Kesselring detém os Aliados
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No sudeste de Roma, a uma distância de 25 km, se erguem os montes Albanos. Ao sul e ao norte desse maciço montanhoso correm as duas grandes estradas que unem a Itália meridional com Roma: as rotas 6 e 7. Estas duas rodovias constituíam as artérias vitais para o abastecimento e possível evacuação das forças alemães que combatiam em Monte Cassino. O Comando aliado já vislumbrara a enorme importância estratégica desse setor dos montes Albanos, segundo as próprias declarações do General Clark: “Se conseguirmos nos apoderar dos montes Albanos, ameaçaríamos os defensores da Linha Gustavo pela retaguarda e poderíamos até obrigar o inimigo a abandonar a sua poderosa linha de defesa, a fim de não ficar cercado”. A possibilidade de efetuar um desembarque na zona indicada foi estudada pouco depois da travessia do Volturno pelas tropas aliadas. Os estados-maiores, principalmente o comando do 5o Exército americano, elaboraram uma série de planos para realizar, mediante operações anfíbias, diversos “botes” ao longo da costa italiana, evitando assim um choque frontal com as fortificações alemães e as duras perdas que causaria uma luta na montanha. A necessidade de recorrer a essa tática tornou-se evidente nos primeiros dias de dezembro de 1943, quando o 5o Exército defrontou com uma encarniçada resistência por parte das posições de vanguarda que cobria os acessos à Linha Gustavo. Cada metro de terreno teve que ser conquistado à custa de sangrentas perdas, o que demandou longas jornadas de luta constante. Esse primeiro choque, porém, constituía apenas o preâmbulo da batalha terrível que os Aliados se veriam obrigados a travar ao enfrentar as fortificações mais importantes do alemães. O General Clark, diante das circunstâncias, entregou-se inteiramente à tarefa de estudar os métodos mais aptos para acelerar o avanço que corria o risco de deter-se e converter-se numa estéril batalha de desgaste. Chegou-se assim à elaboração do início de um projeto de desembarque nas praias vizinhas ao porto de Anzio, situado no sopé dos montes Albanos. Clark definiu o principal propósito desse desembarque, declarando: “Em Anzio, cravaríamos, na verdade, um punhal no flanco direito de Kesselring, com a lâmina apontando os montes Albanos. Ele teria que decidir então se devia retirar o seu potencial da Linha Gustavo, onde a ofensiva do 5o Exército já começara, a fim de opor-se ao nosso desembarque em Anzio, ou enviar outras forças sobre a cabeça-de-praia. O que parecia mais provável, dadas as circunstâncias, era que os alemães se veriam obrigados a dividir seu potencial entre ambas as frentes e que nós conseguiríamos materializar um rompimento num ou noutro ponto”. O projeto do ataque foi designado como nome chave de Shingle. A 18 de dezembro, Clark entrevistou-se em Nápoles com o General Eisenhower. Ali, informou-o detalhadamente dos pormenores do plano. Ao discutir as etapas da operação, surgiu imediatamente um problema que constituiria o principal obstáculo. De fato, a Marinha havia comunicado ao Exército que somente poderia dispor de número suficiente de naves de desembarque, para tentar o ataque, até meados do mês de janeiro. A partir dessa data, e de acordo com os ditames da alta estratégia aliada, o grosso dos elementos navais de desembarque seria retirado da frente do Mediterrâneo e conduzido à Inglaterra, reservando-o para a futura operação de invasão do continente europeu. Em virtude do prazo assinalado, tanto Clark como Eisenhower consideraram irrealizável a operação de Anzio. Com efeito, ambos os chefes achavam que o êxito do ataque dependia de que o grosso das forças aliadas que lutavam em Monte Cassino conseguisse abrir caminho através da defesa alemã do norte, e estabelecesse contato com as tropas desembarcadas em Anzio no espaço de uma semana. Essa união, indubitavelmente, não podia realizar-se dentro do prazo estipulado pela Marinha. Diante da emergência, Clark enviou um telegrama nessa mesma tarde ao General Alexander, comandante-chefe de todas as forças aliadas. Os termos eram os seguintes: “Recomendo que se anule a operação Shingle em janeiro. A data limite de 15 de janeiro a torna impraticável...” |
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Churchill decide o ataque Um novo personagem interveio então. Winston Churchill, que se encontrava convalescendo na cidade de Tunis, no seu regresso de Teerã, resolveu intervir energicamente na condução das operações. A 19 de dezembro de 1943, e depois de receber informes do General Alan Brooke, chefe do Estado-Maior imperial, Churchill enviou uma mensagem a Londres. Nela expunha, com sua ênfase costumeira, um juízo categórico acerca da situação. Dizia: “Indiscutivelmente, o estancamento das operações na frente da Itália, constitui um verdadeiro escândalo. A visita a esta frente do chefe do Estado-Maior imperial confirmou os meus piores pressentimentos. O fato de que nos tenhamos preocupado em preparar, de alguma maneira, ações anfíbias sobre a costa do Adriático, e de que não tenhamos executado nenhuma sobre a costa ocidental, é um verdadeiro desastre... Nenhuma das naves de desembarque que temos no Mediterrâneo foi empregada em qualquer assalto, nos últimos três meses. Tampouco foram levadas à Inglaterra para a preparação da Overlord, nem utilizadas nas ações das ilhas do Egeu, nem na batalha da Itália. Existem poucos exemplos, ainda nesta guerra, de que elementos tão importantes tenham sido assim desperdiçados”. Este comunicado de Churchill, evidentemente, não refletia a verdade. Conforme já se assinalou, Clark vinha planejando havia vários meses um assalto anfíbio. O projeto se concretizara na denominada operação Shingle. O que dificultava a execução do assalto anfíbio era a falta das grandes embarcações LST. Nesse momento existiam no Mediterrâneo, 104 unidades. Em vista dos planos traçados para efetuar a invasão da França, a maioria delas seria conduzida à Inglaterra. Ficariam então apenas 36 unidades. Outras 15 chegariam tempos depois, provenientes da Índia, porém não estariam em condições de ser incorporadas à operação Shingle no prazo previsto para o ataque. Para lançar nas praias de Anzio uma força mínima de duas divisões, necessitava-se de 88 LST. Churchill, ao tomar conhecimento desse detalhe, decidiu então realizar uma reunião com todos os chefes do Mediterrâneo, na qual obteve a aprovação para reter as LST necessárias e levar adiante o desembarque em Anzio. Na noite de 5 de dezembro, ao término da conferência, a decisão estava tomada. O General Alexander enviou então uma mensagem a Clark, na Itália. Dizia: “Hoje se tomaram certas resoluções definitivas, em uma conferência das altas esferas. A operação Shingle deve intensificar-se e entrar em vigor em fins de janeiro. Disporemos de 88 LST, que permitirão montar uma operação anfíbia com mais de duas divisões... Comece o planejamento imediatamente”. Dois dias mais tarde, Alexander entrevistou-se na Itália com Clark. Expôs então os pormenores da conferência, salientando que se havia decidido, em virtude dos grandes riscos que a operação de Anzio comportava, que uma divisão britânica participasse também do desembarque. Desta forma, os ingleses e americanos compartilhariam as fortes baixas decorrentes da operação. Decidiu-se, portanto, retirar da frente da Linha Gustavo o 6o Corpo de Exército americano, comandado pelo General Lucas, que exerceria o comando das forças em Anzio. A 9 de janeiro de 1944, Alexander, Clark, Lucas e oficiais do Estado-Maior se reuniram numa conferência para discutir os últimos detalhes. Alexander iniciou a reunião declarando: “Cavalheiros, decidiu-se que a operação Shingle ocorra a 22 de janeiro e que seja realizada pelo Corpo do General Lucas. Este chefe contará com a 1a Divisão britânica do General Penney e a 3a Divisão americana, do General Truscott, para o assalto inicial, e unidades de apoio, como comandos e rangers. Posteriormente, elementos das divisões americanas 45a de Infantaria e 1a Blindada serão desembarcadas. Sobre esses pontos não pode haver nenhuma discussão. Churchill declarou que esta operação surpreenderá o mundo. Certamente, atemorizará Kesselring”. O General Lucas tomou então a palavra e dirigindo-se ao seu superior, declarou: “General, a data do ataque está demasiadamente próxima. Não me dá tempo para preparar as minhas tropas. É necessário considerar que lançar um Corpo de Exército inteiro sobre a retaguarda inimiga constitui uma manobra terrivelmente complicada”. Alexander, então, respondeu: “Já discutimos esse problema. Sabemos que a maior parte dos soldados da 1a Divisão britânica e da 3a americana com experiência em desembarques foram retirados dessas unidades. Contudo, um oficial ou até um suboficial experimentado por pelotão ou seção, bastará... É muito possível que esta operação ocasione uma derrota decisiva aos alemães. Sua missão é desembarcar em Anzio e irromper nos montes Albanos. As principais linhas de comunicação do inimigo serão cortadas na retaguarda do 19o Corpo Panzer alemão em Monte Cassino, e a retaguarda ficará ameaçada. No pior dos casos, os alemães serão obrigados a debilitar sua frente meridional para fazer frente aos desembarques na retaguarda, o que nos abrirá então o caminho para Roma”. Às vésperas do desembarque Simultaneamente com o desembarque em Anzio, o 5o Exército americano realizaria na frente de Cassino a primeira grande investida contra as principais seções da Linha Gustavo. Três Corpos de Exército, o 10o britânico, o 2o americano e o expedicionário francês, comandado pelo General Juin, se lançariam de forma convergente contra as linhas alemães. O objetivo desse ataque, tal como esclareciam as instruções emitidas, era abrir uma brecha, através da qual se aproveitaria a oportunidade para estabelecer rapidamente contato com as forças desembarcadas em Anzio. As operações em Cassino se iniciariam cerca de uma semana antes do desembarque, a fim de comprometer o maior número possível de tropas alemães e afasta-las da zona da cabeça de praia. Enquanto se ultimavam os planos, no QG de Clark já surgiam dúvidas acerca da possibilidade de uma rápida penetração na zona de Anzio. Fundamentalmente, desconfiava-se da veracidade dos dados fornecidos pelos serviços de informações britânicos, considerados muito otimistas. O chefe de Inteligência do 5o Exército de Clark, Coronel Howard, acreditava, contrariamente aos ingleses, que Kesselring concentraria um máximo de forças para fazer frente à ameaça de uma penetração aliada no norte. Julgava também que o chefe alemão arriscaria a sorte da campanha da Itália numa só cartada, mantendo a resistência em Anzio e Monte Cassino. Ante as apreciações do Coronel Howard, Clark decidiu emitir uma determinação menos audaz ao 6o Corpo de Lucas. A ordem de campanha, datada de 12 de janeiro de 1944, dizia o seguinte: “Missão: o 5o Exército empreenderá ataques na zona de Anzio, a) para capturar e assegurar uma cabeça-de-ponte nas proximidades de Anzio, b) avançar para os montes Albanos”; em seguida, enviou um dos seus assessores para explicar verbalmente esse plano ao General Lucas. Ficava a critério deste último chefe decidir, de acordo com a resistência que encontrasse, se tomaria os montes Albanos, ou, simplesmente, se iniciaria o avanço rumo a eles. Tal como salientou um militar americano, o General Lucas ficava diante de uma das mais difíceis decisões a que se pode submeter um chefe militar, num campo de batalha. Desta forma, a operação que Churchill concebera como sendo “um passeio militar até Roma”, se convertia, no terreno prático, em um intrincado problema militar. Clark assim se manifestou a respeito: “O resultado da operação deveria sair de acordo com os compêndios. Na guerra, porém, as coisas raramente saem de acordo com a teoria”. Na verdade, em Anzio, as tropas anglo-americanas travariam uma das batalhas mais sangrentas da Segunda Guerra Mundial. Em intermináveis colunas, os caminhões que conduziam os soldados do 6o Corpo convergiam sobre o porto de Nápoles. A 21 de janeiro, completou-se o embarque das tropas, e a frota de invasão se fez ao mar, rumo a Anzio. A formação naval, manteve, durante várias horas, a proa para o oeste, para despistar os possíveis espias alemães. Em seguida, ao cair da noite, virou para o norte. O General Lucas, dispunha, para o desembarque, das seguintes forças: a 3a Divisão de Infantaria americana, sob as ordens do General Truscott, que se lançaria ao ataque contra as praias situadas a uns 7 km ao sul de Anzio; três batalhões de Rangers, que tentariam, num golpe de audácia, apoderar-se do porto de Anzio; o 509o Batalhão de Pára-quedistas, que tentaria uma manobra similar no pequeno porto de Netuno, situado mais ao sul; a 1a Divisão de Infantaria britânica que, junto com dois grupos de comandos, desembarcaria ao norte de Anzio. Todas estas forças totalizavam uns 50.000 homens e 5.200 veículos. A ordem era ganhar as praias e avançar diretamente para o interior, estabelecer contato entre si, e consolidar uma cabeça de praia de 11 km de profundidade. O objetivo consistia em completar a operação com o máximo de velocidade possível. Paralelamente, continuava de pé a ordem de retirar grande parte das embarcações no prazo de um mês. Em vista disso, se determinara que os caminhões se lançassem diretamente das embarcações à praia, com sua carga de combate, com o fim de aumentar o número de viagens que as unidades navais podiam realizar em um prazo curto. Em conjunto, o comando aliado se propunha desembarcar, no menor tempo possível, uma força de quase 110.000 homens, abastecimentos e munições para aproximadamente 15 dias. Esperava-se que nesse lapso de tempo a luta se decidiria, com o estabelecimento do contato entre as tropas do 5o Exército e as desembarcadas em Anzio. Assalto às praias Às duas da madrugada de 22 de janeiro, os rangers desembarcaram na praia Amarela, no próprio porto de Anzio. Os pára-quedistas, enquanto isso, faziam o mesmo na praia Netuno, enquanto os barcos da esquadra desfechavam um violento fogo de apoio. As duas posições foram tomadas sem luta, pois em ambos os lugares não existia nenhuma guarnição alemã. Nas outras praias, as restantes tropas britânicas e americanas começaram a efetuar suas ações. Às três da manhã, do seu posto de comando, instalado no cruzador Biscayne, o General Lucas enviou a Clark uma mensagem em código dizendo: “Paris-Bordeux-Turin-Tânger-Bari-Albânia”. Decifrada, a mensagem significava: “Tempo limpo- Mar calmo - Pouco vento - Passamos inadvertidos - Desembarques em marcha”. Clark aguardava ansiosamente novas notícias. Às cinco da manhã embarcou, juntamente com outros oficiais, em uma lancha torpedeira que os levaria até Anzio. No caminho recebeu uma nova mensagem: “No angels yet cutie Claudette ( “Ainda não há tanques”). Os ataques da 1a Divisão e da 3a caminham bem”. Pelo meio da manhã o grosso das forças aliadas havia alcançado seus objetivos da primeira linha. Em toda a zona da cabeça-de-ponte não se havia encontrado praticamente resistência, e nas poucas escaramuças sustentadas com os mil soldados alemães que se calculava haver no setor, foram mortos 40 e capturados 200. As forças aliadas, por sua vez, perderam mais homens em acidentes no desembarque que em virtude dos combates. A surpresa, portanto, fôra total. No posto de comando de Kesselring, a notícia do desembarque causou consternação. O marechal alemão, naquela situação crítica, manteve a calma. Ordenou imediatamente que fossem enviados aos montes Albanos, para bloquear o avanço aliado que se esperava, todos os combatentes disponíveis. A situação era realmente desesperadora, pois como assinalaria mais tarde o chefe do Estado-Maior, General Westphal: “No momento do desembarque, ao sul de Roma, não possuíamos mais que dois batalhões, além de algumas baterias costeiras... Não existia nenhuma outra força nos arredores que pudéssemos lançar nesse mesmo dia contra o inimigo. O caminho para Roma estava aberto. Ninguém teria impedido uma vanguarda audaciosa de penetrar na Cidade Eterna”. A situação se apresentava tal como Churchill havia previsto. Contudo, o seu projeto de um vigoroso avanço para a capital italiana não concordava com os planos dos chefes americanos. Tanto o General Lucas como o General Clark temiam um violento contra-ataque alemão e não estavam dispostos a arriscar força alguma, num avanço para o interior, sem ter consolidado definitivamente a cabeça de praia. Na manhã do dia 22, enquanto as tropas afluíam em incessante corrente para a terra, Lucas se entrevistou com Clark no local da invasão. Clark lhe expressou a satisfação que o Alto-Comando sentia pelo desenvolvimento da operação. O chefe supremo americano mostrou-se, contudo, preocupado pelas notícias que chegavam da frente meridional. Ali, de fato, as tropas aliadas haviam sido contidas em seu projetado rompimento para estabelecer contato com as de Anzio. As tropas da 36a Divisão de Infantaria, especialmente, depararam com uma tenaz resistência alemã na sua tentativa de atravessar o Rápido. Clark compreendeu que o seu plano de provocar o rápido desmoronamento da resistência alemã no sul da Itália fracassara. Em conseqüência, antes de regressar ao seu posto de comando, declarou a Lucas: “Pode se esquecer da operação sobre Roma... Não exponha suas forças... Eu o fiz em Salerno e paguei as conseqüências...”. Assim ficou resolvida a paralisação do avanço aliado em Anzio. Para o General Lucas não existia agora senão o problema principal: consolidar firmemente a cabeça-de-ponte e colocar em condições o porto de Anzio. Esta decisão, acertada, levando em consideração os resultados finais, porém, deu naquele momento oportunidade aos alemães de concentrar, em torno da cabeça-de-ponte, forças suficientes para por em perigo a segurança da mesma. As más condições do clima, impedindo as ações da aviação aliada, facilitaram os movimentos das tropas alemães. Os alemães rechaçam a invasão Seguindo as enérgicas diretivas de Kesselring, que Hitler apoiou plenamente, afluíram para Anzio, de diferentes setores da Itália, da Alemanha e até da França e da Iugoslávia, unidades destinadas a lançar os Aliados no mar. No mesmo dia do desembarque, cerca de 10.000 soldados chegaram ao setor da luta. Na jornada seguinte, outros sete batalhões de infantaria e tropas de apoio se agregaram, subindo o número de defensores a 16.000 homens. A direção das operações foi confiada ao General von Mackensen, chefe do 14o Exército alemão, estacionado, até aquele momento, no norte da Itália. Os efetivos continuaram afluindo, aceleradamente, por trem e por todos os tipos de veículos. Ao finalizar o terceiro dia, os alemães contavam com quase 26.000 soldados. Na quarta jornada já eram 34.000 e esse número continuou crescendo durante as duas semanas seguintes até chegar a 70.000 combatentes. A situação adquiriu, então, um novo semblante, ameaçador para os efetivos anglo-americanos localizados na planície no sopé dos montes Albanos. Desse maciço, a artilharia alemã submeteu, então, o perímetro da cabeça-de-ponte a um fogo devastador. Entre os canhões, contavam-se gigantescas peças montadas em vagões ferroviários. Dois canhões de 280 mm de 200 toneladas de peso cada um, que disparavam projéteis de 250 kg, foram localizados frente às posições inimigas e transferidos de um lado para outro, para evitar sua destruição pela aviação aliada. Hitler, entrementes, emitiu uma ordem inexorável às forças que combatiam em Monte Cassino; o Fuhrer vislumbrava acertadamente a importância decisiva da retenção da zona em suas mãos. Se Monte Cassino caísse, o que ele chamava de “abscesso de Anzio” se transformaria numa ameaça mortal para as forças de Kesselring. A 24 de janeiro, emitiu por conseguinte, a ordem: “A Linha Gustavo deve ser mantida, custe o que custar, dadas as conseqüências políticas que advirão de uma defesa vitoriosa. Deve ser defendida até a morte”. Enquanto os alemães tomavam estas disposições, as tropas aliadas em Anzio deslocavam suas linhas cautelosamente em direção ao interior. Por volta de 27 de janeiro, a 3a Divisão havia progredido pelo flanco direito até uns 5 km da localidade de Cisterna. Os britânicos, por sua vez, no flanco esquerdo, progrediam por um terreno difícil, em direção a Albano. A resistência inimiga era cada vez mais vigorosa e contava com o permanente apoio da artilharia e dos ataques noturnos da Luftwaffe. Diante dessa situação, o General Alexander, chefe supremo aliado, exprimiu a Clark a necessidade de tocar o avanço energicamente. Clark se transferiu para a cabeça-de-ponte no dia 28 e pressionou o General Lucas para que lançasse um ataque contra Cisterna. Dessa forma, os Aliados se aprontaram para lançar sua primeira ação ofensiva de grande envergadura. Um incidente inesperado quase alterou o curso dos acontecimentos. Na manhã do dia 28, o General Clark chegou à desembocadura do Volturno, com o objetivo de embarcar rumo a Anzio. Era esperado ali por duas lanchas torpedeiras. Em uma delas, a PT-201, embarcou Clark, o General Brann, o Coronel Howard, o Coronel Bowman, o Capitão Beardwood e Frank Gervasi, correspondente de guerra americano. O embarque foi difícil em virtude do mar revolto. O timoneiro da PT-201, inadvertidamente, bateu num banco de areia e a lancha foi invadida pelas águas. Para complicar mais a situação, já por si bastante atrapalhada, informes recebidos anunciavam que as incursões aéreas e a artilharia inimigas estavam causando sérios danos; sabia-se também, sem confirmação, que lanchas torpedeiras alemães se encontravam navegando próximas da costa, atacando as embarcações aliadas. O avanço da torpedeira PT-201 rumo a Anzio foi normal e sem incidentes até umas sete milhas do porto. Reinava ainda a semi-obscuridade do amanhecer, quando um rastreador americano, o AM-120 os interceptou ordenando-lhes que se identificassem. O Tenente-de-Fragata Patterson, comandante da PT-201, ordenou imediatamente o disparo de bengalas verdes e amarelas, e a transmissão com o projetor do sinal combinado para identificar-se como amigos. Contudo, ou por um erro de interpretação do sinal, ou pelo fato de que “todos se sentiam muito propensos a apertar o gatilho nessa manhã escura e ventosa”, o resultado foi que uma salva de projéteis de 40 mm e de 12 cm foi disparada contra a lancha. Vários dos projéteis acertaram na torpedeira ocasionando uma grande confusão entre os tripulantes. O comandante, entre outros, tombou na coberta, atingido em ambas as pernas. Clark, que saiu ileso, apanhou imediatamente uma pistola Very, de sinais, que alguém deixara cair, e tornou a disparar os sinais de identificação. Os disparos do rastreador, contudo, não cessaram. Ante a evidência da inutilidade de novas tentativas de evitar o ataque, Clark decidiu que deviam retirar-se imediatamente do local. Correu até o timoneiro e comprovou que ninguém estava ali. Um olhar ao redor permitiu constatar que os três oficiais navais da unidade estavam feridos. Ao ver Clark junto ao leme, um dos oficiais, o Tenente-de-Corveta Benson, apesar de ferido, levantou-se e manobrou com o timão, afastando a lancha do fogo do rastreador. Clark, enquanto isso, ajoelhou-se ao lado do comandante e o interrogou acerca dos movimentos a fazer. O comandante da torpedeira lhe declarou que não sabia o que fazer. Então Clark, imediatamente, decidiu que deviam afastar-se dali sem perda de tempo. Com os projéteis silvando em torno da lancha, partiram do local em grande velocidade. Atrás deles, seguindo-os, a outra torpedeira se afastou também. Pouco depois, a salvo dos disparos do rastreador americano, os tripulantes ilesos se dedicaram a ajudar os feridos. A lancha, segundo as palavras do próprio Clark, “parecia semeada de baixas e inundada de sangue”. Um dos caídos a quem Clark ajudou pessoalmente, era o correspondente de guerra Gervasi, que se encontrava semi-inconsciente e com o uniforme empapado de sangue. Rapidamente, Clark o despojou da jaqueta, mas logo compreendeu que Gervasi estava ileso. O sangue pertencia a algum outro tripulante. Posteriormente, um exame completo dos homens feridos constatou que o Tenente-de-Corveta Donald estava gravemente ferido, com uma artéria da perna cortada por uma bala; Patterson tinha as duas pernas feridas; Benson recebera estilhaços nas pernas; outro membro do pessoal tinha a rótula destroçada e um quinto, ferimentos no estômago e um osso da pélvis fraturado. Um pouco mais tarde, outra nave recortou-se na escuridão. Era o rastreador britânico Acute. Da PT-201 fizeram-se os sinais de identificação, num clima de grande ansiedade, temendo que a torpedeira fosse novamente confundida com uma similar alemã. Porém, o Capitão-de-Fragata Doran, comandante do Açude, identificou sem inconvenientes a nave americana. Aproximando-se do barco britânico, os feridos foram trasbordados. Em seguida, as torpedeiras aproaram rumo a Anzio. Antes de chegar ao local onde haviam sido atacados, o rastreador AM-120 voltou a aproximar-se da torpedeira. Novamente foram feitos os sinais de identificação. Desta vez os homens do barco americano compreenderam corretamente os sinais e se acercaram da nave de Clark. O novo comandante da PT-201, com um megafone, dirigiu-se ao comandante do rastreador, dizendo: “Vocês acabam de atacar o General Clark!”. O incidente segundo as palavras do próprio Clark, “terminou com conselhos fortes porém sadios”. Até fins de janeiro, as operações se mantiveram num estado de total incerteza, no tocante ao resultado final. “Dois boxeadores no ringue...” No dia 30, Clark fez a seguinte anotação em seu diário: “A frente meridional (do 5o Exército) se assemelha a dois boxeadores no ringue, ambos a ponto de cair. Comprometi minhas últimas reservas, e estou seguro que o broche fez outro tanto. Realmente me desiludiu a falta de agressividade demonstrada pelo 6o Corpo (em Anzio) embora, na minha opinião, tenha siso um erro atacar em busca do nosso objetivo final (os montes Albanos) nessa frente. Contudo, o ataque com forças de tanques deveria ter sido mais agressivo para capturar Cisterna e Campoleone”. Durante a manhã do dia 31, dois batalhões de rangers, encarregados de atacar Cisterna, se encontravam isolados e já podiam se considerar perdidos. A resistência alemã, por outro lado, era vigorosa, e, ao cair da noite de 31, a totalidade da frente lutava contra forças inimigas muito poderosas. Foi nesse momento que Clark, após identificar numerosas unidades inimigas veteranas, compreendeu que se achavam expostos a um forte contra-ataque inimigo, no exato momento em que suas próprias forças estavam a um passo da desorganização. Poucas vezes, no transcurso da campanha da Itália, as forças aliadas se encontraram em situação mais comprometedora. Estavam, literalmente, a um passo de serem lançados ao mar. Clark compreendeu isso e decidiu, em conseqüência, resistir até o final em busca de uma vitória que parecia escapar de suas mãos. O que se iniciara sob auspícios favoráveis, se convertia agora na possibilidade de um beco sem saída. A destruição do “abscesso de Anzio”, reclamada por Hitler, estava por ser alcançada. Anexo Churchill e Anzio O primeiro-ministro
britânico foi o mais decidido promotor do desembarque aliado em Anzio.
Manteve em Tunis, a 25 de dezembro de 1943, uma conferência com os chefes
militares do Mediterrâneo. Nela obteve a aprovação deles para a realização da
operação. Nesse mesmo dia enviou uma carta ao Presidente Roosevelt
comunicando-lhe os resultados da discussão. Transcrevemos aqui o seu texto: “Mantive hoje uma
conferência com Eisenhower e seus chefes superiores. O General Alexander está
disposto a executar o desembarque em Anzio, por volta de 20 de janeiro, se
puder contar com os meios necessários para transportar duas divisões. Essa
operação decidirá a batalha por Roma e concretizará, possivelmente, a
destruição de uma parte substancial do exército inimigo. Atuar com menos de
duas divisões será marchar para um desastre, dadas as posições que ocuparão,
provavelmente, nessa data, o 5o e o 8o Exércitos. Para
alcançar esse resultado necessitamos de 88 LST (barcaças de desembarque de
tanques). Não as teremos, a menos que retardemos a partida das 56 LST que
precisam abandonar o Mediterrâneo a partir de 16 de janeiro... Nenhuma outra
medida será suficiente. As 15 LST que vêm da Índia não poderão chegar em
tempo, porém serão extremamente úteis para cobrir as perdas e organizar a
operação Anvil (desembarque no sul da França)... Depois de termos mantido
estas 56 LST no Mediterrâneo parece-me ilógico deixa-las partir justo no
momento em que podem prestar serviços decisivos. O que pode ser mais perigoso
do que deixar a batalha da Itália paralisada por mais de 3 meses? Não podemos
seguir adiante e deixar para trás, sem terminar, uma tarefa tão importante.
Concordamos, todos os presentes à reunião, concertar nossos esforços para
executar a operação em Anzio, por volta de 20 de janeiro, na base de duas
divisões. O General Alexander recebeu ordens de realizar seus preparativos
nesse sentido. Se não aproveitarmos essa ocasião, teremos que esperar a
frustração da nossa campanha no Mediterrâneo, em 1944. Espero, portanto,
ansiosamente, que possa aceitar as três semanas de demora no envio das 56
barcaças de desembarque; todas as autoridades interessadas receberão as
instruções necessárias para que este atraso não afete a execução da Overlord
(desembarque na Normandia)...” Eisenhower e Anzio No decorrer da
conferência celebrada com Winston Churchill em Tunis a 23 de dezembro de
1943, Eisenhower enumerou uma série de argumentos contrários à projetada
operação em Anzio. Reproduzimos, de suas Memórias, os seus conceitos: “Estive de acordo com a intenção
geral de continuar o avanço, porém lembrei que o desembarque de duas divisões
parcialmente fragmentadas, em Anzio, cem milhas na retaguarda da linha de
frente, como estava situada na ocasião, não somente seria uma operação
arriscada, mas também o ataque, por si mesmo, não daria como resultado a
retirada dos alemães. A estratégia militar pode ter alguma similitude com um
tabuleiro de xadrez, porém é perigoso levar muito longe essa analogia. Em rei
ameaçado no xadrez tem que ser protegido. Na guerra pode, ao contrário,
decidir-se a combater! “Os nazistas não chegaram
a retirar-se imediatamente da África ou da Sicília, por ameaças à sua
retaguarda. Pelo contrário, reforçaram suas tropas e mantiveram a batalha até
o fim. Certamente, um dos principais objetivos da operação era induzir o
inimigo a reforçar os seus exércitos na Itália, porém era igualmente
importante que isso fosse feito de maneira tal que nossas próprias perdas
fossem reduzidas ao mínimo. “Foi sob esse ponto de
vista, das perdas, que eu exigi um cuidadoso exame do plano. Sustentei que
uma força de várias divisões fortes deveria ser estabelecida em Anzio antes
que se alcançassem resultados relevantes. Lembrei também que, por causa da
distância, o rápido fortalecimento das forças de ataque em Anzio seria
difícil e que se necessitariam de barcas de desembarque muito depois da data
fixada para sua devolução (estas embarcações deviam ser enviadas o mais cedo
possível para a Inglaterra, com o objetivo de serem utilizadas na operação
Overlord). “O primeiro-ministro
(Churchill) estava decidido a leva adiante a operação proposta. Ele e seus
ajudantes militares não somente acreditavam que o assalto culminaria com um
êxito total, mas também aceitaram devolver os barcos de desembarque quando as
duas divisões se estabelecessem nas praias. “Embora repetindo a minha
advertência acerca do provável resultado, aceitei o seu firme compromisso
sobre a data de entrega dessas embarcações, extremamente necessárias na
Inglaterra. “Concordei em recomendar
aos chefes do Estado-Maior do meu país que esse equipamento permanecesse no
Mediterrâneo por mais duas semanas, para assegurar reforços rápidos às
acossadas tropas de Anzio... Em última instância, a operação de Anzio trouxe
grandes dividendos, porém em suas etapas iniciais desenvolveu-se tal como o
meu comando havia previsto. “Sob outro ponto de
vista, a operação, indubitavelmente, convenceu a Hitler de que nos
propúnhamos a levar adiante a campanha da Itália como uma operação de
importância decisiva. Ele reforçou os seus exércitos daquela região com oito
divisões. Isto foi uma grande vantagem para os Aliados em todas as frentes”. “Arriscaremos...” 22 de janeiro de 1944. QG
do Marechal Kesselring. As primeira mensagens que anunciam o inesperado
desembarque em Anzio acaba, de ser recebidas. Os oficiais alemães, sacudidos
pela notícia, se aprontam a cumprir as ordens dos comandos. Os planos de
emergência e os mapas geográficos são estudados minuciosamente. O
Major-General Siegfried Westphal entra na sal de comando e recebe a dramática
novidade. Impassível, o chefe alemão estuda detidamente o mapa. Depois,
dirigindo-se a um de seus oficiais, diz: “Aconteceu o que Rommel temia. Um
assalto anfíbio na nossa retaguarda”. Minutos mais tarde,
aparece o Marechal Kesselring. Westphal, perfilando-se, comunica-lhe com
firmeza: “Os Aliados desembarcaram no sul de Roma. Será que lançaram também
pára-quedistas?”. O oficial da Inteligência, imediatamente retruca: “Não
recebemos notícias, pelo menos até agora...”. Westphal murmura: “Eu teria
lançado pelo menos uma divisão nos montes Albanos. Imaginem o que teriam
conseguido com isso! Todas as nossas comunicações com o sul estariam
cortadas!”. Kesselring, então
pergunta: “Que forças temos entre Anzio e Roma?”. Responde Westphal:
“Praticamente nenhuma. Somente dois batalhões de infantaria motorizada na
costa”. Kesselring reflete: “Devemos presumir que o inimigo se apossará dos
montes Albanos e das rodovias 6 e 7. É esse, inevitavelmente, o objetivo
principal de qualquer desembarque. Quantas forças temos em Roma?”. Um oficial
responde: “A 4a Divisão de Pára-quedistas e as unidades de reserva
da divisão Hermann Goering...”. “Enviem-nas imediatamente aos montes Albanos
e que bloqueiem todas as passagens a oeste das colinas...”, ordenou
Kesselring. Rapidamente os oficiais
se movimentam, pondo em marcha o dispositivo defensivo. Os telefones ressoam
e as vozes de comando se sucedem ininterruptamente. A notícia do desembarque
é também transmitida para Berlim, ao OKW (Comando da Wehrmacht). A resposta não tarda a
chegar. Imediatamente partirão reforços da França, Iugoslávia. O 14o
Exército anuncia também o envio de três divisões, do norte da Itália. O 10o
Exército, que combatia na Linha Gustavo, determina o envio de três divisões
que mantinha de reserva. O chefe desse exército, General von Vietinghoff,
declara a Kesselring que achava necessária a retirada da Linha Gustavo. O
marechal, ao receber a opinião desse militar, disse a Westphal: “Não haverá
retirada. Arriscaremos...”. Westphal, impressionado
pela decisão de Kesselring, declara: “Se os Aliados atacarem amanhã ou no dia
seguinte, não poderemos detê-los...”. Kesselring, sem se abalar, responde:
“Porém se não atacarem, nossos reforços chegarão e os cercaremos em Anzio”. “Vai lhes custar
caro...” Meia-noite de 29 de
janeiro de 1944. Avançando entre as sombras que envolvem a cabeça de Anzio,
quase 800 homens deslizam, rumo às linhas alemães. Estão com os rostos
escurecidos com carvão, capacetes camuflados e levam nas mãos facas
afiadíssimas, prontos para a ação. São os rangers, as célebres tropas de
assalto americanas. Receberam a missão de infiltrar-se profundamente nas
posições inimigas, com o fim de criar confusão na retaguarda alemã, nas
vésperas da grande ofensiva aliada. Ao deixar para trás os postos
de vanguarda americanos os rangers se dispersam em pequenos grupos,
procurando passar despercebidos. A “terra de ninguém” estava silenciosa.
Somente o distante rugido dos canhões alemães, que disparavam
intermitentemente sobre a cabeça de praia, ressoava com trágico estrondo,
marcando a presença da guerra... À frente dos rangers
avançavam grupos de scouts. Eram destacamentos selecionados aos quais cabia a
dura tarefa de eliminar, u após outro, sem contemplações, os sentinelas
alemães que encontrassem pelo
caminho. Os scouts tinha que cumprir sua missão empregando apenas armas
brancas. Logo os scouts começaram
a cumprir a missão. Um após outro, os soldados alemães, destacados como
observadores ou em missão de patrulha foram tombando, apunhalados. Em silêncio,
mediante oportunos e bem ensaiados golpes, os scouts se infiltram metro a
metro, eliminando um inimigo, e outro... e mais outro... Depois dos scouts, os
rangers avançavam. Ao chegar à retaguarda alemã, os grupos de combatentes
americanos começaram a reunir-se. Um dos batalhões, o 3o,
comandado pelo Major Miller, se dispôs a atravessar a última estrada que os
separava de seu objetivo, a localidade de Cisterna. Poucos metros antes de
chegar à rodovia, os soldados viram avançar uma coluna de veículos blindados
que se deslocava a grande velocidade. Eram os destacamentos de vanguarda da
26a Divisão Panzer. Durante longo tempo, os
veículos desfilaram. Tanques, caminhões, semilagartas e veículos leves
passavam, um depois do outro. Os americanos aguardavam, deitados na terra, na
encosta da estrada. O Major Miller, então,
deu uma ordem: “Cruzem a estrada correndo, entre um veículo e outro...” E
imediatamente, dando o exemplo a seus homens, atravessou a rodovia correndo,
e passou entre os tanques alemães. Poucos minutos depois, todo o batalhão
atravessara a estrada, sem contratempos. Já amanhecia e uma gigantesca
barreira de fogo de artilharia anunciou aos rangers que a ofensiva americana
começara. Nesse exato momento, os rangers defrontaram-se com um acampamento
onde se achava acampada uma companhia alemã. Uma sentinela deu a voz de alto,
porém um certeiro disparo o prostrou morto. Rompido o silêncio, os rangers
não vacilaram em abrir fogo co todas as suas armas. Alguns soldados alemães
escaparam e alertaram a guarnição de Cisterna. Travou-se então uma luta
feroz, à luz dos primeiros raios do dia. Os alemães, em Cisterna, contavam
com o apoio de muitos tanques Tigre e Panther. Com os canhões deles,
sistematicamente, pulverizaram as moitas, atrás das quais se ocultavam os
rangers. Um veículo semilagarta
equipado com canhão antiaéreo quádruplo, de 20 mm, aproximou-se das posições
dos americanos e lançou um verdadeiro dilúvio de fogo. De repente, uma bomba
de um morteiro, disparado por um ranger acertou em cheio o veículo
semilagarta, despedaçando-º Contudo, de todas as direções, as metralhadoras
alemães crivavam de balas os americanos. Pouco a pouco, o fogo foi
decrescendo nas fileiras dos rangers. Entrincheirados atrás dos tanques, os
pelotões de SS avançavam sobre os redutos americanos, exterminando os
combatentes sobreviventes. Pouco depois do meio-dia,
na cabeça-de-ponte de Anzio recebeu-se a última mensagem do grupo de heróicos
combatentes aliados. Uma voz que não se identificou, exclamou pelo rádio:
“Cercaram nossa posição... Nossas munições estão esgotadas... Porém vai lhes
custar caro terminar conosco...”. Um aterrador silêncio seguiu essas
palavras. Por trás daquele silêncio jaziam quase 800 soldados americanos,
mortos no cumprimento do dever. “Está querendo
morrer?” Anzio. O 1o
Batalhão de tanques leves da 1a Divisão Blindada americana se
dirige para a frente de luta. É o dia 31 de janeiro de 1944. A missão dos
tanques consiste em apoiar o avanço da infantaria britânica que tentará abrir
caminho para o interior. Nos mapas, o terreno se
mostrava adequado para a operação. Porém, logo os tanquistas compreenderam
que caíram numa verdadeira armadilha. Todos os caminhos foram minados pelos
alemães e estão bloqueados também pelas suas baterias de 77 e 88 mm. O fogo
mortífero dos canhões pode atravessar facilmente a couraça de 20 a 40 mm dos
leves Stuart. Por outro lado, se os
tanques tentam manobrar fora da estrada, afundam num mar de lama. Os tanques,
porém, tem que avançar. Os britânicos já estão empenhados no assalto das
posições inimigas. Um grupamento de Stuart,
avançando pela estrada, chega até o ponto onde a infantaria inglesa está
combatendo. O chefe da coluna blindada detém o seu veiculo ante o oficial que
comanda os efetivos ingleses. Este rapidamente o põe a para da situação: “Os
alemães estão fortemente entrincheirados à nossa frente... Minaram as
estradas em ambas as margens e contam com numerosos canhões autopropulsados e
tanques... Trataremos de romper e abrir caminho para vocês...”. O oficial americano,
observou receoso o seu colega inglês, pensando achar-se em presença de um
homem que havia perdido o juízo diante da gravidade a situação. Na verdade,
mais de 1.000 jardas separavam os ingleses das posições alemães. Tratava-se
de 1.000 jardas de terreno descoberto e varrido por rajadas de metralhadoras
alemães. Pensar em irromper através daquela verdadeira arapuca era levar os
homens a uma morte certa. Porém, não havia outra saída. E os americanos
comprovaram isso, ao tentar movimentar-se pelo terreno, Muitos veículos
ficaram atolados e outros foram destruídos pela explosão das minas. Os infantes ingleses,
entrementes, calando suas baionetas, avançaram imperturbavelmente rumo às
linhas inimigas. Muitos deles tombaram no caminho, ceifados pelos projéteis
alemães. Contudo, continuaram progredindo. Alguns tanques conseguiram
acompanhar a progressão dos infantes, porém também caíram sob o fogo dos
canhões de 88 mm. No meio desse bombardeio infernal e das rajadas das
metralhadoras, as fileiras dos infantes britânicos foram praticamente
exterminados. O chefe da coluna de tanques americanos, tal como descreveu
posteriormente viu cair contra o seu veículo vários soldados britânicos
destroçados pelas balas. Outros ingleses porém se aprontavam para ocupar o
lugar dos que haviam tombado. Horrorizado com o espetáculo que presenciava, o
chefe americano não pôde conter uma exclamação desesperada: “Pelo amor de
Deus, não tentem de novo!”. Os britânicos, contudo
continuaram avançando. Subiram num aterro e, um cabo, adiantando-se, se
preparou para lançar uma granada. Nesse preciso momento foi atingido por um
disparo alemão. Com uma trágica contorção, o cabo inglês caiu pesadamente ao
solo, comprimindo a granada sob o
corpo. Esta, explodindo dois segundos depois, estraçalhou o corpo do valente
soldado. O heróico sacrifício dos
combatentes britânicos não teve, contudo, nenhuma recompensa. As linhas
alemães permaneciam intransponíveis. Um oficial inglês foi protagonista,
então, de um ato de insólita coragem. Caminhando, de pé, entre a chuva de
projéteis e a explosão de granadas, aproximou-se dos tanques americanos e,
com seu bastão lhes fez sinais, tranqüilamente, para que não continuassem
avançando. Sereno, sem demonstrar a menor inquietação, suas palavras chegaram
até os tanquistas americanos, em meio ao estrondo das granadas e o sibilar
das balas: “Não há jeito, amigos, não se pode passar... Se vocês quiserem, é
melhor dar a volta...”. Um americano, admirado e
encolerizado ao mesmo tempo, não titubeou e gritou: “Está querendo morrer?...
Abaixe-se!...”. O oficial britânico, sem responder, se afastou lentamente,
com seu bastão debaixo do braço. |