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Nesta narrativa precisa e fria da defesa de Moscou, um historiador inglês combinou seus diversos talentos com os do marechal Zhukov para produzir algo que não é encontrado em nenhum outro livro. Esta obra talvez seja a melhor fonte de informação sobre uma das maiores e mais terríveis campanhas deste ou de qualquer outro século A primeira
derrota de Hitler
Em sua diretiva n° 21, de 18 de dezembro de 1940, Hitler determinou o objetivo da Campanha Barbarossa: “A União Soviética deve ser esmagada numa campanha rápida antes do fim da guerra com a Inglaterra, e os primeiros ataques prepararão o caminho para a ocupação do centro vital de comunicações e armamento – Moscou”. Nas discussões subseqüentes sobre as operações militares, entretanto, tornou-se cada vez mais evidente que havia uma discrepância entre o pensamento de Hitler e o de seus consultores no Alto-Comando das Forças Armadas (OKW) por um lado, e o Alto-Comando do Exército alemão (OKH) por outro. Hitler tentava por todos os meios por em prática as teorias do Mein Kampf, pois suas preocupações relacionavam-se com os assuntos políticos e ideológicos como também com a economia no setor militar. Essa dualidade de opinião entre Hitler e seus assessores influiu para prejudicar a campanha em seus primeiros estágios de ataque à união Soviética (22 de junho de 1940) e nos meses que se seguiram, até chegar as portas de Moscou. Assim, tanto no planejamento como na execução, Hitler e o OKH seguiram rumos paralelos, continuando, porém, separados. Além disso, quando o ataque inicial sofreu um adiamento de quatro ou cinco semanas, como resultado da campanha dos Balcãs, este fato deveria ter concentrado as operações numa área mais restrita, tendo em mira um único objetivo. O Grupo de Exércitos Centro, que desfechara golpes violentos contra as forças inimigas numa série de grandes operações de cerco, deveria ter atacado Moscou através de Minsk-Smolensk-Viazma, mas foi incapaz de romper a resistência inimiga. Os velozes avanços empreendidos pelas colunas Panzer, que, diante de seu sucesso nas campanhas anteriores, eram o presságio de uma vitória rápida, não tiveram o mesmo efeito no Leste. Nos vastos espaços abertos, as unidades blindadas movimentaram-se isoladas e não podiam aproximar-se, tendo de esperar pelas unidades de infantaria, dando assim ao inimigo, em grandes grupo, a oportunidade de poder romper os cercos e escapar à perseguição das forças alemães, tão logo chegavam às extensas áreas de florestas e pântanos. Hitler estava plenamente cônscio desse problema quando emitiu sua Diretiva n° 33 a 19 de julho de 1941, ali constando que desistia de Moscou como o principal objetivo do Grupo de Exércitos Centro e ordenava que as forças alemães fossem divididas: poderosas unidades do Grupo de Exércitos Centro foram desviadas para o sul, a fim de se juntarem ao Grupo de Exércitos Sul, que avançava sobre Kiev com o intuito de impedir ao inimigo uma retirada para leste. Kiev caiu em mãos alemães a 19 de setembro de 1941, embora a batalha prosseguisse até o dia 26 do mesmo mês. Essa “batalha involuntária” não teve nenhum efeito decisivo. Ao contrário, ela imobilizou as unidades panzer e foi motivo de considerável perda de tempo; a intenção de derrotar a União Soviética numa campanha rápida foi frustrada. Uma vez reiniciado o ataque a Moscou a 2 de outubro, e assim que Briansk e Viazma foram tomadas a 6 e 7 de outubro, o Grupo de Exércitos Centro conseguiu penetrar as posições de defesa de Moscou. Por volta de meados de outubro, as primeiras neves do inverno haviam-se transformado em lama congelada, surpreendendo as forças alemães, que não contavam com isso e estavam mal equipadas, ocasionando um revés inesperado. No final de outubro, as posições alemães eram as seguintes: a 3a Divisão Panzer estava em Klin, na estrada Kalinin-Moscou, e as unidades avançadas da 7a Divisão Panzer defendiam uma cabeça-de-ponte a leste do canal Volga-Moscou, em Yakhroma, aproximadamente a 35 km de Moscou; para o sul, a 2a Divisão Panzer lutava pela posse de Tula ao sul da cidade; a 4a Divisão empenhava-se num ataque frontal a 40 km da cidade; assediadas pela frente e pelo flanco, as forças alemães não podiam continuar avançando. Desde 22 de junho de 1941 elas vinham combatendo ativa e constantemente e agora seu moral e sua resistência física declinavam. Atrás da frente alemã não havia reservas para preencher as imensas brechas que deixavam expostos alguns milhares de quilômetros da linha de batalha. O Exército Vermelho não usara uma só vez sua força total para deter o ataque alemão e agora os soviéticos viam que chegara sua hora de revidar. Daí em diante, nem Hitler nem o OKW tinham voz ativa no campo de batalha - isto era exclusividade do inimigo real: Zhukov. Nas semanas e meses que se seguiram, o exército alemão teria a prova do quanto o Exército Vermelho aprendera, enquanto se limitava a deter seu ataque, tanto ao nível tático quanto na parte operacional. Visto no contexto mais amplo da Segunda Guerra Mundial, o fracasso em derrotar a União Soviética em quatro ou cinco meses assinalou o fim da Blitzkrieg. Dos pontos de vista político, econômico e militar, Hitler subestimara a União Soviética. Em 1939 ele considerara “realização digna de um estadista” o fato de a Alemanha só ter de lutar numa frente, mas agora a guerra em duas frentes se tornara uma realidade, tal como a Alemanha experimentara antes, em 1914-1918. Era evidente que os aliados de Hitler estavam desiludidos e que nas áreas ocupadas a resistência às forças de ocupação aumentava. A Turquia, que Hitler gostaria de ter visto participando na “sua guerra”, continuou de lado, na expectativa. Enquanto a resistência aliada a Hitler recebia considerável impulso, a Inglaterra, em particular, soube aproveitar a trégua tão necessária para promover seus preparativos militares e desenvolver suas alianças. A União Soviética podia contar com as Potências Ocidentais e lançar todo o seu peso contra a Alemanha. Além disso, desde 7 de dezembro de 1941, quando o Japão atacou Pearl Harbor, os portos do grande arsenal da democracia estavam abertos aos líderes da União Soviética. A batalha às portas de Moscou, no inverno de 1941-1942, é considerada, acertadamente, como uma das mais decisivas da Segunda Guerra Mundial. Ela foi o último ato retardado no desígnio alemão de derrotar a Rússia. O que quer que Hitler empreendesse a partir desse momento, só poderia representar o adiamento de sua derrocada final. O autor do exame que se segue, Geoffrey Jukes, tornou-se conhecido pelos seus livros, Stalingrado, o Princípio do Fim e Kursk: the Clash of Armour. Possuidor de um vasto conhecimento sobre a Wehrmacht e o Exército Vermelho, ele pintou um quadro bem autêntico da batalha às portas de Moscou, mantendo elevado grau de objetividade, combinado com vigor e colorido. Este livro é digno sucessor dos seus trabalhos anteriores. Na minha opinião de comandante de tropas e testemunha do começo da campanha alemã até o bem sucedido avanço sobre o canal Volga-Moscou e a retirada final, posso conformar a veracidade do que foi narrado. - General Hasso von Manteuffel |
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A ascenção do
Marechal Zhukov
Se a Batalha da Inglaterra foi a primeira vez, na Segunda Guerra Mundial, que se estabeleceram claramente as limitações militares da Alemanha, à Batalha de Moscou cabe a segunda. Mas, sob outros aspectos, há muito pouco em termos de comparação entre as duas batalhas. No primeiro caso, as pontas-de-lança adversárias, o Comando de Caças da Real Força Aérea e as Luftflotten 2, 3 e 5, consistiam de tripulações lançadas em combate em número raramente superior a 1.000 pelos alemães, salvo nos momentos de pressão máxima, e nunca atingido esse número pelos ingleses. Foi uma batalha entre forças empenhadas em tecnologia moderna e cujo resultado deveu muito a fatores científicos, tais como a posse do radar pelos ingleses; além disso a mais notável arma alemã - suas forças blindadas - não pôde participar. Por outro lado, a Batalha de Moscou foi uma luta de titãs, com mais de um milhão de soldados empenhados em combate nos dois campos adversários. Foi a primeira de vários embates na Frente Oriental, e na qual as forças Panzer, o orgulho do exército alemão, enfrentaram abertamente um Exército Vermelho aparentemente exaurido pelos meses de defesa exaustiva e infrutífera; agarraram confiantes aquela presa suprema, a capital do único estado comunista do mundo, viram-se escapar das suas mãos e foram obrigadas a uma fuga, que quase se transformou numa debandada. A recuperação do Exército Vermelho, depois que quase todas as forças regulares com as quais começara a guerra foram eliminadas (por volta de dezembro de 1941, havia quase 3.500.000 soldados soviéticos em campos de prisioneiros de guerra alemães) foi um feito extraordinário e para o qual toda a União Soviética contribuiu de uma forma ou de outra. Mas a defesa, que teve de ser conduzida por uma mistura de unidades ad hoc, remanescentes de exércitos derrotados, divisões de reserva mobilizadas às pressas, e da Milícia Popular, que era totalmente destreinada, foi, em sua estrutura, obra de um homem. O mesmo aconteceu com a escolha do momento adequado para lançar as reservas, que incluíam praticamente as últimas forças do quadro de paz – as divisões siberianas do Exército do Extremo Oriente – contra forças alemãs, cujo ímpeto de ataque declinara, mas que ainda não se haviam entrincheirado para uma luta na defesa. Esse homem era o Comandante da Frente Ocidental Soviética (Grupo de Exércitos), o General-de-Exército, e mais tarde Marechal da União Soviética, Georgy Konstantinovich Zhukov. Ele nasceu em 1896 na aldeia de Strelkovka, da então Governança de Kaluga, a sudoeste de Moscou. A família Zhukov, como a de muitos outros bem sucedidos generais do Exército Vermelho, era extremamente pobre e seu pai, um sapateiro, passava muito tempo fora de casa à procura de trabalho. Todavia, ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, o jovem Zhukov pôde freqüentar a escola, onde se saiu muito bem, até os 10 anos de idade, quando foi tirado dali para começar a ganhar a vida. Em 1907 ele tornou-se aprendiz de peleiro e curtidor de um dos irmãos de sua mãe em Moscou, onde pôde continuar sua educação freqüentando a escola noturna. Em agosto de 1915, devido às imensas perdas humanas do exército russo nas batalhas da Primeira Guerra Mundial, ele foi convocado antes do tempo para servir no 189o Batalhão de Infantaria da Reserva. Ao completar seu treinamento ele foi transferido para a cavalaria, para o 10o Regimento de Dragões Novgorod, onde se tornou “vice-suboficial” (mais ou menos equivalente a sargento) e foi ferido em ação, recebendo por duas vezes a elevada condecoração tzarista por bravura, a Cruz de São Jorge. Pouco depois de sair do hospital, deu-se a revolução de fevereiro de 1917. Como em geral acontecia no exército, seu esquadrão nomeou um comitê de soldados, do qual ele foi eleito presidente e delegado junto ao Soviete (Conselho) Regimental, que, em março votou pelo apoio ao Partido Bolchevista de Lenine. Este ato dividiu o regimento em três facções hostis, com alguns apoiando os bolchevistas; outros, o Governo Provisório, de Kerenski, que desejava continuar a guerra, e outros, ainda, os Nacionalistas Ucranianos, que favoreciam a independência da Ucrânia. A facção pró-bolchevista era a minoria e Zhukov foi obrigado a ocultar-se por várias semanas, antes de retornar secretamente a Moscou, onde chegou em fins de novembro de 1917. Já então os bolchevistas haviam tomado o poder em Petrogrado (então a capital e hoje chamada Leningrado), sobrevindo a guerra civil que se prolongaria até 1922. Zhukov, que já então ligara seu destino ao Partido Comunista, decidiu apresentar-se como voluntário para a Guarda Vermelha, o núcleo do exército que o governo revolucionário estava formando, mas antes que pudesse fazê-lo, foi atacado de tifo e somente seis meses depois é que pôde realizar sua intenção, ingressando como soldado raso na 1a Divisão de Cavalaria de Moscou. O Exército Vermelho tinha grande necessidade de oficiais treinados, pois a maior parte do corpo de oficiais ingressara nos Exércitos Brancos, e um subalterno dedicado e experiente vindo de um regimento de elite do Exército Imperial poderia progredir com rapidez. Ao término da guerra civil, Zhukov estava no comando de um esquadrão no 1o Exército de Cavalaria (cujo comandante, outro ex-subalterno da cavalaria do Exército Imperial, Semyon Mikhailovich Budenny, ele viria a substituir à frente da defesa de Moscou em 1941) e decidira fazer do exército a sua carreira. O 1o Exército de Cavalaria era o orgulho das forças armadas do novo estado e muitos dos mais notáveis generais soviéticos sairiam do seu quadro de suboficiais. Mas talvez o que mais influiu em sua carreira foi o interesse demonstrado mais tarde pelo Comandante-de-Brigada Semyon Konstantinovich Timoshenko, que, dezoito anos depois, já então marechal e Comissário Popular da Defesa, elevou Zhokov, seu colega mais jovem, ao posto de seu primeiro-ajudante, como Chefe do Estado-Maior-Geral. No período entre as duas guerras, Zhukov, já famoso como um dos mais promissores jovens militares do Exército Vermelho, se transferira da cavalaria para os blindados e esposara as modernas teorias da guerra blindada expostas pelo Capitão Liddell Hart, que os alemães estavam adotando e que o Chefe do Estado-Maior-Geral soviético, o brilhante Marechal Tukhachevsky, estava propagando ativamente. Contudo, ele não se destacou suficientemente a ponto de atrair a atenção da polícia secreta quando Stalin, em 1938, empreendeu o seu desastroso e sangrento expurgo do corpo de oficiais, e isto lhe daria sua primeira oportunidade de brilhar como comandante de uma grande força em combate. Juntamente com muitos outros oficiais considerados “dignos de confiança” e, portanto, livres do expurgo, ele se viu rapidamente promovido a postos deixados vagos por oficiais superiores que “desapareceram” nos anos terríveis de 1938-39. Em julho de 1939 ele foi indicado para o comando das forças soviéticas e mongóis que estavam combatendo um exército japonês de 75.000 homens que invadira a República Popular da Mongólia pela China. A 20 de agosto de 1939 ele contra-atacou os japoneses e por volta do dia 31 os expulsara (ou o que restara deles, pois 41.000 foram mortos, feridos ou capturados) numa completa debandada de volta à China. Esse acontecimento influiu consideravelmente na decisão japonesa de não atacar a União Soviética em 1941, o que possibilitou a Stalin transferir a maior parte das suas divisões siberianas para o Oeste; isso, no entanto, não teve grande repercussão numa Europa já tão preocupada com o início da Segunda Guerra Mundial. As notícias sobre a Mongólia foram eliminadas dos jornais a 1o e 2 de setembro de 1939 e substituídas pelas da invasão da Polônia empreendida pelos alemães e dos ultimatos britânicos e francês, de modo que a Europa teria sua opinião formada sobre o Exército Vermelho e seus líderes de acordo com o seu desastroso desempenho na guerra contra a Finlândia três meses depois. Somente os japoneses, por experiência própria, classificariam como formidável o poderio militar soviético. Não obstante, o sucesso de Zhukov resultou em seu primeiro encontro com Stalin e no começo de um relacionamento que cresceu rapidamente e deu a Zhukov maior autonomia na tomada de decisões militares do que a alcançada por qualquer outro soldado. Logo de início ele foi nomeado assistente do seu velho chefe, Timoshenko, no Q-G do Distrito Militar Ucraniano, que, sendo enviado para o norte em janeiro, de 1940, para assumir o comando da guerra contra a Finlândia, fez-se acompanhar por Zhukov, integrado nas funções de Chefe de Estado-maior. Os dois concluíram com sucesso aquela campanha, anteriormente tão mal encetada, e Stalin então nomeou Timoshenko Comissário Popular da Defesa, com a incumbência de restaurar o poderio militar do Exército Vermelho, e este colocou Zhukov no posto que ele próprio ocupara antes, agora rebatizado como “Distrito Militar especial de Kiev” e considerado um dos mais importantes comandos da campanha, devido à sua extensa fronteira com a Polônia então ocupada pelos alemães. Foi ali que ele fez seu primeiro discurso em público, a 11 de dezembro de 1940, deixando bem clara a necessidade de fortalecer as qualidades militares (contrastando bastante com o espírito de lealdade à liderança do partido), atacando alguns membros mais antigos do Alto-Comando, muitos dos quais eram exemplos clássicos e desastrosos de promoção conseguida apenas por lealdade a Stalin e não por talento militar, e insinuando a necessidade de iniciar preparativos para a guerra contra a Alemanha. Esta talvez fosse a mais perigosa de todas as declarações, porquanto implicava que a Aliança Germano-Soviética de 1939 não eliminava tal possibilidade e, portanto, sugeria que Stalin podia ser tapeado. Nem Zhukov nem qualquer historiador soviético explicou a razão por que ele fez esse discurso, nem por que, tendo-o feito, não foi punido: muitos dos seus colegas tinham sido castigados por menos. Não obstante, a filosofia que ele então expressou, destacando a necessidade de as operações bélicas estarem nas mãos de militares fidedignos, e não sujeitas à divisão de controle inerente ao velho sistema de chefes políticos, continuaria sendo sua característica e encontraria expressão concreta quando se tornou Ministro da Defesa após a morte de Stalin. Ao expor as razões de sua manifestação pública tentando alertar sobre as incoerências de certos aspectos da política do governo, ele aparentemente não teve problemas por causa disso, sendo, ao contrário, apenas dois meses depois, em janeiro de 1941, novamente promovido. A ocasião foi uma conferência de cúpula em Moscou, na qual se apresentou uma série de debates sobre os problemas da guerra moderna e até mesmo um plano, admitindo-se um eventual ataque alemão. A participação de Zhukov, na conferência e no plano de guerra foi relevante. No fim dos trabalhos, Stalin convocou os oficiais superiores para uma reunião dentro de duas horas e ordenou ao Chefe do Estado-Maior-Geral, General Meretskov, que fizesse um relatório sobre o exercício. Meretskov, avisado à última hora, e devido à escassez de tempo, apresentou um relatório deficiente, como qualquer um teria feito nas mesmas circunstâncias. Stalin esperou até que ele terminasse e depois voltou-se para Zhukov: “O camarada Timoshenko pediu que se nomeasse o Camarada Zhukov para Chefe do Estado-Maior-Geral. Estão todos de acordo?” Ninguém se atreveu a objetar, de modo que a partir de 14 de janeiro de 1941, Zhukov passou a ocupar o segundo mais alto posto do Exército Vermelho, aos 44 anos de idade e passando por cima de muitos companheiros que poderiam muito bem considerar-se com mais direito a essa promoção. Integrado ao novo posto, o principal dever de Zhukov era ajudar seu velho patrono, Timoshenko, a eliminar as falhas apresentadas na guerra finlandesa e preparar o Exército Vermelho para a guerra com a Alemanha, que parecia tornar-se cada vez mais inevitável. Mas a importância da tarefa e Stalin confiando que poderia adiar o confronto pelo menos até 1942, significavam que não se poderia esperar resultados favoráveis do programa de modernização, pelo menos durante um ano. E Hitler atacaria dentro de seis meses e oito dias a partir da data da integração de Zhukov nas novas funções. Quando se deu o ataque, Timoshenko e Zhukov presenciaram suas forças desaparecendo em direção aos campos de prisioneiros alemães, as forças aéreas dizimadas em terra e Stalin ora apenas como espectador, o que paralisava a máquina de guerra soviética, porque os expurgos haviam ensinado a todos que tomar qualquer iniciativa era algo extremamente perigoso, dando ordens para que as tropas resistissem, quando a prudência militar mandava que se trocasse espaço por tempo, sendo preferível a retirada, para evitar o cerco. Em Kiev, todo um grupo de exércitos foi aniquilado, porque Stalin não permitia que a cidade se entregasse; os alemães fizeram 665.000 prisioneiros. Os soviéticos negam isso raivosamente, mas admitem perdas de 527.000 homens em dois meses, enquanto preferem ignorar o destino de pelo menos 10 divisões de reserva despachadas para a Ucrânia após o início das hostilidades, e que provavelmente também desapareceram, aumentando o total de perdas em cerca de 100.000 homens. Em todo o período a partir de 22 de junho até o começo do ataque alemão a Moscou a 30 de setembro, a única batalha que pôde ser considerada uma vitória foi a operação de Zhukov em Yelnya, em agosto e setembro, onde os alemães foram expulsos da cidade, embora escapassem por um triz à sua tentativa de cerco. Tudo o mais ou foi um fracasso total ou uma dispendiosa ação de retardamento, resgatando tempo com sangue, e avaliando-se os resultados somente no futuro, quando as outras batalhas, para as quais o tempo foi um fator de grande significação, já haviam sido travadas. Pelo começo do outono, Timoshenko e Zhukov há muito haviam deixado de exercer funções sedentárias no Ministério da Defesa. Stalin assumira o posto de Comandante-Chefe, e o Marechal Shaposhnikov, ex-Coronel do Exército Imperial, um dos poucos oficiais superiores tzaristas a aceitar o comunismo, se tornara Chefe do Estado-Maior-Geral. Instalara-se um Q-G Geral (STAVKA), e o antigo Comissário do Povo e seu ajudante, como membros do mesmo, eram despachados para lá e para cá para estabilizar uma frente que desaparecia progressivamente. Foi nessa função de “quebra-galhos” que Zhukov conseguiu deter temporariamente os Panzer em Yelnya, onde lançou em combate os seis exércitos da sua Frente de Reserva a fim de travar a batalha de 26 dias do Bolsão de Yelnya e deter o avanço do Grupo de Exércitos Centro para Moscou. Leningrado estava sendo sitiada pelo Grupo de Exércitos Norte e sua queda parecia iminente. Zhukov recebeu ordens de encarregar-se da cidade, onde chegou a 12 de setembro. Em três dias de energia inaudita conseguiu restaurar a ordem na linha defensiva já bastante abalada, demitiu grande número de oficiais, enviou alguns para o pelotão de fuzilamento, por retiradas não-autorizadas, e deteve o Grupo de Exércitos Norte. Embora não o soubesse na época, sua feroz energia fez com que Hitler classificasse o esforço do Grupo de Exércitos Norte como “um fracasso”, e em pouco tempo seus blindados, o Grupo Panzer 4 do Coronel-General Hoeppner, começavam a dirigir-se para o sul a fim de participar da ofensiva contra Moscou. Mas eles só teriam desempenhado papel insignificante na tomada de Leningrado, porque as cidades oferecem péssimo terreno de operações para forças móveis. A ocupação da cidade seria uma tarefa entregue às divisões de infantaria, e se tivesse havido indícios manifestos de abalo na defesa, elas teriam avançado para o alvo que Hitler insistia em classificar como superior a Moscou pela sua posição estratégica e pela sua importância simbólica já que era o berço da revolução comunista. Posteriormente, a cidade resistiria a 900 dias de sítio nos quais, embora muitos milhares dos seus cidadãos morressem de fome e inanição, jamais estaria tão perto da captura quanto nas vésperas da chegada de Zhukov. De Leningrado, chamado por Stalin, Zhukov foi a Moscou, a 8 de outubro, ali encontrando uma situação das mais graves. Na verdade, as defesas de três grupos de exércitos (as Frentes Ocidental, de Reserva e de Briansk) haviam-se desintegrado ante a arremetida dos alemães; as colunas Panzer tinham penetrado e praticamente o caminho estava desimpedido até a capital. Mais adiante neste livro, Zhukov descreve com suas próprias palavras a maneira como enfrentou a situação. Basta dizer aqui que ele inverteu as posições e infligiu aos alemães sua primeira grande derrota terrestre de toda a guerra, destruindo de tal modo a confiança que Hitler depositava em seus generais, a ponto de demitir o Comandante-Chefe do Exército, os três Comandantes de Grupo de Exércitos e 31 outros generais. As perdas alemãs em homens, material e moral foram igualmente significativas, porquanto nunca mais, durante toda a guerra, a Alemanha estaria em situação de poder montar uma ofensiva que não fosse num eixo estratégico de cada vez. Hitler volta-se
contra a Rússia
Em setembro de 1939, o novo exército-modelo alemão invadiu a Polônia por trás de pontas-de-lança de tanques e infantaria motorizada, protegido por uma cortina de bombardeiros de mergulho (Stukas). Os poloneses, mal equipados e surpreendidos pela tática de uma guerra moderna, foram a cobaia inocente dos primeiros testes empreendidos em grande escala das teoria da guerra blindada, originariamente apresentadas nos anos 20 por estudiosos britânicos como Liddell Hart, todavia esposadas com entusiasmo por um grupo de oficiais remanescentes da derrotada Reichswehr de 100.000 homens da Alemanha. A personalidade de maior renome entre eles, Heinz Guderian, conseguira vencer a oposição dos superiores mais renitentes, preparara e submetera à prova uma formação-modelo centralizada no tanque e no soldado de infantaria transportado em caminhões e, finalmente, conseguira conquistar o entusiasmo e o apoio de Hitler para o novo conceito de tática. Também outros exercícios fizeram experiências baseadas nas idéias dos teóricos britânicos, mas por várias razões a filosofia da mobilidade não conseguira impor-se. Como resultado, o tanque persistiu sobretudo como elemento de apoio da infantaria, sendo a unidade de mobilidade tática o soldado de infantaria, marchando a 4 ou 5 km por hora e avançando em combate, com o devido respeito pela segurança dos seus flancos, numa velocidade muito menor. Somente na nova Wehrmacht dos fins dos anos 30 é que havia forças consideráveis que podiam mover-se com a rapidez de um tanque, cerca de 32 km por hora, nas quais a infantaria era transportada em caminhões, para elevar a sua velocidade à dos tanques, e não ao contrário, e nas quais uma questão de princípio era avançar rapidamente só dando à proteção dos flancos a atenção mínima ditada pela prudência. O sêxtuplo aumento em mobilidade tática assim obtido seria utilizado para penetrar as formações de linha de um exército convencional, expondo-o, assim, ao cerco das forças móveis à sua retaguarda e das massas de infantaria convencional à sua frente. Se preferisse a retirada ao cerco, poderia sofrer a investida das forças móveis, e assim se tornaria impossível estabilizar suas posições, e aquela atitude não passaria de uma debandada, protegida pela incansável atividade dos bombardeiros de mergulho. O conceito revolucionário de guerra foi de grande eficácia no golpe contra a Polônia, pois em menos de três semanas a campanha estava praticamente encerrada. Oito meses depois, em maior de 1940, as doutrinas de Guderian foram mais uma vez postas à prova num teste ainda maior, quando as novas forças se desencadearam contra a França, Holanda e Bélgica, cujos exércitos, mais a Força Expedicionária Britânica, contavam com efetivos que superavam numericamente os da Alemanha. Seis semanas de campanha renhida impuseram à França uma rendição que o exército do Kaiser tentara conseguir em vão durante os quatro anos e três meses da Primeira Guerra Mundial; expulsaram os britânicos de volta ao Canal da Mancha, bastante desfalcados de homens e da maior parte das suas armas pesadas, e expuseram as Ilhas Britânicas a uma ameaça de invasão mais direta do que haviam experimentado desde 1805. Os britânicos dispuseram-se a enfrentar uma provação à qual não estavam acostumados; desde 1066 a Grã-Bretanha estivera a salvo de invasões inimigas, mas nenhuma potência havia dominado o continente europeu como a Alemanha parecia estar conseguindo em 1940. Por várias razões, políticas e psicológicas, bem como militares, felizmente a ameaça não se concretizou. A opinião de Hitler sobre os britânicos era bastante complicada e ambivalente. Ele estava inclinado a aceitar a continuidade da existência do Império Britânico, contanto que a Grã-Bretanha reconhecesse que a Europa estava sob seu domínio; embora a Gestapo preparasse planos macabros em relação às principais personalidades e pretendesse deportar os homens capazes para o continente assim que a Inglaterra tivesse sido subjugada, Hitler naquele estágio esperava que os britânicos “vissem a razão”, compreendessem a inutilidade de combater sem a ajuda de aliados e concordassem com uma paz negociada que tornaria indiscutíveis as suas conquistas. O fato de que ele julgou mal o temperamento dos britânicos na adversidade já é notório; o mesmo acontece com sua ambivalência em relação à idéia de eliminá-los do nível de igualdade do poder mundial. Não obstante, uma vez que os britânicos recusaram inequivocamente a idéia de uma paz negociada, os preparativos para a invasão, apropriadamente chamada “Operação Leão-Marinho”, prosseguiram e, aqui, sem dúvida, houve a influência de fatores estratégicos. A chave do sucesso concentrava-se na possibilidade de desembarcar e abastecer um exército na outra margem do Canal da Mancha e, por conseguinte, a atitude da marinha alemã era decisiva. O entusiasmo dos seus líderes pelo empreendimento foi temperado pelo conhecimento que tinham de que forças de superfície da Marinha Real eram consideravelmente superiores às suas em número e que se poderia esperar que elas lutassem eficazmente em defesa do seu território metropolitano, partindo das bases principais disponíveis e com séculos de tradição de sua invencibilidade. Somente o novo fator do poderio aéreo poderia mudar o equilíbrio de forças em favor da Kriegsmarine e isto significava que se precisava recorrer à Luftwaffe, porque a marinha alemã não dispunha de forças aéreas para combate. A princípio a Luftwaffe, personificada pelo seu líder, o gordo Reichsmarschall Hermann Goering, acreditava poder demonstrar superioridade aérea sobre a RAF numa questão de dias. Estes, no entanto, se transformaram em semanas, que por sua vez viraram meses, e assim se constatou que os britânicos, embora às vezes em grandes dificuldades, resistiam até o fim e que as perdas que estavam causando à Luftwaffe superavam as suas em aviões e em grau muito maior no fator realmente decisivo da Batalha da Inglaterra - tripulações aéreas, especialmente pilotos. Quando julho deu lugar a agosto, e este ao mês de setembro, tornou-se evidente que a superioridade aérea, o pré-requisito para a “Operação Leão-Marinho”, não seria conquistada Tão cedo, já que o início das tempestades de inverno tornaria duvidosa a possibilidade de abastecer as tropas do outro lado do Canal da Mancha. Pela primeira vez, desde o início da guerra, a Batalha da Inglaterra viera provar que a cadeia de sucessos militares da Alemanha podia ser rompida. Com o fracasso das investidas da Luftwaffe, a mais poderosa arma da Alemanha, seu exército até então invencível, não pôde ser utilizado contra um antagonista cujas enfraquecidas forças terrestres provavelmente não teriam resistido durante muito tempo. Todavia, esses acontecimentos não tiveram o poder de lançar qualquer dúvida sobre a eficácia do exército alemão. O fracasso coube somente à força aérea e à marinha, que se mostraram inoperantes. Havia ainda no continente europeu outra potência que não estava sujeita ao domínio de Hitler e cuja existência continuada significava que seu poderio no continente era incompleto, cujo território era acessível por terra e para a qual a atitude de Hitler era totalmente destituída de qualquer ambigüidade. Essa potência era a União Soviética, governada pelo ditador georgiano, Joseph Stalin. Naquela época, os dois países eram nominalmente aliados; na verdade, foi a aliança, o Pacto Molotov-Ribbentrop, assinado a 25 de agosto de 1939, que possibilitou a invasão da Polônia pelos alemães e provocou a eclosão da guerra. Mas independente do que as considerações táticas pudessem ditar, não podia haver dúvidas do antagonismo existente a longo prazo entre as duas ditaduras. Desde os primeiros tempos da formação do partido nazista, Hitler encarava seu vizinho comunista no Leste como a mais mortífera manifestação da “conspiração judia internacional” à qual atribuía a culpa dos insucessos da Alemanha. Haveria discussões sobre esferas de influência a serem divididas assim que o Império Britânico estivesse em condições de ser desmembrado, mas nenhum dos dois governos acreditava realmente na possibilidade de coexistência a longo prazo. E expressivo das atitudes de Hitler para com a Grã-Bretanha por um lado, e para com a União Soviética por outro, o fato de que ele pronunciou a sentença fatal: “temos de cuidar da Rússia”, na realização de uma conferência secreta com oficiais superiores do OKH (o Alto-Comando do Exército), a 21 de julho de 1940. Haviam passado apenas quatro semanas desde a rendição da França e a Batalha da Inglaterra já começara, embora a data oficial de início alemã para ela, o Dia da Águia (13 de agosto), estivesse marcada para dali a três semanas. Nem o OKH, responsável pelo planejamento da operação, nem o OKW, o Alto-Comando das forças armadas, responsável pela distribuição e movimento das forças necessárias, permitiram, na época, que seus sucessos retumbantes de 1939 e 1940 os cegassem a ponto de não verem as dificuldades inerentes a esse empreendimento muito maior. Não era segredo o fato de que perseguir os esquivos exércitos russos pelos vastos espaços das estepes havia acarretado enormes derrotas a grandes líderes militares do passado, inclusive Napoleão, e que uma campanha prolongada, que daria à Rússia tempo de mobilizar seus grandes recursos de potencial humano, provavelmente não seria bem sucedida. Desde o começo do processo de planejamento, quase todos os militares sugeriam que o Exército Vermelho deveria ser atraído para combate o mais possível para oeste, de preferência para oeste da linha dos rios Dvina e Dnieper, mas por certo a oeste de Moscou. A campanha deveria começar em maio de 1941, isto é, após o degelo de primavera, que transforma a maioria das estradas (poucas são pavimentadas) em faixas de lama, e deveria terminar em 17 semanas, no máximo, isto é, antes do reaparecimento da lama com as chuvas de outono. O Serviço de Inteligência em relação ao Exército Vermelho era deficiente em certos aspectos, mas admitia-se que ele poderia desenvolver 119 divisões (96 de infantaria e 23 de cavalaria) e mais 28 brigadas mecanizadas, contra as quais a Alemanha, com 146 divisões (24 Panzer, 12 motorizadas e 110 de infantaria) estaria em superioridade numérica. Enquanto os generais Marcks e Feyerabend preparavam o esboço dos planos de operação para o OKH, o OKW trabalhava baseando-se em suas próprias apreciações. O plano Marcks visava a duas penetrações principais: uma pela Rússia Branca, até Moscou, e a outra pela Ucrânia, até Kiev. Elas operariam independentes uma da outra, dando pouquíssima atenção aos seus flancos, de acordo com as diretrizes clássicas da guerra Panzer, até que o grupo norte tivesse capturado Moscou, quando então se desviaria para o sul, para a retaguarda das forças soviéticas que estariam enfrentando o grupo sul. Por outro lado, o estudo do OKW estabelecia o deslocamento de três grupos (Norte, Centro e Sul) visando a Leningrado, Moscou e Kiev, respectivamente, e era mais convencional, porquanto admitia que eles protegeriam os flancos uns dos outros avançando aproximadamente à mesma velocidade. Já dissemos que o Serviço de Inteligência alemão sobre o Exército Vermelho era precário em certos aspectos. Foi tomada importante providência para remediar essa falha quando, em outubro de 1940, decidiu-se autorizar missões de reconhecimento aéreo sobre território soviético, visando a identificar áreas militares, quartéis, aeródromos e alvos militares similares. Com o passar dos meses, essas missões aprofundaram-se cada vez mais na União Soviética e as fotografias tiradas por esses precursores dos U-2 americanos não bastavam para uma reavaliação maior dos efetivos do Exército Vermelho na área central (de Brest até Moscou). Essa pesquisa, com os resultados dos planos de guerra realizados pelo OKH em fins de novembro e começos de dezembro, reforçara, as primeiras conclusões do General Marcks de que a força de ataque dirigida contra Moscou teria de ser particularmente poderosa. As questões agora haviam chegado a um ponto em que se poderia apresentar opiniões a Hitler e a 5 de dezembro, o Chefe do Estado-Maior-Geral do OKH, Coronel-General Halder, fez um resumo das conclusões tiradas até então. Seu relato mostrou que houvera certa fusão de pensamento entre o OKH e o OKW, porquanto foi adotada a idéia de se organizar um ataque de três pontas, encontrada no estudo do OKW. Halder observou que os três centros principais de produção de armamentos e, portanto, as três áreas que o Exército Vermelho teria de defender se pudesse enfrentar uma guerra prolongada, seriam os de Leningrado, Moscou e Kiev. Portanto, essas áreas constituíam os alvos estratégicos a ser atingidos e se deveria destacar um grupo de exércitos para cada uma. Os russos não poderiam defender essas áreas a menos que defendessem e lutassem a oeste da linha Dvina-Dnieper, como os alemães queriam que o fizessem. Dois dos grupos de exércitos lutariam ao norte dos pântanos do Pripet e um ao sul, concentrando assim toda a força do ataque ao longo dos eixos Leningrado e Moscou. Diante dos comentários de Hitler sobre essa apresentação surgiram os primeiros sinais de divergência do ponto de vista militar geralmente aceito sobre a importância básica que Moscou representava como alvo estratégico - divergência que viria a confundir o andamento das operações no verão seguinte. Hitler concordou com Halder de que o Grupo de Exércitos Centro, operando ao longo do eixo Varsóvia-Moscou, deveria ser mais forte que os outros, mas o justificou com base na possível necessidade de um desvio de parte das suas forças para o norte, para ajudar o grupo dali e eliminar formações soviéticas sitiadas nos estados bálticos, e não pela importância que representava o próprio objetivo. Até então, a operação não tinha um codinome geral. Apenas o OKH chamava-a de “Otto”. Pouco depois dos debates de Halder com Hitler, o OKW recebeu ordens de reunir os vários documentos relativos aos planos e incluí-los numa Diretiva do OKW Führer que seria assinada por Hitler. O rascunho da Diretiva 21, de codinome “Fritz”, foi submetido à apreciação de Hitler a 17 de dezembro, reaparecendo no dia seguinte com o pomposo codinome de “Barbarossa”, evocação à lembrança do imperador medieval Frederico, o da barba Ruiva (participante da 3a Cruzada, companheiro de Ricardo Coração de Leão e de Felipe Augusto de França), na tentativa de disfarçar uma campanha de pilhagem e conquista protegidas pelo manto de uma Cruzada. A mudança de nome como indicador do estado de espírito de Hitler não é tão importante quanto as modificações de conteúdo entre o rascunho da Diretiva “Fritz” e o da “Barbarossa” representam para o historiador militar. O Führer detalhou seus comentários de 5 de dezembro, deixando bem claras as suas ordens no sentido de que as forças soviéticas deveriam ser inteiramente destruídas pelo Grupo de Exércitos Centro e que este depois disso deveria destacar elementos poderosos de forças móveis para ajudar o Grupo de Exércitos Norte na eliminação do Exército Vermelho em toda a extensão do Báltico. Assim, ele atribuiu ao Grupo de Exércitos Centro uma responsabilidade que se achava em conflito com o ataque a Moscou, missão esta que o OKW e o OKH tinham considerado como sua principal tarefa. Por estranho que pareça, nem o OKW nem o OKH registraram qualquer protesto, embora muitos generais mais tarde passassem a encarar essa divergência de missões como a principal razão de a campanha de 1941 só ter atingido um dos seus três objetivos - Kiev. A Diretiva foi então elaborada em planos ainda mais detalhados para sua concretização, ficando prontos em fins de janeiro de 1941 e apresentados ao Führer a 3 de fevereiro. As avaliações revistas do Serviço de Inteligência tinham posto fim à ilusão de que a Alemanha desfrutaria de superioridade numérica durante toda a campanha. Esperava-se agora que os soviéticos deslocariam 155 divisões (100 de infantaria, 25 de cavalaria e 30 mecanizadas, avaliação um tanto precipitada e que indicava falta de precisão no Serviço de Inteligência alemão) contra 134 alemãs (20 Panzer, 13 motorizadas e 101 de infantaria). Contudo, esperava-se que o treinamento, o equipamento e a liderança soviéticos ficassem muito aquém aos dos alemães que, no devido tempo, também poderiam contar com a ajuda de um número não-especificado de divisões romenas. Em relação aos planos, se os russos conseguissem romper contato no leste e, assim, evitar o aniquilamento total, comentou Hitler, os flancos alemães deveriam ser bem reforçados e o Exército Vermelho, retido no centro, de modo que pudesse ser destruído posteriormente por meio de ataques concêntricos do norte e do sul. Uma vez mais, o Estado-Maior-Geral manteve-se em prudente silêncio enquanto Hitler não só exibia sua dissidência do ponto de vista que aquele adotava sobre a importância da investida a Moscou, como também formulou, à sua maneira um tanto displicente, a possibilidade do fracasso de toda a estratégia da Blitzkrieg; de que os russos pudessem livrar-se da destruição a oeste da linha Dvina-Dnieper por uma retirada, a fim de fugir a uma guerra a longo prazo, cujo propósito de todo o plano era evitar. Somente no verão seguinte é que eles discutiram abertamente com Hitler sobre essa questão, e os argumentos então apresentados são debatidos com todos os detalhes no Capítulo 3. Por enquanto basta observar que a diferença de pontos de vista entre Hitler e o OKH já existia desde fins de 1940, tornando-se mais evidente em fins de 1941, depois que foi provado não ser possível alcançar todos os objetivos estratégicos desejados e, portanto, urgia fazer a escolha entre eles. Fora planejado manter todas as forças de invasão nos seus devidos setores até 15 de maio de 1941, e ao OKH parecia ser quase impossível ocultar suas intenções depois de meados de abril, dando assim, ao Exército Vermelho cerca de um mês de aviso tático de que a guerra era iminente. Contudo, era realmente profundo o desprezo que dedicava as suas qualidades militares, originadas em grande parte do infeliz desempenho dos seus soldados na “Guerra do Inverno” de 1939-40 contra a Finlândia, e o OKH não esperava que esse período de aviso ou a conhecida superioridade numérica soviética em tanques e aviões lhes fosse de alguma utilidade. Os alemães também sabiam que o Exército Vermelho tomara providência um tanto retrógrada de dispersar suas divisões blindadas e redistribuir os tanques em formações menores entre as divisões de infantaria - embora na verdade essa medida estivesse sendo parcialmente invertida e novos corpos mecanizados estivessem sendo criados. Acontece que os acontecimentos decorreram de maneira diferente ocasionando aos russos um período de advertência ainda mais prolongado, mas eles não souberam aproveitar-se dessa vantagem e ignoraram os prognósticos de uma agressão alemã iminente, até o último momento. No fim de março de 1941, o governo da Iugoslávia, que era pró-Eixo, assinou um acordo com a Alemanha nazista. Este foi rejeitado pelo povo num levante espontâneo e violento, que resultou no repúdio ao tratado recém-assinado. Hitler considerou essa atitude um insulto à Alemanha e num rompante furioso ordenou a invasão imediata da Iugoslávia e da Grécia (onde a invasão italiana fora repelida). Mas as forças para essa invasão só poderiam ser encontradas nas que tinham sido destinadas para a “Operação Barbarossa”, e esta, por conseguinte, teve de ser adiada. A Iugoslávia foi, portanto, invadida, a 6 de abril, e no dia 7 o OKH retificou o estabelecido para a “Barbarossa”, convencionando que a invasão da União Soviética teria início no período de quatro a seis semanas após a conclusão das operações do sudoeste europeu. Quando essa emenda foi divulgada, a maioria das tropas destinadas à “Operação Barbarossa” (quase três escalões dos quatro estipulados) já tinham penetrado a Polônia e a Prússia Oriental, e as notícias da sua presença haviam chegado a Londres através dos agentes do Exército Metropolitano Polonês (era assim chamado o movimento guerrilheiro que se conservou fiel ao governo polonês no exílio). Winston Churchill notificou Stalin quanto à concentração de efetivos alemães ao longo das fronteiras soviéticas em abril, mas sendo um adversário implacável do comunismo desde 1917 e o instigador da intervenção de tropas britânicas na Guerra Civil russa de 1918-1922, e tendo até favorecido a participação britânica e francesa do lado da Finlândia em sua guerra com a Rússia em 1939-40, Stalin, que era um manipulador manhoso e inescrupuloso, achou por bem ignorar a informação vinda de tal fonte, achando-a capciosa. Ele acreditava que a única preocupação de Churchill consistia em aliviar a pressão existente sobre a Grã-Bretanha e por isso tentava envolver a União Soviética na guerra contra os alemães. Dada a sua natureza, e o passado anticomunista de Churchill, esse comportamento talvez fosse compreensível, ainda que indesculpável. Difícil de compreender é a sua recusa em acreditar em relatórios idênticos enviados pelo seu próprio Serviço de Inteligência, que, provavelmente, ele considerava mais fidedigno do que o britânico. Os historiadores soviéticos nunca explicaram satisfatoriamente o seu malogro em agir com bases nesses informes e qualquer tentativa de elucidá-lo situa-se apenas no terreno especulativo. Contudo, é provável de que estando plenamente cônscio das precárias condições bélicas de seus exércitos, flagrantemente despreparados para travar uma guerra no futuro imediato, e que ele próprio era o principal responsável por esse estado de coisas, Stalin sentiu-se influenciado em sua atitude para com os informes que sugeriam a iminência de um período de provações. Por volta de 1937, Stalin conseguira eliminar todos os seus mais prováveis rivais na luta para assumir a total liderança política do país. O espirito do partido comunista fora quebrado por anos de expurgo e se tornara um instrumento acovardado e submisso a sua vontade. Contudo, restava ainda uma fonte alternativa de poder, que eram as forças armadas, e em 1937-38, Stalin submeteu o corpo de oficiais a uma série de expurgos a fim de reduzi-lo ao mesmo estado de subserviência a que submetera o partido. Antes do início dos expurgos havia 300 ou mais oficiais no posto de comandantes-de-divisão; 183 deles foram afastados, sendo presos e muitos fuzilados; os que restaram seguiram para campos de concentração e ali foram submetidos a trabalhos forçados e a torturas cruciantes que até causaram morte prematura. Nestes 183 incluíram-se três dos cinco marechais da União Soviética e 13 dos 15 Comandantes-de-Exército (generais de quatro estrelas). Não se pôde estabelecer o número de oficiais que não alcançaram a patente de general também desaparecidos nos expurgos, mas por certo atingiram à casa de vários milhares. Entre os que foram fuzilados encontravam-se o Chefe do Estado-Maior, Marechal Tukhachevsky, um soldado de grande capacidade e pioneiro na aplicação das teorias alemãs da guerra blindada no Exército Vermelho, e também o Marechal Blyukher, que anulara a incursão japonesa no território extremo-oriental da União Soviética no lago Hasan, em 1939, e vários dos mais talentosos planejadores e progressistas do Exército Vermelho. Seus lugares foram preenchidos sobretudo por homens que se notabilizaram mais por sua dedicação à pessoa de Stalin do que pelas qualidades militares que por acaso talvez possuíssem - Voroshilov, Kulik, Mekhlis e outros - e as conseqüências dessa lamentável liderança não demoraram a surgir no catastrófico desempenho do Exército Vermelho contra os finlandeses, de flagrante inferioridade numérica, no inverno de 1939. Somente com a substituição de Varoshilov como Comissário popular da Defesa pelo Marechal Semyon Timoshenko (um dos poucos soldados de Alta patente merecedor de sua confiança) é que Stalin pôde sair vitorioso na guerra com a Finlândia - mas antes disso, porém, um mundo espectador declarara que o Exército Vermelho era um “tigre de papel”, incapaz de enfrentar um antagonista de grande categoria. Entretanto, havia uma notável exceção em meio a esse consenso pessimista - o Japão, e como os soldados e o líder militar que lhes deram motivo para uma opinião diferente desempenhariam papéis relevantes na Batalha de Moscou, vale a pena examinar a razão por que a opinião do Japão diferia tanto da que tinha o mundo em geral. Em 1938, no lago Hasan, na fronteira da Manchúria com a província Marítima Extremo-Oriental soviética, as forças japonesas entraram em território soviético, mas, no entanto, foram desalojadas após alguns dias de violenta luta pelas tropas siberianas do Exército Extremo-Oriental da Bandeira Vermelha - o exército que, em 1941, seria quase todo transferido para o oeste já que era o último quadro de formação disponível para defender Moscou. O Japão não fez outras incursões na Província Marítima, mas no ano seguinte uma força de uns 75.000 homens ocupou um saliente do território mongol ao longo do rio Khalkhin Gol. A República Popular da Mongólia Exterior apelou para o acordo de defesa realizado com a União Soviética, e tropas soviéticas já sediadas na Mongólia, nos termos do acordo, foram despachadas para a área. Reforços também foram enviados da Rússia e um talentoso general, que viera da cavalaria, foi destacado para comandar a força. Entre 20 e 31 de agosto de 1939, ele desbaratou por completo os japoneses, matando, ferindo ou capturando 41.000 deles, ao custo de umas 10.000 baixas do seu lado. O nome do general era Gregory Konstantinovich Zhukov; a campanha de Khalkhin Gol foi seu primeiro grande triunfo em combate. Seu segundo triunfo, dois anos e meio depois, seria a batalha de Moscou. Nesta, suas tropas siberianas desempenhariam um papel notável e sua presença seria possível porque o Japão decidira, em 1941, atacar para o sul contra as dependências coloniais das potências européias em guerra, e não para o norte, contra a União Soviética ora em apuros. Um fator importante na decisão japonesa seriam os maus tratos sofridos pelo seu exército em 1938 e 1939, especialmente a debandada geral em Khalkhin Gol. Assim, derrotando os japoneses na Mongólia em 1939, Zhukov afetou todo o curso da Segunda Guerra Mundial e, em particular, favoreceu sua vitória na Batalha de Moscou. Todavia, a campanha de Khalkhim Gol não atraiu muita atenção na Europa, na época (a Segunda Guerra Mundial estourou no dia seguinte ao término daquela campanha), e qualquer que tivesse sido o efeito causado na opinião militar seria em breve completamente obliterado pelo quase fiasco obtido na invasão soviética da Finlândia. Timoshenko foi chamado para corrigir as falhas do exército tão flagrantemente expostas naquela desastrosa campanha, e ele entregou-se à tarefa com denodo e inteligência. Oficiais de grande capacidade que haviam sido aprisionados nos expurgos foram reabilitados e promovidos e entre eles estava o General Rokossovsky, que mais tarde seria marechal e era um dos mais bem sucedidos comandantes-de-campanha soviéticos. O próprio Zhukov, velho amigo e companheiro de Timoshenko desde o tempo que pertenciam à cavalaria, recebeu o comando do importante Distrito Militar Especial de Kiev, na fronteira com a Polônia, ocupada pelos alemães, e em janeiro foi promovido a primeiro-ajudante de Timoshenko, na modernização das forças armadas, como Chefe do Estado-Maior-Geral. A tática adotada de debandar as divisões blindadas, que as campanhas alemãs na Polônia e na França mostraram ser completamente inoperantes, foi cancelada e deu-se início à organização de corpos mecanizados, combinando tanques e infantaria, de acordo com o sistema alemão. Mas a tarefa era de tão grande envergadura - e um dos seus aspectos mais difíceis consistia na restauração do moral do acovardado corpo de oficiais sem o qual é difícil inculcar espírito de iniciativa - que dificilmente estaria desempenhada integralmente antes de 1942. Stalin sabia disso e é muito provável que, quando no início de 1941 começaram a surgir evidências de que o Exército Vermelho teria de lutar antes que para isso estivesse em condições, tenha ignorado conscientemente essa espécie de advertência. O estado precário do exército era sobretudo conseqüência de seu deficiente desempenho; o número de seus efetivos poderia ser rapidamente aumentado por meio de mobilizações parciais e não divulgadas, e estas foram com efeito realizadas no começo de 1941. Porém, ainda levaria algum tempo para melhorar a qualidade e erguer o moral. Na vida de Stalin nada sugere que ele pudesse ter escrúpulos de consciência, mas no período de abril a junho de 1941, até mesmo ele deve ter tido problemas íntimos, e o torpor a que se entregou por várias semanas após o começo da invasão alemã sugere que realmente isso tenha acontecido. Stalin convenceu-se de que poderia evitar o inevitável. Decidiu apaziguar Hitler ao máximo, e não lhe dar qualquer “desculpa” para atacá-lo - que Hitler não precisava de desculpa e até forjaria uma para consumo do povo alemão, era um fato consumado que Stalin não queria enfrentar, apesar da experiência sofrida pela Polônia, Dinamarca, Noruega, Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo. Os embarques de matérias-primas, incluindo petróleo e minérios que, em poucas semanas, seriam usados para movimentar os tanques alemães e fornecer o metal para sua munição, continuaram sendo feitos. Tampouco se fez qualquer provocação contra as forças militares alemãs que se concentravam nas fronteiras. Um avião de reconhecimento alemão fez uma aterrissagem forçada no coração do território soviético e a tripulação não conseguiu destruir as fotos que havia tirado. Quando estas foram reveladas, Timoshenko pediu permissão para fuzilar os intrusos. Stalin recusou, alegando que isso seria ato de provocação. Assim, diariamente, os aviões de espionagem da Luftwaffe sobrevoavam sem nenhum impedimento a União Soviética, facilitando dessa maneira a cobertura do Serviço de Inteligência alemão. Nenhum general nazista teria motivo para começar uma guerra com a União Soviética, se dependesse da iniciativa de Stalin. Apesar de seu despreparo forçado, as forças soviéticas eram consistentes e possuíam potencialidades formidáveis. A população da União Soviética, composta de cerca de 170 milhões de habitantes, era o dobro da existente na Alemanha, e embora as fontes soviéticas jamais revelassem o número preciso de divisões em armas por volta do verão de 1941, acredita-se que elas superavam as 230. Contudo, muitas destas, em particular as do interior do país, estavam apenas parcialmente incorporadas e não atingiriam seus efetivos totais (14.300 homens) até que se decretasse a mobilização geral. As tropas que teriam de resistir ao ataque inicial alemão eram as 132 divisões dos Distritos do Báltico, Ocidental, Kiev e Odessa, e não as 155 segundo os cálculos dos alemães. Mas essa era uma força que, se adequadamente treinada, equipada e dirigida, poderia resistir às 134 divisões que seriam lançadas contra ele. Entretanto, contra isto havia a falta de treinamento e abatimento moral, especialmente dos oficiais; a inexperiência em relação à Blitzkrieg, que as forças alemãs não conheciam e, pelo contrário, tinham-na de sobra, e o fato de que, quando se desse a invasão, ela surpreenderia o Exército Vermelho em plena reorganização, com muitas das suas divisões abaixo dos efetivos, e com as recém-organizadas divisões de tanques do corpo mecanizado em menos de metade do convencionado na guerra. Acontece que os alemães puderam melhorar sua avaliação das forças disponíveis e lançaram em campanha 141 divisões (89 de infantaria, 51 Panzer ou motorizada e 1 de cavalaria), juntamente com 14 divisões romenas, um corpo de exército húngaro com pouco mais de duas divisões e, no norte, o exército finlandês e o exército alemão da Noruega contribuíram com cerca de mais de 20 divisões entre si. A força total do Eixo eqüivalia a 181 divisões e 18 brigadas, das quais cerca de 160 divisões atacaram na frente principal entre o Báltico e o mar Negro. Portanto no começo das hostilidades, o Exército Vermelho estava em inferioridade numérica no que se referia a formações prontas para combate, em potencial humano. Contudo, em blindados ela os possuía em grande quantidade, 34 divisões blindadas contra as 20 dos alemães, mas cuja equipagem era composta de tanques em sua maioria inferiores aos PzKw 3 e 4 alemães, embora dois de seus modelos, os formidáveis o KV pesado e o T-34 médio, começavam a impor-se na linha soviética. Uma vez disponíveis em quantidade e tendo já suas tripulações se familiarizado com o seu manejo, eles seriam uma surpresa extremamente desagradável para a Wehrmacht. O T-34, em particular, era uma máquina muito avançada para a sua época, e mesmo em fins dos anos 60, os tanques médios não só do exército soviético mas também de todos os países que os fabricam, compõem-se de todas as suas características. Mas em junho de 1941 ele ainda não era nem abundante nem familiar e, portanto, não poderia ter muito impacto sobre o choque iminente de armas. As divisões blindadas soviéticas estavam, em sua maioria, equipadas com tanques inferiores, como os BT-7 e o T-26, e da força total (que se acreditava ser de uns 20.000, embora os soviéticos jamais revelassem um número exato, provavelmente devido à humilhação sofrida ao terem sido superados por uma força alemã de apenas 3.700 tanques), somente uns 8.000 poderiam ser considerados em estado operacional quando a Alemanha atacou, e menos de 1.500 deles compunham-se de tipos novos. No que se refere às forças aéreas, as circunstâncias eram bastante semelhantes. O apoio proporcionado pela Luftwaffe foi organizado em três Luftflotten (Esquadras Aéreas), N° 1, 2 e 4, operando com os Grupos de Exércitos Norte, Centro e Sul, respectivamente, e totalizando cerca de 5.000 aparelhos. As Forças Aéreas vermelhas contavam cerca de 12.000 aviões de todos os tipos, em sua maioria disponíveis para uso na frente de batalha germano-soviética. Mas, em geral, seus elementos característicos eram inferiores aos dos alemães, acrescentando-se a isso a falta de experiência dos pilotos. E para dramatizar ainda mais a situação, não se dispersaram os aviões quando foi dado o aviso de ataque iminente (o que poderia ter sido feito com facilidade, já que a URSS ocidental é praticamente um grande aeródromo gramado) permanecendo eles, pelo contrário, estacionados em grande número nos aeródromos já visados para alvo dos aviões de reconhecimento e, assim, foram destruídos às centenas nas primeiras horas das hostilidades. Há razões para acreditar que mais de 1.200 deles foram destruídos somente no dia 22 de junho, a maioria na própria base. A maneira como as forças de terra dos distritos militares ocidentais se movimentaram durante os primeiros meses de 1941 dificilmente poderia ser mais adequada para o estilo de guerra alemão se se tivesse permitido ao OKH tomar iniciativa. Sob o regime de Voroshilov, as afirmações bombásticas de invencibilidade haviam superado em muito o planejamento inteligente baseado na doutrina militar. As tropas foram treinadas no sentido de que, no caso de invasão, expulsariam imediatamente o inimigo para fora do sagrado solo soviético e o esmagaria em seu próprio território. Isto, aliado ao conceito de guerra, originado da experiência da Primeira Guerra Mundial, que a imaginava como sendo linear e sobretudo estática, fizeram que as forças fossem distribuídas igualmente ao longo da fronteira e deslocadas nas suas proximidades. Em qualquer guerra, a defesa é confrontada com o problema de evitar uma penetração, em qualquer ponto, ao passo que o ataque pode concentrar-se, em superioridade numérica, em pontos escolhidos para uma penetração, mesmo que o total de seus efetivos seja inferior, mas o deslocamento que o Exército Vermelho escolheu para a batalha das fronteiras deixava pouco em reserva para liquidar as penetrações e tornou toda a força de cobertura sujeita a cerco e destruição parcelada. Para piorar ainda mais as coisas, muitas das forças não estavam realmente em posição favorável e sim espalhadas pelo terreno no decorrer das manobras de verão. O fato de que se deveria manter um elemento bem para trás das fronteiras não era má idéia, em vista da maneira como a Wehrmacht planejava encetar a campanha, mas as formações por trás da principal linha de defesa, na verdade eram destituídas de qualquer tipo de força coerente e operavam dentro das regras de um plano integrado. Assim, quando as hostilidades começaram, sua força maior foi lançada imediatamente para a direção do som dos canhões, e ali foi cercada com seus companheiros. Somente na tarde de sábado, 21 de junho, é que Stalin finalmente chegou à conclusão de que era impossível continuar ignorando as evidências das intenções alemãs com relação a seu país. Houve uma reunião do Politburo com o objetivo de decidir o que se deveria fazer, e as provas mais recentes e concretas, incluindo declarações feitas por desertores alemães, de que o ataque estava programado para a noite seguinte, foram apresentadas. Mas Stalin ainda assim se recusava a crer que Hitler estava prestes a tratá-lo e à aliança germano-soviética com o mesmo cinismo com que ele próprio tratara tantas obrigações no passado. Havia apenas seis dias ele autorizara uma declaração oficial da TASS, a agência noticiosa soviética, que denunciava as insinuações de uma guerra germano-soviética iminente. Na reunião do Politburo ele repisou a possibilidade de que um general alemão, ou um grupo de generais, estivesse tramando a fim de obrigar um Führer relutante a forçar a União Soviética a atacar por meio de uma “provocação”. Mas efetivamente concordou-se em alertar as forças, ordenar que ocupassem posições de defesa, dispersar os aviões, instituir medidas de precaução e proteção aos civis e o blecaute nas cidades. Mas tudo isso deveria ser executado envolto no mais absoluto segredo, para não dar desculpas para uma “provocação”, e mesmo que as tropas repelissem com êxito as investidas, em circunstância alguma deveriam perseguir seus adversários em território controlado pelos alemães. Tão secretas eram as instruções nesse sentido que ninguém deveria tomar conhecimento delas até que chegasse o momento adequado da sua revelação; todo esse cuidado induziu Timoshenko e Zhukov a escrever eles próprios os telegramas, só os transmitindo depois de todos relidos. A conseqüência de tudo isso é que somente a marinha (cujo Comandante-Chefe, Almirante Kuznetsov, tomou providências urgentes através dos seus canais de comunicação assim que soube do perigo) foi avisada a tempo de agir - e mesmo assim houve dificuldades quando bombardeiros alemães apareceram sobre as bases navais, porque os comandantes das defesas aéreas, sem instruções específicas, em alguns casos recusaram-se a abrir fogo antiaéreo ou a mandar que os caças levantassem vôo para defender a esquadra que estava sendo atacada ante seus olhos. A transmissão da ordem de alerta ao exército e força aérea só começou bem depois da meia-noite, tarde demais para ser posta em vigor nas áreas avançadas e, em muitos casos, tarde demais para ser transmitida às formações inferiores antes que o bombardeio da artilharia e os ataques aéreos alemães os avisassem que a guerra começara. Assim, às 03:30 h de domingo, 22 de junho de 1941 – exatamente na data em que se celebrava o 129o aniversário da invasão da Rússia por Napoleão – um exército que já estava provado, experimentado e em condições de iniciar uma guerra atacou outro completamente despreparado. Em poucas semanas, toda a estrutura militar soviética estava em sua maioria, mortas ou em campos de prisioneiros de guerra, e centenas de milhares de reservistas mobilizados às pressas: os alemães haviam capturado as terceira e quarta maiores cidades soviéticas, Kiev e Kharkov, e chegavam às portas das duas únicas maiores, Moscou e Leningrado. Parecia que o furacão que envolvera a França no ano anterior estava prestes a fazer o mesmo com a Rússia, mas o fato de ter vacilado, recuado e fracassado em sua tarefa de destruição deveu-se a vários fatores, e um dos mais importantes foi o gênio militar e também os nervos de aço de que era possuidor o arquiteto da vitória em Moscou, Stalingrado, Kursk e Berlim - o General Zhukov, de 45 anos de idade, que naquela noite sentado à mesa do gabinete do Comissário Popular da Defesa, dedicou-se a preencher apressadamente formulários de telegramas. De todas as batalhas que confirmaram o seu lugar na história como o senhor supremo da guerra do século XX, nenhuma foi mais decisiva para o futuro do seu país do que a Batalha de Moscou. E também nenhuma, em qualquer época, foi travada contando com recursos tão escassos.
Da fronteira até
Smolensk
A Wehrmacht lançou-se contra a Rússia sob a barragem de uma série de mentiras, tal como acontecera contra a Polônia havia quase dois anos. Tanto nas Ordens do Dia transmitidas às tropas como nas declarações feitas ao povo alemão, o governo nazista justificou a invasão à Rússia como a preempção de um ataque iminente daquele país contra a Alemanha. Mas não há necessidade de desperdiçar simpatias com o regime de Stalin, plenamente comparável ao de Hitler em seu cinismo e que, na verdade, usara o mesmo artifício, a alegação de agressão iminente, para justificar o ataque à Finlândia. Quando Molotov, ao receber a declaração de guerra alemã, perguntou ao embaixador alemão: “O senhor acha que merecemos isto?” falou ele não com a voz da retidão ultrajada, mas com a do conspirador traído. Até hoje, os relatos soviéticos dão a agressão da Alemanha como uma “quebra de palavra”, mas ignoram o fato de que ela descreve acuradamente a situação não apenas como transgressão às regras internacionais e sim como a quebra de uma aliança real e formal - uma aliança com o nazismo da qual os russos, em sua maioria, sentem-se um tanto envergonhados. Contudo, como às vezes se diz que a iniciativa nazista impediu um provável ataque soviético, e como alguns (notadamente o General Schmidt, Chefe do Estado-Maior do 6o Exército Alemão, mais tarde capturado em Stalingrado) chegam a afirmar ser este o caso, talvez valha a pena examinarmos qual era realmente a situação na manhã de 22 de junho. Em primeiro lugar, é verdade que as forças soviéticas estavam deslocadas em grande número ao longo e atrás das fronteiras, e que algumas - embora em pequena quantidade - permaneciam em estado de alerta. Esses fatores poderiam ser interpretados como demonstração de que o Exército Vermelho se predispunha com antecedência para uma invasão da Polônia ocupada pelos alemães. Contudo, é igualmente verdade que o deslocamento avançado pode ser encarado como resultante da doutrina militar conservadora Stalin-Voroshilov, que subestimava os efeitos das forças blindadas, esperava repelir a agressão por meio de defesa linear e postulava que as batalhas ofensivas bem sucedidas seriam seguidas de poderosa contra-ofensiva linear, na qual o inimigo seria “derrotado em seu próprio território”. Quanto ao fato de que algumas forças estavam prontas para combate, há muitas provas de fontes soviéticas de que, na maioria dos casos, o “alerta de combate” foi introduzido por comandantes locais, normalmente à revelia dos seus superiores, que ele era motivado por uma profunda inquietação sobre o que podiam ouvir (em alguns casos, podiam ver) acontecendo do outro lado da fronteira, e que o máximo que podiam fazer era afastar os soldados dos seus quartéis para que não fossem bombardeados nos próprios alojamentos. Essa prova é confirmada por várias declarações de generais alemães sobre os acontecimentos dos primeiros dias, e mais ainda pelas discussões ocorridas muito antes do início da “Barbarossa”. O mais respeitado dos velhos generais, o Feldmarechal Gerd von Rundstedt, que comandou o Grupo de Exércitos Sul, era vigorosamente contra a invasão. Hitler tentou convencê-lo de que a Rússia estava planejando invadir no verão de 1941, mas Rundstedt não se deixou persuadir, e após terminada a guerra disse ao cruzar a fronteira que não viu quaisquer indícios de preparativos bélicos na área avançada. De qualquer modo, o que caos sobreveio em todos os níveis do Exército Vermelho quando se deu a invasão dificilmente poderia ter ocorrido num exército prestes a montar suas próprias operações. Para cada formação que foi alertada, havia dezenas inteiramente desprevenidas; corpos mecanizados sem tanques, infantaria motorizada sem caminhões; artilharia sem munição e oficiais sem ordens. Se o Exército Vermelho estivesse realmente prestes a iniciar uma invasão, seus comandantes seriam considerados os mais ineptos agressores de toda a história da guerra. É incontestável que Stalin esperava ter de combater a Alemanha mais cedo ou mais tarde, e as fontes soviéticas não dizem se ele próprio teria iniciado a ofensiva ou esperado que a Alemanha o fizesse. Como também é evidente que ele sabia não estar o seu exército pronto para a luta, e nem estaria antes de meados de 1942. Para ele, e também para Timoshenko e Zhukov, a guerra veio com uma antecedência de aproximadamente 12 meses. Nos primeiros dias, era patente que a intenção do OKH - aniquilar o Exército vermelho a oeste da linha Dvina-Dnieper - poderia muito bem vir a realizar-se. O deslocamento avançado das forças soviéticas servia admiravelmente ao desejo alemão de um grande cerco e a persistência em resistir (motivada tanto pelo medo das conseqüências de uma retirada não autorizada, ainda que prudente, quanto pelo desejo de lutar até o fim) facilitou ainda mais a tarefa alemã. Stalin mandou prender e fuzilar o Comandante-Chefe do Eixo Ocidental, general Pavlov, e seu Chefe de Estado-Maior, o que pode ter abalado o espírito de alguns outros generais e por certo em nada contribuiu para estimulá-los a tomar qualquer iniciativa. A força estacionada nas fronteiras transformou-se numa série de pequenas formações desordenadas, algumas das quais, se tiveram a sorte de ser dirigidas por oficiais voluntariosos, conseguiram escapar para o leste através das malhas largas da rede das forças Panzer que as cercavam. Para outras, menos afortunadas, nada mais restou senão a longa marcha para os campos alemães de prisioneiros, dos quais muito poucos sairiam com vida no final da guerra. Por toda a parte imperava grande confusão que tocava às raias do pânico. O General Popel, que dirigiu os remanescentes do 15o Corpo mecanizado para o leste, através da retaguarda da operação alemã, refere-se a oficiais que roubavam ou compravam roupas civis nas aldeias por onde passavam e assim tentavam chegar aos seus lares, desejando livrar-se, de uma vez por todas, daquela guerra; também fala da descoberta, muitos quilômetros atrás das linhas alemãs, de um solitário soldado raso do Exército Vermelho que guardava um campo repleto de tanques soviéticos em perfeito estado, mas todos sem uma única gota de combustível. Para os alemães, as três primeiras semanas da guerra foram uma repetição das campanhas realizadas na Polônia e na França. As baixas registradas era praticamente insignificantes, levando-se em conta que o número de mortos foi de 8.866, para os dez primeiros dias de campanha, numa média diária de 6 homens por divisão, e menos de 20 feridos. Essa taxa de atrito poderia ser mantida quase que indefinidamente, dentro dos limites de uma campanha Blitzkrieg sem dúvida programada para durar apenas quatro meses. Por mais que os prognósticos sobre a campanha alemã pudessem variar, e as discussões entre Hitler e seus generais a este respeito encontram-se no próximo capítulo, nunca houve qualquer dúvida, do lado soviético, de que Moscou seria defendida a qualquer preço. O progresso dos Grupos de Exércitos Norte e Sul era motivo de inquietação muito grande, mas a penetração do Grupo de exércitos Centro em ambos os lados da rodovia principal Brest-Moscou (umas das poucas estradas pavimentadas existentes na União Soviética naqueles tempos), provocava uma situação de alarma, devido à ameaça que ela representava para a integridade da capital. Num avanço médio de quase 30 km diários, as tropas do Feldmarechal von Bock, tendo como pontas-de-lança os Grupos Panzer 2 e 3, haviam penetrado quase até Smolensk por volta de 10 de julho. Se chegassem àquela cidade, elas estariam a 680 km do seu ponto de partida em Brest Litovsk, a apenas 420 km de Moscou, e avançando com essa rapidez, estariam lá dentro de duas semanas. Era imperioso que elas fossem detidas, ou no mínimo, consideravelmente reduzidas em sua velocidade. As forças de cobertura no setor central da frente, os 3o , 4o e 10o Exércitos, haviam sido desbaratadas nos bolsões de Bialystok e Minsk, mas a mobilização se fazia agora a todo vapor e as reservas do STAVKA estavam sendo levadas para o eixo de Smolensk com a máxima rapidez permitida pelo assoberbado sistema ferroviário. Por volta de 19 de julho, as forças da Frente Ocidental, que defendiam uma linha ao longo das margens ocidentais dos rios Dvina e Dnieper, desde Idritsa no norte até Rechitsa no sul, envolviam cinco exércitos - 13o, 19o, 20o, 21o e 22o - com um sexto (o16°) exército na reserva, e os remanescentes do 4o Exército retirando-se para os setores defendidos pelos 13o e 21o Exércitos. Contudo, a rapidez do avanço do 4o Exército Panzer até os rios Dvina e Dnieper tomou o Exército Vermelho de surpresa, estando o deslocamento da defesa ainda incompleto e com grandes formações dos 19o, 20o e 21o Exércitos ainda longe dos setores a elas designados. No setor de 800 km da Frente Ocidental, somente 24 divisões mantinham-se nos seus lugares, com 145 tanques em condições de combate. As forças Panzer do Grupo de Exércitos Centro haviam sido esgotadas, mais pelas distâncias que tinham percorrido em estradas ruins do que pela ação do Exército Vermelho, mas tinham entre cinco e sete vezes esse número em bom estado no começo da batalha. O apoio aéreo alemão, a Luftflotte 2, contava com cerca de 1.000 aviões em condições de combate, enquanto que a defesa soviética tinha menos de 400 ainda em bom estado, em aeródromos repletos de escombros do dobro daquele número, que foram destruídos por não terem sido dispersados antes de 22 de junho. Também em canhões e morteiros os alemães tinham vantagem: 6.600 contra 3.800. Segundo um princípio da doutrina militar soviética de antes da guerra, uma linha podia ser defendida diante de uma superioridade de três para um, mas os alemães haviam refutado isto tantas vezes desde setembro de 1939, que poucos oficiais soviéticos, se é que havia algum, poderia acreditar nele em meados de julho. Não obstante, uma grande batalha ao longo da linha Dvina-Dnieper deveria ser travada, para que Moscou não corresse perigo. Um fator que funcionou em favor do Exército Vermelho foi a tendência de subestimar as reservas soviéticas disponíveis e a rapidez com que elas podiam ser mobilizadas. O OKH acreditava que na Frente Ocidental só restavam 11 divisões aptas para combate e esperava que, uma vez fossem elas destruídas, a estrada para Moscou estaria desimpedida. Por conseguinte, ele nem se deslocou nem se abasteceu para um combate prolongado, enquanto que, além disso, começou a pensar em outras contingências. A 13 de julho, dia em que as tropas de Guderian chegaram a 17,6 km de Smolensk, ele registrou que os seguintes outros projetos estavam sendo estudados no OKH. 1. Uma operação que tiraria seu Grupo Panzer do Eixo Central para ajudar o Grupo de Exércitos Sul. 2.Um estudo de estado-maior das forças que ficariam no leste para controlar a União Soviética depois que esta fosse derrotada. 3. Um estudo das disposições do Exército Alemão na Europa, assim que a “Barbarossa” terminasse e seu tamanho tivesse sido reduzido. 4. A estratégia da campanha africana, coordenada com um ataque ao Canal de Suez através da Turquia e da Síria. 5. Estudos preliminares para um ataque ao Golfo Pérsico através do Cáucaso. Como Guderian comentou amargamente após a guerra “Esses encadeamentos de pensamentos afastam muito um homem da realidade”. Eles só eram possíveis numa organização que acreditava que a presente campanha já se achava praticamente terminada, o que não era verdade. E isso as divisões de Guderian já estava, descobrindo, diante das pesadas baixas comunicadas pelas 10a e 18a Divisões Panzer e pela 29a Divisão Motorizada, provocadas pela formidável resistência russa e pela ajuda de grande quantidade de reforços vindos do leste. A Batalha de Smolensk iniciou-se formalmente a 19 de julho, quando os Grupos Panzer 2 e 3 foram lançados de Vitebsk na direção de Dukhovshchina e Orsha e dali para Yelnya, numa tentativa de retalhar e cercar os 16o , 19o , e 20o Exércitos soviéticos no centro da frente de Timoshenko. Simultaneamente, as forças do flanco esquerdo do Grupo Panzer avançaram das suas cabeças-de-ponte sob o Dvina ocidental na direção de Velikiye Luki, e a ala direita de Guderian avançou sobre Roslavl. As forças atacantes logo encontraram vigorosa resistência com grandes concentrações de artilharia. Também ali, no setor do 20o Exército, elas encontraram pela primeira vez uma nova arma soviética que logo se tornaria famosa – o morteiro-foguete Katyusha. O marechal Yeremenko descreveu a situação: “o efeito de dezenas de explosões simultâneas superou todas as nossas expectativas. As tropas inimigas fugiram em pânico. Mas nossos soldados que estavam na linha de frente próximo das explosões, ignorando o que estava acontecendo, também voltaram correndo porque, a fim de preservar a segurança, nenhum deles fora avisado da nossa intenção de usar as novas armas”. De qualquer modo, ainda não havia Katyushas disponíveis em número suficiente para produzir resultados decisivos, mas como acontecia com o tanque T-34 e com o avião de combate IL-2 Shturmovik, só o fato de existir já representava perigo iminente. Não era de menosprezar a engenhosidade russa. Não obstante, os alemães persistiram em seus ataques e logo conseguiram romper a defesa soviética em vários setores. Na extremidade norte do eixo de Smolensk, o 22o Exército em breve se viu em dificuldades, porque teve seu flanco esquerdo exposto pelas retiradas do seu vizinho setentrional (o 27o Exército da Frente Noroeste) a 11 de julho, enquanto que a penetração feita por Hoth na direção de Vitebsk obrigava o 20o Exército, seu vizinho meridional, a afastar-se para o sudeste, deixando assim exposto o seu flanco direito, isolando-o nas fortificações de Polotsk e numa cabeça-de-ponte a oeste do Dvina. Às seis divisões do 22o Exército cabia defender uma linha de frente de 280 km, que, nos dias 12 e 13 de julho, foi atacada por elementos de umas 16 divisões dos Grupos de Exércitos Norte e Centro. Por volta do dia 16, sua frente fora rompida, Velikiye Luki e Vitebsk estavam em perigo, e com elas todo o flanco e retaguarda das posições soviéticas. O General Konev já contra-atacara e detivera uma penetração alemã com duas divisões do seu 19o Exército e elementos do adjacente 20o Exército no dia 10 de julho, mas a situação ao longo da margem sul do eixo de Smolensk estava-se deteriorando depressa demais para que essas medidas paliativas a afetassem. O Grupo Panzer 2 de Guderian capturou cabeças-de-ponte sobre o Dnieper ao sul de Orsha e norte de Novy Bykhov no dia 11, e na manhã seguinte avançaram dali para Smolensk e Krichev, flanqueando o 13o Exército Soviético pelo norte e pelo sul. Quatro das suas divisões de infantaria e os remanescentes de um corpo mecanizado (o 20o) logo foram isolados do resto do exército e permaneceram numa posição fortificada e isolada em Mogilev, onde ocuparam dois Corpos Panzer de Guderian durante duas semanas até que, por fim, foram dominados, enfraquecendo assim a sua ofensiva na direção de Roslavl. Contudo, o restante do 13o Exército teve de afastar-se para leste e sudeste e, com ele, foram-se as esperanças de conter os alemães a oeste do Dnieper, a menos que se pudesse obrigá-los a recuar por meio de uma ameaça à sua retaguarda. Timoshenko já vira a possibilidade de executar tal ameaça e a 13 de outubro mandou que o 13o Exército do General Gerasimenko passasse para a margem oeste do Dnieper e atacasse para o norte, na direção de Bobruysk, sobre as linhas de comunicação de Guderian. Esse novo ataque causou considerável preocupação aos generais do Grupo de Exércitos Centro, especialmente a Guderian, cujas forças procuravam estender-se cada vez mais para o leste. Sua 29a Divisão Motorizada invadiu Smolensk a 16 de julho, mas seu flanco direito, ocupado pelo 24o Corpo Panzer, estava sofrendo violentos ataques desfechados pelo 13o Exército. Contudo, ele decidiu não só manter seus objetivos, como também convocou o 46o Corpo Panzer, para ajudar Hoth e o Grupo Panzer 3 na destruição das divisões do 22o Exército Soviético sitiadas a nordeste de Smolensk. Acontece que sua confiança foi justificada, na medida em que o ataque do 13o Exército fracassou no seu intento, mas o avanço para leste, até Roslavl, Yelnya e Dorogobuzh, inevitavelmente diminuíra de intensidade. Por sua vez, o STAVKA estava alarmado por ter perdido Smolensk e com a ruptura da linha do Dnieper, de modo que Timoshenko recebeu instruções para restaurar a situação. Outras tropas de reserva foram-lhe despachadas e toda uma segunda linha, os “Exércitos da Frente de Reserva”, foi criada atrás da Frente Ocidental, ao longo da linha que se estendia de Staraya Russa até Bryansk, passando por Ostashkov e Yelnya. De início estava à sua frente o Tenente-General I. A. Bogdanov (indicado para comandá-la a 14 de julho, mas substituído por Zhukov no dia 30), e compreendia nada menos que seis novos exércitos - 24o, 28o, 29o,30o e 32o - dois dos quais (o 31o e o 32o) eram mantidos como reserva atrás dos outros. Embora deficiente em número de aviões (apenas 153 aparelhos em condição de combate) ela representava, não obstante, uma ótima contribuição de reforço a um tanto abalada Frente Ocidental. Contudo, nova queda de posição no eixo de Somlensk obrigou-a a empenhar-se, em parte, num ataque bastante violento, iniciado a 25 de julho, cujo objetivo era aliviar as forças principais da Frente ocidental investindo contra Bely, Yartsevo e Roslavl, nos flancos do Grupo Panzer 2, na direção de Smolensk, recapturar a cidade e unir-se à Frente Ocidental o oeste da mesma. Cinco grupos do tamanho de exércitos foram formados, reagrupando-se cinco dos exércitos da Frente de Reserva, que compreendiam quatro divisões de tanques e 16 de infantaria. Os remanescentes da Frente de Reserva foram transferidos para um novo grupo de exércitos (a Frente da Linha de Defesa de Mozhaysk), cujas demais forças compreendiam dois novos exércitos, os 33o e 34o. A nova Frente ocuparia as posições conhecidas como a Linha de Defesa de Mozhaysk, forjaria obstáculos antitanques à frente e atrás das posições e prepararia uma linha de defesa adicional de retaguarda que ia desde Nudol até Vysokinichi. Que o alarma sobre o perigo que ameaçava Moscou tornava-se sério é atestado por essas providências; Mozhaysk fica a menos de 96 km a oeste de Moscou e o General Artemyev, nomeado para dirigir o novo grupo de exércitos, era o Comandante do Distrito Militar de Moscou. Do lado alemão, a batalha de Smolensk prosseguia satisfatoriamente em fins de julho, embora fosse mais difícil do que se esperava romper as linhas soviéticas, e estava claro que a expectativa de um caminho livre entre Smolensk e Moscou fora por demais otimista. Contudo, em alguma parte da imensa frente as coisas não eram de todo animadoras. O Grupo de Exércitos Norte fora detido temporariamente no rio Luga, enquanto que o Grupo de Exércitos Sul, embora próximo de Kiev, também parecia, no momento, ter esmorecido. Nessa época, Hitler optava por uma diversão do esforço do eixo de Moscou, à obtenção de decisões nos flancos, mas antes que tal coisa ocorresse, Bock (cujo interesse pessoal em manter a pressão ao longo da frente do Grupo de Exércitos Centro fora baseado na sensação de que seria afastado por Hitler do comando de suas tropas se estas não mostrassem desempenho satisfatório), intensificou ainda mais a pressão sobre o isolado 22o Exército Soviético e expulsou-o das fortificações de Polotsk, obrigando-o a retirar-se para o nordeste. Indo em sua perseguição, velozes forças Panzer capturaram pelo caminho a cidade e o entroncamento de Velikiye Luki, a 20 de julho, assim ameaçando-lhe a retirada, mas um contra-ataque soviético montado às pressas no dia seguinte as repeliu. Aproveitando-se da trégua, o 22o Exército conseguiu fazer uma retirada organizada para outra margem do rio Lovat. Por volta de 27 de julho ele já se entrincheirara na margem leste, onde pôde manter sua posição até fins de agosto, a despeito das tentativas alemãs de flanqueá-lo pelo sul, e assim fazendo, protegeu a Frente Noroeste, que lhe era adjacente, contra uma penetração de flanco tentada durante algumas semanas de importância decisiva para a defesa da área de Leningrado. Para os estados-maiores alemão e soviético, o eixo de Smolensk - o caminho direto para Moscou - continuava sendo muito importante, e Bock resolveu então eliminar os 16o e 20o Exércitos Soviéticos, que protegiam as vias de acesso para Vyazma, a próxima cidade grande depois de Smolensk provida dos meios rodoviário e ferroviário que levavam direto à capital. Mas o que ele não esperava, é que os soviéticos haviam decidido por um plano de ação que se adaptaria perfeitamente ao seu proposto ataque. Neste aspecto, Bock jogou com a sorte: a mesma coisa lhe aconteceria no ano seguinte quando, como Comandante-Chefe do Grupo de Exércitos Sul, verificou que as tropas de Timoshenko avançavam para o cerco. O STAVKA decidira, como questão de conveniência operacional, que se deveria formar um novo Q-G de Grupo de Exércitos para cuidar da luta ao longo dos trechos inferiores do rio Berezina, deixando a Frente Ocidental encarregada da luta na área de Smolensk e ao longo do rio Sozh. Portanto ,a 24 de julho, criou-se uma nova “Frente Central” sob o comando do Coronel-General F. I. Kuznetsov, e os 13o e 21o Exércitos da Frente Ocidental passaram para sua responsabilidade. Assim, a Frente Ocidental podia concentrar-se no que o STAVKA ainda encarava como sua tarefa primordial, a recaptura de Smolensk, a ela se dedicando tão logo deixasse de ser o responsável pelo setor de Berezina. Desse modo, partindo de Roslavl, a 23 de julho, e das áreas de Bely e Yartsevo, a 24-25 de julho, Timoshenko lançou os 16o e 20o Exércitos para oeste, no momento em que Bock lançava seus Panzers para leste, a sua retaguarda. Pelo dia 27, o 16o Exército tomara a estação ferroviária de Smolensk e lutava nos subúrbios norte da cidade, enquanto que o 20o Exército estava nas proximidades dos seus limites orientais, mas já então os dois exércitos estavam cercados. Timoshenko ordenou-lhes que invertessem as frentes e abrissem caminho lutando para o leste, mas as tropas, em sua maioria, não conseguiram, e bastante desfalcados de seus efetivos os dois exércitos retornaram às linhas soviéticas durante os dias 4 e 5 de agosto, embora com a capacidade de luta grandemente reduzida. Já então dera-se um importante acontecimento que teria aliviado a tensão dos comandantes soviéticos, se o tivessem sabido. A 30 de julho, Hitler emitira a Diretiva 34, em que ordenava ao Grupo de Exércitos Centro que abandonasse a marcha para Moscou e passasse à defensiva. E com isso deu-se um fim à primeira fase da batalha de Smolensk. As perdas soviéticas tinham sido consideráveis (mais de 300.000 homens foram capturados e 3.200 tanques destruídos), mas as dúvidas do Führer sobre a relativa importância que representavam os três principais alvos estratégicos haviam-se renovado, por causa das dificuldades de avançar no centro. Diante disso, o Grupo Panzer 3 deveria ajudar na tomada de decisão na área de Leningrado e o Grupo Panzer 2 iria em auxílio do Grupo de Exércitos Sul. O STAVKA não estava a par dessas manobras, e certo de que Moscou tinha de ser o principal objetivo alemão, supunha que um fracassado ataque frontal daria lugar a uma manobra de flanco contra a capital pelo norte e pelo sul. Portanto, decidiu-se colocar três exércitos da Frente Ocidental num ataque contra o 9o Exército Alemão, que formava a ala norte do Grupo de Exércitos Centro e por isso acreditava-se que ele tivesse em seu poder a área de lançamento para a guerra norte de qualquer movimento de pinças desse tipo. Para destruir de maneira semelhante a garra sul, os “Exércitos da Frente de Reserva” foram rebatizados como “Frente de Reserva” e colocados sob o comando de Zhukov, a 30 de julho, com ordens de eliminar os alemães no saliente de Yelnya, que penetrava nos flancos da Frente Ocidental. Para evitar a possibilidade de que a garra sul de qualquer tentativa de movimento de pinças sobre Moscou se aproximasse mais para o sul, através de Bryansk e pelas rodovia e ferrovia principais que vêm de Kiev, criou-se, a 14 de agosto, outro grupo de exércitos, a Frente de Bryansk, sob o comando do Tenente-General A. I. Yeremenko, composto dos 13o e 15o Exércitos. Embora os termos da Diretiva 34 pusessem fim ao ataque direto a Moscou temporariamente, isto não significou enfraquecimento da luta no eixo central do lado alemão. A ajuda entregue ao Grupo de Exércitos Sul envolvia inter alia a derrota da Frente Central, que cobria o flanco norte das forças soviéticas na Ucrânia, e a ala direita avançada da Frente Central (a frente do 22o Exército ao longo do rio Lovat) seria rechaçada de sua posição de flanco ao norte do Grupo de Exércitos Centro. As ofensivas alemã e soviética tiveram início quase que simultaneamente nos primeiros dias de agosto, com os 16o, 24o, e 30o Exércitos da Frente Ocidental dirigindo o ataque contra o 9o Exército Alemão com muito pouco êxito durante todo o mês. O 9o Exército recuou para a margem oeste do rio Vop, onde foi encontrar forte resistência. Os historiadores oficiais soviéticos justificam o desempenho dessas operações e afirmam que elas retiveram o 9o Exército e impediram suas atividades noutro setor, mas o OKH na verdade não estava planejando pô-lo em ação onde quer que fosse e nem tinha grande urgência dele; suas deficiências eram causadas pelo fato de que somente 20% das suas forças eram de alta mobilidade e o 9o Exército pertencia aos 80%, a infantaria comum, com grande parte do seu transporte sendo tirada por cavalos, que naquele verão eram bem escassos. Tem-se de reconhecer que a ofensiva soviética deixou muito a desejar, conclusão esta reforçada pelas atribuições reconsideradas e dadas às Frentes Ocidental, de Reserva e de Bryansk a 25 de agosto. No dia 22 os alemães atacaram violentamente na junção entre os 22o e 29o Exércitos, com o objetivo de cercar as forças soviéticas na área de Velikiye Luki e ao longo do rio Lovat. No dia seguinte a maior parte do 22o Exército já fora cercada, mas conseguiu escapar para leste, embora sofrendo pesadas baixas e considerável perda da maior parte do seu equipamento pesado. O 29o Exército juntou-se aos seus vizinhos e finalmente os alemães foram detidos ao longo da parte superior do rio Dvina ocidental. As novas atribuições que o STAVKA emitiu a 25 de agosto para as Frentes Ocidental, de Bryansk e de Reserva ainda visavam à recaptura de Smolensk, mas ao levar a Frente de Reserva para as operações naquela cidade, ele reconheceu implicitamente as deficiências dos primeiros ataques executados pelos três exércitos da Frente Ocidental. Esta deveria continuar atacando a noroeste de Smolensk e dando sua cooperação à Frente de Reserva na conquista da linha Velizh-Demidov-Smolensk até 8 de setembro. A Frente de Reserva deveria lançar no ataque os dois exércitos da sua ala esquerda para expulsar os alemães do saliente de Yelnya, enquanto que as tropas restantes continuariam trabalhando na fortificação da linha de defesa Ostashkov-Kirov. A Frente de Bryansk deveria atacar a 2 de setembro e avançar ao sul de Krichev, ameaçando assim os alemães em Smolensk com um movimento de flanco vindo do sul. De todas as operações, a única que resultou num autêntico sucesso foi o ataque de Zhukov ao saliente de Yelnya, pois embora as perdas soviéticas fossem consideráveis e só por pouco as forças alemães escapassem ao cerco, alcançou-se o objetivo principal - a eliminação do saliente - e também se infligiram perdas de vulto aos alemães. Guderian tinha tanta necessidade de forças de reserva, que em dado momento foi obrigado a lançar em combate a guarda do seu Q-G, e a 13 de agosto ele propôs que o saliente, “que agora não despertava maior interesse por se ter suspenso temporariamente o avanço sobre Moscou) e era uma frente contínua de baixas, fosse de vez abandonado”. A proposta foi rejeitada por Bock e pelo OKH, mas a 5 de setembro ela foi reconsiderada e coube ao 4o Exército receber as ordens de abandonar o saliente. Isto feito, a linha alemã, agora encurtada, ficou mais fácil de se defender dos persistentes ataques de Zhukov durante mais alguns dias, mas a 12 de setembro Stalin encarregou-o da defesa de Leningrado, onde parecia iminente um colapso total. A Frente Ocidental recebera ordens de passar para a defensiva a 10 de setembro, o mesmo acontecendo com a Frente de Reserva no dia 16. Também no sul a catástrofe estava a ponto de explodir e foi necessário economizar os efetivos no centro. Assim terminou a Batalha de Smolensk. As perdas soviéticas tinham sido realmente graves, mas os resultados não foram de todo insatisfatórios. Não se podia afirmar que os alemães haviam sido detidos; o índice do seu avanço diário, no entanto, fora reduzido de 30 a 32 km nas três primeiras semanas para 6 ou 8 km, ou menos, em agosto. Em certos lugares, como Velikiye Luki e Yelnya, eles tinham sido obrigados a recuar. À medida que o índice de avanço diminuía, as baixas aumentavam; esse aumento não chegava a ser espetacular, alcançando apenas 9 mortos e 32 feridos diários, por divisão. Em suma, para uma redução de 75% no índice de avanço o Exército Alemão tinha contra si um aumento de 50% em baixas. E seu objetivo principal - a destruição do Exército Vermelho a oeste da Linha Dnieper-Dvina - mostrara-se inatingível. Canaã no Dnieper
Já dissemos que muitos generais dos mais graduados do Exército Alemão - incluindo o Comandante-Chefe, Feldmarechal von Brauchitsch, o Chefe do Estado-Maior-Geral do Exército, Coronel-general Halder, e o próprio Rundstedt - haviam-se oposto à invasão da Rússia e que Hitler, portanto, planejava conseguir uma decisão rápida, por meio da destruição do grosso do Exército Vermelho antes que este pudesse recuar para a outra margem do Dnieper. Essa decisão acarretou grandes problemas. Ela exigia o cerco rápido de muitos contingentes, havendo o perigo de deixar grandes brechas no anel e pelas quais o Exército Vermelho poderia escapar. Para se conseguir cercos de tamanho conveniente, sem deixar muitas brechas, era necessário a colaboração das forças Panzer de dois grupos de exércitos. Do contrário, a Alemanha teria de satisfazer-se com cercos de menor significação, mas isto, no entanto, implicava em deixar grandes partes do Exército Vermelho fora do cerco. Todavia, somente o Grupo de Exércitos Centro podia contar com dois Grupos Panzer e, portanto era indispensável, para um grande cerco, a sua participação, exceto onde o inimigo pudesse ser retido contra a costa nas extremidades da Frente. Por outro lado, os cercos no centro poderiam ser executados pelo Grupo de Exércitos Centro sem necessitar da ajuda de qualquer outro grupo. Assim, o Grupo de Exércitos Centro era a chave para qualquer plano para alcançar objetivos estratégicos. Havia três “prêmios” particularmente tentadores, um para cada grupo de exércitos. O Grupo de Exércitos Norte teria Leningrado, a antiga S. Petersburgo, berço da revolução de Outubro que levara os comunistas ao poder em 1917, ex-capital do Império Russo, segunda cidade da União Soviética, importante centro industrial e a base principal da Esquadra do Báltico. Para o Grupo de Exércitos Centro havia Moscou, a capital e também importante centro industrial, o maior ponto focal das ligações rodoviárias e ferroviárias européias da Rússia e uma Cidade Santa não só do comunismo como também da “Mãe Rússia”. Para o Grupo de Exércitos Sul, o objetivo principal era Kiev, terceira grande cidade da União Soviética, grande centro industrial, mas também a chave par a região industrial ainda maior de Kharkov, importante fonte das indústrias pesadas, de carvão e petróleo soviéticas. Devido à escassez dos sistemas rodoviários e ferroviário, o petróleo e a gasolina do Cáucaso em sua maior parte também tinha de passar pela extremidade oriental dessa região a caminho das partes restantes da União Soviética. Assim, essas três cidades representavam valiosos objetivos políticos e econômicos, cuja importância para a União Soviética era tão relevante que nenhuma delas poderia permanecer indefesa. Um ataque ali atrairia as principais forças do Exército Vermelho para um combate, e Stalin e o STAVKA estavam ajudando a colocar a corda no pescoço do Exército Vermelho pela sua insistência em defender as linhas e em continuar em inúteis ataques frontais. Opondo-se teimosamente à retirada estratégica, estavam fazendo o mesmo jogo de Hitler ao reter o Exército Vermelho numa posição avançada. Hitler já estava começando a dar maior atenção à Ucrânia do que a Moscou e Leningrado, quando disse, a 8 de julho, que de qualquer modo ele pretendia arrasá-las - algo que julgava ser possível fazer apenas com a força aérea - e que, por enquanto, o Grupo Panzer 2 deveria continuar em direção a leste, de modo que o caminho para Moscou fosse coberto se mais tarde se tornasse necessário fazer com que parte do Grupo de Exércitos Centro se desviasse para o sul. No mesmo dia, Halder apresentou-lhe um relatório sobremodo otimista do Serviço de Inteligência, no qual se afirmava que 89 das 164 divisões conhecidas da União Soviética já tinham sido destruídas e que das restantes, 18 permaneciam em frentes secundárias, 11 tinham destino ignorado e sabia-se que apenas 46 ainda se encontrava, aptos para combate. Brauchitsch fez então uma proposta simples para que se explorasse o sucesso em Berdichev desviando-se os Panzer de Kleist para o sul, na retaguarda dos 6o e 12o Exércitos Soviéticos, a fim de chegar a uma “pequena conclusão”. Por outro lado, Hitler favorecia a tomada de Kiev e um avanço em direção à margem oeste do Dnieper, no intuito de conseguir uma “grande conclusão”. Brauchitsch fez objeções devido às dificuldades de abastecimento e Hitler acabou concordando que em primeiro lugar se precisaria de uma certeza quanto ao número de efetivos da oposição em Kiev. E nesse ínterim a questão foi depositada nas mãos capazes de Rundstedt. Este despachou Kleist para Kazatin, que foi tomada a 15 de julho. A única ferrovia lateral da Frente Sudoeste foi cortada por essa manobra e Budenny começou a recuar em direção à curva do Dnieper. Mas o 5o Exército Soviético, causador de tantos problemas, permanecia em Korosten e sua presença continuava a empanar o brilho do quadro evocado por Kiev e pelo carvão, pela indústria e pela agricultura ucranianos. Urgia uma providência a respeito e a questão foi apresentada a Hitler, a 17 de julho. O resultado veio com a Diretiva 33 do OKH, de 19 de julho. Esta ordenava que, após completadas as operações em Smolensk, o Grupo Panzer 2 e a infantaria do 2o Exército Alemão deveriam desviar-se para sudeste e ali destruir o 21o Exército Soviético (que estava defronte à ala direita do Grupo de Exércitos Centro) e então, em cooperação com o Grupo de Exércitos Sul, eles deveriam dizimar o 5o Exército Soviético. Ao mesmo tempo, um ataque concêntrico pelo Grupo de Exércitos Sul cruzaria a retaguarda dos 6o e 12o Exércitos Soviéticos, destruindo-os por completo. As forças Panzer restantes do Grupo de Exércitos Centro, o Grupo 3, deveriam mover-se em direção ao norte a fim de ajudar o Grupo de Exércitos Norte, deixando o prosseguimento do avanço sobre Moscou a cargo apenas dos exércitos de infantaria do Grupo de Exércitos Centro. Essa decisão eqüivalia ao abandono de operações decisivas contra as principais forças soviéticas no centro. O colapso que atingira seus vizinhos nas Frentes noroeste e sudoeste forçaria os soviéticos a continuar recuando, mas eles não mais seriam vítimas de grandes cercos pelas tropas alemãs no centro. Dois dias depois, ao fazer sua primeira visita aos exércitos no Leste, Hitler apareceu no Q-G do Grupo de Exércitos Norte, onde teve oportunidade de expor o que tinha em mente. Era essencial tomar Leningrado logo para dar um fim à interferência da Esquadra Soviética do Báltico nos embarques de minério de ferro proveniente da Suécia com destino à Alemanha. O Grupo Panzer 3, portanto, daria sua colaboração ao Grupo de Exércitos Norte ajudando-o a isolar a ferrovia Leningrado-Moscou afim de atrapalhar a transferência de tropas soviéticas da e para a área; devendo essa tarefa ser executada tão logo o Grupo Panzer 3 estivesse a disposição - isto é, dentro de uns cinco dias. Quanto a Moscou, não era motivo de preocupação porque “para mim Moscou não passa de um acidente geográfico”. Devido à situação geral e à “instabilidade do caráter eslavo”, a queda de Leningrado ocasionaria um colapso total da resistência soviética. A 23 de julho houve outra conferência entre Hitler, Brauchitsch e Halder, tendo este último informado que as forças do Exército Vermelho que no momento enfrentavam a Alemanha totalizavam 93 divisões, sendo 13 blindadas. Nenhum dos participantes, contudo, parece ter comentado o fato de que nos quinze dias passados desde o relatório anterior - quinze dias de operações árduas e bem sucedidas pela Wehrmacht - os efetivos das forças soviéticas aparentemente haviam duplicado. Mas é evidente, como registra o diário do próprio Halder, a feroz resistência russa estava dando motivo de preocupações. A despeito de Hitler ter falado, dois dias antes, da possibilidade de um iminente colapso russo, um tom dissonante de incerteza começou a se fazer ouvir na conversação. Halder notificou que a capacidade de combate das divisões de infantaria alemãs era apenas 80% do que tinha sido a 22 de junho, e que as Panzers estavam reduzidas a 50%; que o Grupo de Exércitos Sul estaria sobre o Dnieper em meados de agosto; que era bem provável uma vigorosa resistência na marcha para Moscou - e que as operações do Grupo de Exércitos Norte apresentavam-se como fracassadas. Hitler insistiu então em enfatizar sua crença na destruição do inimigo onde quer que fosse encontrado, mas expressou a opinião de que as formações Panzer só deveriam entrar em luta num estágio posterior, quando não mais houvesse qualquer perigo para as comunicações de retaguarda. A inquietação de Brauchitsch sobre os cercos mais prementes começara a contagiar o Führer; depois de um mês de luta, já se podia constatar que a campanha russa talvez fosse um tanto diferente das “manobras com munição real” de 1939 e 1940. Naquele dia Hitler emitira um suplemento à Diretiva 33, estabelecendo futuras tarefas. Para o Grupo de Exércitos Sul, ele deu ordens para encetar a travessia do Don na direção do Cáucaso após a tomada da região industrial de Kharkov – tarefa que àquele grupo de exércitos cabia realizar. Brauchitsch protestou, afirmando que os termos do suplemento não podiam ser levados em conta, considerando-se a situação atual na frente e pediu que fossem cancelados até que as operações que se realizavam no momento estivessem concluídas; diante da recusa do OKW, ele encaminhou a questão a Hitler. Embora este não aceitasse a idéia de esperar até que se vencesse a próxima batalha antes de pensar na penúltima, ele aproveitou a oportunidade para dar sua opinião sobre a maneira como se deveria travar batalhas móveis, agora que se conseguiu alguma experiência no combate do Exército Vermelho: enquanto o inimigo resiste tenazmente, vai sendo conduzido de maneira decisiva e tem forças disponíveis para contra-ataques, não se deve executar operações de grande vulto. As forças Panzer deveriam limitar-se a pequenos cercos, dando assim à infantaria a oportunidade de consolidar rapidamente o sucesso e liberar as forças Panzer para novas missões. Em suma, postos que os objetivos fossem grandiosos, os meios de alcançá-los deveriam ser comedidos. Mas embora ele sem dúvida fosse bastante sensato em levar em consideração, em um mês, de 50% dos efetivos com que haviam iniciado a campanha, é verdade que Hitler parecia estar precisando reduzir os objetivos a fim de evitar a acusação de caráter instável feita por ele há pouco em referência aos eslavos. Brauchitsch e Halder retiraram |