Inverno
de sangue
|
Dezembro de 1939. Enquanto a Alemanha e os Aliados - França e Inglaterra - se pegavam ainda meio friamente na Europa Ocidental, no Extremo Norte tinha início um espetáculo “lateral” impressionante. Por 105 dias o mundo assistiu, supresso e comovido, à Finlândia, com seus 3 milhões de habitantes, resistir à Rússia invasora, com seus 110 milhões de habitantes e com todos os seus recursos de país de dimensões continentais Vitória para Golias Depois que a Rússia, Estados Unidos e a Inglaterra se uniram na luta contra a Alemanha de Hitler, tornou-se moda, nos Estados Unidos e Inglaterra, encarar o líder russo como uma figura burlesca. Ele era representado como chefe benfazejo do estado-operário soviético, defendendo-se contra a traição e a agressão de seus ex-aliados, os nazistas. Os críticos transformaram um Stalin de aparência sombria e grossos bigodes num cavalheiro idoso e amável, enquanto que os elementos de publicidade preferiram tê-lo como uma espécie de déspota bonachão, lealmente apoiado pela nação russa. Seria necessária a considerável experiência das táticas da guerra-fria dos russos nos anos após a Segunda Guerra, para que a imagem de tempo de guerra do ditador soviético fosse substituída, no Ocidente, por uma avaliação mais realista do seu caráter. Assim é o poder da imprensa. O povo finlandês, entretanto, jamais teve ilusões dessa natureza; para ele, Stalin não passava de uma autêntica dublagem de Adolf Hitler, e de apresentação consideravelmente mais brutal que a de Mussolini, embora este, em seus requintes de maldade, tentasse criar um novo Império Romano utilizando-se de aviões e gás venenoso contra os membros das tribos etíopes que tinham como armas apenas fuzis. Os finlandeses, em sua recusa na entrega de terras aos russos e não permitindo a construção de bases soviéticas em seu território, tinham plena consciência dos riscos que corriam assumindo tal atitude, mas consideravam qualquer tipo de concessão como uma perda de soberania zelosamente mantida desde a assinatura do Tratado de Tartu, em 1920, pelo qual o Kremlin reconheceu oficialmente a independência da Finlândia. Infelizmente, como parte do Pacto Nazi-Soviético de Não-Agressão de 1939, a Alemanha concordara que a Finlândia devia ser incluída na esfera de influência soviética, juntamente com a Estônia, a Letônia e a Lituânia, que, sendo limítrofes com a Rússia e agora destituídas de apoio que a inimizade entre alemães e russos lhes dera anteriormente - não tiveram outro recurso senão concordarem com as exigências russas de estabelecer bases militares em seus territórios. Mas os finlandeses, menos acessíveis a Moscou e historicamente mais inclinada para a independência, ignoraram os pontos de vista de Paasikivi, seu representante nas negociações fino-soviéticas, e do Marechal de campo Mannerheim, designado seu Comandante-chefe, só fizeram concessões simbólicas, que Stalin decididamente não aceitara. Uma grande potência, tendo suas injunções prementes frustradas por uma potência inferior, raramente recorre logo à ação militar. Ela prefere procurar, ou forjar, um “incidente”, que possa proclamar ter sido agredida, para então reagir com todo o seu poderio bélico. Foi esta a tática empregada por Stalin. Molotov, inconformado com a obstinada atitude finlandesa em sua recusa às propostas russas, já preparara o palco perguntando: “É sua intenção provocar um conflito?”. E a 26 de novembro alguns soldados russos foram mortos por fogo de artilharia e o fato passou a ser conhecido como o incidente de Mainila; era inevitável que os finlandeses fossem acusados. A 28 de novembro, o governo russo denunciou o Pacto Fino-soviético de Não-agressão e, nos dias subsequentes, rompeu as relações diplomáticas com a Finlândia e montou um ataque em larga escala contra aquela nação. Não podia haver dúvidas quanto ao resultado desse tipo de guerra entre uma nação de 4 milhões de habitantes e um colosso de 180 milhões, e o fim veio com o Tratado de Moscou, assinado a 13 de março de 1940. Mas durante 105 dias momentosos, desde o começo de novembro de 1939 até a assinatura do tratado, uma força finlandesa deploravelmente pequena humilhou o poderoso Exército Vermelho antes de ceder diante do simples peso dos números. Foi nessa campanha que os russos, já acostumados com o rigoroso inverno que sempre lhes foi favorável em outras épocas, se sentiram superados. Seus adversários, os finlandeses, aproveitando-se das vantagens advindas do terreno que tão bem conheciam, movimentavam-se sobre esquis, envergando trajes brancos que se confundiam com a neve, para hostilizar e exterminar os russos, que se limitavam ao movimento em estradas. Colunas soviéticas eram divididas e exterminadas uma a uma. Em Suomussalmi, os finlandeses, com uma força relativamente pequena, derrotaram duas divisões russas completas, conseguindo com isso uma vitória clássica e de proporções heróicas. Mas no fim, empenhando na campanha cerca de 1.200.000 homens, 1.500 tanques e 3.000 aviões, os russos inevitavelmente forçaram a decisão que tanto desejavam. A luta assumira proporções inesperadas e se constituiu realmente num combate entre um Davi e um Golias. Finalmente, Golias acabou vencendo, porque, nesta batalha, Davi não tinha nenhum recurso bélico excepcional, para compensar sua relativa fraqueza - mas o conflito veio provar o quanto pode ser feito ao se pôr em jogo coragem, determinação e bom planejamento. Ele mostrou que uma força pequena, sabendo tirar partido plenamente de todas as vantagens naturais, pode infligir a um adversário danos totalmente desproporcionais aos seus recursos militares. |
|
“As cestas de pão de Molotov” O resultado da destruição do estado polonês pelos alemães viu as potências do Eixo e Aliadas confrontando-se, mas com ambos os lados militarmente inativos quando a “guerra falsa” se abateu sobre a Europa. Enquanto o mundo via aproximar-se a movimentação na Frente Ocidental, no extremo norte desenvolviam-se acontecimentos que proporcionariam uma diversão inesperada vinda do principal teatro de operações. Ali, durante 105 dias (de 1° de dezembro de 1939 a 13 de março de 1940), um mundo atônito e simpatizante testemunhou uma luta empolgante quando a Finlândia, nação de cerca de 4 milhões de habitantes, travou uma guerra unilateral contra 180 milhões da União Soviética (URSS). Como e por que ocorreu a Guerra de Inverno, é uma história tão fascinante quanto as próprias batalhas, pois ela reúne em si a natureza bizantina da política do Kremlin, o oportunismo cínico de Hitler e a tentativa dos finlandeses de evitar o papel que lhe haviam atribuído na divisão germano-soviética da Europa Oriental. A cessão da Finlândia para a esfera soviética de interesse pelo Acordo Molotov-Ribbentrop de 23 de agosto de 1939, era um papel sobre qual os finlandeses não foram consultados nem estavam dispostos a aceitar. O povo e seus líderes não ignoravam que pretendiam usar a Finlândia como amortecedor para a URSS, pois durante toda a sua história ela fora destacada para esse papel. Aliás, a questão estava sendo discutida entre Helsinque e Moscou desde abril de 1938. A experiência histórica e aquelas primeiras discussões prenunciaram todos os acontecimentos posteriores que culminaram com a Guerra de Inverno. Em 1917, quando a Finlândia declarou sua independência da Rússia, a 6 de dezembro, os finlandeses iniciaram uma luta interna, para decidir qual seria o regime do novo estado - marxista ou capitalista. Depois de uma guerra civil feroz e brutal, em que os alemães e bolchevistas participaram, os “Brancos”, sob a liderança de C.G. Mannerheim, saíram vitoriosos. Com o Tratado de Tartu (Dorpat), em 1920, o Kremlin reconhecera definitivamente a independência e a soberania da Finlândia. O tratado também demarcava as fronteiras entre os dois estados: a Finlândia concordava que a Carélia Oriental e as duas províncias fronteiriças de Repola e Porajarvi deveriam pertencer à Rússia, para assegurar a defesa militar de Leningrado; por sua vez, os russos concordavam que a Carélia Ocidental e o porto de Petsamo, situado no Ártico e que os gelos não fechavam, pertenceriam à Finlândia; por último, certas ilhas pertencentes à Finlândia e situadas no Golfo da Finlândia foram consideradas neutras. Mais tarde, em 1932 e novamente e, 1934, Helsinque e Moscou fizeram acordos de não-agressão, ratificando o Tratado de Tartu e criando uma Comissão de Conciliação “para a solução amigável... de litígios de qualquer natureza”. O prazo desses acordos expiraria em 1945. Confiando nestes tratados e na política de neutralidade que enunciara, de acordo com os outros estados escandinavos, a Finlândia acreditava estar a salvo das maquinações das grandes potências. Infelizmente, havia um fator negativo em suas esperanças - a posição geográfica de seu país. À medida que as tensões internacionais aumentavam durante o fim dos anos 30, a URSS abandonava rapidamente o isolamento em que a Revolução e os acontecimentos posteriores a deixaram e voltava a tomar parte ativa nos assuntos internacionais. Crises e mais crises se sucediam, e apesar disso o poderio da URSS também aumentava no âmbito internacional. De início, o Kremlin começou a exercer interação com os pequenos estados das suas fronteiras ocidentais e a pressioná-los; a Finlândia foi um dos primeiros a sentir os efeitos do renovado vigor da política externa russa. Em abril de 1938, o Segundo-Secretário de Legação Soviética em Helsinque, Boris Yartsev, telefonou ao Ministro das Relações Exteriores, Rudolf Holsti, solicitando uma entrevista. Desconfiando de que o assunto em questão deveria ser de certa importância, sendo já notório que Yartsev era membro da Policia Secreta Soviética, Holsti ignorou o protocolo diplomático e logo concordou em recebê-lo. Na reunião, a 15 de abril, Moscou informou ao governo finlandês que temia não só que a Finlândia fosse vítima da agressão nazista como também que usassem seu território como a âncora setentrional de uma invasão alemã da URSS. Se tal coisa acontecesse, Holsti foi advertido para que os finlandeses resistissem ativamente a tal agressão, pois do contrário os russos avançariam para travar combates aos alemães no próprio território finlandês. Entretanto, caso os finlandeses resistissem aos alemães, a Rússia estaria preparada para prestar o máximo de assistência econômica e militar e retirar o Exército Vermelho, assim que a guerra terminasse. Yartsev também impôs segredo à reunião, chegando a ocultar as conversações até ao Ministro soviético em Helsinque. Assim, teve inicio uma série de discussões que durou quase um ano, trazendo as público as apreensões e intenções soviéticas. Desde o inicio, Yartsev falou em termos vagos sobre a Finlândia garantir não estar ao lado da Alemanha numa guerra contra a URSS, mas se recusou repetidamente a definir suas verdadeiras intenções. Mesmo depois de ter iniciado conversações com o Primeiro Ministro A.K. Cajander e com o Ministro das Finanças Vaino Tanner, ele não foi mais explícito do que fora com Holsti. Contudo, realmente empenhou-se em tornar a proposta russa mais aceitável e até ofereceu um tratado comercial vantajoso para a Finlândia, em troca de um acordo político dirigido contra a Alemanha. Como não havia meios de descobrir os termos exatos da proposta soviética, as discussões se arrastaram monotonamente durante o verão e outono de 1938. A minuta de um tratado finlandês declarava que o país continuaria fiel à política de neutralidade e que não permitiria violação de seu território nem seu uso por qualquer grande potência que pretendesse atacar a URSS, desde que lhe fosse dado fortificar as ilhas Aland como salvaguarda da sua neutralidade, mas o Kremlin preferiu ignorar os termos dessa minuta. Uma contraproposta soviética a 18 de agosto sugeria que a Finlândia simplesmente fizesse um acordo por escrito de que ela resistiria a qualquer agressão alemã e recorreria ao auxílio da Rússia, em caso de necessidade. Assim, a “ajuda” russa não acarretava obrigatoriamente o estacionamento de forças vermelhas na Finlândia. Em vez disso, este país adquiriria armas à Rússia e concordaria com a construção de uma base aérea soviética em Suursaari (Hogland) no Golfo da Finlândia. Em troca, a Rússia estava preparada para permitir que a Finlândia fortificasse as ilhas Aland com ajuda, supervisão e controle parcial soviéticos e a assinar um tratado, garantindo a integridade e a soberania territoriais finlandesas e, com estes, além disso, a Rússia faria um acordo comercial que lhes fosse favorável. Numa sessão plenária do governo finlandês, decidiu-se rejeitar a proposta soviética, alegando, como disse Cajander, que “a proposta tende a violar a soberania da Finlândia e está em conflito com a política de neutralidade que a nação adota em comum com as nações da Escandinávia”. Apesar do fato de que esta não era praticamente a resposta desejada, a URSS na época preferiu não insistir no assunto. Vários meses se passaram sem que nenhum dos lados tentasse novas propostas. Usando como pretexto a inauguração do novo prédio da Legação Finlandesa em Moscou, em dezembro, como meio de favorecer as negociações entre os dois países e ocasionar algum tipo de acordo, nem assim a situação modificou-se, pois ambos os lados recusaram-se a fazer concessões além das que já haviam sido feitas. Nos primeiros meses de 1939, as relações fino-russas nada haviam melhorado; ao contrário, estavam até um tanto abaladas. O Kremlin recusou-se a fazer acordos comerciais, enquanto as questões politicas e militares não se definissem, e os finlandeses negavam-se a violar sua neutralidade e soberania. Em março, Moscou propôs que algumas ilhas no Golfo da Finlândia, tornadas neutras por insistência da Rússia em 1920, fossem arrendadas à URSS como postos de observação. Diante da recusa dos finlandeses, sugeriu-se que as ilhas fossem cedidas à URSS em troca de umas terras na Carélia Oriental ao norte do Lago Ladoga. O governo finlandês recusou mais essa proposta soviética, por várias e boas razões: primeiro, constitucionalmente o território finlandês só poderia ser cedido por uma votação majoritária de 5/6 na Dieta, mas a representação do caso para debate naquele organismo anularia o sigilo que envolvia as discussões por insistência soviética; segundo, qualquer governo que fizesse tais tipos de concessões cometeria suicídio político; terceiro, se a Finlândia cedesse às imposições soviéticas, nada impediria que a Alemanha fizesse idênticas exigências. Como resultado da atitude assumida pela Finlândia, as discussões foram interrompidas mais uma vez e até mesmo as negociações comerciais foram canceladas. Em fins de abril, a Alemanha entrou na arena oferecendo um Pacto de Não-Agressão aos finlandeses e aos outros estados escandinavos. A Finlândia, bem como a Suécia e a Noruega, recusaram a oferta como uma violação da neutralidade e da orientação escandinava. Contudo, para o Marechal Mannerheim, esta rejeição finlandesa de ofertas das duas grandes potenciais em nome da neutralidade não era uma boa política, pois, segundo ele, servia apenas para piorar as relações com as duas, e de maneira alguma garantia a segurança da Finlândia. De qualquer modo, o governo finlandês continuou insistindo em sua precária política de neutralidade numa atmosfera internacional cada vez mais grave. Primeiro houve o Anschluss austríaco e depois a reunião de Munique para desmembrar a Checoslováquia, em 1938, uma reunião para a qual a Rússia, aliada dos tchecos, não foi convidada. Contudo, com a subsequente ocupação alemã daquele estado e do Distrito de Memel, a Rússia de repente surgiu como o elemento-chave para a manutenção do equilíbrio internacional. Já não confiando na Finlândia, a URSS principiou a capitalizar sobre a sua nova posição para assegurar um acordo com a Inglaterra e com a França ou com a Alemanha, que reconhecesse os estados dos Báltico e a Finlândia como estando dentro da esfera soviética de influência. Em março, os ingleses e franceses encetaram negociações com o governo soviético no intuito de conter o avanço dos alemães, e os líderes do Kremlin concentraram-se nessas negociações como sendo a grande oportunidade que tanto esperavam para que os países ocidentais reconhecessem o seu direito de garantir ajuda dos estados do Báltico e a Finlândia, se houvesse um ataque contra aquelas nações. Seria incluída nesse acordo a cláusula de ajuda em caso de “agressão indireta”, isto é, de adoção de uma atitude pró-alemã por parte de qualquer governo que usufruísse daquelas garantias. Quando os rumores sobre esta cláusula vieram a público, a Finlândia sentiu um calafrio de apreensão e resolveu agir. Apoiado pela Suécia, o governo finlandês protestou veementemente em Londres e Paris logrando conseguir dos aliados a declaração de que qualquer proposta que viesse a incluir a Finlândia era inaceitável. Por este e vários outros motivos as discussões anglo-franco-russas, embora prosseguissem verão adentro, estavam fadadas ao fracasso. Entrementes, em abril, os russos deram inicio com a Alemanha a negociações comerciais que logo passaram para a esfera política. Absolutamente isento de qualquer sensibilidade moral ou jurídica, o governo do Reich não tinha escrúpulo algum em designar quaisquer dos seu vizinhos para a esfera soviética de influência, inclusive a Finlândia. No tocante a Berlim, não havia nenhum conflito de interesses nazi-soviéticos na região do Báltico. Assim, a 23 de agosto, Joachim von Ribbentrop voou para Moscou para consolidar o pacto de não-agressão com Molotov. No decorrer das cerimônias, proclamou-se uma nova era das relações nazi-soviéticas, e apesar das vigorosas negativas por parte da Alemanha e da Rússia, a Finlândia fora incluída na esfera soviética de influência. Ela em breve viria a cobrir o verdadeiro significado dessa demarcação. A maneira como Hitler usou o Pacto Ribbebtrop-Molotov para defender sua invasão da Polônia a 1° de setembro e como a URSS, depois de alardear, em princípio, sua neutralidade, lançou-se, todavia, contra os prostrados poloneses no dia 17 daquele mês, alegando que a guerra revelara a “bancarrota do estado polonês”, são fatos do conhecimento de todo o mundo. Esta quarta divisão da Polônia abriu caminho para o completo domínio soviético dos estados bálticos e da Finlândia. Primeiro a Estônia, a 28 de setembro; depois a Letônia, a 5 de outubro, e a Lituânia no dia 11, alinharam-se e cederam às exigências soviéticas para estabelecer bases militares em seu território. Nesse meio tempo, veio a vez da Finlândia, no dia 5, quando Molotov pediu ao Ministro das Relações Exteriores finlandês, Elias Erkko, que fosse a Moscou para discutir “certas questões relevantes de natureza política”. Como até o dia 8 o governo finlandês ainda não tinha dado resposta alguma, Derevyanski visitou Erkko a fim de lhe incutir a necessidade de se apressar, observando que a Finlândia não estava tratando da questão como os outros estados Bálticos haviam feito. Erkko retorquiu: “Desconheço a maneira como os estados Bálticos foram convidados a ir a Moscou; a Finlândia tem tratado da questão como um assunto normal e da maneira igualmente normal”. É obvio que a Finlândia não estava inclinada a capitular ante a pressão soviética. Decidiu-se que J.K. Paasikivi, enviado finlandês em Estocolmo, deveria dirigir a delegação finlandesa a Moscou, pois, segundo a opinião geral, o lugar de Erkko era junto ao governo. Supondo que as “questões relevantes” do Kremlin girariam em torno das discussões anteriores e do tipo de exigência recentemente aceito pelos estados do Báltico, o governo finlandês instruiu Paasikivi a salientar que a política de neutralidade da Finlândia, seu pequeno tamanho, o Tratado de Tartu e o Pacto de Não-Agressão com a URSS militavam contra a possibilidade de ela se tornar uma ameaça para a URSS. Quaisquer concessões territoriais deveriam ser rejeitadas, assim como o estabelecimento de bases militares soviéticas em território finlandês ou nas ilhas de Aland e quaisquer outros ajustes territoriais no istmo da Carélia. Somente sob extrema pressão é que Paasikivi concederia algumas ilhas pequenas no Golfo da Finlândia, mas não Suursaari. Quaisquer que fossem as concessões, elas deveriam ser recíprocas e a compensação teria de parecer razoável perante o mundo. Finalmente, não se permitiriam os debates para um tratado de assistência mútua. Assim catequizada, a delegação finlandesa partiu para Moscou a 9 de outubro e deu inicio às negociações no dia 12. A Finlândia viu seus temores tonarem-se realidade logo na primeira sessão. Stalin exigiu tudo que Oaasikivi fora proibido de discutir: um tratado de assistência mútua; arrendamento de uma base naval para estacionar 5.000 soldados no cabo Hango, na foz do Golgo da Finlândia; a parte ocidental da Península dos Pescadores no oceano Ártico; a remoção da fronteira fino-soviética no istmo da Carélia a uma distancia cerca de 12 km para oeste (perigosamente próximo de Viipuri, a segunda maior cidade daquele país), e algumas ilhas do Golfo da Finlândia, incluindo Suursaari. Ao todo, Stalin queria nada menos que 2.761 km² de território desenvolvido, em troca de 5.529 km² de terras brutas ao norte do lago Ladoga. Ele também sugeria a demolição de fortificações de ambos os lados da fronteira, porque elas eram “prejudiciais às relações pacíficas”. Despreparado para enfrentar a enormidade das exigências soviéticas, Paasikivi retornou à Helsinque para receber novas instruções. Ali, concluiu-se que em nenhuma circunstância Hango deveria ser arrendada à URSS. Entretanto, cinco pequenas ilhas poderiam ser cedidas para compensação, um pequeno ajuste para oeste da fronteira na Carélia poderia ser aceito e o Pacto de Não-Agressão de 1932 deveria ser reconsiderado, para declarar que nenhuma das duas partes ajudaria qualquer outro estado que viesse a atacar uma das potências signatárias. Se necessário, Paasikivi também estava autorizado a ceder a parte sul de Suursaari e, se a pressão fosse muito forte, toda a ilha, para impedir que Hango ficasse em perigo. Com relação à Península dos Pescadores, não se cederia em nada. Relutante em realizar as negociações sem a presença de um membro do governo, Paasikivi acabou retornando a Moscou mas acompanhado de Tanner. Quando as novas propostas foram apresentadas a Stalin no dia 23, este as considerou inadequadas, insistiu que as exigências soviéticas eram mínimas e não poderiam ser reduzidas por negociação. Depois de duas horas de discussões que a nada chegaram, a sessão terminou com um diálogo ríspido entre Molotov e Paasikivi. Molotov perguntou: “É sua intenção provocar um conflito?”. Paasikivi retrucou: “Não queremos nada disso, mas vocês parecem querer”. Assim terminaram as negociações e Paasikivi e Tanner prepararam-se para retornar a Helsinque, mas algumas horas depois o secretário de Molotov apareceu na Legação Finlandesa, convocando-os para outra conferência. Quando eles chegaram ao Kremlin, Stalin começou as discussões como se não tivesse havido nenhuma interrupção anteriormente. Ofereceu-se para reduzir o numero de soldados em Hango para 4.000; diminuiu as exigências em relação aos territórios no istmo da Carélia, e aceitar a proposta finlandesa de extensão do Pacto de Não-Agressão. Embora esta última cláusula fosse aceitável, as duas outras ultrapassavam o que os finlandeses estavam dispostos a conceder; mesmo 4.000 soldados em Hango tornavam o densamente populado coração industrial sujeito a ataque interno, e a mudança da fronteira ainda o colocaria perigosamente próximo de Viipuri. Incapazes de comprometer seu governo com essas propostas, Paasikivi e Tanner retornaram a Helsinque para consultas. Ao mesmo tempo, Tanner informou-se perante o governo sueco, se a Finlândia poderia contar com seu apoio em caso de guerra. No dia 27, o Primeiro-Ministro sueco Hansson respondeu que seu país continuaria fornecendo armas, munição, equipamento, alimentos e apoio diplomático à Finlândia, e nada mais poderia fazer, a fim de evitar represálias alemães. Assim, não podendo contar senão com eles próprios, os finlandeses partiram para a fase final das negociações, travando então acalorada discussão no gabinete e com os líderes dos partidos na Dieta, daí se firmando inteira e conscientemente conter as propostas de Stalin. Não se arrendaria base alguma em Hango, mas a fronteira poderia ser mudada um tanto para oeste no istmo (porém muito menos do que Stalin exigia); far-se-ia uma concessão quanto à parte ocidental da Península dos Pescadores, e as pequenas ilhas no Golfo da Finlândia entraram mais uma vez na oferta. A sugestão de Stalin para que as fortificações em ambos os lados da fronteira na Carélia fossem demolidas também não foi aceita, alegando-se que estas eram necessárias apenas para defesa e preservação da neutralidade finlandesa. A caminho de Moscou, Paasikivi e Tanner vieram a saber que Molotov revelara todos os detalhes das negociações em seu discurso perante o Soviete Supremo a 31 de outubro. Ainda em dúvida sobre as conseqüências dessa publicidade, os finlandeses, não obstante, decidiram prosseguir viagem para Moscou, esperançosos de que as negociações ainda pudessem chegar a um bom termo. Esse otimismo um tanto restrito resultou em decepção, pois as propostas finlandesas nem bem tinham sido apresentadas foram logo declaradas inadequadas, e Stalin declarou estar decidido a não fazer quaisquer outras concessões. Antes de deixar o Kremlin, Molotov comentou: “Nós, civis, nada mais podemos fazer a respeito; a questão fica entregue nas mãos dos militares”. Diante desta nota agourenta, aos finlandeses não restou outra alternativa senão retornar à pátria. Durante todo o mês de novembro as coisas ficaram mais ou menos calmas, apesar de fluxo constante de invectivas na imprensa soviética contra a Finlândia e das repetidas violações do espaço aéreo finlandês por aviões soviéticos. Não obstante, o governo finlandês ainda alimentava uma certa esperança, no sentido de que a fase pior já passara e os negócios com a Rússia melhorariam, e as esperanças se fortaleceram ainda mais, diante de um relatório, no dia 23, dizendo que, segundo a opinião do embaixador americano em Moscou, a Rússia provavelmente, não pretendia atacar a Finlândia. Três dias depois o incidente de Mainila veio destruir fragorosamente as ilusões dos finlandeses. Estes, nos dizeres de uma nota emitida por Molotov, foram responsabilizados pelo fogo de artilharia contra a aldeia de Mainila, no istmo da Carélia, que causou a morte de quatro homens e feriu nove outros. A nota observava, ainda, que uma advertência havia sido feita quanto ao perigo de concentrar tropas nas fronteiras e este incidente nada mais era, que a conseqüência provocada pela recusa finlandesa em retirá-las. Molotov propôs que as tropas finlandesas fossem afastadas a uma distância de 25 km da fronteira, para “impedir toda possibilidade de repetição de atos provocadores”. A partir daí, as relações entre os dois estados se deterioraram rapidamente. Helsinque refutou as acusações que lhe fizeram e sugeriu que somente soldados soviéticos poderiam ter disparado contra a aldeia, embora acidentalmente, pois três guardas-fronteiras finlandeses haviam comunicado ter ocorrido disparos de artilharia ao sul de Mainila naquele dia. Aliás, os finlandeses dificilmente poderiam ter tomado aquela atitude, pois Mannerheim ordenara a remoção de toda artilharia que estivesse ao alcance da fronteira, em meados de outubro, para evitar exatamente essa possibilidade. Contudo, os finlandeses declararam-se bastante dispostos em negociar uma retirada mútua de tropas da fronteira e também sugeriram uma investigação conjunta para esclarecer o incidente. No dia 28, Molotov recusou as propostas finlandesas, preferindo acusar seu governo de nutrir “profunda hostilidade” para com a URSS. Além disso, se concordassem com a retirada de tropas soviéticas para a distancia sugerida elas ficariam estacionadas nos subúrbios de Leningrado, “e isto seria absurdo”. A negativa finlandesa em recuar unilateralmente foi encarada como uma decisão ostensiva de manter Leningrado sob ameaça direta por parte das suas tropas. Assim raciocinando, o governo soviético concluiu que a Finlândia não estava mais obedecendo ao Pacto de Não-Agressão. Desse modo, Molotov anunciou, por parte da URSS, a renúncia unilateral do pacto. Sem se preocupar absolutamente pela vinda da resposta finlandesa a essa nota, o Kremlin rompeu relações diplomáticas com a Finlândia, a 29 de novembro. Ainda fazendo o máximo dos seus esforços para evitar a guerra, os finlandeses responderam de maneira conciliatória à nota do dia anterior e tornaram a sugerir uma investigação conjunta visando a uma solução pacífica do litígio, além de concordarem, também, na retirada de todas as unidades, exceto as de guardas-fronteiras e funcionários aduaneiros, para uma distancia de Leningrado o suficiente para não se constituir ameaça à aquela cidade. Entretanto, durante o dia, uma força vermelha cruzou a fronteira em Petsamo e aprisionou vários guardas-fronteiras finlandeses, mas a resposta cabal e verdadeira dos soviéticos veio no dia 30, representada por um ataque geral por terra, mar e ar contra Finlândia. Naquela manhã, bombardeiros russos estacionados na Estônia mergulharam sobre Helsinque e outras cidades e lançaram suas cargas de bombas. Segundo a rádio soviética, os informes finlandeses que narravam esse ataques eram falsos, pois a força aérea russa apenas lançara “pães para as massas famintas” de Helsinque. Daí por diante, os finlandeses chamavam as bombas soviéticas de “cestos de pão de Molotov”. Pondo de lado o senso de humor, a Finlândia estava lutando pela sobrevivência. Os fatos desalentadores Que a Finlândia conseguisse resistir ao ataque soviético, por menor que fosse o seu tempo de duração, não havia quem acreditasse nesse esforço, nem mesmo os próprios finlandeses. Seu único objetivo era manter o invasor em xeque, alimentando a esperança de que viesse ajuda externa antes que ocorresse a catástrofe ou, salvo esta última, investir com tamanha ferocidade que pudesse forçar o agressor a concordar com o que quer que fosse, a bem de uma solução pacífica. Desde a independência, os líderes militares finlandeses concordavam entre si que o único agressor potencial era Rússia. Assim, os finlandeses estavam psicologicamente e defensivamente preparados para enfrentar a ameaça do Leste. A força propulsora por trás desses preparativos durante todo o período entre as duas guerras mundiais concentrava-se no Marechal Mannerheim. Embora estivesse na reforma durante os anos 10, ele mantivera um grande interesse no sistema de preparação de defesa do seu país, enviando jovens e promissores oficiais para estudar em escolas militares alemães e francesas, ao mesmo tempo que insistia constantemente no seu ponto de vista que medidas defensivas deveriam ser tomadas na fronteira oriental. Quando assumiu a presidência do Conselho Nacional de Defesa, em 1931, ele se incumbiu de realizar seus objetivos com a energia e perfeição que lhe eram características. Desde 1922 o serviço militar tornou-se obrigatório, com prescrições de sete anos de serviço de reserva ativo (Corpo de Defesa) e 24 anos de status de reserva inativo após um ano de serviço. O Corpo de Defesa fora organizado dentro do sistema de quadro pelo qual ele podia ser convocado e integrado nas unidades regulares para duplicar o seu tamanho. Mannerheim reconhecia os perigos que acarretaria a ineficiência e a lentidão desse sistema de mobilização, pois nada menos que duas semanas, no mínimo, seriam necessários para que as reservas chegassem à fronteira, mais tempo seria consumido na assimilação das novas forças pelas unidades regulares e o procedimento concentraria homens, materiais, armas e suprimentos nuns poucos locais, tornando-os suscetíveis a ataques aéreos. Assim, o Corpo de Defesa foi reorganizado numa base territorial, de modo que unidades completas poderiam ser despachadas para a frente depois da designação de oficiais regulares para as organizações territoriais. Desde modo, o exército de campanha seria rapidamente reforçado antes que o invasor pudesse fazer quaisquer penetrações profundas, através das defesas da fronteira, os recursos da nação poderiam ser plenamente organizados e se permitiria a mobilização parcial ou total, segundo as exigências do momento. Durante toda a década de 1930, Mannerheim insistiu incessantemente perante o orçamento da defesa. Devido à crise financeira mundial no começo dos anos 30, os argumentos, em sua maioria, foram ignorados. Não obstante, providências para fortalecer o istmo da Carélia - a porta para qualquer invasão - para adquirir suprimento e armas e para treinar as forças armadas, foram tomadas com energia e com a utilização inteligente dos recursos disponíveis. Durante 1931 e 1932, colocaram-se 100.000 desempregados no istmo, construindo ninho de metralhadoras em concreto e trincheiras e armadilhas antitanques de pedra e concreto. Durante o verão e o outono de 1939, outras fortificações defensivas do mesmo tipo foram construídas ali por uma força de trabalho voluntária de estudantes e outros cidadãos interessados. O empecilho mais sério aos esforços de Mannerheim talvez estivesse nas dotações destinadas a despesas de capital para reposição do material. O orçamento foi reduzido em 10% para 1932 e novamente para 1933. Como resultado, a expansão da fábrica de cartuchos foi adiada indefinidamente e o dinheiro extra solicitado para pôr em execução o sistema territorial foi tirado da verba designada para as reposições de material. Por volta do fim dos anos 30, as coisas haviam melhorado um pouco e a Dieta começou a cuidar das necessidades dos militares à medida que o panorama internacional se tornava mais sombrio. Contudo, na opinião de Mannerheim, muita pouca coisa fora feita em tempo suficiente para evitar um desastre em caso de guerra. E, num sentido, ele estava certo, pois se a verba necessária para as defesas do país tivesse aparecido, a Finlândia teria estado muito melhor preparada para enfrentar a ameaça soviética em 1939 do que na realidade estava. Assim, a guerra surpreendeu os finlandeses com a fábrica de cartuchos ainda incompleta; a defesa do istmo da Carélia, inadequada e em grande parte obsoleta, apesar dos esforços feitos em 1939; uma força aérea formada principalmente por aviões antiquados e com um exército regular de apenas 33.000 oficiais e soldados. Ao se dar a mobilização, graças ao sistema territorial essa força poderia ser aumentada para 9 divisões, ou 127.800 homens, incluindo tropas de apoio. Além disso, havia cerca de 100.000 reservistas do exército que poderiam ser convocados e outros 100.000 homens na Guarda Cívica que se exercitavam e faziam manobras a intervalos regulares com o exército regular e nele poderiam ser integrados. Ao todo, a Finlândia poderia contar com cerca de 400.000 homens no exército, Guarda Cívica, marinha e guarda costeira. Finalmente, havia os 100.000 elementos da Lovta Svard, o corpo auxiliar feminino da Guarda Cívica, formada de cozinheiras, trabalhadoras de lavanderia e enfermeiras treinadas que, desse modo, libertavam quase todo o potencial humano masculino para serviço na frente de batalha. Mas o país ainda estava inadequadamente preparado para a provação que o aguardava, como o indica uma comparação entre as forças finlandesas e soviéticas. Em 1939, conheciam-se os seguintes fatos: uma divisão finlandesa consistia de 14.200 homens, em comparação com os 17.500 para os russos; uma divisão soviética contava com dois regimentos de artilharia, cujo poder de fogo era três vezes maior que um finlandês, por divisão; os russos possuíam uma seção antitanque, um batalhão blindado com 40 a 50 tanques, e uma companhia antiaérea com cada divisão, ao passo que uma divisão finlandesa faltavam esses complementos; por último, em armas automáticas e lançadores de granadas, uma divisão russa era duas vezes mais forte do que seu equivalente finlandês e havia ainda várias unidades blindadas e de reserva sob o comando imediato do Comandante-chefe soviético; as forças soviéticas podiam contar com um suprimento virtualmente ilimitado de munições, dominavam os ares com aproximadamente 800 aviões no começo das hostilidades, em comparação com os 96 da Finlândia, e tinham uma superioridade material e industrial absoluta. A Finlândia era ainda mais prejudicada pela deficiência do seu material bélico. Segundo Mannerheim, em condições de guerra, os finlandeses tinham o seguinte: suprimento de 2 meses de cartuchos para fuzis, armas automáticas, metralhadoras, combustível e lubrificantes; suprimento de 24 dias para granadas de obuseiros de 122 mm; suprimento de 22 dias de granadas de 81 mm; granadas de 77 mm para canhões de campanha para durar 21 dias e um suprimento de 19 dias de granadas de artilharia pesada. Essas deficiências seriam parcialmente superadas por meio de compras e embarques da Suécia e outros estados, mas em momento algum a Finlândia esteve perto de um nível de igualdade com seu inimigo. A essa estimativa devemos acrescentar o fato de que, às vésperas do ataque, os finlandeses só tinham 100 armas antitanques, sendo que a metade foi fornecida pela Suécia e o restante viera da industria nacional, e tinha apenas umas poucas baterias de canhões antiaéreos e de artilharia pesada. Tampouco essas disparidades entre as forças adversárias podiam ser compensadas pelas fortificações da fronteira finlandesa que eram por demais rudimentares, em sua maioria construída às pressas e quase todas obsoletas! A invulnerabilidade da chamada “Linha Mannerheim” (133 km de fortificações no Istmo da Carélia) que, com tanto interesse, a propaganda soviética alardeava a fim de justificar a incompetência e os fracassos da poderosa tentativa russa de invadir a Finlândia não passava de uma lenda. Jamais pôde ser comparada às “Linhas Maginot” e “Siegfried” em profundidade ou em fortificações. Na realidade, dos seus 66 ninhos de metralhadoras, 44 datavam dos anos 20 e sua construção e localização deixavam muito a desejar. Os outros 22 eram de construção mais recente, incapazes todavia de resistir a fogo pesado, e a guerra deu provas disso. Entretanto, havia armadilhas para tanques e obstáculos de arame farpado, que se tornavam impotentes contra os ataques pesados dos tanques. Como o próprio Mannerheim disse, “A Linha Mannerheim era o soldado finlandês atento na neve”. Como careciam de materiais, armas e suprimentos adequados para a mobilização em massa, os finlandeses sentiram-se impossibilitados de pôr em campo suas 15 divisões, para isso convocando as reservas. No começo do outono, 8 divisões completas foram mobilizadas e, pelo final de outubro, havia 9, como resultado da combinação das tropas de cobertura no Istmo da Carélia numa única divisão. No começo das hostilidades, essas 9 divisões movimentaram-se da seguinte maneira: o Exército do Istmo da Carélia (6 divisões) foi dividido nos II e III Corpos de Exército; a reserva do Comandante-chefe ( a 6ª Divisão) ficou na vizinhança a oeste de Viipuri, entregue aos preparativos de fortificação e alerta para um desembarque hostil entre Viipuri e Kotka, o IV Corpo de Exércitos, de duas divisões, defendia uma frente de 90 km ao norte do lago Ladoga até Suojarvi. Uma divisão-geral de reserva adicional (a 9ª) estava reunindo-se em Oulu, enquanto que somente companhias e batalhões independentes, em sua maioria unidades da Guarda Cívica, defendiam os 1.000 km restantes de frente desde Suojarvi até o oceano Ártico. Mais tarde, essas unidades tornaram-se o núcleo dos grupos atuantes, organizados durante a guerra. As 9 divisões da Finlândia tiveram pela frente uma força de ataque soviético inicial de 5 exércitos, compreendendo 30 divisões e 6 brigadas de tanques. A principal força russa, o 7° Exército (mais tarde dividido nos 7° e 13° Exércitos), consistia de 13 divisões que foram lançadas contra o Istmo da Carélia. Todavia, apenas 7 divisões participaram das primeiras investidas; em apoio a este exército havia 5 brigadas de tanques e vários regimentos de artilharia pesada. O objetivo da sua ala esquerda era ocupar Viipuri e avançar dali para o coração da Finlândia, enquanto que a ala direita visava à ferrovia Sortavla-Leningrado. Segundo Mannerheim, o número de soldados reunidos no Istmo surpreendeu os finlandeses: a posteriori julgava-se que o inimigo não teria possibilidade de empregar eficazmente mais de três divisões, devido à espécie de terreno e à falta de vias de comunicação na área, duas coisas que transformariam a logística num pesadelo. Contudo, a violência da invasão russa testemunhou ter sido o ataque há muito tempo planejado e muito principalmente quando se soube da construção pelos russos de estradas até a fronteira e de terem ali acumulado grandes quantidades de suprimentos e munições. Ao norte do lago Ladoga, o 8° Exército Soviético, de 9 divisões, uma brigada de tanques e artilharia pesada avançaria para o sul, circundando o lago, e tomaria as forças finlandesas no Istmo pela retaguarda, penetrando também em direção à ferrovia. Mais ao norte, o 9° Exército, formado de 5 divisões, era responsável pela tarefa de cortar a Finlândia na cintura por meio de um ataque desde a área de Kandalarksh-Uhtua-Repola até a extremidade norte do Golfo de Bótnia, e também a tarefa de cortar as conexões com a Suécia. No Ártico, o 14° Exército (3 divisões) tinha como objetivo o porto de Petsamo e um avanço dali para o sul pela rodovia do Ártico. Os dois últimos exércitos não tinham nenhuma brigada de tanques independente, mas eram apoiados por 40 ou 50 tanques de cada divisão. Assim, diante dos fatos desalentadores provindos da esmagadora superioridade do seu adversário, os finlandeses entraram na batalha com poucas esperanças de conseguir defender a linha até a chegada de reforços. Pouca ou nenhuma ajuda material era esperada do resto do mundo, o que não é de surpreender, muito embora uma enxurrada de retórica e simpatia enchesse os salões da Liga das Nações, a imprensa mundial e a maioria dos boletins noticiosos dos Ministérios das Relações Exteriores. Por sua vez, Suécia e Estados Unidos ofereceram-se para mediar um acordo de paz, mas o governo soviético rejeitou a proposta. Nesse meio tempo, o governo finlandês reorganizou-se, sendo nomeados Risto Ryti como Primeiro Ministro e Vaino Tanner como Ministro das Relações Exteriores. Esperava-se que com essa reorganização o Kremlin reiniciasse negociações e concordasse em solucionar pacificamente o conflito, já que o governo anterior estava desacreditado, como obstrucionista aos olhos de Stalin. Essas esperanças, no entanto, logo se dissiparam. A 3 de dezembro o novo governo apelou para a Liga das Nações, mas os russos recusaram-se a comparecer às sessões que debatiam sobre a guerra. Molotov justificava essa ausência, dizendo que “a URSS não está em guerra com a Finlândia e nem sequer a está ameaçando”. Afirmou que a URSS “Mantém relações pacíficas com a República Democrática da Finlândia, cujo governo assinou com a URSS, a 2 de dezembro, (um) Pacto de Amizade e assistência Mútua. Por esse pacto resolveram-se todas as questões que o governo soviético pusera em discussão infrutiferamente com os delegados (do) ex-governo finlandês, agora destituído do seu poder”. A “República Democrática da Finlândia” a que ele se referia tratava-se de um governo títere do Kremlin dirigido pelo exilado comunista finlandês Otto Kuunisem e que se encontrava na aldeia fronteiriça de Terijoki, que caria nas mãos dos russos logo no primeiro dia de ataque. Não se deixando enganar pela astúcia de Molotov, a Liga condenou a atitude soviética e expulsou seu país da organização e estados-membros e não-membros foram solicitados a prestar toda a ajuda, humana, material, possível à Finlândia. Esta foi a derradeira iniciativa prática da Liga e talvez um canto de cisne oportuno. Novas tentativas foram feitas pelo governo finlandês no intuito de travar contato com o Kremlin e mais uma vez tudo foi inútil. A 15 de dezembro, Tanner fez um apelo a Molotov pelo rádio para reiniciar as negociações. A única resposta foi uma declaração lacônica pela Agência Tass de que o apelo de Tanner dificilmente seria atendido. Em atenção aos pedidos da Liga, a assistência dos outros estados concentrava-se quase toda no setor diplomático, embora houvesse, entretanto, alguma ajuda material, principalmente, e de maior vulto, da Suécia, pois grande quantidade podia ser transportada facilmente para a Finlândia. Essa ajuda foi de valor inestimável e de importância capital para aquele país, considerando sua premente carência de armas e munições. Da Suécia também partiram voluntários, mas apenas dois batalhões chegaram a entrar em ação; vieram também alguns da Inglaterra, dos Estados Unidos e da Hungria, mas nenhum destes últimos entrou em combate, exceto um grupo de fino-americanos que chegaram à frente de batalha poucos dias antes do término das hostilidades. Da maior importância foi o empréstimo americano de 30 milhões de dólares que, infelizmente, foi limitado a compras civis e aprovado pelo Congresso só em fevereiro do ano seguinte. Contudo, dadas as condições da época, efetivamente já se esperava a falta de ajuda concreta, pois todas as nações estavam-se rearmando, procurando reabastecer-se de tudo que precisavam para sua própria defesa. O primeiro assalto O verdadeiro plano estratégico russo de operações terrestres nos primeiros estágios da guerra encerra uma questão controvertida entre escritores e analistas militares, e os russos sempre mantiveram uma discrição a toda prova a respeito. Sua disposição de tropas não evidencia esforço importante neste ou naquele ponto qualquer, apesar da concentração mais ou menos extensa no Istmo da Carélia. Na verdade, a concentração ali representava o passo mais certo para dar, pois o Istmo era porta tradicional por onde se poderia penetrar no coração da Finlândia e porque ali, também se realizariam os principais esforços na defesa finlandesa. Provavelmente, os russos não acreditavam que este ou aquele ponto fosse mais ou menos importante que qualquer outro para uma penetração, já que tudo indicava, segundo eles, que a Finlândia sofreria o colapso logo ao primeiro tiro, com a ajuda, é claro, dos quinta-colunas já instalados dentro da Finlândia. Por conseguinte, durante o mês de dezembro eles pouco fizeram no sentido de concentrar e coordenar esforços em qualquer ponto que fosse. Tirando uma página da história das táticas russas contra Napoleão, os finlandeses foram destruindo todos os prédios e estradas à medida que se afastavam da fronteira. Essa política de “terra arrasada” deixou os russos aglomerados em estradas ruins e sem qualquer abrigo em temperatura abaixo de zero. Assim, o inimigo enfrentou uma resistência heróica e à medida que seu avanço era detido, ele ficava na situação nada invejável de não só ter que acampar ao ar livre, como também de ser assediado a todo instante, ao redor da fogueira do acampamento, pelas patrulhas finlandesas em esquis. Se houvesse vitória, esta não seria conseguida tão facilmente quanto os planejadores soviéticos tinham imaginado. A falta de coordenação e concentração dos russos no ataque também deu aos finlandeses a oportunidade de entravar os invasores na maior extensão da fronteira usando apenas um limitado número de homens e de armas e as defesas naturais originárias do terreno. E assim, eles puderam concentrar o grosso das suas forças no Istmo da Carélia. A mobilização no outono estendera o exército de campanha em áreas de concentração de onde poderiam avançar rapidamente para dar apoio às tropas de cobertura. As táticas de retardamento eram parte integrante do planejamento finlandês desde a independência, especialmente no Istmo, onde se permitiria que o agressor penetrasse numa zona defensiva de 20 a 48 km de profundidade, enquanto lhes eram infringidas as maiores perdas possíveis. Essa zona de defesa era ideal para o que se propunha: lagos e pântanos compridos e estreitos, ainda não congelados, e florestas densas limitavam o movimento do inimigo a passagens estreitas de acesso quase impossível e onde podia ser facilmente surpreendido e flanqueado. Os russos desconheciam a área, mas os finlandeses a conheciam tão bem quanto a sua própria casa, porque haviam praticado manobras ali durante o verão. À vontade nesses ermos e não estando sobrecarregados de equipamento e maquinaria pesados, os soldados finlandeses avançavam com rapidez, silenciosos e eficientes em seus esquis, contra os invasores. Contudo, como muitas vezes acontece, nem tudo saía conforme o planejado na sala de reuniões dos oficiais. Contra as ordens explícitas de Mannerheim, as tropas de cobertura insuficientes e mal armadas por diversas vezes travaram combate direto com os russos sem apoio adequado do exército de campanha, impossibilitando, desse modo, as prolongadas ações de retardamento. O combate direto mostrava-se ineficaz, porque, como se esperava, os russos avançavam em longas colunas pelas estradas estreitas, congestionadas pelo seus próprios comboios e sob a proteção dos tanques. Devido às suas forças e artilharia inadequadas, as tropas finlandesas estavam impossibilitadas de atacar o inimigo com a eficácia que poderiam ter tido em outras circunstâncias. Contudo, se tivesse havido estreita coordenação entre as tropas de cobertura e o exército de campanha, os invasores poderiam ter sofrido golpes bem mais duros, com toda a deficiência dos recursos finlandeses. De qualquer maneira, o avanço russo, foi retardado e por volta de 2 de dezembro, os invasores só haviam chegado à primeira linha de defesa do inimigo, cerca de 10 a 16 km dentro da fronteira finlandesa. Pequenas penetrações ocorriam, mas estas eram retificadas por vigorosos contra-ataques na noite seguinte e a linha se estabilizava. Certo território importante foi perdido devido a um incidente curioso e sem explicação, tarde da noite do dia 2. O Estado-Maior do Exército finlandês em Imatra foi notificado em relatório, que forças vermelhas haviam desembarcado na costa atrás das tropas de cobertura, enquanto que outra força teria penetrado o centro finlandês até a principal linha de defesa. Não sabendo que o relatório era falso, a ala direita das tropas de cobertura recebeu ordem para tomar nova posição em Uusikirkko, e a ala esquerda, para além da margem oeste do rio Suvanto, atrás da linha de defesa do II Corpo de Exércitos. Infelizmente, a retirada ocorreu tão depressa que ao chegarem as ordens de retomar o território, já não puderam ser cumpridas. Assim, os russos ganharam parte de terreno valioso sem ter disparado um só tiro. Tal incidente revelou que mesmo nas tropas de cobertura a coordenação era deficiente. Isto pode ter explicado, em parte, pelas comunicações inadequadas dos finlandeses: eles não tinham equipamento moderno e os que possuíam freqüentemente eram passíveis de mau funcionamento. De qualquer modo, a retirada das alas de forças finlandesas, provocada pela falsa notícia de uma penetração russa, criou a situação em que parte das tropas situadas na extremidade leste do istmo foi retirada, enquanto que um grupo do II Corpo de Exércitos ficava arriscadamente exposto perto de Lipola. A situação só foi restabelecida dois dias depois. No dia 4, a ameaça de um ataque inimigo contra o setor de Uusikirkko resultou numa crise de graves conseqüências. Também desta vez a falta de coordenação veio provocar séria perda de tempo nas ações de retaguarda tão necessárias para permitir ao exército de campanha chegar às suas posições. Então, uma brigada blindada vermelha e sua infantaria avançaram pela extremidade sul do lago Suula, penetrando rapidamente as fracas posições defendidas por esgotados finlandeses. As tropas de cobertura na frente de Uusikirkko recuaram para o norte da aldeia, na expectativa de um avanço russo naquela direção, mas, em vez disso, o inimigo desviou seu ataque principal para o norte, na margem oeste do lago, em direção a Maisniemi, e movendo-se em sentido paralelo à sua ala mais fraca, que subia pela costa leste, ameaçando, assim, envolver as tropas de cobertura que defendiam a área compreendida entre os lagos Suula e Muolaa numa pinça. Ao mesmo tempo, as tropas finlandesas em Lipola estavam em dificuldades e tiveram de evacuar sua posição para um setor mais ao norte. É espantoso que eles tenham resistido durante tanto tempo em suas posição exposta sem quaisquer reforços. Na verdade, duas divisões, as 1ª e 11ª, haviam sido destacadas pelo QG de Mannerheim a 1° de dezembro como forças de ajuda para o lado leste do istmo, mas o comandante do setor, Tenente-General Ohquist, resolveu que precisava delas noutra parte. Com isso, as 1ª e 11ª divisões não foram utilizadas como reforço algum, o que provocou a ida de Mannerheim a Imara no dia 3, a fim de repreender pessoalmente seus comandados por terem sido passivos demais em momentos de tamanha crise. Na manhã do dia 4, os russos atacaram e tomaram a cabeça-de-ponte em Kiviniemi. No dia seguinte eles tornaram a atacar a área em torno de Uusikirkko e também penetraram as defesas em Maisniemi, ameaçando cercar a 5ª Divisão. O ataque de tanques contra Maisniemi provocou tal pânico, que armas, equipamento e cozinhas de campanha foram abandonados na pressa de escapar. Uma tropa de cavalaria que acompanhava as forças foi presa de grande terror, a ponto de provocar num soldado a pergunta, no dia seguinte: “Será que existe uma combinação pior do que homens em pânico montados em cavalos também em pânico?”. Esta não foi a única vez que os finlandeses entraram em pânico motivado por ataques blindados nos primeiros dias confusos da guerra. Esse terror, no entanto, é bem compreensível quando se considera que a maioria jamais fora defrontada senão com um ou dois tanques em seu caminho, ao passo que ali eles os estavam enfrentando em grande número e praticamente sem qualquer tipo de defesa. Para compensar a falta de canhões antitanques, formaram-se destacamentos supridos de minas em toda a companhia durante as primeiras semanas da guerra. Contudo, a inventiva finlandesa se fez valer e criou uma arma antitanque muito simples porém bastante eficaz, o “coquetel Molotov”. Sendo a própria simplicidade, a arma consistia de uma garrafa cheia de cloreto de potássio, querosene, com novlen e uma ampola de ácido sulfúrico presa à boca da garrafa para detoná-la. Para usá-la, recorria-se a um indivíduo corajoso, em esquis, que emparelhava com o tanque soviético e lançava o coquetel dentro da torre. Durante os últimos estágios das ações de retardamento, conseguiu-se maior cooperação entre os vários grupos de cobertura, e, assim, puderam ser desfechados vários golpes violentos contra os russos. Ocorreram apenas duas pequenas penetrações na principal linha de defesa durante estas operações de retardamento. Ambas se deram no setor oriental do istmo: uma em Koukonniemi, no dia 6, com pesadas perdas para os russos, e a segunda em Kiviniemi, no dia 7. Por volta do dia 6, estava terminada a tarefa básica das tropas de cobertura e elas foram enviadas para as posições principais. Por enquanto, a situação no istmo se estabilizara. Ao longo dos 1.280 km de frente, as tropas de cobertura finlandesas de aproximadamente 13.000 homens haviam conseguido deter os russos, exceto em Petsamo, embora enfrentassem cerca de 140.000 soldados e talvez uns 1.000 tanques. Onde quer que os finlandeses tivessem cedido, os blindados russos haviam desempenhado papel decisivo. As armas antitanques finlandesas eram eficazes, conforme ficou provado com a destruição de 80 tanques até 5 de dezembro; mas elas eram pesadas e incômodas demais e atrapalhavam a movimentação rápida exigida pela guerra móvel. Nessas situações é que o “coquetel Molotov” se destacava com todo o seu valor. Não há dúvida de que os últimos acontecimentos haviam tomado rumo diferente do que se esperavam os estrategistas soviéticos; sua imprensa alardeava que a Finlândia cairia em poucos dias e os líderes militares aparentemente acreditavam na sua própria propaganda, pois uma ordem soviética apreendida durante os primeiros dias de batalha advertiam as tropas russas para que não violassem a fronteira sueca. Mal preparadas para enfrentar um adversário heróico e decidido, e obrigadas a lutar nos estreitos corredores entre lagos e florestas, em estradas bastante danificadas pelos finlandeses em retirada e congestionadas pelos seus próprios soldados, as tropas soviéticas foram obrigadas a parar de maneira excruciante. Em lugar de uma Blitzkrieg, elas haviam demorado nada menos que uma semana só para chegar à principal linha de defesa finlandesa. Isto por certo não estava sendo outra Polônia. Os russos não só haviam parado no Istmo da Carélia como também seus outros esforços foram singularmente mal sucedidos. Era evidente que o governo de Kuusinen e Terikoji, se é que estava realmente instalado ali, deveria ser o principal objetivo de um ataque de quinta-colunas. Contudo, os apelos de Kuusinen para que a classe operária finlandesa se levantasse contra seus opressores evidentemente foram ignorados ou ridicularizados. Até mesmo a maioria dos comunistas finlandeses não se deixou levar por essas lisonjas transparentes e permaneceu firmemente no propósito de defender sua pátria contra os russos. Os finlandeses estavam unidos na crença de que eram finlandeses em primeiro lugar e esquerdistas ou direitistas em segundo, e dose alguma de propaganda ou apelos ideológicos poderiam mudar essa determinação. Nacionalismo e patriotismo intensos e ódio à Rússia neutralizavam qualquer possibilidade de colaboração com os quinta-colunas. No mar, os russos mostraram-se ainda mais inexperientes. As ilhas indefesas ao longo da costa foram ocupadas com facilidade, mas todo esforço para desembarcar tropas no continente foi repelido. A esquadra russa do Báltico bombardeou Porvoo, cerca de 30 km a leste de Helsinque, num esforço de “debilitá-la” para um desembarque anfíbio, mas foi repelida pela artilharia de costa. Hango e Turku também atraíram a atenção da esquadra russa, mas inutilmente. Se as memórias de Kruschev dizem a verdade, a marinha russa foi tão inepta que não conseguia sequer distinguir um navio mercante sueco de um finlandês. Segundo Kruschev, um submarino soviético disparou contra um navio sueco ao confundi-lo com um vaso finlandês e não consegui afundá-lo. No decurso da guerra, três destróieres, dois submarinos e alguns navios auxiliares russos foram avariados ou afundados pelas baterias costeiras. Além disso, o couraçado russo Revolução de Outubro foi seriamente avariado. Os russos não se saíram melhor também nos ares. Nos primeiros dias da guerra, suas incursões aéreas não conseguiram desbaratar a mobilização finlandesa, o que deve ter causado alguma surpresa às forças militares soviéticas. Outro problema foi que os ataques aéreos contra as principais cidades foram feitos com número insuficiente de homens e prejudicados pelo mau tempo. Em dezembro, o sul da Finlândia desfruta de cerca de 4 horas de luz solar por dia e os céus freqüentemente estão nublados. Uma nevada no dia 2 transformou-se em forte nevasca que se prolongou durante dois dias, ocultando todos os alvos militares, enquanto que céus nublados contribuíram para prejudicar as operações até meados do mês. Até mesmo quando o tempo clareou, em janeiro e fevereiro, a Força Aérea soviética fracassou em sua missão básica. Nem mesmo a única ligação vital que a Finlândia tinha com o mundo exterior, a ferrovia Kemi-Tornio para a Suécia, que transportava as exportações finlandesas bem como suas importações de materiais e armas, esteve interrompida por mais de algumas horas de cada vez. O tráfego de navios mercantes, especialmente o de Turkum, raramente era desbaratado, a pesar dos 60 ataques aéreos contra aquelas instalações portuárias. Ademais, apesar da sua carência de aviões novos e de baterias antiaéreas adequadas, os finlandeses desfecharam violentos ataques contra a Força Aérea soviética. No começo das hostilidades, os finlandeses tinham 96 aviões. Durante a guerra, o número subiu para 287, 162 dos quais eram caças, enquanto que os russos tinham cerca de 2.500 por volta do fim desta guerra. Os finlandeses perderam 61 aparelhos enquanto que as perdas russas chegaram a 725 confirmadas e 200 não-confirmadas, segundo as estimativas militares finlandesas. Desses, 314 foram destruídos por baterias antiaéreas e mais de 300 foram avariados. Uma indicação da pontaria finlandesa é que o numero médio de tiros por avião derrubado era de 54 para canhões e 200 no caso de armas portáteis. Considerando a vantagem que os russos desfrutavam, os fatos e números acima revelam a má preparação e treinamento que caracterizavam a Força Aérea russa. A gravidade da questão torna-se ainda mais acentuada quando se leva em conta a farta distribuição de bases aéreas soviéticas e seu fácil acesso a qualquer lugar da Finlândia. Bases de bombardeiros estavam localizadas na Estônia, próximo de Leningrado e na Carélia Oriental, de modo que o tempo nem sempre impossibilitava todas as operações aéreas. Tampouco o tempo no Ártico deveria ter prejudicado os pilotos russos, já que tinham grande experiência nessas condições e, além disso, o tempo incomumente claro em fins de dezembro possibilitava incursões aéreas mais rigorosas do que se teria dado no decorrer de um inverno normal. Ao todo, cerca de 15.000 bombas explosivas e incendiarias foram lançadas sobre o país - um total de cerca de 7.500 toneladas. Contudo, como aconteceu com os londrinos na Segunda Guerra, os finlandeses nãos e sentiam intimidados; enfrentaram a situação com calma e continuaram cuidando dos seus afazeres. Um jornalista americano que estava fazendo a cobertura da guerra conta que, quando as sirenes começavam a soar, a camareira do hotel entrava e bradava em inglês: “Molotov está aí!”. O terror dos tanques Se a situação estava sob controle no Istmo, não se podia dizer o mesmo da linha de frente de 96 km ao norte do lago Ladoga. Ali, os acontecimentos haviam-se tornado extremamente críticos. Duas divisões finlandesas, com reduzido número de canhões antitanques, se estendiam desde Salmi até Suojarvi, enfrentando o 8° Exército vermelho com 9 divisões e uma brigada de tanques. As forças soviéticas estavam divididas em quatro colunas e se dirigiam respectivamente para Ilomantsi, Tolvajarvi, Suojarvi e Sortavala. Alcançados esses objetivos, elas teriam o controle da ferrovia Sortovala-Joensuu-Oulu e das redes de comunicações e transportes internos da Finlândia. Mais ao norte, as forças russas estavam avançando rapidamente sobre Kuhmo e Suomussalmi, ameaçando dividir o país em duas partes. Temendo um ataque geral e maciço contra o Istmo, o Alto Comando tencionara manter suas reservas para essa contingência, alimentando, no entanto, a esperança de que a frente norte resistisse. Contudo, assediado pela crise no norte e pelo perigo que ameaçava a rede ferroviária, reforços das escassas reservas situadas perto de Viipuri e Oulu foram mandadas às pressas para Tolvajarvi, Kuhmo e Suomussalmi. No dia 5 de dezembro, Mannerheim mandou o 16° Regimento de Infantaria (RI) e também um destacamento para Kuhmo e Suomussalmi, onde um batalhão já os precedera. Três batalhões de depósito, Destacamento “A”, um grupo de esquiadores organizado às pressas e mal equipado foram despachados para o setor de Ilomantsi ao norte de Salmi, e outro batalhão, para Salla, no extremo norte. Segundo os planos de operações baseados em manobras de tempo de paz, as forças finlandesas bem ao norte do lago Ladoga deveriam retirar-se de Salmi para Kitela e aí desfechar um contra-ataque sobre os flancos do inimigo na direção de Loimola-Syskyjarvi, à medida que este avançasse ao longo da margem do lago. Por conseguisse, o avanço soviético até Kitela não provocou qualquer consternação. Contudo, o plano operacional finlandês foi ameaçado com a possibilidade de um avanço inimigo ao longo da ferrovia Suojarvi e das estradas que vão de Suojarvi para Ilomantsi e Tolvajardi. A ameaça mais imediata estava no setor de Suojarvi, causada pelo rápido avanço das colunas blindadas vermelhas. Por volta de 2 de dezembro, os finlandeses haviam recuado de Suvilahti para posições preparadas em Piitsoinoja. No dia 3 ordenou-se um contra-ataque para recuperar Suvilahti, mas a operação foi neutralizada pelos tanques russos. Erkki Palolampi, uma testemunha ocular, registra em seu livro, Kollaa Kestaa, de que maneira as unidades antitanques finlandesas a principio contiveram os russos e destruíram 23 tanques pelo caminho. Contudo, era impossível deter o ataque vermelho, e “O roncar dos tanques foi ouvido na estrada e também se espalhando pelos bosques... Alguém começou a gritar que os tanques estavam atirando da retaguarda! Eles tinham penetrado! Um homem tinha os olhos esgazeados de terror; outros viram seu pânico e gritos de homem para homem diziam nada poder fazer para impedir aquela situação. Os tanques estão vindo, os tanques penetraram! Os soldados começaram a correr, patinando e esquiando pela neve, em direção à retaguarda, sem se preocuparem com coisa alguma e completamente surdos aos gritos e às pragas dos seus oficiais. O pânico se propagou; outras companhias debandaram... os boatos voavam... todos tinham um só pensamento - fugir ao terror do avanço dos tanques... Um jovem soldado que tentava saltar para um trenó, bradou: “Agora nem mesmo os finlandeses podem cuidar dos russos!” Por volta do dia 7, as posições em Piitsoinoja haviam sido completamente abandonadas e as tropas já tinham recuado para a linha secundária em Kollaa. Urgia que Kollaa fosse defendida a fim de que todo o plano do contra-ataque não fracassasse. Os russos iniciaram um ataque maciço no dia 7, mas foram detidos, e daí a situação se estabilizou de tal modo, que por volta do dia 10 a ameaça desaparecera, pelo menos temporariamente. Como as más notícias da frente de Ladoga continuavam chegando, Mannerheim decidiu que a situação era por demais opressiva e crítica para um só homem controlar. No dia 5 de dezembro ele dividiu o comando, deixando o Major-General Hagglund à frente do setor de Sortavala-Suojarvi e colocando o Coronel Paavo Talvela, um oficial de grande coragem e determinação, na área de Ilomantsi-Tolvajarvi. Um homem do caráter de Talvela era essencial e de valor inestimável, pois ele recebera ordens de assumir a ofensiva e derrotar o inimigo com forças numericamente inferiores, sendo avisado que não poderia receber outros reforços além do que já estavam a caminho. Além disso, excetuando o batalhão de reserva enviado por Hagglund pouco antes, suas tropas, que já estavam lutando na área - três batalhões em Tolvajarvi e um em Ilomantsi - achavam-se exaustas por estar enfrentando uma luta contra duas divisões vermelhas. Já nos primeiros dias de combate, o único batalhão que defendia Tolvajardi contra a 139ª Divisão russa fora obrigado a recuar para o rio Aitto, onde se juntou a outro batalhão e ambos fizeram uma tentativa de contra-ataque, mas não tiveram êxito. Incapazes de resistir à alta potência de fogo russa, as forças se sentiram obrigadas a recuar para a margem oeste do lago Agla, no dia seguinte. Ajudada pelo terreno congelado, a ofensiva soviética avançou, forçando os finlandeses a nova retirada, no dia 5, que os levou para uma posição bem a leste de Tolvajarvi; na opinião dos seus oficiais-comandantes, os homens já estavam começando a perder aquela espontânea aptidão para a luta, e sentia-se que uma catástrofe se aproximava. Quando Talvela chegou ao setor que lhe fora destinado, decidiu que era necessária uma mudança radical nos planos das operações, para evitar o desastre iminente. Assim, ordenou ao Tenente-Coronel A.O. Pajari que conduzisse um batalhão reforçado bem atrás das linhas inimigas a fim de desfechar um contra-ataque na noite de 8 de dezembro. Pajari cumpriu as ordens à risca, infligindo pesadas baixas ao inimigo e paralisando a ofensiva russa por uns dois dias. Então, no dia 11, sem que os sentinelas finlandeses percebessem, os russos tentaram uma operação de flanco em torno da extremidade norte do lago e atacaram uma coluna de abastecimento. Pajari, que casualmente passava por ali, num ápice reuniu um grupo de homens dos destacamentos de abastecimento e, ajudado por duas companhias das reservas de linha de frente, investiu contra o inimigo. Ao anoitecer, os russos foram derrotados e perseguidos pelos bosques adentro, e ali, os que não foram mortos pelos finlandeses acabaram morrendo de frio. O êxito dessas operações logrou reerguer o moral dos heróicos finlandeses e, no dia seguinte, eles conseguiram repelir mais uma vez novo ataque frontal vermelho. A esse tempo, a situação perto de Ilomantsi ficou sob controle, e depois de realizadas as retiradas iniciais, o mal equipado Destacamento “A” chegou. A presença destes reforços foi de grande valia; estando a posição finlandesa muito bem situada e forte, conseguiu resistir muito bem ao ataque soviético no dia 9. E no dia seguinte, foram os finlandeses que desfecharam um violento ataque e conseguiram cercar o batalhão soviético, aniquilando-o completamente. Depois de deter o avanço soviético em Tolvajarvi, Talvela tomou novamente a iniciativa no dia 12. Nessas operações, o frio intenso, que atingia -40° F, as florestas densas e a surpresa representavam um fator decisivo para os objetivos dos finlandeses. Segundo os planos de batalha de Talvela, num movimento de pinça dupla, com a ala mais forte dirigida para o norte, cercaria os russos e os manteria retidos, até que a falta de suprimentos e as temperaturas extremas completariam seu trabalho. Quase que imediatamente, evidenciou-se que o plano original finlandês não funcionaria, já que os próprios russos também estavam empenhados num movimento de pinça na margem leste dos lagos Tolva e Hirva, que logo travou contato com a ala esquerda inimiga. A ala direita finlandesa também teve dificuldades em tentar cruzar o lago Tolva. Não obstante, incapacitados para completar a travessia, os finlandeses, no entanto, conseguiram tomar a ilha Koti, colocando, assim, a retaguarda e as comunicações inimigas sob intenso fogo. Ambos os lados se viram momentaneamente impedidos de completar seus cercos devido à própria inabilidade, até que Pajari decidiu desfechar um arrojado ataque frontal através do gelo na extremidade norte do lago Tolva. O movimento de Pajari deu aos finlandeses uma vitória de primeira grandeza, possibilitando a destruição total das forças russas naquela área. A vanguarda do ataque consistia de uma companhia dirigida por um tenente ferido e quando a luta terminou, apenas oito homens ainda viviam. Pelo dia 14, todo o setor de Tolvajarvi estava em mãos finlandesas e a 139ª Divisão vermelha foi completamente derrotada. Não havia dúvida sobre o caráter definitivo da vitória: os russos haviam sofrido a perda de 1.000 homens, várias centenas de prisioneiros, 10 tanques, duas baterias e grande quantidade de suprimentos e armas portáteis. Embora estivessem por demais esgotadas a perseguir seu derrotado inimigo, as tropas finlandesas tiveram que continuar lutando ainda por mais 10 dias. Nova divisão russa, a 75ª, foi enviada para libertar a destroçada 139ª e tomar a estrada para Aglajarvi, que era a única com que os russos contavam para seu abastecimento. Compreendendo o perigo que isto representava, as tropas finlandesas avançaram de Tolvajarvi, indo diretamente ao encontro dos russos, que se aproximavam. Não acostumados com a luta na floresta, os russos se viram sobrepujados pela tática de guerrilha e por ataques frontais do inimigo. Pelo dia 18, a aldeia de Aglajarvi, que os russos haviam fortificado solidamente, estava em mãos finlandesas e o inimigo não teve outra saída senão bater em retirada. Os finlandeses aproveitaram-se dessa vantagem e perseguiram os remanescentes da 139ª e da 75ª Divisões até o rio Aitto, onde foram destruídas quase até o último homem. Tolvajarvi representou uma vitória extraordinária para os finlandeses, e ainda mais espantosa quando se consideram as estatísticas relativas às perdas russas. Essa vitória significava, também, uma aquisição inesperada de 60 tanques, mais de 30 canhões de campanha, 10 lançadores de granadas, quase 400 metralhadoras e grande quantidade de suprimentos e de munições. Além disso, número incontável de armas e quantidade bem grande de equipamento foram destruídos no decorrer da batalha. Contudo, as perdas finlandesas foram proporcionalmente bastante elevadas - a bem da verdade, foram tão altas que Mannerheim, em determinado momento, pensou seriamente que teria de suspender o combate. Mas à insistência dos comandantes na linha de frente, ele permitira o seu prosseguimento até o fim. No final, 30% dos oficiais e 35% dos soldados jaziam mortos ou feridos. Entrementes, o setor de Ilomantsi também fora estabilizado. Quatro batalhões deficientes, munidos de uma única bateria enfrentara a 15ª Divisão russa, fazendo-a parar completamente. Esse setor continuaria inativo durante todo curso da guerra. Esses sucessos contribuíram para estimular muito o moral dos atribulados finlandeses, especialmente na costa nordeste do lago Ladoga, onde as 168ª e 18ª Divisões russas haviam penetrado suas linhas a 8 de dezembro. Por volta do dia 12, num contra-ataque reconstruíra a linha e impusera a retirada dos russos. Com Kollaa continuando a resistir, havia grandes esperanças de que as duas divisões russas pudessem ser cercadas e destruídas. Os grupos atacantes finlandeses estavam posicionados em forma de U desde Kitala até Uomaa, e as perspectivas para o aniquilamento das divisões inimigas pareciam favoráveis. Contudo, os dois primeiros ataques, a 13 e 17 de dezembro, fracassaram, pois o frio intenso, o cansaço dos soldados, a falta de equipamento suficiente e a potência de fogo bastante superior dos russos começaram a cobrar seu tributo ao IV Corpo de Exército. Finalmente, a 26 de dezembro, um grupo finlandês atacou com sucesso as posições russas a leste do lago Kota. A 27, a rodovia Uomaa ficou sob o fogo finlandês e um cordão foi gradativamente apertado em torno do inimigo. Depois de reagrupar suas forças e de estar seguro de que Kollaa ainda estava resistindo, Hagglund preparou-se para as investidas finais contra as 168ª e 18ª Divisões. O plano exigia o rompimento das forças russas dividindo-as em pequenos grupos isolados chamados mottis (termo normalmente usado em referência à madeira empilhada para o corte), por meio de táticas de tipo guerrilha. Durante a noite de 5 de janeiro, o IV Corpo de Exércitos movimentou-se através de uma área virtualmente sem estradas, coberta de neve e boscosa - com as péssimas condições do terreno prejudicando seriamente a movimentação de equipamento pesado - até as áreas de onde lançariam o ataque, que começou no dia 6. Aparentemente ignorando o que estava acontecendo, os russos não tentaram contra-atacar e tampouco recuar, à medida que o inimigo se aproximava. Em vez disso, entrincheiraram-se e se prepararam para resistir no próprio local em que estavam. Pelo dia 11, os russos achavam-se completamente cercados e divididos em mottis, entre os quais os finlandeses se movimentavam impunemente. Tudo saíra de acordo com os planos arquitetados, estando os finlandeses plenamente confiantes, na certeza de que seria apenas uma questão de tempo a rendição incondicional dos russos. Mas aí é que eles subestimaram a obstinação do seu adversário, que resistia entrincheirados no perímetro das linhas de defesa, com a artilharia colocada no centro. A fome também os atribulava, pois somente suprimentos inadequados podiam ser trazidos por uma ponte aérea e, em conseqüência disto, estavam reduzidos à necessidade de comer seus próprios cavalos. Se os finlandeses tivessem mais artilharia de campanha e canhões antitanques, o problema teria sido resolvido bem mais cedo. E assim, o IV Corpo de Exércitos passou o resto de janeiro e parte de fevereiro tentando destruir os mottis, ao mesmo tempo que desviava quatro nova divisões vermelhas que vinham avançando de Salmi em direção a Kasnaselka. A única solução para os finlandeses era lidar com um mottis de cada vez., interceptando-lhes todos os meios de comunicações e em seguida aniquilá-lo completamente. Desse modo, os 10 mottis da 18ª Divisão foram gradativamente destruídos. A 18 de fevereiro, o que restava da 18ª Divisão nada pôde fazer senão se render, com a sua brigada de tanques seguindo-lhe o exemplo no dia 29. No campo de batalha contaram-se 4.300 russos mortos, inclusive dois generais, mas nesse número não se incluem os que jaziam sob a neve. O despojo continha 128 tanques, 91 canhões, 120 carros e tratores, 62 cozinhas de campanha e vasta quantidade de armas de infantaria, de munições e de equipamento. Somente o fim da guerra é que livrou a 168ª Divisão de ter o mesmo destino. Abastecida pela aviação e até mesmo por veículos puxados a cavalos através do lago Ladoga e que eram protegidos por tanques, a divisão resistiu desesperadamente. Contudo, o destino das colunas de abastecimento mostrou a insensatez dessa atitude: uns poucos soldados finlandeses situados numa ilha logo ao largo de Koiranoja empreenderam uma série de ataques noturnos contra as colunas e conseguiram destrui-las em sua maioria, antes que um ataque desfechado da terra e do ar os dizimasse por completo. No setor de Kollaa os poucos e fracos batalhões prosseguiram em sua luta desigual com completo sucesso e detiveram o avanço inimigo, aliviando assim a pressão sobre o IV Exército. Embora quase cambaleando de exaustão, os defensores mantiveram suas posições sem ajuda durante todo o mês de janeiro, exceto alguns pequenos reforços formados de três batalhões independentes, um regimento e uma brigada de cavalaria que havia sido convertida numa brigada de esquiadores. Nenhum desses soldados pôde se afastar das linhas de frente durante esse período para gozar um descanso bem merecido. Mas a magnífica ação no sentido de reter as tropas de Kollaa tornou possível o triunfo das forças de Hagglund mais ao Sul. O fato de que os russos foram detidos no Istmo e ao norte do lago Ladoga provavelmente se deveu tanto à determinação da linha de defesa quanto à ineficiência demonstrada pelo Exército Vermelho. Jamais se pôs em dúvida a bravura do soldado russo; as táticas empregadas pelos seus superiores é que tinham o poder de eliminar grande parte da sua eficiência. Contudo, o soldado russo não era tão engenhoso quanto seu equivalente adversário e até incapaz de agir satisfatoriamente numa situação tão extraordinária como a que encontrou na guerra contra a Finlândia. Também era evidente que os russos não planejavam seus ataques tendo em mente a máxima cooperação e coordenação dos vários destacamentos ligados às divisões. A pontaria do fogo de artilharia era tão ruim, que grande parte das granadas ultrapassava o objetivo inimigo. Por vezes, os tanques avançavam até as posições finlandesas e em seguida voltavam, antes mesmo que a infantaria tivesse sequer começado seu avanço. Este tipo de ineficiência e falta de coordenação continuou durante todo o mês de dezembro, até que o Marechal Timoshenko assumiu o comando do Exército Vermelho na Finlândia. Outro fator que tornava as baixas russas tão numerosas residia na incapacidade dos comandantes vermelhos em mudar suas táticas segundo as necessidades de tempo e espaço. Em vez disso, eles obedecia cegamente ao plano original, enviando leva após leva de seres humanos para o massacre e sem qualquer hesitação, aparentemente incapazes de planejar qualquer outro modo de ataque sem empregar a força bruta. Defensores decididos Apesar das dificuldades e privações que a potência das forças invasoras causou nas operações de retardamento do Istmo da Carélia, as tropas de cobertura haviam comprado tempo para seus compatriotas ocuparem as posições de defesa primárias. Depois que as tropas de cobertura foram retiradas das posições avançadas, a 6 de dezembro, houve alguns dias de relativa tranqüilidade ao longo da linha de frente, enquanto as forças vermelhas se reagrupavam. Somente missões de sondagem e fogo de artilharia esporádicos perturbavam a calma vez por outra, porém tal ação já era o bastante para alarmar os soldados inexperientes do recém-chegado exército de campanha, que operando principalmente na escuridão, sem iluminação adequada - eles nem sequer tinham lanternas em número suficiente -, não é de surpreender que as tropas estivessem tão nervosas. Felizmente, veio o período de calma, que lhes deu a oportunidade de se adaptarem um pouco aquela situação. Até mesmo os soldados atrás da linha estavam apreensivos, e por uma boa razão, é claro - a linha de frente era tão superficial que é quase incrível que as patrulhas russas não achassem nunca o caminho para a retaguarda. Embora os russos desfechassem apenas um reduzido número de ataques em massa, suas patrulhas estavam sempre ocupadas em trabalhos de sondagem e essas operações provocaram muitas escaramuças noturnas com os elementos da defesa. Além disso, elas vez por outra conseguiam se aproximar e cortar o arame farpado para depois fazer explodir os arrastar os blocos que serviam de armadilhas para tanques. Essas atividades russas logo fizeram os finlandeses compreender que as armadilhas de tanques estavam colocadas muito à frente dos bunkers, tornando, assim, muito difícil protegê-las eficazmente, sobretudo à noite. Mas já era tarde demais para corrigir esse erro. Embora o período de passividade russa fosse de grande valia para os finlandeses, dando-lhes a oportunidade de “recuperar o fôlego”, bem como de reorganizar e reagrupar suas forças, em contrapartida os russos estavam recebendo forças adicionais, reagrupando-as, familiarizando-as com as operações e planejando o próximo ataque. Pela atividade reinante nas forças vermelhas, era mais do que evidente que elas planejavam um golpe assestado de duas pontas: uma dirigida para Summa, a Porta de Viipuri; e a outra, para Taipale, na extremidade oriental da Linha Mannerheim. Obviamente, o ataque à Summa era de importância vital para ambos os adversários, pois se fosse coroado de êxito, estaria aberto o caminho para Viipuri e Helsinque e também para o coração da Finlândia, dando-se ali o final da guerra pelo esmagamento da maioria das forças finlandesas num gigantesco movimento de pinças. O ataque a Taipale aparentemente nada mais era que um estratagema para afastar os finlandeses dos objetivos. Além disso, com a boa rede rodoviária na área e podendo usar o lago Ladoga, os russos conseguiram avançar primeiramente em direção a Taipale. Por conseguinte, durante a noite de 14 de dezembro, patrulhas finlandesas alertaram que os russos se preparavam para um ataque. À única divisão de infantaria inimiga já se juntara uma segunda, e mais artilharia. No dia 15 de dezembro, pela manhã bem cedo, os russos começaram a metralhar as posições finlandesas, cuja infantaria tinha de defender a linha com o máximo do seu esforço apesar da severidade da barragem, pois as baterias possuíam o mínimo de granadas e muito pequeno numero de canhões, e estes mesmos eram de alcance muito limitado. Assim, o plano consistia em não disparar um só tiro até que o inimigo aparecesse em campo aberto, no gelo, para então abrir fogo quase à queima roupa. Ao fim da batalha, os russos mais uma vez haviam sido repelidos, sofrendo uma perda de 12 tanques e grande número de mortos jazia no solo. Depois de um dia de relativa inatividade, os russos tornaram a atacar, no dia 17, quando também fizeram um esforço inaudito para conseguir romper a posição em Summa. Leva após leva de soldados russos foram lançadas contra as linhas inimigas enquanto os finlandeses continuam o fogo, esperando que o adversário chegasse a uns 50 metros de distância. Ainda assim, os comandantes russos mandavam seus soldados avançar e avançar, num desprezo quase criminoso pela vida humana, até que, finalmente, os soldados russos, já não podendo suportar aquela situação por mais tempo, fugiram em debandada, no maior pânico. Daí por diante, os ataques vermelhos contra Taipale, a partir do Dia de Natal e prolongando-se até o dia 27, tornaram-se fortuitos e desordenados, embora se revelasse uma pequena mudança em seus planos operacionais durante esses golpes: transferiram o ataque do sul para o lado oeste das defesas inimigas, mas muito pouco eles conseguiram com essa manobra, exceto um aumento no número de inimigos mortos. Além disso, quase nenhum dano foi causado às linhas finlandesas e aos seus canhões. Enquanto se desenrolava o ataque a Taipale, preparava-se uma grande ofensiva na área de Summa. Os russos lançaram numerosas missões de sondagem, durante as quais iam concentrando rapidamente as suas forças atrás das linhas. Em meados de dezembro já era evidente a iminência de um ataque em grande escala com o intuito de terminar logo a guerra. Para o comandante finlandês, a situação apresentava-se extremamente crítica. Toda a 5ª Divisão foi deslocada numa linha longa e estreita, contando com poucas reservas para apoia-la. A reserva do Comandante-chefe, a 6ª Divisão, situava-se tão distante da linha de frente que não podia oferecer proteção alguma ao setor ameaçado. Com artilharia insuficiente e escassez de granadas, qualquer tipo de contra-ataque era considerado muito perigoso e dispêndio inútil. Portanto, pouco se podia fazer além de reagrupar as forças e aguardar o ataque em perspectiva. Foi dado o inicio da ofensiva através de pesada barragem de artilharia às primeiras horas do dia 17 de dezembro, mas o ataque propriamente dito começou às 10:00 horas. Foi lançada no ataque toda uma divisão, apoiada por aviões e cerca de 80 tanques. Avançando por trás destes últimos, a infantaria russa penetrou bravamente na saraivada de fogo finlandês, aparentemente ignorando a devastação que se ia causando em redor. Para os elementos da defesa, este golpe representou uma experiência aterradora, que submeteu seus nervos ao máximo de sua resistência, enquanto os inimigos lhes caiam aos montes diante dos olhos. Outro motivo de tensão foi a presença dos tanques que, devido à modesta artilharia disponível e à ausência de canhões antitanques, não podiam ser detidos de todo em seu avanço. (À luz do dia era difícil, se não impossível, lançar “coquetéis Molotov”). Ainda havia outra desvantagem: as comunicações telefônicas tinham sido interrompidas pelo fogo inimigo, e assim, o posto de comando não podia se comunicar com os vários setores, a não ser que apelasse para o velho equipamento de rádio que nem sempre funcionava a contento. Somente depois do anoitecer, estando os canhões russos silenciosos e as linhas telefônicas já reparadas, é que se pôde fazer uma avaliação completa das atividades do dia. Então os comandantes-de-campanha puderam novamente comunicar-se entre si, utilizando-se de um jargão que haviam desenvolvido em poucas semanas de guerra, para confundir o inimigo, podendo assim, evitar o uso de código, para cuja decifração exigia mais tempo. O jargão era uma mistura de idiomas finlandês e sueco, combinados com apelidos para seus próprios grupos e conhecidos. Dos relatórios que chegaram era evidente que no único ponto em que havia penetrado as linhas, na aldeia de Summa, o inimigo fora ali mesmo repelido, nas primeiras horas da noite. Ao recuarem, os russos contavam então com 25 tanques menos que no inicio do ataque, e também com um número exorbitante de baixas. Sem se preocuparem com as perdas sofridas, os russos reiniciaram o ataque no dia seguinte, depois de uma barragem de artilharia que durou 5 horas. Cerca de 70 tanques foram usados no assalto, mas o fogo dos adversários foi tão certeiro na fase inicial, que 10 tanques foram destruídos quase que imediatamente, detendo assim o ataque antes mesmo que ele realmente se iniciasse. Não logrando romper a resistência por meio de um ataque frontal, os russos todavia continuaram atirando contra as linhas inimigas durante toda a noite. No dia seguinte, 19 de dezembro, pôde-se ver o começo do mais violento ataque da guerra desde então. Seis divisões, um corpo de exército blindado e duas brigadas de tanques foram postos em ação, enquanto bombardeiros e caças lhes davam cobertura. Desta feita o ataque foi desfechado numa frente mais ampla, e com o assalto principal visando a Summa. O ataque naquele local foi tão violento e maciço, com os comandantes dos tanques inteiramente alheios ao perigo que corriam, que os tanques penetraram de roldão os obstáculos e ultrapassaram as linhas finlandesas. Mais tarde, relatórios vindos de Summa notificaram que havia ali cerca de 100 tanques operando ao mesmo tempo, mas no momento do ataque ninguém sabia disso, porque as linhas de comunicação tinham sido novamente cortadas. Nessa batalha os finlandeses aprenderam, embora tarde demais para qualquer modificação, que as pedras usadas como armadilhas de tanques deveriam ter sido de tamanho muito maior. Mas apesar da profunda penetração e da violência do ataque, a brecha foi fechada e o inimigo, rechaçado. Em outros setores os russos não se saíram melhor também. ao norte de Summa, os tanques russos se encontraram numa estrada em meio a uma floresta tão densa, que não puderam deixar aquela via e foram obrigados a prosseguir, literalmente até a boca dos canhões inimigos. Somente na noite seguinte é que os sobreviventes conseguiram dar a volta e recuar. Durante todo aquele dia, e no dia seguinte, os russos continuaram atacando, sempre com um suprimento novo de soldados que vinham substituir os que iam tombado. Já então, a artilharia russa havia melhorado sua pontaria, tornando-se, desse modo, mais eficaz na cobertura dos tanques e da infantaria em suas investidas (Nas primeiras fases da guerra a artilharia russa mostrava pontaria tão ruim, que os tiros, em sua maioria, passavam muito acima da cabeça dos inimigos). Contudo, apesar desses melhoramentos, os finlandeses ainda permaneciam como que pregados em suas posições, no final da batalha do dia 23. Vistoriando o campo da luta mais tarde, não tiveram dúvida alguma quanto à séria derrota sofrida pelos russos, diante do número incontável de cadáveres espalhados entre os 58 tanques destruídos por trás e na frente das linhas. Até então, os finlandeses haviam destruido 239 tanques só no Istmo. Poder-se-ia apresentar uma boa quantidade de razões para justificar o mau desempenho das forças vermelhas, porém quatro delas parecem as mais convincentes. Primeiro, os russos tinham julgado que haveria pouca ou nenhuma resistência e, portanto, não haviam planejado suas operações nos mínimos detalhes. Aparentemente, eles acreditavam que o emprego da força bruta, apenas, bastaria para vencer o inimigo. Segundo, permaneceram cegamente fiéis ao seu plano originalmente idealizado e não lograram alterá-lo dentro dos moldes de uma guerra autêntica, evidentemente acreditando que maior número de tanques e homens supririam qualquer falta. Terceiro, seus comandantes eram subordinados à autoridade dos oficiais políticos ligados às unidades e, por isso, temiam tomar decisões que eventualmente viessem transformá-los em suspeitos políticos: o espectro dos expurgos ainda perseguia o Exército vermelho. Por último, além de serem dirigidos com competência, os finlandeses estavam lutando em defesa de seus lares e acima de tudo da liberdade; por estas razões eles resistiram melhor à tensão da batalha do que os soldados russos, que não só eram mal treinados e mal conduzidos, com também lhe tinha sido incutido que seriam recebidos de braços abertos pelos finlandeses, em vez de combatê-los. Além disso, os soldados russos estavam enfrentando a luta num ambiente estranho, e para eles, hostil. Muitos jamais tinham visto uma floresta, tendo vivido somente nas planícies da Rússia. Além disso, os finlandeses estavam vestidos de branco, enquanto que seus equivalentes russos trajavam cinza-escuro, que os fazia sobresair como limpadores de chaminés na neve. Tendo detido completamente o avanço russo, agora era vez dos finlandeses atacar. Já durante as operações de retardamento, o Major-General Ohquist solicitara permissão para tal operação com o II Corpo de Exércitos, mas na época seu pedido fora recusado como sendo demasiado arriscado o empreendimento. Quando, no dia 19, sua proposta foi reapresentada durante a batalha em Summa, o Alto Comando finlandês aprovou-a Segundo os planos, a 6ª Divisão, que estava na reserva atrás de Summa, reforçada por um RI, deveria juntar-se a partes de 5 outras divisões na ofensiva. O ataque teria lugar ente os lagos Muola e Kuolema, numa frente de cerca de 24 km. Na extremidade oeste da linha, partes da 4ª Divisão avançariam na ala direita da 6ª Divisão, que se deslocaria ao longo do rio Summa. Partes da 5ª Divisão seriam responsáveis pela retenção dos russos na vizinhança de Summa. Na extremidade leste da linha, grupos da 1ª Divisão atacariam ao longo da ferrovia, enquanto que, mais a leste, grupos da 11ª Divisão penetrariam para oeste a fim de imprensar o inimigo entre elas e as unidades da 1ª Divisão. O plano era realmente audacioso. Se fosse bem sucedido, os finlandeses poderiam encontrar-se em posição de negociar uma solução pacífica do conflito com o Kremlin - não que os comandantes esperassem um triunfo completo: eles se contentariam com pouco menos de uma vitória total se seu sistema de ataque pudesse perturbar suficientemente o inimigo, fazendo-o perder terreno e reconsiderar toda a situação. A Hora-Zero foi marcada para as 6:30 horas de 23 de dezembro. Quando chegou o momento, a neve ainda estava caindo, mas não demorou a parar, e então a tempestade desceu para -4° F, o vento aumentou e o ânimo das tropas abateu. Nessas circunstâncias, logo tornou-se evidente que o contra-ataque não sairia tão bem quanto fora planejado. Outros problemas logo apareceram. Em alguns casos, as forças de reserva trazidas para a operação tinham veículos em demasia e estavam tentando transferi-los, apenas horas antes do inicio do ataque. Não se fizera um reconhecimento perfeito das posições inimigas antes do ataque e as localizações exatas das suas posições e da disposições das armas e dos homens eram ignoradas. A principio os atacantes finlandeses encontraram pouca resistência, mas logo os tanques russos entraram na luta e barraram o avanço. Uma vez mais, as comunicações foram interrompidas por fios cortados e mau funcionamento dos rádios, de modo que a estreita cooperação entre os vários grupos atacantes entrou em colapso. Além disso, como a artilharia não podia mover-se com a mesma rapidez com que a infantaria o fazia, houve pouca oportunidade de usar os grandes canhões contra os tanques, em apoio da infantaria; quando os canhões chegaram não se sabia onde sua presença era mais necessária, devido à falta de comunicações. Depois de oito horas, a ofensiva foi cancelada e os finlandeses se retiraram para suas próprias linhas, sem qualquer interferência. Embora o contra-ataque não fosse absolutamente um sucesso, em todo o caso pôde contribuir para levantar o moral das tropas e abalar o inimigo, o que talvez fosse o mais importante. Dada a inferioridade numérica finlandesa, acrescida da sua baixa potência de fogo e do sistema de comunicações inadequado, é de surpreender que eles tenham tentado a operação. Contudo, os russos não fizeram qualquer esforço para reencetar os ataques no Istmo durante mais de um mês, limitando-se a surtidas esporádicas em Taipale, de 25 a 27 de dezembro, e a pequenas escaramuças ao longo da linha em janeiro. A Batalha de Suomussalmi A meio caminho entre o mar Ártico e o Istmo da Carélia existe uma área esparsamente populada na fronteira oriental da Finlândia onde foram travadas algumas das mais famosas batalhas da Guerra de Inverno. Ali, na vizinhança das pequeninas aldeias de Suomussalmi e Kuhmo, três divisões russas foram inteiramente dizimadas pela reduzida força finlandesa. Acreditando que os russos não fariam esforços importantes nesse ermo virtualmente destituído de estradas, o Alto Comando finlandês deixara as defesas, ali, a cargo de um punhado de homens das reservas, guardas de fronteira e unidades da Guarda Cívica. Mas ao se constatar que o inimigo não só estava invadindo as áreas como empregava nesse empreendimento duas divisões e o complemento normal de tanques, e que tinha uma divisão de reserva aguardando chamada nas alas, reforços foram mandados às pressas para a linha de frente. Ali, atrás da fronteira em Ladoga, os russos se haviam empenhado na construção de estradas que conduziam até a fronteira e era também por ali que tentavam invadir a Finlândia. O povo da área estava formalmente convencido de que, devido ao isolamento em que se encontrava, nada tinha temer por parte da Rússia; assim, embora já soubesse há algum tempo da concentração de tropas russas no outro lado da fronteira continuou trabalhando e mantendo a rotina de sempre, inclusive mandando seus filhos para a escola, até o dia da invasão. A população só começou a evacuar a região a 30 de novembro, quando os russos já estavam sobre ela. Essa situação foi causa de muitos sofrimentos e prejuízos de ordem econômica para a população civil; em alguns casos, as crianças tiveram de fugir da escola à chegada dos russos à sua porta. Na vizinhança de Kuhmo, grupos da 54ª Divisão russa estavam avançando ao longo das duas estradas que levam à aldeia. Somente um batalhão encarregado da defesa estava em seu caminho, mas apesar do reduzido numero de efetivos e seus limitados recursos, os finlandeses começaram a desfechar ataques de flanco a 1° de dezembro. Sem condições para deter a marcha do inimigo, foram obrigados, além disso, a recuar para posições na retaguarda, para logo em seguida continuar retrocedendo no dia 5. Nesse estágio, tornou-se evidente que a situação era por demais crítica e que as forças tinham necessidade premente de reforços, de modo que o 25° Batalhão da 9ª Divisão de Oulu foi despachado para o setor, em seu auxílio. Essas novas tropas estavam equipadas apenas com fuzis, metralhadoras, tendas e seus onipresentes esquis; não levavam canhões de campanha ou armas antitanques, pois não havia nada disso em disponibilidade. Mal chegaram os reforços, foram logo lançados em combate, antes que os russos tivessem tempo de receber tropas adicionais ou até mesmo de fortalecer suas posições. O tempo urgia e os finlandeses renovaram seus ataques aos flancos russos, não lhes dando a oportunidade de completar todos os preparativos para a luta ou de se familiarizar com a situação. A 8 de dezembro, um ataque do norte e do sul da estrada de Kuhmo conseguiu dividir a coluna inimiga em várias partes. Durante algum tempo, os finlandeses puderam manter um perfeito controle sobre estes grupos, mas gradativamente o cansaço, as baixas, as dificuldades para conseguir apoio e a falta de telefones de campanha que tornava quase impossível coordenar as operações, obrigaram-nos a desistir de seus esforços e deixar aos russos a posse da estrada. Outro fator negativo era o tempo, que ficara extremamente frio, com temperaturas caindo até -22°F. Mas pelo menos essas operações lograram deter o avanço russo e a frente foi restabelecida por volta do dia 20. Para os russos foi um período bastante difícil e provavelmente uma situação por demais embaraçosa: eles não podiam avançar, mas também não se atreviam a recuar. Ao mesmo tempo, não tinham possibilidade para atacar abertamente os adversários, que se movimentavam como fantasmas nos esquis pela florestas cobertas de neve e parecendo estar à vontade, atacando onde e quando queriam. Aparentemente, essas táticas explicavam em parte a passividade dos russos e seu fracasso em organizar quaisquer ataques cerrados contra as posições inimigas. Em vez disso, eles se entrincheiravam ao longo da estrada e ali ficaram expostos ao frio intenso, numa longa espera pelo resto da 54ª Divisão, até que esta chegasse para salvá-los das suas dificuldades. Pelo final de janeiro, eles enfrentaram uma ameaça ainda maior com a chegada das tropas inimigas que acabavam de conquistar sua grande vitória em Suomussalmi. Cerca de 80 km ao norte de Kuhmo, próximo da aldeia de Suomussalmi, realizou-se uma das mais renhidas e clássicas batalhas da história militar. Uma f |