Invasão das Ilhas Gilbert e Marshall

 

Os Marines iniciam o avanço a Tóquio

            

Conquista de Tarawa (nas Gilbert)

 

 

Enquanto as forças americanas e australianas comandadas pelo General MacArthur levavam a cabo a campanha destinada a aniquilar as forças japonesas nas ilhas Salomão e Nova Guiné, o Alto-Comando americano punha em marcha uma nova ofensiva no Pacífico Central. Nesse setor se desenrolaria, de acordo com os planos elaborados por Churchill e Roosevelt, a ofensiva principal contra o Japão. O plano consistia em desfechar uma série de ataques anfíbios sobre a cadeia de ilhas que se estendiam entre o arquipélago das Havaí e o território japonês. A conquista desses redutos permitiria aos Aliados isolar o Império do Sol-Nascente, cortando suas comunicações com as Índias Orientais Holandesas, principal fonte de petróleo e outras matérias-primas vitais para a indústria bélica japonesa. Como primeiro objetivo do ataque foi selecionado o arquipélago das Gilbert. Ali se iniciaria o irresistível avanço americano sobre Tóquio. Já no mês de agosto de 1943, o comandante da zona de guerra do Pacífico Central, Almirante Nimitz, emitiu as ordens para organizar a operação. O assalto estaria a cargo da 5a Força Anfíbia, integrada pela 2a Divisão de Fuzileiros-Navais (marines) e pela 27a Divisão de Infantaria do Exército. Esta última unidade carecia de experiência de combate, porém os efetivos de marines já haviam participado das encarniçadas lutas nas Salomão.

 

 

Planeja-se o ataque

 

Os objetivos escolhidos foram o atol de Tarawa e o de Makin. Ambas posições consistiam numa série de pequenas ilhas e ilhotas de coral e se esperava encontrar nelas uma forte resistência japonesa. O comando geral das operações ficou a cargo do Almirante Spruance. Um nome chave foi designado para a ofensiva: Galvanic. No mês de outubro se iniciaram os vôos de reconhecimento sobre os duas pequenas ilhas que seriam tomadas de assalto: Betio, no atol de Tarawa, e Butaritari, no de Makin. Simultaneamente, vários submarinos procederam ao estudo do regime de marés nas costas dessas ilhas para determinar a exeqüibilidade do desemborque.

 

Os informes obtidos assinalaram que em Betio não existia suficiente calado para o deslocamento das lanchas de desembarque até as praias. De fato, os níveis de marés comprovados denunciavam a existência de apenas dois pés de profundidade sobre o recife de coral que rodeava a ilha. Em conseqüência, somente os tanques anfíbios - dos quais se possuía uma quantidade reduzida - estariam em condições de alcançar o costa. Porém, como esclarece a crônica oficial americana, “esta informação foi, ou inadequadamente interpretada, ou não lhe deram crédito, pois até o próprio dia do desembarque mantiveram-se esperanças de que em Betio haveria suficiente água sobre os recifes para garantir a passagem das lanchas... ". Desgraçadamente, essa suposição errônea traria graves conseqüências para as tropas atacantes.

 

Os contingentes americanos foram organizados do seguinte forma: uma Força de Ataque “Norte”, encarregada da captura de Butaritari, e uma Força de Ataque “Sul”, encarregada da conquista de Betio. A primeira era integrada pelos efetivos da 27a Divisão de Infantaria, conduzidos em 5 transportes e 9 LST (lanchas de desembarque de tanques) e escoltados por 4 encouraçados, 4 cruzadores pesados, 3 porta-aviões leves e 13 destróieres. Na segunda, figuravam as tropas da 2a Divisão de Marines, conduzidas em 16 transportes e 12 LST, com uma escolta de 3 encouraçados, 3 cruzadores pesados, 3 cruzadores ligeiros, 21 destróieres e 5 porta-aviões leves.

 

O comando direto do assalto seria exercido pelo Almirante Turner, a bordo do encouraçado Maryland, que acompanharia as forças de desembarque em Betio. Como proteção aérea foi agregada uma formação de porta-aviões, integrada por seis naves de ataque e cinco leves desse tipo, acompanhadas por encouraçados, cruzadores e destróieres. Ao todo, interviriam mais de 100 naves de guerra e transporte.

 

A data do ataque foi fixada para as primeiras horas do manhã de 20 de novembro de 1943. Essa data se converteria numa jornada de sangue para os marines. Tarawa passaria a ser o marco decisivo na guerra do Pacífico, pois foi ali, e ao preço da vida de milhares de soldados, que os americanos extraíram as lições necessários para alcançar a vitória.

 

Frente ao objetivo

 

A ilha de Betio havia sido transformada pelos japoneses numa verdadeira fortaleza. Dezenas de canhões e centenas de metralhadoras localizadas em redutos blindados e casamatas de argamassa reforçadas com troncos e blocos de areia, se estendiam ao longo de todo o perímetro da costa. As praias e recifes estavam bloqueados por barreiras e alambrados. Cerca de quatro mil combatentes, comandados pelo Almirante Shibasaki, enfrentariam, dispostos a lutar até o fim, os 18.000 soldados da 2a Divisão de Fuzileiros-Navais.

 

Os comandos americanos confiavam arrasar por completo essas defesas mediante o bombardeio prévio da aviação e do esquadra. Anteriormente ao assalto, já os aparelhos da força aérea submeteram Betio a repetidos e violentos ataques. A 13 de novembro o frota de invasão rumou para o objetivo. A bordo das belonaves, os marines ocuparam o tempo que os separava do combate, engraxando os fuzis e afiando cuidadosamente suas baionetas. Uma vez mais demonstrariam sua audácia e sua implacável dureza na luta. Era essa a tradição do Corpo, da qual todos se orgulhavam. A expressão desse sentimento foi dado, momentos antes do ataque, pelo seu chefe, o Major-General Holland Smith, que declarou aos oficiais da esquadra: “Senhores, lembrem-se de uma coisa... Quando os marines desembarcarem e enfrentarem à ponta de baioneta o inimigo, não terão outra couraça senão suas camisas cáqui”.

 

Nunca, como em Tarawa, essa afirmação teria maior validade. Na madrugada de 20 de novembro, os 17 transportes americanos carregados de marines tomaram posição a uma milha de distância da ilha de Betio. Sobre a coberta foram preparados os Alligators e lanchas de desembarque para serem lançados ao mar. Silenciosamente os homens se alinharam junto às bordas, carregados com suas armas e mochilas. Às 2 h 15 m emitiu-se a ordem de completar os preparativos. Uma hora mais tarde, correu de pelotão em pelotão a voz de "Embarcar!" Descendo pelas grandes redes estendidas sobre os flancos dos navios, os marines treparam nos Alligators. Esta era a primeira leva de assalto, comandada pelo Coronel David Shoup. Três batalhões se lançariam sobre as praias denominadas "Vermelho 1", "Vermelho 2" e "Vermelho 3", na costa norte de Betio. Para alcançar o objetivo, os Alligators teriam que penetrar através da barreira de recifes de coral que rodeavam a ilha, por um estreito canal de acesso. Dois caça-minas, o Pursuit e o Requisite, escoltados por dois destróieres, o Ringgold e o Dashiell, encabeçariam a flotilha de tanques anfíbios para limpar de minas o citado canal e dar apoio de artilharia aos marines.

 

Às 5 h 07 m as baterias japonesas romperam fogo e seus projéteis explodiram entre os transportes americanos. A réplica foi imediata. Os encouraçados Colorado e Maryland descarregaram seus gigantescos canhões sobre a ilha e as restantes naves de invasão se somaram sem tardança ao bombardeio. Em meio ao rugir dos disparos, uma infernal explosão atroou os ares. Em Betio acabava de ser atingido um dos principais paióis de munições. Uma enorme massa de fogo e chamas se ergueu acima da superfície da ilha. Os marines, em suas embarcações, observaram, encolhidos, esse espetáculo dantesco.

 

Pouco antes das seis da manhã, os canhões americanos interromperam abruptamente os disparos. Os primeiros raios de sol iluminavam o cenário da batalha e podia-se vislumbrar Betio coberta pelas nuvens de fumaça produzidas pela explosão das milhares de granadas. À distância, se percebeu o rugir de centenas de aviões. Começava agora o bombardeio aéreo. Arrojando-se do céu, em mergulho, os aparelhos americanos descarregaram um dilúvio de bombas, triturando a superfície da ilha. O ataque durou poucos minutos e, em seguida, as naves de guerra retomaram o fogo. De Betio partiram repetidas descargas da artilharia japonesa que obrigaram os transportes a dispersar-se apressadamente. A inesperada reação japonesa evidenciava já que o bombardeio não conseguira, ao contrário do que se pensava, arrasar por completo as defesas da ilha. Porém, agora não havia tempo de recuar. Deslizando lentamente sobre a superfície do mar, os Alligators, carregados de tropas, avançavam para o canal de acesso. Os caça-minas penetraram resolutamente pelo canal e foram recebidos por violenta salva das baterias japonesas. Uma bomba atingiu em cheio o Ringgold e atravessou de lado a lado a sala de máquinas, porém, milagrosamente, não explodiu. Os destróieres americanos avançaram então a todo vapor e responderam ao fogo. Eram agora 9 horas da manhã. Espalhando-se, os Alligators rumaram para as praias. Toda a operação se desenrolava com uma considerável lentidão, fato que provocou uma confusão fatal. Havia sido previsto que os tropos alcançariam a costa às 8 h 45 m e, por conseguinte, o fogo da esquadra e os bombardeios da aviação foram interrompidos poucos minutos depois dessa hora. Os marines tiveram então que cobrir, sem apoio nenhum, a distância que os separava da praia.

 

Morte em "Vermelho 1"

 

Um extenso embarcadouro se erguia no meio das praias de Betio prolongando-se mar adentro. Esse era o objetivo do pelotão de assalto, comandado pelo Tenente William Hawkins. Integravam a força, 40 marines armados com fuzis-metralhadoras, cargas de demolição e lança-chamas. Sua missão era aniquilar os atiradores japoneses que, do ancoradouro, podiam metralhar de flanco as ondas de desembarque americanas. Os soldados de Hawkins foram os primeiros a alcançar as praias de Betio. Abrindo caminho através de uma verdadeira muralha de fogo, atingiram o embarcadouro e travaram uma furiosa luta corpo a corpo com os japoneses. Muitos pereceram no choque, porém o dique ficou limpo de inimigos.

 

O terceiro batalhão de marines, enquanto isso, completou a sua aproximação sobre a praia "Vermelho 1", no flanco ocidental. Ao aproximarem-se da praia, vadeando os recifes de coral, os americanos foram recebidos pelas descargas cerradas dos morteiros, canhões e metralhadoras japonesas. Aqui e acolá, um Alligator era atingido pelas granadas e ficava à deriva, destroçado, repleto de homens feridos e agonizantes. Alguns veículos investiam contra a muralha de troncos que bordejava a costa e ali ficavam retidos, enquanto os balas ricocheteavam nos seus flancos, com fragor terrível. Os marines, acocorados no interior dos tanques ou largados na praia, nas bordas da muralha, ficaram praticamente imobilizados. As perdas alcançaram proporções espantosas. Centenas de homens morreram crivados de balas das metralhadoras japonesas, que disparavam sobre eles praticamente a queima-roupa. As granadas de morteiro e os certeiros impactos das peças antitanque destruíam um Alligator após outro... Nessas circunstâncias, avançaram sobre "Vermelho 1" as lanchas de desembarque que conduziam os soldados da segundo leva. Por toda a parte, os projéteis levantavam colunas de água, e uma densa nuvem de fumaça, iluminada pelos relâmpagos das traçadoras, cobria o cenário da batalha. De repente, os timoneiros das embarcações comprovaram que não havia suficiente calado para prosseguir até a praia. Uma terrível alternativa se apresentou assim aos americanos. Na costa, ainda afastada, seus camaradas estavam sendo massacrados e era preciso ir imediatamente em sua ajuda. Mas, para fazê-lo, as tropas teriam que abandonar as lanchas e avançar através da água, debaixo do devastador fogo das metralhadoras japonesas. Os oficiais não titubearam. Saltando das embarcações, iniciaram a marcha rumo à costa, seguidos pelos seus soldados. Sobre essa massa de homens, totalmente indefesa, concentrou-se, então, a mira de todas as armas japonesas. O resultado foi horrível. Companhias inteiras foram varridas pelas balas e a água ficou coberta com os corpos de centenas de marines mortos ou feridos. Estes, oprimidos pelo peso das armas e equipamentos, e sem receber ajuda alguma, na sua maioria pereceram afogados.

 

As lanchas que conduziam os tanques leves detiveram sua marcha sobre a linha de recifes que bordejava a ilha, a uma distância de 1.200 metros da costa. Os blindados foram ali desembarcados, precedidos por soldados incumbidos de indicar-lhes o caminho através do terreno cheio de fossos. Apenas os tanques penetraram na água, foram canhoneados violentamente pelas baterias japonesas. Os veículos puderam escapar ao fogo, porém as bombas aniquilaram, em poucos instantes, os soldados que serviam de guias. Ao chegar à praia "Vermelho 1 ", os tanques a encontraram coberta com os corpos de centenas de marines feridos e moribundos. Fizeram então meio volta para não esmagar esses infelizes com suas lagartas, e voltaram a penetrar na água. Ao fazê-lo, vários tanques se precipitaram nas profundezas da barreira de coral e desapareceram sob a água. Somente dois conseguiram finalmente alcançar terreno firme e ali foram imediatamente destruídos pelos impactos dos canhões japoneses de 40 mm.

 

Assalto em "Vermelho 2"

 

A franja central da praia de invasão, denominada pelos americanos "Vermelho 2", foi atacada pelo segundo batalhão de fuzileiros-navais. Tal como em "Vermelho 1 ", a costa era bordejado por uma muralha de 1,20 m de altura, feita com troncos de palmeiras, impedindo aos Alligators o acesso ao interior da ilha. Entre essa muralha e a água, somente existia um estreito trecho de praia onde os marines ficariam apinhados e completamente expostos ao fogo mortífero das metralhadoras e morteiros japoneses.

 

Ao se dirigem para a costa, os Alligators que conduziam as companhias de assalto do Segundo Batalhão tentaram desesperadas manobras evasivas, enquanto um furacão de fogo se abatia sobre eles. Os pesados e lentos veículos ofereciam, porém, alvo perfeito aos canhões japoneses. Vários deles foram afundados, destroçados pelos projéteis; outros conseguiram alcançar a costa, para serem ali destruídos pelas granadas inimigas. Saltando por entre as arrebentadas chapas da blindagem, os soldados sobreviventes abandonaram os veículos e ganharam a praia. Outros Alligators chegaram, e arrojaram sobre o areia sua carga humana. Em poucos minutos, centenas e centenas de fuzileiros estavam na praia "Vermelho 2", aglomerados em espantosa confusão. Companhias inteiras haviam sido dizimadas e seus sobreviventes jaziam estendidos sobre a areia, misturados com os soldados de outras seções. Não se podia, nessas condições, organizar nenhum movimento coordenado. Cada marine, praticamente, estava entregue à própria sorte, e a única coisa que podia fazer era simplesmente tratar de "manter-se vivo".

 

O Coronel Herbert Amey, chefe do Segundo Batalhão, dirigiu-se à “Vermelho 2” com a quarta leva de ataque, a bordo de uma lancha de desembarque. Assim como na outra praia, aqui também o calado era insuficiente. Somente os escassos Alligators que ainda continuavam em funcionamento, podiam deslocar-se além dos recifes. Amey deteve um dos Alligators que regressava da praia e se transferiu ao veículo, juntamente com seus assessores. Assim se dirigiu ò costa, sob o martelar incessante de projéteis de todos os calibres. Uns 200 metros mais adiante, o Alligator deteve a sua marcha, quando suas lagartas se enroscaram num alambrado. Amey saltou então para a água, disposto a cobrir caminhando a distância que o separava do terra firme. Não conseguiu dar senão alguns poucos passos. Uma rajada de metralhadora, que levantou o água em torno dele, matou-o instantaneamente.

 

Na praia, os marines do Segundo Batalhão ficaram sob o comando de um oficial pertencente a outra divisão, que desembarcara em Betio como observador. Era o Tenente-Coronel Jordan que, do fundo de uma cratera de granada, onde instalara o seu "pôsto-de-comando", se esforçou para reorganizar as tropas.

 

Penetração em "Vermelho 3"

 

Uma série de fragmentadas mensagens de rádio havia levado já ao encouraçado Maryland, navio-capitânia da frota de invasão, um claro panorama da dramática situação que os marines enfrentavam nas praias de Betio. O primeiro desses informes, enviado por um soldado anônimo, já continha a dramática notícia: “Desembarque realizado... Oposição extremamente forte... Baixas: 70%... Não podemos nos manter...”.

 

Na praia "Vermelho 3", porém, situada sobre o flanco oriental, os fuzileiros-navais haviam conseguido ganhar a praia com a perda de apenas 25 homens. Essa circunst8ncia favorável se deveu ao fato de que ali, o bombardeio aeronaval, ao contrário do ocorrido nas outras praias, foi mantido até poucos minutos antes que os Alligators tocassem terra. Dois tanques anfíbios encontraram uma grande brecha na muralha de troncos, causada pela explosão de uma bomba e, infiltrando-se através dela, irromperam para o interior da ilha. Os marines que se encontravam na praia, se lançaram correndo atrás dos veículos, protegendo-se assim do fogo das metralhadoras japonesas. Lançando granadas à direita e à esquerda, disparando os seus fuzis e lançando línguas de fogo com seus lança-chamas, os fuzileiros conseguiram abrir caminho até os limites da pista aérea localizado no centro da ilha. Cada metro do terreno foi cenário de furiosos combates corpo a corpo. Os fuzis cederam o lugar à baioneta e, no interior das fossas e casamatas, no fundo dos buracos e crateras de granadas, americanos e japoneses empenharam-se numa luta selvagem.

 

Na praia "Vermelho 2" encontrava-se agora o Coronel Shoup, comandante-chefe de todas as tropas de assalto; ele resolveu lançar imediatamente na batalha as suas reservas. Um batalhão foi enviado em apoio das forças que lutavam em "Vermelho 1". Essa unidade sofreu sorte similar às anteriores. Estraçalhados pelos projéteis japoneses, os Alligators que conduziam as tropas emborcaram com seus chassis em chamas nos baixios próximos da costa. Em menos de vinte minutos, a maior parte dos veículos foi posta fora de ação e centenas de seus ocupantes pereceram varados pelas balas e pela metralha. Somente um oficial e 110 fuzileiros conseguiram chegar à praia com vida.

 

Ante a grave situação, um novo batalhão de reserva foi empenhado na luta. Pertencia este ao 8° Regimento de Fuzileiros-Navais. Pouco depois do meio-dia, seus homens, agachados atrás das pranchas blindadas das lanchas de desembarque, rumaram para o inferno de Betio. E outra vez se repetiu o mesmo sacrifício. As lanchas, alinhadas cinco a cinco, apenas conseguiram avançar até a linha dos recifes e ali caíram sob o fogo da artilharia japonesa. Não havia meio de seguir adiante e as pranchas então foram baixadas... Muitos homens, carregados com todo o seu equipamento de combate, desapareceram nas ondas, pois a água em alguns setores tinha uma profundidade superior a cinco metros. Os que sobreviveram, continuaram o terrível avanço rumo à costa, tratando de escapar às incessantes rajadas das metralhadoras inimigas.

 

Assim, na tarde do dia D, os americanos já haviam lançado à luta os efetivos de cinco batalhões. Todas essas unidades haviam sofrido enormes baixas, sem que se conseguisse conquistar mais que umas poucas dezenas de metros sobre a franja costeira de Betio. Apenas no setor "Vermelho 3" os americanos conseguiram concretizar um rompimento para o interior, porém ali também o avanço estava paralisado, ante a encarniçado resistência japonesa.

 

A segunda jornada

 

A noite caiu finalmente sobre a ilha, e a luta decresceu em intensidade. Dos 5.000 marines que haviam desembarcado no decorrer da jornada, mais de 1.500 haviam perecido ou se encontravam feridos. No interior do refúgio blindado que utilizava como posto-de-comando, o chefe japonês Almirante Shibasaki, não pôde, como era sua intenção, aproveitar a obscuridade noturna para lançar um contra-ataque. Todas as comunicações com o exterior haviam sido cortadas e não podia fazer chegar às suas

tropas dispersas a ordem de colocar em marcha a operação.

 

Em seus refúgios e poços de atirador, escavados precariamente na areia, os fuzileiros aguardaram, ansiosos, o contra-ataque nipônico. Apesar dos seus esforços, os tropas americanas não haviam podido unir suas linhas. Separados por amplas brechas, os sobreviventes dos batalhões de assalto, apoiados por uns poucos tanques e peças de 37 mm, estavam decididos a morrer antes de serem jogados ao mar. O assalto japonês, contudo, não se efetuou. O momento mais crítico do operação foi assim superado.

 

No dia seguinte, 21 de novembro, o Coronel Shoup fez desembarcar um novo batalhão na praia "Vermelho 2". Com este reforço propunha-se esmagar as defesas japonesas na praia e estabelecer uma frente unida, para depois iniciar o avanço para o interior. A batalha, então, se reiniciou com redobrada fúria. Restavam agora apenas 18 Alligators em operações, e os marines do batalhão de reforço tiveram que ser conduzidos a terra em lanchas. Obrigados a vadear os recifes, sofreram sangrentas perdas, porém muitos atingiram a costa. Ali, os americanos já se haviam lançado ao ataque. Saltando por cima das paliçadas, os fuzileiros se internaram na rede de casamatas e ninhos de metralhadoras japoneses, abrindo passagem à custa de granadas, lança-chamas e cargas explosivos. Alguns canhões de campanha, desembarcados durante a noite, serviram para apoiar o avanço, disparando o queima-roupa com projéteis providos de espoleta de ação retardada.

 

No centro do zona de luta, os marines alcançaram, após um avanço difícil, as pistas do aeródromo. Um após outro, os redutos japoneses que iam ficando no retaguarda eram eliminados com cargas de dinamite. Os japoneses, combatendo com denodo fanático, faziam-se matar até o último soldado. Mesmo feridos, continuavam disparando suas armas e tinham que ser exterminados a granada e a baioneta. Frente a um inimigo que demonstrava uma tal resolução, os marines atuaram com a mesma dureza. Poucas vezes no transcurso da guerra se combateu com tanto fúria.

 

Nas praias "Vermelho 1" e "Vermelho 2" conseguiu-se finalmente esmagar a resistência inimiga. Extenuados, os marines prosseguiram, durante o entardecer, a sua penetração. Às 4 da tarde, grupos de americanos, comandados pelo Coronel Jordan, alcançaram a costa sul da ilha. Uma hora mais tarde, depois de receber a notícia, o Coronel Shoup enviou uma mensagem ao encouraçado Maryland, anunciando o vitorioso desenvolvimento dos acontecimentos: “Fortes perdas... Porcentagem de mortos desconhecida... Estamos ganhando... ”.

 

Para consolidar a ocupação do extremo ocidental de Betio, um novo batalhão foi desembarcado junto com uma companhia de tanques leves na tarde de 21 de novembro. Essa jornada fôra decisiva, pois as tropas americanas haviam alcançado, finalmente, a necessária liberdade de movimentos para empreender a destruição dos últimos centros de resistência japonesa.

 

Vitória

 

Durante a noite, desceu à terra o Coronel Edson, chefe do Estado-Maior da 2a Divisão de Fuzileiros-Navais, e elaborou, junto com o Coronel Shoup, os planos de ataque da jornada seguinte. Era necessário eliminar o poderoso bolsão de resistência japonês que ficara incrustado entre as posições americanas nas praias "Vermelho 1" e "Vermelho 2". Ao mesmo tempo, os marines empreenderiam o avanço pela costa sul em direção ao extremo oriental da ilha. Às oito horas do manhã de 22 de novembro iniciou-se esta última operação. Colocando duas companhias de fuzileiros como ponta de lança, os americanos se deslocaram através da estreita franja de terreno, poderosamente fortificada pelos japoneses, que se estendia entre a pista do aeródromo e o mar. Limpando metodicamente o terreno, numa série de sangrentos combates, os marines conseguiram atravessar todas as posições inimigas e, ao terminar o dia, já haviam já alcançado o extremo do aeródromo.

 

A situação se apresentou muito menos favorável no bolsão norte. Centenas e centenas de marines americanos pereceram nessa fracassada tentativa, vitimados pelos projéteis dos atiradores emboscados e das inesperadas rajadas de metralhadoras colocadas pelos japoneses nas crateras das granadas e nas casamatas destruídas.

 

Apesar do fracasso dessa operação; as forças americanas haviam conseguido, ao término do dia 22 de novembro, assegurar suas posições am todo o extremo ocidental da ilha de Betio. Unidades avançadas combatiam na zona oriental do aeroporto, eliminando ali os últimos focos de resistência japonesa. A encarniçada oposição que os japoneses continuavam oferecendo nos restantes setores da ilha, levaram o comando americano a considerar a possibilidade de que a luta se prolongasse ainda por mais cinco dias.

 

Os japoneses, no entanto, já haviam chegado ao limite de suas forças. Apenas uns 1.000 combatentes permaneciam ainda com vida e estavam totalmente exaustos. Suas munições, praticamente, estavam esgotadas, e careciam por completo de víveres e medicamentos. Acocorados em grupos isolados nos escombros dos redutos demolidos pelas bombas, estavam porém decididos a combater até o fim. Na madrugada de 23 de novembro, muitos deles se lançaram num ataque suicida sobre as linhas americanas e, em alguns setores, conseguiram abrir passagem. Os marines recorreram então à luta corpo a corpo e aniquilaram com baionetas e granadas os contingentes inimigos. Peças de artilharia foram rapidamente montadas na primeira linha e disparavam seus obuses a queima-roupa sobre as massas de soldados japoneses que, amparados pela escuridão, se movimentavam para o assalto. Quando o sol voltou a iluminar o campo de batalha, mais de 300 japoneses jaziam mortos...

 

Às 8 da manhã, os marines se lançaram ao assalto para completar a ocupação do extremo oriental da ilha. Uma cadeia de casamatas situada nos limites do aeródromo deteve temporariamente os ataques; mas foi finalmente sobrepujada, após violenta luta. No interior dos refúgios, os soldados japoneses, em vez de render-se, preferiam suicidar-se, utilizando seus fuzis e granadas. O reduto blindado que servia de posto-de-comando ao Almirante Shibasaki foi atacado de várias direções pelos soldados americanos, que o destruíram, lançando pelas vigias poderosas cargas explosivas. Todos os seus ocupantes, inclusive Shibasaki, pereceram ali, sepultados sob uma imenso massa de escombros. O fim desses homens fôra digno dos velhos samurais: haviam sucumbido sem largar as armas, até mesmo sabendo que estavam perdidos e sem nenhuma possibilidade de escapatória.

 

Pouco depois da 1 hora da tarde, um batalhão de marines, comandado pelo Tenente-Coronel Kenneth MacLeod, alcançou a ponta oriental de Betio, depois de liquidar mais de 400 japoneses no decorrer do seu avanço. Na retaguarda, o último bolsão de resistência, localizado entre as praias "Vermelho 1" e "Vermelho 2", foi objeto de um último ataque, realizado de forma concentrada da terra e apoiado, da costa, por um pelotão de infantes munidos de dois canhões de 75 mm. Metro por metro, os marines foram limpando o terreno, até que, finalmente, a última casamata voou pelos ares, despedaçada pelos impactos dos canhões.

 

Assim se concluiu a batalha infernal. No transcurso da luta caíram mortos e feridos 3.301 fuzileiros-navais. 0s japoneses terminaram praticamente exterminados. Mais de 4.000 foram mortos e somente 17 soldados japoneses e 129 trabalhadores coreanos foram capturados com vida. A crônica oficial americano conclui o relato da ação com uma lacônica frase que, contudo, encerra todo o gigantesco drama desse entrechoque sangrento: “Foi um preço muito elevado que se pagou por umas poucas centenas de acres de coral...”. O atol de Makin, atacado pelas tropas do 27a Divisão de Infantaria, comandadas pelo General Ralph Smith, na manhã de 20 de novembro, foi também ocupado três dias mais tarde. Ali, a resistência japonesa foi igualmente encarniçada. Apesar da enorme superioridade numérica, os americanos tiveram o seu avanço retardado pela fanática oposição oferecida no ilha de Butaritari, a principal do atol, pelos efetivos japoneses. Ao finalizar a luta, 800 japoneses haviam sido massacrados e 105 aprisionados. Destes últimos, porém, apenas um era soldado; os outros pertenciam, como já foi dito, a grupos de trabalhadores coreanos. Os restantes atóis do arquipélago das Gilbert caíram nas mãos de reduzidos destacamentos americanos conduzidos em coça-minas e submarinos. A 29 de novembro o campanha estava concluída. Havia-se dado o primeiro grande passo na marcha para Tóquio, através do Pacífico Central.

 

 

Anexo

 

“Gung Ho!”

17 de agosto de 1942. Em meio às sombras que encobrem as águas do Oceano Pacífico, emergem as negras silhuetas de dois submarinos americanos. Instantes mais tarde, quando ainda a espuma das ondas desliza sobre a coberta, as escotilhas se abrem e do interior das naves surgem dezenas de homens armados. Têm os rostos enegrecidos e vestem uniformes especialmente camuflados para combater na floresta. Respondendo às ordens dos seus oficiais, os soldados inflam, em rápida e silenciosa manobra, os botes pneumáticos que os conduzirão para o seu objetivo. A operação fica concluída em poucos minutos. Os botes são lançados ao mar e os soldados embarcam, levando suas metralhadoras, fuzis-automáticos, cinturões de granadas e cargas explosivas. Um após outro, os pequenos motores adaptados aos botes são postos em movimento, e a força ruma para a ilha que se acha a poucas centenas de metros de distância. Assim se inicia o ataque de surpresa contra Makin. Seus protagonistas são os célebres raiders dos fuzileiros-navais, capitaneados pelo Coronel Evans Carlson, e constituem a réplica americana dos comandos britânicos. Homens audazes, duros, dispostos a matar sem compaixão o inimigo; foram submetidos a um rigoroso treinamento que os converteu em peritos na luta corpo a corpo e nas táticas de sabotagem. O lema da unidade "Gung Ho!" (do chinês, "trabalhar unidos") é símbolo do seu método de luta. Constituem, efetivamente, uma verdadeira equipe de combatentes de elite, para os quais, o único objetivo consiste em eliminar o inimigo da forma mais rápida e eficiente possível. Não existem melhores homens para enfrentar os japoneses. Como eles, os raiders aprenderam a subsistir na floresta com rações mínimas, a permanecer durante semanas emboscados, e realizar marchas extenuantes.

Amparados pela escuridão, os dezoito botes alcançam as praias sem serem pressentidos pelos japoneses. Uma vez em terra, Carlson ordena aos seus homens que se agrupem. Nesse momento, um estampido ressoa... Um dos fuzis dos raiders disparou acidentalmente. Para Carlson a surpresa está perdida, pois indiscutivelmente os japoneses ouviram a detonação. Não há portanto, um só minuto a perder. Determina peremptoriamente: espalhar-se e aniquilar o inimigo onde for encontrado... Uma companhia, comandada pelo Capitão Merwin Plummey, coloca-se na vanguarda e se interna na mata. Tem que alcançar, antes do amanhecer, a costa oposta, com o fim de cortar a ilha em dois. Os homens de Plummey, deslizando silenciosamente através da espessa vegetação, chegam à clareira onde se ergue o edifício da antiga dominação britânica. Separando-se, os raiders rodeiam a casa. Dois deles avançam até a porta principal, cobertos pelas metralhadoras dos companheiros. Um tranco violento abate a folha de madeira e imediatamente os dois homens invadem o interior com suas armas prontas para disparar... Não há, contudo, ali, ninguém para oferecer resistência. A informação é imediatamente transmitida a Carlson. este deduz, então, que os japoneses se concentraram no extremo ocidental da ilha. Para esse setor dirige o ataque. Um dos submarinos, o Nautilus, se aproxima da costa e, ao nascer do sol, emerge repentinamente e dispara o seu canhão da coberta contra as posições japonesas. Os raiders, entrementes, convergem sobre as linhas inimigas. Trava-se, então, no meio da floresta, uma luta encarniçada. Aviões japoneses aparecem sobre a ilha e bombardeiam e metralham a floresta, no intento de deter o avanço americano. Sua ação, porém, resulta em nada. Um após outro, os soldados japoneses são executados pelos raiders. Ao cair da tarde, a operação está praticamente concluída. Carlson ordena aos seus homens que se reagrupem nas praias para a evacuação. Esgotados, os raiders trepam nos botes e se internam no mar, rumo aos submarinos que os aguardam. A violenta rebentação, no entanto, impede que a operação se complete. Apenas uns poucos botes, navegando dificultosamente, chegaram aos submarinos. O grosso da força permaneceu em terra aguardando que o mar se acalmasse. Nessa circunstância, Carlson dispôs-se a aproveitar a demora para complementar a tarefa de destruição: grupos de raiders voltaram a internar-se na ilha e dinamitaram um depósito oculto de combustível, destruindo mais de 1.000 tambores de gasolina. Naquela noite, o reembarque foi executado com sucesso. Dos 221 raiders que intervieram na operação, 21 haviam perecido na luta; outros 9, que se extraviaram na mata, foram posteriormente capturados e executados pelos japoneses.

O ataque contra Makin, apesar da fama que granjeou para os "rapazes do Gung-Ho!", como foram chamados dali por diante os raiders de Carlson, teve conseqüências desfavoráveis para os americanos. Alarmados pelo êxito da incursão, os japoneses resolveram enviar importantes reforços para Makin e às outras ilhas do arquipélago das Gilbert, e levantar, nesse setor, poderosas fortificações. Assim, em novembro de 1943, as forças de assalto dos fuzileiros-navais que atacaram Makin e Tarawa, tiveram que enfrentar uma resistência bem plantada.

 

 

Defesas de Tarawa

A ilha de Betio, no atol de Tarawa, havia sido convertida pelos japoneses numa verdadeira fortaleza. As defesas se estendiam ao longo do perímetro costeiro, cobrindo todas as possíveis vias de aproximação das forças de desembarque americanas. Sobre as praias, e principalmente na costa norte, a arma defensiva básica japonesa era a metralhadora de 13 mm. No lado meridional a metralhadora de 7,7 mm foi utilizada com o mesmo propósito. Essas armas foram montadas em redutos abertos, para permitir também o seu emprego como armas antiaéreas. Os ninhos de metralhadoras na costa norte podiam abrir fogo de flanco sobre as barreiras levantadas ao longo do quebra-mar, e também estavam em condições de martelar frontalmente com sua metralha os acessos diretos à praia. No interior da ilha, os refúgios e depósitos de munições à prova de bombas foram também empregados como posições defensivas escalonadas em profundidade, embora não tenham sido originalmente construídos com tal propósito. Os refúgios, no entanto, não podiam em sua maioria defender-se contra ataques lançados de várias direções, pois careciam de viseiras suficientes. Estas obras eram complementadas por uma densa rede de obstáculos de todos os tipos. Eram fossos antitanque, barricadas costeiras, muros de troncos de palmeiras, alambrados submersos abaixo do nível do mar e alambrados estendidos na própria praia. Os principais obstáculos distribuídos ao longo do quebra-mar, haviam sido dispostos de forma a canalizar a aproximação das lanchas de assalto americanas, sobre determinados setores que podiam ser varridos efetivamente pelo fogo dos canhões de 127, 80, 70, 37 e 13 mm. Na ilha, os japoneses contavam ao todo com quatro canhões de oito polegadas, quatro de 140 mm, quatro de 127, seis de 80, dez de 75, seis obuses de 70 mm, oito canhões também de 70 mm, nove canhões de campanha de 37, e 31 canhões de 13 mm. Dispunham, também, de quatro tanques armados com canhões de 37 mm.

O fogo dessa poderosa massa de artilharia estava sujeito à direção de um comando centralizado, que dispunha de todos os elementos de controle necessários (telêmetros, radiotelefones, etc.) . Os canhões estavam localizados em redutos fortemente defendidos por muros de troncos de palmeiras, capas de concreto e pirâmides de areia. As guarnições das peças dispunham, por sua vez, de refúgios, também protegidos por grossas coberturas de troncos e concreto, recobertos de areia. Em depósitos de iguais características armazenavam-se as munições e projéteis.

A guarnição da ilha, comandada pelo Almirante Keiji Shibasaki, possuía 4.836 homens. Entre esses efetivos, contavam-se cerca de 2.000 trabalhadores, dos quais uma elevada proporção eram coreanos.

 

 

"Eu esperava a morte..."

Relato do Sargento James C. Lucas, dos fuzileiros-navais americanos, que desembarcou em Betio com as primeiras levas de assalto.

"Assim que saltamos em direção à praia, o inimigo começou a lançar granadas. Uma lancha que passou a nosso estibordo recebeu um impacto direto e cinco dos homens que iam a bordo pereceram. Acercamo-nos do costado da embarcação e recolhemos os sobreviventes. Uma lancha de comando passou perto, a toda velocidade, e um oficial da marinha gritou que nos detivéssemos até receber aviso de que poderíamos seguir adiante. Eram dez e meia da manhã.

"A uma da tarde retomamos o avanço em direção ao embarcadouro, porém o fogo das metralhadoras nos obrigou a parar. As balas ricocheteavam na água, por todo lado. Outras duas lanchas afundaram e muitos dos soldados que transportavam pereceram. Tivemos que retroceder sem poder recolher os náufragos. O sol queimava e não havia sombra onde abrigar-nos. Muitos homens rumavam para a praia. Nisso, ouvimos uma rádio que anunciava que um grupo havia chegado à costa, contra forte oposição, e que as baixas haviam sido graves. Esperamos várias horas. A meia-noite, apareceu na escuridão uma lancha de comando e recebemos ordens de seguir adiante. Vagarosamente, nos aproximamos do embarcadouro, que fôra parcialmente destroçado pelas bombas de nossos navios e aviões. Começamos a vislumbrar à direita o casco de um transporte japonês. Dois projéteis disparados por nossos destróieres o haviam destruído, porém, a bordo ainda restavam alguns atiradores inimigos que dispararam contra nós ao subirmos no embarcadouro. Colamos o ventre no chão. Avançamos uns três metros em direção à cabeceira do ancoradouro porém tivemos que nos lançar ao solo outra vez, porque os japoneses nos alvejavam com morteiros. Um projétil caiu na água, muito perto de onde estávamos. Um dos companheiros gritou para que passássemos ao outro lado do dique, porque o terceiro disparo nos cairia em cima. Assim fizemos, porém não sabíamos mais para onde ir. As linhas japonesas estavam a cinqüenta metros da beira-mar. O último trecho do embarcadouro tinha uma capa de coral branco numa extensão de 75 metros, e, como a lua estava muito clara, ao destacar-nos contra o fundo branco, oferecíamos um alvo perfeito para os japoneses. Agachados, vencemos correndo um curto trecho. Os japoneses abriram fogo e seis dos nossos homens caíram mortos. Ficamos imóveis como troncos. Alguém disse que se ficássemos ali, nos matariam a todos, e sugeriu que avançássemos devagar, em grupos de dois homens, guardando dois metros de distância entre cada um; assim talvez conseguíssemos evitar a morte.

"Apenas havíamos dado alguns passos quando outros três soldados caíram mortos. Arrastamo-nos centímetro por centímetro. Cada dez metros que ganhávamos, pereciam vários homens. Eu esperava a morte de um momento para outro... Por fim, mergulhamos na escuridão mais adiante. Na praia, o tiroteio continuava forte. Ocultamo-nos atrás de um trator. Com uma pá que encontrei me pus a escavar furiosamente. Em cinco minutos tínhamos cavado um buraco para proteger-nos... Quanto mais aprofundávamos a improvisada trincheira mais as balas, às dúzias, martelavam a areia à nossa volta. Aquele refúgio me salvou a vida".

 

 

Tenacidade

A várias centenas de quilômetros ao norte de Tarawa se encontram as grandes bases aéreas japonesas

do arquipélago das Marshall. Um desses aeródromos é atacado por uma esquadrilha de caças Hellcat do porta-aviões americano Yorktown. Lançando o seu aparelho em vôo rasante, o chefe da esquadrilha, Capitão Charles Crommelin, dispara todas as suas metralhadoras sobre um bombardeiro Mitsubishi estacionado ao lado da pista. Concentrado na manobra de ataque, Crommelin não percebe o fogo que sobre ele desatam as peças antiaéreas japonesas. Repentinamente, uma granada de 40 mm atravessa a cabina e estoura no seu interior com violenta explosão. O efeito é devastador: a maior parte dos instrumentos do Hellcat ficam destruídos, convertidos numa massa informe de cabos e diais destroçados. O pára-brisas, à prova de balas resistiu ao impacto porém ficou coberto de mil rachaduras que impossibilitam totalmente a visão. Crommelin, semi-inconsciente, se agarrou à alavanca de comando e manteve, a duras penas, o Hellcat em vôo estabilizado. Por um verdadeiro milagre os cabos de controle não haviam sido seccionados e o avião pôde manter-se no ar. Ao recobrar a lucidez, Crommelin comprovou que estava praticamente coberto de ferimentos. Com o olho esquerdo não via nada e com o direito, muito pouco. Seu pulso direito estava fraturado e tinha ferimentos na boca e no peito. Contudo, o piloto americano não se deu por vencido. Havia já atravessado, em combates anteriores situações críticas das quais conseguiu, graças à sua inquebrantável força de vontade, sair com vida. Também nesta oportunidade conseguiria iludir a morte. Aproximando-se do seu Hellcat os restantes aviões da esquadrilha voaram ao seu lado, prestando-lhe proteção. Assim, praticamente às cegas, Crommelin iniciou a incrível viagem de regresso, disposto a não recuar no seu propósito. Nesse momento mais - de 200 km o separavam da coberta do Yorktown... Sua tenacidade, porém, converteu em realidade o que parecia impossível. Sobrepujando as terríveis dores, conduziu com mão firme o seu avião até o porta-aviões e conseguiu aterrissar impecavelmente. Posteriormente, um oficial da belonave declararia que sua aterrissagem havia sido "tão boa que podia ser utilizada como exemplo num filme de treinamento". Não se concluiu aí a extraordinária façanha. Crommelin, em seguida, conduziu o Hellcat até colocá-lo, em seu preciso local de estacionamento. Ali os mecânicos e enfermeiros rodearam o aparelho. Da cabina destroçada surgiu então Crommelin erguendo-se dificilmente. Seu capacete de vôo e seu uniforme estavam totalmente esfrangalhados e cobertos de sangue... Mas, ele conseguira!

 

 

O Cabo Johnny Spillane

Os tanques anfíbios da primeira leva de desembarque se afastam dos transportes e rumam para a praia inimiga. Encostados contra as amuradas blindadas do The Old Lady e abaixando a cabeça cada vez que uma rajada de metralhadora silva perigosamente, uma seção de fuzileiros-navais se aproxima do objetivo. Para alguns homens a marcha da embarcação é demasiadamente rápida; para outros, angustiosamente lenta. Para o cabo Spillane as coisas vão simplesmente como deviam ir; nem mais nem menos; tem confiança em si: sabe que os reflexos do seu corpo magro, porém musculoso, são velozes, seu instinto certeiro e que sua presença de espírito não o abandona nos momentos de apuro. No campo de instrução dos marines, os sargentos apreciavam a sua facilidade para sair de qualquer situação em que se encontrasse. Da mesma forma que na cancha de baseball encontrou sempre um jeito de anular os mais hábeis batedores; por algo os treinadores das Primeiras Divisões iam de vez em quando falar com seu pai, para incorporá-lo às suas equipes.

Na praia, entre os coqueiros da mata, e sobre as ondas, explodem com infernal fragor as granadas dos barcos que, com sua artilharia, protegem o desembarque. Os tanques percorrem os últimos metros antes de parar inutilizados sobre as areias brancas que as explosões já pincelam de preto numa larga franja. De bordo se distinguem perfeitamente as silhuetas dos japoneses entrincheirados atrás de uma sólida barricada de troncos que, com fogo cruzado de metralhadoras pesadas, obrigam a permanecer estendidos na praia os primeiros desembarcados.

De súbito, uma granada vinda do alto vai cair no ventre do The Old Lady. Os homens se agacham aterrorizados, menos o cabo Spillane, que se precipitou para diante, com a mão esquerda preparada: agarra a granada no ar, troca-a de mão e, num movimento ágil, muitas vezes praticado, devolve-a com força em direção dos "remetentes". Outra granada: Spillane desta vez tem que saltar para apanhá-la e, rapidamente, a arroja ao mar. Seus companheiros o contemplam com expressões de incredulidade, assombro e terror estampados em seus rostos. Chegam outras duas e Spillane repete a manobra: as granadas vão parar longe em meio às exclamações de espanto das tropas de assalto, que assistem fascinadas a essa insólita exibição. Outra granada e mais outra. Porém, a sexta lhe explode na mão. Johnny Spillane jaz de bruços sobre o fundo do tanque; a metralha estraçalhou seus dois joelhos, feriu suas costas, seus ombros e seus quadris, e uma espuma sanguinolenta borbulha no toco vermelho que ocupa o lugar onde antes existia a sua mão direita. Porém, as tropas de assalto se espalharam pela praia e começam a escalar a paliçada de grossos troncos. Embora, para Johnny Spillane se tenha encerrado prematuramente uma promissora carreira no baseball, ele sabe que seu sacrifício possibilitou o avanço dos seus companheiros que saberão vingá-lo. E há uma certa dose de orgulho em sua voz quando diz ao marinheiro: "Parece que agora podemos ir", e o enorme tanque anfíbio faz meia volta para  transportar Johnny ao barco-hospital.

 

 

O fim do "Liscome Bay"

24 de novembro de 1943. São as primeiras horas da madrugada. A 40 km a sudoeste do atol de Makin navega o porta-aviões de escolta americano Liscome Bay em companhia de outros dois porta-aviões semelhantes. O Liscome BaY é a nave do Almirante Henry Mullinix, cuja missão é dar apoio aéreo às tropas da 27a Divisão de Infantaria encarregadas da conquista de Makin. A luta no atol já se concluiu, com a destruição total da guarnição japonesa, e o Liscome Bay se dispõe a partir rumo às ilhas Havaí.

O destino, porém, traçou uma cruel encruzilhada para a belonave. Deslizando sob a superfície do oceano, um submarino japonês se aproxima sem ser detectado pelo porta-aviões, e dispara contra ele seus torpedos. Atingido em cheio, o Liscome Bay se converte numa gigantesca fogueira, ao explodir seu paiol de pólvora e depósitos de combustível. Em menos de 30 minutos, o porta-aviões de 7.800 toneladas desaparece nas profundezas do Pacífico, arrastando 591 homens da sua tripulação. Dentre eles, o Almirante Mullinix. Transcrevemos, a seguir, o relato de vários marujos americanos que, de outras belonaves, presenciaram a tragédia.

“Poucos segundos depois da primeira explosão, produziu-se uma segunda, que parecia ser proveniente do interior do Liscome Bay, projetando o navio para o alto e lançando pedaços de metal e aviões claramente visíveis no ar a 200 e mais pés de altura; parecia que todo o barco explodira, e quase no mesmo instante o seu interior, com exceção dos setores extremos da proa e da popa, resplandecia em chamas como se fosse um forno. Nosso barco, situado a uma distância de 1.500 jardas ficou coberto, do castelo de proa até a popa, com partículas de petróleo e fragmentos ardentes e apagados - estilhaços da coberta do Liscome Bay - de até três pés de comprimento. Caíram também grandes quantidades de pedaços de metal e até de roupas.

“...O Liscome Bay adernou imediatamente para estibordo, a energia e as comunicações internas se interromperam, e no setor central intensificaram-se os incêndios. Os cem pés da coberta de vôo da popa foram pelos ares e se abriu um grande buraco no lado de estibordo. Um avião em chamas lançado ao mar, incendiou o petróleo que flutuava sobre a superfície das águas e paulatinamente as chamas foram cobrindo uma ampla zona”.

“Vimos despojos elevarem-se até quatrocentos pés de altura, assim como também algo semelhante a um ascensor sair violentamente fora do barco e cair a duzentas jardas de distância. Outras explosões se produziram à medida que os incêndios chegavam aos aviões carregados com bombas. Mais tarde, outra massa metálica voou pelos ares, até mais de 800 pés sobre o navio em chamas, e depois de uma violenta explosão final, este afundou”.

“Era comentário geral em nosso destróier que, embora as baixas sofridas no Liscome Bay fossem horríveis, seria um verdadeiro milagre alguém salvar-se daquele inferno candente... Aparentemente, as bombas, torpedos, gasolina e munições, tudo explodiu junto. O barco inteiro foi envolvido pelas chamas com tal rapidez, que o controle de avarias e os equipamentos de luta contra incêndios ficaram fora de qualquer cogitação. O pessoal que conseguiu escapar estava gravemente afetado, e alguns haviam sofrido consideráveis queimaduras, fraturas dos membros e comoções... Quase todos aqueles que foram recolhidos a bordo do nosso barco tinham algum ferimento grave. Um homem faleceu enquanto o médico lhe aplicava plasma sanguíneo; outro morreu na água antes de ser recolhido pela lancha salva-vidas... Nosso destróier recolhera já, em outras batalhas, sobreviventes do velho Lexington, do velho Yorktown e do velho Hornet, porém era opinião unânime de que o afundamento do Liscome Bay e as condições dos relativamente poucos sobreviventes, constituíam o desastre mais patético visto até aquele momento... Exemplar, é a palavra com que podemos nos referir ao comportamento demonstrado pelos homens recolhidos na água. O denodo desses homens era eletrizante. Um marujo, que fôra operado de apendicite dois dias antes, não somente trepou pela rede salva-vidas sem nenhuma ajuda, mas também, ao chegar à coberta perguntou se não havia à mão um bote de borracha que ele pudesse tripular a prestar ajuda a outros companheiros seus em dificuldades...”.

 

 

 

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