Bradley rompe as linhas alemães
Rompimento da
frente alemã na Normandia, em Saint Lo
Plano Cobra
|
Enquanto Montgomery fracassava em seu intento de quebrar a frente
alemã em Caen, as forças americanas se aprontavam para levar avante o seu
propósito de romper no leste. Essa manobra seria decisiva para colocar um
ponto final na resistência às operações na França. Depois do resultado
adverso da primeira investida das tropas do General Bradley, este procurou
re-estudar a situação, para, como ele mesmo salientou, "encontrar um
trampolim por onde pudéssemos saltar para o ataque de rompimento". Durante dois dias, Bradley permaneceu estudando os mapas,
tratando de encontrar o ponto mais favorável para levar avante o ataque.
Nasceu assim o plano Cobra, cujos resultados seriam conhecidos militarmente
como "o rompimento do Normandia". Essa operação foi decisiva, pois
colocou um fim à resistência alemã organizada, na França. Antes de ser posta em marcha a operação Cobra, Montgomery, como
já se descreveu, levou a cabo o ataque, sem êxito, na zona de Caen. Por conseguinte, todas as esperanças ficaram depositadas no
plano Cobra. |
|
Conquista de Saint Lo O plano do General Bradley considerava o rompimento sobre uma
estrada que corria paralela à frente, da cidade de Saint Lo até Perier.
Portanto, a captura da cidade de Saint Lo, no extremo da linha, era vital
para assegurar o desenrolar do avanço posterior. Os alemães haviam localizado suas posições nos colinas situadas
ao norte e ao noroeste de Saint Lo, num terreno extremamente vantajoso para a
defesa. No mês de julho, antes que os americanos levassem a cabo o ataque
contra a cidade, numa escaramuça, os alemães conseguiram capturar uma ordem
de campanha no qual Soint Lo era citada como um dos principais objetivos dos
americanos. O Alto-Comando decidiu, então, reter, a qualquer preço, essa
posição. As forças com que a Wehrmacht contava na zona de Saint Lo se
resumiam no 2o Corpo de Pára-Quedistas. Este era formado pela 3a Divisão de Pára-Quedistas e
uma brigada de assalto de três grupos de combate. Embora as tropas não
pudessem cobrir suficientemente a frente, era de esperar uma resistência
tenaz, pois se tratava de unidades veteranas, extremamente aguerridas. O chefe alemão, General Meindel, embora achasse o número de
tropas insuficiente para cobrir a ampla frente, confiava que as excelentes
posições defensivas que elas ocupavam, lhes permitiria rechaçar o ataque
americano em Saint Lo. Ao se iniciar a ofensiva, empreendida pelo 19o
Corpo de Exército americano, do General Corlett, o centro das operações foi a
colina 192, que dominava um dos acessos. Cooperou também, nesse ataque, o 5o
Corpo americano, do General Gerow. Uma de suas divisões de infantaria se
lançou ao assalto da colina. A unidade era veterana, porém Gerow não confiava
no êxito final da operação. Num assalto anterior, tentado no mês de junho, a
divisão sofrera umas 1.200 baixas, sem alcançar seu objetivo. A artilharia começou a varrer a elevação com um violento fogo,
enquanto as tropas abriam buracos nas sebes para que, por eles, avançassem os
tanques, sem demora. Um informe da aviação assinalava que a colina 192 fôra de tal forma
martelada pelo fogo da artilharia, que ficara convertida numa massa de terra
triturada. Contudo, continuava a ser uma posição forte. Entrincheirados num
intrincado sistema de fortificações subterrâneas, os soldados de um batalhão
da 3a Divisão de Pára-Quedistas esperavam o assalto. A missão do ataque foi confiada ao 38° Regimento de Infantaria,
apoiado por três companhias de tanques e duas de morteiros pesados. A
operação foi iniciada na manhã de 11 de julho. Uma bruma espessa cobria o campo de ação, o que obrigou o
cancelamento do planejado bombardeio aéreo de apoio. Durante vinte minutos,
os canhões de campanha da 2° Divisão martelaram a colina, para abrir caminho
aos regimentos de assalto. O 38° Regimento, que marcharia na vanguarda, se retirara na
noite anterior, a várias centenas de metros para a retaguarda, a fim de
proteger-se de possíveis erros do bombardeio aéreo de apoio. Assim, quando a
ordem de ataque foi dada na manhã de 11 de julho, os soldados do regimento
tiveram que avançar novamente, recuperando o terreno perdido. Os alemães, entrementes, haviam observado o retrocesso das
tropas americanas. Acertadamente, deduziram que o movimento era sinal de um
ataque iminente. Por conseguinte, os pára-quedistas saíram dos seus refúgios
e avançaram sobre as posições ocupadas anteriormente pelos americanos. Dessa forma, quando os infantes americanos se lançaram novamente
ao assalto, foram recebidos por uma descarga cerrada dos combatentes alemães.
Em menos de uma hora de combate, estes, com seus Panzerfaust, destruíram
todos os tanques que marchavam na vanguarda. A artilharia americana redobrou seu fogo e descarregou mais de
20.000 projéteis sobre as linhas alemãs. Novos tanques e destacamentos
armados de bazucas se somaram ao ataque. Assim começaram a forçar os pára-quedistas a retroceder. A luta,
no entanto, continuou sem definição. Aqui e ali os americanos ganhavam
algumas centenas de jardas. Finalmente, ao meio-dia, os americanos puseram o
pé na colina 192 e formaram ali um perímetro defensivo. Nessa tarde, o General Hausser, comandante do 7o
Exército, ordenou ao seu subordinado, o General Meindel, chefe do 2o
Corpo de Pára-Quedistas, que retivesse a colina a qualquer custo. Essa
posição era vital para impedir o avanço americano sobre Saint Lo. Contudo, já
era demasiado tarde. A colina estava nas mãos do 38° Regimento e não poderia
ser reconquistado. A 12 de julho, as forças americanas tentaram prosseguir o
rompimento, mas foram contidas pela inquebrantável resistência alemã. A
unidade, porém, conseguira o seu objetivo: conquistar o melhor ponto de
observação sobre o campo de luta de Saint Lo. Enquanto isso, o 19o Corpo de Exército se lançou ao
assalto com duas divisões: a 35a e a 29a de Infantaria.
Esta última unidade teve a seu cargo o avanço direto sobre a cidade, apoiada
pelo fogo de quatro batalhões de canhões de 155 mm e obuses de 4,5 e 8
polegadas. As sebes da Normandia constituíram, uma vez mais, um formidável
obstáculo para o avanço, facilitando a ação defensiva dos alemães. A luta, entretanto,
não poderia se prolongar indefinidamente, dada a superioridade das forças dos
EUA. A 18 de julho os batalhões de assalto do 29o Regimento
entraram na cidade, convertida numa imensa massa de ruínas. As tropas alemães
haviam abandonado no último momento a posição. O General Hausser enviou um
desesperado pedido ao Alto-Comando, assinalando a absoluta inutilidade de
continuar a luta. O Alto-Comando do Grupo de Exércitos "B", a cujo
cargo estava o defesa da frente do Normandia, enviou, como resposta a Hausser,
a seguinte mensagem: "Tome as medidas que considere necessários; se tem
que retirar-se, proceda como deve...". Essa ordem estava em contradição
com as diretivas de Hitler de continuar a resistência até o último homem. No
entanto, a realidade dos fatos não podia ser ignorada pelos homens que tinham
a responsabilidade do comando direto das forças. Ao ter notícia da retirada, o Marechal von Kluge, chefe supremo
na França, tentou impedir que o recuo se efetuasse totalmente, e, mesmo tendo
comunicado ao General Hausser que era imprescindível continuar a se manter em
Saint Lo, não pôde encontrar reservas para reforçar esse chefe e permitir que
ele cumprisse essa missão. No dia seguinte da conquista de Saint Lo, cessaram as operações
ofensivas do 1o Exército, de Bradley. Os esforços realizados
pareceram acarretar resultados desprovidos de qualquer valor militar. Com uma
massa de doze divisões, o 1o Exército somente havia conseguido,
após dezessete dias de luta, avançar perto de sete milhas a oeste do rio Vire
e um pouco mais da metade dessa distância, a leste do rio. As baixas do 1o
Exército, até aquele momento chegavam a 40.000. Noventa por cento delas
pertenciam às unidades de infantaria. O seguinte fato fornece uma idéia
aproximada da violência da luta e da difícil situação das unidades
americanas, com referência aos quadros superiores: de todos os oficiais de um
regimento de infantaria americano, que havia desembarcado na Normandia pouco
depois do dia D, na terceira semana do mês de julho apenas restavam quatro
subtenentes; todos eles estavam, forçados pelas circunstâncias, comandando
companhias de atiradores. A maioria das baixas consistia em soldados,
suboficiais e oficiais feridos por estilhaços de granadas. Outros, em grande
número, sofriam fadiga de combate. Normalmente, os homens atacados desse mal
retornavam à frente depois de um período de descanso que se prolongava entre
vinte e quatro a setenta e duas horas. Outros, que não reagiam favoravelmente depois desse repouso, eram
evacuados para um dos dois centros de assistência que o 1o
Exército possuía. Neles, as 250 camas disponíveis no começo da campanha foram
aumentadas, primeiro para 750, e mais tarde, para 1.000. Uma frase de uma carta de um combatente define claramente a luta
e as baixas: "Ganhamos a batalha da Normandia, porém, considerando o
elevado preço pago em vidas, perdemos essa batalha..." Essa impressão
pode ser definida com a palavra empregada por um historiador militar
americano para qualificar a situação: frustração. A frustração resultante de
obter alguma coisa por um preço excessivo... O general Eisenhower, por sua vez, declarou, referindo-se à
dureza da luta no norte da França e às grandes baixas sofridas pelas tropas
sob seu comando: “Três foram os fatores principais: primeiro, e sempre, as
condições de combatividade do soldado alemão; segundo, a natureza do terreno;
terceiro, o tempo”. Mesmo as tropas de origem russa e polonesa, integradas
por ex-prisioneiros de guerra, incorporados às colunas da Wehrmacht, lutaram
tenazmente. Em todos os casos, combateram até o último projétil, defendendo
as posições que lhes tinham sido confiadas, e somente, então, se renderam. A Wehrmacht era uma formação muito boa, embora "não
invencível". A SS e os pára-quedistas merecem um parágrafo a parte. Suas
unidades eram integradas por combatentes selecionados, física e mentalmente.
Eram, em sua maioria, jovens e estavam fisicamente preparados para enfrentar
longas campanhas. Além disso, suas convicções políticas os levavam a
acreditar cegamente no triunfo final do regime nazista. Isso os tornava extremamente duros no combate e, em
conseqüência, sumamente difíceis de vencer. Cobra se põe em marcha O início do plano Cobra havia sido determinado para o dia 21 de
julho. No dia anterior, porém, o tempo piorou consideravelmente, dando aos
chefes aliados a clara sensação de que o operação deveria ser suspensa. Por
volta da meia-noite, recebeu-se na França uma mensagem da Força Aérea
Expedicionária Aliada, com base na Inglaterra, informando da necessidade de
adiar a operação até que as condições do tempo melhorassem sensivelmente. Paralelamente, os serviços de informações aliados notificaram
aos comandos sobre o alarmante aumento de tropas alemãs que se estava
verificando nas cercanias do ponto escolhido para o rompimento. Informara-se,
de fato, que duas divisões blindadas haviam abandonado as posições que
mantinham na zona de Caen, diante das tropas de Montgomery, e haviam tomado
posições novas na frente das tropas dos EUA. Portanto, o número de divisões
alemãs que se deslocavam agora subia a nove. Contudo, tal número tinha um
significado bastante relativo, visto que as divisões alemães estavam sendo
integradas com restos de unidades dispersas, e reforçadas com tropas
pertencentes aos diferentes serviços e recrutas, quase sem treinamento, alem
de contar em suas fileiras com ex-prisioneiros de guerra russos e poloneses.
Por conseguinte, a cifra de nove divisões não significava exatamente nove
divisões, mas muito menos, operativamente. No setor correspondente à frente inglesa, os alemães mantinham
distribuídas cinco divisões. Nas mãos de Montgomery ficava a missão de
obrigar essas tropas a não abandonar suas posições, conservando-as bem
alertas, de armas prontas. Evitaria assim que fossem transferidas para o
setor onde se ia produzir o rompimento. Era necessário aos Aliados, também, manter um ataque constante
sobre as unidades de infantaria alemães. A razão residia no fato de que os
alemães, gradualmente, procuravam retirar seus tanques da frente, com a
intenção de formar uma reserva na retaguarda, à medida que novas unidades de
infantaria substituíam os grupos Panzer. Essa reserva seria um novo obstáculo
a ser vencido pelas unidades aliadas em futuro próximo. Era preciso,
portanto, destruir os tanques quando ainda estavam dispersos em destacamentos
débeis, e antes que fossem organizados em fortes divisões blindadas. A força aérea aliada foi incumbida de entorpecer e procurar
evitar, a qualquer custo, o reforço das unidades alemães. Contudo, "a
assombrosa capacidade de recuperação" dos alemães, segundo as palavras
do General Bradley, lhes permitiu elevar o número de suas divisões. Apesar disso, a situação dos alemães piorava dia a dia, E as
perspectivas não eram nada alentadoras. Os alemães enfrentavam a crescente
maré de tropas aliadas com os escassos e esgotados efetivos do 7o Exército, lenta e precariamente
abastecidos e reforçados. Entretanto, muito perto dali, a 160 km, 19 divisões
alemãs, pertencentes ao 15o Exército, esperavam uma invasão que
não chegaria a produzir-se. Como disse posteriormente o General Bradley: "Fizeram
completamente o nosso jogo na ação mais importante da guerra". O Comando
alemão e, principalmente, o Führer continuavam esperando a invasão na zona do
Passo de Colais, por meio de uma força que seria comandada pelo General
Patton. Os críticos mais autorizados concordaram, mais tarde, em que não
foi somente o potencial bélico dos Aliados que derrotou os alemães na batalha
da França; foi, sem dúvida, o erro cometido por Hitler, mantendo imobilizada
uma tal quantidade de efetivos, muito próximo do campo de luta. Os mesmos, se
tivessem intervido, teriam propiciado uma considerável reviravolta no combate
e, muito provavelmente, teriam mudado o curso da guerra. O 15o Exército,
de fato, lançado à luta no momento oportuno, estaria em condições até de
expulsar os efetivos aliados, materializando o "lançamento ao mar-"
exigido por Hitler. O bombardeio A manhã do dia 23 de julho amanheceu cinzenta e brumosa. Durante
todo o dia. os meteorologistas trabalharam com seus instrumentos e enviaram
boletim após boletim ao comando aliado. Ao anoitecer de 23, por fim, os
informes começaram a ser alentadores: existiam probabilidades de que o céu se
apresentasse limpo no dia seguinte. Em conseqüência, as divisões do General
Collins foram imediatamente alertadas. A manhã de 24, contudo, amanheceu
úmida e nublada. Bradley, no comando, acompanhava, minuto a minuto, a
evolução das mudanças climáticas. Às 11 h 30m os alvos continuavam cobertos
por uma espessa camada de nuvens. Às 11 h 40m, vinte minutos antes da hora
fixada para o bombardeio, foi emitida uma comunicação radiofônica,
suspendendo a operação e determinando o regresso dos bombardeiros às suas
bases na Inglaterra. O ataque, de acordo com o comunicado, seria suspenso por
mais 24 horas. Bradley, por sua vez, regressou imediatamente ao comando do 1o
Exército, onde tomou conhecimento de uma notícia extremamente desanimadora:
os aviões pesados haviam dado cumprimento à primeira ordem de bombardeio e
lançado suas bombas, através da camada de nuvens. A conseqüência fôra um
desastre. Os impactos atingiram as próprias unidades da 30a
Divisão, a mais de um quilômetro da zona de ataque. O segundo ataque aéreo Na manhã de 25 de julho, o ar estremeceu com o rugido de 1.500
aviões de bombardeio aliados. Os aparelhos, carregando milhares e milhares de
toneladas de bombas, decolaram rumo ao alvo. Minutos mais tarde, quando o som
dos motores já se havia apagado na distância, os telefones do comando
começaram a soar estrepitosamente. E os primeiros informes chegaram. As
mensagens, nervosamente transmitidas e copiadas, revelavam que, uma vez mais,
os aviões aliados haviam confundido o alvo. Novamente as unidades aliadas
haviam sofrido as conseqüências do bombardeio. As divisões 9a e 30a
haviam recebido um duro golpe e as baixas eram numerosas. O número de vítimas
era tal que ambas as divisões tiveram que socorrer-se de suas reservas, a fim
de manter o poder operativo, gravemente atingido. Como disse o General Bradley, posteriormente, referindo-se a
este episódio: "Quando Eisenhower partiu esta noite para a Inglaterra, o
destino da operação Cobra ainda estava em dúvida. Centenas e centenas de
soldados dos Estados Unidos haviam sido mortos ou feridos pelo bombardeio
aéreo. Isto havia adiado o movimento de Collins e existiam poucos razões para
supor que nos encontrávamos à beira de um rompimento. Ao contrário, parecia
que o ataque fracassara. Dois dias mais tarde, Brereton, numa entrevista à
imprensa, declarou que a operação Cobra devia seu demorado início ao pesado
movimento das tropas terrestres. "Esqueceu-se de acrescentar que o retardamento havia sido
causado pelo extermínio dos americanos mortos e feridos que a aviação semeara
no nosso caminho". Na tarde de 25 de julho, os efetivos do General Collins
avançaram através de um terreno crivado de crateras de bombas. Atrás deles
seguia um exército americano integrado por 21 divisões. Já em princípios do mês de julho, Eisenhower autorizara o
General Bradley a dividir suas forças, formando assim dois exércitos com as
tropas dos Estados Unidos na França. Contudo, as reduzidas dimensões da
cabeça de praia não aconselhavam a divisão das forças americanas. Essa
separação, sem dúvida, agravaria a tarefa dos homens dos diversos serviços e
complicaria inutilmente os trabalhos de reabastecimentos. Entrementes, na retaguarda do 8o Corpo de Middleton
instalara-se o comando do 3o Exército, sob as ordens do General
Patton. Esse deslocamento havia sido efetuado, secretamente, da Inglaterra.
Junto a Patton se encontravam três comandantes de Corpo, que aguardavam a
designação das tropas que lhes seriam subordinadas, fazendo parte do 3o
Exército. Patton, pessoalmente, manifestara em várias oportunidades seu
desejo de intervir na operação Cobra. Bradley, contudo, estava decidido a que
a luta fosse levada a cabo sob o controle direto e único do 1o
Exército, pelo menos até que as divisões que constituiriam a ponta de lança
tivessem adquirido certa liberdade de movimentos, depois do rompimento. Em linhos gerais, o esboço da operação era o seguinte: enquanto
o General Collins perfurava as linhas alemães com uma coluna que se dirigiria
rumo à costa oeste de Cotentin, com a intenção de bloquear o inimigo que
ocupava a base da península e cercá-lo ali, Middleton avançaria rapidamente
rumo ao Sul, pela estrada de Coutances, unindo-se com as unidades de Collins
na interseção de estradas daquela localidade. Após efetuar a manobra
mencionado, Middleton deveria avançar rapidamente em direção a Avranches,
girando rumo à Bretanha ao chegar ao ângulo dessa península. Porém, no ponto
para onde convergiriam o 7o e o 8o Corpos se
produziria, inevitavelmente, um grande congestionamento de tropas. Bradley
achava que seria mais simples que um comandante de exército se ocupasse de
tal mister e não que fossem dois a terem que discutir os detalhes.
Posteriormente, uma vez superado o momento, "então sim, poríamos parte
das tropas do 1o Exército sob as ordens de Patton", foram as
palavras de Bradley. Patton na França A chegada do impetuoso general americano ao território
continental europeu ocorreu no dia 6 de julho, em companhia de uma vanguarda
do comando do 3o Exército. A viagem foi realizada dentro do maior
segredo, visto que seu conhecimento por parte do comando alemão os teria
alertado acerca da falsidade da existência de tropas aliadas dispostas a
invadir o continente, sob as ordens de Patton, através do Passo de Calais. Assim que o General Collins reorganizou suas linhas, nos setores
onde os próprios bombardeiros aliados as haviam golpeado, sua marcha começou
a adquirir velocidade. Ao chegar o meio-dia de 26 de julho, a 24 horas do início do
ataque, a crise havia passado e os combatentes aliados se preparavam para explorar
ao máximo o rompimento. Na tarde de 27 de julho, Middleton chegou com a 1a
Divisão até aos subúrbios de Coutances, buscando passagem entre os extensos
campos de minas que os alemães haviam semeado nesse setor da frente. Cobra, o
rompimento, estava em marcha. Entrementes, no setor alemão, as unidades alemães sofriam um
assédio incessante da aviação aliada. Nenhum comboio alemão de tropas, ou
abastecimentos, podia se lançar nas estradas antes da chegada protetora das
sombras da noite. Em muitos setores, os grupos encarregados da defesa eram
formados por homens de diferentes serviços, reunidos às pressas, armados e
colocados numa posição, com ordem de defendê-la a todo custo. Os bombardeios, também, haviam sofrido variações em sua técnica.
Os chefes aliados compreenderam, afinal, que nem sempre se obtinham
resultados favoráveis destruindo cidades por meio de bombardeio maciço. Isso,
indiscutivelmente, não significava a destruição paralela dos exércitos
inimigos. Ao contrário, retardava-se o próprio avanço aliado, ao semear a
rota de montões informes de escombros e crateras de bombas. A nova técnica a ser empregada, conseqüentemente, seria a do
"bombardeio de franjas". O sistema consistiria em arrojar as cargas
de bombas de ambos os lados da estrada que os tanques deveriam percorrer na
sua marcha para a frente. Assim seriam eliminadas as defesas antitanque do
inimigo. Posteriormente, bombardeiros leves arrojariam bombas de menor poder
explosivo sobre a rota a ser seguida pelos blindados, causando baixas nas
formações alemães, porém sem causar grandes crateras nas estradas. Além
disso, o avanço dos tanques seria precedido por uma cortina de fogo de
artilharia, que se adiantaria com igual velocidade que os blindados: uns dez
quilômetros por hora. Dessa maneira, os tanques avançariam rodeados por uma
verdadeira cortina de fogo, aéreo e artilheiro. Posto em prática, contudo, o plano não deu resultados
favoráveis. Os artilheiros alemães que serviam as peças antitanque,
abandonavam suas posições assim que começava o bombardeio dos aviões, e
retornavam de imediato, com o cessar do fogo e à aproximação dos tanques
aliados. Então, abriam fogo com todas as suas peças, com resultados
desalentadores para os comandos aliados. Foi assim que, em poucas horas,
duzentos tanques ingleses foram destruídos. Por outro lado, os alemães
acampavam fora dos povoados, tornando totalmente inútil a destruição deles
pelos Lancaster aliados. Contudo o fracasso de algumas novas técnicas e da
assombrosa quantidade de perdas materiais sofridas pelas unidades aliadas, os
exércitos mantiveram sua capacidade de ataque, baseando-se no que um autor
inglês chamou "capacidade de fogo esmagadora". Entrementes, na
frente alemã, os informes e relatórios referentes à campanha eram francamente
desalentadores. No dia 5 de julho, o Alto-Comando do 7o Exército
informou que todos os seus ataques eram "sufocados" pela aviação
aliada. A mensagem acrescentava: "Nossa:; tropas de terra sofrerão
simplesmente uma hecatombe se isto continua''. Um escritor inglês, Alan Moorehead, testemunha dos
acontecimentos narrados, assim descreve os fatos: "... A linha alemã era
esmagada sob um peso intolerável e, no entanto, voltava a levantar-se e a
unir-se. Os prisioneiros que apanhávamos, chegavam com os rostos desfigurados
e macilentos, e se mostravam mais impressionados com o fogo contínuo do que
com seus ferimentos. Seus Diários particulares contavam a história da gradual
desmoralização da sua vontade de combater sob o persistente canhoneio. A
faixa de destruição se estendia e alastrava diariamente, até que toda a zona
do perímetro da cabeça de praia começou a tomar o aspeto desolado dos campos
de batalha franceses da guerra anterior. Grandes áreas de bosques ficaram
pulverizadas. Aldeias, povoados, um após outro, eram arrasados... Em qualquer
direção que se fosse, mal se distanciasse uma hora de jipe, das praias, e já
se mergulhava em plena batalha, em meio a um incessante e ensurdecedor fogo
de artilharia. Começava a assombrar-nos a resistência alemã. Era incrível que
sua linha não se desmoronasse em algum ponto". Os alemães, de fato, nem cogitavam em retirada. O Marechal von
Kluge, sucessor de Rommel, em Saint Germain, nas proximidades de Paris, se
comunicava todas as noites com o QG de Hitler. Os informes que enviava
recebiam sempre a mesma resposta: resistir; não retroceder; contra-atacar. Os
relatórios dos comandantes de unidades não eram levados em conta pelo Führer.
As impossibilidades argumentadas, não apenas para contra-atacar, mas
simplesmente, para resistir, eram rebatidas com uma só ordem, seca,
terminante: resistir e contra-atacar. E assim foi uma, outra, muitas vezes.
Enquanto Middleton, à frente do 8o Corpo de Exército, avançava no
ângulo de Avranches, em direção aos portos da Bretanha, Patton recebeu de
Bradley a ordem de localizar um forte grupamento no centro da base da
península da Bretanha. Daquele ponto poderia conter qualquer ameaça que se
apresentasse pelo leste, enquanto as colunas de Middleton se deslocavam
velozmente rumo a Saint Malo, primeira fortaleza da costa norte da Bretanha.
Ao mesmo tempo, enquanto a frente aliada efetuava o movimento de conversão em
direção ao Sena, os efetivos do 1o Exército deveriam manter aberto
o passo de Avranches, enfrentando os blindados alemães que convergiam sobre
aquele setor. Entrementes, o 8o Corpo fizera passar pelo ângulo de
Avranches duas divisões de infantaria e duas divisões blindadas.
Apresentou-se então uma possibilidade de rompimento alemão nesse setor, o que
deixaria isolados uns 80.000 homens das forças aliadas. A importância estratégica da Bretanha advinha do fato de que,
antes de poder chegar ao território alemão propriamente dito, os Aliados eram
obrigados a reorganizar-se diante do Sena, com o fim de poder romper uma
forte posição alemã. Além disso, então, Cherburgo seria entregue aos
ingleses, enquanto os americanos se abasteceriam diretamente através dos
portos da Bretanha. Previra-se como inevitável a destruição do porto de
Brest, por parte dos alemães, e, portanto, foi planejado o preparo da baía de
Quiberon, entre os portos de Lorient e Saint Nazaire, como base logística aos
exércitos dos Estados Unidos. Também se pensava utilizar o porto de Saint
Malo, ao norte. Grande quantidade de tropas alemãs de guarnições da Bretanha
haviam sido transferidas para reforçar as defesas da Normandia. Apesar disso,
cerca de 50.000 soldados se mantinham de armas em punho, ali, na linha
costeira. A primeira medida dos combatentes subordinados a Patton consistia
em obrigar os alemães a retroceder e enfiar-se em seus refúgios costeiros,
com o fim de não lhes dar tempo de destruir as vias férreas e as estradas... Os alemães, impossibilitados de enfrentar maciçamente as forças
aliadas, recorriam a uma verdadeira guerra de guerrilhas. Comenta, a respeito,
o escritor inglês Alan Moorehead: "Por enquanto, os alemães usavam o
terreno melhor que nós. Seus homens, ocultos entre as ramagens ou rastejando,
avançavam, sem demonstrar sua presença. Pelotões inteiros de atiradores
especiais se emboscavam entre os galhos e esperavam horas, e até dias, pela
oportunidade de fazer fogo. Primeiro escolhiam nossos oficiais; depois, os
suboficiais. Não havia cominho seguro. Inclusive, bem na retaguarda da
frente, era usual topar com uma saraivada de balas sobre o jipe. Em pleno
dia, era freqüente termos que nos proteger nas valetas. Por mim, aquilo me
parecia deprimente. Não havia proteção possível. E os alemães eram peritos
nessa tática. Parecia uma guerra de peles-vermelhas, sem uma frente definida.
Um dia, por exemplo, cheguei a um deserto desvio ferroviário e encontrei o
chefe da estaçãozinha... Quando
estávamos falando, uma metralhadora começou a disparar sobre nós. Estávamos a
vários milhas da linha de fogo, porém os alemães se haviam infiltrado através
do mato, durante o noite". Assim, desesperadamente, os alemães tentavam atrasar o avanço
aliado. Sabiam que tudo era inútil, mas não se davam por vencidos. Anexo Simulação A campanha de
simulação levada a cabo com o propósito de alimentar nos alemães a suposição
de uma possível nova frente na Europa, exigiu dos Aliados o planejamento de
uma verdadeira operação. Vejamos o que diz o General Bradley, a respeito: "A corrida do
reforço durante as duas primeiras semanas era questão de vida ou morte. Para
ganhá-la, havíamos contado com dois fatores principais que nos permitiriam
superar as vantagens inimigas: primeiro, a aviação tinha que mantê-lo
imobilizado no Passo de Calais, enquanto nós derrotávamos, por partes, as
tropas que defendiam a Normandia. O plano de despistamento envolvia um
monumental planejamento de simulação. Este havia sido urdido em torno dos
agentes inimigos conhecidos, redes de comunicação por rádio e falsas frotas
de invasão. Seu objetivo era conduzir o inimigo à crença de que possuíamos um
verdadeiro grupo de exército na costa leste da Inglaterra, destinado ao
ataque principal através do Passo de Calais. O Comando simulado desse ataque
fictício seria o 1o Grupo de Exércitos dos Estados Unidos. A
chegada de George Patton foi amplamente anunciada na Inglaterra e ele atuava
como se fôra o comandante do exército de assalto do mencionado grupo de
exércitos. "Por um lado, o
Serviço de Informações inglês alimentava os agentes conhecidos do inimigo, na
Inglaterra, com o que desejava que acreditassem em relação ao assalto
simulado e, por outro lado, nós estabelecemos uma rede de comunicações pelo
rádio que denunciava o trânsito de um grupo de exércitos fazendo preparativos
para a travessia do Canal. No estuário do Tâmisa e ao longo da costa leste da
Inglaterra, os técnicos fabricaram falsas embarcações, cuja única finalidade
era aparecer bem nas fotografias aéreas tomadas pelos aviões de
reconhecimento inimigos. Além disso, durante os bombardeiros da costa do
Canal, prévios à invasão, a aviação saturou as defesas alemães no Passo de
Calais com grande intensidade. "Ao idealizar o
plano de despistamento da operação Overlord, somente esperávamos que nos
proporcionasse um modesto atraso na ação do adversário, no máximo uma semana ou
duas, para termos tempo de deixar em terra um número suficiente de divisões
para garantir a segurança do desembarque na Normandia. Porém, tanta certeza
adquiriu o inimigo acerca de nossas intenções, que em fins de junho ainda
permanecia no Passo de Calais, convencido que havia sido mais raposa que nós.
A medida que aprofundávamos a cabeça de praia, o inimigo foi despojando a
península da Bretanha de todas suas tropas, exceto as da fortaleza, com o fim
de escorar a frente da Normandia. Tirou as divisões que tinha no sul da
França, apesar da crescente ameaça do plano Anvil; desfalcou suas unidades da
Noruega e deixou a Dinamarca sem sua cota de tropas. E, apesar de tudo, 19
divisões continuavam esperando, inativas, nas barrancas do Passo de Calais...
Ainda hoje não posso compreender porque o inimigo deu crédito durante tanto
tempo a uma simulação tão transparente. Uma vez que havíamos desembarcado na
Normandia, só um louco poderia acreditar que fôssemos capazes de reeditar,
noutro local, um esforço tão gigantesco...". Artilharia Os pormenores de um
combate são narrados por uma correspondente de guerra, assim: "... O
inconveniente das cercas de arbustos não era propriamente pelos arbustos em
si, mas pelo fato de estarem plantados em altas paredes de terra que rodeavam
cada parcela de terreno. Os homens tinham que avançar em fila indiana. Para
atravessar uma cerca de arbustos, o infante tinha que subir uma das paredes
de terra, exposto ao possível fogo de uma metralhadora ou tanque, antes que o
homem atingisse o alto. Os tanques eram alvos fáceis nas estradas que estavam
bem cobertas com o fogo dos canhões antitanque. Durante o mês de julho, o 743o
Batalhão de Tanques teve 38 tanques fora de combate. Para avançar pelos
atalhos, os tanques tinham que ir devagar, precedidos por tanques especiais,
para abrir uma passagem através da barreira de terra, ou por soldados de
infantaria, munidos de cargas explosivas. Este procedimento era mais seguro
que o avanço pelas estradas, porém muito lento. As linhas em combate estavam
freqüentemente tão próximas uma da outra que não podíamos empregar a
artilharia sem risco, pois muitos projéteis teriam explodido sobre as nossas
próprias tropas. Os observadores adiantados da artilharia e os oficiais de
ligação tinham que permanecer junto às unidades adiantadas da infantaria para
poder obter alguma observação terrestre e não teria havido nenhuma
efetividade de fogo sobre alvos da retaguarda a não ser guiados pelos aviões
de observação da artilharia. Sabia-se, de antemão, que entre os observadores
adiantados e os oficiais de ligação ocorreriam tantas baixas como entre os
chefes de companhia e pelotão, que tinham que se expor para manter-se em
contato com suas tropas. O 197o Batalhão de Artilharia de Campanha
sofreu as perdas mais graves: 15 mortos e 23 feridos durante o mês de julho.
Essas baixas eram poucas comparadas com as perdas da infantaria, porém
aqueles eram os homens mais úteis à artilharia: eram seus olhos." Anticercas O General Bradley, em
suas Memórias, relata a forma como se solucionou o problema criado pela
existência das grandes barreiras naturais de cercas vivas, que impediam o
avanço das unidades aliadas: "Um sargento tanquista fabricou, com um
pedaço de ferro velho, resto de um obstáculo antitanque colocado pelos alemães,
um aparelho que, afinal, permitiria que nossos tanques superassem os
obstáculos do bocage (região de sebes). "A invenção chegou na véspera do
momento em que sua necessidade seria maior. As cercas espinhosas que haviam
frustrado nosso avanço na Normandia se estendiam sobre toda a zona escolhida
para o assalto e, mais além, ao longo do caminho do rompimento a ser feito.
Para que o plano Cobra se desenvolvesse, era essencial que os blindados
abrissem caminho, e que sua velocidade não fosse truncada pelo bocage. As
tentativas anteriores de ultrapassar as cercas vivas haviam fracassado, pois
os Shermans ficavam presos, com o fundo dos cascos apoiados sobre as crestas
de terra endurecida que sustentavam os arbustos, em vez de atravessá-las. Ali
ficavam, expondo ao fogo inimigo a débil parte inferior, enquanto seus
canhões apontavam, inúteis, para o céu. "Menos de uma
semana antes de partir para o ataque, Gerow me chamou de manhã bem cedo e
perguntou se eu podia me encontrar com ele na 2a Divisão. “Traga o
seu chefe de Arsenais”, me disse, “temos algo que vai deixá-los
boquiabertos”. Encontrei Gerow e vários membros do seu Estado Maior,
agrupados em torno de um tanque leve ao qual fora soldada uma barra
transversal de onde saíam quatro compridas pontas, semelhantes a presas de
elefantes. O tanque retrocedeu para tomar distância e depois se lançou de
frente sobre uma cerca viva, a uns 15 km por hora. Os "dentes"
penetraram na sebe, mantendo o casco do tanque no nível do solo e, depois,
abriu caminho, em meio a uma nuvem de pó. Um Sherman, equipado de igual
maneira, repetiu a experiência. Também chocou-se contra o muro, e, em lugar
de apontar sua proa para o céu, como de costume, passou através do obstáculo.
Aquilo era tão absurdamente simples, que por mais de cinco semanas havia
driblado todo um exército. O invento fôra idéia de Curtis G. Culin, de 29
anos, natural de Nova York. "Imediatamente,
foi ordenado a todas as unidades de arsenais que se pusessem a produzir esses
aparelhos "anticêrcas-vivas" durante 24 horas por dia. O material
para fabricar os "dentes" dos tanques foi proporcionado pelos
obstáculos subaquáticos que Rommel havia distribuído nas praias. Um pouco
depois, nessa mesma tarde, Medaris saltou em um avião, com destino à
Inglaterra, e rebuscou todos os depósitos em busca de material. As 18 horas,
as unidades que estavam na França descobriram que necessitariam de mais
elementos para a soldagem autogênica, e às 20 h um avião já estava em vôo
rumo à Inglaterra. Quando regressou, os caminhões estavam esperando ao lado
da pista de aterragem, antes do desjejum da manhã seguinte. No espaço de uma
semana, de cada cinco tanques, três estavam equipados com o mencionado
aparelho. Pela invenção, o Comando do Corpo outorgou a Culin a Legião do
Mérito. Quatro meses mais tarde, ele voltou para casa, em Nova York, depois
de ter deixado uma perna no bosque de Huertgen." Prisioneiros No seu avanço, os
Aliados fizeram grande quantidade de prisioneiros. Estes, de acordo com as
normas habituais, foram concentrados em campos especialmente preparados para
alojá-los. Os prisioneiros, segundo as palavras de um escritor inglês,
correspondente de guerra, "eram de nacionalidades insólitas". Os internados eram
alojados em barracas de madeira, rodeadas por alambrados de arame farpado. De
acordo com seu posto e nacionalidade, haviam sido divididos em cinco grupos
principais: oficiais alemães, suboficiais alemães, soldados alemães, soldados
russos, poloneses e checos, e por fim, trabalhadores da Organização Todt,
civis; estes eram de diversas nacionalidades, mas em sua maioria, italianos e
espanhóis. Os campos de
prisioneiros, nos primeiros tempos da campanha, estavam permanentemente
rodeados de civis franceses que, freqüentemente, protagonizavam episódios que
beiravam à violência. Era comum centenas de homens e mulheres se apinharem
junto aos cercados, dispostos a insultar os internados que, freqüentemente,
mal entendiam aqueles gritos. Por outro lado, muitos dos prisioneiros eram
soldados que haviam sido incorporados à força e odiavam seus chefes com mais
intensidade ainda que a população civil dos países conquistados. As atitudes dos
prisioneiros condiziam, em linhas gerais, com seus postos militares. Os
oficiais alemães se mostravam silenciosos e reservados, falando somente entre
si ou, incidentalmente, com os suboficiais. Como disse um correspondente
britânico: "era óbvio que desejavam dar a impressão de dignidade, de
indiferença, de fortaleza na derrota". Nas barracas dos soldados
alemães, os homens se limitavam a descansar, indiferentes a tudo que se
passava ao seu redor. O mesmo ocorria com os suboficiais. No setor dos
soldados "alemães", não alemães, se agrupavam dezenas de homens de
diferentes nacionalidades. Havia ali russos, poloneses, checos, italianos,
iugoslavos e espanhóis. Muitos eram prisioneiros de guerra incorporados de
bom grado ou à força às unidades da Wehrmacht. Outros eram civis
surpreendidos pela guerra em regiões posteriormente ocupadas pelos exércitos
alemães. Aí, entre a alternativa de perecer ou sofrer fome, haviam preferido
incorporar-se voluntariamente às fileiras alemãs. Nos campos de concentração
de prisioneiros alemães, também eram muitos os soldados incorporados à força
que demonstravam aos oficiais germânicos o ódio que sentiam por eles. As
vinganças pessoais chegaram a constituir um problema para os captores
anglo-americanos, que tiveram que isolar os oficiais alemães, separando e
vigiando estreitamente os comandantes. Em linhas gerais, os
oficiais alemães, e muitos dos soldados jovens, alguns deles quase adolescentes,
mantinham uma atitude digna, orgulhosa, suportando o cativeiro da melhor
maneira possível. Outros não ocultavam seu enorme cansaço e seu desejo de
voltar à pátria, já fosse como triunfadores ou como vencidos. Os prisioneiros
jovens, extremamente jovens muitos deles, exibiam, em geral, uma atitude
desafiante, compreensiva em adolescentes educados desde a infância para a
guerra. Existia neles, mesmo na prisão, a convicção do triunfo final da
Alemanha. Combate Noturno Uma testemunha da
campanha que realizou na França a 30a Divisão de Infantaria
americana relata assim um episódio ocorrido a 10 de julho de 1944, nas
proximidades de Le Rocher: "As tropas a pé
que iam na frente, encontraram uma forte resistência em alguns lugares
durante a sua penetração e estavam se entrincheirando quando chegou a coluna
de veículos. Ambos os flancos estavam expostos. Tropas bloqueadoras de
estradas foram enviadas com a informação de que os blindados do Comando
"B" estavam operando nas proximidades de Hauts-Vents, para o sul. À
1h30m os oficiais da Cia. de Canhões e da Cia. Antitanque, que trabalhavam no
batalhão, estavam em reunião com o Tenente-Coronel Paul W. McCollum, chefe do
batalhão; nesse momento chegaram duas informações: a Cia. K falou por
telefone, informando que um tanque lança-chamas a atacava e a um tanque
próximo da D. 3 blindada. Ao mesmo tempo chegou um estafeta de uma das
casamatas da estrada do leste; tanques e veículos blindados, seguidos, no
mínimo, por 20 homens de infantaria, estavam avançando pelo caminho rumo ao
posto de comando. De fato, dois tanques inimigos passaram pelo posto de
comando momentos depois de se ter enviado ordem de alerta às companhias.
Depois, se aproximou um terceiro tanque alemão em marcha cautelosa, seguido
por outro e depois por outro e, finalmente, por um carro blindado. Um alemão
ia de pé na torre aberta do tanque-guia, tratando de enviar uma mensagem.
"E assim começaram os acontecimentos: um tenente americano correu para
uma metralhadora montada em um jipe e abriu fogo. Alguém disparou uma bazuca
e se preparou para efetuar um novo disparo. Dois oficiais começaram a arrojar
granadas de mão na torre aberta e sobre a infantaria alemã acompanhante. O
primeiro tanque explodiu e foi envolvido pelas chamas, enquanto sua tripulação
pedia socorro aos gritos. Um alemão tratou de prevenir o segundo tanque,
porém foi derrubado por uma rajada de balas. Um oficial americano tomou uma
metralhadora leve, pondo o cinturão de munições sobre o ombro e se dirigiu ao
terceiro tanque e ao auto-blindado. O tanque escapou, perdendo algumas das
suas partes blindadas. O carro blindado ficou em chamas. "Os dois oficiais
visitantes correram em busca de suas armas; ambos, no entanto, foram feridos
e aprisionados na violenta luta que se travou na obscuridade. Outro oficial,
que comandava um pequeno grupo de municiamento, aproximou-se, na estrada, de
um carro blindado, acreditando que ele era americano e recebeu uma descarga
mortal. Os prisioneiros foram alinhados atrás do carro blindado, com a
infantaria alemã acompanhante e, então, o veículo foi dirigido rumo ao posto
de comando. Nunca chegou até lá. Num cruzamento da estrada, pouco antes do
posto de comando, projéteis de calibre 50 e de duas bazucas o incendiaram.
Pela manhã, o batalhão tinha 69 prisioneiros; o preço pago pelo inimigo em
mortos e feridos, nunca pôde ser calculado exatamente. Os postos afastados
informaram ter ouvido o ruído dos blindados que se perdia ao longe;
evidentemente, esta fôra a ponta de lança de uma força maior. Um total de cinco
tanques inimigos e quatro carros blindados foram destruídos na luta". O Major Howie 18 de julho de 1944.
As forças americanas convergem sobre a cidade de Saint Lo, convertida numa massa
de ruínas pelo incessante bombardeio da artilharia e da aviação. A luta pela
conquista dessa praça de guerra exigiu da 29a Divisão de
Infantaria americana sangrentas baixas. Combatendo furiosamente, os alemães
se mantiveram agarrados às posições até serem aniquilados. Finalmente, a
batalha conclui. Os americanos já podem entrar em Saint Lo, pois os restos da
guarnição inimiga bateram em retirada. No entanto, antes de penetrar nas ruas
cobertas de escombros, o chefe da unidade de assalto emite aos seus homens
uma insólita ordem: "Tragam o corpo
do Major Howie, e que encabece nossa entrada na cidade..." Minutos mais tarde, um
jipe, conduzindo o cadáver ensangüentado do major, entra em Saint Lo. Howie
havia sido morto três dias antes, à frente dos seus homens, efetuando uma
carga sobre as posições alemães que defendiam â cidade. Essa era a homenagem
da divisão ao chefe tombado, o último tributo de honra a um soldado valente
que, junto com outros 2.000 homens, havia sacrificado sua vida para garantir
a conquista da localidade. A crônica oficial do exército americano relata
assim a conclusão do episódio: "No momento em que a 29a
Divisão abandonou Saint Lo, a 20 de julho, o corpo do Major Howie se
convertera num símbolo... A força de assalto conduzira o cadáver envolto em
uma bandeira, sobre um jipe, como uma insígnia de combate. Colocado sobre uma
pilha de escombros diante da igreja de Saint Croix, o corpo do major se
convertera no símbolo do sacrifício realizado. Quando os soldados da divisão
retiraram o cadáver e abandonaram a cidade, o símbolo permaneceu em Saint Lo.
A própria cidade, arrasada e deserta, passou a ser um monumento a, todos os
que haviam sofrido e encontrado a morte na terrível batalha... Bombardeio Transcrevemos a
crônica oficial da aviação americana do ataque aéreo realizado a 25 de julho
de 1944, para garantir o avanço das forças do 1o Exército do
General Bradley: "Desde o primeiro
ataque dos caça-bombardeiros, efetuado às 9 h 38 m, até o último dos ataques
dos bombardeiros médios, efetuado às 12 h 23 m de 25 de julho, os planos
foram cumpridos exatamente como exigiam os intrincados programas de
distribuição de tempo, preparados para o caso. Os observadores, localizados
nas praias cruzadas pelos bombardeiros, viam o céu literalmente repleto com
as formações deles, e sentiam seus ouvidos ensurdecidos pelo contínuo rugir
dos motores. 1.507 aparelhos quadrimotores B-17 e B-24 atacaram, lançando
mais de 3.300 toneladas de bombas; mais de 380 bombardeiros bimotores médios
arrojaram 137 toneladas de altos explosivos e mais de 4.000 bombas de
fragmentação de 120 quilos; enquanto isso, 559 caça-bombardeiros lançavam 212
toneladas de bombas, além de uma quantidade considerável de tanques de
napalm. A oposição aérea alemã foi desprezível: pequenas formações da
Luftwaffe efetuaram passadas ineficazes contra dois dos quadrimotores e isso
foi tudo. A perda de cinco bombardeiros pesados e de um médio deve ser
atribuída integralmente ao fogo de terra. No transcurso dos seus velozes
ataques contra as linhas de frente inimigas, os caça-bombardeiros não
sofreram perdas... Havia-se previsto grandes erros no bombardeio, e os
comandantes das forças terrestres e aéreas estavam perfeitamente a par dessa
probabilidade que, no dia 25 de julho, se concretizou, e a um preço muito
elevado. As 10 h 40 m já começaram a chegar informes ao quartel-general da
aviação da Inglaterra, procedentes da França, e que falavam de bombardeios
curtos, em zonas situadas tão à retaguarda que chegavam às posições da
artilharia americana. Então, e apesar do avançado da hora, fizeram-se toda a
classe de esforços para comunicar o erro às formações de quadrimotores que
ainda não haviam bombardeado. Da mesma maneira, também os bimotores do 9o
Comando de Bombardeio efetuaram bombardeio curto, lançando a carga de 42
aviões dentro de nossas próprias linhas, devido a uma identificação
defeituosa do alvo. Todos os erros cometidos no ataque de 25 de julho foram
classificados como erros pessoais das tripulações e, segundo se informou, seu
preço chegou a 102 soldados do exército americano mortos, inclusive o
Tenente-General Lesley MacNair, e 380 feridos... O esforço realizado
pela aviação a 25 de julho havia sido gigantesco, porém os resultados
militares são medidos em função dos danos causados ao inimigo, e não na
própria energia gasta. Os resultados do bombardeio aéreo não foram, de modo
nenhum, os esperados pelos otimistas, porém, tanto amigos como inimigos
concordaram em que esses resultados superaram os níveis normais. As baixas
alemãs não foram muitas; em realidade, parecem poucas, tomando em
consideração o peso do bombardeio aéreo, somado ao fogo preparatório da
artilharia. Dois fatores explicam esse fato: o primeiro foi o emprego que os
alemães faziam de profundas trincheiras e refúgios; o segundo consistiu no
pedido dos chefes do exército americano de que se evitasse abrir demasiadas
crateras, o que obrigou a utilização de uma alta porcentagem de bombas de
fragmentação, juntamente com os projéteis de altos explosivos... A observação
inimiga e a obtida por oficiais aliados, que posteriormente examinaram o
campo de batalha, indicou que veículos motorizados de estrutura pouco
resistente haviam sido despedaçados, e que os fragmentos de aço haviam
rompido as lagartas dos veículos blindados; as armas que permaneceram
intactas, ficavam inutilizadas depois de removido o barro e os escombros em
que haviam sido mergulhadas... Os interrogatórios dos
prisioneiros de guerra demonstraram que a destruição em matéria de
comunicações, assim como no moral da tropa, foi muito grande. Os danos
causados ao sistema de comunicações tiveram um efeito tático imediato pois
deixaram as unidades alemãs desligadas da retaguarda, e sem saber o que
ocorria em seus flancos, no momento em que as nuvens de poeira, causadas
pelas explosões, reduziam a observação visual. Quando os homens ficavam
separados dos cabos, suboficiais e oficiais de suas unidades, escapavam a
todo controle. Porém, acima de tudo, a destruição das comunicações deu origem
a um sentimento de isolamento entre as unidades avançadas, que contribuiu
para aumentar o choque nervoso produzido pelo bombardeio em si...
Posteriormente, o Major-General Fritz Bayerlein, comandante da divisão
"Panzer Lehr", comentaria dramaticamente as suas experiências nesse
dia. Era um soldado veterano em lutas na frente, e suas declarações levam o
selo da veracidade... Suas comunicações haviam ficado interrompidas no
decurso dos primeiros ataques aéreos, e quando os quadrimotores americanos
começaram a chegar, pouco depois das 10, partiu, na garupa de uma
motocicleta, disposto a visitar seu posto de comando avançado. Ali observou
as fases posteriores do bombardeio, de uma torre de pedra cujas paredes
tinham dois metros de espessura e, o que pôde entrever do campo de batalha,
mereceu dele a denominação de "Mondlandschaft" (paisagem lunar): a
metade de suas três baterias de canhões de 88 mm estava inutilizada, e seus
tanques avançados, afundados em crateras ou desmantelados por impactos
indiretos... O único meio de comunicar-se com seus regimentos era por
estafeta, e 70% dos seus homens estavam mortos, feridos, enlouquecidos ou
aturdidos..." Reforços alemães As perdas aliadas, em
fins do mês de julho de 1944, eram consideravelmente elevadas, em homens e
materiais. Por sua vez, as baixas alemãs, nessa mesma época, alcançavam,
segundo cálculos do 1o Exército dos Estados Unidos, uns 160.000
homens, cerca de 400 tanques e aproximadamente 2.500 veículos. As reservas, na
Wehrmacht, eram dia a dia menores em quantidade e qualidade. Com maior
freqüência que nunca, os alemães lançavam ao combate seus
"Kampfgruppen" (grupos de combate) improvisados. Essas unidades
eram integradas por soldados de infantaria, condutores de veículos e membros
de diferentes serviços, nem sempre bem armados e, freqüentemente, sem grande
treinamento de combate. A substituição dos blindados destruídos ou avariados
se realizava muito lentamente, sem compensar as perdas. Os depósitos de
gasolina, na zona de combate, viam diminuir rapidamente suas reservas, sem
que fosse possível repor o combustível utilizado. As munições eram
severamente racionadas, limitando ainda mais a capacidade de luta dos
soldados alemães, já reduzida ao mínimo. As unidades alemães,
no entanto, defendiam o terreno a elas confiado com grande tenacidade e
habilidade, reagrupando constantemente suas tropas, para manter a frente
intacta. A defesa era essencialmente linear e não disposta em profundidade.
Somente uma divisão, a 2a Panzer SS “Das Reich”, não estava
comprometida na frente do 1o Exército, ficando, portanto, disponível
para um contra-ataque. Existiam, porém, reservas importantes a leste do Sena,
onde o 15o Exército alemão esperava ainda uma nova invasão através
do porto de Dunquerque. Também havia um certo número de divisões disseminadas
pelo sul da França. Porém, mesmo que tais
tropas tivessem recebido ordens de transladar-se ao campo de batalha, sua
chegada se daria com atraso em virtude das vias de comunicações destruídas e
do ataque aéreo direto sobre as colunas em movimento. As tropas que fossem
trazidas do sul, provavelmente, teriam que combater contra os maquis no meio
do caminho. Esta última
possibilidade poderia significar perdas materiais e dias de atraso. |