Derrota alemã no Volturno
Ataque à Linha Gustavo: Monte Cassino
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Nápoles. Outubro de 1943. Uma chuva persistente cai sobre a cidade. As ruas permanecem silenciosas. Alguns transeuntes cruzam rapidamente. Um jipe avança com lentidão. Nele viaja o chefe do 5o Exército, General Mark W. Clark. A chuva resvala pelo pára-brisas do veículo. Clark, nesse mesmo instante, antevê a dura marcha que ainda espera suas forças. Como diria mais tarde: “Na minha mente, eu via o familiar mapa da Itália, estendendo-se para o norte, até o rio Volturno e, mais além, através dos maciços montanhosos, até Roma... Era um caminho escabroso e o pedágio deveria ser pago metro a metro...”. A conquista de Nápoles não significava para os Aliados nenhuma pausa no seu avanço para Roma. Embora o grosso das forças alemães derrotadas em Salerno batesse em retirada para novas linhas defensivas, localizadas ao longo dos rios Volturno e Sangro, fortes destacamentos de retaguarda se encarregaram de frear, mediante hábeis manobras, o avanço aliado. As forças do 8o Exército britânico, de Montgomery, haviam ocupado na costa sul da península o porto de Termoli, enquanto os americanos liberavam Nápoles, na costa ocidental. Deste modo, os dois pontos terminais da única grande estrada lateral do sul da Itália ficaram nas mãos dos Aliados. Churchill, ansioso para que o avanço prosseguisse, enviou, a 2 de outubro, um telegrama ao General Alexander, comandante-chefe de todas as forças aliadas na Itália. No texto dizia: “Vejo que Montgomery logo se verá obrigado a deter-se para organizar suas linhas de abastecimentos. Espero que suas patrulhas e forças de vanguarda não cessem, por isso, de manter contato com a retaguarda do inimigo. Todas as informações obtidas pelos nossos Serviços de Inteligência, salientam que o único objetivo do adversário é ganhar tempo e conseguir retirar-se para o norte sem sofrer perdas graves. Em todo caso, o inimigo não conta com suficiente poderio para enfrentar as forças que o senhor tem condições de movimentar”. O primeiro-ministro britânico vislumbrou acertadamente a estratégia de contenção que os alemães poriam em marcha. De fato, em princípios de novembro, Hitler reuniu em Berlim os marechais Kesselring e Rommel, chefes das forças alemães, no sul e no norte da Itália, para discutir a grave situação na península. Rommel salientou a impossibilidade de sustentar com êxito a luta. Disse ele: “Não podemos expulsar os Aliados da Itália. A guerra não pode decidir-se nessa frente. O que devemos fazer é retirarmo-nos para o norte de Roma e nos fortificarmos nos Apepinos. Desta forma encurtamos nossas próprias linhas, enquanto os Aliados estenderão as suas. Se fizermos o contrário, somente conseguiremos reter o terreno que nos propomos defender à custa de manter ali um número excessivo de divisões. Essas forças nos serão necessárias para defender a costa francesa do Canal da Mancha”. Hitler, porém, rechaçou os argumentos de Rommel. Encolerizado, o Fuhrer exclamou: “O senhor não compreende a importância estratégica de Roma. É a capital de Mussolini e será uma grande vitória para Churchill e Roosevelt se conseguirem conquista-la. Pense sobre o efeito que esse fato causará nos países inimigos e neutros. O que acontecerá então com a Turquia? Que atitude tomará?”. Kesselring, então interveio: “Devemos, Fuhrer, considerar também os Bálcãs. Com o sul da Itália em suas mãos, os Aliados poderão atacar os Bálcãs, cercar nossas tropas e estabelecer contato com os russos”. Hitler aprovou a conceituação de Kesselring. Este, continuou: “Sem menosprezo pelo que foi exposto pelo Marechal Rommel, posso garantir-lhe que estamos em condições de deter os Aliados no sul da Itália, pelo menos durante todo o inverno. A Organização Todt (Força de Trabalho) pode tornar inexpugnáveis as montanhas do sul. Eu, pessoalmente, já estudei o terreno. Também, antes da guerra, a Real Academia de Guerra da Itália utilizava esse setor como exemplo de um terreno perfeito para a defesa”. A firme convicção de Kesselring ganhou facilmente as graças do Fuhrer. Os planos expostos por esse oficial concordavam com o desejo de Hitler de não abandonar sem luta um só metro de terreno. Essa reunião, portanto, decidiu a sorte da campanha da Itália. O Fuhrer, finalmente, resolveu entregar o comando supremo ao Marechal Kesselring. Em Monte Cassino, as forças sob o seu comando travariam uma das batalhas defensivas mais brilhantes da guerra. |
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A travessia do Volturno As tropas do 5o Exército americano, depois da ocupação de Nápoles, marcharam em direção ao rio Volturno. Açoitadas por chuvas incessantes as unidades do 10o Corpo britânico, do General MacCreery, se deslocaram penosamente através das estradas da costa. Rumo ao interior, o 6o Corpo americano, do General Lucas, avançou pelos estreitos atalhos da montanha, em meio a temporais de neve de grande intensidade. Os alemães, entrementes, ofereciam encarniçada resistência, obrigando as tropas aliadas a realizar grandes esforços para alcançar seus objetivos. Assim, a resistência do inimigo e as penosas condições do terreno se aliaram para retardar o que se contava como uma rápida progressão. Finalmente, na noite de 12 de outubro, as tropas se prepararam para atravessar o Volturno. A operação era sumamente arriscada. De fato, a via de acesso ao rio, pelo setor aliado, era plana e não oferecia proteção alguma. Os alemães, ao contrário, ocupavam, no outro lado, uma série de elevações que eram verdadeiros postos de observações, magníficos para dirigir o fogo de suas baterias pesadas. Portanto, a infantaria aliada viu-se diante do difícil problema de cruzar as águas do Volturno que, em alguns setores, tinha uma largura de 90 metros. Clark, assim definiu a situação: “Os homens teriam que vadear um rio traiçoeiro e escalar depois altas colinas com canhões alemães assestados justamente diante de nossos olhos”. A preparação da travessia foi precedida por um intenso reconhecimento realizado por patrulhas que flanquearam a corrente e experimentaram o poderio das defesas inimigas. Nas vésperas da operação, as tropas se alinharam, do Adriático para o interior, na seguinte forma: Divisões britânicas 46a de Infantaria, 7a Blindada, 56a de Infantaria; em seguida, as divisões americanas de infantaria 3a, 34a e 45a; mais de 600 peças de artilharia atacariam previamente, executando o fogo de amaciamento. Quando faltavam cinco minutos para uma da madrugada de 13 de outubro, os soldados se internaram nas águas geladas do rio, empurrando seus botes e balsas. Os primeiros homens que chegaram na noutra margem levavam cordas que, estendidas através da corrente, serviram de guia aos que se seguiam. Três regimentos americanos realizaram a travessia diante da ribanceira de Triflisco, um dos pontos mais fortemente defendidos pelos alemães. Concentrou-se ali o maior potencial de fogo da artilharia. Os alemães responderam com um nutrido fogo de todas as suas armas portáteis e morteiros. Os americanos, no entanto, conseguiram ganhar a margem oposta. Em seguida, se desenrolou uma violenta luta pela posse dos montes, que foram, finalmente conquistados. No setor britânico, duas divisões, a 46a de Infantaria e a 7a Blindada, conseguiram cruzar o Volturno, vencendo a resistência inimiga. A 56a de Infantaria, porém, foi repelida. Clark, então, resolveu desviar essa unidade mais para o leste e a fez transpor o rio com o auxílio de pontões construídos pelas unidades de engenharia americana. Na noite de 13 de outubro, o grosso do 5o Exército cruzara o Volturno. Os alemães, então, bateram apressadamente em retirada para o norte, em direção à Linha Gustavo, a cadeia de fortificações levantada por Kesselring nas agrestes montanhas situadas ao sul de Roma. Com o apoio incessante da aviação, as tropas aliadas empreenderam o avanço rumo ao norte. Duas rodovias se dirigiam do Volturno para Roma; a estrada n° 7, antiga via Appia, que corre em direção à capital italiana ao longo da costa, e a n° 6, pelo interior, antiga via Casilina, construída pelos romanos há 25 séculos. Dominando esta última rota, caminho histórico de invasores, se erguia Monte Cassino... A massa rochosa, de 500 metros de altura, era coroada pelo majestoso edifício da abadia de Monte Cassino. Esse local haveria de se converter no centro de uma das mais encarniçadas batalhas da guerra. As forças de Clark, nos dias subseqüentes, enfrentaram graves problemas de abastecimento, pois os alemães, empregando a sua artilharia, submeteram as pontes do Volturno a um intenso bombardeio. Além do mais, surgiu outro contra-tempo, agravando a situação. Os alemães, utilizando um veículo especial munido de uma enorme garra de ferro, destroçaram, ao retirar-se, as vias férreas, impedindo o seu emprego imediato pelos Aliados. O transporte dos abastecimentos, assim, teve que efetuar-se totalmente por meio de caminhões. Combatendo sem cessar, tomando um após outro os pontos fortificados, marchando no barro, debaixo de chuva, os soldados britânicos e americanos alcançaram as primeiras posições da Linha Gustavo. Já nesse momento os serviços de inteligência acusavam a extraordinária firmeza das defesas alemães. Iniciaram-se então os primeiros estudos de um assalto anfíbio às linhas inimigas. Esses planos conduziriam mais tarde, ao grande desembarque em Anzio, no sul de Roma. Em meados de novembro, o 5o Exército se encontrava distribuído frente aos redutos alemães que cobriam a aproximação de Mote Cassino. Essas posições fortemente fortificadas rodeavam a chamada brecha de Mignano por onde passava a rodovia n° 6, através de um estreito corredor de seis milhas de comprimento. Era o lugar ideal para estabelecer uma defesa inexpugnável. Os montes confinantes, dominando a região, permitiam a localização de postos de artilharia e casamatas que dominariam o desfiladeiro com seu fogo. Ataque aliado A 12 de novembro de 1943, o General Clark se transladou ao posto de comando do General MacCreery, chefe do 10o Corpo britânico, para discutir a operação de assalto aos montes que bloqueavam o avanço. MacCreery lhe comunicou que a 56a Divisão já tentara um ataque contra Monte Cassino, principal reduto alemão. A operação, contudo, fracassara. Uma brigada inglesa, combatendo furiosamente num terreno pontilhado de minas e ninhos de metralhadoras, conseguiu apoderar-se de uma elevação próxima ao monte, perdendo na luta quase 60% dos efetivos das companhias de assalto. O fracasso do ataque britânico frustrava a possibilidade de um rompimento imediato através do desfiladeiro de Mignano. Clark, impressionado pelo sacrifício dos soldados britânicos, que haviam permanecido aferrados às suas posições, sob o fogo inimigo, durante quatro dias e cinco noites, sem rações, nem água, nem medicamentos para atender aos feridos, ordenou que batessem em retirada. Com o fracasso inglês, decidiu-se adiar o novo assalto contra os montes. O chefe supremo aliado, General Alexander, decidiu então transferir o eixo da ofensiva à costa oriental da Itália e determinou ao 8o Exército de Montgomery a missão de investir para o norte através do rio Sangro, rumo ao porto de Pescara. Caso fosse alcançado o rompimento, os britânicos se encaminhariam para o sudoeste, a fim de ameaçar as forças alemães que bloqueavam o avanço do 5o Exército. O ataque inglês iniciou-se nos últimos dias de novembro e foi a última operação dirigida por Montgomery na Itália, antes de transferir-se à Inglaterra com o objetivo de intervir no preparo da invasão da França. Novamente, e apesar da potência da investida, as defesas alemães, unidas às condições do terreno, impediram o avanço. Os obstáculos naturais se sucediam interminavelmente. Um correspondente de guerra inglês assim descrevia a situação: “Nossos homens combateram através do Sangro, porém depois do Sangro havia o Moro, depois do Moro havia o Foro e depois do Foro havia o Pescara”. Abrindo caminho através dessa barreira fluvial, as tropas de Montgomery chocaram-se com uma desesperada resistência inimiga no pequeno porto de Ortona, situado a apenas 10 milhas do objetivo final. A localidade, assaltada pela 1a Divisão canadense, foi palco de terríveis e sangrentos combates de rua. Durante uma semana lutou-se, corpo a corpo, e casa por casa. Finalmente, a localidade, convertida num monte de escombros, foi conquistada. Nesse momento, em fins do mês de dezembro, as condições adversas do clima paralisaram os movimentos militares. Assim, se concluiu o esforço do 8o Exército para abrir passagem na frente do Adriático. Enquanto isso, no outro extremo da península, no Tirreno, as forças de Clark se aprontaram para levar adiante o assalto sobre o desfiladeiro de Mignano. Esta operação denominada Raincoat, iniciou-se às 16h30 de 2 de dezembro, com o poderio concentrado de quase 1.000 peças de artilharia, o grosso das quais dirigiu o fogo contra as encostas do monte Camino. No transcurso dos dias seguintes, a artilharia aliada efetuou mais de 200.000 disparos contra os redutos alemães, lançando mais de 4.000 toneladas de explosivos. Três Corpos de Exército, o 10o de MacCreery, britânico, o 2o do General Keyes, e o 6o de Lucas, convergiram sobre as linhas alemães, escalando perigosamente as encostas, sob o metralhar constante dos defensores. A 6 de dezembro, após uma luta encarniçada, um batalhão inglês alcançava o cume do monte Camino. Os americanos, por sua vez, atacaram o monte Maggiore. Vitória em Mignano A luta atingia então intensidade furiosa. Os americanos lançaram repetidos ataques contra a aldeia de Zampietro, situada no desfiladeiro de Mignano. Todos eles, contudo, fracassaram. Os alemães, de fato, dominavam a zona adjacente martelando a região com um intenso fogo de canhões e metralhadoras. Os montes Lungo e Zamucro estavam em poder dos alemães, e dali seus efetivos varriam as posições aliadas. O monte Lungo foi alvo de um ataque por parte da 1a Brigada Motorizada italiana, que se incorporara recentemente às forças de Clark. Os italianos assaltaram a posição inimiga e conseguiram chegar quase ao topo, sofrendo numerosas baixas. Os alemães, apesar do valoroso ataque italiano, organizaram um contra-ataque e os obrigaram a abandonar o terreno que tão duramente haviam conquistado. Mais de 300 homens tomaram ali, sobre o campo de batalha. Finalmente, na noite de 15 para 16 de dezembro, o 142o Regimento de Infantaria americano conseguiu apoderar-se do monte Lungo. Outro regimento atacou novamente Zampietro, onde, outra vez, foi rechaçado, sofrendo grandes perdas. Os americanos, porém, conseguiram conquistar a última elevação defendida pelos alemães, o monte Zamucro, com o que, a guarnição de Zampietro ficou sob a ameaça de ser cercada. Ante esse fato, os alemães bateram em retirada. Os Aliados entraram imediatamente na povoação, reduzida a ruínas. A conquista de Zampietro e dos montes circundantes abria a possibilidade da conquista do desfiladeiro de Mignano, embora os alemães ainda retivessem em suas mãos os altos picos que se estendiam ao norte do desfiladeiro. Os Aliados, conseqüentemente, tinham a necessidade de conquistar também essas posições antes de ficar com liberdade de ação para prosseguir o avanço. Durante o mês de janeiro, os 2o e 6o Corpos americanos tiveram que sustentar duros combates para desalojar os alemães das montanhas. A luta na zona de Mignano, finalmente, se concluiu com a captura do monte Trochio, que se erguia na desembocadura do desfiladeiro, a poucos quilômetros do Monte Cassino. A 15 de janeiro, o 135o Regimento de Infantaria americano alcançou o cume do monte. Os soldados extenuados viram erguer-se diante deles uma nova barreira defensiva. Era o verdadeiro coração da Linha Gustavo: Monte Cassino. Nos combates travados para se aproximarem da principal linha defensiva alemã, que se haviam prolongado durante seis semanas, os Aliados perderam quase 16.000 homens. Por esse terrível preço, haviam conseguido avançar apenas 12 km. O sacrifício, porém, era apenas um prenúncio do que ainda teriam que enfrentar... De fato, para os alemães, as batalhas sustentadas não haviam sido mais que uma ação proteladora, destinada a desgastar os Aliados. O encontro decisivo, no qual se propunham resistir até o fim, teria lugar em Monte Cassino. Os alemães preparam a defesa O setor de Monte Cassino fôra confiado por Kesselring ao 14o Corpo Panzer, integrado por três divisões de Panzergrenadier e três de infantaria. Essa força era comandada pelo General von Senger und Etterlin. Este chefe, a quem caberia dirigir a luta que terminaria com a destruição da abadia de Monte Cassino, era membro laico, paradoxalmente, da ordem beneditina, cujos monges haviam levantado o célebre mosteiro... O monte, erguendo-se à entrada do vale do rio Liri, ao longo do qual corre a rodovia n° 6 rumo a Roma, tinha uma posição estratégica decisiva. Monte Cassino e as elevações adjacentes controlavam por completo a via de aproximação à capital italiana. Do seu cimo podia-se observar e vigiar qualquer movimento que ocorresse nos vales dos rios Liri e Rápido. Não foi, portanto, uma casualidade que tornou esse ponto o centro nevrálgico da luta. Durante muitos anos, os próprios estrategistas do exército italiano haviam considerado Monte Cassino como uma grande barreira defensiva natural. E ali se travaria a batalha decisiva. Já no mês de outubro de 1943, quando as tropas aliadas estavam ainda combatendo no Volturno, os alemães tomaram as primeiras medidas para a defensiva de Monte Cassino. O abade do mosteiro, monsenhor Gregório Diamare, recebera a visita de dois oficiais alemães, o Tenente-Coronel Schlegel e o Capitão Becker. Schlegel, que era um católico austríaco, expressando-se com extrema cortesia, revelou ao abade que num futuro próximo Monte Cassino se converteria em zona de luta. Portanto, considerava necessário evacuar todas as obras de arte e manuscritos que se entesouravam no mosteiro. O superior, a princípio, considerou desnecessária a medida, pois confiava que o mosteiro não seria danificado. Contudo, os alemães regressaram dois dias mais tarde com a ordem categórica de retirar as obras de arte, o que foi feito, apesar dos protestos do abade Gregório Diamare. Durante dez dias, uma caravana de caminhões levou a cabo a evacuação do convento. A propaganda alemã, por sua vez, aproveitou o fato para evidenciar “o perigo que o avanço aliado significava para a cultura...”. Todas essas etapas da evacuação foram fotografadas e filmadas pelos serviços de propaganda do Exército alemão para destacar a atitude de respeito que os alemães mantinham referentemente às obras-primas da cultura. O objetivo dessa filmagem era mostrar ao mundo a preocupação dos alemães em salvaguardar o mosteiro, afastando-o da guerra e dos seus perigos. Muitas das obras de arte “evacuadas” de diversos centros culturais da Itália, França e outros países conquistados pelos nazistas foram mais tarde recuperadas em diferentes lugares da Alemanha, onde já estavam fazendo parte de coleções particulares. Essa estranha forma de proteger as obras de arte havia adquirido, no caso dos alemães, uma sugestiva semelhança com o roubo e o saque. O mesmo aconteceria com os materiais retirados de Monte Cassino. Foram transladados pelos alemães para a localidade de Spoleto e armazenados em um depósito. O Vaticano, então, iniciou uma série de insistentes reclamações para recuperar as obras de arte e os manuscritos. Finalmente, conseguiu-se a devolução, depois de várias semanas. No entanto, faltavam muitos caixotes com objetos retirados do mosteiro. Apenas puderam ser recuperados depois do fim da guerra, quando as tropas aliadas os encontraram em território alemão. Entrementes, no mosteiro evacuava-se a totalidade dos monges, com exceção de cinco deles, que ali permaneceram. Eram acompanhados de cinco irmãos leigos. Os alemães também permitiram que várias famílias camponesas dos arredores se mantivessem no local. Eram, ao todo, umas 150 pessoas. Trabalhando febrilmente, os alemães fortificaram a zona. Abriram com explosivos nichos na rocha sólida, distribuíram inúmeros postos de metralhadoras e localizaram peças de artilharia. Semearam milhares de minas e estenderam alambrados. Fortificaram o povoado de Cassino, no sopé do monte. Os edifícios foram convertidos em redutos. Enterraram torretes de tanques no terreno e cavaram túneis que interligavam os diversos postos fortificados. Represaram as nascentes do rio Rápido, de tal maneira que, quando chegasse a temporada das chuvas, todo o vale se converteria num pantanal. No princípio, comunicaram ao abade de Monte Cassino que, para preservar a segurança do mosteiro, delimitariam uma franja do terreno, em torno do convento. Porém, no começo de janeiro, quando começaram a cair sobre a região os primeiros projéteis aliados, essa zona neutra foi abolida. Ordenou-se então ao abade que organizasse a evacuação de todos os civis que se encontravam no interior do mosteiro, inclusive ele e os outros monges, que deveriam também abandonar o edifício. O velho abade, porém, negou-se a faze-lo. Os alemães então o informaram que não podiam assumir nenhuma responsabilidade pela sua segurança. Monte Cassino ficou, então, exposto à fúria da batalha que logo se desencadearia à sua volta. Ataque aliado no Rápido No dia 15 de janeiro, os primeiros projéteis da artilharia aliada de longo alcance, caíram sobre Monte Cassino. Algumas granadas atingiram o edifício do convento, causando leves danos. O 5o Exército americano passava ao ataque. O comando aliado esperava alcançar um rápido rompimento da Linha Gustavo, que culminaria com a união das forças da frente de Monte Cassino com as tropas que seriam desembarcadas nas praias de Anzio, na retaguarda alemã. Esse otimismo fora de propósito se refletiu no informe que o Serviço de Inteligência forneceu a 16 de janeiro. Dizia: “Nos últimos dias se apresentaram indícios crescentes de que o poderio inimigo, na frente do 5o Exército, diminui devido às baixas, ao esgotamento e à desmoralização. Em vista desse debilitamento, parece duvidoso que possa sustentar a linha defensiva organizada em Cassino, contra um ataque coordenado de nosso exército, visto que esse ataque será lançado antes de Shingle (desembarque em Anzio). Pode-se considerar possível que esta ameaça adicional obrigue o inimigo a retirar-se de sua posição defensiva quando tiver sentido a amplitude desta operação”. Poucas vezes, durante o transcurso da guerra, se efetuou uma estimativa mais errada. Os alemães não só não estavam desmoralizados, mas, pelo contrário, dispostos a lutar até o último homem, tanto em Anzio como em Cassino. O plano do General Clark de romper a Linha Gustavo consistia num triplo avanço convergente de suas forças sobre o vale do rio Liri, pelo qual corria a rota 6, para Roma. Dois rios deviam ser cruzados, o Garigliano e o Rápido. A primeira corrente seria transposta pelo 10o Corpo britânico, do General MacCreery; a segunda, pelo 2o Corpo americano. Simultaneamente, ao norte, o Corpo Expedicionário do General Juin realizaria, através da montanha, um movimento de flanqueio das posições alemães em Monte Cassino. Todas essas operações teriam início entre os dias 17 e 20 de janeiro. A 22, o 6o Corpo do Exército americano desembarcaria em Anzio. Esta última operação era considerada decisiva. Os ataques no sul, ao contrário, haviam sido concebidos apenas como manobra destinada a comprometer ao máximo as forças alemães para facilitar a penetração. A batalha de Monte Cassino iniciou-se, então, na noite de 17 de janeiro de 1944. Nesse momento, nenhum dos chefes aliados podia suspeitar que aquilo que consideravam um fácil rompimento se converteria numa das maiores batalhas da Segunda Guerra Mundial. A luta em Monte Cassino se prolongaria até 18 de maio de 1944, ao fim de quatro meses de luta sangrenta. A operação se iniciou, tal como fôra planejada, com o movimento preliminar dos britânicos através do rio Garigliano. Os ingleses conseguiram ganhar terreno sobre a outra margem, porém fortes contra-ataques alemães, os forçaram a parar. Contudo, a manobra cumpriu a sua missão, pois os alemães se viram forçados a deslocar grande parte de suas reservas, entre elas a divisão Panzer Hermann Goering e a 90a Panzergrenadier. Em seguida, se efetuou o ataque na frente do Rápido, realizado pela 36a Divisão de Infantaria americana. O plano desse ataque era irromper na Linha Gustavo, e emergir no vale do Liri, flanqueando o baluarte de Monte Cassino. A 36a Divisão devia atravessar o rio Rápido e avançar aproximadamente um quilômetro e meio, a fim de instalar uma cabeça-de-ponte dentro das posições alemães, que serviria de trampolim para que a 1a Divisão Blindada se lançasse irresistivelmente pela Rota 6, rumo a Anzio e Roma. Isso, que aparentemente parecia uma operação relativamente simples, era na realidade uma manobra extremamente difícil. De fato, no setor do ataque, o Rápido fluía em impetuosa corrente por um leito de 9 a 15 metros de largura, espremido entre margens verticais de um a dois metros de altura. Além disso, nessa época do ano, as águas tinham uma profundidade de 3 a 4 metros, o que tornava impossível à Infantaria vadear a pé a corrente. Os alemães, além disso, estavam fortemente entrincheirados na margem oposta. Contavam, no povoado de Sant’Angelo, encrustado numa colina com 10 metros de altura, com um excelente posto de observação que dominava a zona de luta. Os alemães também, haviam conseguido inundar os terrenos adjacentes, convertendo-os em verdadeiro lamaçal. Um extenso campo de minas, além de tudo, convertia-se noutro obstáculo quase intransponível. Os Aliados ao assalto Na noite de 20 de janeiro, às 20 horas, as tropas dos dois regimentos de assalto, o 141o que atacaria ao norte de Sant’Angelo, e o 143o que cruzaria o rio ao sul daquela localidade, começaram o ataque. Um novo e imprevisto elemento veio somar-se às dificuldades existentes. Toda a região começou a cobrir-se com uma espessa camada de neblina, o que contribuiu para aumentar a confusão. Ao deslocar-se para as barrancas do rio, as tropas americanas caíram sob o fogo das metralhadoras e morteiros inimigos. As minas também ceifaram dezenas de combatentes. A visibilidade era praticamente nula. Os homens, ao alcançar as águas do Rápido, perceberam que muitas das embarcações que deveriam utilizar já haviam sido destruídas pelos disparos do inimigo. As tropas do 141o Regimento, debaixo das incessantes descargas dos alemães, ocuparam os botes e iniciaram a travessia. Muitos barcos, atingidos pelos projéteis, afundaram. Outros, foram arrastados pela corrente impetuosa. Duas companhias conseguiram, afinal, fincar pé na margem oposta. O corpo de engenharia tratou logo de estender pontes e passarelas através do rio. As granadas, caindo sem cessar, destruíram as pontes. Porém, os sapadores, trabalhando sob a metralha, com um desprezo absoluto por suas vidas, armaram uma terceira ponte, pela qual cruzaram o rio outras duas companhias. Pouco depois, os canhões alemães destruíam a ponte. Assim, ao despontar o dia, as quatro companhias do 141o estavam na margem oposta. No sul, o outro regimento teve, no início, mais êxito na operação. Conseguiu atingir a outra margem e estender duas pontes, pelas quais, os efetivos de todo um batalhão transpuseram a corrente. Contudo, com a chegada do dia, o fogo da artilharia alemã desfez as pontes e numerosos tanques e canhões autopropulsados investiram contra a cabeça-de-ponte. O chefe do batalhão, Major Frazier, ante a crítica situação, solicitou autorização para bater em retirada. O comando, no entanto, negou-a. Frazier, porém, antes de receber a diretiva, já havia ordenado a retirada, sob sua própria responsabilidade, diante a impossibilidade de manter-se na posição. Apenas poucos sobreviventes do batalhão conseguiram retornar à outra margem. Assim, após uma noite de encarniçada luta, a 36a Divisão havia conseguido colocar apenas alguns poucos homens do outro lado da corrente, e que estavam sendo submetidos a um devastador fogo alemão. O chefe da divisão, General Walker, ordenou reforçar esse punhado de valentes. A operação somente pôde concretizar-se ao cair da tarde e um batalhão se uniu aos defensores da cabeça-de-ponte. Na madrugada de 22 de janeiro outros dois batalhões, sofrendo fortes perdas, transpuseram o Rápido. Assim, a totalidade dos efetivos sobreviventes do 141o regimento conseguiu tomar pé nas posições alemães. Ao sul, o 143o tentou novamente a travessia. Os alemães lançando sobre os atacantes um dilúvio de fogo, rechaçaram o ataque. Botes e homens foram arrastados pela corrente e as baixas dizimaram o regimento. Ao cair da tarde de 22 de janeiro, os chefes americanos faziam desesperadas tentativas para apoiar o 141o Regimento, que combatia ainda na margem oposta do Rápido. Pouco a pouco, o fogo americano foi decrescendo. As munições, paulatinamente, iam-se esgotando. Cerca das 21 horas, as descargas cessaram. Uns 40 soldados, exauridos, conseguiram escapar da arapuca e regressar às suas linhas. Eram os únicos sobreviventes da heróica resistência. O ataque ao Rápido culminou assim com um fracasso absoluto. A 36a Divisão, em menos de 48 horas de luta, perdera 1.681 homens. Como força combatente, ficava reduzida ao regimento que fôra mantido de reserva. A ele se somavam os restos dos outros dois regimentos. Enquanto os americanos cumpriam essa missão, os franceses de Juin, avançavam pelo norte, para flanquear Monte Cassino. Na manhã de 25, Juin descarregou um violento ataque e conquistou os montes Abate e Belvedere. O troco alemão não demorou. Contra-atacando violentamente, os alemães reconquistaram o monte Abate. Porém, os franceses, fazendo valer a sua tradicional coragem, se aferraram ao terreno e resistiram heroicamente à investida: o monte Belvedere, defendido encarniçadamente pelas tropas francesas de Juin, ficou nas mãos dos soldados aliados. A posição se converteria numa adaga cravada no sistema defensivo alemão. Enquanto os ataques aliados na frente de Cassino se esboroavam contra a resistência alemã, ao norte, em Anzio, ocorria o desembarque de surpresa dos Aliados. A respeito de Anzio, diz o General Clark: “Em Anzio, cravaríamos, na verdade, um punhal no flanco direito de Kesselring, com a lâmina apontando os montes Albanos. Ele teria então que decidir se devia retirar o seu potencial da Linha Gustavo, onde a ofensiva do 5o Exército já começara, a fim de opor-se ao nosso desembarque em Anzio, ou se enviaria outras forças contra a cabeça-de-praia”. Anexo Forças frente a frente
na Itália meridional 15o Grupo
de Exércitos Aliado Comandante-chefe: General
Alexander 8o Exército
inglês - Montgomery 5o Corpo - 1a
Divisão canadense e 8a Divisão hindu 13o Corpo - 4a
Divisão hindu; 2a Divisão neozelandesa e 78a Divisão
britânica Reserva: 1o
Corpo canadense e 5a Divisão Blindada canadense 5o Exército
americano - Clark Corpo francês - 2a
Divisão marroquina e 3a Divisão argelina 2o Corpo
americano - 34a e 36a Divisões de Infantaria e 1a
Divisão Blindada 10o Corpo
britânico - 46a, 56a e 5a Divisões de
Infantaria e 7a Divisão Blindada 6o Corpo americano
- 1a Divisão britânica e 3a e 45a Divisões
americanas 10o
Exército alemão Comandante-chefe:
Marechal Kesselring 76o Corpo
Panzer - 26a Divisão Panzer; 334a, 305a e 1a
Divisões de Infantaria 14o Corpo
Panzer - 3a e 15a Divisões Panzergrenadier e 44a,
71a e 94a Divisões de Infantaria Reserva: Divisão Panzer
Hermann Goering; 65a Divisão de Infantaria e 29a
Divisão Panzergrenadier Neozelandeses e hindus Entre as forças aliadas que
atuavam na frente da Itália se destacavam duas unidades integradas no 8o
Exército britânico. Eram as duas famosas divisões veteranas da guerra do
deserto: a 2a neozelandesa e a 4a hindu. O corpo neozelandês
constituía não apenas uma divisão, mas uma força expedicionária em miniatura
de 25.000 homens. Incluía, além dos corpos combatentes, todos os serviços
auxiliares (abastecimentos, comunicações, saúde, etc.). Os neozelandeses
tinham como característica principal uma firme consciência do eu valor como soldados.
Na realidade, constituíam um verdadeiro corpo de elite, e sua alta capacidade
combativa havia sido elogiada até pelos próprios inimigos. Cada homem atuava,
no campo de batalha, com a consciência de que representava sua pátria
distante. Este fato os levava a rivalizar comas demais unidades de outros
países na procura de triunfos importantes e espetaculares. A imprensa da Nova
Zelândia mantinha um serviço e informação permanente acerca das atividades da
força neozelandesa. O governo, por sua vez velava zelosamente pelo bem-estar
das tropas. Os soldados neozelandeses de infantaria possuíam grandes
virtudes. Entre os seus maiores admiradores estavam os próprios alemães, que
consideravam a presença de unidades neozelandesas numa batalha como uma das
mais sérias ameaças. Muitos dos combatentes
neozelandeses eram camponeses, habituados a uma vida independente, e dotados
de grande iniciativa pessoal. Homens duros e resistentes, eram o produto da
vida simples e não da citadina. Não eram extremamente respeitadores dos
regulamentos militares, mas possuíam a disciplina superior do homem forjado
na luta contra os elementos, e no desprezo ao perigo. Um escritor britânico
assim os definiu: “A divisão neozelandesa era, no melhor, sentido, uma grande
equipe de amadores, um brilhante corpo de civis que aprenderam a arte da
guerra pelo caminho mais duro e conseguiram ser os melhores”. Seu chefe era o homem
adequado para dirigir semelhante força. Era o legendário Tenente-General Sir
Bernard Freyberg, exemplo típico do soldado de primeira linha, com o corpo
coberto de ferimentos e condecorações, ganhas já na Primeira Guerra Mundial.
Foi o único brigadeiro da Primeira Guerra que na Segunda, exerceu o comando
de uma unidade combatente. Em oposição aos
neozelandeses (“amadores da guerra”), se encontravam os hindus da 4a
Divisão. Estes foram considerados como o exemplo mais perfeito de uma tropa
profissional, entre as forças aliadas na Itália. Serviam nessa unidade,
integrada totalmente por voluntários, homens provenientes das velhas raças
guerreiras da Índia: siks, punjabs, maratas, rajputs e gurcas. Todos se
haviam incorporado às fileiras por sua inclinação pela vida militar e pelos
eu temperamento guerreiro. Ao contrário dos neozelandeses, britânicos e
americanos, que aceitavam a vida militar como uma carga imposta pelas
circunstâncias, os hindus a admitiam com alegria e orgulho, felizes de vestir
uniformes e aceitar a mais rígida disciplina. Esta disposição dos soldados
obrigava os oficiais britânicos que os comandavam a extremar suas virtudes
militares. Assim, os oficiais ingleses que serviam no exército da Índia eram
considerados como a nata do Exército britânico. Recebiam ordenado mais
elevado, e apenas os melhores eram aceitos. A divisão hindu era integrada por
três brigadas, cada uma das quais contando com dois batalhões de soldados
hindus, e um de soldados britânicos. As qualidades dos combatentes hindus
faziam com que os britânicos, que lutavam junto a eles, se esforçassem para
iguala-los em bravura e combatividade. Diretiva n° 51 Ao se iniciar o avanço
aliado na Itália, contra as posições fortificadas de Monte Cassino, Hitler já
resolvera emprestar decisiva importância à luta para a defesa do ocidente da
Europa. Essa alteração na sua estratégia, que até então considerara a Rússia
como o teatro principal da guerra, se evidenciou na promulgação da Diretiva
n° 51, cujos parágrafos fundamentais reproduzimos: QG do Fuhrer, 3 de
novembro de 1943 “A dura e cruenta luta
contra o bolchevismo, mantida durante os últimos dois anos e meio, que
empenhou o grosso do nosso poderio militar no leste, exigiu um esforço
enorme. A magnitude do perigo e a situação geral o exigiam. Porém a situação,
desde então, mudou. O perigo no leste persiste, porém um perigo maior surge
no Ocidente: um desembarque anglo-saxônico! No leste, a vasta extensão do
território nos permitia perder terreno, mesmo em larga escala, sem que nenhum
golpe fatal fosse assestado contra o sistema nervoso da Alemanha. A situação
é muito diferente no Oeste! Se o inimigo consegue romper nossas defesas numa
frente ampla, nesse setor, as conseqüências imediatas serão imprevisíveis.
Tudo indica que o inimigo lançará uma ofensiva contra a frente ocidental da
Europa, o mais tardar na primavera, ou talvez, ate mesmo mais cedo. Não posso,
em vista disso, continuar aceitando a responsabilidade de um debilitamento
maior no oeste, em favor de outros palcos de guerra. Decidi, portanto,
reforçar suas defesas, particularmente naqueles locais de onde se iniciará o
bombardeio de longo alcance contra a Inglaterra. Porque é ali que o inimigo
atacará, e é ali - a menos que todos os indícios sejam falsos - que terá
lugar a batalha decisiva contra as forças de desembarque. Ataques de
distração e provocação devem ser esperados em outras frentes. Um ataque em
grande escala contra a Dinamarca, também, não pode ser posto fora de
cogitação. Do ponto de vista naval, tal ataque será mais difícil de lançar, e
tampouco poderá ser efetivamente apoiado pelo ar, porém, caso consiga
concretizar-se, suas repercussões políticas e operacionais serão muito
grandes. “No começo da batalha a
totalidade do poderio ofensivo será empregado contra nossas forças que
defendem a linha costeira. Apenas por um trabalho intensivo, que significa
exigir o máximo de nossa capacidade em homens e material, tanto no território
nacional como nos países ocupados, poderemos fortalecer nossas defesas
costeiras no tempo escasso que, provavelmente, ainda nos resta. As armas
terrestres chegarão logo à Dinamarca e às zonas ocupadas do oeste (canhões
antitanques pesados, tanques imóveis para serem enterrados no terreno,
artilharia costeira, artilharia contra as tropas de desembarque, etc.), e
serão concentradas em redutos e fortificações nas zonas mais ameaçadas da
costa. Por causa disso, devemos aceitar o fato de que os setores menos
ameaçados não possam ser melhorados no futuro próximo. “No caso de o inimigo,
mediante a concentração de todas as suas forças, conseguir desembarcar, deve
ser enfrentado com um contra-ataque desfechado com todo o nosso poderio. O
problema consistirá na concentração rápida de forças e material adequados, e
num intensivo treinamento, para constituir grandes unidades que integrem uma
reserva ofensiva de alto valor combativo, poder de ataque e mobilidade, cujo
contra-ataque impeça o inimigo de explorar o desembarque, e o lance novamente
ao mar. “Mais ainda, devem ser
traçados planos de emergência, para possibilitar que tudo aquilo que
possuamos na Alemanha e nas zonas costeiras que não tenham sido atacadas, e
que seja capaz de atuar de alguma maneira, seja imediatamente lançado contra
o inimigo invasor. “A Força Aérea e a
Marinha devem entrar em ação contra os violentos ataques que devemos esperar
por ar e pelo mar, com todas as forças à sua disposição, sem considerar as
baixas... Adolf Hitler”. Clark e Giraud Fins de outubro de 1943.
Uma importante visita chega à frente de luta. É o general francês Giraud, que
chega à Nápoles com a missão de dar os toques finais aos preparativos para
levar tropas francesas ao campo de batalha. Recebido pelo General
Clark, Giraud ocupou um reboque dos que constituíam o acampamento móvel do
general americano. Posteriormente, acompanhado pelo Tenente-Coronel Arthur
Sutherland, como guia e intérprete, o general francês visitou o QG do 6o
Corpo e avançou até um posto de observação do qual pôde presenciar um ataque
a cargo das 3a e 34a divisões. Giraud pertencia a uma
escola de militares que cultuavam a coragem pessoal e menosprezavam aqueles
chefes que mantinham os seus comandos a muita distância da frente de luta. Na
opinião do velho militar francês, um chefe devia saber o que ocorria na
frente e tinha que ver tudo “com os próprios olhos”. Após a visita à frente
das forças comandadas pelo General Mark Clark, Giraud, ao regressar concordou
em dar suas impressões aos correspondentes ali presentes, e os reuniu à sua
volta.Um grande mapa da região fôra preparado e o General Clark se encontrava
presente. Após alguns comentários circunstanciais, o General Giraud pediu a
Clark algumas informações detalhadas acerca da disposição das próprias
forças, e do inimigo, na zona. Clark, detidamente, proporcionou ao chefe
francês as informações pedidas e depois, guardou silêncio. Giraud, então,
perguntou ao general americano: - Posso fazer uma observação? - Certamente -
foi a imediata resposta de Clark. - Seu QG está muito afastado da linha de
frente... Na minha opinião devia estar muito mais perto... Esclareço que
minha opinião nesse sentido se baseia em duas situações similares em que tive
comandos sob minhas ordens... Na Primeira Guerra Mundial, quando eu estava à
frente de um regimento, meu posto de comando se encontrava a meio quilômetro
da frente... Posteriormente, ao começar esta guerra, em 1940, comandei um
exército na França e meu posto de comando estava a apenas dois quilômetros da
frente de luta. O silêncio ante as
palavras de Giraud, foi geral. Os fotógrafos e os repórteres presentes
olharam então para Clark, esperando a sua resposta. Saberia justificar suas
determinações o jovem general americano, diante das palavras do veterano
chefe francês? As duvidas dos presentes, no entanto, foram rapidamente
dissipadas. A resposta de Clark não se fez esperar: - Efetivamente general...
Em ambas as oportunidades os seus postos de comando estiveram nas vizinhanças
da frente de luta... Porém acho que me recordo que em ambas as oportunidades,
também, os alemães o aprisionaram... O olhar de Giraud
endureceu e ele não articulou nada. Clark, sorrindo, procurou quebrar o gelo
com uma piada qualquer. Contudo, segundo suas próprias palavras, “a
entrevista terminou mais ou menos bruscamente...”. “Japoneses” na Itália 100o Batalhão
da 34a Divisão de Infantaria; 14 cruzes de Serviço Relevante e 75
Estrelas de Prata... Poucas unidades americanas
contaram em suas fileiras com um maior número de soldados condecorados por
atos de coragem. E poucas foram olhadas com tanto assombro pelos europeus.
Porque o 100o batalhão era integrado por ... japoneses. Os soldados que formavam
o 100o batalhão da 34a Divisão de Infantaria haviam
sido recrutados nas cercanias de Pearl Harbor, Havaí. Composto, quase em sua
totalidade por havaianos de ascendência japonesa, o batalhão fôra criado em
junho de 1942 e se uniu ao 5o Exército, em Salerno, a 22 de setembro
de 1943. Com exceção de alguns
meses que o batalhão passou no sul da França, seus integrantes lutaram
durante toda a campanha da Itália. Em junho de 1944, ao norte de Plombino, no
monte Belvedere, o batalhão aniquilou um batalhão SS alemão; a operação lhe
valeu uma citação presidencial. Posteriormente, a unidade interveio em
numerosas ações e sofreu fortes baixas. As tropas do 100o
batalhão nisei, isto é, descendentes de japoneses, demonstraram de fato uma
lealdade inquebrantável para com sua pátria, os Estados Unidos. E Mark Clark,
segundo declarou mais tarde, sentiu-se “orgulhoso de tê-los no 5o
Exército...”. No avanço para o
Volturno, que foi a primeira experiência de combate do batalhão nisei, as
tropas atuaram como guarda avançada de um regimento reforçado e cobriram uma
distância de 30 km em 24 horas, apesar das dificuldades oferecidas pelo
caminho montanhoso. O porto de Nápoles Ao se retirarem de
Nápoles, os alemães efetuaram uma minuciosa destruição das instalações de
água corrente, estações ferroviárias e túneis, usinas elétricas e estradas
vizinhas. Os esgotos haviam ficado inutilizados pelos bombardeios aliados. A destruição maior, no
entanto, foi provocada pelos alemães nas instalações do porto de Nápoles.
Muitos barcos foram dinamitados. Os galpões e guindastes derrubados, e as
vias férreas destruídas. Como Clark declarou posteriormente, “à primeira
vista pareceu que seria impossível utilizar o valioso porto durante muitas
semanas...”. Contudo, e de acordo com
as palavras do próprio Clark, realizou-se “o milagre da reconstrução”. E o milagre foi realizado
pelos homens do General Ponce. Sem um minuto de descanso, noite e dia, as
escavadoras abriram caminhos entre as montanhas de escombros, e os homens
fixaram no fundo dos diques os barcos afundados, convertendo-os em fundações
para os novos cais. A tarefa ciclópica permitiu que, 72 horas depois dos
Aliados entrarem em Nápoles, as primeiras barcaças entrassem no porto para
descarregar abastecimentos. No dia seguinte já estava pronto o primeiro ancoradouro
para um navio Liberty. Uma semana depois, o porto de Nápoles trabalhava a um
ritmo de 20.000 toneladas diárias. Foi, sem dúvida, um
milagre. Um milagre de organização, de disciplina e de trabalho. A tarefa de
reconstruir o porto de Nápoles foi um milagre necessário e imprescindível
para que as forças aliadas pudessem manter o ritmo do ataque. Foi, de certo
modo, uma operação impossível, que teve de se tornar possível a qualquer
custo. |