, no momento crítico da invasão. Enquanto os bombardeiros pesados realizavam suas operações de longo alcance, os médios concentravam os seus ataques nos pátios de manobras ferroviárias da Itália meridional. O alvo mais bombardeado foi Salerno, cujas estações ferroviárias foram objeto de cinco devastadores ataques pelos Wellington e Mitchell. Caça-bombardeiros P-40 e Mosquitos britânicos fustigaram continuamente os trens, veículos em marcha, estações ferroviárias e concentrações de tropas. Nos primeiros dias de setembro, a aviação aliada havia cumprido a missão que lhe fora confiada. Com seu incessante bombardeio, forçou a Luftwaffe a abandonar a Itália meridional, causando-lhe paralelamente enormes perdas. Para se ter uma idéia do domínio aéreo aliado na península, basta saber a cifra de aviões alemães que a Luftwaffe chegou a lançar diariamente contra as formações inimigas: 50 a 100 aparelhos, no máximo. A força aérea aliada concretizou a destruição das linhas de comunicações, a tal ponto que os movimentos ferroviários ao sul de Nápoles ficaram praticamente paralisados. Este fato obrigou os alemães a efetuar os seus transportes, em sua quase totalidade, por meio de veículos motorizados, com o que aumentou a drenagem de suas escassas reservas de combustível. Deste modo, as unidades motorizadas de combate (divisões Panzer e Panzergrenadier) tiveram também mais limitadas as suas possibilidades de ação para enfrentar o ataque aliado. As zonas de combate, graças à ação da aviação, ficavam assim isoladas. Agora cabia às forças terrestres concluir o trabalho que as aéreas haviam começado. Assalto à
Calábria Na noite de 1o de setembro de 1943, o Marechal Kesselring ordenou às unidades da 29a Divisão Panzergrenadier que estavam localizadas na ponta da “bota” italiana, na zona de Reggio Calábria, que se retirassem imediatamente para o norte, no maior segredo. O chefe alemão, ante os informes do seu serviço de exploração, que confirmavam o iminente ataque das forças britânicas concentradas do outro lado do Estreito de Messina, resolveu assim evitar a investida inglesa. Kesselring presumia já que o ataque principal aliado se dirigiria à zona de Nápoles, único porto de importância em condições de assegurar o abastecimento das unidades anglo-americanas em vasta escala. Decidiu portanto, concentrar suas forças nas proximidades desse porto e cobrir sua retirada do sul mediante manobras de contenção e dinamitação de pontes e estradas na zona montanhosa do extremo sul da península. Esta guerra “se sapadores”, de que os alemães eram hábeis cultores, lhe permitiria conter o avanço das forças inglesas que desembarcaram na Calábria e ganhar tempo suficiente para lançar o grosso de suas unidades contra o segundo desembarque aliado, que, sem dúvida, se efetuaria mais ao norte. As medidas adotadas pelo chefe alemão eram as únicas acertadas e possíveis na emergência. Montgomery, por sua vez, foi informado do recuo dos alemães, por “comandos” desembarcados na costa da Calábria. Apesar disso, os planos britânicos de ataque não sofreram alteração alguma. Assim, na tarde de 2 de setembro, foram concentradas nas costas sicilianas, no Estreito de Messina, mais de 600 peças de artilharia, para cobrir, com seu fogo, o desembarque das tropas inglesas nas costas da Itália continental. Numerosas esquadrilhas de caça-bombardeiros, unidades da esquadra e embarcações armadas com lança-foguetes foram mobilizadas para apoiar o ataque. A operação foi preparada como se fosse encontrar na margem oposta uma resistência fortíssima. Às 4h30 da madrugada de 3 de setembro, a artilharia britânica abriu fogo e o manteve, violentíssimo, durante meia hora. Após o bombardeio, os destróieres e barcos lança-foguetes se aproximaram dos pontos de desembarque na costa, as localidades de San Giovanni e Reggio, lançando um dilúvio de projéteis. Esta ação não recebeu resposta alguma. Uma testemunha desse episódio, sintetizou-o numa só frase: “Nenhum canhão respondeu ao bombardeio inglês”. Desta maneira se iniciou o insólito desembarque. Deslocando-se através das tranqüilas e ensolaradas águas do Estreito de Messina, 300 embarcações de desembarque de todos os tipos transportaram num incessante ir e vir, através do Estreito, as forças, armas e equipamentos do 13o Corpo de Exército. A 5a Divisão britânica desembarcou nas praias de San Giovanni; a 1a canadense, por sua vez, o fez em Reggio. Em nenhuma das duas cabeças-de-ponte se encontrou resistência, nem campos de minas, que dificultassem o desembarque. Praticamente a operação se efetuou sem sofrer nenhuma baixa. Pouco depois das 9 da manhã, o General Montgomery cruzou o Estreito e chegou à costa em um veículo anfíbio. Ali foi recebido pelas tropas com entusiásticas aclamações. Antes da meia-noite de 3 de setembro, as forças britânicas haviam transposto os planaltos, prolongamentos das praias, e se internaram em direção ao norte. O avanço continuou sem achar praticamente oposição alguma. Os vôos realizados pelos aviões de reconhecimento e pelas esquadrilhas de caças revelaram que na zona não existiam forças inimigas dispostas a enfrentar o ataque. Para Montgomery era evidente já que o plano de Kesselring consistia em recuar suas forças e organizá-las numa segunda linha, retardando o avanço britânico mediante dinamitações e ações de retaguarda. Durante os dias 4 e 5 as tropas efetuaram contínuos progressos em ambas as margens da ponta da “bota” italiana, apesar dos obstáculos interpostos no seu caminho pelos sapadores alemães. Em sucessivos choques com as unidades de retaguarda, mais de 2.000 soldados italianos haviam caído prisioneiros. A aviação realizava intensos ataques contra os centros de comunicações de Catanzaro e Cosenza, que dominava as vias de retirada dos alemães para o norte. A Luftwaffe, por sua vez, não ofereceu, praticamente, nenhuma resistência. Alguns aviões alemães tentaram fustigar a concentração de barcos aliados, porém foram logo rapidamente repelidos pelos caças e pela artilharia antiaérea. Foram derrubados sete aviões alemães. Assim, enquanto as forças do 5o Exército do General Clark iniciavam seu deslocamento por mar rumo às praias de Salerno, dos portos da Sicília e da África do Norte, as tropas de Montgomery continuavam o seu lento avanço na zona da Calábria, através de caminhos montanhosos, convertidos num verdadeiro labirinto pelas dinamitações efetuadas pelos sapadores alemães. No dia 8 de setembro de 1943, o avanço foi acelerado, quando uma brigada inglesa transportada de Messina desembarcou, nas primeiras horas da manhã, ao norte da localidade de Pizzo, na costa ocidental da península. O desembarque encontrou escassa resistência alemã, no primeiro momento. Posteriormente, no entanto, a cabeça-de-ponte estabelecida pelos britânicos foi submetida a um violento fogo de artilharia e morteiros, das colinas próximas. Imediatamente, várias esquadrilhas de aviões caça-bombardeiros P-40 sobrevoavam os redutos inimigos e calaram o fogo da artilharia. Na costa oriental, os alemães se retiravam da cidade de Catanzaro, fustigados pelos ataques da aviação aliada que, em vôo rasante, atacava sem cessar as colunas alemães. Ao cair da tarde de 8 de setembro, as forças do 8o exército se aproximaram de Catanzaro e, no dia seguinte, ocuparam-na. Enquanto se sucediam os acontecimentos citados, os bombardeiros americanos e britânicos redobraram os seus ataques no norte, para reduzir as defesas alemães na zona de Salerno, onde o desembarque aliado já era iminente. Simultaneamente, 130 Fortalezas-Voadoras B-17 atacaram, de surpresa, a localidade de Frascati, onde se encontrava instalado o posto de comando do Marechal Kesselring. Lançaram sobre a localidade 389 toneladas de bombas. O devastador ataque causou numerosas baixas entre a população civil italiana e destruiu grande parte da cidade. Kesselring, porém, escapou à morte. Entrementes, para apoiar a ação de Montgomery, Eisenhower determinou a ocupação do porto de Tarento mediante uma operação audaciosa. Na tarde de 9 de setembro o encouraçado britânico Howe e quatro cruzadores, conduzindo a bordo as tropas da 1a Divisão Aerotransportada britânica, se internaram no canal de acesso ao porto de Tarento. Enquanto avançava para o caís, a formação britânica cruzou com navios de guerra italianos que acabavam de abandonar o porto e se dirigiam para Malta, para entregar-se aos Aliados. Nesse momento, porém, os ingleses não estavam seguros de que os italianos cumpririam os termos do armistício e temiam que oferecessem batalha. Caso ocorresse isso, a situação dos barcos britânicos estaria muito difícil, dado que estavam carregados de tropas. Assim, durante longos minutos se manteve a tensão, enquanto os navios se cruzaram. Porém, nada aconteceu. As belonaves italianas continuaram navegando e se perderam ao longe. Um infeliz incidente, contudo, ensangüentou a jornada. Um cruzador britânico, ao chegar ao porto, chocou-se com uma mina e foi a pique em poucos minutos, arrastando consigo mais de 200 soldados. Com a ocupação de Tarento, os Aliados ganharam um importante centro portuário, para assegurar o abastecimento em grande escala de suas forças. De fato, as tropas de Montgomery só haviam sido abastecidas até aquele momento através das praias de invasão do extremo sul da Calábria, fato esse que contribuíra para agravar a lentidão do avanço. Agora, de Tarento, as tropas aerotransportadas britânicas, às quais logo se somariam as da 8a Divisão hindu e as da 78a de Infantaria britânica, poderiam deslocar-se aceleradamente até as retaguardas das tropas alemães que, nesse instante, se dispunham a enfrentar o ataque aliado na zona de Salerno. Ali teria lugar o encontro decisivo que, definitivamente, resolveria a sorte da campanha no sul da Itália. O Marechal Kesselring, chefe das forças alemães, já havia determinado a concentração de todas as suas unidades nas proximidades das praias de Salerno, abandoando o extremo sul da península. Para conter as colunas de Montgomery somente ficavam unidades de contenção e grupos de retaguarda. Toda a costa do mar Adriático, desde Brindisi até Bari, estava livre de alemães, fato que facilitaria a sua rápida ocupação pelos ingleses, uma vez que estes conseguissem abandonar o labirinto montanhoso da Calábria. Esta perspectiva incitou as tropas britânicas a redobrar os seus esforços no sentido de acelerar o avanço para o norte. Soldados e sapadores, trabalhando febrilmente, estenderam improvisadas pontes e removeram os escombros que bloqueavam as estradas, numa tentativa de abrir caminho para as colunas mecanizadas. Tanques, caminhões, veículos com lagartas, deslocando-se com dificuldade, continuaram assim a sua lenta marcha pelo extremo da “bota” italiana. Anexo As divisões alemães e italianas Em princípios de 1943, os
armamentos das divisões alemães e italianas eram os seguintes: Divisão italiana Infantaria: 264
fuzis-metralhadoras; 60 metralhadoras; 126 morteiros de 45; 48 morteiros de
81; 24 peças de calibre 47 e antitanques. Artilharia: 36 peças de
calibre 75 a 100; 8 peças de calibre 20 e 18 metralhadoras. Divisão alemã Infantaria: 450
pistolas-metralhadoras; 372 metralhadoras leves; 112 metralhadoras pesadas;
81 fuzis antitanques; 84 morteiros de calibre 50; 50 morteiros de calibre 81;
16 peças de calibre 20; 75 peças antitanques de calibre 37; 18 peças de
calibre 75 para infantaria; 6 peças de calibre 149 para infantaria; 6
caminhões blindados. Artilharia: 48 peças de
calibre 105 e 149; 24 metralhadoras leves. A superioridade da
divisão alemã cm relação à italiana era de 616 armas automáticas, 36 peças de
artilharia e 132 armas antitanques. Forças alemães na Itália Depois de 25 de julho, os
alemães, suspeitando de uma iminente reviravolta da situação na Itália,
haviam transportado para a península novas unidades operativas. Entre as
medidas tomadas pelo comando alemão para enfrentar uma possível eventualidade
se contavam: 1) Reagrupamento das
forças alemães da Itália meridional e central em dois corpos de exército: o
14o e o 76o que mais tarde, em agosto, foram
subordinados ao 10o Exército. 2) Chegada à Itália da 26a
Divisão Blindada (oeste de Bari); da 3a Divisão Panzergrenadier
(Orvieto) e da 2a Divisão de Pára-quedistas (Roma). 3) Organização dos preparativos
de combate da 90a Divisão Panzergrenadier destacada na Sardenha. 4) Envio da brigada de
assalto “Reichsfuhrer” à Córsega. 5) Formação do grupo de
exércitos “B”, sob o comando do Marechal Rommel, para proteger a retaguarda
das tropas alemães da Itália meridional e central. De acordo com um plano
preparado havia há tempos, as unidades operativas alemães foram se espalhando
gradualmente no território italiano, de maneira tal a poder neutralizar energicamente,
no momento azarado, as forças italianas em condições de operar. Este plano,
denominado com a palavra convencional Eixo, tinha por objetivo impedir
qualquer ato hostil das forças armadas italianas contra as alemães e, também,
assegurar a posse dos principais portos e dos mais importantes centros de
comunicações. O plano enfeixava as seguintes medidas: 1) Subordinação de todas
as unidades dependentes do Comando Superior do Sul (Itália central e
meridional) ao comando do grupo de exércitos “B” que teria que esperá-las
sobre a linha Viareggio-Pistóia-Pesaro. 2) Retirada das tropas da
Calábria e de Puglie, depois de haver desarmado as unidades italianas e ter
destruído as comunicações. 3) Recebimento das forças
em retirada da Calábria por parte das unidades operativas ao norte de
Nápoles. 4) Vigilância das
divisões italianas sediadas na zona de Roma por parte do 11o Corpo
de Exército aéreo (próximo a Roma) e da 2a Divisão de
Pára-Quedistas; caso fosse necessário, eliminação das mesmas, para assegurar
a posse das Colinas Albanesas que serviriam como base (depósitos de
abastecimentos) para a retirada das forças alemães do sul. 5) Cooperação da 3a
Divisão Panzergrenadier na missão da 2a Divisão de Pára-Quedistas.
A 3a Divisão Panzergrenadier, que tinha um destacamento para
proteger o Comando Superior do Sul, devia subordinar ainda dois grupamentos
complementares à 15a Divisão Panzergrenadier e à 16a
Divisão Blindada. 6) Transferência da
Sardenha à Córsega da 90a Divisão Panzergrenadier e transporte a
cargo da marinha alemã. A brigada SS Reichsfuhrer, destacada no sul da
Córsega, devia receber esta divisão e depois evacuá-la da ilha, rumo à
península, por via marítima e aérea. Nos primeiros dias de setembro a
situação das forças terrestres alemães era a seguinte: Na Itália meridional: a) Comando do 10o
Exército: 76o Corpo de
Exército - 29a Divisão Panzergrenadier, no sul da Calábria e 26a
Divisão Blindada em Catanzaro-Cassano 14o Corpo de
Exército - 16a Divisão Blindada, na zona de Salerno e Blindada
Hermann Goering ao norte de Nápoles, e 15a Divisão
Panzergrenadier, na zona de Formia. b) Subordinadas ao
comando alemão do sul: 1a Divisão de
Pára-Quedistas (menos um regimento) na zona ao sudeste de Tarento Na Itália central: Subordinada ao 11o
Corpo de Exército: 2a Divisão Pára-Quedista, na zona
Frascati-Albano-Valletri e 3a Divisão Panzergrenadier, próximo a
Orvieto. Na Sardenha e Córsega: 90a Divisão
Panzergrenadier, na zona central da Sardenha e Brigada reforçada
Reichsfuhrer, na zona central da Córsega. Na Itália setentrional: a) 51o Corpo
de Exército alpino (Borgo Val Faro) - 65a Divisão de Infantaria,
em Parma e Passo de Cisa e 305a Divisão de Infantaria, na zona ao
norte de Cisa. b) 87o Corpo
de Exército (Acqui) - 76a Divisão de Infantaria, na zona de Nova
Ligúria e 94a Divisão de Infantaria, na zona de Alexandria. c) Corpo de Exército (SS)
Hauser (sul do lago de Garda) - Divisão SS Adolf Hitler, na zona de
Turim-Milão-Piacenza; Divisão SS Das Reich, na zona de Bolonha; 71a
Divisão de Infantaria, em Istria; 44a Divisão de Infantaria, na
zona de Verona-Vicenza-Trevisto; 24a Divisão Blindada, na zona
Bolonha-Modena-Firenze; Brigada Doehle, formada por unidades de reserva do
exército no Alto Adigio. No Alto Adigio, além
disso, havia unidades SS, escola de Alta Montanha e polícia. Ao todo: 6 Divisões de Infantaria 2 Divisões de
Pára-Quedistas 6 Divisões de
Panzergrenadier e SS 4 Divisões blindadas 2 Brigadsas (uma de
assalto e uma de montanha) Em síntese: A situação comparativa das
forças era a seguinte: 18 divisões alemães e duas brigadas, frente a 15
divisões italianas e 4 grupamentos. Os destacamentos de costa e numerosas
guarnições estavam, por sua vez, em situação de ser enfrentadas, em grande
parte, por numerosas unidades ou destacamentos alemães não enquadrados nas
unidades operativas. À vantagem numérica,
ainda se acrescentava a favor dos alemães o seu armamento e equipamentos
superiores. “... Levaria todos comigo...” Fim de agosto de 1943.
Nos acampamentos aliados, febrilmente, se ultimam os preparativos destinados
a concretizar a invasão da Itália. Milhares e milhares de homens são
adestrados diariamente, sem um minuto de repouso. Terão que enfrentar tropas
aguerridas, como são as alemães, e o grau de preparação que tiverem será a
sua melhor defesa. Os chefes aliados,
paralelamente, viajam sem descanso de um acampamento a outro. Sua presença
alenta os homens; os comandantes sabem disso e diariamente andam de um campo
para outro, reunindo as tropas, conversando com elas, e comunicando-lhes a
irrestrita confiança que possuem no triunfo. Montgomery, o alto chefe
britânico que comanda o 8o Exército, dando vazão à sua habitual
simpatia, percorre acampamento após acampamento, reunindo os homens e
falando-lhes, meio a sério, meio brincalhão; o veterano chefe sabe que a
guerra não é brincadeira de crianças e sabe que mostrar-se como um ser humano
tem importância vital. Montgomery aplica a sua velha experiência e, quando
caminha entre os homens, bate sem eu ombros, e o os chama pelo sobrenome. E é
então que se produzem cenas como a que o velho chefe inglês viveu no
acampamento da brigada de Malta: depois da chegada de Monty, os soldados são
reunidos num amplo espaço aberto. Em formação, os combatentes assistem a uma
breve cerimônia, durante a qual Montgomery distribui algumas condecorações.
Em seguida sobre um jipe pede aos soldados que quebrem a formação e se reunam
à sua volta. O chefe inglês repete os seus conceitos duas ou três vezes,
fazendo significativas pausas. Deste modo, além de gravar nas mentes dos
soldados a essência das suas palavras, dá a eles uma demonstração de absoluta
convicção que tem de estar em posse da verdade. O tema mais importante de
suas palavras é, invariavelmente, o seguinte: 1) Vocês são excelentes soldados.
2) O desembarque não será difícil. 3) A operação faz parte de um plano
mundial, em que estão incluídos os bombardeiros e a ação da Rússia. Por
último, ao terminar, Monty acrescenta as seguintes palavras: “Vocês todos se
portaram tão bem que todos confiam nesta unidade. Gostaria de levar comigo
esta brigada para onde quer que eu fosse”. Monty percebeu o efeito que esta
frase causou no espírito dos homens e cuja reação se repetiria em todos os
acampamentos que visitaria. Mentalmente, ao ouvir suas palavras, os homens se
diziam: “Vai nos levar a todas as batalhas, daqui até Berlim”. E a
conseqüência era a evidente frieza com que os homens acolhiam o seu elogio.
Então, demonstrando os seus dotes de psicólogo, o veterano fez um silêncio e
ajuntou: “Mas vocês não sabem onde eu vou... Pode ser até uma licença para
ira à Inglaterra...”. A reação dos soldados foi imediata e se cristalizou
numa gargalhada geral. Monty, habilmente, repetiu estas palavras nos outros
acampamentos, conseguindo a mesma reação. A travessia do Estreito O jornalista britânico
Alan Moorehead, relata a invasão das forças do 8o Exército de
Montgomery, através do Estreito de Messina. “A Hora Zero foi fixada
para uma hora antes do amanhecer de 3 de setembro, aniversário da entrada da Inglaterra
na guerra. Precedeu o desembarque um canhoneio de 500 peças de artilharia
através do Estreito durante meia hora, na escuridão da noite só se via os
clarões amarelados. Estávamos nas montanhas de Messina e os canhões
disparavam da região das oliveiras. Partindo das casas camponesas do lado
ocidental do Estreito, as granadas, depois de percorrerem rapidamente uma
milha ou duas, caíam nas casas camponesas do lado oriental. Avisara-se aos
camponeses sicilianos: “Abandonem suas casas, porque as explosões vão quebrar
os vidros das janelas e alguém pode se machucar”. Porém não se moveram até
ouvir os primeiro tiros, quando fugiram gritando. Na outra margem do
Estreito, a população civil, que esperava o ataque, se refugiara nas
quebradas e cavernas dos montes, enquanto os seus lares eram destruídos. Ali
não havia alemães para atingir. A retaguarda inimiga se retirava no extremo
da Itália, dinamitando as pontes à sua passagem. Os “comandos” ingleses se
haviam instalado já nos povoados da Calábria e, adornados com flores,
esperavam a chegada do grosso das forças. Nenhum canhão respondeu ao
bombardeio inglês. Talvez houvesse razões militares para aquele canhoneio,
mas na ocasião não pudemos compreender a sua finalidade, a não ser como
simples método de destruição ou de super-segurança... talvez. Algumas naves
de guerra navegavam junto à costa siciliana, semeando a ruína entre Raggio e
San Giovanni. Pouco antes do alvorecer, os barcos lança-foguetes lançaram
imensas rajadas para pulverizar as costas. Os foguetes eram como uma catarata
enorme e amarelada, precipitando-se para cima com um fragor tremendo,
superior até ao da preparação da artilharia. Afinal, centenas e centenas de
botes e outras embarcações menores chegaram às praias sob a luz incerta da
aurora. Não havia inimigo nem campos de minas nas costas. As baixas se
reduziram a dois ou três homens que tropeçaram e caíram na água.... “Não víamos a Itália,
escondida por grossas nuvens de fumaça produzidas pelo canhoneio. Em torno de
nós, oscilando sob o sol brilhante, se moviam as lanchas de desembarque,
transporte de tropas, grandes naves cheias de veículos, destróieres e alguns
cruzadores ao longe. Alguns ima em direção à Itália, outros regressavam já.
Os carros anfíbios avançavam em formação de V. O mar se agitava. Na margem,
moças sicilianas ofereciam frutas aos soldados. Várias gaivotas buscavam na
esteira dos barcos algum desperdício. A cena lembrava uma regata...” O destino do Roma La Spezia. Trieste. Tarento.
Nas bases italianas reina a agitação. Os homens correm ao longo dos
ancoradouros, soltando amarras, e descarregando abastecimentos de grandes
caminhões que chegam ininterruptamente ao local. É o dia 8 de setembro de
1943. A frota italiana, em cumprimento das cláusulas do armistício firmado
com os Aliados, se apronta para levantar âncora. Seu destino: Malta.
Comandando a frota, hasteando a sua insígnia no encouraçado Roma, viaja o
Almirante Carlo Bergamini, veterano marujo italiano. As naves que se preparam
para partir constituem o grosso da frota peninsular. São seis couraçados,
oito cruzadores, trinta destróieres, quarenta submarinos e numerosas naves
auxiliares. Uma a uma, as grandes embarcações partem. São seguidas pelas
unidades menores. Já em mar aberto, a esquadra aproa para o sul, rumo à ilha
de Malta. 9 de setembro de 1943. As
primeiras luzes da manhã arrancam lampejos das tranqüilas águas do
Mediterrâneo. Dos barcos italianos, centenas de homens vigiam o horizonte.
Navegam ao sul da Sardenha e temem um ataque de aviões alemães. E o ataque
não falha. A manhã já vai em meio
quando, ao longe, a grande altura, vários pontos obscuros aparecem... São os
bombardeiros alemães. Os aparelhos alemães,
armados com as novas bombas teledirigidas PC 1.400 FX, sobrevoam pouco depois
a frota. Os projéteis, com o poder de uma bomba perfurante de 3.000 libras,
estão especialmente projetadas para atacar naves de guerra ou fortificações
com espessas blindagens. As guarnições antiaéreas
dos barcos italianos, imediatamente, abrem fogo contra os incursores. Os
alemães, no entanto, aproximando-se de diversos ângulos, descarregam as PC
1.400 FX. Os projéteis, dirigidos dos aviões, caem em salva, atingindo
imediatamente o grande encouraçado Roma. O Almirante Bergamini, fiel à
tradição do mar, desaparece com seu barco. Quase 2.000 oficiais e marinheiros
o seguem às profundezas do Mediterrâneo. A frota, no entanto, a
todo vapor, continua aproximando-se da ilha de Malta. Os aviões alemães, por
sua vez, consumado o ataque, se afastam da formação italiana. Atrás, debatendo-se nas
águas, quase 2.000 homens vêem-se desvanecer-se as possibilidades de
salvação. Os barcos italianos, submetidos ao ataque dos alemães, não podem
salvá-los. Quando cessa o ataque a formação já está muito distante. Pouco
depois, no lugar em que o Roma foi atingido, as águas recuperaram a sua
primitiva calma. Grandes manchas de óleo flutuam aqui e acolá; restos de
lanchas salva-vidas, que não puderam ser utilizadas, bóiam entre as ondas;
tambores e balsas vazias são cruéis indícios do destino que acaba de colher a
tripulação do Roma e seu heróico capitão, o Almirante Bergamini. Capitulação Ao receber, depois de uma
luta curta, a capitulação das forças italianas, sediadas na zona de Roma, a
10 de setembro de 1943, o Marechal alemão Kesselring tentou atrair os chefes
e oficiais italiano, para que se incorporassem novamente à ação armada contra
os Aliados. Com esse fim, incluiu a seguinte cláusula no armistício: “Para os
oficiais italianos será sumamente honroso intervir novamente na luta, a fim
de demonstrar oficialmente sua discordância da traição do governo. Para
conservar a honra do Exército italiano, se permitirá aos oficiais reterem as
suas armas individuais...”. Depois, Kesselring fez circular a seguinte
proclamação: “Oficiais das Forças Armadas Italianas! “As Forças Armadas
alemães, apenas tiveram conhecimento da deslealdade de Badoglio, tiveram que
intervir , rápida e energicamente, para esmagar ainda em germe a maior
traição da História. Agora a situação está esclarecida. O ex-rei e seu
governo desonraram a Itália perante o mundo todo e abandonaram, depois,
covardemente, o seu próprio povo. Por conseguinte, nenhum oficial italiano
está mais ligado por lealdade a um rei que não deu à Itália senão vergonha, e
o que permitiu a entrada do inimigo no país. “Oficiais italianos! “Abre-se diante de vós um
novo horizonte. Pede-se todo vosso empenho. E nesta situação - como sempre -
o oficial deve permanecer à frente e ser o primeiro a dar passo inicial para
uma nova era. Deveis decidir: “1) Se desejais continuar
lutando junto a nós, conservando a honra de oficiais, ou cumprindo vosso
dever como comandantes nas formações de serviço. “2) Se desejais tomar
parte na luta pela existência do vosso povo, refleti, pois todo aquele que
não está conosco, está contra nós! Para todos os oficiais italianos, honestos
e leais, não há senão uma palavra de ordem: Adiante, pela Itália!”. Nosso ressurgimento está em marcha... A 27 de setembro de 1943,
no momento em que os exércitos aliados avançaram no sul da Itália, ao norte
da península, as rádios davam o seguinte comunicado: “Com a resolução aprovada
pelo Conselho de ministros a 27 de setembro, se deu início ao funcionamento
do novo Estado fascista republicano que deverá encontrar, na Assembléia
Constituinte, que será proximamente convocada, a promulgação da sua
definitiva ordem constitucional. O Duce assume hoje as funções de Chefe do
novo Estado Fascista Republicano”. Na citada reunião do
Conselho de Ministros, Mussolini havia analisado a situação italiana. Eis
suas palavras: “A situação da Itália, no
momento em que o Governo fascista Republicano empreende a sua ação, pode
definir-se, sem nenhum exagero, como uma das mais graves da sua história.
Bastam para confirmá-las as seguintes e simples considerações: na manhã de 25
de julho, a Itália, selvagemente açoitada pelos bombardeios anglo-americanos,
era um Estado; seu território, com exceção da Sicília ocidental, estava
intacto. Nosso pendão tricolor tremulava ainda em Rodas, Tirana, Lubiana,
Spalato, Córsega e Varo. Hoje, a dois meses de distância, o inimigo ocupa um
terço do território nacional e todas as nossas posições fora do nosso
território e no ultra-mar foram reduzidas a escombros. A perda dessas
posições, que tanto sangue e sacrifício custaram ao povo italiano, foi
provocada por um armistício implacável, sem precedentes na História,
combinado sem o conhecimento dos nossos aliados e, por conseguinte, através
de uma traição iníqua, que basta para desonrar a monarquia e seus cúmplices. “As conseqüências do
armistício são simplesmente catastróficas. Entrega ao inimigo da Marinha
italiana. Liquidação humilhante, através do desarmamento, de todas as outras
forças militares. Bombardeios contínuos e desapiedados que deviam “encobrir”
as negociações que já estavam em curso desde princípios de agosto. Abatimento
profundo da alma nacional, desordem material e espiritual. Continuação da
guerra em nosso território, tal como qualquer um podia ter previsto,
facilmente. “Dada esta situação de
fato, as diretivas que guiam a ação do Governo não podem ser senão as
seguintes: cumprir a aliança firmada com as nações do pacto Tripartite e, em
função dessa aliança, retomar nosso posto de combate junto aos alemães,
através da mais profunda reorganização de nossas forças militares, começando
pelas da defesa antiaérea e costeira. Enquanto preparamos esta força, coisa
que já iniciamos, prestaremos cordial e prática colaboração às forças alemães
que operam na frente italiana. Através de nosso esforço militar, nos propomos
não somente a apagar a página de 25 de julho (queda de Mussolini) e aquela
ainda mais desastrosa de 8 de setembro (armistício com os Aliados), mas
atingir também nossos objetivos, que são: a integridade territorial da nação,
sua independência política, e o lugar que lhe corresponde no mundo... “O atual Governo tem,
entre suas obrigações, a fundamental, de organizar a Assembléia Constituinte
que deverá tornar realidade o programa do partido, proclamando a criação do
Estado fascista republicano. “Como já disse no
princípio, a situação, sob qualquer ponto de vista, é gravíssima, porém não
desesperada. Um povo não pode perecer quando tem a consciência de ser um
povo. Existiram povos que passaram por privações tremendas, mesmo durante
séculos, e tornaram a ressurgir. As forças do nosso ressurgimento estão em
marcha. O Governo se propõe a organizá-las, dirigi-las, e aplicá-las ao
serviço da guerra, porque agora, como sempre, a sorte da guerra é decisiva
para o futuro da pátria...” |