Avanço soviético para o Dnieper
Contra-ataque alemão
Rompimento russo no Dnieper
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Em fins de setembro de 1943, os exércitos alemães, depois de um gigantesco esforço, conseguiram escapar ao aniquilamento e refugiar-se na margem ocidental do rio Dnieper. Esta nova linha, que a propaganda do governo nazista proclamava como a “Muralha do Leste”, consistia, na realidade, numa série de improvisadas obras defensivas de pouca importância. Hitler, nos meses anteriores, havia rechaçado todos os apelos de seus generais para construir com antecedência adequada poderosas fortificações ao longo do Dnieper. O Fuhrer, como já fizera em outras oportunidades, declarou que a existência de uma linha fortificada nas costas dos seus exércitos diminuiria o espírito agressivo e a combatividade, e contribuiria para criar o clima necessário para que os comandos ordenassem uma retirada diante de dificuldades que parecessem insolúveis. Foi assim que, em virtude dessa atitude de Hitler, não apenas não se manteve a resistência na margem oriental do Dnieper como tampouco se contou com defesas adequadas na margem oposta. Depois da travessia do rio, as forças alemães do Grupo de Exércitos Sul, dispunham apenas, em unidades de infantaria, de 37 divisões. Com essas unidades e mantendo na retaguarda, em reserva móvel, as divisões Panzer, os alemães tinham que defender uma frente de 700 km de extensão. Outro fato que agravava a situação das forças alemães era que, em virtude dos sangrentos combates travados nas últimas semanas, as divisões alemães estavam reduzidas a um terço dos seus efetivos, sem que existissem possibilidades de cobrir as baixas. Dessa forma, cada divisão, com uma média de 3.000 homens, devia cuidar da defesa de 20 km de frente. Era evidente que resultava impossível manter a resistência com forças tão exíguas. Hitler, porém, estava decidido a sustentar-se no Dnieper pois sabia que a perda da bacia desse rio teria funestas conseqüências para a economia do Reich. De fato, não somente o trigo da Ucrânia era vital para a alimentação do povo alemão e das regiões ocupadas, mas também as jazidas de ferro e manganês de Nikopol e Krivoi Rog supriam quase um terço das necessidades da Alemanha. A perda dessa fonte de matéria prima., portanto, produziria uma diminuição radical na já sacrificada capacidade bélica alemã. O dilema, contudo, não tinha saída. A perda da região significaria mesmo uma catástrofe econômica. A resistência a qualquer preço equivaleria, por sua vez, ao possível aniquilamento das tropas. Os chefes militares, como é lógico, consideravam mais a perda do exército e se manifestaram energicamente a favor de uma retirada geral para o oeste, levantamento prévio de fortificações adequadas, numa linha situada muito para a retaguarda. Acreditavam que a resistência no Dnieper poderia se manter o tempo suficiente para permitir a construção das citadas fortificações. Também nesse ponto os generais se equivocaram, pois os russos não lhes dariam trégua. |
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O cruzamento do Dnieper Os planos do Alto-Comando soviético haviam adquirido uma audácia e uma ambição compatíveis com o ritmo esmagador da sua ofensiva. Os russos não tinham a menor intenção de fazer uma pausa ao chegar ao Dnieper, para concentrar as forças e organizar a travessia. Pelo contrário, os elementos da vanguarda, apenas alcançavam a margem do grande rio, eram lançadas imediatamente rumo à margem oposta, empregando na travessia todos os meios disponíveis. Essas eram as categóricas determinações “sobre a marcha”. Foi dessa maneira que o Exército Vermelho levou a cabo uma das ações mais brilhantes da guerra. Milhares de homens, valendo-se de balsas improvisadas e pequenas embarcações, barris, pranchas de madeira ou qualquer elemento capaz de manter um homem flutuando, transpuseram a ampla barreira de água. Assim conseguiram os russos fincar pé em numerosos pontos da margem oposta. As tropas do General Vatutin estabeleceram várias cabeças-de-ponte nas proximidades de Kiev. Mais ao sul os exércitos da estepe, comandados pelo General Koniev, apoderaram-se de 18 pontos de apoio sobre a outra margem. Por último, as tropas de Malinovski por sua vez cruzaram o rio, nas cercanias da cidade fabril de Dniepropetrovski. Uma vez estabelecidas as tropas de infantaria na margem oposta do rio, iniciou-se imediatamente o lançamento de pontes de barcaças, para a passagem das unidades blindadas e mecanizadas. Em alguns setores os russos recorreram a um hábil estratagema. Durante a noite construíram pontes submersas, a poucos centímetros da superfície, praticamente invisíveis para a artilharia inimiga. Por essas passagens afluiu uma incessante corrente de abastecimentos e reforços rumo às linhas de frente. Em conseqüência dessas operações foi que a denominada “inexpugnável muralha do Leste” ficou praticamente inutilizada. As brechas abertas nos diversos setores serviriam para o posterior avanço dos russos. Ao iniciar-se o mês de outubro, os russos se ocuparam em consolidar e alargar essas bases e pontos de partida, com o propósito de empreender uma nova e gigantesca ofensiva tendo por objeto aniquilar os exércitos inimigos do sul e reconquistar Kiev. Consciente da ameaça que pairava sobre suas forças, o Marechal von Manstein deslocou as suas unidades Panzer, mantidas na retaguarda de reserva, sobre as cabeças-de-ponte russas. Conseguiu então, mediante uma série de encarniçados ataques, limitar em parte a extensão da penetração russa. Porém, a situação, longe de girar favoravelmente para as forças alemães, continuou agravando-se. Manstein analisou assim a gravidade do momento: “O maior motivo de preocupação residia no fato de que já naquelas lutas iniciais junto ao Dnieper fôramos obrigados a lançar mão de todas nossas unidades mecanizadas, cuja potência combativa saiu tão diminuída desses combates como estavam já as divisões de infantaria que defendiam a primeira linha”. Deste modo, na primeira etapa da grande batalha, os alemães sofreram fortes baixas que enfraqueceram ainda mais o escasso poder combativo com que deveriam enfrentar a iminente ofensiva russa. Os russos ao ataque Desde o princípio de outubro, as tropas de Malinovski lançaram violentos assaltos contra a única cabeça-de-ponte que os alemães mantinham a leste do Dnieper, frente às jazidas de Nikopol. Por ordem expressa de Hitler, Manstein se viu obrigado a desgastar suas forças na defesa dessa posição avançada, pois o Fuhrer estava disposto a defender, a qualquer preço, aquele centro mineiro. Utilizando uma gigantesca concentração de artilharia, os russos conseguiram finalmente superar as forças alemães e as obrigaram a evacuar a cabeça-de-ponte e retirar-se para a outra margem do rio. Os efetivos alemães que conseguira evadir-se da esmagadora ofensiva russa e cruzar o Dnieper encontravam-se dizimadas e com sua potencialidade combativa seriamente comprometida. Já não poderiam oferecer uma resistência ponderável ao assalto russo. Mais ao norte, as tropas de Koniev irromperam no ponto de ligação do 8o Exército e o 1o Panzer alemão. Combatendo furiosamente, conseguiram abrir uma ampla brecha entre as duas forças. Em seguida, os russos se deslocaram para sul, numa manobra envolvente que os levou sobre o centro mineiro de Krivoi Rog, ameaçando cercar pela retaguarda o 1o Exército Panzer. Manstein, reunindo todas as unidades móveis de que dispunha, organizou imediatamente um contragolpe, e conseguiu, num encarniçado combate, deter a penetração russa. Cerca de 350 tanques russos foram destruídos nessa ação. A eliminação desse perigo, porém, apenas deu lugar ao aparecimento de outro maior. De fato, pelo sul, as forças do General Tolbuchin arremeteram contra o 6o Exército alemão, forçando-o a retirar-se desordenadamente rumo ao oeste. Esse ataque não somente ameaçava o Grupo de Exércitos de von Manstein, no Dnieper, mas também o 17o Exército alemão, sediado na Criméia. Esta última unidade ficaria totalmente cercada na península, se os russos conseguissem separa-la do resto das forças situadas ao norte. Em princípio, Manstein planejou lançar uma contra-ofensiva pelo sul, com as unidades de tanques, porém, novos acontecimentos o obrigaram a abandonar esse projeto. A sorte das tropas da Criméia ficou, então, selada, pois Hitler se oporia, posteriormente, a ordenar a sua evacuação. A crise agora se transferia para o flanco norte. Lançando-se ao ataque, da sua cabeça-de-ponte no Dnieper, as forças do General Vatutin arremeteram sobre Kiev. Novamente ameaçava os alemães o perigo de um amplo movimento envolvente, contra o qual apenas podiam opor as escassas forças de que ainda dispunham. A libertação de Kiev A 3 de novembro, o 3o Exército Blindado da Guarda e os 38o e 60o Exércitos avançaram sobre Kiev, despedaçando as unidades do 4o Exército Panzer alemão, encarregado da defesa da cidade. Depois de três dias de combates de furiosa intensidade, as tropas russas entraram na cidade, transformada numa massa de ruínas pelos efeitos da luta e das dinamitações efetuadas pelos alemães antes de bater em retirada. No dia seguinte à libertação de Kiev, os russos alcançaram o entroncamento ferroviário de Fastov, a 60 km ao sul. Sem deter o avanço os tanques vermelhos locomoveram-se rumo ao oeste e chegaram, a 13 de novembro, à localidade de Zitomir. Esta penetração, em forma de leque, fracionou o 4o Exército Panzer em três grupos que ficaram isolados e muito separados entre si. Abriu-se, ao mesmo tempo, uma ampla e profunda brecha entre o Grupo de Exércitos Sul, de Manstein, e o do Centro, de von Kluge, desarticulando o dispositivo alemão. Manstein, que se entrevistou com Hitler a 7 de novembro, conseguiu autorização deste para desfechar, o mais cedo possível, um contra-ataque com todas as unidades Panzer disponíveis e mais as que pudesse incorporar às suas forças. A sorte de toda a frente dependia do êxito da operação. O contra-ataque alemão ficaria a cargo do 48o Corpo Panzer, comandado pelo General Balck, um dos mais destacados chefes tanquistas alemães. A este grupamento foram incorporados todas as unidades Panzer disponíveis. Eram as seguintes: a 1a, a 7a, a 19a e a 25a Divisões Panzer; as divisões SS “Leibstandarte Adolf Hitler” e “Das Reich” e a 68a Divisão de Infantaria. De 8 a 15 de novembro, os elementos blindados alemães se concentraram no flanco sul da posição russa. Nesse mesmo dia, os tanques se lançaram ao ataque. O objetivo era cortar a linha ferroviária que unia Kiev a Zitomir, isolando assim as forças da ponta-de-lança russa sediadas nessa localidade. Com os flancos cobertos pelas demais unidades, a 1a Divisão Panzer e a SS “Leibstandarte” arremeteram contra a frente russa e, dois dias depois, após encarniçados combates, alcançaram a via ferroviária. Em seguida, num movimento rápido, giraram para o oeste e caíram sobre Zitomir, que foi ocupada na noite de 17 de novembro. O violento contra-golpe alemão conseguira o seu primeiro êxito: a ponta da cunha russa fôra quebrada. Em seguida, o General Balck ordenou às suas unidades girar novamente para o leste, em direção a Kiev, para cercar e aniquilar as forças blindadas russas que bloqueavam o caminho para esta cidade. Travou-se então uma nova e encarniçada batalha. Atacando frontalmente, a divisão SS “Leibstandarte” cumpria a sua tarefa de acuar pela frente as unidades russas, enquanto as outras divisões Panzer apertavam as garras pelos flancos. Produziu-se então um fato que demonstra claramente o grau de esgotamento a que havia chegado as forças alemães: a divisão “Leibstandarte” fracassou no seu ataque. Era considerada a melhor das divisões alemães como capacidade combativa e era integrada por SS fanáticos, armados com os melhores equipamentos disponíveis. Pela primeira vez na guerra, a “Leibstandarte” fracassara num assalto. O mito da invencibilidade do “super-homem” nazista extinguia-se definitivamente. As outras divisões, embora conseguindo penetrar profundamente pelos flancos das formações russas, acabaram extenuadas e sem forças, tendo que deter o avanço antes de fechar as garras sobre a retaguarda russa. Ao receber o relatório da frente de batalha, o General Balck emitiu uma ordem terminante: as 1a e 19a Divisões Panzer deviam realizar um esforço supremo e completar nessa mesma noite a manobra de cerco que se planejara. A operação tinha que se cumprir, sem importar as baixas nem os sacrifícios a realizar. Uma vez mais, os veteranos tanquistas se lançaram ao ataque e, às 21 horas de 21 de novembro, as pontas-de-lança das duas divisões se encontraram. A operação deixara um saldo de mais de 150 tanques russos destruídos. O grosso das forças russas, no entanto, conseguiram escapar da armadilha. Uma nova frente fora estabelecida no caminho de Kiev. Contra ela se destroçaram os esforços das tropas alemães. Então, a 26 de novembro, as primeiras chuvas de inverno converteram o terreno num mar de lama. Os movimentos militares ficaram paralisados. Kiev já não voltaria a cair nas mãos dos nazistas. Nesse momento, apenas 60 km separavam as vanguardas alemães da cidade. Luta no sul As forças russas que estavam empenhadas na luta, enquanto isso, foram distribuídas diferentemente. No setor meridional, de norte a sul, se escalonavam agora as denominadas 1a, 2a, 3a e 4a Frentes da Ucrânia, comandadas, respectivamente, pelos Generais Vatutin, Koniev, Malinovski e Tolbuchin. As tropas deste último chefe, em rápido avanço sobre a foz do Dnieper, conseguiram, entre fins de outubro e princípios de novembro, superar o 6o Exército alemão, separando-o por completo das unidades alemães sediadas na Criméia. Hitler, decidido a manter a península em suas mãos, indeferiu o pedido de evacuação das tropa romenas, por via marítima, formulado pelo Marechal Antonescu. Negando-se a ouvir os argumentos em contrário, declarou enfaticamente que a península podia ser defendida sem inconvenientes, abastecendo-se por via aérea e marítima as tropas cercadas. O essencial, segundo o Fuhrer, era impedir que os russos reconquistassem a península e a usassem como base para ataques aéreos contra as vitais jazidas petrolíferas romenas. O ponto de vista de Hitler se converteria para ele numa verdadeira obsessão. Ocasionaria, em último instância, o aniquilamento do 17o Exército alemão que estava na Criméia. Esta unidade, que podia ter sido evacuada para reforçar a frente do Dnieper, teve, por ordem de Hitler, que combater até o fim, numa luta carente de qualquer sentido. Os russos, enquanto desenvolviam no norte o ataque contra Kiev, empreenderam simultaneamente uma série de ininterruptos assaltos contra as posições alemães no sul. Empregando novas reservas, se lançaram sobre as posições do 6o e do 8o Exércitos alemães e do 1o Panzer. Logo os seus esforços foram coroados de êxito. As linhas do 8o Exército alemão se quebraram e os russos irromperam através do Dnieper, numa frente de 100 km, suplantando toda a oposição. As tropas alemães, impotentes diante do avanço do inimigo, tiveram que se retirar sob o fogo dos russos, mantendo a duras penas a coesão de suas unidades. O que ameaçava converter-se num verdadeiro desastre foi evitado no último momento, ao organizar-se uma nova frente na retaguarda de uma zona pantanosa que se estendia a 50 km mais para o sul. Assim, no início do mês de dezembro de 1943, a crítica situação dos exércitos alemães que se mantinham sobre a grande curva do rio Dnieper se agravava dia a dia. As forças de Koniev continuaram a arremetida através das brechas abertas e ameaçaram novamente um movimento envolvente em direção do sul, que, caso se concretizasse, ocasionaria aos alemães uma verdadeira catástrofe. Manstein insistiu várias vezes ante Hitler e o Alto-Comando da Wehrmacht, sobre a necessidade de evacuar a região que se mantinha no Dnieper. As poucas divisões blindadas que podiam ser utilizadas à maneira de reserva móvel eram deslocadas de um extremo a outro da extensa frente, para tapar as brechas abertas pelos russos. Apelando para essa tática, até aquele momento fôra possível manter uma relativa coesão na frente defensiva alemã. A situação, porém, não podia manter-se indefinidamente. De fato, nos duros combates que se travavam cada vez que intervinham as unidades panzer, estas acabavam seriamente afetadas, o que provocava uma crescente debilidade do seu poder ofensivo. A capacidade de resistência alemã lentamente ia chegando ao limite. Essa ameaçadora perspectiva, vislumbrada por todos, foi ignorada por Hitler, que rechaçou redondamente todas as propostas que lhe foram feitas no sentido de retirar as tropas do setor sul do Dnieper. Manstein assim procurou explicar a atitude do Fuhrer: “As razões que alegava sempre, justificando o seu empenho em conservar a curva do Dnieper, eram as já conhecidas da importância de Nikopol e da Criméia, para que a Alemanha pudesse prosseguir na guerra. Porque ele não perdia a esperança de que se a defesa triunfasse contra os ataques inimigos no Dnieper, poderíamos arremeter para o sul e libertar as forças cercadas na Criméia. E, claro, no mais recôndito do seu foro íntimo, alimentava, ao lado dessa esperança, a de que o inimigo acabaria por exaurir-se a sucumbir, se ele [Hitler] repetisse a fórmula mágica de 1941 diante de Moscou, de ordenar a defesa do solo, palmo a palmo. Esboroa-se a Muralha do Leste Como era de esperar, os russos, continuando com sua tática de golpear em um e outro extremo da frente, sem dar trégua, desataram uma nova ofensiva contra a ala norte das forças de von Manstein. Na véspera de Natal, 24 de dezembro, a 1a Frente Ucraniana, do General Vatutin, se lançou para diante e arrasou as unidades do 4o Exército Panzer, abrindo uma brecha de 30 km de largura, ao longo da estrada que unia Kiev com Zitomir. Imediatamente, as forças russas iniciaram um deslocamento em leque, perfurando as linhas alemães em todas as direções. No dia seguinte, Manstein enviou uma mensagem urgente ao Alto-Comando, anunciando que o 4o Exército Panzer já não estava em condições de deter a irrupção russa, se não lhe fossem enviados reforços imediatamente. Para obtê-los restava apenas um recurso: retirar o quanto antes as unidades que se achavam empenhadas no extremo sul da frente, abandonando as indefensáveis posições do Dnieper. Necessitava, portanto, que o autorizassem, definitivamente, a mover suas forças com absoluta liberdade. O pedido do marechal alemão provocou uma série de violentas discussões no QG do Fuhrer. O General Zeitzler, Chefe do Estado-Maior, apoiou decididamente a moção de Manstein, lembrando uma vez mais a Hitler a catástrofe que se avizinhava inexoravelmente. Este, porém, não respeitou as suas argumentações e, num acesso de cólera, apostrofou duramente Manstein, declarando que sua estratégia se resumia, em última instância, não a manobras, mas a “fugas” ante o inimigo. A velha e rancorosa hostilidades de Hitler para com os chefes militares ressurgiu com todo vigor. Nesse clima de indecisão e recriminações estéreis, a Wehrmacht continuou sustentando uma luta sem esperanças. O problema já não se resumia à obstinada posição de Hitler, mas também na total impossibilidade do exército alemão resolver a questão favoravelmente. Manstein, desesperado, enviou uma última comunicação; era uma mensagem peremptória: “O momento de tentar dominar a situação na ala norte, com medidas parciais, como o esforço representado por esta ou aquela divisão, já passou! Agora é decidir se a ala sul das forças do leste deverá ser salva ou abandonada à sua sorte”. Os acontecimentos fizeram eclodir a crise em toda a sua magnitude. As tropas de Vatutin, girando para o sul, introduziram uma cunha cada vez mais profunda na retaguarda do 8o e 6o exércitos e do 1o Panzer. Diante do silêncio do Fuhrer, Manstein resolveu, a 29 de dezembro, por iniciativa própria, localizar três divisões blindadas e uma de infantaria do 1o Exército Panzer sobre a rota de avanço das forças russas que convergiam do norte. A 31 de dezembro de 1943, Hitler deu, contra a sua vontade, aprovação ao plano. Os russos, entrementes, prosseguiam no seu avanço a um ritmo impressionante. As pontas de lança de Vatutin se aproximavam já, convergindo para o sul, da cidade de Winnitza, nas margens do rio Bug. As unidades dispersas e fracionadas do 4o Exército Panzer combatiam desesperadamente, tratando em vão de cobrir os imensos claros que se abriam no dispositivo. A 4 de janeiro de 1944, Manstein transladou-se de avião ao QG do Fuhrer. Esta nova entrevista terminou como as anteriores. Hitler se opôs terminantemente às sugestões que o marechal lhe fez, reiterando que era necessários esperar, ganhando tempo e sem ceder terreno algum, pois a potência ofensiva dos russos acabaria por se esgotar. O Fuhrer negou-se a arranjar reforços para o Grupo de Exércitos Sul, declarando que era impossível retira-los das demais frentes. As tropas localizadas na Europa Ocidental deveriam permanecer em suas posições até que o previsto desembarque aliado fosse rechaçado. Somente quando os ataques fossem empurrados para o mar poder-se-ia dispor desses efetivos. Ao regressar ao seu posto de comando, Manstein, abatido, recebeu um informe alarmante: “Os tanques russos irromperam na retaguarda. A última linha de abastecimentos do Grupo de Exércitos foi cortada”. O marechal alemão, após um rápido exame da situação, emitiu uma ordem terminante: “Contra-ataquem!”. Dois corpos de tanques e um de infantaria foram deslocados aceleradamente sobre os flancos e a ponta da cunha russa. As unidades se lançaram concêntricamente sobre os russos. Na segunda metade do mês de janeiro, conseguiu-se então fechar, de forma precária, a ampla brecha aberta pelos russos. No fim do mês, porém, os russos irromperam pelas posições do 6o Exército alemão e ameaçaram cercar as unidades que, por ordem de Hitler, deveriam defender Nikopol até o último homem. Durante vários dias, os alemães sustentaram combates encarniçadamente violentos e sofrendo terríveis baixar para manter livre a retaguarda. Essa luta sem esperanças ameaçava terminar com o total aniquilamento das unidades que defendiam Nikopol. Hitler, finalmente, se viu obrigado a curvar-se à realidade. Nikopol, convertida num fumegante montão de ruínas, foi então abandonada por ordem do Fuhrer. Os restos do 6o Exército, deixando atrás de si a maior parte do seu material, bateu em retirada, rumo ao oeste. “A pequena Stalingrado” Assim apelidaram os russos a vitória que sua forças obtiveram em Korsun, a 100 km ao sul de Kiev, sobre as margens do Dnieper. Desembocando do norte e do sul, as tropas de Vatutin e Koniev fecharam suas garras nas costas de seis divisões alemães. A reação de Hitler foi imediata. A 3 de fevereiro de 1944, enviou uma mensagem às tropas cercadas ordenando-lhes resistir, inflexíveis em suas posições. Paralelamente, determinou que um grupamento blindado integrado por sete divisões Panzer passasse imediatamente ao contra-ataque e exterminasse as unidades que constituíam o anel russo. Essa operação, planejada na base de um deslocamento rápido das forças alemães, terminou numa verdadeira catástrofe. Na realidade, as divisões designadas para o contra-ataque, não puderam ser empenhadas simultaneamente na operação e o seu avanço se viu dificultado pelo degelo. Apenas a cunha procedente do sudoeste conseguiu acercar-se até uma distância de 13 km do bolsão onde os alemães resistiam. Nessas circunstâncias, Hitler autorizou as forças cercadas a abrir caminho para o sul, para se unirem com as forças blindadas que haviam marchado em seu socorro. As tropas sitiadas iniciaram a marcha na noite de 16 para 17 de fevereiro, em meio a uma violenta tormenta. Abandonando todo o equipamento pesado, as unidades alemães se deslocaram para o sul, travando choques com as tropas russas. À uma e meia da madrugada chegou uma mensagem ao QG de Manstein, dando conta do primeiro contato entre as tropas que abandonaram o sítio e as unidades que haviam marchado ao seu encontro. No transcurso das horas seguintes, a coluna dos que chegavam às linhas alemães, precedentes da posição sitiada, engrossou paulatinamente. Os combatentes, em péssimas condições físicas, careciam completamente de estímulo combativo e constituíam uma imensa legião de homens exauridos e incapazes de sustentar uma arma na mão. Muitos ficaram pelo caminho, incapazes de chegar até as linhas dos seus companheiros. Mais de 20.000 homens compartilharam desse trágico destino. Um oficial russo que interveio na ação, o Major Kampov, descreveu o momento em que foram exterminadas as últimas colunas de soldados alemães que tentaram, sem êxito, abrir caminho através das linhas russas: “Eram cerca das 6 da manhã. Nossos tanques e nossa cavalaria surgiram repentinamente e se lançaram em linha reta sobre as colunas. O que ocorreu então é difícil de descrever. Os alemães fugiram em todas as direções. Durante as quatro horas seguintes, nossos tanques se deslocaram a toda velocidade através da imensa planície, esmagando-os às centenas. Nossa cavalaria, competindo com os tanques, perseguiu-os pelas dunas, onde os tanques não podiam atuar e dar-lhes caça. A maior parte do tempo, os tanques não utilizaram seus canhões, para não atingir, com o fogo, a nossa própria cavalaria. Centenas e centenas de cavalarianos liquidaram os alemães com seus sabres, como ninguém havia feito até então. Não havia tempo para fazer prisioneiros. Foi uma verdadeira carnificina que não se deteve senão quando terminou. Numa área reduzida, mais de 20.000 alemães foram mortos. Eu estive em Stalingrado, porém jamais assisti a uma matança tão terrível como a que teve lugar nos campos e dunas dessa pequena região. Às 9 horas da manhã tudo terminara; uns 8.000 prisioneiros se renderam nos dias seguintes. A maior parte deles fugira a grande distância do principal palco da matança e se havia escondido nos bosques... A catástrofe de Korsun preparou o terreno para a nossa ofensiva da primavera. Foi, psicologicamente, de uma imensa importância. Até certo ponto, os alemães se haviam esquecido de Stalingrado. Era importante reavivar-lhe a memória”. Anexo Artilharia russa O general alemão von
Mellenthin analisa o poderio e as táticas da artilharia russa: “Assim como a infantaria,
os russos empregavam a artilharia em concentrações maciças. Os ataques de
infantaria realizados sem uma preparação prévia de fogo de artilharia eram
muito raros. Tampouco apelavam os russos à tática de um bombardeio breve para
assegurar a obtenção da surpresa. Tinham canhões e projéteis em quantidade, e
os usavam... Para os ataques em grande escala, os russos utilizavam
normalmente uns 200 canhões por milha de frente. Se julgavam necessário, o
número era acrescido para 300, porém essa cifra nunca baixava a menos de 150.
O bombardeio preliminar durava geralmente umas duas horas, e os artilheiros
recebiam ordem de empregar nesse lapso toda a provisão de munições planejada
para um consumo de um a um dia e meio. Outra cota de munição para um dia
inteiro era mantida de reserva para a primeira fase do ataque, junto aos
canhões, e mais para a retaguarda acumulava-se o restante das munições. Sob
um fogo concentrado de tal intensidade, as linhas alemães, geralmente fracas,
eram arrasadas em pouco tempo. As armas pesadas, principalmente os canhões
antitanques, eram logo destruídas, não importa quão cuidadosamente
localizadas e protegidas estivessem. Então, as massas de homens e tanques, em
formação cerrada, se lançavam sobre as posições despedaçadas. Quando existiam
reservas móveis na retaguarda, a situação podia ser restaurada com relativa
facilidade, mas não contávamos com essas forças, caindo o peso da batalha
sobre os sobreviventes da primeira linha. “Os bombardeios da
artilharia russa se alongavam até muito fundo na retaguarda, e se
concentravam especialmente sobre os postos de comando e os QGs. A mesma
intensidade era mantida sobre toda a linha. A rigidez dos planos de fogo da
artilharia russa eram surpreendentes. Mais ainda, os russos não possuíam
suficiente versatilidade para acompanhar com seu canhões o avanço da
infantaria e dos blindados. As baterias eram adiantadas lentamente e com
freqüência permaneciam nas suas localizações originárias. Desta forma, as
forças atacantes, ao completar penetrações profundas, ficavam durante longo
tempo sem apoio da artilharia. “O melhor antídoto para
as concentrações de artilharia russa consistia em realizar um fogo de
contrabateria antecipado, com copiosa munição. A localização de massas tão
gigantescas de canhões e o acúmulo de grande quantidade de munição exigiam
dos russos tanto tempo que, em alguns casos, chegava a estender-se por várias
semanas. Apesar da camuflagem muito eficiente, os reconhecimentos aéreos nos
permitiam geralmente descobrir os preparativos e vigiar o seu
desenvolvimento. Noite após noite, os russos construíam novos postos que
durante vários dias permaneciam vazios. De repente, numa manhã, vários
canhões apareciam já instalados e em pouco tempo se completava a colocação
das peças restantes. Em geral, nas últimas duas noites anteriores ao ataque,
terminava-se a concentração das baterias. Nas poucas oportunidades em que
contávamos com suficiente artilharia e munições, conseguimos excelentes
resultados, descarregando um fogo sistemático de contrabateria, iniciado no
momento em que os russos come;cavam a montar seus canhões. Os ataques dos
bombardeiros da Luftwaffe se mostravam também sumamente efetivos. “As táticas ofensivas
empregadas pela artilharia russa melhoraram progressivamente no transcurso da
guerra. Seus bombardeios preliminares se converteram em verdadeiros furacões
de fogo. Desenvolveram, em particular, uma técnica de interromper o fogo em
estreitos setores que, algumas vezes, não tinham mais de 90 metros de
largura, enquanto continuavam bombardeando furiosamente o resto de nossas
linhas. Esse ardil criava a impressão de que o bombardeio prévio ao ataque
continuava com toda violência, quando, na realidade, o avanço da infantaria
russa já se iniciara através daqueles estreitos corredores”. A luta no ar Quando os alemães
iniciaram a invasão da Rússia, em junho de 1941, a Luftwaffe concentrou nessa
frente o grosso dos seus efetivos, suspendendo a sua ofensiva aérea contra a
Inglaterra. Cerca de 3.000 aparelhos intervieram na luta, apoiando o avanço
das forças terrestres. Os russos opuseram à aviação alemã uma força de
aproximadamente 7.500 aparelhos, na sua maior parte de construção antiga.
Logo se tornou evidente a superioridade dos alemães, especialmente no tocante
aos caças. De fato, as esquadrilhas da Luftwaffe eram integradas pelos
velozes e mortíferos Messerschmitt 109, que superavam amplamente os antiquados
caças monoplanos russos Polikarpov I-16. No fim do verão de 1941, a Luftwaffe
havia conseguido a supremacia aérea. Logo, no entanto, os russos iniciaram a
sua recuperação. A falta de bombardeiros
quadrimotores de longo alcance impediu aos alemães de atacar e destruir as
grandes fábricas aeronáuticas instaladas pelos russos além dos montes Urais.
Nessas fábricas se iniciou a construção acelerada de milhares de aparelhos de
novos projetos. Assim apareceram os caças Yak e Mig, e o célebre
caça-bombardeiro II-2 Sturmovik. Com a intervenção desses aviões, a
resistência russa no ar foi aumentando e se tornou particularmente
encarniçada nos setores de Leningrado e Moscou. A 21 de julho de 1941, os
alemães iniciaram os primeiros bombardeios contra a capital russa, porém,
poucas semanas depois viram-se obrigados a suspende-los ante as enormes
baixas sofridas por suas esquadrilhas, nas miras dos caças e da artilharia
antiaérea russa. Ao chegar o outono de 1941, muitas das unidades de caça da
Luftwaffe tiveram seus efetivos reduzidos à metade ou a dois terços do
normal. Iniciava-se assim o período negro da arma aérea alemã na frente
oriental, processo que o General Galland qualificaria com um verdadeiro
“Verdun do ar”. Com efeito, nessa luta interminável pelos imensos espaços
russos, a Luftwaffe sofreria uma diminuição inexorável e progressiva do seu
poderio. Quatro meses depois de iniciada a campanha, a aviação alemã ficara
reduzida a 2.000 aparelhos em condições de operar. Na grande batalha travada
frente a Moscou, os russos empregaram mais de 1.000 aviões. Os alemães, por
sua vez, apenas conseguiram manter em operações frente à capital russa, no
momento crítico do encontro - dezembro de 1941 - 500 aparelhos. A situação da
Luftwaffe continuou deteriorando-se. Em princípios de 1942, uma das quatro
frotas aéreas que participavam na frente russa foi transferida para o
Mediterrâneo para apoiar as ações de Rommel na África e bombardear a ilha de
Malta. Este fato determinou uma radical diminuição dos efetivos aéreos
alemães. Também a necessidade de aumentar as defesas do território da
Alemanha contra as devastadoras incursões dos bombardeiros britânicos e
americanos obrigou a debilitar ainda mais as esquadrilhas que operavam na
Rússia. Menos da metade das forças da Luftwaffe continuaram combatendo na
frente oriental. Enquanto o poderio alemão
no ar se extinguia, o russo se agigantava aceleradamente. Não apenas
quantitativamente, mas também na qualidade. Os novos caças Yak-9 e La-5
podiam agora competir em igualdade de condições com os melhores aparelhos
alemães. A Luftwaffe, porém, ainda não estava derrotada. Na grande ofensiva
contra Stalingrado e o Cáucaso conseguiu concentrar 1.500 aviões para apoiar
o ataque decisivo. Lutando contra forças russas superiores, as esquadrilhas alemães
conseguiram cobrir o avanço das colunas Panzer até os seus distantes
objetivos. Isto foi conseguido principalmente pelo fato de que os russos
haviam concentrado o grosso de sua aviação no norte, frente a Moscou e
Leningrado, acreditando que nesse setor haveria de desencadear-se um novo
ataque alemão. Logo, no entanto, a situação sofreu uma mudança radical. Em
outubro e novembro, mais de 1.000 aviões foram enviados para reforçar as
esquadrilhas russas que operavam no sul. A Luftwaffe viu-se, então, diante de
uma esmagadora superioridade inimiga. Os caças russos infligiram terríveis
perdas aos aviões-transporte alemães
que tentaram, sem êxito, abastecer pelo ar as forças do General Paulus
cercadas em Stalingrado. Os bombardeiros russos, por sua vez, realizaram
devastadores ataques contra os aeródromos alemães e as forças terrestres. Ao
se concluir a luta em Stalingrado, a Luftwaffe sofrera uma terrível derrota.
Mais de 1.000 pilotos veteranos e tripulantes sucumbiram na luta e já não
havia condições para substituí-los. O ano de 1943 se iniciou,
assim, com a vitória absoluta dos russos no ar. Para agravar ainda mais a
situação, a intensidade crescente dos bombardeios anglo-americanos contra a
Alemanha obrigaria a reter, para a defesa do território do Reich, três
quartas partes dos caças disponíveis. A força aérea russa alcançara,
então,a cifra de 10.000 aviões. Na derradeira ofensiva
realizada por Hitler na frente oriental, em julho de 1943, a Luftwaffe conseguiu
reunir, apelando aos seus últimos recursos e incorporando às suas unidades
máquinas romenas e húngaras, 2.000 aviões. Esta seria a última vez que a
Alemanha conseguiria reunir numa só operação uma cifra de tal amplitude. Os russos, por sua vez, concentraram
em torno do planalto de Kursk, objetivo do ataque alemão, a quase totalidade
de suas forças aéreas: quatro exércitos aéreos com quase 10.000 aviões. No período crucial da
batalha de Kursk, que se estendeu de 5 a 15 de julho, os alemães, realizando
um esforço supremo, conseguiram efetuar uma média de 3.000 saídas diárias. A
resposta russa foi devastadora: não apenas duplicou, com seus aparelhos, o
número de saídas dos alemães, mas também, pela maior potência de suas
formações, sua ação teve efeitos ainda mais terríveis. Os Sturmovik contribuíram
com seus ataques rasantes para conter o avanço das colunas de tanques
alemães, enquanto as esquadrilhas de bombardeiros atacavam os aeródromos da
frente, as concentrações de tropas e as colunas de abastecimentos. Ao iniciar-se a grande
contra-ofensiva soviética, depois de rechaçado o ataque alemão, as
esquadrilhas russas mantiveram uma ação incessante contra os alemães em
retirada. O número de incursões alcançou, em alguns dias, a extraordinária
quantidade de 10.000 saídas. Deste modo, em Kursk, não
somente se decidiu a luta no plano das forças terrestre, mas também no do ar.
A aviação russa conquistara definitivamente a supremacia aérea, ao longo de
toda a frente oriental. Esse fato teria influência decisiva no curso
posterior das hostilidades. Os marechais russos No transcurso da guerra
contra a Alemanha, surgiram nas fileiras do Exército Vermelho numerosos
chefes militares que se distinguiram por sua grande capacidade. Esses homens,
na sua maioria de origem humilde, contribuíram, através de sua ação pessoal,
para assegurar a vitória final da URSS sobre a Wehrmacht. Seus nomes podem
figurar entre os grandes condutores militares da História. Alguns dos mais
destacados marechais que tiveram em suas mãos a tarefa de conduzir as
operações que levaram a Rússia à vitória foram os seguintes: Koniev Formou-se em 1934 na
Academia Militar. Durante a guerra comandou as tropas da Frente de Kalinin,
da Frente da Estepe, da 1a Frente Ucraniana e da 2a
Frente Ucraniana. De 1946 até 1950, foi comandante supremo das forças
terrestres e vice-ministro da Defesa. Em 1950 e 1951, inspetor-geral do
Exército russo. De 1951 a 1955 comandante de um distrito militar. Entre 1955
e 1960 primeiro vice-ministro da Defesa da URSS. Em 1961 e 1962, comandante
supremo das forças russas na Alemanha. Desde 1962, chefe de
generais-inspetores do Ministério da Defesa. Condecorado duas vezes como
Herói da União Soviética Malinovski Em 11930 saiu da Academia
Militar. Durante a guerra, comandou um Corpo de Exército, o exército da
Guarda em Stalingrado, a Frente meridional, a sul-ocidental, a 3a
Frente Ucraniana e a 2a Frente Ucraniana. Em 1945 comandou a
Frente da Transbaicália. Ao terminar a guerra foi comandante de um distrito
militar e depois das forças do Extremo Oriente. Desde março de 1956 até
outubro de 1957 foi comandante supremo das forças terrestres e primeiro
vice-ministro da Defesa da URSS. Ministro desde outubro de 1957. Condecorado
duas vezes como Heróis da União Soviética. Rokossovski Deixou em 1929 a Academia
Militar. Durante a guerra comandou o 16o exército, as tropas da
Frente de Briansk, do Don, do Central, da 1a e 2a
Frentes bielorussa. De origem polonesa, depois da guerra adotou a cidadania
polonesa e foi, desde 1949 até 1956, vice-presidente do conselho de ministros
e ministro da Defesa da Polônia. Regressou posteriormente à Rússia, onde foi
nomeado vice-ministro da Defesa. Condecorado duas vezes como Herói da União
Soviética. Vassilevski Um dos mais destacados
chefes russos. Combateu na Primeira Guerra Mundial e chegou ao posto de
comandante de regimento e combateu, depois, nas fileiras do exército
Vermelho, depois, nas fileiras do Exército Vermelho na guerra civil de 1818 e
1920. Em 1937 deixou a Academia de Estado-maior. No Estado-Maior passou a
exercer o cargo de vice-chefe, de 1941 a 1942. Depois foi chefe do
Estado-Maior, desde 1942 até 1949. Como representante do Alto-Comando dirigiu
a ação dos exércitos russos nas grandes batalhas de Stalingrado (1942 -
1943), Kursk (1943), nas operações da libertação da Criméia., Bielorússia,
Letônia e Lituânia. Em 1945 dirigiu as ações que culminaram com a derrota das
forças alemães na Prússia. Posteriormente, comandou as forças russas que
levaram a cabo a rápida derrota dos exércitos japoneses no extremo soviético.
Desde 1949 até 1953, foi ministro da Defesa da URSS. De 1933 até 1957,
vice-ministro. Em duas oportunidades foi condecorado como Herói da União
Soviética. Jeremenko Ao se produzir a invasão
alemã, em 1941, ocupou o cargo de subchefe das tropas da Frente Ocidental.
Posteriormente foi chefe das forças da frente de Briansk e comandante do 4o
Exército de Choque. Teve destacada atuação durante 1942, como chefe da Frente
de Stalingrado, durante a grande batalha que terminou co o aniquilamento das
forças do Paulus. Mais tarde dirigiu as operações da Frente de Kalinin, no
Báltico. No fim da guerra, como comandante da 4a Frota ucraniana,
interveio na derrota das forças alemães, na Tchecoslováquia. Ao término da
guerra passou a ocupar um alto posto no Ministério de defesa. As operações navais Ao emitir a diretiva do
plano que determinou a invasão da Rússia, Hitler salientou o caráter
totalmente secundário que as operações navais teriam na luta contra a URSS.
Posteriormente, destacados chefes navais alemães lamentariam o erro dessa
política. Um deles, o Almirante Ruge, expôs claramente as vantagens que se
teria podido obter de um maior aproveitamento do poderio naval: “A guerra num
país pobre sem estradas e vias ferroviárias, como era a Rússia, consistia,
antes de mais nada, num problema de transporte. Por que não se aproveitaram
as vantagens do transporte marítimo para realizar o avanço? A distância em
linha reta da fronteira da Prússia Oriental a Leningrado era de 800 km, da
fronteira a Moscou era de 1.000 km, e de Leningrado a Moscou era de 600 km.
Por que se renunciou, diante disso, à eficiente via marítima que, dos portos
alemães de Lubeck, Stettin e Koenigsberg levavam diretamente aos portos
russos de Reval e Leningrado?... Os finlandeses eram nossos aliados:
podíamos, portanto, dispor de toda a costa meridional da Finlândia como ponto
de partida. As ilhas do Báltico, o porto de Reval e, naturalmente, também a
frota russa se oferecia como objetivos favoráveis para um ataque de surpresa.
Depois do afundamento do nosso encouraçado Bismarck ficaram livres as
unidades designadas para sua escolta, e podiam ser utilizadas no Báltico, sem
prejudicar sensivelmente a guerra contra a Inglaterra. Mesmo empenhando na
luta contra os britânicos todos os submarinos e cruzadores auxiliares
necessário, ainda nos restaria forças suficientes para agir de surpresa, e
com a maior agressividade, nos golfos de Riga e na Finlândia...”. Essa estratégia não foi
adotada. A Marinha, tal como Hitler determinara, somente realizou ações de
caráter fundamentalmente defensivo: distribuição de minas, patrulhamento,
etc. A 20 de setembro de 1941, quando as forças terrestres alemães alcançaram
os subúrbios de Leningrado, Hitler decidiu formar uma “frota do Báltico” com
o encouraçado Tirpitz, o encouraçado de bolso Scheer e naves de escolta, com
a intenção de bloquear a possível fuga dos barcos de guerra russos para os
portos da Suécia. Este fato não se produziu. O grosso da frota russa
permaneceu em refúgio na base de Krondstadt e Leningrado, e seus pesados
canhões colaboraram na defesa da praça contra o assédio alemão. Assim, a
campanha inicial contra a URSS concluiu-se sem que a frota russa do Báltico
fosse destruída nem suas bases conquistadas.Com isso, Hitler perdeu uma oportunidade
que não voltaria a se apresentar: assestar um golpe decisivo no poder naval
russo e, paralelamente, facilitar a penetração das forças terrestres sobre a
retaguarda russa, mediante o desembarque maciço de tropas e material nos
portos do norte. A guerra naval no
Báltico, a partir desse momento, se reduziu a escaramuças entre unidades
menores. Um extenso campo de minas, espalhado pelos alemães, fechou o golfo
da Finlândia, impedindo assim as operações em grande escala. Alguns
submarinos russos, porém, conseguiram abrir caminho e afundaram sete barcos
mercantes alemães, danificando outros cinco. No decorrer dos anos 1942-1943,
os alemães perderam mais seus unidades de guerra menores. No Oceano Glacial
Ártico As operações terrestres,
efetuadas pelos alemães contra o porto de Murmansk, foram apoiadas por um
débil destacamento naval constituído por cinco caça-torpedeiros e alguns
caça-minas e naves de patrulhamento. Os russos, por sua vez, dispunham nessa
zona de 14 caça-torpedeiros, 10 submarinos e outras unidades menores. Não
houve maiores choques entre ambas as forças navais, porém os submarinos
russos, apoiados por submarinos britânicos, realizaram ataques eficientes,
afundando sete barcos mercantes alemães e um caça-submarinos. Em princípios de 1942, e
depois do fracasso da ofensiva terrestre alemã contra o porto de Murmansk,
Hitler ordenou a colocação de grandes forças navais ao norte da Noruega, ante
o temor de que os britânicos realizassem ali um desembarque para apoiar a
Rússia. Estas forças, também, teriam como missão interceptar o trânsito de
comboios aliados ao porto de Murmansk. Travou-se então uma série de intensos
choques entre as forças navais e aéreas alemães e os comboios aliados. Estes
sofreram graves perdas. Algumas unidades alemães, como o Admiral Scheer e o
Hipper se internaram no Oceano Glacial Ártico, onde atacaram barcos russos e
suas bases. Em setembro de 1943, a
luta naval no Ártico sofreu uma reviravolta decisiva, quando o grande encouraçado
Tirpitz ficou inutilizado pelas cargas explosivas, colocadas no seu casco por
um submarino de bolso inglês. A este episódio somou-se, pouco depois, no mês
de dezembro, o afundamento do Scharnhorst, em um combate com barcos de guerra
britânicos. Em conseqüência dessas ações reativou-se intensamente o trânsito
de comboios aliados, que daí por diante sofreram poucas baixas. No Mar Negro Quando se iniciaram as
operações no Mar Negro, não existiam ali forças navais alemães. A Wehrmacht
só podia contar com o apoio de quatro caça-torpedeiros, um submarino e
algumas lanchas-torpedeiras romenas. Então os russos puderam valer-se de sua
superioridade naval para transportar forças e abastecimentos ao porto de
Sebastopol, na Criméia, quando esta praça foi sitiada pelos alemães. Estes
fizeram um esforço para aumentar os seus efetivos e levaram ao Mar Negro, por
via férrea, embarcações desmontadas. Construíram também alguns pequenos
barcos em estaleiros russos capturados. Desta forma chegaram a contar com uma
flotilha integrada por dez lanchas-torpedeiras, 23 caça-minas, seis
submarinos, três lança-minas, oito caça-submarinos, 13 barcos de transporte e
numerosas naves auxiliares. A estas forças se uniram barcos italianos (seis
MAS, seis submarinos de bolso, 10 lanchas de assalto). A intervenção, também,
da força aérea alemã permitiu equilibrar a situação frente à marinha russa.
Desta forma, os russos se viram obrigados a suspender o envio de
abastecimentos e reforços para Sebastopol por meio de navios-transporte, e
tiveram que faze-lo empregando submarinos e velozes destróieres que operavam
de noite. Depois da queda de Sebastopol, as flotilhas alemães e italianas
conseguiram afundar numerosas unidades menores russas. A luta se deslocou
depois ao setor oriental do Mar Negro, onde ocorreram numerosos encontros
entre as embarcações menores de ambos os lados, apoiados pelas respectivas
aviações. A falta de poderio naval
alemão, tanto de guerra como de transporte, no Mar Negro, influiu
decisivamente no curso das operações terrestres na região do Cáucaso. Na
verdade, as tropas alemães que avançavam pelo Cáucaso eram obrigadas a
receber a quase totalidade de seus abastecimentos pelos longos e primitivos
caminhos terrestres. Os russos, ao contrário, puderam manter-se sobre as
costas do Mar Negro e utilizar em seu proveito os seus portos. Apesar de sua debilidade
marítima, os alemães, depois da derrota de Stalingrado e Kursk, completaram,
sem maiores perdas, através do estreito de Kertsch, a evacuação de quase
200.000 soldados, 35.000 veículos, 1.200 canhões e 3.000 toneladas de
material, retirando-os da região caucásica para a Criméia. A conferência de Teerã Em fins de outubro de
1943, o Presidente Roosevelt, o Primeiro Ministro Churchill e o premier
Stalin haviam combinado reunir-se em Teerã, capital do Irã. A cidade, como
sede da entrevista, fôra escolhida pelo dirigente russo que alegara não poder
afastar-se muito do território russo, em virtude da luta em sua pátria. Roosevelt, a princípio,
mostrou-se contrário a reunir-se nessa cidade, porém, posteriormente, ante a
atitude firme de Stalin, teve que ceder. Como preparação para a
conferência, que seria a primeira que manteriam os três líderes aliados,
Roosevelt propôs a Churchill reunir-se no Cairo, junto com Chiang Kai-shek e
os chefes militares anglo-americanos. Esta reunião, designada com o nome
chave de Sextant, efetuou-se entre os dias 22 e 26 de novembro de 1943. Nessa
entrevista determinou-se empreender uma ofensiva no norte da Birmânia, para
expulsar os japoneses. Também, por iniciativa de Roosevelt, os três chefes de
Estado firmaram um importante comunicado, referente ao futuro destino do
império japonês. Em um de seus parágrafos, dizia o documento: “Os três
grandes aliados empreenderam esta guerra para deter e castigar a agressão do
Japão. Não buscam lucros para si, e não desejam nenhuma expansão territorial.
Seu propósito é que o Japão seja despojado de todas as ilhas do Pacífico da
quais se apoderou e ocupou desde o começo da Primeira Guerra Mundial, em
1914, e que todos os territórios que o Japão arrebatou aos chineses, tais
como a Manchúria e as ilhas Formosa e Pescadores, sejam devolvidos à
República da China. O Japão será expulso de todos os territórios que tomou
pela violência e pela ambição. As três grandes potências, acima citadas,
conscientes da escravidão do povo da Coréia, estão determinadas a fazer com
que, no seu devido momento, a Coréia volte a ser livre e independente”. Desta forma determinou-se
a liquidação do império de ultramar do Japão. Roosevelt foi o principal
promotor dessa resolução. Churchill, embora o secundasse, tentou sem êxito
que a conferência do Cairo se ocupasse principalmente da coordenação dos
planos militares referentes à Europa. O primeiro-ministro britânico desejava
firmar com Roosevelt uma política militar definida, comum, como primeiro
passo para a entrevista com o premier soviético Stalin. Porém não conseguiu o
seu propósito. Escreveu, mais tarde, a respeito do episódio: “As conversações
entre os Estados-Maiores britânico e americano foram, infortunadamente,
marginalizadas pelos assuntos chineses. Resultou que o problema chinês foi o
primeiro, em lugar de ser o último, no Cairo”. Em Teerã Na reunião de Teerã entre
os Três Grandes houve três conferências privadas entre eles, nos dias 28 e 29
de novembro e 1o de dezembro. O principal problema tratado nas
discussões foi o da segunda frente. Churchill declarou categoricamente que
mantinha a resolução tomada na conferência de Quebec, da qual se determinara
que as forças americanas levariam a cabo a invasão da França através do Canal
da Mancha no mês de maio de 1944. Churchill, que se manifestou de acordo com
a medida, esclareceu que se deveria levar em conta uma série de alternativas
que facilitariam a dispersão e a debilitação do poderio alemão, no tempo que
ainda faltava para levar à prática o desembarque. Entre as operações de
possível realização citou as seguintes: 1. Continuar a campanha da Itália até
capturar Roma e prosseguir depois o avanço para o norte, até uma linha que
correria ente as cidades de Pisa e Rimini; 2. Realizar uma tentativa conjunta
para induzir a Turquia a entrar na guerra; 3. Capturar, por bloqueio ou
desembarque, as ilhas do Mar Egeu, medida que permitiria aos transportes
aliados operar através do Estreito dos Dardanelos para abastecer a Rússia,
pelos portos do Mar Negro; 4. Incursões em escala reduzida, através do
Adriático, para abastecer e apoiar os guerrilheiros iugoslavos; 5.
Desembarque no sul da França, depois da estabilização da frente da Itália, ao
norte de Roma; 6. Ou, em lugar disso, enviar uma expedição a Trieste, no
extremo norte do Adriático, com a intenção de penetrar até a Áustria e a
Hungria. Com essas propostas,
Churchill colocava em discussão, novamente, a sua estratégia de golpear a
Alemanha no “baixo e débil ventre” da fortaleza européia. Roosevelt, porém,
não apoiou os planos do primeiro-ministro inglês. Os chefes militares
americanos por sua vez, também não secundaram Churchill em seus projetos.
Stalin, então, declarou que nenhuma outra operação devia reduzir o poderio do
ataque anglo-americano na França. Declarou também, que já que se achavam
reunidos, deviam decidir de uma vez por todas a data do plano Overlord pois,
desta maneira, os russos realizariam os preparativos para lançar uma ofensiva
na frente oriental, obrigando os alemães a reter ali forças ponderáveis. Colocada assim a
situação, os chefes de Estado-Maior britânicos e americanos se reuniram e
combinaram um plano estratégico conjunto. A operação Overlord seria efetuada
no mês de maio de 1944 e também se realizaria um desembarque de apoio no sul
da França. Roosevelt e Churchill
aprovaram imediatamente a resolução de seus generais. Stalin, por sua vez,
expressou a sua satisfação. Ficou então
definitivamente determinada a realização da grande invasão do continente
europeu, que culminaria com a derrota final da Alemanha. Foram tratadas, ao mesmo
tempo, outras questões referentes ao futuro destino da Alemanha,
declarando-se os três líderes partidários da sua divisão; ao mesmo tempo,
discutiu-se a situação do Pacífico. Stalin reafirmou a sua
declaração anterior de que a Rússia interviria na luta contra o Japão, apenas
fosse derrotada a Alemanha. Também expressou a sua conformidade com o
estabelecido entre Roosevelt, Churchill e Chiang Kai-shek no Cairo, a
respeito da liquidação do império japonês. O chefe soviético, além disso,
expôs os seus desejos de que se concedesse à Rússia parte dos territórios
japoneses, a metade da ilha de Sacalina e todas as ilhas Curilas. Achou,
também satisfatória a proposta de Roosevelt de que se declarasse livre o
porto chinês de Dairen, a fim de que os russos contassem com uma saída
adequada no Oceano Pacífico. Assim a reunião chegou ao
fim. Cabia agora aos exércitos em luta levar à prática as medidas
estabelecidas pelos líderes aliados. |