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A queda da França foi uma das maiores catástrofes de nossa época. E surgiu da brecha entre o Mosa e as Ardenas quando o poderio blindado germânico rompeu as posições francesas mais vulneráveis, atingiu a Mancha e envolveu os exércitos aliados, destruindo sua capacidade combativa. John Williams A vitória mais fácil da História A França caiu em pouco menos de seis semanas de iniciada a ofensiva alemã no Ocidente, a 10 de maio de 1940. Mas a questão já estava resolvida nos seis primeiros dias, e resultou numa guerra que durou seis anos, espalhou-se pelo mundo inteiro e teve efeitos importantes sobre incontável número de pessoas e conseqüências espantosas para muitos milhões. Mas o sucesso inicial da Alemanha estava longe de ser inevitável, embora pudesse parecer assim depois dos acontecimentos. Na verdade, teria sido muito fácil impedi-lo. A ninguém é lícito atribuir a vitória germânica a uma superioridade avassaladora de suas forças. A Alemanha não mobilizou tantos homens quanto seus adversários - à custa da produção de armas desses últimos. É verdade que os alemães conseguiram formar e equipar maior número de divisões que os franceses, mas, em relação a seus adversários todos, no Ocidente, não levava qualquer vantagem, numericamente falando. O que, afinal, não tinha grande importância, pois a questão na realidade foi decidida pela performance de uma elite de 8% do seu exército - as dez divisões blindadas - as Panzerdivisionen - antes que o grosso de suas forças armadas tivesse entrado em ação. Superestimou-se muito o volume de blindados alemães, na época. Embora os franceses calculassem um total de 7 a 8 mil tanques, sabe-se que o Exército alemão tinha menos da metade desse número - menos de 2.600 foram usados na primeira fase, a decisiva da invasão. Os franceses tinham muito mais tanques, mas não eram tão móveis e a maior parte deles espalhava-se em pequenos grupos, e não se concentrava para um ataque poderoso. Os generais franceses ainda se apegavam à idéia corrente em 1918, de que os tanques eram auxiliares da infantaria. Hitler, ao contrário, dava ouvidos a Guderian, o líder da nova escola, para quem a divisão blindada devia ser a ponta de lança do exército. Hitler também dava grande importância ao poderio aéreo, e sua superioridade em números era enorme - quase 3 para 1. Treinando os seus muitos bombardeiros de mergulho - Stukas - para o apoio ao trabalho dos tanques, colherem os germânicos excelentes resultados. Os chefes militares franceses negligenciaram o poderio aéreo, e só tarde demais tentaram remediar o mal. Depois de terem cruzado o Mosa, os tanques avançaram pelas estradas que conduziam ao oeste, sem encontrar quase nenhuma oposição. Numa semana haviam atingido a costa do Canal da Mancha, a 250 km de distância, e isolado os exércitos aliados, na Bélgica. Os resultados foram a retirada de Dunquerque e a queda da França, a vitória mais fácil da História. O ritmo verdadeiramente infernal da guerra - ritmo imposto pelos Panzer - como que paralisou o Estado-Maior francês, entregue ainda ao compasso de 1918. As ordens por ele emitidas poderiam terem sido eficazes, se não fossem sempre dadas 24 horas depois de terminada a situação que pretendiam enfrentar. Outra razão para o desastre da França: a preocupação do Estado-Maior em montar contra-ataques maciços, em lugar de procurar rapidamente guarnecer as linhas de resistência. Vezes sem conta os alemães cruzavam essas linhas enquanto as reservas francesas se agrupavam gradativamente nos flancos. O Estado-Maior francês se contentava em obedecer a uma velha teoria ofensiva, independente do que estivesse ocorrendo na prática. Os estadistas da França e Inglaterra haviam facilitado o caminho de Hitler, por não lograrem ver qual seria o resultado da sua política. Também os militares foram imprevidentes. O colapso de 1940 foi basicamente o resultado da maneira como a ortodoxia militar prevaleceu sobre as idéias modernas, não só naquele momento, como também nos 20 anos anteriores. Franceses e britânicos - excetuando-se pequeno grupo de estrategistas modernos, que pregavam a idéia da guerra mecanizada e altamente móvel - permaneceram muito conservadores, desde a vitória de 1918. Quanto aos alemães, desprezados pela derrota, revelaram-se progressistas. Esta é a chave do que aconteceu nos campos de batalha de 1940. Neste livro, John Williams destroi muitos mitos. Ao mesmo tempo em que, com uma narrativa inteligente e esclarecedora, aprofunda um estudo dos dramáticos acontecimentos de 1940. |
Os planos rivais
Na manhã tranqüila e clara de sexta-feira, 10 de maio de 1940, forças maciças da Alemanha de Hitler irromperam pelas fronteiras da Holanda, Bélgica e Luxemburgo para pôr fim à longa inércia da “guerra falsa” que, à parte a invasão da Noruega e Dinamarca, no mês anterior, vinha persistindo desde o começo da Segunda Guerra Mundial, em setembro de 1939. Iniciava ali a grande Batalha do Ocidente. Na França ainda não houvera invasão: os ataques limitavam-se a incursões de bombardeio que penetravam profundamente o território francês. No QG Supremo em Vincennes, a oeste de Paris, relatórios sobre as atividades inimigas estavam chegando desde a 1 hora da manhã. Cinco horas depois, dissipada qualquer possibilidade de ter havido alarme falso, o General Gamelin, Comandante-Chefe aliado, mandou dos seus escritórios, nas sombrias casamatas de Vincennes, a ordem histórica: “Holanda-Bélgica, manobra Dyle”, que poria em movimento a grande maquinaria avançada dos exércitos anglo-franceses para suas posições de batalha, previamente designadas, na Holanda e na Bélgica. Chegado o momento, o General Maurice Gamelin, de 67 anos de idade e conhecido pela sua serenidade, parecia muito confiante. Um oficial do estado-maior que chegara a Vincennes nunca o vira tão alegre. De estatura baixa e atarracada, o general percorria o corredor do QG, “trauteando calmamente uma melodia marcial”. Mal saíra o sol naquela manhã, já ele expressava seu otimismo às tropas em sua primeira “Ordem do Dia”: “O ataque que prevíramos desde outubro foi desfechado esta manhã. A Alemanha inicia contra nós uma luta de vida ou morte. A senha para a França e seu aliados é: Coragem, energia e confiança. Como o Marechal Pétain disse, há 24 anos: nós os pegaremos”. Não há dúvidas de que “coragem, energia e confiança” era excelente brado de guerra e que as perspetivas de ação, depois de meses de tédio e espera, eram um tônico para o moral dos franceses e britânicos ao se prepararem para sua movimentação rumo ao norte, onde enfrentariam o inimigo. Mas, enquanto a formidável máquina bélica alemã se avolumava nas fronteiras holandesa, belga e luxemburguesa, nas primeiras horas de 10 de maio, qual era exatamente o plano estratégico dos exércitos aliados? Em setembro de 1939, os Estados-Maiores-Gerais aliados (anglo-franceses) haviam aperfeiçoado um plano conhecido como “Plano D” ou “Plano Dyle” (nome de um rio belga). Estruturado na suposição de que, como acontecera em 1914, os alemães avançariam pela Bélgica, quando atacassem no Ocidente, o plano especificava, como contra-ataque, um avanço anglo-francês que, partindo da fronteira francesa, penetraria na Bélgica para ocupar uma linha baseada no rio Dyle. Os planejadores estavam prejudicados pela atitude estritamente neutra dos belgas (e holandeses), que impediam a entrada de tropas aliadas em seus territórios antes de um ataque alemão. Contudo, o “Plano D” levava em conta a penetração de ambos os territórios. Haveria cinco exércitos envolvidos no plano, do sul para o norte - o 9° exército francês, o 1° exército francês, a Força Expedicionária Britânica (FEB), o próprio exército belga e o 7° exército francês (que ocuparia a linha Breda-St Leonard, do outro lado da fronteira holandesa). Depois do ataque alemão inicial, essas tropas ocupariam as seguintes posições (com os belgas já no local) do sul para o norte: o 9° exército francês, Namur-Wavre; a FEB, Wavre-Louvain; o exército belga, Louvain-Antuérpia; o 7° exército francês, Turnhout-Breda (Ao norte do 7° exército, a Holanda seria protegida pelo exército holandês). Assim, juntamente com o exército belga, um exército britânico e três franceses confrontariam os alemães numa linha de 160 km, baseada em barreiras fluviais e enrijecida por fortificações que atravessavam toda a Bélgica, no sentido da largura, e penetravam na Holanda. Ao preparar o “Plano D”, os encarregados de sua elaboração haviam admitido que o principal assalto alemão se daria nas planícies belgas ao norte de Namur, ignorando região ao sul de Namur - o terreno acidentado e boscoso das Ardenas e o rio Mosa com suas margens alcantiladas - por julgarem que ele não oferecia nenhuma ameaça séria. “Esse setor não é perigoso”, dissera o Marechal Pétain a uma Comissão do Exército, em 1934. Como resultado lógico desse raciocínio, a decisão do “Plano D” - tão fatídico para os aliados - foi colocar os dois mais poderosos exércitos franceses, os 7° e o 1°, ao norte de Namur, e o mais fraco ao sul. Mas, durante os meses de trégua intranqüila no Ocidente, Hitler estivera fazendo seus planos. Na verdade, o plano original da invasão alemã previa um movimento desbordante pela Bélgica Central (seguindo as diretrizes do “Plano Schlieffen” de 1914), conforme estipulado na primeira versão do “Plano Amarelo” alemão, preparado em meados de outubro de 1939. Este plano especificava uma operação subsidiária pelas Ardenas. Mas um general alemão, Erich von Manstein - Chefe do Estado-Maior do General von Rundstedt, comandante do Grupo de Exércitos “A”, que fora destacado para a ação nas Ardenas - não aprovava esse plano. Prevendo que a Bélgica Central seria intensamente defendida, ele queria que o Grupo de Exércitos “A” desfechasse o ataque principal no setor menos protegido das Ardenas-Mosa. Mas, não seria para os tanques um obstáculo grave o terreno notoriamente difícil daquela região? Quanto a esse problema, Manstein consultou o perito em blindados, General Heinz Guderian, que, depois de cuidadoso estudo, considerou a operação viável. O próprio Rundstedt já agora aceitava a proposição e, juntamente com Manstein, recomendaram-na ao OKH (o Alto-Comando do Exército alemão), mas sem êxito. A idéia teria sido totalmente abandonada, mas Manstein - transferido para outro lugar por ser incômodo ao OKH - por acaso jantou com Hitler em fevereiro, e na oportunidade explicou-lhe seu plano. O Fuhrer, que tinha dúvidas quanto ao esquema original, em parte porque fora revelado aos aliados, através de planos alemães capturados na Bélgica no mês anterior, (Em janeiro de 1940, dois oficiais alemães, portadores dos planos completos da invasão se perderam, com seu avião, na bruma, fazendo pouso forçado. Ao verificarem que se encontravam na Holanda, tentaram atear fogo aos planos, mas foram violentamente obstados por policiais que haviam acorrido numa viatura. Os planos foram revelados pelo governo holandês aos belgas, franceses e ingleses, mas, como sempre sucede, foram considerados um despistamento. Aos poucos a espionagem alemã foi verificando que as potências ameaçadas não tinham dado crédito à sua boa sorte, e Hitler decidiu manter os planos) ficou muito impressionado e adotou imediatamente o plano das Ardenas de Manstein, incorporando-o em sua Diretiva de Guerra n° 10, de 18 de fevereiro de 1940. Uma semana depois, promulgou-se o “Plano Amarelo”, em sua quinta e última forma, que dava ao Grupo de Exércitos “A” de Rundstedt o papel principal na próxima ofensiva. Aumentado para 44 divisões, 7 das quais blindadas, o grupo devia atravessar as Ardenas, cruzar o Mosa, entre Sedan (na França) e Dinant (na Bélgica), e estabelecer cabeças-de-ponte destinadas a avançar para o Canal da Mancha. Como já observamos, o mais fraco dos exércitos franceses é que se poria a essa força maciça. Assim - golpe fatídico do destino ou raciocínio brilhante de Manstein? - os planejadores franceses foram superados, assegurando-se virtualmente o envolvimento, na Bélgica, de grande parte dos exércitos aliados antes de iniciada a ofensiva. Outros fatores, porém, pesavam contra a França, nesse crítico 10 de maio. Embora fisicamente mobilizado para a guerra, o país ressentia-se da falta da unidade e da determinação necessária para o duelo terrível. Além disso, a longa trégua da “guerra falsa” servira para eliminar o senso de urgência que a dominara em setembro de 1939 - e talvez tivesse criado um estado de falso otimismo e de confiança excessiva. Mas, por trás de tudo, inibindo esforços necessaríssimos na emergência, havia profunda aversão à guerra, criada pelos seus antigos conflitos com seu velho inimigo e vizinho mais poderoso, a Alemanha. Derrotada na Guerra Franco-Prussiana de 1870 e sofrendo danos imensos nas mãos da Alemanha, na Primeira Guerra, a França desde então se preocupava com a segurança - que se expressava militarmente numa estratégia defensiva na construção da grande “Linha Maginot”- a barreira mágica que deteria o agressor alemão para sempre. O raciocínio em que se basearam os idealizadores da “Linha Maginot” era lógico. No final da Primeira Guerra decidida a nunca mais sofrer invasão alemã, a França viu-se diante de um problema extra de defesa, a proteção das recém-recuperadas províncias da Alsácia-Lorena, que ela perdera como resultado da guerra de 1870. A região era vital para a França, por produzir carvão e potassa. Para evitar sua destruição, no caso de qualquer ataque da Alemanha, elas teriam de ser defendidas na fronteira. Até a chegada de tropas pela retaguarda, afirmava-se que o melhor meio de fazer uma defesa imediata era um sistema fortificado permanente. Do nome de um veterano de guerra, ferido no primeiro conflito mundial, natural da Lorena, André Maginot, saiu a sua denominação. Como Ministro da Guerra em 1922 convencido de que uma Alemanha pacífica e amistosa seria uma irrealidade, iniciou André Maginot campanha para que se providenciassem as defesas da Alsácia-Lorena. Durante toda a década de 1920, ele e seu sucessor, Paul Painlevé, trabalharam energicamente para que seu plano fosse posto em prática, enquanto que os mestres do Estado-Maior Geral ponderavam indecisamente sobre o tipo de defesa que se deveria construir, e sua extensão. Dois grandes líderes franceses da Primeira Guerra contribuíram para a tomada da decisão: os Marechais Joffre e Pétain, cujas opiniões sobre a questão eram antagônicas. Joffre (Presidente da Comissão para Áreas Fortificadas no pós-guerra), propunha um série de fortificações separadas, desde o mar do Norte até a fronteira suíça, entre as quais se poderiam desfechar ataques em grande escala. Por outro lado, Pétain (Vice-Presidente do Conselho do Exército e Inspetor-Geral do Exército) optava por um sistema defensivo ininterrupto, para proteger somente a fronteira nordeste. O plano adotado em 1928, depois de muita discussão, foi um meio-termo. As regiões fortificadas sugeridas por Joffre seriam ligadas às defesas contínuas propostas por Pétain, num sistema que cobriria o Reno e a região nordeste. Assim, eliminado o conceito da “ofensiva” e aceito o sistema de defesas ininterruptas, predominavam as idéias de Pétain, que punha a defesa acima de todas as outras considerações (Henri Philippe Pétain - 1856-1951 - fora chamado ao comando do setor de Verdun em 1916, quando esta frente se rompeu catastroficamente pelo grande assalto de Falkenhayn, em fevereiro. A monstruosa hecatombe que se seguiu até outubro traumatizou o excelente homem e general, um dos poucos naquela guerra que não considerava seus soldados como simples estatísticas. E estes o sentiam: sabiam que o já velho Pétain procuraria sempre poupar suas vidas. Sua magnífica ação no domínio dos grandes motins do Exército francês, em 1917, com firmeza temperada com brandura, também não fora esquecida. O papel de Pétain à testa do governo francês de Vichy deve ser visto sob uma dupla luz: seu horror as mortíferas ofensivas, que o tornaram um conciliado e pacifista a todo o preço, e a confiança que inspirava à geração dos veteranos, transmitida também, por estes, às novas gerações. Tratava-se, porém, de um pobre velho já despido de resolução e raciocínio criativo). A construção da “Linha Maginot” só terminou em 1938, devido a questões financeiras e outras dificuldades que atrasaram os trabalhos. A França tinha agora um grande bastião fortificado, de concreto e aço, a proteger (em diferentes profundidades e poderio) suas fronteiras norte e nordeste, da Basiléia a Montmédy. Não se planejou estender a linha para além de Montmédy porque, como se afirmava, a fronteira franco-belga estava muito próxima de centros vitais, como Lille, e porque o subsolo parecia inadequado para estrutura de concreto maciças. Além disso, as autoridades francesas receavam que o prolongamento da fortificação pudesse dar aos belgas a impressão de que a França seria indiferente a qualquer ataque desferido contra seu país. Por mais valioso que fossem esses fatores, a fraqueza básica da “Linha Maginot” tornava-se patente agora. Por terminar em Montmédy, era uma linha da qual se poderia desviar, “perigoso compromisso, com uma ponta apoiada no vácuo”. Além disso, a estratégia defensiva de Pétain agora parecia ser fundamentalmente incoerente, porque criara uma linha híbrida de defesa, desde o Canal da Mancha até a Basiléia, dependendo de fortificações estáticas num trecho da sua extensão e, no outro, de mobilidade de tropas que só seria eficaz se tivesse a ponta-de-lança de uma arma específica. A formação desta arma, a força blindada, vinha sendo sistematicamente rejeitada pelo Parlamento e pelo Estado-Maior-Geral desde que fora sugerida, em 1934, por um militar de excelente formação profissional, o Tenente-Coronel Charles de Gaulle. Em lugar desta arma essencial para o tipo de guerra em que a França provavelmente seria envolvida por uma Alemanha agressiva, o exército francês admitia o emprego da mesma infantaria, dos mesmos processos vigentes na Primeira Guerra. Em outras palavras, quer os franceses planejassem ou não cruzar a fronteira e penetrar na Bélgica para contra-atacar um assalto alemão, eles estavam - do Canal da Mancha a Montmédy - comprometidos com uma guerra moderna de movimento, para a qual estavam totalmente despreparados. Eram estas as deficiências provocadas pela dedicação da França à defesa passiva, e pela sua recusa em adotar técnicas ofensivas modernas. Ao mesmo tempo, ela era atribulada por problemas políticos, e carente de uma liderança vigorosa, cada vez mais sucumbia ao pacifismo e ao derrotismo. Tudo isso era mau presságio para sua capacidade bélica ao se confrontar novamente com a Alemanha em setembro de 1939. Mas seus soldados haviam respondido à convocação com um senso sombrio de propósito: “Temos de acabar com isso”, era o brado. Os homens estavam “prontos para o heroísmo”, escreveu um correspondente, “mas não para fanfarronadas”. Mas, infelizmente para o exército francês, em vez de lutar, foi condenado a ficar na ociosidade, e numa rotina de tempo de paz, durante quase 8 meses de guerra. Seu espírito de luta foi gradativamente solapado pela ausência de ação, por falsas esperanças de que Hitler talvez não atacasse, pela propaganda que os alemães faziam, com panfletos e alto-falantes, das suas linhas e mesmo por palavras derrotistas na própria retaguarda francesa (Com a assinatura do acordo entre Hitler e Stalin, em 23 de agosto, 7 dias antes de iniciar a guerra com a invasão da Polônia, o Partido Comunista francês, como o dos outros países, cindiu-se. Mas aos poucos a “disciplina monolítica” de Moscou reafirmou-se. Era grande a influência comunista na França, recém-saída dos governos da Frente Popular. A “Linha do Partido” era o apoio à Alemanha e à propaganda pacifista. Em virtude do pacto que colocava os comunistas como aliados dos nazistas, o governo francês suspendeu os jornais comunistas desde 26 de agosto. No inicio, Moscou deixou os comunistas à vontade para agir, e os parlamentares comunistas aprovaram as medidas de guerra; o secretário-geral Thorez declarou: “O essencial é que a guerra se desfeche, sem tocar à Rússia”, frase reveladora. Quando, 20 dias depois, a Rússia invadiu e partilhou a Polônia com a Alemanha, os chefes comunistas não mais puderam abstrair a associação da sua “pátria socialista” com a Alemanha nazista, e isto coincidiu com as instruções recebidas de Moscou para desfechar grande campanha mundial pela paz. Com isto, a indignação e as rupturas foram profundas, inclusive da poderosa Confederação Geral do Trabalho - ate; então dominada pelos comunistas - que com muitos outros preferiu continuar a luta contra o nazismo a ter que seguir a trela de Moscou. Em 27 de setembro foi dissolvido na França o Partido Comunista e proibidas todas as suas atividades paralelas, com o afastamento de altos funcionários e parlamentares. A atitude geral dos comunistas franceses foi a da colaboração com os alemães, até o momento em que estes invadiram a “pátria do socialismo”, em junho de 1941. Mas a atuação comunista na França, desastrosa, por se considerarem aliados de Hitler, somou-se à atuação de grande número de partidos e grupos de pressão de direita, dos mais variados matizes). Quando da mobilização, o exército de campanha francês tinha 2.776.000 homens e seu Exército do Interior 2.224.000 homens. O problema do Alto-Comando francês era como empregar essas forças imensas. As únicas possibilidades eram o treinamento e o trabalho de defesa: mas essas atividades foram seriamente prejudicadas pelo frio intenso do inverno 1939/40. Outra desvantagem era o moral e da disciplina ruins de muitas das tropas mais velhas de reservistas (que formavam quatro quintos do exército francês). Além disso, os oficiais de tropa e os graduados muitas vezes careciam de autoridade ou tinham pouca experiência. também as altas patentes careciam de vigor e élan, e esses defeitos atingiam até o QG Supremo onde o próprio General Gamelin não estava ciente de qualquer fraqueza no exército, conforme confessou. Igualmente sério, durante os meses da “guerra falsa”, foi o fato de os franceses ignorarem as lições da recente campanha polonesa, na qual a Alemanha derrotou a Polônia em pouco menos de um mês. Embora fosse evidente, pelo exemplo dado pela Polônia, que os tanques dominavam o campo de batalha, o Alto-Comando francês ainda lhe conferia o papel de coadjuvante da infantaria na execução do “Plano D”. Embora a produção de tanques atingisse os 3.000 em maio de 1940 - mais ou menos igual à alemã - os tanques franceses eram mal adaptados para a moderna guerra móvel, pois eram lentos, pesados e desajeitados, em comparação com os tanques alemães, cuja blindagem e poder de fogo eram leves, e eram construídos apenas para obter velocidade e alcance. (Segundo o historiador militar Adolphe Goutard, em seu livro La Bataille de France, 1940, os tipos principais de tanques franceses eram os médio-leves R35 e H35, o médio-leve Somua 36 e os pesados B1 e B2, além dos H39 e R40. Os principais tipos alemães eram os PzKpfw I, II, III e IV). Os franceses também não perceberam o importante papel ofensivo do avião, que a campanha da Polônia demonstrou. Enquanto os alemães tinham mais de 3.000 aviões em maio de 1940, incluindo 400 bombardeiros de mergulho Stuka, a França dispunha de uns 1.200 e não tinham nenhum outro bombardeiro de mergulho. Isto representava uma superioridade alemã de 3 para 1, embora o poderio de combate fosse mais ou menos igual, se os 130 caças britânicos que estariam nas bases da França em maio de 1940 fossem incluídos - um total de 800 aparelhos aliados, mais ou menos, em comparação com os 1.000 alemães. Mas, em velocidade, os alemães ficaram com a vantagem de seus Messerschmitts (Me 109 e Me 110) capazes de atingir 580 km/hora, em comparação com os 490 km/hora do Curtiss francês , os 480 km/hora do Potez e Morane e 573 km/hora dos Hurricanes que estavam em bases francesas. Em maio de1940, a França estaria muito inferiorizada em bombardeiros médios: apenas 150 contra os 1.470 da Alemanha. Sua posição na artilharia não seria melhor - menos de 3.000 canhões antiaéreos, em comparação com os 9.300 da Alemanha; e a produção francesa de canhões antitanques, não mais de 8.000, estaria muito abaixo das necessidades. Só na artilharia de campanha - a arma de que se orgulhava - a França superaria a Alemanha; em maio ela disporia de mais de 11.000 canhões de todos os calibres, de 75mm a 280mm, em comparação com os 7.700 da Alemanha. Mas mesmo isto não era uma vantagem real, pois a maior parte da artilharia francesa era puxada a cavalos; portanto, inadequada para operações de alta mobilidade. Era diante de todas essas fraquezas e deficiências que o General Gamelin trauteava satisfeito sua melodia marcial, nas casamatas de Vincennes, a 10 de maio. Mas se ele estava confiante na prontidão militar da França, seu governo tinha muito menos confiança nele. Paul Reynaud, que sucedera a Edouard Daladier como primeiro-ministro, em março de 1940, estava muito insatisfeito com a maneira como Gamelin cuidara da parte francesa na recente expedição aliada na Noruega, e resolvera destituí-lo do comando. Reynaud apresentou a questão ao Gabinete a 9 de maio - menos de 24 horas antes do ataque alemão. A maioria o apoiava, mas Daladier, o Ministro da Defesa Nacional e da Guerra, e o amigo mais firme de Gamelin, foi contrário. Numa atmosfera de crise, Reynaud decidiu renunciar, mas as notícias da ofensiva alemã fizeram-no mudar de idéia e reconsiderar sua atitude com relação a Gamelin. Enviou então, uma carta ao general em que frisava: “... apenas uma coisa é importante - a vitória”. Gamelin respondeu: “... só a França é importante”. Os Aliados dirigem-se para o norte Hitler iniciou sua ofensiva nos Países Baixos, mais ou menos às 04:30 horas, com um ataque aéreo devastador contra alvos e defesa vitais. Depois das bombas vieram os pára-quedistas, lançados de transportes Junkers 52; a seguir - coisa jamais vista - as unidades transportadas em planadores, que apressaram a captura de campos de aviação e pontos estratégicos. Embora previamente alertados, os defensores belgas e holandeses em muitos locais foram avassalados pela rapidez e violência do ataque. Enquanto se criava esse caos nas retaguardas holandesa e belga, as primeiras formações de dois grandes grupos de exércitos alemães avançavam por 430 km das fronteiras da Holanda, Bélgica e Luxemburgo - a grande força invasora do “Plano Amarelo”. Para sua ofensiva ocidental, Hitler reunira cerca de 117 divisões, inclusive uma reserva subordinada diretamente ao OKH, de 42 divisões. Com isso, ele estava destacando cerca de 75 divisões para o ataque aos Países Baixos e Luxemburgo. No Norte, o Grupo de Exércitos “B”, de Fedor von Bock (18° Exército de von Kuchler e o 6° de von Reichenau), penetrava na Holanda e Bélgica, ao norte de Liege, sendo encarregado de dominar a Holanda e conter o maior corpo de tropas aliadas possível na Bélgica. Ao sul do Grupo de Exércitos “B”, o grupo de Exércitos “A” de von Rundstedt (4° Exército de von Kluge apoiado pelo 12° Exército do general List e o 16° de Busch) estava penetrando a Bélgica Central e o Luxemburgo. O papel de Rundstedt era crítico - atravessar as Ardenas, cruzar o Mosa e penetrar para oeste, pelo sul da Bélgica e norte da França. O Grupo de Exércitos “A” era formado de 45 divisões; o Grupo “B” tinha 28. Na frente da infantaria de Rundstedt, que avançava laboriosamente pelas florestas das Ardenas, no Luxemburgo, ia o orgulho de toda a ofensiva de Hitler, a ponta-de-lança blindada - nada menos de 7 das 10 divisões Panzer do exército alemão - que deveria abrir caminho a oeste, entre Dinant e Sedan, e avançar para o Canal da Mancha. Esta falange maciça de blindados estava concentrada em duas formações, o grupo de 5 divisões de von Kleist e o grupo de 2, de Hoth, anexadas ao comando do 4° Exército de Kluge. Duas das 3 divisões blindadas restantes, que não estavam no Grupo de Exércitos “B”, destinavam-se a suplementar a força de ataque sul segundo às necessidades. Ao todo, o exército de Kluge disporia de uns 2.500 tanques. Porém menos importante do que o número de tanques alemães era a maneira como eles estavam sendo empregados. Alguns dos mais talentosos militares da Alemanha se haviam concentrado no uso dessa arma blindada móvel, durante os anos entre as duas guerras, enquanto o Estado-Maior-Geral francês se preocupava em construir a “Linha Maginot”. Elaborando as idéias apresentadas pelos especialistas britânicos Fuller, Liddell Hart e Martel, oficiais alemães perspicazes, como o Coronel Heinz Guderian (mais tarde General), perceberam as enormes possibilidades do tanque como a base de novo tipo de guerra em grande escala. Ele não seria mais um instrumento de infantaria, como acontecera na Primeira Guerra, mas uma arma independente, a ser empregada sempre em missão especificamente ofensiva. Guderian ficara impressionado com o conceito de Liddell Hart de divisão blindada, que combinaria unidades Panzer e infantaria blindada - ou pelo menos motorizada -, ficando ansioso, no começo da década de 20, por desenvolver a idéia para uso do exército alemão. Mas captar o interesse dos seus superiores fora uma luta árdua. Depois de um exercício teórico bem sucedido, realizado em 1929 e usando um divisão blindada imaginária, um general declarou que os tanques eram “um sonho utópico”. Somente quando Hitler se tornou Chanceler, em 1933, é que realmente houve progresso na criação de uma força blindada. Então, depois de manobras experimentais satisfatórias, feitas no verão de 1935, formaram-se três divisões Panzer, as pioneiras, em outubro daquele ano - as 1ª, 2ª e 3ª. A arma Panzer alemã estava aceita. Daí por diante, aperfeiçoaram-se táticas apropriadas para a nova arma, à medida que ela se ampliava até seu efetivo de 10 divisões do exército, na Segunda Guerra Mundial, fora as 8 das Waffen-SS. Com as divisões motorizadas que as acompanhavam (Panzergranadieren) - e apoiadas por aviões bombardeiros (em auxiliar vital) - as formações Panzer, na verdade, revolucionariam a guerra. Sua rapidez e mobilidade tornavam-nas adequadas para penetrações e operações de longo alcance contra as comunicações inimigas; e empregadas em concentrações suficientes, podiam penetrar até mesmo uma posição frontal poderosa e avançar rapidamente para além dela antes que os defensores pudessem fechar a brecha. Nas batalhas que se seguiram, este seria um dos seus papéis vitais, sendo a velocidade sempre mais importante que o potencial de fogo. Também era preciso que a exploração fosse feita em profundidade, não lateral, depositando-se a máxima confiança na Luftwaffe, cujos bombardeiros de mergulho, Stuka, realizariam uma “debilitação” preliminar. Era com essa arma formidável - ironicamente empregada pela primeira vez em formação ofensiva concentrada pelos britânicos, em Cambrai, em 1917 - que a Alemanha procurava repetir, contra a França, o que fizera à Polônia sete meses antes. Entrementes, a ordem “Dyle” do General Gamelin saíra do QG Supremo e chegara ao QG do Comandante Chefe do Nordeste, General Georges, situado nas proximidades de La Ferté-sous-Jouarre. Subordinado de Gamelin, Georges era responsável pelas operações. Daí, a ordem chegou ao General Billotte, comandante do 1° Grupo de Exércitos, a força aliada que deveria entrar na Bélgica. Pouco depois das 7:00 horas, as formações avançadas do 1° Grupo de Exércitos - a 1ª Divisão Mecanizada Ligeira do 7° Exército francês (Giraud); as 2ª e 3ª Divisões Mecanizadas Ligeiras (Corpo de Cavalaria de Prioux) do 1° Exército francês (Blanchard); as divisões de vanguarda do I e II Corpos da FEB (Lorde Gort); as principais unidades do 9° Exército francês (Corap) - estavam se preparando para cruzar as barreiras da fronteira belga, que haviam sido abertas (Se a História nos ensina pouca coisa, é porque suas versões correntes são contaminadas de falsidade. Sabe-se, hoje, que a principal razão de sucesso inicial das operações alemães de 1940, sucesso do qual decorreram todos as demais, deve-se não ao espírito defensivo dos aliados, que inegavelmente existia nas suas concepções da Grande Estratégia, mas justamente na determinação e rapidez com que deslocaram suas tropas para dentro do território belga, para fazer face à ofensiva alemã, que, acreditavam, realizar-se-ia de acordo com o velho Plano Schlieffen, com grande movimento envolvente da ala direita junto à costa do Canal da Mancha. Mas foi a variante Manstein, com a penetração profunda através das Ardenas, que rompeu todas as linhas de comunicação e abastecimento das enormes massas combatentes que se viram isoladas dentro da Bélgica, aturdidas ainda pelas marés humanas de refugiados e seus veículos, que lhes impediam as estradas). Essas formações tinham que percorrer diferentes distâncias. Para atingir a fronteira belgo-holandesa, o 7° Exército de Giraud deveria cobrir 160 km; a FEB encarregada do setor de 27 km de Louvain-Wavre, cerca de 112 km; o 1° Exército de Blanchard, encarregado do setor de 40 km de Wavre-Namur, cerca de 80 km; o 9° Exército de Corap tinha apenas de pivotar em torno de algum ponto ao norte de Mézières e proteger uma frente de 80 km, atrás do Mosa franco-belga, que se estendia para o norte de Namur. A única parte da linha do “Plano D” que não era protegida por essas formações anglo-francesas era o setor de Antuérpia-Louvain, cuja responsabilidade cabia aos belgas. O exército belga, comandado pelo Rei Leopoldo III, tinha um papel vital a desempenhar na estratégia do “Plano D”. Com seus flancos protegidos pelas formações anglo-francesas avançadas, ele enfrentaria a principal maré inicial do ataque alemão, até que toda a linha prevista no “Plano D” estivesse guarnecida. Do seu total de 24 divisões de infantaria, 10 se encarregariam de posições defensivas importantes no Canal Alberto, no Mosa e nas bases fortificadas de Antuérpia, Liege e Namur. Duas divisões avançadas guarneceria, os canais fronteiriços e duas operariam no Limburgo belga. Uma divisão ficaria na linha de defesa de Antuérpia-Louvain, protegendo Bruxelas, e o restante ficaria na reserva. Quando as formações anglo-francesas estivessem situadas nas posições designadas pelo “Plano D”, ao lado dos belgas, as forças aliadas deslocadas pela Bélgica e se estendendo até a Holanda totalizariam cerca de 53 divisões - incluindo, além das 10 divisões da FEB, as melhores divisões francesas. Enquanto o 9° Exército de Corap, no sul, se compunha de divisões de reserva pobres, o 1° Exército de Blanchard tinha duas Divisões Mecanizadas Ligeiras, três divisões “ativas” ou de primeira classe e uma divisão “série A” ou de primeira reserva; o 7°¨Exército de Giraud compreendia uma divisão mecanizada ligeira, duas divisões de infantaria motorizadas, uma divisão “ativa”, uma da “Série A” e duas da “Série B, ou segunda reserva. Mas, confiante no “Plano D”, Gamelin estava certo de que os alemães desfechariam seu ataque principal na Bélgica Central, e para lá enviou a nata de suas formações de combate, deixando a proteção do Mosa, onde este passa da França para a Bélgica (e muda seu nome, de Meuse para Maas), a cargo de tropas menos seguras. O comandante supremo francês também colocara uma força igualmente fraca - o 2° Exército de Huntziger - à direita de Corap, ao longo de importante trecho do Mosa francês. Mesmo que tivessem agido propositadamente, os planejadores não poderiam ter disposto suas tropas de maneira mais conveniente para os alemães. Ao se dirigirem para a batalha, a 10 de maio, os franceses apresentavam outro grave defeito: não estavam deslocando quaisquer divisões blindadas. Quando a guerra estourou, não tinham nenhuma, e somente em janeiro de 1940 é que se formaram as 1ª e 2ª Divisões Couraçadas (DC); a 3ª só foi formada muito depois. Segundo o General Georges (Comandante-Chefe do Nordeste) somente a 1ª DC estava pronta para o combate a 10 de maio. Com as 2ª e 3ª DC ainda despreparadas, a 1ª ficava agora na reserva. Outra divisão, a 4ª, seria criada às pressas, nas semanas seguintes. O emprego extraordinariamente errado dessas divisões blindadas - quando finalmente foram utilizadas - demonstraria o fracasso dos franceses em compreender as reais finalidades e potencialidade do tanque como arma ofensiva. Enquanto Holanda e Bélgica sofriam ataques em grande escala, tudo estava calmo ao longo da fronteira francesa. A França estava ainda fora da zona de combate. Da extremidade ocidental da “Linha Maginot”, próximo a Montmédy, na direção leste e, depois sul até a fronteira suíça, quatro exércitos franceses (nos 2° e 3° Grupos de Exércitos, comandados, respectivamente, pelos Generais Prêtelat e Besson) guardavam os fortes de aço e concreto do grande bastião defensivo da França. Confrontando-os estava, os 1° e 7° Exércitos do Grupo de Exércitos “C”, do General Ritter von Leeb, com suas 17 divisões imobilizando mais do triplo de divisões francesas. Algumas destas últimas, sendo divisões “ativas”, seriam muito mais úteis se colocadas mais a oeste, sobretudo no setor vulnerável do Mosa, então guarnecida pelas 16 divisões medíocres dos 9° e 2° Exércitos de Corap e Huntziger. Na zona de batalha as coisas não iam nada bem para holandeses e belgas. Abalados e desbaratados pelo ataque matinal, estavam sofrendo forte pressão em vários pontos, na frente e na retaguarda. Os holandeses, comandados pelo general Winkelmann, recuavam para o Maas (como chamam o Mosa) e para o Yssel Superior. O mais sério é que, numa retirada na “península” de Maastricht (a faixa saliente de território holandês que avança para o sul, separando o Limburgo belga da Alemanha), eles deixaram de destruir certas pontes sobre o Maas, e a conquista dessas pontes pelos alemães foi desastrosa para os belgas, porque permitiu ao inimigo - que concentrava seu ataque principal na península - voltar-se para o extremo oriental do Canal Alberto e cruzá-lo, bem como o Maas. Nesse meio tempo, o principal forte belga de Eben Emael, situado alguns quilômetros ao sul de Liege, sofria violento ataque aeroterrestre (A fácil tomada de Eben Emael foi ampliada como verdadeira epopéia pela propaganda alemã. Foi a primeira vez que uma posição fortificada foi tomada pelos ares, e a idéia era, então, absolutamente revolucionária). O revés aguardava os franceses, atrás dessa linha avançada. Durante a manhã, um grupo do 1° Exército atingiu o setor Wavre-Namur, que lhe fora designado no “Plano D”, e não encontrou quaisquer defesas, porque os belgas, mudando de idéia, não construíram obstáculos - antitanques ou outros - naquele local, preferindo levantá-los mais à frente. A descoberta foi desconcertante, pois esse setor que ligava as linhas fluviais do Dyle e do Mosa incluía a perigosa “Brecha de Gembloux”, uma área de território aberto, muito favorável aos tanques. Imediatamente ao norte, unidades avançadas da FEB estavam dando com idêntica falta de preparo no setor Louvain-Wavre. A rápida travessia alemã do Maas e do Canal Alberto seria incômoda para o Corpo de Cavalaria do General Prioux 1° Exército, quando este ocupou suas posições avançadas de proteção naquela tarde, na linha Tirlemont-Hannut-Huy. Ainda sem nenhuma força francesa principal na sua retaguarda, e com os belgas pressionados pelo 6° Exército de Reichenau, cerca de 48 km na frente, ele se sentia perigosamente exposto. Esse fato determinou com precisão os riscos que envolviam o “Plano D” no primeiro dia de batalha: a menos que os belgas pudessem continuar defendendo a linha do Canal Alberto por cinco dias - enquanto as formações anglo-francesas tomavam posição atrás deles - o sucesso do plano estaria em perigo. Na extremidade mais meridional do grande movimento de conversão aliado, o 9° Exército do General Corap, além de fazer parte da linha defesa, tinha importante papel inicial. Ele devia mandar formações avançadas para o outro lado do Mosa, na região belga das Ardenas, para verificar os efetivos das forças inimigas que se aproximavam e, se necessário, travar um combate de retardamento enquanto o corpo principal de Corap tomava posição ao longo do Mosa franco-belga. Mas o 9° demorou a pôr-se em movimento: suas unidades motorizadas só atingiram o Mosa à tarde, perdendo assim tempo valioso na sua missão vital. À direita do 9° Exército, o 2° Exército do General Huntziger embora lhe cumprisse basicamente o papel de defender o setor de Sedan do Mosa, tinha uma função inicial de patrulha, tal como o 9°, movimentou-se com mais rapidez. Suas unidades de reconhecimento já cruzavam o Mosa às 07:00 horas. Nas proximidades, nas Ardenas, do outro lado do rio, os belgas pareciam incapazes de compreender que os alemães haviam atacado. Na pequena cidade de Bouillon, observavam espantados as tropas de Huntziger dirigirem-se para o norte. Naquela tarde, o maitre de Bouillon ouvia atônito ao próprio Huntziger solicitar acomodações nos hotéis. “Mas, mon général”, gaguejou ele, “nossos hotéis estão reservados para turistas! O senhor crê que realmente estejamos em perigo?” O perigo era real, e não estava muito longe. A 60 km a leste, os Panzer de von Kleist penetravam já as Ardenas belga. O grupo de cinco divisões era liderado, à esquerda, pelo XIX Corpo Blindado do General Heinz Guderian, com três divisões movendo-se em formação de ponta-de-flecha: a 1ª Divisão Panzer (DP) no centro, a 10ª à esquerda e a 2ª à direita. Elas se dirigiam para Sedan. Logo atrás, à direita, vinha o XLI Corpo Blindado do General Reinhardt - as 6ª e 8ª DPs e uma divisão motorizada - dirigindo-se para Mézières (a oeste de Sedan). Também à direita vinham os corpos das 5ª e 7ª DPs do General Hoth e uma divisão motorizada, abrindo caminho para Dinant, no Mosa belga. Com cerca de 400 tanques por divisão, seu total superava os 2.500 tanques. E apoiando essa maciça força de ataque blindada havia as 37 divisões de infantaria do Grupo de Exércitos “A” de Rundstedt, atrás do qual estavam postadas as 42 divisões de Reserva-Geral alemã. Este movimento nas Ardenas foi realmente audacioso. As Ardenas, região acidentada e boscosa, cheia de chapadas, serras, ravinas rochosas e trilhas estreitas e coleantes, com suas chernecas entremeadas de pântanos, eram tradicionalmente evitadas pelos exércitos, sempre que possível. É verdade que os alemães haviam-na atravessado na Primeira Guerra, quando seus 4° e 5° Exércitos a cruzaram, como parte do “Plano Schlieffen”, para atacar e derrotar os franceses na Batalha das Fronteiras, em 1914. Mas isso fora feito com infantaria: muito mais perigoso era comprometer todas as formações de tanques, com seus transportes, num terreno que estava longe de ser ideal para esse aparelhos. Mas havia dois fatores favoráveis ao audacioso projeto. Um deles era a existência de várias estradas em bom estado, que iam de oeste para leste, notadamente na direção de Sedan e Rocroi (que ficava a noroeste de Sedan). O outro era o treinamento e os ensaios aos quais o arguto e experiente Guderian - o maior especialista em tanques da Alemanha - havia submetido suas unidades Panzer numa região da Alemanha comparável à das Ardenas, a montanhosa região de Eifel, entre os rios Reno e Mosela. Mas devemos notar que, enquanto o Estado-Maior-Geral francês e o britânico haviam considerado as Ardenas caminho inadequado para o avanço dos exércitos alemães, um perito militar britânico, o capitão reformado B.H. Liddell Hart, expressava ponto de vista diferente. Depois de percorrer as Ardenas em 1928, como correspondente militar de The Times, para estudar suas potencialidades, escreveu ele que, em sua opinião, as conclusões dos franceses e britânicos se baseavam num erro. Liddell Hart verificou que as estradas das Ardenas eram, em geral, boas, e que o terreno da região era mais ondulado do que montanhoso. Na sua opinião, a intransponibilidade das Ardenas tinha sido “muito exagerada”. Em 1938, ele tornou a estudar as Ardenas e confirmou esta impressão. Superando rapidamente a resistência belga inicial e sem terem sido molestados por um único avião aliado, os alemães encontraram sua primeira oposição real, no final daquela tarde, pelas forças avançadas de Huntziger (a 2ª Divisão de Cavalaria), perto de Arlon e Florenville, nas proximidades da fronteira franco-belga. Ao anoitecer, os franceses recuaram, um tanto maltratados, para uma posição bem retirada da Linha Bastogne-Arlon, à qual tinham recebido ordens de alcançar. Mais ao norte, a 5ª Divisão de Cavalaria de Huntziger alcançara Libramont sem avistar o inimigo. Mas o flanco esquerdo da 5ª estava agora em perigo, porque as unidades do 9° Exército de Corap não haviam cruzado o Mosa a tempo. O general Georges enviou uma ordem vigorosa para que Corap apressasse suas forças na travessia do rio. Mas nem Georges nem seus dois comandantes de exército reconheciam a formidável ameaça inimiga que se avolumava sob a proteção das Ardenas “impenetráveis”. No QG Supremo, no Forte de Vincennes, O general Gamelin também ignorava o perigo. Era natural que ele se concentrasse no esperado ataque de Reichenau, na Bélgica Central, e continuou, durante toda aquela manhã, satisfeito com o desenrolar dos acontecimentos. Ainda não via nada que abalasse sua firme confiança no “Plano D”. Mas outros não estavam muito contentes. Um dos que duvidavam era Paul Reynaud, que jamais gostara das interferências estratégicas do plano de Gamelin. Naquela manhã, ele disse secamente a Paul Baulouin, Secretário do Ministério da Guerra: “Agora Gamelin tem a batalha que esperava... Veremos o que ele vale”. Vincennes não era o melhor lugar para se avaliar o progresso da batalha. As sombrias casamatas que abrigavam o QG Supremo, sob o castelo de 900 anos, pareciam ser palácio e prisão, distantes das realidades da guerra moderna. Nos escritórios, onde a luz do dia não chegava, o ar era viciado e deprimente. O mais significativo é que nesse dia o QG Supremo estava operacionalmente isolado - ele ou não recebia informações imediatas ou era totalmente ignorado. Isto resultava sobretudo da posição anômala de Gamelin como Comandante Supremo (Maurice Gustave Gamelin - 1872-1958 - foi chefe da 3ª Seção (Operações) do GQG de Joffre, até 1915, e depois exerceu comandos de grandes unidades. Foi o chefe da Missão Militar Francesa no Brasil. Julgado e condenado em Riom por Pétain, foi depois transferido para prisões alemães até 1945). Além de ser Comandante-Chefe Aliado, também era Chefe do Estado-Maior da Defesa Nacional da França. Mas, na verdade, durante as hostilidades ele não tinha nenhuma autoridade na direção das operações. Em Vincennes , ele dirigia um sistema ineficiente de comando tríplice, que incluía o QG das Forças Terrestres em Montry, nas proximidades, e o QG Nordeste, em La Ferté-sous-Jouarre. Esse arranjo, resultado de recente reorganização que ele próprio fizera, dava ao general Georges, em La Ferté, o comando operacional, enquanto que o Chefe do Estado-Maior de Gamelin, General Doumenc, dirigia Mintry, sendo uma espécie de intermediário entre Gamelin e Georges. O resultado é que, militarmente, o Comandante Supremo agora não passava de chefe nominal. Assim - como seu Estado-Maior observou, apreensivo, nesse 1° Dia - ele não estava sendo plenamente informado dos acontecimentos. Mas a evidência mais flagrante da pouca importância de Vincennes era a sua falta de um posto de rádio. O Comandante Supremo não tinha nenhuma comunicação radiofônica com seus exércitos. A ameaça vem das Ardenas Em Paris e em outros lugares, os franceses haviam recebido as notícias da ofensiva alemã com otimismo e alívio. Os jornais de sábado, 11 de maio, refletiam e encorajavam o estado de espírito popular com comentários complacentes sobre a situação. Mas, ao mesmo tempo em que os franceses liam as frases confortantes, as primeiras levas de refugiados da Bélgica e Luxemburgo cruzavam as fronteiras francesas. Em breve, para desmentir a falsa confiança que a imprensa e o governo estavam estimulando, por meio do Ministério da Informação, as levas de refugiados atingiriam proporções imensas, à medida que populações do Norte fugiam, em ondas imensas, dos alemães, cujo avanço veloz ninguém esperara nem previra. Naquela manhã, ajudado por um grande mapa no gabinete de Reynaud, no Quai d’Orsay, um oficial de ligação francês explicava a posição a Reynaud e a alguns colegas. O oficial preocupava-se com a facilidade com que os aliados entravam na Bélgica, e imaginava se não estariam indo para uma armadilha. Reynaud, ainda preocupado com a solidez do “Plano D”, telefonou a Daladier, o Ministro da Guerra, expondo suas dúvidas. “Gamelin está no comando”, explicou Daladier, sempre firme defensor do general, “e está executando seus planos”. Mas, no 2° Dia, a Batalha do Norte não parecia nada promissora. Os holandeses estavam recuando, juntamente com o 7° Exército francês, na Holanda; e as cidades desse país sofriam violentos ataques aéreos. A pequena força aérea holandesa fora imobilizada e o temor dos quinta-colunas, boatos e pânico estavam provocando confusão na retaguarda. Os belgas não se saiam melhor. No Canal Alberto, eles começaram a abandonar suas posições, para evitar serem flanqueados por uma divisão Panzer do XVI Corpo Blindado, que atravessava as pontes intactas sobre o Maas, em Maastricht. O sitiado forte em Eben Emael caíra desastrosamente, fortalecendo o domínio inimigo da junção do Mosa com o Canal. Mas a pior prova vinha dos céus, onde os mortíferos Stukas alemães operavam no espaço em que não havia um só avião aliado. Eles circulavam, mergulhavam e bombardeavam em total imunidade, com a nova arma espalhando o terror entre as tropas, que não tinham meios de lhe opor resistência, e entre os civis, cujo único recurso parecia ser a tentativa de fuga. Os primeiros reveses belgas estavam criando um problema para o general Prioux, o comandante francês. Em vista destes e do estado desprotegido do seu setor, na Brecha de Gembloux, ele já duvidava de que seu corpo pudesse resistir por muito tempo sem ajuda, e também duvidava da eficácia do “Plano D”, no tocante ao 1° Exército francês. Transmitiu suas impressões ao General Georges, que se apressou em acelerar a chegada do 1° Exército, aliviando assim a situação do seu corpo. Às 8:00 horas do dia 11, Prioux recebeu a visita do comandante do 1° Grupo de Exércitos, General Billotte, seu velho amigo. Billotte deixou claro o quanto era importante que as tropas de Prioux resistissem. “Confio no Corpo de Cavalaria”, disse ele, o que quer dizer: “espero que resista”. Essa confiança seria necessária nos três dias seguintes. O Corpo de Cavalaria de Prioux viria a enfrentar o assalto em grande escala dos Panzer do XVI Corpo Blindado alemão, ao abrir caminho para a Brecha de Gembloux. Com o exército belga recuando, durante a noite de 11 para 12 de maio, para sua “Linha Dyle”, ao norte de Louvain, as duas divisões de Prioux, cujos efetivos blindados combinados eqüivaliam apenas a uns dois terços dos de uma divisão Panzer, eram único obstáculo ao próximo avanço dos Panzer, que haviam assaltado as defesas do Canal Alberto-Mosa. A batalha teve inicio na tarde do dia 12, quando os tanques alemães avançaram , fragorosamente, depois de pesado ataque de Stukas, para penetrar o centro da linha francesa, em Hannut.Terminando sem solução naquela noite, a luta recomeçou no dia 13. À tarde, depois de uma resistência implacável, os franceses foram obrigados a recuar para a “Linha Perwetz-Marchevolette”- o obstáculo antitanque de 16 km de largura, a menos de 15 km de distância da frente das posições Wavre-Namur, do 1° Exército francês. Na manhã seguinte (dia 14), num ataque renovado, os alemães penetraram a linha, mas não conseguiram atravessá-la com seus efetivos. Nesse meio-tempo, as formações do 1° Exército estavam ocupando suas posições, pois a destemida ação de retardamento de Prioux lhes permitira isso. Assim, naquela noite, estabeleceu-se a linha do “Plano D” entre Antuérpia e Namur. Três exércitos aliados - os belgas entre Antuérpia e Louvain, a FEB no Dyle, entre Louvain e Wavre, e o 1° Exército francês entre Wavre e Namur - estavam nos seus lugares, no centro da Bélgica. Mas os acontecimentos não tinham obedecido ao programa. Resumindo: no dia 12, depois de três dias de luta, o Coronel Minart, oficial do estado-maior de Vincennes, observara em particular a incapacidade dos belgas em defenderem a linha do Canal Alberto e o domínio alemão dos ares. Ele também comentou a insuficiência das informações que chegavam ao QG Supremo. Está claro que esta era uma faceta da desajeitada estrutura de comando, cujas desvantagens já se tornavam aparentes. Com os três QG principais (Vincennes, Montry e La Ferté) separados por distâncias de até 48 km, a ligação era difícil. Entre eles havia um tráfego constante de carros de estado-maior, quando Gamelin e Doumenc visitavam Georges e vice-versa, freqüentemente duas vezes ao dia. Montry, por não ter teletipos, precisava de serviços de estafetas de hora em hora, que levavam pessoalmente relatórios da Inteligência até Vincennes. La Ferté, com o QG operacional espalhado irregularmente, não era nada adequado à sua finalidade. O mesmo acontecia com o posto de comando de Georges, Les Bondons, num pequeno palacete campestre. Nele, o Comandante-Chefe ocupava uma das quatro salas térreas, sem muito isolamento e cercado de ruídos contínuos de funcionários, ordenanças e oficiais atarefados. E o General Claudel Georges, com sua estrutura compacta, bronzeado pelo serviço nas colônias e considerado um dos generais mais capazes da França, sofria de mais uma desvantagem. Em outubro de 1934, ao acompanhar o Rei Alexandre da Iugoslávia que desembarcava em Marselha, fora gravemente ferido pelo assassinato do desditoso monarca e sua saúde ficou para sempre abalada. Mas em seu pesado fardo do comando, recebeu ele grande ajuda do esguio, ágil e vigoroso General Doumenc, com quem passava muitas horas em conferências, em Les Bondons. Se o dia 14 de maio viu o “Plano D” em ação, o seu “anti-resultado” não foi inesperado. Mais tarde, naquele dia, o pequeno exército holandês rendeu-se, depois de cinco dias de luta, em desvantagem avassaladora. O efeito imediato para os aliados foi o fato de que o 18° Exército de Kuchler ficou liberado para ser usado em outro local. Isto também significava que o 7° Exército francês, que enfrentava séria resistência no cumprimento de sua missão, e cujo corpo principal fora obrigado a retroceder para o outro lado da fronteira belga, no dia 14, podia ser retirado para ser empregado em outro local. Mas para o General Gamelin e o Alto-Comando francês, novos problemas se avolumavam. Nas últimas 24 horas tornara-se cada vez mais claro que a ofensiva alemã real não estava sendo preparada na Bélgica Central, e sim no esquecido setor da frente do Mosa franco-belga, entre Namur e Sedan. O placo já estava sendo preparado no 2° Dia da ofensiva. Ao amanhecer do dia 11, nas Ardenas, nada se interpunha entre as colunas Panzer alemães, que avançavam, e o caminho para a França e o sul da Bélgica, exceto a tênue proteção da Cavalaria de Huntziger e Corap e, atrás destas, umas poucas e mal preparadas divisões francesas de reserva. Naquela noite, depois de outros embates nas clareiras ao sul da floresta, as unidades francesas de patrulha haviam sido decisivamente rechaçadas pelos elementos do XIX Corpo Blindado de Guderian, e a 1ª DP havia atingido os arredores de Bouillon, a 16 km de Sedan, do outro lado do Mosa, na França. Vinte e quatro horas depois, Bouillon havia caído, a 1ª Panzer , havia cruzado a fronteira francesa ao norte de Sedan e a cavalaria dos 9° e 2° Exércitos já estava de volta a margem esquerda do Mosa, deixando o caminho aberto para a maciça força blindada que se aproximava e cuja guarda avançada estava a pouca distância da vital linha fluvial, quando anoiteceu. Nesse meio-tempo, a 64 km ao norte, outra penetração alemã ameaçava o Mosa belga. Mais ou menos paralelo ao corpo de Guderian, o corpo Panzer do General Hoth - o extremo norte da ponta-de-lança blindada tríplice - estava abrindo caminho para Dinant. Na tarde de 12 de maio, as principais unidades da 7ª DP, comandada pelo arrojado e dinâmico Erwin Rommel, avançou rapidamente até poucos quilômetros de Houx, logo ao norte de Dinant. Assim, no fim do 3° Dia, os alemães haviam alcançado o Mosa nos dois extremos dos setores do 2° e 9° Exércitos. Para os franceses, a operação de três dias das Ardenas foi um fracasso dispendioso, tendo sofrido pesadas baixas sem atrasar ou incomodar apreciavelmente os Panzer inimigos. Mas antes de serem rechaçados para o outro lado do rio, eles pelo menos conseguiram destruir todas as pontes sobre o Mosa e seu tributário, o Chiers. (Huntziger e Corap tomaram todas as precauções para isso e as acusações que Paul Reynaud fez pouco depois - para explicar o desastre do Mosa - de que algumas pontes ficaram intactas, foram incontestavelmente refutadas por evidência oficial). Naquela noite de 12 de maio, o QG do General Georges enviou dois comunicados ao QG Supremo. O primeiro informava que todas as pontes sobre o Mosa e o Chiers haviam sido minadas, exceto as que seriam destruídas depois que as tropas tivessem passado. O outro dizia energicamente: “A defesa parece agora estar bem segura em toda a frente do Mosa”. O longo rio Mosa (Meuse), com cerca de 900 km de extensão, nasce em Langres, no Alto-Marne da França, e atravessa Bélgica, Holanda, onde passa a chamar-se Maas, e se divide em dois ramos. O trecho do Mosa cuja defesa era destinada aos exércitos franceses em maio de 1940, ia de um pouco a leste de Sedan até Namur, na Bélgica - cerca de 144 km ao todo. Embora os franceses o chamem de rio “tranqüilo”, quase todos os locais desse trecho plácido e coleante relembram passadas batalhas ente franceses e alemães, na Primeira Guerra e antes. Sedan, pequena cidade têxtil e de guarnição aos pés das colinas boscosas que se erguem para além da margem direita do Mosa, fora notável campo de batalha em 1870, - palco de histórica derrota francesa - e novamente em 1914, quando caiu rapidamente nas mãos dos alemães. Para oeste e norte, ouras posições no Mosa também caíram facilmente em 1914: a velha Mézières com sua cidadela; a pequena cidade industrial de Givet; a legendária cidadezinha de Dinant, sob seus altaneiros rochedos; a secular praça-forte de Namur, cercada pelas suas poderosas fortalezas. No fácil assalto alemão nesta ocasião havia um aviso aos franceses que, a julgar pelos acontecimentos subsequentes, não foi plenamente compreendido. As características do Mosa variam muito entre Sedan e Namur. Na área de Sedan, onde tem cerca de 60 metros de largura, é mais aberto do que a noroeste, próximo à fronteira belga. Colinas descem suavemente de cada lado até o nível do rio, dando bom campo de tiro para a margem oposta. Este era o panorama dominante no setor do 2° Exército, Sedan-Mézières; mas o Mosa, no setor do 9° Exército - Mézières-Namur - era muito diferente. Ao norte, de Mézières até Givet, o vale do Mosa é mais estreito, profundo e coleante, com margens boscosas e rochedos alcantilados. De Givet até Namur, o rio às vezes se alarga, mas quase sempre permanece contido. Porém, para serem eficazes, as defesas naturais de toda a extensão Sedan-Namur precisavam de poderosos reforços. Um teste das defesas de Sedan, em 1938, mostrou que a cidade era vulnerável a ataque, mas, embora se tivessem planejado defesas, pouco se tinha executado até dezembro de 1939. Então, em março de 1940, dois deputados franceses inspecionaram as defesas do Mosa confiadas aos 2° e 9° Exércitos, e seu relatório foi muito desfavorável. Ainda assim, pouco se fez. Quando se iniciou a ofensiva de maio, os preparativos ainda permaneciam tristemente deficientes, havendo casamatas e outras obras incompletas. E o que dizer das tropas que deveriam guarnecer as defesas do Mosa - os soldados dos 9° e 2° Exércitos franceses? O 9° Exército era formado de bretões, normandeses e gente da região do Loire, e continha maior cota de reservistas mais idosos, e de tropas estáticas, do que qualquer outro exército estacionado fora da “Linha Maginot”. Das sete divisões de infantaria, quatro eram de reservistas, duas das quais - a 53ª e a 61ª - da “Série B”, classificada pelo historiador de guerra Theodore Draper como “claramente inferior, mal armada, velha e mal treinada”. Outra, a 102ª de Infantaria, era uma formação de fortaleza de defesa fixa. Não era nada compensador trabalhar com tal material: na verdade, para o General André-Georges Corap, de 62 anos de idade, baixo e corpulento e de temperamento reservado, o comando do 9° Exército era uma tarefa ingrata, pois sua tropa parecia atormentada pela negligência desde o começo. Carecia por completo de armas, inclusive artilharia de campanha, canhões antitanques e antiaéreos, bem como tanques. Dos 200 tanques que possuía, pelos menos um terço era do tipo usado na Primeira Guerra! As deficiências persistiram até 10 de maio, apesar das repetidas exigências que Corap fazia ao QG. Não era de espantar que os homens tivessem baixo moral e fraca disciplina, patenteados na participação nada atuante que demonstraram durante os meses da “guerra falsa”. Que estivessem totalmente despreparados, quando as hostilidades começaram, também não constituía surpresa. Com relação ao treinamento, disciplina, equipamento e pessoal, o 2° Exército de Huntziger estava em igual estado. Um exército predominantemente de reservistas, tinha duas divisões da “Série B”, a 55ª e a 71ª, tão medíocres quanto as 53ª e 61ª de Corap, mas com um papel defensivo igualmente vital. A maior parte dos homens da 55ª provinha do vale do Loire. Com idade média de mais de 30 anos, eles eram os crocos do exército, os “crocodilos”, os “velhos soldados” que haviam esquecido grande parte do que tinham aprendido no seu período de serviço militar, aliás de técnicas ultrapassadas. Dos seus 450 oficiais, somente 20 não eram reservistas; a 71ª formada por parisienses, não era muito diferente. Embora certa letargia predominasse no QG do General Corap, em Vervins, o ritmo imposto pelo General Huntziger no seu QG, na aldeia de Senuc, nas boscosas Argonas, era enérgico e austero. Esguio, desempenado e de aparência distinta, o general era admirado pelo seu espirito arguto e sua memória infalível. Sensível às deficiências do seu exército, fez o máximo para remediá-las, inclusive tentando elevar o moral com uma folha noticiosa quinzenal, que em breve foi minada pela apatia. Mesmo assim, em meados de abril de 1940, Huntziger parecia estranhamente confiante na capacidade defensiva da linha do Mosa. Ele disse ao Inspetor-Geral do Exército que os alemães não atacariam. “Ao contrário”, acrescentou, “eles temem que seremos nós a atacar”. No Alto-Comando francês, todas as ilusões sobre as intenções reais dos alemães desapareceram no dia 13 de maio. Naquela manhã, no escritório do General Doumenc, no GQG em Montry, o Capitão Beaufre, oficial do Estado-Maior, ao estudar o mapa de guerra, observou claramente que o principal esforço inimigo não estava ocorrendo mais na Bélgica, acima de Liege, mas ao longo de um eixo Luxemburgo-Mézières. A lápis, ele traçou rapidamente a nova linha para seus colegas. No QG Supremo, em Vincennes, chegava-se à mesma conclusão, e o calmo otimismo sentido no 1° Dia começava a diminuir. Gamelin expressou novas dúvidas, numa ordem emitida às 01:00 hora do dia 13: “Devemos resistir à arremetida das forças mecanizadas e motorizadas. Chegou a hora da luta total nas posições determinadas pelo Alto-Comando. Não temos mais o direito de recuar”. A desanimadora recomendação era um estranho contraste com o alegre brado de três dias antes: “Nós os pegaremos!”. Enquanto os franceses do GQG despertavam dolorosamente para a realidade, os comandantes alemães planejavam o ataque ao Mosa. Na tarde do dia 12, Kleist ordenara a Guderian que se aprontasse para atravessar o rio, com o seu XIX Corpo Blindado, às 16:00 horas do dia 13. Em seu QG, em Bouillon, Guderian preparou o plano de ataque: tendo Sedan como centro do assalto, unidades avançadas das 2ª, 1ª e 10ª DPs, deslocadas de oeste para leste, cruzariam o rio numa investida tríplice e cerrada contra as posições do 2° Exército francês. Os alemães iriam ter uma tarefa muito mais fácil do que podiam esperar, pois, no fim do dia 12, as principais tropas de Huntziger ainda não estavam nas suas posições de combate, devido a uma mudança tardia de divisões. A formação vital, que defendia a área de Sedan, era o X Corpo de Grandsard; e no meio do X Corpo, compreendendo a 55ª Divisão de Infantaria (DI) do general Lafontaine, à esquerda, e a 3ª Divisão Norte-Africana do General Chapouilly, à direita, se inseria, no último instante, a 71ª Divisão do General Baudet, vinda da retaguarda. Em conseqüência, ao amanhecer do dia 13, as divisões ainda estavam deslocando-se confusamente para suas novas posições. Ironicamente, a leste de Sedan, num setor que não estava ameaçado, que confinava com a “Linha Maginot”, havia duas das melhores divisões de Huntziger (XVIII Corpo, do General Rochard): a 3ª Colonial “Ativa” e a 41ª de Reserva “Série A”. Além disso, a fraqueza do 2° Exército, no próprio setor de Sedan, era comparável à mediocridade do seu vizinho da esquerda, o 9° Exército. Ali, através do vulnerável ponto de junção dos Exércitos de Corap e Huntziger - de Sedan até Mézières - os dois generais haviam colocado 4 das suas piores divisões. Numa linha contínua estavam a 61ª DI e a 102ª Divisão de Guarnição, de Corap, e as 55ª e 71ª DI de Huntziger - os crocos, as tropas estáticas de fortaleza, os soldados menos aguerridos de dois exércitos medíocres. Reunindo-se contra essas forças insignificantes, em suas defesas tênues e incompletas, estavam os principais elementos de 5 divisões Panzer - as 2ª. 11ª e 10ª de Guderian, do lado oposto de Sedan, e as 6ª e 8ª de Reinhardt, do lado oposto de Monthermé (um pouco mais para oeste), no centro do setor do XLI Corpo do General Libaud (9° Exército). Mais a noroeste, do lado oposto do setor do XI Corpo do 9° Exército, em torno de Dinant, no Mosa belga, as 5ª e 7ª Panzer do XV Corpo Blindado de Hoth estavam-se reunido. E atrás das tropas avançadas de assalto e blindadas, nessa noite de 12 para 13 de maio, vinham intermináveis colunas mecanizadas, com seus faróis iluminando a floresta. O grande movimento de aproximação pelas Ardenas, planejado de maneira tão meticulosa, estava saindo de acordo com o prescrito. Diante dos cansados oficiais e soldados que pararam às margens do Mosa, e dos que ainda se dirigiam para oeste, a fase crucial da importante operação - a penetração. Se as divisões do 2° Exército de Huntziger permaneciam ainda meio desorganizadas, também as forças de Corap não estavam inteiramente preparadas. No flanco norte, ao sul de Namur, a 5ª Divisão Motorizada (General Boucher) do II Corpo do General Bouffet tomara posição, assim como a 61ª DI (General Vauthier) e a 102ª Divisão de Guarnição (General Portzert) do XLI Corpo de Libaud, que guarneciam o setor mais a sudeste do 9° Exército, desde Vireux, ao sul de Givet, até Pont-à-Bar; mas a cobertura do setor central, de Dinant a Vireux, continuava perigosamente esparsa. Esta cabia ao XI Corpo de General Martin, mas no final do dia 12 somente uns poucos desses reservistas (18ª DI do General Duffet, e 22ª DI do general Hassler) haviam chegado. A chegada aos bocados da 18ª DI foi lamentável, pois um pouco ao norte de Dinat, em Houx, é que as unidades avançadas da 7ª DP de Rommel chegaram, naquela tarde, e foi ali que, durante a noite de 12 para 13, uma patrulha de motociclistas inimigos atravessou o rio para destruir uma unidade recém-instalada da 18ª DI. Apesar da intervenção da 5ª Divisão Motorizada (DM), que estava por perto, os alemães prosseguiram para o interior. Nesse meio-tempo, às 10:00 horas do dia 13, eles haviam feito outra travessia, em Bouvignes, ao sul de Houx. Por volta do meio-dia, atravessando o rio em barcos, jangadas, canoas e mesmo a nado, o inimigo estabelecera uma cabeça-de-ponte de 3,2 km de profundidade e 4,8 km de largura. Essa notícia sobressaltou os QGs na retaguarda. Ordens urgentes para contra-atacar partiram do QG do General Martin, em nível de corpo, do General Billotte, no de grupo de exércitos, e do próprio General Georges, mas inexplicavelmente não houve nenhum contra-ataque. A noite caiu sobre os homens de Rommel, firmemente alojados nos planaltos acima da margem esquerda do Mosa. Entrementes, o 9° Exército enfrentava outra crise: no dia 13, sua frente era penetrada em outro lugar; a 64 km ao sul, em torno de Monthermé, que é flanqueada por colinas e onde o Mosa se encontra com o tortuoso Semois, a 102ª Divisão de Guarnição do General Portzert estava sendo violentamente atacada por unidades avançadas do XLI Corpo Panzer - a ponta central da grande investida tríplice desfechada contra o Mosa naquele dia. O assalto começou às 15:00 horas, depois de serem observados movimentos inimigos do outro lado do rio, frontal a Monthermé, o que em si foi surpresa para a 102ª, que estava totalmente despreparada. Dois batalhões da 6ª DP, rompendo a feroz barreira inicial dos pontos de resistência (os que havia) da 102ª e da artilharia, investiram através do rio. Apoiados pelo fogo dos tanques da margem direita, os alemães ganharam os planaltos além de Monthermé. Mais tarde, vieram novas tropas para fortalecer a cabeça-de-ponte. Ao anoitecer, os homens de Reinhardt, entrincheirando-se diante da segunda linha de defesa francesa, haviam virtualmente isolado a vulnerável “Península” de Givet, a ponta do território francês que penetra o norte da Bélgica. E para o sul, virtualmente indefesas, estavam as terras da França. Entrementes, travava-se feroz batalha a 48 km da sudeste de Monthermé. As unidades avançadas de Guderian haviam desfechado violento golpe contra Sedan, precedido por um bombardeio maciço e pulverizador. Durante 6 horas, os reservistas do X Corpo ficaram encolhidos sob as bombas dos Stukas que, com mais eficiência do que qualquer fogo de artilharia, preparariam o caminho para os desembarques em Sedan. O ataque fora feito contra as infelizes 55ª e 71ª Divisões, as menos treinadas e equipadas para resistir às táticas da Blitzkrieg e ainda não se haviam acomodado em suas novas posições. Os bombardeiros, da 3ª Frota Aérea do general Sperrle, foram chamadas por Guderian, cuja artilharia ainda não chegara. Na sua maioria Stukas, eles começaram a chegar por volta das 9:00 horas, intensificando os ataques duas horas depois, prosseguindo pela tarde. Nada menos de 12 esquadrões de bombardeiros de mergulho operaram sobre Sedan, naquele dia, tendo recebido ordens de Guderian para obliterar as defesas francesas, o que fizeram com rapidez, silenciando toda artilharia que os franceses conseguiram pôr em bateria e reduzindo a escombros as linhas avançadas de defesa. Foi o mais impressionante o efeito dos bombardeiros de mergulho sobre as tropas aliadas, que, em pânico, se desorganizaram. O pior é que não apareceu um só avião aliado para combatê-los naquele dia. Um apelo do General Lafontaine ao QG do 2° Exército, solicitando apoio aéreo, não teve qualquer resultado. Às 14:00 horas, o General Gransard, comandante do X Corpo, ordenou o avanço de dois regimentos de infantaria (RI) de reserva, para uma linha preparada ao sul de Sedan. Duas horas depois, Guderian desfechou seu ataque terrestre contra uma defesa virtualmente imobilizada. As tropas de assalto da 1ª Panzer - elementos de um batalhão de motociclistas, uma brigada de infantaria transportada em caminhões e fortíssimo regimento da divisão experimental de infantaria Grossdeutschland (que anos mais tarde constituiria uma Panzerdivision especial) - alcançaram a margem esquerda, próximo a Gaulier e a oeste de Sedan, atingindo seu objetivo imediato com poucas dificuldades: a captura da pequena curva do rio que forma a península de Iges, incluindo Galire e Torcy. Quase que sem oposição dos franceses, que estavam aturdidos, e cegos pela fumaça, os alemães partiram céleres rumo a Frenois, Bosque de Marfé e outros pontos para o interior, isolando Sedan pela retaguarda. Simultaneamente, a força de assalto da 10ª Panzer desembarcou próximo de Wadelincourt, a sudeste de Sedan - embora com certa dificuldade. Surpreendida por fogo de flanco de pontos de resistência ainda intactos, ela se viu detida numa zona restrita nas proximidades de Waldelincourt. A oeste de Sedan, a 2ª Panzer, que ainda não se deslocara totalmente, não conseguiu fazer suas tropas atravessar. Mas esses reveses foram superados pelo rápido sucesso da 1ª Panzer, que, ao anoitecer, havia rompido a linha de defesa francesa na base do Bosque de Marfé, a 3 km ao sul de Sedan. No fim do dia, uma cabeça-de-ponte alemã firmara-se em torno da cidade, de 6 km de largura e outro tanto de profundidade. Assim, no dia 13, os alemães haviam obtido três pontos de apoio do outro lado do Mosa: em Houx, Monthermé e Sedan. Mas, nesse estágio, não havia nada de muito significativo nesses ganhos, pois só havia pequenas forças envolvidas, mas nenhum tanque ou canhões pesados. O inimigo era vulnerável a um contra-ataque decidido em todos os três pontos. Huntziger, visitando o QG do X Corpo, por volta das 18:00 horas, viu que ainda era possível controlar a posição de Sedan e ordenou o Gransard que tamponasse a brecha, contra-atacando a seguir. No GQG em La Ferté, o próprio General Georges não estava muito preocupado com a situação. Informando ao QG Supremo sobre o progresso inimigo, ele acrescentou: “O bombardeio aéreo é contínuo, mas não está prejudicando as tropas”. Isto talvez fosse verdade, no tocante às baixas, mas provavelmente foi devido ao efeito devastador de um bombardeio, violento e ininterrupto, de 6 horas sobre o seu moral que essas unidades do X Corpo, muito pouco aguerridas, logo depois entraram em pânico, generalizando-se a desorganização. Colapso em Sedan A causa imediata do pânico foi o rumor que se espalhou no setor da 55ª Divisão, pelas 18:00 horas, sobre o cruzamento do Mosa pelos tanques inimigos. Um comandante de bateria do X Corpo em Chaumont (a leste do Bosque de Marfé), anunciou que vira “foguetes sinalizadores de partida”. Comunicou imediatamente a provável presença de tanques inimigos no posto de comando do corpo de artilharia em Flaba. A seguir, outra unidade fez referência ao movimento de tanques ao sul da área de Wadelincourt. Em poucos minutos, soldados corriam dos seus postos, aos gritos de “tanques inimigos”. A estes soldados juntaram-se outros e muito outros, e dentro em pouco as estradas de Sedan estavam apinhadas de tropas, cavalos e veículos que desertavam a zona de batalha. Na verdade, nenhum tanque alemão havia cruzado o Mosa, em 13 de maio. Os defensores de Sedan entraram em pânico devido a alguns dos seus próprios tanques que se dirigiam para Bulson. Os que não haviam visto tanques “inimigos” acreditavam cegamente nos que declaravam tê-los visto. Um comandante francês, General Ruby, classificou o fato como “fenômeno de alucinação coletiva”. A situação piorou com a destruição das comunicações, causada pelo prolongado bombardeio. Postos de comando estavam isolados, QGs de formações ficaram sem saber o que estava acontecendo nas áreas avançadas e incapazes de exercer qualquer controle. Uma vez iniciada a histeria em massa, não só era impossível detê-la, como também se alastrou com tal rapidez, que se infiltrou nos QG das divisões e também nos de corpo. O pânico se avolumara à medida que atingia a retaguarda. Em seu posto de comando em Fond-Dagot, o General Lafontaine (55ª DI) foi surpreendido, pelas 18:00 horas, por uma multidão de soldados, de dois RI e dois de artilharia, que fugiam para o sul e gritavam que os tanques estavam em Bulson. Com seus Estado-Maior, ele correu para a estrada, num esforço para detê-los. Em outro local, oficiais aderiram à debandada, afirmando terem recebido ordens de se retirar. Seu exemplo incitava maior número de soldados a abandonar suas posições. À medida que os postos de comando de artilharia na retaguarda se esvaziavam, os artilheiros de vanguarda - ainda guarnecendo seus canhões contra os alemães que avançavam, mas agora sem receber ordens de atirar - viram-se abandonados e também fugiram. A histeria atingia mais profundamente a artilharia pesada dos corpos e divisões. Em Bulson, um major de artilharia comunicou ao seu superior que havia luta a 500 metros de Bulson e que ele estava prestes a ser envolvido por metralhadores inimigos, pedindo permissão para se retirar. Deram-lhe a permissão, e os dois comandantes ordenaram então a debandada. O próprio General Lafontaine foi envolvido na fuga. Sem esperar para checar o informe de que era iminente o ataque alemão, seu Estado-Maior recebeu permissão do General Grandsard para mudar o posto de comando da 55ª para o sul, para Chémery. A pé e de carro, o Estado-Maior abandonou precipitadamente Fond-Dagot, deixando no ar da noite a fumaça dos arquivos queimados às pressas. O grupo de Lafontaine chegou a Chémery em meio a um pandemônio, com tropas e colunas de transporte, em fuga, atravessando a aldeia. Grande parte da 55ª Divisão parecia movimentar-se juntamente com os artilheiros do X Corpo. Nessas circunstâncias, Lafontaine - que agora recebera ordens do General Grandsard - tinha a tarefa quase impossível de organizar um contra-ataque, usando todas as reservas disponíveis do X Corpo, para o alvorecer do dia seguinte. Por volta da meia-noite ele mandou três oficiais para diferentes pontos, a fim de descobrir o aparadeiro das suas unidades, mas com resultados tão desencorajadores, que decidiu ser impossível prosseguir com o contra-ataque sem outra reunião com Gransard. Mas, ao se dirigir para o QG do X Corpo, em La Berlière, encontrou as estradas tão apinhadas, que foi obrigado a voltar. Da 55ª Divisão, a confusão contagiou a 71ª. O posto de comando divisionário do General Baudet, em Rancourt, entrou em polvorosa diante de um comunicado telefônico que, segundo se supunha, partira do Chefe do Estado-Maior do X Corpo, Coronel Badel, informando que tanques inimigos haviam alcançado Chaumont. Badel disse a Baudet que formasse um arco defensivo e adiantasse tanques e infantaria para preparar um contra-ataque. Minutos depois Badel tornou a chamar, informando que os tanques inimigos estavam em Bulson e que o General Lafontaine recuara já o seu posto de comando. Com isso, o General Baudet decidiu abandonar seu próprio QG e, com seu comandante de artilharia divisionária, partiu para La Bagnolle, a extremidade ocidental do setor da 71ª. Como aconteceu com a 55ª Divisão, o abandono dos postos de comando de artilharia contribuiu para a derrocada. Artilheiros, profundamente perturbados, esforçavam-se em vão para entrar em contato com o pessoal do QG de retaguarda, que já havia fugido. Mas, contra o grande fluxo de retirada, algumas unidades mantiveram-se firmes e até mesmo avançaram sob a liderança de oficiais calmos e intrépidos, como o artilheiro Capitão Benedetti, e o comandante de infantaria, Tenente-Coronel Montvignier-Monnet. Durante algumas horas cruciais, a retirada desordenada das tropas de Sedan ameaçou imobilizar todo o setor. Além de deter o tráfego vital para a frente, ela impedia a transmissão de ordens e informações. E algumas das ordens de retirada que aparentemente chegaram ao seu destino tinham aspecto misterioso. Em certos casos, as instruções partiram de pessoas que, embora alegassem a condição de oficiais, pareciam ser inteiramente desconhecidas das tropas. Também houve casos de ordens telefônicas não identificadas que pareciam visar deliberadamente ao aumento da confusão. Além disso, na retaguarda, ordens visivelmente falsas envolviam os civis na confusão. Seria tudo isto, como se dizia insistentemente, obra de agentes inimigos que se teriam infiltrado pela fronteira disfarçados de fugitivos? Naquela noite, o pânico alcançou unidades do 2° Exército, a 48 km ao sul de Sedan. Para controlar a crescente onda de fugitivos, o Chefe da Policia Militar do 2° Exército convocou gardes mobiles extras. Os ecos da debandada atingiram até o QG do 2° Exército, com a chegada, em Senuc, de dois oficiais excitados pedindo para falar ao General Huntziger. Eles disseram ao general que tinham visto tanques alemães em Vendresse, a 16 km ao sul de Sedan. Huntziger replicou mordazmente que o que haviam suposto serem Panzer alemães era o 7° batalhão de Tanques do 2° Exército. Este fora um dia de choques no QG Supremo. os sucessivos comunicados da travessia do Mosa causavam preocupação cada vez maior nos úmidos escritórios subterrâneos. Gamelin e seu Estado-Maior não tinham como deixar de reconhecer que todo o panorama estratégico piorara. Era evidente que, a menos que fossem detidos, os avanços alemães ao sul de Namur poderiam ameaçar o sucesso do “Plano D”. Mas o único indício do colapso de Sedan recebido naquele dia foi um comunicado, enviado à noite pelo general Georges, em La Ferté, informando de “dificuldades muito sérias” ao sul de Sedan e acrescentando que a 3ª DC fora chamada. Mas, um comunicado posterior, enviado a Vincennes (recebido às 11:45 horas), deixava entrever que o próprio Georges ainda não estava ciente do colapso do 2° Exército. “Estamos calmos”- dizia tranqulizadoramente a mensagem. Também no GQG em Montry ainda não se sabia, no dia 13, das dificuldades em Sedan. Por volta das 02:00 horas do dia 14, o Capitão Beaufre foi despertado, em Montry, por um telefonema em que o General Georges dizia: “Peça ao General Doumenc para vir aqui imediatamente”. Pelas 03:00 horas, Doumenc e Beaufre chegaram a Les Bondons - para assistir a uma cena extraordinária. Segundo a descrição de Beaufre, a sala estava na penumbra e a atmosfera era fúnebre. Excetuando-se a voz de um oficial ao telefone, havia silêncio. O General Roton, Chefe do Estado-Maior de Georges, estava prostrado numa cadeira, com ar de abatimento. Ao entrarem, Georges dirigiu-se, pálido, a Doumenc e disse: “Nossa frente em Sedan foi rompida. Houve um colapso”- e sentou-se, abafando um soluço. Doumenc ouvia espantado, enquanto Georges, em desespero, explicava que as 55ª e 71ª Divisões haviam “cedido terreno” depois de severo bombardeio: o QG do X Corpo informara que a linha fora rompida e que tanques inimigos haviam chegado a Bulson por volta da meia-noite. Rompendo um silêncio verdadeiramente constrangedor, Doumenc disse, procurando animá-lo: “Vamos, general. Toda guerra tem suas confusões. Venha até o mapa; veremos o que se pode fazer”. Apontando ara o grande mapa na parede, ele esboçou um plano que envolvia as três divisões blindadas francesas até então retidas na reserva. A 1ª, na Bélgica e destacada para participar da “Operação Dyle”, podia contra-atacar do norte para o sul na frente de Corap; a 3ª, estacionada um pouco ao sul de Sedan, podia atacar do sul para o norte. A 2ª DC, a caminho do norte, para Dyle, podia desembarcar do trem em Vervins e deslocar-se para um ataque oeste-leste. Essas três divisões, insistiu Doumenc, compreendendo 600 tanques, poderiam assaltar concentricamente o inimigo e obrigá-los a passar para o outro lado do Mosa. A 3ª, em Sedan, podia travar combate na manhã seguinte, acrescentou. A confiança demonstrada por Doumenc aliviou a tensão, e Georges, revelando esperança no plano, recuperou o ânimo e deu as ordens adequadas. Beaufre pediu ao cozinheiro que preparasse café e, pouco depois, retornava com Doumenc, já um pouco aliviado, a Montry. Mas se naquela noite Doumenc dera novas esperanças a Georges, restava o fato sombrio de que tudo - e isto incluía a sobrevivência dos exércitos aliados na Bélgica - dependia da capacidade francesa de desfechar contra-ataques eficazes em Houx, Monthermé e Sedan o mais depressa possível. Enquanto o Alto-Comando francês muito tranqüilo, reconhecia isso, na terça-feira, 14 de maio, os chefes militares alemães no OHW (Alto-Comando das Forças Armadas) e no OKH (Alto-Comando do Exército) avaliavam a posição com grande satisfação. Excetuando-se o fato de que os holandeses estavam resistindo mais do que o esperado, o “Plano Amarelo” prosseguia segundo fora traçado. Os exércitos aliados estavam dispostos tal como Hitler previra quando preparava sua estratégia para as Ardenas, e suas forças haviam obtido pontos de apoio no Mosa, conforme especificado na Diretiva n° 10 do Fuhrer, de fevereiro anterior. No 5° Dia da Batalha do Ocidente, ele emitia sua Diretiva n° 11, dando ao General von Rundstedt (Grupo de Exércitos “A”) carta branca para desenvolver rápido avanço do Mosa ao Canal da Mancha. O segundo parágrafo da Diretiva rezava: “... a rápida travessia do Mosa, no Setor do Grupo de Exércitos “A”, criou os elementos essenciais para um ataque, com todos os efetivos possíveis, ao norte de Aisne e na direção noroeste, conforme estabelecido na Diretiva n° 10. Esse ataque poderia trazer grande sucesso. Cabe às forças empenhadas ao norte da linha Liège-Namur iludir e reter o maior numero possível de forças inimigas, atacando-as com seus próprios recursos”. A esse “ataque com todos os efetivos possíveis”, nem o 9° nem o 2° Exército poderia oferecer agora muita resistência. Embora o 9° Exército não tivesse sofrido grande colapso, como o 2°, as tropas de Corap eram praticamente incapazes de defender a linha onde estavam, quanto mais contra-atacar. O grupo principal do XI Corpo do General Martin (que guarnecia o setor central) só chegara no dia anterior e não encontrara nenhuma posição preparada. Além disso, as unidades avançadas haviam cometido o erro inicial de abrir trincheiras nos planaltos acima do Mosa, e não nas margens do rio. Agora, os reservistas mal treinados e mal equipados de Martin viam-se defendendo a seção de uma frente que desconheciam, parte da qual já penetrada. Também agora, para eles como para outras formações do 9° Exército, o 14 de maio traria novos reveses. Ao alvorecer, num esforço para repelir os invasores, duas unidades da 5ª DM (II Corpo, norte do XI Corpo) fizeram um ataque malogrado. Nesse meio-tempo, a linha do Mosa estava sendo rompida em dois outros pontos, a norte e sul de Houx. Nesse último ponto, os tanques da 7ª DP de Rommel atravessaram o rio, em Bouvignes, sobre pontões. Rommel planejava atravessar diretamente o “Passo” de Phillipeville, 36 km a oeste. Com seus principais fuzileiros e motociclistas enfrentando apenas elementos esparsos da 18ª Divisão do General Duffet, ele já tomara Surinvaux, Hontoire, Flarion e outros lugares, ainda de manhã. A seguir atacou Onhaye, que barrava a passagem pela brecha de Phillipeville. Onhaye caiu no fim daquela tarde, e a 7ª Panzer dirigiu-se para oeste, enfrentando oposição de elementos da 18ª Divisão, reservas da 4ª Divisão Norte-Africana e da 1ª Divisão de Cavalaria Ligeira. No final do dia, pouco restava das linhas de defesa da 18ª. À direita desta, a 22ª Divisão também estava em dificuldades. Parcialmente ultrapassada pela travessia alemã do Mosa, ao norte de Givet, naquela manhã, ela recebera ordens de recuar para uma posição a 9,6 km do rio e, ao anoitecer, só estava em contato com o Mosa ao sul de Vireux, recuando em desordem. Num esforço para salvar a situação, o General Martin decidiu novamente deslocar o XI Corpo, com a 4ª Norte-Africana, numa linha que o ligava ao XLI Corpo, à sua direita. Mas, antes que pudesse fazer isso, chegaram ordens para uma retirada geral do 9° Exército. O General Corap passara a manhã entre o QG e a sua formação, esforçando-se por evitar a crescente desintegração. Ele observara, preocupado, o moral vacilante de suas tropas - em grande parte resultado dos ataques aéreos ininterruptos. Também estava perturbado pela má conduta de alguns oficiais. Naquele dia, emitiu uma ordem: “... Neste momento, em que o destino da França corre perigo, não se tolerará qualquer fraqueza. Cabe aos Estados-Maiores dar o exemplo a todas as fileiras e, se necessário, obrigar à obediência...”. Mas as vacilantes divisões dos XI e XLI Corpos não eram mais sensíveis a avisos; estavam perdendo toda coesão como força de combate. De Dinant até Monthermé, o centro da linha do 9° Exército no Mosa estava ruindo, com exceção do flanco esquerdo da 102ª Divisão de Guarnição, que há dois dias resistia e detinha as tropas de assalto de Reinhardt. Foi um triunfo da tática alemã de Blitzkrieg - uma vitória da surpresa, violência, rapidez e mobilidade. Antes de serem vencidos pela rapidez da arremetida dos tanques de Rommel, os franceses haviam sofrido ataques dos aviões alemães, que bombardeavam em vôos rasantes, espalhando destruição e desmoralização na frente e na retaguarda. Em vários pontos, a retirada francesa transformou-se em confusão: “O pânico tomou conta de algumas tropas durante a retirada”, escreveu o General Doumenc, que observara o efeito devastador do bombardeio. Na retaguarda do 9° Exército, as estradas estavam coalhadas de caminhões carregados de soldados, misturados com hordas de civis em fuga. Nos bosques, outros soldados buscavam proteção contra os tanques e aviões. Ao anoitecer (do dia 14), o grosso de três divisões do 9° Exército recuava do Mosa em desordem, indo para oeste, passando por Namur, na Bélgica, dirigindo-se para sudoeste, entrando no departamento de Aisne, na França. Muitos soldados sentiam-se desiludidos, considerando-se vítimas de acontecimentos que estavam além do seu controle, e prejudicados por equipamento inadequado. Também culpavam, como disse um deles, “a ausência da artilharia e dos aviões franceses, o choque dos bombardeios e o número irresistível de refugiados”. Entretanto, o desastre poderia ter sido evitado no dia 14, pela intervenção rápida, como o General Doumenc propusera a Georges na noite anterior, da 1ª DC (do General Bruneau). Mas por uma série calamitosa de atrasos, a divisão não conseguiu chegar à frente nessas horas críticas. Quando alertada para entrar em ação, na manhã do dia 14, ela estava em Charleroi, a 36 km de distância do Mosa, mas só às 13:30 horas é que o General Bruneau foi chamado ao posto de comando de Martin, em Florennes, para uma conferência, onde só chegou às 17:00 horas. Recebeu ordens de atacar o mais depressa possível na direção de Dinant. A divisão partiu para leste, saindo de Charleroi no começo da noite, mas foi tão prejudicada pelas estradas apinhadas de refugiados e tropas que somente uma parte chegou ao ponto de encontro naquela noite - com isso, o ataque foi adiado para o dia seguinte. Entrementes, outra série de acidentes impediu a 3ª DC (General Brocard) de salvar a frente de Sedan. Ao anoitecer, as posições dos flancos esquerdo e central do 2° Exército praticamente não existiam mais. Perdia-se, desse modo, a chance de um contra-ataque blindado. No dia 14, ainda cedo, Huntziger, para salvar o destroçado X Corpo, destacara o XXI Corpo do General Flavigny para defender o setor de Sedan. Integravam esse corpo a 3ª DC, a 3ª mecanizada e a 5ª de Cavalaria Ligeira. Embora a 3ª Couraçada compreendesse dois batalhões de tanques B, dois de tanques H, um regimento de artilharia auto-rebocada e um de infantaria transportada em caminhões, seus efetivos só existiam realmente no papel, e, como disse mais tarde o General Devaux, Chefe do Estado-maior da divisão, ela só começara a treinar como formação completa a 1° de maio; tinha várias deficiências, não estava pronta para combate, embora o moral dos soldados fosse bom. A 3ª Couraçada e a 3ª mecanizada chegaram a Le Chesne, a 15 km da zona de batalha, ao amanhecer do dia 14. À sua frente desdobrava-se o panorama de aldeias e colinas boscosas que desciam até o Mosa, cenário da derrocada de Sedan no dia anterior. Brocard planejava atacar ao meio-dia na direção de Chémery-Maisoncelle, fazendo uma surtida maciça contra a extremidade norte do bosque de Maison-Dieu. Mas repetiam-se os atrasos, e só às 16:00 horas é que a divisão finalmente se deslocou. A operação, porém, fora cancelada 30 minutos antes; Flavigny, em seu posto de comando de Senuc, mudara de idéia, e determinou que a 3ª se estendesse em posições defensivas através da zona do 2° Exército, desde Omont, até Stonne. E o contra-ataque foi novamente adiado para a tarde do dia seguinte. O atraso na chegada de Brocard, aparentemente devido à reabastecimento e à demorada transmissão de ordens, deixara a 3ª Divisão Mecanizada, que estava totalmente preparada, sem apoio. Huntziger ficou furioso ao saber do adiamento da operação e ordenou a Flavigny que investigasse pessoalmente as razões. O triste resultado disso foi que, com os Panzer de Guderian cruzando o Mosa no dia 14 eles foram confrontados pela 3ª Couraçada francesa. Coube à improvisada 55ª Divisão, apressadamente reunida por Lafontaine na noite anterior, enfrentar os tanques alemães. Mas mesmo essa ação foi atribulada por atrasos. O primeiro grupo da força mista de tanques e infantaria de Lafontaine recebeu ordens de avançar, por estágios, até o Mosa, mas pôs-se em movimento às 07:00 horas e não pela madrugada e, 90 minutos depois encontrou poderosa coluna de Panzer entre Chémery e Chéhery. Muito hostilizada, ela retirou-se para o bosque de Maison-Dieu. Lafontaine imediatamente cancelou o avanço do segundo grupo, eliminando assim a última chance de um contra-ataque pela 55ª Divisão. A abdicação desta assinalou a desintegração da 71ª Divisão, à sua direita. Com seu flanco oeste exposto, a 71ª recuou para leste e essa retirada súbita provocou outra confusão entre as tropas já desmoralizadas. Durante o dia, o comando continuou perdendo o controle da situação e, ao anoitecer, a 71ª já quase nada representava como força de combate. Nesse ínterim, por volta do meio-dia, os Panzer alemães estavam dominando o campo de batalha de Sedan. As 1ª e 2ª DP já haviam atravessado o Mosa em grande número e se dirigiam para o interior, enquanto a 10ª se reunia ao longo da margem esquerda. Guderian ansiava por dirigir-se a toda velocidade para o Canal da Mancha. Naquela tarde, deu ordens para que a 1ª (General Veiel) e a 2ª (General Kuchler) rumassem para oeste: a divisão de Veiel numa linha setentrional para Flize e Sapogne, e a de Kuchler num rumo meridional para Vendresse. Seu flanco sul era guardado pela divisão de infantaria Grossdeutschland. Em pouco a 10ª partiria do Mosa e, por sua vez, se dirigiria para oeste, com a 14ª DM. Mas, até que ela partisse, abrir-se-ia uma brecha na força blindada de Guderian, por algumas horas, naquela tarde - entre as 1ª e 2ª Divisões que se afastavam para oeste, e a 10ª, que se reunia à margem do rio. Aí estava uma oportunidade de ouro para a intervenção do XXI Corpo de Flavigny - chance jogada fora pelo despreparo da 3ª DC. A chance de contra-atacar a penetração de Sedan, no dia 14, foi aproveitada pela força aérea, pois duas levas de bombardeiros aliados - Potez e Morane franceses e Fairey Battles e Blenheims ingleses - atacaram as colunas alemães que avançavam e as pontes improvisadas às pressas. Mas o fogo antiaéreo foi tão intenso, que as pontes permaneceram intactas e mais de 100 aviões foram derrubados. A oportunidade perdera-se. No começo daquela tarde, Lorde Gort e os Generais Gamelin e Georges haviam concordado que se devia solicitar ao Gabinete de Guerra britânico o uso imediato no setor de Sedam da Força de Bombardeiros britânicos sediados na Inglaterra. Mas todas as esperanças foram destruídas quando Georges anunciou que se satisfaria com apenas 100 bombardeiros do Comando de Bombardeiros sediado na França. “Toda energia e ímpeto passaram para os alemães”, lamentou um oficial da Inteligência britânica. Apesar da gravidade da situação, no QG do 2° Exército, em Senuc, ainda havia um estranho otimismo. Os correspondentes de guerra foram informados de que os alemães seriam detidos na linha principal de defesa do exército. Mas a realidade interveio mais tarde, naquele dia, quando se decidiu repentinamente recuar o QG para Verdun, 56 km a sudeste. Ali chegando, naquela noite, o fatigado Huntziger declarou a um dos seus oficiais: “Serei sempre o vencido de Sedan”. Enquanto a frente do Mosa ruía, Huntziger recebia pouco auxílio do General Georges. Antes, ele havia feito um telefonema urgente pedindo orientação sobre se devia proteger a “Linha Maginot” ou Paris, e Georges prometera-lhe responder mais tarde, mas não o fizera. Quando Huntziger tornou a telefonar, o Comandante-Chefe lhe disse sucintamente: “Faça o que achar melhor”. Era evidente que o General Georges estava assoberbado pela batalha gigantesca que tinha de dirigir. Sua saúde, enfraquecida desde que fora ferido em Marselha, em 1934, mostrava agora sinais sérios de deterioração. O próprio General Gamelin, ao visitá-lo em Les Bondons naquele dia, ficou preocupado com sua aparência. Georges “parece realmente esgotado”, observou ele. Entretanto Georges parecia estar assumindo ainda mais responsabilidades, pois no dia 14 tirou o 1° Grupo de Exércitos de Billotte, colocando-o diretamente sob seu comando. E agora, enquanto Corap e Huntziger se esforçavam, desesperada mas inutilmente, utilizando todas as forças que podiam reunir para defender a linha vulnerável do rio Bar (linha de junção dos 9° e 2° Exércitos), Georges fez um esforço desesperado para tapar a brecha cada vez maior que se estendia do Mosa. Ele chamou o General Touchon, comandante do 6° Exército de reserva, situado a 360 km de distância, na França Oriental. Mas Touchon, que chegara a seu posto de comando em Rethel, no Aisne, às 19:00 horas, nada pôde fazer naquele dia. Só havia uma formação nova disponível pata bloquear a brecha no dia 14: a 14ª Divisão do General de Lattre de Tassigny - seguida pelo distante Exército da Alsácia (o 5° Exército do General Bourret) - rumava célere para o norte, vinda da área de Rheims. No QG do 9° Exército, em Vervins, Corap mandou Tassigny unir-se com sua 53ª Divisão de Reserva (de Corap) à direita do 9° e ali restabelecer ligação com o 2° Exército. Tassigny avançou com sua pequena força (o grosso ainda não chegara) em meio aos homens do 9° Exército que fugiam, apenas para se surpreender com o desaparecimento da 53ª Divisão. Voltando a falar com Corap, este mandou-o defender a segunda posição de defesa, mas, ao chegar lá, descobriu que os alemães o haviam antecipado. Este era o quadro, de caos e calamidade na frente do Mosa a 14 de maio. Em Paris, o governo acompanhava os acontecimentos ali na Bélgica Central com crescente alarme. No começo daquela tarde, ao ser informado do colapso do exército o Primeiro Ministro Reynaud perguntou se os exércitos na Bélgica haviam recebido ordens de retirar-se. Seu oficial de ligação telefonou para Vincennes e foi informado de que não haviam recebido essas ordens. “Sentimos que a situação de repente se tornara trágica”, observou Paul Baundouin, Secretário do Gabinete. Às 15:00 horas, a Comissão de Guerra (normalmente formada de certos Ministros, do Comandante Supremo, do Almirante de Esquadra, e sob a presidência do próprio Presidente da República) reuniu-se para examinar a posição. Imediatamente após, Reynaud telefonou a Winston Churchill (Primeiro-Ministro britânico desde 10 de maio), apresentando-lhe a seguinte “declaração” do governo: “A situação é realmente muito séria. A Alemanha está tentando desfechar um golpe fatal na direção de Paris. O Exército alemão rompeu nossas linhas fortificadas ao sul de Sedan... para deter o avanço alemão... os tanques germânicos devem ser isolados dos Stukas que lhe dão apoio. Isto só é possível com considerável força de caças... Para vencer esta batalha... É essencial que nos envie imediatamente 10 esquadrilhas adicionais... Estou confiante de que, nessa hora crítica, não nos faltará a ajuda britânica”. Naquela noite, no escritório de Winston Churchill, no Almirantado, em Londres, o Gabinete de Guerra Britânico examinou seriamente a comunicação um tanto alarmante de Reynaud. Às 20:30 horas Churchill enviou a seguinte resposta, compreensivelmente cautelosa: “... Convocamos os oficiais do Estado-Maior que estão em condições de nos fornecer detalhes do estado de coisas vigente, para que possamos ter certeza de que todos os recursos disponíveis serão empregados em prol da causa comum”. Fracassa a força blindada francesa O pequeno e ativo Primeiro-Ministro francês não ficou muito tranqüilo diante da resposta de Churchill. Depois de uma noite inquieta, tornou a telefonar para ele, às 07:30 horas da manhã seguinte, reiterando o pedido de caças, acrescentando dramaticamente: “Estamos derrotados. Perdemos a batalha”. Churchill, um pouco céptico, tentou tranquilizá-lo. “Mas tudo mudou”, retrucou Reynaud agitado. “Uma torrente de tanques está entrando!”. A seguir, Churchill telefonou ao General Georges, de quem recebeu um informe mais encorajador. “A brecha em Sedan”, disse ele, “estava sendo tapada”. A suspeita de que Reynaud exagerava pareceu confirmar-se por um telegrama que o General Gamelin dirigiu a Churchill dizendo que, embora a posição Namur-Sedan fosse grave, ele, Gamelin, encarava a situação com calma. Na |