Luta na Birmânia

 

Luta na retaguarda japonesa

            

Ações guerrilheiras de Wingate

Ataque a Akiab

 

 

Birmânia, maio de 1942. Através dos atalhos da mata avançam as últimas colunas de soldados britânicos que batem em retirada para a fronteira da Índia. Os exércitos japoneses vitoriosos, não se empenham na perseguição dessa massa de homens extenuados e consumidos pelas enfermidades tropicais. A monção se iniciara e com ela vinham chuvas torrenciais que se prolongariam por cinco meses. Este fato pôs fim ao avanço das forças japonesas, pois estas careciam de meios para armar uma nova ofensiva contra a Índia sob esse dilúvio que converteu a mataria num gigantesco e tremendo pantanal. Nem homens, nem animais, nem veículos podem movimentar-se ou lutar nessas inumadas condições. Um oficial britânico assim registrou os acontecimentos: “Num certo sentido, essa cortina de água salvou a Índia, pois os japoneses não estavam melhor preparados que os britânicos para lutar durante cinco meses de chuvas torrenciais”.

 

As tropas britânicas e hindus, comandadas pelo General Slim, que haviam escapado ao aniquilamento e à captura, não totalizavam mais que 12.000 homens. Haviam chegado à Birmânia em péssimas condições físicas, doentes, desnutridos e esgotados; com seus uniformes em frangalhos, apenas salvaram do desastre suas armas leves. O equipamento pesado, canhões e tanques, fôra destruído na etapa final da retirada. Nesse ambiente de catástrofe, o General Wavell iniciou a reorganização dos seus efetivos. As experiências da campanha demonstravam claramente a superioridade dos japoneses na luta da selva. Havia-se comprovado, também à custa de dolorosas perdas, a necessidade de contar com o apoio aéreo permanente. O chefe britânico, com a característica firmeza dos seus conterrâneos diante da adversidade, emitiu, nesse momento de desmoralização e de derrota, a ordem aos oficiais para iniciar imediatamente o planejamento da reconquista da Birmânia. As paredes dos escritórios do seu QG se cobriram de mapas da região; neles, os oficiais do Estado-Maior traçavam as linhas dos possíveis avanços.

 

Wavell, ao mesmo tempo em que iniciava estes estudos de longo alcance, resolvera não permanecer de braços cruzados ante a ameaça latente de uma invasão japonesa através da fronteira. O chefe britânico propunha-se a levar, o mais cedo possível, a guerra ao território dominado pelo inimigo. Mesmo que se tratassem de operações em escala reduzida, acreditava que serviriam para entorpecer muito os futuros movimentos japoneses. Alguém veio incorporar-se com entusiasmo nesses planos; a pessoa de quem Churchill diria mais tarde: “Um homem genial, um homem-destino”. Era o Brigadeiro Orde Wingate.

 

Wingate já era conhecido como condutor militar aventureiro e sagaz. Suas façanhas na Etiópia, durante a campanha da libertação de 1940-41, onde organizou as forças de guerrilheiros que acompanharam o Imperador Hailé Selassié, haviam passado já ao plano legendário. Baseado nestes antecedentes, Wavell o chamara para a Birmânia, para organizar ali uma força de guerrilheiros. Wingate não chegou a concretizar essa primeira tarefa, pois a vitória japonesa o impediu. Antes de abandonar o território da Birmânia, porém, percorreu de automóvel vastas extensões a fim de explorar minuciosamente o terreno onde haviam de se desenrolar as operações futuras.

 

 

Organiza-se a ofensiva

 

Ao viajar para a Índia, Wingate obteve o comando das denominadas “Forças de Penetração de Longo Alcance”, cujo objetivo era atuar por trás das linhas do inimigo. Rapidamente elaborou seus planos; baseavam-se na convicção de que o ponto mais vulnerável dos japoneses se encontrava na retaguarda, onde apenas existiam tropas de segunda classe e unidades de vigilância e abastecimento, sem valor combativo.

 

Uma força altamente adestrada poderia penetrar e avançar em território inimigo, abastecida pelo ar, marchando através da selva. Essa força, mediante uma série de golpes de surpresa, estaria em condições de cortar as linhas de abastecimentos japoneses, fazer voas as linhas ferroviárias, destruir depósitos. Estas ações obrigariam os japoneses a retirar tropas de combate para proteger as linhas de retaguarda. Tal fato permitiria aos britânicos ganhar tempo para consolidar suas linhas na fronteira da Índia.

 

As idéias de Wingate foram recebidas sem maior entusiasmo pelos chefes do comando britânico. Segundo os oficiais do Estado-Maior, no território da Birmânia não existiam condições propícias, pois a população era hostil aos ingleses. Além disso, a quantidade de homens que Wingate solicitava (3.000) foi considerada excessiva. Contudo, ele defendeu sua tese com enérgica convicção, até conseguir ver o seu pedido aceito. Influiu consideravelmente para isso a amizade que o comandante-chefe das forças aliadas, General Wavell, tinha por ele.

 

Assim, vencendo todos os obstáculos, no mês de junho de 1942 iniciou-se a organização da força de ataque que foi denominada 77a Brigada de Infantaria hindu. Os soldados que a interavam pertenciam a unidades do exército britânico e aos regimentos de gurcas, considerados como soldados de alto valor combativo.

 

Wingate submeteu suas tropas a um treinamento intensivo, que se caracterizava por uma severidade impiedosa. O chefe inglês sabia que a dura prova a que estariam expostos os seus exigia a eliminação prévia de qualquer sintoma de debilidade. O chefe inglês estava disposto a fazer com que seus homens adquirissem a capacidade de resistir a toda espécie de privações e fadigas e para isso os submeteu a uma série de extenuantes marchas na região selvagem do norte da Índia. Os soldados aprenderam assim a movimentar-se em plena selva e a sobreviver com um mínimo de suprimentos. Cruzaram-se centenas de vezes pântanos e rios considerados intransponíveis.

 

Então, no mês de novembro, Wingate instalou o seu QG na localidade de Imphal, na fronteira da Birmânia. Em seguida começou a organização definitiva de suas forças. Num bombardeiro Blenheim sobrevoou o território birmanês e efetuou um reconhecimento do terreno pelo qual teria que transitar pouco tempo depois. A 77a Brigada estava já com seus efetivos completos: 3.000 homens, entre oficiais e soldados. Imediatamente levou a cabo os seus exercícios finais, que se realizaram com o rigor de verdadeiras operações de combate. Culminaram com uma extenuante marcha de 215 km que as tropas concluíram com equipamento completo. Essa distância foi coberta em oito dias. Ao finalizar essas manobras, as tropas acreditaram que o seu superior haveria de lhes proporcionar um merecido descanso. Wingate, porém, ordenou que os acampamentos se instalassem a 12 km de Imphal, “a fim de que as tropas não amoleçam”, segundo suas próprias palavras.

 

Ataque a Akiab

 

Simultaneamente com a operação de Wingate, Wavell planejara realizar outra ofensiva em escala limitada, contra o porto birmanês de Akiab, na costa do golfo de Bengala, a uns 145 km ao sul da fronteira hindu. O êxito do plano dependia da sua imediata execução, pois a zona ainda estava debilmente guarnecida pelos japoneses. O mau tempo, porém, atrasou o início do avanço até meados do mês de dezembro. Os japoneses, nesse meio tempo, conseguiram reforçar suas posições em Akiab e na selvagem península de Mayu.

 

Em princípio, Wavell havia imaginado tomar Akiab mediante um ataque anfíbio, apoiado por terra, pelo avanço de forças provenientes da península de Mayu. Porém, a falta de embarcações adequadas, impediu o projetado assalto por mar. Portanto, limitou-se à ofensiva terrestre. A zona por onde as tropas deviam avançar era praticamente coberta de florestas e pântanos. Incontáveis riachos cortavam a região, constituindo uma barreira para o deslocamento das forças blindadas. A mata era tão espessa que os soldados deviam progredir com toda cautela, pois era possível passar a poucos passos de um soldado inimigo sem vê-lo; e isto, logicamente, podia significar a morte. As dificuldades para a luta e para o abastecimento apresentavam-se múltiplas e extremamente difíceis de superar.

 

Oito brigadas hindus e uma britânica iniciaram o ataque, sob o comando do Major-General Lloyd. As tropas avançaram lentamente pela península de Mayu, até alcançar as proximidades da localidade de Donbaik. Aí ficaram detidas pelas dificuldades surgidas no abastecimento. Quando se conseguiu reativar o avanço, nos primeiros dias de janeiro, as tropas britânicas e hindus depararam com uma defesa intransponível. Os japoneses se haviam entrincheirado fortemente nos arredores de Donbaik, armando fossos antitanques e casamatas, numa série de linhas escalonadas em profundidade. Dois ataques britânicos frontais foram rechaçados, ocasionando sangrentas perdas para os ingleses.

 

A 18 de fevereiro, dois regimentos de punjabs lançaram-se num temerário assalto a baioneta em campo aberto e, apesar dos claros abertos em suas fileiras pelo fogo japonês, conseguiram penetrar nas posições do inimigo e travar violenta luta corpo a corpo. As baixas sofridas no curso da carga, entretanto, quebraram o ímpeto da investida e os atacantes tiveram que bater em retirada; menos da metade dos homens que haviam partido ao ataque regressaram às suas linhas. O fracasso dessas tentativas não arredou o comando inglês. A 18 de março, depois de receber reforços, britânicos e hindus novamente se lançaram ao ataque. Os regimentos britânicos conseguiram abrir passagem heroicamente através das primeiras linhas, porém, o ataque foi novamente detido no emaranhado de casamatas, postos subterrâneos e zonas minadas. Duas elevações do terreno, que constituíam os principais pontos de resistência, foram assaltados pelos Royal Welsh Fusiliers, que conseguiram chegar até o seu topo, deixando o corpo coberto de mortos e feridos. Nessas posições, expostos, os atacantes foram metralhados e bombardeados intensamente...

 

Paralelamente, nas linhas japonesas, uma força mista, composta por três batalhões sob as ordens do Coronel Tanahashi lançou uma contra-ofensiva, dirigida, em primeira instância, contra as tropas britânicas que cobriam o flanco inglês no vale de Kaladan. As formações de Tanahashi caíram sobre os britânicos, dispersando-os, forçando alguns a retirar-se para o norte e outros para o oeste, através das tortuosas sendas das colinas. Em conseqüência disso, o flanco britânico ficou exposto, e Tanahashi, habilmente, explorou a situação atacando as comunicações nas cercanias de Rathedaung. Em seguida, tentou cercar ali a 55o Brigada, porém o 1o e 2o Regimentos de punjabs, resistiram a seis ataques, e contra-atacaram a baioneta, pondo os japoneses em fuga. O Tenente-Coronel Lowther mereceu uma condecoração da Ordem do Serviço Relevante, pelo sangue-frio demonstrado durante o combate; no momento culminante da batalha, Lowther dirigiu as operações sentado numa espreguiçadeira e tomando uma xícara de chá, num ponto que dominava a zona de luta, nas proximidades do setor onde se combatia encarniçadamente...

 

O próximo passo dos britânicos foi retirar-se para o norte do rio Mayu, escapulindo ao cerco de Rathedaung. Contudo, o Coronel Tanahashi não estava derrotado. Aproveitando as sombras da noite, suas tropas cruzaram o Mayu e, no dia seguinte, avançaram por ambos os flancos na cordilheira de Mayu, ameaçando isolar as brigadas que ainda atuavam de ambos os lados. Na noite de 5 de abril, patrulhas japonesas invadiram o QG da 6a Brigada, já em retirada. Vários oficiais do Estado-Maior foram mortos pelos japoneses e o Brigadeiro Cavendish capturado. Muitos de seus homens, contudo, conseguiram fugir.

 

No setor leste da cordilheira, por sua vez, a 47a Brigada conseguiu escapar da armadilha montada por Tanahashi, dividindo os seus batalhões em pequenos grupos. As pequenas unidades partiram,  então, pelas trilhas das colinas, passando cerca de dez dias sem alimentos e marchando durante 12 horas diárias. A ração chegou a ser de meia xícara de chá por dia...

 

O último ataque de Tanahashi se produziu quando suas tropas alcançaram a colina 551, na cordilheira de Mayu. Os britânicos que ainda resistiam  retiraram-se, então, para o norte e, posteriormente, empreenderam viagem para o oeste, através da cordilheira.

 

Seis meses depois de ter iniciado a marcha, o exército britânico encontrava-se no ponto de partida...

 

A campanha custara aos ingleses 2.500 baixas em combate, e um número ainda superior de combatentes havia tombado vítima da malária. O moral das forças britânicas, como reconheceram lealmente fontes oficiais inglesas, sofre um rude golpe e tornou seriamente duvidosos o valor conativo desse exército. Wavell, numa britânica demonstração de fair play, declarou à respeito: “impus uma tarefa superior aos eu treinamento e capacidade; a responsabilidade principal do fracasso é minha...”

 

Opiniões emitidas posteriormente por Wavell, no sentido de que no futuro a situação mudaria, uma vez que o fator surpresa desaparecera das táticas dos japoneses, confirmaram-se depois do ataque inicial. Nas primeiras ações, dois fatores contribuíram para favorecer os japoneses: 1o, sua superior mobilidade, baseada na extraordinária capacidade de marcha de sua infantaria; e 2o sua fanática coragem no combate. Até esse momento, os Aliados não haviam encontrado uma solução para o primeiro ponto; com respeito ao segundo, os chefes britânicos empreenderam a tarefa de fortalecer a confiança das tropas em suas armas e táticas de combate.

 

A luta aérea

 

No ar, a falta de superioridade em caças e aviões de transporte impediu os britânicos de abastecer as forças em combate. Os Zeros japoneses eram superiores, também, aos Hurricanes ingleses.

 

A queda da Birmânia deixara a RAF praticamente sem nenhum aeródromo do qual pudesse atuar em colaboração com o exército. Contudo, durante a monção de 1942, à medida que a estrada costeira de Aracan era aberta, os sapadores construíram faixas de aterragem ao longo da mesma. Por fim, em princípios de dezembro, o 224o Grupo de Comando Aéreo de Bengala transladou-se de Calcutá a Chittagong com oito esquadrões de Hurricanes e dois de Blenheims.

 

Durante o avanço pela península de Mayu abaixo, a RAF prestou uma estreita colaboração às tropas, mantendo afastada toda possível intervenção inimiga. Apesar disso, a medida que as operações de cerco se desenvolviam, a força aérea japonesa tratou de obter a superioridade no ar. Com esse fim bombardeou as faixas de aterragem da RAF, procurando impedir o seu emprego e privar assim o exército de proteção aérea.

 

Em seguida, os japoneses começaram a bombardear os aeródromos, centros de comunicação e QGs em Chittagong, Dohazari, Feni e Comilla. A RAF, por sua vez, efetuou 2000 vôos durante a campanha e no momento culminante, quatro esquadrões de aviões de combate (135, 136, 261 e 607) realizaram freqüentemente 150 vôos por dia. O resultado foi o rechaço da ofensiva aérea japonesa, o que neutralizou em parte os reveses sofridos em terra pelas tropas britânicas.

 

Paulatinamente, as forças aéreas britânicas, americanas e hindus aumentaram o seu poderio. As esquadrilhas de combate aumentaram o seu número e foram providas com Hurricanes e Kittyhawks; as esquadrilhas de bombardeiros receberam aviões Liberators, Mitchells, Wellingtons, Bleheims e Vultee Vengeances.

 

A construção de pistas de aterrissagem foi uma das tarefas mais difíceis. Foi necessário drenar os arrozais e empregar até 300.000 toneladas de concreto para construir um campo de pouso apto para bombardeiros pesados. Como a superfície era coberta de aço, foram necessários 600 vôos de aviões de transporte para traze-lo.

 

Em linhas gerais, os bombardeios da RAF se concentraram sobre alvos dentro de um perímetro de 400 km, enquanto que os aviões de maior alcance das forças aéreas dos Estados Unidos atacaram a maior distância. O inimigo foi gradualmente repelido pelos bombardeiros e aviões de combate de longo alcance aliados, até que apenas lhe restou o Sião como base de operações para os seus bombardeiros pesados. Os Aliados havia começado a dar à guerra da Birmânia uma feição mais favorável.

 

Em marcha rumo a Chindwin

 

Enquanto a ofensiva britânica se desenvolvia contra Akiab, ao norte, na fronteira com a Índia, Wingate completava a preparação de suas unidades. A 5 de fevereiro de 1943, chegou ao posto de comando de Wingate, na cidade de Imphal, o General Wavell. Este comunicou a Wingate que a projetada expedição havia sido suspensa por ordem sua. A razão desta alteração nos planos consistia em que o ataque na contaria com o apoio das forças chinesas, comandadas pelo General Stilwell, que devia avançar sobre a Birmânia pelo norte, enquanto as colunas de Wingate cortavam as comunicações dos japoneses pelo sul. Embora Wavell tivesse decidido anular a ofensiva, escutou as objeções de Wingate.

 

Wingate salientou que se a expedição não se efetuasse, as tropas que haviam atingido o seu mais alto grau de preparação, teriam o seu moral extremamente afetado. Além disso, era necessário, segundo ele, sair para enfrentar definitivamente os japoneses na mata, para conhecer e dominar o seus métodos de luta. Como último argumento, assinalou que se não levasse a cabo um rompimento das linhas inimigas, tal como a que ele projetara, os japoneses ficariam em liberdade de ação para levar adiante os seus planos ofensivos.

 

Convencido pelos argumentos de Wingate, Wavell deu, finalmente, a sua aprovação ao plano. Dois dias mais tarde, depois de vistoriadas por Wavell, as tropas se puseram em marcha. Wingate dividira a sua brigada em dois grupos, a fim de com eles realizar uma manobra de distração ao penetrar no território birmanês. O grupo principal era o número Dois, sob o comando do próprio Wingate e integrado por cinco colunas (3a, 4a, 5a, 7a e 8a) e um batalhão de fuzileiros da Birmânia. O grupo número Um, sob as ordens do Tenente-Coronel Alexander, era formado pelas colunas 1a e 2a de gurcas.

 

O cruzamento da fronteira devia ser realizado de tal maneira que chamasse a atenção dos japoneses sobre o grupo número Um. Essa força, integrada por 1.000 homens, cruzaria o rio Chindwin a 80 km mais ao sul do grupo principal; dessa maneira se efetuaria a manobra de distração necessária para que o grupo número Dois tivesse condições de maior segurança para cruzar o Chindwin.

 

O objetivo concreto da expedição era cortar a linha férrea que corria entre as cidades de Mandalay e Myitkyina. Uma vez conseguida a manobra, caso Wingate considerasse as condições favoráveis, devia continuar o avanço rumo ao leste, cruzar o rio Irrawady e cortar a fia férrea que corria entre Mandalay e Lashio.

 

Da fronteira até a primeira via férrea as tropas de Wingate deviam cobrir uma distância calculada em mais de 240 km. Esse avanço não se efetuaria por caminhos ou atalhos, mas através da própria mata. Os homens deviam levar às costas, entre armas e equipamento, 35 kg de carga. Contariam também com mulas, bois e até elefantes, para o transporte de armas pesadas. Ao todo, mil animais seriam empregados na empresa.

 

O sistema principal de abastecimento seria o aéreo. Em pontos determinados da floresta as diversas colunas às quais iam agregados oficiais de ligação da RAF receberiam víveres e munições por meio de pára-quedas.

 

As colunas partiram de Imphal e marcharam em direção sudeste. Ao chegar à localidade de Moreh, na fronteira da Índia e Birmânia, teve lugar a separação dos dois grupos. Antes que ambas as forças iniciassem o cumprimento dos seus objetivos, Wingate lhes fez uma última proclamação. Dizia: “Achamo-nos hoje nos umbrais da batalha... É sempre uma minoria ainda menor que aceita com entusiasmo uma missão como a de que nós decidimos levar a cabo”. Assim, com uma alocução breve e desprovida de qualquer retórica, Wingate lançou seus homens à batalha.

 

As colunas se puderam em marcha acobertadas pela escuridão da noite. Uma a uma, foram cumpridas as etapas, em sucessivas marchas noturnas. Na noite de 14 de fevereiro, o grupo principal cruzou o rio Chindwin. O Grupo número Um, do Tenente-Coronel Alexander, havia já transposto o rio três dias antes e penetrara 30 km adentro do território birmanês. Um destacamento comandado pelo Major Jeffries, seguindo instruções de Wingate, dirigiu-se à localidade birmanesa de Ta Nga, para realizar uma última manobra a fim de gerar confusão. Jeffries, vestido com um uniforme similar ao de Wingate e acompanhado por outros oficiais que simulavam ser altos chefes do Estado-Maior, entrevistou-se com o alcaide pró-japonês da aldeia. Depois de exigir a entrega de víveres, mencionou de maneira ostensiva, nomes de aldeias e povoações que denunciavam que sua marcha rumava para o sul.

 

Objetivo alcançado

 

As tropas do Grupo Um penetraram na mata, onde, de acordo com os informes obtidos, estava acantonada uma guarnição japonesas de 250 homens. Teve então lugar o primeiro choque armado entre as forças de Wingate e os japoneses. Os gurcas emboscaram uma patrulha japonesa e conseguiram aniquilar a maior parte dos homens que a formavam. Alguns sobreviventes, porém, conseguiram fugir e alertaram o restante dos seus companheiros. Estes abriram fogo imediatamente com morteiros e os disparos espantaram e puseram em fuga as mulas que transportavam as munições dos britânicos. Assim, os ingleses, foram obrigados a suspender o ataque. Os japoneses, por sua vez, conseguiram escapar à provável derrota que os esperava.

 

Enquanto o Grupo U era assim entorpecido em sua ação, o Dois, sob as ordens de Wingate, continuava avançando através da floresta.

 

A 15, 16 e 17 de fevereiro, os aviões da RAF lançaram os primeiros suprimentos sobre as colunas britânicas. O avanço, dada a impenetrabilidade da região, se efetuava num ritmo muito inferior ao previsto. Os 24 km diários calculados se havia reduzido a 16. No dia 26 de fevereiro, a força alcançou a localidade de Tonmakeng. Situada aproximadamente na metade do caminho até a estrada de ferro que corria entre Mandalay e Myitkyina. Ali, Wingate reuniu os seus oficiais e lhes deu instruções finais para a aproximação da via férrea. As colunas do grupo se internariam rumo ao leste por uma trilha que serpenteava entre agrestes colinas selvagens. Abrindo passagem a golpes de machado, os soldados britânicos se internaram na região. A zona era tão impenetrável que os homens só podiam avançar um a um. Durante três dias, os soldados progrediram nessas difíceis condições através da região.

 

Uma vez superado o obstáculo, definiu-se o plano de ataque à via férrea. Três colunas realizariam manobras de distração, enquanto outras duas avançariam diretamente para a estrada de ferro a fim de dinamita-la. Enquanto isso, mais ao sul, as tropas do Grupo Um sofreram um grave desastre. Ao aproximar-se da via férrea, uma coluna caiu numa emboscada armada pelos japoneses e foi dispersada com grandes baixas. Simultaneamente, no norte, os japoneses conseguiram destruir outra coluna britânica. O chefe dessa força, Major Bromdead, conseguiu reagrupar os sobreviventes e os conduziu que volta para a Índia em condições desesperadas. Esse combatentes tiveram que marchar sem víveres e sem munições.

 

Apesar desses desastres, a ação contra a estrada de ferro foi levada a cabo. No sul, um destacamento sob as ordens do Major Dunlop dinamitou uma das pontes da via férrea, na noite de 3 de março. No norte, realizou-se a operação principal. As colunas comandadas pelos majores Calvert e Fergusson convergiram sobre o objetivo. As tropas de Calvert defrontaram com encarniçada resistência dos japoneses. Contudo, conseguiram apoderar-se finalmente da estação ferroviária de Nankam, onde cumpriram os planos de demolição, destruindo três pontes e cortando a ferrovia em numerosos lugares. As tropas do Major Fergusson operavam mais ao sul. Depois de manter uma breve e renhida escaramuça com um destacamento japonês, instalaram suas cargas explosivas na encosta de uma colina a pique na margem da ferrovia. Quando os explosivos detonaram, centenas de toneladas de rocha destruíram a estrada de ferro. Além disso, uma operação similar, mais uma ponte foi mandada pelos ares.

 

Desta maneira, apesar da perda de duas de suas colunas, Wingate cumprira com pleno êxito a missão que planejara. A penetração das suas forças semeara a confusão na retaguarda japonesa e bloqueara também a principal via de abastecimento.

 

A retirada

 

Em seguida, Wingate determinou prosseguir as operações mais para o leste e ordenou às suas tropas que cruzassem o rio Irrawady. Nessa fase das operações começou a vislumbrar-se o grau de esgotamento físico dos soldados. A região era agora plana, seca e açoitada por um calor tórrido. Às penúrias que os homens havia suportado até aquele momento acrescentaram-se agora a sede e as instransponíveis dificuldades que os seus serviços de abastecimento encontravam para o cumprimento de sua missão. Assim, algumas colunas tiveram que passar períodos de até 48 horas sem receber nem água. Nessa situação, era praticamente impossível manterem-se. Também os japoneses, deslocando suas forças, ameaçavam cercar os britânicos. O Alto-Comando britânico na Índia emitiu,  então, a ordem de bater em retirada. Wingate, compreendendo que era inútil tentar levar a cabo novas operações ofensivas, reuniu os seus homens e, no dia 26 de março, lhes deu as instruções necessárias para efetuar a retirada. Os homens de Wingate, a fim de escapar à armadilha japonesa que ameaçava fechar-se sobre eles, marchariam numa só coluna até o rio Irrawady. Ali, antes de atravessar a corrente, o equipamento pesado seria abandonado e os animais se carga sacrificados. Uma vez atingida a margem oposta, se dispersariam novamente em pequenos grupos e empreenderiam a marcha, separadamente, rumo à fronteira da Índia. A marcha para o Irrawady iniciou-se à uma da madrugada do dia 27. realizando um supremo esforço, os britânicos percorreram 80 km e chegaram ao ponto determinado para a travessia às quatro da tarde do dia seguinte. Os homens, vencidos pela fadiga, armaram seus bivaques e mergulharam, quase todos no mais profundo sono.

 

Na madrugada de 29, uma vez reunidas as colunas, organizou-se a travessia, utilizando 20 embarcações de nativos. Com as primeiras luzes do dia, começaram a travessia. Quando os botes estavam na metade do rio, as primeiras descargas vindas da margem oposta evidenciaram que os japoneses estavam ali entrincheirados. Respondendo ao fogo, os combatentes de alguns botes alcançaram a margem e alis e protegeram. Wingate compreendeu que a travessia do grosso das forças era impossível. Ordenou, então, suspender a operação e reuniu seus comandantes ordenando-lhes que tomassem as medidas que julgassem necessárias a fim de se retirarem para a Índia de forma individual.

 

Wingate dispersou a sua própria coluna, integrada por 220 soldados e ele ficou à frente de 40 homens. Durante uma semana permaneceu escondido na mata, preparando-se para a longa e arriscada marcha de regresso. Era a primeira vez, desde a saída da Índia, que os homens podiam gozar de um descanso semelhante. As bestas de carga foram sacrificadas. A 7 de abril empreenderam a marcha, destruindo previamente o equipamento de rádio. Depois de dois dias de espera, em que tiveram que esconder-se das patrulhas japonesas, no dia 10, o grupo de Wingate empreendeu a travessia do rio.

 

Contudo, a aparição dos japoneses impediu parte dos homens de cruzar a corrente. Wingate, acompanhado de 34 dos seus soldados, conseguiu cruzar e seguiu adiante. A retirada, a partir desse momento, converteu-se numa penosa travessia. O descanso foi praticamente impossível, dado que os japoneses os seguiam a escassa distância. A falta de alimentos e de água tornou inenarrável o sofrimento dos homens. A via férrea, finalmente, foi alcançada. Esta, depois das demolições efetuadas pelos homens de Wingate, era permanentemente patrulhada. No entanto, a sorte ajudou Wingate e seus homens, que atravessaram as vias e se internaram na mata. Os alimentos de que dispunham se haviam esgotado e a sua alimentação diária se restringia aos animais que, conseguiam caçar. Desfalecendo, chegaram a um mosteiro, onde um dos oficiais birmaneses de Wingate conseguiu que lhes dessem alimentos. Recuperadas as forças, prosseguiram marchando até chegar a uma escarpa que formava uma barreira natural de 500 metros de altura. As passagens, inevitavelmente, estariam guardadas pelos japoneses. A sorte parecia ter-se voltado contra Wingate e seus homens. Um velho birmanês ofereceu-se para conduzir os combatentes para o outro lado da escarpa, por caminhos desconhecidos pelos japoneses. O nativo cumpriu a promessa, e, a 23 de abril, os exauridos britânicos avistaram o rio Chindwin ao longe.

 

Depois de uma extenuante marcha de quatro dias, cobriram os 50 km que os separavam daquela via fluvial. Ali, porém, tiveram que deter-ser novamente, diante da presença de patrulhas japonesas.

 

Wingate, ante a informação de que na margem oposta havia um posto britânico, decidiu correr o risco de atravessar o rio. Dividiu seu homens em dois grupos, um de nadadores, entre os quais estava, e outro que cruzaria a corrente, numa embarcação. À frente de cinco dos seus soldados, Wingate mergulhou nas águas e cruzou o rio, de quase 500 metros de largura. Extenuados, os soldados foram recebidos pelos nativos de uma aldeia próxima, que os conduziram até o reduto inglês onde se achava uma companhia de gurcas.

 

Wingate, imediatamente, procurou embarcações com o objetivo de voltar nessa mesma noite em busca do resto de seus homens. A presença de patrulhas japonesas, no entanto, impediu a concretização dos seu planos. No dia seguinte, à noite, sob o fogo dos japoneses, os homens que havia ficado na margem oposta, cruzaram o rio.

 

Assim terminou a terrível odisséia de Wingate e seus homens. As restantes colunas, uma a uma, foram chegando. D total de 3.000 homens que havia partido de Imphal sobreviveram 2.182. Destes últimos, apenas 600 estavam em condições de voltar a prestar serviços.

 

Apesar do terrível sacrifício, a missão trouxe saldos positivos. E as conclusões seriam aplicadas no futuro para a realização de outras operações de maior importância.

 

 

Anexo

 

Treinamento

Quando os homens que integrariam as forças de Wingate se prepararam para cumprir as tarefas de treinamento determinadas pelo seu chefe, não imaginavam a amplitude nem a dureza dos exercícios que o chefe britânico lhe imporia. Perceberam depois, quando os sofrimentos começaram a endurecer seus corpos e suas mentes.

Para Wingate, o soldado devia ser um homem capaz de suportar tudo, e sofrer tudo, debaixo de um rigor de uma disciplina implacável. O objetivo de Orde Wingate era ter um homem que fosse capaz de chegar até o limite do sofrimento humano; um homem capaz de resistir muito além do que o homem comum poderia resistir.

Uma regra regia o treinamento dos seus homens: a severidade implacável. Uma severidade que condenava os soldados a sofrer fome mesmo que os alimentos estivessem ao alcance; sede, embora os cantis transbordassem de água; cansaço, embora o descanso fosse perfeitamente possível; dor, embora o sofrimento pudesse ser evitado.

O chefe britânico, na sua busca da formação de um soldado de têmpera jamais igualada, obrigou suas tropas a cruzar rios tormentosos a nado, desdenhando as pontes; exigiu de seu homens que cruzassem as cordilheiras pelos picos mais escarpados, evitando os setores fáceis; determinou que os feridos continuassem a marchar ao lado dos homens sãos, ordenando que não lhes fosse prestada ajuda. O objetivo de tais ordens era uma apenas: endurecer os homens, converte-los em máquinas capazes de superar todos os sofrimentos.

As chuvas eram aproveitadas por Wingate para internar seus homens na mata e obriga-los a realizar exercícios tremendos. Os pântanos não eram flanqueados, mas atravessados, valendo-se de métodos primitivos e improvisados. Quando um homem caía vítima de um colapso, faziam-no reviver utilizando elementos da selva, empregados pelos nativos há muitos séculos.

Wingate sabia que aplicava uma regra simples de treinamento: para combater com um inimigo impiedoso era necessário endurecer-se combatendo com o pior e o mais terrível dos inimigos: a própria natureza, no seio da floresta virgem.

Por outro lado, nas suas relações com as tropas, Wingate jamais descrevia a situação com fácil ou de simples solução. Pelo contrário, o chefe britânico explicava minuciosamente aos soldados os perigos que correriam, e acentuava, em todas as oportunidades, que “o mais provável é que muitos de vocês encontrem a morte na campanha”. Não obstante, embora se possa supor que os homens se sentissem como vítimas arrastadas ao matadouro, os soldados de Wingate sentiam uma absoluta confiança no seu chefe e o seguia sem vacilar, rumo ao que parecia ser uma aventura descabelada.

 

 

A força de ataque

Comandante: Brigadeiro Orde Wingate

Coluna Um - Comandante: Tenente-Coronel Alexander

Coluna n° 1 - Major Dunlop

Coluna n° 2 - Major Emmett

Coluna Dois - Comandante: Tenente-Coronel Cooke

Coluna n° 3 - Major Calvert

Coluna n° 4 - Major Bromhead

Coluna n° 5 - Major Fergusson

Coluna n° 7 - Major Gilkes

Coluna n° 8 - Major Scott

Fuzileiros birmaneses: Tenente- Coronel Wheeler

A Força expedicionária denominada 77a Brigada Hindu, contava com 3.000 soldados e cerca de 1.000 bestas de carga. Regressaram à Índia, ao término da campanha, 2.182 homens.

 

 

Marcha na selva

O Major Bernard Fergusson, chefe de uma das colunas de Wingate, descreve em suas memórias a penosa retirada para a fronteira da Índia.

“O fato mais deprimente dessa terrível marcha foi a matança das mulas. Se os japoneses desconfiassem que sacrificássemos nossas bestas de carga, compreenderiam que nos retirávamos definitivamente. Wingate ordenou, portanto, que os animais fossem tirados fora do atalho e mortos a toda oportunidade que se apresentasse. Não podiam ser eliminados no alto das colinas, pois havia o risco do eco dos disparos alertar os japoneses. Assim cada vez que descíamos uma quebrada, meia dúzia de mulas eram afastadas do atalho e mortas a tiros, depois de ocultar entre a vegetação os seus arreios. O pobre Billy Smith que cuidara tão bem e solicitamente delas desde o começo da operação, que dispensara tanto carinho aos animais, até chegar a discutir com metade da oficialidade da coluna para que descançassem, que não perdera uma só mula por causas que estivesse ao seu alcance evitar, o pobre Billy Smith, com o rosto dolorido, afastando-se de quando em quando do caminho para cumprir a missão de verdugo, retornava à coluna com os olhos marejados de lágrimas...

“Pouco depois nos chegou a ordem de que não devíamos continuar matando os animais a tiros, pois os estampidos eram ouvidos na cabeça da coluna, onde marchava Wingate. A ordem era para elimina-las silenciosamente. Estivéramos utilizando pistolas em vez de fuzis, com a esperança de diminuir o ruído. Agora devíamos recorrer ao penoso recurso de degola-las, porém a primeira tentativa nos impressionou de tal forma que não voltamos a repeti-la. Já havíamos morto 16 mulas desde que abandonamos o último acampamento”.

“Nossas rações nos melhores momentos não eram boas, eram muito magras para sustentar um homem durante uma jornada sem que perdesse s energias. Os dietistas se hororrizaram pelo fato de as utilizarmos, pois essas rações haviam sido preparadas originalmente para assegurar a sobrevivência de pilotos derrubados, para serem consumidas diariamente, por prazo não maior de cinco dias. Consistiam em cinco biscoitos, 2 onças de queijo, algumas nozes, passas, tâmaras, 20 cigarros, chá, açúcar e leite. Supunha-se que devia incluir chocolate também, porém dois de cada três pacotes tinha, ao contrário, caramelos ácidos. O nosso estado psíquico era tal que, quando se recebia caramelos em lugar de chocolate, sentia-se vontade de chorar... Esse foi o meu destino, pois somente em duas oportunidades recebi chocolate. Devo acrescentar que também éramos providos de um elemento muito importante: um envelope de sal. A ração diária individual pesava exatamente duas libras”.

 

 

O Tenente Spurlock

O atalho aberto a machadadas, deixa passar os homens, um a um. De ambos os lados, a escuridão insondável da mata. Sobre suas cabeças, as gigantescas árvores fecham-se numa coberta protetora. Os animais selvagens, contrariamente ao que os soldados supunham, pareciam não existir. Só mosquitos de bom tamanho, que caem sobre os combatentes em nuvens impenetráveis, torturam-nos, noite e dia.

Os oficiais que acompanham Wingate, distribuídos ao longo da coluna, animam os homens e lhes mostram a melhor maneira de movimentar-se em silêncio, de aproveitar ao máximo os minutos de descanso e de defender-se dos mosquitos e sanguessugas que os atormentam.

À frente da coluna, junto a Wingate, marcha o Tenente Spurlock, oficial de sinalização. O jovem oficial está doente e sofre, há vários dias, dores inenarráveis. Assaltado pela disenteria, Spurlock avança penosamente, passo a passo, sabendo que sua enfermidade é irreparável e que seu fim está próximo. Por fim, o tenente cambaleia e cai. Dois homens o conduzem a um lado do atalho e acomodam uma mochila debaixo da sua cabeça, à guisa de travesseiro. Wingate, inteirado da situação, rapidamente se aproxima do local onde está estendido o jovem oficial. O chefe britânico, modelo de disciplina e dureza, mostra nessa ocasião, uma faceta desconhecida do seu caráter. Sabedor da gravidade de Spurlock, ordena que a coluna se detenha. E decide esperar até que o tenente melhore. A surpresa que a medida ocasiona nos homens de Wingate é enorme. Nunca se viu o chefe fazer perigar a segurança de centenas de homens como nesse momento. Os japoneses seguem os passos da coluna e todos o sabem. E sabem também que ser cercado pelos japoneses significa a morte. Porém, paralelamente, uma sensação de gratidão se espalha entre os homens ao tomar conhecimento da situação. Uma sensação de gratidão originada pela certeza de que Wingate é um ser humano, é um homem de carne e osso que compreende os sofrimentos e os compartilha.

A coluna, por ordem de Wingate, detém sua marcha por 48 horas; 48 horas de lenta agonia para o Tenente Spurlock.

Afinal, dois dias depois, à meia-noite, Wingate ordena reiniciar a marcha. A difícil decisão fôra tomada pelo chefe após horas de vacilações. E a razão é muito simples. Atrás deles, abandonado às suas forças que diminuem cada minuto, ficará o Tenente Spurlock, esperando a morte.

Uns instantes depois, a coluna se coloca em marcha. Os homens de Wingate, lentamente, retomam o longo caminho. O chefe, junto a Spurlock, despede-se dele com uma simplicidade espartana. E depois, dando um passo atrás, saúda-o militarmente. O jovem tenente, já moribundo, com um estranho brilho nos olhos, fazendo um supremo esforço, levanta-se cambaleante e ergue sua mão direita até a videira do gorro militar. Os homens da coluna, enquanto isso, continuam passando diante do soldado que ficará para trás, só, esperando a morte...

 

 

A travessia do Chindwin

Os homens avançam lentamente, arrastando-se. Afinal, através da vegetação que os envolvia, viram a corrente do Chindwin. Ao longe, cerca de 500 metros adiante, a mata da margem oposta parecia a meta. A outra margem do rio era a salvação ou a morte.

À frente do grupo, Wingate observou durante alguns segundos a corrente. Depois, voltando-se para os seus companheiros disse: - Não lutem contra a correnteza. Quando chegarem na margem oposta, escondam-se...Vamos.

Os seis homens correram para o rio. À frente ia Wingate. Após ele, em fila indiana, avançaram Aung Thin, o Sargento Wilshaw, Jeffries, o Sargento Carey e o soldado Boreham. Apenas de lançaram na água, compreenderam que a empresa era superior às suas forças. A correnteza, rapidíssima, os arrastava, os vencia. Os homens submergiam, voltavam à superfície e tornavam a afundar outra vez. Apenas o Sargento Wilshaw, que através de toda a campanha conservara a sua jaqueta salva-vidas, se encontrava em condições favoráveis para continuar nadando. E o sargento, aproveitando sua vantagem, mantinha-se junto de seus companheiros que desfaleciam, ajudando-os a flutuar e acompanhando-os na difícil travessia.

Afinal, penosamente, os homens atingiram a margem oposta do Chindwin. Wingate, rapidamente, ordenou: - Depressa! É possível que haja japoneses por aqui! Escondam-se imediatamente!

Às pressas, os homens refugiaram-se na mata. Levavam seus fuzis e munições e seus uniformes se reduziam a calções curtos e sapatos.

Depois de alguns minutos de marcha, uma figura se recortou ao longe. Os homens do grupo se lançaram ao chão e engatilharam os fuzis. Wingate, mais perto, identificou o desconhecido e rapidamente ordenou aos seus soldados baixar as armas. A solitária figura que aparecia, vestia largos calções e um chapelão de abas largas que cobria a cabeça. Era um pescador nativo.

Wingate se aproximou do homem com seu braço direito erguido. O nativo, saudando-o com um gesto semelhante, aproximou-se sem medo. Estabelecido o diálogo, o chefe britânico tomou conhecimento de uma notícia longamente esperada. Não havia japoneses na zona. E, muito perto dali, se encontrava um posto britânico, guardado por uma companhia de gurcas. O passo seguinte foi dirigir-se a uma aldeia próxima onde os homens puderam descançar e refazer as forças, livres de qualquer perigo. Em seguida, guiados pelos nativos, os homens rumaram para o acampamento gurca, onde foram calorosamente acolhidos. A travessia do Chindwin, episódio dramático da retirada de Wingate, se concluíra com êxito. Atrás, no entanto, haviam ficado os homens do Major Anderson, e Wingate estava disposto a resgata-los a qualquer preço.

 

 

Anderson e o Chindwin

O Major Anderson, após a partida de Wingate e seu grupo, preparou-se para a travessia do Chindwin, que devia ser efetuada em embarcações. Aprontou os seus soldados e fez as últimas determinações. A empreitada, arriscadíssima, era uma verdadeira jogada de vida ou de morte. Deveriam cruzar uma via fluvial de quase 500 metros de largura, com correnteza rápida, expostos ao fogo das metralhadoras e dos morteiros japoneses, sem possibilidades concretas de defenderem-se do ataque. Anderson, contudo, sabia que a travessia era a única possibilidade de salvar suas vidas. E os homens também sabiam. Daí a firme decisão de atravessar, desprezando riscos e enfrentado a morte.

Anderson e seus homens estavam já prontos para tentar a grande aventura quando um dos soldados, enviado em missão de patrulha, regressou precipitadamente. Cansado, arquejante, disse poucas palavras; as necessárias para semear a insegurança entre seus companheiros: - Os japoneses se aproximam!

Anderson, imediatamente, compreendeu que tudo estava perdido. Tentar a travessia num momento desses era correr para a morte certa. Era necessários tomar uma decisão rápida. E só havia uma possível. Deviam bater em retirada. Afastar-se dali rapidamente.

Reunindo os seus homens, Anderson se pôs em marcha, bordejando o rio. Dois quilômetros mais além o grupo se deteve. Longe, no lugar em que haviam planejado embarcar, momentos antes, as patrulhas japonesas disparavam suas armas em todas as direções, crivando a mata de balas. Anderson, ao cair a escuridão da noite, compreendeu que devia comunicar-se com Wingate. Não lhes restava nem mais uma lanterna elétrica. Fazer sinais com fogueiras, significava serem descobertos pelos japoneses e aniquilados em poucos minutos. Anderson, rapidamente, aproximando-se da margem do rio, acendeu um dos seus últimos fósforos, que colocou dentro de uma panela; utilizando o seu chapéu, começou a cobrir e a descobrir a fraca chama várias vezes. Porém, a 2 km dali o sinal não era visível. O tênue clarão se perdia entre o reflexo da água e a luz da lua. Minutos depois, Anderson, abatido, conduzia seus homens para o bivaque. Convencido da morte de Wingate e seus homens, preparou-se para o pior. No dia seguinte, ao despontar a aurora, um de seus homens, o Capitão Katju, se ofereceu voluntariamente para ir buscar embarcações numa aldeia vizinha. O valente oficial hindu, ao chegar aos arredores da aldeia, apesar de tomar conhecimento da presença dos japoneses, penetrou nela. Mais tarde, uma descarga cerrada chegou aos ouvidos de Anderson e seus companheiros. O Capitão Katju não voltou ao convívio dos seus camaradas.

No dia seguinte, à noite, o sinal enviado por Anderson teve resposta. Nos botes, enviados rapidamente, embarcaram o major e seus homens. No entanto, as dificuldades não haviam terminado. Os japoneses, divisando as silhuetas das embarcações no meio da corrente, romperam um intenso fogo de metralhadoras e morteiros. Os gurcas, porém, distribuídos na outra margem, responderam imediatamente ao fogo dos japoneses, rechaçando-os. Pouco depois, o grupo de Anderson, chegava à margem do Chindwin, onde Wingate os esperava. Um aperto de mão selou o reencontro. Entre dois valentes era o bastante para reconhecer o mútuo espírito de sacrifício e a coragem.

 

 

 

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