Milão: O Fascismo em crise
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9 de abril de 1945. Está prestes a findar a guerra na Itália. O
poderio aliado, sem cessar, golpeia cada vez com mais vigor, lançando na batalha
sempre novas unidades. Com a força aérea, principalmente, desencadeia golpes
arrasadores. Nada mais pode evitar a derrota das armas alemães. Nas frentes de combate restantes, o panorama geral não pode ser
mais desalentador para a Alemanha e seus aliados. Vamos resumir, em rápidos
traços, a marcha da guerra na data citada: No Leste, a gigantesca máquina bélica soviética avança,
irresistível, esmagando tudo à sua passagem. Pouco antes, em janeiro de 1945,
milhões de soldados, apoiados por uma massa gigantesca de tanques, canhões
autopropulsados e milhares de aviões, lançaram-se ao assalto final com um
único objetivo: assestar na Alemanha o golpe definitivo. Em fevereiro as
vanguardas russas entraram em Budapeste, capital da Hungria. Em meados de abril,
é Viena que cai nas mãos dos soviéticos. Poucos dias depois, as divisões
avançadas russas divisam, ao longe, as ruínas fumegantes de Berlim. No Pacífico, os Aliados reabrem ao tráfego o estreito da
Birmânia; em fevereiro, ocupam Manilha e efetuam, com base em porta-aviões, a
primeira grande incursão contra Tóquio; desembarcam em Iwo Jima e
reconquistam Corregedor; desembarcam em Okinawa e atacam Tóquio, por meio de
suas bases de Iwo Jima. Na Europa ocidental, a aviação alemã ataca pela última vez, em grande
escala, as bases aéreas aliadas na Bélgica e no norte da França. Em fins de
março, a última V-2 é lançada contra Londres. Clausewitz denominava “batalha de aniquilamento” àquela em que
um dos contendores sofre tão esmagadora derrota que fica aniquilado, física e
moralmente. Uma “batalha de aniquilamento” era, de fato, a que estava sendo
travada pelos alemães na Itália. E assim era porque, aos reveses sofridos por
suas tropas no campo de batalha somava-se a profunda depressão moral que se abatia
sobre os combatentes alemães que tomavam conhecimento, diariamente, da
magnitude dos bombardeios que arrasavam a pátria distante, a pátria onde
estavam seus entes queridos. Nos primeiros dias de abril de 1945, os comandos haviam tomado
conhecimento da possível existência do chamado “Reduto Meridional”. O poderio
das forças armadas nazistas desmoronara, porém Hitler contava ainda com uma
máquina bélica poderosa. Somente na Itália setentrional havia vinte e cinco
divisões alemães e cinco italianas, fascistas. Se as forças alemães que se
encontravam na Alemanha batessem em retirada para o Sul, rumo aos Alpes da
Baviera, e as trinta divisões da Itália se unissem a elas, poderiam talvez
resistir por tempo indefinido nessa fortaleza montanhosa. Em abril, as informações fornecidas pelos prisioneiros de guerra
revelaram que o maquinaria industrial estava-se transferindo, de Milão e
Turim, para os vales protegidos dos Alpes, preparando-se aparentemente para a
manutenção do “Reduto Meridional”. Logicamente, era inegável que a missão obrigatória dos exércitos
aliados, na Itália, consistia em destruir as forças inimigas no vale do Pó,
antes que elas conseguissem retroceder até aos Alpes e prolongassem a guerra,
formando uma nova linha de defesa atrás do rio Adigio. No cumprimento desse plano, a aviação aliada começou a castigar
duramente as comunicações do inimigo. Os pilotos realizaram sua tarefa
minuciosamente. Toneladas de explosivos destruíram estradas e vias férreas,
pontes e depósitos. A aviação alemã, praticamente, nem pôde opor resistência,
dada a carência quase total de caças. Durante o mês de abril começaram a se tornar evidentes os
efeitos do bombardeio constante. Os alemães continuavam deslocando suas
tropas, movimentando-se na calada da noite, geralmente a pé por falta de
transportes e pelo estado das estradas destruídas pelos bombardeios. Os
abastecimentos e as munições também começaram a escassear de maneira
alarmante. Com o objetivo de tentar solucionar a situação, os alemães
recorreram a múltiplos estratagemas: construíram pontes a alguns centímetros
abaixo do nível das águas, a fim de oculta-las aos aviões inimigos;
instalaram pontes de pontões desarmáveis durante o dia, que recolocavam em
posição durante a noite, etc. Entre 20 e 21 de abril, a 6a Divisão Blindada
britânica irrompeu na zona Argenta, após vencer a obstinada resistência
inimiga, e esmagou o 1o Corpo de Pára-quedistas alemão. Diz o
General Clark que “os prisioneiros regorgitavam em nossas prisões ou formavam
filas intermináveis de homens marchando a retaguarda”. A 22 de abril, o 8o Exército havia chegado a Ferrara
e, no dia seguinte, caía Bondeno. Nesse mesmo dia, a 10a Divisão
de Montanha deixava Bolonha para trás, a caminho do Norte. A 23, cruzou o Pó,
perto de San Benedetto, completando uma penetração de 120 km em oito dias. Entrementes, orientadas em seu avanço por formações de
caça-bombardeios, que semeavam os caminhos de máquinas de guerra inimigas
destruídas, as pontas-de-lança aliadas penetravam em todas as direções,
criando sérios obstáculos à retirada dos nazistas para os Alpes. No setor direito, a 91a Divisão, a 2a
Neozelandesa e a 6a Blindada, descreveram um amplo semicírculo
através dos rios Pó e Adigio e seguiram depois rumo ao Norte, ao longo da
costa do Adriático, em direção a Treviso e Trieste, enquanto os sul-africanos
limpavam o terreno do lado norte, até Bolzano. Da frente de combate do 5o Exército, as 85a
e 88a Divisões avançaram em linha reta para o Norte, rumo a
Verona, e dali em direção aos Alpes, enquanto a 10a Divisão de
Montanha arremetia velozmente pelas margens do lago Garda, até Trento,
incrustada profundamente nas montanhas alpinas. Na sua marcha, a 1a Divisão Blindada deixou Modena
para trás e descreveu um círculo amplo através do vale do Pó, numa investida
final contra Bréscia e Milão. Ao mesmo tempo, a veloz arremetida das forças brasileiras rumo à
Alessandria cortou, na costa da Ligúria, o principal cominho de retirada dos
alemães. A 92a Divisão avançou contra a 148a Divisão
alemã e contra uma divisão de bersaglieris, encurraladas pelos brasileiros e
por unidades do 34a Divisão. Posteriormente, o 442° Regimento de
Infantaria, integrado por americanos de origem japonesa, e o 473° do Coronel
Yarborough, avançaram em brilhante investida pela estrada litorânea em
direção a Gênova, onde a guarnição alemã, de 4.000 homens, já se havia
rendidos aos partizans. |
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Birger e seu destino A 26 de janeiro de 1945, uma coluna motorizada alemã entrou em
território italiano, procedente da Alemanha. A longa viagem começara na
Rússia, vários semanas antes. O comboio transportava um reduzido grupo de oficiais da
Wehrmacht e alguns da SS. Entre estes encontrava-se Fritz Birger, um
subtenente de 42 anos, residente em Munique, onde era esperado pela esposa e
dois filhos. No mesmo dia da sua chegada, Birger foi enviado a sua nova
unidade. Era o 2/11 Flak Abteilung des Kommondo Stobe, do Divisão
Reichsführer. Birger, que nunca visitara a Itália antes, nem conhecia
Mussolini, foi destinado a prestar serviços em uma bateria localizada num
ponto dominante do lago de Garda. O destino do subtenente alemão da SS começava a aproximá-lo do
ditador italiano. Tocaria a ele, posteriormente, ser testemunho do seu
trágico fim. No dia 9 de abril de 1945, o oficial superior que comandava o
batalhão onde Birger prestava serviços reuniu seus oficiais subalternos e
lhes contou que, a qualquer momento, Mussolini realizaria uma visita à frente
de combate. Fôra decidido que um dos oficiais devia escolta-lo, comandando os
homens necessários. O dia da partida, desconhecido ainda, seria comunicado
oportunamente. Após um rápido entendimento, quatro oficiais foram escolhidos.
Cada um deles, à frente de uma escolta, estaria diariamente pronto para
empreender a viagem. Dias mais tarde, a 18 de abril, o Duce comunicou ao comando
alemão sua decisão de partir. Nesse dia estava preparado o subtenente Birger.
Nas suas mãos ficaria, portanto, o comando da escolta, e, logicamente, a
segurança de Mussolini. Entre 18 e 25 de abril, o Duce ficou instalado em Milão, no QG
da Polícia. Na manhã de 25, no Palácio do Governo, teve lugar uma reunião dos
mais altos líderes fascistas. O regime andava trôpego e ninguém mais escondia
esse fato. Os debates acalorados oscilavam entre defensores da resistência
cega, “até à última gota de sangue”, e os defensores da evacuação imediata da
cidade. O secretário do Partido Fascista Republicano, Alexandre Pavolini,
insistia na necessidade de partir de imediato, ante a gravíssima situação
reinante. Alguns dos presentes, ao contrário, opinavam que Mussolini deveria
permanecer em Milão, entrincheirando-se no edifício da Polícia, convertido
num reduto inexpugnável, de onde se resistiria ao inimigo até o último homem.
O General Montagno, por sua vez, propôs ao Duce que abandonasse imediatamente
a cidade num avião que já estava preparado, à sua espera, para conduzi-lo a
uma nação amiga. Mussolini, afinal, declarou que não abandonaria os seus
seguidores e lhes ordenou que se aprontassem para partir com ele. Instantes
depois, os motores de uma caravana de automóveis começaram a rugir,
anunciando a partida imediata. É nesse momento que Birger entra em ação. Aproximando-se do
Duce, comunica-lhe que tem ordem de escoltá-lo. Mussolini, visivelmente
perturbado pelas palavras do subtenente, responde que a escolta significará
mais perigo que segurança para ele. Birger, porém, firmemente, insiste em
cumprir as ordens que tem. O Duce, por fim, concorda em que os soldados
alemães o acompanhem. A uma hora da tarde, a coluna se põe em marcha. À
frente, em seu veículo de comando, o subtenente Birger indica o caminho. O
objetivo é Como. Dali, depois, tratarão de alcançar o território suíço. Entre os dias 26 e 27, a coluna avança, na vã tentativa de
chegar à fronteira. Finalmente, no dia 27, os veículos se encontram num beco
sem saída, cercados pelas forças de partizans. Estão em Dongo. É o fim da
caminhada. Logo o Duce viverá o último ato do seu drama. Birger o descreve
nos seus derradeiros momentos: “Mussolini tinha a barba crescida, estava
mortalmente pálido e falava, constantemente, com os que o rodeavam,
pedindo-lhes opiniões sobre a situação. Estava visivelmente abatido. Era um
homem destruído e já sem forças. Tinha medo e demonstrava isso, o que me
parece muito natural...”. Junto ao Duce, um grupo de líderes do regime encontraria também
seu destino. O mesmo trágico destino. As primeiras tentativas de paz Anteriormente aos acontecimentos que culminariam em Dongo, no
mês de março de 1945, uma patrulha de milicianos fascistas, que vigiava a
fronteira com a Suíça, detivera um pequeno grupo de homens que tentavam
ingressar em território italiano. Conduzidos ao posto mais próximo, foram
rapidamente identificados. Tratava-se de um sacerdote italiano, um guia e um
oficial inglês. O oficial, que falava italiano perfeitamente, declarou estar
cumprindo uma importante missão, a mando do Marechal Alexander, tendo por
destinatário o Marechal Graziani. O sacerdote, por sua vez, admitiu que sua
missão consistia em colocar o oficial britânico em contato com o Marechal
Graziani, por intermédio do Cardeal Schuster, arcebispo de Milão. Enviado sem tardar à sede do Serviço de Informações, foi
interrogado pelo chefe do Serviço, Tenente-Coronel Di Leo. Obteve-se assim a
confirmação da mensagem do Marechal Alexander a Graziani, e que consistia num
pedido que Alexander fazia a Graziani para que este intercedesse junto aos
alemães, a fim de que os nazistas, na sua retirada da Itália, evitassem a
destruição de fábricas, indústrias, obras de arte e instalações vitais para a
boa marcha do país. O Marechal Graziani, imediatamente, informou ao Cardeal Schuster
o que estava acontecendo. O prelado, então, manifestou o desejo de conhecer o
sacerdote incumbido da missão. Uma fotografia do mesmo lhe foi encaminhada
pouco depois, admitindo o Cardeal Schuster que aquele padre não lhe era
desconhecido. Graziani, por sua vez, comunicou ao arcebispo de Milão que uma
das suas maiores preocupações havia sido, precisamente, conseguir que Milão
não se convertesse num centro de resistência inútil, que acarretaria somente
uma verdadeira catástrofe, sem conseqüências favoráveis para ninguém. Deve-se
destacar, a respeito, que na época citada Mussolini pretendia converter Milão
no centro da derradeira resistência das forças fascistas. Falava-se,
inclusive, de fazer de Milão a “Stalingrado italiana”. No dia 16 de abril, o Duce anunciou aos seus colaboradores que
voltariam a se reunir em Milão. Dali, de acordo com seus planos, seguiria
para Valtellina, onde Pavolini, segundo seus próprios informes, garantia ter
reunido alguns milhares de homens, entre milicianos e soldados do Guarda
Republicana. Nesse momento, registrou-se em Milão uma nova tentativa tendente
a evitar males maiores e, se possível, acertar os termos de um armistício. De
fato, o General Wietinghoff, comandante-em-chefe alemão, substituto do
Marechal Kesselring, numa comunicação dirigida ao Marechal Graziani,
solicitou a sua intervenção junto ao Cardeal Schuster, a fim de que o clero e
a população colaborassem para preservar a cidade de danos maiores. Em resumo,
o que ele propunha era que os partizans não molestassem as forças alemães na
sua retirada; nesse caso seriam respeitadas as instalações, fábricas e obras
de arte. Mussolini, informado por Graziani da situação, autorizou a
negociação, deixando nas mãos do marechal italiano a resolução final. O
Marechal Graziani, em seu livro “Defendi minha pátria” relata assim aqueles
dramáticos momentos: “Na ocasião, a sede do comando se encontrava em Vidigulfo, entre
Milão e Pavia. Nas primeiras horas da manhã cheguei a Milão, onde permaneci o
dia inteiro, para colocar Mussolini a par da situação militar, que evoluía,
minuto a minuto. A 21 de abril, os Aliados haviam cruzado o Pó, em Mantua,
estabelecendo na margem aposta uma ampla cabeça-de-ponte. “Se forem
suficientemente audaciosos”, disse a Mussolini, “poderão chegar, amanhã
mesmo, a Milão. O que é que decidiu fazer?” O Duce permaneceu silencioso e, afinal
sentenciou: “Como sempre acontece nestes casos, a um certo momento, os
acontecimentos tomarão as rédeas e a situação será decidida por eles”.
“Porém, não devemos necessariamente deixar-nos surpreender passivamente” -
respondi - “devemos decidir o que fazer, enquanto é tempo”. Mussolini,
entretanto, estava dominado pelo fatalismo. Vinha repetindo, há algum tempo:
“Meu ciclo se encerrou a 25 de julho de 1943. Isto tudo nada mais é do que o
final. Meu testamento é o seguinte: Itália, República, Socialização”. E
depois, me perguntava: “O senhor, o que vai fazer?” Respondi que era meu
dever permanecer até o último momento no posto de comando, junto às minhas
tropas, e perguntei, então: “O senhor decidiu ir a Valtellino?”. “A respeito
disso, respondeu, pedi a Pavolini que, pelo menos, seja garantida a entrada
no Vale . “Informei-o que o meu comando se transferira de Vidigulfo a
Mondello, a meio cominho entre Como e Lecco, onde chegaria no dia 25.
Acrescentei que no dia 22 estaria com a Cardeal Schuster e lhe perguntei se
ainda tinha mais alguma coisa para me dizer. “Nada mais além do que já lhe
disse”, murmurou. “Até àquele momento, ambos ignorávamos que o Cardeal Schuster e
o General Wolff estavam já em negociações com os Aliados para estabelecer a
paz. Nem o embaixador alemão, nem o General Wolff, nos haviam dado a menor
indício desse fato”. Salientamos, a respeito, que o General da SS, Wolff,
encontrava-se em contato com os anglo-americanos, desde outubro de 1944. Como
um dado extraordinariamente curioso, e praticamente desconhecido, pode-se
acrescentar que o chofer do Coronel Dollmann, braço direito do General Wolff,
era, na realidade, um ex-prisioneiro britânico, vestido com o uniforme da SS. Continua Graziani: “Alguns dias antes, eu fora convidado para jantar
com o embaixador alemão. Estávamos presentes o embaixador, seu jovem
secretário e eu. Depois da ceia, passamos a um pequeno salão ao lado. Ali,
comentamos a extrema gravidade da situação, porém, a possibilidade de
discutir a rendição não foi nem sequer mencionada. De repente, deixou-me só,
saindo da sala. Voltou, instantes depois, com um estojo, no qual havia uma
pistola Beretta nova. Entregou-me o estojo, dizendo: “E agora uma boa
notícia... O porto de Gênova não será dinamitado...”. Voltei ao Cardeal
Schuster, a 22 de abril, e ele me recebeu na sede do Arcebispado. Eu era
aguardado na entrada por monsenhor Terraneo, a quem entreguei meu cinturão
com a pistola. Trajado de púrpura, o cardeal me esperava em um pequeno salão.
Convidou-me a sentar em um divã, enquanto ele se acomodava numa poltrona à
minha direita. Eu lhe disse, então, que tinha uma missão a cumprir, da parte
do General Wietinghoff, porém, antes de entrar no assunto, recordei-lhe uma
conversa que havíamos mantido há tempos atrás, acerca da necessidade de
permanecermos unidos a fim de evitar males desnecessários à cidade.
Respondeu-me que se lembrava de tudo, porém “agora as coisas mudaram”.
Somente agora, que sei que o cardeal já estava negociando a rendição, é que
compreendo a sua hesitação...”. Graziani, sem preâmbulos, informou o cardeal
da missão que lhe fôra confiada pelo General Wietinghoff. O alto prelado
respondeu imediatamente que faria todo o possível para cumpri-la, embora
achasse que teria dificuldades para se comunicar com outras regiões. “Disso eu mesmo me encarrego - respondeu Graziani - é suficiente
que Vossa Eminência limite sua ação à Lombardia...”. No dia 23, o Marechal Graziani, enviou ao Cardeal Schuster a
seguinte nota: “De acordo com a conversa que tivemos ontem, estou enviando à
V. Eminência cópia da carta do General Wietinghoff para que V. E.
Reverendíssimo possa utilizá-la como melhor lhe convier, a fim de dar
cumprimento à finalidade que tratamos...”. Aqui está o texto completo da
mensagem do General Wietinghoff: “Urgentíssimo. Secretíssimo. Reservado ao
senhor marechal. A inquietação do opinião pública italiana acerca do
comportamento das forças alemães, em relação à possível destruição e
paralisação das fábricas de importância vital, durante uma retirada, converteu-se
numa ameaça crescente à segurança interna, na Alta Itália, especialmente para
as tropas. Nossa atitude dependerá da lealdade do comportamento da população
italiana. O Marechal Graziani agirá nesse assunto, juntamente com o
embaixador doutor Rahn e o General das SS Wolff, dando especial preferência
ao contato com os representantes da Igreja”. Continua dizendo Graziani: “Chegou assim a manhã de 25 de abril
de 1945. Ao amanhecer deveria abandonar Vidigulfo, porque naquele dia o
comando concluiria sua transferência para Mandello. Ao sair, e passar pelo
posto de guarda, comprovei com surpresa que os homens que deveriam estar
vigiando já não estavam ali. O posto parecia abandonado. “Em Milão, nas primeiras horas da manhã, tudo estava normal. A
calma reinava ainda no Hotel Príncipe de Saboya, ocupado pelos alemães e
residência do cônsul Wolff, homônimo do general. “Precisamente com o cônsul Wolff , eu mantivera uma conversação
no dia 23, acerca da situação, que se agravava paulatinamente. Havíamos
discutido, então, a possibilidade de lançar um apelo, pelo rádio, à
população, sem distinção de partidos, pedindo o todos que se mantivessem
tranqüilos para evitar uma luta fraticida. “Comuniquei algumas novidades a Mussolini, dizendo que podia
estabelecer contato com membros do Comitê de Libertação Nacional. Ele não
aprovou a medida. “É necessário fazer alguma coisa”, disse. “Durante a manhã de 25, no Palácio do Governo, o chefe da
Polícia, General Montagna, me informou que estava em comunicação com um
representante milanês do Comitê de Libertação, que manifestara o desejo de
tratar diretamente comigo. Tratava-se, me disse Montagna, de estabelecer uma
zona, compreendida no triângulo Milão-Lecco-Como, onde os fascistas poderão
entrar com garantias de vida, depois de entregar as armas. Muito tempo
depois, soube que o contato era o advogado Garbagni, que operava em nome do
governo Bonomi. “Naquele instante começaram a chegar das redondezas as primeiras
notícias sobre uma grande agitação. “O Prefeito de Milão, Bassi, em permanente
contato telefônico, anunciava o progresso contínuo da insurreição. “Como se falava em alterações da ordem, perguntei se se tratava
apenas de episódios isolados ou de um movimento guerrilheiro deflagrado em
toda a região. “Não há muita diferença”, me responderam, “um movimento
inflama outro...”. Tornei a perguntar: Estamos em plena revolução? “Pode
ser...” foi a resposta. Pouco depois eu soube que, em Busto Arsizio, os
alemães haviam cedido ante os guerrilheiros. “O resto do dia passei na chefatura de polícia. Informei
Mussolini de tudo o que o General Montagna me dissera. Ele respondeu,
textualmente: “O que é que o senhor diria se eu lhe contasse que o próprio
Cardeal Schuster me convidou para participar de uma reunião, hoje, às cinco
da tarde, na sede do Arcebispado, a que estarão presentes representantes do
Comitê de Libertação? Diria, respondi, que devemos aceitar... Porém não deve
ser o senhor a comparecer... “Mussolini concordou, finalmente, e decidiu que iria eu, com
mais algumas pessoas, ao lugar e à hora indicados. “Pouco antes das cinco da tarde fui ao gabinete de Mussolini
para receber as últimas ordens. Eu o vi, então, quando partia. Depois,
dirigi-me para o local do entrevista. “Não havia ali SS nem soldados fascistas. Tudo se desenrolava com
a maior tranqüilidade. Ao entrar fui recebido por Monsenhor Terraneo, a quem
entreguei, mais uma vez, o cinturão com a pistola. “Mussolini já estava lá, dialogando com o cardeal. Estava-se
aguardando a chegada dos representantes do Comitê de Libertação. “Poucos minutos antes da chegada dos membros do Comitê, o
industrial Cella, que estava presente, se aproximou de mim e disse: “Ânimo,
marechal!... Hoje é um grande dia... Logo vai chegar o General Wolff e, será
assinado o armistício... “Onde estão os representantes anglo-americanos?, perguntei.
Eles, de fato, não estavam ali, e me parecia inverossímil que a assinatura do
armistício da rendição fosse delegada a uma autoridade eclesiástica.
Perguntei a mim mesmo se o que eu assistia não era uma trágica paródia. “Naquele momento chegaram os representantes do Comitê de
Libertação. Eram três: o General Cadorna, o advogado Marazza, da Democracia
Cristã e o engenheiro Lombardi, que, no dia seguinte, foi nomeado prefeito de
Milão. “O encontro teve lugar sem nenhum protocolo. Fomos, em seguida,
conduzidos ao salão onde se encontravam o cardeal e Mussolini. Os dois
estavam sentados em um divã. “O Duce não apertou a mão de nenhum dos membros do Comitê de
Libertação. “Sentamos todos. Nós, ao lado do cardeal, os outros, ao lado de
Mussolini, com Cadorna ao centro, o engenheiro Lombardi à sua direita e o
advogado Marazza à esquerda. Na minha frente, o General Cadorna. A luz forte
que entrava pela janela me impedia de ver claramente o seu rosto. “Recordo essa cena em seus menores detalhes. Sua Eminência fez
um sinal com a mão, dirigindo-se para Mussolini e os representantes do Comitê
de Libertação, como que incitando-os a falar. Mussolini, então, voltando-se
para o advogado Marazza, perguntou: “O que é que desejam me comunicar?”
Marazza respondeu, de imediato: “Estamos aqui para saber se a facção fascista
está disposta a aceitar as condições de rendição, ditadas pelo Comitê de
Libertação Nacional. Não temos muito tempo a perder em discussões porque (aí
ele olhou seu relógio-pulseira) já estamos atrasados, e às seis da tarde vai
começar a insurreição guerrilheira. Se a rendição for aceita pelos fascistas,
vocês poderão reunir-se na zona que será delimitada aproximadamente pelo
triângulo Milão-Como-Lecco. Aí estarão imunes, depois de entregar as armas.
Mais tarde, os que tiverem contas com a justiça por delitos particulares,
enfrentarão os Tribunais. “Nesse momento me pareceu imprescindível colocar Mussolini a par
da retirada alemã. Mussolini não pôde dissimular o sua surpresa. Um dos
membros da delegação do Comitê de Libertação Nacional, creio que o General
Cadorna, observou que, se os alemães não sentiram necessidade de nos
prevenir, nossas preocupações pareciam excessivas... “É claro”, disse, “que
com sua atitude perderam todo o direito á nossa lealdade...”. “... Mussolini, recuperado da surpresa, declarou que o gesto
desleal dos alemães nos colocava em condições de poder desembaraçar-nos deles
e que, voltando ao Palácio do Governo, denunciaria aquela atitude numa
mensagem dirigida ao povo, pelo rádio. “O cardeal, imediatamente, pediu-lhe que não fizesse isso, para
evitar males maiores, e salvaguardar, assim, as negociações em curso.
Mussolini não respondeu e levantou-se, pronto para sair. “Quando dará a
resposta ao Comitê?”, perguntou o cardeal. Ele de pronto: “Dentro de uma
hora. “Ao atravessar os salões para sair, o cardeal me seguia,
implorando: “Rogo-lhe que impeça que seja lido qualquer comunicado pelo
rádio... Causaria uma imensa desgraça...”. “Garanti-lhe que não aconteceria nada. O comunicado não seria
lido. “Assim se encerrou a reunião no Arcebispado, baseada na crença
errada de que se podia ocultar o fato consumado da rendição alemã e, ao mesmo
tempo, que a rendição fascista era independente do primeiro. “Esclarecemos que se discutia a sorte das formações do Partido,
não das divisões regulares, pois estas por estarem incorporadas ao exército
alemão, sofreriam o mesmo destino dele. “Além disso, seria bom perguntar de que modo as divisões
fascistas teriam podido alcançar a zona indicada, com a garantia de
imunidade, quando a insurreição guerrilheira crescia com violência
incontrolável. “Seria bom perguntar também que valor teria tido a decisão de
Milão nas outras regiões da Itália setentrional, pois cada centro do Comitê
de Libertação Nacional agia por conta própria. “... A volta à chefatura da Polícia foi agitada. Mussolini teria
necessidade de toda a sua calma para decidir alguma coisa; no entanto, seu
gabinete estava apinhado de ministros, líderes e conselheiros. O Duce
gritava: “Fui enganado!... Me levaram onde quiseram para então me impor uma
rendição incondicional!...”. “Duce, é necessário partir imediatamente!;
aconselhavam alguns. Outros exigiam que ele não abandonasse Milão. “Nesse
momento entrou o General alemão Wening, comandante da praça de Milão, para
lhe comunicar que a escolta, para uma eventual partida, estava pronta.
Mussolini, fora de si, recriminou-o duramente, acusando os alemães de
traição. O General Wening, em posição de sentido, escutou toda a invectiva
sem pronunciar palavra. “Já mais tranqüilo, Mussolini passou para um quarto ao lado.
Tinha com ele um revólver e, por um instante, temi que fosse atentar contra a
própria vida. Minutos depois, porém, regressou, já mais calmo. “Querem fazer
um novo 25 de julho. Desta vez, porém, não o farão”, exclamou. “Minhas notas sobre aquelas derradeiras jornadas foram tomadas
no próprio momento dos fatos e refletem fielmente a realidade. “Meu último encontro com Pavolini realizou-se no gabinete de
Mussolini. Ele entrou no instante em que eu comunicava ao Duce as últimas
notícias recebidas da frente de combate, referentes às posições das tropas
anglo-americanas, distribuídas na planície paduana, sem que os alemães tivessem
a menor possibilidade de contra-ataque. Mussolini parecia não se inteirar
totalmente da trágica situação. “Pavolini, então, disse: “Duce, ordenei a todas as Brigadas
Negras da Ligúria e de Piemonte que se encaminhem para a Lombardia; o
movimento está em marcha...” “Reagi, incontinente, indignado: É ignominioso mentir assim até
o último instante! “Pavolini teve uma reação ameaçadora: “Marechal”, disse,
“respeitar sua idade e sua pessoa é uma coisa; suportar um insulto é
outra...” “Mas se está tudo desmoronando... Se estamos em pleno salve-se
quem puder!, gritei, porque,continuar com a mentira? "Mussolini, então, interveio, pois compreendeu onde aquela
discussão nos podia levar, e disse, dirigindo-se a mim: “Então, trata-se de
um segundo 8 de setembro?” “Talvez pior - retruquei. E Pavolini guardou silêncio. “Encerrou-se assim em Milão a trágica jornada de 25 de abril de
1945. “A chegada a Como operou-se sem incidentes. À entrada da cidade,
a coluna era esperada pelo General Layers, que pela primeira vez, via
Mussolini. Todos seguiram depois para o Palácio do Governo que, invadido por
todo aquele séquito, transformou-se num acampamento noturno. “O prefeito local, doutor Célio, recebeu Mussolini e os outros.
Sua esposa, imediatamente, tratou de providenciar um jantar. “Mussolini se instalou numa saleta e começou suas consultas.
Estava muito preocupado com a sorte de um caminhãozinho onde, se transportava
uma caixa-forte com documentos. “Quando, uma hora mais tarde, o veículo não foi recuperado,
mostrou-se extremamente desgostoso. “O Comissário Federal de Como, Porta, propôs que ele se
refugiasse numa fazendola, na zona de Cadenabbia, sob a vigilância de sua
brigada, que reunia novecentos homens fiéis e decididos a converter o local
numa verdadeira fortaleza. Ali poderia esperar a rendição alemã. “Mussolini parecia disposto a concordar com a proposta, quando
entrou em cena Buffarini-Guidi, a quem não via há já alguns meses.
Explicou-me que procurava convencer Mussolini a tentar cruzar a fronteira para
a Suíça. “Enquanto isso, as horas passavam. A mesa onde todos jantaram
ficou quase intacta. Eu me recostara sobre um divã, quando fui chamado por
Buffarini-Guidi, para me comunicar que Mussolini estava abandonando a
Prefeitura. Eram cerca das quatro horas da manhã. O que é que ele decidiu,
afinal?, perguntei. Bufarini então me explicou o projeto. Tratava-se de
tentar a passagem do governo para a Suíça, pelo Passo de Porlezza, o que
acreditava ser possível e fácil. “Você vai ver”, me disse, “quando estivermos
lá, eu o farei fazer declarações que despertarão a atenção do mundo inteiro e
dos italianos...” “Encontramo-nos com o Duce. Perguntei-lhe o que decidira. “Por
enquanto”, respondeu, “iremos a Menaggio”. “O Duce vestiu um capote de couro marrom, e entrou no automóvel.
Algumas vozes, aqui e ali, repetiram a saudação habitual: Duce... Duce...
Pareciam lamentos fúnebres. “Em poucos instantes, o local se esvaziou. Cada um seguiu o
caminho que escolheu. Os ministros presentes acompanharam o Duce. “Com os Generais Sorrentino e Bonomi, permaneci na Prefeitura,
para me dirigir, mais tarde, à sede do meu comando. Buffarini-Guidi quis
convencer-me o acompanhar o governo à Suíça. Respondi que o meu dever me
impunha permanecer junto aos meus soldados até o último momento. “Por fim, concordei em encontrar-me de novo com Mussolini. Os
Generais Sorrentino e Bonomi, por sua vez, declararam que encontrariam um
jeito de atravessar para a Suíça”. O drama, passo o passo, chegava ao fim. A sorte de Mussolini e
dos líderes que o cercavam estava selada. Era apenas uma questão de tempo...
E o tempo não se deteria... Enquanto isso, em toda a Itália, as forças da
Resistência se preparavam para lançar-se à luta final. Especialmente no
Norte, os grupos de partizans esperavam a ordem com impaciência. Para,
justamente, evitar ações precipitadas que não conduziriam a nada, o General
Clark transmitiu uma mensagem destinada dos chefes da Resistência. Seu texto
dizia: “Vocês estão prontos para atuar, mas ainda não chegou o momento em que
devem atuar em massa. Alguns grupos receberam ordens especiais. Outros se
dedicarão a defender seus distritos e aldeias, impedindo que o inimigo, em
retirada os destrua... Aos grupos que não têm tarefa específica designada para o futuro
imediato: cuidem do seu potencial, e mantenham-se de prontidão até serem
convocados. Não se arrisquem a cair em poder do inimigo, agindo antes do
momento oportuno. Não desperdicem forças, nem energias. Não se mostrem, nem
ajam prematuramente. Quando chegar o momento, todos, e cada um de vocês,
homem ou mulher, será chamado a desempenhar um papel na libertação do Itália
e na destruição do inimigo odiado”. Clark salienta o heroísmo do povo italiano, na seguinte
história: “Aconteceu que uma vez pediram-se soldados voluntários italianos
para um lançamento de pára-quedistas atrás das linhas inimigas do vale do Pó.
Apresentaram-se uns duzentos voluntários, que foram instruídos para
lançarem-se à noite, nas estradas, onde pudessem fustigar o transporte
inimigo. Quando amanhecesse deveriam misturar-se com a população italiano da
zona. Cumpriram as instruções ao pé da letra, e melhor até, liquidando com
cerca de mil alemães. Mais tarde, um dos voluntários me contou que havia
soltado, na escuridão, quando o aviões sobrevoava uma estrada que se sabia
ser muito utilizada pelo inimigo na calada da noite. Enquanto se aproximava
lentamente do solo, ouviu ruído de caminhões avançando pela estrada e, antes
que pudesse evitá-lo, acabou aterrissando justamente sobre um dos caminhões,
que transportava alguns soldados alemães... O susto que sua presença provocou
nos alemães permitiu que ele fugisse logo dali...”. Anexo “Kesselring e os
italianos” “Hitler e Goering não
estavam totalmente enganados quando consideraram o Marechal-de-Campo
Kesselring como um militar de tendências italianófilas e reprovavam suas
atenções para com os italianos. Por esse motivo, cogitou-se em retirá-lo da
frente italiana em 1943. As mais destacadas qualidades de Kesselring foram
sua bondade e um coração sincero, sempre generoso. Não só gastou toda a sua
fortuna para socorrer aos parentes de seus subordinados tombados no campo de
batalha, mas também aproveitou todas as oportunidades que se apresentaram,
para ajudar seus camaradas de armas, italianos. Jamais acreditou que os
italianos pudessem um dia abandonar os alemães. A capitulação italiana para
ele foi uma enorme decepção, porém não afetou seus sentimentos íntimos. Até o
fim da guerra e, inclusive, depois de terminada, confessou, repetidas vezes,
seu amor pelo povo italiano. Por essa razão protegeu, o mais que pôde, todas
as obras de arte italianas, e declarou cidades abertas Roma, Florença, Chisti
e outras. Fez sempre o possível para assegurar o abastecimento da população
civil. Para evitar que o povo de Roma passasse fome, ordenou que um
determinado número de caminhões do exército viajasse para o norte da Itália
em busca de farinha, precisamente num momento em que os veículos eram
extremamente necessários para transporte de munições e combustível. É claro
que uma cidade de mais de um milhão de habitantes representa sempre um perigo
na retaguarda de uma frente de combate; não foi, porém, esta a razão que
impulsionou Kesselring a socorrer os romanos. Diariamente passava várias
horas tentando solucionar os problemas que afetavam a população civil. E seu
Estado-Maior, em muitas ocasiões, teve que se preocupar com as soluções
destes problemas, a que ele sempre deu grande importância. Principalmente
porque o governo neofascista apenas demonstrava tomar iniciativas pessoais. E
Kesselring empenhou-se vivamente para que Roma não fosse destruída. Neste
sentido, agiu de modo diferente de Mussolini, que demonstrou uma indiferença
olímpica pelos habitantes de Roma. Por esta razão o Marechal-de-Campo
desistiu, no mês de junho de 1944, de oferecer resistência ao inimigo no
Tibre, e proibiu a destruição das pontes que levavam a Roma, porque por elas
passavam os encanamentos de água e gás. Tais atitudes, em tempo de guerra,
devem ser consideradas excepcionais. Kesselring, sempre que pôde, ajudou os
italianos. Apesar disto, foi porém condenado como criminoso de guerra. O
Marechal-de-Campo Alexander declarou ao tribunal de Veneza que, segundo
sabia, Kesselring orientou nobremente a guerra na Itália. Não resta a menor
dúvida de que foram cometidos desmandos no palco de guerra italiano. Porém,
nada foi cometido com conhecimento de Kesselring. Não existe nenhum exército
livre de elementos criminosos”. De “Exército
Acorrentado”, do General Siegfried Westphal. O roubo do caminhão
gigante Os partizans eram de
outra localidade, porém o problema nunca os preocupara até o roubo do
caminhão gigante. O caminhão verde
rebocava uma jamanta cheia de motores de aviões. Os guerrilheiros o roubaram
e saíram a toda velocidade pela estrada principal. Essa via era perigosa,
principalmente porque, logo, logo, teriam os alemães no seu encalço. Quando
chegaram ao cruzamento, dobraram por um atalho que passava por trás de
Marelli, um pequeno povoado. O atalho era de terra e as recentes chuvas o
transformaram num lodaçal. A duras penas, o caminhão gigante conseguiu
avançar, quando de repente ficou atolado até os eixos. Os partizans tentaram
fazê-lo sair dali, sem resultado; finalmente, o abandonaram... Em Marelli, naquele
sábado, os homens jogavam bochas, as mulheres cozinhavam ou teciam; todos,
enfim, de alguma maneira, aproveitavam o fim da semana na forma habitual. Um
aldeão descobriu o caminhão gigante e correu a dar notícia. Os homens do
povoado começaram a se preocupar; se os alemães descobrissem o caminhão tão perto
dali, pensariam que provavelmente os partizans eram gente de Marelli, e pelo
sim, pelo não, tomariam represálias e reféns. Em pouco tempo formou-se um
conselho, que após curta discussão chegou à conclusão que urgia retirar o
caminhão dos limites da aldeia. Mas puxá-lo, e mais a jamanta, não era coisa
fácil; os homens mais fortes da localidade, após muitas tentativas, não
conseguiram movê-lo nem um milímetro. E então, deu-se esse pequeno milagre
tão comum em comunidades simples, quando todos se unem para enfrentar uma
ameaça: uma extensa fila de homens, mulheres e crianças, com suas ferramentas
de lavoura, tratores, seus bois, mulas, e até cães, formaram uma longa
procissão à frente do veículo. O caminhão gigante parecia Gulliver arrastado
pelo exército de Lilliput. Com grande esforço conseguiram desenterrá-lo e
puxá-lo lentamente até o topo da colina, limite do vilarejo. Uma vez ali, num
esforço final, empurraram-no, e o veículo rodou até deter-se num vale
vizinho. O caminhão gigante já
não era problema para Marelli, mas de qualquer modo, durante algum tempo, os
aldeões olhavam receosos toda a vez que um veículo militar passava por ali, e
sempre lhes indicavam prontamente o caminho mais curto para sair do povoado. “A noite ficou para
trás” “A medida que a guerra
da Itália segue seu curso rumo ao Norte, as cidades e povoados italianos, que
vão ficando à retaguarda das frentes de combate, recuperam, lentamente, sua
vida normal. A reconstrução começa,
praticamente, enquanto ainda se ouve ao longe o troar dos canhões. Os
soldados aliados que entram numa cidade recém-evacuada pelas forças alemães,
têm, quase sempre, a sensação de ocupar uma cidade fantasma, deserta. Por
entre as ruínas dos edifícios destruídos e dos campos vizinhos, começam mais
tarde a aparecer, um a um, os seus moradores. Os habitantes dos povoados
incrustrados nas colinas, e das aldeias das zonas montanhosas, saem
cautelosamente de seus esconderijos. Homens e mulheres, tristonhos,
perambulam pelos mercados vazios e pelas ruas cheias de detritos. A maioria
dos funcionários fascistas fugiram com os alemães, largando, às vezes, as
populações sem organização nenhuma. Os representantes do Governo Militar
aliado encontram um povo abatido, a quem falta, freqüentemente, o mínimo para
poder subsistir. E, ainda que se satisfaçam as necessidades gerais imediatas,
resta o problema de proporcionar sementes e maquinaria agrícola aos
lavradores. A medida imediata, ao
começar os trabalhos de reconstrução, é demitir dos postos administrativos
locais os simpatizantes fascistas. Tanto a polícia italiana como os
funcionários civis oferecem espontaneamente seus serviços aos Aliados, e
principia, então, a tarefa de restabelecer a ordem. Os guardas cuidam dos
depósitos de abastecimentos; todos os caminhões e carros disponíveis são
empregados nos trabalhos de emergência; funcionários inspecionam os moinhos
de trigo e as reservas de alimentos. O Governo Militar abandona a direção
ativa dos assuntos locais, e o governo civil da cidade, ou aldeia, volta a se
encarregar deles. Embora os Aliados forneçam, sempre que possível, grandes
estoques de gêneros de primeira necessidade às populações, a alimentação
continua sendo um problema. Aos donos de caminhões e automóveis são
designadas rotas para apanhar, nos campos próximos, legumes, batatas e
frutas. Muitos italianos vão a pé até as herdades, e trazem, nos ombros,
produtos que vendem na cidade. Prática esta que alivia, nas cidades onde
ainda não funcionam as estradas de ferro e existem poucos automóveis, o sistema
de distribuição de alimentos de emergência. Nas aldeolas mais
próximas das zonas de produção agrícola, a vida é menos desorganizada;
encontra-se uma disponibilidade maior de farinha, de ovos, de batatas e
outras provisões. A medida que vão sendo
satisfeitas as necessidades materiais dos habitantes, estes procuram trabalho
a fim de se manter. Ainda que, a princípio, pais e filhos caminhem sem rumo
pelas ruas da cidade, e os numerosos refugiados permaneçam dias inteiros
sentados às portas das casas, o problema do desemprego vai-se aliviando
gradualmente. Milhares de homens
começam a trabalhar nos depósitos de alimentos e de munições dos Aliados;
outros ajudam ao município e aos particulares nos trabalhos de reconstrução
provisória das cidades bombardeadas. Aqueles que trabalham para os exércitos
aliados, recebem, além do salário, duas refeições diárias. Muitos refugiados
eram pessoas que ocupavam antes boas posições, integrando o pessoal das
sucursais de grandes companhias industriais e comerciais de Roma. Pouco a pouco, o
aspecto tristonho do povo começa a desaparecer. Os mortos são enterrados;
desaparece o pavor das bombas; as ruas se vêem livres dos escombros. A Itália
volta, gradativamente, apesar dos tremendos obstáculos, aos seus hábitos.
Assume, finalmente, a responsabilidade de restaurar a vida econômica de seu
povo”. Gino ganhou um sorriso Durante a guerra, nas
aldeias se vive melhor que nas cidades. Nas cidades há fome e a gente se
prostitui para poder comer... A casa ficava ao lado
da estrada, na entrada do vilarejo. Tinha dois andares e um grande pátio.
Tanto do primeiro como do segundo andar, entrevia-se o recorte da estrada e,
ao se olhar na direção do vale, podiam se ver os contornos de Turim. Na casa viviam o pai,
a mãe, a avó e um menino de nove anos. O garoto chamava-se Gino. Gino não
tinha medo da guerra!, até brincava com ela. Tinha um caixote cheio de
cápsulas de balas vazias, um capacete, um cinturão, e até um velho capotão
italiano. Desde o começo da guerra o povoado fôra bombardeado três vezes e os
alemães o haviam ocupado há dois anos atrás. Os alemães não eram ruins com as
pessoas da aldeia; na realidade, os aldeões tinham mais receio dos civis
fascistas armados. Gino viu uma vez obrigarem um homem a beber um copo de
óleo tirado do motor de um caminhão. “Purgaram-no porque
não gostava de Mussolini”, ouviu dizerem. No começo de 1945, as
coisas começaram a piorar. Os alemães recuavam suas tropas lentamente e
organizavam, às pressas, novas linhas de defesa. Nos limites da aldeia, o
menino viu como se acumulavam divisões blindadas. “A nova frente dos alemães
passa por aqui; dizem que os americanos e os ingleses têm preparados milhões
de aviões para nos bombardear”, lhe disse um dia Piero, seu amigo, de catorze
anos. Gino andava muito preocupado, não pelos prováveis bombardeios, mas
porque preocupados andavam seus pais e as pessoas da aldeia. Entretanto,
ninguém se mexia, ninguém falava em ir para o Norte ou para o Sul;
aparentemente, suas trinta casas os prendiam mais que o medo às bombas aliadas. Os alimentos já
começavam a escassear. Todos os dias passava
gente pedindo o que comer, e sua mãe, ou sua avó, davam o que podiam.
Primeiro foram os partizans, em seguida os alemães que perseguiam os
partizans, depois os refugiados que fugiam do Sul, e assim sucessivamente.
Não havia jeito de recusar auxílio. Se se negasse comida aos partizans,
corria-se o risco de ser acusado de não prestar ajuda aos compatriotas; negar
aos fascistas e aos alemães era impossível, porque eles revistariam a casa.
Gino sabia de vizinhos que escondiam presuntos, enterrando-os no jardim, ou
de gente que acompanhou, dias e dias, o exército alemão em retirada, para ver
se recuperava uma vaca, ou umas cabras. Em ambos os casos, as conseqüências
eram represálias, risco de ser assassinados ou enviados a campos de
concentração alemães. Além de tudo isso, os partizans prometiam castigo a
toda e qualquer ajuda prestada aos alemães, e os alemães a todo tipo de ajuda
que fosse prestada aos partizans. Gino não compreendia
muito bem todo esse processo, mas sentia que os seus pais ficavam tensos cada
vez que alguém batia à porta. Um domingo, cedinho,
os partizans passaram e pediram o que comer; a avó deu-lhes o pouco que
tinham. Pouco depois, bateram outra vez à porta, e Gino abriu: no umbral
estava a figura cansada de um soldado alemão, com o capacete enterrado até os
olhos e as botas cheias de poeira. Fazia parte de uma patrulha que perseguia
os partizans; também pediram o que comer. - Não temos mais nada
- disse a mãe. - Veremos - respondeu
o chefe do grupo. Rapidamente, começaram a abrir portas e armários a
coronhadas e pontapés. Por fim, um dos
alemães encontrou, num armário, um prato com um ovo, uma xícara de leite e um
pouco de queijo. - E isto o que é? -
gritou. - Isto é para o menino...
- a avó titubeou, apontando a Gino. Os alemães
entreolharam-se. Depois de um instante, o que parecia ser o comandante do
grupo murmurou, com um sorriso cansado, para a avó: - Bom, se é para o
menino, está certo... Os soldados sorriram
então para Gino... e se foram. Admoestação Os dois generais
seguiam de jipe para receber ordens no Quartel-General. Eram dois veteranos
rudes e curtidos em cem combates, e talvez por isto as formalidades estavam fora
de seus costumes. Terry Allen ia no assento dianteiro, com o capacete no
colo, e Roosevelt estava com seu gorro, enfeitado com borlas que, na frente
de combate, eram símbolo de prestígio, mas cujo uso fôra expressamente
proibido por uma determinação recente. Pouco antes de chegar ao
Quartel-General, um polícia militar lhes fez sinal para parar. O soldado
ficou rubro quando viu as estrelas dos ocupantes do veículo, mas, após
pequena vacilação, disse: -Lamento, meu General,
mas tenho que entregar este aviso a todo aquele que andar sem capacete. Meu
capitão me faria uma séria reprimenda se visse o senhor continuar assim. Terry Allen sorriu e
colocou o capacete, o que, porém, não impediu que o polícia militar lhe
entregasse a advertência. O General Roosevelt
reagiu de outra maneira; ficou sério e protestou: - Olhe, rapaz, você
não sabe quem é o General Allen, da 1a Divisão? - Sei sim, senhor -
replicou o soldado, e ao senhor também eu conheço, General Roosevelt; e tenho
que lhe entregar também esta advertência por estar usando gorro enfeitado. O General,
contrafeito, tirou o gorro e apanhou o papel que lhe estendia o soldado. Ao
chegarem à presença do Comandante, Roosevelt disse, desconsolado: - General, nós nos
entendemos muito melhor com os “Krauts”, lá na frente de combate, do que
aqui, com esta gente meticulosa que o senhor tem na retaguarda. Aqueles que perderam a
liberdade “Aos soldados
inimigos, aprisionados pelas forças armadas dos Estados Unidos, são
ministrados, quando necessário, imediatos socorros médicos. Em seguida são
enviados à retaguarda. O exército distribui roupa, escova de dentes,
aparelhos de barba e cigarros aos que necessitam. A alimentação destes
prisioneiros é igual à que recebem os soldados americanos, com a única
ressalva que, às vezes, os pratos são adaptados ao gosto do prisioneiro, de
acordo com seu país de origem... Sendo necessário, os prisioneiros são
transferidos para os Estados Unidos. A 1o de junho de 1943, havia
22.110 prisioneiros de guerra alemães, em 21 acampamentos. Também havia
14.516 italianos e 62 japoneses. Cada grupo de prisioneiros é alojado em
acampamentos diferentes. Ali, são organizados em companhias de 250 homens,
sob as ordens de um capitão do exército dos Estados Unidos. Geralmente as
companhias se administram por si mesmas, elegem seus próprios sargentos,
cozinheiros, barbeiros, alfaiates, sapateiros, etc. É-lhes permitido, além
disso, organizarem-se em sociedades autônomas para tratar de seus problemas e
facilitar as relações entre os prisioneiros e os comandantes dos
acampamentos. Os membros das esquadras, dos pelotões, das companhias, dos
batalhões, etc., podem eleger seus próprios representantes para falar em nome
dos demais, apresentar petições ou queixas ao capitão da companhia ou ao
próprio comandante do acampamento. As queixas também podem ser feitas
diretamente às Legações ou Embaixadas das potências encarregadas de zelar
pelas interesses de cada nacionalidade: à Suíça, pela Alemanha e Itália, à
Espanha, pelo Japão. Todas as ocupações a
que os prisioneiros se dedicam se restringem aos termos da Convenção de
Genebra. De acordo com esta, é necessário salvaguardar os prisioneiros de
qualquer violência, abuso, curiosidade do público, e exploração de qualquer
tipo. Com essas ressalvas,
todo prisioneiro de guerra, salvo os oficiais, pode ser utilizado para obras
ou trabalhos que não estejam diretamente relacionados com as operações
militares. É permitido empregá-los em grande escala na construção de
estradas, obras hidráulicas de irrigação e trabalhos análogos. Todos os soldados
prisioneiros, trabalhem ou não, recebem uma contribuição em dinheiro,
diariamente, para comprar objetos de asseio, refresco, cigarros e outras
coisas, na cantina do acampamento. O soldo de um prisioneiro de guerra,
quando trabalha, é de pelo menos oitenta centavos de dólar por dia. Este
dinheiro é depositado na sua conta, dela podendo gastar, por meio de cupons,
até a metade do soldo mensal”. (Artigo publicado
durante a Segunda Guerra Mundial, por “En Guardia”.) Sombras na neve A ordem foi entregue
ao Tenente Hood. “Efetivos: 1 pelotão e
10 partizans. Missão: Estabelecer
contato com o inimigo. Hora de partida: 19
horas. Dia 7. Hora de regresso: 3 horas. Dia 8...” Mais abaixo figuram
outros dados, tais como itinerário e apoio de fogo. Hood reúne seus
homens, e lhes dá as instruções; recomenda ter especial cuidado com a
orientação à noite, porque “um homem perdido na escuridão é um homem
desaparecido”. A recomendação parece trivial,
porém ele sabe que, apesar dos relatos e filmes de propaganda, os soldados
ianques que se extraviaram nas montanhas nevadas não voltaram. As 19 horas, a
patrulha parte. A medida que avança, divide-se em duas. O grupo de Hood chega
ao rio que começa a descongelar; a primavera aproxima-se e o frio não é tão
intenso. Inclusive, a neve está menos densa. Revistam algumas
casas, porém nem rastros dos alemães. Entre os civis
interrogados, um previne Hood que nas proximidades há um posto avançado
alemão. O tenente pede que ele os acompanhe para mostrar o caminho. O civil
aponta a direção, mas se nega a acompanhá-los. “Estou muito doente”,
lhe diz o homem, tremendo como vara verde. Hood lhe aponta a pistola:
“Vamos...”. O homem obedece. O tenente distribui seis homens com
fuzis-metralhadoras para cobrir o avanço da patrulha. Pouco a pouco, se
aproximam de uma pequena planície. Hood manda o civil avançar, seguido de
perto por um soldado. Dão alguns passos. “Sentinela Tedesca!”, grita o civil,
fugindo espavorido. Começa o fogo e tombam o civil e o soldado, varados pelos
disparos alemães. Hood atira, incessantemente, com sua metralhadora portátil,
cobrindo a retirada de seus homens. Um americano lança uma granada de mão em
direção ao posto inimigo, e o combate se generaliza. Hood ordena um recuo
rápido. A missão fôra cumprida, seu pelotão estabelecera contato com o
inimigo; o resto é problema da artilharia e da Força Aérea, e, em última
instância, do Alto-Comando aliado. Em marcha forçada chegam às casas que
revistaram uma hora atrás. Estão completamente vazias. - “Melhor!”, pensa
Hood. “Assim ninguém perguntará pelo civil; durante a guerra sempre é difícil
dar explicações. Ninguém sabe muito bem por que acontecem as coisas. E ainda
que soubesse, como é possível explicar, a um civil, que outro civil morreu
num combate sem importância, unicamente para que um tenente do Exército dos
Estados Unidos cumprisse uma missão do comando?”. Férias para o Sargento
Myrand O Sargento Harry
Myrand estava encolhido numa “cova de raposa”, coberta de neve, perto do vale
do Pó... Em meio à escuridão da noite, esforçava-se para divisar os
movimentos das patrulhas alemães. De repente, sentiu que
lhe tocavam o ombro. Myrand virou-se violentamente, em seu improvisado
refúgio, já empunhando o fuzil. - Ouça, sargento; o
chefe... Era um mensageiro que
rastejara pela neve até à fossa onde se escondia Harry Myrand. - ... manda-lhe dizer
que vá ao quartel, porque amanhã o senhor viaja para os Estados Unidos. O sargento, refeito do
susto, responde com um grunhido: - Deixe de brincadeiras! Saia daqui antes
que um tiro o alcance... - O senhor é o
sargento Harry Myrand, não é? Da 10a Companhia... Estou enganado? - Não, não está
enganado, mas não gosto de brincadeiras... O sargento Myrand
lutara na África e na Itália com o Primeiro Exército. Ganhou a Cruz de Prata
por ter salvo vários feridos em Salerno, debaixo do fogo dos alemães, e
ter-se apoderado de um ninho de metralhadoras nas proximidades do Arno.
Recebera também a Estrela de Bronze, uma menção Honrosa Presidencial e, pelos
três ferimentos que sofrera, merecera o Coração Púrpura. Há mais de três anos
que vinha combatendo. Myrand era um veterano... O mensageiro jura, e
torna a jurar, que o que disse era a pura verdade; explica que não tem muito
sentido arrastar-se debaixo do fogo inimigo só para fazer uma brincadeira. O sargento, relutante,
acaba acreditando. No quartel,
certifica-se que é um dos 1.300 veteranos que foram selecionados para gozar
uma licença de 30 dias nos Estados Unidos. Antes de partir,
porém, Myrand quer deixar seu trabalho em dia, e reúne os soldados que
integram a patrulha de que é comandante, e põem-se em marcha rumo às linhas
alemães para completar sua missão. O sargento procura nem pensar em como
seria horrível morrer agora que tem a pátria ao alcance das mãos. Durante uma hora, ele
e seus homens estabelecem contato com o inimigo, sofrendo o fogo das
metralhadoras alemãs. Ao regressar, o veículo de patrulha bate numa mina
terrestre e voa pelos ares. Há vários feridos; Harry, porém, sai ileso. A noite, o sargento é
festejado pelos companheiros. Uns o felicitam, outros lhe oferecem dinheiro,
alguns pedem favores e outros o incumbem de transmitir notícias para
familiares. Naquela noite, Myrand
não consegue dormir; lutara tanto, dia após dia, arriscando-se debaixo de
chuva, frio, neve. São recordações que o fazem delir ar, como um pesadelo na
mente de um moribundo... Limite de segurança “Enquanto, pelo lado alemão,
o comandante supremo das tropas na Itália só podia solicitar o apoio da
aviação e da marinha de guerra, existiam no lado aliado relações nitidamente
delimitadas. O Marechal-de-Campo lorde Alexander era o “Comandante Supremo do
Mediterrâneo”, gozando de todas as atribuições necessárias ao seu cargo, não
recebendo contínuas ordens “de cima”. Se encarregado de uma missão, informava
suas intenções a seus superiores, e gozava de plena liberdade para levá-las a
cabo. Ninguém se imiscuía em detalhes sem importância sobre as operações
militares que ele planejava. Pelo lado aliado
existiam todas as condições para uma vitória rápida. Se foi necessário tanto
tempo para derrotar as tropas alemãs, isto se deve à maneira de proceder dos
Aliados, observada já na campanha da África. De acordo com nosso
ponto de vista, os Aliados atuaram sempre com muitas garantias; isto não quer
dizer que tenham procedido assim para poupar vidas. Este esforço mereceria a
mais alta consideração. Teria sido poupado enorme número de vidas se os
Aliados, em setembro de 1943, não houvessem desembarcado em Salerno, mas sim
em Roma, e em janeiro de 1944, não em Anzio, mas sim em Livorno. Devido à sua
atuação extremamente cautelosa, deixaram escapar muitas oportunidades, entre
as quais a interrupção do avanço das tropas de Montgomery depois de romper a
frente alemã no Sangro. Os Aliados conquistaram a Itália mediante ataques
frontais, numa avançada penosa por todo o território da península. Quem será capaz de
negar que uma ação audaciosa lhes teria dado a posse da Itália central e
meridional já no outono de 1943? Tampouco é possível
negar que uma invasão na região de Livorno, na primavera de 1944, teria
cortado as comunicações das tropas de Kesselring, e as teria aniquilado. No
vale do Pó não existiam forças. No verão de 1944, toda a Itália já poderia
estar nas mãos dos Aliados. Sabiam perfeitamente que a Luftwaffe já não
existia. Estavam a par dos problemas de transporte e comunicações. O afã de
evitar todos os possíveis riscos, no entanto, os levou a atrasar uma campanha
que poderia, com muita antecedência, ter-lhes dado o êxito que buscavam”. |