Roterdã

A invasão da Holanda

 

 

O ultimato de rendição tinha sido aceito. A antiga e bela cidade estava a salvo. Porém os pilotos alemães de bombardeio procuravam em vão pelos foguetes de sinalização que os fizessem retornar. Foi dentro da massa compacta de construções da velha cidade que as bombas caíram. E o vento soprava forte...

Willhelmina Steenbeek

 

Cidade destruída

 

A Holanda viveu por detrás de uma cortina de neutralidade durante mais de um século. Nascida no período da Guerra dos Oitenta Anos, suportou impavidamente o conflito com uma série de inimigos durante a maior parte de sua história inicial. Foi bem sucedida em relação à Espanha Imperial, apesar das imensas adversidades, e acabou por conquistar a independência. Esta e mais as riquezas de novo império colonial que lhe vieram após, tiveram de ser valentemente defendidas em várias ocasiões contra muitos inimigos, às vezes novamente a Espanha, que se ligava a outros, depois a Inglaterra e, em seguida, a França. Os holandeses sempre resistiram, embora nem sempre fossem bem sucedidos, mas pelo menos conseguiram manter sua independência e o acesso ao mundo exterior, através do poderio marítimo. No entanto, mais de dois séculos de guerra tiveram como conseqüência a conquista da Holanda durante a Revolução Francesa, dando-se então a destruição do mito de que aquele país era indestrutível. A princípio estabeleceu-se uma independência fictícia como títere da França, para começar, como uma república - mais tarde monarquia regida pelo irmão de Napoleão - mas por fim esclareceu-se a verdadeira situação: em 1811 a Holanda foi integrada definitivamente ao Império Napoleônico. Quando este soçobrou e a Holanda foi libertada, os Países Baixos, ora ampliados com a adição da Bélgica e do Luxemburgo, abandonaram todas as aspirações de virem a ser grande potência e satisfizeram-se se portar como estado-tampão próspero entre uma Prússia que ressurgia e a França.

 

Como a própria Bélgica, cuja secessão da União em 1830 não foi de todo benéfica, o pequenino estado holandês esperava consolidar sua posição internacional optando pela neutralidade. Enquanto as guerras de unificação alemã e italianas transtornavam o equilíbrio europeu pelo poder no século XIX, os países Baixos mantiveram-se alheios, burgueses, conservadores e, sobretudo, a salvo de intervenção estrangeira. Embora a Primeira Guerra Mundial mostrasse abertamente aos belgas que a neutralidade não era garantia alguma contra um invasor implacável, os holandeses tiveram a sorte de se livrar do conflito, sofrendo apenas certas privações quando o bloqueio britânico do continente tornou-se mais eficaz nos últimos 18 meses do conflito. Pouco se fez no tocante à defesa; tendo-se argumentado que ela era dispendiosa demais, e desnecessária. Pois a guerra não fora evitada sem custosas despesas? O destino da Bélgica, ocupada e arrasada durante quatro anos, não causou grande impacto sobre as atitudes dos holandeses, muito embora ele soubessem ver e ouvir a guerra, da segurança dos seus lares, se viviam nas proximidades da fronteira daquele país.

 

No decorrer dos anos 20 a Alemanha foi dócil, militarmente fraca e destroçada pelo desemprego e pela inflação, e a Holanda, apenas pequenina parte do orçamento foi gasta com sua defesa. Quando Hitler subiu ao poder, embora o perigo para a segurança holandesa fosse evidente, não se gastou na defesa muito mais do que nos anos 20. Havia uma suposição não-escrita, quase não-falada, de que sobrevindo nova guerra, na Europa, a Holanda, de algum modo, ficaria alheia, protegida em sua neutralidade, como o fizera antes. Esta ilusão foi destruída a 10 de maio de 1940, quando levas de aviões despejaram bombas e pára-quedistas saltaram num estado de todo despreparado para a guerra, não só militar como também psicologicamente. Como aconteceu em outras democracias ocidentais, as vozes da razão que haviam pedido repetidamente rearmamento e aliança com seus aliados naturais, Inglaterra e França, foram ignoradas. A destruição de uma das suas maiores cidades, Roterdã, foi um choque ainda maior que a própria invasão. Em cinco dias, a Holanda perdeu sua independência. Roterdã, que os alemães bombardearam por engano, jazia em ruínas, juntamente com a política de neutralidade da Holanda.

 

Guilhermina Steenbeek, que passou por esse holocausto da guerra e da ocupação, descreve como se deu a invasão da sua pátria despreparada e os horrores provocados pelo bombardeio da sua cidade natal. Nenhum holandês que passou pela Segunda Guerra poderá jamais esquecer a repentina violência da Blitzkrieg ou a destruição brutal e desnecessária de que foi vítima uma das suas maiores cidades. Das cinzas da guerra surgiram uma nova Roterdã e uma nova Holanda, mas as lições da guerra foram aprendidas por preço muito alto. É pouco provável que o povo holandês retorne a uma neutralidade de avestruz, que não oferece como ficou provado defesa alguma contra um agressor predatório.

 

As bombas alemães destruíram uma grande cidade, mas nada pôde destruir o coração de seu povo. Roterdã Redux continua viva. Seu grande coração espiritual reconstruiu Roterdã dos escombros da guerra, um símbolo da Holanda e de uma Europa renascentes.

 

 

 

Paraíso de alienados

 

Os turistas que visitam Roterdã admiram ali a colossal escultura, de Zadkine, de um homem estendendo os braços para o céu. Os visitantes comuns a encaram apenas como peça de “arte moderna”- a figura de um homem com enorme buraco no corpo. Não percebem que esse buraco simboliza a condição da própria cidade de Roterdã, uma cidade ainda bela no sentido moderno, e lutando para subir em busca do sucesso material, mas da qual arrancaram o coração. Durante o dia, a cidade é a própria imagem da vivacidade: os portos fervilhantes, o povo enérgico e trabalhador, a cacofonia do edifício da bolsa do milho, os compradores atarefados da Lijnbaan - o centro de compras famoso; tudo é estímulo para o visitante, mas à noite, vem a calma. O povo de Roterdã trabalha na cidade, mas a maioria não mora nem se diverte ali; o magnífico teatro permanece quase vazio. Para os divertimentos a população muitas vezes vai a Breda, nas proximidades, ou mesmo a Antuérpia, na Bélgica, que na verdade não fica muito longe.

 

Contudo, antes de 1940 Roterdã tinha vida noturna emocionante e era foco de cultura. O pitoresco centro com seus velhos monumentos, a grande biblioteca e os numerosos tesouros artísticos, atraíam pessoas que viviam a quilômetros e distância. Os cinemas e os teatros viviam cheios e a Schiedamse Dijk, conhecida de marinheiros de todo o mundo, fervilhava com música vinda de seus pequenos cafés e com as visões e os odores de uma cidade rica e vital. Mas aquela cidade, a Roterdã onde nasci, não existe mais.

 

Em 1940, Roterdã planejava festejar o sexto centenário de existência oficial, sendo reconhecidos seus foros de cidade em 1340. Daquela época em diante, ela progredira ininterruptamente, e graças à sua ótima localização, tornou-se importante centro comercial, onde muitos imigrantes alemães e britânicos se estabeleceram. Antuérpia, sua grande rival, superou-a, mas somente até 1847, quando se deu a inauguração do Nieuwe Waterweg, o canal que liga Roterdã ao Mar do Norte. Dai em diante prosperou cada vez mais e seu povo confirmou a reputação de trabalhador, pondo à prova toda sua imaginação, energia e previsão. Mas a crescente prosperidade também atraiu mais gente do que a cidade podia abrigar com o mínimo de conforto, sobretudo no centro. Nesse ambiente de atmosfera e vitalidade maravilhosas, as famílias pobres, no entanto, estavam espremidas em casas pequenas demais, sem instalações sanitárias adequadas, e foi ali que, em maio de 1940, deu-se o bombardeio. Por um terrível engano cometido pela Luftwaffe, 80.000 pessoas em Roterdã, aproximadamente 13% da população, ficaram desabrigadas. Mais de 2.500 lojas foram arrasadas. Cem destas, pequenas, vendiam água quente (Waterstokeijer). Tratava-se de uma característica dos bairros pobres em que as pessoas tinham de comprar água quente para lavar roupa e servir a outras necessidades rotineiras, pois não contavam com suprimento próprio do liquido. Cerca de 500 cafés foram destruídos, incluindo os da Schiedamse Dijk, e quase 70 escolas, juntamente com 21 igrejas, 12 cinemas, 20 grandes prédios de bancos, 4 hospitais e dois teatros. Tesouros artísticos insubstituíveis, especialmente os de propriedade particular, foram consumidos pelo fogo. O mundo inteiro perdeu sua grande biblioteca, a Leeskabinet, de Roterdã, uma das maiores da Holanda. A Igreja de S. Lourenço, construída no século XV, também foi destruída, restando apenas a parte externa, embora a estrutura fosse restaurada depois da guerra, por preço altíssimo e financiado com fundos privados. A Igreja de Sta. Rosália, o incomparável rococó de Roterdã, restaurada apenas alguns anos antes da Segunda Guerra, foi reduzida a escombros juntamente com a sinagoga construída em 1725 no Boompjes, outrora um cais orlado de belas árvores.

 

Os eventos que precederam esse desastre são importantes com relação à política da neutralidade comodista. O exemplo de Roterdã permanecerá eternamente como lembrete deprimente das conseqüências de tamanha imprevidência.

 

Então, porque razão estava a Holanda tão mal preparada para enfrentar uma guerra obviamente inevitável? O treinamento de soldados pode-se dizer que não existia, as armas eram antiquadas (o exército holandês usava fuzis datando de 1890) e, para transporte, alguns batalhões contavam apenas com bicicletas. E tudo isso devido a um otimismo geral e descabido, provocado pela relutância em enfrentar a realidade, a de que a Alemanha honraria a neutralidade da Holanda. A ordem de mobilização geral, portanto, só foi dada a 29 de agosto de 1939.

 

Depois da anexação da Áustria e de parte da Checoslováquia, o principal objetivo de Hitler foi a invasão da Polônia. Deste acontecimento originou-se o conflito da Inglaterra e da França com a Alemanha, a 3 de setembro de 1939 - um passo inevitável, mas, ainda assim, corajoso, levando-se em conta o grandioso poderio militar do inimigo. A Alemanha mobilizara 105 divisões; 59 delas estavam lutando na Polônia, mas por trás da Muralha Ocidental, 43 divisões estavam prontas para atacar os países euro-ocidentais. A julgar pelas aparências, a França poderia facilmente contra-atacar com suas 84 divisões, que eram no entanto formadas sobretudo de soldados treinados para a defesa, não estando por isso em condições de desfechar ataques. A Inglaterra achava-se quase que na mesma situação, pois só recentemente começara a fortalecer o exército. Segundo o War Office em Londres, mais de 1.600 tanques se faziam necessários e só haviam 60 disponíveis. A Alemanha dispunha aproximadamente o mesmo número de aviões que a França e Inglaterra juntas, modernos e eficientes, ao passo que os aviões aliados eram, em sua maioria, desesperadamente antiquados e decadentes. Em poderio marítimo é que os Aliados mantinham certa superioridade.

 

A grande confiança que a Inglaterra e a França depositavam em suas marinhas foi a principal causa de se ter dado à Alemanha o tempo necessário para arquitetar a ofensiva e formar um exército e uma força aérea adequadamente armados e bem treinados. Tanto Chamberlain como Daladier haviam chegado à conclusão que, com a ajuda das colônias e dos Domínios Britânicos e - se necessário - dos americanos, a Alemanha seria facilmente bloqueada e subjugada. Eles não tinham pressa de entrar em guerra. E, de qualquer modo, ninguém podia acreditar, é obvio, que Hitler tentaria conquistar toda a Europa Ocidental. Os franceses, contribuindo para alimentar essas ilusões, mantinham uma fé inabalável na eficiência da “Linha Maginot”, que, diga-se de passagem, não ia além da Bélgica. Até meados de dezembro, o Primeiro Ministro da Inglaterra ainda não acreditava que os alemães pretendessem atacar o Ocidente; o General Montgomery advertiu que Hitler iniciaria a grande ofensiva na Europa Ocidental tão logo achasse conveniente. Na realidade, a ofensiva já fora adiada várias vezes devido apenas às más condições climáticas.

 

Foram os repetidos adiamentos de Hitler da data do ataque alemão que fizeram o governo holandês não acreditar nas advertências do major G.J. Sas, o Adido Militar holandês à embaixada em Berlim. Ele tinha um bom amigo ali, o Coronel Hans Oster, oficial de carreira alemão, e esses dois homens se conheciam muito bem há anos e confiavam um no outro. Oster estivera em serviço ativo durante a Primeira Guerra, era um realista e gostava muito da Holanda, onde o Imperador Alemão, Guilherme II, encontrara asilo em 1919. Ele disse a Sas que não acreditava no Nacional-Socialismo de Hitler; temia uma segunda guerra mundial, e combatera o movimento nazista desde a sua fundação. (Foi enforcado em Floosenburg, em abril de 1945, após a fracassada tentativa de matar Hitler a 20 de julho de 1944). Era bem informado, pois trabalhava na repartição para compilação de inteligência militar e, subseqüentemente, foi nomeado chefe do Zentralabteilung, cuja posição facilitava-lhe o contato com vários adidos militares em Berlim. Todas as informações que passou a Sas revelaram-se, mais tarde, corretas. Ele o advertiu, por exemplo, que os membros da Família Real deveriam cuidar da sua segurança; que as pontes sobre o Maas seriam destruídas mais cedo ou mais tarde; que os alemães usariam tropas aeroterrestres e tanques, e que alguns dos soldados alemães envergariam uniformes holandeses. Pelo final de janeiro de 1940, revelou que uma divisão completa de tanques invadiria Roterdã por Noord-Brabant (uma província no sul da Holanda, limítrofe com a Bélgica), pelas pontes no Moerdjik e também em Dordrecht. Este último informe, talvez o mais importante, extraviou-se. O General Winkelman, sucessor do General Reynders como Comandante-Chefe do exército e da marinha, jamais o recebeu.

 

A 12 de setembro de 1939, Hitler comunicou aos seus generais que pretendia atacar o Ocidente tão logo se desse a rendição da Polônia. Muitos generais acharam o plano audacioso e alegaram que o exército não contava com os caminhões necessários para tal empresa e que a munição disponível só poderia suprir nada mais que um terço das divisões já prontas, na ocasião, para combate e, mesmo assim, num período de apenas duas semanas de ação. Hitler ignorou tais objeções. Mesmo que a Wehrmacht estivesse fraca, as condições dos franceses e dos britânicos eram bem piores. A 8 de outubro ele ditou uma mensagem a ser enviada ao General Keitel, chefe do Oberkommando der Wehrmacht, e aos comandantes-chefes do exército, marinha e força aérea: General von Brauchitsch, Almirante Raeder e o Generalfeldmarschall Goering, respectivamente. Cientificava-os da importância de derrotar a França e a Inglaterra o mais breve possível, e deixava claro sua avaliação desfavorável da URSS como aliada. O Vale do Ruhr, de valor capital para a indústria bélica alemã, tinha que ser salvaguardada, e se a Holanda e a Bélgica cedessem à persuasão da França e Inglaterra, abrindo mão da neutralidade, aquele vale estaria em perigo. Como o ataque é a melhor forma de defesa, urgia invadir os países neutros o mais rápido que pudessem. Seria uma boa vantagem também assegurar para a Alemanha as costas da Holanda e da Bélgica, e talvez a costa do Canal da Mancha, para bases aéreas, fazendo da Inglaterra um alvo mais fácil.

 

Hitler ainda examinou a possibilidade de ocupação da Bélgica pelos aliados, sendo essa, outra razão para as tropas alemães encetarem o ataque imediatamente. O Fuhrer e seus generais, portanto, planejaram uma enorme ofensiva, de codinome Fall Gelb (Caso Amarelo), cuja primeira versão já estava pronta a 19 de outubro. O teatro de operações seria principalmente a Bélgica, porque, em caso de ataque alemão, os exércitos franceses e britânicos poderiam penetrar naquele país pelo sul. De princípio, dava-se prioridade à tomada de Utrecht, Amsterdã e Roterdã, mas o plano foi substituído, resolvendo-se pela concentração de tropas no sul. Apenas o 6° Exército alemão cruzaria o sul da Holanda a caminho de Bruxelas, caso em que a Vesting Holland (Fortaleza Holanda) permaneceria intata. O dia marcado para o Fall Gelb era 12 de novembro de 1939.

 

Os generais ainda não estavam muito entusiasmados. A maioria das divisões não se achava pronta para combate, faltando grande parte do material necessário; o treinamento e a organização precisavam ser aperfeiçoados. Brauchitsch ofereceu-se para aconselhar a Hitler que não era boa política atacar tão cedo, mas o Fuhrer, muito irritado, rejeitou as críticas de imediato e deu ordens pessoalmente que se iniciassem os preparativos para o “Caso Amarelo”. As tropas rumaram em direção das fronteiras da Holanda, Bélgica e Luxemburgo na noite de 5 de novembro. O exército que atravessaria o Luxemburgo tinha ordens de preparar seu flanco direito e repelir possíveis ataques holandeses, porque, embora se soubesse muito bem que aquelas tropas não representavam grande perigo, qualquer atraso, por menor que fosse, poderia ser fatal. Pois o que impediria os holandeses de destruir as pontes sobre o Maas (em francês, Meuse; em português, Mosa), e os belgas, as pontes sobre o canal Alberto? Hitler estava tremendamente preocupado com essa possibilidade e tentou garantir seus caminhos de avanço por meio de um plano complexo envolvendo a localização de soldados alemães, em uniformes holandeses e belgas, em pontos estratégicos. Mas onde encontrar estes uniformes? Era preciso grande número deles, não apenas de uniformes do exército mas também os de guardas alfandegários, policiais, ferroviários, etc. Os generais ignoravam que alguns uniformes holandeses na realidade foram confeccionados na Alemanha, e também que velhos uniformes eram-lhes vendidos como trapos. Assim, não se tentou comprar na Holanda as roupas necessárias. Certo oficial alemão, tendo como amigos alguns holandeses membros do NSB (National Socialistiche Bond ou União Nacional-Socialista), encarregou-se de adquirir os tais uniformes. Entretanto, um lojista judeu de Amsterdã, que negociava com roupas usadas, desconfiou, anotou o número da chapa do carro que levou os uniformes e chamou a policia. O veículo foi detido na fronteira, o dono preso e os uniformes, confiscados, destruindo-se, assim, totalmente, o plano. Mas o espantoso é que, pelo menos na aparência, ninguém tirou conclusões óbvias da circunstância de alemães querendo adquirir uniformes holandeses. A organização das Ferrovias Holandesas ordenou que todos os seu empregados portassem identidade depois do incidente, e não se fez mais que isto. O oficial alemão implicado, Gerken, escapou e não pôde ser interrogado. Posteriormente, a 12 de maio, ele retornou para libertar seus cúmplices holandeses, então presos em Almelo: obrigou o diretor da prisão a libertá-los e depois destruiu todos os documentos referentes à operação.

 

No sábado, 4 de novembro, o embaixador britânico em Haia, Sir Neville Bland, informou ao Ministro das Relações Exteriores holandês, van Kleffens, que os alemães atacariam a Holanda e a Bélgica a 12 de novembro. A Rainha Guilhermina foi informada, assim como o General Reynders. Este não achou necessário transmitir a mensagem a Sas em Berlim; não confiava muito no Adido Militar, considerando-o uma daquelas pessoas cansativas que adoram deixar os outros inquietos com estórias de desgraça iminente. Sas, contudo, já sabia que a Alemanha estava treinando tropas aeroterrestres e pára-quedistas e que soldados alemães envergando uniformes poloneses seriam usados no ataque à Polônia, ele bem o sabia, o Oeste seria o alvo seguinte. Seus avisos foram praticamente ignorados em Haia e a suspeita de que ele estava fazendo como na estória de “Pedro e o Lobo” aumentou, porque jamais mencionava o nome do seu principal informante, Oster, apenas sempre se referindo a ele como “um oficial alemão”.

 

O Gabinete Holandês, que na época não passava de um organismo decorativo formado em grande parte de gente meio senil e por isso mesmo pouco ativa, considerava Sas, que era muito sentimental, um personagem extravagante e, portanto, não-merecedor de confiança. Seus membros decidiram mandar o Tenente-Coronel Gijsberti Hodenpijl, ex-adido militar em Berlim durante a Primeira Guerra, à Alemanha para constatar a veracidade das alegações feitas por Sas. Hodenpijl visitou os seus velhos camaradas em Berlim e deles teve a garantia de nada saberem sobre um ataque iminente à Holanda. Assim, bastante satisfeito, enviou uma confortadora mensagem para a Haia: nada havia de errado. Aconteceu que um seu amigo estava no Departamento e ao saber da notícia ficou tão abalado, que chamou Sas para Haia imediatamente o que aborreceu muito o General Reynders. O general, Comandante-Chefe do Exército e da Marinha, lhe disse em poucas palavras que não queria que ele tivesse contato direto com Dijxhoorn (Ministro da Defesa) nem com van Kleffens (Ministro das Relações Exteriores) mas única e exclusivamente com ele, o General. Profundamente desiludido, Sas retornou a Berlim.

 

Contudo, apesar da descrença oficial em Sas, alguma sensação de perigo começava a se fazer sentir. Os generais holandeses decidiram reforçar a linha de defesa no Grebbe e fechar parcialmente as estradas da fronteira. O Ministro van Kleffens propôs que a Rainha juntamente com o Rei da Bélgica, fizessem um apelo à Alemanha, França e Inglaterra para pôr termo à guerra. A rainha achou a idéia excelente e na mesma noite escreveu uma carta a Mon cher Léopold contendo a proposta de enviar telegramas a Hitler, ao Rei Jorge VI e ao Presidente Lebrum. Infelizmente, Hitler recusou-se a cooperar. Não obstante, os holandeses continuaram otimistas; a 9 de novembro era possível ler nos jornais: “Nosso governo não vê razões para alarme”.

 

Ainda na véspera tinha-se dado uma tentativa de matar Hitler na Burgerbraukeller, em Munique (o bierputsch), e nessa ocasião o Ministro van Kleffens declarara no Parlamento: “Os alemães poderiam surpreender-nos com uma invasão amanhã”.

 

A 20 de janeiro de 1940, Churchill, numa transmissão radiofônica, censurou as pequenas potências que se mantinham neutras, afirmando que elas aguardavam trêmulas de medo, cada uma antevendo sua própria derrocada, só não sabendo qual seria a primeira, mas ansiando, todavia, para que a tempestade amainasse antes de chegar a sua vez. Se todas estivessem dispostas a cooperar, a catástrofe poderia ser evitada, disse ele. Na Holanda, suas palavras não surtiram o efeito que ele esperava. Segundo a opinião dos governantes dos países neutros, Inglaterra e França não tinham o direito de lhes impor sua vontade, mesmo porque, em passado bem recente, eles não haviam ajudado nenhuma das nações dominadas pela Alemanha e a Rússia. Bastava pensar no que acontecera com a Polônia, Checoslováquia e Finlândia. Esta última, a propósito, pedira ajuda da Liga das Nações e só o que conseguiu foi a expulsão da Rússia daquela organização, em nada beneficiando os finlandeses, que, não podendo contar com o auxílio solicitado, envolveram-se, durante três meses, num renhido combate, violento e heróico, resultando por fim na capitulação. O consenso geral na Holanda era que qualquer declaração que se fizesse em favor dos Aliados, apenas precipitaria, com essa atitude, a invasão do seu país pelos alemães, e era preciso evitar essa catástrofe a qualquer preço. Acreditava-se que somente uma completa neutralidade poderia salvar a Holanda, conforme acontecera na Primeira Guerra. O fato de que a história talvez não se repetisse neste aspecto, era uma hipótese que o povo holandês não podia aceitar, e nem desconfiava, ou se tinha alguma suspeita, preferia ignorá-la que seu país poderia ser atacado. Para isso, na verdade, Hitler só desejava um pretexto, uma desculpa. E o conseguiu, utilizando-se do Incidente de Venlo, que a imprensa holandesa praticamente ignorou e do qual os próprios holandeses, em sua maioria, continuaram ignorando.

 

Venlo e violação

 

Na Holanda, o Serviço Secreto Britânico operava, disfarçado, através da Agência de Controle de Passaportes, fundada em Haia durante a Primeira Guerra. À frente da operação, estava o Major R.H. Stevens, cuja tarefa principal era compilar todos os dados que se relacionassem com o exército alemão, e para isso contava com as informações recebidas através de holandeses que viajavam regularmente para a Alemanha. Seu intermediário era um homem chamado Vriten, cujas atividades, infelizmente, já eram conhecidas dos alemães, pois um dos seus parceiros, Friedrich Gunther, não passava de um traidor alemão que enviava informações à Abwehr em Hamburgo. Outro dos parceiros de Vrinten, Koutrik, também se voltou para a Abwehr em 1938. Koutrik conseguira desempenhar-se tão bem de suas funções, que, através dele, os alemães obtiveram os nomes e endereços de todos os agentes do Serviço Secreto Britânico. Na chefia do Serviço Secreto Holandês estava o Major-General van Oorschot que, embora, pelo menos superficialmente, tem boas relações com os adidos militares alemães, era, na verdade, anglófilo. Há muitos anos já vinha prevendo uma inevitável segunda guerra mundial.

 

Oficialmente, van Oorschot não mantinha qualquer contato com o Serviço Secreto Britânico - o Governo holandês não o teria aprovado - mas, a bem da verdade, havia estreita cooperação entre os vários serviços secretos existentes na Holanda, na Inglaterra e na França, e todas as informações colhidas sobre a Wehrmacht eram trocadas entre eles, sendo a ligação realizada por um repórter holandês. O Serviço de Inteligência Checo mais tarde entrou para essa associação, e um dos seus contatos, o alemão de nome Thummel, é que os advertiu da ofensiva contra a Polônia; ele foi preso em 1942 e por fim executado no campo de Theresienstadt, em abril de 1945.

 

Todas as informações recebidas pelo Serviço Secreto eram cuidadosamente examinadas e verificadas, na medida do possível, pois a contra-espionagem alemã tinha o hábito de espalhar informes falsos - o chamado Spielmaterial. Na verdade, todos faziam o mesmo e com sucesso extraordinário, tornando bem difícil distinguir a informação verdadeira da falsa. O mesmo se aplicava aos informantes; nunca se sabia ao certo quando eram leais. Muitos membros do Serviço Secreto Alemão na Holanda se faziam passar por fugitivos e, muitas vezes, só mesmo aos holandeses conseguiam iludir. Um desses era o Dr. Franz Fischer, que logrou entrar em contato com o Dr. Spiecker, em Londres, ex-chefe do serviço de imprensa do Reichskanzlei, agora aparentemente interessado em oficiais alemães desiludidos e insatisfeitos e, sob tal disfarce, recebeu de Fischer muitas informações falsas que foram transmitidas aos outros Serviços Secretos através do Serviço de Inteligência Britânico. O superior de Fischer era um tal Dr. Solms, e eles puderam fazer seu jogo durante 8 meses inteiros antes de despertar a desconfiança do Major Chidson, na época chefe da Agência de Controle de Passaportes, que rompeu todos os contatos com aqueles. Supõe-se, no entanto, que ele não tenha informado seu sucessor, o Major Stevens, nem o QG em Londres. Um lapso curioso.

 

A Agência de Controle de Passaportes ignorava que o Serviço de Inteligência Britânico tinha outro homem em Haia (ao passo que os alemães provavelmente conheciam a verdadeira função daquela Agência) e, assim, requisitou o Capitão S. Payne Best, casado com uma holandesa e residente em Haia havia alguns anos. Spiecker instruiu Fischer para que entrasse em contato com o capitão, a quem o QG em Londres mandou encontrar-se com o Dr. Solms, tendo Fischer como intermediário. Payne Best comunicou-se com Londres através de Stevens, da Agência de Controle de Passaportes, e juntou-se a Solms, em Venlo, na segunda quinzena de setembro de 1939, senão então, informado de uma trama para eliminar Hitler, Solms, entretanto, ainda não conhecia todos os detalhes, mas os líderes do complô em breve tentariam entrar em contato com Payne Best e dar-lhe mais informações. Depois daquele encontro, Solms achou melhor desaparecer; alegou que a Gestapo já estava desconfiando e, portanto, tinha de ficar oculto. Reinhard Heydrich, Chefe da Policia Secreta, decidira substituí-lo por dois oficiais da SS que, a bem da fraude, foram chamados de Leutnant Grosch e Hauptmann (Capitão) von Seidlitz. Entrementes, Payne Best informara o Serviço de Inteligência Holandês sobre seus contatos com a “resistência “ alemã, e os holandeses, por sua vez, enviaram um certo Tenente Klop, cuja função seria ter os ouvidos alerta e transmitir tido ao General Reynders. Os ministros Dijxhoorn e van Kleffens foram mantidos na ignorância desse fato. O primeiro encontro realizou-se perto de Dinxperlo, na fronteira da Holanda com a Alemanha, a 21 de outubro, tendo-se Klop apresentado como “Cooper”, afirmando ser inglês - o que não lhe era difícil, pois vivera no Canadá e falava fluentemente o idioma daquele país. O grupo alemão alegou que não podia demorar muito, pois seu regresso teria que se dar antes das 8 horas; concordou-se que a primeira reunião seriam em Arnhem. Ali eles quase foram presos, por terem despertado as desconfianças de um garçom. Não se aproveitou grande coisa nesse encontro e os ingleses ficaram muito desapontados, mas alimentaram a esperança de conhecer membros mais importantes da “oposição a Hitler” na reunião seguinte. Esta se realizou a 30 de outubro, quando Best e Stevens puderam conhecer “três membros do complô”. Em lugar do Hauptmann von Seidlitz veio Walter Schellenberg, sob o pseudônimo de “Hauptmann Schemmel”, aluno promissor da SD Hauptamt, embora ainda jovem demais para o papel de “General”. O professor austríaco de Croms foi à Holanda usando o nome de “Coronel Martini” como o homem de confiança do “líder da oposição”. Ele e o “Leutnant Grosch” foram presos perto de Arnhem, mas Klop conseguiu libertá-los. Em meio à conversa, falaram sobre as perdas alemães durante a campanha polonesa e salientaram ser de vital importância que a guerra terminasse imediatamente. Mas antes que pudessem agir, eles precisariam conhecer os termos de paz com os quais a França e a Inglaterra concordassem. Payne Best transmitiu a informação ao Lorde Halifax, Ministro das Relações Exteriores britânico, cuja reação à notícia foi muito fria; não obstante, ele achou conveniente continuar com os contatos.

 

A 7 de novembro reuniram-se pela terceira vez. Os alemães, não gostando de Venlo como ponto de reunião, sugeriram um café holandês, o Backus, situado a poucos metros da fronteira. Ali, “Schemmel” desculpou-se pela ausência do General, que lamentava muito não poder comparecer à reunião, mas que viria no dia seguinte e lhes entregaria pessoalmente os documentos de maior importância. No dia 8, o General mais uma vez não pôde comparecer, tendo Hitler convocado todos os generais para uma reunião a fim de discutir as propostas de paz da Rainha Guilhermina e do Rei Leopoldo; mas era certo o seu comparecimento no dia seguinte.

 

A 9 de novembro, Payne Best, Stevens e Klop foram a Venlo. Eles começaram a desconfiar da situação e foram armados. Klop disse aos dois que o QG fora informado de que era esperada a invasão da Holanda pelos alemães a qualquer momento e essa notícia perturbadora - embora não acreditassem realmente nela - os deixou inquietos. Ao chegar em Venlo, Klop foi ao Koninklijke Marechaussée (Policia Real Holandesa) para pedir o envio de uma patrulha ao Café Backus como medida de segurança e enquanto eles se dirigiam para lá de carro, dois Marechaussées os seguiram de bicicleta. No posto da fronteira, Klop saiu do carro para informar o guarda alfandegário de que iam ao Backus, enquanto outros estacionavam o veículo perto do café. Nem bem o fizeram, um carro militar dobrou uma esquina, com alemães pendurados de ambos os lados e disparando revólveres à maneira dos gangsters de Chicago. Best e Stevens nem sequer tiveram tempo de sacar suas armas. Klop fez menção de atirar, mas uma bala acertou-lhe na cabeça (morreu a caminho do Hospital de Dusseldorf). Stevens e Best, e seu motorista, Lemmens, foram algemados e conduzidos ao QG da Gestapo. Quando os dois policiais de bicicleta chegaram ao Café Backus, tudo já terminara.

 

O governo holandês não gostou do resultado do exercício e o General van Oorschot, chefe do Serviço Secreto Holandês, foi obrigado a demitir-se.

 

Foi inútil Payne Best e Stevens fingirem inocência; “Schemmel” estava bem informado e revelou sua verdadeira identidade - Oficial da SS Schellenberg. Ele os mandou para Berlim a fim de serem interrogados por um especialista em Serviço Secreto de Inteligência britânico. Payne Best recusou-se a falar, mas Stevens, que levava consigo uma relação de nomes, foi mais acessível, e Lemmens, o motorista, confirmou tudo. Lemmens foi libertado em novembro de 1940, mas Payne Best e Stevens tiveram que passar o resto da guerra no campo de concentração de Dachau onde, felizmente, Stevens foi muito bem tratado, tendo até permissão de ir ao teatro em Munique, acompanhado de um guarda.

 

O Serviço de Inteligência alemão tinha agora mais razão para desconfiar da existência de estreita cooperação entre os Serviços Secretos britânico e holandês, mas ainda não conseguira provas concretas. Era evidente que, da sua parte, o governo holandês ignorava até que ponto iam as relações entre os vários Serviços de Inteligência e até mesmo se empenhou numa investigação minuciosa. Os alemães não reagiram, porque, naturalmente, não podiam dar-se ao luxo de permitir a investigação do caso.

 

A assinatura de Klop, em seus papéis, na verdade foi a mais valiosa arma encontrada pelos alemães. Forjada com perícia, ela autenticou uma história fantástica da perfídia holandesa que serviu de desculpa para a invasão da Holanda.

 

Entrementes, a data para o Fall Gelb fora marcada para 12 de novembro e Sas, avisado por Oster, dirigiu-se imediatamente para Haia. Devido ao mau tempo, no entanto, o Fall Gelb foi adiado para 15 de novembro, mas as notícias do adiamento chegaram tarde demais para Oster entrar em contato com Sas. Este também ignorava que o embaixador britânico, Sir Neville Bland, cientificara o governo holandês da invasão iminente. Em Haia, Sas teve uma recepção fria e, sendo um homem muito temperamental, enfureceu-se com a atitude dos ministros. Fora de si de tanta raiva, gritou que iria falar pessoalmente com a Rainha. O General Reynders, de cuja atitude para com Sas já falamos, encarregou-se de enviar uma mensagem ao ajudante da rainha, e Sas teve-lhe a porta fechada. No dia seguinte, o Ministro Dijxhoorn entrevistou Sas e o proibiu de pedir audiência à rainha, embora já então a raiva de Sas tivesse diminuído um pouco, em parte por ter descoberto que a informação que trouxera fora corroborada pelas advertências de Sir Neville Bland e de que pelo menos algumas providências estavam prestes a ser tomadas.

 

Todas as licenças do exército foram canceladas, uma providência que há muito tardava, mas somente a 11 de novembro é que o Banco Neerlandês foi avisado do perigo. Um diretor foi o mais depressa possível até Haia e soube de Sas que só havia uma chance mínima de que os alemães não invadiriam naquela mesma noite. Depois de ter conferenciado com Trip, Presidente do Banco Neerlandês, dois navios da Maatschappilj Zeeland foram fretados imediatamente e, durante a noite de 19-20 de novembro, foram carregados com ouro - 166 milhões de florins holandeses. (Não se tendo realizado o ataque, o ouro permaneceu ali, acondicionado em suas pequenas caixas de madeira).

 

O General Reynders ordenou que ficassem de prontidão as tropas na fronteira e da força aérea; mas, naturalmente, o Fall Gelb foi adiado uma vez mais, pois o mau tempo persistia; aliás, os adiamentos por este motivo - nada menos de 19 ao todo - prolongaram-se até 10 de maio de 1940.

 

O Primeiro-Ministro, de Geer, declarou através de uma transmissão radiofônica tranquilizadora: não havia razão para temores... não se deveria dar crédito às notícias publicadas na imprensa estrangeira, que não passavam de pernicioso sensacionalismo.

 

Hitler aproveitou-se da situação para fazer propaganda, segundo à qual os boatos de uma invasão alemã provinha apenas de intrigas vis da Inglaterra e da França no intuito de convencer os países neutros a tomar partido contra a Alemanha. A imprensa holandesa não poupou louvores ao Ministro Geer, declarando ser ele um dos poucos a se manter tranqüilo em meio aos exaltados elementos fomentadores de guerra.

 

Os líderes do exército holandês já não estavam confiando no governo, e para o público em geral um futuro em paz apresentava-se como uma perspectiva não muito remota.

 

Os esforços de Sas para fazê-los compreender suas advertências não estavam surtindo o efeito que desejava, sobretudo quando chegou ao conhecimento do General Reynders que todas as suas informações eram obtidas de um oficial da Abwher. O General não podia aceitar que tal coisa fosse verdade, parecia-lhe o maior dos absurdos, que um oficial alemão fosse tão indiferente aos conceitos de honra e dignidade a ponto de se tornar traidor. E, naturalmente, cada vez que Sas dava nova data de invasão e nada acontecia, aumentava a sua convicção de que Sas era um neurótico irritante. De inicio, a embaixada holandesa em Berlim tampouco acreditava na veracidade das informações de Sas, porém, mais tarde, seus membros mudaram de idéia devido a alguns informes provenientes de outras fontes. Gerbrandy, o embaixador holandês em Berlim, e a Rainha eram praticamente as únicas pessoas da mais alta categoria que não consideravam Sas um rematado idiota; Reynders chegou mesmo a dar ordens no sentido de evitar que as informações enviadas por Sas fossem transmitidas à Rainha, pois, acreditava ele, a tornariam nervosa, como também ao Ministro Dijxhoorn, porque ele começaria a interferir no exército e isso o General não poderia aceitar de maneira alguma. Entretanto, a Rainha recomendara um de seus acessores a Sas para que lhe enviasse diretamente copias dos seus relatórios, de cujas mãos elas as receberia. Mais tarde explicou ela confidencialmente que sabia compreender muito bem o quanto a certas pessoas podiam incomodar os modos um tanto exagerados de Sas, mas que, não obstante, os políticos deveriam ter tido a capacidade de lhe descontar as excentricidades características e reconhecer o que nele havia de autêntico.

 

As relações entre exército e governo melhoraram muito, quando, em fins de janeiro de 1940, Reynders foi substituído pelo general Winkelman, então com 63 anos de idade. Novas técnicas foram planejadas e este obteve todo o dinheiro que desejava para as providências que iria tomar.

 

No mês de novembro anterior, o General Reynders enviara memorandos, por insistência do Ministro van Kleffens, às embaixadas em Bruxelas, Paris e Londres, com a recomendação de serem lidas somente na eventualidade de a Alemanha invadir a Holanda. Em fins de março, o General Winkelman enviou outros memorandos nos quais pedia a ajuda dos franceses e da Real Força Aérea se a Alemanha atacasse a Holanda. Algumas unidades da marinha holandesa tinham envelopes lacrados a bordo, contendo mapas especiais, rotas de evacuação para a Inglaterra e o código de reconhecimento da Marinha Real britânica. Completaram-se os planos para se dar a transferência do ouro do banco Neerlandês, durante todo esse tempo ainda acondicionados em suas pequenas caixas a bordo dos dois navios fretados, que seriam escoltados pelo Mar do Norte por destróieres britânicos; e estabeleceu-se uma ligação radiofônica direta entre o Chefe de Estado-Maior da Marinha Holandesa em Haia e o Almirante em Londres. Estas precauções mais tarde mostraram-se de enorme valia nos preparativos para a evacuação da família real e do governo.

 

A 9 de abril de 1940, as forças alemães invadiram não só a Dinamarca mas também  Oslo e todos os portos noruegueses até Narvik. Hitler garantira para a Alemanha o minério de ferro do norte da Suécia, exportado através de Narvik. O Coronel Oster informara Sas sobre o ataque iminente havia 6 dias; Sas transmitira a informação para o adido naval dinamarquês - cujo governo não acreditou nele - e ao chanceler norueguês - que por sua vez achou de bom alvitre não informar seu governo. A operação toda não custou à Kriegsmarine alemã mais que três cruzadores, 10 destróieres e um submarino.

 

A 19 de abril o governo holandês proclamou o estado de sítio no país. Isto significava que, entre outras coisas, os 30.000 membros do NSB (Movimento Nacional-Socialista holandês) tinham de ser mantidos sob constante vigilância e que a imprensa estava agora censurada. O número 30.000 referia-se unicamente aos membros registrados do NSB; além destes, havia muitos elementos apenas simpatizantes do Movimento. (Estes mais tarde procuraram evitar complicações; muitos deles, no entanto, se tornaram de grande atividade, negando, embora, qualquer ligação com o Movimento). Em 1935, a filiação ampliou-se. Durante aquela época de desemprego generalizado, membros do NSB candidataram-se às eleições no governo provincial com o lema “Um Povo”, e conseguiram quase 8% dos votos. O programa elaborado pelo NSB - a extinção dos demais partidos políticos, a eliminação do Parlamento, a proibição de greves e a instituição do trabalho forçado - serviu, naturalmente, para disfarçar um pouco as metas eleitorais, mas tornou-se bastante claro mais tarde e fez que muitos filiados o abandonassem nos anos que antecederam de perto a guerra. Aliás, em 1937, o número dos filiados existentes era menor que metade do que havia em 1935. Não obstante, muitos membros do NSB continuavam pagando suas anuidades devido a uma lealdade mal orientada, ou melhor, somente por obstinação (uma característica nacional),que ainda lhes ficaria muito mais dispendiosa mais tarde.

 

O Fall Gelb fora novamente reorganizada. Agora, tanto o sul como também os Países Baixos deveriam ser capturados e de uma só vez, para retirar o território holandês - segundo o plano - das garras da Inglaterra. A Holanda, ocupada, seria um ponto fraco no perímetro defensivo da Alemanha. Como o Dr. L. de Jong comenta em seu (O Reino dos Países Baixos durante a Segunda Guerra Mundial): “As forças aliadas podiam penetrar diretamente da Holanda no território do Ruhr e paralisar a máquina de guerra da Alemanha. Isso tinha de ser impedido a todo custo”.

 

A espionagem alemã fizera um trabalho realmente completo, daí resultando estar muito bem informada sobre todo o sistema defensivo e, em particular, sobre os pontos vulneráveis que forçosamente deveriam existir. À parte as informações dadas por espiões que trabalhavam na Holanda, o Serviço de Inteligência alemão ainda podia contar com um sem-número de fotografias atualizadas, tiradas a grande altitude, que revelavam concentrações de tropas e outros preparativos para defesa em meticulosos detalhes.

 

Rapidez e surpresa, o lema da Blitzkrieg, eram fatores primordiais. O plano centralizava-se  numa tomada rápida da sede do governo, Haia, e, se possível, a captura da Rainha. Tropas seriam desembarcadas em três aeródromos perto de Haia: Valkenburg, Ypenburg e Ockenburg, sendo que as outras bases e a força aérea já teriam sido eliminadas na noite anterior por bombardeios feitos do oeste. Os integrantes da força de ataque deferiam viajar de motocicletas até Haia a toda velocidade com a missão de realizar a captura do General Winkelman e de outros ministros do governo. Teriam também de ocupar as repartições militares, requisitar carros (eles tinham até uma relação de garagens) e prender todos os que trabalhassem, ou que apenas fossem suspeitos de trabalhar, para Serviços de Inteligência holandês, francês ou britânico. Sendo capturada a rainha, ela teria de dar a ordem de capitular, “a fim de evitar derramamento desnecessário de sangue”, muito embora, se recusasse, seria apenas mantida prisioneira em seu palácio “em condições honrosas”. Entrementes, a 9ª Divisão de tanques do 18° Exército estaria deslocando-se para Roterdã através de Moerdijk e Dordrecht, quando as tropas aeroterrestres vindas de Haia já teriam assegurado as pontes de Moerdijk e Dordrecht e ocupado o aeródromo Waalhaven, perto de Roterdã.

 

Este, em poucas palavras, era o plano. Como a Holanda se defenderia com suas reduzidas forças mal equipadas? O pedido do General Reynders, em 1937, para que se adquirissem 60 tanques, fora recusado pelo então Ministro da Guerra, que alegou serem eles ultrapassados; e agora, a Holanda não possuía um sequer.

 

O adido militar da embaixada holandesa em Londres foi informado de que os tanques de Hitler passariam por Brabant, e quando a notícia foi recebida, decidiu-se adquirir mais 140 tanques, porém estes não haviam sido entregues até maio de 1940. As tropas do exército holandês deslocavam-se a pé e as comunicações eram primitivas, apesar da presença, na Holanda, da Philips, uma das mais importantes companhias mundiais fornecedoras de equipamento de telecomunicações. Três quintos das tropas eram infantaria, equipadas com velhos fuzis de modelo austríaco de 1890. As granadas de mão eram escassas e, de qualquer modo, muitos dos soldados não sabiam usá-las.

 

A relação dos pontos vulneráveis das forças holandesas poderia estender-se indefinidamente. Um deles referia-se a maior parte dos elementos convocados, cujo treinamento era muito restrito ou muito primitivo; o exército regular não despertava interesse algum e por isso o número de seus oficiais vinha diminuindo a cada dia que passava. Entre os oficiais da reserva não existiam elementos especializados.

 

Desde a época das guerras napoleônicas e a separação da Bélgica dos Países Baixos, nada de dramático acontecera e esta circunstância muito contribuiu para um estado de coisas revestido da maior imprevidência. Era difícil reconhecer que a Holanda talvez não pudesse manter-se neutra.

 

Havia, entretanto, alguém que percebia o perigo e demonstrava sua preocupação - a Rainha Guilhermina. Prevendo a possibilidade de ter de deixar o país, pensava na maneira como manter em segurança a filha, a Princesa Juliana, e a família, que poderiam encontrar abrigo nos arredores de Paris, junto aos parentes do Príncipe Bernhard. Somente van Kleffens, Ministro das Relações Exteriores, ficou a par dessas providências; ele meditara sobre o exemplo de Varsóvia e, temendo que Haia também pudesse ser bombardeada, tomou a iniciativa de transferir os vários ministérios para outros locais.

 

Nas paredes de alguns, viam-se os dizeres: os judeus emigraram; as companhias transferiram seu capital para a Inglaterra ou Estados Unidos; o Banco Neerlandês mandou para o exterior o grosso das suas reservas em ouro; a Philips transferiu todas as suas patentes e desenvolvimento industriais para a Inglaterra; e, significativamente, o embaixador alemão em Haia depositou sua grande fortuna pessoal na conta de uma migo em Nova York.

 

Finalmente, após um inverno que durante cem anos não fora mais rigoroso, veio a primavera. Hitler, que se vinha mantendo, impaciente, na maior expectativa, agora propunha o dia 5 de maio para o Fall Gelb. Acontece que o Ministro van Kleffens, bastante preocupado com a possibilidade de que talvez fosse tarde demais para o governo deixar o país na iminência de um ataque, decidiu enviar uma carta, datada de 3 de maio, ao embaixador holandês em Londres, contendo instruções no sentido de informar aos governadores de além-mar de: se a Holanda fosse obrigada a se render, eles continuassem agindo independentemente como parte do Reino Holandês. Isto era da maior importância para as Índias Orientais Holandesas, pois o Japão alimentava um interesse todo especial por aquela área.

 

No aeroporto de Schiphol, os aviões estavam abastecidos e prontos para decolar. As rodovias foram intencionalmente atravancadas de veículos estacionados com intervalos de cerca de 60 metros, dando passagem suficiente para tráfego normal e impedindo que fossem usadas, talvez, como pistas de pouso para aviões.

 

Mas o Fall Gelb foi adiado mais uma vez. O major Sas deu então, após inúmeras outras, sua última advertência: a Alemanha atacaria a 8 de maio. A Rainha Guilhermina e o Rei Leopoldo da Bélgica tentaram intervir a bem da paz:; Hitler, porém, estava irredutível. A 7 de maio todas as licenças foram mais uma vez canceladas.

 

A tão esperada ofensiva alemã, entretanto, não se realizou; os 200.000 soldados prontos para combate e os 50.000 efetivos estacionados nos quartéis do exército holandês relaxaram, e todo o país também. Mas, dessa vez, o tempo de espera foi curto; o ataque foi mesmo desfechado e precisamente às 03:55 horas de 10 de maio de 1940.

 

Trágico despertar

 

Pode-se muito bem descrever o inesperado do ataque, através dos acontecimentos que se desenrolaram no aeródromo de Bergen, onde 23 caças, armados e já com os motores ligados, apenas aguardavam a ordem de decolar. Ouviu-se então o ronco dos aviões que sobrevoavam o local e a princípio julgou-se quer eram bombardeiros alemães a caminho da Inglaterra. Contudo, ao sobrevoar o Mar do Norte, mudaram de rumo e, vindo do oeste, passaram a bombardear o aeródromo. Bergen e os caças foram totalmente destruídos, antes mesmo que a verdadeira guerra começasse de fato.

 

Deve-se reconhecer que a invasão foi bem organizada. Centenas de aviões polvilharam os ares de pára-quedistas, com os pára-quedas brancos destacando-se nítidos contra o claro céu azul. Algumas nuvens brancas - o efeito da explosão de granadas antiaéreas - apareceram, mas foram poucas as baixas causadas entre os Junkers em seu vôo baixo. Vários caças holandeses deram combate aos aviões inimigos, mas não eram adversários à altura para enfrentar os Messerschmitts, que os sobrepujavam, e os aviões escoltados por eles seguiam seu caminho livremente.

 

O espantoso é que um aeródromo conseguiu permanecer intato. Aparentemente os alemães ignoravam a existência da base de Ruigenhoek e aproveitando-se disto, enquanto os outros aeródromos eram violentamente bombardeados, um piloto de caça holandês foi pousar ali, com seu avião meio destruido pelas balas, e encontrou todo o mundo dormindo. Ninguém naquele aeródromo sequer imaginara que a guerra começara.

 

O principal centro visado pela invasão foram os arredores de Haia, onde pelo menos metade da Luftlandekorps - tropas aeroterrestres - deveria saltar. Dos três aeródromos existentes na área, Ypenburg, Ockenburg e Valkenburg, este último, em fase de construção, não podia ser usado porque o solo ainda estava muito fofo, o que não impediu, entretanto, o desembarque de 75 transportes alemães, muito embora não pudessem decolar novamente para que fossem revezados por outros. Mais de 1.000 soldados alemães foram desembarcados ali, resultando da operação 21 baixas holandesas.

 

Ypenburg foi ocupado pela força aérea holandesa e estava sendo defendido por um batalhão de granadeiros. Os caças Fooker D-21 e Douglas, pertencentes à defesa holandesa, decolaram e conseguiram destruir 5 aviões inimigos, mas dentro de uma hora todos os aviões D-21 estavam fora de ação por falta de combustível ou munição ou haviam sido destruídos. Os Douglas saíram-se ainda pior: 8 logo foram derrubados e um deles caiu num tanque de armazenamento de óleo, perto de Vlaardingen, que estava em chamas.

 

Como era de esperar, o bombardeio causou grande pânico entre os soldados holandeses, e um comandante-de-companhia mais tarde informou ter sido obrigado a usar de grande energia e poder de persuasão para controlar a unidade - em sua maioria formada de cozinheiros, bagageiros, escreventes, etc, quase que totalmente desarmados. Este era o exército a que estava entregue a defesa da Holanda. Contudo, quando os primeiros transportes alemães pousaram, às 05:24 horas, os demais granadeiros lutaram com galhardia. Os oito aviões da primeira leva de Junkers ficaram crivados de balas, sendo que alguns deles incendiaram-se, e as duas levas seguintes também com oito aviões cada uma colidiram com os aparelhos já em terra com resultados dos mais desastrosos. A quarta leva evidentemente não encontrou condições de pousar e não teve outra alternativa senão voltar; alguns entretanto, ainda lograram pousar na praia. A defesa havia conseguido rechaçar o primeiro ataque a Ypenburg, mas logo depois o aeródromo caiu em poder dos pára-quedistas alemães.

 

No decorrer das primeiras horas de guerra, a força aérea alemã fora muito bem sucedida: a maioria da força aérea holandesa estava aniquilada, e podia-se considerar que essa parte da missão levada a termo pela Luftwaffe saíra bem de acordo com o que se planejara. Mas o ataque desfechado ao centro governamental se desintegrara, pois os transportes alemães não conseguiram pousar em nenhum dos três aeródromos dos arredores de Haia e, aliás, em Ypenburg e Ockenburg, as tropas alemães achavam-se bloqueadas. Assim, o ataque-relâmpago que seria empreendido por motociclistas contra Haia, visando capturar a Rainha e os ministros, não podia prosseguir.

 

As forças invasoras tiveram mais sucesso nas operações realizadas nas proximidades de Roterdã, onde o aeroporto de Waalhaven, as pontes sobre o Maas em Roterdã e as grandes pontes rodoviárias perto de Moerdijk e Dordrecht, foram ocupadas conforme planejado.

 

O Ministro van Kleffens recebeu uma mensagem informando que o embaixador alemão na Holanda, Conde Zech von Burkersroda, desejava vê-lo no Departamento. O Ministro teve certa dificuldade em entrar em Haia; soldados bloqueavam todos os acessos a qualquer elemento estranho, que poderia ser considerado um quinta-coluna. Van Kleffens, embora não fosse um estranho, teve a maior dificuldade em convencê-los de sua passagem, desde que se recusavam a acreditar que tinham à frente o próprio Ministro das Relações Exteriores - o que estaria fazendo um ministro no meio de todo aquele perigo, arriscando ser morto por aviões alemães prontos para atacar? Um telefonema ao Grande QG deu-lhe finalmente a permissão solicitada. O Conde von Burkersroda pretendia ler para van Kleffens os termos da mensagem cifrada recebida dos seus superiores, mas quando chegou o momento, foi abalado por tamanha emoção, que não pôde pronunciar uma só palavra. É que ele vivia há 12 anos na Holanda e ali fizera muitos amigos nesse período; sentiu-se tão comovido, que nada mais pôde fazer senão entregar a folha de papel a van Kleffens. O teor da mensagem referia-se às provas irrefutáveis que a Alemanha possuía de que a França e a Inglaterra pretendiam invadir a Holanda e a Bélgica visando a penetrar o vale do Ruhr. Portanto, resistir às forças alemães seria um tentativa inútil, diante dos poderosos exércitos da Alemanha, que os esmagaria instantaneamente. Contudo, a propriedade holandesa e a Família Real seriam protegidas contra eventuais abusos, se os holandeses depusessem as armas. Do contrário, o país poderia esperar o aniquilamento completo.

 

De acordo com os termos da Constituição Holandesa, a guerra não podia ser declarada sem a ratificação dos Staten-Generaal (Estados-Gerais), o equivalente às duas Casas do parlamento britânico. Naturalmente, a guerra estava progredindo naquele momento, de modo que qualquer declaração apenas confirmaria o estado de coisas existente. Todavia, van Kleffens não queria arriscar a possibilidade de críticos poderem dizer que os holandeses não haviam declarado guerra, por isso daria aos alemães material útil de propaganda; eles declarariam os soldados holandeses como franco-atiradores. Portanto, o Ministro tomou a decisão e registrou, por escrito, que o governo da Holanda considerava o país em guerra com a Alemanha. Ele entregou sua resposta ao conde e lhe perguntou se tinha algo a dizer. O Conde Zach mal pôde balbuciar algumas palavras de despedida e, ao partir, van Kleffens apertou-lhe a mão (escandalizando dois oficiais holandeses presentes). Von Burkersroda foi removido para internação no Hotel des Indes e van Kleffens partiu rápido para estar presente a uma conferência de última hora a ser realizada num grande abrigo subterrâneo no Bezuidenhout, quando então se decidiu que van Kleffens deveria seguir logo para Londres a fim de expor a situação e pedir ajuda. Não havia quase vento, algo muito raro na Holanda, e diante dessas condições atmosféricas favoráveis, ele propôs tomar um hidroavião que poderia levantar vôo de Scheveningen e levá-lo à outra margem do Mar do Norte. Welter, Ministro das Colônias, deveria acompanhá-lo e van Kleffens pediu, e foi-lhe concedida permissão para levar a esposa consigo, caso houvesse lugar para ela no avião.

 

Em Scheveningen, eles encontraram dois hidroaviões balançando suavemente no mar calmo, um deles, entretanto, estava com o tanque de gasolina avariado, e o outro, muito adernado, pois um dos flutuadores apresentava-se crivado de balas. O piloto deste último afirmou que se pudesse desenvolver bastante velocidade, a água escoaria do flutuador e seria possível decolar. Ele tiveram sorte e lograram escapar, debaixo de uma saraivada de balas. (Três dias depois o oficial que os acompanhara até a costa foi-lhes ao encontro em Londres e notificou que o outro hidroavião fora bombardeado depois que eles decolaram, resultando na morte de três jovens marinheiros).

 

Na excitação do momento, ninguém pensara em verificar se havia algum mapa no avião, de modo que o vôo foi realizado a olho. Depois de algum tempo eles viram uma grande cidade costeira a boreste e resolveram amerrissar - tratava-se da cidade de Brighton. Adernando perigosamente, eles taxiaram até o cais, com “Sparks” sentado na asa acenando seu lenço. Logo se reuniu uma multidão na praia, e entre as inúmeras pessoas que ali se encontravam havia muito policiais que os escoltaram até a delegacia de policia de Brighton, onde lhes serviram sanduíches - muito bem vindos, aliás, pois nada haviam comido desde a noite anterior. Como não tinham dinheiro britânico, a policia também lhes adquiriu as passagens de trem para Londres. Foram acompanhados na viagem pelo Prefeito de Brighton e, ao chegarem à capital, o embaixador holandês foi-lhes ao encontro na estação. Sem perda de tempo dirigiram-se para o Ministério das Relações Exteriores, onde tiveram uma prolongada conversa com o Lorde Halifax; a Holanda tendo sido atacada pela Alemanha, fora promovida da sua posição de neutra para a de aliada. Terminada a reunião, foram-se avistar com o Primeiro-Ministro do Almirantado, Winston Churchill, que acabara de ser informado, através do Palácio de Buckingham, que Chamberlain renunciara ao cargo e ele fora encarregado de formar o novo gabinete. “Todos foram extremamentes amáveis”, escreve van Kleffens em The Rape of the Netherlands.

 

Agora que dois dos representantes holandeses estavam em Londres, os invasores alemães não puderam calar a voz do governo legal da Holanda, fato que se mostrou de enorme importância e a BBC ofereceu a van Kleffens a oportunidade de testemunhar ao povo britânico estar ali para criar fortes laços com os governos das potências das quais agora se tornara aliado.

 

Nessa época havia quatro importantes armadores holandeses em Londres; eles decidiram formar o Comitê de Frota Mercante que seria reconhecido pelos governos britânico e holandês. O comitê assumiria o controle dos navios da frota mercante holandesa, que tinham podido ou talvez pudessem escapar aos alemães. Nesse momento havia cerca de 45 navios da Holanda em portos britânicos.

 

Welter e van Kleffens foram recebidos em audiência pelo Rei no dia seguinte à sua chegada e ficaram muito impressionados pela sua personalidade e pela simpatia e bondade que lhes dispensou.         Entrementes, a Família Real holandesa reunira-se no Palácio Huis ten Bosch, nos arredores de Haia, onde havia um grande abrigo subterrâneo. De manhã cedo, um aparelho alemão fez um vôo rasante sobre o palácio e embora fosse derrubado, o incidente fez a rainha compreender que era tempo de tomar providências mais concretas visando à segurança da Princesa Herdeira e das suas duas filhas menores, resolvendo que elas deveriam deixar o país imediatamente. Mas os três aeródromos perto de Haia não tinham condições de ser usados, pois estavam juncados de transportes alemães abandonados, e a luta que se travava nas proximidades do aeródromo de Waalhaven impedia o uso deste. Além disso, os bosques em torno de Huis ten Bosh estavam repletos de soldados aeroterrestres alemães. O general Winkelman aconselhou a Família Real a ir temporariamente para o Palácio de Noordeinde, em Haia, onde estaria um pouco mais de segurança. Apelando para a maior discrição possível, os automóveis da Corte foram deixados ali e utilizaram-se de dois carros comuns, tendo à frente a Rainha Gulhermina seguida logo após pela Princesa Herdeira e sua família no segundo carro. Devido aos inúmeros boatos que falavam de uma quinta-coluna (segundo rumores, havia pessoas desconhecidas e misteriosas atirando de tocaia contra soldados holandeses), todos ficaram um tanto surpreendidos por verem que a viagem se desenrolara praticamente sem quaisquer incidentes, podendo chegar com facilidade ao Palácio de Noordeinde, de onde se providenciou, através de uma ligação radiofônica com o Almirantado britânico, para que a Princesa Juliana e suas filhas embarcassem pela madrugada nos navios que os britânicos estavam enviando para Ilmuiden, originalmente com o objetivo de transportar o ouro do Banco Neerlandês. Entretanto, a região entre Haia e Ijmuiden estava agora infestada de perigos devido à presença ali de tropas aeroterrestres alemães, e a partida precisou ser adiada.

 

Em Roterdã, a batalha estava no auge e pelo amanhecer os alemães haviam já tomado as pontes sobre o Maas no centro da cidade; o aeródromo de Waalahaven também foi capturado e durante o dia quase 6.000 soldados alemães desembarcaram ali. Na verdade, os holandeses tinham cerca de 7.000 homens protegendo os depósitos e instalações portuárias, mas entre eles, apenas 1.000 estavam adequadamente treinados, e só podiam contar com 8 metralhadoras pesadas e 48 leves e antiquadas. Além disso, foram apanhados completamente de surpresa durante a noite de 9-10 de maio e mal compreendiam o que estava acontecendo. Segundo todas as probabilidades, a Alemanha atacaria a Holanda pela fronteira comum, e não pelo lado oposto do país, através da cidade portuária de Roterdã, no Oeste. Foram vítimas, também, de toda sorte de boatos - por exemplo, de que os alemães estavam disfarçados de policiais holandeses e que membros da quinta-coluna estavam atirando contra soldados holandeses. Em suma, era uma situação terrivelmente caótica para eles, mas de grande vantagem para o Comandante-Chefe alemão, General Student.

 

As medidas de defesa que os holandeses puderam adotar estavam lamentavelmente muito aquém, levando-se em conta o poderio das forças que tentavam tomar a cidade. O Coronel Scharroo, comandante das unidades de Roterdã, providenciara para que todas as estradas da cidade fossem protegidas por barricadas; a Z5, uma velha lancha-torpedeira, ancorada perto do Hook, zarpou para o Willemsbrug, juntamente com a TM 51, as únicas torpedeiras que a marinha possuía na Holanda, para atacar os alemães. Foram bombardeadas com persistência por aviões inimigos e embora, felizmente, todas as bombas errassem o alvo, os disparos da costa lhes causaram pesadas avarias. Providenciou-se para que fossem comboiadas pelo destróier Van Galen, que acabara de voltar das Índias Orientais Holandesas, e por duas canhoneiras de Den Helder; antes, porém, que o Van Galen pudesse chegar a Roterdã, teve de travar combate com bombardeiros de mergulho alemães, derrubou três deles, mas acabou sendo afundado.

 

No entanto a ajuda já estava a caminho. O 7° Exército francês, sediado na fronteira franco-belga, recebera ordens expressas de avançar imediatamente para o norte, o que não era fácil, todavia, pela falta absoluta de disponibilidade de transporte para tal força. O deslocamento se fez por trem e por vários tipos de automóveis para esse fim requisitados, muito deficientes, segundo uma testemunha ocular que os viu passar na Bélgica: “ônibus parisienses que já deveriam estar fora de uso, caminhões de mudança, caminhões outrora usados para levar legumes ao mercado Les Halles em Paris, e caminhões de entrega de grandes lojas”. A artilharia francesa era puxada por pequenos e fogosos cavalos. Os infelizes soldados que não tinham transporte tiveram que viajar a pé. O comandante-chefe francês, General Gamelin, compreendia que a situação era precária e o tempo, escasso, e por isso ordenou que uma força avançada se dirigisse para Flushing, na Zelândia, num navio-transporte protegido por belonaves. O primeiro grupo chegou durante o dia, o grupo de exploração tendo à frente o Coronel de Beauchesne. Além disso, as tropas britânicas também desembarcaram na mesma ocasião.

 

A 10 de maio, de manhã bem cedo, Londres mandara grupos de demolição ficar de prontidão; um destacamento seguiria para Ijmuiden com o objetivo de destruir as comportas enquanto estivessem abertas. Felizmente, o comandante sediado em Ijmuiden pôde impedir essa missão; caso o plano fosse realizado, todo o oeste da Holanda teria sido inundado pelo mar - uma verdadeira catástrofe.

 

Ao destacamento despachado para Roterdã coube a tarefa de incendiar os tanques de óleo de Pernis, situados próximo de Roterdã. Contudo, o General Winkelman antecipadamente ordenara os preparativos para inutilizar os óleos, a simples mistura dos vários tipos de óleo resultaria o mesmo que a destruição pelo fogo - a curto prazo. Ele considerava prematuras as medidas drásticas como incêndio e destruição por explosões dos depósitos de óleo. Durante a noite de 10-11 de maio, o destacamento britânico ajudou no embarque das barras de ouro no valor de 22 milhões de florins do Banco Neerlandês. Ainda havia mais ouro, mas ao clarear o dia suspendeu-se o embarque porque o prédio do bando estava sendo atacado. O navio britânico, mal deixou o porto, foi afundado por uma mina magnética e o comandante morreu. Durante a ocupação, os alemães puderam recuperar quatro quintos do ouro no fundo do Nieuwe Waterweg; consideraram-no despojos de guerra e o transportaram para a Alemanha, sendo que o restante, ainda em Amsterdã, foi levado em segurança para a Inglaterra em dois cargueiros da KNSM e escoltados por cruzadores britânicos. Ouro no valor de mais de 887 milhões de florins puderam assim ser salvos da cobiça do III Reich.

 

Duas velhas barcas da Linha de Harwich - a Malines e a St. Denis - estavam atracadas em Roterdã, prontas para retirar o pessoal do consulado britânico (inclusive os elementos que trabalhavam para o Serviço Secreto britânico) em caso de ataque alemão. Vrinten e seu colaborador Koutrik (agora um agente duplo trabalhando para a Abwher) faziam parte dos que fugiram para a Inglaterra, a bordo do Malines. Infelizmente, Koutrik sabia onde estavam os dossiês de Vrinten e outros registros, informação esta que logo transmitiu ele aos alemães. Muitos “contatos” foram presos e alguns chegaram mesmo a ser executados.

 

Entrementes, a Alemanha dominava os céus da Holanda. Os pilotos holandeses contra-atacavam com abnegada coragem e determinação, mas estavam em séria desvantagem no uso de suas máquinas antigas e lentas, e, assim, o primeiro dia da guerra veio surpreendê-los com a destruição de 20% dos seus aviões ineficientes. Os artilheiros antiaéreos, carecendo de experiência em disparo contra alvos móveis, adquiriram-na rapidamente, logo nas primeiras horas da manhã de 10 de maio; eles conseguiram derrubar cerca de 100 transportes, mas nesse breve período tiveram de despender metade de todo o estoque de munição antiaérea que possuíam. Incluindo aviões que não podiam mais decolar, como descrevemos antes, 200 transportes foram perdidos.

 

Apesar do fato desastroso dos alemães estarem dominando as pontes sobre o Maas em Roterdã e as localizadas perto de Dordrecht e Moerdijk, ao QG militar holandês ainda restavam muitas esperanças de que seria possível encontrar um jeito de se unir às tropas francesas que então avançavam, e deter afinal o ataque alemão.

 

Na verdade, os generais alemães que sitiavam Roterdã já estavam um tanto pessimistas. Eles reconheciam que os ataques aéreos nas proximidades de Haia haviam, quase todos, fracassado. Apenas 13 dos primeiros 55 aviões-transportes conseguiram retornar à base, e um destes ainda contendo toda a carga. Preocupado, o General Kesselring enviou um avião de reconhecimento à Haia que, ao retornar, trouxe a mensagem de que não se podia observar nada de especial. Ele chegou à conclusão de que o ataque fracassara e decidiu mandar recuar na direção de Delf (a meio caminho entre Haia e Roterdã). Tentou enviar uma ordem de retirada para o grupo acampado perto de Valkenburg, mas não pôde conseguir ligação.

 

O General Student informara ao comandante alemão que tomara o Noordereiland, que era  possível que a 9ª Divisão panzer não tivesse condições de chegar em seu auxílio antes de duas semanas. Mas o General von Bock, comandante do Heeresgruppe “B” daquela divisão, estava decidido a chegar a tempo. Ele tinha conhecimento de que muita coisa saíra errada no oeste da Holanda, mas a ponte Moerdijk havia sido tomada e isto era de vital importância, como escreveu ele em seu diário. Os mais importantes objetivos, as pontes perto de Gennep, Moerdijk, Dordrecht e Roterdã, foram alcançados, e os alemães de forma alguma abririam mão deles.

 

O pânico reinava entre os holandeses, e não apenas a população civil foi afetada; o moral também sofrera colapso no setor militar e corriam muitos boatos infundados - um deles, por exemplo, que os alemães pretendiam usar gás. Havia também o temor todo especial de uma quinta-coluna (termo originário da Guerra Civil Espanhola) que causou muita suspeita exagerada e assaz prejudicial. Sacerdotes e monges, por qualquer motivo, tornavam-se as maiores vítimas de suspeição, e depois que ocorreu o boato de que soldados aeroterrestres alemães haviam desembarcado usando blusas azuis, calças marrons e tamancos holandeses, todo camponês teve de ser submetido a exame dos mais rigorosos.

 

Todos os alemães residentes na Holanda foram presos, incluindo grande número de judeus; não havia espaço bastante para abrigar convenientemente todos os prisioneiros, o que resultou numa espantosa promiscuidade. Centenas de pessoas foram aprisionadas no grande saguão do prédio da KLM. Ouviram-se alguns judeus comentar que estariam  melhor nos campos de concentração alemães, onde, pelo menos, podiam lavar-se.

 

Nesse ínterim, os franceses haviam chegado ao sul do país e junto com um destacamento holandês, tentaram ambos retomar a ponte de Moerdijk, mas sob o impacto do bombardeio da Luftwaffe que os metralhou incessantemente, o ataque fracassou. Lapsos de comunicação e outras dificuldades deram origem à confusão em que os boatos conseguiram deturpar a verdade dos acontecimentos. Os franceses, não tendo sido informados da ordem de que as tropas no sul deviam recuar para a outra margem dos grandes rios na Vesting Holland achavam que estavam sendo abandonados pelo exército holandês.

 

O Coronel Schmidt, comandante da Peel-Division no sul da Holanda e encarregado da defesa da província Noord-Brabant, recebeu missão nada fácil. Durante a manhã de 11 de maio ele perdera contato com a maioria dos seus comandantes-de-batalhão, um dos quais, o major da reserva Dobken, já fora morto por uma metralhadora alemã que tentava destruir. Outros comandantes haviam mudado suas posições sem deixar qualquer notícia quanto ao seu paradeiro. A situação piorou ainda mais quando os franceses resolveram fazer exigências das mais contraditórias; o Tenente-Coronel Lestoqoui queria estacionar suas tropas ao sul de Breda, e outros comandantes franceses, ao norte. Infelizmente, o coronel ignorava o fato de que havia numerosos membros da Policia Real em Breda que poderiam ter sido aproveitados para dirigir as tropas já meio desorientadas. As mensagens telefônicas tendiam a ser intencionalmente ambíguas, porque todos receavam que pudessem ser ouvidas pelos quinta-colunas.

 

Lestoquoi decidiu ir pessoalmente a Roosendaal, para onde seu estado-maior se deslocara, a fim de obter a informação que necessitava, Decidiu-se por uma estrada paralela à rodovia principal - e teve a má sorte de encontrar os primeiros tanques da 9ª Divisão Panzer         ; aprisionado e levado para Den Bosch (Bois-le-Duc), foi ali submetido a um minucioso interrogatório. Ao lhe perguntar sobre o paradeiro da divisão Ligeira do III Corpo de Exércitos, ele não soube responder, e mesmo que o quisesse, dele não tinha a menor idéia. Assim, o Comandante da Peel-Division foi eliminado, mas já então isso não fazia a menor diferença; as estradas estavam repletas de soldados em fuga, sem suas cozinhas de campanha ou provisões, sem assistência médica, desorganizados, a pé, de bicicleta ou em carros requisitados, continuamente metralhados e bombardeados por aviões alemães. Um trecho particularmente ruim era a estrada entre Tilburg e Breda que, embora juncada de corpos de soldados, de cavalos mortos e de veículos em chamas, e portanto virtualmente intransponível, continuou sendo atingido pelos caças inimigos.

 

O General Student, que capturara a ilha de Ijsselmonde, no Sul, onde se encontrava o aeródromo de Waalhaven, bem perto de Roterdã, recebeu o reforço de mais 750 homens lançados de pára-quedas e também com reabastecimento para seus estoques de material. Os soldados holandeses da Divisão Ligeira tentaram por todos os meios possíveis chegar à ilha, mas eram sempre repelidos; a história também se repetiu perto de Oude Maas, onde os alemães se haviam entrincheirado solidamente. A falta de treinamento dos líderes militares holandeses foi um fator que, por toda parte, prejudicou a defesa; ela incapacitou, por exemplo, o ataque à ponte perto de Barendrecht, sofrendo os mesmos efeitos a própria cidade de Roterdã. Os soldados ali estacionados, como em quase toda parte da Holanda, tinham pouco ou nenhum treinamento; alguns eram recrutas totalmente inexperientes a ponto de não terem tido sequer a chance de aprender a manejar uma arma.

 

O general Winkelman retirou três batalhões das reservas perto de Grebbeberg para ajudar Roterdã; juntamente com um quarto batalhão primeiramente enviado para Leyden, eles formavam a ajuda tão necessitada pela força extremamente nervosa e muito inadequada do exército a que estava entregue a defesa da cidade. Eles totalizavam muito maior número do que os prováveis 1.000 alemães responsáveis pela captura de Roterdã-Sul, a ilha Noorder limítrofe e a pequena cabeça-de-ponte da extremidade norte de Willemsbrug. Houve uma tentativa de expulsar os soldados alemães das posições que ocupavam, por meio de bombardeios (necessariamente leves), mas sem resultado algum. Devido ao fogo de interdição disparado da ilha Noorder, não houve condições de ali posicionar a artilharia; a única a ficar na posição exigida na margem do rio a 10 de maio fora levada para Hillegersberg, onde se julgava ser mais necessária. Além disso, o posto de observação nos túneis de ventilação do Maas não podia ser usado e, por conseguinte, a artilharia, que estivera atirando regularmente contra Waalhaven, teve de suspender o fogo por algum tempo. Os aviões incapacitados no aeródromo tiveram mais de quatro horas de tranqüilidade para ser reparados; o bombardeio só se reiniciou muito depois que eles partiram.

 

A maioria dos soldados holandeses empenhava-se apenas no setor defensivo. Era tal a apreensão de que os alemães atravessassem o Maas em outros pontos, que se despenderam enormes esforços, desnecessários, aliás, e com a maior presteza. E até mesmo essa iniciativa tão mal orientada teve péssimo resultado, devido à confusão reinante entre os oficiais que dirigiam as operações e também houve suspeita de atuação da quinta-coluna. Nesse tempo tornou-se freqüente os soldados holandeses atirarem contra os próprios camaradas, supondo estar atingindo alemães disfarçados ou holandeses renegados.

 

Pela manhã, o Comandante do destróier britânico Wild Swan ofereceu-se para subir o Nieuwe Maas até Roterdã e bombardear Waalhaven com os canhões do seu navio. O oferecimento não foi aceito já que representava perigo para os soldados que haviam recebido ordens de recapturar Waalhaven. Às 12:30 horas do mesmo dia, o Almirantado mandou o comandante executar a missão, mas o bombardeio ainda assim não se concretizou devido a boatos no Hook de que Waalhaven fora retomada. Assim, os holandeses no Maas tiveram que agir sem contar com o apoio de artilharia. A essa altura, os combates ocorriam por toda parte e a White Huis, ou Casa Branca, importante marco local devido à sua posição estratégica, teve de ser abandonada.

 

Um incêndio iniciado no Boompjes estava agora se propagando a vários navios no Wijnhaven que já se encontravam envolvidos pelas chamas. Uma fumaça asfixiante e de cheiro desagradável pairava nas diversas áreas de Roterdã perto do porto. Durante a tarde, os alemães montaram metralhadoras no Statendam, da Linha Holland-Amerika, atracado no Wijnhaven. A tripulação conseguiu escapar, apesar das ordens recebidas no sentido de permanecer a bordo, e os holandeses começaram a atirar contra o belo navio, causando, naturalmente, consideráveis danos além de provocar vários incêndios - e também despertando grande indignação entre os diretores da Linha Holland-Amerika, que perguntaram às autoridades militares por que não podiam afundar o navio com um único tiro certeiro. Aparentemente, isso não era possível. Um barco de corpo de bombeiros que foi ao Statendam com a intenção de apagar os incêndios, teve de voltar, por ter sido morto o seu comandante. À noite, o navio, que ainda não chegara a 11 anos de existência, não passava agora de uma enorme bola de fogo. O mesmo destino sofreram os navios Dinteldijk, Bosdijk e Veendam.

 

A população da ilha Noorder sofreu muito: a 10 de maio os sistemas de abastecimento de gás e água cessaram de funcionar, e no dia 11 todos os prédio situados na extremidade oeste da ilha ardiam como sinais luminosos e o cais teve de ser evacuado. Milhares de criaturas foram obrigadas a se abrigar em escolas e outros prédios que pudessem comportá-las; só na escola católica havia 500 pessoas, muitas delas portando seus animais de estimação. A escola tinha somente dois sanitários, e, é obvio, sem água. Uma alemão que morava na Holanda havia muitos anos, feroz adversário do regime nazista, ofereceu-se para uma perigosa missão. Seu negócio fora destruido no dia anterior, ele sofria de úlcera, era judeu e não tinha parentes vivos; não dava mais valor à vida e queria fazer algo de útil aos seus semelhantes. Havia uma necessidade premente de água para todos os fins e ele foi repetidamente buscá-la no Prins Hendrikkade, sempre arriscando a vida ao fazê-lo.

 

Aqueles que ainda tinham casa intata raramente saiam. Os soldados alemães, entretanto, já haviam começado a invadi-las, em busca de homens e meninos para cavar trincheiras. Choltitz estava decidido a resguardar a ilha Noorder e o Willemsbrug até o fim, na esperança de que a 9ª Divisão Panzer chegasse a tempo. Preferiu ignorar a ordem do General Student que o mandava abandonar a pequena cabeça-de-ponte na costa norte, na noite de 11 de maio.

 

Com os dois únicos bombardeiros que a Força Aérea Holandesa ainda podia dispor, fez-se uma tentativa no sentido de destruir Willemsbrug e eliminar a cabeça-de-ponte alemã na ilha Noorder. As bombas não acertaram a ponte, mas, errando o alvo, muitas foram cair sobre várias casas na extremidade oeste da ilha e provocaram incêndios que deixaram mais outros milhares de pessoas ao desabrigo. À tarde repetiu-se a tentativa, e mais uma vez inutilmente. Ao voltar a base, a pequenina força de bombardeiros teve de enfrentar 12 caças alemães e perdeu um bombardeiro e um caça, restando à Força Aérea Holandesa apenas um bombardeiro.

 

O segundo dia da guerra fora uma catástrofe. À leste da Linha Grebbe, a faixa de postos avançados fora perdida e a posição Peel-Raam, abandonada; a defesa do Zuid-Willemsvaart ruíra por terra e os soldados holandeses em Noord-Brabant estavam em pânico. A Divisão Ligeira não conseguira atravessar o Noord e expulsar os alemães da ilha Ijsselmonde; o 6° Batalhão de frente fracassara na cabeça-de-ponte em Moerdijk e o 3° estava isolado, perto de Barendrecht, no Oude Maas. Em Roterdã, os alemães ampliaram seu ponto de apoio na extremidade norte do Willemsburg e consequentemente todos os ataques desfechados contra suas tropas aeroterrestres perto de Delft, Haia, Wassenaar e Valkenurg tinham sido repelidos.

 

Metade da munição destinada aos canhões AAe holandeses foi consumida logo no primeiro dia da guerra. As modernas baterias pesadas haviam sido fornecidas pela Vickers inglesa, que deveria enviar outros suprimentos de munição. Mais à solicitação urgente feita pelo Adido Militar holandês em Londres para dar prioridade ao pedido holandês, responderam que nada havia daquele calibre em estoque, no momento.

 

Os invasores tinham a certeza de que seria fácil destruir a resistência adversária. Por reconhecimento aéreo eles sabiam que os holandeses careciam de artilharia para a defesa da faixa de postos avançados de Grebbeberg; mesmo que defendessem, ou não, o Grebbeberg até o último homem, isso não importava muito aos alemães, que esperavam para breve a chegada da 9ª Divisão Panzer, a Roterdã, através de Moerdijk e Dordrecht. Significando que, bem atrás das tropas holandesas que estavam defendendo a Linha Grebbe e a Nova Linha Costeira, 150 tanques pesados alemães podiam ir diretamente para Haia, para a sede do governo holandês e para a residência da Família Real.

 

Os dias três e quatro

 

A 12 de maio, domingo de Pentecostes, tanques da 9ª Divisão Panzer (DP) chegavam à ponte Moerdijk. A posição “Won” no norte da Holanda, destinada à defesa do Afsluitdijk, foi tomada e houve luta renhida perto da Linha Grebbe (no leste da Holanda). Na vizinhança de Wageningen, os alemães encetaram um bombardeio violento que os holandeses, embora com muito empenho, não conseguiram deter.

 

Em Roterdã-Zuid e em outras áreas da ilha Ijsselmonde, o General Student tivera a sorte de encontrar cerca de 100 caminhões, que usou para transportar todo um batalhão de soldados aeroterrestres, três baterias de artilharia e alguns canhões antiaéreos. Mais ou menos por volta das 13 horas, a coluna passou sobre o Oude Maas e pouco depois atacou e tomou a estação ferroviária de Dordrecht e toda a área das redondezas. Um gasômetro explodiu e o clarão iluminou tudo em volta quando anoiteceu.

 

Eram quase 17 horas, batedores da 9ª DP, em carros blindados leves, começaram a cruzar a ponte Moerdijk. Um segundo-tenente holandês, feito prisioneiro pela manhã, e que viu os carros blindados percorrer a rodovia em direção ao centro da ilha de Dordrecht, recebeu ordens de ir ao encontro do oficial-comandante das tropas holandesas ali estacionadas e recomendar que se rendesse. O comandante em questão era o Coronel van der Bijl, encarregado da Divisão Ligeira que acabara de chegar à ilha e instalara seu posto em Dubbeldam, cerca de 1.600 metros de Dordrecht. Ele imediatamente pegou o telefone para informar o comandante da Fortaleza Holanda, General van Andel. Este supôs que a aproximação de veículos blindados nada mais era que o produto de imaginação do coronel, por ter dado ouvidos apenas a boatos; além disso, fora informado pelo General Winkelman que carros blindados franceses estavam a caminho para lhes dar apoio, sendo bem possível, portanto, que eram eles que chegavam... Carros blindados alemães? Impossível... e o próprio Vander Bijl não tivera tempo de verificar o que havia de verdade na mensagem trazida pelo segundo-tenente. Enquanto isso, o coronel dirigia-se a Dordrecht, a fim de providenciar algumas mudanças no comando da artilharia. (Sua missão tinha como objetivo certo Tenente-Coronel Mussert, irmão de Mussert, o líder do NSB, de quem se desconfiava, e com boas razões, de ser indigno de confiança. Ainda ouviremos falar dele. Van der Bijl destituiu Mussert do comando da artilharia de Dordrecht, mas o General van Andel cancelou a demissão e colocou Mussert sob o comando direto de van der Bilj). A viagem do coronel não foi fácil. A essa altura a força alemã já penetrara entre Dubbeldam e Dordrecht. Ele decidiu então fazer um desvio com seu estado-maior pela ferrovia a oeste de Sliedrecht e dali cruzar até Dordrecht, utilizando-se da barca de Papendrecht. Tarde da noite ele chegou a Papendrecht apenas para encontrar a barca atracada na outra margem do rio e avariada.

 

O comandante da Divisão Ligeira via-se agora isolado da ilha de Dordrecht e das demais tropas ali estacionadas, onde se encontravam também os carros batedores da 9ª DP e seus primeiros tanques pesados que haviam chegado. Durante a noite, as tropas holandesas recuaram para o centro da cidade de Dordrecht, extremamente cansadas, famintas e de moral abatido. Nenhum dos seus ataques fora bem sucedido; os aviões alemães haviam chegado um após outro sem que aparecesse um só dos aliados.

 

Os holandeses posicionados diante de Willemsdorp, em Beijerland, na margem oeste do Kil, tinham visto os carros blindados cruzar a ponte de Moerdijk à tarde, mas não fora impossível determinar se eram alemães ou franceses. Jogando com a sorte, eles atiraram contra os veículos e viram estar certos na sua decisão quando foram atacados e metralhados por 20 bombardeiros alemães ao anoitecer de 12 de maio. Eles continuaram patrulhando a ponte até a tarde do dia seguinte. O comandante alemão em Willemsdorp estava na expectativa do desembarque, na ilha, de um grande contingente holandês reforçados, sem dúvida, por tropas britânicas.

 

As baterias holandesas alojadas nas proximidades das pontes de Moerdijk necessitavam desesperadamente de munição, e ela havia chegado, 12 toneladas, de caminhão, no sábado, com destino a Beijerland, e fora depositada no navio De Twee Gezusters, que tentou passar sob a ponte dominada pelos alemães, mas foi atingido por um intenso fogo de artilharia, obrigando-o a voltar para Goribchem - com toda aquela tonelagem de explosivos a bordo, ele era pouco mais que uma bomba flutuante. Pouco depois fez-se nova tentativa, desta vez com uma tripulação de voluntários das forças armadas e, escoltado pela canhoneira Christiaan Cornelis, o navio rumou para Dordrecht. Por incrível que pareça, não houve um só tiro contra eles vindo das pontes do Doerdijk, mas no Dordtse Kil foram surpreendidos por um tremendo bombardeio proveniente da ilha e metralhados por aviões. A Christiaan Cornelis foi obrigada a retirar-se, bastante avariada, para o Hollands Diep, puxada pelo rebocador Robur, que também sofrera consideravelmente, mas o Twee Gezusters, ainda sob forte ataque, conseguiu chegar ao pequeno ancoradouro de Strijensas, perto de Dordrecht, onde a munição foi descarregada com toda rapidez. O capitão morreu e o timoneiro ficou gravemente ferido.

 

Durante a noite houvera pânico no QG antiaéreo em Dordrecht e, em conseqüência, a instalação telefônica ali fora destruída. Destruição esta, aliás, desnecessária, motivada apenas por boatos infundados, mas aceitos como notícias verídicas. Chegara uma mensagem dizendo que o inimigo marchava pelo Coolsingel, e para que os alemães nada encontrassem que lhes fosse útil, todo o equipamento foi destruido, e o estado maior fugiu. O departamento de manutenção dos Correios instalou as linhas principais no dia 12 de maio, mas as comunicações, nesse ínterim, ficaram bastante deficientes.

 

Em Roterdã, o comandante da guarnição, Coronel Scharroo, recebera como reforço 5 batalhões, nos dias 10 e 11 de maio, e em vista disso, parecia inexplicável que os alemães ainda estivessem de posse das pontes do Maas. O General Winkelman mandou o Tenente-Coronel Wilson a Roterdã, juntamente com dois outros oficiais de estado-maior, investido de plenos poderes para substituir Scharroo em caso de necessidade. Quando Wilson, acompanhado de três carros blindados, chegou a Roterdã, verificou que as tropas estavam sendo totalmente empenhadas na proteção da cidade a oeste, norte e leste e para guarnecer o longo limite do Maas. Além disso, vários destacamentos vasculhavam as casas em busca de prováveis elementos da quinta-coluna.

 

Os dois primeiros bombardeios desfechados pelos alemães, na manhã de domingo de Pentecostes, haviam destruido o hospital de olhos e várias casas entre Oosrplein e a Estação Beurs. Por razões de segurança, Scharroo mudara seu QG para o distrito de Blijdorp, no norte da cidade.

 

Wilson concluiu não ser viável usar as tropas do Maas. Telefonou pedindo mais reforços e teve a promessa de lhe mandarem o 2° Batalhão de Caçadores, da guarnição no Hook. Às 14 horas o comandante daquele batalhão recebeu ordens de marchar imediatamente com sua unidade para Roterdã, o que não foi possível, por estar, uma das suas companhias, dispersa em dispositivo de defesa pela ilha Rozemburg. Somente à 01:30 horas do dia seguinte é que o batalhão ficou reunido e pronto para partir para Roterdã, quase 12 horas após ter recebido a ordem. E esse espaço de tempo foi muito bem aproveitado pelos alemães, que o usaram para preparar suas trincheiras, perto das pontes do Maas. Wilson, que tomara a estrada de Gouda para Roterdã por supor que aquela que passava por Delft estivesse ocupada pelos alemães, quis verificar se suas suposições tinham fundamento e mandou um dos três carros blindados para o Delft. Houve troca de tiros perto de Overschie, mas, fora isto, o carro blindado chegou a Delft sem quaisquer dificuldades. A estrada, no entanto, estava entulhada de destroços de veículos alemães abandonados.

 

A ordem emitida pelo Comandante da 1ª Divisão visando atacar na direção de Roterdã através de Delft não foi alterada. Viram-se, pára-quedistas descendo perto de Roterdã. Os atacantes se aproximaram até 2.400 metros de Overschie, atirando, entrementes, contra os pára-quedistas, mas não conseguiram chegar à cidade. Os restos da 22ª Divisão Luftlande, que recebera ordem de recuar para o sul de Delft, foram mais para o sul e chegaram a Overschie a 12 de maio. Deles partiram os tiros contra o carro blindado de Wilson. No mesmo dia, mais soldados foram para Overschie, onde não havia tropas holandesas para oferecer resistência.

 

Da força aérea holandesa pouco restava. Alguns caças e o único bombardeiro de que podiam dispor tentaram atacar perto da posição Won, mas não conseguiram romper a defesa antiaérea alemã. O sucesso dessa tentativa não teria feito muita diferença, porque a posição Won já estava em mãos alemães.

 

Eles foram ligeiramente mais bem sucedidos perto de Wageningen. Para levantar o moral do Estado-Maior terrestre holandês, o General von Voorst pedira o concurso da força aérea para atacar alvos a oeste de Wageningen. Um dos pilotos dos lentos e antiquados C-5 disse mais tarde que podia distinguir Wageningen na distância, envolta num lençol de fumaça e chamas; tomou aquela direção e de súbito foi atacado por três caças alemães - Messerschmitts 109 ou Heinkels 112 - bastante velozes e fortemente armados. Afastou-se, num mergulho, em meio a uma saraivada de balas e traçadoras, mas nesse momento descobriu-se que o aparelho não obedecia aos controles e antes que tivesse uma chance de saltar, o avião atingiu um dique a toda velocidade, deu um tremendo salto e caiu. Quando o piloto recuperou os sentidos, viu-se empapado de gasolina, o avião emborcado e o tanque de combustível vazava seu conteúdo sobre os canos de descarga ainda quentes. Felizmente, nenhuma das bombas ainda presas ao aparelho tinha explodido com a colisão. O pé do piloto ficara preso, mas ele conseguiu libertar-se e se afastar dos destroços. Ao todo, realizaram-se 48 missões a 12 de maio, mas sem grandes vantagens.

 

A rendição prematura da posição Won desapontara profundamente o General Winkelman, que estava muito pessimista sobre a situação toda: as pontes de Moerdijk, Dordrecht e em Roterdã permaneciam em poder dos alemães e a faixa de postos avançados perto da Linha Grebbe tampouco fora recapturada. A Luftwaffe era esmagadoramente forte e os estoques de munições holandeses estavam sem dúvida alguma chegando ao fim (restava menos de ¼ do estoque de munição antiaérea). Ele disse ao Gabinete que a guerra estaria perdida em mais alguns dias no máximo, a menos que a ajuda aliada viesse logo, e a Holanda não teria outra sadia senão capitular. Um telefonema urgente enviado ao governo britânico dizia que a situação era tão precária, que sem a ajuda dos aliados era impossível deter o avanço alemão e a resistência em breve se esgotaria. Somente com ajuda imediata a situação poderia ser salva. Dijxhoorn também telefonou a vam Kleffens em Londres. Providencialmente, van Kleffens tinha um encontro com Churchill que, desde 10 de maio, era o Primeiro Ministro e Ministro da Defesa; mas, no entanto, Churchill só o que fez foi lamentar por não estar em condições de dar a ajuda pedida. Van Kleffens requisitara três divisões, mas as únicas tropas disponíveis pertenciam ao Exército Territorial, uma espécie de Guarda Civil. Contudo, podia-se apelar para a Marinha Real. Churchill encarregou-se de enviar todos os destróieres disponíveis para o Waddenzee (as águas compreendidas entre as ilhas e a costa norte da Holanda) e bombardear, dali, o Afsluitdijk, o que não parecia má idéia. Mas três lanchas-torpedeiras passaram pelo Noordzeekanaal até Ijsselmeer e apenas um destróier apareceu no Waddenzee, por pouco tempo, a 13 de maio. A Real Força Aérea bombardeou o aeródromo de Waalhaven, sem muito resultado. Afinal, tudo não passou de um gesto puramente simbólico.

 

Na Linha Grebbe, os alemães haviam encontrado resistência além da que esperavam, mas não se preocuparam muito com isso, porque a 9ª DP já havia chegado à ponte de Moerdijk, vinda do sul. Hitler aproveitou ao máximo o seu êxito acrescentando a 22ª Divisão Luftwaffe à 9ª DP que, juntamente com a 7ª Divisão Flieger a o SS-Leibstandarte Adolf Hitler - deslocado do Veluwe (Gelderland) para Noor-Brabant -, formaram o 39° Armee-Korps, sob o comando do General-leutnant der Panzertruppen R. Schmidt

 

O general Winkelman só soube que os tanques alemães já haviam chegado à ilha Dordrecht, às 23:30 horas, pela Rádio Bremen. Portanto, a situação era ainda pior do que supunha antes e ele se preparou para uma entrevista a horas mortas com a Rainha e o Gabinete, para informá-los da gravidade da situação. Ao chegar, às 03:30 horas, ele não teve de aguardar por muito tempo para apresentar seus respeitos à Rainha. É que ela estivera ocupada, tomando providências no sentido de resolver a questão de abrigo e segurança para sua filha e respectiva família, e não pudera dormir desde que o caminhão fornecido pelo Banco Neerlandês as levara, tarde da noite, para o navio inglês que as aguardava. Quando soube de Winkelman que a situação era tão séria e que somente a ajuda aliada maciça poderia salvar a situação, ela decidiu telefonar ao Rei da Inglaterra. O general concordou que esse contato pessoal talvez fosse benéfico e às 04:15 horas o Rei Jorge VI foi despertado por um sargento da policia que lhe disse que a rainha da Holanda estava no telefone. “Não acreditei nele”, escreveu o Rei em seu diário, “mas fui atender e era ela em pessoa. Implorou-me que mandasse aviões para a defesa da Holanda. Transmiti a mensagem a todos os interessados e deitei-me novamente. Nem sempre nos telefonam a essas horas, especialmente uma rainha. Mas nestes tempos qualquer coisa pode acontecer, e até coisas muito piores”.

 

A Rainha Guilhermina já mandara um telegrama pessoal ao Rei da Itália pedindo-lhe que usasse sua influência junto ao seu aliado político para salvar a Holanda. Contudo, ele nada podia fazer, assim como o Papa Pio XI, que, a 10 de maio, enviara um telegrama à rainha expressando sua simpatia, sendo vigorosamente censurado pelo Duce por esse ato de solidariedade humana.

 

Após sua conferência com a rainha, o General Winkelman foi para o edifício do Gabinete. E neste, seus membros, ao receber a notícia, acharam que era hora da rainha partir o mais rápido possível, ao que Winkelman opôs-se, radicalmente, considerando que se a população soubesse que a rainha deixara o país, o moral cairia tanto que toda a resistência enfraqueceria. Não partilhava, no entanto, dessa opinião o Ministro Dijxhoorn, que achou mais aconselhável a partida da rainha, a bem de sua própria segurança e para evitar ser aprisionada e transformada num bom refém e com isso manter a Holanda sob vigilância. Quando Dijxhoorn informou de sua decisão ao Vice-Almirante Furstner, e aconselhando-o a mandar o resto da esquadra para a Zelândia, este último ficou profundamente abalado. O almirante nem imaginava o quanto era grave a situação e acusou os ministros de derrotismo desprezível, dizendo: “É este o país de Tromp e De Ruyter?” Os tanques alemães aproximavam-se de Roterdã, a Fortaleza Holanda estava ameaçada bem no seu âmago e Winkelman queria lutar até o fim, mas Dijxhoorn achava desumanamente irresponsável desperdiçar mais vidas por uma causa perdida. Era imperioso que a rainha deixasse Haia imediatamente e o Gabinete deveria acompanhá-la. Finalmente chegou-se a um acordo e Dijxhoorn iria ter com a Rainha para aconselhá-la a partir. Ela recusou-se a atender ao apelo do ministro, mas ouviu os argumentos do general e depois de pesar seriamente os prós e contras achou por bem refugiar-se na Zelândia (O destino contudo, decidira que ela iria para a Inglaterra: uma transmissão radiofônica informando que o céu sobre a Zelândia estava repleto de aviões alemães provocou a mudança em direção a Harwich, como descreveremos mais adiante. A esperança de que pudesse obter ajuda militar real para seu povo, se pedisse ela mesma, ajudou-a a aceitar o fato de estar deixando o país),

 

Nesse meio tempo, mais tanques da 9ª DP chegavam a Dordrecht e também considerável reforço para a Luftwaffe. As tentativas no sentido de retomar a ilha de Dordrecht fracassaram por completo. Na noite anterior preparara-se um plano para atacar as forças alemães de Dordrecht para oeste e da estação das barcas de Wieldrecht para leste, fechando assim a rodovia Moerdijk-Dordrecht, que atravessava a ilha. Infelizmente, o plano fracassou na prática. O destacamento que avançava da estação das barcas de Wieldrecht foi alvo de ataques incessantes por bombardeiros desde o começo da manhã; uma seção da importante defesa antiaérea foi destruída e a casa de fazenda onde se estabeleceu o posto de comando das forças atacantes pegou fogo. Então viram tanques aproximando-se do oeste, ostentando marcas de identificação de tecido amarelo usadas pelos alemães para distinguir seus próprios tanques, para que não atirassem uns contra os outros por engano. Alguns soldados holandeses confundiram essa cor com laranja e começaram a espalhar o boato de que os franceses tinham finalmente chegado. Quando vários holandeses correram entusiasmados ao encontro dos supostos aliados, o primeiro tanque abriu fogo. Dois tanques dos aliados foram destruídos e os outros recuaram, mas os intensos ataques aéreos lograram dispersar as demais unidades holandesas.

 

O centro de Dordrecht estava preparado para defesa. Todos os acessos estavam bloqueados por barricadas e a maioria das pontes foi erguida, exceto onde canhões antiaéreos estavam posicionados. À tarde, 12 tanques alemães aproximaram-se, mas antes que os defensores tivessem chance de abrir fogo, o ajudante-de-campo do “traidor” Tenente-Coronel Mussert foi-lhes dizer que os tanques franceses se aproximavam. Os holandeses começaram a acenar alegremente bandeiras vermelho, branco e azul, e a tripulação do primeiro tanque à vista também acenou e, de súbito, abriu fogo bem à frente da ponte, mas não a cruzou, e embora alguns tanques conseguissem entrar em Dordrecht, onde causaram tremenda destruição, eles não se sentiram muito seguros e acharam melhor retroceder para o lugar de onde vieram. As pontes foram bloqueadas com maior segurança e construíram-se novas barricadas, mas Mussert, ainda usando da sua influência, ordenou que se mantivessem abertas algumas estradas para facilitar o transporte de feridos. Oficiais do Corpo de Bicicletas (sic) fizeram objeções a isso, pois os alemães, disseram, aproximavam-se, mas ele desprezou a crítica e lhes disse que estavam vendo apenas fantasmas. Os oficiais concluíram que ele só podia ser um quinta-coluna e daí por diante ignoraram suas ordens.

 

Por fim, o Coronel van der Bijl, ordenou que todas as tropas recuassem de Dordrecht para a outra margem do Merwede, e depois que os últimos soldados holandeses cruzaram o rio, as barcas foram afundadas. As tropas estavam compreensivelmente desmoralizadas e muitos soldados já consideravam Mussert um traidor. Diante disso um grupo de oficiais resolveu prendê-lo por suspeita, mas ao receber a ordem para se render, erguendo os braços, ele se rebelou e respondeu que não se deixaria prender por um simples capitão. “Atire se for homem”, redargüiu ele, e àquela frase, um pouco indeciso o capitão pensou se estaria certo ao executar o homem, mas quando Mussert perguntou, a um tenente, quem era ele, e ao mesmo tempo baixava os braços, o tenente não teve dúvidas e atirou; algumas horas mais tarde, o Tenente-Coronel Mussert morria.

 

Com o único bombardeiro restante, um T-5, tentou-se destruir a ponte de Moerdijk. A primeira bomba errou o alvo e a segunda não explodiu. O bombardeiro e o caça que o escoltava foram derrubados por um grupo de Messerschmitts e todos os tripulantes morreram. A ponte de Moerdijk estava sendo alvejada pela artilharia holandesa desde o dia