"Meia ração", até Rangun...
Ataque a Malaca
A Reconquista de Singapura
A reconquista do Índico
Rendição japonesa
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As colunas blindadas britânicas que avançaram sobre Rangun,
atravessando o sul da Birmânia, constituíram o que se convencionou chamar
"a penetração mais comprida e estreita que se realizou na guerra".
No final da campanha a penetração se estendia desde a localidade de Pyawbe,
200 km ao sul de Mandalay, até Pegu, 400 km mais abaixo. Sua extensão era
portanto de 400 km, enquanto a largura superava raras vezes 200 metros de
cada lado do caminho. O espetáculo, inusitado, permitia ver as colunas britânicas
avançando rapidamente pela trilha aberta, rumo ao Sul. Nos lados, a uma
distância regular através da selva, os efetivos japoneses retrocediam
paralelamente à penetração dos ingleses; freqüentemente eram deixados para
trás os japoneses em retirada. Em alguns casos, como no aeródromo de Lewe,
chegou-se a observar os japoneses abandonando o campo enquanto na pista
deslizavam, aterrissando, os planadores que conduziam os contingentes
britânicos. Ao mesmo tempo as forças da 19a Divisão varriam nas
matas os possíveis esconderijos, eliminando todos os soldados japoneses que
encontravam. Além disso, os nativos da zona, armados e organizados por
oficiais britânicos, atacavam os japoneses em retirada e infligiam-lhes
sensíveis baixas. Um total de quatro mil nativos colaborou dessa maneira com
as formações aliadas na marcha rumo ao Sul. O Corpo de Messervy chegou afinal a Pegu, a 100 km de Rangun, a
1o de maio de 1945. Avançando alternativamente, suas divisões
haviam coberto 480 km em dezesseis dias; num só dia os britânicos chegaram a
avançar 90 km. O Tenente-General William Slim explicou porque sobrevoava
permanentemente seus contingentes em marcha: "Foi o único jeito de
conseguir acompanhar a marcha do meu exército...". |
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Em Rangun, enquanto isso... Na capital da Birmânia, enquanto os contingentes aliados
avançavam em marcha forçada para o Sul, os japoneses compreenderam o
insustentável de sua situação e começaram a abandonar a cidade. A guarnição
de Rangun, deslocando-se ao redor da capital birmanesa, formou uma
"Cortina" protetora, a fim de dar tempo para que as unidades de
serviços e técnicas se afastassem transportando o material. O comando japonês, para aumentar seus efetivos ao máximo,
recrutou e armou como unidade de infantaria os marinheiros dos barcos
japoneses dos portos da costa, os pescadores e até civis. Ao mesmo tempo o segundo "eixo de avanço" do 14o
Exército corria para o Sul pelo caminho de Prome, ligeiramente paralelo ao
anterior, tendo por objetivo Rangun. Liderado pela 255a Brigada de
tanques, o Corpo do Tenente-General "Monty" Stopford chegou à
cidade no dia 2 de maio em rápida marcha. De acordo com os planos traçados, o
objetivo deveria ter sido alcançado quinze dias mais tarde. Contudo, não
chegaram a tempo a Rangun. Nessa ocasião, 2 de maio, a capital da Birmânia já
estava nos mãos dos britânicos, que a haviam ocupado sem encontrar
resistência. Três semanas antes, o plano para tomar Rangun por meio de um
ataque com tropas transportadas por mar, vindas do Sul, havia sido traçado
como uma operação combinada. Era necessário, de fato, reunir barcos, agrupar
novamente os pára-quedistas licenciados, planejar e determinar caminhos para
os comboios. A principal força de ataque seria a 26a Divisão
hindu, sob o comando do Major-General Chambers. O objetivo, por outro lado,
encontrava-se a centenas de quilômetros de distância do porto de Akiab, onde
as forças de ataque foram embarcadas. A operação, em termos gerais, envolvia
riscos e comportava problemas que seria necessário vencer. Rangun situava-se
junto a um rio que não fôra dragado desde a chegada das forças japonesas.
Além disso a capital da Birmânia estava a 32 km rio acima desse extenso curso
de água de correntes variáveis, bancos de areia movediço, canais estreitos e
barras traiçoeiras. Rangun achava-se também custodiada por baterias e defesas
estrategicamente dispostas que constituiriam formidável obstáculo para os
Aliados. Consistiam em casamatas de cimento armado, resguardadas por ninhos
de metralhadoras, que seria necessário martelar e destruir antes que os
comboios com as tropas penetrassem no estuário, pois o único canal navegável
corria praticamente debaixo das bocas dos canhões japoneses. O rio, além disso, fôra minado pelos japoneses e estava ainda
repleto de minas lançadas pelos Aliados no intento de entorpecer a navegação
das barcaças japonesas. Desde a costa até 50 km para o interior (Rangun
estava a 32 km), as águas também eram pouco profundas; em conseqüência nenhum
barco podia penetrar a fim de apoiar as operações que se desenvolveriam nas
praias. O problema, em resumo, ficava exclusivamente nas mãos da força aérea
e dos efetivos aerotransportados. A tarefa primordial consistia em varrer as
defesas japonesas formadas pelas casamatas que protegiam a cidade. As fortificações teriam que ser bombardeadas. Em seguida, após
cobrir o setor com bombas de fumaça, seriam lançados os pára-quedistas. Para
efetuar o ataque, os aviões da escolta teriam que voar 400 km desde os
aeródromos de Aracan, conquistado semanas antes pelo 15o Corpo. Os
bombardeiros, por sua vez, voariam partindo de Bengala. Depois dessa
operação, que se pode chamar de "pré-invasão", atacariam as tropas
de assalto conduzidas por mar. Possivelmente seria o momento mais arriscado:
os soldados teriam que ser desembarcados a uma distância superior à que se
estende entre Dover e Calais (40 km), e isso significava cinco horas de travessia
num mar extremamente agitado. A operação em marcha O ataque começou sob o comando do Contra-Almirante Martin; a
frota da Índia Oriental, comandada pelo Vice-Almirante Walker, teve a cargo a
cobertura de proteção e contava para isso com barcos de combate,
porta-aviões, cruzadores, destróieres e balandras. Os aviões de transporte,
por sua vez, situaram os pára-quedistas sobre as defesas de Rangun e tomaram
altura e rumo necessários. As cortinas de fumaça foram erguidas à guisa de
proteção e efetuou-se o lançamento. Na sua primeira ação operativa os
pára-quedistas gurkhas depararam com uma guarnição japonesa de 37 homens
defendendo as baterias. Depois de eliminar 36 e aprisionar um, os gurkhas
dominaram a situação. A primeira linha de defesa fôra vencido. Os arredores,
paralelamente, foram varridos de possíveis inimigos mediante o emprego de
lança-chamas, granadas e morteiros. No mar, enquanto isso, seis comboios de barcos de transporte,
desembarque e caça-minas concentravam-se no ponto de transbordo. Após a
transferência dos contingentes para as barcaças, puseram-se em movimento rumo
ao estuário que se abria diante de Rangun. Estavam próximos ao porto quando
um sampan se aproximou. Na embarcação nativa chegavam o comandante de pelotão
Saunders e o Tenente Stevens, que informaram não haver mais inimigos na
capital da Birmânia. Os dois militares aliados acabavam de sobrevoar Rangun e
haviam aterrissado no aeródromo de Mingaladon, depois de ver pintados com
letras garrafais, sobre o teto da prisão da cidade, os dizeres "Os
japoneses se foram". As forças de invasão, sem perda de tempo, desembarcaram nas duas
margens do rio. O grupo do oeste compreendia os atiradores da Força
Fronteiriça, os jats e o 8° Regimento de gurkhas. Ocuparam imediatamente os
ancoradouros e as instalações portuárias. O grupo do leste por sua vez
compreendia lincolns, garhwalis e punjabis, com tanques do 19o
Regimento de Lanceiros. Avançaram debaixo de forte chuvarada, flanqueando
Rangun numa manobra envolvente. Quando finalmente entraram na cidade, esta
ainda fumegava. Rangun, abandonada pela guarnição japonesa, fôra alvo durante
três dias de uma sistemática pilhagem por parte das multidões descontroladas.
Nada restava dos japoneses salvo grupos isolados de atiradores suicidas. Poucos dias mais tarde as tropas do 15o Corpo de
Christisson tomaram contato com o 14o Exército de Slim, passando
outra vez a integrá-lo. A 6 de março o rio foi aberto ao tráfego após minuciosa limpeza
de minas e armadilhas. No dia 8 os primeiros barcos transportando
abastecimentos atracaram. As conseqüências tinham incalculável valor estratégico e
político, pois o caminho para a China estava aberto e garantido, as
fronteiras da Índia definitivamente a salvo, quatro quintos da Birmânia
estavam livres e, o que é mais importante, o caminho para Singapura estava
aberto também. Ao se tornar evidente a queda de Rangun, o Alto-Comando Aliado
determinou ao 15o Corpo que se transferisse da Birmânia para a
Índia. Paralelamente foi retirado da zona central da Birmânia um certo número
de divisões destinadas a constituir um novo corpo, o 34o, sob o
comando do Tenente-General Roberts. Os dois corpos formaram o 14o
Exército, então sob as ordens do Tenente-General Sir Miles Dempsey. Na Birmânia ficaram em definitivo o 4o e o 33o
Corpos, que foram organizados como o 12o Exército, sob as ordens
do Tenente-General Stopford. Os dois exércitos subordinavam-se ao General
Slim, que sucedera a Sir Oliver Leese no cargo de comandante-chefe das forças
terrestres aliadas. Os planos imediatos previam que o novo 14o Exército
seria treinado para operações anfíbias e preparado para a invasão de Malaca
no princípio de setembro. O 12o Exército, enquanto isso, continuou as operações
na Birmânia. Stopford, à frente de diversos efetivos, recebeu ordem de
efetuar as operações necessárias para cortar a retirada dos japoneses que
restavam na Birmânia, capturando-os ou destruindo-os. Em linhas gerais, esquematizando a situação, o avanço aliado na
Birmânia era semelhante a um triângulo sobreposto a um quadrado. Os lados do
triângulo representariam as linhas de penetração aliadas pelos caminhos de
Prome e de Toungoo, rumo ao Sul. Em conseqüência o território birmanês, como
também as forças japonesas, ficaram divididos em três setores. O primeiro grupo era formado pelos efetivos japoneses que se
encontravam em Aracan, a oeste; o segundo, integrado pelos que resistiam no
centro, entre as linhas de avanço; o terceiro, constituído pelas forças do
setor leste da Birmânia, ainda se mantinha praticamente intacto. Esta última força deveria abrir um corredor para permitir que
escapassem os efetivos isolados, condenados ao extermínio. E o fariam, como
sabiam os Aliados, com sua característica impetuosidade e bravura a toda
prova. A missão do 12o Exército aliado, como já se disse,
consistia em detê-los e contra-atacar com a maior potência. Os homens de Stopford, seguindo as ordens, pressionaram através
do rio Sittang em direção leste. A luta se tornou dura e difícil pelos
inconvenientes criados pela sucessão interminável de tormentas. Os homens do
12o Exército teriam que avançar vencendo a resistência japonesa,
construindo pontes a cada trezentos ou quatrocentos metros e vadeando os
incontáveis arrozais onde buscavam refúgio franco-atiradores e grupos
dispersos. Estes, quase sem armamento, com os uniformes aos trapos, carecendo
de alimentos, continuavam resistindo ao 12o Exército de Stopford. Aos poucos o cortina de fogo aliada forçou aquelas maltrapilhas
forças a abandonar, uma a uma, suas posições até lançarem-se aos ataques
suicidas. Ao fim de três meses os contingentes do 12o Exército
causaram cerca de 20.000 mortos aos efetivos japoneses. A proporção mostra
claramente que a campanha se converteu numa verdadeira matança de japoneses:
os britânicos perderam um combatente para cada 64 japoneses... Por outro lado o destino dos japoneses que conseguiam escapar
dos britânicos era selado pelos grupos nativos que combatiam na retaguarda e
pelos indígenas que atacavam para roubar. Nenhum dos japoneses que se
internaram na selva escapulindo dos Aliados pôde escapar dali com vida. Ataque a Malaca Enquanto o 12o Exército pressionava através do rio
Sittang, Dempsey preparava o 14o Exército para efetuar a invasão
de Malaca. O movimento, constituiria a operação "Zipper", destinada
a ser a ação anfíbia de maior envergadura, e exclusivamente britânica, em
toda a guerra. O Dia D seria 9 de setembro; o lugar escolhido para o ataque, o
porto de Swettenham, no estreito de Malaca, parte média da costa oeste da
península de mesmo nome, a 320 km ao norte de Singapura. A massa da força de
invasão compreendia sete divisões de infantaria e uma brigada de Shermans.
Uma brigada britânica de pára-quedistas, que incluía um batalhão australiano,
seria lançada sobre a ilha de Singapura. Outra brigada atacaria pelo mar. As forças aéreas interviriam na operação compreendendo mais de
500 aviões da RAF, inclusive Liberators, Mosquitos, Spitfires, Thunderbolts,
lança-foguetes Beaufighters, grandes Sunderlands para resgate do pessoal
derrubado sobre o mar e Dakotas para lançamento de abastecimentos e evacuação
de feridos. O potencial aéreo japonês estava tão reduzido depois das
operações na Birmânia, que Mountbatten não viu perigo em desembarcar o
exército numa zona na qual deveria renunciar à proteção de aviões de combate
com base em terra, confiando unicamente em aparelhos que decolariam de
porta-aviões. O canhoneio de apoio estaria a cargo de uma frota de navios de
combate, cruzadores, destróieres e barcos lança-foguetes. A aviação aliada teria por objetivo cortar a chegada de
abastecimentos e de novas tropas inimigas. Os aeródromos japoneses teriam que
ser danificados ao mínimo, pois os Aliados previam sua futuro utilização. As praias designadas para o ataque não apresentavam todas as
condições favoráveis. Foram escolhidas, contudo, por encontrarem-se
resguardadas das tormentas do oceano Índico, o que não acontecia às praias
situadas mais ao norte, mais próximas às bases aliadas na Birmânia, porém
expostos aos embates do mar e às mudanças bruscas das condições
meteorológicas. Na ilha de Singapura, no extremo sul da península de Malaca, os
japoneses pouco haviam feito em prol da segurança da zona. Um plano para
construção de defesas foi esboçado a 1o de agosto de 1945.
Estudava e propunha a instalação de 53 pontos fortificados no centro da ilha;
no entanto, apenas 2% dos trabalhos chegaram a ser completados. É justo destacar que as informações recebidas pelos japoneses,
provenientes de diferentes fontes, divergiam em suas apreciações sobre os
possíveis movimentos inimigos. Na impossibilidade de traçar planos em bases
firmes, os diversos exércitos atuavam com absoluta independência, sem manter
contato entre si. A conseqüência não podia ser outra senão absoluta falta de
orientação a respeito do local do ataque aliado. Se o assalto britânico
tivesse sido efetuado na data prevista (9 de setembro) não teria encontrado
praticamente resistência. Não existiam então defesas eficazes nem tropas em
posição de combate. Teriam conspirado apenas a condição das estradas,
escassas e precárias, como a falta de pontes. A essas características
negativas se uniria a capacidade dos japoneses para concentrar rapidamente a
massa das suas forças mediante deslocamentos através de todo tipo de terreno. Nada disso aconteceu. Os japoneses, em verdade, renunciaram à
luta. Atacado em dois oceanos pelas forças navais e aéreas, perseguido pelos
exércitos aliados na Birmânia, China e Mandchúria, o Japão depôs as armas e
pediu a paz. Quando se efetuou a capitulação japonesa, a operação "Zipper"
foi realizada tal como estava prevista. A diferença residiu em que, ao invés de movimento de ataque, foi
um movimento de simples ocupação. Cem mil soldados desembarcaram no porto de
Swettenham, como fôra previsto. As tropas que deveriam seguir-se aos
primeiros contingentes partiram para Penang e Singapura por via marítima e
para Bancoc e Saigon por via aérea. A ocupação, de acordo com os planos aliados, deveria ser
caracterizada por um ataque maciço; foi, ao contrário, totalmente pacífica e
careceu de qualquer incidente. Três dias depois do Dia D, simbólico em certo sentido, o General
Itagaki, comandante de Malaca, Java e Sumatra, assinou, no salão principal da
Municipalidade de Singapura, a rendição de todas as forças armadas japonesas
no sudeste da Ásia. Ao todo somavam cerca de 656.000 homens. Mountbatten,
acompanhado pelos seus comandantes de maior patente e representantes da
Austrália, Índia, China, França e dos Países-Baixos, aceitou a rendição.
Diante da delegação japonesa, depois de ler sua ordem-do-dia às tropas,
Mountbatten expressou claramente que a rendição japonesa não era uma
"rendição negociada". Os japoneses renderam-se incondicionalmente
diante de forças superiores. Era 12 de setembro de 1945. Singapura tinha sido
libertada. A Grã-Bretanha cobrara velha dívida, que remontava a 15 de
fevereiro de 1942... A reconquista de Singapura, indubitavelmente, foi obra de
milhares de homens que deram a vida pela empreitada. Porém, um elemento vital
permitira àqueles homens o deslocamento através de centenas de quilômetros de
selvas virgens e pantanais: os abastecimentos. De fato, no sudeste da Ásia a
"batalha dos abastecimentos" alcançou um nível nunca imaginado. Mil
e uma situações, antes nunca experimentadas, pesaram no problema. Os
diferentes gostos, hábitos e costumes religiosos de britânicos, americanos,
africanos, gurkhas e moslem, hindus e sikhs hindus multiplicaram ao infinito
o problema de alimentação dos soldados. Para se ter pálida idéia do problema,
bastará apenas a menção de uma cifra: a quantidade de alimentos diários
requeridos pelo 14o Exército se elevou a 2.000 toneladas... À frente da organização logística estava o Tenente-General
Wheeler, oficial principal da Administração de Comando do sudeste da Ásia.
Colaboraram com ele na tarefa o Major-General Goddard, o Major-General
Bastya, o Major-General Snelling, o Brigadeiro Wingrove e o Major-General
Pick. O primeiro trabalho que tiveram de enfrentar foi construir
caminhos, pois na região não existia um só quilômetro de estrada utilizável. A 1o de março de 1942 o QG em Nova Déli fez apelo à
Associação Indiana do Chá solicitando ajuda para "certos projetos
essenciais para a defesa das fronteiras do leste". Os projetos
compreendiam a princípio a construção de estradas na zona de Manipur, entre a
Índia e a Birmânia. O objetivo era prover as forças britânicas, especialmente
unidades blindadas e artilharia, de vias para abandonar a Birmânia e
retirar-se eventualmente para a Índia. Em fins de março 28.000 empregados das plantações de chá trabalhavam
ativamente para isso, utilizando quase sempre simples facões. A única
maquinaria disponível durante esse período foi uma seção de
"bulldozers" do exército, manobrados por punjabis. Posteriormente desenvolveram-se planos para o emprego de 82.000
trabalhadores nativos. O número empregado, contudo, triplicou essa cifra. Enquanto as forças do 14o Exército estiveram sediadas
em Manipur, a manutenção das estradas se efetuou sem inconveniente, e a
utilização das mesmas foi extremamente intensa durante os meses de pior tempo
de 1944. Os motoristas de caminhões alcançaram uma média de 120 km diários.
Os acidentes, num dado realmente incrível, ocorreram na proporção de um em
cada 44.000 km percorridos. O transporte ascendeu à quantidade de 3.000
toneladas diárias, através de estradas onde os veículos avançavam com as
rodas praticamente na borda do precipício. Ao longo das estradas foram levantadas estações de serviços,
depósitos de materiais, e aí os caminhões eram submetidos a reparações,
abastecidos de gasolina, óleo e água. Em Shingbwiyang, no lado birmanês das montanhas de Ledo, o
comando da zona havia organizado um conjunto de depósitos em condições de
cobrir as necessidades da frente. Contavam com tornos de sete toneladas,
brocas, uma fundição e um depósito onde se acumulavam mais de dez mil
sobressalentes para veículos e máquinas. Os animais foram empregados para todos os serviços. Mulas, bois
e elefantes serviram para o transporte e para as construções. Centenas caíram
nos precipícios ou morreram esmagados pelos desmoronamentos. Nos rios,
aproveitados ao máximo, as embarcações deslizavam a favor da corrente, ou
eram rebocadas rio acima pelos animais. Utilizaram-se na emergência lanchões,
balsas, sampans e canoas. Uma estranha e eficiente embarcação foi empregada com grande
êxito. Consistia em botes nativos aos quais se somavam embarcações
pneumáticas; sobre o conjunto, fortemente unido com cordas, se estendia uma
cobertura de tábuas. Um ou vários motores impulsionavam o embarcação, que
possuía condições de transportar soldados, abastecimentos ou até veículos. A "Armada Chindwin", por sua vez, era composta por
duas canhoneiras de madeira chamadas Pamela e Uno, em homenagem às filhas de
Mountbatten e Slim, que navegaram pelo rio Chindwin. As duas embarcações, sob
o comando de tenentes da armada britânica, tinham por missão servir de
escolta à denominada "Marinha dos Transportes em Cursos de Água de Terra
Adentro"; esse pomposo título agrupava embarcações costeiras, barcaças,
lanchões, rebocadores, lanchas, pontões e balsas. Os métodos de transporte
tradicionais, no entanto, perderam importância ante a capacidade das forças
aéreas. O abastecimento aéreo não foi resultado de improvisação nem
conseqüência de algum desastre. Foi o final esperado e lógico de um plano
minuciosamente desenvolvido. Em outubro de 1943 já havia sido previsto e
calculado que as tropas avançadas ou em marcha deveriam ser abastecidas por
via aérea durante a caminhada. Conseqüentemente, criaram-se os estágios
superiores de "Abastecimento Aéreo" e "Transporte Aéreo".
O mecanismo funcionou como havia sido previsto. Durante as campanhas de
Imphall e Kohima, 76.000 toneladas de abastecimentos foram levadas pelo ar
até a zona de luta, como também três divisões com equipamento de combate completo. A força aérea efetuou ao todo 8.000 vôos de abastecimento.
Transportou 400 toneladas de açúcar, 1.300 toneladas de farinha, 32.000
litros de rum, 3.900.000 litros de petróleo, 12.000 sacos de correspondência
para os soldados, 27.000 ovos e 43.000.000 de maços de cigarro. A organização de carga, transporte e distribuição dos
abastecimentos era simples e consistia no seguinte esquema: a) C.O.T.E.A. (Comando da Organização de Transportes do Exército
e do Ar). Missão: verificar a reunião, a saída e a entrega dos abastecimentos
aos aeródromos da retaguarda. b) F.T.C.C. (Quartel-General da Força Tarefa de Carga e
Combate). Missão: transportar as cargas e entregá-las ou lançá-las. c) O.R.M.A. (Organização da Retaguarda de Manutenção Aérea).
Missão: reunir, acondicionar e carregar nos aviões os abastecimentos. d) O.A.M.A. (Organização Adiantada de Manutenção Aérea). Missão:
descarregar e distribuir os abastecimentos. À medida que o avanço sobre Rangun foi acelerado, o tráfego nos
aeródromos tornou-se cada vez mais intenso. Trezentos e cinqüenta aviões de
transporte efetuavam a média de três vôos diários. O tempo necessário para
reabastecer um avião de transporte e lança-lo novamente ao ar, raramente
superava quinze minutos. A ponte aérea funcionava com o máximo de eficácia
mesmo à noite, quando as pistas eram iluminadas com tochas. O serviço aéreo,
em resumo, desenvolvia-se durante as 24 horas do dia. Os elementos transportados incluíram meia dúzia de locomotivos
de cinco toneladas destinadas a colocar em funcionamento o ramal ferroviário
de Mandalay a Rangun, além de motores para tanques e seções de pontes Bailey.
Eram enviados, diariamente, setecentos soldados, enquanto outro tanto era
evacuado. Simultaneamente com o intenso trabalho dos homens da força aérea,
os sapadores continuavam sua incansável tarefa. As estradas continuaram
avançando a média de um quilômetro por dia. As unidades de engenharia
agruparam ao todo 70.000 soldados e 130.000 operários nativos. Um elemento
vital para o desenvolvimento da campanha foi, sem dúvida, o desempenho das
unidades de comunicações. Era necessário manter contato entre o comando
central e os comandos de setores, entre os comandos e as divisões, entre
estas e os regimentos, batalhões, companhias e patrulhas destacadas em
missões de vanguarda, entre os aeródromos e os aviões em vôo, depósitos e
oficinas, oficinas de manutenção e unidades de saúde, etc. Tratava-se de uma
tarefa gigantesca e complicadíssima, onde cada homem constituía peça
insubstituível cujo perda podia prejudicar toda a eficiência do conjunto. As comunicações, porém, funcionaram perfeitamente. Intermináveis
trilhas foram abertas em plena floresta. Por elas estendiam-se milhares de
metros de linhas telefônicas e telegráficas. Centenas de pequenas centrais
foram disseminadas ao longo da mata. Milhares de homens permaneciam atentos
para consertar postes, cabos, centrais, novos postos, novos cabos, e o que
mais surgisse. O sistema sanitário constituiu-se em fator primordial na marcha
das operações. Deve-se destacar, em primeiro lugar, o trabalho silencioso e
obscuro dos padioleiros. Dadas as características do terreno, freqüentemente
era necessário transportar feridos ao longo de vários quilômetros de selva
até ao hospital de sangue mais próximo. Nessa tarefa os padioleiros eram os
responsáveis pela vida do ferido. Em todas as oportunidades os homens
cumpriram sua função com 100% de eficácia. Salienta-se principalmente a
atuação nesse trabalho dos caçadores de cabeças naga, nativos capazes de
percorrer grandes distâncias sem desfalecer. Levando a maca sobre os ombros,
mantinham-na em posição perfeitamente horizontal fosse qual fosse o terreno,
sem permitir, além disso, que galhos ou pedras soltas atingissem o ferido. A
eficiência desses homens salvou muitíssimas vidas, condenadas de outra
maneira a morte inevitável. Os médicos e cirurgiões aliados compartilharam sempre de cada um
dos difíceis momentos dos padioleiros. Sempre se mostraram sensíveis aos
sofrimentos dos feridos e muitas vezes tombaram junto aos soldados. A
evacuação das baixas processou-se de acordo com a seguinte organização: a) Transporte, a cargo de padioleiros, da frente de combate às
pistas de aterrissagem adiantadas. (Aeródromos de 300 metros de pista por 30
de largura, onde podiam decolar aparelhos leves). b) Transporte das pistas adiantadas aos aeródromos do
retaguarda. c) Transporte dos aeródromos de retaguarda aos hospitais
adiantados onde se dispunha de cirurgiões e equipamento completo. Os médicos atuavam nos diversos hospitais, adiantados e de
retaguarda, e pertenciam a todos os exércitos. Encontravam-se entre eles
homens de todas as nacionalidades: ingleses, americanos, hindus, chineses e
birmaneses. As baixas, em linhas gerais, logicamente compreendiam muitos
homens com ferimentos. Contudo devemos salientar que soldados atacados de
disenteria e malária somaram-se aos combatentes caídos na luta. Outras
doenças também vitimaram as tropas, como o tifo e a gripe. Além disso, as
picadas de cobras causaram ainda muitas mortes. Os serviços de saúde, por outro lado, em nenhum momento
descuidaram da atenção para com os animais que prestavam serviço. Unidades
especialmente organizadas, chamadas Unidades Veterinárias Móveis, trataram
com interesse aos animais doentes, numa tarefa difícil se lembrarmos que até
elefantes eram usados para auxiliar nas construções e transportes. A reconquista do Índico Enquanto em terra os exércitos aliados se lançavam à luta e
reconquistavam territórios, arrebatando-os das mãos dos japoneses, a frota
aliada, paralelamente, dominou uma extensão de 18.130.000 quilômetros de
oceano. Em janeiro de 1944 a esquadra britânica reapareceu no Ceilão.
Ali aportaram os barcos de guerra Renown, Queen Elizabetb e Valiant e os
porta-aviões Illustrious e Unicorn. A partir desse momento o Índico ficou sob
o controle absoluto da frota britânica e nenhuma nave japonesa, de guerra ou
mercante, sulcou suas águas. Em princípios de 1944 o encouraçado francês
Richelieu uniu-se à frota britânica juntamente com a belonave americana Saratoga
e seis destróieres de escolta. Em abril de 1944 a aviação dos porta-aviões britânicos e
americanos, apoiada por forças navais que incluíam barcos de combate,
cruzadores, destróieres e submarinos, bombardeou a base japonesa de Sabang,
extremo norte de Sumatra. Foram atacados o arsenal, a usina elétrica, a
estação de rádio, a instalação de radar, os depósitos de combustível e os
hangares. Em maio do mesmo ano outra frota atacou Surabaya, principal base
japonesa de Java. Pouco depois Sabang sofreu o segundo ataque, quando uma
poderosa frota composta pelas naves Queen Elizabeth, Valiant, Renown e
Richelieu, escoltadas por cruzadores e destróieres, bombardeou a pouca
distância da costa os instalações do porto. Após a captura de Rangun, os destróieres da frota fizeram-se ao
mar, procurando pôr o pique os barcos de abastecimentos que os japonêeses
mantinham em navegação. Os porta-aviões, por sua vez, empregaram seus
aparelhos em missões de ataque que reduziram ainda mais a debilitada frota
aérea inimiga. Em maio de 1945 os japoneses tentaram sua última sortida naval
no sudeste da Ásia. A ação permitiu que se enfrentassem cinco destróieres
britânicos e um cruzador japonês. Um submarino britânico, em missão de
patrulha, detectou o cruzador Haguro, de 15.000 toneladas, navegando entre
Malaca e a ilha de Sumatra. A flotilha britânica saiu imediatamente em sua
perseguição. Por volta da meia-noite os destróieres alcançaram o cruzador e
abriram fogo. A proximidade impediu o Haguro de dirigir os seus canhões
contra os destróieres, que se encontravam a 1.500 metros de distância. A batalha se intensificou em meio à intensa tormenta, com o
lançamento de torpedos. Um deles atingiu o Haguro, incendiando-o. A
tripulação japonesa abandonou a nave e o mar cobriu-se de pequenos pontos que
tentavam desesperadamente afastar-se do barco em chamas. Os britânicos,
contudo, não puderam salvar os sobreviventes pela possível presença de
submarinos inimigos nas cercanias. Afastaram-se do local a todo vapor,
envoltos nas sombras do noite. Entre seus tripulantes haviam ocorrido duas
baixas. A última ação naval destinada a golpear a potencialidade
marítima do Japão ocorreu o 26 de julho. Nesse dia o submarino de bolso
britânico XE-3 penetrou no estreito de Johore, extremo sul da península de
Malaca. Fôra rebocado até ali pelo submarino Stygian. O XE-3 evitou as
defesas de redes e minas, e parou no fundo do mar o poucos metros do cruzador
japonês Takao. Um mergulhador do XE-3 saiu e colocou explosivos no casco do
cruzador. Em seguida a emborcação britânica abandonou a zona. Pouco depois,
tremendos explosões abriram diversos buracos na parte inferior do Takao. Assim agonizaram as aspirações japonesas para o domínio do
Extremo Oriente. A série de derrotas seria concluída pouco depois, com o rendição
incondicional. Em muitos rincões do Pacífico algumas unidades japonesas
continuaram porém resistindo tenazmente. Contra elas foram dirigidos os
últimos esforços bélicos dos exércitos aliados. Anexo Rumo A Rangun 1o de maio
de 1945. Após rápido avanço as unidades britânicas estabeleceram sua
vanguarda a 100 km de Rangun. A meta já se encontra muito próxima e todos,
oficiais e soldados, levam o sacrifício ao extremo no afã de chegar ao que
será a penúltima etapa da região. Depois as unidades seguirão no rumo sul até
Singapura, extremo da península de Malaca. O Tenente-General Slim
percorre, sem descansar um minuto, os postos das divisões, regimentos,
batalhões e companhias. Vai, assim, animando os homens e demonstrando
interesse pela situação. Visitando uma bateria de artilharia pode fazer uma
nova idéia do espírito combativo dos soldados britânicos. Efetivamente, a
bateria encontra-se em atividade. A pouca distância das linhas inimigas, seus
canhões disparam sem cessar. Os artilheiros, peito nu, carregam, disparam,
tornam a carregar e novamente disparam em rápida sucessão durante uma, duas,
três horas, sem descanso algum. Slim, aproximando-se,
cercado pelos oficiais da unidade, observa os combatentes que apenas notam
sua presença, atentos somente à cortina de fogo que seus canhões estendem
sobre as posições inimigas. O tenente-general
britânico, aproximando-se mais, dirige-se aos componentes da guarnição de um
dos canhões. Diz, em tom amistoso: - Lamento que lutem assim recebendo
somente meia ração... Slim referia-se ao
abastecimento limitado, racionado em virtude da própria guerra, que obrigava
a distribuir víveres em quantidade apenas suficiente. Não contava, porém, com
o elevado espírito de combate da infantaria britânica. Um deles, olhando com
um meio sorriso, respondeu: - Não se preocupe com isso, senhor... Dê-nos um
quarto de ração e muita munição que o levaremos da mesma forma até Rangun... O espírito de
sacrifício se impunha às privações e padecimentos. O soldado britânico
percorria o tradicional caminho da bravura e da tenacidade que sempre o
caracterizavam. Navios - Hospitais No decurso da Segunda
Guerra Mundial as baixas em alguns setores foram reduzidas não apenas pelos
novos medicamentos e técnicas da medicina, como também, em grande porcentagem,
pelo magnífico sistema de evacuação e atendimento dos feridos. Transcrevemos
um relato de uma enfermeira americana, Tenente Gladys Meister, integrante do
corpo médico de um navio-hospital: "Existem cerca de
45 enfermeiras como eu a bordo do Acadia. Quando, na qualidade de membros do
Corpo de Enfermeiras do Exército dos Estados Unidos, fomos destinadas para um
navio-hospital, ficamos impressionadas ao pensar no que nos esperava. A maior
parte das moças trabalhava em tempos de paz nos hospitais do nosso país. O
mar era o desconhecido. Enfrentamos porém esse desconhecido e em pouco mais
de um ano e uma dúzia de travessias a nosso crédito, transformamo-nos em
marujos experientes. "A principio
tínhamos muito que aprender. Não era coisa fácil, por exemplo, atender aos
feridos nas camas altas dos beliches, de pé no degrau de uma escada, ou
baixá-los e colocá-los nos botes salva-vidas caso fôssemos torpedeados. "Ao sair dos
Estados Unidos o destino do nosso barco era desconhecido a bordo, exceto,
claro, para o comandante. O Acadia levava suficientes provisões para uma
viagem completa à África ou à Europa. Como parte do nosso treinamento ensinam
como conservar a água, cujo serviço funciona somente durante algumas horas do
dia. A bordo viajam apenas a equipe e seu equipamento médico e o pessoal do
navio-hospital. Levar correspondência ou armas violaria os regulamentos da
Convenção de Haia, expondo o barco a ataques dos aviões ou submarinos
inimigos. Nossa identificação de navio-hospital vai bem à vista e durante a noite
viajamos com iluminação a giorno. "Na viagem de
ida, nós, enfermeiras, tratamos de descansar preparando-nos para os duros
dias que nos esperavam. Contudo, fizemos exercícios diários de salvamento,
mantínhamos as salas limpas e prontas e instruímos alguns homens sobre
cuidados iniciais a feridos. "A verdadeira
tarefa começou com a chegada a um porto de ultramar. Durante os desembarques
da invasão, nosso barco se convertia, às vezes, numa base temporária de
recepção de feridos. Em Salerno e Palermo, por exemplo, o Acadia esteve
ancorado fora da baía, recebendo feridos até que se firmasse a
cabeça-de-ponte, para então ser instalado ali o hospital das tropas. "Muita gente
perguntou a impressão que se tem ao participar de uma invasão. A resposta é
que estamos demasiadamente ocupadas para prestar atenção ao que se possa
sentir. A rapidez e a eficiência reinam a bordo. A atenção não pode ser
desviada nem por um minuto. Os feridos vão sendo trazidos em lanchas de
desembarque e, em seguida, içados ao barco por meio de cordas e roldanas. "O Acadia dispõe
das mais modernas instalações para atendimento dos feridos: seis salas de
cirurgia, uma de psiquiatria e três para curativos. O equipamento para
intervenções cirúrgicas é excelente. "A bordo,
colocamos os feridos em beliches instalados um por cima do outro.
Economizando todo o espaço possível, o barco tem capacidade para oitocentos
homens. Em baixo de cada beliche está preparada uma padiola para que, em caso
de emergência, as enfermeiras e os homens do pessoal possam descer os feridos
rapidamente aos botes salva-vidas. "Os feridos
recém-chegados deliram ou falam avidamente de suas experiências, tratando de
livrar-se da dor ou do choque nervoso. Conforme o tempo vai passando,
referem-se menos aos seus sofrimentos, até se tornarem totalmente reservados.
Porém, sua preocupação dominante é restabelecer-se para voltar às unidades de
combate. "A hora mais
feliz para estes soldados é quando o barco atraca num porto dos Estados
Unidos. Grupos de ambulâncias, caminhões, grande número de membros do Corpo
Médico, esperam formados para transportá-los aos hospitais militares. As
bandas tocam no cais. É indescritível o entusiasmo e a alegria, mesmo de
soldados cegos ou aleijados, ao sentir-se outra vez em sua terra, perto das
suas famílias, dos seus amigos. "Nós,
enfermeiras, também ficamos contentes; a travessia foi um sucesso e logo
poderemos ver os nossos. A verdade é que entre a chegada ao porto e a nova
saída do navio-hospital, o tempo passa rápido como um suspiro". "Mortalha de
Chamas" "Quatro
torpedeiros monomotores japoneses voavam baixo e, de alguma maneira, haviam
conseguido burlar a patrulha aérea de combate. Dirigiam-se agora em direção
aos porta-aviões. Avançavam quase roçando a água, sobre a crista das ondas, a
uma velocidade fantástica. Primeiro foram os destróieres que romperam fogo
contra eles; em seguida os cruzadores e encouraçados. Porém os japoneses
continuaram avançando. "Antes que eu
divisasse os aviões à distância, já se haviam dividido. Dois viraram para a direita,
subindo e rumando para a frente da frota, enquanto os outros voaram
diretamente rumo ao costado de estibordo. Um estava um pouco na frente do
outro, mas ambos convergiam sobre nós. "Pela estação
radiotelegráfica tivemos notícia de que um Zeke fôra derrubado, porém naquele
momento ninguém prestava atenção a isso. "O primeiro avião
torpedeiro, já ao alcance da artilharia, recebeu de nossos canhões de
estibordo uma rajada que sacudiu toda a coberta. Esse japonês era valente.
Parecia incrível! Os canhões de cinco polegadas, depois os quádruplos de
quarenta milímetros e finalmente as fileiras de vinte, concentraram fogo
cerrado sobre o solitário torpedeiro. Centenas de tracers pareciam penetrar
nele, nuvens negras de bombas antiaéreas explodiam à sua volta, dezenas de
granadas atingiam as ondas levantando grandes colunas de água à sua proa. No
entanto, através de tudo isso, a uma altura aproximada de cinco metros, ele
continuava avançando. Tínhamos a impressão de que todas as balas acertavam o
alvo, porém não faziam o menor dano. Na coberta, agachando-se, estavam os
fotógrafos com suas câmaras prontas. "Numa rugidora
corrida de duzentas milhas por hora, o primeiro japonês entrou velozmente
pela nossa proa, e pouco adiante começou a subir. Os canhões de estibordo
cessaram o fogo e houve um brevíssimo intervalo de silêncio. "Jamais tive
tanta certeza, como naquele momento, de que seríamos vítimas de um torpedo. A
aproximação do japonês fôra perfeita. Devia, certamente, ter executado o
lançamento. Seríamos atingidos dentro de poucos segundos. Todos os que
estávamos na ponte, todos menos os artilheiros, éramos inúteis e impotentes.
Sabíamos disso. Alguns observadores permaneciam petrificados sobre a coberta;
outros apertavam nervosamente os capacetes metálicos ou se aprontavam para
suportar a sacudidela do barco ao ser atingido. Alguns se arrojaram sobre a
coberta. Eu comecei a contar os segundos embora nem saiba por que. Dez...
vinte... trinta... "Nada aconteceu.
Aqueles que se haviam jogado ao solo levantaram-se ligeiramente
envergonhados. "O primeiro japonês, atingido pelos projéteis da
artilharia de bombordo, começou a soltar fumaça mais ou menos a cem metros de
distância. O rastro foi aumentando. Cambaleou. Virou o nariz para baixo,
entrou em picada, em parafuso. Envolto em chamas, mergulhou no mar a algumas
centenas de metros de nós. "Então, de
chôfre, todos os olhos voltaram-se diretamente para o alto. O segundo japonês
cruzava sobre o convés de vôo, a poucos metros de altura. Parecia que
poderíamos estender o braço e tocá-lo. Nem sequer observáramos os canhões de
estibordo ocupados com ele à medida que se aproximava, pois estávamos de
olhos fixos no primeiro. Em realidade, devido ao lugar onde me encontrava,
confesso que não tinha conhecimento do ataque deste segundo até que
repentinamente passou sobre mim com sua fuselagem verde-claro. Trazia
pintados nas asas e na parte inferior os dois grandes círculos laranja e
vermelho do Sol Nascente. Da parte posterior saíam chamas aos borbotões. O
sol se refletiu por um instante no vidro que cobria a cabina. Todavia, depois
que passou, pudemos ver o torpedo ainda agarrado à parte inferior do avião.
Isso nos fez respirar aliviados. O japonês se sacudia furiosamente, tentando
erguer o nariz do aparelho, mas acho que já havia perdido o controle. É
possível que pensasse executar um ataque suicida, para glória do seu
imperador; porém, se assim foi, fracassou. Novas chamas brotaram na união das
asas e logo se espalharam pela fuselagem, através da cabina. Enorme e medonha
mortalha de chamas envolveu o avião torpedeiro. Chocando-se contra a água a
algumas centenas de metros de distância, explodiu. Uma ondulante pira de
fumaça negra assinalou depois o local durante vários minutos". De um informe
referente à guerra naval no Pacífico. Minas e Armadilhas A mina antitanque, que
consiste num prato achatado de aço de uns quarenta centímetros de diâmetro
por uns dez de espessura, carregado com quatro quilos de TNT, é o único
obstáculo artificial idealizado até agora que pode deter um tanque. Se o
tanque arremete sobre um campo de minas, tem menos probabilidade de escapar
que um soldado avançando entre arames farpados e sob fogo de metralhadoras.
Essas minas, enterradas a um centímetro de profundidade, explodem pelo peso
do veículo. Sua explosão pode destroçar as lagartas do tanque, arrebentar a
couraça da base, ferir ou matar os tripulantes. O Corpo de Engenharia semeia
minas para defender pontos de resistência e abre caminhos através dos campos
minados inimigos para dar passagem às próprias tropas. Para abrir trilhas
através dos campos de minas do inimigo é preciso detona-las com um bombardeio
ou por outros meios adequados. Ou, ainda, desenterrá-las uma por uma. A Engenharia emprega
freqüentemente o torpedo Bangalore, com tubo de seis metros de comprimento,
cheio de TNT. Espalhados nos campos, quando detonados explodem todas as minas
que se encontram em seus arredores, por efeito da comoção. Um segundo método
consiste em procurar as minas esgaravatando cuidadosamente o solo com uma
varinha ou uma baioneta até localizá-las, desenterrando-as depois. O meio
mais comum, porém, é o emprego do detector de minas. Também cabe à
Engenharia a árdua missão de desarmar armadilhas explosivas, que podem estar
montadas em qualquer objeto: uma arma, uma caneta, uma lata de víveres, até
mesmo num cadáver. Nas cercas de arame
farpado também se colocam armadilhas, montadas de tal maneira que o mais
ligeiro toque as faz explodir. A tarefa do soldado do
Corpo de Engenharia, uma das mais perigosas, é também das mais obscuras e
ignoradas. São regidos por um princípio que não necessita comentários:
"O primeiro erro será o último". Mulheres na Selva A campanha da Birmânia
foi uma luta de homens. Eles avançaram, combateram e tombaram. Porém, não
estavam sozinhos. Como em todas as atividades da vida, mulheres estiveram ao
seu lado animando-os a confortando-os. Velando pelo seu sofrimento. A
respeito delas, escreveu um correspondente britânico: "Não serão
esquecidas por nenhum daqueles que serviram na guerra da floresta. Elas,
integrantes do Serviço Auxiliar de Mulheres, marcharam passo a passo com as
retaguardas de 1942; voltaram a Rangun pela estrada da vitória, em 1945.
Tampouco serão esquecidas as mulheres dos lavradores, que, oferecendo suas
casas aos soldados, fizeram-nos esquecer por algum tempo as penúrias da
guerra; não esquecerão nunca as enfermeiras que estiveram ao seu lado dia e
noite, sem desfalecimentos, confortando sua dor e ajudando-os. Os homens da
frente da Birmânia se jactavam de duros, e duros precisavam ser. Porém,
poucos não sentiam um nó na garganta quando, cobertos de sangue, sujos e
terrivelmente cansados, reabriam os olhos numa estação de evacuação de
baixas, ainda ouvindo ao longe o clamor dos canhões, e viam então inclinar-se
sobre eles uma figura feminina, de mãos cuidadosas e confortadoras. "Bill Slim, por
muito tempo comandante do 14o Exército, escreveu das enfermeiras:
"Em Kohima e Imphall, na lamacenta rota de Tiddim, nas sanguinolentas
cabeças-de-ponte do Irrauadi, elas estiveram presentes. As veteranas dos
Serviços de Mulheres, as mais queridas, as mais próximas do coração do
soldado". A campanha da Birmânia
foi, de fato, uma luta de homens. A mulher, porém, não esteve ausente.
Manchou suas mãos com o sangue dos soldados, e enxugou muitas lágrimas de dor
ou de saudade. Entre os escombros e o
cheiro da pólvora, entre o gemido dos feridos, os gritos dos atacantes,
sempre houve uma mulher marcando sua presença num instante de bondade, de
resignação, de amor ao próximo. Os combatentes da selva jamais as esquecerão. A Proclamação de
Potsdam "Nós, o
Presidente dos Estados Unidos, o Presidente do Governo Nacional da República
da China e o Primeiro-Ministro da Inglaterra, representando centenas de
milhões de compatriotas, deliberamos conjuntamente oferecer ao Japão a
oportunidade de terminar a guerra. "As prodigiosas
forças de terra, mar e ar dos Estados Unidos, Império Britânico e China,
reforçadas várias vezes pelos exércitos e frotas aéreas que essas nações
transportaram para o Oeste, estão prontas a desfechar os golpes finais contra
o Japão. Esse poderio militar está inspirado e apoiado na determinação,
tomada por todas as nações aliadas, de prosseguir a guerra contra o Japão até
que cesse toda a, resistência. "O resultado da
inútil e insensata resistência que o Japão opõe à potência dos povos livres
do mundo deve servir de claro e terrível exemplo ao povo japonês. As
poderosas forças que agora convergem sobre o Japão, incomensuravelmente
maiores que aquelas lançadas contra a resistência nazista, deixaram
praticamente em escombros a terra e as fábricas da Alemanha, e jogaram por
terra o modo de viver do povo alemão. O emprego do nosso poderio militar
total, apoiado pela inquebrantável firmeza que nos anima, trará como
resultado a inevitável e completa destruição das forças combatentes japonesas
e ao mesmo tempo uma devastação imprevisível do próprio território do Japão. "Chegou o momento
em que o Japão deve decidir se deseja continuar sendo manobrado pelos
obstinados militaristas cujos planos levaram o Império à beira da ruína, ou
se deve optar por seguir o caminho da razão. "Enumeraremos a
seguir as condições da capitulação, das quais não nos desviaremos. Não resta
outra alternativa e não toleraremos a demora. "A autoridade e a
influência dos que enganaram e alucinaram o povo japonês, a ponto de lançá-lo
à conquista do mundo, devem ser eliminadas para sempre. Temos convicção de
que é impossível estabelecer uma nova ordem de paz, segurança e justiça no
mundo se o militarismo irresponsável não for extirpado pela raiz. "Enquanto não for
implantada essa nova ordem, e enquanto não existirem provas convincentes da
destruição dos meios que o Japão possui para promover a guerra, as regiões do
território japonês designadas pelos Aliados serão ocupadas com o propósito de
alcançar os objetivos fundamentais aqui indicados. "As condições
compreendidas na declaração do Cairo serão postas em vigor e, assim, a
soberania do Japâo se limitará às ilhas de Honshu, Hokkaido, Kyushu, Shikoku
e às ilhas menores que mais tarde se determinarão. "Uma vez
completamente desarmadas as forças japonesas, os indivíduos que as compõem
terão a liberdade de regressar aos seus lares e a oportunidade de dedicar-se
à vida pacífica e produtiva. "Não é nossa
intenção escravizar a raça japonesa nem destruir sua nação, porém nos
propomos firmemente a levar à justiça todos os criminosos de guerra,
inclusive aos que cometeram atos de crueldade contra os nossos prisioneiros.
O governo japonês deve eliminar os obstáculos que impeçam o ressurgimento das
tendências democráticas entre o povo. Será estabelecida a liberdade de
palavra, de cultos e de
pensamento, assim como o respeito aos direitos fundamentais do homem. "O Japão terá a
liberdade de conservar as indústrias necessárias à sua economia, bem como
para satisfazer o pagamento de reparações justas em espécie; não, porém, das
que possam eventualmente servir para que se arme e desencadeie outra guerra.
Com esse fim o Japão terá acesso às matérias primas que desejar, mas não lhe
será permitida uma jurisdição absoluta sobre elas. "As forças de
ocupação aliadas serão retiradas assim que sejam cumpridos estes objetivos e
que se tenha estabelecido um governo responsável e de tendências pacíficas,
em conformidade com a livre expressão da vontade do povo japonês. "Exortamos o
governo do Japão a proclamar a rendição incondicional de todas as forças
combatentes da nação, como dar também as devidas e oportunas garantias de boa
fé nesse sentido. Do contrário, não restará outra alternativa senão sua
rápida, terrível e completa destruição". 2 de agosto de 1945 "Dedo Fora!" Os contingentes
britânicos se aproximavam de Rangun em marcha forçada. Os japoneses, recuando
ante o avanço avassalador, parecem decididos a resistir no setor da capital
da Birmânia. Assim pensam os comandos aliados que enviam ininterruptamente
aviões em vôos de ataque e reconhecimento sobre Rangun. O Alto-Comando,
traçando planos minuciosos, decide empreender uma operação mista contra a
cidade. Rangun será atacada pelo mar e por terra numa operação envolvente que
cortará todas as possibilidades de fuga das tropas que resistem na cidade. A medida que as
unidades se aproximam de Rangun, os vôos de reconhecimento tornam-se a cada
minuto mais freqüentes. Por fim, quando o
ataque é iminente e nada mais faz supor que a batalha possa ser evitada, um
avião britânico envia uma mensagem que causa estupor: "Os japoneses se
foram". Rápidos pedidos de confirmação, seguidos de ordens e
contra-ordens, são dirigidos aos navios da frota e às unidades de terra. É
necessário confirmar de forma indiscutível, pois a informação pode ser um
engano ou mesmo uma armadilha. Não é nada disso, porém. Minutos mais tarde,
nova mensagem esclarece a situação: o texto enviado ao Alto-Comando é o mesmo
que os pilotos observaram escrito sobre o teto da prisão da cidade. Os
comandos entrevem imediatamente a possibilidade de ser uma armadilha. Enviam
instruções urgentes: é importante confirmar 100% a informação. A mensagem,
porém, cruza com outra irradiada pelos aviões de observação. E tudo se
esclarece. A frase sobre o teto do presídio não é uma armadilha. Não pode
ser. Porque ao lado dela, em letras menores, seus autores acabam de escrever
outra. Outra frase que vem reforçar a anterior: "Dedo fora!". Essas
palavras são incompreensíveis para um estranho, mas familiares para os homens
da RAF, que as utilizam habitualmente como interjeição. Os prisioneiros
americanos em Rangun, libertos, sentiram que seus companheiros poderiam
duvidar do primeiro aviso. Sem vacilar, forneceram a "chave" que só
eles conheciam. "Union Jack" 15 de fevereiro de
1942. Um grupo de oficiais britânicos avança a passo rápido pelas ruas de
Singapura. Junto a eles marcham vários oficiais japoneses. Um dos militares
ingleses conduz, hasteada, uma bandeira, a conhecida "Union Jack".
Não estão, porém, desfilando ou passando em revista suas tropas.
Encaminham-se, isso sim, ao posto de comando japonês, próximo dali. Esses
militares ingleses são portadores de uma capitulação amarga ante o inimigo
japonês. 12 de setembro de
1945. Outra bandeira britânica, outra "Union Jack", começa a subir
lentamente pelo mastro do edifício mais alto de Singapura. Rodeando o mastro,
soldados britânicos a observam. Passaram-se mais de três anos daquele amargo
15 de fevereiro. Porém, o dia chegou afinal. O dia esperado pelos soldados
prisioneiros, pelos combatentes que percorreram milhares de quilômetros até
regressar ao local de onde foram expulsos. Duas bandeiras
simbolizam a luta de um exército que não se deu por vencido. Duas bandeiras,
que são uma só. Porque a "Union Jack" que se eleva sobre Singapura
neste 12 de setembro de 1945 é a mesma que foi arriada a 15 de fevereiro de
1942. Depois da rendição
britânica ante os japoneses, o grupo de oficiais que levaram a capitulação
foi conduzido dias mais tarde à presença de um alto oficial japonês. Este,
sem preâmbulos, solicitou a entrega da bandeira que vira antes com os
britânicos. Um dos ingleses, com voz serena, sem deixar transparecer seu
verdadeiro estado de espírito, respondeu: - Não podemos
entregá-la. Não existe mais. Queimei-a naquela noite, olhando na direção da
Inglaterra e do meu lar... Os japoneses aceitaram
a afirmação. E compreenderam-na também, em toda a sua dimensão. Não
suspeitaram que aquela bandeira jamais fôra queimada, que permanecia oculta
na prisão onde estavam os combatentes britânicos. Aquela bandeira foi
utilizada muitas vezes ao longo daqueles três anos e meio. Foi utilizada cada
vez que um companheiro deixava de existir. Antes de entregar o cadáver aos
japoneses, os ingleses velavam o corpo envolto na velha "Union
Jack". A velha "Union Jack" que agora voltava a tremular na
mais alta torre de Singapura. |