Luta no Ar

 

Um “tapete” de bombas cobre a Alemanha

            

Bombardeio aliado sobre a Alemanha

 

 

Seria supérfluo insistir sobre a primordial importância que a arma aérea exerceu no desenrolar da Segunda Guerra. Pelo menos, com palavras. E se for necessário mencionar a parte da luta que correspondeu à aviação, bastaria, melhor que a dramática descrição dos feitos, a fria eficácia dos números.

 

As estatísticas, minuciosa e elaboradamente, nos demonstram como e quanto se lutou nos céus durante o longa contenda. Vejamos um exemplo: no lado aliado, as formações que levaram a guerra aos céus da Alemanha contaram com cerca de 28.000 aviões, servidos por um pessoal, entre combatentes e auxiliares, que passou de 1.300.000 homens. As missões de bombardeio sobre território alemão foram mais de 1.400.000 e as saídas de caça passaram de 2.600.000. A tonelagem de bombas, lançada pelos aviões aliados sobre a Alemanha, foi de, aproximadamente, 2.700.000. Os Estados Unidos perderam, nessas ações, quase 80.000 homens; uma cifra igual perdeu, de seu lado, a Grã-Bretanha.

 

As Forças Aéreas aliadas destruíram ou avariaram seriamente 3.500.000 edifícios, ou seja, cerca de 20% do total disponível, e de acordo com os cálculos do Ministério do Ar alemão, 250.000 civis morreram e 300.000 foram gravemente feridos, até o mês de janeiro de 1945.

 

No decurso da Primeira Guerra Mundial, a aviação, ainda na infância, limitou a sua atuação a "golpear e fugir". Alguns duelos individuais e o lançamento de pequenas bombas, lançadas a mão, foi tudo o que fizeram as incipientes forças aéreas inimigas. Posteriormente, o aperfeiçoamento dos aviões e as novas táticas, originadas precisamente pelo emprego de aparelhos cada vez mais rápidos e cada vez mais pesados, converteram a aviação em algo mais que um auxiliar do exército de terra; foi a origem de uma nova arma, potencialmente tanto ou mais efetiva que as divisões de infantaria e as unidades de artilharia.

 

No lapso compreendido entre as duas guerras mundiais, as teorias acerca do emprego da arma aérea. se multiplicaram notavelmente. Muitos foram os peritos que defenderam a necessidade de empregar os aviões como simples arma de cooperação com as forças terrestres e navais; outros, pelo contrário, entreviram nela, em teoria, a base de uma ação futura, reservando-lhe o papel de arma decisiva. Entre as duas posições oscilava uma grande quantidade de teorias, eqüidistantes em maior ou menor grau.

 

Nos Estados Unidos, o futuro do poderio aéreo era entrevisto como, inegavelmente, promissor. Acreditava-se que a nova arma poderia ser utilizada em grande quantidade de missões, extremamente díspares entre si. No entanto, em linhas gerais, admitia-se que o papel principal a ser desenvolvido pela aviação consistia no aniquilamento das fontes de produção, situadas no interior do território inimigo, privando assim, as unidades da frente de combate, de apoio. Eram, portanto, as forças de bombardeio que deveriam ser desenvolvidas, ao máximo, no seu poderio.

 

Na Grã-Bretanha, em conseqüência da sua posição geográfica mais vulnerável, o aperfeiçoamento da aviação foi dirigida tendo em vista fortalecer a defesa da ilha; em virtude disso, os esforços maiores se orientaram no desenvolvimento da aviação de caça.

 

Durante esse período, os dois modelos mais notáveis que se aperfeiçoaram foram a "Fortaleza Voadora", nos Estados Unidos, e o "Spitfire", na Grã-Bretanha. Ambos representaram as tendências citadas anteriormente.

 

Os alemães, por sua vez, desenvolveram sua força aérea, compondo-a como uma arma de apoio das operações terrestres, despreocupando-se, em parte, da organização de unidades de bombardeio pesado.

Ao eclodir a guerra, em 1939, os alemães foram os primeiros a pôr em prática as suas teorias. Assim, na "blitzkrieg" assombraram o mundo com suas formações combinadas Panzer-Stuka. Contudo, quando posteriormente os alemães empregaram seus aviões para atacar a Grã-Bretanha, em missões de bombardeio, os pilotos ingleses, tripulando os seus "Spitfire", conseguiram brilhantes vitórias. Ficou então demonstrado, primeiro, o poder de apoio da arma aérea, em relação às forças de terra, e, segundo, a vulnerabilidade dos bombardeiros.

 

Por volta de 31 de julho de 1942, os aviões de combate dos Estados Unidos, com base na Grã-Bretanha, chegavam a 423. A 17 de agosto desse mesmo ano, 12 "Fortalezas Voadoras", com escoltas de "Spitfires" atacaram concentrações inimigas em Rouen, sem sofrer danos. A grande ofensiva começara. Os resultados não tardariam a mudar o curso da guerra.

 

Nesse período de hostilidades, o centro da guerra estava no sul: A África, o Mediterrâneo, e o Oriente Próximo, estavam gravemente ameaçados pelas armas alemães.

 

Em 1943, o centro de gravidade da guerra se deslocou para o norte. A organização das forças aéreas americanas na Inglaterra foi reiniciada. Em janeiro desse ano, precisamente, a Conferência de Casablanca, havia autorizado o ataque aéreo em grande escala contra o Alemanha, com o fim de destruir e desmontar "o sistema militar, industrial e econômico da Alemanha" e solapar "o moral do povo alemão até um ponto em que, fatalmente, se debilite a sua capacidade para a resistência armada".

Muitas dificuldades, no entanto, se opuseram a esses ambiciosos projetos. Na verdade, as defesas alemãs, ainda fortes, não permitiram aos bombardeiros defenderem-se eficazmente contra elas. Era necessário, portanto, dotar os formações de bombardeiros de uma adequada escolta de caças e, sobretudo, destruir a Força Aérea alemã. A operação era decisiva, também, para poder levar a cabo a projetada invasão do continente europeu.

 

Nos primeiros meses de 1944, os preparativos para a invasão podiam já realizar-se dentro de uma ampla margem de segurança; as concentrações de tropas, barcos e suprimentos não estavam seriamente ameaçadas pelos bombardeiros alemães e, sobre os céus da Normandia, os efetivos aéreos aliados dominavam amplamente o espaço. Mais ainda, a força aérea alemã já não ousava enfrentar as formações aliadas, dada a esmagadora superioridade destas últimas. A invasão aliada do continente demonstrou, desde o primeiro minuto do Dia D, a total falta de elementos com que a Luftwaffe contava. As centenas de aviões aliados que cobriram os céus da Normandia não presenciaram mais intentos de obstrução senão por parte de aparelhos isolados, com alguns pilotos operando por conta própria.

 

O poder aéreo alemão

 

Durante o transcorrer da guerra, na Alemanha, o poderio aéreo foi objeto de um dos maiores esforços bélicos da nação em armas. De fato, cerca de 40% da produção bélica foi destinada ao desenvolvimento da arma aérea. Paralelamente, perto de 2.000.000 de homens dedicaram os seus esforços à indústria aeronáutica. Tal esforço representou, em 1939, a produção de 8.300 aviões, dos quais cerca de 4.700 eram caças. Em 1944, a produção alcançava a cifra de 39.800 aviões, 30.000 dos quais eram caças. No entanto, tão considerável produção não pôde evitar que os Aliados dominassem o espaço e, conseqüentemente, levassem a bom termo a invasão de 1944 e, finalmente, a derrota da Alemanha em 1945.

 

Até a chegada de Hitler ao poder, em 1933, a indústria aeronáutica alemã carecia relativamente de importância. Nove companhias se achavam empenhadas na produção de aviões civis, porém a quantidade de aparelhos era escassa. A ascensão do regime hitleriano ao poder significou, para a indústria aeronáutica, um considerável progresso. De imediato, múltiplos recursos foram postos a serviço da aviação e a produção começou a aumentar consideravelmente. Numa primeira etapa incrementou-se a fabricação de aviões de instrução elementar e adiantada, com o fim de começar a preparação dos milhares de pilotos que os planos nazistas exigiam. Posteriormente, intensificou-se a produção de modelos militares.

 

A estatística a seguir mostra palpavelmente o rápido progresso da construção de aviões de combate e de outros tipos, na Alemanha, entre 1931 e 1939:

1931 - 13; 1932 - 35; 1933 - 370; 1934 - 1.970; 1935 - 3.190; 1936 - 5.115; 1937  - 5.600; 1938 - 5.300; 1939 - 8.300.

 

Após a eclosão das hostilidades, a campanha da Polônia não determinou nenhuma necessidade de aumentar consideravelmente a produção de aviões nem a criação de novos modelos. A conquista da Polônio foi levada a cabo com relativa facilidade e contribuiu para elevar, ainda mais, o otimismo reinante nos fileiras alemãs. Posteriormente, a campanha do França, embora exigisse maiores esforços do comando alemão, caracterizou-se, também, por um rápido triunfo. A queda da França foi considerada, na Alemanha, como o preâmbulo da derrota da Inglaterra.

 

No entanto, o início da ofensiva aérea contra as ilhas britânicas revelou, com o decorrer do tempo, a debilidade estratégica e tática das forças aéreas alemãs. A batalha da Grã-Bretanha se estendeu pelo período de junho de 1940 até a primavera de 1941. Seu momento culminante, porém, produziu-se em setembro de 1940. A campanha, em resumo, fracassou, e custou aos alemães a perda de, aproximadamente, 1.000 bombardeiros e outros tantos caças. A campanha contra a Rússia fracassou, igualmente, do ponto de vista da guerra aérea. Os informes sobre os quais a Luftwaffe baseou a sua ação na Rússia, calculavam o poderio aéreo russo em, aproximadamente, a metade do seu poderio real. Em 1940, a produção de aviões alemães alcançou a cifra de 10.830 aparelhos de todos os tipos. Em 1941, esse número chegou a 11.780 (47 % de caças). Nesse mesmo ano, as perdas alcançaram 3.570 caças e 3.900 bombardeiros.

 

Deve-se destacar que até 1940 e 194 , os planos dos altos comandos alemães não consideravam necessária uma grande expansão do poder aéreo. Em 1941, no entanto, foi decidida a produção dos caças Me-109. Para tal fim foram construídas novas fábricas em Wiener-Neustadt. A produção, contudo, não sofreu um incremento considerável.

 

O ano de 1942 foi testemunha de importantes acontecimentos bélicos. Na frente oriental, a luta culminou com o desastre de Stalingrado. Sobre o território da Alemanha, a Real Força Aérea britânica atacou com crescente intensidade. Paralelamente, instalou-se na Grã-Bretanha a Oitava Forca Aérea americana, A esta altura dos acontecimentos, é necessário destacar, principalmente, o incremento extraordinário da produção de aviões nos Estados Unidos. De fato, a fabricação de aviões na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, que, em 1940, fôra de 11.480, subiu, em 1941, a 21.600 e, em 1942, a 42.300.

 

Na Alemanha, paralelamente, a produção de aviões também registrou um relativo aumento, embora com cifras totais muito inferiores às dos seus inimigos. Em 1942, produziram-se na Alemanha 15.570 aviões de todos os tipos, dos quais 75% eram integrados por aviões de combate. As perdas alemães, nesse mesmo ano, totalizaram 3.800 bombardeiros e 5.000 caças.

 

Em 1943, os ataques aéreos aliados se concentraram, relativamente à indústria aeronáutica, sobre as fábricas de caças. Os resultados foram positivos. A fabricação do Me-109 baixou de 725 aviões, no mês de julho, a 536 em setembro e 350 em dezembro. A produção do FW-190, paralelamente, decresceu de 325 aviões no mês de julho a 203 em dezembro. Os motores de retropropulsão, na Alemanha, estavam sendo testados desde o começo da guerra. O Me-262, afinal, voou, pela primeira vez, em julho de 1942. Os informes, alentadores, motivaram a aprovação do projeto de produção. No entanto, dificuldades, provavelmente nas usinas de fabricação, retardaram a produção programada. Entraram em campanha, até maio de 1945, um total de 1.400 aparelhos desse tipo. Destes, somente um pequeno número resultou operativo devido, em geral, a dificuldades de ordem mecânica. Os que entraram em combate, por sua vez, não demonstraram excessiva eficiência em virtude de estarem os pilotos deficientemente treinados. Provavelmente, talvez a principal razão da falta de treinamento dos pilotos alemães, residia na falta de combustível. Informa o Relatório Oficial do Governo dos Estados Unidos em relação ao bombardeio estratégico: "A deterioração da qualidade dos pilotos alemães parece haver sido a causa mais importante da derrota da Força Aérea alemã... ".

 

Em resumo, com relação à produção alemã de aviões e rendimento dos mesmos, deve-se destacar: a) A força aérea alemã foi originariamente concebida como força de apoio para as operações terrestres; além disso, careceu de uma organização de bombardeio de longo alcance. b) A produção foi gravemente danificada pelos intensos ataques sofridos pelas fábricas. c) A escassez de combustível fez com que os pilotos carecessem, em linhas gerais, de treinamento adequado. d) A produção de aviões retropropulsados foi iniciada muito tarde e numa escala muito limitada; em conseqüência, não influiu fundamentalmente no curso dos acontecimentos.

 

O ataque aliado à indústria do petróleo

 

A Alemanha enfrentou as necessidades da guerra, em 1939, com uma reserva integrada por 490.000 toneladas de gasolina de aviação, em lugar das 1.500.000 toneladas previstas; o combustível acumulado para motores diesel, paralelamente, foi de 1.120.000 toneladas, contra 2.800.000 previstas.

 

As campanhas iniciais da guerra não incidiram seriamente nas reservas. Pelo contrário, na França, por exemplo, os estoques que caíram em poder dos alemães eram maiores que as quantidades consumidas na campanha. Entrementes, as usinas sintéticas eram ampliadas, a fim de conseguir uma maior produção. A Hungria e a Romênia exportavam, também, grande parte da sua produção com destino à Alemanha.

 

No entanto, com o prolongamento da guerra, os ataques aliados aos depósitos e usinas sintéticas foram criando, paulatinamente, uma situação de crescente gravidade. Uma carta enviado por Speer, datada de 30 de junho de 1944, e cujo destinatário era Hitler, dizia textualmente: "Nossa produção de gasolina para aviões foi tremendamente golpeada durante os meses de maio e junho. O inimigo teve êxito aumentando nossos perdas de gasolina de aviação em 90 %, até 21 de junho... A produção de gasolina de aviação é completamente insuficiente na atualidade... As já elevados perdas de junho e a baixíssima produção calculada para julho e agosto, por causa dos crescentes ataques aéreos, determinarão, sem dúvida, o uso de grande parte de nossas reservas de gasolina de aviação, assim como de outros combustíveis. Se não nos for possível proteger essas fábricas, seremos forçados a cortar a corrente de abastecimentos para o exército em setembro... ".

 

A carta de Speer não exagerava em absoluto a gravidade da situação alemã, no terreno da indústria do petróleo. As fábricas, de fato, haviam sido e continuavam sendo, um dos objetivos preferidos pelos aviões inimigos. Vejamos algumas das incursões levadas a efeito por estes, contra as fábricas situadas no coração da Alemanha. Leuna, por exemplo, era a maior usina de hidrogenação da Alemanha; além disso, sua importância aumentava com a grande produção de nitrogênio e outras matérias igualmente importantes. Foi, de fato, a fábrica mais protegida da Europa central.

 

O primeiro ataque diurno em grande escala produziu-se no dia 12 de maio de 1944. Foi encarregada dele a Oitava Força Aérea americana, com 220 bombardeiros escoltados por caças. Posteriormente, e até o fim da guerra, Leuna foi atacada 22 vezes mais. Ao todo, 6.500 bombardeiros aliados deixaram cair sobre Leuna 18.300 toneladas de bombas.

 

O primeiro ataque de 12 de maio paralisou por completo a produção. Dez dias mais tarde, foi novamente alcançado o nível anterior de elaboração. A 29 do mesmo mês, um novo ataque deixou fora de funcionamento as instalações. A 3 de junho, contudo, a fábrica estava novamente em marcha, atingindo 75% da produção anterior até os primeiros dias de julho. Porém, no dia 7 de julho produziu-se uma nova incursão aliada que, outra vez, a anulou. Dois dias mais tarde, Leuna funcionava outra vez, alcançando 50% de sua produção por volta de 20 de julho: Nesse mesmo dia voltaram os bombardeiros aliados a atacar a fábrica: A 27 daquele mês, a produção decrescera a 35%. A 28 e 29, novos bombardeiros ocorreram, e se repetiram a 24 de agosto, a 13 e 28 de setembro e a 7 de outubro, paralisando a fábrica.

 

No dia 14 de outubro, no entanto, a produção recomeçou, para ser novamente interrompida pelos ataques de 2 de novembro. Posteriormente, entre fins de novembro e dezembro, os Aliados lançaram novos ataques. Até princípios de abril de 1945, já nos umbrais da finalização do conflito, a fábrica se manteve em funcionamento, produzindo, em média, 15% de sua capacidade.

 

Em linhas gerais, os reiterados ataques aéreos causaram o desmoronamento completo da produção alemã de petróleo. A conseqüência, logicamente, se refletiu intensamente no esforço bélico alemão. Em agosto de 1944, o lapso de funcionamento dos motores de aviação foi reduzido de duas horas para trinta minutos. Paralelamente, o treinamento dos pilotos foi muitíssimo reduzido. Durante o mês de novembro de 1944, os movimentos das divisões Panzer foram seriamente obstaculizados, em decorrência das crescentes dificuldades nos transportes, juntamente com a diminuição da produção de petróleo.

 

O ataque aliado à indústria da borracha

 

A entrada da Alemanha na guerra ocorreu sem que, praticamente, existissem reservas de borracha. De fato, os estoques nesse momento, eram no máximo, suficientes para um pouco mais de dois meses, de acordo com as estatísticas de consumo de pré guerra. Quer dizer que a Alemanha começou as hostilidades praticamente sem reservas. As importações, durante a guerra, se reduziam a pequenas quantidades que eram transportadas em naves que conseguiam burlar o bloqueio. Eram quantidades tão limitadas que não cobriam nem a menor parte das necessidades alemães. A Alemanha, em resumo, dependia, para o seu abastecimento, de três usinas sintéticas e uma quarta, menor. O processo posterior de fabricação de artigos de borracha ficou distribuído em 278 fábricas, das quais 53 eram importantes; destas, 11 eram fábricas de guarnições; 13 de artigos mecânicos e 29 dedicavam os seus esforços à fabricação de artigos derivados.

 

As usinas elaboradoras sofreram ataques esporádicos por porte dos aviões aliados. A 22 de junho de 1943, Huels foi atacado e a 1o de dezembro do mesmo ano, foi bombardeada Leverkusen, ambos pela Oitava Força Aérea americana.

 

Um total de 3.700 toneladas de bombas foram lançadas sobre as usinas elaboradoras de borracha sintética, desde o começo do guerra até 12 de maio de 1944. A partir dessa data, e até o final da guerra, se lançaram 15.700 toneladas mais, totalizando 19.400 toneladas de explosivos.

 

O ataque de 22 de junho, sobre Huels, fez cessar totalmente o funcionamento da usina durante um mês. Dois meses mais tarde, a produção se reativou, chegando a 30% da capacidade anterior. Gomo resultado do ataque citado, os estoques de borracha se reduziram a 6.500 toneladas em setembro de 1943.

 

Por volta de junho de 1944, os alemães resolveram dispensar grande porte das usinas dedicadas à elaboração da borracha. Apesar disso, em princípios de 1945, começou-se a construir a usina subterrânea de Muehldorf, que teria uma capacidade de produção de 12.000 toneladas anuais. Ao chegarem ao local as tropas americanas, ainda não se haviam instalado os equipamentos correspondentes.

 

O ataque aliado às fábricas de produtos químicos

 

A produção química alemã teve como centro o vale do Rhin, especialmente no Rhur, e ao longo das fronteiras do norte da Suíça e da Áustria, assim como na área de Leipzig, na Alemanha central. Durante a guerra, grande parte dessa indústria foi deslocada para o Leste, na Alta Silésia.

 

A indústria química, em especial, não foi selecionada como objetivo primordial do bombardeio aliado. No entanto, grande parte das perdas da produção química alemã se deveram ao bombardeio das fábricas de petróleo sintético. De fato, muitos produtos químicos, particularmente o nitrogênio sintético e o metano, eram obtidos nas fábricas que produziam petróleo, atacadas reiteradamente pela aviação aliada.

 

Desde 1o de maio de 1944 até o final da guerra, 62.900 toneladas de bombas foram lançadas sobre as fábricas de produtos químicos. Delas, 58.000 toneladas foram descarregadas sobre fábricas químico-petrolíferas e só 4.900 sobre os estabelecimentos exclusivamente químicos.

 

Explosivos

 

Em 1939, os germânicos haviam acumulado um estoque de explosivos que alcançava 190.000 toneladas. Por volta de 1940, o consumo médio mensal era de 3.000 toneladas. Em 1941 , elevou-se a 5.000 toneladas. No decorrer do ano de 1944, o produção de explosivos na Alemanha estava chegando ao máximo. Isto foi alcançado entre os meses de maio e junho de 1944. Contudo, os esforços realizados para ampliar a produção não foram suficientes para compensar a crise que começou em meados de 1944. Esta adveio do aumento das necessidades, principalmente de munições, a partir do Dia D, assim como do bombardeio aliado das fábricas químico-petrolíferas que eram as principais abastecedoras de matérias-primas.

 

O ataque, repetido contra as três grandes fábricas de petróleo de Leuna, Ludwigshafen-Oppau e Heydebreck, de meados de 1944 em diante, levou a indústria de explosivos a uma paralisação quase total.

 

Em fevereiro de 1945, por fim, a produção de explosivos alemães fôra reduzida para 85.000 toneladas mensais. Essa diminuição se produziu justamente no momento em que os alemães se encontravam combatendo em duas frentes e as necessidades alcançavam o seu limite máximo. A escassez de explosivos fica patenteada pelo fato de que os comandantes de unidades antiaéreas receberam ordens de não disparar contra os aviões, a menos que estes estivessem fazendo fogo contra a zona diretamente sob sua custódia.

 

O ataque aos transportes alemães

 

Na época anterior à guerra, a Alemanha contava com um dos mais completos sistemas ferroviários do mundo. Além disso, um perfeito sistema interior de comunicações fluviais assegurava o transporte desde o Rhur à área de Berlim. O transporte comercial através das estradas era de escassa importância e significava menos de 3% do total. Posteriormente, o ataque contra o sistema alemão de transportes esteve estreitamente ligado com o desenvolvimento das operações terrestres. Anteriormente à invasão do continente europeu, a tarefa das forças aéreas aliadas consistiu em interromper o tráfego ferroviário entre a Alemanha e a costa francesa. Mais tarde, à medida que a frente avançava em direção à Alemanha, os ataques se aprofundaram gradualmente, até alcançar as estradas de ferro da própria Alemanha. Durante todo o transcorrer da guerra, cada operação terrestre era precedida por um ataque contra o sistema de transportes, com a clara intenção de isolar o campo de batalha das zonas da retaguarda e impedir o transporte de reforços.

 

O ataque à indústria de veículos

 

Em 1944, vinte e seis fábricas produziam, na Alemanha, caminhões e outros veículos. Os ataques aliados as golpearam metodicamente. Seis das fábricas de caminhões médios e pesados foram submetidas a doze ataques de precisão, durante os quais se lançaram 6.530 toneladas de bombas. As outras fábricas foram também bombardeadas em dezoito ataques nos quais se lançaram 3.590 toneladas de bombas.

 

Uma das três grandes produtoras de caminhões, a Opel, de Brandemburgo, foi posta fora de ação mediante um bombardeio realizado a 6 de agosto de 1944. Do mesmo modo, foi anulada a produção da Ford, de Colônia. A Daimler Benz, de Gaggenau, por sua vez, ficou fora de ação depois dos bombardeios de 10 de setembro e 3 de outubro de 1944.

 

Vejamos o declínio gradual da produção de caminhões de todos os tipos, no segundo semestre de 1944 e primeiros meses de 1945:

Julho de 1944 - 8.500;  Agosto de 1944 - 7.800; Setembro de 1 944 - 6.000; Outubro de 1944 - 4.700;

Novembro de 1944 - 4.000; Dezembro de 1944 - 3.200; Janeiro de 1945 - 4.300; Fevereiro de 1945 - 2.900; Março de 1945 - 2.000

A queda da produção é nítido reflexo do efeito dos ataques aéreos e da perda de fontes de produção e abastecimentos, em zonas ocupadas pelos Aliados. A queda, por outro lado, na produção de combustíveis determinou a imobilidade de grande parte do parque automotor e a inutilidade de incrementar sua produção.

 

O ataque á indústria de tanques

 

A produção de blindados, antes da eclosão da guerra, era relativamente pequena. Durante os últimos quatro meses de 1939 a fabricação alcançou uma cifra média mensal de 60 unidades. A 1o de setembro de 1939, as reservas totalizavam, aproximadamente, 3.000 tanques, dos quais uns 300 eram de tipo médio. Depois, durante o primeiro período da guerra, a produção aumentou apenas gradualmente. Em maio de 1940, produzia-se cerca de 100 Panzers mensais. Em meados de 1941, a produção crescera para 300 unidades. Nessa mesma época, as reservas alcançavam a cifra de 4.500 tanques. Após o começo da campanha no leste, em dezembro de 1941, as perdas excederam a produção, e as reservas decaíram de 4.500 a 4.000 unidades. Em 1942, as perdas aumentaram. Em janeiro, foram perdidas 700 unidades, número que se elevou a 2.200 em fevereiro.

 

Antes do mês de agosto de 1944, os ataques contra as fábricas produtoras de Panzers foram esporádicos. Em outubro de 1943, as forças aéreas britânicas atacaram a fábrica Henschel, em Kassel, única produtora dos tanques "Tigre". Em abril de 1944, os britânicos descarregaram seu poderio contra Friedrischshafen, destruindo a fábrica de caixas de câmbios ZF e avariando a fábrica de motores de Maybach.

 

As fábricas produtoras de Panzers foram sistematicamente atacadas durante os meses de agosto, setembro e outubro de 1944. Foram então bombardeados onze estabelecimentos importantes, além das fábricas de motores Maybach e Nordbau.

 

O ataque à indústria de submarinos

 

A produção alemã de submarinos de todos os tipos cresceu, paralelamente, com o desenvolvimento da guerra, de 23 unidades em 1939, com 11.939 toneladas, até 387 unidades, em 1944, com 275.300 toneladas. Durante o período transcorrido entre agosto de 1935 e maio de 1945, a Alemanha produziu 1.158 submarinos, com um deslocamento variando entre 250 a 1.600 toneladas, além de umas 700 unidades anãs, produzidas durante o último ano de guerra. A capacidade total, bruta, foi de aproximadamente 1 milhão de toneladas.

 

Ao todo, os Aliados levaram a cabo 138 ataques de importância contra os estaleiros, bases de submarinos, portos e instalações navais, somando cerca de 100.000 toneladas a quantidade de bombas lançado sobre eles. Em linhos gerais, até 1945, os ataques tiveram poucos efeitos sobre sua produção.

 

A Oitava Força Aérea americana lançou sua ofensiva contra as bases de submarinos, no outono de 1942, atacando Brest, St. Nazaire, Lorient e Bordeaux. Em janeiro de 1943, os ataques se concentraram nos estaleiros de Vegesack, Bremen e Kiel. O ataque foi intenso durante o primeiro semestre de 1943, decaindo em potência até o final do ano.

 

Em 1944, durante o mês de novembro, realizou-se uma nova tentativa para deter a construção de submarinos. Entre novembro de 1944 e abril de 1945, a Blohmund Voss foi bombardeada sete vezes. No último ataque foram obtidos 276 impactos diretos. Em decorrência, a fábrica teve que paralisar sua produção. Os ataques contra Deschimag determinaram o fechamento dessa fábrica. Howaldtswerke, em Hamburgo, intensamente atacada, teve que parar sua produção. Também foram anuladas as fábricas de Germaniawerft e do Deutsche Werke, ao serem quase varridas pela aviação britânica.

 

As cifras de submarinos cuja construção estava programada e os realmente construídos, são altamente significativas:

 

Programados

Construídos

Janeiro de 1945

42

24

Fevereiro de 1945

44

16

Março de 1945

46

12

Abril de 1945

46

0

 

O bombardeio de precisão

 

Sua efetividade aumentou consideravelmente nos anos de 1944 e 1945. Entre outubro de 1939 e maio de 1945, as forças aéreas aliadas lançaram mais de meio milhão de toneladas de bombas de poderosos explosivos, incendiárias e de fragmentação, em ataques de área, sobre 61 cidades alemãs com uma população de mais de 100.000 habitantes cada uma. Tais ataques destruíram 3.500.000 edifícios e deixaram sem teto cerca de 7.500.000 pessoas.

 

Os bombardeios de julho-agosto de 1943 sobre Hamburgo podem ser incluídos entre os mais devastadores da guerra. Apesar da morte de cerca de 60.000 pessoas, da destruição de aproximadamente uma terça parte das casas habitáveis, e da interrupção dos processos normais de vida na cidade, Hamburgo não foi destruída. Cinco meses depois, a cidade havia recuperado 80% da sua efetividade, apesar de grandes áreas dela se encontrarem, ainda, cobertas de escombros.

 

Os ataques aéreos sobre as cidades alemãs, também, tiveram o efeito de obrigar a população civil a paralisar o esforço produtivo e dedicar-se reparação dos danos causados pelo bombardeio. A diminuição da produção tinha assim dupla causa: a destruição das fábricas e a falta de mão-de-obra.

 

Em linhas gerais, as estatísticas elaboradas a respeito mostram que cada 15.000 toneladas de bombas lançadas contra as cidades alemães, causava uma queda da produção em 1% anual.

 

Um oficial britânico da RAF descreve assim o ataque de que foi objeto o cidade de Colônia, a 30 de maio de 1942. Em suas palavras se entrevê a impressionante magnitude desse ataque: "Iniciada a primavera de 1942, com a blitz sobre Lubeck e Rostock, e uma vez tomado esse caminho, já não se podia retroceder. No mês de maio, o Comando de Bombardeio convenceu o governo alemão que nós, não apenas estávamos atuando com inequívoca seriedade, mas que possuíamos também recursos mais ou menos ilimitados. Na noite de 30 de maio, Colônia, capital do Rhin, com uma população de mais de três quartos de um milhão de habitantes, foi atacado por mil bombardeiros. As fotografias mostraram que um terço da cidade foi devastado e que duzentos e cinqüenta edifícios de fábricas foram totalmente destruídos em 90 minutos. A primeira reação alemã foi de profundo espanto. A máquina alemã da propaganda começou por negar que tivessem tomado parte no ataque mil aviões, pois temia-se o efeito da verdade sobre o povo. As rádios alemães se enredaram em múltiplas mentiras, enquanto que nossos próprios volantes informaram a nação alemã da verdade que sucedera, e do que o futuro lhes tinha reservado; os habitantes de Colônia, que haviam sentido o terror desse violento ataque, expressaram sua amargura diante da tentativa oficial de diminuir a dura prova a que haviam sido submetidos. Dizem que cerca de cento e quarenta mil habitantes foram evacuados... O ataque a Colônia significava que havia começado a guerra de destruição. Mas, do ponto de vista técnico, se aprenderam muitas lições no transcurso desse ataque monstruoso. Ficou demonstrado que a Alemanha já não podia confiar no imenso exército de canhões antiaéreos e refletores que havia mobilizado para proteger suas grandes cidades. A Alemanha pretendera ganhar tempo, porém perdera a corrida. Calculava-se que Colônia possuía aproximadamente quinhentos canhões antiaéreos de diferentes tipos e mais de cento e vinte refletores. As rotas de aproximação estavam bem protegidas pelos caças noturnos; no entanto, nossos bombardeiros passaram; chegaram sobre o objetivo a um ritmo de um cada seis segundos; eles observaram admiravelmente a distribuição do horário, e o peso das bombas que lançaram foi tão grande que se tornaram impotentes os serviços de luta contra incêndios. Uma coisa era converter em chamas e fumaça uma cidade relativamente pequena como Rostock; outra coisa, completamente diferente, foi esmagar a segunda grande área em edificações da Alemanha. Rostock não estivera bem defendida e foi atacada durante quatro noites. Em troca, as defesas de Colônia eram formidáveis, porém com o céu cheio de aviões, as guarnições dos refletores se aturdiram e os guias de tiro se confundiram. O ataque foi cumprido em uma noite, em pouco menos de uma hora e meia. Da experiência de Colônia se concluiu que o método correto de superar as defesas alemães naquela etapa, era executar os golpes mais fortes no tempo mais curto possível, e, dessa forma, desorientar os guias de tiro. Do ponto de vista do inimigo, era urgentemente necessário pensar numa maneiro de contrabalançar essa nova ameaça. Havia várias possibilidades para isso e poderia parecer à primeira vista que o melhor procedimento tático seria multiplicar as baterias antiaéreas, porque elas não poderiam suportar tão tremenda tensão... ".

 

A cidade de Hamburgo foi um dos centros povoados mais duramente castigados durante a guerra. Essa cidade alemã suportou a chamada "batalha de Hamburgo", que começou na noite de 24 para 25 de julho de 1943. A conseqüência foi uma onda de terror que se propagou rapidamente por toda a Alemanha. Na manhã que se seguiu ao primeiro ataque, uma rádio alemã comentou assim o efeito da incursão: "São agora 8 horas da manhã", disse o locutor, "cinco horas depois do ataque, porém, é ainda impossível avaliar a extensão dos danos. Em todos os lugares prosseguem os incêndios. Os muros frontais das casas desmoronam com grande estrépito e caem, atulhando os ruas. A fumaça permanece por cima da cidade como uma enorme nuvem de tempestade, através da qual se entrevê o sol como um disco vermelho. Neste momento, às oito da manhã, está tudo escuro como no meio da noite... Terror! Terror! Terror! Terror puro, cruel e sangrento terror! Ide às ruas da cidade que estão cobertas de estilhaços de vidros e escombros! Contende o ranger de vossos dentes e não esqueçais quem vos causou tanta miséria! Deixai que o ódio arda em vossos corações! Caminhai pelas ruas de Hamburgo e, das informes ruínas das casas, vêde, por vós mesmos, a quem eram destinadas as bombas e o fósforo das incendiários. Agora já não é possível o esquecimento e o perdão. Do sofrimento de nossa população, tremendamente maltratado, há de nascer um tremendo juramento de ódio".

 

Não houve trégua, no entanto, para a cidade. Mais de 8.000 toneladas de bombas foram lançadas sobre Hamburgo e acreditou-se que a devastação atingira finalmente, 625 quarteirões de edifícios no setor central da cidade; 550 quadras mais, sofreram danos que as tornaram inabitáveis. Pode-se deduzir que, aproximadamente, 400.000 pessoas ficaram sem teto.

 

Um piloto inglês, o Tenente da RAF, Hector Hawton, declarou a respeito: "Deve ser salientado que os bombardeios em massa... eram algo que nos abalava e que procurávamos evitar".

 

 

Anexo

 

Caçada

Quando em 1943, os caças "Mosquitos" começaram a sua tática "rangers" (incursores), criaram sérias dores de cabeça para a Luftwaffe. Voando aos pares, estes pequenos bólidos lançados a seiscentos quilômetros por hora travavam uma impiedosa guerra-pirata contra os aparelhos inimigos.

Transcrevemos o relatório do comandante australiano Scherf, sobre o vôo "ranger" de 23 de setembro de 1943:

"Decolamos às 14,15 numa equipe de dois “Mosquitos”; o outro aparelho, pilotado pelo comandante Cleveland. Rumo: sobre a Alemanha do Norte através do Báltico.

"Sobre o mar distingui um avião. Era “Dornier”. Nos vira, e as esteiras negras de seus tubos de escape indicavam que voava com potência máxima. Alcancei-o, no entanto, sem dificuldade: uma rajada de quatro canhões e ele caiu ao mar. "Atravessamos a costa alemã em Kubitzer, ao norte de Rostock e pouco depois cruzamos com dois “Junkers” 87. Enfilei atrás de um deles enquanto Cleveland perseguia o outro. Minhas duas primeiras rajadas erraram o alvo, porém a terceira atingiu-o em cheio, e o “Stuka” caiu. "Seguindo a costa, um pouco mais ao sul, vimos um aeródromo em torno do qual circulavam vários aviões. Um “Heinkel” 177 fazia a aproximação para a aterragem. Ataquei-o de frente, por baixo. O avião inimigo tombou sobre a baía, envolto em chamas.

“Eram 15 e 52.

“Quando girava, avistei Cleveland à caça de um bimotor “Junkers” 88. Seus projéteis arrancavam pedaços do avião inimigo, que desprendia fumaça. Não pude ver o resultado final, pois nesse momento descobri dois “Dorniers” 18 ancorados numa pequena enseada. Piquei sobre eles. O primeiro explodiu e afundou; porém, para minha tristeza, o segundo resistiu a três rajadas.

"Começou então, o fogo antiaéreo, e me afastei, voando rente ao chão; então, me encontrei precisamente embaixo de dois “Junkers” 88 que voavam em formação. O primeiro explodiu no ar, porém quando atacava o segundo, uma bateria antiaérea de peças automáticas de 20 mm disparou contra mim, atingindo-me, arrancando-me um dos meus tanques suplementares e avariando meu leme direcional. Após regular as compensações dos lemes, enfilei a toda contra o segundo “Junkers” JU-88 e consegui derrubá-lo.

"Enquanto esses acontecimentos se sucediam, perdi Cleveland de vista e voltei rumo à Inglaterra.

"Depois de voar vinte minutos sobre o mar, divisei Cleveland e me juntei a ele, que voava com dificuldade, com um só motor que falhava visivelmente. Depois de estabelecer contato radiotelefônico, me disse ter derrubado dois aviões no ar, e destruído um terceiro em terra. Me pediu que escrevesse à sua mulher, e que a avisasse que não podia regressar à Inglaterra. Antes de arriscar-se a cair prisioneiro, ia tentar chegar à Suécia.

"Eu disse adeus a Cleveland e lhe desejei boa sorte.

"Mais tarde cruzei com um comboio naval alemão e disparei o resto das minhas munições sobre um destróier. O fogo antiaéreo era intenso e meu observador acabou atingido por um estilhaço no rim direito.

"Precisamente ao norte de Heligoland, o sol batia em cheio nos meus olhos e não pude me esquivar de um bando de gaivotas. Vinte e sete pássaros ficaram grudados no aparelho e causaram consideráveis danos: antena de rádio arrancada, motor esquerdo paralisado, alleron esquerdo bloqueado, todos os vidros dianteiros da cabine quebrados, e nós, cobertos de sangue e de penas.

"As 18 e 45, com um motor, pousamos em nossa base de partida.

"Peço a confirmação de cinco vitórias aéreas e de um avião destruído em terra, assim como, em nome do comandante Cleveland, duas vitórias aéreas, e um avião destruído em terra".

 

 

O moral alemão sob o céu em fogo

Mais de vinte e cinco milhões de civis alemães foram submetidos ao bombardeio aliado. As incursões aéreas não somente produziram sofrimentos de toda espécie, mas também debilitaram o efeito da propaganda do partido nazista e da política nazista sobre a população. Em princípios de 1944, três quartas partes do povo alemão consideravam a guerra já perdida.

O bombardeio afetou sensivelmente a força de vontade alemã para a resistência. Os sintomas psicológicos foram: derrotismo, medo, desesperança, fatalismo e, em alguns casos, apatia. Além disso, a severidade dos ataques - às vezes inexplicavelmente desencadeados mais contra as cidades que contra pontos estrategicamente nevrálgicos - e a passagem incontrolada de grandes e constantes formações aéreas sobre o céu alemão, produziram a forte convicção da superioridade aliada. O desgaste da guerra, o desejo de render-se, a perda da esperança em uma vitória alemã, a desconfiança nos dirigentes, os sentimentos de desunião e o medo desmoralizante foram fatores mais comuns entre povos bombardeados que entre os que não haviam sofrido o ataque aéreo direto.

Porém, passado o primeiro momento, e à medida que o bombardeio se tornava algo cotidiano, os efeitos morais foram diminuindo. O moral dos povos submetidos ao mais forte bombardeio não era pior que o de povos do mesmo porte, que recebiam cargas mais leves e com menos continuidade.

Os ataques fortes e continuados a uma mesma cidade não aumentavam a perda de moral, por duas razões:

1o) As cidades que passaram por fortes ataques, perderam uma parte considerável de seus habitantes mediante a evacuação; os evacuados eram, em alguns casos, os de coração mais fraco, os menos patriotas; em resumo, a gente de moral mais baixo.

2o) O bombardeio forte mudava a dissenção ativa em apatia, com relação aos assuntos políticos e na grande preocupação de manter a vida. Os ataques noturnos tiveram efeitos tão daninhos como os diurnos. O temor ao ataque noturno não era relacionado com a quantidade de explosivos, mas sim, a uma grande insegurança psicológica para passar a noite. As vítimas alegavam impedimentos subconscientes para despertar e arrancar as crianças dos leitos, ir aos refúgios, escolher que elementos levar, etc. Entre várias pessoas, expostas com idêntica severidade aos efeitos das bombas, os resultados eram distintos, de acordo com o grau de convicção a respeito do regime. Os membros do partido nazista mantinham seu moral mais firmemente que as pessoas que não pertenciam ao partido. As pessoas que haviam aceitado a ideologia eram mais estáveis que aquelas ideologicamente hesitantes. Nos lugares onde os refúgios antiaéreos eram mais inadequados, o moral era mais baixo.

A interrupção dos serviços públicos em uma comunidade, contribuía muito para fazer minguar a vontade de resistir. Foi de especial significado a interrupção do serviço de transportes; era o serviço público mais decisivo para o moral da população civil.

Outro golpe vital para a comunidade bombardeada era a destruição das escolas e as facilidades de recreação das crianças. Este fato tornava necessária a evacuação das crianças. Os pais não somente sofriam o peso da desintegração da família, como também a possibilidade da perda de autoridade moral, nas mãos do partido.

As autoridades alemãs, profundamente preocupadas com o enfraquecimento do moral do povo, mantiveram um extenso serviço de inteligência para orientá-lo. Um relatório elaborado em Munique, em março de 1944, diz: "O moral alcançou um ponto tão baixo, nunca observado desde o começo da guerra. Pode-se ouvir, até de honrados cidadãos, que se deve dar um fim à guerra, porque ela não pode ficar pior do que até agora... O terror aéreo demonstra o quanto é agudo o problema da formação moral... As pessoas se espantaram, particularmente, de que as formações inimigas voassem de modo tão ordenado e a reduzida altura, de sorte que o número de aviões podia ser contado sem nenhuma interferência dos nossos caças que não podiam, nem sequer durante o dia, rechaçar os americanos, deixando-nos sozinhos, à noite".

Os trabalhadores, desanimados e deprimidos, não eram necessariamente trabalhadores improdutivos. A produção de armamentos continuou em ascensão até meados de 1944, data em que começou a declinar definitivamente. Segundo algumas teorias, a entrega total a um trabalho estafante seria um desejo escapista de fugir às constantes preocupações.

A crescente severidade do partido nazista manteve o povo em seu lagar, porém não suprimiu a oposição ao regime imperante. As sentenças de morte (a maior parte delas por ofensas políticas) aumentaram bruscamente durante cada ano de guerra. Em 1944, um de cada mil adultos esteve preso por ofensas políticas.

A oposição se dividiu em organizada e desorganizada. A primeira, optou pela forma de crítica ao regime, particularmente depois de cada ataque aéreo - com a difusão de anedotas, fatos e rumores políticos, onde o bombardeio era o pano de fundo - assim como a sintonização de rádios proibidas.

A oposição organizada incluía os grupos eclesiásticos que, freqüentemente, alardeavam a sua franqueza e, também, aqueles que raramente se atreviam a tocar no regime; os grupos políticos antitotalitários, que tiveram que limitar suas atividades à ação secreta, porém que continuaram a existir, e o movimento de oposição, que culminou com o frustrado atentado contra Hitler, a 20 de julho de 1944.

 

 

Era a mesma praia

"Em Parkstone, Bob e eu nos sentamos sob os raios do sol e aguardamos. "Haviam-nos dito que as coisas não estavam de todo prontas para a missão de bombardeio, de modo que corremos até ao povoado vizinho de Margate a fim de apreciar o aspecto que oferecia em tempos de guerra. Era difícil acreditar, enquanto permanecíamos deitados na areia, que aquela era a mesma praia do tempo de paz; os hóteis estavam todos fechados; “Dreamland” era agora um quartel do exército; via-se arame farpado por todo o lado, e a zona estava invadida pelos soldados. A única coisa que se conservara eram os pescados. Depois de nos deliciarmos com um verdadeiro quitute de linguados de Dover, começamos a nos sentir invadidos por uma agradável modôrra, enquanto até nossos ouvidos chegavam os guinchos das gaivotas que evolucionavam sobre o porto. "Repentinamente, ouvimos um ruído semelhante a um escapamento de ar comprimido, depois o retumbar de tiros de canhões, seguido pelo estrondo de bombas. Como um relâmpago, cintilando sob o sol, a "zero" metros, quatro aparelhos "Focke Wulf" 190 passaram sobre nossas cabeças em direção à França, seguidos de perto por quatro “Typhoon”. As numerosas peças antiaéreas, distribuídas ao longo da frente, entraram em ação, arrojando esferas vermelhas, uma após outra, que descreviam uma curva suave rumo ao conjunto formado pelos aviões inimigos e amigos. Era a típica incursão rápida que os alemães costumavam fazer. Bob disse um palavrão em voz alta. Logo depois ouvimos as sereias. Quando a tarde ia em meio soubemos que os nossos haviam derrubado os quatro adversários."

Guy Gibson ("Rumo à costa inimiga")

 

 

Para afundar o petroleiro

O piloto do "Spitfire" estava gelado, por quatro horas de vôo em meio à tormenta. Foi preciso arrancá-lo entumecido da carlinga, enquanto os mecânicos, com jatos de vapor, derretiam o gelo congelado nas presilhas dos aparelhos fotográficos.

As fotos mostravam o fiorde Ofot e, no meio dele, um petroleiro de 6.000 toneladas, protegido por um antitorpedeiro pesado, um quebra-gelos e três naves de escolta com boa artilharia antiaérea.

A missão foi planejada cuidadosamente, discutida com calma, como se se tratasse do lançamento de uma nova marca de alimentos para cães.

Na base, a paz é quebrada. Os mil e duzentos homens, aturdidos pelos alto-falantes que soam no canto de cada barraca, depertam.

Um trator arrasta vários carrinhos com compridos e pesados foguetes explosivos semiperfurantes de vinte e sete quilos.

Os mecânicos põem em marcha, esquentam e revisam os motores Rolls Royce 25 dos De Havìlland “Mosquito VI”. Depois, uma pesada jamanta cisterna, rebocada, percorre aparelho por aparelho, completando as cargas de combustível.

Nos fogões, membros do Serviço Feminino Auxiliar da Força Aérea preparam ovos com presuntos e "porridge" para os quarenta pilotos e navegadores que intervirão na incursão. As tripulações são reunidas na Sala de Conferências. O comandante explica: "O QG considera de suma importância a destruição desse barco, que transporta gasolina de aviação de elevada graduação octânica para os doze aeródromos que a Luftwaffe tem no norte da Noruega. A previsão meteorológica não é muito brilhante: haverá neve e ventos gelados. Em compensação, talvez isso contribua para diminuir a atividade dos "Focke Wulf" 190. Voaremos em formação de combate: seções de três e quatro. É preciso que não se atrasem, pois com esse tempo cachorro, perderão qualquer contato. Uma vez sobre o objetivo, "Revólver" atacará em primeiro lugar. Imediatamente, e somente no caso do alvo não ter sido destruído, atacará "Shark". Apontem, sem picar demasiado, a trezentos metros da base das chaminés, e seus foguetes explodirão na linha de flutuação.

"Se forem atacados por caças inimigos, círculo defensivo, reduzam a velocidade e fechem a curva. Se estiverem sozinhos, não há senão uma tática: mergulhar nas nuvens a toda velocidade, sem esquecer que têm quatro canhões de 20 mm no nariz. Podem usá-los. Alguma pergunta? Bem, então é tudo... Boa caçada..."

As 12,30 chove a cântaros; o mar se dilui na bruma e a neve se funde nos pára-brisas. Os aviões cerram a sua formação.

Os olhos tratam de varar a neblina para descobrir a traiçoeira costa da Noruega, com seus blocos de granito cortados a pique. Quantos aparelhos já se espatifaram contra as arestas de Skajaergaard sem chegar ao objetivo! É isso que pensam todos os pilotos, quando a voz do comandante soa: "Guia de Revólver” chama. Procurem navio no setor 11 na proa de “Shark”; afundem-no antes que utilize o rádio...

Entre duas nuvens cinzentas descobrem a figura incerta de um pesqueiro; é preciso destruí-lo antes que denuncie o rumo dos "Mosquitos". "Shark" ataca e quatro projéteis deslizam debaixo de suas asas. Wuuuuuffff...! ... Chamas se espalham sobre a água... O pesqueiro partido em dois... Restos, jatos de vapor... O barco afunda..

- “Vamos!” ordena a voz do comandante. Os aviões planam mansamente rumo à semi-obscuridade das noites boreais. Os diálogos se entrecruzam: - “Girar a bombordo “Revólver”, rumo zero, um, cinco”.

- "Maldito tempo!" - “Alvo à proa em dez minutos, comandante!”

Passam sobre a ilha Barroy, com seus semáforos, sua estação de radar e seu farol de faixas brancas e pretas. Uma bateria de 88 mm dispara contra eles, sem conseqüências. Porém, entrementes, os alarmas começam a soar nas bases de Narvick e Elvegaard.

Os "Mosquitos" roçam os restos de um torpedeiro alemão afundado a 13 de abril de 1940; o mar está muito próximo... O mar e também Narvick com seus pesqueiros, seus telhados negros e a torre de madeira da sua igreja luterana.

- "Cuidado! Fogo antiaéreo!" - grita o comandante.

De súbito, aparece o antitorpedeiro. Seis aparelhos se lançam sobre ele. Quarenta e oito foguetes o destroem em meio de fogos de artifício. Porém a artilharia diz a que vem: dois aviões explodem. Um pára-quedas se desprende de um terceiro, que perdeu a asa.

Os canhões antiaéreos de 88 e 20 mm disparam furiosamente.

Os três navios-escolta são o próximo alvo. Outro "Mosquito" se despedaça ao mesmo tempo que uma das naves começa a ir a pique.

O fiorde é um turbilhão terrível! O inferno inteiro num caldeirão de paredes rochosas! Camuflado com listas brancas e pretas, o casco baixo e alongado, o petroleiro descansa escondido no fundo do fiorde. Alguns "Mosquitos" conseguem franquear a barreira de fogo cruzado dos dois barcos-escolta restantes. "Armar foguetes... Todos" - ordena o comandante.

As baterias antiaéreas continuam disparando furiosamente.

Vinte "Focke Wulf" 190 aparecem no teto do fiorde e, a setecentos quilômetros por hora, se arrojam sobre os aviões ingleses.

Um "Mosquito" incendiado, se espatifa contra uma das torres de um barco-escolta. A nave começa a arder.

Os projéteis antiaéreos golpeiam. o aparelho do comandante: o navegador está morto, um dos motores solta fumaça e o comandante está ferido no estômago.

- “Aqui guia “Revólver... Vou atacar o petroleiro” - murmura penosamente. Os "Mosquitos" entram em combate com os "Focke Wulf" que zumbem como vespas.

O comandante, perseguido por quatro caças alemães, roça o mar. Um "Focke Wulf" voa a vinte metros do "Mosquito" disposto a dar-lhe o golpe de graça e dispara à queima-roupa. Os projéteis destroçam a fuzelagem. O segundo motor do comandante começa também a incendiar-se. Outro "Focke Wulf" dispara, e seus projéteis explodem sobre o avião, mas também sobre o casco rajado do navio cisterna.

O comandante roça o gatilho e os oito foguetes partem, explodem, perfurando as paredes do petroleiro.

O estrondo da explosão repercute no fiorde; o petroleiro voa pelos ares. Um pouco mais adiante, o "Mosquito" do comandante se estraçalha contra os abetos da costa. Na pequena baía o espetáculo esmaece: restos de navios, uma grande mancha de petróleo sujo onde bracejam alguns homens com coletes salva-vidas amarelos... Um torpedeiro estraçalhado... Fuzelagens carbonizadas.

 

 

“Bodenplatte”

O grupo FW-190 da formação Trautleft foi despedaçado ao meio dia de 29 de dezembro de 1944. Seu saldo foi dezesseis mortos, oito desaparecidos e quatro feridos. Havia recebido uma ordem absurda: "Empreender vôo por esquadrilhas". O céu era de um azul claro e mortal e forças inimigas muito superiores evoluíam sobre a base.

O grupo FW-190 tinha um crédito de nove mil e duzentas vitórias e havia experimentado o fogo de quase todos os céus da Europa. Entre os mortos figurava Robert Weiss, um "ás" que contava com 121 vitórias. Com o pensamento na represália, amanheceu o último dia do ano. Goering, do seu castelo de Kranach, ordenou uma ofensiva em massa contra as bases aéreas inimigas. A operação foi batizada: "Bodenplatte" (Tonsura).

O tempo estava ruim e por volta das quatro da tarde começaram a chegar ordens incompreensíveis a diversas bases aéreas. Os pilotos deviam decolar e reunir-se em campos de aviação especialmente designados. Nesses aeródromos, as linhas telefônicas haviam sido intencionalmente interrompidas.

No crepúsculo do Ano Velho de 1944, os pilotos aterravam em meio a promessas e palavrões. Fez-se saber às tripulações que não estavam autorizadas a celebrar o Ano Novo. Nada de álcool! As fisionomias se crisparam. O Ano Novo sem brindes era um mau presságio. Até os comandantes estavam admirados. Os chefes das bases anunciaram que um jantar esperava as tripulações às 19 horas. Nos refeitórios quase ninguém falava, cada um mergulhado em seus pensamentos. Pressentiam que algo importante estava para acontecer, porém nem os chefes sabiam grande coisa. Eles haviam, isso sim, recebido um envelope fechado com instruções para ser aberto às 3 da manhã de 1o de janeiro de 1945.

Entrementes, novecentos pilotos se remexiam em seus beliches sem poder pregar olho. As três da manhã foi dada a ordem para se dirigirem à sala de reuniões. Os chefes esperavam com seus envelopes misteriosos.

A ordem era: "Das bases alemãs devem partir novecentos caças Messerschmitt Me-109 e Focke Wulf 190 para atacar todas as bases inimigas do setor belga-holandês. Os ataques devem ser efetuados a vôo rasante. Fica proibido voar a mais de duzentos metros de altura, a fim de evitar delação por meio de radar. Fica proibida qualquer conversação radiotelefônica".

A cada piloto foi entregue um grande mapa onde estavam indicados os pontos de apoio, as bases aéreas e as posições antiaéreas na frente aliada. Foi determinada como hora de partida: 7,45. Havia também detalhes sobre formações de vôo e aéreas de objetivo. Os efetivos seriam conduzidos à frente por um "Junkers" 88. Um grupo voaria em direção a Venlo, outro a Bruxelas e um último a Arnheim-Eindhoven. Estava esclarecido o segredo. Os pilotos estavam nervosos. Serviram comida abundantemente e café bem forte. Estavam tratando-os demasiadamente bem. Quantos estariam vivos ao entardecer? Muitos, ao comer, se sentiam como um peru de Natal, sendo alimentados para a morte. Café e boa comida! ... o último desejo do condenado.

Caras angustiadas, mãos ansiosas que escondiam um cigarro, que era fumado só até à metade e depois esmagado nos cinzeiros. As vezes, com o toco restante acendiam outro e outro... E assim até às 7,45.

Enquanto isso, os ingleses e americanos dormiam profundamente. Eles haviam brindado o Ano Novo, cantado e comemorado. Agora estavam mergulhados numa pesada modôrra, como a neve que cobria os campos vizinhos. Na grande base de Bruxelas-Evere amanhecia. Pouco a pouco, se acentuavam os contornos das longas filas de "Typhoon", caças um pouco pesados, porém equipados com mortíferos foguetes que atravessavam as couraças dos Panzer "Tigres" e matavam as tripulações. Asa contra asa, havia também "Fortalezas Voadoras"; "Spitfires" estacionados junto a enormes transportes aéreos. O vermelho sol de inverno se elevava lentamente no céu.

Nesse instante, os caças alemães levantaram vôo; os "Junkers" 88 acenderam suas luzes de localização. Um grupo de unidades se inclinou a baixa altura sobre o Mar do Norte, ao largo do Zuidersee, rumo a Bruxelas.

Eram oito e um quarto quando um pequeno avião americano de observação da artilharia comunicou: "Avistada a um momento, formação de, pelo menos, duzentos "Messerschmitt", a baixa altura, rota 320".

Finalmente, os pilotos alemães avistaram o campo de aterrissagem procurado, alvo e cheio de pontos negros, assinalando os aparelhos aliados.

Soou o alarma geral e pilotos e soldados se precipitaram aos canhões. Porém era demasiado tarde: sobre aviões, tanques de combustível, hangares e edifícios, se desencadeou o inferno. Enormes cogumelos de fumaça negra, subiam aos borbotões na atmosfera, ferros retorcidos, gritos, cadáveres; os caças atacavam com sinistra precisão. Pouco a pouco, as baterias antiaéreas começaram a atuar e seu fogo foi aumentando até tornar-se infernal. Das bases inglesas decolaram alguns interceptadores.

Vinte e seis campos de aviação haviam sido atacados. Uns oitocentos aparelhos aliados de todos os tipos, foram destruídos. Porém os Aliados podiam substituir as perdas, pois das fábricas americanas fluíam ininterruptamente os efetivos necessários. As perdas alemãs foram mantidas em segredo. Os chefes de unidades as calcularam em 30%. Finalmente, o General Galland deu como cifra: trezentos aparelhos destruídos. Na operação morreram 59 comandantes de unidade.

De certa maneira, a "Operação Tonsura" constituiu-se numa vitória de Pirro. Os trezentos aparelhos com seus pilotos valiam muito mais que os oitocentos aviões britânicos e americanos, porque a Alemanha jamais conseguiria substituí-los.

 

 

O que acontece com os caças?

"Daqui em diante, todo piloto que depois de um combate aterrissar sem ter seguramente derrubado um avião adversário, ou com seu aparelho intacto, comparecerá ante um conselho de guerra. Os chefes de bases são responsáveis por esta ordem". O comunicado era de Goering e foi lido em todas as bases aéreas alemãs. Começava outubro de 1944 e fazia oito meses, pelo menos, que os exércitos alemães estavam em retirada. O povo alemão sofria os efeitos devastadores dos bombardeios aliados desde 1943. A aviação britânica, sozinha, havia lançado, no mínimo, cento e trinta e seis mil toneladas de bombas. O novo ano de 1944 principiou com um violento ataque contra Berlim. Quinze dias mais tarde, mil e oitocentas toneladas de bombas devastaram Francfort do Mein. A 9 de fevereiro começaram os ataques contra Leipzig. O centro da cidade era uma tocha única, onde ardia, entre outras coisas, a imprensa mais célebre do mundo. Pouco depois, Stuttgart, Nuremberg, Kassel, e, de modo geral, as localidades do vale do Rhur, foram arrasadas. Em Colônia, a população de oitocentos mil habitantes baixou para duzentos mil.

As possibilidades de represália da aviação germânica eram escassas. Nos primeiros meses de 1944, somente foram lançadas mil e setecentas toneladas de bombas sobre a Inglaterra.

Enquanto a Alemanha se convertia lentamente numa montanha de escombros, o povo (viúvas, velhos, crianças, cada vez menos homens jovens) se perguntava: O que acontece com os caças? Apesar do progressivo aumento do poder destrutivo dos bombardeios aliados, a produção da indústria aeronáutica alemã era a mais forte da guerra. Em 1944 produziu 40.593 aparelhos, dos quais 25.285 eram caças.

Quer dizer que os caças existiam, porém, faltavam modelos novos. Além disso, eram vítimas da falta de coordenação no comando e da rivalidade dos construtores entre e si. Dessa forma, os pilotos continuavam voando com os mesmos aparelhos desde o começo da luta. As missões encomendadas a pilotos de caça que dispunham de um material antiquado, eram, praticamente, impossíveis de levar a cabo. Por isso, os chefes das bases alemãs nunca cumpriram a ordem de Goering.

Ainda, mesmo no caso de aparelhos novos, a pressa de entrega-los, fazia aparecer defeitos na construção e ocorria, até, algumas vezes, faltarem peças importantes. Os motores careciam de um acabamento cuidadoso e os pilotos começaram a encará-los com desconfiança. A pressa afetava, também, a instrução de novos pilotos. Finalmente, começou a escassear a gasolina.

Hitler, no entanto, não sentia muito a necessidade de intensificar e cuidar da produção de caças. Continuava pensando que os bombardeiros eram, de certa maneira, o braço executor da sua vingança contra a penetração e as arrasadoras incursões aliadas. Entrementes, o céu se tornava cada vez mais difícil para os pilotos alemães, à medida que as múltiplas esquadrilhas britânicas e americanas formavam um verdadeiro teto de fogo. As vezes, os aviões eram destruídos antes de aterrissar e as tripulações morriam com as rodas raspando as pistas. As águias alemãs começavam a viver o princípio do fim.

 

 

Max Guedj

Max Guedj desapareceu no inverno de 1945. O telegrama foi levado por um piloto ao Cassino dos Oficiais e correu de boca em boca: "Max está missing" (desaparecido).