Reconquista da Birmânia

 

Objetivo japonês: Nova Déli

            

Cerco de Imphal

Luta em Kohima

 

 

A tomada de Myitkyina, no norte da Birmânia, por Stilwell, a 3 de agosto de 1944, significou para as armas aliadas um benefício de inestimável valor estratégico. Anteriormente à guerra, Myitkyina já era uma etapa na linha aérea que unia a China com a Índia; seu aeródromo, portanto, tinha condições para ser reparado, ampliado e utilizado pelas forças aéreas aliadas. Além disso, a cidade encontrava-se junto ao largo rio Irrauadi, ao sul do ponto onde este desemboca em torrentes das gargantas das colinas de Kachin, tornando-se navegável para lanchas e balsas. A partir do porto, portanto, assim como a partir de Mogaung, seria possível transportar abastecimentos rio abaixo, para os exércitos aliados que marchavam em direção sul, na estrada de Mandalay.

 

O norte da Birmânia encontrava-se, portanto, nas mãos aliadas. E a marcha rumo à China já era uma realidade muito próxima.

 

Entretanto, no campo japonês, os planos não eram menos ambiciosos. De fato, desde 1943 o Alto-Comando japonês trabalhava na denominada Operação U, que consistia num avanço sobre a Índia e sua posterior ocupação.

 

O comando japonês, decidido a levar a operação a bom termo, concentrou forças que se elevaram, gradualmente, de quatro a quase onze divisões. A zona escolhida para o operação era o Estado de Manipur, e o objetivo almejado pelos japoneses era múltiplo:

1) Cruzar o fronteira da Índia e capturar a base de Imphall.

2) Cortar a via férrea Bengala-Asam, linha vital para Stilwell, que recebia seus abastecimentos através dela; privado dessa via, o chefe aliado teria de abandonar a campanha do Norte e retirar-se para Ledo.

3) Invadir os aeródromos de Asam, interrompendo o tráfego aerotransportado à China. Isto deteria o abastecimento de munições aos exércitos de Chiang Kai-shek.

 

O General Mutaguchi, na "Ordem do Dia" dirigido às suas tropas, referindo-se à citada campanha, disse: “... atrairá a atenção do mundo inteiro e é ansiosamente esperada por cem milhões de nossos compatriotas. Seu êxito terá um profundo efeito sobre o curso da guerra e pode conduzir até à sua conclusão...”.

 

Um total de 100.000 soldados cuidadosamente selecionados e treinados foram designados para efetuar a operação. Todos eram veteranos da guerra na selva e a luta não tinha segredos para eles. Confiante nesse plano ambicioso e em tão grande número de excelentes combatentes, era compreensível que o Alto-Comando japonês se mostrasse extremamente otimista.

 

O tenente-general britânico Slim, contudo, após estudar fria e metodicamente a situação, concluiu que, para ele somente restavam três possíveis soluções:

a) Antecipar-se ao ataque japonês, lançando suas próprias tropas através do rio Chindwin.

b) Combater os japoneses na linha do Chindwin.

c) Retirar suas tropas da fronteira até ao planalto de Imphall e ali travar a batalha decisiva.

 

Adotar a solução a significaria enfrentar a força japonesa tendo um rio às suas costas e confiando, quase totalmente, nos transportes aéreos durante a época da monção; o plano b o obrigaria a depender de uma precária linha de comunicações através das montanhas; o c, ao contrário, significava transferir os citados inconvenientes aos japoneses. Portanto, foi esse o critério adotado. As tropas se retirariam para o planalto de Imphall e ali aguardariam o choque com o inimigo.

 

Imediatamente, o Tenente-General Slim manteve uma conferência com o Tenente-General Geoffry Scoones, comandante do 4o Corpo hindu, que constituía a força disponível naquele setor, e com o Marechal-do-Ar Sir John Baldwin, comandante da 3a Força Aérea Tática. Baseada nos planos elaborados nessa reunião foi travada a batalha de Imphall.

 

 

O cenário da luta

 

A fronteira entre a Birmânia e a Índia se encontra claramente delimitada pelas montanhas de Manipur. No coração delas, a uma altura de 900 metros, localiza-se o planalto de Imphall, com uma superfície de aproximadamente 1.550 quilômetros quadrados e uma forma ligeiramente circular.

 

A zona, de vital importância para os britânicos, fôra preparada para servir de base a operações ofensivas e defensivas. Construíram-se ali grandes depósitos de abastecimentos, hospitais e acampamentos para os combatentes e operários, bem como alguns aeroportos e quatro pistas de aterrissagem para os aviões de combate.

 

Do ponto de vista, ofensivo, o planalto de Imphall, nas mãos dos britânicos, significava uma grave ameaça para a brecha de Kalewa, ao sul de Imphall, que permitia o ingresso à zona central da Birmânia, onde se concentrava o poder japonês.

 

Em março de 1944, o mau tempo convertera Imphall numa difícil zona de combate, especialmente para as forças aéreas. As tempestades elétricas e as chuvas, reduziam a visibilidade a zero, impedindo totalmente os vôos, ameaçados ainda pelos ataques dos caças japoneses que, temerariamente, voavam, apesar das péssimas condições atmosféricas.

 

A defesa aérea de Imphall estava baseada em três esquadrões de Spitfire, quatro de Hurricane e um destacamento de Beaufighter. Baterias antiaéreas, em quantidade regular, apoiavam os caças na batalha.

 

As forças terrestres estavam dispostas em três setores, em redor de Imphall. Ao sul da cidade, nos arredores de Tiddim, encontrava-se distribuída a 17a Divisão hindu, sob o comando do Major-General "Punch" Cowan; a leste, o Major-General Douglas Gracey estava à frente da 20a Divisão hindu, cobrindo o vale de Kabaw; a nordeste, por fim, em Ukhrul, estava localizada a 23a Divisão hindu, sob a ordens do Major-General Ouvry Roberts.

 

Dentro do planalto, por sua vez, o Tenente-General Scoones determinou a construção de defesas, redutos e cercas de arame farpado, enquanto intensificava o treinamento das tropas.

 

A RAF, além disso, estudou diversas medidas de proteção dos seus aeródromos e bases de suprimentos. Imphall começava a se converter, lentamente, numa pequena Stalingrado.

 

Os efetivos japoneses

 

Os planos japoneses previam a intervenção de três divisões na luta. Eram a 33a, a 15a e a 31a.

 

A 33a se aproximaria de Imphall pelo sul, sitiando-a e isolando-a ao mesmo tempo, das tropas britânicas sediadas em Tiddim.

 

A 15a se poria em marcha dez dias mais tarde, avançando para o oeste, e depois para o norte, em direção a Imphall, com o objetivo de cercá-la. A 31a avançaria também para o oeste e depois para o norte, com o fim de tomar Kohima, ponto de onde poderia, facilmente, cortar a via férrea Bengala-Asam, de importância capital para Stilwell, que recebia os seus abastecimentos através dela.

 

O plano japonês condicionava as operações à rapidez com que pudessem ser capturadas Imphall e Kohima. As duas cidades, de fato, teriam que ser conquistadas antes da chegada de reforços aliados. O motivo dessa urgência era devido ao fato dos exércitos japoneses contarem, para seu abastecimento, com os depósitos aliados que se encontravam nas duas cidades. As picadas através dos quais os japoneses deveriam avançar, ásperas e abruptas, não permitiam o envio regular de comboios e apenas podiam, a duras penas, ser transitadas por meios de transportes rudimentares, preferencialmente mulas e elefantes. Tal situação dá uma clara idéia da audácia do plano japonês, pois deixava entregue praticamente ao acaso o elemento que exige mais precisão na marcha de um exército: a logística, isto é, a movimentação e abastecimento de uma unidade armada.

 

Com o objetivo de acelerar ao máximo a marcha, as colunas de transporte japonesas, integradas em sua maioria, por veículos puxados por bois e elefantes, receberam ordem de avançar uma média de 22 km por dia.

 

Começa a ofensiva japonesa

 

A 7 de março, dois dias depois que Wingate desembarcara seus "chindits" aerotransportados no coração da Birmânia, as patrulhas japonesas começaram o pressionar as vanguardas britânicas em redor do Pico Kennedy, a leste da cidade de Tiddim. A elevação, de 2.700 metros, fôra rodeada por baterias britânicas que mantinham freqüentes duelos com a artilharia de montanha japonesa.

 

O plano japonês, contudo, começou a se concretizar quando suas forças começaram a avançar sobre Tiddim, pelo sul, num ampla manobra de envolvimento.

 

Em Tiddim, a guarnição era constituída pelos efetivos da 17a Divisão hindu, conhecidos pelo apelido de "gatos negros", aludindo ao emblema da Divisão. A 17a, veterana, com dois anos de campanha ininterrupta, recebeu, então, ordem de movimentar seus efetivos rumo ao norte, em direção a Imphall.

 

O Major-General Cowan, comandante da unidade, foi informado da retirada no dia 12 de março. De acordo com seus planos, a marcha de suas unidades teria que realizar-se ao amanhecer do dia 14. Contudo, no dia 13, às 3 da madrugada, decidiu intuitivamente partir de imediato, decisão que resultou afortunada, pois a velocidade do avanço dos japoneses era maior do que a calculada pelos comandos aliados.

 

De acordo com as ordens de Cowan, a Divisão partiria ao pôr-do-sol. E, de fato, assim sucedeu. Ao entardecer, toda a unidade se pôs em movimento, abandonando Tiddim, em chamas. Levava consigo 4.000 mulas e 2.000 veículos e, durante a noite, algumas unidades percorreram 65 km do difícil caminho da montanha.

 

Cowan, junto com seus homens, marchou a pé, seguido pelo seu Estado-Maior. Havia dado ordem de utilizar os transportes motorizados exclusivamente para os feridos e abastecimentos, e a ordem foi cumprida ao pé da letra, ante o exemplo do chefe britânico.

 

Na campo japonês, enquanto isso, as tropas da 33a Divisão haviam recebido ordens de destruir as unidades de Cowan, antes que elas chegassem a Imphall. Os japoneses extremaram as medidas para pressionar os efetivos britânicos, no intento de aniquila-los, atacando-os pelos flancos e despejando intenso fogo sobre eles. Apesar de tudo, os homens da 17a Divisão suportaram os ataques e se mantiveram, tenazmente, na defensiva, até vencer a difícil situação. Contudo, as dificuldades que as unidades da 17a tiveram que superar, fizeram com que a marcha se atrasasse consideravelmente. Em conseqüência, os japoneses estiveram bem próximos do seu objetivo de cercar a força britânica. O Tenente-General Scoones, a fim de impedi-lo, ordenou à 23a Divisão que mantivesse afastado o inimigo. Fazia-se necessário, para dar seguimento aos planos e libertar a 17a do assédio, desalojar os japoneses que se haviam entrincheirado em ambos os lados da estrada de Tiddim-Imphall. A 23a Divisão, então, apoiada pelos tanques leves do 7o Regimento de Cavalaria hindu, atacou os japoneses, vencendo-os e obrigando-os a abandonar a zona. Tal fato permitiu, afinal, que a 17a marchasse para Imphall sem encontrar obstáculos em seu caminho.

 

Também, vinda de Tamu, a sudeste de Imphall, chegou a esta cidade, a 20a Divisão hindu.

 

A travessia do Chindwin

 

A 17 de março de 1944, as colunas japonesas cruzaram em massa o rio Chindwin, no trecho que se estende entre Thaungdut e Homalin, exatamente a leste de Imphall, a 140 km da cidade.

 

As unidades japonesas avançaram rapidamente. Os soldados, equipados da forma mais leve possível, queimaram etapas, pressionados pelos seus chefes. No setor aliado, as guarnições esperavam o choque. Estas haviam sido reforçadas, e, em Ukhrul, a 90 km a nordeste de Imphall, encontrava-se a 50a Brigada de pára-quedistas, enviada precipitadamente, por via aérea, como reforço. Os pára-quedistas haviam sido distribuídos como tropa de infantaria e enfrentavam o ataque japonês, infligindo grandes perdas ao invasor.

 

No entanto, apesar da desesperada resistência das unidades britânicas, o avanço japonês continuava extremamente rápido.

 

A 22 de março, os efetivos japoneses haviam percorrido a metade do caminho que os separava de Imphall e se encontravam na fronteira da Índia. As colunas japonesas cerravam-se gradualmente sobre o objetivo maior: Imphall.

 

As tropas britânicas combatiam duramente obrigando os japoneses a lutar sem trégua para seguir adiante. Paralelamente, aviões de combate do 221o Grupo atacavam incessantemente as bases japonesas ao longo do Chindwin. A bandeira do Sol Nascente, porém, fôra içada pela primeira vez no território da Índia. Em Kohima, 120 km ao norte de Imphall, os japoneses também avançavam. Ali, prevendo o ataque, o Tenente-General Slim reforçara a sua guarnição, instalando novas posições defensivas.

 

Em Kohima se encontravam unidades mistas de Rifleiros de Asam, um Regimento de birmaneses, os gurkhas, o Regimento Shere, de Nepal, e os punjabis e mahrattas, juntamente com unidades de trabalhadores, sapadores, artilharia, transporte, ambulâncias e saúde. No hospital se alojavam cerca de 1.500 feridos.

 

As posições de cobertura de Phek, Kharason e Jessami, que se encontravam a leste e sudeste de Kohima, estavam guarnecidas pelo Regimento de Asam. Contra elas precipitou-se uma divisão japonesa, com todos os seus efetivos.

 

Enquanto se desenrolavam estes acontecimentos, o comandante-supremo aliado, Almirante Lord Louis Mountbatten, encontrava-se num hospital da frente norte. Ferido no rosto por uma estaca de bambu, estava como os olhos vendados pois sua vista perigava e seu estado geral exigia cuidados. Contudo, ao ter conhecimento do ataque japonês, Mountbatten abandonou o hospital e viajou para o QG do 14° Exército, onde conferenciou com o Tenente-General Slim e o Marechal-do-Ar Baldwin.

 

As unidades aliadas dispunham de reforços na Índia e em outros setores onde a pressão japonesa era menor. O problema consistia em como transportá-los à zona ameaçada. A viagem por terra era praticamente impossível pelo tempo que demandaria. Somente restava a via aérea, e recorreu-se, então, à ela. Vinte e quatro transportes aéreos americanos foram designados para o transporte dos efetivos da 5a Divisão hindu, de Aracan até Kohima.

 

A retirada britânica

 

As tropas de vanguarda britânicas, enquanto isso, resistiam ao ataque dos japoneses. Porém, ao tomar conhecimento da importância da investida e da quantidade de efetivos inimigos empenhados na luta, o comando aliado decidiu recuar suas forças e concentra-las em Kohima. As ordens foram despachados por avião, devido as linhas telefônicas já terem sido cortadas pelas vanguardas japonesas. Os acontecimentos atingiram níveis verdadeiramente dramáticos. Em Jessami, por exemplo, as tropas haviam mudado de posição durante a noite e a ordem caiu nas linhas japonesas. No dia seguinte, uma segunda mensagem caiu fora das defesas britânicas e travou-se um furioso combate pela sua posse. Os japoneses, atacando violentamente, conseguiram apreendê-la. Três voluntários hindus, com a missão de chegar até Jessami, partiram em três direções diferentes. Nenhum deles, porém, chegou ao destino. Finalmente, o Tenente Corlett, do Regimento de Asam, que se encontrava em Phek, a 32 km de distância, incumbiu-se da missão, cumprindo-a. A guarnição de Jessami, enquanto isso, abandonara suas posições e se retirava em direção ao norte, para unir-se com a força principal. Simultaneamente, o avanço japonês continuava; Kohima, ficou para trás, rodeada pelos efetivos japoneses, no dia 4 de abril de 1944. Imphall, por sua vez, fôra isolada pelos japoneses, no dia 30 de março.

 

A situação das forças britânicas, contudo, não chegava a ser desesperadora. O General Sir Claude Auchinleck declarou, a respeito, em Déli: “Imphall ainda se encontra em nossas mãos e está fortemente defendida. Sempre são possíveis as penetrações por pequenos grupos do inimigo, porém, sem grande importância. Nossos chefes não têm a intenção de deixar Imphall cair nas mãos dos inimigos”.

 

O cerco de Imphall

 

No planalto de Imphall, o 4° Corpo, reforçado, esperava os japoneses. Estes, que contavam com uma retirada geral britânica, depararam com um verdadeiro muro de contenção.

 

O Tenente-General Slim começara evacuando todo o pessoal não indispensável. Cerca de 52.000 pessoas, civis e não combatentes, deixaram o local. Ali ficavam, exclusivamente, os que estivessem capacitados a empunhar uma arma.

 

O abastecimento, que não podia ser feito por terra; pois todas as possíveis rotas estavam cortadas, ficou nas mãos da força aérea, que cumpriu eficazmente a sua tarefa, transportando munições e víveres em quantidade. Imphall ficou praticamente convertida numa base ofensiva, e não em um reduto sitiado, condenado a uma defesa precária.

 

Na sua penetração, os japoneses chegaram até às proximidades da cidade. Suas vanguardas ocuparam as cristas das colinas que dominavam o aeroporto, situado ao norte da cidade. Os efetivos da 5a Divisão, recentemente chegados por avião, reforçados com tanques, se lançaram ao contra-ataque. Os japoneses combateram com o máximo de energia e decisão mas os defensores conseguiram sustar o seu avanço.

 

No ar, a aviação japonesa se lançou à batalha com grande quantidade de efetivos. Os aviões da 3a Força Aérea Tática, na entanto, os varreram dos céus, e, imediatamente, passaram a apoiar o 14° Exército. A missão da 3a Força Aérea se resumia em quatro palavras: atacar, apoiar, abastecer e estrangular. Atacar para limpar o céu de aviões inimigos; apoiar as forças aliadas com bombardeios e metralha; abastecê-las constantemente e estrangular o abastecimento do inimigo, destruindo suas linhas de comunicação, seus transportes e depósitos.

 

Ao todo, vinte e um esquadrões aliados tomaram parte na ofensiva aérea. Três deles eram hindus: 1, 7 e 9; os demais, da RAF, eram os números 5, 11, 20, 28, 34, 42, 60, 81, 82, 84, 110, 113, 123, 136, 152, 176, 607 e 615.

 

Os bombardeiros médios, do comando aéreo do Leste, alcançavam todos os pontos do território da Birmânia em mãos do inimigo. Os bombardeiros pesados, ao mesmo tempo, voavam até Bancoc. No curso de três dias os efetivos da USAAF (Força Aérea Americana) destruíram 63 aviões inimigos em terra. Por outro lado, o trânsito inimigo, através dos rios Chindwin e Irrauadi, foi totalmente interrompido. A missão dos aviões aliados, que consistia em abastecer os sitiados, foi completada com a evacuação dos feridos; foram retirados cerca de 30.000 soldados por via aérea sem que se produzisse uma só perda.

 

A luta em Kohima

 

Enquanto isso, em Kohima, a situação assumia caráter de extrema gravidade para os sitiados. Os japoneses haviam cortado todos os caminhos de acesso à cidade, isolando-a por completo, pois não existia nenhuma pista de aterrissagem.

 

A guarnição, de uns 3.500 homens, teria que suportar o assédio de cerca de 15.000 atacantes japoneses. Com o objetivo de neutralizar a ameaça que pairava sobre a linha ferroviária Bengala-Asam, de importância vital, que corria de leste a oeste, a uns 50 km ao norte de Kohima, Lord Mountbatten resolveu enviar, da Índia, o 33° Corpo hindu, sob o comando do Tenente-General Montagu Stopford. A missão deste militar não se limitaria a manter aberto o caminho entre Kohima e Dimapur, 50 km a oeste da primeira, na via férrea, mas deveria também, estar preparado para avançar rumo ao sul e estabelecer contato com o 4° Corpo no planalto de Imphall. O citado Corpo, por sua vez, deveria empreender a marcha rumo ao norte, para apressar o encontro.

 

A situação das forças britânicas, nessa oportunidade, era a seguinte: a 5 de abril, a 161a Brigada havia chegado a Dimapur por via aérea. Imediatamente, fôra determinado o seu deslocamento para Kohima. Parte dos efetivos, em cumprimento da ordem, conseguiram penetrar na cidade antes que os japoneses fechassem por completo o cerco. Outra parte deles, no entanto, ficou cercada a poucos quilômetros dali. Os objetivos britânicos, conseqüentemente, eram os seguintes:

1) Libertar a 161a Brigada a caminho de Kohima.

2) Libertar as tropas de Kohima.

3) Expulsar os japoneses de Kohima.

 

Os efetivos da 2a Divisão britânica, sob o comando do Major-General John Grover, lançaram-se imediatamente ao ataque. A operação, dificultada pelas condições do terreno, foi facilitada pelo emprego da aviação, que abasteceu as unidades de víveres e munições. Os Cameron Highlanders, apoiados por tanques Grant e artilharia de montanha, irromperam através dos obstáculos implantados pelos japoneses e, finalmente, estabeleceram contato com os efetivos da 161a Brigada que se achavam isoladas.

 

Foi então iniciada a etapa n° 2: o levantamento do sítio de Kohima. Nos arredores da cidade, as unidades japonesas ocupavam posições extremamente favoráveis para o ataque e a defesa. Das elevações em que se encontravam, os japoneses podiam disparar indistintamente sobre os reforços que chegavam e sobre a guarnição sitiada.

 

O cerco em torno de Kohima havia-se estreitado gradualmente, até comprimir, literalmente, a cidade num cinturão de fogo. As posições japonesas encontravam-se, também, muito próximas das britânicas, e chegou a acontecer que casas dos subúrbios da cidade caíram em mãos de forças japonesas e britânicas, separadas por uma estreita faixa de terreno ou, às vezes, uma simples parede.

 

Ao se aproximar o crepúsculo, as baterias e metralhadoras japonesas abriam fogo, levantando uma verdadeira barreira de projéteis. Depois, assim que as sombras da noite desciam sobre o local, a infantaria se lançava ao assalto.

 

Logo os abastecimentos começaram a escassear. Recorreu-se, novamente, à aviação, que começou a voar sobre as posições britânicas através da cortina de fogo inimiga.

 

A água, precioso elemento para os sitiados, passou a escassear de forma alarmante. A única fonte se encontrava a uns trinta metros das linhas japonesas e os homens tinham que se arrastar, um por um, para encher os seus cantis, suportando o fogo dos atiradores japoneses. A ração diária chegou a ser de meio litro por pessoa. O descanso limitou-se ao mínimo e os combatentes nunca puderam desfrutar de mais de duas horas diárias de sono. Os feridos se amontoavam penosamente e os medicamentos escasseavam cada vez mais. A guarnição, por fim, foi obrigada a agrupar-se e ocupar uma extensão diminuta de terreno. O lugar, conhecido como "Colina da Glória" chegaria a ser tristemente famoso. Ali, os soldados estavam permanentemente sob o peso das baterias japonesas, que se alternavam com intermináveis rajadas de metralhadoras. A luta, minuto a minuto, aumentou em ferocidade. Um povoado, Kungpi, mudou cinco vezes de ocupantes, no decorrer da batalha A encarniçada defesa, contudo, causava grande quantidade de baixas aos atacantes, que cada vez mais se cingiram ao costume de atacar com a infantaria somente durante a noite. As horas do dia, desde o amanhecer até ao crepúsculo, consistiam numa interminável sucessão de disparos de artilharia, morteiros e metralhadoras.

 

Chegam reforços a Kohima

 

No dia 18 de abril de 1944, chegaram a Kohima os primeiros reforços. Rompendo o cerco inimigo, penetraram na cidade. Foram recebidos por estranhos grupos de homens barbudos, cobertos de sangue e poeira, revelando no semblante as marcas da luta, o sofrimento e um cansaço infinito. Não houve cenas de alegria, nem gritos, nem vivas. Somente olhares vazios, perdidos, fixos... Em sua maioria, os sitiados estavam tão aturdidos que nem sequer compreendiam que acabavam de salvar-se. No dia seguinte, o Regimento Royal Berkshire, em formação, entram em Kohima. Ofereceu-se, então, diante dos olhos dos combatentes, uma Kohima em que já não restavam edifícios em pé, nem encanamentos, nem ruas. Apenas montanhas de escombros e pedaços de pára-quedas pendentes das árvores.

 

Contudo, Kohima ainda não estava livre. Era necessário, antes, expulsar os japoneses que ocupavam os pontos elevados que rodeavam a cidade. As colinas localizadas no flanco esquerdo britânico foram assaltadas pelos efetivos da 5a Brigada. Esses soldados avançaram impiedosamente e, afinal, conseguiram conquistar as posições designadas, apesar da furiosa resistência japonesa. No setor direito, as colinas foram atacadas pelos homens da 4a Brigada; após um assalto apoiado com granadas e fogo de metralhadoras, firmaram-se no setor conquistado, mantendo as posições até a chegada do grosso das forças britânicas.

 

Com ambos os flancos garantidos, o comandante inglês lançou seu ataque sobre a posição central inimiga. Esta se situava em Jail Hill (Colina do Cárcere). O ataque frontal ficou nas mãos das brigadas 161a e 33a, auxiliadas pela 6a.

 

O primeiro ataque ocorreu a 4 de maio, como êxito parcial. Quatro dias mais tarde, porém, Jail Hill foi tomada "à baioneta" por um batalhão do Regimento Real da Rainha. Avançando ao amanhecer, e protegidos por uma cortina de fumaça, os combatentes se lançaram sobre a posição inimiga. A luta se prolongou desde o amanhecer até à noite. Ao anoitecer, duas companhias de gurkhas chegaram em auxílio dos soldados britânicos. O duelo continuou durante toda a noite e, no dia seguinte, os soldados se lançaram novamente ao assalto. Os japoneses, porém, mantiveram-se firmes em suas posições. Mais um dia e uma noite foram necessários para desalojar os japoneses das tocas onde resistiam encarniçadamente.

 

No dia 14 de maio, a serrania de Kohima se encontrava nas mãos dos britânicos. Em alguns pontos elevados, contudo, os japoneses continuavam resistindo. Uma das mais fortes posições japonesas se encontrava na zona de Naga Village. As tropas britânicas, porém, reforçadas com os efetivos da 7a Divisão hindu, sob o comando do Major-General Messervy, lançaram-se ao assalto do reduto inimigo.

 

Foram necessários três ataques em grande escala para se obter êxito. Os sapadores tiveram que usar de toda a sua perícia para fazer explodir as tocas onde os japoneses se escondiam.

 

Assim terminou a luta que, prolongando-se durante cinqüenta dias, custou aos japoneses 4.000 mortos. Enquanto a batalha se desenrolava com toda a intensidade em Kohima, nos seus arredores a ação prosseguia sem descanso. Para impedir um possível movimento envolvente por parte dos japoneses e para ameaçar suas linhas de comunicações, ordenara-se à 23a Brigada de infantaria britânica, sob o comando do brigadier Perowne, “passar um pente fino” nos arredores. A brigada teve que se internar num terreno que foi descrito como um dos mais abruptos do mundo. Os abastecimentos eram lançados de aviões, no transcorrer do avanço.

 

Com emboscadas, avanços noturnos e truques de todos os tipos, os homens de Perowne bateram a região, eliminando japoneses numa proporção de baixas de dez contra um. Agora era chegado o momento de executar a terceira parte do plano britânico: limpar Kohima dos restos do exército inimigo e abrir cominho para Imphall, estabelecendo contato com o 4° Corpo do General Scoones, no planalto de Imphall.

 

O Tenente-General Stopford resolveu avançar diretamente com a 2a Divisão rumo ao sul, enquanto a 7a rumava para o leste, para o interior da selva, descrevendo um amplo arco em direção a Jessami, para interceptar o inimigo desde o Chindwin.

 

A 7a, de Messervy, teve que abrir caminho através de um dos territórios de mato mais densa do mundo. Contudo, a unidade demonstrou que podia marchar e lutar com tanta desenvoltura como fizera em Admin Box, em Aracan. À frente da 7a Divisão marchou a Brigada de Perowne.

 

No planalto de Imphall

 

Paralelamente com os acontecimentos citados, o 4° Corpo havia cumprido a sua missão, no planalto de Imphall. Os japoneses, de acordo com seu costume, haviam atacado com o máximo de energia. A 33a Divisão, principalmente, lançou-se à batalha, combatendo ferozmente. Porém Scoones havia preparado um contra-golpe adequado. Quando os japoneses abandonaram os seus refúgios nos colinas, A artilharia britânica e os tanques lançaram sobre eles uma verdadeira cortina de fogo, obrigando-os a retroceder e refugiar-se novamente em suas tocas. Entraram, então, em ação os bombardeiros de mergulho, pulverizando literalmente as posições japonesas. A infantaria, finalmente, se lançou ao assalto, exterminando o que restava do inimigo. Para os Aliados, a crise da frente de Manipur estava encerrada. Para os japoneses, porém, apenas começara.

 

De fato, as triunfantes divisões de Stopford começavam a afluir do norte. Tropas de infantaria e blindados avançaram debaixo de uma cortina de fumaça e fogo de canhões e morteiros, bombardeiros de mergulho e aviões de combate.

 

Ao deixar Kohima para trás, a vantagem proporcionada pela irregularidade do terreno favoreceu novamente os japoneses. O caminho para Imphall é íngreme e fora dele é necessário subir ou descer quase verticalmente. As montanhas são de grande altura e os atalhos podem servir de alvo de dezenas de posições diferentes. Buscar o inimigo nelas, "é como procurar uma agulha num palheiro". Por outro lado, a dificuldade para lutar nesse terreno via-se multiplicada com a chegada da monção. A partir do final de abril, as tormentas eram diárias, sem solução de continuidade, e convertiam a região num imenso pantanal.

 

Também os japoneses, de certo modo, se viram prejudicados pelas péssimas condições do tempo. Na verdade, sua organização logística imperfeita, foi impotente para superar os inconvenientes provocados pelas chuvas e pelos grandes temporais e, conseqüentemente, os suprimentos começaram a escassear perigosamente.

 

A resistência japonesa, apesar de tudo, não cedeu. Os soldados instigados pelos seus respectivos comandos, combatiam ferozmente, disputando cada palmo do terreno. Em Viswena teve lugar uma batalha de cinco dias. Em Maran, o ímpeto dos Worcesters capturou em 36 horas uma posição japonesa destinada a manter-se durante dez dias. Enquanto isso, a 7a Divisão, depois de ter interrompido as comunicações do inimigo entre suas bases ao longo do rio Chindwin e suas tropas a caminho de Imphall, dirigiu-se para o oeste e se reuniu com a 2a Divisão. Os japoneses estavam já na defensiva em todas as frentes. Suas forças muito reduzidas, encontravam-se disseminados ao longo do caminho para Imphall. Os planos aliados consideravam a possibilidade de destruir todas as forças japonesas como passo prévio à invasão do território birmanês, que ainda estava nas mãos dos japoneses.

 

A operação de aniquilamento começaria com a eliminação da grande base inimiga de Ukhrul, situada entre a estrada de Imphall e o rio Chindwin. Com tal finalidade, as forças de Perowne estavam já evoluindo num amplo arco sobre Ukhrul. Contudo, uma medida prévia se impunha: fechar as tenazes sobre a estrada Imphall-Kohima, o que foi conseguido no dia 22 de junho, quando os escalões avançados de ambos os corpos aliados se encontraram a poucos quilômetros ao norte de Imphall. Imediatamente, colocou-se em marcha a segunda etapa da operação. Brigadas da 7a Divisão avançaram em direção leste, até Ukhrul, enquanto unidades da 20a Divisão pressionavam em direção nordeste, ao longo do eixo Imphall-Ukhrul. As colunas de Perowne já se aproximavam, rodeando-a pelo norte, leste e sul. A sorte de Ukhrul estava selada definitivamente.

 

Em meados do mês de julho, a zona de Ukhrul estava limpa. Os Aliados continuaram a perseguição em direção ao sul, aumentando consideravelmente as baixas japonesas.

 

O principal centro de atividade, à medida que os britânicos pressionavam em direção ao leste, além de Ukhrul, deslocou-se para o extremo sul do planalto de Imphall.

 

Enquanto isso, ao sul de Imphall, em Bishenpur, estava sendo travada uma encarniçada batalha, sem quartel para nenhum dos contendores. Durante dias e noites a batalha continuou. Defrontavam-se ali a 17a Divisão britânica e a 33a japonesa, sua antiga inimiga.

 

Uma definição, contudo, não tardou. Os britânicos, apoiados por uma grande massa de artilharia, ergueram uma cortina de fogo de uma intensidade sem igual até aquele momento. Em seguida, depois do silêncio dos canhões, a infantaria realizou uma carga, avançando sobre as tocas dos japoneses e lançando nelas cargas explosivas de doze quilos. Por fim, as bandeiras do 14o Exército tremularam orgulhosas sobre o planalto de Imphall. Cinqüenta mil japoneses mortos jaziam sobre o campo de batalha. O triunfo ficara nas mãos aliadas.

 

 

Anexo

 

Os tigres da Malásia

Os homens não podiam ser muito altos: cedo ou tarde teriam que passar por nativos. O único de grande porte era o Comandante Davidson, dos Fuzileiros-Navais Britânicos, que funcionava como assessor. A base de treinamento era na Ilha de French e os cursos duravam seis meses. As matérias eram técnica da informação e da sabotagem, judô e idioma japonês.

O grupo era formado por 150 homens e conhecido pela sigla S.R.D. (Secret Reconnaissance Department). Uma tarde receberam ordem de: “ir à Malásia e destruir os navios japoneses ancorados em Singapura”.

A resposta foi a elaboração do Plano Tigre ou Arimae (Tigre em língua malaia). Um grupo de 23 homens seria transportado por um submarino até às costas de Bornéu. Uma vez ali, prosseguiriam viagem por seus próprios meios até Mopol, onde estabeleceriam sua base de operações. Para atacar os navios empregariam as Limpets, bombas magnéticas com dispositivo de tempo. Como a Limpet era uma arma secreta, teriam que evitar, a todo custo, que caísse em mãos japonesas. Dois meses mais tarde, outro submarino os recolheria em Mopol e os traria de volta. O comandante da operação Tigre era o Capitão Page, de 27 anos. Partiram da base de Freemantle, a oeste da Austrália, a 12 de agosto de 1944. Após uma viagem de 10 dias chegaram a Bornéu, onde assaltaram e capturaram um veleiro indígena, e nele viajaram até Mopol. As missões corriam normalmente: dez homens permaneciam na base enquanto os treze restantes velejavam na zona de vigilância japonesa. O Comandante Davidson, sendo muito alto, permanecia sempre no fundo do barco, enquanto os tripulantes, em equipe de três, manejavam o barco.

Realizavam uma das últimas missões quando surgiram dificuldades. O barco ostentava a bandeira japonesa e a da administração militar de Singapura, perfeitamente imitadas. Os "comandos" untaram os corpos com tinta especial para simular nativos.

Conseguiram atravessar a base de Rye sem despertar suspeitas, e assim aproximaram-se a menos de trezentos metros dos navios de guerra japoneses, enquanto o Comandante Davidson aproveitava para desenhar um esboço deles.

Em determinado momento, voando muito baixo, um avião da marinha japonesa passou por eles, mas o Capitão Page agitou a bandeira japonesa e o aparelho prosseguiu em sua patrulha. Ao cair da noite, embarcaram em botes de borracha e foram distribuir suas Limpets o mais perto possível das embarcações, para que a brisa se encarregasse de empurrá-las.

Nesse instante, aproximou-se do veleiro um barco patrulha local para uma simples verificação de papéis. Pura rotina, mas os policiais da terra adoravam demonstrar autoridade para com seus compatriotas. Quando a polícia subiu a bordo, foi recebida por uma rajada de metralhadora. Dois agentes morreram e o terceiro, ferido, fugiu a nado. Quem disparou foi o Capitão Page, receoso de que eles descobrissem o segredo das Limpets.

O tempo urgia. O policial ferido daria o alarma e, além disso, os disparos tinham sido ouvidos pelo pessoal da vigilância. Colocaram as Limpets no fundo do veleiro, fazendo-o voar pelos ares. Rápido, embarcaram nos barcos de borracha e fugiram. Apesar de tudo, a maioria conseguiu chegar à base de Mopol. Era 10 de outubro: dois dias mais tarde um submarino passou para apanhá-los, porém, nesse momento, Mopol foi atacada e cercada pelos japoneses.

Cinco homens morreram e outros onze foram capturados pelos japoneses. O resto se dispersou pelas ilhas dos arredores.

O submarino esperou inutilmente até que a proximidade dos destróieres japoneses o obrigou a bater em retirada.

Três patrulheiros locais causaram a perda dos Tigres da Malásia.

 

 

“Aos heróis da Operação Arimae”

Um B-24 sobrevoou durante duas horas a ilha de Bintam. Os observadores japoneses deduziram que queria travar contato com a ilha. Para verificar, o comando de Singapura mandou uma companhia, sob as ordens do Capitão Tomita. A missão de Tomita não foi levada muito a sério, até que o capitão morreu, atravessado pelas balas de uma metralhadora com silenciador. Seu segundo, o Alferes Yamaguchi assumiu o comando, e, durante dias, revistou as ilhas, Descobriram uma bandeira japonesa, provisões, um aparelho de rádio e uma flâmula da administração militar de Singapura, entre outras coisas. No corpo de intérpretes da missão especial do Serviço de Informações Imperial, prestava serviços um civil chamado Furuta. Foi ele incumbido da tarefa de traduzir as inscrições inglesas que apareciam em alguns objetos encontrados.

A investigação demonstrou que os objetos pertenciam a um grupo de espionagem, que operava, possivelmente, com base na ilha Lieu. Encontrou-se um caderno contendo croquis de navios japoneses, mencionando o seu tipo e detalhes do seu armamento. Os esboços haviam sido feitos por um especialista. Nas notas explicativas apareciam constantemente as letras "SB" e, não conseguindo decifrá-las, não compreendiam muito bem o significado daqueles textos.

Pouco antes do Natal, o batalhão do Comandante Kushida, que rastreava as ilhas vizinhas a Mopol, anunciou que tivera uma escaramuça em que havia matado cinco homens e feito onze prisioneiros, que estava enviando a Singapura.

O Coronel Kuhohara, declarou numa reunião do Estado-Maior: “Essa gente é completamente diferente das que combatemos até agora; são audaciosos e valentes; alguns chegaram a suicidar-se ante a chegada de nossas tropas. São atitudes muito diferentes do que sabemos ser a mentalidade anglo-saxônica, o que prova que eles devem estar encarregados de uma missão particularmente importante...”

“A 24 de dezembro, os prisioneiros foram entregues à "kempetai" (polícia militar) local.

O Capitâo Noguchi Mizuno, chefe do "kempei" e o intérprete Mizuta, declararam que eram homens que não temiam a morte e que era muito difícil fazê-los falar por meio de torturas. Furuta aconselhou: Primeiro é preciso saber o que se pensa dessa gente. São criminosos ou prisioneiros de guerra comuns, como os outros? Creio que será melhor respeitá-los e tratá-los com benevolência. Faremos com que eles falem separadamente, e depois vamos ver...

Os prisioneiros puderam tomar um banho e depois foram cuidadosamente barbeados. Em seguida, o Capitão Mizuno falou: “Tivestes a má sorte de cair prisioneiros. Somos encarregados de interrogar-vos, porém, hoje é noite de Natal e, embora não sejamos cristãos, decidimos conceder-vos uma noite de repouso...”

No dia seguinte, 25 de dezembro, os prisioneiros receberam uniformes novos e foram divididos em quatro grupos.

Pouco a pouco, Furuta foi-se inteirando dos pormenores da criação do S.R.D. (Secret Reconnaissance Department) e da missão Tigre.

Os interrogatórios duraram pelo menos dois meses. Furuta não conseguira ainda saber o que significavam aquelas letras "SB", até que um dia, o Capitâo Page, que era o chefe da missão Tigre, declarou: "SB é um dispositivo especial que se engancha nos botes de borracha e os faz afundar. Como recebemos ordem de não permitir jamais que esses SB caíssem nas mãos dos japoneses, fizemos com que voassem pelos ares com o veleiro". Quando finalizaram os interrogatórios, os membros do Estado-Maior começaram a discutir a sorte dos componentes da expedição. Havia duas alternativas: enviá-los a um campo de concentração, ou condená-los à morte.

A primeira possibilidade foi eliminada com raciocínios como "a maioria dos prisioneiros ingleses se encontram nos campos desde o término da campanha da Malásia e não estão a par da evolução da guerra. É, pois, perigoso que os membros da missão Tigre entrem em contato com eles, porque, certamente, lhes revelarão a verdade sobre a atualidade da situação geral".

Decidiu-se, então, condená-los à morte, apesar de Furuta, que se havia tornado amigo dos prisioneiros durante os interrogatórios, ter feito todo o possível para salvá-los. Teve como resposta: "Você, Furuta, é civil, e deve recordar que o regulamento militar prevê uma ordem hierárquica para aqueles que têm direito de falar: o general, os oficiais, os suboficiais, os soldados, os cavalos, os pombos-correios e, em último lugar, os civis..."

Os membros da expedição foram levados ante um Conselho de Guerra. Esse Conselho precedia ao de vinte nativos acusados de terem dinamitado, no porto de Singapura, cinco naves de guerra japonesas, em setembro de 1943. Ao inteirar-se das acusações que pesavam sobre os vinte nativos, o Capitão Page solicitou permissão para fazer nova declaração: "Esses homens são inocentes. Fomos nós que fizemos voar os cinco barcos no curso de uma missão anterior".

Somente então os japoneses perceberam que os vinte nativos haviam sido interrogados por um. intérprete que desconhecia a língua deles e que inventara as confissões, para não perder o lugar. Os homens da missão Tigre foram condenados à morte, porém, causaram uma tal impressão aos oficiais que os haviam interrogado que se ergueu uma lápide com a inscrição: "Aos heróis da operação Arimae" (Arimae significa Tigre em malaio).

 

 

“Por quê? Para quê?”

O desenrolar de um combate oferece aos homens a oportunidade de demonstrar suas qualidades e defeitos mais relevantes e íntimos. Freqüentemente, os obriga a ser o que eles nunca acreditariam que fossem. E assim é que, enquanto alguns alcançam o primeiro plano disparando uma metralhadora, ou assaltando uma trincheira inimiga sem outra arma senão um fuzil e uma baioneta calada, outros atingem o ápice do heroísmo silencioso e anônimo, na missão de salvar vidas. A luta na selva deu lugar a múltiplas cenas de abnegação sem limites. De abnegação e sacrifício que nos obrigam a perguntar: "Por quê? Para quê?" E só podemos responder, invariavelmente: "Porque o homem é assim... Porque o homem, incrível caixa de surpresas pode, sem solução de continuidade, metralhar cem semelhantes e entregar sua vida em troca da de um desconhecido..." Em Kohima, o Coronel Young, médico britânico do serviço de saúde, viu-se obrigado, em março de 1944, a aceitar que seus feridos morressem inapelavelmente. Porque seus depósitos estavam esgotados. Porque nas suas mãos não havia nem mais uma bandagem, nem mais uma ampola de morfina, nem mais uma agulha de sutura.

Porém Young não era dos que se dão por vencidos. Reuniu um grupo dos seus homens e lhes pediu o impossível: obter os medicamentos necessários de um hospital que já se encontrava nas mãos japonesas... E a incursão foi realizada. Os homens, comandados pelo próprio Young, chegaram às linhas inimigas, entraram nas ruínas do hospital e conseguiram o que buscavam. Esqueceram o medo, a angústia, a ameaça da morte, as debilidades humanas... tudo ficara para trás, em troca de alguns pacotes de bandagens e algumas ampolas de morfina. Tudo fôra deixado para trás, em troca de poder mitigar a dor de um grupo de feridos, dos quais mal sabiam nome e número de identificação. Porque o homem é assim, como eram os enfermeiros hindus, que rastejavam pela "terra de ninguém", debaixo dos disparos dos japoneses e dos britânicos, com o único fim de chegar até onde um soldado gemia, esvaindo-se em sangue. Aqueles enfermeiros foram, de acordo com o Cel. Young: "os verdadeiros heróis do cerco de Kohima... e nenhum tributo é demasiado para eles".

 

 

O Cabo

Kohima. Abril de 1944. As sombras da noite são fugazmente iluminadas por clarões avermelhados, que desaparecem instantaneamente, persistindo na retina dos soldados durante longos segundos. Um rude ribombar se escuta, ao longe, esporadicamente interrompido por um matraquear...

A artilharia dispara com cadência monótona. As metralhadoras, nervosamente, gritam sua mensagem.

Uma seção adiantada dos "Royal West Kents" rasteja penosamente pela "terra de ninguém". De súbito, o pipocar de uma metralhadora inimiga ressoa a pouco menos de cinqüenta metros do grupo. O reduto japonês ergue-se diante deles como uma condenação à morte.

O cabo John Harman, que está à frente do grupo, decide rapidamente: é preciso destruir o posto japonês. E ordenando aos seus homens que permanecessem no lugar, segue adiante, sozinho. Está a apenas 25 metros, quando apanha uma granada do seu cinturão. Arranca o anel de segurança e espera dois segundos. A granada explodirá dentro de mais dois segundos... Atira-a no instante preciso. O "pinhão" explode no ar, sobre a metralhadora e sua guarnição. Harman, correndo, se lança contra a posição inimiga. Dois minutos depois chega novamente junto aos seus camaradas. Arrasta consigo a metralhadora japonesa... Instantes mais tarde, um novo posto detém a marcha do destacamento. Harman, mais uma vez, corre, sozinho. Após eliminar os combatentes japoneses, o cabo volta. Porém, desta vez, não chega até o grupo. Está a poucos passos dos seus camaradas quando uma rajada de metralhadora o atinge. Arrastando-se, Harman vence os últimos metros. Instantes depois, morre.

Harman não era mais que um cabo. Uma pequeníssima peça da grande maquinaria bélica aliada. Um soldado improvisado, que meses antes ainda vestia roupas civis, e freqüentava uma oficina, ou uma aula.

Não era senão um simples cabo, até o instante em que uma rajada de metralhadora o converteu em um herói.

 

 

Tom Harmon

"Me lancei, num piquê, a 650 km/hora. Dei uma volta e me encontrei em baixo de um Zero. Quando o tive a uns 50 metros, disparei todas as minhas metralhadoras e o Zero caiu, envolto em chamas.

Nesse instante, uma bala inimiga atingiu meu avião e uma incendiária ateou fogo na cabine. Tentei apagar o incêndio, porém não consegui. Saltei do avião e abri o pára-quedas". Era a segunda vez que derrubavam o Tenente Tom Harmon. Quando era co-piloto de um B-25, um furacão fez com que ele se espatifasse contra a mata, na Guiana Francesa. Ferido, embora não gravemente, perambulou pela floresta durante uma semana até chegar a uma aldeia, que, curiosamente, apenas dois dias antes havia se unido à França Livre; do contrário, teria sido feito prisioneiro. Depois de algum tempo de descanso, foi designado para a esquadrilha dos novos Lockheed P-38 Lightning. Combateu no norte da África e na Sicília. Dali passou para a China. No mês de outubro de 1943, tomou parte, junto com outros sete pilotos americanos em um ataque ao porto de Kiu-kiang situado sobre o rio Iang-tsé, na parte central da China.

Sua esquadrilha foi interceptada por vinte Zeros. O P-38 de Harmon era o último da formação. Sobreveio um furioso combate aéreo. Dois aparelhos americanos e quatro japoneses se espatifaram no solo. Harmon foi atingido e teve que saltar de pára-quedas. Caiu em um lago e nadou até a margem. Estava em território inimigo: "Minha única arma era uma pistola e pensei que se os japoneses me atacassem, eu levaria alguns deles comigo para o outro mundo".

Após uma travessia de 32 dias, e graças à ajuda dos camponeses chineses, chegou a uma base americana. Tom Harmon, filho de emigrantes irlandeses, antes da guerra foi um excelente jogador de futebol (rugbi) na Universidade, e esteve a ponto de se tornar profissional. Durante uma entrevista de rádio, declarou: "Nos Estados Unidos nós não temos, como na Europa e na Ásia, uma idéia real do que é a guerra. Chego a pensar que, para que os americanos compreendessem o que realmente é este fenômeno tremendo, seria necessário que algumas de nossas cidades fossem arrasadas por um bombardeio aéreo". Suas declarações provocaram estupor e violentas reações em certos ambientes, porém, como ele mesmo esclareceu posteriormente, "minha intenção não era concretamente desejar que os Estados Unidos fossem bombardeados, mas sim despertar nos meus compatriotas uma consciência do drama que viviam muitas cidades da Europa e da Ásia, destruídas pelas bombas".

 

 

“Não atirem! Sou inglês!”

Jessami. Tropas britânicas, cercadas e extenuadas, combatem sem trégua, no que parece ser uma batalha sem esperanças. E, de fato, não há. O Alto-Comando aliado, depois de examinar a situação, ordena a retirada. Porém a ordem não chega a Jessami. Uma e outra vez, ao preço da vida de um, dois, três homens, os Aliados procuram fazer chegar até à guarnição a ordem de partir, afastar-se daquilo que ameaça virar uma arapuca mortal. Porém, os mensageiros, voluntários de uma missão sem retorno, tombam no caminho, sem alcançar as linhas aliadas de Jessami.

Por fim, um tenente, Corlett, do regimento de Asam, toma a seu cargo a tarefa. Armado com uma metralhadora leve, Corlett parte à luz do dia. Sua primeira tentativa é realizada ainda durante o dia. Se arrasta dez metros, cem... E uma chuva de balas demonstra que ele foi descoberto. Atira-se, desesperado, num buraco aberto por uma granada, responde esporadicamente ao fogo inimigo, tratando de manter afastadas as patrulhas que tentam cercá-lo. Chega a noite. Corlett começa a rastejar penosamente. Cada metro o aproxima mais da guarnição sitiada. E da morte.

Duas, três horas de um avançar lento, exasperante. E, por fim, está ali, frente às linhas britânicas. Passou o perigo. Já pode chamar seus camaradas, dando-se a conhecer. Corlett apura o ouvido, atentamente, imóvel, procurando localizar as posições do seu exército. E aquele silêncio, aquela imobilidade o salvam. Porque Corlett escuta as vozes dos soldados que ocupam as trincheiras próximas. E um tremor percorre o seu corpo.

Nos buracos, os homens dialogam num idioma que Corlett não entende. E o tenente britânico cola o rosto no chão ao compreender que aqueles homens estão falando japonês. As posições, horas antes, foram abandonadas pelos seus companheiros. Os japoneses, de imediato, as ocuparam. Corlett compreende, quase com resignação, que está perdido. Vai ter que se afastar dali, sem ser visto, coisa quase impossível. E terá que se acercar novamente das linhas britânicas, sem ser morto, coisa muito improvável. O princípio é que se deve atirar contra tudo o que se mexer na "terra de ninguém".

Corlett, contudo, sabe que não tem escolha. E começa a retroceder. Duas horas mais tarde, em meio às trevas, escutando tiros isolados que partem das posições japonesas e britânicas, Corlett compreende que superou o primeiro dos perigos. Os japoneses ficaram para trás. Restam agora seus próprios companheiros, que Corlett pressente atentos, vigilantes, com as armas engatilhadas e apontadas contra as sombras, provavelmente contra a sua própria sombra...

As linhas estão bem perto, quando Corlett toma uma decisão. Sabe que se continuar aproximando-se lentamente, cairá morto. E se levanta gritando: "Sou inglês! Sou inglês! Não atirem! Não atirem!" As balas, no entanto, assobiam à sua volta. Corlett, correndo e pulando de buraco em buraco, rastejando e tornando a correr, cai, afinal, dentro de uma trincheira. As armas, prontas, se abaixam. As baionetas deixam de brilhar ameaçadoras. É reconhecido. Corlett conseguiu se salvar.

Foi em março de 1944. Uma data que o tenente inglês jamais esqueceria.

 

 

 

 

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