Conspiração contra Hitler

 

Cinco mil homens morrem após o atentado

            

O Atentado

 

 

No outono de 1942, uma entrevista secreta ocorre no QG do Marechal alemão von Kluge, na cidade russa de Smolensk. Carl Goerdeler, principal figura do movimento que, há alguns anos, conspira contra Hitler, se encontra ali, convidado pelo chefe de Estado-Maior de Kluge, o General Tresckow. Este jovem oficial está resolvido a colocar em marcha, decididamente, o plano destinado a eliminar Hitler do poder. Estabeleceu já contatos com os grupos da resistência em Berlim e assim foi que se combinou a entrevista entre Goerdeler e Kluge. Na reunião se discute a possibilidade de efetuar a prisão do Führer, quando este visitar a QG de Smolensk. Kluge parece emprestar apoio ao plano, mas, posteriormente, manter-se-á numa permanente indecisão. Em momento algum, de fato, os altos-comandos do Wehrmacht se atreveram a dar o passo decisivo. Embuídos da sua velha educação prussiana, consideravam sagrada a obediência para com o chefe supremo em tempos de guerra, sem a menor possibilidade de discussão. Homens como Kluge, von Manstein, Guderian e outros, muitas vezes, no transcurso do conflito, se perguntaram por que continuar a servir um homem que eles sabiam estar conduzindo a Alemanha à catástrofe.

 

A resposta lhes foi ditada pelo estrito sentido da obediência ao chefe: continuar seguindo suas ordens acima de qualquer outra consideração. Muitos chefes mais tarde se escudariam na fórmula: "Limitei-me a cumprir ordens", para justificar sua responsabilidade nos fatos que ensangüentaram a Europa e o mundo. Mas mesmo nas fileiras do exército alemão havia soldados que consideravam que o dever militar tinha limites, marcados pela moral e pela consciência de cada um. Sabiam, também, que o destino da Alemanha estava acima de uma lealdade que arrastasse todos a um desastre.

 

Entre estes homens contava-se o General Tresckow. Foi ele quem deu início ao movimento que culminaria com o atentado de 20 de julho.

 

Em novembro de 1942, Tresckow viajou para Berlim, onde se avistou novamente com Goerdeler e com o General Friedrich Olbricht, chefe de abastecimentos do exército de reserva. Na reunião falou-se claramente de assassinar Hitler. Olbricht declarou que ele tomaria a seu cargo a organização do movimento em Berlim, Viena, Colônia e Munique, a fim de assegurar a estabilidade das novas autoridades que surgissem depois do atentado. Os conspiradores se separaram com entusiasmo, acreditando que o plano marchava já para uma rápida definição.

 

Em fins de fevereiro de 1943, Olbricht enviou uma mensagem a Tresckow. Somente as palavras: "Estamos prontos". Ao receber a notícia, Tresckow se achava com outros dois conspiradores: Schlabrendorff e Dohnanyi. Embargado pelo júbilo, o chefe alemão exclamou: "Breve liquidaremos Hitler".

 

 

Fracassa o plano

 

A situação da guerra, enquanto isso, sofria uma reviravolta decisiva. Em Stalingrado, o 6o Exército, de Paulus, acabava de ser destruído. Cerca de 300.000 homens haviam sido aniquilados pelas forças do Exército Vermelho, quando Hitler os impediu de escapar ao cerco em que se encontravam. Essa impiedosa atitude de Hitler terminara de convencer os conspiradores no sentido de agir sem demora, nem vacilação alguma. Em princípios de março, os conjurados voltaram a reunir-se em Smolensk. Ali, além de Schlabrendorff e Dohnanyi, reuniu-se com Tresckow o Coronel Lahousen, segundo chefe da Abwehr (serviço de inteligência sob as ordens do Almirante Canaris). Lahousen trouxe várias bombas de tempo, britânicas, obtidas pela Abwehr, para serem utilizadas no atentado que se planejava.

 

Os conspiradores determinaram o seguinte: ante a indecisão do Marechal von Kluge, que se negara a dar as ordens pertinentes para eliminar Hitler utilizando as tropas do seu comando pessoal, seriam colocadas as bombas de tempo no avião do Führer. Desta forma se conseguiria a vantagem de que a morte do ditador parecesse fruto de um acidente, ao explodir o aparelho em pleno vôo. Tresckow conseguiu que seu amigo, o General Schmundt, ajudante do ditador, convencesse Hitler a visitar o QG de von Kluge no dia 13 de março de 1943. O pretexto de que se lançou mão foi a nova situação da frente de luta, à luz dos últimos acontecimentos. Schmundt, completamente alheio à conspiração, concordou em ser o intermediário do convite.

 

No dia citado, o avião pessoal de Hitler, escoltado por uma esquadrilha de combate da Luftwaffe, aterrissou em Smolensk. Imediatamente, o Führer compareceu ao QG de von Kluge. Ali permaneceu até ao anoitecer, conferenciando com o marechal e seus assessores. No decorrer da jornada, Tresckow e Schlabrendorff estudaram a possibilidade de alterar o plano e fazer explodir a bomba no próprio QG, enquanto Hitler estivesse em conferência com Kluge. No entanto, decidiram não fazê-lo, para preservar o vida dos chefes que se encontravam com o ditador.

 

O avião de Hitler foi preparado para partir imediatamente depois do jantar. Schlabrendorff armou, pois, duas bombas, embrulhando-as de forma tal que parecessem garrafas de licor. Tresckow, então, solicitou ao Coronel Brandt, membro da comitiva do Führer, que levasse as duas "garrafas" destinadas, segundo disse, ao General Stieff, que prestava serviços no QG do Führer, na Prússia. Brandt, sem suspeitar, aceitou o encargo. Pouco antes da hora da partida, Schlabrendorff se dirigiu ao aeródromo e, depois de colocar em marcha o mecanismo das bombas, entregou o pacote a Brandt. Este, imediatamente, subiu ao avião.

 

A bomba explodiria num prazo de trinta minutos, quando a avião de Hitler se encontrasse em vôo, nas proximidades da cidade de Minsk. Começou então a tensa expectativa. Schlabrendorff comunicou-se imediatamente com Berlim e, com uma frase em código, anunciou aos conspiradores que o atentado estava em marcha. Depois, junto com Tresckow, se dirigiu à sala de comunicações, para aguardar o recebimento da notícia do destruição do avião de Hitler que, indubitavelmente, seria irradiada por um dos aviões da escolta de caças. Os minutos fixados para a explosão passaram, no entanto, sem que nenhuma notícia chegasse. As bombas, sem dúvida, haviam falhado.

 

Duas horas mais tarde, de Rastenburg, na Prússia Oriental, chegava o sinal de rotina, anunciando a chegada do Führer. Totalmente abatido, Schlabrendorff chamou novamente Berlim, anunciando o fracsso do golpe aos outros conjurados. Restava agora a difícil tarefa de recuperar as "garrafas" impedindo que chegassem às mãos do destinatário. Tresckow, imediatamente, telefonou a Brandt e lhe perguntou se tivera tempo de entregar o pacote ao General Schieff. Ao receber uma resposta negativa, o General Tresckow disse a Brandt que retivesse o pacote pois se havia enganado nas marcas das garrafas. No dia seguinte, Tresckow viajaria à Prússia Oriental "com um licor de classe" para então presentear o amigo. A troca, de fato, se fez sem contratempos.

 

Uma vez de posse das bombas, Tresckow viajou de trem para Berlim. No interior da sua cabina, desarmou as bombas, a fim de averiguar as falhas que haviam impedido a explosão. O detonador, simplesmente, não havia funcionado. Assim, por mera obra do acaso, Hitler escapou à primeira tentativa de eliminação.

 

Dias mais tarde, os conjurados tentaram novamente assassinar Hitler. O Coronel von Gersdorf, levando consigo uma bomba, ofereceu-se para voar pelos ares junto com o Führer, enquanto este visitasse uma exposição de material bélico russo capturado.

 

Hitler, contudo, permaneceu pouquíssimos minutos no recinto, o que impediu Gersdorf de concretizar seu propósito.

 

O fracasso dessas duas tentativas foi seguido por um golpe muito mais grave ainda.

 

Devo fazer Algo !...

 

Himmler mantinha, há algum tempo, uma surda rivalidade com o Almirante Canaris. O primeiro desejava eliminar a Abwehr como entidade autônoma e encampá-la ao serviço de inteligência da SS. Para tal fim, Himmler valeu-se das declarações de um agente da Abwehr, preso pela Gestapo ao ser surpreendido contrabandeando valores para a Suíça. O agente conhecia os bastidores das atividades conspiratórias do Coronel Oster, Müller e Bonhoefer, entre outros. Esses informes serviram a Hitler para ordenar a detenção de Müller, Bonhoefer e Dohnanyi. Oster foi obrigado a renunciar em dezembro de 1943 e confinado na cidade de Leipzig, em prisão domiciliar.

 

A destituição e prisão de Oster constituíam para a conspiração uma perda gravíssima. Perdia-se, na verdade, o campo oferecido pela Abwehr para o desenvolvimento das atividades da conjura.

 

Ao receber o General Tresckow a notícia da destituição de Oster, dirigiu-se imediatamente para Berlim, a fim de constatar os limites reais da situação. Ali, entrevistou-se com o General Olbricht que permanecia em seu posto, livre de qualquer suspeita por parte dos nazistas. Os dois estudaram o possível substituto de Oster, no seu decisivo posto na conspiração. A opção recaiu finalmente no Coronel conde Claus von Stauffenberg, jovem oficial de digna carreira nas fileiras do exército alemão, cujas qualidades morais e intelectuais lhe haviam granjeado uma grande reputação em todos os setores. Stauffenberg já se definira como fervoroso antinazista e expressara em muitas oportunidades suas opiniões contrárias ao regime, mesmo em presença dos seus superiores.

 

Stauffenberg não havia vacilado em expor ao General Halder a necessidade de concretizar um golpe de estado para livrar o Alemanha do domínio de Hitler.

 

Em 1942, quando o 6o Exército de Paulus agonizava em Stalingrado, Stauffenberg havia visitado o Marechal von Manstein para que este, com outros comandantes, exigisse de Hitler a renúncia ao comando militar e, no caso de uma negativa do ditador, a sua prisão imediata. Manstein, no entanto, nessa oportunidade, respondeu que ele era um soldado leal ao seu comandante-chefe e cumpriria suas ordens. Posteriormente, Manstein proporia a Hitler que renunciasse ao comando militar do Exército. Essa atitude lhe custaria, finalmente, a destituição. Manstein, porém, nunca chegou a unir-se ao grupo dos conspiradores. Stauffenberg, desiludido com a atitude dos seus superiores, solicitou transferência para a frente de combate. Foi, então, enviado à Tunísia, onde, em abril de 1943, ficou gravemente ferido quando seu veículo foi metralhado por um caça aliado. Transportado para o Alemanha, salvou a vida. Ficou, contudo, gravemente mutilado. Perdeu a mão e o antebraço direitos e o olho esquerdo. Apesar dessa incapacidade, Stauffenberg não abandonou as fileiras do exército, pois, como declarou à sua esposa, "preciso fazer algo para salvar a Alemanha. Nós, oficiais de Estado-Maior, devemos aceitar nossa responsabilidade".

 

Foi assim que Stauffenberg se apresentou diante de Olbricht e lhe solicitou ser reincorporado ao serviço ativo. Passou então a ocupar o cargo de chefe de Estado-Maior da seção de abastecimentos do exército da reserva.

 

A situação agora apresentava maiores possibilidades de êxito para os conspiradores. O Marechal von Kluge, numa entrevista com Goerdeler, havia-se definido francamente favorável ao assassinato de Hitler, como única saída possível.

 

O plano "Walkyria"

 

O General Tresckow pôs-se a trabalhar, com a ajuda de Stauffenberg, na preparação do plano "Walkyria". Aparentemente, esse projeto estava traçado para mobilizar as tropas da guarnição de Berlim no caso de um levante dos trabalhadores estrangeiros escravos, ou quando de qualquer outra comoção interna. Stauffenberg ampliou o plano original, paro estendê-lo ao território de toda a Alemanha. Os problemas propostos com o desencadeamento do plano "Walkyria" eram extremamente difíceis. Em primeiro lugar estava a existência da SS, integrada por homens que seguiam fanaticamente Hitler; essas unidades estavam estacionados em quartéis muito próximos aos pontos chaves de Berlim: edifícios governamentais, estações de rádio, serviços vitais de água, gás e eletricidade, etc. Em segundo lugar, o exército de reserva era uma organização praticamente sem poder combativo, integrada pelos recrutas novos que eram adestrados para serem enviados à frente e pelos velhos soldados das classes mais antigas. Um choque entre esta força e as tropas SS, integrada por homens fisicamente selecionados e muito bem armados, era de resultado incerto. Os conspiradores, porém, consideraram que o fator surpresa podia representar um papel vital no episódio. Com tal fim, os planos foram traçados em três etapas: a primeira seria posta em marcha com o palavra-chave "Walkyria" e consistia em uma aparente mobilização de forças para enfrentar um motim ou distúrbio em qualquer região do país; a segunda consistia no golpe propriamente dito. Seriam emitidas ordens em nome do General Fromm, chefe do exército de reserva, para que as tropas da guarnição de Berlim subjugassem as unidades SS. A terceira etapa começaria depois da morte de Hitler, com uma série de ordens firmadas pelo Marechal Erwin von Witzleben, como comandante-chefe do Exército, proclamando o estado de emergência nacional, dissolvendo o Partido Nazista e colocando o governo sob o controle absoluto das forças armadas. O General Fromm, chefe do exército de reserva, embora não participasse nos trabalhos conspiratórios realizados pelos seus assessores, teve pleno conhecimento dessas atividades e permitiu que elas se desenvolvessem sem interferência. Em vista dessa atitude, os conjurados acreditaram que Fromm aderiria ao movimento assim que ele eclodisse.

 

A conspiração em marcha

 

O assassinato de Hitler apresentava uma série de grandes dificuldades. A vida diária do ditador se desenrolava dentro dos limites do seu reduto inexpugnável, em Rastenburg, na Prússia Oriental. Essa era a célebre "Toca do Lobo", de onde o Führer dirigia a guerra, rodeado por um fechado círculo de chefes do alto-comando e fiéis assessores e secretárias. Hitler se levantava às 10 h da manhã, tomava o desjejum, lia uma seleção, preparada por Ribbentrop, dos principais jornais estrangeiros, entrevistava-se com seu ajudante às 11 h e mantinha suas conferências militares ao meio-dia. Almoçava às duas da tarde, em companhia de algum convidado com quem prolongava a sobremesa até às quatro da tarde. Dormia então até à seis ou sete da noitinha, tornava a manter entrevistas até às oito e depois jantava. A janta se transformava numa nova reunião com os chefes militares. Depois, as conversações se prolongavam até às quatro da madrugada.

 

A rotina diária do ditador tornava extremamente difícil introduzir no núcleo dos íntimos o homem que materializaria o atentado, a menos que este tivesse suficiente intimidade com Hitler ou pertencesse ao grupo dos chefes e oficiais de alta patente. Stauffenberg estava nessa situação, pois, como assessor de Olbricht, podia, valendo-se de um pequeno pretexto, apresentar-se diante do Führer. O momento propício seria a da conferência militar do meio-dia. Além disso, a única forma de realizar o atentado seria mediante o emprego de um bomba escondida numa pasta. Nenhuma pessoa podia, de fato, portar armas na presença de Hitler.

 

A 26 de dezembro de 1943, Stauffenberg realizou a sua primeira tentativa. Com uma bomba na pasta, voou até Rastenburg e conseguiu chegar até a ante-sala do recinto de conferências. Porém, no último minuto, Hitler cancelou a reunião. Stauffenberg viu assim frustrado o seu intento.

 

Apesar disso, essa primeira ação deu ensejo ao golpe de 20 de julho.

 

No mês de fevereiro de 1944, Goerdeler encarregou o Doutor Carl Stroling de sondar a posição do mais prestigioso chefe militar da Alemanha, o Marechal Erwin Rommel, com relação ao Führer. Stroling entrevistou-se com Rommel na residência deste e manteve com ele uma conversação que se prolongou durante seis horas. O marechal, mesmo se declarando contrário ao assassinato de Hitler, disse que, caso o ditador não correspondesse o um último intento que realizaria para induzi-lo a pôr um fim à guerra, ele cumpriria com seu dever e procuraria salvar a Alemanha.

 

À medida que os acontecimentos se foram agravando, Rommel compreendeu que já nada se podia esperar de Hitler. Reuniu-se então com o Marechal von Rundstedt, para incitá-lo a liderar um movimento contra o ditador. Rundstedt, com um gesto pessimista, limitou-se a responder: "Não posso fazê-lo... Você é jovem. O povo o conhece e o estima... Faça você...".

 

O chefe do Estado-Maior de Rommel, General Speidel, junto com o General Stuelpnagel, se esforçaram para convencer o marechal a utilizar sua influência na tarefa de dar fim à guerra no Ocidente antes que os Aliados procedessem à invasão do continente. Rommel se mostrou totalmente de acordo com essa posição. Contudo, voltou a manifestar-se nitidamente contrário ao assassinato de Hitler.

 

Entrementes, ante o rechaço, por parte das potências Ocidentais, de todas as sondagens feitas pelos conspiradores, Stauffenberg decidiu voltar a sua atenção para o leste, para a Rússia. A situação do jovem coronel havia crescido em importância dentro do grupo de conjurados, até converter-se, praticamente, no cabeça da conspiração. De fato, Goerdeler era extremamente vigiado, e o General Beck, envelhecido, não estava em condições de atuar. A situação de Stauffenberg se viu definitivamente consolidada em princípios de junho de 1944, quando foi promovido a Coronel e nomeado chefe do Estado-Maior do General Fromm, chefe do exército de reserva. Esse posto dava a Stauffenberg acesso direto ao QG de Hitler.

 

A 6 de junho, os Aliados assaltaram as costas da Normandia e conseguiram firmar-se nas praias sem que os alemães pudessem impedi-lo. Stauffenberg havia-se proposto a realizar o atentado antes da invasão aliada, considerando que o novo governo antinazista teria melhores condições para negociar. Suas intenções, no entanto, se viram frustradas. Nessas circunstâncias, a desmoralização se apoderou de Stauffenberg. Quando os Aliados firmaram pé no continente, tornou-se impossível obter uma paz negociada, mesmo no caso de Hitler ser eliminado. Enviou então uma mensagem ao General Tresckow, na qual expunha o problema. Perguntava: "Devemos continuar com nosso plano, agora que parece ter perdido o sua finalidade política, visto que a invasão já começou?" A resposta de Tresckow foi terminante: "O assassinato deve ser tentado a qualquer custo; mesmo que se fracasse, devemos tentar tomar o poder em Berlim. Temos que provar ao mundo e às gerações futuras que os homens da resistência alemã se atreveram a dar o passo decisivo e arriscar suas vidas. Diante desse fato, nada mais tem importância".

 

O General Beck, inteirado das palavras de Tresckow, pronunciou-se de acordo com ele, embora achasse, como Stauffenberg, que se havia perdido o momento oportuno para agir. Pouco depois destes fatos, e seguindo uma delineação traçada por Stauffenberg, tentou-se um contato com grupos comunistas que ainda operavam na Alemanha. O encarregado de realizar a entrevista foi Julius Leber, ex-deputado socialista. Da reunião, porém, participou um agente da Gestapo que conseguiu se infiltrar. Ao ser marcada uma nova reunião, todos os participantes foram presos, entre eles, Leber, que posteriormente foi executado.

 

A captura de Leber foi um duro golpe para a conspiração. Paralelamente, através do Almirante Canaris, recebeu-se um informe que dizia ter Himmler ficado ciente de que se planejava um golpe de estado. O chefe do Gestapo chegou a arrolar entre os suspeitos o nome do General Beck e de Goerdeler. A situação aproximava-se rapidamente do desenlace.

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Às vésperas do atentado

 

Stauffenberg apressou a organização do golpe. Desejava consumar o atentado com urgência e, ao mesmo tempo, salvar a vida do seu amigo Leber. Assim, a 11 de julho, ao ser chamado ao reduto de Hitler, na Baviera, ocultou numa pasta uma bomba de tempo.

 

Acompanhado pelo seu ajudante, o Capitão Clausing, voou para o encontro com o Führer. A viagem se efetuou em um avião especialmente enviado. Tampouco essa tentativa chegou o concretizar-se, pois Stauffenberg havia programado eliminar, junto com Hitler, Goering e Himmler. Por não estarem presentes estes dois, decidiu não levar a cabo o atentado. Três dias mais tarde, a 14 de julho, Hitler se transferiu novamente para seu QG em Rastenburg, na Prússia Oriental. Stauffenberg voltou a receber ordem para apresentar-se ali, ante o Führer. Os conspiradores decidiram, então, pôr em marcha o plano "Walkyria", às 11 horas do dia 15 de julho.

 

À hora citada,. pontualmente, o General Olbricht deu ordem de mobilização às tropas para ocupar o centro de Berlim. Imediatamente, aguardou notícias do atentado, para pôr em marcha a segunda etapa do plano. Entrementes, na residência do General Beck, este permanecia atento às novidades, junto a Goerdeler. No entanto, uma nova decepção esperava os conspiradores. Passaram as horas e não chegou notícia alguma. Às seis da tarde, o chefe da polícia de Berlim, General de SS Gelldorf, que também fazia parte do grupo de conjurados, comunicou aos amigos que "a celebração não fôra realizada". Stauffenberg, novamente, perdera tempo esperando a chegada de Himmler e Goering. Apesar disso, quando o jovem militar havia já decidido colocar a bomba de qualquer maneira, o Führer deu por terminada a reunião e se retirou. Enquanto isso, o movimento de tropas em Berlim foi suspenso. Como justificação para o deslocamento das forças informou-se que se tratava de um exercício de rotina.

 

A 16 de julho Stauffenberg, Beck e Olbricht se reuniram em Berlim. Os três concordaram em que a próxima tentativa seria definitiva. Não se poderia repetir mais a mobilização "Walkyria", pois ninguém mais acreditaria no pretexto de novos exercícios.

 

O golpe, pois, seria o definitivo. Além disso, haviam ocorrido fatos que obrigavam os conspiradores a arriscar um tudo ou nada. Rommel fôra gravemente ferido na França, ao ser metralhado o seu automóvel por um caça-bombardeiro aliado. Isso privava o movimento de uma figura chave. Rommel, sem duvida, era o homem que gozava de mais prestígio, tanto na Alemanha como nos países aliados. Embora o marechal fosse contrário ao assassinato, os conjurados confiavam em que, uma vez o golpe triunfante, ele aderiria.

 

O dia 20 de julho

 

A 19 de julho, Stauffenberg recebeu ordens para apresentar-se, no dia seguinte, na "Toca do Lobo". Rapidamente, a notícia se espalhou entre os conspiradores. O atentado teria lugar no dia seguinte.

 

Ao dirigir-se à sua casa, naquela noite, Stauffenberg entrou em uma igreja católica e permaneceu longo tempo, orando. Era, efetivamente, o momento crucial da sua existência. Às seis da manhã, Stauffenberg saiu de casa e se dirigiu, acompanhado pelo seu ajudante, ao aeroporto de Rangsdorf, ao sul de Berlim. Ali, era aguardado pelo General Stieff, e seu ajudante. Os quatro subiram ao avião e levantaram vôo, rumo a Rastenburg, às sete da manhã.

 

No avião, Stieff entregou a bomba a Stauffenberg. Era um artefato britânico, preparado para explodir dez minutos depois de ativado seu detonador. Stauffenberg envolveu a bomba em uma camisa e colocou-a no pasta.

 

Às 10 h o avião aterrissou na pista de Rastenburg. Os quatro oficiais desceram e avisaram o piloto que estivesse pronto para decolar a qualquer momento, a partir do meio-dia. Em seguida, em automóvel, o grupo se dirigiu ao QG de Hitler, a nove milhas dali, no meio de um bosque.

 

Munidos com seus passes, os oficiais não tiveram inconveniente algum em passar através dos três postos de controle. O ajudante de Stauffenberg, Tenente von Haeften, deveria permanecer esperando o coronel, com uma pasta contendo uma segunda bomba e com o auto pronto para partir imediatamente, depois do atentado.

 

A hora da conferência fôra fixada para uma da tarde. Stauffenberg e Haeften tomaram uma refeição ligeira e depois foram procurar o General Fellgiebel, chefe de comunicações do QG, que também integrava o grupo de conspiradores. Fellgiebel deveria dar o sinal de "missão cumprida" a Berlim e depois interromper todas as comunicações do QG.

 

Depois, Stauffenberg foi entrevistar-se com o Marechal Keitel. Este surpreendeu Stauffenberg, ao dizer-lhe: "O Führer mudou seus planos para o dia de hoje. Espera-se a visita do Duce para as duas e trinta. Portanto, o conferência foi adiantada para as doze e trinta. Os informes deverão ser, portanto, breves".

 

A reunião seria realizada na sala de costume, um edifício feito de madeira e reforçado com paredes de concreto. Stauffenberg tinha a esperança de que, ante o perigo de ataques dos aviões aliados, Hitler mudasse o lugar da conferência para o refúgio subterrâneo, onde o efeito da bomba seria muito maior.

 

Chegou então o momento de se encaminhar para a sala, à presença do Führer. Stauffenberg necessitava de tempo para quebrar a cápsula de ácido que acionaria a bomba. Foi então que recorreu a um estratagema. Deixou descuidadamente seu boné e seu cinturão numa cadeira da ante-sala do gabinete de Keitel. De repente, após consultar seu relógio, o marechal disse que deviam dirigir-se à sala de reuniões. Os dois militares saíram. Esse era o momento que Stauffenberg esperava. Com o pretexto de apanhar seu boné retornou ao gabinete. Keitel, achando que se atrasariam, gritou-lhe que se apressasse. Stauffenberg reapareceu rapidamente e recusou a ajuda que um ajudante de Keitel lhe ofereceu, para levar sua pasta.

 

Stauffenberg, também antes de entrar na sala, declarou em voz suficientemente audível, dirigindo-se à telefonista, que aguardava uma chamada de Berlim. Depois, aproximou-se de Keitel, e entrou na sala onde se achava Hitler, em conferência com seus principais assessores militares.

 

Nesse instante, falava o General Heusinger, chefe de operações da OKW, Este fazia saber ao Führer que a situação, na região de Lemberg, era sumamente grave e era necessário enviar reservas. Ante essa declaração, Keitel interrompeu Heusinger, dizendo: "Meu Führer, talvez deseje escutar a opinião de Stauffenberg acerca desse assunto". Hitler recusou a sugestão, acrescentando que receberia informes de Stauffenberg depois que houvesse recebido todas as informações da frente russa. Os minutos voavam. A decisão de Hitler acabava de salvar a vida de Stauffenberg. De fato, caso tivesse que fazer uma exposição a Hitler, teria sido surpreendido pela explosão da bomba.

 

Ao entrar na sala, Stauffenberg comprovara, contrariado, que todas os janelas estavam abertas, o que reduziria a efeito da onda expansiva. Também constatou que a mesa era de sólido carvalho, firmemente assentada sobre dois pés maciços.

 

No escassa margem de tempo que lhe restava, Stauffenberg sussurrou a Keitel: "Marechal, tenho que fazer uma chamada telefônica urgente. Voltarei em um minuto...". Keitel o autorizou a abandonar a sala com um leve movimento de cabeça. Stauffenberg inclinou-se, então, e depositou a pasta com a bomba debaixo da mesa, junto a um dos pés da mesma, diante de Hitler. Depois, dirigindo-se ao Coronel Brandt, que estava junto a ele, murmurou: "Coronel, vou deixar aqui minha pasta, tenho que fazer uma chamada urgente". Em seguida, abandonou a sala.

 

Explode a bomba

 

Ao sair da sala de conferências, Stauffenberg se dirigiu apressadamente para o escritório do General Fellgiebel, que devia dar o sinal a Berlim que o atentado fôra executado. Fellgiebel aguardava fora da sua sala, junto com seu ajudante. Stauffenberg apareceu logo e, sem uma palavra, subiu ao carro, onde o esperava seu ajudante. Acendeu um cigarro e ficou observando o edifício onde Hitler se achava. Nesse lapso de escassos minutos, ocorrera um fato inesperado no interior do sala de conferências. Esse fato salvaria a vida de Hitler. O Coronel Brandt, ao procurar aproximar-se mais da mesa a fim de ter melhor visão dos mapas, tropeçou na pasta de Stauffenberg. Retirou-a então de onde estava e a colocou do lodo oposto do pé do mesa, separando-a, portanto, do corpo de Hitler. Assim a bomba, ao explodir, perderia parte da eficácia na direção do Führer. Os ponteiros do relógio marcavam 12 h e 42 m. Nesse momento, a bomba explodiu com grande estrondo.

 

Um dos extremos do edifício, praticamente, se desintegrou. Grandes colunas de fumaça surgiram entre os escombros. O teto da sala ruiu estrepitosamente e a mesa se desfez em mil pedaços. Os homens que estavam em torno dela foram derrubados pela terrível explosão. Quatro deles foram mortos instantaneamente ou ficaram agonizando. Mais dois resultaram gravemente feridos. Vários receberam ferimentos menores. Stauffenberg, enquanto isso, encontrava-se a caminho da saída. Dois minutos depois da explosão conseguiu passar pelo primeiro posto de guarda e, logo depois, transpôs o segundo. À uma da tarde se encontrava já no aeroporto. Quinze minutos mais tarde, o avião levantava vôo. Stauffenberg se dirigia a Berlim, convencido de que o Führer estava morto. No entanto, tal não ocorrera. O General Fellgiebel, ao aproximar-se do edifício em ruínas, viu surgir o ditador, com a pele chamuscada, a perna direita queimada e o braço direito paralisado. Seu uniforme estava totalmente destroçado.

 

Contudo, vivia ainda. O atentado havia fracassado.

 

A tragédia de Berlim

 

Rapidamente a situação foi controlada no QG de Hitler. Himmler chegou e ordenou cortar imediatamente todas as comunicações com o exterior. No princípio não se pensou que o atentado estivesse relacionado com um golpe de estado e as suspeitas recaíram imediatamente sobre Stauffenberg. Este, entretanto, estava já voando para Berlim. Ali, no edifício do Ministério do Guerra, Olbricht, em companhia do General Hoeppner, aguardava ansiosamente as notícias que desencadeariam o plano "Walkyria". Na França, no Hotel Majestic, em Paris, o General Stuelpnagel, governador militar, também aguardava o sinal para aderir ao golpe. A notícia, porém, não chegava. Finalmente, às 15h 30m, o General Thiele, chefe de comunicações de Olbricht, conseguiu estabelecer contato com Rastenburg e obteve uma informação fragmentada. Esta dizia que se havia produzido um atentado contra Hitler. No entanto, Thiele não pôde confirmar se o Führer estava vivo ou morto.

 

Ao receber essa notícia, Olbricht decidiu pôr em marcha o plano "Walkyria" O primeiro sinal de mobilização foi emitido às 15h 50m. Nesse momento chegava a Rangsdorf o avião de Stauffenberg.

 

Este saltou rapidamente do aparelho junto com seu ajudante, porém não encontrou veículo algum que o conduzisse ao Ministério da Guerra. Stauffenberg, então, telefonou ao escritório de Olbricht e foi atendido pelo chefe de Estado-Maior daquele general que lhe comunicou que o sinal "Walkyria" acabava de ser emitido. Até aquele momento não se havia recebido nenhum informe de Fellgiebel, do QG de Hitler. Stauffenberg, assombrado, murmurou: "Como pode ser? Hitler está morto!"

 

A notícia transmitida por Stauffenberg caiu como uma bomba no Ministério da Guerra. O movimento, por fim, estava em marcha. A Alemanha teria uma oportunidade paro escapar à destruição total.

 

As ordens "Walkyria" continuaram sendo emitidas, por teletipo, aos diversos pontos da Alemanha. Olbricht, uma vez posta em marcha a mobilização, dirigiu-se ao gabinete do seu chefe, o General Fromm, para coloca-lo a par do acontecido. Sem rodeio algum lhe disse que Hitler havia sido assassinado e lhe propôs que referendasse as ordens de mobilização do golpe. Fromm, no entanto, vacilou e declarou que antes teria que falar com o Marechal Keitel. Olbricht, convencido de que Hitler morrera, levantou o fone e pediu uma comunicação urgente com o QG. Em poucos minutos foi estabelecido contato entre Keitel e Fromm. O primeiro, rapidamente, comunicou a Fromm que tudo estava bem. Ocorrera um atentado contra Hitler, porém o Führer estava são e salvo. A partir desse momento se iniciou uma dramática sucessão de acontecimentos. Olbricht, sem saber que atitude tomar, abandonou o gabinete. Pouco depois, Stauffenberg chegou ao Ministério da Guerra. Quase ao mesmo tempo, também, chegou, em trajes civis, o General Beck.

 

Stauffenberg deu novo ímpeto ao movimento. Disse a Olbricht que certamente Keitel mentira. Se Hitler vivia, tinha que estar gravemente ferido... Em seguida, Olbricht e Stauffenberg tentaram realizar um último esforço ante Fromm. Este, novamente, se negou a acreditar nas declarações de Stauffenberg, que insistia que Hitler estava morto. O coronel, então, lhe disse que havia sido o autor do atentado. Fromm respondeu imediatamente: "O assassinato fracassou... O senhor não tem outra saída senão matar-se... " Olbricht interveio então: "General Fromm, é o momento de agir... Se não agirmos agora, nossa pátria se arruinará para sempre!... ". Diante dessa declaração, Fromm declarou: "Olbricht, o que está dizendo significa que também você está do lado do golpe de estado... Então você e os seus companheiros estão presos". Olbricht, incontinenti, replicou: "Você não pode nos prender. Somos nós que prendemos você!" Fromm tentou resistir, porém foi subjugado, e encerrado sob vigilância.

 

Em meio a uma crescente confusão, os conjurados trataram de apoderar-se dos mais importantes pontos de Berlim e de outras cidades da Alemanha, emitindo as correspondentes ordens aos chefes das guarnições. Tudo, no entanto, terminaria no mais absoluto fracasso.

 

Goebbels, que se encontrava em Berlim, reagiu com extrema energia. Fez conduzir à sua presença o Major Remer, chefe do batalhão da guarda "Grossdeutchland", a principal força com que os conspiradores esperavam contar.

 

Ao chegar Remer à presença de Goebbels, este lhe declarou que o Führer estava vivo e, para confirmar, estabeleceu imediatamente uma comunicação telefônica com Hitler. O ditador falou pessoalmente com Remer e, confiando-lhe a missão de dominar a situação em Berlim, promoveu-o a coronel. Remer reuniu seus homens em torno do casa de Goebbels, e o ministro da propaganda pronunciou um inflamado discurso, incitando os soldados a libertar Berlim dos conspiradores. Enquanto isso, Himmler chegou à capital. Acabava de ser nomeado por Hitler comandante-chefe do exército de reserva.

 

A ação se descarregou então contra o Ministério da Guerra. No interior do edifício, entrementes, tinha lugar um trágico episódio. Os homens de Remer já marchavam para cercar o ministério. Nessas circunstâncias, o General Olbricht reuniu todos os homens que acreditava leais à conspiração e declarou-lhes que era necessário resistir até ao fim ao ataque iminente.

 

Alguns dos oficiais, contudo, liderados pelo Tenente-Coronel Herber, decidiram desobedecer as ordens de Olbricht. Empunhando suas armas, enfrentaram os conjurados. Produziu-se então um tiroteio, no transcorrer do qual Stauffenberg ficou ferido. Os conspiradores foram então imobilizados. Fromm foi posto em liberdade e, imediatamente, decidiu eliminar os mentores do movimento. Stauffenberg, Olbricht, Haeften e o Coronel von Quirheim foram conduzidos a um dos pátios do edifício e, à luz dos faróis de um caminhão, fuzilados imediatamente. Um instante antes de tombar crivado pelas balas, Stauffenberg gritou: "Viva nossa sagrada Alemanha!" Enquanto isso, o velho General Beck era morto com um disparo na nuca, depois de por duas vezes haver tentado suicidar-se. Pouco mais tarde, Fromm enviou uma mensagem a todas as unidades das forças armadas, anunciando o fracasso da conspiração e o fuzilamento dos conspiradores. À uma da manhã de 21 de julho, Hitler dirigiu uma alocução pelo rádio a toda a Alemanha, anunciando as terríveis represálias que castigariam a intentona subversiva.

 

E, com efeito, para todos aqueles que, de uma ou de outra forma, estiveram relacionados com o complô, não houve a menor contemplação. O General Fromm, que acreditou salvar a sua vida  fuzilando os conjurados, caiu também. Mais de 7.000 pessoas foram aprisionadas pela Gestapo, e cerca de 5.000 tombaram, executadas pelos pelotões de fuzilamento ou pelos verdugos de Himmler. Esse foi o sangrento preço pago pelos homens que tentaram salvar o Alemanha. O General Tresckow, o homem que pusera em marcha a conspiração, depois de despedir-se de seu ajudante, dirigiu-se à frente de batalha, na Rússia, onde se encontrava, e avançando através da "terra de ninguém" arrancou a trava de uma granada de mão e voou aos pedaços. Pouco antes havia declarado ao seu ajudante: "Fizemos o que devíamos... Dentro de poucas horas estarei diante de Deus para responder pelas minhas ações e minhas omissões... Creio que poderei mostrar, com a consciência limpa, tudo o que fiz na luta contra Hitler... Um homem só vale na medida em que está disposto a sacrificar sua vida na defesa das suas convicções". Foi esse o fim da fracassada conspiração contra Hitler. Seus protagonistas, tombando diante dos pelotões de fuzilamento ou perecendo enforcados, cumpriram um ciclo. Foi a trajetória de homens que reagiram demasiado tarde, quando já não era mais possível fazê-lo. Haviam contemporizado ou haviam sido fracos. E isso lhes custou a vida.

 

Milhares de homens, civis e militares, pereceram procurando salvar a Alemanha do desastre. Não o conseguiram. E a Alemanha foi derrotada...

 

 

Anexo

 

Comunicado Oficial

"20 de julho de 1944.

"Atentou-se hoje com uma bomba contra a vida do Führer. Resultaram gravemente feridos: o Tenente-General Schmundt, o Coronel Brandt e o ajudante Berger; levemente feridos: o Coronel-General Jodl, os Generais Korten, Buhle, Bodenschatz, Heusinger, Scherff, os almirantes Voss, von Puttkamer, o Capitão-de-navio Assmann e o Primeiro-Tenente Borgmann.

"O Führer, fora queimaduras leves e luxações, não sofreu ferimentos graves. Imediatamente retomou o seu trabalho e, como estava previsto, recebeu o Duce em conferência. Pouco depois do atentado anunciou-se a chegada do Marechal do Reich [Goering] ao QG do Führer."

 

 

“Morto?”

Era a tarde de 20 de julho de 1944. Em Schlachtensee, na Rua Betazeile, erguia-se a residência do Almirante Canaris, E lá estava ele, quando a campainha do telefone rompeu o silêncio reinante na mansão. Canaris largou sobre uma poltrona o livro que lia e apanhou o fone. Uma voz conhecida perguntou:

- Canaris?

O almirante reconheceu imediatamente quem falava. Era Stauffenberg. Sem vacilar, respondeu: - É Canaris, sim... Fale, Stauffenberg...

A voz do coronel não deixou transparecer a emoção que o embargava, quando disse:

-O Führer acaba de morrer... Uma bomba...

Canaris, sinceramente sacudido pela notícia, teve suficiente presença de espírito para não fornecer indícios aos homens da Gestapo que, minuciosamente escutavam e gravavam todas suas conversas telefônicas. Então habilmente, respondeu a Stauffenberg: - Morto? Deus do céu!... Quem foi? Os russos?...

Stauffenberg, compreendendo, acrescentou algumas frases circunstanciais acerca da terrível notícia e, em seguida, desligou. Começou, então, para Canaris, a longa espera. O almirante sabia que mesmo que Hitler estivesse morto, e disso não tinha dúvidas, pois assim o afirmara o Coronel Stauffenberg, a situação não seria resolvida assim, pois restavam ainda a Gestapo e a SS, duas poderosas organizações que não seria fácil dominar.

Canaris meditou uns minutos. Que deveria fazer? Por fim, preferiu esperar. Por volta das cinco da tarde um novo chamado telefônico o alertou: Hitler vivia!

Imediatamente, Canaris foi para o seu gabinete. Seu ajudante já se ocupava em redigir um telegrama de felicitações ao Führer.

No dia 22, foi visitado por um antigo subordinado, seu amigo pessoal e simpatizante do movimento antinazista. O diálogo que se travou foi formado de meias palavras e insinuações. Os dois sabiam que seus passos eram seguidos e suas palavras controladas minuciosamente. Canaris, ao despedir-se, disse apenas: - Assim não se podia fazer, naturalmente... Chame-me outro dia...

No dia seguinte, domingo, Canaris já estava detido. Posteriormente, Canaris foi conduzido à prisão de onde não sairia mais. Ali o esperava a morte, assim como a milhares de homens que se opuseram aos descabidos planos de Hitler. Sentiria, na própria carne, os sofrimentos que, antes dele, muitos homens já haviam experimentado...

 

 

Discurso do Führer ao Povo

"Compatriotas, companheiros alemães:

"Não sei quantas vezes foram planejados atentados contra mim e pretenderam levá-los a cabo. Se hoje me dirijo a vós, o faço movido por dois motivos especiais: Primeiro, para que escutem minha voz e se convençam que estou ileso e bem de saúde. Segundo, para que tomem conhecimento também dos detalhes de um crime sem precedentes na história da Alemanha. Uma diminuta camarilha de oficiais ambiciosos, inconscientes e, ao mesmo tempo, loucos, reuniram-se em complô para tirar-me do caminho e tomar-me a condução da Wehrmacht. A bomba, que foi colocada pelo Coronel Conde von Stauffenberg, explodiu a dois metros de onde eu estava. Feriu gravemente vários fiéis colaboradores e um deles morreu. Eu consegui sair ileso, salvo pequenos arranhões e queimaduras.

"Vejo neste fato a aprovação da Providência para continuar o destino da minha vida, tal como o fiz até agora. Posso afirmar com alegria, diante de toda a nação, que desde o primeiro dia em que entrei para a Wilhelmstrasse, um só pensamento me guiou: o de cumprir com a melhor boa vontade e consciência o meu dever. Por essa razão, desde que se tornou claro que a guerra era inevitável e não pôde mais adiar-se, somente conheci preocupações e trabalhos e vivi muitos dias e velei noites inteiras apenas pelo bem do meu povo. E isto acontece em um momento em que os exércitos alemães estão numa situação difícil, e tal como aconteceu na Itália acontece agora na Alemanha. Reuniu-se um pequeno grupo que pretendeu desferir na Alemanha, como em 1918, um golpe pelas costas. Porém, desta vez se enganaram lastimavelmente, A afirmação desses usurpadores de que eu não vivo mais é refutada neste momento em que me dirijo a vós, compatriotas. O círculo representado por eles é relativamente pequeno. Nada tem a ver com a Wehrmacht e, sobretudo, com o exército alemão em geral. Trata-se de um insignificante grupo de elementos criminosos que agora serão exterminados sem contemplações.

"Por isso, ordeno, neste momento: Primeiro: Que nenhum funcionário civil cumpra uma ordem emitida por esses usurpadores. Segundo: Que nenhuma repartição militar, nenhum comandante de tropa, nenhum soldado acate as ordens desses usurpadores. Pelo contrário, todos são obrigados a prendê-los ou a matá-los em caso de resistência. Para restabelecer decisivamente a ordem nomeei o ministro do Reich, Himmler, comandante-chefe do exército de reserva. Convoquei ao Estado-Maior o Coronel Guderian, para substituir o general-chefe do Estado-Maior enquanto durar a sua enfermidade. E designei um segundo comandante da frente ocidental.

"Em todas as repartições do Reich nada varia. Tenho a convicção de que, com a exclusão desta diminuta minoria de traidores e criminosos, por fim criaremos a retaguarda da pátria, a atmosfera que necessitam os combatentes na frente, visto que é impossível que na linha de frente milhões e milhões de homens honrados lutem até ao último alento, enquanto em casa um insignificante punhado de ambiciosos e miseráveis tentam constantemente solapar essa atitude.

"Desta vez se procederá como estamos acostumados a agir: Como nacionais-socialistas. Estou convencido de que cada oficial decente e valoroso e cada soldado compreenderão isso, neste momento que atravessamos.

"Que destino atingiria a Alemanha, se o atentado de hoje tivesse resultado, só a minoria poderia imaginar. Quanto a mim, agradeço à Providência e ao meu Criador, não por me haver conservado a vida - minha vida é somente preocupação e cuidado para com o povo - mas agradeço somente por me haver dado a possibilidade de continuar servindo o povo alemão."

 

 

Uma reduzida camarilha?

Após o discurso de Hitler, onde o Führer comentou o atentado diminuindo a sua importância, os aviões ingleses lançaram sobre a Alemanha milhões de panfletos impressos em alemão, com o seguinte texto:

"Uma reduzida camarilha?

"Em seu comunicado pelo rádio Hitler declarou que foi organizado um golpe pacifista por oficiais alemães.

"Goering, em seu manifesto, tachou os homens do movimento de "uma reduzida camarilha de velhos generais".

"Aqui estão os fatos indiscutíveis: Hitler e Himmler tiraram a condução da guerra aos generais, militares de carreira.

"Entre os generais substituídos por Hitler se encontram os seguintes generais marechais-de-campo:

Fiodor von Bock, W. von Brauchitsch,  Ewald von Kleist, Wilhelm Ritter von Leeb,  Wilhelm List, Fritz Erich von Manstein,  Gerd von Rundstedt, Erich von Witzleben. Os coronéis-generais: Ludwig Beck, Alexander von Falkenhausen, Fritz Fromm, Franz Halder, Erich Hopper, Richard Ruoff, Adal Strauss.

"Será essa uma reduzida camarilha? Serão homens inconscientes? Trata-se de generais que, como oficiais da Wehrmacht, pensam sobre os assuntos militares de maneira diferente dos condutores políticos. Esta reduzida camarilha raciocina assim: A Alemanha deve pôr termo urgente à guerra. Está claro que, na Alemanha, agora há dois partidos: os que desejam prolongar a guerra e os que desejam terminá-la".

 

 

Ordem do Dia

No dia 23 de julho, o chefe de Estado-Maior-Geral do Exército, Coronel-General Guderian, leu pelo rádio a seguinte ordem do dia, emitida pelo Führer a 21 de julho:

"Ordem do dia: Soldados do exército! Um insignificante círculo de oficiais inconscientes atentou contra mim e contra o Estado-Maior-Geral da Wehrmacht, para apoderar-se do poder. A Providência fez fracassar o criminoso atentado.

"Pela imediata e efetiva intervenção de oficiais fiéis e soldados do Exército, na pátria, conseguimos deter ou anular o pequeno grupo de traidores. Não esperava outra coisa. Eu sei que vós todos seguireis na luta valentemente e com exemplar obediência como até agora, em fiel cumprimento do dever. Até obter a vitória que, apesar de tudo, será nossa.

O Führer Adolf Hitler."

 

 

Às armas

Após proceder a leitura da ordem do dia do Führer para o exército alemão, a 23 de julho, o Coronel-General Guderian falou às unidades db exército nos seguintes termos:

"Depois de comunicar a Ordem do Dia ao Exército, acrescento o seguinte, em nome do exército alemão. Uns poucos oficiais, em parte retirados do serviço ativo, perderam a coragem e, por covardia e debilidade, preferiram o caminho da vergonha ao único que pode ser seguido pelos soldados decentes e honrados: o do dever!

"O Exército se depurou por si mesmo e rechaçou os elementos indesejáveis. Em todas as frentes de combate e na pátria trabalha-se febril e sacrificadamente pela vitória. O povo e o Exército apóiam, firmemente unidos, o Führer. O inimigo se equivocou ao acreditar, como acreditou, que podia contar com a divisão dos generais do Exército alemão.

"Eu garanto ao Führer e ao povo alemão a união dos generais, do corpo de oficiais e dos soldados do Exército, com o único ideal de conseguir o triunfo, sob o lema que nos legou o venerável General-Feldmarschall von Hindenburg: ‘a fidelidade é o signo da honra’.

"Viva a Alemanha e nosso Führer Adolf Hitler.

"E agora, povo alemão, às armas!"

Nem todos os oficiais alemães seguiram os conjurados, como se pode comprovar pelo comunicado do General Guderian. Por lealdade ao juramento prestado ou por convicção, muitos deles preferiram seguir o Führer até às últimas conseqüências. O final da Alemanha, que a essa altura dos acontecimentos já era claramente visível para todos, não decidiu homens que, com sua presença e seus meios, teriam levado o complô ao êxito. O tempo demonstrou que sua lealdade, sincera e elogiável, os levou à catástrofe.

 

 

O cenário e os personagens

O croquis reproduz a disposição do mobiliário e a localização das personalidades presentes à conferência de 20 de julho, no QG do Führer, no decurso da qual se consumou o fracassado atentado contra a vida do ditador alemão.

1. Adolf Hitler.

2. General Heusinger, chefe de operações do Alto Estado-Maior do Exército e delegado do chefe supremo desse organismo.

3. General Korten, da Luftwaffe, chefe do Estado-Maior da Força Aérea; faleceu em virtude dos ferimentos recebidos.

4. Coronel Brandt, do Estado-Maior, ajudante de Heusinger; faleceu em virtude dos ferimentos recebidos.

5. General Bodenschatz, da Luftwaffe, oficial de ligação de Goering no QG do Führer; gravemente ferido.

6. General Schmund, auxiliar principal da Wehrmacht junto ao Führer; faleceu depois, em conseqüência dos seus ferimentos.

7. Tenente-Coronel Borgmann, do Alto Estado-Maior, ajudante do Führer; gravemente ferido.

8. Contra-Almirante von Puttkamer, adido naval do Führer; levemente ferido.

9. Estenógrafo Berger; morreu instantaneamente.

10. Capitão Assmann, da Marinha, delegado do Estado-Maior naval junto à seção de operações da Wehrmacht; levemente ferido.

11. General Scherff, comissionado especial do Führer para a redação de uma história militar; levemente ferido.

12. General Buhle, chefe do Estado-Maior do Exército no Comando-Supremo da Wehrmacht; levemente ferido.

13. Contra-Almirante Voss, representante do comandante-em-chefe da Marinha no QG do Führer.

14. Chefe do grupo da SS Fegelein, representante das forças SS no QG do Führer.

15. Coronel von Below, do Estado-Maior da Luftwaffe, ajudante do Führer.

16. Chefe do grupo de assalto da SS Günsche, ajudante de Hitler.

17. Estenógrafo Hagen.

18. Tenente-Coronel von John, do Estado-Maior, ajudante de Keitel.

19. Major Büchs, do Estado-Maior, ajudante de Jodl.

20 Tenente-Coronel Weizenegger, do Estado-Maior, ajudante de Keitel.

21. Conselheiro ministerial von Sonnleithner, representante do Ministério das Relações Exteriores no QG do Führer.

22. General Warlimont, chefe interino da seção de operações da Wehrmacht; leve choque.

23. General Jodl, chefe de operações da Wehrmacht; levemente ferido.

24. Marechal-de-Campo Keitel, chefe do Comando-Supremo da Wehrmacht.

 

 

O Cárcere

Um autor alemão relata assim a situação dos detidos no fracassado complô:

"As celas para os detidos haviam sido preparadas nos sótãos do grande edifício que a Gestapo ocupava. Por causa dos numerosos alarmes aéreos, as portas das celas não eram trancadas mas somente encostadas. Vários guardas da SS, bem armados, vigiavam para que os presos não pudessem se evadir. Além disso, a maioria dos prisioneiros estavam amarrados ou algemados pelo menos à noite. Canaris ocupava uma cela sozinho. Estava proibido de saber quem ocupava as celas vizinhas. Quando os presos eram transportados para interrogatório, os guardas se asseguravam antes de que todas as portas estivessem bem encostadas, para que não pudessem reconhecer os que passavam pelos corredores. Contudo, se o terror da Gestapo era cruel, os métodos da polícia de Himmler eram primitivos. A teoria de que os prisioneiros deviam ficar totalmente isolados uns dos outros, fracassava na prática, devido aos ataques aéreos. Para Himmler e Kaltenbrunner, os seus prisioneiros tinham tanta importância que não queriam que ficassem expostos a morrer, vítimas das bombas dos aviões inimigos. Quando um grande ataque era anunciado procedia-se à transferência dos presos das suas celas, através do pátio, ao denominado refúgio "Himmler": Enquanto durava o ataque aéreo, tinham que permanecer alinhados na parede, misturados com guardas da SS, de forma tal que não ficassem juntos dois detidos. E, naturalmente, era proibido que falassem entre si; porém, pelo menos, podia-se saber quem ali estava. Além disso, no transporte das celas ao refúgio e no regresso, não raro podia-se trocar uma palavra com este ou aquele companheiro de prisão. Também se podia passar alguma carta. A ordem que se transmitia aos prisioneiros era: "Procurem ganhar tempo". Porque mesmo ali, nas celas da Gestapo, sentia-se, cada dia com mais intensidade, que não estava muito longe o fim do regime hitleriano.

"Companheiros de penas de Canaris na Rua Príncipe Albert eram prestigiosos membros da oposição contra Hitler. Entre eles figuravam Goerdeler, os Generais Halder, Thomas e Oster, o antigo ministro Popitz, o secretário de estado Planck, o juiz Sack, Herbert Goering, sobrinho do marechal, o doutor Hjalmar Schacht (que no começo de setembro foi transferido para Sachsenhausen), além do doutor Josef Muller, Liedig, Strünck e Gehre, mais um filho do General Lindemann, Nebe e também estava o pastor Bonhoffer... Canaris era dos prisioneiros que, como Oster e Muller, estavam submetidos a um tratamento mais duro. Levava um tipo de algemas que o incomodava muito; recebeu durante muito tempo apenas uma terça parte da ração normal dos detidos e passou fome, precisamente na época do Natal. Uma vez em que teve de limpar o corredor junto com Muller e Gehre (coisa que oferecia a vantagem de poder aproveitar a oportunidade para entender-se com os outros) teve que agüentar ouvir de um guarda da SS: ‘Você, marinheirinho, nunca podia pensar que ia acabar lavando o chão!’

"A maior parte dos prisioneiros continuou na Rua Príncipe Albert até que o edifício da Gestapo foi destruído na noite de 3 de fevereiro de 1945, durante um grande ataque aéreo... A 7 de fevereiro, os prisioneiros relacionados com o atentado de 20 de julho foram transportados para fora de Berlim... Depois, conseguiu-se saber que os prisioneiros, por razões desconhecidas, foram divididos em dois grupos. O primeiro, ao qual pertencia Canaris, Oster e Strünck, foi enviado para Flossenbürg; o segundo, onde se encontravam o doutor Josef Muller, Liedig e a maioria dos detidos citados, foi mandado para Buchenwald, porém uma parte deste segundo grupo chegou, no coméço de abril, a Flossenbürg.

"As torturas a que foram submetidos os prisioneiros não eram, preferentemente, físicas... Durante a .noite... era totalmente proibido mover a cabeço e mudar o corpo de posição.. O tormento principal era de tipo mental. Procurava-se destruir a frente compacta apresentada pelos detidos. E para isso a Gestapo empregava o velho estratagema de afirmar que os demais haviam confessado tudo e que faziam recair a culpa principal sobre o interrogado. Aqueles que haviam ocupado postos inferiores ou cargos subordinados, dizia-se-lhes que haviam sido traídos por seus superiores e que, portanto, não deviam agora defendê-los, nem guardar silêncio. Aos que haviam tido postos dirigentes dizia-se que seus subordinados haviam contado tudo. A Gestapo não teve muita sorte com o emprego de tais métodos com estes prisioneiros... Uma ou outra vez os presos sofriam injeções de drogas desconhecidas. Os sobreviventes contam que depois de receber essas injeções percebiam, quando os interrogatórios duravam muito tempo, uma diminuição de sua capacidade de concentração... "

 

 

Flossenbürg

Antes que em Flossenbürg fosse instalado o campo de concentração que teve esse nome, o lugar era uma paisagem idílica, situada em uma ladeira do vale do Pfalz superior, não muito longe do povoado de Waiden e perto da antiga fronteira bávaro-boêmia. Em 1938, pelo acordo de Munique a fronteira foi mudada mais para o Leste. A paisagem é montanhosa e semelhante a muitas do centro e do sul da Alemanha.

Flossenbürg, contudo, perdeu sua condição de paragem encantada no dia em que os homens de Himmler iniciaram ali a construção de um certo número de barracões destinados a alojar os seus prisioneiros. As construções, erguidas às pressas, tinham espaço, no começo, para 16.004 internados. No entanto, o número de prisioneiros, nos últimos anos da guerra, passava de 60.000. As condições em que eles viviam eram semelhantes às dos mais tristemente célebres campos de extermínio, como Buchenwald, Dachau, Treblinka e muitos outros.

Assim como nos outros campos de concentração, Flossenbürg tinha, além dos barracões de madeira, um edifício de um só pavimento de celas, construído de tijolos e que na linguagem do campo era chamado "Fortim". Esse edifício tinha umas quarenta celas que normalmente alojavam os presos castigados: à reclusão solitária. Essas celas, ao ocorrerem os acontecimento conhecidos, foram destinadas ao prisioneiros "especiais". As quarenta celas abrigavam cerca de cem prisioneiros, considerados sumamente importantes e perigosos para o regime nazista. Entre eles se encontrava o ex-chanceler austríaco Kurt von Schuschnigg, que se achava preso em companhia da mulher e da filha pequena. Também se encontravam ali os prisioneiros de guerra "perigosos" por haver tentado a fuga; entre eles 14 pilotos britânicos. No comêço de 1945, foi transferido para a cela 21 do "Fortim" o Tenente-Coronel do Estado-Maior do Exército da Dinamarca, H. M. Lunding. Esse militar havia ocupado, no momento da invasão da sua pátria pelos alemães, a chefia do Serviço de Informações do Exército dinamarquês, tornando-o homem "perigoso" e, como tal, devia ser isolado.

Em Flossenbürg, ao ocupar a cela 21, Lunding constatou que numa das tábuas da porta se produzira uma rachadura por onde via o exterior. Aquilo foi para Lunding uma descoberta vital, pois lhe permitiu não cair na loucura. Lunding, portanto, dedicou-se a observar tudo quanto ocorria no corredor, diante da sua cela. Também, o escritório principal do "Fortim" estava a poucos metros da sua cela e no seu interior havia permanentemente um grande movimento. Isso permitiu a Lunding ser testemunha dos procedimentos habituais dos nazistas e, de acordo com os cálculos do militar dinamarquês, nos dez meses que permaneceu internado, presenciou entre 700 a 900 execuções. O caminho do escritório (onde se despojavam os condenados de toda sua roupa) ao local da execução, passava precisamente diante da cela de Lunding. Fora, no pátio, erguia-se um telheiro aberto em cujas armações foram penduradas argolas por onde passavam as cordas destinadas a enforcar os prisioneiros e, perto delas, uma superfície de chumbo de um metro quadrado aproximadamente, diante da qual tinham que se ajoelhar os prisioneiros a serem executados com um disparo na nuca.

Nesse trágico campo, assim como em muitos outros, milhares de homens pereceram pelo delito de não compartilhar com as idéias do regime imperante na Alemanha. Um trágico destino caracterizou os campos que, tristemente, alcançaram notoriedade. Poucos viveram o momento da libertação.

 

 

 

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