Conspiração contra Hitler

 

A conspiração está em marcha

            

A Conspiração

 

 

Inverno de 1941. A Wehrmacht acaba de sofrer a sua primeira grande derrota, às portas de Moscou. Os exércitos soviéticos, resistindo encarniçadamente, contiveram o que parecia impossível conter: o impetuoso avanço alemão sobre a capital da Rússia. Embora ninguém no mundo pudesse ainda vislumbrá-lo, esse episódio marca o princípio do fim da Alemanha nazista. A cega confiança na vitória final, que Hitler conseguira inspirar aos seus assessores, começava a fraquejar. O Exército alemão não era, indiscutivelmente, invencível. Podia ser paralisado o seu avanço e, mais ainda, derrotado. Diante das portas de Moscou os chefes alemães acabavam de comprovar esse fato. Constatação amarga, porém mínima, em relação ao que ainda passariam os homens da Wehrmacht e o povo da Alemanha.

 

A desmoralização que o gravíssimo episódio provoca entre muitos chefes do Exército alemão é rapidamente enfrentada por Hitler com a sua característica dureza. O Marechal-de-Campo von Brauchitsch é imediatamente destituído e Hitler assume o comando direto das tropas. Também são afastados do serviço ativo muitos dos chefes mais brilhantes: os Marechais Rundstedt, Bock e o General Guderian, entre outros. Durante o transcorrer da luta invernal ocorreu outra destituição: a do Marechal von Leeb, que logo foi acompanhada pelas de 35 chefes de divisões e Corpos.

 

O Führer descarrega assim sobre os comandos do Exército a responsabilidade da derrota, reabrindo o seu antigo atrito com as forças armadas. Já no princípio do seu regime, Hitler compreendera que o corpo de oficiais, imbuído das velhas tradições prussianas, constituía um dos principais obstáculos no seu caminho, em direção ao pináculo do poder absoluto. Houve um momento em que o General von Fritsch, comandante-chefe do Exército, pareceu salientar-se, para os elementos opositores ao nazismo, como a figura que haveria de liderá-los. Hitler, contudo, recorrendo a uma falsa imputação, destituiu-o do seu alto cargo.

 

Von Fritsch entrevistou-se com o General Beck, chefe do Estado-Maior e um dos mais rancorosos inimigos do regime nazista. Nessa reunião, os dois altos chefes discutiram a possibilidade de executar um golpe militar. Era tarde, contudo. O Führer, agindo rapidamente, determinou o afastamento de 16 generais, transferindo outros 44 para outros comandos. Fritsch e Beck, diante da situação, vacilaram em pôr em prática os seus planos, temendo que o levante provocasse uma verdadeira guerra civil. Poucos dias mais tarde, a 4 de fevereiro de 1938, o Führer tomou uma última medida para garantir sua supremacia absoluta. Numa reunião com seus líderes fez promulgar um decreto no qual se proclamava comandante-supremo das Forças Armadas. Ao mesmo tempo aboliu o Ministério da Guerra e, para substituí-lo, criou uma nova organização: o OKW (Oberkommando der Wehrmacht) (Alto-Comando das Forças Armadas), à qual ficariam subordinados o Exército, a Marinha e a Aviação. Hitler, como comandante-supremo, colocou à frente desse organismo, com o título de chefe do OKW, o General Keitel, um homem medíocre que lhe era totalmente fiel. Como sucessor de Fritsch, designou o General von Brauchitsch, que, quatro anos depois, seria destituído. Esse foi o primeiro triunfo do ditador nazista sobre os seus oponentes. As tentativas que posteriormente realizariam para derrubá-lo terminariam, como a primeira, em fracasso.

 

A impotência em que se debatiam os inimigos do regime nazista se manifesta claramente nas palavras que Fritsch dirigiu ao diplomata alemão von Hassel: "Esse homem [Hitler] é o destino da Alemanha, para o bem e para o mal; se se lançar agora a um abismo, nos arrastará a todos com ale... Nada há que possamos fazer...".

 

 

A renúncia de Beck

 

Maio de 1938. O Führer está disposto a levar avante seus planos de agressão contra a Checoslováquia. No dia 28 desse mês, Hitler reúne na Chancelaria os chefes da Wehrmacht. Ali estão Goering, Keitel, o Almirante Raeder, Ribbentrop e os Generais von Brauchitsch e Beck. O Führer lhes anuncia: "É minha decisão irrevogável que a Checoslováquia seja riscada do mapa". As respectivas ordens são emitidas dois dias mais tarde, colocando em marcha o Plano Verde, que determina as operações militares de ocupação do pequeno país. A data limite para o início do ataque fica fixada: 1° de outubro de 1938.

 

A decisão de Hitler coloca novamente em evidência a oposição que seus atos despertam no Exército. O General Ludwig Beck, chefe do Estado-Maior, é agora o principal expoente da discordância com o Führer. Já antes da citada reunião na Chancelaria, Beck tivera conhecimento dos planos de Hitler. Nessa ocasião o chefe do Estado-Maior dirigiu um memorando ao General von Brauchitsch. Nessa nota delineava claramente as conseqüências seguras da ação programada pelo Führer: "Um ataque alemão contra a Checoslováquia provocará uma guerra européia, na qual a Grã-Bretanha, a França e a Rússia se oporão à Alemanha, e os Estados Unidos serão o arsenal das democracias ocidentais. A Alemanha, simplesmente, não pode ganhar esta guerra. O simples fato da sua carência de matérias-primas torna impossível a vitória. Evidentemente, a situação atual econômica e militar da Alemanha é pior do que a que existia em 1917/18, quando se iniciou o derrocada dos exércitos do Kaiser". As palavras de Beck demonstravam uma extraordinária visão dos acontecimentos que se sucederiam às ações programadas pelo ditador nazista. Jogavam por terra, também, o pretensa genialidade militar de Hitler. Os conceitos de Beck, opostos aos do Führer, materializaram-se matematicamente. No curso dos anos que se seguiram aquele episódio, foi a esmagadora superioridade das potências aliados que aniquilou a Alemanha de Hitler.

 

Convencido de que o caminho que a Alemanha seguia, sob a direção do Führer, conduzia inapelavelmente ao desastre, Beck realizou desesperados esforços para induzir Brauchitsch a expor a Hitler a terminante oposição do Exército à execução dos planos em marcha. A 16 de julho de 1938, Beck redigiu um novo memorando dirigido a Brauchitsch em que solicitava que exigisse de Hitler a suspensão dos seus planos de conquista. Dizia, em um dos parágrafos desse documento: "Considero meu dever solicitar urgentemente que o comandante-supremo das Forças Armadas suspenda seus preparativos de guerra e abandone sua intenção de resolver o problema checoslovaco pela força, até que a situação militar esteja mudada. No presente, considero que esta situação não oferece nenhuma esperança e este ponto de vista é compartilhado por todos os oficiais superiores do Estado-Maior".

 

Aa apresentar este memorando a Brauchitsch, Beck colocou em jogo outra candente questão: "Deviam os generais obedecer cegamente a Hitler ou existiam limites determinados para essa obediência?" Beck, defendendo o segundo ponto, fez referência à consciência de cada oficial, que estava, disse, ''acima da obediência ao comandante-supremo". Para Beck, as coisas haviam chegado a tal ponto que os generais, para impedir a concretização dos planos de Hitler, deviam enviar suas demissões ao comandante-supremo. Dessa forma, disse Beck, "a guerra será impossível, porque não haverá quem comande os exércitos..."

 

Em uma nova entrevista com Brauchitsch, dias mais tarde, Beck expôs suas idéias com maior amplitude. Beck achava que Hitler ainda podia ser útil ao destino da Alemanha, se o separassem da influência dos seus assessores do Partido Nazista e da SS. Na ingenuidade da sua concepção, Beck acreditava ser possível que o Führer empreendesse um programa de reformas assim resumido: "Pelo Führer, contra a guerra, contra a prepotência dos dirigentes do Partido, pela paz com a Igreja, pela livre manifestação da opinião, pelo fim do terror, pela restauração da justiça, a redução à metade nas contribuições ao Partido, pela interrupção da construção de palácios e em favor da construção de moradias para o povo e mais probidade e simplicidade prussianas".

 

Embuído das suas idéias, Beck decidiu realizar uma reunião secreta de todos os principais chefes do Exército. Nessa reunião, que se efetuou a 4 de agosto de 1938, Brauchitsch deveria ler um vibrante discurso redigido pelo próprio Beck, incitando à oposição aos planos de Hitler. Brauchitsch, no entanto, não se atreveu a ler o documento. O próprio Beck, então, o fez. Suas palavras causaram um profundo impacto entre os presentes. Um deles, o General Adams, chefe das forças localizadas na fronteira francesa, corroborou os alarmantes informes de Beck, salientando que, caso os exércitos alemães fossem concentrados para um ataque sobre a Checoslováquia, não se poderia dispor no oeste de mais de cinco divisões ativas e estas seriam facilmente esmagadas pelos franceses.

 

Os chefes militares estavam a tal ponto dominados pelo curso dos acontecimentos que, apesar de estarem todos de acordo com os termos da proposta de Beck, nenhuma resolução contra Hitler surgiu da reunião. Entrementes, Brauchitsch havia apresentado a Hitler o memorando de Beck datado de 16 de julho. A reação do Führer foi característica. No dia 10 de agosto reuniu no seu refúgio de Bertschesgaden os chefes do Estado-Maior dos diversos exércitos, passando por cima dos seus comandantes. Dirigiu-se a eles num dos seus intermináveis monólogos, esmerando os seus recursos de persuasão, tratando de demonstrar-lhes a exatidão matemática de seus planos. Aconteceu então um fato insólito, sem precedentes: um dos chefes presentes, o General von Wietersheim, interrompeu o Führer no meio do seu incoerente discurso e disse: "Meu Führer mas se o grosso das forças militares for empenhado em um golpe contra a Checoslováquia, o Alemanha ficará indefesa no oeste e será facilmente invadido pelos franceses. Na verdade, Führer, a muralha do oeste não poderá ser defendida por mais de três semanas...". Hitler, levantando-se bruscamente, exclamou enfurecido: "Nesse caso o Exército não serve para nada! Eu lhe digo, Herr General, que a posição da muralha será defendida não somente durante três semanas, mas durante três anos!" Dessa maneira, a reunião se encerrou. Posteriormente, o General Jodl escreveria em seu Diário: "A opinião de Wietersheim é, infortunadamente, compartilhada amplamente pelos membros do Estado-Maior do Exército... O Estado-Maior não acredita no gênio do Führer... Desse derrotismo resulto não somente um imenso prejuízo político, porque todo mundo fala do antagonismo que existe entre os pontos de vista dos generais e do Führer, mas também uma ameaço para o moral dos tropas". Essa seria, porém, a última vez que Hitler permitiria uma livre e franca troca de opiniões com seus chefes. Beck, por sua vez, compreendendo que nenhum dos seus camaradas estava disposto a arriscar-se e lançar-se contra Hitler, apresentou, a 18 de agosto, sua renúncia como chefe do Estado-Maior. Procurava, com sua atitude, conseguir o apoio de outros camaradas de armas que, sabia, compartilhavam da sua oposição ao regime. No último instante, tentou convencer Brauchitsch para que imitasse o seu gesto, porém este se negou. O Führer aceitou imediatamente a renúncia de Beck, pois a mesma significava a auto-eliminação de um homem que representava para ele um perigo latente. Para evitar que a notícia da renúncia levasse aos países europeus a impressão de que na Alemanha existia uma crise nas Forças Armadas, Hitler ordenou que não fosse divulgada de maneira nenhuma, nem na imprensa, nem nos boletins militares. Como sucessor de Beck, designou o General Franz Halder, um brilhante chefe do Exército alemão. Halder, por sua vez, não tardaria a começar o conspirar também.

 

O grupo conspirador

 

Entre as figuras que militavam clandestinamente nos planos conspiratórios, destacava-se Carl Goerdeler, que havia ocupado o cargo de alcaide de Leipzig e também desempenhado funções no governo nazista. Sua associação com o regime de Hitler, porém, não durara muito. Em 1937 renunciou ao posto de alcaide, depois que os ativistas nazis da cidade conseguiram a retirada da estátua de Mendelssohn, alegando que o genial compositor era judeu... Esse fato, nova loucura sem precedentes entre as muitas arbitrariedades cometidas contra bens e pessoas, convenceu finalmente Goerdeler acerca da irracionalidade do regime nazista e de seus seguidores.

 

Goerdeler viajou posteriormente aos Estados Unidos, à França e à Grã-Bretanha e nos três países estabeleceu contato com importantes homens públicos, advertindo-os sobre o perigo que representava o regime de Hitler para a paz do mundo. Goerdeler, mais tarde, trabalhou como assessor financeiro de uma empresa de Stuttgart, posição que lhe permitia viajar livremente pela Alemanha e pela Europa inteira, ampliando o círculo dos seus contatos. Assim foi que se converteu na figura central do movimento de resistência ao nazismo.

 

Outros personagens atuavam já nas fileiras antinazistas. Um deles foi Ulrich von Hassel, que ocupara o cargo de embaixador em Roma e se converteu no assessor de política exterior do grupo.

 

Entre outros civis, contavam-se antigos dirigentes sindicais como Julius Leber, Jacob Kaiser, Wilhelm Leuchner, Theodor Haubach, Carlo Mierendorf e Adolf Reichwein, com os quais Goerdeler estabeleceu confabulações. Tomavam parte na conspiroação muitos jovens intelectuais como Ewald von Kleist, Fabian von Schlavendorf e o conde Helmut von Moltke, fundador do grupo de resistência denominado “Kreiseau”. Carl Ludwig von Gutenberg, editor de um jornal católico, o pastor protestante Dietrich Bonhoefer, o advogado Joseph Muller, o cardeal-arcebispo de Munique e Michael von Faulhaver.

 

Além dos personagens citados, existiam outros que atuavam nos círculos mais íntimos do nazismo, como na Abwehr (Serviço Secreto, dirigido pelo célebre Almirante Canaris). O lugar-tenente de Canaris, Coronel Hans Oster, era um decidido conspirador, assim como outros membros do serviço secreto, como Hans von Dohnanyi, Também funcionários do Gestapo, como Arthur Nebe, chefe da polícia criminal, e Hans Berndt Gisevius.

 

Entre as grandes figuras políticas contava-se o Doutor Wilhelm Schacht, gênio das finanças alemães e Johannes Popits, ministro de finanças da Prússia.

 

Esses elementos tinham plena consciência de que apenas um movimento apoiado pelo Exército teria êxito. Contudo, o renúncia de Beck havia eliminado o principal personagem militar que podia encabeçar um golpe de estado. Halder, o novo chefe do Estado-Maior, simpatizava com o movimento conspiratório, porém carecia de comando direto de tropas. Von Brauchitsch, por sua vez, era um elemento em que não se confiava inteiramente, pois já havia mostrado a sua indecisão em episódios como o protagonizado durante a renúncia de Beck.

 

Logo, contudo, os conspiradores travaram contato com três chefes militares: Erwin von Witzleben, comandante da guarnição de Berlim, o General von Brockdorff, comandante da guarnição de Potsdam, e o General Hoeppner, comandante de uma Divisão Blindada. Estes chefes aceitaram a possibilidade de um golpe de estado, e entraram no movimento, sob a orientação dos generais Halder e Beck. O projeto consistia no seguinte: quando Hitler desse a ordem final de atacar a Checoslováquia, seria preso e julgado nos Tribunais, sob a acusação de lançar a Alemanha numa guerra européia sem possibilidades de vitória. Estabelecer-se-ia uma ditadura militar que seria seguida por um governo civil.

 

A 3 de setembro de 1938, o Führer convocou os chefes da Wehrmacht e lhes comunicou que as tropas deveriam estar de prontidão sobre a fronteira da Checoslováquia a partir do dia 28 daquele mês, para levar avante a invasão.

 

Seis dias mais tarde, o ditador se reuniu com Keitel, Brauchitsch e Halder. Estes dois últimos apresentaram a Hitler um plano de ataque, que o Führer rechaçou totalmente, considerando-o impraticável e carente de força. A reunião se encerrou com uma veemente alocução de Hitler, que condenou duramente o derrotismo demonstrado pelos comandos do Exército.

 

Enquanto isso, um enviado do grupo de conspiradores, Edwald von Kleist, viajou a Londres, para informar o governo inglês de que Hitler estava decidido a atacar a Checoslováquia e que os chefes de Estado-Maior alemão estavam dispostos a rebelar-se, caso os britânicos mantivessem uma firme oposição aos planos de Hitler. Kleist entrevistou-se com funcionários do Ministério de Relações Exteriores e com Winston Churchill, o mais decidido opositor da política de não-intervenção. Kleist salientou claramente a Churchill que os chefes militares alemães atuariam se a Grã-Bretanha e a França declarassem publicamente que enfrentariam com a força qualquer tentativa de agressão da Alemanha contra a Checoslováquia.

 

Churchill entregou então uma carta a Kleist, destinada a reforçar a posição dos conspiradores. Nela, Churchill afirmava que a Grã-Bretanha atuaria decididamente e enfrentaria a agressão da Alemanha.

 

No seu regresso à Alemanha, Kleist exibiu a carta a Halder, Beck, ao Coronel Oster e ao seu próprio chefe, o Almirante Canaris.

 

Como resultado dessas gestões, Chamberlain procurou através do seu embaixador em Berlim, Henderson, marcar uma entrevista com o Führer. Assim se originou a tristemente célebre conferência de Munique.

 

Halder, por outro lado, enviou a Londres um emissário pessoal, o Tenente-Coronel da reserva Hans Boehm, que estabeleceu contato com o Ministério da Guerra britânico e o serviço militar de inteligência.

 

A último delonga foi efetuada através de um funcionário da embaixada alemã em Londres, o encarregado de negócios, Teodor Kordt. A 5 de setembro de 1938, foi levado ò presença de Lorde Halifax, ministro de Relações Exteriores. Kordt reiterou os informes já salientados: o Exército estava disposto a atuar contra Hitler se a Grã-Bretanha e a França se mantivessem firmes perante Hitler. Entrementes, os planos de Hitler previam a invasão do território checo para o dia 1° de outubro.

 

A 13 de setembro, no auge da crise, Chamberlain enviou uma mensagem pessoal ao Führer. Apesar de todos os avisos recebidos do movimento de resistência alemão, o primeiro-ministro inglês decidiu chegar a um acordo com Hitler.

 

Dessa forma ficou selada a sorte do primeiro grande complô. O que nenhum dos chefes militares alemães havia suspeitado, acabava de acontecer: A Grã-Bretanha e a França, inexplicavelmente, davam sinal verde ao ditador. Este foi o maior dos triunfos políticos na carreira de Hitler e marcou a hora mais sombria das democracias ocidentais. Acabava-se de sacrificar a Checoslováquia no altar de uma paz em que ninguém, intimamente, acreditava. Desmoralizados, os homens que haviam trabalhado pacientemente tecendo os fios da conspiração, compreenderam que fôra tudo em vão. De fato, o homem que eles apontavam como um agente da guerra, acabava de alcançar um triunfo político que o aureolava como o campeão da paz.

 

O General Halder assim comentou o fato: "Eu havia feito preparativos para um golpe de estado no momento oportuno e havia disposto tudo de tal forma que, praticamente, o êxito estava garantido. No entanto, a História decidiu contra mim. A intervenção de um estadista estrangeiro [Chamberlain] era algo em que eu nunca havia pensado."

 

Outro conspirador, Gisevius, revela: "Nossa revolta estava liquidada. Durante algumas horas continuei acreditando que, apesar de tudo, talvez ainda pudéssemos levar avante a rebelião, porém o General Witzleben me declarou que as tropas nunca se rebelariam contra o Führer vitorioso. Chamberlain salvou Hitler".

 

Assim foi perdida a melhor oportunidade que tiveram os grupos de resistência para salvar o Alemanha do trágico destino que o aguardava.

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Às vésperas da guerra

 

Hitler, resolvido a incorporar à Alemanha o território polonês, vê facilitada a sua ação pela assinatura do pacto de não-agressão germânico-soviético datado de 21 de agosto de 1939. A aliança com a Rússia eliminava a ameaça de uma guerra em duas frentes e possibilitava enfrentar a Grã-Bretanha e a França. Por outro lodo, o Führer estava absolutamente convencido de que, assim como com o Checoslováquia, tampouco pela Polônia as potências ocidentais iriam à luta. Conseqüentemente, fixou o data para o ataque: 1 ° de setembro de 1939.

 

Goerdeler, von Moltke e von Schlabrendorff viajam sucessivamente a Londres para inteirar o Governo britânico da nova ameaça à paz do mundo. As viagens se realizam entre os meses de maio e julho de 1939. Em Londres se entrevistam com Chamberlain, Halifax e, também, com Churchill. As possibilidades de rebelião por parte dos alemães desapareceram.

 

Beck entrevistou-se com Halder e este salientou que, na sua opinião, se a guerra se convertesse em mundial seria a ruína da Alemanha, porém que Hitler nunca chegaria a tal extremo. O episódio de Munique havia debilitado a posição dos próprios inimigos do Führer.

 

Os homens que até aquele momento haviam se movimentado para a derrubada de Hitler, convencidos de que sua influência levaria a Alemanha à ruína, começavam a sentir abaladas suas convicções.

 

A Alemanha caminhava para o desastre final. No entanto, muitos não acreditavam nisso. Deveriam arrepender-se mais tarde. Porém o momento da reação já havia ficado para trás.

 

Halder, desentendendo-se com a conspiração, dedicou os seus esforços a preparar a invasão iminente do território polonês.

 

A 25 de agosto ocorre um fato inesperado: Mussolini anuncia a Hitler que não entrará na guerra. A Grã-Bretanha, por sua vez, concretiza um pacto com a Polônia, pelo qual se compromete a entrar em guerra em defesa do nação polonesa.

 

As duas notícias chegam a Berlim e provocam uma verdadeira comoção geral. O Führer, surpreendido, vacila na sua decisão e ordena deter o deslocamento das tropas que já se achavam em marcha rumo aos seus objetivos.

 

Ante essa novidade inesperada, o júbilo se espalha nas fileiras dos conspiradores. O Coronel Oster anuncia o seus camaradas: "O Führer está liquidado...". O Almirante Canaris declara: "Hitler não sobreviverá a esse golpe. A paz está assegurada para os próximos vinte anos..." Contudo, o otimismo dos conspiradores breve se transmudaria.

 

A 31 de agosto de 1939, Hitler emitiu a Diretiva N° 1 para a condução da guerra. Nessa ordem determina à Wehrmacht atacar a Polônia no dia seguinte. Nessa mesma tarde, o Almirante Canaris se encontra com Gisevius e diz: "Isso significa o fim da Alemanha..."

 

O enigmático Almirante Canaris vislumbrava então o trágico destino que cairia sobre a Alemanha.

 

Uma tentativa desesperada

 

Os exércitos alemães esmagaram, com o tremendo poderio de sua superioridade material, os mal armados exércitos poloneses. Foi um impacto que assombrou o mundo. Era a blitzkrieg. Uma avalanche de blindados e aviões acabava de levar a cabo o primeiro ensaio do que seria a guerra total.

A França e a Grã-Bretanha permaneceram paralisadas, sem fazer tentativa alguma para ajudar os poloneses, cuja independência se haviam comprometido a salvaguardar. Enquanto isso, na fronteira ocidental, as forças alemães, praticamente, careciam de unidades capazes de oporem-se aos exércitos aliados. O grosso da Wehrmacht estava comprometido na luta na Polônia. Dois dias antes da queda de Varsóvia, a 25 de setembro, Hitler ordenou a Halder que iniciasse imediatamente o planejamento do ataque contra a França. A 27 de setembro, o Führer reuniu os chefes militares na Chancelaria e informou a todos que resolvera passar, sem perda de tempo, à ofensiva no Ocidente, porque era necessário atacar os britânicos e franceses antes de que eles completassem a preparação e concentração de suas forças. Dirigindo-se ao então General Brauchitsch, disse: “Atacaremos, no máximo, até 12 de novembro”.

 

A decisão de Hitler causou uma grande impressão entre os chefes da Wehrmacht. A Alemanha correra já um grande risco ao atacar a Polônia com o grosso de suas forças, deixando praticamente desguarnecida a fronteira ocidental.

 

Hitler, agora, voltava a impor ao Exército alemão uma decisão que seus chefes, educados na escola da Primeira Guerra Mundial, julgavam irrealizável: lançar de forma quase improvisada um ataque contra a considerada inexpugnável Linha Maginot.

 

O General Halder comentou com o Führer o temor dos seus companheiros e salientou que a técnica empregada na campanha da Polônia não era aplicável a uma ofensiva no ocidente, pois ali a Wehrmacht devia enfrentar não uma força débil como a polonesa, mas uma poderosa máquina militar, como era o Exército francês. Este era o pensamento dominante entre os oficiais da velha escola, que ocupavam os comandos supremos da Wehrmacht. Nenhum deles conseguira captar, apesar do demonstração fulminante da campanha polonesa, a revolução introduzida na arte da guerra, com o emprego coordenado da arma blindada e da aviação. Os generais alemães alimentavam ainda a lembrança da luta de trincheiras da guerra de 1914-1918 e acreditavam que, como naquele tempo, os franceses ofereceriam uma encarniçada resistência.

 

Foi assim que o General Stuelpnagel, encarregado de realizar um estudo prévio das possibilidades de um ataque contra a França, informou a Halder que o Exército alemão não estaria em condições de abrir caminho através da linha Maginot até o ano de 1942. Somente dois militares alemães confiavam totalmente na rendição em território francês dos êxitos alcançados na Polônia: os Generais von Manstein e Guderian, este criador da força blindada alemã. Suas opiniões, no entanto, foram deixadas de lado.

 

A 10 de outubro, Hitler reuniu os Altos-Comandos e lhes entregou a Diretiva n° 6 para a condução da guerra, na qual determinava a imediata preparação do ataque contra a França. Dois dias mais tarde, o primeiro-ministro inglês Chamberlain rechaçou oficialmente as propostas de uma paz negociada, feita pelo Führer.

 

Já nada impediria o ditador alemão de levar avante os seus planos de agressão.

 

A 14 de outubro, Halder manteve uma entrevista com o comandante-chefe do Exército, General Brauchitsch. Ambos estavam convencidos de que a ofensiva planejada pelo Führer estava irremediavelmente condenada ao fracasso. Desesperados, estudaram a possibilidade de evitar o que consideravam uma iminente catástrofe. Depois de longas discussões, concordaram am que somente restavam duas alternativas: levar a cabo o que Halder denominou "mudanças fundamentais'', isto é, a derrubada de Hitler, ou, então, fazer uma última tentativa para dissuadir o Führer dos seus propósitos. Decidiu-se, afinal, tentar a segunda. Halder, enquanto isso, colocou o grupo de conspiradores a par da situação. O tempo era um fator fundamental, pois somente faltava um mês para a data marcada por Hitler para o ataque. Se a invasão se produzisse e a neutralidade da Holanda e da Bélgica fosse violada, os conspiradores acreditavam que seria, então, tarde para negociar a paz com a França e a Inglaterra, mesmo que Hitler fosse derrotado.

 

O Almirante Canaris, acompanhado por seu assessor, o Coronel Lahousen, visitou os diversos chefes das unidades do Exército, para sondar suas opiniões a respeito de um possível golpe militar. Todos se mostraram de acordo sobre a verdadeira loucura que representava o ataque planejado por Hitler. Alguns, como o General von Rundstedt, condenaram abertamente, não somente o plano de ataque, mas também a própria figura do Führer.

 

Alentados pelos informes obtidos por Canaris, o General Beck e o Coronel Oster encarregaram o Doutor Josef Muller, funcionário do serviço secreto, para que viajasse imediatamente a Roma e entrasse em entendimentos com o representante britânico na Santa Sé.

 

Muller cumpriu sua missão e ofereceu ao diplomata inglês a certeza de que a paz ainda seria possível caso Hitler fosse eliminado do governo. Também, de acordo com informações encontradas em documentos alemães capturados pelos Aliados no final da guerra, o Papa Pio XII ofereceu seus serviços para atuar como mediador entre o governo antinazista que tomaria o poder na Alemanha e a Grã-Bretanha.

 

Faltava, porém, que os chefes do exército, Halder e Brauchitsch, se decidissem a entrar resolutamente na conspiração.

 

A 27 de outubro, Hitler informou a ambos os chefes que não havia variações em seus planos e que o ataque seria efetuado na data fixada: 12 de novembro de 1939.

 

Halder, compreendendo que a situação não tinha outra saída, decidiu então pedir ao General Fromm, chefe dos exércitos sediados no interior da Alemanha, que liderasse a rebelião, pois as tropas estabelecidas na frente ocidental teriam que se manter em suas posições para evitar um possível ataque anglo-francês. Fromm não quis assumir a responsabilidade e respondeu que somente atuaria caso recebesse ordens do comandante-chefe do Exército, von Brauchitsch.

 

Os conspiradores civis, desiludidos pela indecisão novamente demonstrada pelos militares, pressionaram Halder para que forçasse Brauchitsch a lançar à revolução.

 

Nos dias 2 e 3 novembro, Halder e Brauchitsch, ainda indecisos, realizaram uma última visita aos comandantes da frente ocidental e tornaram a constatar que todos se opunham à realização da ofensiva. Não restava mais nenhuma dúvida. Era o momento de agir.

 

A trama, que parecia a um passo de fechar-se em torno do ditador, foi desmantelada, no entanto, por um pequeno epílogo que teria Brauchitsch como protagonista. Ao regressar da sua inspeção, a 3 de novembro, Halder designou o General Beck para alertar os conspiradores que estivessem de prontidão para entrar em ação a partir do dia 5. Nesse dia, Brauchitsch se entrevistaria com Hitler, e exporia abertamente sua oposição ao desencadeamento da guerra.

 

E assim chegou o fatídico 5 de novembro. Brauchitsch abandonou o seu posto de comando em Zossen e se dirigiu a Berlim para falar com o Führer. A expectativa e o júbilo reinavam nas hostes dos conjurados. A hora decisiva estava a ponto de soar. No entanto, nada ocorreu. Brauchitsch levantou argumentos frágeis para justificar a oposição do Exército à guerra. Hitler, reagindo violentamente, insultou o indeciso general com pesada carga de recriminações e acabou despedindo-o sem contemplações do seu gabinete, gritando: "A única verdade é que o Exército não quer combater...".

 

Brauchitsch retornou a Zossen, onde Halder o aguardava impaciente, pronto para dar o sinal de alarma aos conspiradores. Ao ver Brauchitsch tão abatido, compreendeu que a missão havia fracassado.

 

O comandante-chefe do Exército alemão não tivera coragem suficiente para impor-se perante Hitler e dar o golpe que teria poupado à Alemanha e ao mundo torrentes de sangue. Halder, tampouco, teve presença de espírito para tomar entre suas mãos a direção do movimento. Sem perder um instante, comunicou o fracasso da missão Brauchitsch aos demais conjurados. Ao receber a notícia, o Coronel Oster decidiu arriscar tudo, convencido de que a sorte da humanidade estava acima da de sua própria pátria. Consumou, então, um ato que, em outras circunstâncias, poderia ser qualificado como traição: informou aos embaixadores da Bélgica e da Holanda em Berlim que a Wehrmacht atacaria seus respectivos países na madrugada de 12 de novembro.

 

Oster tentou, com seu gesto, evitar uma guerra que sepultaria o mundo inteiro sob uma avalanche de sangue. Sua atitude deve ser julgado hoje à luz dessa nobre intenção.

 

Os resultados da ação de Oster não tardaram a concretizar-se. A 7 de novembro, o Rei Leopoldo, da Bélgica, e a Rainha Guilhermina, da Holanda, deram publicidade a uma declaração conjunta em que se revelavam dispostos a atuar como mediadores, a fim de salvaguardar a paz da Europa, antes que a Alemanha e os países aliados entrassem abertamente em luta.

 

No dia seguinte, o embaixador alemão na Bélgica enviou uma mensagem urgente a Ribbentrop, comunicando-lhe que a declaração de Leopoldo e Guilhermina era conseqüência do fato de possuírem eles informações precisas sobre o ataque que a Wehrmacht preparava para desencadear, a 12 de novembro.

 

A Wehrmacht subjugada

 

Enfurecido, Hitler decidiu dar uma última lição aos seus generais. A 23 de novembro reuniu os altos-comandos da Wehrmacht e pronunciou uma violenta arenga, que posteriormente von Manstein qualificaria como "a maior impertinência de Hitler que jamais ouvi". O ditador, sem contemplações, acusou seus generais de terem embaraçado, permanentemente, suas decisões fundamentais, qualificando-os abertamente de covardes e relembrando-lhes seus receios nos instantes críticos da ocupação da Renânia, da ocupação da Áustria e da conquista da Checoslováquia. "Poucos, muito poucos, confiaram em mim", declarou. Por fim, concluiu com uma sentença ameaçadora: "Enquanto eu viver pensarei apenas na vitória do meu povo. Não me deterei diante de nada e aniquilarei qualquer um que se opuser!"

 

Nessa mesma noite chamou ao seu gabinete os generais von Brauchitsch e Halder e voltou a repetir-lhes as mesmas palavras, criticando-os duramente e responsabilizando a ambos pelo espírito derrotista imperante no Exército. Brauchitsch, esmagado, somente atinou, como único reação, com o oferecimento da sua renúncia. Hitler a rechaçou, gritando: "O senhor cumprirá com seu dever". Dessa forma; a 23 de novembro de 1939, Hitler anulou definitivamente os últimos intentos de resistência entre a oficialidade do exército da Alemanha nazista.

 

A partir desse momento, os comandos da Wehrmacht perderam toda independência e ficaram reduzidos a simples executores das ordens de Hitler. Essa circunstância teve decisiva influência no desenvolvimento da guerra, pois privou o Exército alemão da orientação profissional de seus chefes.

 

Desse momento em diante, as decisões militares foram tomadas exclusivamente pelo ditador, que desdenhou qualquer sugestão, guiando-se por aquilo que os assessores do partido nazista chamavam de "intuição genial". E seria justamente essa “intuição” que conduziria a Wehrmacht à tragédia de Stalingrado e, conseqüentemente, à derrota final.

 

Os comandantes do Exército, por sua vez, ao aceitar passivamente essa situação, cavaram sua própria sepultura. Quando, posteriormente, alguns deles se lançaram, decididos, à rebelião, já era tarde.

 

 

Anexo

 

Oster

9 de maio de 1940. Em seu gabinete do QG da Wehrmacht, o célebre OKW, o General Wilhelm Keitel assina um documento que abrirá uma nova etapa na luta que o nazismo sustenta pelo predomínio da Alemanha. É a ordem de invasão da França.

Seu texto diz:

"W. FA/ABT. L. N. 22-1840/40 gK

"Chefes-Berlim 9/5/40

"O Führer e comandante-chefe decidiu:

Dia Zero - 10/5

Hora Zero - 5h 45m

As senhas "Dantzig" e "Augsburg" serão dadas às diversas unidades da Wehrmacht antes das 21 h 30 m de 9/5. Chefe do Oberkommando da Wehrmacht Keitel".

Enquanto a mensagem era irradiada a todas as unidades, na ala externa do edifício do OKW teve lugar um episódio insólito. Diante do QG da Wehrmacht passeia nervosamente um homem. Subitamente interrompe o seu incessante vaivém De uma das portas laterais do OKW acaba de sair um oficial alemão e se dirige apressado ao seu encontro. Os dois homens trocam um aperto de mãos. O oficial alemão é o Coronel Hans Oster, um dos principais conspiradores contra o regime nazista. Seu amigo é o Coronel Jacobus Sas, adido-militar da embaixada da Holanda em Berlim.

Com voz embargada pela emoção. Oster lhe diz: "Desta vez, caro Sas, é para valer... Não há contra-ordem". Acabrunhado pela terrível notícia, o militar holandês permanece em silêncio. Oster estreita nervosamente a sua mão e, à guisa de despedida, sussurra: "Espero, amigo, que nos tornaremos a encontrar, quando terminar esta maldita guerra". Isso, no entanto, não ocorreria. Oster seria executado pelos nazistas a 9 de abril de 1945, trinta dias antes do final do conflito.

Depois de despedir-se do seu amigo, o Coronel Sas dirigiu-se imediatamente à sua embaixada e telefonou ao Ministério da Guerra em Haia. Depois de uma longa espera, que pareceu uma eternidade para Sas, falou com o oficial de guarda, o Tenente da Marinha Post Uitweer: - Post... Está reconhecendo minha voz? Fala Sas, de Berlim.. É para lhe dizer que mantenham os olhos e os ouvidos bem abertos amanhã ao amanhecer... - Carta 210 recebida, responderam no outro extremo. Era a resposta em código, preparada de antemão. Seu significado: invasão iminente.

 

 

Conspiradores

Foram os seguintes os principais atores do drama que se desenrolou a 20 de julho de 1944:

Coronel-General Ludwig Beck (1880-1944). Teve destacada atuação na Primeira Guerra Mundial. Posteriormente foi chefe de Estado-Maior do Exército alemão. Ao ser destituído o General von Fritsch, em 1938, Beck passou a militar ativamente nos grupos que conspiravam contra Hitler e se constituiu na principal figura do movimento. Pouco depois renunciou ao cargo de chefe do Estado-Maior, ao não encontrar entre os oficiais superiores do exército, o apoio que necessitava para derrubar o ditador. Na conspiração de 20 de julho havia sido designado para ocupar a chefia do Governo. Ao fracassar o golpe foi executado por ordem do General Fromm, depois de tentar, infrutiferamente, suicidar-se com sua pistola.

Pastor Dietrich Bonhoeffer (1906-1945). Foi membro da Abwehr (serviço de inteligência alemão). Em 1942 atuava já na conspiração e foi enviado à Suécia para tratar de um possível entendimento com os britânicos. Preso em abril de 1943. Executado dois anos mais tarde.

Almirante Wilhelm Canaris (1887-1945). Chefe da Abwehr. Participou da conspiração. Preso a 23 de julho de 1944. Executado em abril de 1945.

Hans Dohnanyi (1902-1945). Funcionário da Abwehr. Preso em abril de 1943. Executado dois anos mais tarde.

Hans Bern Gisevius (1903-   ). Funcionário da Gestapo. Trabalhou ativamente no movimento conspiratório. Após o atentado conseguiu escapar para a Suíça. Posteriormente, escreveu suas memórias (Bis zum bitteren Ende: Até o Amargo Fim). Através de suas páginas, tornaram-se públicos os bastidores da conspiração.

Carl Goerdeler (1884-1945). Ocupou o cargo de prefeito de Leipzig, ao qual renunciou por desacordo com o nazismo, em 1937. Passou então a ser o principal promotor civil da resistência. Foi preso em agosto de 1944 e morto pelos nazistas em fevereiro de 1945.

General Franz Halder (1884-    ). Combateu na Primeira Guerra Mundial. Posteriormente, em 1938, foi nomeado chefe do Estado-Maior em substituição do General Beck. Nesse mesmo ano planejou um golpe de estado para derrubar Hitler. Outro golpe o teve como mentor em fins de 1939. Posteriormente, em 1942, foi destituído. Pouco antes de finalizar a guerra foi preso e conduzido a um campo de concentração.

Ulrich von Hassel (1881-1944). Foi embaixador em Roma. Destituído em 1938. Juntamente com Goerdeler foi um dos principais dirigentes civis da conspiração. Seu diário pessoal (Von andern Deutschland: Da Outra Alemanha) salienta a sua ativa participação na conjura. Constitui, também, uma importante fonte de dados sobre o complô.

General Heinrich Wolff von Heldorf (1896-1944). Desde 1934 foi chefe de polícia de Berlim. Participou da conspiração de 20 de julho. Foi executado.

Coronel-General Erich Hoeppner (1886-1944). Teve destacada atuação como chefe de unidades blindadas nas campanhas iniciais da Segunda Guerra Mundial. Em dezembro de 1941, depois de destacar-se no ataque contra Moscou, foi desligado do serviço ativo. Participou do golpe de 20 de julho. Preso e executado em agosto de 1944.

Julius Leber (1891-1945). Foi membro do partido Social Democrata, do qual foi representante no Reichstag. Quando Hitler subiu ao poder foi enviado para um campo de concentração, onde permaneceu até 1937. Depois integrou o grupo de conspiradores junto com outros dirigentes. Se houvesse triunfado o golpe de 20 de julho ele teria ocupado o cargo de ministro do Interior. Preso e executado.

Helmut von Moltke (1907-1944). Foi funcionário da Abwehr Um dos dirigentes jovens mais ativos da resistência. Organizou o denominado "Grupo Kreisau". Preso, condenado à morte e executado.

Josef Muller (1898-    ). Pertencente aos grupos católicos da conspiração. As vésperas da guerra foi enviado pelos conjurados ao Vaticano, onde procurou entendimentos com representantes britânicos. O Papa Pio XII apoiou as negociações, oferecendo-se como mediador entre o governo inglês e as novas autoridades que surgissem do golpe. Preso em 1943, recuperou a liberdade no final da guerra.

General da SS Arthur Nebe (1895-1945). Chefe da polícia criminal da Gestapo. Participou das atividades de extermínio de cidadãos soviéticos. Posteriormente, ingressou nas fileiras da conspiração. Executado em 1945.

Coronel-General Friedrich Olbricht (1886-1944). Chefe da seção de abastecimentos do exército de reserva. Interveio no golpe de 20 de julho. Preso e executado nessa mesma noite por ordem do General Fromm.

Major-General Hans Oster ( 1895-1945), Foi o segundo chefe da Abwehr. Desligado do serviço em 1943, foi preso depois do atentado de 20 de julho e executado em abril de 1945.

Marechal-de-Campo Erwin Rommel (1891-1944) . Chefe do Afrika Korps e depois comandante das forças alemães na Normandia, apoiou a conspiração porém se opôs ao atentado. Suicidou-se por ordem de Hitler em outubro de 1944.

Fabian von Schlabrendorff (1907-      ). Oficial de Estado-Maior na frente russa. Serviu de agente de ligação com os alemães civis da resistência. Encarcerado e libertado em 1945 Seu livro de memórias (Offiziere Gegen Hitler: Ofìciais contra Hitler) relata os pormenores do complô de 20 de julho.

Coronel Claus Schenk von Stauffenberg (1907-1944). Destacado jovem oficial da Wehrmacht. Ferido na áfrica. Passou a prestar serviços como chefe de Estado-Maior do comandante-chefe do exército de reserva. Junto com o General Trestkow desenvolveu o plano Walkyria, para tomar o poder em Berlim. Colocou a bomba no QG de Hitler a 20 de julho de 1944. Foi executado por ordem do General Fromm nessa mesma noite.

Coronel-General Heinrich von Stuelpnagel (1886-1944). Governador militar na França, apoiou decididamente o golpe contra o Führer. Tentou suicidar-se, sem sucesso. Foi preso e executado.

Major-General Henning von Tresckow (1901-1944) . Chefe de Estado-Maior do Grupo de Exércitos Centro, na Rússia. Foi o promotor do plano Walkyria, para tomar o poder e derrubar Hitler. Suicidou-se depois do atentado fracassado.

Marechal-de-Campo Erwin von Witzleben (1881-1944). Desligado do serviço ativo em 1942, participou da conspiração. Preso e executado.

 

 

Wehrmacht

A esmagadora derrota sofrida pela Alemanha em 1918 não significou, porém, o desaparecimento do exército alemão como força combativa. A chamada "Reichswehr provisória" e depois a "Reichswehr profissional" não foram, na realidade, mais que a antecipação do futuro exército nacional alemão: a "Wehrmacht". Com ela integrou-se, mais tarde, o "exército pardo". Este, originado no grupo de 600 SA, chegou a congregar, em 1933, 400.000 homens. No princípio, o "exército pardo" não possuía armamentos, porém a partir de 1923 criaram-se os grupos armados SS (esquadras de proteção) que em 1932 somavam 60.000 homens.

Entre os dois exércitos "Reichswehr" e "exército pardo", um de essência aristocrática e o outro de conteúdo popular, subsistiu um antagonismo latente até 1933, ano em que ocorreu a ascensão do nazismo ao poder. Então, pareceu ter sido conseguida a fusão, principalmente por obra dos expurgos sangrentos que limparam as fileiras do Partido. No entanto, o antagonismo se manteve até o fim da guerra. O espírito classista prussiano se revoltava, indiscutivelmente, diante do poderio de homens cuja origem se perdia na bruma de um passado nem sempre limpo. A partir desse instante, estimulados pela debilidade dos vencedores de 1918, a reconstituição do Exército alemão foi o objetivo primordial A ata do nascimento da "Wehrmacht" foi assinada pelo decreto de 16 de março de 1935, ordenando, em represália à reimplantação do serviço de dois anos no exército francês, o serviço militar obrigatório para todos os alemães de 18 a 45 anos de idade, a criação de três “Gruppenkommandos”, doze Corpos de Exército e trinta e seis divisões.

 

 

“Não vale a pena...”

O Coronel-General Werner von Fritsch foi nomeado, em 1935, comandante-chefe do Exército alemão. Esse militar gozava de um extraordinário prestígio no Corpo de oficiais alemães. Era, de fato, uma figura representativa da velha escola militar alemã. Unia sua grande capacidade profissional a um caráter de inflexível honradez. Era lógico, portanto, que cedo ou tarde se produzisse um choque entre ele e Hitler e seus acólitos. Pouco tempo depois de assumir o comando, o general expressava abertamente as suas opiniões, contrárias aos excessos do ditador e seus assessores. Essa posição lhe acarretaria trágicas conseqüências. Goering e Himmler criaram as condições que possibilitaram a sua destituição.

A 25 de janeiro de 1938, Hitler recebeu um documento das mãos de Heydrich, chefe de segurança da SS. Esse documento continha supostas provas acerca da depravação sexual do General. Este, de acordo com os informes, pagava, desde 1935, diversas somas em dinheiro a um ex-presidiário que estava a par de sua condição de homossexual.

Ao ser entregue esse documento ao Führer, estava presente o Coronel Hossbach, ajudante militar do ditador. Hossbach, desafiando as ordens de Hitler, entrevistou-se imediatamente com Fritsch e o pôs a par das infames notícias que haviam chegado até o Führer.

No dia-seguinte, Hossbach reuniu-se com Hitler e lhe declarou que estivera com Fritsch; e que este, indignado, negara as acusações. Ao mesmo tempo, Hossbach solicitou ao ditador que recebesse Fritsch, a fim de que este desmentisse pessoalmente as acusações.

Hitler acedeu ao pedido do seu ajudante e, nessa mesma tarde, recebeu em seu gabinete o comandante-chefe do Exército. Fritsch, serenamente, refutou e negou as acusações. O ditador, então, fez um gesto ao seu ajudante. Este, abrindo uma porta, deu passagem ao ex-presidiário. O homem, encarando Fritsch, declarou reconhecer nele o oficial alemão que acusava de homossexual. Fritsch, desconcertado ante a aparição daquele sujeito e de suas declarações, emudeceu. Hitler, então, exigiu a sua renúncia imediata. Fritsch, encolerizado, negou-se terminantemente a renunciar e solicitou ser submetido a um Tribunal de Honra. Hitler, sem pestanejar, negou o pedido de Fritsch e informou-lhe que ficava afastado do serviço por tempo indeterminado.

Posteriormente, as forças armadas, em colaboração com o Ministério da Justiça, tomaram a seu cargo a investigação das acusações e comprovaram a falsidade das mesmas. Conseguiram esclarecer, também, que tudo havia sido planejado por Himmler e Heydrich, com o objetivo de eliminar o General Fritsch. Haviam utilizado, para tanto, de informações referentes a um oficial de cavalaria, de nome semelhante, que era realmente culpado do delito imputado a Fritsch.

A Gestapo obrigara o ex-presidiário a declarar falsamente e prendera o oficial de cavalaria culpado, para evitar o esclarecimento. A descoberta da verdade não conduziu a nada. O Tribunal de Honra pedido por Fritsch suspendeu suas atividades um dia depois de iniciá-las, por ordem de Hitler. Fritsch, totalmente desmoralizado, ao eclodir a guerra, solicitou ser enviado à frente de combate. Diante de Varsóvia, adiantou-se às suas tropas, buscando a morte. Uma rajada de metralhadora então o matou. Hitler, como último sarcasmo, ordenou que von Fritsch fosse sepultado com todas as honras.

 

 

Hitler e Overlord

Citaremos novamente Halder, referindo-se a Hitler e à operação "Overlord". Diz o ex-chefe de Estado-Maior da Wehrmacht:

"Não teria sido possível, porém, rechaçar a invasão e criar assim as bases para uma paz admissível? Não possuía a "fortaleza alemã" a possibilidade de desgastar diante dos seus muros a força do inimigo?

"Não. Temos que nos decidir finalmente a destruir essa fábula. A Alemanha não possuía nenhum meio de defesa contra uma frota de desembarque como a que os Aliados tinham à sua disposição, apoiada por um total e indiscutível domínio aéreo.

"Na zona batida pela artilharia dos navios de guerra, não se pode manter nenhuma tropa terrestre que não possua meios necessários para combater os barcos com eficiência. Nós não os possuíamos, nem em terra, nem no ar, nem no mar Portanto, não tinha sentido fortificar as margens, que foi o que o "condutor" Hitler fez com sua Muralha do Atlântico, criando desse modo simples alvos para que a frota de desembarque inimiga, sem que nada a perturbasse, pudesse dedicar-se ao tiro ao alvo. Se se estava verdadeiramente decidido a prover as forças combatentes de grandes quantidades de aço, de mão-de-obra e de meios de transporte, com os quais se lhes poderia entregar milhares de tanques, então, essas fortificações deviam ser situadas onde pudessem constituir zonas fortificadas, bem afastadas das costas, para criar seguras zonas de concentração de forças, que servissem de base para contra-ataques operativos e, em caso de necessidade, de pontos de apoio para uma defesa operativa móvel".

 

 

Obediência e Fidelidade

O General Siegfried Westphal comenta a posição do Exército alemão diante do regime nazista:

"Os elementos que ingressaram no Exército a partir de 1936 haviam passado, quase todos eles, pelas escolas hitlerianas, e, conseqüentemente, possuíam um espírito menos crítico que os antigos oficiais. Durante os primeiros anos do regime era freqüente, por qualquer fato ou acontecimento desagradável, culpar o Partido Nazista ou os organismos dirigentes do mesmo; no entanto, Hitler ficava isento de crítica. Ouvia-se dizer com freqüência: "O Führer não está inteirado disso". Porém, nem os jovens, nem os mais velhos, conseguiram entrever para onde os conduzia o novo regime. Foram muito poucos os que, abertamente, se manifestaram contra o sistema. A mentalidade dos soldados profissionais se baseava na fidelidade e na ‘fé’. A obediência e a fidelidade ao juramento prestado eram sagradas. O soldado se alegrava de nada ter que ver com os problemas políticos, e os oficiais mais antigos se negavam a aceitar a nova ideologia nacional-socialista. Acreditaram poder conservar sua independência, inclusive debaixo da ditadura de Hitler. O Führer esperou até ter bem firmes em suas mãos as rédeas do poder. A princípio, desistiu de criar dificuldades com o exército, porém depois exigiu que cada alemão pensasse de maneira política, ou seja, nacional-socialista. Se um oficial não se dignava a tolerar essa nova situação, a melhor coisa que podia fazer era conformar-se com o afastamento. A desgraça foi que o supremo comando militar julgou poder continuar a adotar uma atitude apolítica. Não há a menor dúvida de que esse ponto de vista foi errôneo. Os comandantes supremos do Exército de terra, da Marinha de Guerra e da Força Aérea não devem encarar o cumprimento de suas obrigações somente sob o prisma da obediência militar. Têm uma responsabilidade política diante de toda a nação. Seria injusto se afirmássemos que os altos chefes militares da Alemanha, quando estourou a Segunda Guerra Mundial, ou seja, Brauchitsch e Raeder, comandantes-supremos do Exército e da Armada, careciam de senso de responsabilidade, ao enfrentar as alternativas entre guerra ou paz. Quando a luta do Exército pela conservação da paz já não foi necessária, devido ao curso dos acontecimentos de Munique, no outono de 1938, a insegurança política dos chefes militares alcançou a sua maior intensidade. A causa desse fracasso residiu no fato de que os chefes militares não estiveram à altura de Hitler".

 

 

Técnica Hitleriana

"Ouve-se freqüentemente dizer que Hitler demonstrou sua capacidade de condutor pelos indiscutíveis serviços que prestou às tropas, dotando-as dos mais modernos meios de combate e, finalmente, até de "armas maravilhosas" que pouco faltou para conduzi-las à vitória,

"É verdade que Hitler não somente demonstrava um vivo interesse pelas realizações técnicas de todos os tipos, mas também possuía uma evidente compreensão com respeito a elas. Interessava-se pessoalmente pela construção de armas, assim como pelos motores, os tipos de barcos e pelos problemas técnicos da construção de fortificações. Ninguém pode desmentir que o interesse que existia no "Estado do Führer" foi um impulso poderoso que, em muitos casos, favoreceu as tropas e contribuiu para o êxito das armas. Porém será isso uma prova de suas condições de condutor?

"Não foram os elefantes, nem os primeiros tanques, que deram a Aníbal e aos chefes aliados na Primeira Guerra Mundial sua categoria de 'condutores'.

"Armas e motores são uma preocupação conjunta da ciência, da técnica e da artesania. Reconhecer a tempo suas possibilidades de emprego na guerra e indicar-lhes um caminho que esteja fora do alcance da visão dos seus contemporâneos: estas são as características de um condutor. "Nem o emprego do tanque (que na Primeira Guerra Mundial foi utilizado de forma puramente tática) como instrumento da manobra operativa, nem o emprego em massa dos aviões como meio estrategicamente autônomo para alcançar a vitória, saíram da imaginação de Hitler, Ambos se filiam ao trabalho criador e intelectual dos círculos técnicos militares das potências vencedoras em 1918 e foram também cuidadosamente seguidos e intelectualmente aproveitados pelo pequeno exército alemão antes que Hitler assumisse a responsabilidade dele. É bem verdade que Hitler aderiu a essas idéias e que, com seu interesse e energia, impulsionou notavelmente a formação técnica do organismo. Porém, suas intervenções pessoais a respeito desses meios de guerra revelam que lhe faltava a segurança de um condutor militar.

"No emprego operativo dos tanques, oscilava entre a timidez e as exigências descabidas. Na campanha da França, em que pela primeira vez foi imposto, plenamente, o emprego operativo dos tanques de forma moderna, ele interveio repetidas vezes para freá-lo em sua vitoriosa marcha. Foi o que aconteceu, a 17 e 18 de maio de 1940, quando o grupamento de tanques de von Kleist, que perseguia vitoriosamente um inimigo que batia em desordenada retirada, foi detida por uma ordem pessoal sua, porque pensou ser um perigo estarem tão à frente da infantaria, que avançava lentamente; e também, a 24 de maio de 1940, quando passou por cima do comandante-chefe do Exército, que estava em desacordo com ele, fez retroceder os tanques, que se encontravam já cercando o Exército britânico, deixando-lhes livre a retirada."

As opiniões acima citadas pertencem ao Coronel-General Franz Halder, chefe de Estado-Maior da Wehrmacht.

 

 

Exército

O Marechal von Manstein, referindo-se à situação do Exército alemão diante de Hitler, disse numa ocasião: "Dois eram os principais motivos que já no decurso dos últimos anos de paz haviam levado Hitler a mudar de atitude para com o Exército. Antes de mais nada, o reconhecimento de que sob o comando do Coronel-General von Fritsch o Exército se apegava fortemente aos seus conceitos tradicionais de simplicidade e cavalheirismo e à sua peculiar idéia da honra militar. Disso resultava que o Exército era tão leal para com o Estado, como o era com sua decisão de não permitir que ninguém atirasse porta afora suas tradições castrenses,em benefício das ‘idéias’ nacionais-socialistas... E se, no princípio, Hitler havia desprezado as intriguentas insinuações e as insídias que contra os altos chefes militares tramavam as camarilhas do Partido, afinal, não poderia deixar de produzir seus frutos essa sistemática campanha contra o Exército. O próprio ministro da guerra do Reich, von Blomberg, contribuiu - embora não deliberadamente - para atiçar a desconfiança de Hitler ao acentuar servilmente o seu empenho de ‘converter o Exército ao nacional-socialismo’. O resultado dessa infamante intrigalhada acabou manifestando-se em um discurso que, na primavera de 1939, pronunciou Goering, na sua qualidade de suposto ‘oficial decano da Wehrmacht’, ante um auditório de chefes militares. Teve a desfaçatez de, naquela oportunidade, numa verdadeira "catilinária" contra o Exército, lançar-lhe no rosto o seu anquilosado tradicionalismo e sua hesitação em entregar-se ao sistema nacional-socialista... O segundo aspecto consistia no que Hitler mais tarde qualificaria com uma frase que ficou famosa: ‘Os eternos porém dos Generais’... quando não lhe ocorria aplicar qualificações mais mortificantes... Assim, Hitler alardeava ter obtido todas as suas vitórias políticas internacionais, a contragosto de seus generais...".

 

 

 

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