Derrota alemã na Rússia

 

O Exército Vermelho rompe o cerco de Leningrado

            

Rompimento no Dnieper no Sul da Rússia

Libertação de Leningrado

 

 

No princípio de 1944, as forças alemães, a despeito da decisão de Hitler de manter em suas mãos o território soviético conquistado, se viram obrigadas a abandonar a linha do rio Dnieper. Essa posição, que o caudilho alemão chamara "Muralha do Leste", não pôde permanecer em poder da Wehrmacht, apesar dos desesperados esforços realizados pelos combatentes alemães.

 

A superioridade dos efetivos soviéticos, nos setores correspondentes aos Grupos de Exércitos Sul e Centro, se tornara arrasadora. Com efeito, nesse setor, principal palco da luta, os alemães somente podiam contrapor 137 desgastadas e exauridas divisões de infantaria e blindadas, a uma massa integrada por 416 divisões de infantaria e 212 brigadas blindadas soviéticas.

 

Além das unidades citados, os serviços de inteligência do exército alemão calculavam que os russos tinham em reserva, nessa zona, umas 40 ou 50 divisões, integradas por efetivos frescos e com plena capacidade combativa. A estes efetivos se somavam também 30 brigadas blindadas.

 

O poderio humano e material soviético, lançado na batalha de forma maciça, fazia a balança da guerra pender em favor da URSS. As esgotadas divisões alemães pouco podiam ante a avalanche humana que suplantava suas linhas, já precariamente defendidas por homens carentes de armamentos suficientes e, o que é mais importante, de reservas capazes de proporcionar-lhes um pouco de descanso longe da frente de combate. Tal situação, lógica e previsível, era determinada por um fato que Hitler, em sua desenfreada ambição de conquista, obstinara-se em não reconhecer: a população da URSS, já em 1941, no princípio da invasão alemã, somava 193.000.000 de habitantes, cifra que praticamente triplicava a população da Alemanha. O General francês Guillaume, em um minucioso estudo realizado sobre a guerra russo-germânica, definiu da seguinte maneira a errônea estratégia do Führer: “Ao subestimar a potencialidade soviética, subestimou igualmente a do Exército Vermelho e, sobretudo, a sua possibilidade de recuperação. Acreditou que esse exército pudesse ser posto fora de ação em poucas semanas, tal como havia sucedido com os exércitos polonês e francês, e que, assim que obtivesse tal resultado, as incursões dos blindados, sem contraposição, chegariam, sem disparar um só tiro, aos centros vitais do país... Definitivamente, se Hitler foi vencido na frente oriental, é porque não havia estimado em sua verdadeira dimensão as profundas transformações que se operaram na URSS, em todos os domínios, desde 1917. Hitler não podia ignorar quais eram os efetivos e o armamento do Exército Vermelho, porém duvidava, principalmente depois dos expurgos de 1937, do valor do seu comando. Deixava de lado a eventualidade de, uma vez destruídos os exércitos de primeira linha, ver surgir exércitos novos, enquadrados, equipados e dotados de um armamento talvez mais abundante e mais aperfeiçoado. Conhecia o valor do soldado russo, mas duvidava da sua capacidade no manejo e manutenção dos armamentos e materiais modernos de combate. Não julgara, tampouco, com exatidão, a capacidade de resistência do Exército Vermelho, porque subestimara a potencialidade do Estado Soviético”.

 

Sob a férrea condução do regime comunista, a Rússia havia cristalizado, nos anos anteriores à guerra, um acelerado processo de industrialização. Foi, então, desenvolvendo a sua potencialidade industrial e preparando em escala gigantesca os quadros de oficiais e técnicos, indispensáveis para estruturar em uma moderna máquina combativa, um exército integrado por mais de dez milhões de soldados, que a URSS forjou o instrumento que lhe deu a capacidade de vitória sobre o disciplinado e aguerrido exército alemão.

 

Tanto o Estado-Maior-Geral do Exército alemão como os chefes dos grupos de exércitos que combatiam na Rússia compreendiam perfeitamente a absoluta impossibilidade de continuar sustentando a luta nessas condições.

 

Previa-se que o Exército Vermelho não deteria suas operações uma vez conquistada a margem ocidental do Dnieper.

 

O inverno, também, que já estava próximo, era precisamente um importantíssima aliado, um fator preponderante no possível êxito das suas operações. Por conseguinte, era necessário prever, a curto prazo, uma nova e gigantesca investida dos exércitos russos. Desta vez, em direção à Romênia e aos países balcânicos e, também, com ataques às posições mantidas pelas forças alemães isolados na Criméia.

 

Paralelamente, era cabível esperar um ataque na zona norte da Rússia, para romper definitivamente o cerco de Leningrado e rechaçar as forças alemães para os países bálticos. O comando da Wehrmacht considerava imprescindível adiantar-se ao ataque soviético, levando a cabo um encurtamento geral da frente que, nesse momento, alcançava uma extensão de dois mil quilômetros. Somente dessa forma se poderia conseguir uma concentração mais poderosa de forças destinadas a enfrentar a possível investida soviética e, mais ainda, obrigá-la a abortar.

 

Contra esse enfoque lógico, Hitler opôs uma resistência irremovível, até mesmo quando o próprio General Jodl, o submisso chefe do Estado-Maior da Wehrmacht, advogou a adoção da “linha mais curta”. O ditador alemão, diante de todos os argumentos, manteve-se aferrado à sua tese de que uma retirada em ambas as alas da frente oriental traria conseqüências políticas catastróficas, pois levaria a Finlândia e a Romênia a abandonar o Eixo.

 

Estas considerações nada tinham que ver, porém, com a realidade militar. A Wehrmacht estava diante de uma alternativa inevitável: ou evitava o golpe soviético, recuando, ou era aniquilada.

 

Dois alemães, os Generais Philippi e Heim, definiram assim a situação: “Quem quer defender tudo, não defende nada... Frederico, o Grande, está disposto a “sacrificar” uma província prussiana para poder golpear em outra parte... Com esses conceitos se haviam formado os chefes militares alemães e, nesse ponto, diferiam fundamentalmente do mundo imaginativo, completamente diferente, de Hitler, mundo no qual, a respeito da defensiva, continuavam como norma suas lembranças da Primeira Guerra Mundial”.

 

 

Catástrofe no Dnieper

 

Tal como previra o Marechal von Manstein, em várias oportunidades, a frente do Dnieper se desmoronou sob o irresistível impulso dos efetivos de Vatutin, Koniev, Malinovski e Tolbuchin.

 

Em fins de janeiro e princípios de fevereiro de 1944 foram literalmente varridas as tropas alemãs que ainda se mantinham em suas posições sobre as margens do rio. Em conseqüência, todo o dispositivo alemão recuou para o Oeste, acossado pelos efetivos soviéticos.

 

Uma importante fração de tropas alemães foi cercada em Korsun, onde os soviéticos conseguiram o que denominaram de “uma pequena Stalingrado”. De fato, ali conseguiram exterminar cerca de 20.000 soldados alemães, embora não pudessem impedir que muitos rompessem o cerco e se evadissem.

 

Nicopol, o centro mineiro pelo qual os alemães haviam lutado sem quartel, derramando torrentes de sangue, também caiu nas mãos dos russos. Mais ao sul, as tropas que se mantinham em posições avançadas, no intento de se colocar em contato com a guarnição cercada na Criméia, foram esmagadas. Toda esperança se perdia para o 17o Exército alemão, comandado pelo General Jaennecke e localizado na península. Ele também recebera a descabida ordem de Hitler: resistir até o fim...

 

Em fins de fevereiro, o Exército Vermelho havia vencido a decisiva batalha do Dnieper. Sobreveio então o “período da lama”. As forças russas fizeram uma pausa, com o objetivo de reorganizar os seus efetivos e assegurar suas linhas de comunicações. Desta vez, a trégua seria curta, pois o Alto-Comando resolvera não esperar que o solo se firmasse para prosseguir, com todo o ímpeto, as operações.

 

O serviço de inteligência alemão verificou, então, que nas posições russas se realizavam, a um ritmo acelerado, concentrações de tropas e preparativos que indicavam a iminência de uma ofensiva.

 

Von Manstein sentiu que, uma vez mais, o risco maior residia no flanco norte de suas forças, na zona onde se estabelecia a ligação entre os Grupos de Exércitos Sul e Centro. Ali, os russos haviam conseguido inicialmente introduzir uma profunda cunha, bloqueada a duras penas por tropas alemães de segunda linha e efetivos pertencentes a unidades de segurança e serviços.

 

A crise, portanto, não tardaria o precipitar-se.

 

A ofensiva soviética no Norte

 

Enquanto esses acontecimentos se desenrolavam na Rússia meridional, no extremo norte da frente a situação sofria uma reviravolta catastrófica para as armas alemães. Essa frente era defendida pelas unidades que mantinham o cerco de Leningrado: o 18o Exército e, mais ao sul, o 16o.

 

Essa força contava com umas quarenta divisões (nenhuma delas blindada); além disso, careciam por completo de reservas. Entre essas tropas contavam-se 1.500 espanhóis, membros da célebre Divisão Azul que até dezembro de 1943 combatera junto com os alemães no setor de Leningrado. O grosso dessa unidade, que por momentos chegou a somar 16.000 homens, regressara à Espanha naquela data, após sofrer vários milhares de baixas. A Divisão Azul combatera na Rússia desde 1941. Até 1942 foi comandada pelo General Muñoz Grandes. Posteriormente, e até a sua retirada da frente, esteve sob as ordens do General Esteban Infantes. A unidade espanhola adquiriu rápida fama nas fileiras do exército alemão, e também do soviético, pela sua coragem e destemor. Um oficial da divisão nórdica Viking relata a impressão produzida pelo seu primeiro contato com os efetivos espanhóis: “Na guerra, durante os combates iniciais, os oficiais espanhóis nunca se lançaram ao solo por mais violento que fosse o fogo inimigo, porque estava em jogo a honra do cavalheiro espanhol. Contudo, as baixas foram tão grandes que foi preciso ordenar-lhes que o fizessem... Todos reconheciam que eram excelentes combatentes e os respeitavam pela sua bravura, que chegava a ser temerária”. Em janeiro de 1944, somente restava, como já se disse, um tercio de 1.500 homens. Contudo, os russos, nos seus quadros de situação, os designavam com a categoria de Divisão, tal o valor atribuído a essas unidades. Todas as forças citadas eram, todavia, insuficientes para enfrentar um eventual ataque dos poderosos efetivos russos concentrados diante deles.

 

O comandante-chefe alemão, Marechal von Küchler, demonstrou esse fato ao Alto-Comando e a Hitler. Seus serviços de inteligência haviam informado, desde o mês de novembro, a crescente concentração de efetivos russos, fato que denunciava claramente a iminência de uma ofensiva em grande escala.

 

Os soviéticos haviam agrupado poderosos forças que praticamente excediam em dobro às dos alemães. Contavam também com fortes efetivos blindados e milhares de peças de artilharia.

 

O plano soviético de ataque tinha por objetivo eliminar definitivamente o cerco de Leningrado e concretizar o aniquilamento do 18o Exército alemão, mediante uma gigantesca manobra de tenazes, dirigida do Norte e do Sul, pelas tropas da Frente de Leningrado comandadas pelo General Govorov e as unidades da Frente do Volchov sob o comando do General Meretskov.

 

O ataque, efetuado em forma concêntrica por umas 45 a 50 divisões soviéticas, provocaria dois pontos de rompimento na frente de 330 km, defendida por umas doze desgastadas divisões alemães.

 

A situação periclitante em que se encontravam as forças alemães somente poderia ser conjurada mediante a retirada para uma posição situada mais a Oeste, sobre as margens do lago Peipus.

 

O Alto-Comando da Wehrmacht havia previsto essa retirada, dando à nova linha o nome chave de posição “Pantera”. A nova frente defendida pelo 18o Exército ficaria assim reduzida a uns 80 km. Não obstante, Hitler, uma vez mais, negou-se a autorizar esse recuo, declarando que era necessário sustentar-se nas posições avançadas, para manter a Finlândia dentro do campo do Eixo.

 

Essa resolução do Führer condenou as forças de von Küchler à derrota. Às vésperas do ataque soviético foi emitida a determinação: “Nem um passo atrás”.

 

Rompido o cerco de Leningrado

 

14 de janeiro de 1944. Um imenso manto de neve cobre as posições dos exércitos que lutam. Camadas de dois a três metros de neve tornam a região intransitável. Nas suas covas de atirador, os soldados lutam contra os elementos, tesos e sacudidos por rajadas geladas que não só os imobilizam mas também congelam até a graxa e o óleo lubrificante das armas. Nas linhas russas reina uma estranha calma. Nenhum movimento delata os febris preparativos que ali se realizam e que já se aproximam do seu término.

 

Nas trincheiras de assalto, os homens calam as baionetas e ajustam as pencas de granadas aos seus cinturões. Os oficiais russos, erguendo aos olhos os binóculos, percorrem uma e outra vez as linhas inimigas. Uma profunda emoção embarga os homens que se aprontam para liberar, após o prolongado sítio, a cidade que Hitler se propunha a aniquilar.

 

No seu posto-de-comando, o General Leonidas Alejandrovich Govorov faz os últimas recomendações aos seus lugar-tenentes. Esse veterano chefe do Exército Vermelho, filho de um simples camponês, receberá mais tarde o galardão de Marechal da União Soviética. O destino o escolheu para liberar Leningrado, berço da Revolução de Outubro e velha capital dos czares. Suas tropas, ao romper o cerco, darão princípio à uma série de vitórias que o Exército soviético alcançará no curso de 1944. Durante a noite e amparadas pela escuridão, poderosas unidades russas são transladadas à cabeça-de-ponte de Oraniembaum. Essas forças, sob o comando do General Fedyuninsky, se lançariam ao ataque concêntrico para unir suas forças com os efetivos que avançariam ao assalto das linhas fortificadas ao sul de Leningrado.

 

Por sua vez, as tropas do General Meretskov, irrompendo na zona do lago Ilmen, completariam a manobra de tenazes no flanco meridional.

 

Com as primeiras luzes do dia 14 de janeiro se inicia a gigantesca operação. No setor de Leningrado e Oraniembaum, a artilharia soviética desata uma aterradora cortina de fogo. No transcurso da jornada, mais de 500.000 projéteis caem sobre as trincheiras dos alemães. Frente a Oraniembaum, duas divisões de campanha da Luftwaffe e um Corpo blindado da SS enfrentam o avassalador ataque.

 

Combatendo intensamente, os alemães conseguiram retardar o avanço russo, porém sofreram no transcurso da luta terríveis perdas. Submetidas ao fogo incessante e infernal de milhares de peças de artilharia e de morteiros, as unidades foram praticamente dizimadas.

 

No Sul, as tropas de Meretskov romperam a ala meridional dos efetivos alemães e avançaram através do terreno coberto de neve, para as margens do rio Luga. A ameaça do cerco estava claramente definida.

 

No Norte, a frente também foi vencida. As baixas eram enormes. As divisões que conseguiram escapar ao aniquilamento ficaram reduzidas a uns poucos milhares de homens esgotados.

 

Desesperadamente, os chefes alemães tentaram reorganizar suas unidades, recorrendo a todos os homens que podiam ser retirados dos serviços de retaguarda. A situação, no entanto, era caótica. Batalhões inteiros eram dizimados pelo dilúvio de fogo lançado pelos soviéticos. As tropas enviadas da retaguarda para cobrir os claros, descobriam que as unidades às quais estavam afetadas já não existiam.

 

A dupla penetração russa evidenciava ao supremo Comandante alemão von Küchler, o perigo de um súbito aniquilamento de todas as suas forças. O chefe alemão solicitou imediatamente autorização de Hitler para retirar-se até a linha “Pantera”. Embora a situação exigisse um procedimento extremamente rápido, Hitler, como sempre, adiou sua resolução, acreditando que a crise pudesse ser superada. Ante os apelos que lhe chegavam da frente sua resposta foi uma e irremovível: “Deter-se. Não dar um só passo atrás. Organizar e manter uma frente que ameace Leningrado”.

 

A ordem de Hitler, dirigida a um exército que praticamente já não existia como unidade organizada, era simplesmente irracional. As forças alemãs estavam reduzidas a pedaços sem nenhum valor ofensivo. Agrupando-se em posições “ouriço” os combatentes conseguiam, a duras penas, repelir os incessantes ataques. A 22 de janeiro, von Küchler trasladou-se pessoalmente ao Quartel-General de Hitler, num último intento de fazer o Führer encarar a realidade. Nessa oportunidade enfatizou a dramática posição em que se encontravam as forças alemães e previu o iminente rompimento da frente, assinalando que a única solução possível era a imediata retirada. Um fator imprevisto veio então em ajuda dos alemães. No dia 23 produziu-se uma brusco e extraordinária mudança de tempo. O termômetro começou a subir rapidamente, até alcançar uma temperatura de vários graus acima de zero. A neve, então, começou a derreter-se rapidamente e o degelo converteu o terreno num imenso mar de lama. 0s movimentos do Exército Vermelho se viram então inesperadamente obstaculizados.

 

Contudo, o avanço russo não se deteve. As unidades do General Meretskov alcançaram, no dia 24, as margens do rio Luga e as tropas de Govorov conseguiram irromper para o Sul. Todas as tropas que permaneciam nas costas do golfo da Finlândia ficaram, então, isoladas.

 

Retirada alemã

 

A retirada tornava-se inevitável para os alemães. Os comandos ainda tinham esperança de organizar uma linha defensiva no Luga. No Norte, o corpo blindado SS, com seus efetivos exauridos, teve que cobrir uma frente de 40 a 50 km. Diante da impossibilidade de constituir uma defesa contínua, foram organizados “grupos de combate”, cujos efetivos, a maior parte das vezes, não chegavam a 100 homens. Esses grupos foram espalhados nos cruzamentos de estradas, centros ferroviários, pontes e outros pontos estratégicos, na esperança de deter a maré russa.

 

Através dessa debilíssima linha de defesa, se infiltraram, sem nenhuma dificuldade, as unidades russas. Numerosos grupamentos ficaram assim cercados pelos russas, enquanto outros, após retirar-se, enviavam destacamentos para auxiliar os primeiros.

 

Assim, em terrível confusão, os alemães se retiravam, fugiam para o Oeste.

 

Alguns grupos móveis, integrados por alguns tanques, atiradores motorizados e canhões antitanques, realizavam desesperados esforços para deter o avanço do Exército Vermelho e libertar os grupos que haviam ficado cercados. Ocorreram, então, numerosos episódios de terrível dramaticidade. Na localidade de Wolossovo, onde se localizava um grande hospital alemão apinhado de feridos, produziu-se uma inesperado penetração russa. O hospital, mesmo com as forças inimigas combatendo o uma distância de uns mil metros, prosseguiu a sua atividade, recebendo centenas de feridos que chegavam da frente de luta. Nessas circunstâncias, um batalhão mecanizado alemão que combatia nas imediações, ao tomar conhecimento da difícil situação em que se encontrava o hospital, decidiu dirigir-se para lá, numa desesperada tentativa de resgatar os feridos. Os veículos blindados se aproximaram do edifício e os soldados começaram a carregá-las, enchendo todos os cantos disponíveis com maior número de feridos.

 

Em seguida, a coluna motorizada lançou-se a um ataque de rompimento diretamente para a Oeste, disparando com todas as suas bocas de fogo. Combatendo furiosamente, conseguiu abrir caminho.

 

No transcurso dessa trágica retirada, chegava às tropas, várias vezes, a implacável ordem de Hitler: “Deter-se. Defender o terreno até o último homem”.

 

Um oficial alemão que participou dessas operações comentou-as assim: “Essa ordem não fez mais que causar baixas desnecessárias. Se o comando supremo alemão não se tivesse metido nos detalhes locais, estas tropas se teriam retirado com baixas muito menores. Desta maneira os comandantes se viram obrigadas a comunicar aos seus subordinados a ordem de resistir, embora compreendessem que qualquer esforço seria desesperado e estéril”.

 

Assim, a diretiva do Führer contribuiu para acelerar a vitória soviética, de qualquer modo, inevitável. O comando do 18o Exército, no entanto, não se resignou a aceitar o aniquilamento irracional de suas tropas. A ordem superior que proibia a retirada era transmitida às unidades combatentes, porém, simultaneamente, se lhes recomendava que atuassem da forma “mais conveniente”, dando-lhes, na prática, liberdade de ação para efetuar a retirada. Esses avisos permitiram que muitas vidas fossem salvas e resgatado um precioso material. Contudo, o 18o Exército perdeu quase toda a sua artilharia pesada e uma imensa quantidade de veículos e abastecimentos. Além disso, muitos batalhões e companhias foram “esquecidas” na confusão, sem que chegasse até eles diretiva nenhuma. Muitos deles, contudo, posteriormente conseguiram alcançar as linhas alemães. Durante várias semanas afluíram assim pequenos grupos de homens que já haviam sido dados como perdidos. Esses soldados, marchando de noite e ocultando-se de dia nos bosques, conseguiram reunir-se com seus camaradas. Eles chegavam às linhas alemães praticamente esgotados pela fome e pelo cansaço.

 

No dia 29 de janeiro, todo o Grupo de Exércitos Norte estava em franca retirada. A meta da retirada era as margens do rio Luga

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A derrota que Hitler se obstinava em não aceitar, havia acontecido. Leningrado estava livre. Seu horrível martírio estava definitivamente concluído. Cerca de um milhão de seus habitantes haviam perecido de fome, durante o espantoso sítio. A cidade estava praticamente arrasada. Seus famosos edifícios e palácios históricos eram apenas um montão de ruínas. Contudo, seu espírito se mantinha em pé. Seus habitantes, sobrepujando os sofrimentos, haviam honrado o lema que os uniu durante toda a espantosa tragédia: “Leningrado resistirá!”. Ninguém, também, cedera à tentação de pedir a declaração de “cidade aberta”. A população lutara, valentemente, teimosamente, duramente. E triunfara... No dia 1o de fevereiro, Hitler, em uma nova demonstração de arbitrariedade, destituiu o Marechal von Küchler, fazendo cair sobre ele o peso do desastre. Em seu lugar designou o Coronel-General Model, a quem deu a ordem de deter os soviéticos o qualquer custo.

 

A frente se estabiliza

 

Enquanto o grosso do 18o Exército batia em retirada em direção ao sudoeste, estabelecendo uma linha defensiva entre os lagos Peipus e Ilmen, o resto das forças se retirou ao longo da costa do golfo da Finlândia, até alcançar a linha do rio Narova que, partindo do lago Peipus, desemboca no citado golfo após percorrer 75 quilômetros.

 

Já no princípio da ofensiva soviético, ao compreender que a retirada era inevitável, o General von Lindemann, comandante do 18o Exército, havia enviado as poucas unidades que pôde retirar da frente a fim de preparar posições defensivas ao longo do Narova. Essas unidades careciam praticamente de efetivos e, embora fossem reforçadas com pessoal de intendência e todos os homens que estivessem em condições de empunhar uma pá, o resultado que obtiveram foi muito pobre. Determinou-se também formar, frente à cidade de Narva, situada na margem do rio, uma cabeça-de-ponte avançada, para proteger essa localidade. Essas obras tampouco foram eficazes, dada a falta de homens e material de defesa. Foram escavadas algumas trincheiras, improvisaram-se alguns redutos e se estenderam alambrados. Mais ao sul, entre a cidade de Narva e o lago Peipus, iniciaram-se os preparativos para a localização de centros de resistência.

 

Enquanto esses trabalhos se efetuavam, começaram a afluir, em incessante corrente, as colunas de veículos e tropas que se retiravam da frente. O número de veículos, a princípio considerável, foi decrescendo paulatinamente à medida que aumentava a quantidade de soldados extenuados que se retiravam a pé. As tropas, apesar do seu esgotamento, eram imediatamente distribuídas nas posições.

 

Enquanto isso, as unidades de retaguarda continuavam, mais à Leste, lutando desesperadamente no rio Luga, com o objetivo de ganhar tempo para que as tropas pudessem consolidar a linha defensiva do Narova. Estes efetivos se mantiveram no Luga, apesar das investidas russas, e conseguiram resistir até 4 de fevereiro. O tempo conquistado com seu sacrifício foi vital para o êxito posterior da resistência.

 

A posição do Narova foi defendida pelos restos das tropas que haviam sido dizimadas nos combates travados frente a Leningrado. Em sua retirada, esses efetivos haviam perdido toda coesão. O comando alemão calculava que as tropas que alcançaram o Narova somavam, ao todo, umas seis ou oito divisões desorganizadas, e que haviam perdido entre 50 a 60% dos seus efetivos. Divisões que na frente de Leningrado contavam com 8.000 homens chegaram à nova posição com 3.000 a 4.000 soldados. Algumas divisões, como as de tropas de campanha da Luftwaffe, foram totalmente destruídas. O resto dos seus homens teve que ser distribuído entre as demais unidades. Por sua vez, as divisões do 3o Corpo Blindado SS ficaram reduzidas a menos do metade dos seus efetivos.

 

Em seu conjunto, o 18o Exército alemão tivera mais de 40.000 mortos. Os soviéticos, por sua vez, haviam capturado com vida 7.200 homens, o que dá uma clara idéia da intensidade da luta. O material capturado pelos russos compreendia 365 tanques e veículos blindados, quase 2.000 peças de artilharia e cerca de 100 aviões.

 

Durante todo o mês de fevereiro, sob a condução de Model, as forças alemães sustentaram incessantes combates contra os russos e conseguiram finalmente dar estabilidade às suas linhos. Uma vez mais, o General Model demonstrara a sua energia, ao controlar uma situação que poderia ter descambado para o mais absoluto caos. O Grupo de Exércitos Norte se salvara do aniquilamento. Porém, a partir de então, já não representava mais ameaça alguma para as forças do Exército soviético. Oprimido contra a costa do Báltico, ficaria praticamente isolado do principal cenário da luta.

 

 

Anexo

 

“Para que gastar tanto dinheiro?”

Frente de Leningrado. Princípios de 1944. O 3o Corpo Blindado dos SS, integrado por voluntários nazistas dos países escandinavos, faz parte das unidades que sitiam a importante cidade russa. O comando do grupamento foi instalado numa escola soviética. Junto a ela, semidestruída, se ergue a usina elétrica. Os oficiais alemães, ante a possibilidade de prover-se de luz elétrica, solicitam a um batalhão técnico, acantonado nas imediações, o envio de um grupo de efetivos especializados, com a missão de reparar a usina. Um oficial do corpo escandinavo relata assim o episódio: “O chefe do batalhão chegou com alguns dos seus técnicos, porém quando viram a máquina de vapor tão deteriorada, e mais velha que a máquina de Fulton, não fizeram mais que sacudir a cabeça. Como seu conserto parecia impossível aos técnicos alemães, tentou-se uma outra fórmula: entre os cativos russos, aprisionados pelo Regimento “Dinamarca”, se encontrava um grupo de técnicos, eletricistas, mecânicos, etc. O regimento, com muito prazer, emprestou ao comando do grupamento uma meia dúzia desses homens. Depois de uma semana de trabalho, a usina funcionou impecavelmente e produziu a luz que tanto se necessitava. Com meios primitivos, troncos e cordas, consertaram a máquina e fizeram contato com o dínamo. A usina fazia um ruído espantoso, mas funcionava.

“Este exemplo, como muitos outros, mostrava como os russos, com elementos primários, podiam manejar coisas que uma técnica superior tinha que desistir de manejar. Os técnicos russos gozavam de um tecnicismo intuitivo, que os homens com uma instrução superior haviam perdido.

“O mesmo acontecia com toda técnica russa. Uma vez, inspecionando um avião russo derrubado pelo fogo alemão, observamos que o aparelho era muito primitivo; possuía o estritamente necessário para voar e carecia da infinidade de instrumentos que enchiam o painel dos aviões alemães. Perguntamos ao aviador russo: “Como é possível voar com meios tão arcaicos?...”. O piloto respondeu: “Nós calculamos que um avião russo voa, em média, sete vezes antes de ser derrubado ou destruído... Para que gastar tanto dinheiro por sete vôos? Não é preferível construir o dobro de aviões primitivos do que a metade de aparelhos perfeitos?”.

 

 

Bombardeiros soviéticos

Antes da eclosão da guerra, os soviéticos foram os primeiros a organizar uma força de bombardeiros quadrimotores de grande raio de ação. O famoso projetista Andrei Tupolev construiu, já na década de 30, um aparelho quadrimotor, o TB3, que serviu de base para a constituição das esquadrilhas de bombardeiros pesados. Por volta de 1936, essas unidades foram agrupadas em um comando de bombardeio de longo alcance, sob a chefia do General Golovanov. Esta força contava com várias centenas de aparelhos TB3 e era, naquele momento, a mais poderosa existente no mundo. O comando de bombardeiros, contudo, não prosseguiu a sua evolução nos anos seguintes, por causa de diversos motivos. Em primeiro lugar, as “limpezas” empreendidas por Stalin, nas Forças Armadas, que eliminaram o Marechal Tukhachevski, um dos mais decididos partidários do bombardeio estratégico. Além disso, e o mais importante, a indústria aeronáutica soviética teve que concentrar o grosso da sua produção em aumentar aceleradamente o efetivo de caças e caça-bombardeiros, ante a iminente ameaça de guerra. A Rússia estava diante da possibilidade de combater em duas frentes, no Leste e no Oeste, contra a Alemanha e o Japão. Esta circunstância obrigou as autoridades a aumentar os seus efetivos aéreos de 4 a 5.000 aparelhos a 8 a 10.000.

Assim, pela imposição de contar com uma superioridade numérica, relegou-se a construção dos bombardeiros pesados, que eram mais custosos de fabricar, em tempo, material e motores, em benefício de caças e caça-bombardeiros de novo desenho, como os Mig, os Lagg e os Sturmovik. Desta forma, quando ocorreu a invasão alemã da Rússia, a força de bombardeio soviética carecia de poder ofensivo. Nos primeiros meses da luta, os grandes bombardeiros foram utilizados em simples missões de ataque, para apoiar as forças russas em retirada. Também foram empregados como transportes de emergência. Posteriormente, depois de contido o avanço alemão diante de Moscou, os comandos soviéticos decidiram reconstruir sua força de bombardeio. Na primavera de 1942, e novamente sob o comando do General Golovanov, se organizou uma força de bombardeiros de longo alcance, a que se denominou ADD (Aviatsia Dalnego Deistvia), diretamente dependente do Ministério de Defesa soviético. Essa força, porém, foi integrada, em sua maior parte, por aviões bimotores, os bombardeiros Mitchell B-25, norte-americanos, cedidos pelos Estados Unidos, e os soviéticos Iliushin 4 e DB-3F. Os aparelhos quadrimotores somente alcançavam 10% dos efetivos. À ADD foram também incorporados uma grande quantidade de aviões de transporte pertencentes às linhas civis russas. Esses aviões tiveram destacada intervenção na evacuação de pessoal técnico e maquinarias das cidades de Leningrado, Kiev e outras, para os novos centros industriais soviéticos. Além disso, cumpriram um papel decisivo, abastecendo de munições e alimentos aos guerrilheiros soviéticos e iugoslavos. Neste tipo de operações se realizaram mais de 40.000 missões no transcorrer da guerra. Prestaram também serviços nas pontes aéreas estabelecidas com as cidades sitiadas pelos alemães, como Sebastopol e Leningrado. Colaboraram, também, com os bombardeiros, na ponte aérea de emergência, na campanha do inverno de 1942, que reforçou a guarnição de Stalingrado. Os bombardeiros, por sua vez, foram empregados em sua totalidade em missões de bombardeio tático, atacando alvos situados nas proximidades da frente de luta. As missões de longo alcance foram levadas a cabo por muito poucas unidades. A falta de caças de escolta de grande raio de ação impossibilitou esse tipo de operações. Essa circunstância fez com que, em fins de 1944, os comandos soviéticos resolvessem converter a força ADD em um simples exército aéreo tático.

Outros fatos que contribuíram para o escasso rendimento dos bombardeiros de longo alcance russos foram a falta de miras de bombardeio guiadas pelo radar, equipamentos de navegação eletrônicos e bombas de alto poder explosivo. Os russos, além disso, tinham uma razão importante para não aperfeiçoar a sua força de bombardeio estratégico. Na verdade, as forças aéreas inglesas e americanas tinham já a seu cargo o bombardeio maciço do coração da Alemanha.

 

 

Stalin, condutor militar

Em março de 1943 e depois da decisiva vitória soviética em Stalingrado, Stalin foi elevado ao posto de marechal do Exército Vermelho. Desta forma, o velho revolucionário deu forma concreta ao seu papel de orientador do esforço de guerra soviético. Já dera início, anteriormente, a um processo de hierarquização das Forças Armadas. Essa política tinha o objetivo de converter o Exército Vermelho numa eficiente organização profissional, imbuída das velhas regulamentações e orientações militares abandonadas pela Revolução de Outubro. Em novembro de 1942, o Governo ditara um decreto que abolia a “competência socialista” no Exército. O jornal Pravda publicou um artigo no qual assinalava que o soldado não tinha outra obrigação senão servir simplesmente a sua pátria, como haviam feito os seus antepassados. Foram criadas, também, condecorações militares, como as Ordens de Suvorov e Kutusov. Voltaram a se organizar as unidades de cossacos, e se criaram os regimentos e divisões denominados “da Guarda”, como nos velhos tempos dos czares.

Para dar ainda maior ênfase a essa tendência tradicionalista, foi restabelecido o uso das condecorações nos uniformes dos oficiais e se tornou obrigatória a saudação dos subordinados para os superiores. Todas essas normas, a seu tempo, haviam sido abolidas pela revolução...

Na sua decisão de hierarquizar o corpo de oficiais, Stalin assumiu pessoalmente o posto de marechal. No transcorrer da batalha de Stalingrado, em dezembro de 1943, promoveu ao posto de general trezentos e sessenta chefes militares e entregou bastão de marechal aos seus mais brilhantes comandantes. Estas distinções foram outorgadas a homens que se haviam formado praticamente no campo de batalha e haviam ganho as suas láureas em sucessivos episódios que demonstraram sua coragem e competência profissional.

Stalin deixou de lado qualquer consideração relativa à antiguidade e premiou os homens que se revelaram como os melhores. Os marechais e generais soviéticos que alcançariam fama na guerra, mourejavam, no princípio das hostilidades, como oficiais subordinados e desconhecidos, na sua maioria. Esses homens, de não mais de trinta a quarenta anos de idade, se converteram em destacados comandantes. Os primeiros nomes surgiram na batalha de Moscou. No transcurso desse decisivo encontro, conquistaram a fama generais como Zhukov, Vassilevski, Rokossovski e Voronov. Posteriormente em Stalingrado, outros brilhantes chefes se revelaram: Vatutin, Jeremenko, Malinovski, Chuikov, Rotnistrov e Rodimtsev. Na batalha de Kursk, por sua vez, surgiriam os nomes de Koniev, Tolbuchin e Cherniakhovski. Este último, em três anos, se elevou de major a general-de-exército.

Um autor britânico, I. Dutsche, assim julgou a atuação de Stalin como condutor militar: “Na primeira fase da guerra, o Exército Vermelho pagou um alto preço pela perda, entre outras coisas, da confiança em si mesmos que os corpos de comando haviam sofrido em decorrência dos expurgos de 1937. Essa situação serviu a Stalin de lição. De fato, o líder russo teve o bom senso de devolver aos seus generais a liberdade de ação, alentando-os a expressar as suas opiniões e incitando-os a buscar a solução dos seus problemas, segundo os fatos, mesmo que estes fossem adversos. Nem por isso deixou de castigar seus oficiais com severidade draconiana, em caso de covardia ou falta de dedicação. Destituiu muitos por incompetência, quando esta ficou comprovada, mesmo quando os incompetentes foram Voroshilov e Budienny.

“Os próprios chefes militares alemães tiveram uma noção mais correta que Hitler, a respeito dos chefes russos; sabiam, efetivamente, que eles podiam fazer valer as suas opiniões e pontos de vistas na certeza que seriam considerados pelo Alto-Comando soviético. Stalin, porém, tal como Hitler, tomou a seu cargo a decisão final em qualquer episódio militar. Como, então, puderam ser conciliadas estas duas coisas: a interferência permanente de Stalin e a liberdade de ação dos seus chefes? A resposta está no fato de que ele tinha um modo peculiar de tomar decisões, com um método que não somente não contrariava os generais, mas os convencia a usar o seu ponto de vista. Hitler, habitualmente, tinha uma idéia preconcebida, às vezes de concepção brilhante, e, às vezes, totalmente errada, que impunha a um Brauchitsch, a um Halder ou a um Rundstedt. Era um doutrinário em matéria de estratégia que não aceitava a oposição daqueles que não viam méritos no seu dogma ou plano. Não acontecia o mesmo com Stalin. Este não se dirigia aos generais apresentando-lhes planos operativos traçados por ele mesmo. Indicava, simplesmente, suas idéias gerais, que se baseavam num conhecimento profundo de todos os aspectos da situação econômica, política e militar. Em seguida deixava que seus generais formulassem seus pontos de vista e desenvolvessem seus planos. Baseado nestes, tomava a sua decisão. Seu papel parece ter sido o de um árbitro experimentado, frio e desapaixonado de seus próprios generais. No caso de controvérsia entre eles, reunia as opiniões daqueles cujo juízo importava, pesava os prós e os contras, e confrontava os pontos de vista particulares com as considerações gerais, para depois emitir a sua opinião...

“Assim, sua mente, ao contrário da de Hitler, não produzia invenções estratégicas resplandescentes, porém seu método de trabalho dava maiores possibilidades para a criação coletiva de seus comandantes. Favorecia, também, a existência de relações mais sólidas entre o comandante-chefe e seus subordinados, do que aquelas que prevaleciam no Alto-Comando alemão”.

 

 

A sublevação o Gueto de Varsóvia

Em meados de 1941, Hitler e seus mais próximos auxiliares, resolveram levar à prática o que denominaram “solução definitiva do problema judeu na Europa”.

No dia 31 de julho desse mesmo ano, o Marechal Goering dirigiu um comunicado a Heydrich, chefe do Serviço de Segurança da SS, no qual o designava para “realizar todos os preparativos referentes à solução total do problema judeu nos territórios da Europa que se encontrassem sob a jurisdição da Alemanha”. Na prática, a execução dessa ordem significava a consumação de um dos crimes mais gigantescos que a Humanidade conheceu: o extermínio maciço e impiedoso de milhões de inocentes, realizado em nome de descabeladas teorias raciais. A colocação em marcha da “solução final” provocou um dos episódios mais trágicos e comovedores da Segunda Guerra: o levante do Gueto de Varsóvia. Em 1940, as autoridades nazistas da Polônia haviam concentrado no Gueto medieval da cidade de Varsóvia, mais de 400.000 habitantes de origem judia, encerrando-os em uma estreita área de quatro quilômetros de comprimento por dois de largura, circundada por uma alta muralha. Amontoados nesse setor, esses infortunados seres foram submetidos a uma virtual condenação à morte por inanição; os víveres, de fato, davam apenas para manter vivas, em condições subumanas, a metade da população total. Milhares de homens, mulheres e crianças pereceram, assim, de fome. Para completar o extermínio, seguindo a orientação da “solução final”, os nazistas iniciaram a construção de um campo de morte em Treblinka, perto de Varsóvia, onde instalaram câmaras de gás, especialmente construídas para exterminar maciçamente os habitantes do Gueto. Himmler ordenou, em 1942, por “razões de segurança”, a evacuação da população judia para Treblinka. Mais de 300.000 judeus foram conduzidos ao campo de morte, onde a maioria foi eliminada nas câmaras de gás.

Por volta de janeiro de 1943, contudo, cerca de 60.000 judeus permaneciam ainda no Gueto de Varsóvia. Conscientes do terrível destino que os aguardava, muitos deles haviam iniciado já a organização da resistência armada. Assim, em outubro de 1942, foi criada a ZOB (Organização Judia de Combate). Antes de terminar o ano, a ZOB havia formado e instruído militarmente cinqüenta grupos de jovens. Tinha, também, organizado comandos de zonas em diferentes lugares do Gueto e publicava dois jornais, um em língua polonesa, o Wiadomosci (Informações) e outro em iídiche, Der Schturem (A Tempestade).

A ZOB trabalhou ativamente para incitar a população à resistência armada. Esforçou-se, também, por resgatar as crianças judias e, com a ajuda dos membros da resistência polonesa conseguiu ocultar, entre janeiro de 1943 e agosto de 1944, cerca de 20.000 crianças judias.

A 11 de janeiro de 1943, Himmler visitou pessoalmente o Gueto rodeado por uma poderosa escolta armada. Tanques e caminhões com soldados fortemente municiados escoltaram a sua passagem. Himmler ordenou, após a visita, o extermínio do bairro judeu, dando um prazo de menos de um mês. A operação teria que efetuar-se antes de 15 de fevereiro. Seria iniciada, também, com a deportação de 16.000 judeus.

Tendo conhecimento dos planos alemães, a ZOB preparou-se para resistir. Distribuíram-se volantes e cartazes murais, onde se anunciava a determinação de lutar, proclamando: “por meio da luta nos salvaremos”.

A 18 de janeiro de 1943, o chefe da SS de Varsóvia, Coronel von Sammern-Frankenegg, dispôs-se a levar a cabo a primeira batida, empregando na operação duzentos gendarmes e perto de oitocentos membros da polícia.

A ZOB não se deixou surpreender e recebeu os nazistas com disparos de armas curtas, granadas e bombas molotov. Os combatentes judeus conseguiram rechaçar os alemães. No dia seguinte, os SS voltaram ao ataque. A operação foi presenciada pelo chefe da SS e pelo chefe do campo de extermínio de Treblinka, von Eupen. A ZOB se lançou novamente à luta. Sua proclamação de combate começava assim: “O ocupante empreende um segundo extermínio... Defendei-vos... Empunhai uma acha, uma barra de ferro... Que vossa casa seja uma barricada...”.

O chamado da ZOB encontrou eco imediato. Os judeus, acatando solidariamente o grito de combate, se lançaram à luta. A primeira granada foi lançada pela jovem Emilia Landau, que sucumbiu na batalha. Até 21 de janeiro, combateu-se furiosamente nas ruas, nas casas, nos sótãos. Nessa data, von Sammern decidiu retirar suas tropas do Gueto. A ordem de Himmler somente havia podido ser executada em parte. Apenas 6.500 judeus haviam sido apanhados pelos nazistas. A ZOB, contudo, sofrera grandes baixas. Seus efetivos haviam sido dizimados e, dos cinqüenta grupos somente restavam em ação cinco. Porém, seu sacrifício não fôra vão. Toda a população judia do Gueto estava agora disposta a combater.

Uma nova proclamação da ZOB, além disso, reafirmava a sua posição: “Irmãos, não marcheis como ovelhas à morte! Quem subir aos vagões estará perdido para sempre! Que cada casa seja uma fortaleza!”. Essa primeira ação impressionou grandemente toda a população de Varsóvia. A disposição de luta do Gueto se transmitiria mais tarde à população não judia da capital da Polônia, no momento heróico do grande levante.

O movimento de resistência polonês se dispôs imediatamente a cooperar com os grupos que combatiam no Gueto. Distribuíram volantes que diziam: “O heroísmo da ZOB deve nos servir de exemplo...”. Grupos de guerrilheiros atacaram trens que conduziam os prisioneiros judeus rumo a Treblinka. Um dos comboios interceptados, teve libertada toda a gente que conduzia. Sobreveio então uma pausa, enquanto os nazistas se preparavam para desferir o golpe definitivo. A ZOB, entrementes, dedicou-se a reconstituir suas fileiras e implantou entre os seus membros uma rígida disciplina militar. A população, contribuiu com seus últimos recursos para adquirir armas clandestinamente.

Os dirigentes judeus, a esta altura dos acontecimentos, preparavam já uma insurreição geral. “Sabiam perfeitamente que não conseguiriam a vitória...

 

 

A luta no Gueto

Para os nazistas, Varsóvia já deixara de ser uma cidade segura. O comandante da guarnição militar alemã assim se manifestou em um informe às autoridades: “A insurreição do Gueto poderia ser o começo da insurreição geral de Varsóvia, que as forças militares e policiais não conseguiriam sufocar”. Himmler, por sua vez, já decidira tomar uma resolução final. Em carta ao chefe da SS da Polônia declarava: “Exijo que me seja submetido um plano geral de destruição. É necessário que seja riscado do mapa esse espaço que ainda pode conter mais de 500.000 sub-homens...”.

Em cumprimento das implacáveis determinações de Himmler, foram traçados os planos para arrasar o Gueto e aniquilar a sua população. A missão foi encomendada ao General-de-Brigada das Waffen-SS, Jurgen Stroop.

Dois mil homens atuariam na ação; a metade deles do exército regular e da Waffen-SS, e o resto do serviço policial da SS, reforçado por milicianos lituanos e policiais poloneses colaboracionistas. Além disso, interviriam tanques, carros blindados, unidades lança-chamas e artilharia.

A ZOB também se preparou para a luta. Nas esquinas foram localizados postos de resistência, assim como nos telhados e pontos chaves. Estenderam-se pontes improvisadas entre os edifícios, para permitir a passagem dos grupos de combatentes. Com esse mesmo objetivo, foram abertos buracos nas paredes comuns das casas. Também, sob a superfície, preparou-se uma verdadeira cidade subterrânea, utilizando na sua construção as galerias e túneis já existentes, interligados por múltiplos corredores. Esse labirinto estava unido ao sistema de esgoto e serviria como último centro de resistência.

As vésperas da ação, na noite de 18 para 19 de abril de 1943, os alemães rodearam o Gueto com suas tropas, tanques e canhões. A ZOB proclamou o estado de alerta e lançou um apelo: “Judeus, soou a hora da vingança! Que todos aqueles capazes de carregar uma arma se unam aos combatentes! Que os velhos e as mulheres dêem sua ajuda! As armas!”.

As seis da manhã do dia 19 as tropas nazistas irromperam no Gueto Foram recebidas por uma chuva de balas, granadas e bombas molotov que caíam de todos os telhados e janelas. Os primeiros disparos partiram da casa n° 38 da rua Zamenhoff, onde hoje se levanta um monumento à gloria dos combatentes do Gueto. Os alemães, surpreendidos pela resistência, se retiraram, abandonando na praça os mortos. Os combatentes judeus, saindo dos seus refúgios, despojaram os cadáveres de seus capacetes e armas. O General Stroop assumiu então o comando direto da operação. Iniciou-se assim uma luta sangrenta e sem quartel. Nas fileiras dos combatentes judeus ocorreram cenas de bravura inenarráveis! No “Diário” de uma testemunha, se lê: “Cada adolescente, cada meninota, morre hoje como um herói. Assim como aquela menina de dezesseis anos que amarrou na sua cintura granadas e garrafas incendiárias, assomou a um balcão, despejou na cabeça um líquido inflamável, ateou fogo e se jogou sobre um tanque que passava...”.

A furiosa resistência se prolongou durante cinco dias. A 23 de abril, Himmler, enfurecido, enviou uma mensagem a Stroop, ordenando-lhe arrasar o Gueto. Posteriormente, Stroop escreveu a seguinte frase no informe enviado ao seu superior: “Eu decidi então destruir toda área judia, ateando fogo a cada edifício...”.

A terrível tática não conseguiu porém quebrar a resistência dos judeus. Nos edifícios incendiados na sua parte mais baixa, os combatentes se refugiavam nos telhados, e ali continuavam disparando. Em meio aos incêndios, a luta foi adquirindo aspectos dantescos.

A 7 de maio, os alemães conseguiram localizar e cercar o edifício onde se achava o estado-maior da insurreição. Os principais dirigentes da ZOB estavam ali. Era um vasto refúgio localizado no número 18 da Rua Mila. Os SS atacaram de todas as direções, valendo-se de gases tóxicos para expulsar os combatentes judeus de suas posições. Estes, antes de entregar-se preferiram suicidar-se. Nos últimos instantes, um grupo descobriu uma saída que não estava controlada pelos alemães e conseguiu escapar. A maioria, porém, matou-se com as próprias mãos. Apesar da desaparição dos dirigentes, a resistência judia se manteve, sem decrescer em momento algum. Os alemães, valendo-se de sua esmagadora superioridade em armas e munições, foram eliminando, um por um, os bolsões onde os judeus resistiam. No dia 15 de maio, finalmente, foi dinamitado o último bloco de casas do Gueto. O General Stroop pôde então telegrafar ao seu superior: “O bairro judeu cessou de existir”.

No dia seguinte, o chefe alemão enviou uma nova mensagem: “Ação em grande escala foi terminada às 20,15 h, mediante a explosão da sinagoga de Varsóvia”. Nas ruínas do Gueto, grupos isolados de combatentes judeus continuaram, porém, lutando. Os últimos reduzidos grupos que restavam com vida conseguiram finalmente evadir-se, através da canalização dos esgotos, passando ao setor “ariano” de Varsóvia, no mês de setembro. Ali, foram auxiliados pelos poloneses do movimento de resistência. Na luta pereceram milhares de homens e mulheres.

Os infelizes que foram capturados com vida sucumbiram, posteriormente, nos campos de extermínio.

Nota: No Brasil foram publicados os livros Treblinka e Morrer com Honra , sobre o Levante.

 

 

Condecoracões

Os comunistas, em 1917, ao assumir o poder na Rússia, suprimiram todas as condecorações e distinções honoríficas. Não obstante o novo regime logo compreendeu o grande valor psicológico desse tipo de recompensas, para estimular o esforço individual e coletivo tanto no campo militar como no trabalho. Em 1924 o Presidium da URSS criou a primeira condecoração , que foi denominada Ordem da Bandeira Vermelha, outorgada exclusivamente a militares. Posteriormente, foram criadas novas condecorações: a Ordem da Bandeira Vermelha do Trabalho, a Ordem de Lenine (a mais alta distinção militar e civil de soviética), a Ordem da Estrela Vermelha e a Ordem Insígnia de Honra. Durante o transcorrer da guerra de 1939-45, Stalin decidido a dar novo alento ao sentimento patriótico para fortalecer a resistência à invasão alemã, criou outras condecorações: Ordem de Alexandre Nevski (concedida aos chefes de regimento, batalhão, companhia e seção pelos êxitos conquistados por suas tropas).

Ordem de Suvorov (concedida unicamente a comandantes de grandes unidades e oficiais superiores).

Ordem de Kutusov (igual à anterior, porém premiando serviços - menos relevantes).

Ordem de Ushakov (concedida aos oficiais da Marinha de guerra).

Qrdem de Naklimov (igual à anterior).

Qrdem de Bogdan Khmelnitoki  (concedida aos chefes de regimento, batalhão, companhia).

Ordem da Guerra Patriótica (concedida aos militares de todos os postos por feitos de guerra).

Ordem da Glória (concedida aos suboficiais e soldados rasos).

Ordem da Vitória (a mais alta condecoração militar concedida unicamente aos comandantes Frentes ou grupos de Frentes)

Foram também criadas numerosas medalhas para premiar os combatentes que intervieram nas principais batalhas. Estas foram: as medalhas Pela Defesa de Moscou, Pela Defesa de Stalingrado, Pela Defesa de Leningrado, Pela defesa de Sebastopol, Pela Defesa de Odessa, Pela Defesa do Cáucaso, Pela Defesa do Ártico Soviético, Pela Conquista de Budapeste, Pela Conquista de Viena, Pela conquista de Berlim, Pela Liberação de Belgrado, Pela Liberação de Varsóvia, Pela Liberação de Praga, Pela Vitória sobre o Japão.

 

 

 

 

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