Barbarossa

A invasão da Rússia

 

 

Jamais foi lançada operação militar do porte ciclópico da Barbarossa. E nenhuma foi desfechada com tanto otimismo. “Só temos que meter o pé na porta da frente”, proclamou Hitler, “e todo o podre edifício desabará!”. Centenas de divisões seguiram a toda pressa as esmagadoras formações blindadas que penetravam com rapidez vertiginosa o coração da Rússia. Milhões de prisioneiros foram feitos; sangue e destruição, em escala nunca vista, pareciam confirmar a “conquista antes do Natal”. Mas o sucesso, tal como o fracasso, traz também problemas.

 

Choque de armas

 

É provável que a História venha a considerar o dia 27 de junho de 1941 como a data apocalíptica do calendário militar. Nenhum plano bélico do vulto da “Operação Barbarossa” havia sido até então executado, inclusive pela inexistência de técnica de organização, de transporte e de comunicações para aplicação em tão grande escala.

 

“Quando a ‘Operação Barbarossa’ for desfechada”, proclamou Hitler, “o mundo prenderá a respiração!”.

 

Mas tal não aconteceu, porque “o mundo” não estava interessado em questões muito afastadas dos círculos pessoais e quase domésticos. Os primeiros avanços da “Barbarossa” constituíram-se no maior espetáculo militar desde os acontecimentos de agosto de 1914, e a Europa Ocidental e os Estados Unidos observaram-nos com o tranqüilo desinteresse demonstrado pelo gado à passagem de um trem expresso. Mesmo aqueles que tinham por profissão a análise dos grandes eventos estavam mais interessados em calcular o grau de atrito a que o poderio alemão seria submetido antes do colapso inevitável da resistência russa, e, à medida que as pontas-de-lança blindadas alemães penetravam profundamente na Rússia, a impressão que deixava era de que a bazófia de Hitler, que a conquistaria antes do Natal, não era infundada.

 

“Basta arrombarmos a porta da frente”, dissera ele aos seus generais, “e toda a estrutura podre ruirá!”. Com o passar dos dias as linhas pretas estendendo-se cada vez mais para leste, nos mapas, o único exagero da declaração parecia residir no cálculo do esforço necessário contra “a porta da frente”. Além disso, não ocorria a dúvida que sempre surgira, no passado, no espírito dos militares quando diante de avanços tão rápidos. Parecia que ali não estavam ocorrendo recuos táticos, na tentativa de carregar o agressor para o fundo da armadilha - pois os exércitos russos vinham sendo enredados e aniquilados, e dentro das varreduras amplas das colunas blindadas estava o solo encharcado de sangue russo. Dezessete dias depois da primeira arremetida, 30.000 prisioneiros, 2.500 tanques, 1.400 caminhões e 250 aviões russos haviam sido capturados só na frente do Grupo de Exércitos Centro, enquanto que o serviço de reconhecimento informava que centenas de aviões russos haviam sido destruídos em terra.

 

Portanto, quando o Grupo de Exércitos Centro parou no Desna, no Ocidente como que morreram as esperanças quanto ao final do espetáculo, pois sensatamente era de crer que o poderio armado da Rússia estivesse virtualmente esmagado, e que os alemães estavam empenhados em trabalho de limpeza, reforçando tropas cansadas mas triunfantes, e preparando-se para a última e definitiva arremetida contra Moscou.

 

Os soldados alemães não viam as coisas assim, mas ao mesmo tempo não tinham que se preocupar muito com a situação. Era verdade que Ivã estava montando efetivos imediatamente à frente e já provara ser um combatente inflexível; não havia dúvida de que a luta difícil os aguardava - mas a vitória era tanto mais saborosa quanto mais duramente conquistada e, de qualquer modo, ela era coisa certa. Mais uma quinzena e o avanço recomeçaria com soldados descansados, depósitos reabastecidos e veículos substituídos - posto que haviam sido seriamente castigada, nas estradas difíceis, e muitas vezes quase inexistentes, da Rússia.

 

Mas o sucesso também traz problemas e, como John Keegan observa em sua brilhante análise do dilema com que Hitler se confrontava, no nível do Alto-Comando havia indecisão. O Fuhrer chegou mesmo a declarar-se nua encruzilhada difícil, no momento de decidir se visaria ao norte ou ao sul, depois de penetrar a chamada “Linha Stalin”.

 

Para espanto dos homens que estavam no Desna, eles viram-se privados do seu grande motivo de orgulho, e do seu escudo, o Grupo Panzer de Guderian, que, com fúria mal contida, e teve que se dirigir, em virtude de ordem recebida, para sudoeste, de volta a Kiev, enquanto que o 1o Grupo Panzer era mandado para o norte. E tinha início outra grande série de cercos, desta vez resultando em número muito maior de prisioneiros e despojos russos e numa vitória que, em termos de baixas, se constituía na maior catástrofe da história russa, e na maior realização isolada das armas alemães.

 

Mas perdera-se algo. Perdera-se tempo.

 

 

 

 

O Exército Vermelho

 

Quaisquer que fossem os motivos de Hitler para atacar a Rússia em junho de 1941, um era predominante: a certeza de que seria muito fácil a tarefa que teria de enfrentar. “Basta arrombarmos a porta da frente”, afirmava ele a Rundstedt, “e toda a estrutura podre ruirá!”

 

O que o teria levado a fazer uma estimativa tão errônea do seu adversário, que já era o maior poderio terrestre do mundo, como ele bem o sabia, pelas informações de seu serviço de inteligência sobre o número de soldados e a quantidade de armas que possuía? É verdade que em seus discursos e escritos ele salientava sempre a inferioridade natural dos eslavos em relação aos teutos, mas esses pensamentos destinavam-se exclusivamente ao consumo público. Hitler jamais permitiu que se contestasse qualquer julgamento que fizesse sobre questões de real importância. Poderia ele ter-se deixado influenciar pelas lembranças que tinha do desempenho do exército russo durante a Primeira Guerra Mundial, período importante da formação da vida de Hitler, quando todas as grandes vitórias da Alemanha haviam sido conquistadas na Frente Oriental, e a maior destas, que o mundo ocidental praticamente esquecera, tinha ocasionado a derrota da Rússia e a rendição das suas províncias mais ricas? Talvez sim; mas, por mais lamentável que a arte militar tzarista se tivesse revelado no começo daquela guerra, e apesar do espírito derrotista dos exércitos do Governo Provisório Russo, no fim do conflito, esses mesmos exércitos chegaram a atingir índices elevados em matéria de realização militar, tanto no ataque quanto na defesa, quando o soldado russo tradicionalmente mostrava o melhor de si. Além disso, Hitler conhecia suficientemente a História para saber que a Rússia conquistara o respeito de toda a potência européia com que havia lutado, e o Fuhrer era bastante realista para aceitar o fato de que os elementos militares russos - “volume de tropa, espaço, terra calcinada, “janeiro e fevereiro” aos quais se deveriam acrescentar também a bravura e a abnegação dos seus soldados - eram inerentes ao país e ao povo, independente do regime vigente. A longo prazo, esses elementos estavam fadados a se fazerem sentir.

 

Mas Hitler não pretendia que houvesse nenhum “a longo prazo”, tão convencido estava de que a guerra seria breve, em parte pela velocidade e poder de penetração de suas forças Panzer, em parte pelas vantagens que seus generais saberiam tirara dos erros que os russos cometeriam na direção das suas formações. Ele acreditava na anulação total da bravura demonstrada pelo soldado russo pelos erros de julgamento que o Alto-Comando soviético fatalmente haveria de cometer. O recente desempenho do Exército Vermelho na Finlândia, desempenho absurdamente fraco, mostrara que seu Alto-Comando estava sujeito a esses erros devido à natureza da estrutura de comando.

 

O Conde von Schlieffen, que traçara os planos alemães para a guerra de 1914, baseara seus cálculos na reputação de ineficiência do Estado-Maior-Geral russo. Isto levava Schlieffen a planejar um golpe decisivo contra os franceses enquanto se poderia esperar que os russos, seus aliados, ainda estariam nos estágios preliminares da mobilização.

 

Hitler, porém, não levou em conta coisa alguma do que estabelecia o antigo plano. Considerou, antes, uma falha fatal que admitia existir no Comando Militar Soviético, introduzida pelos líderes bolchevistas e ampliada por Stalin através de expurgo que fez realizar no exército em 1937-38.

 

Quanto a isto, Hitler, sem dúvida, tinha certa razão. A pergunta “Quem é que manda?” permanece não respondida entre o exército e o governo, até mesmo nos estados mais antigos; nos mais recentes, ela sugere sempre disputa, freqüentemente violenta, sobretudo nos estados de origem revolucionária. Se tal não acontecer na Rússia Soviética - um estado revolucionário que só foi salvo da extinção, provocada pela contra-revolução e pela invasão estrangeira, graças aos esforços do incipiente Exército Vermelho na Guerra Civil - é porque os líderes bolchevistas, desde os primeiros momentos da sua existência, tomaram o cuidado de encostar em cada oficial do Exército Vermelho (embora a palavra “oficial” não fosse usada, por ter sido proibida) um comissário ou assistente político para observar suas ações.

 

De acordo com este sistema, o comissário tinha sempre precedência sobre o soldado na área das decisões políticas, e teoricamente tinham ambos o mesmo poder de decisão na esfera dos assuntos militares. Para formar a oficialidade do Exército Vermelho, que de um punhado de “guardas revolucionários” de confiança passou a vários milhões em pouquíssimo tempo, a liderança bolchevista valeu-se dos serviços dos ex-oficiais tzaristas de formação e treinamento exatamente iguais aos daqueles que comandam os Exércitos Brancos, com os quais estavam em guerra. Essa dependência dos oficiais tzaristas continuaria até bem dentro da década de 1920, e mesmo depois que números suficientes de jovens comunistas ingressaram no exército, saídos das novas academias, ainda havia necessidade de ex-tzaristas nas fileiras superiores. Já então muitos tinham demonstrado, aparentemente para satisfação geral da liderança, lealdade para com a revolução e para com o estado comunista, entre eles Tukhachevsky, ex-oficial da Guarda do Tzar, que atingira, aos 25 anos, o comando de um dos exércitos bolchevistas, na Guerra Civil. Depois da Guerra Civil, os bolchevistas, não mais precisavam dos ex-oficiais tzaristas, que começaram a ser demitidos, mas Tukhachevsky, que dirigira o avanço sobre Varsóvia, em 1920, e esmagara o levante naval em Kronstadt, em 1921, já estava no caminho que o levaria ao comando-supremo do Exército Vermelho, na década seguinte.

 

Apesar da conversão de oficiais, como Tukhachevsky, à nova ideologia, e apesar da hostilidade de alguns comandantes completamente “vermelhos” ao sistema de comissariado, foi este o procedimento que o partido conservou durante toda a década de 1920 e até começos de 1930. Todavia, embora insistisse na necessidade da manutenção dos comissários, o partido pouco fazia no sentido de selecionar os elementos que se candidatavam ao cargo ou de educar os que já estavam em função. Como resultado, o comissário era em geral um funcionário honesto mas desqualificado para o exercício do cargo e em relação aos quais os líderes vermelhos mais enérgicos não revelavam muita tolerância.

 

O oficial soviético, por outro lado, sob a inspiração de Tukhachevsky e seus assistentes, foi gradativamente superando o comissário nas aptidões profissionais. Havia cooperação secreta com o exército alemão, cooperação que os germânicos acolhiam por precisarem realizar nas áreas russas o treinamento e as experiências com equipamento bélico proibido pelo “Tratado de Versalhes”; os russos, por sua vez, viam nessa cooperação a oportunidade de se adestrarem nas novas técnicas militares. Isto ajudou a fazer do Exército Vermelho, por volta do começo da década de 1930, um dos mais modernos do mundo. Ele começara a fazer experiências com desembarques aéreos de grandes unidades, tanto por aviões como por meio de pára-quedas, e a manobrar grandes formações de tanques, que eram essencialmente desenvolvimentos dos famosos protótipos Christie que a Rússia comprara ao projetista americano em 1931.

 

Esta profissionalização do Exército Vermelho recebeu o selo da aprovação partidária em março de 1934, quando finalmente o princípio do controle duplo foi abolido, limitando-se a atuação do comissário aos conselhos de educação política. No ano seguinte, os títulos formais de postos militares (durante a revolução substituídos por eufemismos como “especialistas de comando”) foram reintroduzidos, incluindo a nova distinção de marechal, à qual os cinco mais importantes líderes soviéticos foram promovidos. Estes eram Tukhachevsky; Voroshilov, Comissário da Defesa, veterano agitador político, ex-membro do 1o Exército de Cavalaria Vermelho e associado íntimo de Stalin; Yegorov, Chefe do Estado-Maior e ex-membro do 1o Exército de Cavalaria; Budenny, ex-suboficial tzarista promovido a general de cavalaria (também ex-membro do 1o Exército de Cavalaria); Clucher, outro ex-sargento Tzarista, herói da guerra civil, ex-consultor militar de Chiang-Kai-shek e comandante do semi-autônomo exército da Sibéria.

 

A crescente profissionalização do exército se fez acompanhar de profundas modificações que o transformaram numa corporação totalmente ativa. Até então, a infantaria do Exército Vermelho pertencera na maioria às formações da Milícia de Cidadãos, sediadas numa área urbana e cujos soldados só esporadicamente treinavam. As alterações introduzidas previam também o serviço obrigatório do conscrito, realizado de uma só vez, nas unidades formadas para o serviço realmente ativo, ao mesmo tempo que Stalin decretava a liberação de verba destinada ao adestramento de grandes massas de cidadãos civis em pontaria, saltos de pára-quedas (não de aviões, mas de arneses especiais ligados a elevadas torres) e na defesa civil.

 

Coincidia o aumento do contingente permanente do Exército Vermelho com as idéias que Tukhachevsky e dos generais soviéticos de mentalidade idêntica. Mas seu efeito foi menos eficaz na prática do que na teoria, pois ele introduziu no exército muitos camponeses descontentes com a coletivização da agricultura, iniciada em 1931, que demonstraram empenho muito pequeno durante o treinamento militar. Alguns oficiais graduados ficaram tão alarmados com a transformação do exército, por causa do comportamento das unidades conscritas, que começaram a surgir pedidos de modificação no programa. Na Sibéria, o Marechal Blucher conseguiu obter concessões, não estendidas, porém, ao resto do país.

 

Aliás, como teria Stalin concordado com isso, quando apenas havia acabado de completar o expurgo do partido e na NKVD (a Polícia Secreta)? Embora estivesse firmemente controlados estes dois órgãos, havia um terceiro, de igual importância, com possibilidade de o derrubar, se seus líderes assim o desejassem, o exército. Voroshilov, que ocupara o posto de Comissário da Guerra desde 1925, parecia ser leal, mas também era, profissionalmente, o de menor influência dos cinco marechais, e provavelmente era quem tinha o menor apoio, correspondente à sua posição, do corpo regular de oficiais. O restante, e o grosso das fileiras superiores do Exército Vermelho, pessoalmente nada deviam a Stalin Já de haviam iniciado na carreira das armas antes que estes subissem ao poder e sua promoção dependera mais dos próprios esforços ou da estima dos colegas do que da intervenção do partido ou de favores do ditador. Agora que estava excitado pela atmosfera gerada pelo expurgo do partido, acreditando um pouco nos perigos que ele próprio inventara, ou talvez embriagado pelo prazer de derramar sangue, não surpreende que Stalin estivesse decidido a não parar até que todos os seus inimigos, reais, potenciais ou imaginários, tivessem recebido uma bala na nuca.

 

Também é possível que Stalin tivesse conseguido provas da existência de uma conspiração contra seu domínio pessoal, sendo quase certo que a Gestapo tenha apresentado um dossiê falso, sugerindo que Tukhachevsky estava trocando informações secretas com o Estado-Maior-Geral alemão. Esses boatos permanecem incomprovados. Não obstante, Tukhachevsky se havia comportado insensatamente durante o expurgo do partido, sobretudo no decorrer de uma viagem que fizera à França - um deleite sem paralelo para um oficial soviético - e, o que era mais agourento, também fora acusado por um réu, durante um dos falsos julgamentos partidários, de ter estado em contato com Trotsky, já exilado. Seja qual for a verdade disso, ou de quaisquer alegações feitas contra ele ou qualquer outro oficial, Tukhachevsky foi um dos primeiros a serem presos e mortos. Ele e mais sete generais foram julgados e fuzilados nos dias 11 e 12 de junho de 1937.

 

Este episódio, pequeno mas brutal, instituiu e caracterizou o holocausto que se seguiria. Por volta do outono de 1938, como resultado de execuções sumárias e de aparatosos julgamentos falsos, o Exército Vermelho perdera quase metade dos seus oficiais: três dos seus cinco marechais; 13 dos 15 comandantes do exército; 57 dos 85 comandantes de corpo; 110 dos 195 comandantes-de-divisão e 220 dos 406 comandantes-de-brigada. Nos escalões inferiores, calcula-se que os golpes foram ainda mais pesados, embora de coronel a capitão as penas fossem quase sempre de prisão. No Alto-Comando, porém, político e militar, a morte era sentença quase certa. Os Subcomissários da Defesa, em número de 11, foram fuzilados, bem como 75 dos 80 membros do Soviete Militar, criado em 1934; todos os Comandantes Militares de Distrito e a maioria dos seus Chefes de Administração Política (isto é, comissários graduados).

 

O método adotado por Stalin na condução do expurgo deixou em todos a impressão de enorme confusão. Se, por um lado, eliminou muitos ex-oficiais tzaristas e comandantes revolucionários com larga folha de serviço prestados à revolução vermelha, por outro lado conservou em seus postos famosos ex-oficiais do regime deposto. Shaposhnikov, que estudara na Imperial Escola do Estado-maior-Geral e perdera as graças de Stalin em 1937, em substituição a Yegorov, de origem camponesa, e conseguiu manter-se no cargo durante vários anos, só se demitindo em virtude de problemas de saúde. Também os comandantes militares não sofreram mais que os políticos, já que os comissários também foram executados em número talvez muito maior. Em tal conjuntura, o melhor modo de sobreviver parece que era a associação com os elementos do 1o Exército de Cavalaria da época da Guerra Civil, a força anticossaca que dera apoio político a Stalin e cujos métodos de operar restrições por parte de Tukhachevsky.

 

Foi este o 1o Exército de Cavalaria que, depois do expurgo, subiu ao poder, por intermédio de seus dirigentes: Budenny, Timoshenko, Kulik e Zhukov. Todos desfrutavam da proteção de Stalin. Se antes lhe deviam muito, agora lhe deviam tudo, inclusive a vida. É, porém, duvidoso que Stalin, em troca dessa simpatia, recebesse a proteção que esperava: em Timoshenko ele tinha um comandante capaz, se não inspirado; em Zhukov, um general talentoso mas muito moço, sem a vivência necessária ao pleno desenvolvimento do espírito; em Budenny, uma figura de soldado apenas decorativa, com idéias táticas muito superficiais e concepções estratégicas obsoleta e, em Kulik, um Chefe do Departamento de Material Bélico (sucessor de Tukhachevsky) muito confuso, que advogava a retirada de armas automáticas leves do exército (alegando que eram inadequadas para os soldados) e a suspensão da produção de canhões antitanques e antiaéreos. Ele também interpretara mal as provas recolhidas pelos observadores do Exército Vermelho durante a Guerra Civil Espanhola (na qual grande parte do equipamento russo fora experimentada) sobre o uso de blindados, decidindo, baseado nas suas conclusões, dissolver as grandes formações blindadas que Tukhachevsky estivera organizando, e redistribuindo os tanques em pequenas unidades, entre a infantaria. O efeito desses erros de cálculo e, de modo mais geral, das comoções que lhes tinham dado origem, só foram percebidos fora da Rússia em 1940, depois que Stalin insensatamente declarou guerra à Finlândia.

 

A origem da conseqüente derrota, altamente “embaraçosa”, foi o desejo de Stalin de assegurar a transferência ou o arrendamento de território finlandês adjacente aos acessos às suas bases navais no Báltico. A recusa da Finlândia em concedê-lo levou ao rompimento de relações diplomáticas e, a 30 de novembro de 1939, a um ataque total russo pelo Istmo da Carélia, o corredor terrestre que liga o sul da Finlândia à região de Leningrado. Embora desfechado com o apoio de considerável volume de tropa, ele foi repelido, assim como os ataques ao longo da fronteira terrestre russo-finlandesa, acima e abaixo do Círculo Ártico. Somente no começo de fevereiro de 1940, depois da concentração de reforços da ordem de quase um milhão de soldados, e de prolongado bombardeio das posições defendidas pelos finlandeses na “Linha Mannerheim”, é que o Exército Vermelho finalmente conseguiu penetrar, obrigando os finlandeses a pedir a paz um mês depois. Essa eventual recuperação do prestígio perdido deveu-se à liderança e à habilidade de comando de Timoshenko, muito superiores às do comandante original na frente finlandesa, o Marechal Voroshilov, que, daí por diante, retornou ao trabalho de natureza política, muito mais adequado ao seu temperamento.

 

O padrão e o resultado da guerra finlandesa, na qual, durante todo um inverno, uma nação de três milhões e meio de habitantes não só contivera, como também cercara o exército de uma nação de mais de cem milhões, ridicularizando seus líderes, pouco fizeram para realçar o prestígio militar soviético. Aliás, foi tão ardente o entusiasmo despertado no Ocidente pelo desafio finlandês aos russos, que a Grã-Bretanha e a França quase intervieram do lado da Finlândia. Tivessem esses países feito tal coisa, sem dúvida teriam lamentado o resultado final, mas o resultado imediato acentuaria a sensação de frustração dos russos.

 

Contudo, a prazo mais longo, as lições da campanha finlandesa, ainda que difíceis de engolir de uma vez só, mostraram-se de grande utilidade para os russos. Os observadores estrangeiros - Hitler principalmente - concluíram que, pelo desempenho medíocre dos russos, suas falhas - exatamente as mesmas apresentadas contra o exército alemão da Primeira Guerra Mundial, bem inferior ao da Segunda - eram irremediáveis e que, em qualquer campanha maior, os russos amargariam os mesmos reveses de Tannenberg e dos Lagos Masurianos, em 1914. Ineficiência, falta de previsão, confusão: estes eram os defeitos com os quais qualquer inimigo da Rússia poderia contar, segundo tudo levava a crer, com toda a segurança e que só eram redimidos pela bravura do soldado comum.

 

Contudo, a Rússia e seu exército não desperdiçaram a lição recebida na Finlândia, tanto que, assinado o armistício, muito esforço foi desenvolvido no sentido de repensar todo o plano militar. Outra campanha, a travada por Zhukov contra os japoneses intrusos na fronteira mongólica com a Sibéria, em maio de 1939, e que quase passou despercebida no Ocidente, oferecera provas muito diferentes do valor do Exército Vermelho. Timoshenko, que assumira o comando de fato em lugar de Voroshilov, providenciou para que aquilo que um pequeno destacamento do Exército Vermelho realizou num conflito localizado se tornasse o padrão dos operações do exército. A vitória de Zhukov implicava o uso de grande quantidade de blindados, indício de que Timoshenko havia feito reviver o corpo de blindados – formações de duas divisões de tanques e uma divisão motorizada – que Tukhachevsky organizara antes de sua queda. Sob a influência desses acontecimentos e do novo comando, duas coisas de grande significação militar aconteceram: autonomia para os comandantes das forças armadas na tomada de decisões em assunto de natureza militar e a colocação dos comissários, pela segunda vez, como consultores políticos, apenas. Ao mesmo tempo, muitos dos oficiais aprisionados ou banidos durante o grande expurgo militar foram reintegrados e se emitiram novos regulamentos de treinamento, baseados na experiência da Guerra da Finlândia e nos relatórios das operações alemãs na Polônia e na França.

 

Não seria possível consertar tudo no pouco tempo disponível, como ficaria provado. O expurgo desfechara um golpe quase mortal na autoconfiança  do corpo de oficiais, coletiva e individualmente, tornando improvável a oficialidade de categoria média ou abaixo da média – por definição, a maioria – arriscar uma linha de ação independente quando em contato com o inimigo (aliás, a obediência extremamente rígida às ordens era uma das principais deficiências russas). Por outro lado, a propaganda partidária, apesar das humilhações da Guerra Finlandesa, fez que se desenvolvesse no soldado russo a impressão sem dúvida falsa de que o Exército Vermelho era imbatível, e que merecia por parte de todos a mesma confiança que depositavam na infalibilidade do julgamento do Politburo. Não obstante, até o verão de 1941, muita coisa se fez para restaurar o equilíbrio do Exército Vermelho e, independente do quanto estivesse por ser feito, só o seu tamanho e o volume do seu equipamento bastavam para fazer com que qualquer atacante em potencial parasse para pensar.

 

À parte a Osoaviahlim e as reservas treinadas, estas últimas produto do sistema de conscrição universal instituído em meados da década de 1930, o Exército Vermelho na primavera de 1941 tinha, em sua ordem de batalha, entre 230 e 240 divisões, a maioria das quais com efetivos completos; além disso, umas 170 estavam dentro do alcance da fronteira ocidental. A maioria dessas era formada das chamadas Divisões de Fuzileiros (infantaria), de cerca de 14.000 homens, sem muitos transportes mesmo hipomóveis. Quanto às divisões de tanques, haveria pelo menos 22 e no máximo 60, cada qual formada de dois regimentos de tanques, um de infantaria transportada em caminhões e um regimento de artilharia. Havia pelo menos 13 divisões motorizadas, nas quais esta proporção entre tanques e infantaria era inversa. Estes dois tipos de divisão eram os equivalentes exatos das Divisões Panzer alemãs – e das que mais tarde seriam chamadas de divisões Panzergrenadier – embora os russos conseguissem manter os efetivos de tanques de seus regimentos blindados num nível muito superior ao dos alemães.

 

Contudo, grande parte, se não a maior, do poderio ofensivo e defensivo do Exército vermelho foi anulada pelo estranho plano de deslocamento que Stalin impusera às formações de campanha no começo do verão de 1941. Naturalmente, as fronteiras da Rússia  naquele ano, e naquela estação, eram diferentes das que teria tido de defender dois anos antes, pois, em quase toda parte, elas estavam bem mais para oeste do que a linha de 1939. A anexação dos estados Bálticos – Lituânia, Letônia e Estônia – tinha trazido a fronteira russa até a fronteira norte da Prússia Oriental; a divisão da Polônia com a Alemanha avançara o setor central da fronteira quase até Varsóvia e no sul, a anexação da Bessarábia arrancada à Romênia em 1940, havia levado as tropas russas para a outra margem do Dniester até o Pruth. Por mais que a aquisição de todo esse território pudesse agradar a Stalin, não facilitava em nada as tarefas estratégicas dos seus generais, pois as novas fronteiras significavam que as antigas defesas de fronteiras haviam perdido qualquer sentido e passaram a situar-se, em certos lugares, a centena de quilômetros atrás da futura zona militar de operações.

 

Uma fronteira aberta, sem poderosas defesas e sem obstáculos naturais – rios largos, grandes lagos ou altas montanhas – exigem defesa em profundidade por forças equipadas e treinadas para travar guerra móvel. Grandes reservas, localizadas em pontos-chaves na rede de batalha, são um requisito para qualquer defesa bem sucedida; sem tais forças ao seu alcance, o comandante de fronteira aberta não se livra do pesadelo de uma penetração irresistível.

 

E Stalin condenou seus comandantes a viver debaixo desse pesadelo durante toda a primeira metade de 1941, pois, em lugar de destinar parte de suas forças para formar uma reserva estratégica, ele insistiu para que fossem todas deslocadas para postos avançados; não lhe sendo possível reconhecer que a conformação da fronteira russa, com suas muitas saliências e reentrâncias, tornava antieconômica a defesa de cada quilômetro, ele insistiu na guarnição de toda a sua extensão; e em lugar de reconhecer que certos trechos da fronteira necessitavam de menos defesa do que outros, como, por exemplo, a parte imediatamente a oeste dos impenetráveis pântanos do Pripet, ele espalhou suas divisões por pontos quase que eqüidistantes entre si de norte a sul, entre o Báltico e o Mar Negro.

 

Resta apenas indagar dos motivos que levaram Stalin a expor seu exército a perigo tão óbvio. Tem-se dito que seus motivos eram “formados de complacência, confiança e de uma espécie de nervosa precaução”: complacência alimentada pela propaganda por ele mesmo estimulada sobre a invencibilidade do Exército Vermelho; confiança de que a guerra poderia ser evitada, e nervosa precaução, denunciada no poderoso anteparo de soldados que fez colocar bem à frente, para que a reunião de tropas das Rússias central e oriental, atrás desse anteparo, pudesse ser feita despercebidamente. A esta lista de motivos poderíamos acrescentar a “realização de desejo”. Stalin não queria a guerra; fez ouvidos moucos às advertências sobre os perigos da guerra feitas pelos seus amigos e prováveis amigos (Churchill entre eles); Stalin cumpriu à risca os acordos de remessa de alimentos e matérias-primas devidos à Alemanha e proibiu seus comandantes de realizarem qualquer tipo de preparativo militar, por vital que fosse à segurança do seu próprio setor da frente, desde que os alemães pudessem interpretar como ato de provocação ou agressão.

 

Nas pegadas de Napoleão

 

Três caminhos levam ao coração da Rússia. Um deles margeia a costa do Báltico até Leningrado, a antiga São Petersburgo. O segundo, que Napoleão tomou em 1812, passa pelas velhas cidades polonesas de Minsk e Smolensk, até Moscou. O terceiro, situado ao sul dos Pântanos do Pripet, mas ao norte dos Cárpatos, é a estrada que vai do sul da Polônia até a região das terras negras da Ucrânia. O Pripet, uma área enorme, e quase impenetrável, de pântanos de água doce e de florestas, divide a fronteira russa estrategicamente em duas metades distintas: a setentrional e a meridional. Os Cárpatos protegem as fronteiras da Hungria e da Romênia, mais que as da Rússia, e seus cumes estão para oeste da fronteira internacional. À parte o Pripet e os Cárpatos, a Rússia não está protegida contra invasão, vinda da Europa, por quaisquer obstáculos naturais, pois, embora os três caminhos tradicionais de invasão atravessem largos rios, é difícil garantir a integridade de uma linha fluvial nos enormes espaços da estepe.

 

Mas isso não quer dizer  que seja fácil invadir a Rússia. Dois generais de gênio, Napoleão e Carlos XII, o rei sueco, perderam ali reputação conquistada em muitas batalhas, e os horrores da retirada do Grande Exército de Moscou em 1812 passaram a fazer parte do folclore europeu. Apesar de na época ser considerada um país extremamente atrasado, de economia desorganizada, dotada de pouquíssimas estradas, e muito ruins as existentes, a Rússia era tida como virtualmente imune aos perigos da conquista. Schlieffen, autor dos planos de guerra alemães no conflito que teve início em 1914, não tinha opinião diferente sobre aquele país. Entendia que os soldados alemães derrotariam os russos completamente, apesar da desigualdade de números, mas os resultados jamais passariam do que ele chamava de “vitórias comuns”, isto é, vitórias nas quais o exército derrotado não é nem sitiado nem encurralado, mas apenas obrigado a abandonar o campo de batalha. Ele dizia que o exército alemão não conseguiria obter resultados decisivos na Rússia porque os exércitos russos eram grandes demais para serem cercados e porque a paisagem russa era destituída de obstáculos contra os quais se pudesse imprensá-los. Portanto, eles sempre escapariam e, assim fazendo, atrairiam o invasor cada vez mais para dentro dos grandes espaços interiores russos, onde o clima, a terra calcinada e o cansaço da perseguição acabariam por lhe solapar a força. Foi baseado nessas razões que Schlieffen trocou as vitórias comuns no Leste pela campanha contra a França, taticamente mais desafiadora, porém estrategicamente menos arriscada, marcando, dessa forma, o início de uma guerra de duas frentes.

 

Hitler herdou de Schlieffen todos os problemas de uma situação de duas frentes. Mas, inicialmente, tal como Bismarck, procurou conduzir o problema em termos diplomáticos, e não militares. Desse modo, surgiu o pacto Molotov-Ribbentrop de 19 de agosto de 1939, pelo qual a Rússia e a Alemanha concordavam em não iniciar guerra de agressão entre si, e pelo qual também o território polonês foi rachado entre ambas. Para Hitler, o tratado de não-agressão assinado jamais passaria de mero expediente. Não é provável que ele acalentasse motivos doutrinários para um ataque à Rússia; em quase tudo, exceto em seu anti-semitismo, Hitler era completamente pragmático. Mas o bom senso lhe dizia que a própria magnitude dos seus sucessos, primeiro derrotando o exército polonês, depois vencendo os da Bélgica, da França e da Grã-Bretanha, fatalmente alarmariam a Rússia, fazendo-a adotar medidas, não para aplacar a Alemanha pela reafirmação de políticas de não-agressão, mas acelerando sua preparação militar. Sabemos hoje que Hitler estava errado a este respeito, pois durante todo o ano de 1940 e até o dia 22 de junho de 1941 a política de Stalin, embora compreendesse certas medidas defensivas, visava principalmente ao cumprimento meticuloso do pacto de não-agressão, aparentemente com espírito de fato apaziguador. Contudo, o sentido pragmático de Hitler lhe avisava que Stalin estava aproveitando o tempo, e se lhe permitissem ele alcançaria um nível de força militar que, empregado defensiva ou agressivamente, poderia ser demais para a Alemanha, no caos de um pega entre ambas.

 

A resistência continuada da Grã-Bretanha também enfatizava o perigo de uma inversão de aliança por parte da Rússia. Hitler estava mais irritado do que perturbado com a persistente recusa da Grã-Bretanha em admitir a derrota, já que o reino ilhéu estava evidentemente incapacitado para intervir no continente. Mas sua antiga tradição de potência marítima e a habilidade demonstrada nesse campo – a combinação de sua grande marinha com um pequeno exército contra os flancos costeiros da Europa – tornavam-na um fator que ele jamais poderia ignorar, mesmo quando o objetivo principal da sua estratégia sempre fora a conquista de poderosos aliados terrestres. Rússia e Grã-Bretanha haviam feito causa comum contra a Alemanha na Primeira Guerra Mundial, como tinha acontecido contra Napoleão. Durante quanto tempo a Rússia resistiria à tentação de renovar esses laços? Se ela sucumbisse a essa tentação, Hitler se defrontaria com a possibilidade não de uma guerra de duas frentes, mas de três, já que o apoio russo à Grã-Bretanha robusteceria as gestões do presidente americano no sentido de levar os Estados Unidos à guerra contra a Alemanha.

 

Mas não era preciso que as coisas seguissem essa seqüência. Pois, “se a Rússia sair do quadro”, como Hitler explicou aos seus chefes das forças armadas a 31 de julho de 1940, “a Grã-Bretanha também perderá os Estados Unidos, porque a eliminação da Rússia aumentaria muito o poderio do Japão no Extremo Oriente. Decisão: a destruição da Rússia tem de ser parte dessa luta – quanto mais cedo ela for esmagada, melhor”. Foi com este argumento que Hitler convenceu a todos da necessidade de rapidamente planejarem a Blitzkrieg contra o Exército Vermelho.

 

Naturalmente, ele não levou em conta os preliminares do que ainda era uma operação de contingência: interferir na condução das relações normais entre as duas ditaduras, relações estas regulamentadas pelo pacto de agosto de 1939 e por acordos subseqüentes, celebrados sobretudo por Ribbentrop e Molotov, em Moscou, em setembro de 1939. Foi nos termos desses acordos que Stalin anexara os estados bálticos, no começo de 1940, e a região fronteiriça da Bessarábia com a Romênia, em junho daquele ano.

 

Hitler nada teria objetado se Stalin tivesse parado por aí. Mas a anexação, feita pela Rússia, de parte da Bucovina romena, que estava fora do pactuado, deu a Hitler motivos para protesto e alarma. A Romênia, aliado em potencial, sob a liderança do fascista Antonescu, era única fonte de petróleo natural da Alemanha. Hitler estava decidido a preservá-la a qualquer preço, e para tanto toda a atividade diplomática germânica se desenvolveu no sentido de garantir os interesses da Alemanha na região, ainda que à custa da posição russa. A Hungria foi subornada com uma parcela do território romeno e a Romênia foi aplacada com o envio de tropas alemãs para proteger seus campos petrolíferos (garantia contra anexações que a Rússia viesse a querer realizar). Os russos foram informados de que essas medidas se destinavam a repelir qualquer intervenção britânica na região. Não obstante, Stalin assustou-se com tais iniciativas, como também com a invasão da Grécia pela Itália, em fins de outubro (que fracassou). Em meados de novembro, enviou Molotov a Berlim, para obter garantias de boa-vizinhança, mas Molotov não obteve êxito na missão. Se tivesse tomado conhecimento de que Hitler planejava uma rápida campanha balcânica para a primavera seguinte (“Operação Marita”), ele teria retornado à Rússia ainda mais inquieto com a situação nos Balcãs. Se tivesse, entretanto, adivinhado em que estágio se encontrava o planejamento da “Operação Barbarossa”, o codinome da projetada invasão da Rússia, talvez nem se atrevesse a voltar, pois esse plano jogava por terra toda a política diplomática de sua pasta.

 

Hitler teria falado pela primeira vez da intenção de atacar a Rússia com o General Halder, o Chefe do Alto-Comando do Exército (OKH), a 2 de julho de 1940 (dia em que deu ordem para a “Operação Leão-Marinho”, a invasão da Grã-Bretanha). Hitler nunca pretendeu seriamente invadir a Inglaterra, talvez porque desconfiasse da impossibilidade de a Luftwaffe vencer o Comando de Caças da RAF, ou talvez porque já tivesse escolhido mentalmente a Rússia – e foi nos planos para a Rússia que ele se concentrou daí por diante. A explanação do plano foi feita ao chefe da seção de operações do seu próprio Estado-maior, o OKW, General Jodl (que seria enforcado em Nuremberg, por seu papel no “preparo e execução de guerra de agressão”). Este, por sua vez, ao explicá-lo aos seus auxiliares diretos, a 19 de julho, provocou neles uma reação de descrença. Hitler havia incumbido Halder de preparar os planos, ordem esta que o Chefe do Estado-Maior do exército delegara ao General Erich Marcks. O plano de Marcks, apresentado a 5 de agosto de 1940, fixava as linhas gerais que o plano definitivo de invasão obedeceria.

 

Partia ele da suposição de que os russos não atacariam os alemães, embora fosse conveniente se o fizessem (Schlieffen fizera o mesmo juízo sobre os franceses antes de 1914, erroneamente, como se viu), e que a Wehrmacht (as Forças Armadas alemãs) desfrutaria de pequena superioridade em número de homens, uma superioridade flagrante em unidades blindadas e certa superioridade na qualidade do equipamento. Levando em conta a necessidade de manter guarnições nos países ocupados, Marcks calculou que a Alemanha deveria pôr em campo 110 divisões de infantaria, 24 divisões Panzer e 12 divisões motorizadas, contra 96 divisões de infantaria russas (os russos chamavam Divisões de Fuzileiros), 23 divisões de cavalaria e 28 brigadas blindadas (os alemães ainda ignoravam o restabelecimento dos corpos e divisões mecanizadas de Timoshenko). Marcks destinaria o grosso das divisões alemãs e dois Grupos de Exércitos centrais, um operando de sul para leste, na direção de Kiev, capital da Ucrânia, o outro na direção leste, da Polônia para Moscou, ao longo da grande rodovia lateral que passa por Minsk e Smolensk, caminho que Napoleão e seu Grande Exército haviam seguido em 1812. Haveria duas operações subsidiárias: a primeira, um avanço sobre Leningrado, partindo da mesma base de operações do mais setentrional dos Grupos de Exércitos centrais; a outra, um avanço sobre Kiev, feito por forças teuto-romenas, operando pela Bessarábia anexada. Todavia, os Grupos de Exércitos centrais eram os que teriam de fazer o plano funcionar; uma vez alcançados os objetivos iniciais, Moscou e Kiev, respectivamente, eles avançariam rapidamente um sobre o outro e completariam o cerco de tropas russas a oeste deles. Este último objetivo era a meta principal do plano de Marcks. O Exército Vermelho devia ser cercado e destruído entre os rios Dvina e Dnieper, tudo dentro do período de nove a dezessete semanas.

 

Este plano, mais tarde muito emendado, lançou as bases da estratégia alemã para a “Operação Barbarossa”, em particular as do exército alemão (como veremos, as concepções estratégicas do exército e de Hitler mais  tarde vieram a chocar-se, com resultados dignos de nota). Não obstante, o “Plano de Marcks” ainda era mais um esboço de planejamento do que propriamente uma diretiva operacional, e, embora continuasse trabalhando nalguns problemas isolados, o Alto-Comando da Wehrmacht (OKW), o Estado-Maior de Hitler para planejamento e operações, passou a dedicar-se aos preparativos práticos. A primeira tarefa  era fazer a transferência de grandes forças do teatro de guerra ocidental para o oriental que, a 24 de outubro de 1940, atingiam o total de 35 divisões. Esta gigantesca transferência de todo um Grupo de Exércitos, um dos três que em maio haviam sido lançados contra os Aliados ocidentais, foi explicada às partes interessadas, que por certo incluíam os russos, como se se tratasse de, apenas, dar a essas divisões áreas mais amplas de treinamento do que as encontradas no Ocidente, ao mesmo tempo que as afastava do perigo de ataque aéreo britânico. Na verdade, certa redisposição de forças entre a França e a Polônia era perfeitamente explicável, em termos militares, pois com três Grupos de Exércitos – o grosso e a nata das suas forças de terra – destacados para o oeste, a posição estratégica da Alemanha estava seriamente desequilibrada.

 

Com o codinome Aufbau Ost, estes trabalhos preliminares foram satisfatoriamente realizados pelo OKW. Ao mesmo tempo, sua seção de operações preparava um estudo do ponto de vista estratégico do problema da invasão, a ser apresentado a Hitler. As conclusões a que ele chegou diferiam das do OKH: em lugar de recomendar a concentração do principal esforço ao longo do eixo Minsk-Smolensk, a estrada para Moscou, o OKW achava que o exército alemão invasor deveria ser dividido em três grupos mais ou menos iguais, dirigidos respectivamente contra Leningrado, no norte, e Kiev, no sul, bem como contra Moscou, no centro. Isto poderia parecer apenas uma diferença técnica de tratamento dos dois Estados-Maiores, não fosse o fato de o OKW também fixar que seus três grupos deviam manter contato permanente entre si, nos flancos, avançando em linha. Esta sugestão, embora protegesse contra certos riscos óbvios, certamente levaria o exército alemão à conquista de apenas “vitórias comuns” que Schlieffen relutara tanto em empreender havia trinta anos.

 

Entrementes, o Alto-Comando do Exército (OKH) passara o verão aperfeiçoando as linhas gerais traçadas por Marcks e, em fins de novembro, apresentou as conclusões a que chegara com a rigorosa lógica do “Jogo de Guerra”, um exército tático em grande escala e com mapas, um dos venerados métodos militares alemães de finalizar planos. Recomendavam, em suma, essas conclusões, conforme palestra feita por Halder, o Chefe do Estado-Maior do Exército, para uma platéia que incluía Hitler, uma fusão de elementos do plano original do OKH com elementos do plano do OKW, ou seja, um avanço com três Grupos de Exércitos, e não com dois, mais com ênfase no esforço para Moscou. O trecho principal da palestra de Halder foi o seguinte:

 

“Os centros de armamento russo mais importantes estão na Ucrânia, em Moscou e Leningrado. A área operacional será dividida em duas partes, norte e sul, pelos Pântanos do Pripet; na metade sul, a rede rodoviária é ruim; ao norte, as ligações rodoviárias e ferroviárias são melhores na área Varsóvia-Moscou. Este setor norte também está mais fortemente guarnecido de tropas soviéticas, agrupadas na direção de tropas soviéticas agrupadas na direção da linha de demarcação teuto-soviética (dividindo em dois a Polônia ocupada). O Dnieper e o Dvina são as linhas mais orientais que os russos têm de defender e um recuo maior desprotege suas regiões industriais. Teremos que impedir qualquer concentração de resistência a oeste desses rios, por meio da penetração de cunhas blindadas.

 

“Uma força de assalto particularmente poderosa terá de atacar de Varsóvia para Moscou. Dos três Grupos de Exércitos propostos, o setentrional estabelecerá seu ponto básico em Leningrado, o meridional em Kiev, e do último Grupo de Exércitos, um exército avançaria de Labun, outro de Lemberg (lwow) e um outro da Romênia. O alvo de toda a operação será o Volga e a região de Arcangel: 105 divisões de infantaria e 32 divisões Panzer e motorizadas (Panzergrenadier) seriam empregadas, com elementos fortes destas (dois exércitos) seguindo inicialmente na segunda leva”.

 

Com base nesta exposição, os dois Estados-Maiores, OKH e OKW, prepararam em conjunto a diretiva final. Ela foi apresentada a Hitler a 17 de dezembro de 1940 e emitida apenas em nove cópias, supersecretas, no dia seguinte. Todavia, da noite para o dia Hitler alterou fundamentalmente o que os seus consultores militares haviam estipulado. A divisão de forças entre os três Grupos de Exércitos permaneceu intacta, bem como suas tarefas iniciais. Mas assim que os exércitos russos que defendiam a Rússia Branca (Bielo-Rússia – a região a leste da Polônia e ao norte do Pripet) tivessem sido destruídos, elementos poderosos do Grupo de Exércitos Centro seriam destacados para ajudar o Grupo de Exércitos Norte a apossar-se da costa do Báltico e de Leningrado. Somente depois de completada aquela operação é que se iniciaria o avanço que o OKH considerava decisiva.

 

Aí estava o ingrediente crucial da “Operação Barbarossa”, como Hitler passou a denominar oficialmente a Diretiva Operacional n° 21. Contudo, ela continha muitas outras coisas. O norte da Rússia seria invadido por um exército de montanha, operando da Finlândia, provavelmente em cooperação com o exército finlandês. O exército romeno, já efetivamente controlado pelos alemães, forneceria grandes contingentes para flanquear o avanço do Grupo de Exército Sul na direção de Kiev. A fronteira eventual do avanço alemão foi fixada na linha Volga-Arcangel, além da qual a “última área industrial que restava da Rússia nos Urais pode ser eliminada pela Luftwaffe, se necessário”.

 

Os efetivos dos três Grupos de Exércitos foram fixados. Integrariam o Grupo de Exércitos Norte o 16o  e o 17o Exércitos, de 18 divisões de infantaria, o 1o Panzergruppe, mais tarde chamado Exército Panzer; este contava com três divisões Panzer e três motorizadas, e era comandada pelo General Hoeppner. O Comandante do Grupo de Exércitos era o Feldmarechal Ritter von Leeb.

 

O Grupo de Exércitos Centro, comandado pelo Feldmarechal von Bock, era formado pelos 4o e 9o Exércitos, e mais 24 divisões de infantaria. Sua ordem de batalha completava-se com os 2o e 3o Panzergruppen, comandados por Guderian, o grande teórico dos tanques, e Hoth, que dividiam entre si 7 divisões Panzer e 7 divisões motorizadas.

 

O Grupo de Exércitos Sul, sob o comando do Feldmarechal von Rundstedt, o “Cavaleiro Negro do Exército Alemão”, consistia dos 6o, 11o e 17o Exércitos, dos 3o e 4o Exércitos romenos e do 1o Panzergruppe de Kleist. O 11o Exército e os dois exércitos romenos marchariam destacados do corpo principal, que se concentraria a leste de Lublin e Cracóvia, alinhados ao longo do rio Pruth, no extremo sul. A força total de Rundstedt atingia 31 divisões, das quais 5 eram Panzer e 3 motorizadas. Portanto, relativamente, ela era a mais fraca em blindados.

 

As divisões Panzer, em relação a 1939, eram menos numerosas, em termos de tanques. Isto se devia à formação de toda uma nova série de divisões Panzer, medida determinada pela retirada de quadros das divisões já existentes. Os resultados não foram de todo prejudiciais, pois os efetivos originais, em tanques, das divisões Panzer – quase 400 % eram altos demais, e muitos dos tanques (Mark II e mesmo Mark III e Mark IV), era um complemento melhor, quando contrabalançado por um volume bem maior de infantaria. Portanto, a nova composição de uma divisão Panzer  (Divisão Blindada, em 1941 era a seguinte: um regimento de tanques, de dois (às vezes três) Abteilungen, com 150 a 200 tanques; dois regimentos motorizados de fuzileiros (Schützen) (que em breve seriam chamados Panzergrenadier), de dois batalhões cada um, com os soldados transportados em veículos blindados de meias-lagartas, e um batalhão de reconhecimento de motociclistas. A artilharia, também motorizada, compreendia dois regimentos de campanha, um médio e um antitanque. O Q-G Divisionário controlava um batalhão de carros blindados de reconhecimento e uma pequena esquadrilha de aviões de observação. As divisões de infantaria motorizadas contavam com organização semelhante, embora, carecessem de tanques e tivessem um regimento adicional de infantaria. A função dessas divisões era acompanhar os Panzer e suplementar sua infantaria orgânica no ataque concentrado, ou sempre que houvesse muito trabalho de limpeza em bolsões de resistência isolados.

 

A quantidade de elementos mecanizados nesses dois tipos de formação os distinguia muito das divisões de infantaria comuns. O equipamento destas últimas praticamente não diferia do da infantaria do Kaiser, em 1914. Baterias de artilharia e escalões de suprimentos de primeira linha puxados a cavalo, batalhões de “pés de poeira” com pesadas mochilas – não era com estas formações que os alemães venceriam agora batalhas de cerco. Mas, como os acontecimentos de 1940, na França, haviam mostrado, era a velocidade alcançada pelas pontas-de-lança blindadas que contava na nova guerra, ao estilo alemão. Enquanto a infantaria garantisse a manutenção de um avanço regular de 30 ou 40 km por dia, os Panzer podiam correr o risco de avançar até 100 km. Nessas condições, só tinham de resistir por dois ou três dias nos locais atingidos, para que a infantaria, mais lenta, os alcançasse.

 

O término da concentração desta vasta coleção de divisões mecanizadas para a “Operação Barbarossa” estava marcado para 15 de maio. Elas avançariam para leste em quatro levas. A primeira, quando a diretiva para a “Barbarossa” fosse emitida, estaria a postos. A segunda chegaria em meados de março; a terceira, em meados de abril e quarta em fins de abril. Quando se chegasse a este ponto, já não seria possível disfarçar mais a importância do deslocamento. Mas antes que se completasse a concentração planejada, o desenvolvimento livre dos planos de Hitler para o teatro de operações do leste foi brutalmente interrompido por acontecimentos nos Balcãs. Em fins de março, um grupo de oficiais nacionalistas e antinazistas do exército iugoslavo, liderado pelo General Merkovitch, derrubou a regência do Príncipe Paulo, pró-nazista, e denunciou a assinatura do “Tratado Tripartite”, que subordinava seu país à Alemanha, Itália e Japão. Hitler, que começava a impacientar-se com a falta de sucesso dos italianos na sua guerra particular com a Grécia, decidiu intervir direta e decisivamente nos Balcãs. Tropas que haviam sido destinadas à  “Operação Barbarossa” foram reagrupadas e realinhadas. Emitiu-se nova diretiva e, a 6 de abril, teve início a campanha balcânica, de pequena duração.

 

A Iugoslávia capitulou a 17 de abril; os exércitos gregos que lutavam na frente albanesa capitularam a 20 de abril; o governo grego aceitou a derrota quatro dias depois e, nesse mesmo dia, a força expedicionária britânica enviada da África por Churchill, para ajudar os gregos assim que os alemães intervieram, começou sua retirada, em parte através da ilha de Creta, que caiu em mãos alemãs como resultado de dispendiosa operação aeroterrestre, a 26 de maio.

 

Contudo, a campanha balcânica não resultou na transferência pura e simples de mais território para mãos alemãs. Esta – considerado particularmente o significado estratégico do território tomado – era bastante importante. Mas, de importância maior e mais crucial foi o atraso imposto ao início da “Operação Barbarossa”. Planejada para iniciar-se a 15 de maio, só na segunda metade de junho poderia ser desfechada – um atraso de cinco semanas – semanas estas que, como Hitler e o mundo mais tarde reconheceriam, talvez tenham sido a diferença entre o sucesso e o fracasso para o exército alemão na Rússia. Cinco semanas é uma enorme parcela do curto verão russo.

 

O próprio Hitler, embora irritado com o atraso provocado pela campanha balcânica – e de início realmente enfurecido pela “perfídia” da Iugoslávia – não ficou de modo algum abalado por ela a ponto de decidir não prosseguir com seus planos. A “Barbarossa” deixara de ser uma imposição apensa prática, para transformar-se numa verdadeira obsessão. O codinome – o apelido de um imperador alemão que conduzira seus exércitos na Terceira Cruzada contra os eslavos pagãos, no século XII – deixa entrever a significação histórica que Hitler se atribuía, e opressiva e impiedosamente preparava o modo como se daria a sua revelação. Ele o transmitira a seus comandantes das forças armadas, num discurso pronunciado em março daquele ano:

 

“A guerra contra a Rússia se reveste de características que não podem permitir cavalheirismos: a luta é de ideologia e diferenças raciais e terá de ser conduzida de maneira implacável e inflexível. Todos os oficiais terão de se livrar de sentimentos obsoletos. Sei que a necessidade do emprego desses meios na guerra está além da compreensão dos senhores generais, mas... Insisto peremptoriamente para que minhas ordens sejam executadas sem oposição. Os comissários (russos) são portadores de ideologias diretamente contrárias ao nacional-socialismo, tendo por isso de ser liquidados. Os soldados alemães culpados de violação do direito internacional... serão desculpados. A Rússia não participou da Convenção de Haia, portanto não tem direitos, nos termos da mesma”.

 

Para muitos, no exército alemão, tais sentimentos eram intoleráveis, mas nenhum deles esboçou qualquer reação. As ordens seriam, pela maioria, obedecidas dentro desse espírito. Para os oficiais das SS, do partido e do Estado que estariam envolvidos na administração e exploração do território russo capturado, o discurso de Hitler simplesmente deixava explícitos os planos que há muito eles vinham preparando. Nas suas mãos a Rússia viria a sofrer a morte, provocada por milhares de “pequenas feridas”.

 

A grande penetração

 

A breve noite de verão de 21 para 22 de junho de 1941 – o solstício de verão, uma das datas místicas das SS – passou quietamente por toda a extensão da fronteira da Rússia com a Europa ocidental. O expresso Belim-Moscou atravessou-a na hora certa e os postos aduaneiros permaneceram abertos.

 

Às 03:30 h intensa barragem de artilharia caiu sobre ela, e as tênues defesas avançadas da Rússia desapareceram debaixo de espessa cortina de fumaça. Logo após, a massa inicial de infantaria e de blindados alemães partiu para o ataque. Um Q-G avançado russo comunicou-se com um comando superior: “Estão atirando contra nós. O que faremos?” “Vocês devem estar loucos”, foi a resposta, “e por que seu comunicado não está em código?”

 

Contrariamente, porém, à crença geral, os russos não foram tomados inteiramente de surpresa, a 22 de junho; mais exatamente, os escalões mais graduados não foram. Timoshenko, provavelmente com a aprovação de Stalin, na realidade mandou um aviso de alerta aos Estados-Maiores dos distritos militares, advertindo-os da probabilidade de um ataque alemão ao amanhecer do dia seguinte dando-lhes ordens para que pusessem suas unidades em alerta.

 

Este aviso chegou tarde demais para que pudessem ser tomadas providências efetivas contra o ataque. Na verdade, a maioria das formações russas não recebeu aviso algum do ataque, e foi vencida em suas posições. Isto não é de surpreender. As defesas das fronteiras, que o Exército Vermelho só começara a fazer em setembro de 1939 (e, no setor sul, nas antigas províncias romenas, somente em junho de 1940), não estavam organizadas, nem em resistência, nem em profundidade. Resistência e profundidade – mais uma grande reserva para contra-ataque – são essenciais para absorver um assalto blindado, e a Rússia não tinha nada disso. A “Linha Stalin”, embora bastante fortificada em alguns trechos, estava muito atrás da fronteira pós-1939 para poder dar-lhe resistência, fato que era agravado pelo deslocamento que Stalin ordenara ao Exército Vermelho, quase que todo linearmente feito. Contudo, onde quer que as unidades estivessem escalonadas, em qualquer profundidade, o Alto Comando russo as mandava avançar para deter a invasão nos primeiros dias. Esse tipo de decisão fazia apenas o jogo dos atacantes.

 

A estratégia alemã na frente central, ao longo da estrada Minsk-Smolensk para Moscou, era simples: cercar o máximo possível as tropas russas que defendiam a área, isolando sua linha de retirada para leste, sobre os rios Dvina e Dnieper, e destruí-las. Daí por diante, o Grupo de Exércitos Centro deveria apossar-se da “Ponte Terrestre” entre as nascentes do Dvina e do Dnieper (que correm, respectivamente, para o Báltico e para o Mar Negro) e atravessá-la a caminho de Moscou.

 

A primeira fase do ataque do Grupo de Exércitos Centro passou-se com um sucesso quase enervante. Seu contingente de apoio da Luftwaffe, a Luftflotte (Frota Aérea) 2, destruíra grande quantidade de aviões da Força Aérea Vermelha em terra e quando encontrava oposição no ar, produzia-lhe pesadas baixas. Contra os pilotos e aviões da qualidade e experiência dos da Luftwaffe, os russos, cuja nova geração de caças modernos apenas acabava de entrar em serviço, não eram rivais. Em terra, a sua infantaria, sempre valente, não tinha armas para resistir à penetração das poderosas colunas Panzer; seus fuzis antitanques não podiam penetrar a blindagem de um Mark IV, e seu canhão antitanque de 47 mm – excelente arma, que os próprios alemães mais tarde adotariam entusiasticamente – ainda não havia sido distribuído em quantidade. Assim é que as divisões do Grupo de Exércitos Centro, embora tivessem iniciado suas operações com uma travessia de assalto de rios – o Niemen no setor norte, e o Bug no setor sul da frente – não encontraram  dificuldade alguma na obtenção de um ponto de apoio na outra margem, e em ganhar terreno rapidamente. Brest-Litovsk, a fortaleza de fronteira, onde os alemães haviam ditado a paz para os bolchevistas 23 anos antes, resistiu durante quase uma semana. Contudo, não deteve o avanço, embora bloqueasse importante travessia do Bug, já que os alemães haviam deixado ali apenas uma divisão para entretê-los (praticamente como tinham feito em Maubeuge, a caminho do Marne, em 1914), enquanto construíam uma travessia alternativa mais ao sul.

 

Essa penetração era muito perigosa para os russos que se encontravam na frente do Grupo de Exércitos Centro, e que formavam os 3o, 4o, 10o e 13o Exércitos, já que a fronteira russa, a fronteira pós-1939 que Stalin insistira em guarnecer cerradamente em toda a sua extensão, dobrava para oeste naquele ponto, encontrando um grande saliente, chamado saliente de Bialystok, em cujo lado oposto havia tropas alemãs que, deslocando-se também da Prússia oriental, criava grave ameaça de cerco para todo o exército russo que estava na zona de operações do Grupo de Exércitos Centro.

 

A avaliação que von Bock fez dos resultados dos dois primeiros dias de combate levou-o a crer que, para escapar a iminência de cerco, as tropas russas situadas do lado oposto talvez estivessem, por ordem do Alto Comando, abandonando suas posições e fugindo para leste, com a intenção de restabelecer suas defesas no Dvina-Dnieper. Nessa conformidade, ele comunicou ao Alto Comando do Exército (OKH) que os Panzergruppen, em particular o Panzergruppe 3 de Hoth, deveriam abandonar sua missão e fechar a pinça em torno de Minsk – a 320 km das suas linhas de partida – avançando a seguir diretamente para Smolensk sobre o Dnieper, mais outros 200 km adiante. Mas o OKH, temendo o isolamento do Panzergruppe no decurso de tal arremetida – e o isolamento leva à destruição na Blitzkrieg – insistiu para que ele obedecesse à diretiva original: o fechamento da pinça primeiramente em torno de Minsk e, só mais tarde, ao redor de Smolensk. Assim, o Panzergruppe 3 começou a fechar a 24 de junho.

 

Era já evidente que os russos, em fuga, não estavam realizando retirada estratégica. Haviam apenas abandonado posições insustentáveis. As novas posições para as quais haviam fugido, entre os braços constritores dos Panzergruppen e as divisões em marcha dos 4o e 9o Exércitos, eram igualmente ruins.

 

Os russos não podiam vencer em velocidade as colunas blindadas alemãs, que, avançando 80 km por dia, e mais, eram as mais rápidas formações militares do mundo. Todavia, os temores do OKH de que, se tivessem permissão de avançar sem levar em conta suas comunicações com a retaguarda, os Panzer se estendessem excessiva e perigosamente, agora começavam a mostrar-se verdadeiros, pois os russos, apanhados na armadilha e lutando, por isso, desesperadamente, estavam encontrando pontos fracos nos braços da pinça, particularmente no formado pelo Panzergruppe 2, de Guderian, e escapando, através desses pontos fracos, para sudeste. Este desenvolvimento não era nada agradável para o OKH, porque as formações em fuga se dirigiam naturalmente para o Pripet, onde, espreitando do interior daquelas impenetráveis fortalezas, provavelmente se constituiriam em séria ameaça aos escalões de abastecimento alemães, quando estes passassem por ali, dias depois.

 

A 25 de junho, diante desses dois perigos – o isolamento de unidades do Panzergruppe 2 e a criação de uma ameaça para a retaguarda do exército – o OKH deu ordens para que os 4o e 9o Exércitos combatessem o inimigo mais de perto. O objetivo disso era obter por meio de bala o que se obtivera pelo efeito moral na luta com os franceses, em 1940 – a destruição da capacidade de resistência do inimigo. Cercados, os soldados russos não se comportavam como os franceses em iguais circunstâncias. Com freqüência, continuavam lutando até a morte.

 

Assim é que, por volta ainda de 25 de junho o Grupo de Exércitos Centro sustentava fogo em nada menos de três batalhas de cerco: a de escala menor, em torno da fortaleza de Brest-Litovsk; em torno de Bialystok, onde seis divisões russas haviam sido cercadas no avanço inicial; e em torno de Volkovysk, onde outras seis divisões encontravam-se cercadas.

 

A 29 de junho, o Grupo de Exércitos engajou em mais outra batalha de cerco, destinada a subjugar um grande bolsão, logo a oeste de Minsk, e no qual cerca de 15 divisões, algumas refugiadas da fronteira, e outras, reforços vindos do interior da Rússia, haviam sido encurraladas. No dia seguinte, reduzira-se tanto a resistência nos bolsões de Bialystok e Volkovysk, que podiam ser retirados, com segurança, grandes contingentes dos efetivos de infantaria dos cordões que os cercavam; estes poderiam ser enviados para tapar as brechas existentes no laço blindado que se apertava em torno do bolsão de Minsk.

 

Contudo, somente a 9 de julho é que o bolsão de Minsk finalmente sucumbiu à pressão alemã, cuja infantaria ainda tinha muita distância a percorrer, pela mais escassa e atroz rede rodoviária, para ajudar os Panzer.

 

O OKH despachara ordens para o estágio seguinte a 1o de julho, e, com estas ordens, uma diretiva subordinando os Panzergruppen de Hoth e Guderian a Kluge que, ao entregar seu comando, já designado 2o Exército, ao General von Weichs, passou a comandar o 4o Exército Panzer. As primeiras ordens que recebeu em seu novo posto foram no sentido de preparar seu exército para “penetrar na direção de Moscou”. Nessa conformidade, o Panzergruppe 2 devia  forçar uma travessia do Dnieper ao sul de Smolensk, seguir a linha da rodovia Minsk-Moscou (infelizmente para os comandantes de Panzer, que imaginavam dirigir seus tanques por uma verdadeira Autobahn, grande parte desta ainda era apenas de terra batida) e tomar as Alturas do Yelna, na curva do rio Desna. O Panzergruppe 3, no flanco norte, deveria permanecer no eixo em que estava e prosseguir ao longo do Alto Dvina até Vitebsk, onde deveria atravessá-lo e tomar o terreno ao norte de Smolensk. Os exércitos de infantaria, 2o (ex-4o ) e 9o , insistiriam em seus esforços para se manterem o mais perto possível das pontas-de-lança blindadas. O apoio da Luftwaffe continuaria sendo o mesmo de antes: o Fliegerkorps II apoiando os exércitos no sul e o Fliegerkorps VIII os do braço norte da pinça.

 

A operação começou a 3 de julho, antes que a infantaria dos dois exércitos em marcha, do Grupo de Exércitos, tivesse tido tempo de esmagar a última resistência russa no bolsão de Minsk. O avanço para Smolensk, de início, foi organizado, forçosamente, como uma operação blindada, mas não demorou que esbarrasse na oposição até então encontrada. O Panzergruppe 2 foi detido quando tentava atravessar o Beresina, perto de Borisov, na principal rodovia Minsk-Smolensk. Pelo menos na opinião do Estado Maior do Grupo de Exércitos  Centro, travessias subsidiárias em Rogachev, no Dnieper e em Polotsk, no Dvina, não ofereciam eixos alternativos aceitáveis para avançar. Esta situação criou problemas muito sérios ao desenvolvimento de operações de Blitzkrieg. Encontraram-se os germânicos diante de duas soluções insatisfatórias: aceitar o atraso e esperar a chegada da infantaria, ou empenhar os blindados num ataque ao estilo da infantaria contra as posições defendidas pelo inimigo. A espera da infantaria acarretaria perda de tempo que o inimigo poderia aproveitar para melhorar suas posições e convocar reservas; mas um assalto ao estilo da infantaria eqüivalia a expor unidades de blindados e motorizadas, altamente treinadas (Panzergrenadier, como em breve seriam chamadas), a baixas que não poderiam ser compensadas com facilidade.

 

Bock decidiu correr o risco de sofrer baixas, mas, acertadamente, resolveu concentrar os blindados do Panzergruppe 2 antes de tentar o ataque, que seria desviado para o setor de Mogilev, no Dnieper, e arremeteria contra Smolensk, percorrendo estradas secundárias. A qualidade da resistência criada pelos defensores russos dessa linha fluvial vital tornaria mais fácil planejar do que realizar essa missão: somente a 10 de julho, uma semana depois de iniciada a operação, é que as unidades do Panzergruppe 2 conseguiram obter pontos de apoio na outra margem.

 

Todavia, já então o Panzergruppe 3 havia conseguido importante penetração no caminho norte para Smolensk, tendo destruído as defesas russas no Dvina e estabelecido importante cabeça-de-ponte em Vitebsk. De tal forma este desenvolvimento pareceu promissor a Bock, que ele, por momentos, pensou em levar boa parte do Panzergruppe 2 a participar na exploração partindo desse ponto. Mas os informes sobre terrenos difíceis fizeram com que ele não desse as ordens necessárias, e quando o terreno ficou seco, já os Panzer de Guderian haviam conquistado sua própria cabeça-de-ponte perto de Mogilev.

 

Lutas muito duras nas cabeças-de-ponte norte e sul, entre 11 e 13 de julho, levaram finalmente à verdadeira penetração pela qual Bock, Hoth e Guderian tanto ansiavam. O Panzergruppe 3, de Hoth, foi particularmente rápido em se afastar do rio e pôde colocar uma divisão na estrada Smolensk-Moscou a 15 de julho. No dia seguinte ele enviou uma divisão à cidade, capturando-a imediatamente, para surpresa sua e dos defensores. Quando as outras pontas-de-lança do Panzergruppe chegaram em Yelan, a 80 km a sudeste de Smolensk, a 17 de julho, já o novo bolsão estava quase completo. Dentro dele havia grupos de divisões russas – 67 perto de Mogilev, 34 perto de Vitebsk e um grande corpo, de 12 a 14 divisões, a leste de Smolensk. Nenhuma delas poderia ameaçar quase sem munição e praticamente isoladas das fontes de reabastecimento. Contudo, era preciso impedir que escapassem e obrigá-las a se renderem sem demora.

 

Como acontecera antes, deveria caber à infantaria dos 2o e 9o Exércitos a maior parte do trabalho, mas suas divisões estavam a cerca de 300 km atrás dos blindados avançados, nesse estágio da batalha, em meados de julho, e não podiam andar mais depressa: o máximo que se podia pedir delas era que percorresse 32 km por dia. Com isso, os cordões, apressadamente feitos com tanques, veículos de meias-lagartas e Panzergrenadieren a pé, não puderam impedir que grupos de soldados russos escapassem para leste. Em certo local;, no vale do Dnieper, vasto trecho do terreno ficara completamente desguarnecido, porque os recursos de Guderian estavam todos empregados em outro local. Por essa brecha, grande número de russos, muitos ainda em unidades formadas, conseguiram escapar. Não se pode dizer que eles tenham escapado para um lugar seguro – porque parte alguma da Rússia Ocidental poderia ser considerada segura no verão de 1941 – mas pelo menos podiam lutar mais uns dias. Somente a 27 de julho é que pôde ser erguida uma barreira perfeita em torno de todo bolsão, e só a 5 de agosto é que toda resistência russa dentro dele silenciou.

 

Isto deveu-se, em parte, ao fato de ter sido a brecha do Dnieper usada, durante o período em que permanecera aberta, não só como meio de fuga, mas também como canal para reforço e abastecimento, o que os alemães demoraram a perceber. Essa descoberta definiu um quadro dado pelo serviço de inteligência, que insinuava que a resposta russa seria muito mais resoluta ao desafio da Blitzkrieg, muito mais do que a que os alemães haviam encontrado no Ocidente. Diante da arremetida alemã e do colapso palpável das suas defesas fronteiriças em quase toda parte, passadas apenas algumas horas – sem falar da quebra do mito das defesas inexpugnáveis e da invencibilidade do Exército Vermelho – a liderança russa não perdera a cabeça. Foi criado um conselho executivo de guerra (GOKO) a 23 de julho, formado por Stalin, Voroshilov (Comissário da Defesa), Béria (Chefe da NKVD, a polícia Secreta do Estado), Molotov (Comissário de Assuntos Exteriores) e Malenkov (representante de Stalin na máquina partidária). Diretamente subordinado a esta Comissão de Defesa do Estado, surgiu um Estado Maior militar operacional, o Stavka, que, quando da sua reorganização, a 10 de julho, era formado por Stalin, Molotov e Voroshilov do lado do partido, e por Timoshenko, Budenny, Shaposhnikov, Chefe do Estado-Maior-Geral, e Zhukov, o vencedor da batalha de Kholkin-Gol, contra os japoneses, em 1939. Essa composição mista, de partido e exército, do Stavka era não só uma convenção comunista, como também refletia a reimposição do controle político direto sobre o exército do comando militar. O Comando Duplo (isto é, a divisão de responsabilidades entre oficial e comissário) foi reintroduzido no Exército Vermelho a 16 de julho.

 

Outra reintrodução, embora de tradição política mais antiga, foi a execução dos generais fracassados (oficialmente caracterizados como “culpados”): o Comandante da Frente Ocidental, General Pavlov, cujas linhas de defesas tão pouco resistiram ao avanço do Grupo de Exércitos Centro, foi fuzilado no começo de julho, juntamente com seu Chefe do Estado-Maior e com o Chefe do Serviço de Comunicações. Eles não seriam as últimas vítimas, tampouco as mais graduadas: unidades do NKVD – “destacamentos de segurança de retaguarda” – foram colocadas atrás das linhas de batalha russas para interceptar qualquer um – indivíduos ou unidades formadas – que as abandonasse sem ordem.

 

Além de providenciar sobre o exercício da autoridade, no nível mais alto e no mais baixo, Stalin e o Stavka também estabeleceram, a 10 de julho, uma estrutura mais realista de comando em campanha. Três novas Frentes foram criadas (uma “Frente” russa eqüivalia a um Grupo de Exércitos Ocidental), com volume de tropa aproximadamente idêntico ao dos três Grupos de Exércitos alemães que a elas se opunham. O Grupo de Exércitos Sul (Rundstedt) era agora confrontado pela Frente Sudoeste, comandada pelo Marechal Budenny, que, intelectualmente, não se igualava a Rundstedt, mas era uma figura carismática do período heróico do Exército Vermelho da Guerra Civil; para seu comissário político, Stalin nomeou Nikita Kruschev, homem de sua confiança e ex-agente da coletivização na Ucrânia. O Grupo de Exércitos Centro (Bock) passou a receber combate de nova Frente Ocidental, comandada por Timoshenko, e o Grupo de Exércitos Norte, por uma Frente Noroeste, sob o comando de Voroshilov.

 

Todavia, de toda essa reformulação nada resultou que amenizasse o mais premente problema da Rússia, que era basicamente a falta de pessoal bem treinado na frente de batalha e de equipamento que nas circunstâncias pudesse merecer boa classificação. Em meados de julho, suas baixas haviam atingido proporções espantosas. Mais de 3.000 aviões de sua força aérea haviam sido destruídos nos cinco primeiros dias. Em terra, as baixas foram maiores ainda: das 164 divisões vermelhas identificadas, o OKH afirmava, a 8 de julho, ter destruído 89, ou mais de metade. Esses números, que num exame superficialmente realizado parecem exagerados, ganham autenticidade incontrastável diante do que o Grupo de Exércitos Centro demonstrou haver conseguido: a captura de 300.000 prisioneiros, 2.500 tanques e 1.400 canhões, desmantelando virtualmente, no processo, quatro exércitos soviéticos. Na batalha do bolsão de Smolensk, que começara quando Stalin reorganizou seu Alto-Comando, o Grupo de Exércitos Centro fez mais 310.000 prisioneiros, tomando 3.200 tanques e 3.100 canhões. Grande parte do equipamento era de segunda categoria – poucos dos novos tanques T-34 ou KV-I haviam entrado em serviço – mas  o pior é que não restava muita coisa nos arsenais para compensar essas perdas. Quanto às baixas em homens, estas só podiam ser substituídas por convocações das reservas ou das fileiras ainda em treinamento da Osoaviakhim. As formações perdidas eram substituídas através da criação de unidades de Opolchenie, a “milícia do povo”.

 

Apesar, porém, dos desastres e dos desacertos de grande parte da máquina militar, havia poucos informes de rendições voluntárias em grande escala. O apelo de Stalin para que se travasse uma “Guerra patriótica” calara bem fundo no espírito do povo, tradicionalmente muito ligado às coisas de sua pátria – os soldados russos rendiam-se quando tinham de render-se, e às vezes isso acontecia em grandes números. A maioria dos relatórios alemães da campanha salientam sua pertinaz recusa em depor as armas, só fazendo quando completamente cercados e sem munição.

 

Mas, para os alemães, no momento, o estado moral russo não era o mais importante. A soma de vitórias conquistadas, o dimensionamento do resultado dessas conquistas tendo em vista o futuro da operação, pois não só o Grupo de Exércitos Centro vinha colecionando resultados, isso tudo chegara a aturdir os germânicos.

 

O Grupo de Exércitos Norte, o mais fraco dos três, com apenas 20 divisões de infantaria e um só Panzergruppe, o de n° 4, comandado por Hoeppner, recebera como objetivo, na diretiva da “Operação Barbarossa”, a conquista de Leningrado. Tinha também que se apossar da costa do Golfo da Finlândia e destruir as forças russas que fosse encontrando pelo caminho. Como a oposição dos russos ao ataque do Panzergruppe 4, a 22 de julho, consistia de, apenas, uma divisão de fuzileiros que ocupava uma frente de 65 km, foi-lhe muito fácil penetrar rapidamente as defesas. Marchando em três colunas – o 18o Exército ao longo da costa, o Panzergruppe 3 no centro e o 16o Exército à direita, flanqueando as divisões mais setentrionais do Grupo de Exércitos Centro, ele penetrou rapidamente a Lituânia e, a 30 de junho, havia conquistado cabeças-de-ponte sobre o Dvina, ao longo do qual deveria estar a “Linha Stalin”. Varando-a, o Panzergruppe, depois de um ou dois movimentos falsos, chegou a Ostrov, do outro lado da fronteira russa, pré-1939, com a Letônia, a 4 de julho. Dez dias depois, sem se deter diante das concentrações russas com que foi esbarrando, o 41o Corpo do Panzergruppe 4 chegou à linha do Luga, o último obstáculo fluvial importante antes de chegar a Leningrado, situado a apenas 96 km da cidade.

 

O Grupo de Exércitos Sul, comandado pelo mais ortodoxo e talvez o mais impressionante dos oficiais generais alemães, o Feldmarechal Gerd von Rundstedt, enfrentara, do mesmo modo irresistível, as defesas russas no seu setor, ao sul do Pripet. Esse Grupo de Exércitos era misto, formado de uma massa de manobra setentrional de divisões de infantaria alemãs e de um Panzergruppe, o n° 1, tendo ao sul uma força de divisões romenas e um corpo húngaro. Estas tropas estrangeiras eram mal equipadas com armas francesas, fornecidas durante os anos da Pequena Entente. Cabia a estas divisões-satélites realizar uma penetração a leste dos Cárpatos, e depois marchar paralelamente aos exércitos alemães que avançavam pela estepe da Ucrânia. Seu objetivo era Kiev, um dos mais importantes centros industriais da URSS.

 

À penetração inicial do setor atribuído ao Grupo de Exércitos, realizado no começo de julho, seguiu-se um dos poucos contra-ataques em larga escala, montados pelo Stavka durante as primeira semanas do desastre. O 5o Exército russo, que se refugiara no Pripet, e o 6o Exército, que operava na imensa estepe, tentaram, acertadamente em termos de bom senso tático, cortar a cabeça da ponta-de-lança alemã, representada pelo Panzergruppe l, que avançava sobre Kiev em ataques concêntricos. Mas, na prática, as inexperientes formações russas mostraram-se incapazes de conter os alemães, que logo formavam flancos defensivos e, depois de reunir forças suficientes, rechaçavam os atacantes. O esforço russo salvou dois dos seus exércitos – o 12o e o 26o – do cerco, mas não alcançou o objetivo almejado. Ao contrário, mal deteve o avanço do Grupo de Exércitos, cujos Panzer, desimpedidos, tornaram a avançar velozmente, chegando a 16 km de Kiev a 11 de julho.

 

Os resultados da luta nas frentes dos três Grupos de Exércitos foram espetaculares. Os Grupos de Exércitos Norte e Sul chegaram à distância que um tanque poderia percorrer num dia, até seus objetivos principais, apenas um mês após o início da batalha. No setor do Grupo de Exércitos Centro, a luta resultara em grandes levas de prisioneiros e em baixas sem precedentes numa guerra, além de bater novos recordes em velocidade de avanço: a 15 de julho as pontas-de-lança do Grupo de Exércitos Centro estavam a quase 800 km a leste do ponto de onde haviam partido a 22 de junho. Era natural que esses resultados levassem o OKH e o OKW, na pessoa de Hitler, a crer que a “Batalha da Rússia” estava em quatro semanas praticamente terminada, e que só restava impedir a fuga de mais formações do derrotado Exército Vermelho para o leste. Todavia, ao decidirem como fazer isso e como atribuir tarefas às formações vitoriosas do Ostheer, - o Exército de Leste – seus comandantes viriam a entrar em sérias dissensões.

 

Hitler e seus generais discordam

 

A confiança de Hitler em seu poder de raciocínio militar desenvolveu-se a pouco e pouco. Ele provou estar certo – e seus generais não – quando revelou que a invasão da Renânia, em 1936, e da Áustria, em 1938, pelo exército alemão, não sofreria qualquer oposição. Também provou estar mais certo que seus generais ao prever o desenrolar e a duração da Blitzkrieg contra a Polônia, em 1939. Apesar de tudo isso, Hitler ainda não se sentia suficientemente seguro para, em questões estratégicas de grande envergadura, impedir que o Alto-Comando do Exército prevaricasse durante meses, no decorrer do inverno de 1939-40, sobre os planos para a invasão do Ocidente. As restrições do Alto-Comando não se restringiam à natureza ou sincronização do ataque. Eram feitas também à necessidade de sua efetivação, e até, como no caso de von Leeb, à sua moralidade. Tanto Brauchitsch, o Comandante-Chefe, como Halder, o Chefe do Estado-Maior (do OKH), tentaram persuadir Hitler, não uma vez, mas várias, de que a invasão da França pela Alemanha, sendo um ataque de uma potência mais fraca a outra mais forte, estava fadada a terminar em desastre. Mesmo depois de Hitler ter desprezado tais receios peremptoriamente, os generais procuraram protelar o início da operação, propondo planos palpavelmente irresolutos e avançando objeções técnicas às propostas mais promissoras inclusive do próprio Hitler.

 

Acontece que a vitória alemã no oeste, pela perfeição com que foi levada a efetivar-se, contribuiu muito para firmar o conceito de Hitler como estrategista, tanto aos seus próprios olhos como aos dos seus generais, pelo menos por algum tempo. Aliás, teria sido inconveniente pensar o contrário, para homens prontos a receber o bastão de Feld-marechal  das suas mãos (doze foram promovidos e nenhum deles recusou). Contudo, no fundo os estrategistas militares alemães tinham dúvidas sobre o talento de Hitler, no nível que eles denominam operativ, nível intermediário entre o da tática e o da estratégia: o nível em que as grandes decisões estratégicas são realmente levadas a cabo, apesar dos esforços do inimigo para frustá-las – em suma, no mais difícil de todos os níveis. O domínio da habilidade operativ, afirmavam os cérebros das forças alemãs, só depois de longos anos de experiência e treinamento, na paz e na guerra, seria perfeito, já que seu exercício exigia a mais íntima familiaridade com o funcionamento de todas as formações subordinadas de um exército. Hitler carecia, ou parecia carecer, dessa familiaridade. Daí as restrições que os generais faziam à qualidade do seu raciocínio militar, restrições que se apoiavam sobretudo nas demonstrações de insegurança que ele dava com freqüência no decorrer das operações no oeste. Uma destas demonstrações de insegurança está suficientemente constatada na decisão que tomou de deter as formações blindadas a pouca distância do perímetro de Dunquerque, no dia 26 de maio de 1940, quando a destruição da Força Expedicionária britânica estava ao alcance da Wehrmacht. Como sabemos, Hitler foi levado a tomar essa decisão a conselho de Rundstedt, um dos mais respeitados – e mais ortodoxos – líderes do exército alemão. Este fato, porém, não era do conhecimento dos militares, que viam em Hitler um homem dotado de espantosa perspicácia estratégica, mas inadequado para o controle de forças em campanha.

 

Realmente, seria estranho que tivessem qualquer outra opinião, independente das evidências, pois não é de conhecimento de causa e sensatez a demonstração que dá o Chefe de Estado que tenta dirigir por controle remoto operações militares de grande envergadura (como Hitler viria a fazer durante meses, e mesmo anos, até o fim da guerra). Também  era contrário aos interesses da Generalität alemã admitir que tal coisa fosse possível, pois significaria abrir mão de direitos e responsabilidades inerentes ao comandante de campo de batalha admitir que um homem, diante de um mapa, avaliasse melhor o moral de seus comandados, a força ou as debilidades do inimigo e determinasse, ainda a distância, todas as alternativas de uma batalha. A admissão desse fenômeno por parte do comandante eqüivalia a um esvaziamento total do cargo, a um rebaixamento à condição de simples mensageiro da vontade do Comandante Supremo.

 

A breve duração de todas as campanhas até então realizadas pela Wehrmacht havia impedido muita intervenção de Hitler na sua administração. Fator idêntico, ou talvez mais importante, fora a maneira extremamente fácil como os grandes planos estratégicos haviam sido postos em prática e obtido os resultados esperados. Durante o primeiro mês da “Operação Barbarossa” parecia que o padrão talvez viesse a repetir-se: a grande visão estratégica do Führer desenrolando-se majestosamente sob a direção perita do militar profissional, para quem seu criador olhava apenas de maneira benevolente e encorajadora.

 

Por volta de meados de julho começaram a surgir os primeiros sinais de que a alegre divisão de trabalho estava prestes a ruir por terra. Dados o caráter de Hitler e o vulto da campanha russa, não poderia ter acontecido outra coisa. Os números envolvidos e as distâncias a serem cobertas eram tão maiores aos que o exército alemão enfrentara até então; os objetivos a serem alcançados, tão dispersos; a meta a ser atingida tão mais grandiosa, que nenhum planejador, por mais atilado que fosse, e nenhum plano, por mais amplo que fosse, poderiam prever todas as contingências. Ao contrário, habilidades operativ da mais elevada ordem seriam necessárias para que ao inimigo fosse arrancada a vitória dentro dos limites de tempo instituídos por Hitler. Daí a maneira incipiente e inábil demonstrada pelas forças agora espalhadas pela estepe.

 

O meio de intervenção de Hitler nos assuntos militares era o OKW (Oberkommando der Wehrmacht), sobretudo na seção deste chamada Wehrmachtführungstab, dirigida por Jodl. Pelo menos no início, as responsabilidades do OKW não iam à atividade operacional e, na verdade, não deviam estender-se ao controle das operações na Rússia (embora assim o fizesse em “setores do OKW” como na África do Norte e, por estranha sutileza, na Finlândia). O controle diário dos exércitos em campanha era exercido pelo OKH (Oberkommando des Heeres), o Alto-Comando do Exército. Mas, naturalmente, era no OKW que Hitler realizava diariamente duas conferências sobre a situação, e era ali que os oficiais do OKH apresentavam seus relatórios.

 

Os dois oficiais chefes do OKH, Brauchitsch e Halder, embora, a princípio, lutassem bastante pela autonomia operacional do exército, não revelaram caráter suficientemente forte, infelizmente para o exército, para conseguir essa autonomia. Halder, o Chefe do Estado-Maior, era bastante inteligente para ver o que iria acontecer, ou melhor, o que estava realmente acontecendo, em virtude da sistemática intervenção de Hitler nas atribuições do OKH, mas era incapaz de combatê-lo. Brauchitsch, a quem cabia também opor-se a essa intervenção, era o último oficial de quem isto seria de esperar, já que construíra sua carreira bajulando Hitler. Indicado como sucessor de Fritsch, demitido por falsas acusações de imoralidade, em 1938, Brauchitsch imediatamente concordou com a remoção de vários outros oficiais generais, que seus novos senhores consideravam inaceitáveis. Daí em diante, não manifestou nunca disposição para discutir nada que viesse de Hitler. A única vez que se encorajou a arriscar um mas, recebeu uma espinafração tão forte, que decidiu nunca mais arriscar-se.

 

Mas, seja qual for o objeto preponderante no comportamento dos generais germânicos, deu-se inevitável diferença de opinião entre ele e seus comandantes em campanha. Este choque de opinião assemelha-se muito ao que deu também no Alto-Comando Aliado na França, três anos depois, quando, após a destruição do Westheer (o Exército de Oeste), na Normandia, Montgomery e Eisenhower discordaram sobre a melhor maneira de explorar a primeira vitória obtida. Montgomery era por uma “Frente Estreita”, um avanço ao longo de um eixo nordeste, tendo tropas britânicas como ponta-de-lança e apoiado por todos os recursos em transportes e abastecimento à disposição dos Aliados, visando a penetrar a Muralha Ocidental alemã e capturar o Ruhr, seu centro industrial. Eisenhower, preocupado com os efetivos das forças inimigas que haviam escapado à destruição ou ao cerco na Batalha da Normandia, e temeroso de que os recursos logísticos dos Aliados não pudessem estender-se até onde Montgomery queria levá-los, defendia um avanço de “Frente Ampla”, para que os exércitos aliados se pegassem com o inimigo na maior frente possível, abrissem vários caminhos até a Alemanha e tomassem bases de onde pudessem envolver o Ruhr, em lugar de penetrá-lo

 

Esta analogia não é lá muito perfeita, porque, como veremos, Hitler procurava para o problema russo solução muito mais drástica do que a que Eisenhower buscava para o seu; mas Montgomery e os generais alemães esposavam pontos de vista e atitude igualmente radicais, ao mesmo tempo que, no respeitante à logística havia importantes similaridades entre as duas situações, que passaram despercebidas, a de 1941 e a de 1944. Isso porque o exército alemão se via em grande parte obrigado ao uso das estradas para transportar seus suprimentos, tal como aconteceria com os Aliados em setembro de 1944. O caso primeiro não se devia aos efeitos destrutivos dos seus ataques aéreos contra o sistema ferroviário russo, e sim à necessidade de reduzir a bitola dos trilhos russos (159 cm) para o padrão europeu ocidental (143 cm). Todavia, tal como acontecia com Montgomery, os líderes dos Panzer não queriam saber de queixas sobre as dificuldades de transportar suprimentos, por estradas ruins, semidestruídas pela guerra, de bases distantes até uma linha de frente que não parava de mudar de lugar.

 

A primeira vez que Hitler insinuou raciocínio que o levaria a sérios conflitos com seus generais foi a 8 de julho, quando deixou claro estar pensando em tentar capturar a Ucrânia, em lugar de Moscou e Leningrado, aparentemente por causa dos resultados econômicos que isto oferecia. A medida, porém, envolvia uma inversão das prioridades estratégicas estipuladas pela Ordem da “Operação Barbarossa”(Diretiva do Führer n° 21), que prescrevia a destruição do Exército Vermelho da Rússia ocidental como seu primeiro objetivo, a tomada de Leningrado e a costa do Báltico com objetivo n° 2, vindo Moscou em terceiro lugar, a menos que circunstâncias formidáveis possibilitassem a montagem de operações simultâneas dirigidas contra duas cidades ao mesmo tempo. De qualquer modo, a Ucrânia só depois de tudo isso realizado é que seria visada.

 

Já em meados de julho era evidente que a destruição do exército russo seria tentada não apenas através de pinças dos Panzer. Particularmente perturbadora era a presença de um remanescente da força de proteção soviética, representada pelo 5o Exército, dentro dos Pântanos do Pripet. Exames posteriores revelariam que seu poder de ataque era pequeno, mas as ameaças representadas por ele contra os flancos do Grupo de Exércitos Centro, situado ao norte dos pântanos, e do Grupo de Exércitos Sul, postado ao sul dele, eram o bastante para subentender que as linhas de comunicação de retaguarda desses dois grandes agrupamentos corriam perigo. Além disso, as próprias linhas de comunicação do 5o Exército soviético, que o ligavam ao interior, continuava, abertas.

 

A 19 de julho Hitler emitiu importante Diretiva, destinada a esclarecer a situação, reiterando que o objetivo básico da operação era destruir o Exército Vermelho a oeste da linha Dnieper-Dniester, particularmente o 5o Exército Vermelho, no Pripet, e os 6o e 12o Exércitos,  na Ucrânia, mas estipulava que estas tarefas tinham de ser realizadas através do desvio par o sul de grande parte dos efetivos de Panzer do Grupo de Exércitos Centro. Ele concertaria ataques com as forças do flanco norte (o 6o Exército alemão e o Panzergruppe 1 de Kleist) do Grupo de Exércitos Sul. O resto dos blindados do Grupo de Exércitos Centro entraria em contato com o Grupo de Exércitos Norte e apressaria a marcha sobre Leningrado.

 

Estava em curso nova interferência de Hitler no controle operacional em escala maciça. Mas nem Brauchitsch nem Halder tentaram discutir o problema com ele naquele momento. Aliás, é perfeitamente possível que ainda uma vez estivessem de acordo com ele, com referência ao curso dos acontecimentos. Quem reagiria, violentamente, contra a tentativa de cercear o alcance da penetração nas fracas defesas russas e a progressão para leste, seriam os comandantes de nível mais inferior, notadamente os comandantes de Panzer e, em particular, Guderian, do Panzergruppe 2.

 

Mas eles ainda não tinham meios de fazer chegar seus sentimentos a Hitler, que, cada vez mais alarmado com a intransigência das formações russas cercadas, e talvez já começando a comparar as virtudes da aquisição de território com a destruição de forças inimigas, emitiu, a 23 de julho, um suplemento à Diretiva do Führer n° 33, que insistia na importância da destruição de forças. Ela adiava o ataque a Moscou até que as operações de limpeza em torno de Smolensk tivessem terminado, e teria posteriormente confiado a missão às formações de infantaria. Como as unidades avançadas de infantaria do Grupo de Exércitos Centro ainda estavam pelo menos a uns 350 km da capital, este trecho da Diretiva pretendia claramente expressar mais aspiração do que uma real intenção.

 

Todavia, a principal concentração de forças russas continuava sendo a da frente do Grupo de Exércitos Centro, comandada pelo Marechal Timoshenko, que desfecharia contra ele uma arremetida vigorosa mas inoportuna, na terceira semana de julho. Na luta que se seguiu, as unidades Panzer de Guderian e Hoth sofreram baixas que não podiam sofrer, já que apenas o desgaste provocado pelo avanço reduzira seus efetivos de tanques em 50 %.

 

Aí estavam provas de apoio da opinião de Hitler, que o OKH de modo algum refutava, de que “os russos não serão vencidos em encontros de grandes proporções, não se entregam em grandes levas, porque simplesmente não sabem reconhecer quando estão batidos. Portanto, eles têm de ser esmagados aos bocados, por meio de pequenas operações táticas”(26 de julho). De acordo com esse raciocínio e com linhas gerais estipuladas no suplemento à Diretiva n° 33, Brauchitsch expediu ordens detalhadas ao Q-G operacional.

 

No tocante às operações do Grupo de Exércitos Centro, ficou por ele estabelecido que esse grupo primeiramente destruiria o 5o Exército soviético no Pripet, usando os Panzergruppen. Guderian, que fora chamado do seu posto de comando para receber essas ordens, numa conferência dos comandantes de Exército do Centro, no Q-G de Novi Borisow, ficou ressentido com o que naturalmente considerava mau emprego dos seus tanques. Entretanto, tendo também sido promovido a comandante de exército nessa reunião (sendo, por isso, seu Panzergruppe rebatizado Armeegruppe Guderian), ele decidiu não prender-se às instruções que lhe foram delineadas na conferência. Nessa decisão, ele seria muito ajudado pelo fato de que sua promoção o libertava do controle de Kluge, o comandante do 4o Exército; ambos se detestavam mutuamente. Essa promoção subordinava-o apenas a Bock, cujo Q-G estava consideravelmente mais à retaguarda que o de Kluge e cujas idéias sobre a guerra blindada se assemelhavam mais às suas.

 

A técnica que Guderian escolheu como meio para descumprir as ordens que lhe pareciam erradas pertence a uma venerável tradição na história das desobediências militares. Ele iniciou a batalha de modo que se tornou impossível, pelo menos pela maneira como se apresentaram os acontecimentos, livrar suas forças até que tivesse vencido. O ponto onde ele resolveu organizar a “ação de retardamento” foi Roslavl, uma pequena cidade situada a 110 km a sudeste de Smolensk, entre o Desna e o Dnieper, onde as estradas para Moscou, Leningrado e Kiev se encontram.

 

Os motivos alegados por Guderian, à parte conquistar um ponto nodal tão valioso, era o rompimento do que ele declarou ser uma concentração ameaçadora de divisões russas em torno da cidade. As divisões, talvez em número de quatro ou cinco, por certo existiam, mas parece improvável que fossem a ponta-de-lança de grande contra-ataque, como Guderian insistia em chamá-las. Na realidade, elas haviam sido reunidas para penetrar o bolsão de Smolensk, fosse para livrar ou para reforçar as unidades ali presas.

 

A recorrer a essa evasiva, ele forçou a aprovação, implícita ou explícita, de Bock, seu comandante de Grupo de Exércitos, que não poderia ver com bons olhos um desenvolvimento de forças capaz de lhe arrebatar o papel principal na frente russa. Também houve aprovação tácita do OKH, cujo representante, comparecendo ao Q-G de Guderian a 31 de julho, lhe dissera indiretamente que o exército não seria hostil a certa resistência, na linha de frente, à tendência de Hitler de intrometer-se em assuntos operacionais.

 

Independente da atitude de Kluge, Bock ou Halder, ou mesmo de Hitler, parece improvável que Guderian tivesse concordado com qualquer decisão que dispersasse os grupos Panzer que operavam no que ele considerava ser o eixo decisivo, nem com um plano que os desviasse ainda que temporariamente para outras frentes. Afinal de contas, Guderian praticamente criara as forças Panzer sozinho, por certo estava mais intimamente identificado com os princípios da tática da Blitzkrieg do que qualquer outro general alemão, e tinha confiança ilimitada na sua eficácia. Para o general dos Panzer, a constante preocupação quanto à segurança dos próprios flancos ou tentativas de alcançar objetivos secundários, de passagem, eram igualmente odiosas. O que contava era a velocidade ao longo da linha de ataque principal, pois era isto que deixava o inimigo sem fôlego, provocava a desorganização em suas fileiras, aumentava o espanto dos seus soldados, cortava suas linhas de aproximação da frente ameaçada e destruía a infra-estrutura do seu sistema de abastecimento e transporte. Por todos os motivos, Guderian opunha-se previsivelmente ao encerramento do avanço sobre Moscou, agora situada a 350 km das patrulhas avançadas das suas tropas Panzer. Elas haviam percorrido 700 km em seis semanas. Levaria mais tempo para capturar Moscou?

 

Todavia, na mesma noite em que Guderian iniciou a ofensiva de Roslavl, chegou outra Diretiva do Führer, a de n° 34, afirmando que Hitler reconsiderando assunto tratado na anteriormente baixada, determinava que os grupos Panzer do Grupo de Exércitos Centro não deviam ser emprestados a qualquer outro setor das forças em operação. O parágrafo principal dizia o seguinte: “O desenrolar da situação nos últimos dias, o aparecimento de forças inimigas mais poderosas na frente e nos flancos do Grupo de Exércitos Centro, as condições do abastecimento e a necessidade de dar aos Panzergruppen 2 e 3 cerca de dez dias para restaurar suas unidades, tornam necessário adiar temporariamente as outras tarefas e objetivos”. Os Grupos de Exércitos Norte e Sul teriam de se arranjar com as forças então sob seu comando e avançar.

 

O raciocínio de Hitler, ainda que diferisse do esboçado na diretiva, não ficara claro. Contudo, pode ser que ele tivesse aceito a inevitabilidade de certo adiamento nesse momento (o sistema logístico alemão estava muito desorganizado e, por certo, não poderia abastecer os Panzer num avanço de 320 km), e decidiu aproveitar o tempo do adiamento para uma visita aos Q-G de operação para colher impressões pessoalmente das circunstâncias e ouvir opiniões. A 4 de agosto, ele visitou o Grupo de Exércitos Centro, em Novi Borosow. Embora não o soubesse, foi uma visita arriscada, pois a equipe de Bock incluía vários membros daquele grupo de jovens oficiais que estavam planejando (ainda que de modo amadorístico) derrubar Hitler do poder. Como não pretendia fazer violência contra ele, e como, naturalmente, os guardas SS não permitiam que se aproximassem dele, seus esforços nessa ocasião fracassaram. Não obstante, era um presságio do que viriam a tentar, com crescente determinação, nos três anos seguintes.

 

De sua parte, Hitler fez questão de entrevistar separadamente cada um dos comandantes de exército em Novi Borosow, para que o conjunto das objeções à sua estratégia não superasse a defesa que ele fazia da mesma. Era uma precaução sensata: quando perguntou a Bock, Guderain e Hoth (comandante do Panzergruppe 3) quanto tempo cada um deles precisaria para preparar seu avanço sobre Moscou, Bock declarou-se pronto para iniciar imediatamente, mas Guderian pediu uma quinzena e Hoth, três semanas. Reunidos, eles foram incapazes de oposição convincente ao plano de Hitler, e, mesmo de obter dele a promessa de envio de quantidades satisfatórias de tanques ou peças sobressalentes para substituir os destruídos ou desgastados na avanço. E isto, apesar da extraordinária confissão de Hitler a Guderian, de que “Se tivesse sabido que os números dos efetivos de tanques russos que você d