“Maquis” e “Partisans” de armas em punho
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Berlim, 5 de setembro de 1939. Convidado pelo governo alemão, um
representante da imprensa estrangeira, escolhido pelos correspondentes, foi levado
num avião oficial para Czestochowa. Na volta, esse jornalista declarou:
"Nas imediações ouvimos disparos intermitentes e o fogo da artilharia
antiaérea alemã que entrara em funcionamento. Numa esquina havia dois cavalos
mortos que ninguém se preocupava em retirar. Diante dos edifícios crivados de
balas e com os vidros arrebentados, vimos passar uns trinta civis poloneses
que marchavam com as, mãos erguidas, custodiados por soldados alemães com
baioneta calada. Um oficial alemão nos explicou que se tratava de
franco-atiradores e constituíam um dos maiores problemas com que tropeçavam
agora nas cidades os soldados alemães. Por essa razão, fôra resolvido
capturar todos os civis em idade de portar armas e levá-los para a
Prefeitura. O avião chegou ao aeródromo improvisado de Stubendorf, perto de
Oppeln. Ao aterrissar, um tenente-coronel nos esperava e nos avisou que não
poderíamos ir a Czestochowa, porque tinham notícias de que os
franco-atiradores haviam entrado em ação. Chegou então um suboficial que nos
assegurou: 'Temos tentado ir a Czestochowa, porém tivemos que voltar porque
no caminho os camponeses fizeram fogo pelos dois lados'. Pouco antes de
chegar à fronteira polonesa, em Gutentag, deparamos com uma barricada,
rodeada de arames farpados, e com uma espécie de galpão numa das suas
extremidades. Soube que ali haviam reunido, durante a noite, uns 1.100
poloneses, para mais tarde serem transportados aos campos de concentração
próximos. Todos eram acusados de disparar contra as tropas alemãs. Um oficial
comentou: 'As mulheres da Polônia lutam como tigres'. A pequena localidade de
Graszyn, vizinha de Czestochowa, que se dedica à fabricação de ladrilhos, foi
reduzida a cinzas. Segundo outro oficial, a população se rebelou depois da
entrada das unidades alemãs". O texto acima citado foi distribuído à imprenso mundial apenas
quatro dias depois de começada a Segunda Guerra Mundial. E demonstra que,
quase simultaneamente com a chegada das tropas alemães, começou a Resistência
nos setores ocupados. Mais até, a Resistência se iniciou no mesmo dia em que
a guerra começou. E teve início, indiscutivelmente, com o primeiro soldado
polonês que tirou o uniforme e escondeu o fuzil. |
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A Resistência na Polônia O General Bor Komorowski, figura chave na organização da Resistência
polaca, assim descreve o início do movimento: "Quando soube que devia ficar e elaborar um plano para a
organização do exército secreto da Resistência, tive que formular métodos
práticos para a execução desse plano. Nenhum de nós tinha a menor experiência
nesses assuntos... "As primeiras medidas consistiram em formar pequenos grupos
de civis e militares desmobilizados, unindo-os em células de cinco homens.
Cada um dos membros de uma célula podia conhecer somente seus quatro
companheiros. Por sua vez, cada um devia organizar um novo grupo de cinco
combatentes clandestinos". Dessa forma, a organização começou a crescer, sempre sob a
direção suprema de Bor Komorowski. Era proibido o uso dos verdadeiros nomes e
foram escolhidos diversos pseudônimos. As áreas de operações foram em seguida
divididas em setores, que ficaram cobertos por um, dois ou mais grupos.
Também foram nomeados comandantes de setor, que tinham sob suas ordens os
diferentes grupos. O passo seguinte consistiu em adestrar os homens no uso das
armas. Estas, polonesas e alemãs, eram desconhecidas para muitos dos
combatentes clandestinos, muitos deles adolescentes. Foram então organizadas
verdadeiras escolas militares, onde os homens se familiarizavam com o emprego
da arma curta, o fuzil e a metralhadora. Também os explosivos mereceram uma
especial atenção, visto que, indiscutivelmente, seriam intensamente
utilizados nas operações previstas. Bor Komorowski, na Cracóvia, organizou um estado-maior e
determinou os locais que serviriam de refúgios e centros de reuniões. Estes
últimos foram denominados com palavras em código, para evitar o risco
representado pelo envio de ordens escritas. Simultaneamente, as pessoas em
cujas casas se efetuavam as reuniões, desconheciam os homens que se reuniam,
não sabendo senão o dia e a senha convencionada. Além dos grupos de comando e os setores combatentes, precisaram
criar também serviços de inteligência, com o fim de antecipar-se às
atividades dos alemães e também informar-se acerca dos objetivos a serem atacados. As comunicações a longa distância, impossíveis de efetuar com
agentes, tornaram necessária a criação de uma rede de estações de telégrafo
sem fio, que permitiram o intercâmbio de informações e ordens em poucos
minutos. A imprensa polaca, por seu turno, suprimida radicalmente pelos
nazistas, foi substituído por boletins que, gradualmente, aumentaram o número
de suas páginas, até se converterem em verdadeiros jornais. Deve-se salientar
que os elementos necessários para a impressão foram levados, peça por peça, a
subterrâneos cavados especialmente e ali montados novamente. Os subterrâneos,
construídos geralmente no subsolo de casas vizinhas de fábricas, exigiram aos
homens da resistência esforços indescritíveis. A proximidade das fábricas,
logicamente, era necessária para atenuar o ruído produzido pelas máquinas
impressoras. A imprensa clandestina polonesa, além de imprimir boletins e
periódicos, contribuiu eficazmente para o treinamento dos combatentes da
resistência, imprimindo folhetos técnicos, a serem distribuídos entre os
homens, ensinando-os a manejar armas, elaborar granadas e a conhecer
rudimentos sobre estratégia. Os métodos e as técnicas de sabotagem As palavras de Bor Komorowski ilustram, fartamente, os métodos
empregados pelos combatentes clandestinos na sua luta contra os efetivos
nazistas: "Um exemplo do que era a organização durante o primeiro
período de ocupação, é a sabotagem com que atacamos os vias férreas. O número
de trens a serem sabotados em cada mês era determinado no QG de Varsóvia, num
programa mensal. Foi necessário organizar unidades especiais com esse fim.
Estudaram-se e imprimiram-se instruções com a colaboração dos maquinistas e
engenheiros das empresas ferroviárias. Somente os métodos que não delatavam
ser obra de sabotagem eram adotados, e gradualmente foram-se aprimorando com
a experiência. Em 1940, o período normal de incapacidade a que ficava sujeita
cada locomotiva danificada era de 14 horas; em 1942, esse período se alongara
a cinco dias; em 1943, a 14 dias. "Um produto químico especialmente preparado era adicionado
à graxa das máquinas. Em apenas 10 dias, nossos observadores em todas as
oficinas de manutenção do país relataram que aproximadamente 200 locomotivas
tiveram que ser retiradas do serviço, algumas por três dias, outras por três
meses, de acordo com a rapidez com que o maquinista 'percebia' que alguma
coisa não ia bem. Os alemães não tinham possibilidade de descobrir a causa
dessas imperfeições. Por quase três semanas, o tráfego ferroviário do país
esteve completamente desorganizado; numa dessas ocasiões, um grande número de
trens teve que ser recolhido às oficinas, e os atrasos, freqüentemente,
ultrapassavam 24 horas... "Vários trens carregados com gasolina seguiam essa rota
diariamente. Para sua destruição usávamos bombas incendiárias que nós mesmos
fabricávamos. Um depósito com uma carga explosiva era colocado sobre uma
alavanca pneumática; um simples impulso da mão sobre a alavanca era
suficiente para firmar a bomba embaixo do carro-tanque. Um dispositivo muito
primitivo servia para regular o tempo da explosão; esse dispositivo
funcionava impulsionado pelo movimento do trem ao deslizar sobre os trilhos.
Assim, podíamos regular a distância... o lugar da explosão. "No caso de transportes de minerais, o trabalho era ainda
mais simplificado. A tarefa de colocar um pequeno depósito com carga
explosiva entre os pedaços de mineral levados em caminhões abertos, era bem
fácil. A explosão geralmente ocorria quando o mineral descia pelos condutos
que o levavam aos fornos, danificando assim as instalações das usinas de
fundição. "Em todos os ramos de sabotagem e atividades subversivas, o
método definitivo e a iniciativa da execução ficavam normalmente a critério
daqueles que se encarregavam de levar a cabo o trabalho. O procedimento
correto somente podia ser decidido e adotado no lugar escolhido para a
operação, e com conhecimento exato das condições que prevaleceriam nela,
porém os homens que executavam a façanha nem sempre contavam com os meios
necessários para desempenhá-la. Por exemplo: no caso da sabotagem da reserva
de óleo lubrificante, nos informaram que o dano podia ser causado pelos
homens que trabalhavam no local em que eram despachados os abastecimentos.
Porém esses homens não possuíam as substâncias químicas requeridas para a
tarefa. Cabia, portanto, a nós, recorrer aos químicos da organização. Depois
de um mês de trabalho meticuloso, foram obtidos 100 quilos do produto
necessário, que foram escondidos num acondicionamento colocado embaixo de um
montão de carvão, junto com o qual chegou ao seu destino, onde foi
descarregado por homens inteirados do assunto". A respeito da produção de materiais de guerra, Komorowski diz o
seguinte: "... fôra mantido até então por vários centros que trabalhavam
separadamente. Agora resolvemos centralizá-los sob a supervisão de
especialistas. Essa supervisão foi confiada pelo QG a um engenheiro que ficou
diretamente sob minhas ordens. A operação completa se dividiu em duas partes
principais: produção de armamentos para o futuro, quando seriam empregados no
levante geral, e produção necessária para os necessidades do dia,
consistentes em operações de destruição e sabotagem. Ambos os centros se
mantinham em estreita cooperação e, por seus esforços conjuntos, muitos bons
resultados foram conseguidos. (Por exemplo, depois de um longo período de
estudos e experiências, conseguimos produzir pistolas automáticas e
lança-chamas). Enquanto os técnicos preparavam planos e métodos de produção,
eu ordenava a formulação de uma lista de matérias-primas requeridas, tomando
especialmente em consideração a demanda relacionada com as operações que se
efetuavam para minar o inimigo. Um grupo de cientistas trabalhava
exclusivamente na pesquisa de materiais que poderiam ser empregados em toda
classe de atividades de destruição e que melhores resultados produzissem em
cada caso". Os esforços dos técnicos e cientistas da resistência eram
freqüentemente neutralizados pelos alemães, que descobriam a forma de superar
a ameaça de um certo explosivo ou de um determinado artefato. Assim,
perdiam-se horas, dias e até meses de esforço. Foi o que aconteceu
precisamente com a chamada “bomba altimétrica”. Após um longo processo de investigação e ensaios, os homens da
Resistência conseguiram criar um engenhoso dispositivo. Era uma bomba, em
forma de cilindro alongado, que não permitia supor, pelo seu aspeto, o
verdadeiro fim ao qual se destinava. A bomba era colocada na cauda dos aviões
e, durante um tempo funcionou eficazmente, explodindo com a variação da altura,
isto é, com a pressão barométrica. Dessa forma foram destruídos dezoito
aviões alemães. Logo, no entanto, os nazistas adotaram rigorosas medidas de
vigilância em terra e a colocação de tais artefatos tornou-se impossível. A interrupção do tráfego ferroviário foi objeto de estudos
especiais. De fato, uma mina colocada numa determinada via, ocasionava a
paralisação do tráfego durante quatro ou cinco horas. Porém, freqüentemente,
era necessário que tal paralisação se prolongasse por dez ou doze dias. Conseqüentemente,
tiveram que ser idealizados novos métodos e técnicas. Foi então decidido
fazer o seguinte: na via principal, pela qual circularia o trem a ser
destruído em primeiro lugar, era colocada a carga explosiva. Simultaneamente,
nas vias vizinhas, por onde chegaria o trem de auxílio, se colocavam outras
cargas. Após o primeiro objetivo voar pelos ares, eram dinamitados também os
dois ou três trens de socorro que chegassem ao local. No caso de uma única
via, os explosivos eram disseminados ao longo de vários quilômetros;
ocasionando sucessivas explosões. Em qualquer dos casos, a interrupção se
prolongava além das poucas horas iniciais e se convertia em uma verdadeira
catástrofe. Uma das maiores dificuldades enfrentadas pelos homens do Resistência
era conseguir os elementos necessários para a fabricação de explosivos, como
o salitre, por exemplo. Por fim, a situação foi contornada, comprando
diretamente o vital elemento... dos alemães. De foto, as duas grandes
fábricas de fertilizantes de Chorzow e Moscice, que operavam sob controle
nazista, forneciam seu produto às grandes cooperativas agrárias e aos
agricultores. Bastou que cada um deles aumentasse ligeiramente as quantidades
adquiridas para que os homens da Resistência chegassem a dispor, rapidamente,
de grandes quantidades do elemento essencial. Passemos a palavra aos protagonistas dos episódios citados,
detalhando os duros trabalhos realizados para obter os tão necessários
explosivos: "O melhor produto explosivo com que poderíamos levar a cabo
nossas operações era o Cheddite. Para isso necessitávamos uma provisão de
cloreto de potássio muito difícil de obter. Havia apenas uma fábrica alemã
produtora dessa substância na Polônia, em Rodocha. Porém, os alemães sabiam
muito bem quão útil esse produto nos podia ser e tanto sua produção como a
venda eram regulados pelo mais estrito controle. Os intentos para
apoderar-nos de algumas quantidades desse produto em Radocha fracassaram
redondamente. Felizmente, a carga de dois vagões foi desfalcada pelos nossos,
enquanto viajava. Também um assalto a mão armada que efetuamos nos armazéns
mais importantes de Varsóvia nos deu oportunidade de conseguir um pouco mais
dessa substância. Os alemães trataram de pôr um fim a isso, ordenando às suas
firmas que reduzissem a armazenagem do cloreto ao mínimo. Apesar disso, os
trabalhadores poloneses da grande fábrica de fósforos de Blonie deram um
jeito para ir enchendo os depósitos da fábrica com quantidades extras de
cloreto de potássio... Em outro caso, o pessoal polaco de uma fábrica alemã
pediu uma grande quantidade da substância química, que teve de ser importada
do Reich; essa remessa também desapareceu. "Para a produção de outro
explosivo, nos apoderamos de 5.000 quilos de urotropina com a ajuda dos
fabricantes de produtos farmacêuticos de Varsóvia, Ludwig Spiess & Son, e
Drozdowicz & Cia., que eram nossos melhores fornecedores. "No produção de granadas de mão, minas, bombas e outros
artefatos era necessário utilizar diferentes substitutos. Por exemplo, 10.000
copos de baquelite foram comprados a fim de serem convertidos em granadas do
tipo "Filipinka". Para outro trabalho, tivemos que empregar os
depósitos de água das lâmpadas de acetileno, que, nessa época, eram de uso
generalizado na Polônia. Uma boa partida de chaveiros foi muito útil,
empregados como anéis de detonador nas granadas de mão e nas bombas. "Às vezes obtínhamos nossas matérias-primas e produtos
semi-elaborados, das fábricas controlados pelos alemães, porém a maior parte
de nossos produtos acabados vinha de oficinas que funcionavam sob licenças
legais, mas que faziam trabalhos ilegais... Assim, a fabricação de
submetralhadoras se escondia, em grande parte, na confecção de cadeados e
fechaduras comuns. As granadas de mão, popularmente conhecidas como
Sidolowki, porque tinham uma grande semelhança com os latas de graxa Sidol,
eram fabricadas no mesmo lugar onde se faziam as latas para a graxa. Os
lança-chamas eram confeccionados numa fábrica de extintores de incêndios.
"Muitos testes deviam ser feitos e isso era também motivo de risco,
especialmente se o teste era acompanhado de explosões e incêndios... Vejamos o caso do lança-chamas que se testou no próprio centro
de Varsóvia, em um dos lados da Praça do Teatro. Estava decidido que o teste
devia ser feito nas ruínas de umas casas, atrás da igreja de Santo Antônio,
cuja cripta e cúpulas eram um dos nossos depósitos de armas e materiais de
guerra. Antes que a prova se efetuasse, o encarregado da fabricação desse
tipo de lança-chamas que dirigiria a experiência avisou a estação de
bombeiros do edifício "Tom Hall" e visitou as autoridades
policiais. Explicou que era representante da "Motor Stock", fábrica
de extintores controlada pelos alemães, e os preveniu para que não se alarmassem
caso vissem chamas e fumaça, pois ele e seus empregados iam testar um novo
tipo de extintor perto da Praça do Teatro. “O lança-chamas funcionou com toda eficiência. As chamas
alcançaram uma altura de seis metros, e nem a polícia, nem os bombeiros, se
mexeram para investigar”. A guerra psicológica Paralelamente com a ação bélica ativa, os homens da Resistência
levaram a cabo uma intensa ação psicológica. Foi denominada pelo comando
"Ação Especial IV" e consistiu em ataques ao moral do inimigo. Uma dessas ações foi realizada no dia 1o de maio.
Nesse dia, as fábricas e oficinas receberam comunicações especiais do comando
alemão, determinando que as atividades deviam ser paralisadas por 24 horas. As ordens foram emitidas em papel que ostentava o emblema do
Departamento de Trabalho alemão e estavam redigidas em impecável estilo
alemão. Os comunicados foram enviados à última hora, um dia antes,
impossibilitando o comando alemão de descobrir a tempo o truque.
Conseqüentemente, apesar da intensa campanha que os alemães fizeram na noite
anterior, utilizando alto-falantes e outros meios de difusão, no dia 1o
de maio, as oficinas e as fábricas, em sua maioria, permaneceram praticamente
desertas. Um dia fôra perdida para a produção. Milhares de horas de trabalho,
irrecuperáveis, haviam sido ganhas pelos homens da Resistência, sem disparar
nem um só tiro, nem perder um só homem. Em outra ocasião, todos os residentes alemães de Varsóvia
receberam uma comunicação em papel oficial do Partido Nazista. Na nota, eram
informados que deviam estar, em determinada hora, na sede do Partido, levando
consigo certos alimentos que seriam meticulosamente consignados. A conseqüência imediata da ordem foi uma reunião maciça de
residentes alemães na sede do Partido. Paralelamente, centenas de alemães
tiveram que abandonar suas ocupações habituais para obedecer à convocação.
Por outro lado, as autoridades alemãs, prevendo a possibilidade de
infiltração de elementos guerrilheiros entre os alemães, ordenaram que todos
os presentes, em número de vários milhares, fossem minuciosamente
registrados. Em resumo, tempo perdido, trabalho não realizado e mobilização
totalmente inútil de efetivos alemães. "Foi para os maquis" - O que aconteceu com fulano? - Foi para os maquis... Após a ocupação do território da França pelos alemães, essa
troca de palavras era freqüente nos povoados e cidades. Homens, jovens
geralmente, dialogavam em segredo rapidamente. O tema, quase sempre, era o
antigo amigo que... "foi para os maquis"... Isso significava abandonar o lar e a família, desaparecer
legalmente do vida, aceitar as mil penúrias da vida errante, bastar-se a si
mesmo, lutar até a última gota de sangue e talvez morrer nas mãos das tropas
de ocupação ou frente a um pelotão de fuzilamento. Na França, os maquis se ocultavam, preferencialmente, nas zonas
montanhosas ou em bosques. Os grupos eram integrados por um número de homens
que oscilava entre dez e duzentos. Raramente mais. Estreitamente unidos entre
si, pelo sentido da sua luta e, também, por uma disciplina severíssima, esses
homens afrontavam todos os perigos da guerra, sem contar, paralelamente, com
as roupas, as armas e os víveres que normalmente abastecem o exército
regular; além disso, os homens sabiam que deveriam lutar sem a proteção das
leis internacionais e convênios que dão aos soldados regulares a
possibilidade de salvar a vida, após a captura. Ser maquis era, segundo as palavras de jornal clandestino que
circulava na França em meados de 1943: "... incorporar-se solenemente ao
exército da Resistência, decidir-se a arriscar a vida pela salvação do país,
sofrer na espera da luta pela libertação. "Ser maquis é dormir no chão duro, não comer todos os dias,
aceitar uma disciplina de ferro. Ser maquis é não sair mais. Relutante, reflita
bem antes de partir, pesa tuas responsabilidades, nós conhecemos as nossas.
Se vieres conosco, serás acolhido como um irmão, encontrarás entre nós um
ideal maravilhoso, digno dos verdadeiros combatentes: o de morrer na defeso
da pátria". Um correspondente britânico, lançado de pára-quedas num setor
dominado pelos maquis, relata assim suas experiências: "Chegar aos maquis não é coisa fácil. Longe dos povoados,
longe das estradas, é necessário escalar durante horas vertentes abruptas,
cruzar matas espessas, seguir atalhos imperceptíveis, sempre precedidos por
um guia. Entre outros refúgios, existia um, cavado na terra, guarnecido por
uns trinta homens. Todos muito jovens, refratários à desmobilização e à
S.T.O. (Serviço de Trabalho Obrigatório). Encontram-se ali, mescladas, todas
as classes sociais e todas as regiões da França. Três estudantes de Lilly,
operários das construções de Bordeaux, jovens camponeses do Languedoc,
marselheses, lorenenses, um oficial com culotes de montaria, jovens e
atléticos esportistas. Conjunto heterogêneo, imagem da França. Ao entrar,
tive minha atenção atraída por um imponente número de armas, todas dispostas
em ordem; os fuzis, obturados com pequenos tarugos de madeira; os cartuchos
nos carregadores; tudo preparado para ser utilizado em poucos instantes. Os
rapazes nos crivaram de perguntas: 'Quais as notícias do rádio?' 'Tem fumo?'
'Que nos traz de bom?' Perto do refúgio, uma enorme marmita colocada sobre
uma fogueira de lenha. As rações, segundo me explicaram, são de um quarto de
legumes secos por refeição e de um quilo de batatas, com pão e carne...
quando há. Quanto aos alimentos, 'vamos indo' me disse o cozinheiro, um rapaz
jovial e obeso, 'porque estamos em excelentes relações com os camponeses'.
Freqüentemente, foram eles acusados de avidez, de estarem para sempre
contaminadas pelo mercado negro. Nada é mais falso e injusto. Nos vendem de
tudo aos preços normais e de costume entre os camponeses. Às vezes, até nos
fazem presentes estranhos: toucinho, ovos, banha. E em todas as visitas que
lhes fazemos nos oferecem sempre uma merenda. Os caçadores nos fazem
participantes da sua caça, nos dão pescado e até nos confiam seus segredos. É
preciso também dizer: os camponeses nos ajudam e nós pagamos sempre pelo que
recebemos. Todos sobem que o roubo não é absolutamente proibido, mas que
respeitamos rigorosamente essa confiança. Procuraram fazer com que apareçamos
como bandidos, porém nossa presença, longe de atemorizá-los, os anima para a
resistência. Por nossa causa, reservam uma parte da colheita e retardam as
entregas... Evidentemente, existem alguns que têm medo. A segurança não é
nunca absoluto. Aqui não há lugar para os covardes. Para os demais há armas e
se tomamos a decisão de nos servir delas (e acredite que a tomamos) nossa
segurança está garantida. Além disso, sabe, temos cúmplices em todos os
lados. Depois, quem poderia atuar contra nós? Os gendarmes? A maioria é
composta de excelentes franceses e antes de nos entregar aos 'boches',
numerosos seriam os que viriam ser maquis, ao nosso lado, trazendo armas e
equipamentos. Quanto aos outros, se obedecem aos 'boches' e vêm nos
'aborrecer', saberemos sempre onde encontrá-los, e não estamos dispostos a
deixar nenhum prisioneiro impune. A respeito dos safados 'dedos duros' da milícia
e a alguns assalariados pelos 'boches', à primeira atitude da parte deles,
terríveis represálias hão de lhes tirar qualquer vontade de voltar a se
manifestar. Porque nós os conhecemos a todos, e sabemos onde dar o golpe...
". Os golpes de audácia Enumerar os golpes de audácia realizados pelos maquis seria uma
tarefa interminável. Impossível, também, por se carecer de um registro
orgânico das centenas de ataques e emboscadas protagonizados pelos elementos
da Resistência. Além disso, a estreita união que se estabeleceu entre os
revoltosos e os trabalhadores que desempenhavam suas tarefas nas fábricas
tornava impossível delimitar as atividades de uns e de outros, sendo muito
difícil saber a quem atribuir muitos dos episódios da Resistência, principalmente
com referência às atividades de sabotagem em fábricas e indústrias. Para descrever os aspectos característicos da incessante luta
travada pelos maquis, reproduziremos textualmente alguns informes tirados de
relatórios oficiais de Vichy: "Uma agressão à mão armada foi cometida durante a noite
de... em um depósito de armas situado na cidade de... "Entre três e três e meia da madrugada, três homens
mascarados irromperam no local e, revólver em punho, ordenaram ao guarda que
não desse o alarma, enquanto outros homens, igualmente mascarados, ficavam no
corredor, e mais outros, colocados nas imediações, vigiavam o Corpo de
Guarda. "G... foi levado para perto de um caminhão estacionado na
estrada e teve que assistir ao carregamento dos objetos e armas tirados do
negócio; um jovem, o único que não usava máscara, se apoderou também da
pistola, do guarda G... encarregado de assegurar a vigilância na porta de
entrado sul, do campo, enquanto que um último grupo de agressores se
encaminhou para o compartimento onde estavam depositadas as munições. Depois
de haver lançado mão de todas os reservas, e tê-las carregado num caminhão,
os assaltantes se dispersaram na noite. "Em número de trinta, os autores desse assalto eram todos
jovens de 20 a 25 anos, que falavam francês, dos quais, dois pelo menos,
utilizavam o dialeto da região. Durante o curso dessa operação foram
roubados: 225 fuzis curtos; 271 baionetas; 568 pistolas automáticas; 2
fuzis-metralhadoras; 17.000 cartuchos para fuzis; 2.000 cartuchos de FM; 1
forquilha de FM; 2 ganchos executores de FM; 8.180 cartuchos para pistola;
230 porta-fuzis; 70 cinturões; 4 culotes; 1 capote; 12 mantas. "O armazém principal de abastecimento da cidade de G... foi
assaltado nas seguintes circunstâncias: "Vários indivíduos mascarados,
em número de seis a oito, penetraram nos armazéns, revólver em punho;
obrigaram o pessoal encarregado do fichário dos bônus de racionamento, e ao
diretor do serviço, a reunir-se no recinto do público, enquanto outros
indivíduos se apoderavam dos fichários e despejavam o conteúdo dentro de umas
sacolas. "A operação durou cerca de dez minutos e, tendo-se
produzido nesse lapso uma interrupção na corrente elétrica, ninguém pôde
reconhecer os autores da agressão. Por outro lado, estes haviam cortado os
fios telefônicos à sua chegada, e avisaram o pessoal que seria inútil tentar
sair antes que passassem cinco minutos, estando todas as entradas dos
armazéns vigiadas até que eles fugissem. "O pessoal obedeceu a essa ordem. "Na noite de... um grupo de revoltosos, naturais da região,
fez descarrilhar um trem de munições perto de C... Dezessete vagões
explodiram, seiscentos metros do ferrovia foram danificados e o tráfego na
linha Paris-Lyon esteve interrompido por um tempo bastante prolongado. “É de notar que para evitar que um trem de passageiros se
chocasse contra o trem acidentado, os autores do descarrilhamento tiveram o
cuidado de fechar a via férrea. "Entre S... e T... acabava de ser desparafusado um trilho pelos
guerrilheiros, quando estes se inteiraram que, contrariamente ao que
esperavam, o primeiro trem que passaria seria um de passageiros;
imediatamente, os guerrilheiros tornaram a repor o trilho em condições e
fugiram. "No dia... guerrilheiros condenados a trabalhos forçados
foram libertados, durante sua transferência de R... para a casa central de
B..., nas seguintes circunstâncias: "Um de seus cúmplices se apresentou no estação de T...
fazendo-se passar pelo comissário D... Deu ordem aos gendarmes que acompanhavam
os presos, de interromper a viagem, pois seria perpetrado um suposto atentado
contra o trem que os transportava; depois, apontando uma caminhonete e dois
ônibus de turismo, estacionados na praça da estação, o suposto comissário
D... ordenou aos gendarmes que tomassem lugar com os prisioneiros. Os
guardas, nada desconfiando, pois um deles foi até chamado pelo nome pelo
comissário, não opuseram nenhuma dificuldade em obedecer às ordens. Subiram
aos carros onde já se encontravam alguns falsos policiais; quando deixaram
para trás os arredores do cidade, foram cloroformizados e abandonados em um
bosque". Os campos de resistência Um coronel britânico que compartilhou da vida dos maquis relata
alguns acontecimentos que presenciou: "Depois da aldeia foi necessário
caminhar ainda duas horas ou mais. As folhas tardaram a cair nesse ano, de
modo que os bosques conservavam uma palpitante profundidade. De noite, era
mais difícil avançar. "Bruscamente, descobrimos o campo. Em redor,
homens estranhamente vestidos. Uma cozinha coberta de zinco, perto da qual
estava pendurada uma vaca esquartejada. Uma tina fervia sobre três pedras.
Esse campo era alguma coisa intermediária entre um acantonamento militar e um
acampamento de boêmios, porém um ar puro e um pouco embriagador emanava dele. "Ali se contava, ali se dizia tudo o que era proibido dizer
e cantar em outros lugares. Não existia outra regra além da própria honra;
era um momento em que se agradecia ter uma tradição. "Com renovado orgulho, os homens se reuniram e reconheceram
que aquilo que acontecia no país, mais que uma opressão, era uma humilhação;
ser ultrajados durante anos pelos desfiles debaixo de suas janelas, pelo
perpétuo insulto constituído pela ‘sua’ força e ‘sua’ alegria. Ali estavam
num rincão de terra francesa; era alguma coisa ter uma arma na mão. A
bandeira tremulava no mastro. Eram terroristas, como dizia Vichy, terroristas
à sombra do pavilhão tricolor. "Quando eram interrogados sobre por que estavam ali, a
resposta chegava, às vezes, lentamente, porém era sempre a mesma. Na verdade,
sua decisão não era motivo de preocupação; a única coisa que os preocupava
era não partir; ir à Alemanha era uma vergonha que, por razões de caráter,
não podiam suportar, como uma humilhação para sua honra; recusavam por
instinto. "A respeito desse heroísmo, podemos meditar sobre a página
admirável em que Junger, à frente de um grupo de prisioneiros franceses
custodiados por uma sentinela, toma a resolução de jamais se render, porque
toda rendição abala o ser humano no que tem de mais profundo. "Com esse ‘não’ nos transportamos além da política do
momento; à única possibilidade deixada à energia francesa para se livrar do
pesadelo das derrotas, à única forma de preservar, psicologicamente e
fisiologicamente falando, a faculdade de dispor dos atos libertadores do
porvir. Esse ‘não’ palpitava em cada um deles, e sei, agora, estava latente
em todos os companheiros; a negativa de se deixar vencer para sempre pela
rendição, constituía, no mais alto grou, um ato de pedagogia prática. "O
ato era valioso por si mesmo. Contudo, aqueles campos ainda lhe emprestavam
um outro significado: ali, os negativos conduziam a um só fim, a pátria, que
lhes conferia dimensão nacional. Aparentemente, esse espírito estava disseminado
em todos os campos: naqueles, compostos por insubmissos aos S.T.O., jovens
entre 20 e 22 anos; em outros, com insurretos de mais idade, voluntários de
todos os tipos. Aqui, um vendeiro, ali um mocinho de 17 anos, orgulhoso pela
grande Cruz de Lorena que luzia em seu uniforme. É preciso, contudo, não nos
iludirmos; os campos foram, na ocasião, o receptáculo de uma juventude que
fugia da deportação. Viam-se, então, em alguns pontos, campos repletos, porém
desordenados e precários; depois, os que foram para a montanha, só paro se
esconder, desistiram para não ter que suportar o inverno. A massa dos
revoltosos não estava nos campos, mas nos maquis. Nos campos já não era
possível encontrar revoltosos, mas sim voluntários; a distância que separa as
duas palavras significa uma evolução de seis meses. "Privados de todas as comodidades do mundo, viviam em
barracas, cegos pela fumaça, com um pouco de feno para dormir e algumas vezes
nada. Comiam os alimentos tal como lhes chegavam... Vestiam uma roupa
precária, jaqueta e calças rasgadas, às vezes, sem sapatos. Se se pensar nas
dificuldades que uma família encontra para alimentar-se, preservar-se do
frio, ter um teto, compreenderemos as necessidades a serem vencidas quando se
trata de centenas e centenas de homens que vivem em completa ilegalidade,
pois não têm direito a nada, nem sequer a um pedaço de pão. Na verdade,
jamais soldados franceses conheceram miséria igual. E se, por uma razão que
não conhecemos, os campos não desempenharam nenhum papel importante no
aniquilamento da Alemanha, terão pelo menos escrito uma página épica na
história. "Homens jovens (o chefe raramente tinha mais de 25 anos),
crianças, às vezes, eram, no entanto, homens grandiosos. Não posso deixar de
lembrar aqui uma série de retratos que um dia serão descritos: aquele paisano
taciturno, de boina enterrado até às orelhas, aquele oficial jovial e
resmungão, aquele aventureiro, capitão na China, tenente na Espanha, pois
estava onde quer que se estivesse lutando por uma causa justa, aquele rapaz
de Saint-Cyr, de rosto grave e impassível... Uma mesma vontade os unia, fruto
de um mesmo sofrimento... Exército aparentemente heterogêneo, porém mais que
qualquer outra disciplina, perseguições e sofrimentos comuns uniam seus
elementos..." As armas da Resistência Vejamos como Bor Komorowski descreve o envio de armas e
abastecimentos do exterior, destinados aos grupos combatentes da Resistência
polonesa: "A princípio, o único recurso com que contávamos para nos
abastecermos de armas eram os depósitos que alguns particulares haviam
enterrado depois da campanha de setembro de 1939. Algumas dessas armas,
apesar dos precauções tomadas, estavam estragadas, corroídas pela umidade. E
o pior, é que o tipo de armas nem sempre se adaptava às necessidades e
métodos da nossa arte de guerra. "A Polônia, que se estendia na extremidade do área de vôo
da aviação inglesa, era um dos países aliados que se encontrava mais afastado
da Inglaterra. Tínhamos sérias dúvidas acerca das possibilidades de receber
armamentos pelo ar. "A primeira tentativa para o lançamento de um pára-quedista
com uma carga de armas, explosivos e dinheiro foi projetado para o dia 20 de
dezembro de 1940. O pessoal estava já pronto em seus postos dentro do avião,
quando se chegou à conclusão de que os tanques não poderiam carregar a
quantidade necessária de combustível para voar até à Polônia e regressar. A
segunda tentativa de vôo até à Polônia foi fixada para 15 de fevereiro de
1941. Os pára-quedistas e os abastecimentos deviam ser lançados no distrito de
Cracóvia, quando eu era comandante nessa cidade. Um destacamento especial foi
designado para receber os ingleses no lugar e na hora indicados. "Na tarde de 15 de fevereiro recebi o aviso de que o vôo
teria lugar naquela noite e de que Londres já dera o primeiro sinal. Nada
aconteceu. Dias mais tarde, os alemães espalharam proclamações nas ruas, em
todas as cidades do país, oferecendo uma boa recompensa a quem os ajudasse a
localizar três perigosos criminosos. "Alguns dias depois, os perigosos criminosos procuraram
nossa organização em Varsóvia. Os pára-quedistas haviam saltado, porém não
sobre território polonês. Haviam caído nos domínios do Reich. Contudo, o
lugar em que caíram estava somente a uns 100 quilômetros da fronteira
polonesa e por sorte encontraram poloneses que lhes prestaram ajuda de
emergência. Conseguiram cruzar a fronteira. A remessa dos armas,
desgraçadamente, fôra perdida. "A fim de apreciar claramente as enormes dificuldades que
tinham que passar todos os que se lançavam a essa aventura, lembraremos que
nos encontrávamos separados da Inglaterra pela grande barreira que formavam o
Reich e o Mar do Norte. E além disso, a ameaça da artilharia antiaérea e dos
caças alemães. Também, os bombardeiros que nos traziam homens e armas teriam
outro obstáculo a vencer: o tempo. Os aviões podiam decolar da Inglaterra
somente quando o tempo fosse favorável ali, sobre o Mar do Norte e através da
rota de 1.000 milhas para chegar à Polônia. "Outro ponto que requeria cuidadosa atenção era o de
estabelecer uma forma de comunicação entre os homens que se lançavam de
pára-quedas e os que estavam em terra, esperando-os. Era essencial colocar
sinais fáceis de serem distinguidos, antes que se realizasse cada uma destas
operações. Nas circunstâncias que atravessávamos, o remoção de armas de um
lugar paro outro apresentava consideráveis dificuldades. O ponto de recepção
teve, portanto, que ser selecionado com muito cuidado, tomando em
consideração tanto nossas necessidades imediatas como as do combate futuro.
De tempos em tempos, enviávamos a Londres por meio de um dos nossos correios,
um mapa preciso em que eram indicados os lugares exatos que havíamos
selecionado para receber os pára-quedistas ingleses, os sinais que se
usariam, o tipo de documentos de identificação que os pára-quedistas deveriam
portar e as instruções detalhadas para levar a cabo a operação. Na
Inglaterra, um centro especial de treinamento havia sido estabelecido com o
propósito de instruir pára-quedistas. "No dia em que um avião saía da Inglaterra rumo à Polônia,
a BBC de Londres encerrava a sua emissão em polonês com uma melodia
previamente escolhida. Isto servia como aviso para que um certo grupo de
recepção esperasse a chegada dos abastecimentos que seriam lançados por um
avião inglês num lugar determinado, naquela mesma noite. De acordo com o
plano, a unidade de recepção se reunia no lugar previsto. Todos iam bem
armados; quando o avião se aproximava, faziam sinais com luzes, indicando a
direção do vento. Ao mesmo tempo, com luzes, indicavam uma determinada letra
já combinada, à guisa de contra-senha. Do avião, com os faróis, respondiam-se
aos sinais combinados. Eram então atirados os fardos com a ajuda enviada, de
muito pouca altura, e com muita precisão. Anexo “Wawer” "Não havia nada
que os alemães desejassem tanto, como explorar ao máximo o seu poder sobre o
fraco; e não havia nada que os pusesse tão furiosos como uma brincadeira
pública às suas custas. Retrucar ao seu sistema de terror com uma brincadeira
era bastante para enfurecê-los. Ridicularizá-los era nossa mais importante
missão na guerra psicológica. Tínhamos até uma dependência especial no
exército para se encarregar desse assunto. Esse setor era constituído em sua
maior parte por escoteiros (boy scouts) e tinha o nome chave de "Wawer".
Uma das brincadeiras mais engraçadas da "Wawer" ocorreu no inverno
de 1942. No coração de Varsóvia, se erguia a estátua de Copérnico, do
escultor dinamarquês Thorwaldsen. Na base do monumento havia uma placa com a
inscrição: ‘A Copérnico. de seus compatriotas’. Os alemães a arrancaram e em
seu lugar puseram outra que dizia: ‘Ao Grande Astrônomo Alemão’. Bem perto da
estátua havia uma delegacia de polícia. Um dia, um grupo de trabalhadores, de
macacões, e com suas ferramentas, se aproximaram da estátua. Com grande calma
e despreocupação, arrancaram a placa que os alemães haviam colocado e a
levaram. "Três semanas
passaram antes que as autoridades alemãs notassem que a placa fôra retirada.
Então apareceu um aviso assinado pelo governador alemão. Era redigido no
costumeiro estilo pomposo e dizia: ‘Recentemente,
elementos criminosos arrancaram a placa que havia sido fixada ao pé da
estátua de Copérnico, por razões políticas. Em represália, ordenei retirar o
monumento de Kilinski. Ao mesmo tempo, faço advertência clara de que, se atos
como o presente voltarem a repetir-se, ordenarei a suspensão de todas as
rações para a população polonesa de Varsóvia durante uma semana. (Assinado) Fischer,
Governador de Varsóvia’. "Kilinski fôra um
sapateiro, que deixou seu humilde trabalho para converter-se em líder popular
durante o sítio da cidade pelos invasores russos no ano de 1794, e sempre
havia sido um líder popular entre os operários de Varsóvia. Alguns dias mais
tarde, sua estátua foi arrancada do pedestal e posta, temporariamente, nos
subterrâneos do Museu Nacional. No dia seguinte, os que passaram diante do
Museu, viram uma inscrição, pintada a pixe sobre os alvos muros, dizendo: ‘Povo de Varsóvia,
aqui estou. (Assinado) Jan Kilinski’. Uma semana mais tarde,
os murais de avisos ostentavam um novo proclama, idêntico em formato ao de
Fischer. E o texto era: ‘Recentemente,
elementos criminosos retiraram o monumento de Kilinski por razões políticas.
Em represália, ordenei o prolongamento do inverno na frente oriental por mais
dois meses. (Assinado) Nicolau
Copérnico’. "Por estranho que
pareça, o inverno aquele ano durou muito mais do normal e foi causa dos
alemães não poderem realizar seus planos para uma ofensiva de primavera na
frente oriental. Bor Komorowski”
(História de um Exército Secreto) Dante Di Nanni Na noite de 16 de maio
de 1944, Dante Di Nanni havia participado, com alguns companheiros, no
assalto a uma estação de rádio da localidade de Barca, na periferia de Turim.
Os nove carabineiros que guardavam o local foram desarmados e o edifício
dinamitado. Quando se retiravam, foram surpreendidos por uma patrulha alemã,
e Dante Di Nanni foi gravemente ferido numa perna. Seus companheiros o
transportaram para um quarto no segundo andar do edifício n° 14 da Rua San
Bernardino. Como Di Nanni piorava minuto a minuto, chamaram um médico, que
lhe extraiu da perna um enorme estilhaço de granada. Poucos minutos depois da
visita do médico, uma patrulha de soldados fascistas atacou a casa. Dante pertencia ao GAP
(Grupo de Ação Partidária), pequeno conjunto de Resistência que operava na
cidade de Turim, e tinha 18 anos. Aos soldados fascistas se juntaram alguns
alemães, de maneira que os atacantes formaram um grupo de uns cem homens. Di Nanni estava só
quando o ataque se produziu, armado com uma metralhadora e algumas bombas de
mão. Correndo continuamente entre a porta que dava para a escada e o balcão
do primeiro andar, disparava rajadas de munição ou lançava suas bombas. Alemães e fascistas
não se atreviam a lançar-se em massa para tomar o edifício, pensando que
estava ocupado por dezenas de partisans. Alguns vizinhos
pensaram que se tratava de um louco e chamaram os bombeiros. Ao vê-los
chegar, Nanni gritou para eles: "Vão-se embora! Não sou louco, sou um
partisan e não é contra vocês que combato. Vão-se embora!" O combate
durou cerca de quatro horas, isto é, até que o partisan esgotou suas bombas e
munições. Então, ante a surpresa dos atacantes que suspenderam o fogo,
apareceu uma figura pálida e coberta de sangue no balcão do segundo andar:
era Di Nanni que, com um grito de "Viva a Itália!", se lançou ao
vazio. As forças atacantes
haviam deixado, no transcorrer da luta, trinta mortos. Carlo Di Stefani, um
alfaiate da Rua San Bernardino, recorda o acontecimento, 23 anos mais tarde:
"Há 29 anos que trabalho aqui, na Rua San Bernardino. Agora resido no n°
22. A casa onde ocorreu o fato era a 14. Recordo que naquela manhã estive
trabalhando e, perto das nove horas, ouvi o primeiro estampido, provocado,
seguramente, por uma bomba de mão. Pensando que alguma coisa estava
acontecendo lembrei logo que meus filhos estavam brincando na porta. Ao sair,
vi militares armados, que entravam no número 14. Um deles estava ferido e
sangrava. "Peguei meus
filhos, entrei em minha casa e tranquei a porta. Quando os soldados subiam a
escada, voltei a ouvir outra explosão. Enquanto isso, ia juntando gente. Na
casa entraram uns trinta soldados, entre fascistas e alemães, e na frente do
número 14 estava parado um carro de assalto com metralhadora. Os disparos
eram ouvidos alternados com as explosões das bombas de mão. Várias vezes, os
soldados procuraram chegar ao segundo andar, porém sempre eram rechaçados
pelo fogo dos sitiados. "Eu quis voltar a
trabalhar, porém as explosões e o vaivém dos soldados me impediam. Não
compreendia como uma batalha podia durar tanto; como cem homens não podiam
com alguns defensores que não deviam ser muitos; não entendia a coragem dos
sitiados que se defendiam como leões. Seguidamente, eram ouvidas ordens de
ataque e de retirada em alemão e italiano. E passou do meio-dia; passou uma
hora; passaram as duas... "De súbito não
ouvimos mais disparos. Assomei à janela e vi que diante do portão do número
14 jazia um corpo ensangüentado. Era o corpo de um rapaz, frágil e pálido,
coberto inteiramente de sangue. Parecia impossível que toda aquela batalha
tivesse sido suportada unicamente por ele. O rapaz estava nos últimos
espasmos da agonia. Os milicianos fascistas lhe davam ponta-pés, quando um
oficial alemão, afastando violentamente os italianos, exclamou: ‘Se todos os
partisans forem como este, da outra vez necessitaremos uma divisão'. E
sacando sua pistola disparou no agonizante o tiro de misericórdia. Depois se
perfilou, fez continência militar ao cadáver e ordenou aos seus homens que
apresentassem armas." “Partisans” alemães? Embora não fosse muito
freqüente, houve alguns casos de soldados e oficiais alemães pedirem para ser
admitidos nas fileiras dos partisans. Rudolf Jacobs, Capitão
de Marinha alemã, havia sido agricultor durante a vida civil, na zona de
Hamburgo. Desde muito jovem tornou-se notório o seu antinazismo. Em 1944,
tinha 39 anos. Após discutir o problema com sua esposa solicitou sua
transferência para a Itália, com a idéia secreta de unir-se aos partisans. Ao
apresentar-se aos chefes da Resistência declarou: "Não posso ser por
mais tempo cúmplice dos delitos do nazismo, e estou disposto a morrer
voluntariamente para abreviar mesmo que seja por um dia, esta horrível
guerra..." Integrando a brigada
"Ugo Muccini" realizou diversas e felizes missões, até que, a 3 de
novembro de 1944, morreu durante o assalto a um quartel da "Brigada
Negra". O Conselho Comunal de Sarzana lhe concedeu a cidadania
honorária, e colocou uma placa comemorativa na praça São Jorge, na cidade. Outro caso foi o de
Hans, um subtenente das SS, de vinte anos. Certo dia, quando trocava o
pneumático de um veículo, foi feito prisioneiro pelos partisans, perto do
povoado de Salere, na estrada Nice-Asti. Junto com Hans, os captores
aprisionaram dez homens mais. Giuseppe Berta "Moretto", chefe dos
partisans, decidiu oferecer aos alemães uma troca de prisioneiros, que eles
aceitaram. No momento de efetuar-se a troca, Hans disse que preferia ficar
com os partisans. E foi assim que ingressou no grupo do seu captor
"Moretto" junto ao qual realizou notáveis atos de sabotagem. "Maquis" O caminhão, um velho
Citroën, se deteve um pouco além da bomba de gasolina. Chovera, e o caminho
estava enlameado, porém, contrastando, as árvores apresentavam um verde puro,
fresco e limpo. O veículo não se
deteve muito tempo, ou melhor, quase se podia dizer que o veículo nem chegou
a parar de todo. Diminuiu a marcha ao mínimo, e dois homens desceram. Quando
partiu, os homens saíram do caminho e se internaram no bosque. Quase não
falavam. Tinham os sapatos e as calças ensopados pela folhagem molhada. Não
entraram na aldeia e tiveram que fazer uma larga volta para evitá-la. Depois
da aldeia foi necessário caminhar umas duas horas ou mais. Embora o outono
estivesse bem avançado, as folhas estavam caindo tarde aquele ano e a
espessura era cerrada; os homens caminhavam sem ser vistos. E era evidente
que conheciam bem o terreno que pisavam. Pouco a pouco começou a escurecer, e
a marcha, à medida que a noite caía, se tornava mais difícil. Um dos homens
acendeu uma lanterna, somente por alguns instantes. De noite, uma luz, por
pequena que seja, é um luxo muito perigoso para os que combatiam Vichy.
Subitamente, apareceu o campo. Estava tão bem dissimulado que uma casualidade
podia descobri-lo a qualquer momento. Assim, de noite, era
um lugar bastante estranho. No centro, um caldeirão enorme fervia sobre três
pedras. Pelos reflexos, entrevia-se uma precária construção coberta de zinco,
do qual balançavam partes de uma vaca, recentemente abatida. Havia um homem seminu,
lavando o rosto, e mais além, outro, limpando um fuzil. A medida que os olhos
se foram acostumando, puderam distinguir mais coisas, por exemplo, algumas
tendas. - Verdum - murmurou um
dos homens... - Sim, adiante -
respondeu o que lavava o rosto. - Não há sentinelas?... - Hoje, não! -
respondeu, brincalhão, o outro - sabíamos que vocês viriam e então
suspendemos a guarda. Assim recebemos os amigos! Os dois homens riram.
O campo era alguma coisa intermediária entre um acampamento militar e um de
boêmios errantes. Os maquis eram assim mesmo, não tinham um termo exato para
defini-los, possuíam um estilo muito pessoal, que os unia, superando
desinteligências políticas, religiosas ou raciais. Sidi, era um anarquista
argelino; Roy, um católico de esquerda; Pierre, um marxista; Claude,
simplesmente um aventureiro, que, segundo suas palavras, "apenas queria
se divertir um pouco"; Jacques, um monarquista. Os homens
"adotavam o maquis" por várias razões: por patriotismo, por não
querer ir trabalhar na Alemanha, por problemas que não tinham muito que ver
com a ocupação, mas sim com a liberdade. Michel, por exemplo, havia lutado
com um miliciano tão bêbado como ele e o havia morto, afinal. O acampamento
era uma das muitas lacunas da França ocupada. Ali se viviam os grandes
momentos. Celebravam-se vitórias, choravam-se os mortos, planejavam-se
"golpes de mão", cantava-se ou costurava-se a roupa. Em geral, os
guerrilheiros da Cruz de Lorena tinham necessariamente que viver o momento
presente. Do contrário a existência se tornaria impossível. Assim, eram
tensos, violentos e cruéis no combate, amáveis, alegres ou melancólicos nos
poucos momentos de descanso. A angústia do combate terminava com o combate;
esta era uma premissa tacitamente aceita. Também, as possibilidades da
Resistência eram assaltos rápidos, que aumentavam vertiginosamente à medida
que as tropas aliadas desalojavam os alemães. Quanto tempo viveriam
assim? Ninguém sabia e nem perguntava. Apesar do perigo, viviam um momento
idílico. Talvez, depois da guerra, quando se restabelecesse a normalidade,
cada um poderia voltar às suas idéias e até lutar entre si. Michel desejava
viajar, se não morresse antes. Sidi queria voltar à Argélia, para "lutar
contra os franceses" porque, como costumava dizer, "tenho a tez
escura, os franceses não me consideram francês e os argelinos não me
consideram argelino". Então, Sidi, meio árabe e meio gaulês, voltaria a
sentir frio, fome e angústia, para lutar contra uma nação que nesse momento
defendia, pela liberdade de uma outra. Algumas vozes, no
acampamento, começaram a cantar. Entoavam velhas melodias, nascidas nos
boulevares de Paris no princípio do século, e que haviam conhecido a glória e
a amargura da França. Os dois homens que
haviam saltado do caminhão, um pouco depois da bomba de gasolina, umas quatro
horas antes, perguntaram: - Não é arriscado
cantar a esta hora? - Bom - respondeu Roy
- na verdade, estamos todos os dias nos arriscando a morrer, não é mesmo?
Então não tem importância que de vez em quando a gente se arrisque a viver um
pouco... Decálogo de um
"Maquis" 1o) Todo
homem que solicita admissão no maquis da Resistência Unida, não é somente um
refratário à mobilização alemã, mas também um franco atirador voluntário e um
auxiliar do exército secreto das Forças Francesas Combatentes, comandadas
pelo General De Gaulle e pelo "Comité National Français". 2o) Aceita
submeter-se à severíssima disciplina do maquis e obedecer sem discussão a
todas as ordens que receber do chefe. 3o)
Renuncia, até o fim da guerra, a comunicar-se com sua família ou seus amigos.
Guardará segredo absoluto sobre a distribuição dos refúgios, a identidade dos
seus chefes e companheiros. Sabe que qualquer infração desta proibição será
punida com pena de morte. 4o) Declara
compreender que nenhuma ajuda especial pode ser proporcionada à sua família,
sem submetê-la aos ciúmes e denúncias dos vizinhos. 5o) Sabe
que não pode ser feita nenhuma promessa de salário regular, que sua
subsistência e até seus armamentos são inseguros. Declara compreender que a
menor coisa obtenha, não foi conseguida senão por um esforço constante, ao
preço de enormes dificuldades e de perigos extremos para todos os quadros
superiores e órgãos de ligação. Respeitará a propriedade privada e a vida dos
cidadãos franceses, aliados ou neutros, não só porque a existência do maquis
depende da sua boa harmonia com a população, mas também porque os homens do
maquis são o que há de melhor no país e devem dar a todos o exemplo e a prova
de que a coragem e a honestidade marcham juntas no espírito dos verdadeiros
franceses. 6o) A
alimentação e o vestuário dos maquis podem nos obrigar a ordenar operações de
pilhagem nos armazéns das forças de polícia de Vichy, ou até de seus
depósitos, das reservas de víveres ou de vestuário do "Secours
National" ou dos prisioneiros. Esses assaltos, que serão limitados ao
indispensável, para que seja assegurada a todo preço a subsistência dos
refratários, serão executados por homens de classe, escolhidos com cuidado
muito particular com relação ao seu alto valor moral. Assim que o armamento
permitir, essas operações se realizarão exclusivamente sobre as reservas do
exército de ocupação. 7o)
Naturalmente, não se realizará nenhuma distinção de credo religioso ou de opinião
política, no que concerne à adesão dos candidatos. Católicos, protestantes,
muçulmanos, judeus ou ateus, monarquistas, radicais, socialistas ou
comunistas, todos os franceses que desejarem lutar contra o "inimigo
comum" são bem-vindos entre nós. Não somente o homem do
maquis respeitará as crenças e as opiniões dos seus companheiros, mas também
deve ser para eles um amigo abnegado, um irmão de armas; a salvação de todos
depende deles, e somente uma boa camaradagem tornará a vida suportável nos
refúgios da Resistência. Todos deverão esquecer seus costumes, seu egoísmo e
até seus gostos; sacrificar-se por um companheiro, tomar seu lugar na labuta
quando estiver cansado, em perigo, em todos os casos, são as menores virtudes
que se podem exigir de homens colocados na nossa situação. Um ferido jamais
deverá ser abandonado. Os cadáveres deverão ser transportados e enterrados,
cada vez que isso for humanamente possível. 8o) O
voluntário do maquis não será armado senão quando sua resistência, seu
treinamento, e sua disciplina o tornarem digno de receber uma de nossas
armas, muito poucas, e em conseqüência, muito preciosas. Deverá cuidar dela
carinhosamente, conservá-la escrupulosamente limpa, levá-la sempre consigo,
salvo se tiver que confiá-la ao armeiro do campo. Toda perda de arma
será punida com a morte. Esta sanção é severa, porém indispensável para a
salvação de todos. 9o) O
voluntário conservará seus pertences e seu corpo tão limpos como possível; a
saúde física e moral depende disso; é indispensável para a salvação da nação. 10o) Todo
homem do maquis é um inimigo do Marechal Pétain e dos traidores que obedecem
a ele. Resistência Francesa Philippe de Crevoisier
de Vomécourt, escritor francês educado na Inglaterra, participou na Resistência
desde seus primeiros momentos. De seu livro Who lived to See the Day, editado
em Londres pela Editorial Hutchinson, reproduzimos um fragmento referente às
primeiras, e em muitos casos ingênuas, formas de "resistência" na
cidade de Paris. "A fama da
resistência francesa não deve morrer e não morrerá" - as palavras de De
Gaulle criava nos ingleses a idéia de que uma resistência organizada em solo
francês com atos de sabotagem, não serviria para outra coisa senão provocar
represálias. Os franceses livres não podiam se limitar a isso, necessitavam
demonstrar aos alemães que a guerra com eles não havia terminado. "As primeiras
tentativas foram naturalmente diletantes e ingênuas. Por exemplo, aquela
velha senhora de 78 anos, que trabalhava no metrô de Paris. Ficava sentada
num banquinho ao lado da porta do vagão e cada vez que um oficial alemão
subia, fazia-o tropeçar em sua bengala. Eram trinta ou quarenta vezes por dia
que es conquistadores caíam de pernas para o ar. "Nos banhos
públicos apareceram uns cartõezinhos escritos a mão, que informavam aos
cidadãos sobre a melhor maneira de inutilizar os veículos alemães, colocando
açúcar nos tanques de gasolina. "Houve um menino que costumava
introduzir-se nos vestíbulos dos cafés freqüentados pelos oficiais da
Luftwaffe e, longe das vistas de todos, tirava os espadins que estavam
pendurados junto aos capotes, nos cabides, e lhes quebrava as lâminas. "O marquês de
Mousrier, um velho patrício do leste, que possuía minas na França e na
Bélgica, fez voar pelos ares um dos seus poços. O gesto lhe custou quatro
milhões de francos, uma boa soma de dinheiro para a época, porém, em
compensação os alemães não puderam retirar mineral do poço. "Outras
atividades saíram bastante caras, como a bravata de cinco mocinhos de Nantes,
que cortaram os fios telegráficos e telefônicos do norte da cidade, para
aborrecer os alemães. Eles não consideraram a inutilidade do seu ato; porque
os invasores continuavam comunicando-se pelas linhas do sul ou pelas da
cidade vizinha; além disso, o inconveniente foi facilmente reparado. Porém,
os cinco mocinhos foram presos e passados pelas armas. "Um dos fatores
que mais ativamente contribuíram para organizar centros de resistência foi a
reação popular à tentativa dos alemães de criar grupos e movimentos políticos
favoráveis a eles. Uma propaganda maciça através do rádio, dos jornais, etc.,
foi lançada para desorientar o espírito da massa e inculcar-lhe a teoria e o
programa do regime nazista. A oposição não tardou a aparecer de forma
concreta, numa série de movimentos clandestinos, com nomes combativos, como:
“Liberdade”, “Libertação”, “O Franco-atirador”, “O galo acorrentado” (o galo
é o símbolo representativo do povo francês) e “Combate”. Eram na realidade,
reuniões de franceses que elaboravam e discutiam a melhor maneira de salvar o
país de uma total submissão. Em seu estado embrionário, esses grupos
almejavam por uma resistência, porém não ainda em forma de atividade militar
organizada". "Lulu" Louis Chabat, mais
conhecido como "Lulu", era francês e combatera com os maquis na
zona de Grenoble. Ao ser preso, a 8 de setembro de 1943, foi remetido à
prisão de Fossano, no Piamonte. Algum tempo mais tarde, em companhia de
outros, fugiu para unir-se ao grupo de Resistência italiano que operava na região
de Mondovi e Alba. Comandando dez homens, assaltou arsenais, descarrilhou
trens e, para coroar sua trajetória, voltou ao cárcere de Fossano, onde, com
um golpe de audácia, libertou a todos. "Lulu" costumava vestir-se
com uniformes de oficiais fascistas ou alemães, para facilitar seus atos de
sabotagem. No dia 9 de fevereiro de 1945, foi morto por outro grupo de
partisans, que o confundiu com um inimigo emboscado. Combater com papai "Chamo-me
Fiumberto Borelli. Em setembro de 1943, não havia completado ainda doze anos
e mal terminara de cursar o quinto ano. Nasci, e minha família viveu sempre
na praça Cappella de Cangiani, que fica ao norte da cidade, sobre a colina de
Camaldoni. "No dia 23 de
setembro, enquanto uma longa fila de caminhões alemães se afastava da cidade,
vi minha mãe chorando e Vicente, meu pai, armado com uma metralhadora de mão.
Quando se aproximou para despedir-se de mim, saltei no colo dele e perguntei:
- Papai, posso ir com você? "Meu pai, que era chefe do bando de
partisans que operava na zona de Camaldoni, sorriu, me acariciou, pensou um
pouco, e me dando uma palmada carinhosa, disse: - Bem, vem comigo. ``Meu pai e os seus
homens acampavam em um pequeno desfiladeiro que dominava a entrada de
Orsolone. Era o esconderijo ideal. Eu ficava de vigia e avisava
apressadamente quando notava movimentos de soldados. No dia 27, na rua do
hospital sanitário ‘Príncipe do Piamonte’, vi alguns alemães prendendo dois
meninos, filhos de partisans. "Corri
velozmente, e emiti um assobio agudo pondo dois dedos dentro da boca. Era o
sinal; meu pai e os companheiros dispararam suas metralhadoras e os alemães
fugiram. "Outra vez, ainda
dentro da minha nova profissão de vigia, vi soldados alemães saltando de um
caminhão e começando a colocar cargas de explosivos para dinamitar a ponte
Caracciolo. Não dava tempo de avisar meu pai; me sentia muito emocionado, mas
levantei o meu revólver e disparei contra o caminhão. "Os alemães
responderam ao fogo e nesse momento meu pai e os companheiros chegaram, e, em
poucos minutos, expulsaram os alemães, capturaram o caminhão e inutilizaram
os explosivos." "Pássaro
Carpinteiro" Violentos golpes
sacodem a porta de entrada de uma casa situada num distrito vizinho às
margens do Vístula. Cinco homens, reunidos em torno de "Dzieciol"
(Pássaro Carpinteiro), chefe do Serviço de Inteligência, se entreolham
silenciosamente. Sabem que a Gestapo anda na pista do chefe. E sabem também
que muitos companheiros de "Dzieciol" foram presos e torturados até
conseguir arrancar a identidade de quem os dirigia. Enquanto os homens,
extremamente tensos e pálidos, escutam as pancadas aumentarem,
"Dzieciol" corre para o quarto ao lado. A porta da rua se abre, e a
dona da casa troca umas frases com alguém. Depois, sorridente, aparece no
quarto onde estão reunidos os integrantes da Resistência. "Não há nada a
temer - diz, acalmando-os. - Trata-se do empregado da luz que veio examinar o
medidor; impacientou-se porque não abri logo". Ao ouvir essas palavras,
"Dzieciol", cambaleante, entra no quarto. "Me envenenei"
- murmura com voz entrecortada, e desaba. O chefe do Serviço de Inteligência,
com os nervos destroçados pela constante angústia em que vivia, não havia
resistido a esta última prova. Após passar por
grandes dificuldades, conseguiram salvar-lhe a vida. Seu tratamento durou
quase duas semanas. Ao sair do hospital onde se restabelecera, foi preso pela
Gestapo. E dessa vez, não carregava consigo nenhum veneno... Dias depois,
após terrível torturas, foi assassinado. A bordo de uma barcaça
no Tibre Mauricio Giglio havia
completado vinte anos quando a guerra foi declarada. Membro fanático das
organizações juvenis fascistas, logo partiu para a frente. Estava pronto a
morrer por suas idéias e foi enviado à Albânia, depois de haver completado o curso
de oficial. Combateu ardorosamente até ser gravemente ferido e foi, então,
repatriado. Durante sua convalescença, o jovem tenente começou a refletir
seriamente por que combatia, e sobre tudo o que aprendera na escola, e sobre
o que recordava haver vivido nos seus primeiros anos. A 8 de setembro de
1943, o dia do armistício, o Tenente Giglio estava decidido. Escreveu aos
seus pais: "Há algum tempo que me aproximo da verdade. É uma aproximação
penosa do verdadeiro caminho... " Um dia saiu do
hospital, atravessou a linha de frente e se apresentou ante um comando do 5o
Exército americano. Havia se decidido por um lado no combate. Propôs um
plano: voltaria a Roma, se alistaria na polícia fascista para não despertar
suspeitas e transmitiria informações para os Aliados e grupos de partisans.
Os americanos aceitaram e lhe entregaram dois pequenos transmissores de
rádio. Voltou a atravessar as
linhas de frente, evitando as patrulhas alemãs e se uniu, em Roma, a outros
três colaboradores. Alistou-se na polícia fascista, e ao cabo de umas semanas
começaram a chegar copiosas informações aos serviços secretos aliados. Os
transmissores eram montados em diferentes lugares da cidade para que não
fossem localizados pelos serviços de contra-espionagem alemão. Um dia um foi
colocado na casa do ator Sergio Tofano; outro, na cúpula da Igreja de Santa
Ana na praça Navona. A recepção e a transmissão continuou assim pelo espaço
de alguns meses. A 16 de março de 1944,
a polícia fascista prendeu um dos operadores que confessou que o outro
aparelho estava transmitindo a bordo de uma barcaça no Tibre, perto do
Ministério de Finanças, e junto à Ponte do Renascimento. O Tenente Giglio,
advertido, poderia ter-se posto a salvo e transferido o rádio para outro
colaborador em lugar seguro, porém não quis, e continuou transmitindo até o
último momento, para não interromper a emissão. Era um prisioneiro
precioso; foi torturado, para que contasse tudo o que sabia, mas sem êxito.
Teve que ser carregado por dois soldados quando foi colocado diante do
pelotão de fuzilamento. Salto para a morte Milão. 20 de maio de
1944. Rua Pier Capponi 2. Gaston Piccinini,
oficial da Marinha italiana, e Sergio Tavernari, estudante milanês, ocupam um
pequeno quarto num velho edifício. É um compartimento úmido e escuro e está
pobremente mobiliado. Mas um armário pequeno que ocupa um ângulo do quarto
tem um valor incalculável. Ali está escondido algo que para eles pode
significar a vida ou a morte. Ali está instalado um pequeno aparelho
transmissor que os mantém em contato permanente com os grupos guerrilheiros
do interior da Itália... São quatro horas da
manhã do dia 20 de maio. A campainha da porta da entrada começou a tocar, estridente. Gaston Piccinini, erguendo-se bruscamente do seu leito, perguntou em voz alta quem chamava. Uma resposta, seca, terminante, o paralisou: "Polícia". Piccinini, saltando da cama procurou dar um tom calmo à voz: "Um momento. Me visto e abro". Em seguida, fazendo um sinal a Sergio Tavernari, que o observava, interrogativamente, começou a destruir o aparelho com a coronha do seu revólver, enquanto Tavernari punha fogo nos códigos e em outros documentos. Entrementes, os policiais, fora do quarto, haviam começado a bater na porta com a culatra dos seus fuzis, procurando derrubá-la. Piccinini e Tavernari, correndo para a janela, a abriram de par em par. Embaixo, na rua, um grupo de soldados cercava a casa. Algumas balas começaram a silvar em redor dos dois. Os jovens, então, audaciosamente, por cima de uma cornija, chegaram ao balcão de uma casa vizinha. Forçaram a janela e penetraram no interior de um recinto silencioso e escuro. A luz da lanterna de Piccinini, explorando rapidamente o ambiente, mostrou que estavam num quarto vazio |