Catástrofe alemã na Criméia
Luta na Rússia
meridional: Vitória russa na Ucrânia
Reconquista da Criméia
Questão Rússia x Polônia
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1944 começara para a URSS com uma esmagadora vitória dos seus exércitos
frente a Leningrado. A cidade, que Hitler se propusera a arrasar,
considerando-a como “berço e símbolo do poder bolchevista” sobrevivera ao
espantoso sítio de quase três anos. Seu martírio agora estava encerrado
definitivamente. Ao longo de toda a frente norte, as forças alemães batiam em
desordenada retirada. Sua derrota era total. Enquanto isso, no sul da Rússia,
o Exército Vermelho se aprontava para reativar o seu avanço. A chegada do
“período da lama” havia imposto uma pausa nos operações, porém desta vez, a
trégua seria extremamente curta. Os russos estavam dispostos a prosseguir,
com todo o ímpeto, seus movimentos ofensivos, apesar das enormes dificuldades
apresentadas pelo terreno. O Estado-Maior do Exército alemão calculava corretamente que, apesar do barro, não cabia desta vez
esperar uma longa permanência na imobilidade dos forças inimigas. Os serviços
de inteligência denunciavam dia a dia a concentração de efetivos e a chegada
de unidades de reserva à frente situada sobre a margem ocidental do rio
Dnieper. Nesse setor, indiscutivelmente, se produziria uma nova e gigantesca
arremetida russa. Seu objetivo, como sempre, seria tentar o envolvimento e
destruição de todas as forças alemães localizadas na Rússia meridional: o
Grupo de Exércitos Sul, do Marechal von Manstein, e o Grupo de Exércitos A,
do Marechal von Kleist. Para alcançar tal propósito, os soviéticos
empenhariam na luto os unidades da 1a, 2a e 3a
Frentes da Ucrânia, comandadas respectivamente por Zhukov (que substituiu
Vatutin), Koniev e Malinovski. Tal como julgavam os alemães, o centro de
gravidade das operações serio dirigido sobre as forças de Manstein. Caso
conseguissem superar as suas linhas e desarticular os seus efetivos, os
soviéticos estariam em condições de completar uma gigantesca manobra de
tenazes sobre as costas do Mar Negro. Nessa armadilha ficariam presas, e sem
possibilidades de salvação, as forças alemães. Esta mortal ameaça foi
discutida com o Führer, que se negou o aceita-la como possível. Manstein
transcreve em suas memórias a conversa que, a respeito, manteve com o General
Zeitzler, chefe do Estado-Maior. Transcrevemos o diálogo: Zeitzler: “Mantive uma longa conversa com o Führer sobre isso e
suas conseqüências, porém desta vez também não o encontrei nada propício”. Manstein: “Então como acha ele que temos que continuar a luta?” Zeitzler: “Diz que algum dia os russos têm de parar de nos
atacar, pois que vêm acometendo-nos, sem trégua, desde julho do ano passado e
isso não pode durar eternamente...”. Uma vez mais, o ditador alemão expressava a opinião, que já se
tornara uma obsessão nele, de que a potência russo tinha, inevitavelmente,
que esgotar-se. Não podia resignar-se a aceitar aquilo que os fatos já haviam
demonstrado não uma, mas cem vezes: O Exército Vermelho, no transcorrer da
encarniçada luta, não somente não se debilitava, mas; sim, aumentava, dia a
dia, o seu caudal humano e o seu poderio ofensivo. Em contraste com esse
acelerado fortalecimento dos russos, a Wehrmacht, pelo contrário, via
diminuir, rápida e inexoravelmente, seus efetivos. No período entre julho de
1943 e janeiro de 1944, o Grupo de Exércitos Sul de Manstein havia perdido
mais de 400.000 soldados entre mortos, feridos e desaparecidos, e somente
havia recebido, em substituição, 200.000 homens. Nesse mesmo lapso de tempo,
as forças russas na frente meridional haviam recebido 2.700 tanques novos,
enquanto que os alemães só dispuseram de 800, e nessa cifra estavam também
incluídos os canhões de assalto. Apesar dessa situação, o Führer se manteve irredutível na sua
estratégia de resistir a todo transe e em todos os lugares, sem ceder um só
metro de terreno. Foi assim que se negou a ordenar a evacuação do 17o
Exército, que ficara isolado na península da Criméia. Não somente não
determinou a retirada das tropas dessa posição indefensável - com o que teria
ganho importantes efetivos para reforçar von Manstein e Kleist mas, pelo
contrário, ordenou que fosse enviada à Criméia uma divisão do 6o
Exército, e conseguiu também induzir o Marechal Antonescu a reforçar as
tropas romenas localizadas na península. A atitude de Hitler só podia
produzir um único e inevitável resultado: a derrota. Foram em vão todas as
tentativas que fizeram os seus generais para dissuadi-lo; o ditador rechaçou
sem a menor contemplação todos os apelos. |
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Avanço rumo ao Bug Ao enfrentar a reativação do seu ataque, os soviéticos tinham
que resolver as enormes dificuldades impostas ao deslocamento de suas forças pelo
amolecimento do terreno, convertido pelo degelo num imenso lodaçal. Nesse
fator depositava Hitler suas maiores esperanças para a contenção da investida
russa. Porém o barro atuou também contra os alemães. Considerando que a
investida soviética era iminente, von Manstein trabalhou energicamente
reunindo todas as forças possíveis e concentrando-as na sua ala norte, onde
esperava a investida principal dos russos. Essa operação contudo, não pôde
concretizar-se com a necessária rapidez por causa do péssimo estado das
estradas, e os destacamentos só completaram os seus deslocamentos quando a
ofensiva russa já estava em marcha. Às vésperas do encontro decisivo, os serviços de informação
alemães haviam identificado, do extremo norte ao sul da frente, as seguintes
forças soviéticas: Localizadas frente ao 4o Exército Panzer: 18
divisões de infantaria, 1 corpo de cavalaria e 5 corpos de tanques e
motorizados. Localizadas frente ao 1o Exército Panzer: de 37 a 40
divisões de infantaria e 11 corpos de tanques e mecanizados. Localizadas
frente ao 4o Exército: 62 divisões de infantaria, 1 corpo de
cavalaria e 4 corpos de tanques e motorizados. Com essa gigantesca massa de forças, Zhukov, Koniev e Malinovski
se dispuseram a pôr em marcha a que posteriormente seria denominada “Ofensiva
da Lama”. Poucas vezes na história militar foi empreendida uma ação dessa
magnitude em um terreno tão desfavorável. Contudo, o Alto-Comando russo
julgou acertadamente que a lama prejudicaria mais à Wehrmacht que ao Exército
Vermelho. As razões desse fato foram assinaladas pelo próprio von Manstein:
“... o lamaçal nos prejudicava mais que aos russos. Já mencionamos antes que
os tanques russos se deslocavam com maior facilidade sobre a neve e sobre o
instável solo lamacento que os alemães, pois estes tinham lagartas mais
estreitos, e menor base de sustentação. Pois bem, para aumentar essa
desvantagem, vinham agora os novos e numerosos caminhões americanos, que
apareceram entre os russos e que também eram capazes de progredir
transversalmente no terreno, enquanto os nossos não, podiam se desviar um
passo da margem das estradas. Fato que dava ao inimigo condições de
transportar rapidamente a infantaria de seus corpos blindados e motorizados.
Ainda se tornaria mais sensível o nossa inferioridade quando o período do
degelo avançou. Então, sentimos ainda mais a falta dos indispensáveis
tratores de que carecíamos. O resultado de tudo isso foi uma grande perda de
tempo, cada vez que nossas unidades rápidas tinham que se deslocar por um
espaço mais vasto, e a conseqüente inferioridade no luta com um inimigo mais
veloz e flexível”. A 3 de março de 1944 iniciou-se o ataque russo ao longo de toda
a frente meridional. As forças da Primeira Frente da Ucrânia, comandadas por Zhukov,
se lançaram rumo ao sul, com a intenção de aniquilar o 4o Exército
Panzer, comandado pelo General Rauss, e alcançar logo as margens do rio
Dniester. Se os soviéticos conseguissem cumprir esse objetivo, toda a ala
norte das forças alemães seria varrida e não restaria escapatória para as
restantes unidades. Apoiados por uma violentíssima barreira de fogo de
artilharia, os tanques e a infantaria russa irromperam nas posições alemãs,
desbaratando toda oposição. O Marechal von Manstein, ao ser informado da
grave situação, emitiu imediatamente a ordem de contra-ataque aos dois corpos
de tanques que mantinha em reserva. Os blindados alemães, travando
encarniçados combates, conseguiram finalmente frear a investida inimiga. O 4o
Exército Panzer pôde assim escapar à destruição, e ficou temporariamente
frustrada a manobra de envolvimento soviético pelo norte. Mais ao sul, porém,
ocorreriam fatos catastróficos. A Segunda Frente da Ucrânia, sob o comando de Koniev, passou ao
ataque no dia 5 de março e se arrojou sobre as linhas defendidas pelo 1o
Exército Panzer e 8o Exército alemães. Milhares de canhões
martelaram com um bombardeio incessante as posições alemãs. Deslocando-se
velozmente sobre o barro, as colunas blindadas de Koniev, convergiram sobre a
cidade de Uman. Conquistada essa localidade, os soviéticos prosseguiram o seu
vertiginoso avanço rumo ao sul. Seu objetivo agora era o rio Bug. As forças
alemães, apesar das tentativas desesperadas, não puderam conter a arremetida
de Koniev. Os tanques T-34 de lagartas largas e os caminhões americanos de
tração dupla, permitiam aos russos marchar sem inconvenientes pela lama, e
sua aviação abastecia pelo ar as colunas em movimento, arrojando com
pára-quedas combustível, munições e alimentos. Toda a ala esquerda do 8o
Exército foi, assim, literalmente varrida e, a 11 de março, von Manstein se
viu obrigado a ordenar o imediato recuo dos restos dessa força para a margem
ocidental do Bug. Dois dias mais tarde, as tropas de vanguarda de Koniev
cruzaram o rio, encrustando uma cabeça-de-ponte na margem oposta. Uma
gigantesca brecha se abria no centro do dispositivo alemão. Ao norte, o 4o
Exército Panzer conseguia manter suas posições, porém o 1o Panzer,
atacado pelo flanco, foi obrigado a bater em retirada. As forças alemães ficavam
portanto, praticamente cortadas no meio. Apoderando-se da linha do Bug, as
unidades de Koniev já se dispunham a aprofundar a cunha até alcançar as
margens do rio Dniester. Por sua vez, os exércitos de Zhukov estavam prontos
para descarregar um novo golpe destinado a completar o aniquilamento do 1o
Exército Panzer. Manstein diante de Hitler Enquanto os forças de Zhukov e Koniev continuavam o seu avanço,
no extremo sul, a Terceira Frente da Ucrânia, sob o comando do General
Malinovski, rompeu as posições do 6o Exército alemão e, em um
rápido movimento envolvente, caiu sobre suas costas. O Marechal von Kleist,
comandante-chefe desse setor, dirigiu uma dramática mensagem a Hitler,
solicitando autorização para abrir imediatamente passagem com suas tropas
para o oeste. Somente essa manobra podia salvá-las da destruição. O ditador
concordou com o movimento de ruptura, e os efetivos alemães, travando
furiosos combates, romperam o cerco russo e se retiraram até o Bug. A situação derivava assim para uma crise inevitável. Enquanto no
QG de Stalin reinava um entusiasmo transbordante, no lado alemão espalhava-se
uma completa desmoralização. Em todos os pontos a Wehrmacht se retirava em
desordem, e as lamacentas estradas ficavam cobertas com o equipamento que as tropas
abandonavam na esperança de acelerar a marcha. Já não era a retirada de um
exército organizado, mas uma verdadeira fuga. Manstein explicou assim as
causas dessa catástrofe: “Além da esmagadora superioridade inimiga, o motivo
fundamental dessa atropelada retirada residia, sem dúvida, no tremendo
esgotamento de nossas tropas. As divisões alemãs foram literalmente se
extinguindo na luta sem tréguas que vinham travando desde meados de julho. Os
efetivos dos regimentos haviam caído a meras frações insignificantes de seus
números originais e até mesmo esses sobreviventes haviam perdido grande parte
da sua individual virtude combativa, pelo prolongado esforço realizado. Por
outro lado, os recrutas, em escasso numero, com que se pretendera cobrir as
baixas, careciam de experiência de guerra e de modo algum podiam
compensar-nos da perda dos nossos aguerridos veteranos e dos experimentados
comandos subalternos. Podíamos pois considerar consumida a espinha dorsal do
exército. Como poderíamos reagir ainda com contragolpes potentes se, por
exemplo, de todo um Corpo blindado, constatássemos que somente nos restavam
24 tanques utilizáveis? ”. A única solução possível para conjurar a ameaça iminente do
derrota total residia, para os alemães, num acelerado encurtamento da frente.
Isso permitiria aumentar a densidade dos seus efetivos e tapar as extensas
brechas pelas quais irrompiam, sem oposição, as colunas de tanques e infantes
russos. A 19 de março, von Manstein se entrevistou com Hitler e lhe solicitou
a adoção dessa medida. De acordo com sua aprovação, o 6o Exército
seria imediatamente retirado de sua posição avançada no Bug, onde corria o
risco de ser novamente cercado, e localizado na linha do Dniester. Essa
retirada possibilitaria o deslocamento de parte dos forças do 6o
Exército para o norte, onde, indiscutivelmente, ocorreria o principal ataque
russo. Hitler, porém, se negou a aceitar a proposta do seu marechal e lhe
ordenou manter o 6o Exército no Bug. Nessa mesma noite, enquanto se encontrava ainda no QG do Führer,
Manstein recebeu uma mensagem da frente, anunciando um repentino agravamento
da situação. Os russos, redobrando os seus esforços, continuavam
inexoravelmente o sua penetração, sem que as tropas alemães conseguissem
refazer suas linhas. Toda a frente do 8o Exército ameaçava
desmoronar-se sob os embates de Koniev e, no norte, as forças de Zhukov
estavam em vias de completar o envolvimento do 1o Exército Panzer. A crise se desencadeou finalmente a 20 de março. Dois exércitos
de tanques russos, em violenta acometida, irromperam rumo ao sul, e mediante
uma manobra de tenazes separaram o 1o Exército Panzer do resto das
forças alemãs. O cerco estava fechado! Manstein, ao receber a notícia,
solicitou imediatamente ao Alto-Comando o envio de todas as tropas disponíveis
para conseguir a libertação das forças sitiadas, antes que fosse demasiado
tarde. Hitler, como única resposta, ordenou: “O 1o Exército Panzer
manterá sua posição... e, com suas próprias forças, deverá, ao mesmo tempo,
restabelecer a união com o 4o Panzer!”. Essa determinação era, na
prática, totalmente irrealizável. Os efetivos do 1o Panzer,
dizimados e esgotados, não poderiam jamais cumprir com a dupla missão que o
Führer, totalmente desligado da realidade, lhes designava. A decisão de Hitler deu lugar imediata reação de Manstein. Este,
totalmente abatido, viu cair sobre as tropas cercadas a mesma e trágica sorte
sofrida pelos soldados de Paulus em Stalingrado. Em conseqüência, o chefe
alemão enviou um telegrama ao QG do Führer no qual evidenciava a sua
resolução de ordenar ao 1o Panzer que abrisse passagem para o
oeste, se não lhe fossem imediatamente enviados os reforços que solicitara.
As horas correram numa tensa espera. Ao cair da noite, Manstein recebeu a
ordem de se apresentar no dia seguinte no QG de Hitler. Na manhã de 25 de
março, o marechal empreendeu vôo em seu avião pessoal, decolando do aeródromo
de Lemberg. Poucas horas mais tarde se achava em presença de Hitler. A discussão foi violenta! Hitler, não somente se negou a adotar
o plano de Manstein, mas o recriminou duramente, atribuindo-lhe a
responsabilidade pelas sucessivas derrotas sofridas no sul da Rússia. Acusou,
também, os soldados de falta de combatividade, assinalando que, em
determinadas oportunidades, bastaram uns poucos tanques russos para pôr em
fuga grandes massas de tropas alemães. Manstein lhe respondeu, “quase com
aspereza”, conforme declara em suas Memórias, manifestando que se isso
ocorrera era pela simples razão de que se havia submetido as tropas a um
esforço sobre-humano que as reduzira à mais completa exaustão. Com essas
mútuas recriminações, encerrou-se a conferência. Ao abandonar a sala,
Manstein solicitou ao General Schmudt, ajudante pessoal de Hitler, que
expressasse ao Führer seu desejo de ser imediatamente substituído no comando,
visto que seus projetos haviam sido repelidos. O desenlace dessa discussão foi inesperado. Ao se reunir
novamente com Hitler, à noite, Manstein se viu surpreendido pela total
mudança de opinião do seu superior. O Führer, intempestivamente, declarou:
“Estive refletindo sobre o assunto, e estou de acordo com o senhor em que o 1o
Exército Panzer abra caminho rumo ao oeste. Passando por cima de todos os
meus escrúpulos, resolvi agregar ao 4o Exército Panzer um corpo
blindado SS, recentemente formado no ocidente, assim como as divisões 100a
de Caçadores e a 367a de Infantaria, procedentes da Hungria, para
que possa constituir a força de libertação solicitada”. Desta forma ficou
assegurada a salvação das tropas cercadas. “Com sua obstinada insistência, Manstein evitara que o 1o
Panzer fosse totalmente desbaratado. No entanto, Hitler não perdoaria a sua
atitude. Poucos dias mais tarde, o marechal seria destituído do posto de
chefe do Grupo de Exércitos Sul. O avanço russo é detido O mês de março chegava ao fim. Aceleradamente, as tropas do 4o
Exército Panzer completavam os seus preparativos para empreender o
contra-ataque destinado o abrir uma via de escape aos seus camaradas do 1o
Panzer. Os soviéticos, entrementes, prosseguiam pressionando ao longo de toda
a frente, confiantes em que obteriam uma vitória decisiva. Uma vez mais,
contudo, a tenacidade dos alemães haveria do frustrar os seus propósitos. A
30 de março, Manstein foi chamado à presença de Hitler e este lhe comunicou que
resolvera substituí-lo no comando. Para justificar essa medida, declarou ao
marechal “que o tempo das operações de grandes vôos terminou, e que o
importante dali por diante era a resistência intransponível...”. Manstein, o
mais brilhante estrategista do Wehrmacht, já não era portanto necessário. Em
seu lugar assumiria o comando o Coronel-General Model, agora nomeado
marechal, que por sua reconhecida energia era, de acordo com a opinião de
Hitler, o chefe ideal para o novo tipo de luta, “um homem infatigável, que
passaria de divisão em divisão com a celeridade do raio, e não deixaria de
tirar de cada uma seu rendimento máximo”. As mudanças no comando não se limitaram a Manstein; também von
Kleist foi destituído e o General Schörner o substituiu. Por sua vez, as
forças alemães receberam novas designações: o Grupo de Exércitos Sul passou a
ser Grupo de Exércitos Ucrânia Norte, e o Grupo de Exércitos A, Ucrânia Sul.
Estes nomes não correspondiam já à realidade geográfica da atuação das tropas
alemãs, pois praticamente haviam sido desalojados da Rússia, porém, assim
foram designados para manter a ficção de uma possível posterior reconquista
da Ucrânia. O avanço russo, prolongando-se sem trégua, levou as forças de Koniev
até os limites da Romênia. A 2 de abril de 1944, as tropas do Exército
Vermelho cruzaram a fronteira. No momento em que as tropas russas penetraram
no território romeno, Molotov deu publicidade em Moscou a um comunicado em
que manifestava que essa operação era imposta pelas necessidades da guerra,
porém que a URSS não tinha a menor aspiração territorial sobre aquele país.
Essa declaração era destinada a provocar o afastamento da Romênia do Eixo. No norte, os alemães iniciaram, a 5 de abril, o ataque, que
culminaria na libertação do 1o Exército Panzer. Uma força de
choque, combatendo encarniçadamente, abriu passagem para o Leste e conseguiu
estabelecer contato, no dia 9, com as tropas sitiadas. Essa operação
vitoriosa não significou, no entanto, nenhuma mudança na situação. Os russos,
retinham a iniciativa em toda a frente. Deslocando-se velozmente sobre as
costas do Mar Negro, a Terceira Frente da Ucrânia, de Malinovski, alcançou,
no próprio dia 9, os arrabaldes do grande porto de Odessa. Na jornada seguinte
essa localidade foi ocupada e Malinovski lançou, então, suas forças sobre o
rio Dniester. A 12 de abril, os russos, aniquilando toda a oposição, chegaram
às suas margens. Assim, em meados de abril, o Exército Vermelho concretizara os
objetivos fundamentais da sua ofensiva. Nessa época, a intensificação do
degelo provocou total amolecimento do terreno, fato que deu lugar à
diminuição do ritmo do avanço. Também, o constante prolongar das linhas de
abastecimento causou grandes dificuldades ao suprimento das tropas. Estas
circunstâncias adversas impuseram a paralisação da ofensiva. A frente, então,
ficou estabilizada. Catástrofe na Criméia Enquanto a luta na Ucrânia chegava ao seu término, os soviéticos
preparavam suas forças para empreender a reconquista da península da Criméia.
Ali ficara cercado o 17o Exército alemão, a quem Hitler havia
ordenado resistir até o fim. Essa força só contava com 5 divisões alemães e 6
romenas, e carecia por completo de unidades blindadas. Em diversas
oportunidades, os comandos militares haviam pedido ao Führer que determinasse
a evacuação marítima das tropas sitiadas na Criméia, a fim de salvá-las de um
inevitável aniquilamento. Hitler, porém se negou obstinadamente a tomar essa
medida, pois considerava que se os russos conseguissem apoderar-se da
península, não deixariam de utilizá-la como base para iniciar o bombardeio
aéreo das vitais jazidas petrolíferas de Ploesti, na Romênia. O comando russo
dispôs-se a realizar a investido principal sobre a península com as tropas do
Quarta Frente da Ucrânia, comandadas pelo General Tolbuchin. Essas forças
irromperiam através dos istmos de Siwash e Perekop e convergiriam sobre o
porto de Sebastopol. Simultaneamente, pelo leste, outro exército, colocado na
península de Kersch, secundaria o avanço. As operações se iniciaram a 8 de
abril. Dois corpos blindados e 18 divisões de infantaria se lançaram, do
norte, sobre as posições defendidas por duas divisões alemãs e duas romenas.
O ataque decisivo se produziu pelo istmo de Siwash, onde não existiam
praticamente fortificações. Cerca de 200 tanques soviéticos irromperam
através das linhas e acometeram para o sul, varando as estepes. Com a
retaguarda ameaçada, as tropas alemães, colocadas no istmo de Perekop bateram
em acelerada retirada, abandonando sua poderosa linha de re dutos. O caminho
para Sebastopol ficava, então, totalmente aberto aos russos. No dia 12 rompeu-se também a resistência alemã no leste da
península. Nessa jornada, e enquanto as tropas se retiravam desordenadamente
para Sebastopol, Hitler enviou ao chefe do 17o Exército, General
Jaenecke, a ordem de defender a praça de guerra até o último homem. O
Marechal Antonescu, porém, solicitou e conseguiu que se permitisse a
evacuação das tropas romenas. Para a guarnição alemã iniciou-se então uma
luta que carecia de qualquer esperança. A 5 de maio as tropas de Tolbuchin se
lançaram ao assalto final. Apoiada por uma gigantesca concentração de
artilharia e lança-foguetes, a infantaria irrompeu pelo perímetro defensivo
de Sebastopol, travando furiosos combates com as dizimadas unidades alemães.
Nesse mesmo local, dois anos antes, em julho de 1942, a Wehrmacht havia
conseguido uma das suas mais retumbantes vitórias, ao quebrar a resistência
da defesa russa em Sebastopol, depois de 250 dias de sítio. Agora, os alemães
viam-se diante de uma catastrófica derrota. O próprio Hitler compreendeu finalmente que o prolongamento da
resistência carecia já de qualquer sentido, e na noite de 8 de maio autorizou
a evacuação. Realizando um esforço supremo, as unidades navais alemãs,
atuaram para resgatar as tropas sitiados. Durante três dias e três noites,
barcos e lanchas se aproximaram de Sebastopol debaixo do fogo da artilharia e
da aviação soviética e carregaram os exaustos combatentes. Mais de 60 embarcações
de todos os tipos, repletas de soldados, foram afundadas pelos russos.
Contudo, a operação conseguiu o que parecia impossível. Mais de 150.000
homens foram evacuados. Em Sebastopol ficaram, porém, cerca de 60.000
soldados. Para eles já não haveria salvação. Irrompendo de todas os direções,
as unidades soviéticos convergiram sobre o porto. Milhares de alemães
pereceram entre os escombros combatendo até o último cartucho. Os que
sobreviveram depuseram finalmente as armas no cabo Quersoneso, no mesmo local
onde, em 1942, houve a última resistência russa. Sebastopol, convertida num
montão de ruínas, havia sido reconquistada. Stalin e a Polônia As vitórias obtidas pelo Exército Vermelho em Leningrado, na
Ucrânia e na Criméia, haviam praticamente concretizado a definitiva expulsão
das forças alemães do território soviético. Restava, porém, uma grande região
nas mãos da Wehrmacht, na zona central. Era a posição ocupada pelas tropas do
Grupo de Exércitos Centro do Marechal von Busch, que, como uma profunda cunha
de mais de 500 km de profundidade, se estendia em direção ao Leste. Ali, uma
nova grande ofensiva russa se desenrolaria. Se os exércitos soviéticos conseguissem concretizar a curto
prazo, como esperavam, a destruição destas forças alemãs, estariam em
condições de empreender o avanço sobre os países da Europa oriental. Esta
circunstância fôra já vislumbrada com muita antecedência pelos dirigentes do
governo polonês estabelecido em Londres. Stalin havia rompido relações em
abril de 1943, com esse governo, e promoveu a formação, em território russo,
de uma organização política polonesa. Era a denominada União dos Patriotas
Poloneses. A intenção do líder russo era clara: estabelecer em todos aqueles
países que rodeavam as fronteiras da URSS, regimes comunistas. Esse fato era
temido pelos grupos poloneses de Londres. Ao efetuar-se a conferência de
Teerã entre Stalin, Churchill e Roosevelt, Stanislaw Mikolajczyk,
primeiro-ministro polonês, havia feito saber a Roosevelt que era necessária a
sua intervenção para convencer Stalin a permitir a instalação, em Varsóvia,
das autoridades democráticas polonesas, quando a Polônia fosse libertada
pelos russos. Mikolajczyk comunicou ao presidente americano que se Stalin se
negasse, o governo polonês consideraria as tropas russas como invasoras da
sua pátria, e ordenaria aos seus combatentes da resistência lutar contra
elas. Com referência às pretensões territoriais soviéticas, assinalou que não
estava disposto a considerar a cessão das províncias orientais polonesas, mesmo
que lhe fossem oferecidas em compensação a Prússia Oriental, Dantzig e a
Silésia. Em Teerã, Roosevelt incumbiu Churchill da colocação do problema
polonês diante de Stalin. O primeiro-ministro britânico se referiu à questão
na ceia que manteve com o líder russo, a 28 de novembro. Embora não
formulasse de maneira terminante e expressa a exigência do governo polonês,
declarou que era necessário fixar concretamente qual seria a atitude que os
três grandes aliados seguiriam com relação à Polônia. Stalin perguntou,
então, se tal resolução seria tomada sem a participação dos líderes
poloneses. Churchill declarou que essa era a sua intenção. Posteriormente,
comunicaria aos poloneses o que fôra combinado, depois que Roosevelt, Stalin
e ele tivessem chegado a uma definição, Eden então interveio na discussão, e
assinalou que o que a Polônia perdera nas mãos dos russos no Leste, poderia
ser compensado à custa de territórios alemães no Oeste. Stalin limitou-se o
comentar: “possivelmente”. A 1o de dezembro, Roosevelt voltou ao tema, desta vez
numa entrevista mantida, a sós, com Stalin. De acordo com o memorando que
posteriormente foi redigido sobre as conversações, Roosevelt manifestou o
seguinte: “Pessoalmente concordava com o ponto de vista do Marechal Stalin
acerca da necessidade de restaurar a vida independente do Estado Polonês,
porém lhe agradaria ver deslocada a fronteira oriental mais para o Oeste, e a
fronteira ocidental deslocada ainda até o rio Oder. Esperava, contudo, que o
marechal compreendesse que, por razões políticas já expostas, não
participaria de nenhuma decisão sobre o assunto em Teerã ou ainda no próximo
inverno, e que não tomaria, publicamente, parte em nenhum acordo no
presente”. Roosevelt declararia posteriormente que, ao reconhecer como
necessária a cessão de parte dos territórios poloneses no Leste à URSS, não
estava reconhecendo a linha de fronteira pretendida pelos soviéticos. No
entanto, Stalin e o seu chanceler Molotov acreditaram que sim. Mais tarde, ao
se reunirem os três líderes aliados, Roosevelt declarou a Stalin que esperava
que se estabelecessem logo conversações para restabelecer as relações entre o
governo polonês e o soviético. Stalin reagiu energicamente, lembrando que o
governo polonês estabelecido em Londres “estava em contato com os alemães, se
unia a estes em sua propaganda contra o governo soviético e mandava matar
guerrilheiros que estavam combatendo contra os alemães”. Exigiu então
garantias de que todas essas atividades cessariam no futuro e assinalou que,
se o governo polonês tornasse clara a sua conduta e começasse a lutar contra
os alemães, as autoridades da URSS estavam dispostas a entabular relações.
Churchill, alentado por estas palavras, solicitou a Stalin que definisse suas
idéias acerca das futuras fronteiras da Polônia. Stalin declarou que o
Governo soviético reconhecia como única fronteira a que fôra estabelecida em
1939, depois do avanço do Exército Vermelho, dentro das províncias orientais
polonesas, às quais qualificou como “territórios integrantes da Ucrânia e
Rússia Branca”. A atitude do líder russo era irremovível. A Polônia teria que
aceitar a retificação de suas fronteiras no Leste e ser compensada no Oeste
com territórios pertencentes à Alemanha. Na sua viagem de regresso a Londres,
Churchill, temendo que o embate entre Stalin e o governo polonês levasse o
líder soviético a constituir outro governo na Polônia, de signo comunista,
ordenou a Eden que pedisse aos dirigentes polacos que aceitassem a situação.
Na instrução a Eden, manifestava-se assim:
“Deve o senhor expor-lhes que, ao apropriar-se dos atuais territórios
alemães até o Oder, prestarão um serviço a toda Europa, possibilitando uma
política amistosa com a Rússia, e uma estreita colaboração com a
Tchecoslováquia”. O problema continua A reação dos poloneses não foi favorável. A 5 de janeiro, o
governo presidido por Mikolajczyk, emitiu um comunicado pela rádio de
Londres, sem consultar nem as autoridades britânicos nem as americanas,
dirigido a todos os poloneses livres. Esse comunicado comentava que um acordo
com a URSS era extremamente desejável, porém que era de se esperar que o URSS
não deixaria de respeitar os interesses e direitos da República Polonesa e
seus habitantes. Fazia saber também que já se haviam emitido ordens à resistência
na Polônia para intensificar a sua luta contra os alemães e evitar qualquer
conflito com os exércitos soviéticos que estavam entrando em território
polonês, cooperando com os comandantes soviéticos no caso do restabelecimento
das relações russo-polacas. Embora estivesse escrita em tom moderado, a declaração deixava
claramente expresso que o governo polonês não estava disposto a renunciar aos
seus interesses e direitos. O Presidente Benes, da Tchecoslováquia, refugiado
também em Londres, interveio então, assinalando a Mikolajczyk que era
necessário chegar a um acordo com Stalin, aceitando suas propostas. O
primeiro-ministro polonês respondeu que, mesmo que ele, pessoalmente,
estivesse disposto a aceitar a retificação de fronteiras, por considerar
impossível outra saída, seus colegas mantinham uma oposição que ele não podia
eliminar. A 11 de janeiro, e já quando os exércitos russos haviam penetrado
em solo polonês, Molotov mandou chamar os embaixadores americano e britânico
em Moscou, e lhes entregou um documento. Este continha uma contra-declaração
do governo russo, na qual se salientava que o governo polonês de Londres
focalizava erroneamente a questão fronteiriça. A focalização correta era que
as fronteiras estabelecidas em 1939 estavam de acordo com os desejos dos
povos que viviam na Ucrânia e Rússia Branca ocidentais. As fronteiras
anteriores, afirmava-se, haviam sido impostos pela força e eram injustas para
estes habitantes da URSS. O governo soviético, continuava, desejava ver
estabelecida uma Polônia poderosa e independente, com a qual pudesse manter
relações amistosas... porém, esta nova Polônia devia renascer, não pela
apropriação de terras da Ucrânia e da Rússia Branca, mas sim tratando de
recuperar os territórios polacos arrebatados pela Alemanha. Em outras
passagens, o documento lembrava que o governo polonês se demonstrara incapaz
de entabular relações amistosas com a União Soviética e de sustentar uma luta
ativa contra os alemães. Em compensação, a União dos Patriotas Poloneses,
estabelecida na Rússia, e o exército polaco que combatia nas fileiras do
Exército Vermelho, lutavam perseverantemente contra os nazistas pela
libertação da sua pátria. Harriman, o embaixador americano, considerou que,
embora o documento fosse aparentemente conclusivo quanto à aversão russa
contra os poloneses de Londres, existiam ainda possibilidades de chegar a um
acordo. Essas possibilidades, porém, se desvaneceriam por completo,
quando as forças russas ocupassem o território da Polônia. Churchill tinha o
mesmo ponto de vista, e o comunicou aos dirigentes poloneses. Estes, em
decorrência das sugestões do primeiro-ministro britânico, deram publicidade a
um novo comunicado, três dias mais tarde. Neste se declarava que, embora o
governo polonês não reconhecesse decisões impostas, ou fatos consumados,
desejava sinceramente chegar a um acordo com o governo soviético sobre bases
justas e aceitáveis para ambos, e tornava público que havia solicitado aos
governos dos EUA e Grã-Bretanha que atuassem como intermediários para concretizar
tal acordo. Os russos, porém, desdenharam o oferecimento e declararam que o
comunicado polaco constituía um rechaço de suas propostas. Churchill, ante o
agravamento da situação, manteve uma entrevista com Mikolajczyk, na qual
declarou categoricamente que nem a Grã-Bretanha nem os EUA iriam à guerra com
a URSS pelas fronteiras da Polônia. O primeiro-ministro polaco, aniquilado,
respondeu que teria que consultar os seus colegas e os dirigentes da
resistência. Tratou assim de ganhar tempo, para conseguir uma mudança na
posição britânica e americana, que favorecesse a defesa dos interesses do seu
país. Churchill e Roosevelt, por sua vez, deram instruções aos seus
embaixadores em Moscou para que trabalhassem ativamente em prol da superação
do problema. A 2 de fevereiro, Harriman se entrevistou com Stalin, que, ao
iniciar a conversa, colocou sobre a mesa uma revista que declarou ser editada
pelos membros da resistência polonesa com sede em Londres. A publicação
estava encabeçada por um grande título: “Hitler e Stalin, dois semblantes do
mesmo mal”. Em seguida o líder russo manifestou estar convencido de que “os
poloneses acreditavam que os russos eram bons combatentes, mas idiotas, e que
podiam deixar que o Rússia carregasse com todo o peso da guerra, para intervir
no final e repartir as sobras...”. O problema, longe de ser solucionado, caminhava para uma grave
crise. Os dirigentes da resistência e os membros do gabinete polonês,
manifestaram-se, dizendo que embora estivessem dispostos a aceitar
territórios alemães do Oeste, não cederiam nada no Leste. Repeliram também as
pretensões russas à Prússia Oriental. O General Anders, chefe do corpo
polonês que combatia na Itália, enviou uma mensagem a Londres, na qual
declarava energicamente que “todos os soldados do exército polonês se negarão
a considerar a possibilidade de que algum pedaço do território polaco possa
ser cedido aos bolchevistas”. Churchill, ao ser informado destas comunicações, foi tomado por
grande abatimento. Poucos dias depois, declarou publicamente, na Câmara dos
Comuns, que havia recebido completas garantias de Stalin de que este desejava
uma Polônia forte e independente, porém, acrescentou, “não posso considerar
que a exigência russa de querer uma confirmação referente às suas fronteiras
ocidentais, exceda os limites do que é razoavelmente justo. O Marechal Stalin
e eu discutimos e concordamos em que a Polônia obtenha compensação às custas
da Alemanha, tanto no Norte como no Oeste”. Stalin, por sua vez, voltou a
expor aos embaixadores britânico e americano, Harriman e Clark-Kerr, sua
obstinada hostilidade para com o governo exilado em Londres. A Harriman
comunicou claramente: “No momento em que a Polônia for liberada, outro
governo terá surgido dentro do país”. Ao chegar o mês de maio de 1944, a imprensa soviética deu ênfase
especial às notícias referentes à Polônia. Estava já em preparação a grande
ofensiva que concretizaria a derrota alemã em território russo, fato que
levaria as forças soviéticas até as portas de Varsóvia. No dia 19, os jornais
publicaram a notícia que um destacado dirigente polonês que se achava em
Londres, o General Zeligowski, se rebelara contra o governo de Mikolajczyk,
declarando que a união dos eslavos era a única salvação para a Polônia, e que
ao recusar-se o adotar essa perspectiva, esse governo favorecia a perpetuação
do domínio alemão. A 24 de maio, a União de Patriotas Poloneses tornou pública em
Moscou uma inesperada notícia: “Há poucos dias, delegados do Conselho do Povo
da Polônia chegaram a Moscou... Este Conselho foi estabelecido em Varsóvia a
1° de janeiro de 1944, pelos partidos democráticos e grupos que lutam contra
os ocupantes alemães. As seguintes forças estavam representadas no Conselho:
os grupos de oposição do Partido Camponês, o PPS (Partido Socialista), o PPR
(Partido dos Trabalhadores Comunistas), o Comitê de Iniciativa Nacional,
Democratas Apolíticos, o Movimento Sindical Clandestino, o Movimento de Luta
da Juventude, grupos e representantes das organizações militares
subterrâneas, a Guarda Nacional, o Milícia Nacional, etc. Tornou-se
necessário formar um centro de luta e coordenação. O governo emigrado no
combate contra os alemães, ao contrário, apregoa a inatividade. Em 1943, as
esperanças aumentaram na Polônia, porém, ao mesmo tempo, o terror alemão se
intensificou. O Conselho Nacional, em sua primeira reunião, tomou a
importantíssima decisão de unir a todos os grupos de guerrilheiros, unidades
armados, etc., que lutam contra os ocupantes, e unificá-los em um único
Exército do Povo... A Guarda Nacional, a Milícia Nacional, uma grande parte
dos batalhões de Camponeses, já se incorporaram a ele. Em poucos meses, uma
rede de organizações locais foi estabelecida pelo Conselho Nacional. A luta
contra os ocupantes tem sido sumamente intensificada”. Por este comunicado foi que, pela primeira vez, tomou-se
conhecimento público da existência de um movimento clandestino, dentro da
Polônia, de orientação abertamente comunista. Esse Conselho Nacional, que os
poloneses de Londres imediatamente qualificaram como carente de qualquer
representatividade, constituiu o núcleo do Comitê Polonês de Libertação
Nacional, estabelecido na cidade de Lublin, a 22 de julho de 1944, depois da
sua libertação pelo Exército Vermelho. Esse Comitê foi reconhecido
oficialmente pelo Governo da URSS como única autoridade legal na Polônia,
confirmando assim sua definitiva oposição à liderança, em território polonês,
dos dirigentes democráticos de Londres. Anexo “Resistir até o fim” Fracassada a sua
última grande ofensiva em Kursk, e derrotados os seus exércitos na linha do
rio Dnieper, que havia sido proclamada como a intransponível “Muralha do
Leste”, Hitler se viu diante da ameaça de um rápido avanço russo sobre as
fronteiras da Alemanha. O Führer resolveu então emitir terminantes diretivas
às suas forças para firmar a resistência ao longo de toda a frente oriental.
Reproduzimos o texto da ordem: QG do Führer 8 de
março de 1944 Ordem do Führer n° 11 Em vista dos últimos
acontecimentos, resolvo o seguinte: 1. Far-se-á uma distinção
entre as “Zonas Fortificadas”, cada uma sob o comando de um “Comandante de
Zona Fortificada”, e os “Centros de Resistência Locais”, cada um sob o
comando de um “Comandante de Batalha”. As “Zonas
Fortificadas” cumprirão as funções das antigas fortalezas. Assegurarão que o
inimigo não ocupe essas áreas de importância operativa decisiva. Permitirão
que elas sejam cercadas, comprometendo, em conseqüência, o maior número
possível de forças inimigas e criarão assim as condições favoráveis para
contra-ataques vitoriosos. Os “Centros de
Resistência Locais” compreenderão os redutos localizados na retaguarda da
frente de batalha. Estes serão tenazmente defendidos no caso de produzir-se
uma penetração inimiga. Ao serem incluídos na linha principal de luta, atuarão
como reserva da defesa e, no caso de rompimento inimigo, servirão como
guarda-flancos da frente, a partir dos quais se poderão lançar
contra-ataques. 2. Cada “Comandante de
Zona Fortificada” será um soldado enérgico e especialmente selecionado, preferencialmente
do posto de general. Será designado pelo grupo de exércitos correspondente.
Estes comandantes serão responsáveis ante o comandante-chefe do grupo de
exércitos. Os “Comandantes de Zonas Fortificadas” comprometerão sua honra de
soldados no cumprimento do seu dever até o fim. Somente o comandante-chefe do
grupo de exércitos poderá, com minha aprovação, dispensar de seu dever ao
“Comandante de Zona Fortificada” e, talvez, ordenar a rendição da zona
fortificada. Além da guarnição e suas forças de segurança, todas as pessoas
que vivam numa zona fortificada ou tenham sido concentradas ali, se encontram
sob a ordem do comandante, tanto soldados como civis, seja qual for o posto
ou situação. O “Comandante de Zona Fortificada” tem os direitos militares e as
faculdades disciplinárias de um comandante geral. Para o cumprimento do seu
dever terá à sua disposição cortes marciais e civis móveis. 3. A guarnição de uma
zona fortificada compreende: a guarnição de segurança e a guarnição geral A guarnição de segurança
deve permanecer sempre dentro da zona fortificada. Seu poderio será fixado
pelo comandante-chefe do grupo de exércitos e será determinado pela extensão
de área e as missões a cumprir (preparação e terminação das defesas,
vigilância da zona fortificada contra incursões ou ataques locais do
inimigo). A guarnição geral deve
ser colocada à disposição do comandante de zona com suficiente antecedência
para que as tropas ocupem as posições defensivas e se encontrem prontas
quando um ataque inimigo ameaçar se desencadear. Seu poderio será fixado pelo
comandante-chefe do grupo de exércitos, de acordo com a extensão da zona
fortificada e a missão que deve cumprir (defesa total da zona fortificada). 4. O “Comandante de
Batalha” fica colocado sob as ordens do comandante das forças locais. Será
designado por ele, e a ele estará subordinado. Seu posto dependerá da
importância da posição na zona de batalha e do poderio da guarnição. Seus
deveres exigem que seja um oficial enérgico, cujas condições tenham sido
testadas em situações críticas. 5. O poderio das
guarnições de um “Centro de Resistência Local” será determinado pela
importância da posição e das forças disponíveis. Receberá suas ordens das
autoridades às quais estará subordinado o “Comandante de Batalha”. Adolf Hitler “Apenas eu tenho
autoridade” O Marechal von
Manstein descreve em suas Memórias os pormenores da entrevista que manteve
com Hitler, nos primeiros dias de janeiro de 1944, com o propósito de obter
que o Führer renunciasse à condução direta da guerra e cedesse o comando das
operações a um chefe militar. “Diante da numerosa
assistência que na hora do “relatório diário da situação” assistia a estas
discussões, nenhum êxito eu podia esperar do prolongamento dos debates;
solicitei, então, ser recebido por Hitler, na presença tão-somente do Chefe
do Estado-Maior-Geral. Visivelmente enfadado e receoso das minhas intenções,
afinal concordou em escutar-me... “Quando todos, exceto o General Zeitzler,
tinham abandonado a sala, eu me dirigi a Hitler, solicitando vênia para
falar-lhe com inteira franqueza. Ostensivamente frio e áspero, respondeu
seco: “Diga”. Comecei com estas palavras: “É preciso reconhecer, meu Führer,
que a situação crítica em que nos encontramos por toda a parte não deve ser
imputada inteiramente à inegável superioridade do inimigo; é conseqüência,
também, da forma por que conduzimos a guerra”. Apenas disse isso, as feições
de Hitler endureceram subitamente. Seus olhos se cravaram nos meus com uma
expressão tão enérgica que eu disse para mim mesmo: Agora pretende subjugar
tua vontade e anular tua decisão de continuar por esse caminho... Eu não me
lembro de ter observado, em toda a minha vida, um olhar mais senhor da sua
própria vontade. A propósito, me vem à lembrança o que um dos embaixadores credenciados
em Berlim, escreveu, sobre a impressão que lhe havia causado o primeiro
encontro com Hitler; assegura que era incrível o poder dos seus olhos... A
verdade é que no seu rosto, demasiadamente rude, os olhos constituíam o único
atrativo, e eram bastante expressivos. Como um relâmpago cruzou a minha mente
a imagem do índio encantador de serpentes. Foi uma luta surda essa nossa, de
apenas alguns segundos... Contudo, continuei o meu discurso, encarecendo que
a forma como o comando funcionava entre nós era inadmissível, e eu era
obrigado a insistir na proposta que, por duas vezes antes, já havia feito: a
de que Hitler necessitava de um chefe de Estado-Maior para a condução total
da guerra, porém, um chefe autenticamente responsável, a cujo exclusivo conselho
seria submetido o comando militar. Depois, como conseqüência dessa
instituição, seria nomeado também um comando-supremo na Frente Oriental, que
gozasse de plena independência dentro do âmbito do comando conjunto. Da mesma
forma que nas duas ocasiões precedentes, em que procurara fazê-lo compreender
a necessidade de uma profunda modificação na sua maneira de exercer o comando
militar (se não formalmente, no aspecto prático era a mesma coisa que
aconselhar-lhe que se demitisse), Hitler repudiava abertamente a solução.
Opunha como argumento capital o fato de que somente ele, com todos os
recursos do Reich em suas mãos, podia comandar eficientemente o setor militar
também, porque nenhum outro profissional possuía elementos como ele, para
decidir quais e quantas eram as forças disponíveis para os diversos cenários
da guerra e, conseqüentemente, a possibilidade de ação. Nem tampouco Goering
jamais se submeteria - alegava - às ordens de quem quer que não fosse Hitler.
Quanto à nomeação de um comandante-supremo para o Leste, atacou-me aos
brados: “Se nem a mim os marechais obedecem! Acaso pensa que a outro, por
exemplo ao senhor, iam obedecer? Afinal de contas, eu posso destituí-los, e
ninguém além de mim tem autoridade para isso!”. Minha resposta de que as ordens
que eu desse seriam obedecidas, aceitou-as tacitamente, mas suspendeu, ao
mesmo tempo, a entrevista. Pela terceira vez, eu havia fracassado...”. Divisões Russas Composição das
divisões do Exército Vermelho: Divisão de Infantaria 3 regimentos de
infantaria 1 regimento de
artilharia e grupo antitanque 1 batalhão de
engenharia e 1 companhia de comunicações Cada regimento de
infantaria contava com: 1 companhia de
pistolas-metralhadoras 1 bateria de canhões
de 76 milímetros 1 bateria antitanque
de 6 canhões de 45 mm 1 destacamento de 27
fuzis antitanques 1 companhia de
morteiros 1 companhia de
sapadores Divisão de Montanha 4 regimentos de
infantaria 1 regimento de
artilharia e 1 regimento antitanque 1 batalhão de
engenharia e 1 companhia de comunicações Divisão de Artilharia 1 brigada leve de
canhões antitanques 1 brigada de 50
canhões de 152 mm 1 brigada de 84 obuses
de 122 mm 1 brigada de 108
morteiros de 120 mm Divisão de Cavalaria 3 regimentos de
cavalaria 1 bateria antiaérea (a
divisão era reforçada geralmente por um regimento de tanques médios) Divisão Antiaérea
(motorizada) 3 regimentos de
artilharia antiaérea leve (calibre 37) 1 regimento de
artilharia antiaérea média (calibre 85) Divisão de
Lança-Foguetes (motorizada) 2 brigadas de
lança-foguetes calibre 300 3 regimentos de
lança-foguetes calibre 130 (uns 300 lança-foguetes de 4 a 16 canos) Corpo Blindado
(substitui a divisão blindada) 3 brigadas de tanques
médios (uns 200 tanques) 1 brigada de
infantaria motoriza.a (dotada de canhões de assalto, morteiros pesados e
lança-chamas) 1 brigada de
artilharia 1 brigada de
lança-foguetes e morteiros pesados 1 grupo antiaéreo Sebastopol Um jornalista
britânico, que percorreu as ruínas de Sebastopol, depois da sua reconquista,
forneceu esta descrição. “Somente Deus sabe
quantos homens morreram aqui no dia 7 de maio. Desde as planícies vizinhas à
colina Sapun, e ao longo da estrada, que se dirige a Sebastopol através do
vale do Inkerman, o ar estava impregnado com o fedor da morte. Provinha dos
restos de milhares de cavalos que ainda jaziam à beira da estrada, e dos
milhares de soldados mortos, muitos dos quais insuficientemente sepultados,
ou nem sequer sepultados... Aqui, mais que em qualquer outro lugar, sabia-se
que se caminhava sobre camadas e camadas de ossos humanos, de todos aqueles
que morreram na Guerra da Criméia, e nas lutas de 1920, e em 1941-1942,
durante o terrível sitio ele Sebastopol de 250 dias de duração, e agora
novamente... À distância, Sebastopol com sua longa e estreita baía parecia uma
cidade viva, porém estava morta. Mesmo nos subúrbios, no extremo do vale de
Inkerman, não havia uma casa que se mantivesse de pé. A estação de estrada de
ferro era uma montanha de escombros e ferros retorcidos... O porto estava
bloqueado pelos restos dos barcos que os russos haviam afundado nos últimos
dias da evacuação alemã. Era difícil imaginar como a população da cidade
havia vivido e combatido aqui durante o inverno de 1942, no meio de milhares
de cadáveres insepultos... Nos restos do velho monumento da Marinha, descobri
uma inscrição, escrita provavelmente nos últimos dias da agonia de julho de
1942. Dizia assim: “Não és a mesma de antes Sebastopol, quando a gente se
alegrava com tua beleza. Agora todo mundo te amaldiçoa, porque causaste tanta
dor. Entre tuas ruínas, nas tuas avenidas e ruas, jazem milhares de pessoas,
sem que haja ninguém para cobrir seus ossos putrefatos”. Massacre em Queroneso 9 de maio de 1944.
Sebastopol se converteu num inferno. Milhares de projéteis disparados pela
artilharia soviética pulverizam os últimos redutos alemães. Os aviões russos,
em formações maciças, descarregam incessantemente as suas bombas sobre a
cidade, reduzindo-a a uma gigantesca massa de escombros. Nada pode sobreviver
debaixo desse furacão de fogo e aço. Afastando-se para o sul, marcham os
restos do 17o Exército alemão. São 30.000 homens, comandados pelo
General Bohme. Este chefe resolveu cumprir sem vacilação a implacável
diretiva de Hitler: “Resistir até o fim, até o último soldado e o último
cartucho...”. Uma vez mais, como tantas outras, a preservação da honra
militar imporá o sacrifício estéril de incontáveis vidas humanas. Para os
30.000 soldados de Bohme já não resta esperança alguma. Encurralados pelos
russos, buscam refúgio na estreita franja de terra do cabo Quersoneso. Nesse
mesmo lugar, há três anos, os soviéticos protagonizaram uma tragédia similar.
Foi ali que tombaram os últimos defensores de Sebastopol, aniquilados pelas
tropas do Marechal von Manstein. Os papéis se inverteram, e serão os alemães
agora que, em Queroneso, travarão sua derradeira batalha. Se inicia assim uma
luta selvagem, impiedosa, sem quartel. Os alemães conseguiram
estender um campo de minas que barra o acesso dos blindados russos e,
sobrepujando o esgotamento, escavam improvisadas trincheiras e refúgios.
Atrás dessas “fortificações” os homens, exauridos, empunham suas armas e
aguardam o ataque. Este não tarda a chegar. Precedidos por uma cortina
devastadora de fogo de artilharia, os russos se lançam contra as linhas alemãs.
Os projéteis, ao explodir dentro do campo de minas, abrem uma passagem
através da qual irrompem os tanques. Disparando a queima-roupa os seus
canhões, os blindados se deslocam lentamente pelo terreno em mil pontos
esburacado pelas explosões. Muitos, porém, acabam destruídos pelos soldados
alemães que, surgindo inesperadamente dos seus refúgios, correm até os
tanques e jogam entre suas lagartas, granadas e cargas explosivas. A primeira
investida é assim rechaçada. Ao cair da noite, e enquanto a luta prossegue
sem trégua, dois barcos alemães se aproximam das costas do cabo Quersoneso.
Ao amparo da escuridão os navios conseguem escapar aos ataques dos aviões
soviéticos e conseguem embarcar mais de 1.000 combatentes. Chega o momento de
zarpar, e se produzem então cenas de indescritível dramaticidade. Uma
verdadeira multidão luta para subir nos derradeiros botes, já
sobrecarregados, que se dispõem a partir. Por todo lado estouram os projéteis
da artilharia soviética. Na noite seguinte, outros quatro barcos tentam
repetir a operação, porém desta vez os russos conseguem afundar duas dessas
naves. As duas restantes, então, se afastam sem se aproximar das praias, e
com elas, desaparece toda esperança para as tropas sitiadas. A 11 de maio os
soviéticos decidem pôr fim à luta lançando um ataque demolidor. Colocam então
suas baterias de lança-foguetes diante do cabo e abrem um aterrador fogo
sobre as posições alemães. Um após outro, são pulverizados os redutos e
refúgios, e os soldados que conseguem sair deles com vida correm
aceleradamente para a costa. Ao amanhecer da jornada seguinte, entram
novamente em ação os tanques russos. Milhares de homens jogam fora suas armas
e se entregam prisioneiros. Porém, grupos isolados de alemães continuam
combatendo até esgotarem-se as munições. São, então, exterminados. No seu
posto-de-comando, instalado no sótão de uma cabana em ruínas, o General
Bohme, realiza uma última conferência com seus lugar-tenentes, na qual decide
capitular. A 12 de maio o chefe alemão e o grosso dos sobreviventes se
entregam aos russos. No extremo do cabo
Quersoneso se ergue um promontório rochoso. É o ponto mais afastado da linha
de fogo e ali os alemães instalaram os seus hospitais de sangue. Espalhados
pelo campo, expostos à intempérie, jazem milhares de feridos, agonizando sem
receber atenção alguma, pois esgotaram-se por completo os medicamentos e
bandagens. Nesse local se encontram também 750 homens da SS, rechaçando os
oferecimentos de rendição que os soviéticos fazem chegar a eles. Ante a
negativa, os russos aproximam seus tanques e lança-foguetes e desencadeiam um
verdadeiro dilúvio de fogo sobre o promontório. Somente uns poucos homens
sobrevivem a esse bombardeio aniquilador. Estes tentam fugir por mar. Para
eles também, porém, não haverá escapatória. Um após outro são atingidos pelo
fogo das metralhadoras dos caças russos que sobrevoam o palco da batalha. Luta defensiva Em princípios de 1944,
a Wehrmacht teve que enfrentar na Rússia, uma série de avassaladoras
ofensivas soviéticas. Para conter o avanço russo, as dizimadas forças alemãs
recorreram a improvisadas obras defensivas. Transcrevemos a descrição de uma
posição fortificada alemã, no rio Narova, escrita por um oficial que combateu
ali. “A linha era
construída baseada em duas posições; no caso do inimigo apoderar-se da
primeira, poder-se-ia continuar a resistência, na segunda. Devido á escassez
de tropas, não existiam unidades de reserva e os sobreviventes da primeira
posição seriam os que praticamente teriam que cobrir a segunda, caso o rompimento
adversário tivesse êxito... Como em todas as obras fortificadas, os
postos-de-comando foram preparados como pontos de apoio, que deviam ser
defendidos no caso de uma penetração russa nas posições. A densidade dos
efetivos era, aproximadamente, de 1 homem para cada 10 metros de frente, mais
um grupo de assalto de soldados experimentados nas mãos de cada chefe de
companhia, e uma seção de tropas similares à disposição de cada chefe de
batalhão. “A primeira posição
era formada por uma trincheira que corria quase sem intervalos ao longo de
toda a frente, e que era protegida ainda por várias linhas de arame farpado.
Entre 100 a 200 metros na retaguarda dessa trincheira se encontravam as
posições para as metralhadoras pesadas, com dois ou três ninhos para cada
metralhadora, com o objetivo de mudar de posição quando o inimigo as
descobrisse. “Ali também se
encontravam os refúgios, onde os homens que não estavam de guarda podiam
descansar. Estas duas linhas - a trincheira de vanguarda e os ninhos de
metralhadoras - estavam unidas por vários fossos de comunicação. “Este conjunto formava
a primeira posição. O serviço nela foi muito severo, especialmente nas longas
noites de inverno. Uma hora antes do pôr-do-sol, se fazia uma inspeção e
dava-se de comer à tropa. “Com as primeiras
sombras, a trincheira da vanguarda era ocupada por atiradores adiantados; a
metade das tropas estava pronta para combater imediatamente, enquanto a
metade restante distribuía os homens para dormir sentados sob a proteção das
tropas da primeira linha. Ao amanhecer se fazia nova inspeção e se dava de
comer à tropa. Depois disso, a metade de cada grupo de atiradores podia ir
dormir nos refúgios que se encontravam atrás dessa linha e que tinham uma
coberta de proteção de terra de 1,5 m de espessura. O resto, uns 3 homens de
cada grupo, ficavam como sentinelas nas posições da primeira linha. O serviço
de metralhadoras pesadas durante a noite mantinha somente a metade dos seus
homens preparados para abrir fogo, enquanto a outra metade descansava nos
refúgios construídos a poucos metros das posições de fogo... A primeira linha
que devia defender-se em caso de ataque, foi realmente uma linha avançada,
protegida pelas metralhadoras pesadas que constituíam dentro do esqueleto da
defesa, a coluna vertebral. Por esta razão, os fuzis-metralhadoras perderam
muito do seu valor e muitos chefes foram partidários de suprimir essa arma e
armar a todos os atiradores adiantados com “carabinas de assalto”, isto é,
com uma carabina automática de trinta e dois cartuchos curtos no municiador. “Armados dessa
maneira, os atiradores podiam executar uma defesa flexível e móvel ao redor
das metralhadoras pesadas. Entre a primeira e a segunda posição se
encontravam os campos de minas antitanques e antipessoais, e em certos lugares
se abriam fossas antitanques. “A segunda posição foi
construída atrás dessa franja intermediária, isto é, a uns 400 a 600 metros
na retaguarda da primeira posição. Ela era constituída pelas obras defensivas
preparadas para receber as tropas e armas que se retirassem da primeira
posição. Por falta de unidades de reserva, quase não era guarnecida. Somente
dispunha dos grupos de morteiros de 81 mm e dos canhões antitanques... “As armas antitanques
empregadas eram as peças de 75 e 88 mm de calibre e se localizavam na parte
posterior da segunda posição defensiva. No caso de um ataque russo com
infantaria e tanques, os atiradores da primeira posição deixavam passar os
tanques e, mantendo-se firmes, paralisavam a penetração da infantaria. Desta
maneira, os tanques avançavam sozinhos até a zona intermediária onde eram
destruídos pelas minas ou pelo fogo dos canhões antitanques”. |