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O Exército
Vermelho
Quaisquer que fossem os motivos
de Hitler para atacar a Rússia em junho de 1941, um era predominante: a
certeza de que seria muito fácil a tarefa que teria de enfrentar. “Basta
arrombarmos a porta da frente”, afirmava ele a Rundstedt, “e toda a estrutura
podre ruirá!”
O que o teria levado a fazer
uma estimativa tão errônea do seu adversário, que já era o maior poderio
terrestre do mundo, como ele bem o sabia, pelas informações de seu serviço de
inteligência sobre o número de soldados e a quantidade de armas que possuía?
É verdade que em seus discursos e escritos ele salientava sempre a
inferioridade natural dos eslavos em relação aos teutos, mas esses
pensamentos destinavam-se exclusivamente ao consumo público. Hitler jamais
permitiu que se contestasse qualquer julgamento que fizesse sobre questões de
real importância. Poderia ele ter-se deixado influenciar pelas lembranças que
tinha do desempenho do exército russo durante a Primeira Guerra Mundial,
período importante da formação da vida de Hitler, quando todas as grandes
vitórias da Alemanha haviam sido conquistadas na Frente Oriental, e a maior
destas, que o mundo ocidental praticamente esquecera, tinha ocasionado a
derrota da Rússia e a rendição das suas províncias mais ricas? Talvez sim;
mas, por mais lamentável que a arte militar tzarista se tivesse revelado no
começo daquela guerra, e apesar do espírito derrotista dos exércitos do
Governo Provisório Russo, no fim do conflito, esses mesmos exércitos chegaram
a atingir índices elevados em matéria de realização militar, tanto no ataque
quanto na defesa, quando o soldado russo tradicionalmente mostrava o melhor
de si. Além disso, Hitler conhecia suficientemente a História para saber que
a Rússia conquistara o respeito de toda a potência européia com que havia
lutado, e o Fuhrer era bastante realista para aceitar o fato de que os
elementos militares russos - “volume de tropa, espaço, terra calcinada,
“janeiro e fevereiro” aos quais se deveriam acrescentar também a bravura e a
abnegação dos seus soldados - eram inerentes ao país e ao povo, independente
do regime vigente. A longo prazo, esses elementos estavam fadados a se
fazerem sentir.
Mas Hitler não pretendia que houvesse
nenhum “a longo prazo”, tão convencido estava de que a guerra seria breve, em
parte pela velocidade e poder de penetração de suas forças Panzer, em parte
pelas vantagens que seus generais saberiam tirara dos erros que os russos
cometeriam na direção das suas formações. Ele acreditava na anulação total da
bravura demonstrada pelo soldado russo pelos erros de julgamento que o
Alto-Comando soviético fatalmente haveria de cometer. O recente desempenho do
Exército Vermelho na Finlândia, desempenho absurdamente fraco, mostrara que
seu Alto-Comando estava sujeito a esses erros devido à natureza da estrutura
de comando.
O Conde von Schlieffen, que
traçara os planos alemães para a guerra de 1914, baseara seus cálculos na
reputação de ineficiência do Estado-Maior-Geral russo. Isto levava Schlieffen
a planejar um golpe decisivo contra os franceses enquanto se poderia esperar
que os russos, seus aliados, ainda estariam nos estágios preliminares da
mobilização.
Hitler, porém, não levou em
conta coisa alguma do que estabelecia o antigo plano. Considerou, antes, uma
falha fatal que admitia existir no Comando Militar Soviético, introduzida
pelos líderes bolchevistas e ampliada por Stalin através de expurgo que fez
realizar no exército em 1937-38.
Quanto a isto, Hitler, sem
dúvida, tinha certa razão. A pergunta “Quem é que manda?” permanece não
respondida entre o exército e o governo, até mesmo nos estados mais antigos;
nos mais recentes, ela sugere sempre disputa, freqüentemente violenta,
sobretudo nos estados de origem revolucionária. Se tal não acontecer na
Rússia Soviética - um estado revolucionário que só foi salvo da extinção,
provocada pela contra-revolução e pela invasão estrangeira, graças aos
esforços do incipiente Exército Vermelho na Guerra Civil - é porque os
líderes bolchevistas, desde os primeiros momentos da sua existência, tomaram
o cuidado de encostar em cada oficial do Exército Vermelho (embora a palavra
“oficial” não fosse usada, por ter sido proibida) um comissário ou assistente
político para observar suas ações.
De acordo com este sistema, o
comissário tinha sempre precedência sobre o soldado na área das decisões
políticas, e teoricamente tinham ambos o mesmo poder de decisão na esfera dos
assuntos militares. Para formar a oficialidade do Exército Vermelho, que de
um punhado de “guardas revolucionários” de confiança passou a vários milhões
em pouquíssimo tempo, a liderança bolchevista valeu-se dos serviços dos
ex-oficiais tzaristas de formação e treinamento exatamente iguais aos
daqueles que comandam os Exércitos Brancos, com os quais estavam em guerra.
Essa dependência dos oficiais tzaristas continuaria até bem dentro da década
de 1920, e mesmo depois que números suficientes de jovens comunistas
ingressaram no exército, saídos das novas academias, ainda havia necessidade
de ex-tzaristas nas fileiras superiores. Já então muitos tinham demonstrado,
aparentemente para satisfação geral da liderança, lealdade para com a
revolução e para com o estado comunista, entre eles Tukhachevsky, ex-oficial
da Guarda do Tzar, que atingira, aos 25 anos, o comando de um dos exércitos
bolchevistas, na Guerra Civil. Depois da Guerra Civil, os bolchevistas, não
mais precisavam dos ex-oficiais tzaristas, que começaram a ser demitidos, mas
Tukhachevsky, que dirigira o avanço sobre Varsóvia, em 1920, e esmagara o
levante naval em Kronstadt, em 1921, já estava no caminho que o levaria ao
comando-supremo do Exército Vermelho, na década seguinte.
Apesar da conversão de
oficiais, como Tukhachevsky, à nova ideologia, e apesar da hostilidade de
alguns comandantes completamente “vermelhos” ao sistema de comissariado, foi
este o procedimento que o partido conservou durante toda a década de 1920 e
até começos de 1930. Todavia, embora insistisse na necessidade da manutenção
dos comissários, o partido pouco fazia no sentido de selecionar os elementos
que se candidatavam ao cargo ou de educar os que já estavam em função. Como
resultado, o comissário era em geral um funcionário honesto mas
desqualificado para o exercício do cargo e em relação aos quais os líderes
vermelhos mais enérgicos não revelavam muita tolerância.
O oficial soviético, por outro
lado, sob a inspiração de Tukhachevsky e seus assistentes, foi gradativamente
superando o comissário nas aptidões profissionais. Havia cooperação secreta
com o exército alemão, cooperação que os germânicos acolhiam por precisarem
realizar nas áreas russas o treinamento e as experiências com equipamento
bélico proibido pelo “Tratado de Versalhes”; os russos, por sua vez, viam
nessa cooperação a oportunidade de se adestrarem nas novas técnicas
militares. Isto ajudou a fazer do Exército Vermelho, por volta do começo da
década de 1930, um dos mais modernos do mundo. Ele começara a fazer
experiências com desembarques aéreos de grandes unidades, tanto por aviões
como por meio de pára-quedas, e a manobrar grandes formações de tanques, que
eram essencialmente desenvolvimentos dos famosos protótipos Christie que a
Rússia comprara ao projetista americano em 1931.
Esta profissionalização do
Exército Vermelho recebeu o selo da aprovação partidária em março de 1934,
quando finalmente o princípio do controle duplo foi abolido, limitando-se a
atuação do comissário aos conselhos de educação política. No ano seguinte, os
títulos formais de postos militares (durante a revolução substituídos por
eufemismos como “especialistas de comando”) foram reintroduzidos, incluindo a
nova distinção de marechal, à qual os cinco mais importantes líderes
soviéticos foram promovidos. Estes eram Tukhachevsky; Voroshilov, Comissário da
Defesa, veterano agitador político, ex-membro do 1o Exército de
Cavalaria Vermelho e associado íntimo de Stalin; Yegorov, Chefe do
Estado-Maior e ex-membro do 1o Exército de Cavalaria; Budenny,
ex-suboficial tzarista promovido a general de cavalaria (também ex-membro do
1o Exército de Cavalaria); Clucher, outro ex-sargento Tzarista,
herói da guerra civil, ex-consultor militar de Chiang-Kai-shek e comandante
do semi-autônomo exército da Sibéria.
A crescente profissionalização
do exército se fez acompanhar de profundas modificações que o transformaram
numa corporação totalmente ativa. Até então, a infantaria do Exército
Vermelho pertencera na maioria às formações da Milícia de Cidadãos, sediadas
numa área urbana e cujos soldados só esporadicamente treinavam. As alterações
introduzidas previam também o serviço obrigatório do conscrito, realizado de
uma só vez, nas unidades formadas para o serviço realmente ativo, ao mesmo
tempo que Stalin decretava a liberação de verba destinada ao adestramento de
grandes massas de cidadãos civis em pontaria, saltos de pára-quedas (não de
aviões, mas de arneses especiais ligados a elevadas torres) e na defesa
civil.
Coincidia o aumento do
contingente permanente do Exército Vermelho com as idéias que Tukhachevsky e
dos generais soviéticos de mentalidade idêntica. Mas seu efeito foi menos
eficaz na prática do que na teoria, pois ele introduziu no exército muitos
camponeses descontentes com a coletivização da agricultura, iniciada em 1931,
que demonstraram empenho muito pequeno durante o treinamento militar. Alguns
oficiais graduados ficaram tão alarmados com a transformação do exército, por
causa do comportamento das unidades conscritas, que começaram a surgir
pedidos de modificação no programa. Na Sibéria, o Marechal Blucher conseguiu
obter concessões, não estendidas, porém, ao resto do país.
Aliás, como teria Stalin
concordado com isso, quando apenas havia acabado de completar o expurgo do
partido e na NKVD (a Polícia Secreta)? Embora estivesse firmemente
controlados estes dois órgãos, havia um terceiro, de igual importância, com
possibilidade de o derrubar, se seus líderes assim o desejassem, o exército.
Voroshilov, que ocupara o posto de Comissário da Guerra desde 1925, parecia
ser leal, mas também era, profissionalmente, o de menor influência dos cinco
marechais, e provavelmente era quem tinha o menor apoio, correspondente à sua
posição, do corpo regular de oficiais. O restante, e o grosso das fileiras
superiores do Exército Vermelho, pessoalmente nada deviam a Stalin Já de haviam
iniciado na carreira das armas antes que estes subissem ao poder e sua
promoção dependera mais dos próprios esforços ou da estima dos colegas do que
da intervenção do partido ou de favores do ditador. Agora que estava excitado
pela atmosfera gerada pelo expurgo do partido, acreditando um pouco nos
perigos que ele próprio inventara, ou talvez embriagado pelo prazer de
derramar sangue, não surpreende que Stalin estivesse decidido a não parar até
que todos os seus inimigos, reais, potenciais ou imaginários, tivessem
recebido uma bala na nuca.
Também é possível que Stalin
tivesse conseguido provas da existência de uma conspiração contra seu domínio
pessoal, sendo quase certo que a Gestapo tenha apresentado um dossiê falso,
sugerindo que Tukhachevsky estava trocando informações secretas com o
Estado-Maior-Geral alemão. Esses boatos permanecem incomprovados. Não
obstante, Tukhachevsky se havia comportado insensatamente durante o expurgo
do partido, sobretudo no decorrer de uma viagem que fizera à França - um
deleite sem paralelo para um oficial soviético - e, o que era mais agourento,
também fora acusado por um réu, durante um dos falsos julgamentos
partidários, de ter estado em contato com Trotsky, já exilado. Seja qual for
a verdade disso, ou de quaisquer alegações feitas contra ele ou qualquer
outro oficial, Tukhachevsky foi um dos primeiros a serem presos e mortos. Ele
e mais sete generais foram julgados e fuzilados nos dias 11 e 12 de junho de
1937.
Este episódio, pequeno mas
brutal, instituiu e caracterizou o holocausto que se seguiria. Por volta do
outono de 1938, como resultado de execuções sumárias e de aparatosos
julgamentos falsos, o Exército Vermelho perdera quase metade dos seus
oficiais: três dos seus cinco marechais; 13 dos 15 comandantes do exército;
57 dos 85 comandantes de corpo; 110 dos 195 comandantes-de-divisão e 220 dos
406 comandantes-de-brigada. Nos escalões inferiores, calcula-se que os golpes
foram ainda mais pesados, embora de coronel a capitão as penas fossem quase
sempre de prisão. No Alto-Comando, porém, político e militar, a morte era
sentença quase certa. Os Subcomissários da Defesa, em número de 11, foram
fuzilados, bem como 75 dos 80 membros do Soviete Militar, criado em 1934;
todos os Comandantes Militares de Distrito e a maioria dos seus Chefes de
Administração Política (isto é, comissários graduados).
O método adotado por Stalin na
condução do expurgo deixou em todos a impressão de enorme confusão. Se, por
um lado, eliminou muitos ex-oficiais tzaristas e comandantes revolucionários
com larga folha de serviço prestados à revolução vermelha, por outro lado
conservou em seus postos famosos ex-oficiais do regime deposto. Shaposhnikov,
que estudara na Imperial Escola do Estado-maior-Geral e perdera as graças de
Stalin em 1937, em substituição a Yegorov, de origem camponesa, e conseguiu
manter-se no cargo durante vários anos, só se demitindo em virtude de
problemas de saúde. Também os comandantes militares não sofreram mais que os
políticos, já que os comissários também foram executados em número talvez
muito maior. Em tal conjuntura, o melhor modo de sobreviver parece que era a
associação com os elementos do 1o Exército de Cavalaria da época
da Guerra Civil, a força anticossaca que dera apoio político a Stalin e cujos
métodos de operar restrições por parte de Tukhachevsky.
Foi este o 1o
Exército de Cavalaria que, depois do expurgo, subiu ao poder, por intermédio
de seus dirigentes: Budenny, Timoshenko, Kulik e Zhukov. Todos desfrutavam da
proteção de Stalin. Se antes lhe deviam muito, agora lhe deviam tudo,
inclusive a vida. É, porém, duvidoso que Stalin, em troca dessa simpatia,
recebesse a proteção que esperava: em Timoshenko ele tinha um comandante
capaz, se não inspirado; em Zhukov, um general talentoso mas muito moço, sem
a vivência necessária ao pleno desenvolvimento do espírito; em Budenny, uma
figura de soldado apenas decorativa, com idéias táticas muito superficiais e
concepções estratégicas obsoleta e, em Kulik, um Chefe do Departamento de
Material Bélico (sucessor de Tukhachevsky) muito confuso, que advogava a
retirada de armas automáticas leves do exército (alegando que eram
inadequadas para os soldados) e a suspensão da produção de canhões
antitanques e antiaéreos. Ele também interpretara mal as provas recolhidas
pelos observadores do Exército Vermelho durante a Guerra Civil Espanhola (na
qual grande parte do equipamento russo fora experimentada) sobre o uso de
blindados, decidindo, baseado nas suas conclusões, dissolver as grandes
formações blindadas que Tukhachevsky estivera organizando, e redistribuindo
os tanques em pequenas unidades, entre a infantaria. O efeito desses erros de
cálculo e, de modo mais geral, das comoções que lhes tinham dado origem, só
foram percebidos fora da Rússia em 1940, depois que Stalin insensatamente
declarou guerra à Finlândia.
A origem da conseqüente
derrota, altamente “embaraçosa”, foi o desejo de Stalin de assegurar a
transferência ou o arrendamento de território finlandês adjacente aos acessos
às suas bases navais no Báltico. A recusa da Finlândia em concedê-lo levou ao
rompimento de relações diplomáticas e, a 30 de novembro de 1939, a um ataque
total russo pelo Istmo da Carélia, o corredor terrestre que liga o sul da
Finlândia à região de Leningrado. Embora desfechado com o apoio de
considerável volume de tropa, ele foi repelido, assim como os ataques ao
longo da fronteira terrestre russo-finlandesa, acima e abaixo do Círculo
Ártico. Somente no começo de fevereiro de 1940, depois da concentração de
reforços da ordem de quase um milhão de soldados, e de prolongado bombardeio
das posições defendidas pelos finlandeses na “Linha Mannerheim”, é que o
Exército Vermelho finalmente conseguiu penetrar, obrigando os finlandeses a
pedir a paz um mês depois. Essa eventual recuperação do prestígio perdido
deveu-se à liderança e à habilidade de comando de Timoshenko, muito
superiores às do comandante original na frente finlandesa, o Marechal
Voroshilov, que, daí por diante, retornou ao trabalho de natureza política,
muito mais adequado ao seu temperamento.
O padrão e o resultado da
guerra finlandesa, na qual, durante todo um inverno, uma nação de três
milhões e meio de habitantes não só contivera, como também cercara o exército
de uma nação de mais de cem milhões, ridicularizando seus líderes, pouco
fizeram para realçar o prestígio militar soviético. Aliás, foi tão ardente o
entusiasmo despertado no Ocidente pelo desafio finlandês aos russos, que a
Grã-Bretanha e a França quase intervieram do lado da Finlândia. Tivessem
esses países feito tal coisa, sem dúvida teriam lamentado o resultado final,
mas o resultado imediato acentuaria a sensação de frustração dos russos.
Contudo, a prazo mais longo, as
lições da campanha finlandesa, ainda que difíceis de engolir de uma vez só,
mostraram-se de grande utilidade para os russos. Os observadores estrangeiros
- Hitler principalmente - concluíram que, pelo desempenho medíocre dos
russos, suas falhas - exatamente as mesmas apresentadas contra o exército
alemão da Primeira Guerra Mundial, bem inferior ao da Segunda - eram
irremediáveis e que, em qualquer campanha maior, os russos amargariam os
mesmos reveses de Tannenberg e dos Lagos Masurianos, em 1914. Ineficiência,
falta de previsão, confusão: estes eram os defeitos com os quais qualquer
inimigo da Rússia poderia contar, segundo tudo levava a crer, com toda a
segurança e que só eram redimidos pela bravura do soldado comum.
Contudo, a Rússia e seu
exército não desperdiçaram a lição recebida na
Finlândia, tanto que, assinado o armistício, muito esforço foi desenvolvido
no sentido de repensar todo o plano militar. Outra campanha, a travada por
Zhukov contra os japoneses intrusos na fronteira mongólica com a Sibéria, em
maio de 1939, e que quase passou despercebida no Ocidente, oferecera provas
muito diferentes do valor do Exército Vermelho. Timoshenko, que assumira o
comando de fato em lugar de Voroshilov, providenciou para que aquilo que um
pequeno destacamento do Exército Vermelho realizou num conflito localizado se
tornasse o padrão dos operações do exército. A vitória de Zhukov implicava o
uso de grande quantidade de blindados, indício de que Timoshenko havia feito
reviver o corpo de blindados – formações de duas divisões de tanques e uma
divisão motorizada – que Tukhachevsky organizara antes de sua queda. Sob a
influência desses acontecimentos e do novo comando, duas coisas de grande
significação militar aconteceram: autonomia para os comandantes das forças
armadas na tomada de decisões em assunto de natureza militar e a colocação
dos comissários, pela segunda vez, como consultores políticos, apenas. Ao
mesmo tempo, muitos dos oficiais aprisionados ou banidos durante o grande
expurgo militar foram reintegrados e se emitiram novos regulamentos de
treinamento, baseados na experiência da Guerra da Finlândia e nos relatórios
das operações alemãs na Polônia e na França.
Não seria possível consertar
tudo no pouco tempo disponível, como ficaria provado. O expurgo desfechara um
golpe quase mortal na autoconfiança
do corpo de oficiais, coletiva e individualmente, tornando improvável
a oficialidade de categoria média ou abaixo da média – por definição, a
maioria – arriscar uma linha de ação independente quando em contato com o
inimigo (aliás, a obediência extremamente rígida às ordens era uma das
principais deficiências russas). Por outro lado, a propaganda partidária,
apesar das humilhações da Guerra Finlandesa, fez que se desenvolvesse no
soldado russo a impressão sem dúvida falsa de que o Exército Vermelho era
imbatível, e que merecia por parte de todos a mesma confiança que depositavam
na infalibilidade do julgamento do Politburo. Não obstante, até o verão de
1941, muita coisa se fez para restaurar o equilíbrio do Exército Vermelho e,
independente do quanto estivesse por ser feito, só o seu tamanho e o volume
do seu equipamento bastavam para fazer com que qualquer atacante em potencial
parasse para pensar.
À parte a Osoaviahlim e as
reservas treinadas, estas últimas produto do sistema de conscrição universal
instituído em meados da década de 1930, o Exército Vermelho na primavera de
1941 tinha, em sua ordem de batalha, entre 230 e 240 divisões, a maioria das
quais com efetivos completos; além disso, umas 170 estavam dentro do alcance
da fronteira ocidental. A maioria dessas era formada das chamadas Divisões de
Fuzileiros (infantaria), de cerca de 14.000 homens, sem muitos transportes
mesmo hipomóveis. Quanto às divisões de tanques, haveria pelo menos 22 e no
máximo 60, cada qual formada de dois regimentos de tanques, um de infantaria
transportada em caminhões e um regimento de artilharia. Havia pelo menos 13
divisões motorizadas, nas quais esta proporção entre tanques e infantaria era
inversa. Estes dois tipos de divisão eram os equivalentes exatos das Divisões
Panzer alemãs – e das que mais tarde seriam chamadas de divisões
Panzergrenadier – embora os russos conseguissem manter os efetivos de tanques
de seus regimentos blindados num nível muito superior ao dos alemães.
Contudo, grande parte, se não a
maior, do poderio ofensivo e defensivo do Exército vermelho foi anulada pelo
estranho plano de deslocamento que Stalin impusera às formações de campanha
no começo do verão de 1941. Naturalmente, as fronteiras da Rússia naquele ano, e naquela estação, eram
diferentes das que teria tido de defender dois anos antes, pois, em quase
toda parte, elas estavam bem mais para oeste do que a linha de 1939. A
anexação dos estados Bálticos – Lituânia, Letônia e Estônia – tinha trazido a
fronteira russa até a fronteira norte da Prússia Oriental; a divisão da
Polônia com a Alemanha avançara o setor central da fronteira quase até
Varsóvia e no sul, a anexação da Bessarábia arrancada à Romênia em 1940,
havia levado as tropas russas para a outra margem do Dniester até o Pruth.
Por mais que a aquisição de todo esse território pudesse agradar a Stalin,
não facilitava em nada as tarefas estratégicas dos seus generais, pois as
novas fronteiras significavam que as antigas defesas de fronteiras haviam
perdido qualquer sentido e passaram a situar-se, em certos lugares, a centena
de quilômetros atrás da futura zona militar de operações.
Uma fronteira aberta, sem
poderosas defesas e sem obstáculos naturais – rios largos, grandes lagos ou
altas montanhas – exigem defesa em profundidade por forças equipadas e
treinadas para travar guerra móvel. Grandes reservas, localizadas em
pontos-chaves na rede de batalha, são um requisito para qualquer defesa bem
sucedida; sem tais forças ao seu alcance, o comandante de fronteira aberta
não se livra do pesadelo de uma penetração irresistível.
E Stalin condenou seus
comandantes a viver debaixo desse pesadelo durante toda a primeira metade de
1941, pois, em lugar de destinar parte de suas forças para formar uma reserva
estratégica, ele insistiu para que fossem todas deslocadas para postos avançados;
não lhe sendo possível reconhecer que a conformação da fronteira russa, com
suas muitas saliências e reentrâncias, tornava antieconômica a defesa de cada
quilômetro, ele insistiu na guarnição de toda a sua extensão; e em lugar de
reconhecer que certos trechos da fronteira necessitavam de menos defesa do
que outros, como, por exemplo, a parte imediatamente a oeste dos
impenetráveis pântanos do Pripet, ele espalhou suas divisões por pontos quase
que eqüidistantes entre si de norte a sul, entre o Báltico e o Mar Negro.
Resta apenas indagar dos
motivos que levaram Stalin a expor seu exército a perigo tão óbvio. Tem-se
dito que seus motivos eram “formados de complacência, confiança e de uma
espécie de nervosa precaução”: complacência alimentada pela propaganda por
ele mesmo estimulada sobre a invencibilidade do Exército Vermelho; confiança
de que a guerra poderia ser evitada, e nervosa precaução, denunciada no
poderoso anteparo de soldados que fez colocar bem à frente, para que a
reunião de tropas das Rússias central e oriental, atrás desse anteparo,
pudesse ser feita despercebidamente. A esta lista de motivos poderíamos
acrescentar a “realização de desejo”. Stalin não queria a guerra; fez ouvidos
moucos às advertências sobre os perigos da guerra feitas pelos seus amigos e
prováveis amigos (Churchill entre eles); Stalin cumpriu à risca os acordos de
remessa de alimentos e matérias-primas devidos à Alemanha e proibiu seus
comandantes de realizarem qualquer tipo de preparativo militar, por vital que
fosse à segurança do seu próprio setor da frente, desde que os alemães
pudessem interpretar como ato de provocação ou agressão.
Nas pegadas de Napoleão
Três caminhos levam ao coração
da Rússia. Um deles margeia a costa do Báltico até Leningrado, a antiga São Petersburgo.
O segundo, que Napoleão tomou em 1812, passa pelas velhas cidades polonesas
de Minsk e Smolensk, até Moscou. O terceiro, situado ao sul dos Pântanos do
Pripet, mas ao norte dos Cárpatos, é a estrada que vai do sul da Polônia até
a região das terras negras da Ucrânia. O Pripet, uma área enorme, e quase
impenetrável, de pântanos de água doce e de florestas, divide a fronteira
russa estrategicamente em duas metades distintas: a setentrional e a
meridional. Os Cárpatos protegem as fronteiras da Hungria e da Romênia, mais
que as da Rússia, e seus cumes estão para oeste da fronteira internacional. À
parte o Pripet e os Cárpatos, a Rússia não está protegida contra invasão,
vinda da Europa, por quaisquer obstáculos naturais, pois, embora os três
caminhos tradicionais de invasão atravessem largos rios, é difícil garantir a
integridade de uma linha fluvial nos enormes espaços da estepe.
Mas isso não quer dizer que seja fácil invadir a Rússia. Dois generais
de gênio, Napoleão e Carlos XII, o rei sueco, perderam ali reputação
conquistada em muitas batalhas, e os horrores da retirada do Grande Exército
de Moscou em 1812 passaram a fazer parte do folclore europeu. Apesar de na
época ser considerada um país extremamente atrasado, de economia
desorganizada, dotada de pouquíssimas estradas, e muito ruins as existentes,
a Rússia era tida como virtualmente imune aos perigos da conquista.
Schlieffen, autor dos planos de guerra alemães no conflito que teve início em
1914, não tinha opinião diferente sobre aquele país. Entendia que os soldados
alemães derrotariam os russos completamente, apesar da desigualdade de
números, mas os resultados jamais passariam do que ele chamava de “vitórias
comuns”, isto é, vitórias nas quais o exército derrotado não é nem sitiado
nem encurralado, mas apenas obrigado a abandonar o campo de batalha. Ele
dizia que o exército alemão não conseguiria obter resultados decisivos na
Rússia porque os exércitos russos eram grandes demais para serem cercados e
porque a paisagem russa era destituída de obstáculos contra os quais se
pudesse imprensá-los. Portanto, eles sempre escapariam e, assim fazendo,
atrairiam o invasor cada vez mais para dentro dos grandes espaços interiores
russos, onde o clima, a terra calcinada e o cansaço da perseguição acabariam
por lhe solapar a força. Foi baseado nessas razões que Schlieffen trocou as
vitórias comuns no Leste pela campanha contra a França, taticamente mais
desafiadora, porém estrategicamente menos arriscada, marcando, dessa forma, o
início de uma guerra de duas frentes.
Hitler herdou de Schlieffen
todos os problemas de uma situação de duas frentes. Mas, inicialmente, tal
como Bismarck, procurou conduzir o problema em termos diplomáticos, e não
militares. Desse modo, surgiu o pacto Molotov-Ribbentrop de 19 de agosto de
1939, pelo qual a Rússia e a Alemanha concordavam em não iniciar guerra de
agressão entre si, e pelo qual também o território polonês foi rachado entre
ambas. Para Hitler, o tratado de não-agressão assinado jamais passaria de
mero expediente. Não é provável que ele acalentasse motivos doutrinários para
um ataque à Rússia; em quase tudo, exceto em seu anti-semitismo, Hitler era
completamente pragmático. Mas o bom senso lhe dizia que a própria magnitude
dos seus sucessos, primeiro derrotando o exército polonês, depois vencendo os
da Bélgica, da França e da Grã-Bretanha, fatalmente alarmariam a Rússia,
fazendo-a adotar medidas, não para aplacar a Alemanha pela reafirmação de
políticas de não-agressão, mas acelerando sua preparação militar. Sabemos
hoje que Hitler estava errado a este respeito, pois durante todo o ano de
1940 e até o dia 22 de junho de 1941 a política de Stalin, embora
compreendesse certas medidas defensivas, visava principalmente ao cumprimento
meticuloso do pacto de não-agressão, aparentemente com espírito de fato
apaziguador. Contudo, o sentido pragmático de Hitler lhe avisava que Stalin
estava aproveitando o tempo, e se lhe permitissem ele alcançaria um nível de
força militar que, empregado defensiva ou agressivamente, poderia ser demais
para a Alemanha, no caos de um pega entre ambas.
A resistência continuada da
Grã-Bretanha também enfatizava o perigo de uma inversão de aliança por parte
da Rússia. Hitler estava mais irritado do que perturbado com a persistente
recusa da Grã-Bretanha em admitir a derrota, já que o reino ilhéu estava
evidentemente incapacitado para intervir no continente. Mas sua antiga
tradição de potência marítima e a habilidade demonstrada nesse campo – a combinação
de sua grande marinha com um pequeno exército contra os flancos costeiros da
Europa – tornavam-na um fator que ele jamais poderia ignorar, mesmo quando o
objetivo principal da sua estratégia sempre fora a conquista de poderosos
aliados terrestres. Rússia e Grã-Bretanha haviam feito causa comum contra a
Alemanha na Primeira Guerra Mundial, como tinha acontecido contra Napoleão.
Durante quanto tempo a Rússia resistiria à tentação de renovar esses laços?
Se ela sucumbisse a essa tentação, Hitler se defrontaria com a possibilidade
não de uma guerra de duas frentes, mas de três, já que o apoio russo à
Grã-Bretanha robusteceria as gestões do presidente americano no sentido de
levar os Estados Unidos à guerra contra a Alemanha.
Mas não era preciso que as coisas
seguissem essa seqüência. Pois, “se a Rússia sair do quadro”, como Hitler
explicou aos seus chefes das forças armadas a 31 de julho de 1940, “a
Grã-Bretanha também perderá os Estados Unidos, porque a eliminação da Rússia
aumentaria muito o poderio do Japão no Extremo Oriente. Decisão: a destruição
da Rússia tem de ser parte dessa luta – quanto mais cedo ela for esmagada,
melhor”. Foi com este argumento que Hitler convenceu a todos da necessidade
de rapidamente planejarem a Blitzkrieg contra o Exército Vermelho.
Naturalmente, ele não levou em
conta os preliminares do que ainda era uma operação de contingência:
interferir na condução das relações normais entre as duas ditaduras, relações
estas regulamentadas pelo pacto de agosto de 1939 e por acordos subseqüentes,
celebrados sobretudo por Ribbentrop e Molotov, em Moscou, em setembro de
1939. Foi nos termos desses acordos que Stalin anexara os estados bálticos,
no começo de 1940, e a região fronteiriça da Bessarábia com a Romênia, em
junho daquele ano.
Hitler nada teria objetado se
Stalin tivesse parado por aí. Mas a anexação, feita pela Rússia, de parte da
Bucovina romena, que estava fora do pactuado, deu a Hitler motivos para
protesto e alarma. A Romênia, aliado em potencial, sob a liderança do fascista
Antonescu, era única fonte de petróleo natural da Alemanha. Hitler estava
decidido a preservá-la a qualquer preço, e para tanto toda a atividade
diplomática germânica se desenvolveu no sentido de garantir os interesses da
Alemanha na região, ainda que à custa da posição russa. A Hungria foi
subornada com uma parcela do território romeno e a Romênia foi aplacada com o
envio de tropas alemãs para proteger seus campos petrolíferos (garantia
contra anexações que a Rússia viesse a querer realizar). Os russos foram
informados de que essas medidas se destinavam a repelir qualquer intervenção
britânica na região. Não obstante, Stalin assustou-se com tais iniciativas,
como também com a invasão da Grécia pela Itália, em fins de outubro (que
fracassou). Em meados de novembro, enviou Molotov a Berlim, para obter
garantias de boa-vizinhança, mas Molotov não obteve êxito na missão. Se
tivesse tomado conhecimento de que Hitler planejava uma rápida campanha
balcânica para a primavera seguinte (“Operação Marita”), ele teria retornado
à Rússia ainda mais inquieto com a situação nos Balcãs. Se tivesse,
entretanto, adivinhado em que estágio se encontrava o planejamento da
“Operação Barbarossa”, o codinome da projetada invasão da Rússia, talvez nem
se atrevesse a voltar, pois esse plano jogava por terra toda a política
diplomática de sua pasta.
Hitler teria falado pela
primeira vez da intenção de atacar a Rússia com o General Halder, o Chefe do
Alto-Comando do Exército (OKH), a 2 de julho de 1940 (dia em que deu ordem
para a “Operação Leão-Marinho”, a invasão da Grã-Bretanha). Hitler nunca
pretendeu seriamente invadir a Inglaterra, talvez porque desconfiasse da
impossibilidade de a Luftwaffe vencer o Comando de Caças da RAF, ou talvez
porque já tivesse escolhido mentalmente a Rússia – e foi nos planos para a
Rússia que ele se concentrou daí por diante. A explanação do plano foi feita
ao chefe da seção de operações do seu próprio Estado-maior, o OKW, General
Jodl (que seria enforcado em Nuremberg, por seu papel no “preparo e execução
de guerra de agressão”). Este, por sua vez, ao explicá-lo aos seus auxiliares
diretos, a 19 de julho, provocou neles uma reação de descrença. Hitler havia
incumbido Halder de preparar os planos, ordem esta que o Chefe do
Estado-Maior do exército delegara ao General Erich Marcks. O plano de Marcks,
apresentado a 5 de agosto de 1940, fixava as linhas gerais que o plano
definitivo de invasão obedeceria.
Partia ele da suposição de que
os russos não atacariam os alemães, embora fosse conveniente se o fizessem
(Schlieffen fizera o mesmo juízo sobre os franceses antes de 1914,
erroneamente, como se viu), e que a Wehrmacht (as Forças Armadas alemãs)
desfrutaria de pequena superioridade em número de homens, uma superioridade
flagrante em unidades blindadas e certa superioridade na qualidade do
equipamento. Levando em conta a necessidade de manter guarnições nos países
ocupados, Marcks calculou que a Alemanha deveria pôr em campo 110 divisões de
infantaria, 24 divisões Panzer e 12 divisões motorizadas, contra 96 divisões
de infantaria russas (os russos chamavam Divisões de Fuzileiros), 23 divisões
de cavalaria e 28 brigadas blindadas (os alemães ainda ignoravam o
restabelecimento dos corpos e divisões mecanizadas de Timoshenko). Marcks
destinaria o grosso das divisões alemãs e dois Grupos de Exércitos centrais,
um operando de sul para leste, na direção de Kiev, capital da Ucrânia, o
outro na direção leste, da Polônia para Moscou, ao longo da grande rodovia
lateral que passa por Minsk e Smolensk, caminho que Napoleão e seu Grande
Exército haviam seguido em 1812. Haveria duas operações subsidiárias: a
primeira, um avanço sobre Leningrado, partindo da mesma base de operações do
mais setentrional dos Grupos de Exércitos centrais; a outra, um avanço sobre
Kiev, feito por forças teuto-romenas, operando pela Bessarábia anexada.
Todavia, os Grupos de Exércitos centrais eram os que teriam de fazer o plano
funcionar; uma vez alcançados os objetivos iniciais, Moscou e Kiev,
respectivamente, eles avançariam rapidamente um sobre o outro e completariam
o cerco de tropas russas a oeste deles. Este último objetivo era a meta
principal do plano de Marcks. O Exército Vermelho devia ser cercado e
destruído entre os rios Dvina e Dnieper, tudo dentro do período de nove a
dezessete semanas.
Este plano, mais tarde muito
emendado, lançou as bases da estratégia alemã para a “Operação Barbarossa”,
em particular as do exército alemão (como veremos, as concepções estratégicas
do exército e de Hitler mais tarde
vieram a chocar-se, com resultados dignos de nota). Não obstante, o “Plano de
Marcks” ainda era mais um esboço de planejamento do que propriamente uma
diretiva operacional, e, embora continuasse trabalhando nalguns problemas
isolados, o Alto-Comando da Wehrmacht (OKW), o Estado-Maior de Hitler para
planejamento e operações, passou a dedicar-se aos preparativos práticos. A
primeira tarefa era fazer a
transferência de grandes forças do teatro de guerra ocidental para o oriental
que, a 24 de outubro de 1940, atingiam o total de 35 divisões. Esta
gigantesca transferência de todo um Grupo de Exércitos, um dos três que em
maio haviam sido lançados contra os Aliados ocidentais, foi explicada às
partes interessadas, que por certo incluíam os russos, como se se tratasse
de, apenas, dar a essas divisões áreas mais amplas de treinamento do que as
encontradas no Ocidente, ao mesmo tempo que as afastava do perigo de ataque
aéreo britânico. Na verdade, certa redisposição de forças entre a França e a
Polônia era perfeitamente explicável, em termos militares, pois com três
Grupos de Exércitos – o grosso e a nata das suas forças de terra – destacados
para o oeste, a posição estratégica da Alemanha estava seriamente
desequilibrada.
Com o codinome Aufbau Ost,
estes trabalhos preliminares foram satisfatoriamente realizados pelo OKW. Ao
mesmo tempo, sua seção de operações preparava um estudo do ponto de vista
estratégico do problema da invasão, a ser apresentado a Hitler. As conclusões
a que ele chegou diferiam das do OKH: em lugar de recomendar a concentração
do principal esforço ao longo do eixo Minsk-Smolensk, a estrada para Moscou,
o OKW achava que o exército alemão invasor deveria ser dividido em três
grupos mais ou menos iguais, dirigidos respectivamente contra Leningrado, no
norte, e Kiev, no sul, bem como contra Moscou, no centro. Isto poderia
parecer apenas uma diferença técnica de tratamento dos dois Estados-Maiores,
não fosse o fato de o OKW também fixar que seus três grupos deviam manter
contato permanente entre si, nos flancos, avançando em linha. Esta sugestão,
embora protegesse contra certos riscos óbvios, certamente levaria o exército
alemão à conquista de apenas “vitórias comuns” que Schlieffen relutara tanto
em empreender havia trinta anos.
Entrementes, o Alto-Comando do
Exército (OKH) passara o verão aperfeiçoando as linhas gerais traçadas por
Marcks e, em fins de novembro, apresentou as conclusões a que chegara com a
rigorosa lógica do “Jogo de Guerra”, um exército tático em grande escala e
com mapas, um dos venerados métodos militares alemães de finalizar planos.
Recomendavam, em suma, essas conclusões, conforme palestra feita por Halder,
o Chefe do Estado-Maior do Exército, para uma platéia que incluía Hitler, uma
fusão de elementos do plano original do OKH com elementos do plano do OKW, ou
seja, um avanço com três Grupos de Exércitos, e não com dois, mais com ênfase
no esforço para Moscou. O trecho principal da palestra de Halder foi o
seguinte:
“Os centros de armamento russo
mais importantes estão na Ucrânia, em Moscou e Leningrado. A área operacional
será dividida em duas partes, norte e sul, pelos Pântanos do Pripet; na
metade sul, a rede rodoviária é ruim; ao norte, as ligações rodoviárias e
ferroviárias são melhores na área Varsóvia-Moscou. Este setor norte também
está mais fortemente guarnecido de tropas soviéticas, agrupadas na direção de
tropas soviéticas agrupadas na direção da linha de demarcação teuto-soviética
(dividindo em dois a Polônia ocupada). O Dnieper e o Dvina são as linhas mais
orientais que os russos têm de defender e um recuo maior desprotege suas
regiões industriais. Teremos que impedir qualquer concentração de resistência
a oeste desses rios, por meio da penetração de cunhas blindadas.
“Uma força de assalto
particularmente poderosa terá de atacar de Varsóvia para Moscou. Dos três
Grupos de Exércitos propostos, o setentrional estabelecerá seu ponto básico
em Leningrado, o meridional em Kiev, e do último Grupo de Exércitos, um
exército avançaria de Labun, outro de Lemberg (lwow) e um outro da Romênia. O
alvo de toda a operação será o Volga e a região de Arcangel: 105 divisões de
infantaria e 32 divisões Panzer e motorizadas (Panzergrenadier) seriam
empregadas, com elementos fortes destas (dois exércitos) seguindo
inicialmente na segunda leva”.
Com base nesta exposição, os
dois Estados-Maiores, OKH e OKW, prepararam em conjunto a diretiva final. Ela
foi apresentada a Hitler a 17 de dezembro de 1940 e emitida apenas em nove
cópias, supersecretas, no dia seguinte. Todavia, da noite para o dia Hitler
alterou fundamentalmente o que os seus consultores militares haviam
estipulado. A divisão de forças entre os três Grupos de Exércitos permaneceu
intacta, bem como suas tarefas iniciais. Mas assim que os exércitos russos
que defendiam a Rússia Branca (Bielo-Rússia – a região a leste da Polônia e
ao norte do Pripet) tivessem sido destruídos, elementos poderosos do Grupo de
Exércitos Centro seriam destacados para ajudar o Grupo de Exércitos Norte a
apossar-se da costa do Báltico e de Leningrado. Somente depois de completada
aquela operação é que se iniciaria o avanço que o OKH considerava decisiva.
Aí estava o ingrediente crucial
da “Operação Barbarossa”, como Hitler passou a denominar oficialmente a
Diretiva Operacional n° 21. Contudo, ela continha muitas outras coisas. O norte
da Rússia seria invadido por um exército de montanha, operando da Finlândia,
provavelmente em cooperação com o exército finlandês. O exército romeno, já
efetivamente controlado pelos alemães, forneceria grandes contingentes para
flanquear o avanço do Grupo de Exército Sul na direção de Kiev. A fronteira
eventual do avanço alemão foi fixada na linha Volga-Arcangel, além da qual a
“última área industrial que restava da Rússia nos Urais pode ser eliminada
pela Luftwaffe, se necessário”.
Os efetivos dos três Grupos de
Exércitos foram fixados. Integrariam o Grupo de Exércitos Norte o 16o e o 17o Exércitos, de 18
divisões de infantaria, o 1o Panzergruppe, mais tarde chamado
Exército Panzer; este contava com três divisões Panzer e três motorizadas, e era
comandada pelo General Hoeppner. O Comandante do Grupo de Exércitos era o
Feldmarechal Ritter von Leeb.
O Grupo de Exércitos Centro,
comandado pelo Feldmarechal von Bock, era formado pelos 4o e 9o
Exércitos, e mais 24 divisões de infantaria. Sua ordem de batalha
completava-se com os 2o e 3o Panzergruppen, comandados
por Guderian, o grande teórico dos tanques, e Hoth, que dividiam entre si 7
divisões Panzer e 7 divisões motorizadas.
O Grupo de Exércitos Sul, sob o
comando do Feldmarechal von Rundstedt, o “Cavaleiro Negro do Exército
Alemão”, consistia dos 6o, 11o e 17o
Exércitos, dos 3o e 4o Exércitos romenos e do 1o
Panzergruppe de Kleist. O 11o Exército e os dois exércitos romenos
marchariam destacados do corpo principal, que se concentraria a leste de
Lublin e Cracóvia, alinhados ao longo do rio Pruth, no extremo sul. A força
total de Rundstedt atingia 31 divisões, das quais 5 eram Panzer e 3
motorizadas. Portanto, relativamente, ela era a mais fraca em blindados.
As divisões Panzer, em relação
a 1939, eram menos numerosas, em termos de tanques. Isto se devia à formação
de toda uma nova série de divisões Panzer, medida determinada pela retirada
de quadros das divisões já existentes. Os resultados não foram de todo
prejudiciais, pois os efetivos originais, em tanques, das divisões Panzer –
quase 400 % eram altos demais, e muitos dos tanques (Mark II e mesmo Mark III
e Mark IV), era um complemento melhor, quando contrabalançado por um volume
bem maior de infantaria. Portanto, a nova composição de uma divisão
Panzer (Divisão Blindada, em 1941 era
a seguinte: um regimento de tanques, de dois (às vezes três) Abteilungen, com
150 a 200 tanques; dois regimentos motorizados de fuzileiros (Schützen) (que
em breve seriam chamados Panzergrenadier), de dois batalhões cada um, com os
soldados transportados em veículos blindados de meias-lagartas, e um batalhão
de reconhecimento de motociclistas. A artilharia, também motorizada,
compreendia dois regimentos de campanha, um médio e um antitanque. O Q-G
Divisionário controlava um batalhão de carros blindados de reconhecimento e
uma pequena esquadrilha de aviões de observação. As divisões de infantaria
motorizadas contavam com organização semelhante, embora, carecessem de
tanques e tivessem um regimento adicional de infantaria. A função dessas
divisões era acompanhar os Panzer e suplementar sua infantaria orgânica no
ataque concentrado, ou sempre que houvesse muito trabalho de limpeza em
bolsões de resistência isolados.
A quantidade de elementos
mecanizados nesses dois tipos de formação os distinguia muito das divisões de
infantaria comuns. O equipamento destas últimas praticamente não diferia do
da infantaria do Kaiser, em 1914. Baterias de artilharia e escalões de
suprimentos de primeira linha puxados a cavalo, batalhões de “pés de poeira”
com pesadas mochilas – não era com estas formações que os alemães venceriam
agora batalhas de cerco. Mas, como os acontecimentos de 1940, na França,
haviam mostrado, era a velocidade alcançada pelas pontas-de-lança blindadas
que contava na nova guerra, ao estilo alemão. Enquanto a infantaria
garantisse a manutenção de um avanço regular de 30 ou 40 km por dia, os
Panzer podiam correr o risco de avançar até 100 km. Nessas condições, só
tinham de resistir por dois ou três dias nos locais atingidos, para que a
infantaria, mais lenta, os alcançasse.
O término da concentração desta
vasta coleção de divisões mecanizadas para a “Operação Barbarossa” estava
marcado para 15 de maio. Elas avançariam para leste em quatro levas. A
primeira, quando a diretiva para a “Barbarossa” fosse emitida, estaria a
postos. A segunda chegaria em meados de março; a terceira, em meados de abril
e quarta em fins de abril. Quando se chegasse a este ponto, já não seria
possível disfarçar mais a importância do deslocamento. Mas antes que se
completasse a concentração planejada, o desenvolvimento livre dos planos de
Hitler para o teatro de operações do leste foi brutalmente interrompido por
acontecimentos nos Balcãs. Em fins de março, um grupo de oficiais
nacionalistas e antinazistas do exército iugoslavo, liderado pelo General
Merkovitch, derrubou a regência do Príncipe Paulo, pró-nazista, e denunciou a
assinatura do “Tratado Tripartite”, que subordinava seu país à Alemanha,
Itália e Japão. Hitler, que começava a impacientar-se com a falta de sucesso
dos italianos na sua guerra particular com a Grécia, decidiu intervir direta
e decisivamente nos Balcãs. Tropas que haviam sido destinadas à “Operação Barbarossa” foram reagrupadas e
realinhadas. Emitiu-se nova diretiva e, a 6 de abril, teve início a campanha
balcânica, de pequena duração.
A Iugoslávia capitulou a 17 de
abril; os exércitos gregos que lutavam na frente albanesa capitularam a 20 de
abril; o governo grego aceitou a derrota quatro dias depois e, nesse mesmo
dia, a força expedicionária britânica enviada da África por Churchill, para
ajudar os gregos assim que os alemães intervieram, começou sua retirada, em
parte através da ilha de Creta, que caiu em mãos alemãs como resultado de
dispendiosa operação aeroterrestre, a 26 de maio.
Contudo, a campanha balcânica
não resultou na transferência pura e simples de mais território para mãos
alemãs. Esta – considerado particularmente o significado estratégico do
território tomado – era bastante importante. Mas, de importância maior e mais
crucial foi o atraso imposto ao início da “Operação Barbarossa”. Planejada
para iniciar-se a 15 de maio, só na segunda metade de junho poderia ser
desfechada – um atraso de cinco semanas – semanas estas que, como Hitler e o
mundo mais tarde reconheceriam, talvez tenham sido a diferença entre o
sucesso e o fracasso para o exército alemão na Rússia. Cinco semanas é uma
enorme parcela do curto verão russo.
O próprio Hitler, embora
irritado com o atraso provocado pela campanha balcânica – e de início
realmente enfurecido pela “perfídia” da Iugoslávia – não ficou de modo algum
abalado por ela a ponto de decidir não prosseguir com seus planos. A
“Barbarossa” deixara de ser uma imposição apensa prática, para transformar-se
numa verdadeira obsessão. O codinome – o apelido de um imperador alemão que
conduzira seus exércitos na Terceira Cruzada contra os eslavos pagãos, no
século XII – deixa entrever a significação histórica que Hitler se atribuía,
e opressiva e impiedosamente preparava o modo como se daria a sua revelação.
Ele o transmitira a seus comandantes das forças armadas, num discurso
pronunciado em março daquele ano:
“A guerra contra a Rússia se
reveste de características que não podem permitir cavalheirismos: a luta é de
ideologia e diferenças raciais e terá de ser conduzida de maneira implacável
e inflexível. Todos os oficiais terão de se livrar de sentimentos obsoletos.
Sei que a necessidade do emprego desses meios na guerra está além da
compreensão dos senhores generais, mas... Insisto peremptoriamente para que
minhas ordens sejam executadas sem oposição. Os comissários (russos) são
portadores de ideologias diretamente contrárias ao nacional-socialismo, tendo
por isso de ser liquidados. Os soldados alemães culpados de violação do
direito internacional... serão desculpados. A Rússia não participou da
Convenção de Haia, portanto não tem direitos, nos termos da mesma”.
Para muitos, no exército
alemão, tais sentimentos eram intoleráveis, mas nenhum deles esboçou qualquer
reação. As ordens seriam, pela maioria, obedecidas dentro desse espírito.
Para os oficiais das SS, do partido e do Estado que estariam envolvidos na
administração e exploração do território russo capturado, o discurso de
Hitler simplesmente deixava explícitos os planos que há muito eles vinham
preparando. Nas suas mãos a Rússia viria a sofrer a morte, provocada por
milhares de “pequenas feridas”.
A grande penetração
A breve noite de verão de 21
para 22 de junho de 1941 – o solstício de verão, uma das datas místicas das SS
– passou quietamente por toda a extensão da fronteira da Rússia com a Europa
ocidental. O expresso Belim-Moscou atravessou-a na hora certa e os postos
aduaneiros permaneceram abertos.
Às 03:30 h intensa barragem de
artilharia caiu sobre ela, e as tênues defesas avançadas da Rússia
desapareceram debaixo de espessa cortina de fumaça. Logo após, a massa
inicial de infantaria e de blindados alemães partiu para o ataque. Um Q-G
avançado russo comunicou-se com um comando superior: “Estão atirando contra
nós. O que faremos?” “Vocês devem estar loucos”, foi a resposta, “e por que
seu comunicado não está em código?”
Contrariamente, porém, à crença
geral, os russos não foram tomados inteiramente de surpresa, a 22 de junho;
mais exatamente, os escalões mais graduados não foram. Timoshenko,
provavelmente com a aprovação de Stalin, na realidade mandou um aviso de
alerta aos Estados-Maiores dos distritos militares, advertindo-os da
probabilidade de um ataque alemão ao amanhecer do dia seguinte dando-lhes
ordens para que pusessem suas unidades em alerta.
Este aviso chegou tarde demais
para que pudessem ser tomadas providências efetivas contra o ataque. Na
verdade, a maioria das formações russas não recebeu aviso algum do ataque, e
foi vencida em suas posições. Isto não é de surpreender. As defesas das
fronteiras, que o Exército Vermelho só começara a fazer em setembro de 1939
(e, no setor sul, nas antigas províncias romenas, somente em junho de 1940),
não estavam organizadas, nem em resistência, nem em profundidade. Resistência
e profundidade – mais uma grande reserva para contra-ataque – são essenciais
para absorver um assalto blindado, e a Rússia não tinha nada disso. A “Linha
Stalin”, embora bastante fortificada em alguns trechos, estava muito atrás da
fronteira pós-1939 para poder dar-lhe resistência, fato que era agravado pelo
deslocamento que Stalin ordenara ao Exército Vermelho, quase que todo
linearmente feito. Contudo, onde quer que as unidades estivessem escalonadas,
em qualquer profundidade, o Alto Comando russo as mandava avançar para deter
a invasão nos primeiros dias. Esse tipo de decisão fazia apenas o jogo dos
atacantes.
A estratégia alemã na frente
central, ao longo da estrada Minsk-Smolensk para Moscou, era simples: cercar
o máximo possível as tropas russas que defendiam a área, isolando sua linha
de retirada para leste, sobre os rios Dvina e Dnieper, e destruí-las. Daí por
diante, o Grupo de Exércitos Centro deveria apossar-se da “Ponte Terrestre”
entre as nascentes do Dvina e do Dnieper (que correm, respectivamente, para o
Báltico e para o Mar Negro) e atravessá-la a caminho de Moscou.
A primeira fase do ataque do
Grupo de Exércitos Centro passou-se com um sucesso quase enervante. Seu
contingente de apoio da Luftwaffe, a Luftflotte (Frota Aérea) 2, destruíra
grande quantidade de aviões da Força Aérea Vermelha em terra e quando
encontrava oposição no ar, produzia-lhe pesadas baixas. Contra os pilotos e
aviões da qualidade e experiência dos da Luftwaffe, os russos, cuja nova
geração de caças modernos apenas acabava de entrar em serviço, não eram
rivais. Em terra, a sua infantaria, sempre valente, não tinha armas para
resistir à penetração das poderosas colunas Panzer; seus fuzis antitanques
não podiam penetrar a blindagem de um Mark IV, e seu canhão antitanque de 47
mm – excelente arma, que os próprios alemães mais tarde adotariam
entusiasticamente – ainda não havia sido distribuído em quantidade. Assim é
que as divisões do Grupo de Exércitos Centro, embora tivessem iniciado suas
operações com uma travessia de assalto de rios – o Niemen no setor norte, e o
Bug no setor sul da frente – não encontraram
dificuldade alguma na obtenção de um ponto de apoio na outra margem, e
em ganhar terreno rapidamente. Brest-Litovsk, a fortaleza de fronteira, onde
os alemães haviam ditado a paz para os bolchevistas 23 anos antes, resistiu
durante quase uma semana. Contudo, não deteve o avanço, embora bloqueasse
importante travessia do Bug, já que os alemães haviam deixado ali apenas uma
divisão para entretê-los (praticamente como tinham feito em Maubeuge, a
caminho do Marne, em 1914), enquanto construíam uma travessia alternativa
mais ao sul.
Essa penetração era muito
perigosa para os russos que se encontravam na frente do Grupo de Exércitos
Centro, e que formavam os 3o, 4o, 10o e 13o
Exércitos, já que a fronteira russa, a fronteira pós-1939 que Stalin
insistira em guarnecer cerradamente em toda a sua extensão, dobrava para
oeste naquele ponto, encontrando um grande saliente, chamado saliente de
Bialystok, em cujo lado oposto havia tropas alemãs que, deslocando-se também
da Prússia oriental, criava grave ameaça de cerco para todo o exército russo
que estava na zona de operações do Grupo de Exércitos Centro.
A avaliação que von Bock fez
dos resultados dos dois primeiros dias de combate levou-o a crer que, para
escapar a iminência de cerco, as tropas russas situadas do lado oposto talvez
estivessem, por ordem do Alto Comando, abandonando suas posições e fugindo
para leste, com a intenção de restabelecer suas defesas no Dvina-Dnieper.
Nessa conformidade, ele comunicou ao Alto Comando do Exército (OKH) que os
Panzergruppen, em particular o Panzergruppe 3 de Hoth, deveriam abandonar sua
missão e fechar a pinça em torno de Minsk – a 320 km das suas linhas de
partida – avançando a seguir diretamente para Smolensk sobre o Dnieper, mais
outros 200 km adiante. Mas o OKH, temendo o isolamento do Panzergruppe no
decurso de tal arremetida – e o isolamento leva à destruição na Blitzkrieg –
insistiu para que ele obedecesse à diretiva original: o fechamento da pinça
primeiramente em torno de Minsk e, só mais tarde, ao redor de Smolensk.
Assim, o Panzergruppe 3 começou a fechar a 24 de junho.
Era já evidente que os russos,
em fuga, não estavam realizando retirada estratégica. Haviam apenas abandonado
posições insustentáveis. As novas posições para as quais haviam fugido, entre
os braços constritores dos Panzergruppen e as divisões em marcha dos 4o
e 9o Exércitos, eram igualmente ruins.
Os russos não podiam vencer em
velocidade as colunas blindadas alemãs, que, avançando 80 km por dia, e mais,
eram as mais rápidas formações militares do mundo. Todavia, os temores do OKH
de que, se tivessem permissão de avançar sem levar em conta suas comunicações
com a retaguarda, os Panzer se estendessem excessiva e perigosamente, agora
começavam a mostrar-se verdadeiros, pois os russos, apanhados na armadilha e
lutando, por isso, desesperadamente, estavam encontrando pontos fracos nos
braços da pinça, particularmente no formado pelo Panzergruppe 2, de Guderian,
e escapando, através desses pontos fracos, para sudeste. Este desenvolvimento
não era nada agradável para o OKH, porque as formações em fuga se dirigiam
naturalmente para o Pripet, onde, espreitando do interior daquelas
impenetráveis fortalezas, provavelmente se constituiriam em séria ameaça aos
escalões de abastecimento alemães, quando estes passassem por ali, dias
depois.
A 25 de junho, diante desses
dois perigos – o isolamento de unidades do Panzergruppe 2 e a criação de uma
ameaça para a retaguarda do exército – o OKH deu ordens para que os 4o
e 9o Exércitos combatessem o inimigo mais de perto. O objetivo
disso era obter por meio de bala o que se obtivera pelo efeito moral na luta
com os franceses, em 1940 – a destruição da capacidade de resistência do inimigo.
Cercados, os soldados russos não se comportavam como os franceses em iguais
circunstâncias. Com freqüência, continuavam lutando até a morte.
Assim é que, por volta ainda de
25 de junho o Grupo de Exércitos Centro sustentava fogo em nada menos de três
batalhas de cerco: a de escala menor, em torno da fortaleza de Brest-Litovsk;
em torno de Bialystok, onde seis divisões russas haviam sido cercadas no
avanço inicial; e em torno de Volkovysk, onde outras seis divisões
encontravam-se cercadas.
A 29 de junho, o Grupo de
Exércitos engajou em mais outra batalha de cerco, destinada a subjugar um
grande bolsão, logo a oeste de Minsk, e no qual cerca de 15 divisões, algumas
refugiadas da fronteira, e outras, reforços vindos do interior da Rússia,
haviam sido encurraladas. No dia seguinte, reduzira-se tanto a resistência
nos bolsões de Bialystok e Volkovysk, que podiam ser retirados, com
segurança, grandes contingentes dos efetivos de infantaria dos cordões que os
cercavam; estes poderiam ser enviados para tapar as brechas existentes no
laço blindado que se apertava em torno do bolsão de Minsk.
Contudo, somente a 9 de julho é
que o bolsão de Minsk finalmente sucumbiu à pressão alemã, cuja infantaria
ainda tinha muita distância a percorrer, pela mais escassa e atroz rede
rodoviária, para ajudar os Panzer.
O OKH despachara ordens para o
estágio seguinte a 1o de julho, e, com estas ordens, uma diretiva
subordinando os Panzergruppen de Hoth e Guderian a Kluge que, ao entregar seu
comando, já designado 2o Exército, ao General von Weichs, passou a
comandar o 4o Exército Panzer. As primeiras ordens que recebeu em
seu novo posto foram no sentido de preparar seu exército para “penetrar na
direção de Moscou”. Nessa conformidade, o Panzergruppe 2 devia forçar uma travessia do Dnieper ao sul de
Smolensk, seguir a linha da rodovia Minsk-Moscou (infelizmente para os
comandantes de Panzer, que imaginavam dirigir seus tanques por uma verdadeira
Autobahn, grande parte desta ainda era apenas de terra batida) e tomar as Alturas
do Yelna, na curva do rio Desna. O Panzergruppe 3, no flanco norte, deveria
permanecer no eixo em que estava e prosseguir ao longo do Alto Dvina até
Vitebsk, onde deveria atravessá-lo e tomar o terreno ao norte de Smolensk. Os
exércitos de infantaria, 2o (ex-4o ) e 9o ,
insistiriam em seus esforços para se manterem o mais perto possível das
pontas-de-lança blindadas. O apoio da Luftwaffe continuaria sendo o mesmo de
antes: o Fliegerkorps II apoiando os exércitos no sul e o Fliegerkorps VIII
os do braço norte da pinça.
A operação começou a 3 de
julho, antes que a infantaria dos dois exércitos em marcha, do Grupo de
Exércitos, tivesse tido tempo de esmagar a última resistência russa no bolsão
de Minsk. O avanço para Smolensk, de início, foi organizado, forçosamente,
como uma operação blindada, mas não demorou que esbarrasse na oposição até
então encontrada. O Panzergruppe 2 foi detido quando tentava atravessar o
Beresina, perto de Borisov, na principal rodovia Minsk-Smolensk. Pelo menos
na opinião do Estado Maior do Grupo de Exércitos Centro, travessias subsidiárias em Rogachev, no Dnieper e em
Polotsk, no Dvina, não ofereciam eixos alternativos aceitáveis para avançar.
Esta situação criou problemas muito sérios ao desenvolvimento de operações de
Blitzkrieg. Encontraram-se os germânicos diante de duas soluções
insatisfatórias: aceitar o atraso e esperar a chegada da infantaria, ou
empenhar os blindados num ataque ao estilo da infantaria contra as posições
defendidas pelo inimigo. A espera da infantaria acarretaria perda de tempo
que o inimigo poderia aproveitar para melhorar suas posições e convocar
reservas; mas um assalto ao estilo da infantaria eqüivalia a expor unidades
de blindados e motorizadas, altamente treinadas (Panzergrenadier, como em
breve seriam chamadas), a baixas que não poderiam ser compensadas com
facilidade.
Bock decidiu correr o risco de
sofrer baixas, mas, acertadamente, resolveu concentrar os blindados do
Panzergruppe 2 antes de tentar o ataque, que seria desviado para o setor de
Mogilev, no Dnieper, e arremeteria contra Smolensk, percorrendo estradas
secundárias. A qualidade da resistência criada pelos defensores russos dessa
linha fluvial vital tornaria mais fácil planejar do que realizar essa missão:
somente a 10 de julho, uma semana depois de iniciada a operação, é que as
unidades do Panzergruppe 2 conseguiram obter pontos de apoio na outra margem.
Todavia, já então o
Panzergruppe 3 havia conseguido importante penetração no caminho norte para
Smolensk, tendo destruído as defesas russas no Dvina e estabelecido
importante cabeça-de-ponte em Vitebsk. De tal forma este desenvolvimento
pareceu promissor a Bock, que ele, por momentos, pensou em levar boa parte do
Panzergruppe 2 a participar na exploração partindo desse ponto. Mas os informes
sobre terrenos difíceis fizeram com que ele não desse as ordens necessárias,
e quando o terreno ficou seco, já os Panzer de Guderian haviam conquistado
sua própria cabeça-de-ponte perto de Mogilev.
Lutas muito duras nas
cabeças-de-ponte norte e sul, entre 11 e 13 de julho, levaram finalmente à
verdadeira penetração pela qual Bock, Hoth e Guderian tanto ansiavam. O
Panzergruppe 3, de Hoth, foi particularmente rápido em se afastar do rio e
pôde colocar uma divisão na estrada Smolensk-Moscou a 15 de julho. No dia
seguinte ele enviou uma divisão à cidade, capturando-a imediatamente, para
surpresa sua e dos defensores. Quando as outras pontas-de-lança do
Panzergruppe chegaram em Yelan, a 80 km a sudeste de Smolensk, a 17 de julho,
já o novo bolsão estava quase completo. Dentro dele havia grupos de divisões
russas – 67 perto de Mogilev, 34 perto de Vitebsk e um grande corpo, de 12 a
14 divisões, a leste de Smolensk. Nenhuma delas poderia ameaçar quase sem
munição e praticamente isoladas das fontes de reabastecimento. Contudo, era
preciso impedir que escapassem e obrigá-las a se renderem sem demora.
Como acontecera antes, deveria
caber à infantaria dos 2o e 9o Exércitos a maior parte
do trabalho, mas suas divisões estavam a cerca de 300 km atrás dos blindados
avançados, nesse estágio da batalha, em meados de julho, e não podiam andar
mais depressa: o máximo que se podia pedir delas era que percorresse 32 km
por dia. Com isso, os cordões, apressadamente feitos com tanques, veículos de
meias-lagartas e Panzergrenadieren a pé, não puderam impedir que grupos de
soldados russos escapassem para leste. Em certo local;, no vale do Dnieper,
vasto trecho do terreno ficara completamente desguarnecido, porque os
recursos de Guderian estavam todos empregados em outro local. Por essa
brecha, grande número de russos, muitos ainda em unidades formadas,
conseguiram escapar. Não se pode dizer que eles tenham escapado para um lugar
seguro – porque parte alguma da Rússia Ocidental poderia ser considerada
segura no verão de 1941 – mas pelo menos podiam lutar mais uns dias. Somente
a 27 de julho é que pôde ser erguida uma barreira perfeita em torno de todo
bolsão, e só a 5 de agosto é que toda resistência russa dentro dele
silenciou.
Isto deveu-se, em parte, ao
fato de ter sido a brecha do Dnieper usada, durante o período em que
permanecera aberta, não só como meio de fuga, mas também como canal para
reforço e abastecimento, o que os alemães demoraram a perceber. Essa
descoberta definiu um quadro dado pelo serviço de inteligência, que insinuava
que a resposta russa seria muito mais resoluta ao desafio da Blitzkrieg,
muito mais do que a que os alemães haviam encontrado no Ocidente. Diante da
arremetida alemã e do colapso palpável das suas defesas fronteiriças em quase
toda parte, passadas apenas algumas horas – sem falar da quebra do mito das
defesas inexpugnáveis e da invencibilidade do Exército Vermelho – a liderança
russa não perdera a cabeça. Foi criado um conselho executivo de guerra (GOKO)
a 23 de julho, formado por Stalin, Voroshilov (Comissário da Defesa), Béria
(Chefe da NKVD, a polícia Secreta do Estado), Molotov (Comissário de Assuntos
Exteriores) e Malenkov (representante de Stalin na máquina partidária).
Diretamente subordinado a esta Comissão de Defesa do Estado, surgiu um Estado
Maior militar operacional, o Stavka, que, quando da sua reorganização, a 10
de julho, era formado por Stalin, Molotov e Voroshilov do lado do partido, e
por Timoshenko, Budenny, Shaposhnikov, Chefe do Estado-Maior-Geral, e Zhukov,
o vencedor da batalha de Kholkin-Gol, contra os japoneses, em 1939. Essa
composição mista, de partido e exército, do Stavka era não só uma convenção
comunista, como também refletia a reimposição do controle político direto
sobre o exército do comando militar. O Comando Duplo (isto é, a divisão de
responsabilidades entre oficial e comissário) foi reintroduzido no Exército
Vermelho a 16 de julho.
Outra reintrodução, embora de
tradição política mais antiga, foi a execução dos generais fracassados
(oficialmente caracterizados como “culpados”): o Comandante da Frente
Ocidental, General Pavlov, cujas linhas de defesas tão pouco resistiram ao
avanço do Grupo de Exércitos Centro, foi fuzilado no começo de julho,
juntamente com seu Chefe do Estado-Maior e com o Chefe do Serviço de Comunicações.
Eles não seriam as últimas vítimas, tampouco as mais graduadas: unidades do
NKVD – “destacamentos de segurança de retaguarda” – foram colocadas atrás das
linhas de batalha russas para interceptar qualquer um – indivíduos ou
unidades formadas – que as abandonasse sem ordem.
Além de providenciar sobre o
exercício da autoridade, no nível mais alto e no mais baixo, Stalin e o
Stavka também estabeleceram, a 10 de julho, uma estrutura mais realista de
comando em campanha. Três novas Frentes foram criadas (uma “Frente” russa
eqüivalia a um Grupo de Exércitos Ocidental), com volume de tropa
aproximadamente idêntico ao dos três Grupos de Exércitos alemães que a elas
se opunham. O Grupo de Exércitos Sul (Rundstedt) era agora confrontado pela
Frente Sudoeste, comandada pelo Marechal Budenny, que, intelectualmente, não
se igualava a Rundstedt, mas era uma figura carismática do período heróico do
Exército Vermelho da Guerra Civil; para seu comissário político, Stalin
nomeou Nikita Kruschev, homem de sua confiança e ex-agente da coletivização
na Ucrânia. O Grupo de Exércitos Centro (Bock) passou a receber combate de
nova Frente Ocidental, comandada por Timoshenko, e o Grupo de Exércitos
Norte, por uma Frente Noroeste, sob o comando de Voroshilov.
Todavia, de toda essa
reformulação nada resultou que amenizasse o mais premente problema da Rússia,
que era basicamente a falta de pessoal bem treinado na frente de batalha e de
equipamento que nas circunstâncias pudesse merecer boa classificação. Em
meados de julho, suas baixas haviam atingido proporções espantosas. Mais de
3.000 aviões de sua força aérea haviam sido destruídos nos cinco primeiros
dias. Em terra, as baixas foram maiores ainda: das 164 divisões vermelhas
identificadas, o OKH afirmava, a 8 de julho, ter destruído 89, ou mais de
metade. Esses números, que num exame superficialmente realizado parecem
exagerados, ganham autenticidade incontrastável diante do que o Grupo de
Exércitos Centro demonstrou haver conseguido: a captura de 300.000
prisioneiros, 2.500 tanques e 1.400 canhões, desmantelando virtualmente, no
processo, quatro exércitos soviéticos. Na batalha do bolsão de Smolensk, que
começara quando Stalin reorganizou seu Alto-Comando, o Grupo de Exércitos
Centro fez mais 310.000 prisioneiros, tomando 3.200 tanques e 3.100 canhões.
Grande parte do equipamento era de segunda categoria – poucos dos novos
tanques T-34 ou KV-I haviam entrado em serviço – mas o pior é que não restava muita coisa nos
arsenais para compensar essas perdas. Quanto às baixas em homens, estas só
podiam ser substituídas por convocações das reservas ou das fileiras ainda em
treinamento da Osoaviakhim. As formações perdidas eram substituídas através
da criação de unidades de Opolchenie, a “milícia do povo”.
Apesar, porém, dos desastres e
dos desacertos de grande parte da máquina militar, havia poucos informes de
rendições voluntárias em grande escala. O apelo de Stalin para que se
travasse uma “Guerra patriótica” calara bem fundo no espírito do povo,
tradicionalmente muito ligado às coisas de sua pátria – os soldados russos
rendiam-se quando tinham de render-se, e às vezes isso acontecia em grandes
números. A maioria dos relatórios alemães da campanha salientam sua pertinaz
recusa em depor as armas, só fazendo quando completamente cercados e sem
munição.
Mas, para os alemães, no
momento, o estado moral russo não era o mais importante. A soma de vitórias
conquistadas, o dimensionamento do resultado dessas conquistas tendo em vista
o futuro da operação, pois não só o Grupo de Exércitos Centro vinha
colecionando resultados, isso tudo chegara a aturdir os germânicos.
O Grupo de Exércitos Norte, o
mais fraco dos três, com apenas 20 divisões de infantaria e um só
Panzergruppe, o de n° 4, comandado por Hoeppner, recebera como objetivo, na
diretiva da “Operação Barbarossa”, a conquista de Leningrado. Tinha também
que se apossar da costa do Golfo da Finlândia e destruir as forças russas que
fosse encontrando pelo caminho. Como a oposição dos russos ao ataque do
Panzergruppe 4, a 22 de julho, consistia de, apenas, uma divisão de
fuzileiros que ocupava uma frente de 65 km, foi-lhe muito fácil penetrar
rapidamente as defesas. Marchando em três colunas – o 18o Exército
ao longo da costa, o Panzergruppe 3 no centro e o 16o Exército à
direita, flanqueando as divisões mais setentrionais do Grupo de Exércitos
Centro, ele penetrou rapidamente a Lituânia e, a 30 de junho, havia
conquistado cabeças-de-ponte sobre o Dvina, ao longo do qual deveria estar a
“Linha Stalin”. Varando-a, o Panzergruppe, depois de um ou dois movimentos
falsos, chegou a Ostrov, do outro lado da fronteira russa, pré-1939, com a
Letônia, a 4 de julho. Dez dias depois, sem se deter diante das concentrações
russas com que foi esbarrando, o 41o Corpo do Panzergruppe 4
chegou à linha do Luga, o último obstáculo fluvial importante antes de chegar
a Leningrado, situado a apenas 96 km da cidade.
O Grupo de Exércitos Sul,
comandado pelo mais ortodoxo e talvez o mais impressionante dos oficiais
generais alemães, o Feldmarechal Gerd von Rundstedt, enfrentara, do mesmo
modo irresistível, as defesas russas no seu setor, ao sul do Pripet. Esse
Grupo de Exércitos era misto, formado de uma massa de manobra setentrional de
divisões de infantaria alemãs e de um Panzergruppe, o n° 1, tendo ao sul uma
força de divisões romenas e um corpo húngaro. Estas tropas estrangeiras eram
mal equipadas com armas francesas, fornecidas durante os anos da Pequena
Entente. Cabia a estas divisões-satélites realizar uma penetração a leste dos
Cárpatos, e depois marchar paralelamente aos exércitos alemães que avançavam
pela estepe da Ucrânia. Seu objetivo era Kiev, um dos mais importantes
centros industriais da URSS.
À penetração inicial do setor
atribuído ao Grupo de Exércitos, realizado no começo de julho, seguiu-se um dos
poucos contra-ataques em larga escala, montados pelo Stavka durante as
primeira semanas do desastre. O 5o Exército russo, que se
refugiara no Pripet, e o 6o Exército, que operava na imensa
estepe, tentaram, acertadamente em termos de bom senso tático, cortar a
cabeça da ponta-de-lança alemã, representada pelo Panzergruppe l, que
avançava sobre Kiev em ataques concêntricos. Mas, na prática, as
inexperientes formações russas mostraram-se incapazes de conter os alemães,
que logo formavam flancos defensivos e, depois de reunir forças suficientes,
rechaçavam os atacantes. O esforço russo salvou dois dos seus exércitos – o
12o e o 26o – do cerco, mas não alcançou o objetivo
almejado. Ao contrário, mal deteve o avanço do Grupo de Exércitos, cujos
Panzer, desimpedidos, tornaram a avançar velozmente, chegando a 16 km de Kiev
a 11 de julho.
Os resultados da luta nas
frentes dos três Grupos de Exércitos foram espetaculares. Os Grupos de
Exércitos Norte e Sul chegaram à distância que um tanque poderia percorrer
num dia, até seus objetivos principais, apenas um mês após o início da
batalha. No setor do Grupo de Exércitos Centro, a luta resultara em grandes
levas de prisioneiros e em baixas sem precedentes numa guerra, além de bater
novos recordes em velocidade de avanço: a 15 de julho as pontas-de-lança do
Grupo de Exércitos Centro estavam a quase 800 km a leste do ponto de onde
haviam partido a 22 de junho. Era natural que esses resultados levassem o OKH
e o OKW, na pessoa de Hitler, a crer que a “Batalha da Rússia” estava em
quatro semanas praticamente terminada, e que só restava impedir a fuga de
mais formações do derrotado Exército Vermelho para o leste. Todavia, ao
decidirem como fazer isso e como atribuir tarefas às formações vitoriosas do
Ostheer, - o Exército de Leste – seus comandantes viriam a entrar em sérias
dissensões.
Hitler e seus generais discordam
A confiança de Hitler em seu poder de raciocínio militar
desenvolveu-se a pouco e pouco. Ele provou estar certo – e seus generais não
– quando revelou que a invasão da Renânia, em 1936, e da Áustria, em 1938,
pelo exército alemão, não sofreria qualquer oposição. Também provou estar
mais certo que seus generais ao prever o desenrolar e a duração da Blitzkrieg
contra a Polônia, em 1939. Apesar de tudo isso, Hitler ainda não se sentia
suficientemente seguro para, em questões estratégicas de grande envergadura,
impedir que o Alto-Comando do Exército prevaricasse durante meses, no
decorrer do inverno de 1939-40, sobre os planos para a invasão do Ocidente.
As restrições do Alto-Comando não se restringiam à natureza ou sincronização
do ataque. Eram feitas também à necessidade de sua efetivação, e até, como no
caso de von Leeb, à sua moralidade. Tanto Brauchitsch, o Comandante-Chefe,
como Halder, o Chefe do Estado-Maior (do OKH), tentaram persuadir Hitler, não
uma vez, mas várias, de que a invasão da França pela Alemanha, sendo um
ataque de uma potência mais fraca a outra mais forte, estava fadada a
terminar em desastre. Mesmo depois de Hitler ter desprezado tais receios
peremptoriamente, os generais procuraram protelar o início da operação,
propondo planos palpavelmente irresolutos e avançando objeções técnicas às
propostas mais promissoras inclusive do próprio Hitler.
Acontece que a vitória alemã no oeste, pela perfeição
com que foi levada a efetivar-se, contribuiu muito para firmar o conceito de
Hitler como estrategista, tanto aos seus próprios olhos como aos dos seus
generais, pelo menos por algum tempo. Aliás, teria sido inconveniente pensar
o contrário, para homens prontos a receber o bastão de Feld-marechal das suas mãos (doze foram promovidos e
nenhum deles recusou). Contudo, no fundo os estrategistas militares alemães
tinham dúvidas sobre o talento de Hitler, no nível que eles denominam
operativ, nível intermediário entre o da tática e o da estratégia: o nível em
que as grandes decisões estratégicas são realmente levadas a cabo, apesar dos
esforços do inimigo para frustá-las – em suma, no mais difícil de todos os
níveis. O domínio da habilidade operativ, afirmavam os cérebros das forças
alemãs, só depois de longos anos de experiência e treinamento, na paz e na
guerra, seria perfeito, já que seu exercício exigia a mais íntima
familiaridade com o funcionamento de todas as formações subordinadas de um
exército. Hitler carecia, ou parecia carecer, dessa familiaridade. Daí as
restrições que os generais faziam à qualidade do seu raciocínio militar,
restrições que se apoiavam sobretudo nas demonstrações de insegurança que ele
dava com freqüência no decorrer das operações no oeste. Uma destas
demonstrações de insegurança está suficientemente constatada na decisão que
tomou de deter as formações blindadas a pouca distância do perímetro de
Dunquerque, no dia 26 de maio de 1940, quando a destruição da Força
Expedicionária britânica estava ao alcance da Wehrmacht. Como sabemos, Hitler
foi levado a tomar essa decisão a conselho de Rundstedt, um dos mais
respeitados – e mais ortodoxos – líderes do exército alemão. Este fato,
porém, não era do conhecimento dos militares, que viam em Hitler um homem
dotado de espantosa perspicácia estratégica, mas inadequado para o controle
de forças em campanha.
Realmente, seria estranho que tivessem qualquer outra
opinião, independente das evidências, pois não é de conhecimento de causa e
sensatez a demonstração que dá o Chefe de Estado que tenta dirigir por
controle remoto operações militares de grande envergadura (como Hitler viria
a fazer durante meses, e mesmo anos, até o fim da guerra). Também era contrário aos interesses da
Generalität alemã admitir que tal coisa fosse possível, pois significaria
abrir mão de direitos e responsabilidades inerentes ao comandante de campo de
batalha admitir que um homem, diante de um mapa, avaliasse melhor o moral de
seus comandados, a força ou as debilidades do inimigo e determinasse, ainda a
distância, todas as alternativas de uma batalha. A admissão desse fenômeno
por parte do comandante eqüivalia a um esvaziamento total do cargo, a um
rebaixamento à condição de simples mensageiro da vontade do Comandante Supremo.
A breve duração de todas as campanhas até então
realizadas pela Wehrmacht havia impedido muita intervenção de Hitler na sua
administração. Fator idêntico, ou talvez mais importante, fora a maneira
extremamente fácil como os grandes planos estratégicos haviam sido postos em
prática e obtido os resultados esperados. Durante o primeiro mês da “Operação
Barbarossa” parecia que o padrão talvez viesse a repetir-se: a grande visão
estratégica do Führer desenrolando-se majestosamente sob a direção perita do
militar profissional, para quem seu criador olhava apenas de maneira
benevolente e encorajadora.
Por volta de meados de julho começaram a surgir os
primeiros sinais de que a alegre divisão de trabalho estava prestes a ruir
por terra. Dados o caráter de Hitler e o vulto da campanha russa, não poderia
ter acontecido outra coisa. Os números envolvidos e as distâncias a serem
cobertas eram tão maiores aos que o exército alemão enfrentara até então; os
objetivos a serem alcançados, tão dispersos; a meta a ser atingida tão mais
grandiosa, que nenhum planejador, por mais atilado que fosse, e nenhum plano,
por mais amplo que fosse, poderiam prever todas as contingências. Ao
contrário, habilidades operativ da mais elevada ordem seriam necessárias para
que ao inimigo fosse arrancada a vitória dentro dos limites de tempo
instituídos por Hitler. Daí a maneira incipiente e inábil demonstrada pelas
forças agora espalhadas pela estepe.
O meio de intervenção de Hitler nos assuntos militares
era o OKW (Oberkommando der Wehrmacht), sobretudo na seção deste chamada
Wehrmachtführungstab, dirigida por Jodl. Pelo menos no início, as
responsabilidades do OKW não iam à atividade operacional e, na verdade, não
deviam estender-se ao controle das operações na Rússia (embora assim o fizesse
em “setores do OKW” como na África do Norte e, por estranha sutileza, na
Finlândia). O controle diário dos exércitos em campanha era exercido pelo OKH
(Oberkommando des Heeres), o Alto-Comando do Exército. Mas, naturalmente, era
no OKW que Hitler realizava diariamente duas conferências sobre a situação, e
era ali que os oficiais do OKH apresentavam seus relatórios.
Os dois oficiais chefes do OKH, Brauchitsch e Halder,
embora, a princípio, lutassem bastante pela autonomia operacional do
exército, não revelaram caráter suficientemente forte, infelizmente para o
exército, para conseguir essa autonomia. Halder, o Chefe do Estado-Maior, era
bastante inteligente para ver o que iria acontecer, ou melhor, o que estava
realmente acontecendo, em virtude da sistemática intervenção de Hitler nas
atribuições do OKH, mas era incapaz de combatê-lo. Brauchitsch, a quem cabia
também opor-se a essa intervenção, era o último oficial de quem isto seria de
esperar, já que construíra sua carreira bajulando Hitler. Indicado como
sucessor de Fritsch, demitido por falsas acusações de imoralidade, em 1938,
Brauchitsch imediatamente concordou com a remoção de vários outros oficiais
generais, que seus novos senhores consideravam inaceitáveis. Daí em diante,
não manifestou nunca disposição para discutir nada que viesse de Hitler. A
única vez que se encorajou a arriscar um mas, recebeu uma espinafração tão
forte, que decidiu nunca mais arriscar-se.
Mas, seja qual for o objeto preponderante no
comportamento dos generais germânicos, deu-se inevitável diferença de opinião
entre ele e seus comandantes em campanha. Este choque de opinião assemelha-se
muito ao que deu também no Alto-Comando Aliado na França, três anos depois,
quando, após a destruição do Westheer (o Exército de Oeste), na Normandia,
Montgomery e Eisenhower discordaram sobre a melhor maneira de explorar a
primeira vitória obtida. Montgomery era por uma “Frente Estreita”, um avanço
ao longo de um eixo nordeste, tendo tropas britânicas como ponta-de-lança e
apoiado por todos os recursos em transportes e abastecimento à disposição dos
Aliados, visando a penetrar a Muralha Ocidental alemã e capturar o Ruhr, seu
centro industrial. Eisenhower, preocupado com os efetivos das forças inimigas
que haviam escapado à destruição ou ao cerco na Batalha da Normandia, e
temeroso de que os recursos logísticos dos Aliados não pudessem estender-se
até onde Montgomery queria levá-los, defendia um avanço de “Frente Ampla”,
para que os exércitos aliados se pegassem com o inimigo na maior frente possível,
abrissem vários caminhos até a Alemanha e tomassem bases de onde pudessem
envolver o Ruhr, em lugar de penetrá-lo
Esta analogia não é lá muito perfeita, porque, como
veremos, Hitler procurava para o problema russo solução muito mais drástica
do que a que Eisenhower buscava para o seu; mas Montgomery e os generais
alemães esposavam pontos de vista e atitude igualmente radicais, ao mesmo
tempo que, no respeitante à logística havia importantes similaridades entre
as duas situações, que passaram despercebidas, a de 1941 e a de 1944. Isso
porque o exército alemão se via em grande parte obrigado ao uso das estradas
para transportar seus suprimentos, tal como aconteceria com os Aliados em
setembro de 1944. O caso primeiro não se devia aos efeitos destrutivos dos
seus ataques aéreos contra o sistema ferroviário russo, e sim à necessidade
de reduzir a bitola dos trilhos russos (159 cm) para o padrão europeu
ocidental (143 cm). Todavia, tal como acontecia com Montgomery, os líderes
dos Panzer não queriam saber de queixas sobre as dificuldades de transportar
suprimentos, por estradas ruins, semidestruídas pela guerra, de bases
distantes até uma linha de frente que não parava de mudar de lugar.
A primeira vez que Hitler insinuou raciocínio que o
levaria a sérios conflitos com seus generais foi a 8 de julho, quando deixou
claro estar pensando em tentar capturar a Ucrânia, em lugar de Moscou e
Leningrado, aparentemente por causa dos resultados econômicos que isto
oferecia. A medida, porém, envolvia uma inversão das prioridades estratégicas
estipuladas pela Ordem da “Operação Barbarossa”(Diretiva do Führer n° 21),
que prescrevia a destruição do Exército Vermelho da Rússia ocidental como seu
primeiro objetivo, a tomada de Leningrado e a costa do Báltico com objetivo n°
2, vindo Moscou em terceiro lugar, a menos que circunstâncias formidáveis
possibilitassem a montagem de operações simultâneas dirigidas contra duas
cidades ao mesmo tempo. De qualquer modo, a Ucrânia só depois de tudo isso
realizado é que seria visada.
Já em meados de julho era evidente que a destruição do
exército russo seria tentada não apenas através de pinças dos Panzer.
Particularmente perturbadora era a presença de um remanescente da força de
proteção soviética, representada pelo 5o Exército, dentro dos
Pântanos do Pripet. Exames posteriores revelariam que seu poder de ataque era
pequeno, mas as ameaças representadas por ele contra os flancos do Grupo de
Exércitos Centro, situado ao norte dos pântanos, e do Grupo de Exércitos Sul,
postado ao sul dele, eram o bastante para subentender que as linhas de
comunicação de retaguarda desses dois grandes agrupamentos corriam perigo.
Além disso, as próprias linhas de comunicação do 5o Exército
soviético, que o ligavam ao interior, continuava, abertas.
A 19 de julho Hitler emitiu importante Diretiva,
destinada a esclarecer a situação, reiterando que o objetivo básico da
operação era destruir o Exército Vermelho a oeste da linha Dnieper-Dniester,
particularmente o 5o Exército Vermelho, no Pripet, e os 6o
e 12o Exércitos, na
Ucrânia, mas estipulava que estas tarefas tinham de ser realizadas através do
desvio par o sul de grande parte dos efetivos de Panzer do Grupo de Exércitos
Centro. Ele concertaria ataques com as forças do flanco norte (o 6o
Exército alemão e o Panzergruppe 1 de Kleist) do Grupo de Exércitos Sul. O
resto dos blindados do Grupo de Exércitos Centro entraria em contato com o
Grupo de Exércitos Norte e apressaria a marcha sobre Leningrado.
Estava em curso nova interferência de Hitler no controle
operacional em escala maciça. Mas nem Brauchitsch nem Halder tentaram
discutir o problema com ele naquele momento. Aliás, é perfeitamente possível
que ainda uma vez estivessem de acordo com ele, com referência ao curso dos
acontecimentos. Quem reagiria, violentamente, contra a tentativa de cercear o
alcance da penetração nas fracas defesas russas e a progressão para leste,
seriam os comandantes de nível mais inferior, notadamente os comandantes de
Panzer e, em particular, Guderian, do Panzergruppe 2.
Mas eles ainda não tinham meios de fazer chegar seus
sentimentos a Hitler, que, cada vez mais alarmado com a intransigência das
formações russas cercadas, e talvez já começando a comparar as virtudes da
aquisição de território com a destruição de forças inimigas, emitiu, a 23 de
julho, um suplemento à Diretiva do Führer n° 33, que insistia na importância
da destruição de forças. Ela adiava o ataque a Moscou até que as operações de
limpeza em torno de Smolensk tivessem terminado, e teria posteriormente
confiado a missão às formações de infantaria. Como as unidades avançadas de
infantaria do Grupo de Exércitos Centro ainda estavam pelo menos a uns 350 km
da capital, este trecho da Diretiva pretendia claramente expressar mais
aspiração do que uma real intenção.
Todavia, a principal concentração de forças russas
continuava sendo a da frente do Grupo de Exércitos Centro, comandada pelo
Marechal Timoshenko, que desfecharia contra ele uma arremetida vigorosa mas
inoportuna, na terceira semana de julho. Na luta que se seguiu, as unidades
Panzer de Guderian e Hoth sofreram baixas que não podiam sofrer, já que
apenas o desgaste provocado pelo avanço reduzira seus efetivos de tanques em
50 %.
Aí estavam provas de apoio da opinião de Hitler, que o
OKH de modo algum refutava, de que “os russos não serão vencidos em encontros
de grandes proporções, não se entregam em grandes levas, porque simplesmente
não sabem reconhecer quando estão batidos. Portanto, eles têm de ser
esmagados aos bocados, por meio de pequenas operações táticas”(26 de julho).
De acordo com esse raciocínio e com linhas gerais estipuladas no suplemento à
Diretiva n° 33, Brauchitsch expediu ordens detalhadas ao Q-G operacional.
No tocante às operações do Grupo de Exércitos Centro,
ficou por ele estabelecido que esse grupo primeiramente destruiria o 5o
Exército soviético no Pripet, usando os Panzergruppen. Guderian, que fora
chamado do seu posto de comando para receber essas ordens, numa conferência
dos comandantes de Exército do Centro, no Q-G de Novi Borisow, ficou
ressentido com o que naturalmente considerava mau emprego dos seus tanques.
Entretanto, tendo também sido promovido a comandante de exército nessa
reunião (sendo, por isso, seu Panzergruppe rebatizado Armeegruppe Guderian),
ele decidiu não prender-se às instruções que lhe foram delineadas na
conferência. Nessa decisão, ele seria muito ajudado pelo fato de que sua
promoção o libertava do controle de Kluge, o comandante do 4o
Exército; ambos se detestavam mutuamente. Essa promoção subordinava-o apenas
a Bock, cujo Q-G estava consideravelmente mais à retaguarda que o de Kluge e
cujas idéias sobre a guerra blindada se assemelhavam mais às suas.
A técnica que Guderian escolheu como meio para
descumprir as ordens que lhe pareciam erradas pertence a uma venerável
tradição na história das desobediências militares. Ele iniciou a batalha de
modo que se tornou impossível, pelo menos pela maneira como se apresentaram
os acontecimentos, livrar suas forças até que tivesse vencido. O ponto onde
ele resolveu organizar a “ação de retardamento” foi Roslavl, uma pequena
cidade situada a 110 km a sudeste de Smolensk, entre o Desna e o Dnieper,
onde as estradas para Moscou, Leningrado e Kiev se encontram.
Os motivos alegados por Guderian, à parte conquistar um
ponto nodal tão valioso, era o rompimento do que ele declarou ser uma
concentração ameaçadora de divisões russas em torno da cidade. As divisões,
talvez em número de quatro ou cinco, por certo existiam, mas parece
improvável que fossem a ponta-de-lança de grande contra-ataque, como Guderian
insistia em chamá-las. Na realidade, elas haviam sido reunidas para penetrar
o bolsão de Smolensk, fosse para livrar ou para reforçar as unidades ali
presas.
A recorrer a essa evasiva, ele forçou a aprovação,
implícita ou explícita, de Bock, seu comandante de Grupo de Exércitos, que
não poderia ver com bons olhos um desenvolvimento de forças capaz de lhe
arrebatar o papel principal na frente russa. Também houve aprovação tácita do
OKH, cujo representante, comparecendo ao Q-G de Guderian a 31 de julho, lhe
dissera indiretamente que o exército não seria hostil a certa resistência, na
linha de frente, à tendência de Hitler de intrometer-se em assuntos
operacionais.
Independente da atitude de Kluge, Bock ou Halder, ou
mesmo de Hitler, parece improvável que Guderian tivesse concordado com
qualquer decisão que dispersasse os grupos Panzer que operavam no que ele
considerava ser o eixo decisivo, nem com um plano que os desviasse ainda que
temporariamente para outras frentes. Afinal de contas, Guderian praticamente
criara as forças Panzer sozinho, por certo estava mais intimamente
identificado com os princípios da tática da Blitzkrieg do que qualquer outro
general alemão, e tinha confiança ilimitada na sua eficácia. Para o general
dos Panzer, a constante preocupação quanto à segurança dos próprios flancos
ou tentativas de alcançar objetivos secundários, de passagem, eram igualmente
odiosas. O que contava era a velocidade ao longo da linha de ataque
principal, pois era isto que deixava o inimigo sem fôlego, provocava a
desorganização em suas fileiras, aumentava o espanto dos seus soldados,
cortava suas linhas de aproximação da frente ameaçada e destruía a
infra-estrutura do seu sistema de abastecimento e transporte. Por todos os
motivos, Guderian opunha-se previsivelmente ao encerramento do avanço sobre
Moscou, agora situada a 350 km das patrulhas avançadas das suas tropas
Panzer. Elas haviam percorrido 700 km em seis semanas. Levaria mais tempo
para capturar Moscou?
Todavia, na mesma noite em que Guderian iniciou a
ofensiva de Roslavl, chegou outra Diretiva do Führer, a de n° 34, afirmando
que Hitler reconsiderando assunto tratado na anteriormente baixada,
determinava que os grupos Panzer do Grupo de Exércitos Centro não deviam ser
emprestados a qualquer outro setor das forças em operação. O parágrafo
principal dizia o seguinte: “O desenrolar da situação nos últimos dias, o
aparecimento de forças inimigas mais poderosas na frente e nos flancos do
Grupo de Exércitos Centro, as condições do abastecimento e a necessidade de
dar aos Panzergruppen 2 e 3 cerca de dez dias para restaurar suas unidades,
tornam necessário adiar temporariamente as outras tarefas e objetivos”. Os
Grupos de Exércitos Norte e Sul teriam de se arranjar com as forças então sob
seu comando e avançar.
O raciocínio de Hitler, ainda que diferisse do esboçado
na diretiva, não ficara claro. Contudo, pode ser que ele tivesse aceito a
inevitabilidade de certo adiamento nesse momento (o sistema logístico alemão
estava muito desorganizado e, por certo, não poderia abastecer os Panzer num
avanço de 320 km), e decidiu aproveitar o tempo do adiamento para uma visita
aos Q-G de operação para colher impressões pessoalmente das circunstâncias e
ouvir opiniões. A 4 de agosto, ele visitou o Grupo de Exércitos Centro, em
Novi Borosow. Embora não o soubesse, foi uma visita arriscada, pois a equipe
de Bock incluía vários membros daquele grupo de jovens oficiais que estavam
planejando (ainda que de modo amadorístico) derrubar Hitler do poder. Como
não pretendia fazer violência contra ele, e como, naturalmente, os guardas SS
não permitiam que se aproximassem dele, seus esforços nessa ocasião
fracassaram. Não obstante, era um presságio do que viriam a tentar, com
crescente determinação, nos três anos seguintes.
De sua parte, Hitler fez
questão de entrevistar separadamente cada um dos comandantes de exército em
Novi Borosow, para que o conjunto das objeções à sua estratégia não superasse
a defesa que ele fazia da mesma. Era uma precaução sensata: quando perguntou
a Bock, Guderain e Hoth (comandante do Panzergruppe 3) quanto tempo cada um
deles precisaria para preparar seu avanço sobre Moscou, Bock declarou-se
pronto para iniciar imediatamente, mas Guderian pediu uma quinzena e Hoth,
três semanas. Reunidos, eles foram incapazes de oposição convincente ao plano
de Hitler, e, mesmo de obter dele a promessa de envio de quantidades
satisfatórias de tanques ou peças sobressalentes para substituir os
destruídos ou desgastados na avanço. E isto, apesar da extraordinária
confissão de Hitler a Guderian, de que “Se tivesse sabido que os números dos
efetivos de tanques russos que você d |