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Origens da
Guerra do Pacífico
A guerra no Extremo Oriente já
cumpria o seu quinto ano quando Pearl Harbor foi
atacada, na manhã de 7 de dezembro de 1941, por aviões japoneses. Embora se
constituísse num choque tremendo para a maior parte do mundo, este ato não
foi mais, de certa maneira, que a extensão, embora ampla, de um conflito que
se vinha expandindo. Na verdade, em vista dos acontecimentos que precederam
este ataque, e evidente que a destruição da Esquadra Americana do Pacífico
não passava da conseqüência militar lógica de uma luta muito maior, que
entrara num impasse nas colinas e vales fluviais da China. A guerra do
Pacífico - é assim que os ocidentais gostam de chamá-la - era um efeito
colateral da guerra sino-japonesa que começara em julho de 1937.
As origens dessa luta remontam
ao século XIX ao período posterior à restauração Meiji de 1868, quando o
Japão se transformou, de estado feudal, num país moderno e altamente
industrializado. Tendo por modelo os mais desenvolvidos centros ocidentais,
não era de surpreender que os japoneses quisessem ir mais longe, quisessem
obter possessões além-mar, tal como as potências imperialistas haviam feito.
Surgiu, contudo, uma dificuldade, pois essas potências não estavam lá
dispostas a consentir na entrada do pele-amarela em seu clube muito exclusivo
e compartilhar o privilégio que esperavam obter para si mesmas na Ásia. Em
1894/95, o Japão combateu e derrotou uma China mais fraca e mais atrasada e
tentou anexar partes importantes dos seus territórios costeiros; mas, devido
à pressão da Rússia, França e Alemanha, teve que ser devolvida aos chineses
grande parte das terras tomadas. Em 1904, alarmando-se com as penetrações que
os russos faziam na Manchúria, o Japão desfechou um ataque de surpresa contra
a Esquadra do Extremo Oriente do Czar, que estava ancorada em Port Arthur,
para no ano seguinte derrotar o exército russo em Mukden e aniquilar a esquadra
russa em Tsushims, obrigando, desse modo, o inimigo a buscar a paz.
Metamorfoseado em potência digna de respeito, sem a cooperação dos nipônicos,
nada poderia ser feito no Extremo Oriente; além disso, o japonês conseguira
demonstrar que o branco podia ser derrotado.
Mas, para o japonês, os ganhos
dessa guerra mal tinham servido para lhe satisfazer a sede de prestígio e o
senso de poder, ou prover mercados e matérias-primas suficientes para as suas
indústrias, em rápido crescimento. Comparados com os ricos impérios de outras
nações, os territórios nipônicos de além-mar eram insignificantes. Além
disso, embora industrialmente adiantado, o Japão vivia em estado ainda meio
feudal, onde o Imperador era considerado divino e onde o exaltado era o
guerreiro, e não o homem de negócios. As forças internas que pressionavam
para a expansão eram muito poderosas e o exército gozava de grande influência
política, enquanto que as bases para a democracia permaneciam fracas. Embora
fizesse o Japão outros ganhos em 1914, quando, interpretando liberalmente as
obrigações que assumira ao assinar com a Grã-Bretanha uma aliança, em 1902,
tomou ele para si o que a Alemanha possuía no norte da China, bem como as
ilhas Marshall; as Carolinas e as Marianas no Pacífico, ainda assim a ambição
dos nipônicos não ficou saciada. Acreditando que as outras potências estavam
por demais empenhadas na guerra européia para se preocuparem com
acontecimentos no Extremo Oriente, o Japão fez suas “Vinte e Uma Exigências”
à China, que lhe dariam virtual predominância naquele império decrépito.
Alarmados, porém, com esses acontecimentos, Grã-Bretanha e Estados Unidos de
tal forma o pressionaram, que em 1915 o plano nipônico foi abandonado.
Naturalmente, o desejo de dominar a China, para o Japão considerada área
natural para exploração, não foi eliminado, mas apenas contido. Na verdade,
poder-se-ia dizer que o desejo de fazer da China um grande império talvez
fosse o objetivo principal da política externa e militar do Japão nos
cinqüenta anos subseqüentes a 1894.
Além disso, a crise provocada
pelas “Vinte e Uma Exigências” determinara o grande alinhamento político do
futuro: a Grã-Bretanha juntou-se aos Estados Unidos, ambos interessados na
preservação da independência da China - e o nipônico ansioso por eliminá-la.
O “Tratado de Versalhes”, assinado em 1919, confirmou o domínio dos japoneses
das ex-colônias alemãs, mas não alterou o estado de coisas vigentes, pois os
japoneses ainda se sentiam desprovidos, e os americanos, alarmados, porque,
passando os japoneses ao domínio daquelas possessões do Pacífico, as
Filipinas se isolavam do Havaí. Planos e cálculos de guerra já estavam sendo
feitos e o Japão tornou-se para os Estados Unidos o seu grande inimigo
potencial, enquanto que estes entravam no planejamento naval dos nipônicos
igualmente como o grande alvo. Por outro lado, o exército japonês sempre
temera mais a Rússia Soviética, cujas grandes forças na Ásia eram
consideradas uma ameaça muito maior aos desígnios continentais de Tóquio.
Durante os anos vinte, vários
acontecimentos afastaram ainda mais o Japão das potências ocidentais. A
Grã-Bretanha, fortemente pressionada pelos Estados Unidos, aboliu a aliança
anglo-japonesa em 1921. Três anos depois, os britânicos decidiram construir
uma base naval em Cingapura. Além disso, as conferências navais diplomáticas
internacionais realizadas em Washington em 1922, que fixaram bases inferiores
para a esquadra japonesa em relação à esquadra britânica e à americana, na
proporção de 3:5:5, persuadiram Tóquio a entregar, não sem relutância, a
província de Shantung aos chineses e garantiram a manutenção do status quo
político e militar no Extremo Oriente. Afinal, os Estados Unidos fecharam as
portas a todos os imigrantes japoneses em 1924. Tudo isto parecia indicar que
as potências anglo-saxônicas estavam-se “alinhando” contra o Japão, para
impedir o desenvolvimento da política expansionista que ele vinha adotando.
Os políticos liberais que negociaram esses acordos em Washington seriam
violentamente atacados pelos militares nos anos seguintes. Não obstante, o
tratado impedia que outras nações construísse, bases no Pacífico e ampliassem
suas marinhas. O Japão, no entanto, começou a desrespeitar secretamente o
convencionado nos acordos no tocante ao tamanho dos navios e a sua potência
de fogo - preparando-se para o conflito - acabando por rejeitá-lo
inteiramente em 1934.
Os japoneses, em particular,
foram seriamente atingidos pela crise econômica mundial de 1929, que provocou
muito desemprego e descontentamento interno. Nessas circunstâncias, o poder
dos militaristas cresceu, enquanto que os políticos liberais eram
desacreditados e até mesmo assassinados por extremistas. Além disso, a ala
jovem dos oficiais do exército, condicionada convenientemente, mostrava-se
tão ansiosa por ação, que nada a podia deter.
Em setembro de 1931, soldados
japoneses que guardavam as ferrovias do tratado na Manchúria invadiram Mukden
e passaram a conquistar o resto do país, afirmando que estavam agindo em
legítima defesa, contra a ameaça de ataque chinês. Como o estado-títere de
Manchuhuo, como a Manchúria seria chamada daí por diante, criado rapidamente,
não foi reconhecido pela Liga das Nações nem pelos Estados Unidos, o Japão
abandonou a Liga em 1933. Encorajado pela falta de oposição física e pela
subida ao poder dos nazistas no mesmo ano, o exército podia planejar maior
expansão. Foi neste período que a idéia da “Grande Esfera de Co-Prosperidade
do Leste Asiático”, que na verdade significava o domínio japonês do Leste da
Ásia e do Pacífico Ocidental, começou a ser largamente divulgado.
Em julho de 1937, o exército
invadiu o norte da China propriamente dita, afirmando que também isto era
feito em resposta a ataques chineses. Embora jamais fosse chamada de guerra -
os japoneses preferiam denominá-la “Incidente Chinês” - a campanha logo
assumiu enormes proporções. Na verdade, a guerra no Extremo Oriente começara.
Na luta por Xangai e Nanguim, os japoneses tiveram 21.300 mortos e mais de
50.000 feridos, enquanto que as baixas chinesas elevaram-se a mais de
367.000. Pelo final daquele ano, cerca de 700.000 soldados japoneses estavam
lutando na China, subindo para 850.000 ao se aproximar o fim de 1939.
Ademais, a tarefa mostrara-se muito mais difícil do que se calculara. Os
chineses recusavam-se a render-se, mudando continuamente a capital do país
cada vez mais para o interior, instalando-a finalmente na distante Chungking.
Entretanto, à medida que os japoneses penetravam para o sul e para o oeste,
suas baixas aumentavam de maneira alarmante, enquanto que os chineses, embora
sofrendo mais ainda, possuíam reservas efetivamente inesgotáveis de potencial
humano. Essas operações, de âmbito sempre crescente, serviam apenas para
revelar as fraquezas do Japão em munições de desviar tropas do Exército de
Kwantung, que tinha a tarefa vital de defender a Manchúria contra a
penetração russa. O que mais irritava o nipônico era a ajuda dos russos aos
comunistas chineses e a que as potências ocidentais, através dos portos
chineses ou da Estrada da Birmânia, davam ao governo nacionalista. Muitas
vezes incapazes de balizar as próprias deficiências, os japoneses pendiam
cada vez mais para crer que a China seria derrotada se lhes fosse possível
isolá-la da ajuda material e moral que recebia de nações estrangeiras. Isto
implicava a eliminação dos interesses estrangeiros e a tomada ou o bloqueio
da costa, o que foi feito em 1937 e 1938, e o fechamento da Estrada da
Birmânia.
Acontecimentos verificados em
outros locais e a habilidade diplomática impediram que se estabelecesse o
estado de beligerância com a Rússia, apesar de violento choque ocorrido na
fronteira manchuriana, em torno de Nomonhan, em agosto de 1939, no qual o
Japão perdeu 11.000 homens em combate com blindados soviéticos. A assinatura
do pacto de neutralidade que a Rússia e Japão vieram a assinar a 13 de abril
de 1941, embora não eliminasse as suspeitas do Japão sobre os desígnios
russos na Ásia, permitiu aos nipônicos liberar forças para operações ao sul.
Além disso, a guerra na Europa, anulando, por assim dizer, a possibilidade de
a Grã-Bretanha operar no Extremo Oriente e, depois de 1940, silenciando a
França, deu ao nipônico a quase certeza de que os Estados Unidos não se
atreveriam a intervir, sobretudo após a assinatura do “Pacto Tripartite”,
entre Japão, Alemanha e Itália, em setembro de 1940, segundo o qual as três
potências se oporiam a qualquer nação que viesse a juntar-se aos Aliados.
Esses acontecimentos alarmaram
seriamente o governo americano. O governo de Washington há muito considerava
o Japão a maior ameaça à paz na Ásia, mas não havia muito o que Roosevelt
pudesse fazer quanto à agressão à China, exceto entrar em guerra, atitude que
o isolacionismo de seu povo o impedia de tomar e a preocupação com os
desígnios de Hitler punha fora de cogitação. Já em 1938, se haviam realizado
debates, nos Estados-Maiores anglo-americanos, sobre o Extremo Oriente,
quando os britânicos se mostravam ansiosos por evitar um conflito, se tal
fosse possível. Não obstante, a tentativa levada a cabo pelos nipônicos de
aumentar a pressão sobre os chineses, ocupando a Indochina francesa em julho
de 1941, medida relutantemente aceita pelo governo de Vichy, obrigou afinal
as potências ocidentais a agir. Quase que imediatamente, o governo americano,
seguido pelo britânico e pelo holandês, congelou o fornecimento de petróleo
ao Japão.
Em termos de atitudes
decisivas, esta foi talvez a mais importante. Durante anos, o Japão vinha
estendendo-se regularmente para o sul, em seus esforços para conquistar a
China; mas, sem petróleo para acionar suas indústrias e mover seus exércitos,
em breve ele entraria em colapso, anulando todos os esforços feitos naquele
sentido. Um levantamento feito em 1941 revelou que, a menos que o embargo
fosse levantado, suas pequenas reservas de petróleo se esgotariam antes dos
três anos previstos para que suas vinte divisões dobrassem definitivamente a
China. A única saída estava na tomada dos campos petrolíferos das Índias
Orientais Holandesas, que tinham capacidade para atender a todas as
necessidades do país. Mas isto significava, ampliar grandemente a escalada da
guerra. As alternativas para o Japão eram violentas: ou abandonar suas
ambições na China e em outros locais, o que provavelmente levaria a uma resolução
de direita no país, ou tomar os campos petrolíferos e lutar contra as
potências ocidentais. Prolongadas negociações com os americanos seriam de
todo inúteis, pois simplesmente levariam ao enfraquecimento progressivo do
poderio militar e industrial do Japão - e o tornariam menos capaz de resistir
à pressão americana. Dadas as questões em jogo na China, a mentalidade dos
líderes do exército e a determinação de não perder “prestígio”, dificilmente
se pode considerar surpreendente a decisão dos japoneses de irem à guerra.
Certo que foi ingenuidade dos Aliados esperarem solucionar pacificamente a
disputa através do embargo.
Assim, a necessidade imediata
de tomar os campos petrolíferos holandeses, para garantir a vitória na China,
fundiu-se a idéia da formação da “Esfera de Co-Prosperidade” e, da fusão,
formulou-se a estratégia de guerra do Japão. Numa série de golpes rápidos,
ele planejava conquistar Hong-Kong, Tailândia, Malásia, Birmânia, Índias
Orientais Holandesas, Filipinas, Nova Guiné e vários grupos de ilhas do
Pacífico. Só então é que a China seria completamente isolada dos países que a
ajudavam, enquanto que o Japão teria petróleo suficiente para poder continuar
combatendo Chiang Kai-shek sem medo de interrupção. Poucos japoneses pararam
para pensar no enorme potencial do país que se preparavam para agredir,
potencial dez vezes maior que o do Japão, mas, os que o fizeram, calcularam
que se fosse possível erguer rapidamente uma formidável “Festung Nippona” que
fosse invulnerável a todos os contra-ataques, os americanos viriam a
reconhecer as conquistas do Japão. A Grã-Bretanha estava por demais enredada
na Europa e no Oriente Médio, enquanto que a Rússia lutava pela própria vida,
após a invasão alemã de junho de 1941.
Não obstante, a guerra começou
em julho. Enquanto o embaixador nipônico em Washington tentava persuadir
Roosevelt a levantar o embargo, as autoridades japonesas preparavam suas
tropas e selecionavam a estratégia. O advento do governo do General Tojo, em
outubro, que substituiu o Príncipe Konoye, e a notícia de que os estoques de
petróleo haviam diminuído um quarto, desde abril, provavelmente foram os
fatores decisivos, pois também se tornara claro que os americanos estavam
apenas tentando manter as conversações, enquanto despachavam reforços para as
Filipinas e observavam o efeito do embargo. Somente nos últimos meses de 1941
é que ficou decidido o ataque a Pearl Harbor; mas se as discussões em
Washington viessem, por milagre, a obter êxito, as forças atacantes teriam de
ser chamadas de volta.
Os planos de guerra finais do
Japão contemplavam ataques à Pearl Harbor, ao Sião e à Malásia Setentrional,
seguidos de incursões aéreas contra os aeródromos de Luzon, as ilhas de Guam,
Wake e as Gilbert; a invasão de Hong-Kong e desembarques nas Filipinas e
Bornéu, todos como operações de primeiro estágio. No segundo estágio, o resto
da Malásia e de Cingapura seria tomado, assim como o Arquipélago Bismarck, a
Birmânia Meridional e pontos estratégicos nas Índias Orientais Holandesas. Na
terceira e última série de operações, o território deste último país seria
completamente ocupado, assim como toda a Birmânia e certos grupos de ilhas no
Oceano Índico. Esperavam os nipônicos completar todo o conjunto de operações
em 150 dias, a partir do início das hostilidades. Então, o exército poderia
retornar à tarefa principal, isto é, submeter os chineses, enquanto era
construída uma rede defensiva concêntrica nas ilhas do Pacífico, para
rechaçar eventuais contra-ataques americanos.
Embora sem acreditar que os
japoneses viessem a tentar a concretização do desejo de se expandir no
Extremo Oriente, a despeito das advertências dos peritos locais, de que isto
aconteceria logo e repentinamente, como aconteceu, as potências ocidentais
também estavam preparando planos. Os holandeses ajudariam em qualquer esforço
que visasse a preservar o status quo na área, ao passo que os britânicos
esperavam que Cingapura pudesse resistir até que reforços mais consideráveis
fossem despachados para lá. Também os americanos visualizavam uma operação de
fixação, que previa o recuo de suas tropas das Filipinas para a península
fortificada de Bataan, entregando todas as outras posições onde necessário, e
lá aguardariam a chegada da Esquadra do Pacífico e reforços do exército.
Contudo, em agosto de 1941, decidiu-se repentinamente defender não só uma
parte de Luzon, mas também as Filipinas, por ser politicamente melhor (e o
comandante, General MacArthur, se opunha a qualquer retirada), porque o
envolvimento da Alemanha na Rússia encorajou Roosevelt a tomar uma posição
mais firme no Oriente e porque se esperava que os novos bombardeiros B-17, de
longo alcance, detivessem quaisquer forças invasoras. Contudo, os americanos
ainda estavam despachando aviões e soldados às pressas para as Filipinas
quando a guerra estourou.
A balança das forças no Extremo
Oriente pendia claramente para o lado japonês. Os aviões, como as campanhas
da Noruega e de Creta haviam mostrado, eram vitais em operações anfíbias, e o
Japão podia desenvolver 700 aviões do exército e 480 navais, de primeira
linha, que operariam de Formosa. Havia também os 300 aviões envolvidos no
ataque a Pearl Harbor, liberados da tarefa de cobertura das operações
meridionais depois que o raio de ação dos aviões Zero, baseados em Formosa,
foi aumentado, para permitir-lhes vôos de ida e volta entre Formosa e
Filipinas. Os americanos tinham 307 aviões (incluindo 35 B-17) nas Filipinas;
os britânicos tinham 158 na Malásia e 37 na Birmânia e os holandeses, 144 nas
Índias Orientais. Mas os números apenas simplesmente ocultam a verdadeira
história; os aviões aliados eram na maioria velhos e obsoletos, não podendo,
portanto, competir com o formidável Zero. Os efeitos dos problemas econômicos
verificados nos anos que ficaram entre os dois últimos conflitos fizeram-se
sentir também nesse campo.
O mesmo é válido do lado naval.
O Japão possuía 10 navios de linha para 11 aliados, mas ele tinha muitos
vasos mais novos e mais bem armados. Em cruzadores, destróieres e submarinos,
os dois lados estavam equilibrados, mas o número de porta-aviões, a arma
vital numa campanha basicamente marítima, o Japão tinha 10 e os aliados
contavam apenas 3. Importantíssimo, porém, é que as forças japonesas não
seriam centralmente controladas e não sofreriam dificuldades de comando e de língua.
Ademais, as esquadras britânicas e americanas distavam 9.600 km uma da outra
e não eram bem treinadas em luta noturna.
Com respeito às forças de
terra, o quadro era também deprimente. Os britânicos tinham uns 134.000
soldados na Malásia, Hong-Kong e Birmânia; os holandeses, cerca de 65.000 nas
Índias Orientais, e os americanos, em torno de 140.000 nas Filipinas. Mas
40.000 homens das forças holandesas e 110.000 das americanas eram, na
verdade, milícias nativas locais e muitos dos soldados britânicos não tinham
adestramento adequado, ao passo que a maioria das forças de defesa malaias e
birmanesas se formava de nativos ou indianos. Havia poucos tanques e, pior
ainda, poucos comandantes bons. Por outro lado, o Japão decidira
arrojadamente empregar apenas 11 das suas divisões de infantaria nesse grande
jogo e manteve forças muito maiores na China (22 divisões) e na Manchúria (13
divisões) - uma boa indicação das prioridades do exército. Provavelmente
menos de 250.000 soldados combatentes foram usados nas operações do sul, mas
mudaram-nos de posição tantas vezes, que é difícil obter-se números corretos.
Na realidade, porém, os japoneses tinham uma possibilidade muito melhor do
que o equilíbrio dos números parecia indicar, pois o controle aéreo e naval lhes
daria superioridade local, além de seus soldados terem levado para o
confronto melhor treinamento de luta na selva e noturna. De modo geral, os
nipônicos contavam com uma força muito mais moderna, bem treinada e equipada,
com líderes melhores, um comando unificado e a vantagem do elemento surpresa.
O único perigo poderia advir da Esquadra Americana do Pacífico, e eles
supunham poder cuidar disso. Finalmente, dever-se-ia notar que, embora o
Serviço de Inteligência japonês fosse bom, devido ao cuidadoso estudo das
áreas que planejavam atacar, os americanos contavam com a grande vantagem de
poder ler o código diplomático japonês, uma vez que havia sido decifrado pelo
Coronel William Friedman em 1940. O problema , porém, residia em saber se a
informação devidamente decifrada poderia ser aplicada a tempo no lugar certo.
Durante todo o final do outono
de 1941, as negociações em Washington prosseguiram, embora logo se tornasse
evidente que os Estados Unidos não reconsiderariam a decisão que levou ao
embargo até que o Japão abandonasse as ambições expansionistas. Premido pelos
militares, o governo japonês estabeleceu que a decisão final para a guerra
seria tomada a 25 de novembro; três dias antes, a força de ataque a Pearl
Harbor se reuniu na Baía de Tankan, nas Kurilas, enquanto Tojo encorajava os
duvidosos com o argumento de que “em lugar de aguardar a extinção, seria
melhor enfrentar a morte, rompendo o anel que nos cerca, para encontrar um
caminho para a existência”. Sabia-se que os britânicos e americanos reforçavam
suas bases no além-mar, enquanto os efeitos do embargo petrolífero se faziam
sentir cada vez mais fortemente. Afinal, a 26 de novembro, os americanos, em
resposta às gestões dos nipônicos feitas no sentido de obter deles mais
compreensão para o problema, enviaram-lhes uma nota trocando a suspensão do
embargo pela retirada das tropas japonesas da China.
Com isto, ambos os lados (pois
os americanos estavam lendo as mensagens diplomáticas japonesas) compreenderam
que chegara o fim. No dia seguinte, os americanos enviaram um sinal de “aviso
de guerra” aos seus comandantes no Pacífico. Mesmo antes disso, a
força-tarefa que atacaria Pearl Harbor já havia partido, embora os Aliados o
ignorassem. Numa conferência realizada em Tóquio no dia 27, decidiram-se os
nipônicos pela guerra. O embaixador em Washington foi informado de que as
negociações seriam “interrompidas de fato”, mas ordenaram-lhe que não desse a
impressão de que tudo estava terminado. Uma Conferência Imperial realizada a
1o de dezembro, com a presença do Imperador, simplesmente
confirmou o que já estava concertado. Os comandantes das forças invasoras
foram informados de que a guerra começaria no dia 8 (hora de Tóquio). (A
apresentação de datas envolve certa complicação no âmbito internacional, pois
enquanto em Washington e no Havaí transcorria o domingo, dia 7 de dezembro,
em Tóquio e na Malásia já era segunda-feira, 8 de dezembro. As diferenças de
zona também são consideráveis, porquanto as várias ações realizadas no começo
da guerra abrangeram extensão imensa do globo. Todos os ataques tiveram lugar
de manhã bem cedo, hora local, e entre 15:15 h e 19:00 h, hora média de
Greenwich (exceto em Hong-Kong; 23:30 h, HMG). Os alemães e italianos receberam
fortes insinuações da ação e responderam prometendo que também se
intrometeriam contra os Estados Unidos; mensagens decifradas revelaram que a
maioria dos membros da embaixada japonesa em Washington recebera ordens de
partir para o Japão e que os códigos deveriam ser destruídos. No dia 4, a
rádio japonesa transmitiu a mensagem “Vento Leste, Chuva”, significando que a
ruptura de relações com os Estados Unidos era iminente; o Serviço de
Inteligência Britânico informou que grandes comboios escoltados estavam
rumando para o sul no dia 6. Evidentemente, a sorte fora lançada. Só restava
saber onde se daria o golpe.
Faltava um toque final. Embora
os líderes militares nipônicos quisessem vibrar o ataque inteiramente de
surpresa, o Ministro do Exterior japonês insistiu para que fosse feito um
aviso formal e prévio do início da guerra. Saindo para um meio-termo,
decidiram enviar uma resposta, contendo quatorze pontos, ao Departamento de
Estado, às 13:00 h do dia 7 (hora de Washington), que seriam 7:30 h no Havaí.
Enquanto essa nota tivesse sendo lida, os aviões japoneses estariam
sobrevoando Pearl Harbor. Contudo, a tentativa de preservação das sutilezas
diplomáticas fracassou. Devido ao tamanho da mensagem e à lentidão da
embaixada em decifrá-lo, os ataques à esquadra americana já tinham começado
quando os enviados japoneses se reuniram com o Secretário de Estado, Hull. O
Japão, em geral pouco atento às disposições do direito internacional, quando
este atrapalhava os seus interesses militares, violara-o novamente, a
despeito da hipócrita manifestação de querer manter-se dentro de seus
limites. Este foi, sem dúvida, o primeiro fracasso que o Japão colheu na
Guerra do Pacífico.
Pearl Harbor
Pearl Harbor foi alvo, talvez, do mais surpreendente
ataque dos últimos tempos. O plano, concebido um ano antes de ser levado a
cabo, só nas cinco semanas que precederam o ataque é que foi aprovado pelo
Estado-Maior-Geral Naval nipônico. Não há nisso, contudo, nada de estranho,
pois quase sempre, e aí estão os anais da guerra para o confirmar, os planos
improvisados se revelam melhores que os demoradamente traçados, que amiúde se
revelam ultrapassados, além de imporem muita rigidez, quando a flexibilidade
é pré-requisito cuja importância a prática reconhece.
Até começos de 1941, o plano japonês, em caso de guerra
contra os Estados Unidos, era curiosamente parecido com o americano. As duas
potências visualizavam uma penetração inicial japonesa para o sul, para tomar
as Filipinas, seguida de grande batalha naval no Pacífico centro-oeste,
quando a força de ajuda americana chegasse à área. A marinha japonesa há
muitos anos se vinha preparando com vistas a esse embate e confiava em que
seus gigantescos couraçados da classe Yamato se revelariam superiores à
Esquadra Americana do Pacífico. Seus almirantes esperavam que esse encontro
assinalaria uma segunda e talvez maior Tsushima, um Trafalgar do Pacífico.
Nem mesmo as lições da Noruega, Dunquerque e Creta serviram para convencê-los
de que os tempos do couraçado já haviam passado; na verdade, a crença de que
tais vasos repousava o núcleo vital da esquadra permaneceu forte até a
batalha do Golfo de Leyte.
Contudo, havia um homem que discordava desse ponto de
vista: o Almirante Yamamoto, que fora nomeado Comandante-Chefe da Esquadra
Combinada Japonesa em agosto de 1939. Líder inteligente e perceptivo,
Yamamoto reprovava a expansão pela força na Ásia, sem dúvida por recear o
potencial bélico dos Estados Unidos, que conhecia por haver lá estado, mas
também acreditava no “grande destino” do Japão no Oriente, e admitia que
somente quando fosse varrida daquela área a influência americana esse “grande
destino” se realizaria. Tendo em vista isso, o espírito incisivo de Yamamoto
repelia a idéia de ter de esperar pelo ataque da esquadra americana: seria
muito melhor atacar primeiro, e rapidamente, como Nelson fizera em Copenhague
e Togo em Port Arthur.
Yamamoto suspeitava bastante do valor do couraçado na
guerra moderna. No período em que comandou o porta-aviões Akagi, teve papel
destacado no desenvolvimento da aviação naval do Japão. Foi, em grande parte,
ganha por ele a batalha pela construção de mais porta-aviões, para serem
utilizados no combate aos navios inimigos sempre que possível. Poucos meses
depois de assumir o comando da Esquadra Combinada, começou a tomar lugar em
suas preocupações a idéia de aniquilar a força americana em Pearl Harbor num
golpe drástico, o que libertaria seu país para a almejada expansão rumo sul.
Confidenciando com vários colegas de mentalidade aeronáutica, Yamamoto começou
a desenvolver pormenorizadamente o plano no começo de 1941, ao mesmo tempo em
que os pilotos navais da esquadra recebiam treinamento intensivo,
preparando-se para o momento do golpe aniquilador.
Serviu de estímulo ao trabalho de planejamento a notícia
do sucesso da incursão britânica contra Taranto, em novembro de 1940, quando
3 couraçados italianos foram afundados por apenas 22 bombardeiros-torpedeiros
Swordfish do HMS Illustrious. Colhendo avidamente detalhes sobre esse ataque,
os japoneses redobraram esforços na conquista do método a adotar. Embora
Pearl Harbor fosse ainda mais rasa que a baía de Taranto, o fato é que os
britânicos puderam lançar torpedos aéreos em águas realmente pouco profundas.
O segredo consistia em instalar aletas de madeira nos torpedos, para impedir
que “caturrassem” e propendesse, para o fundo. Ao mesmo tempo, as aletas
foram preparadas para granadas perfuradoras de 15 e 16 polegadas, para que
caíssem como bombas: nem mesmo os conveses de couraçados poderiam resistir a
tais armas. A Marinha americana, que também estudara as condições do ataque a
Taranto, preocupava-se com a defesa de Pearl Harbor; mas o Almirante Kimmel,
Comandante-Chefe da Esquadra do Pacífico, fizera objeções à sugestão ao uso
de redes antitorpedos, porque prejudicariam o tráfego de barcos dentro da
baía, atitude que ele não demoraria a lamentar.
Em meados de 1941, os planos de Yamamoto começavam a
atingir audiência mais extensa. Já estava escolhido o inflexível Almirante
Nagumo para dirigir a força-tarefa atacante, embora este duvidasse muito do
sucesso de aventura tão arriscada. Na conferência anual dos jogos de guerra
naval, o plano foi revelado às altas patentes da Marinha Imperial. A
revelação provocou protestos, sobretudo do Estado-Maior-Geral da Marinha, que
considerava arriscada a empresa proposta por Yamamoto. Em vez disso,
preferiam os dirigentes do órgão a conservação da tragédia original, que
rebaixava a função do porta-aviões. Além de não ser tomada decisão alguma naquela conferência, a
discussão propagou-se pelas fileiras graduadas da marinha. Contudo, a 25 de
novembro de 1941, Yamamoto fez um ultimato ao Estado-Maior da Marinha - ou o
plano era aceito, ou ele e seu Estado-Maior se demitiriam. Diante de tais
alternativas, a oposição ao plano de Pearl Harbor ruiu por terra.
Entrementes, os preparativos finais eram completados.
Três rotas para as Ilhas Havaí haviam sido examinadas: a meridional, pelas
Ilhas Marshall; a central, por Midway, e a setentrional. Embora a terceira
fosse muito sujeita a mares agitados e exigisse duas sessões de
reabastecimento para os destróieres de escolta, foi finalmente a escolhida.
Pesou na escolha da rota setentrional o fato de as duas anteriores correrem
ao longo de rotas marítimas mercantes e de patrulha de aviões de observação
baseados no Havaí, patrulhas cujo raio de ação havia sido ampliado de 320
para 960 Km, e para o êxito da missão era considerado vital que a
força-tarefa não fosse vista. O mau tempo ao longo da rota setentrional
talvez obrigasse os destróieres a voltar, mas haveria muito pouca
possibilidade de detecção. Os vasos que fosses encontrados no caminho seriam
afundados, se fossem britânicos, americanos ou holandeses, ou detidos, se
fosse, neutros, por uma cortina avançada de escoltas.
Também ficou determinado o dia exato. Habitualmente o
Almirante Kimmel trazia sua esquadra para o porto nos fins de semana,
informavam os espiões, logo, desferido num domingo de manhã, o ataque pegaria
os vasos americanos ancorados e inteiramente despreparados para a ação, com
apenas metade das tripulações. O ataque seria realizado em meados de
dezembro, o mais tardar, devido à crescente escassez de combustível; outra
coisa: o inverno manchuriano, depois disso, já teria começado, e protegeria o
enfraquecido Exército de Kwantung contra um ataque de surpresa e, depois
desse tempo, a monção estaria no apogeu, o que impediria desembarques
anfíbios na Malásia e nas Filipinas. O domingo, 7 de dezembro (hora de Havaí)
parecia ideal, pois, além de não haver luar, as marés seriam ideais para os
desembarques naqueles dois pontos.
Esse dia teria sido favorável a uma invasão anfíbia das
Ilhas Havaí também, mas a idéia foi rejeitada. Todas as tropas e todos os
navios-transporte de tropas eram necessários em outros locais e seria
necessário uma força imensa para conquistar o grupo: calculava-se que havia
43.000 soldados americanos somente em Oahu. Um comboio assim tão grande seria
certamente descoberto, pois não poderia percorrer a turbulenta rota
setentrional. O envolvimento de outras forças japonesas se limitaria aos
cinco mini-submarinos, cujas tripulações, de dois homens em cada um, se
sacrificariam na tentativa de incapacitar as belonaves americanas que se
encontrassem na baía.
Esses cinco barcos suicidas foram tirados da base naval
de Kure a 19 de novembro, de um conjunto de 27 grandes submarinos classe I,
que patrulhariam ao largo de Pearl Harbor. Sete dias depois, a força-tarefa
principal zarpou da Baía de Tankan, nas Ilhas Kurilas setentrionais, à
velocidade de 13 nós, com ordem de restringir ao máximo as mensagens
radiofônicas. Comandados pelo Almirante Nagumo, zarparam os seis grandes
porta-aviões, Akagi, Kaga, Shokaku, Zuikaku, Hiryu e Soryu, transportando 423
aviões. Destes, 360 seriam usados no ataque - 81 caças, 135 bombardeiros de
mergulho, 104 bombardeiros de alto nível e 40 bombardeiros-torpedeiros. Os
porta-aviões eram escoltados por 2 couraçados, 2 cruzadores pesados, 9
destróieres e 3 submarinos, acompanhados por oito petroleiros. Os alvos
principais dos bombardeiros, em ordem de importância, seriam os porta-aviões
americanos (possivelmente 4, mas, pelo menos, 2); a esquadra de batalha do
Pacífico, de 8 a 9 navios de linha; os tanques de combustível e outras
instalações portuárias e os aviões dos Campos Wheeler, Hickam e Bellows. Se
tudo isto pudesse ser cumprido, a supremacia japonesa no Pacífico Ocidental
estaria garantida.
Já então se aproximava o ponto de crise. A 2 de dezembro
(após a Conferência Imperial do dia anterior) foi confirmada a decisão de atacar.
Os navios tiveram suas luzes apagadas e redobraram o alerta. Mares agitados
arrastaram vários navios, mas não se podia perder tempo em procurá-los. A
velocidade foi aumentada para 25 nós no dia 4, a despeito dos riscos de
colisão no nevoeiro. Do consulado japonês em Honolulu, o vice-cônsul
Yoshikawa estabelecia um fluxo contínuo de informações sobre o movimento dos
navios americanos, que eram transmitidas para Nagumo através de Tóquio. À
meia-noite de sexta-feira, 6 de dezembro (5 de dezembro, no Havaí), não
descoberta a força de ataque, o almirante tomou a decisão final de prosseguir
com o ataque: não era mais possível voltar. A grande preocupação girava em
torno dos porta-aviões americanos, que não estavam em Pearl Harbor, mesmo na
noite de sábado. Contudo, nada, além de esperar que aquelas belonaves
retornassem na manhã seguinte, podia ser feito.
Restando apenas 15 horas de viagem, a força-tarefa de
Nagumo avançava veloz para o sul, para o Havaí. No topo do mastro do Akagi
tremulava a famosa bandeira de batalha do Sol Nascente, que Togo usara em
Tsushima. Mensagens do Imperador e de Yamamoto foram lidas em voz alta e
fizeram-se brindes. Então as tripulações, completados os últimos
preparativos, passaram a aguardar o amanhecer, os nervos tensos. Pouco antes
disso, Nagumo, ansiando por maiores informações, decidiu despachar dois
aviões de reconhecimento, enfrentando o risco de ser descoberto. Estes,
porém, não enviaram informe algum. Precisamente às 06:00 h o primeiro avião
atacante decolou do convés do Akagi, seguido de outros 182, constituindo a
primeira leva. A sorte estava lançada. Para Nagumo e seu Estado-Maior havia
começado um período de nervosa espera; para os aviadores, a oportunidade de
fazer história.
E do lado americano? Como dissemos antes, Washington
conseguira decifrar todas as mensagens diplomáticas japonesas e sabia que
depois de 29 de novembro começariam a acontecer coisas: as instruções de
retirar o pessoal da embaixada e de destruir todas as mensagens secretas não
deixavam dúvidas de que a guerra era apenas questão de dias. Os informes de
movimentos de navios de tropas no sul do Mar da China, a 6 de dezembro,
indicavam claramente ataques japoneses para o dia 7 ou 8. Contudo, em nenhuma
das mensagens decifradas havia referência a ataque a Pearl Harbor, sendo
evidente que os americanos, embora esperassem arremetidas contra a Tailândia,
Malásia ou Filipinas, mal podiam acreditar que os japoneses se arriscassem a
investir contra o Havaí. Ademais, essa informação decifrada permaneceu restrita
aos mais graduados do Serviço de Inteligência e aos oficiais do Gabinete -
ninguém em Pearl Harbor leu as mensagens - e envolvia maciço volume de
relatórios diplomáticos e instruções que haviam sido captadas em toda a Ásia
e no hemisfério ocidental. Inevitavelmente, o segredo excessivo e o atraso na
decifração de todo esse conjunto de mensagens impediram que os americanos
usassem plenamente a maravilhosa vantagem com que contava o Serviço de
Inteligência.
Por outro lado, certas fontes diplomáticas extra-oficiais
haviam sugerido a possibilidade de um ataque a Pearl Harbor e vários
comandantes locais se tinham preocupado com a possibilidade de serem pegos
desprevenidos; mas a idéia fora abandonada, tachada de “fantástica” pelo
Serviço de Inteligência dos Estados Unidos. Além disso, o consulado japonês
em Honolulu recebera um pedido, a 24 de setembro de 1941, para que informasse
detalhadamente a localização de todas as belonaves americanas em Pearl Harbor
- evidentemente para que os aviadores de Yamamoto pudessem planejar seu
ataque. Contudo, os americanos, embora interceptassem a mensagem,
ignoraram-na. Também ignoraram o relatório enviado pelo navio de carreira SS
Lurline, de que seu radiotelegrafista captara sinais incoerentes, em baixa
freqüência, de uma força rumando para o Havaí no começo de dezembro. Na
verdade só restava uma possibilidade de alertar o Almirante Kimmel, e o
General Short: depois que os decifradores em Washington informaram que a
resposta japonesa final deveria ser entregue às 13:00 h do dia 7 (amanhecer
em Honolulu), o General Marshall advertiu as Filipinas, São Francisco, Panamá
e Pearl Harbor que “ficassem alerta” naquela hora. Contudo, uma série de
acidentes fez com que essa mensagem fosse transmitida por um mensageiro em
bicicleta, em Honolulu; quando ela chegou às mãos de Kimmel, já a sua frota
de batalha estava destruída e a força de Nagumo se afastava para oeste.
Naquela manhã de domingo, em Pearl Harbor, as
preocupações eram mínimas, porque ninguém havia tomado conhecimento de que as
relações nipo-americanas estavam no auge de uma crise. Os primeiros sinais de
algo inusitado vieram com a descoberta de um mini-submarino, por um
caça-minas americano, por volta das 03:45 h; às 06:30 h, outro foi avistado e
atacado pelas patrulhas, mas somente uma hora mais tarde é que a notícia
desse acontecimento foi divulgada, mesmo assim só para a marinha. Mas às
07:02 h, uma estação de radar, na Ilha de Oahu, captou uma grande força de
aviões (mais de cem, segundo se calculava) vinda do norte, mas um oficial
inexperiente, do centro de informações, interpretou que fosse uma esquadrilha
de B-17 que era esperada da Califórnia - embora somente 12 destes deveriam
chegar e se aproximariam pelo leste! Desfazia-se assim a última oportunidade
de se preparar para o ataque.
Às 07:45 h, os pilotos japoneses, meio incrédulos,
sobrevoaram Oahu, sem encontrar um avião inimigo sequer, nenhuma artilharia
antiaérea e o cenário lá embaixo parecia pacífico, com as fileiras duplas de
couraçados ancorados ao largo da Ilha Ford, no centro de Pearl Harbor. A
surpresa foi completa até o fim. Transmitindo a notícia a Nagumo por meio de
palavras-código “Tora, Tora, Tora”, o comandante Fuchida dirigiu seus
esquadrões contra a vítima que de nada suspeitava. Caças, bombardeiros de
mergulho, bombardeiros-torpedeiros, bombardeiros de alto nível, todos se
dirigiram para os respectivos alvos. As grandes bases aéreas dos Campos
Wheeler e Hickam, com seus numerosos caças e bombardeiros enfileirados foram
metralhadas e bombardeadas pelos jubilosos zeros e Vals. Hangares e quartéis,
aviões e veículos terrestres, todos foram destruídos na arremetida, assim
como centenas de homens. Pouco antes das 08:00 h, soou o alarma: “Ataque
Aéreo Pearl Harbor! Não é exercício!” Era, porém tarde demais, e poucos
aviões puderam subir para atacar os incursores. Também nas demais bases
aéreas, os japoneses, sem ninguém que os molestasse, causaram larga
destruição.
O ponto central do ataque era ao largo da Ilha Ford, ao
longo da adequadamente chamada Fileira de Couraçados, onde estava ancorado o
orgulho da Esquadra Americana do Pacífico. Pouco depois da 08: 00 h, os
bombardeiros-torpedeiros Kate voavam pela baía, rente às águas, e lançavam
seus bem sincronizados torpedos. Livres das redes que Kimmel não quisera
usar, essas armas mostraram-se terrivelmente eficientes. Logo depois de
atingidos, os couraçados da linha externa, Oklahoma, West Virginia e
Califórnia, começaram a adernar. As duas levas seguintes de Kates
incapacitaram os cruzadores Helena e Raleigh, o lança-minas Oglala e o
navio-alvo Utah, após o que os bombardeiros de mergulho se lançaram contra
esses infelizes alvos. Atingidos em suas entranhas, o couraçado Arizona
explodiu com tremenda violência, enquanto outros vasos também eram seriamente
avariados. Os próprios bombardeiros de alto nível de Fuchida juntaram-se à
refrega, escolhendo cuidadosamente, um a um, os alvos agrupados. O caos era
completo, incrivelmente completo. A baía estava coalhada de imensas
fogueiras, de navios tombados, e os aviões mergulhando por entre as nuvens de
fumaça produzidas pela artilharia antiaérea.
Às 08:25 h, exatamente quando a primeira força de aviões
se retirava, outros 170 chegaram, como se fossem necessário acrescentar
alguma coisa mais para dar a todos a sensação de que para ali mudara-se o
inferno. Embora auxiliados, até certo ponto, pelas nuvens de fumaça, os
defensores estavam mal equipados para rechaçar tão grande número de aviões.
Poucos dos seus aparelhos conseguiram levantar vôo e o fogo antiaéreo do exército
era ineficiente; somente as próprias belonaves é que fizeram alguma oposição
à horda de atacantes. Na verdade, elas conseguiram derrubar 20 aviões
inimigos, dos quais menos da metade caiu no primeiro ataque. Mas o preço era
alto, pois ainda havia muitos alvos tentadores na baía. A tentativa do
couraçado Nevada de escapar da linha de navios em chama atraiu a atenção dos
nipônicos e ele foi atingido muitas vezes antes de encalhar à margem do
principal canal de saída. A área das docas foi violentamente bombardeada e
entre os navios atingidos estava a nave-capitânia, Philadelphia. Mas, por
volta de 09:45 h, havendo-se retirado os japoneses, os americanos puderam
atirar-se ao trabalho de apagar os incêndios e de tentar salvar os navios
atingidos. Tão preocupados estavam eles com um terceiro ataque, ou com uma
invasão, que declararam a lei marcial, mantendo-se vigias permanentes. Era
tal a inquietação, que os aviões que decolaram do porta-aviões americano
Enterprise foram derrubados por engano, mais tarde, naquela mesma manhã.
Mas não houve invasão, nem mesmo um terceiro ataque
aéreo, embora Fuchida insistisse em que deviam voltar. Nagumo, porém,
preocupado em dar o fora, considerou cumprida a missão. Dirigindo-se para o
norte às 13:30 h, a força de porta-aviões ganhou o caminho de casa,
excetuando-se o Soryu e o Hiryu, que foram despachados, com suas escoltas,
para proteger a invasão da Ilha Wake (onde a pequena guarnição de fuzileiros
navais americanos lutaria desesperadamente, em grande desvantagem, até o dia
23 de dezembro). Por volta do dia 24, os navios de Nagumo davam entrada nas
baías japonesas, recebendo entusiástica recepção. Da noite para o dia,
Fuchida e seus companheiros transformaram-se em heróis nacionais. Eles haviam
preservado a honra do Japão e sua formidável reputação combativa; havia
igualado, ou mesmo superado, as proezas do Almirante Togo; haviam assegurado
a vitória ao seu país.
Teriam mesmo? Os benefícios que o Japão obteve com o
ataque a Pearl Harbor foram indubitavelmente grandes. A esquadra de batalha
americana do Pacífico fora posta fora de ação. O Arizona, Oklahoma, West
Virginia e Califórnia naufragaram, o Nevada foi obrigado a encalhar e o
Maryland, Tennessee e Pennsylvania ficaram danificados (somente o Arizona e o
Oklahoma foram completamente eliminados); o navio-alvo Utah e o lança-minas
Oglala se perderam; e 3 cruzadores, 3 destróieres, um navio-oficina e um
hidravião-tênder saíram seriamente avariados; 188 aviões foram destruídos e
muitos sofreram avarias, algumas bastante sérias. Mais de 2.400 americanos
morreram, enquanto que os japoneses perderam apenas 29 aviões e menos de 100
homens. Os 5 mini-submarinos, que não se constituíram senão em cinco
fracassos, mesmo durante o ataque aéreo, perderam-se.
Tranqüilizados pela remoção da sombra da Esquadra do
Pacífico, os nipônicos realizaram importantes operações no sul. Ainda como
resultado da investida contra Pearl Harbor, a força-tarefa de Nagumo poderia
ser empregada, daí por diante, contra Java ou Ceilão, sem ter de guardar seu flanco
oriental. Finalmente, o aniquilamento da esquadra americana deu ao Japão a
ansiada oportunidade de criar um “Festung Nippona” suficientemente forte para
resistir a contra-ataques.
Não obstante, o ataque a Pearl Harbor não foi um sucesso
tão completo. E Fuchida compreendeu isto perfeitamente, tanto que insistiu
para que o inflexível Nagumo consentisse num terceiro ataque. Para Fuchida,
homem de mentalidade aeronáutica, estava claro que o almirante não conseguia
ver que os porta-aviões eram a principal arma naval e que tinham de ser
destruídos. (Na verdade, o Enterprise, que navegava perto do Havaí, por pouco
escapou de ser descoberto.) O fato de terem escapado foi realmente um golpe
sério, como o próprio Yamamoto compreendeu, quando foi informado disso. Seria
lícito também afirmar que a destruição dos couraçados forçou a Marinha
americana a adotar o porta-aviões como a espinha dorsal da sua Esquadra do
Pacífico - com espetaculares resultados. Ademais, as instalações de óleo e as
oficinas ficaram intactas. Se tivessem sido destruídas, a esquadra, por
certo, teria sido obrigada a operar da Califórnia e não do Havaí. Muito mais
vantajoso para o Japão teria sido a conquista de todo o grupo havaiano,
embora a manobra envolvesse forças muito volumosas. No entanto, o esforço
permitiria aos japoneses a tomada e a preparação tranqüila do Sudeste
Asiático, porque só depois de alguns anos poderia verificar-se o retorno dos
americanos.
Uma última conseqüência infeliz do ataque deu-se na
esfera política. Roosevelt vinha tentando aumentar o apoio aos britânicos na
Europa e a adotar uma linha forte no Extremo Oriente, mas o povo americano,
em seu isolacionismo, o impedira de fazer as duas coisas. O surpreendente
ataque do Japão, seguido de
declaração de guerra aos Estados Unidos por Hitler, resolveu os
problemas de Roosevelt. Ultrajado pela infâmia dos dois inimigos, o Congresso
e o povo Americano entraram na guerra com a determinação de vencê-la,
independente do que isso viesse a custar, e puseram todo o enorme potencial
industrial do país a serviço da conquista desse objetivo. Logo, não é de
espantar que Winston Churchill tivesse na noite de 7 de dezembro “o sono dos
salvos e agradecidos”; também não é de espantar que o perceptivo Yamamoto já
estivesse imaginando até quando durariam as vitórias do Japão.
Hong-Kong,
Malásia e Cingapura
A ilha de Hong-Kong e os territórios circunjacentes
formavam uma famosa colônia britânica e um dos maiores portos do mundo, mas durante
os anos 30, Londres reconheceu sensatamente que ela seria inútil como base no
caso de guerra contra um inimigo tão formidável quanto o Japão. A área era
pequena demais para proporcionar qualquer defesa duradoura. O elemento civil
montava à casa de 1.750.000 habitantes, que dependiam do continente para o
seu abastecimento de água. Ademais, depois de fevereiro de 1939, a colônia
foi cercada por tropas japonesas, que estavam ocupando grande parte da linha
costeira chinesa a fim de cortar o abastecimento destinado a Chiang Kai-Shek.
A ilha ficava também muito longe de Cingapura para que pudesse receber
qualquer ajuda imediata, e bem ao alcance dos bombardeiros japoneses que
operavam de Formosa. Mas, a despeito da sua indefensabilidade, os britânicos
esperavam, sobretudo por motivo de prestígio, que a colônia pudesse resistir
por uns noventa dias, até que chegassem reforços. Portanto, dois batalhões
canadenses foram despachados para se juntar aos quatro que lá se encontravam.
Porém, por volta de 1941, somente os mais otimistas acreditavam que tal
auxílio chegasse a tempo.
A estratégia do comandante da guarnição, Major-General
Maltby, consistia em manter os territórios arrendados ao longo da “Linha
Gidrinkers”, semifortificada, até que as instalações portuárias fossem
destruídas, para depois tentar resistir ao cerco no interior da ilha. Mas
essa política ruiu por terra poucos dias após o começo da guerra. Já na manhã
de 8 de dezembro (o dia 7 no Havaí), os bombardeiros japoneses haviam
destruído os poucos aviões da RAF e seus soldados estavam cruzando as
fronteiras da colônia. A 38a Divisão, comandada pelo
Tenente-General Sano, fora encarregada de tomar Hong-Kong, e ele estava
decidido a não perder tempo no cumprimento da tarefa. Os japoneses, além de
numericamente superiores, dispunham de dois trunfos talvez decisivos, que
eram o comando absoluto do ar e o poderoso apoio de artilharia. Por volta de
9 de dezembro, os britânicos haviam retornado à “Linha Gidrinkers” e, na
manhã seguinte, bem cedo, o importante reduto de Shing Mun foi tomado por
tropas conduzidas por um certo Coronel Doi, sucesso que surpreendeu tanto a
Sano quanto a Maltby. Com sua linha rompida, os britânicos recuaram
apressadamente para a ilha, com os últimos contingentes abandonando a parte continental
da colônia no dia 17.
Como a guarnição tinha de espalhar-se para se opor aos
ataques, que podiam vir de qualquer direção (inclusive do sul, também
ameaçado pelos japoneses), havia pouca possibilidade de qualquer dos flancos
poder suportar uma arremetida ainda que não fosse excessivamente forte. Na
noite de 18 para 19 de dezembro, os três regimentos da 38a Divisão
desembarcaram na costa norte e logo atravessaram a Baía de Águas profundas,
no sul. Assim, a defesa foi dividida em duas e obrigada a recuar
gradativamente. No dia 25, o setor ocidental rendeu-se, seguido pelo setor
oriental, no dia seguinte. Os japoneses sofreram, entre mortos e feridos,
2.754 baixas, e os britânicos, aproximadamente 4.400. Mas a guarnição, de
11.848 homens, e a própria colônia foram perdidas, e isto em apenas 18 dias,
em lugar dos 90 esperados. Naturalmente, os japoneses contaram com vantagens
ponderáveis, como o volume de tropas, o apoio da artilharia, o domínio do ar
e o excelente conhecimento do terreno. Mas a rapidez com que se verificou a
tomada era o melhor indicador do destino dos territórios britânicos no
Extremo Oriente, os mais importantes dos quais era a Malásia, o maior
produtor de borracha e estanho do mundo, e Cingapura, ponto dominante da rota
comercial do Oriente para a Índia e o Ocidente, ambas dificilmente
defensáveis. A Malásia, e, boa parte da região montanhosa, coberta de
florestas, que dividia quaisquer linhas laterais de defesa em duas, dependia
de grandes importações de arroz para alimentar uma população de mais de 5
milhões de habitantes; a defesa de Cingapura, se a Malásia caísse, era como
defender a Ilha de Wight contra um inimigo baseado em Hampshire. Contudo, não
era este o problema quando a grande base naval foi construída ali, nos anos
próximos de 1924. Na suposição de que a selva malaia fosse uma barreira para
qualquer força invasora, as defesas de Cingapura foram construídas visando a
um ataque pelo mar, e esta suposição continuou vigente pelos anos 30 adentro.
Mas então ficou claro que a grande esquadra para a qual se construíra a base
não estaria disponível, devido aos problemas econômicos surgidos nos anos que
ficaram entre as duas últimas guerras e às crescentes ameaças à Grã-Bretanha
na Europa. Contudo, esperava-se que uma força aérea grande e eficiente
pudesse defender a Malásia e Cingapura até que chegasse auxílio. Por
conseguinte, construíram-se vários aeródromos excelentes no lado ocidental da
península; mas logo se soube que os aviões necessários também não estavam
disponíveis. Em lugar dos 566 aviões modernos que os comandantes locais
exigiam como o mínimo necessário, somente 158 aviões de primeira linha (mas
ainda muito medíocres) estavam baseados ali quando a guerra estourou.
É verdade que as forças de terra eram consideráveis: cerca
de 31 batalhões e unidades de apoio, totalizando 88.600 homens; mas o
Comandante-Chefe da Malásia havia solicitado outros 17 batalhões e dois
regimentos de tanques para formar uma força mínima. De qualquer modo, a
maioria das unidades existentes estava mal equipada e mal treinada para
guerra na selva. Não tinha tanques, e seu comandante, Tenente-General
Percival, não tinha nem a experiência nem a inflexibilidade exigidas para o
bom exercício do alto-comando na guerra. Além disso, o que de fato estava acontecendo
era que as forças de terra estavam guardando as bases aéreas (onde não havia
nenhuma frota aérea) que foram construídas para proteger uma base naval (onde
não havia nenhuma esquadra naval). Os britânicos haviam construído
instalações que, nas circunstâncias econômicas e políticas, não tinham
qualquer utilidade para eles, mas que eram extremamente úteis para os
japoneses e que poderiam cair facilmente diante de um ataque decidido.
Cingapura, que teoricamente era a base mais importante fora do Reino Unido,
praticamente não era tratada como tal e, na verdade, depois de 1938, Londres
dera conscientemente prioridade ao Mediterrâneo, na esperança de que o Japão
não provocaria guerra no Extremo Oriente. Mas em 1941 a expectativa
transformara-se em vã esperança. E o governo Churchill encontrava-se à época
por demais envolvido no Oriente Médio para fazer algo a respeito.
Porém, já então os comandantes locais estavam cientes do
que representaria uma invasão pelo norte, e o avanço do Japão para a
Indochina acentuou essa preocupação. Soldados foram estacionados ao longo da
fronteira norte, embora poucos comandantes graduados e nenhum dos políticos
acreditassem que os japoneses pudessem conquistar Cingapura. Ademais, suas
defesas não eram de modo algum fixas, pois se esperava levar forças para o
norte, para tomar o importante porto siamês de Singora assim que os japoneses
atacassem. Infelizmente para os que acreditavam nesse plano, rotulado de
“Matador”, os nipônicos podiam chegar ao Sião do sul, pela Indochina, em 33
horas, ao passo que os britânicos demorariam 36 horas para chegar a Singora;
se algum dia houve estratégia duvidosa desde o início, era esta. Na verdade,
tudo o que ela fez foi desarrumar as defesas britânicas ao norte da Malásia.
Para os japoneses, a tomada da Malásia e Cingapura era
realmente muito importante. Isto não só expulsaria os britânicos de sua
principal posição no Sudeste Asiático, como também proporcionaria uma grande
base, além de borracha e estanho, produtos realmente necessários. E não só
isso, permitiria e dominaria as Índias Orientais Holandesas, onde o Japão
poderia obter mais estanho, mais borracha, além de petróleo, essencialíssimo
para os nipônicos. Portanto, o domínio da Malásia entrou rapidamente na alça
de mira do comando japonês, que para tanto enviou três divisões e unidades de
apoio, cuja seção avançada desembarcaria no Sião e no norte da Malásia. Da
força nipônica, de 110.000 homens, foram destacados para o desembarque
70.000, que constituíam a nata do exército japonês, muito bem treinados na
guerra na selva e em desembarques anfíbios. Além disso, traziam 211 tanques,
enquanto que os britânicos não tinham nenhum; e como a Malásia era parte
importante das operações meridionais, 560 aviões foram destacados para apoiar
Yamashita. Evidente que muita coisa iria depender da rapidez da tomada de
cabeças-de-praia, mas os nipônicos esperavam que a época da monção protegesse
a aproximação dos comboios e prejudicasse os movimentos das tropas
britânicas.
O cálculo dos nipônicos revelou-se perfeito. Embora o
reconhecimento aéreo comunicasse a presença de uma esquadra japonesa no Golfo
do Sião, no dia 6 de dezembro, estava acertado que a “Operação Matador” não
se desencadearia antes que houvesse desembarque, e o mau tempo realmente
ocultou todos os movimentos de navios. Na primeira ação real do Japão na
guerra (70 minutos antes do início do ataque a Pearl Harbor), 5.500 soldados
foram desembarcados ao norte do porto malaio de Kota Bharu, aos 45 minutos do
dia 8. Duas horas depois, outras forças desembarcariam em Singora e Patani,
no sul do Sião, e se preparavam para avançar para o sul. Entrementes, a
Imperial Divisão de Guardas cruzara a fronteira siamesa pela Indochina e
estava induzindo o governo Thai a aceitar o controle japonês. A despeito dos
bombardeiros da RAF e da valente oposição de 800 soldados indianos, os
nipônicos estabeleceram uma cabeça-de-praia em Kota Bharu e no aeródromo
situado nas proximidades, capturado pelos invasores. Estes acontecimentos,
verificados na costa leste, desviariam de certo modo a atenção do que vinha
passando no lado oeste, onde os japoneses pretendiam concentrar o esforço
principal. O moral britânico já estava deprimido pelos ataques aéreos a
Cingapura e pelo cancelamento da “Operação Matador”, após alguns dias de
espera.
Golpe muito maior receberam os britânicos no dia 10, com
o afundamento do couraçado Prince of Wales e do cruzador de batalha Repulse,
por aviões japoneses. Havia poucos dias que essas belonaves tinham chegado ao
Extremo Oriente como “força repressiva”, mas claramente fracassaram em seu
propósito. E elas eram tudo o que a metrópole podia enviar àquela área, devido à situação crítica do Mediterrâneo e
do Atlântico e em obediência à decisão de Churchill de desatender o plano do
Almirantado de reunir um grupo de couraçados mais antigos no Ceilão. Ademais,
o encalhe do Formidable havia roubado à força mais moderna, conhecida como
“Força Z” e comandada pelo Almirante Phillips, o seu porta-aviões. Portanto,
a cobertura aérea teria que ser feita pela RAF, e na época havia falta de
aviões. E quando Phillips anunciou, no dia 9, que estava partindo para atacar
um comboio japonês que rumava para Singora, não demorou a saber que não podia
esperar muita proteção de caça, porque todos os aviões estavam sendo
retirados das bases setentrionais.
Não obstante, a
“Força Z” zarpou , com uma escolta de 4 destróieres. Avistado por
aviões japoneses no dia seguinte, Phillips desviou-se para o sul, mas foi
novamente desviado por um informe falso de que estava havendo desembarque em
Kuantan. A RAF não foi notificada da mudança de rumo, mas Phillips foi
avistado pelos japoneses, que haviam levado bombardeiros-torpedeiros para a
Indochina, destinados especialmente a afundar esses navios. Pouco depois das
11:00 h de 10 de dezembro, 51 bombardeiros-torpedeiros e 34 bombardeiros de
alto nível atacaram a “Força Z” com precisão devastadora. Os dois navios de
linha, rompidos por torpedos, afundaram em poucas horas; 2.081 homens, do
total de 2.821, foram recolhidos pelos destróieres, mas o próprio Phillips
morreu. Ironicamente os caças britânicos, alertados tarde demais, chegaram ao
local no momento em que o Prince of Wales afundava. Ao custo de apenas 3
aviões, os japoneses vibraram um golpe esmagador na Marinha Real e no moral
britânico em geral; e, muito mais do que em Pearl Harbor, demonstraram a
vulnerabilidade do couraçado ao ataque aéreo. Depois disso, tornou-se
evidente que a época dos navios de grandes canhões terminara.
Em tempo extraordinariamente curto, o Japão estabeleceu
completo controle aéreo e naval na área malaia, dificultando ainda mais para
os britânicos a tarefa de defender seus territórios. De qualquer modo, uma
vez retirados os poucos aviões que havia nos aeródromos do norte, também
desapareceu a razão de ser da presença de tropas ali. A tática adotada pelos
nipônicos, permitida pela superioridade do equipamento de que dispunham,
colocou os britânicos em regime de retirada quase contínua, depois que a
posição de Jitra foi abandonada, a 13 de dezembro. Batalhões de sapadores
repararam rapidamente as pontes rodoviárias que os britânicos haviam
demolido. Obstáculos rodoviários, ou foram removidos pela artilharia e pelos
tanques japoneses, coisa que o soldado indiano na maioria não tinha, sequer,
visto, ou por infiltração, através da selva, da infantaria nipônica que, pelo
que demonstrava, se especializara nos ataques de flanco e operações noturnas,
debaixo das chuvas da monção. A falta de tropa e de comandantes em quantidade
bastante e com bom adestramento para a luta na selva, de artilharia e de
cobertura adequada e, também, de tanques, mais o temor de serem flanqueados,
temor acentuado pela inexistência de tanta coisa reconhecidamente importante,
fizeram que os britânicos não parassem de recuar, descendo pela costa oeste.
Por sua vez, as forças da costa leste, em virtude do que acontecia na costa
oeste, viram-se obrigadas a abandonar todo o Kelentan. Depois de Jitra, a
posição tomada na linha do rio Perak logo foi vencida por uma ação de flanco,
e a posição seguinte, em Kampar, foi abandonada quando os japoneses
desembarcaram tropas atrás da linha de frente, usando pequenos barcos
capturados.
À medida que essas primeiras posições se esboroavam, os
britânicos começaram a mandar reforços às pressas para a Malásia e as Índias.
Caças Hurricanes foram desviados do Oriente Médio, mas mostraram-se menos
manobráveis que os Zeros e, de qualquer modo, sempre estavam em inferioridade
numérica. Da Índia, Birmânia, Austrália e Oriente Médio foram despachadas
tropas para Cingapura. Três brigadas lá chegaram a 25 de janeiro de 1942 e
algumas excelentes divisões australianas que estavam em Suez foram
prometidas. Mas os primeiros reforços a chegar, além de não pertencerem a
tropa de boa categoria, estavam mal equipados. Para agravar mais o problema,
esses reforços foram enviados aos bocados, e nada puderam diante da maré: a
maioria chegou apenas a tempo de aumentar o grande número de prisioneiros dos
japoneses. Além desses movimentos de tropas, o sistema de comando fora
modificado, passando a frente de batalha ao comando do General Wavell, que
fora nomeado para chefe do Comando ABHA (americano, britânico, holandês,
australiano), que abrangia todo o Sudeste Asiático. O terreno era
inteiramente estranho para Wavell, cujas instruções tinham de atravessar uma
complexa cadeia de comando - muitas vezes através de Pownall, seu Chefe de
Estado-Maior, de Percival e, depois, dos líderes das forças das costas leste
e oeste. As comunicações entre a linha de frente e Cingapura deixavam muito a
desejar.
Por volta de 6 de janeiro os britânicos haviam evacuado Kuantan, na costa leste, e
continuavam recuando para o sul. Do outro lado da cadeia de montanhas, uma
linha firme estava sendo construída em torno do Rio Slim, para manter os
aeródromos próximos de Kuala Lumpur e Port Swettenham distante das mãos
inimigas. Contudo, depois de sondagem irregulares, um ataque de tanques
japoneses, desfechado na noite de 7 para 8 de janeiro, rompeu a linha de
frente e avançou para a ponte rodoviária sobre o Rio Slim, a 32 km na
retaguarda. Ao tomar e manter essa posição, a força atacante não só derrubou
outra barreira de defesa, como também impediu a retirada organizada dos
britânicos. Quatro mil soldados se perderam na confusão que se estabeleceu na
tentativa de chegarem ao sul e a 11a Divisão Indiana foi
destroçada. Ademais, o plano de Percival de defender a Malásia Central foi
desbaratado, prejudicando seriamente o ritmo da retirada. Na verdade, esse
ritmo foi acelerado depois da visita de Wavell, no dia 8, pois ele ordenou
que a defesa se concentrasse no Johore, onde os reforços que chegavam estavam
sendo estacionados. Nesse ponto da península, onde termina a cadeia de
montanhas, os japoneses puseram duas das suas divisões no ataque ao longo das
melhores estradas do Johore do norte. Portanto, a feroz defesa australiana em
Gemma não foi de grande utilidade, porque um movimento de flanco feito pelos
japoneses pela costa leste resultou na queda de Muar, a 16 de janeiro, e no
enfraquecimento de toda a posição britânica. Quando mais tropas japonesas
chegaram de Singora (usando caminhões capturados), a posição em Bata Pahat
foi abandonada, obrigando a guarnição a voltar pela selva, embora bom número
de seus integrantes fosse salvo pelo mar. Mas a perda de equipamento e, mais
importante, de moral, ante as repetidas retiradas, estava-se fazendo sentir
no seio das tropas britânicas ou por eles controladas. A dominância japonesa
do ar, de onde em onde fustigada por valentes mas patéticas investidas dos
poucos aviões da RAF, também estava logrando efeito. A retirada desenfreada
continuou na direção dos depósitos de combustível, em chamas na Ilha de
Cingapura.
Por volta de 20 de janeiro, Wavell já se conscientizara
da iminência de uma retirada para a ilha, mas, estarrecido diante da falta de
defesa no local para onde teria que se retirar, passou a contar com uma
prolongada defesa no Johore para que pudesse tentar a construção de tais
defesas. Ao mesmo tempo, tentava explicar a Churchill que Cingapura não era
nenhuma “fortaleza” e que somente um milagre poderia salvar a cidade, que se
encontrava totalmente vulnerável a um ataque pelo norte. Aparentemente, a
comunicação foi para o Primeiro-Ministro terrível surpresa, que continuava
insistindo numa resistência “sem rendição” - evidentemente destacando na
escala de importância a questão do prestígio. Reforços estavam chegando em
grandes quantidades, porém tarde demais e desorganizados demais para poderem
fazer alguma coisa, embora outros estivessem sendo desviados para a Birmânia
ou para as Índias Orientais. A 30 e 31 de janeiro, as forças britânicas
restantes foram retiradas do continente, destruindo-se, após isso, a enorme
ponte através através da qual se ligava à península da Malásia a ilha de
Cingapura, sem que isso, no entanto, prejudicasse muito os japoneses, que em
54 dias tomaram a Malásia, com seus aeródromos e suas matérias-primas. Na
verdade, o avanço japonês provavelmente não se teria feito tão rapidamente se
não tivesse podido os nipônicos contar com tantos caminhões, bicicletas e
barcos pequenos capturados! Eles tiveram 4.565 baixas, entre mortos e
feridos, enquanto os britânicos perderam aproximadamente 25.000 homens,
principalmente prisioneiros, além de quantidade incalculável de equipamento.
Com a Malásia em poder do inimigo, a defesa de Cingapura
era um empreendimento desesperado. Sem a supremacia aérea, com a crescente
escassez de água e suprimentos, uma volumosa população civil para cuidar e
sem qualquer possibilidade de alivio, mesmo antes do ataque nipônico, a situação
era verdadeiramente insustentável. Percival tinha 85.000 soldados sob seu
comando, mas estes, ou estavam esgotados pela retirada, ou eram muito
inexperientes; restavam apenas algumas unidades de fato boas. De qualquer
modo, Cingapura era, taticamente, muito difícil de defender. Não havia
fortificações estabelecidas ao longo de 56 km da costa norte e a largura dos
estreitos era de apenas 1.000 metros, em média, sendo muito menor em alguns
lugares. Esta costa norte era cortada por muitos riachos, pântanos e bosques
densos, não havendo comunicações laterais. Mas, apesar de tudo, não foi feita
qualquer tentativa no sentido de construir as defesas, mesmo em dezembro e
janeiro, tão irrealista era o raciocínio dos defensores da ilha: os temores
dos japoneses de que os britânicos lançassem muitas minas ou queimassem óleo
nas águas teriam sido eliminados se tivessem visto a falta de preparativos
até o último momento. Somente a base naval, razão de ser da presença das
tropas, fora parcialmente destruída e evacuada.
Ao chegar ao sul da península, o estado-maior de
Yamashita pôs em estudo, de pronto, um plano de invasão. O ataque principal
seria feito pelo noroeste da ilha, a área mais dividida por riachos e mais fracamente
defendida, por cinco batalhões australianos esticados ao longo de uma frente
de 7,5 km. Tendo reunido todos os barcos pequenos disponíveis, enquanto que,
ao mesmo tempo, martelava a ilha com bombardeios de artilharia e aéreos, os
japoneses se prepararam para assaltá-la com 16 batalhões de linha de frente a
5 de reserva.
Na noite de 8 para 9 de fevereiro, as primeiras
travessias foram feitas quase que sem qualquer oposição, devido a várias
falhas do lado da defesa. Os holofotes e a artilharia não foram usados
adequadamente, se tanto, e a comunicação com o QG era ruim. Além disso, os
britânicos deixaram-se iludir por um ataque simulado japonês, realizado no
lado leste. Isolados e em grande inferioridade numérica diante dos invasores,
os batalhões australianos pouco podiam fazer. Na manhã seguinte, 13.000
soldados japoneses começaram a cruzar o estreito e, pelo dia 10, a área
próxima à ponte de ligação de Cingapura com a península já havia sido tomada
pelas forças de desembarque, fazendo subir para 30.000 o número de soldados
na ilha.
A reação dos britânicos foi lenta e desorganizada.
Quando todos os contra-ataques falharam, eles foram obrigados a recuar para a
faixa sudeste de Cingapura, o que lhes aumentou a desvantagem em que se
encontravam, pois ali havia um milhão de civis para cuidar, além de terem,
com o recuo, deixado em mãos inimigas o abastecimento de água. Os japoneses
passaram a lançar tanques na captura da importante área de Bukit Timah, que a
11 de fevereiro caiu, selando o destino da cidade. Quatro dias depois, com a
reserva de água escasseando, Percival negociou com os japoneses. Às 18:30 h
do dia 15, que passaria a ser chamado o “Domingo Negro”, as hostilidades
cessaram formalmente. Cingapura rendeu-se.
Para Yamashita, isto foi realmente bem-vindo, pois sua
munição estava acabando, seus soldados na ilha estavam realmente em séria
inferioridade numérica, o que não lhe deixava pensar em envolver-se numa
sangrenta luta de casa em casa. Consumada a rendição, ele podia afirmar que
infligira a maior derrota ao Império Britânico no século XX; a expulsão dos
britânicos da França e da Bélgica e a queda de Tobruk não se comparavam ao
que ali se verificava. Não só se haviam perdido 138.708 soldados britânicos
(principalmente como prisioneiros) na campanha Malásia/Cingapura, contra
9.824 baixas japonesas, como também toda a tragédia se consumou em 70 dias,
em vez dos 100 dias calculados. Ademais a grande perda sofrida pela
Grã-Bretanha representou extraordinário ganho para o Japão, em estanho, borracha,
aeródromos e uma base naval.
Porém, a significação política e psicológica de tudo
isso foi, em última análise, o mais importante. Evidente que a
responsabilidade pela queda da Malásia e de Cingapura cabia tanto aos
governos que a Grã-Bretanha teve no período entre as guerras, por sua
mentalidade econômica, quanto à preocupação de Churchill com o Oriente Médio,
aos maus comandantes e tropas mal treinadas da campanha de 1941-42. Outro
fator que também muito concorreu para que o Japão colhesse tão expressivo
resultado naquela campanha foi a falta de uma força aérea à altura dos
acontecimentos. Mas, a despeito dessas desculpas muito legítimas, dos
defensores da área muito mais era esperado. O que se deu, no entanto, foi que
os japoneses os puseram continuamente em fuga, rápida e humilhante,
horizontalizando todo o prestígio britânico. Cingapura, em particular, fora
um símbolo reconhecidamente falso do poderio militar e naval do Império.
Quando Cingapura caiu, arrastou na queda a mística e o encanto daquela instituição.
Reocupada em 1945, após três anos de domínio japonês, não pôde a Grã-Bretanha
restaurar nos velhos impérios coloniais do Oriente as mesmas diretrizes, pois
jamais poderiam recuperar o antigo prestígio. A rendição de Percival a uma
potência asiática a 15 de fevereiro de 1942 não representou somente o fim de
uma campanha, mas também o fim de uma era.
As Filipinas
e as Índias Orientais Holandesas
Como ficou dito no primeiro capítulo, a arremetida
japonesa no Pacífico, no começo de dezembro de 1941, surpreendera os
americanos no meio de uma mudança de toda a sua política de defesa para as
Filipinas. O plano inicialmente estabelecido previa a retirada das ilhas
assim que fossem atacadas, à parte a defesa da península de Bataan, para
impedir que a Baía de Manila fosse utilizada por navios inimigos. As
Filipinas estavam muito longe do Havaí (4.800 km) e perto demais de Formosa e
do Japão (1.120 km e 2.880 km, respectivamente) para serem defendidas,
sobretudo porque os japoneses já se encontravam na posse das Ilhas Marianas,
Carolina e Marshall e haviam completado o cerco, em “ferradura”, da posição
americana, com a ocupação da Indochina, em julho de 1941.
Devido à insistência de MacArthur e às esperanças
depositadas nos bombardeiros B-17, a estratégia da “fuga” cedeu lugar, em
agosto de 1941, a outra, segundo a qual as forças defensoras das ilhas se
oporiam às tropas invasoras. Naturalmente, para que isso fosse possível as
defesas tinham de ser consideravelmente melhoradas. MacArthur tinha
aproximadamente 140.000 homens sob seu comando, mas apenas 31.000 destes eram
regulares; o restante se compunham de tropas filipinas auxiliares que, ao
todo, eram mal treinadas e mal equipadas, embora se esperasse elevar seus
padrões até começos de 1942. À medida que o espectro da guerra aumentava,
depois de meados de 1941, canhões e aviões foram despachados às pressas para
as Filipinas. Os aviões, as novas B-17, eram considerados particularmente
importantes, pois o comando Aliado esperava com elas atacar as bases inimigas
em Formosa e no Japão e desbaratar os comboios invasores. Mas apenas 35
desses aviões estavam disponíveis quando os japoneses atacaram. Quanto à
imponentemente chamada Esquadra Asiática, ela se compunha apenas de uns
poucos cruzadores e destróieres que deveriam ser retirados para o sul assim
que começassem as hostilidades. A principal força naval eram 29 submarinos
americanos equipados com torpedos que mais tarde se descobriu serem
defeituosos.
Mais seis meses e a capacidade defensiva das Filipinas
seria grandemente melhorada, mas os japoneses não respeitavam os cronogramas
de ninguém, exceto os seus. Vale, no entanto, notar que as tropas de
MacArthur guardavam disposição que não davam apoio à estratégia de defender
tudo. As melhores unidades e equipamentos se encontravam em torno de Manila,
e as linhas costeiras eram defendidas apenas por regimentos filipinos de
baixo nível. Portanto, não seria muito difícil a uma poderosa força japonesa
obter uma cabeça-de-praia.
Na verdade, era exatamente isto que os invasores
planejavam fazer. O Tenente-General Homma, comandante do 14o
Exército, só recebeu 57.000 homens para capturar as ilhas e confiava
seriamente na superioridade aérea, na surpresa, e na qualidade dos seus
soldados para superar as desvantagens. Às 02:30 h de 8 de dezembro, Manila
foi informada do ataque a Pearl Harbor e do começo da guerra, mas os
comandantes americanos estavam indecisos sobre se deviam bombardear Formosa
imediatamente. Diante do ocorrido, os aviões receberam ordens de sobrevoar a
Ilha de Luzon, para não serem surpreendidos em terra, caso se verificasse
ataque inimigo. Frustrando todos esses planos, o nevoeiro reteve os aviões
japoneses em Formosa e, por isso, eles só chegaram às Filipinas no fim da
manhã. Desfeita já toda a confusão do lado americano, as B-17 começaram a ser
carregadas para um ataque a Formosa. Como o sistema de alarma aéreo era
ineficiente, esses aviões foram presa fácil dos atacantes japoneses. Por mais
de uma hora, o Campo Clark e outras bases estiveram debaixo de bombardeio em
que os americanos perderam 17 B-17, 56 caças e 30 outros aviões; a supremacia
aérea do Japão era virtualmente completa. Embora os aviões que escaparam ao
ataque dos nipônicos lutassem bravamente durante os dias que se seguiram,
acabaram esmagados por forças que lhes eram grandemente superiores. A 17 de
dezembro, todas as belonaves de superfície foram retiradas e as B-17
restantes voaram para a Austrália.
Já então, as tropas de Homma haviam feito vários
movimentos preliminares de invasão. A 8 e 10 de dezembro, respectivamente,
destacamentos tomaram a Ilha de Bataan e a Ilha Camiguan, ambas situadas ao
norte de Luzon, como bases avançadas. Na noite do dia 10, as áreas costeiras
em torno de Aparri e Gonzaga foram ocupadas por 2.000 soldados de infantaria
japoneses, que logo eliminaram a leve oposição encontrada e marcharam para o
sul. Ao mesmo tempo, igual número desembarcara em Vigan e começara a avançar
para o sul, para ajudar a principal força invasora, enquanto que, a 12 de
dezembro, uma força japonesa vinda de Palau desembarcou em Legaspi, a sudeste
de Luzon, e avançou para o norte.
Tendo estabelecido pontos de apoio e tomado vários
aeródromos, o 14o Exército desembarcou grandes levas de soldados
em três lugares no Golfo de Lingayen, a 22 de dezembro, protegidos por
cobertura aérea e uma força naval que incluía dois couraçados. Nem as tropas
filipinas, de má qualidade, nem as unidades americanas e os Batedores
filipinos mais bem treinados podiam oferecer muita resistência aos 43.000
japoneses, sobretudo porque estes reuniam dois regimentos de tanques e quatro
de artilharia. Ligando-se ao destacamento de Vigan, a força de Homma
deslocou-se para o sul, sobre Manila. Dois dias depois, mais 7.000 japoneses
desembarcaram na Baía Lamon, juntaram-se ao destacamento de Legaspi e
avançaram para o norte. Assim, a capital foi posta sob perigo de cair vítima
de uma pinça feita por esses dois grupos invasores convergentes, passando
MacArthur a temer que a força da Baía de Lamon o isolasse de Bataan. Constatando
que o plano para a detenção do inimigo nas praias falhara miseravelmente, ele
preparou uma retirada gradativa para a península rochosa. A 26 de dezembro,
Manila foi evacuada e declarada cidade aberta e, nos dez dias que se
seguiram, teve início a retirada, passo a passo, protegida por tanques
americanos. Por volta de 6 de janeiro, todas as tropas que se encontravam em
Luzon estavam na península, como um gato entrando num saco”, segundo Homma.
Enquanto as baixas japonesas totalizavam apenas 1.900 homens (mais 2.700
atacados de malária e outras enfermidades), a força de MacArthur fora
reduzida a uns 80.000 soldados, sobretudo devido à deserção de filipinos.
A estratégia para a defesa de Bataan visava a impedir
que os japoneses usassem a Baía de Manila. Aí pelo começo de 1942,
entretanto, era evidente que os reforços americanos despachados através do
Pacífico estavam sendo desviados para a Austrália, em vez de serem mandados
em ajuda de MacArthur. A superioridade aérea e naval japonesa era tão
flagrante, que nenhuma ajuda, à parte a trazida por submarinos, podia passar.
Portanto, a posição era desesperada, sem qualquer esperança de salvamento.
Além disso, a área era terrivelmente malárica e logo apenas um quarto dos
soldados americanos estava apto para combate. Finalmente, as provisões
começavam a escassear, pois havia 126.000 bocas a serem alimentadas, em lugar
das planejadas 43.000. Os homens foram submetidos a meia ração e, depois, a
um quarto de ração. As possibilidades de uma defesa prolongada não eram muito
boas.
Não obstante, o colapso rápido que se esperava não
ocorreu. Em primeiro lugar, a península prestava-se à defesa, porém o mais
importante de tudo é que os japoneses estavam igualmente às voltas com
problemas de doença e de provisões. As primeiras tentativas de ataque direto
não registraram lá muito êxito, e então a 48a Divisão foi mandada
para as Índias Orientais Holandesas, a 22 de janeiro. Procurando romper o
impasse, dois batalhões japoneses foram desembarcados na ponta sul de Bataan,
mas, após três semanas de violenta luta, acabaram sendo eliminados. Por volta
de 8 de fevereiro, Homma foi obrigado a suspender as operações, porque suas
tropas revelavam sinais de fadiga, devido às retiradas de tropas, e porque
contava mais de 10.000 doentes em suas fileiras. Na verdade, pelo final de
fevereiro, apenas três batalhões efetivos podiam ser por Homma reunidos e, se
os americanos tivessem entrado no conhecimento disso, poderiam ter mudado o
curso da campanha.
Contudo, a grande preocupação de MacArthur era para com
o ataque final japonês e para com o estado de saúde de seus comandados que,
em condições de entrar de imediato em ação, somavam apenas 20% do conjunto.
Porém, se já era precário o moral da tropa, diante de tanta adversidade, mais
ainda veio ele a sofrer com a transferência de MacArthur para a Austrália,
para assumir o comando das forças aliadas no Sudoeste do Pacífico. A situação
piorou em fins de março, quando reforços japoneses foram despejados em Luzon.
Com mais aviões, artilharia e 22.000 soldados descansados, a tarefa de Homma
tornou-se novamente fácil. Após violentos bombardeios e ataques de
artilharia, nos dias 3 e 4 de abril, o 14o Exército avançou contra
as destroçadas linhas americanas. Não querendo expor ao massacre a sua força,
doente e desmoralizada, o Major-General King rendeu-se incondicionalmente a 9
de abril.
O General Wainwright, sucessor de MacArthur nas
Filipinas, antes disso se retirara para a ilha-fortaleza de Corregidor que,
com outras ilhas menores, controlava a entrada da baía de Manila. Equipada
com 56 canhões costeiros de até 12 pol. de calibre, protegidos por blocos de
concreto, e contendo uma bem alimentada guarnição de 14.700 homens,
Corregidor seria um osso duro de roer. Mas, como Cingapura, ela fora
construída principalmente para prevenir uma invasão marítima. Situava-se a
apenas 3,5 km da ponta de Bataan e tinha poucos canhões antiaéreos. A partir
de 24 de março a ilha foi martelada por bombardeiros e, depois, por obuseiros
de 9,4 pol.; a 4 de maio, mais de 16.000 granadas foram disparadas de Bataan
em sua direção. As tropas defensoras foram submetidas a castigo insuportável.
O tímpano do ouvido sangrando pelo estrondear infernal, a visão dantesca que
o fogo, pesado e constante, oferecia, tudo levava a crer num final próximo.
Não obstante, eles resistiram ferozmente quando 2.000 japoneses desembarcaram
pouco antes da meia-noite de 5 de maio; mas estes conseguiram um ponto de
apoio e trouxeram tanques, o que provocou imediato colapso. À iminência do
massacre dos defensores, o General Wainwright rendeu-se às 10:00 h do dia 6.
Contudo, Homma buscava uma rendição total dos
americanos, não apenas a das ilhas da Baía de Manila. Nas ilhas do sul,
forças dos Estados Unidos há algum tempo vinham-se empenhando numa campanha
irregular contra tropas japonesas; em Panai, os homens do Coronel Christie
quase tiveram êxito. Somente a 18 de maio é que se renderam, diante da ameaça
de Homma de matar seus prisioneiros. Pelo dia 9 de junho, toda a resistência
organizada cessara. Os mortos e feridos japoneses, em toda a campanha, devem
ter ficado em torno de 12.500 homens, mas, por esse preço, dobraram uma força
filipino-americana de 140.000, ainda que de má qualidade. Os soldados
americanos capturados nas Filipinas iniciaram um longo e terrível cativeiro,
do qual a famosa “Marcha da Morte” de Bataan foi apenas o começo. Como na
Malásia, a derrota se deveu à falta de treinamento adequado e à inexistência
de apoio aéreo e naval. Ficou, no entanto, de tudo isso, como a querer
funcionar como consolo, a demonstração de que, por falta de disposição
heróica para resistir apesar de tudo, de resistir por seis meses, prazo
contemplado no velho plano para o envio de reforços, não se teria frustrado a
expectativa do comando aliado. Infelizmente, porém, Pearl Harbor permitiu que
a maré de conquistas japonesas se espraiasse para muito além das Filipinas.
Afinal de contas, a tomada das Filipinas e de Cingapura,
e o ataque a Pearl Harbor eram apenas medidas de precaução, tomadas com o
objetivo de impedir que forças americanas e britânicas interferissem na
ocupação dos campos petrolíferos das Índias Orientais Holandesas, vitais para
os nipônicos. Tendo conseguido anular tais ameaças na primeira semana de
guerra, o Japão estava livre para avançar mais para o sul. Bornéu, controlada
pelos britânicos e que também era produtora de petróleo, foi a primeira a
cair, pois Londres já decidira que era inútil desperdiçar recursos na defesa
desse território coberto de selvas.. Desde agosto de 1941, a produção de
petróleo fora gradualmente reduzida para negar suprimentos aos japoneses e a
8 de dezembro os poços petrolíferos foram destruídos. Na verdade, o único
ponto de defesa seria em torno de Kuching, que impediria os invasores de usar
os aeródromos próximos para o ataque a Cingapura. Por conseguinte, quando
5.000 soldados japoneses, vindos da Indochina, chegaram ao largo de Miri, a
16 de dezembro, não encontraram oposição alguma, e em três dias ocuparam
Brunei e Bornéu Setentrional Britânico. No dia 24, precedidos de ataques
aéreos, dois batalhões japoneses chegaram ao largo de Kuching. Vendo sua
guarnição de 2/15o Regimento do Punjab em inferioridade numérica,
o Tenente-Coronel Lane ordenou a destruição do aeródromo da cidade e uma
retirada para o território holandês. Somente depois de violenta luta e de
atrasos causados pelo mau tempo e pela necessidade de se reorganizarem é que
os japoneses puderam tomar a base mais importante de Singawang II, nos dias
26/27 de janeiro. Daí por diante, os defensores se retiraram lentamente para
o sul, só se rendendo no começo de março, depois da queda de Java.
Para tomar as Índias Orientais Holandesas propriamente
ditas, os japoneses haviam planejado um ataque de três pontas. Uma Força
Ocidental, zarpando da Indochina, deveria capturar a região de Palembang, na
Sumatra meridional, e depois mover-se contra Java ocidental; uma Força
Central, saindo de Palau através de Davao, nas Filipinas, tomaria os campos
petrolíferos da Bornéu Holandesa e depois avançaria para Java; e uma Força
Oriental, descendo de Davao para o sul, capturaria as Célebes, Amon e Timor,
isolando os reforços aliados vindos da Austrália. Java, a ilha central das
Índias, seria, assim, invadida pelo oeste, norte e leste. O Tenente-General
Imamura, do 16o Exército, foi encarregado desse empreendimento,
que seria apoiado por Forças Navais de Desembarque especiais, cerca de 45
couraçados, sob o comando do Almirante Konda. Uma vez mais, confiou-se nos
poderios aéreo e naval, e no uso de tropas experientes e bem equipadas para
superar a inferioridade numérica.
Tudo isto correu espantosamente de acordo com os planos
- na verdade, saiu melhor que o planejado - pois o rápido colapso britânico
na Malásia e a retirada americana para Bataan permitiram aos japoneses dar
velocidade ao programa de conquistas que haviam traçado. Sumatra, por
exemplo, foi de imediato submetida a constantes ataques aéreos, desfechados
por aviões baseados no noroeste da Malásia, e a força mista aliada, de três
esquadrões de caça e dois de bombardeiros, pouco podia fazer para impedi-los.
Esses esquadrões infligiram algum dano ao comboio da Força Ocidental, mas não
puderam impedi-la de desembarcar cerca de 3.000 soldados, no dia 14 de
fevereiro, após a tomada, feita por 700 pára-quedistas japoneses, do
principal aeródromo da área e de algumas refinarias de petróleo. No dia
seguinte, Wavell decidiu-se por uma retirada para Java. Havia muitos membros
da tripulação de terra da Força Aérea entre os 10.000 soldados aliados na Sumatra,
mas este esforço foi surpreendentemente fraco quando se compreendeu que os
invasores estavam em inferioridade numérica de quase 3 para 1; talvez a queda
de Cingapura no mesmo dia tivesse algo a ver com essa decisão. Mais a leste,
foi maior o desembaraço com que agiram os nipônicos. A 20 de dezembro, Davao,
na Ilha Mindanao, situada nas Filipinas meridionais, foi capturada e
transformada em base avançada para as Forças Central e Oriental; Cinco dias
depois, a Ilha Jolo também caiu. Depois de umas duas semanas durante as quais
se reorganizaram, os japoneses lançaram-se novamente ao ataque. A 11 de
janeiro, Tarakan, no nordeste de Bornéu, foi tomada após violenta luta, mas
os holandeses já haviam destruído as instalações petrolíferas ali existentes.
Assim, 5.000 dos soldados invasores foram levados de navio para Balikpapan a
21 de janeiro, onde ancoraram naquela noite, apesar de um de seus navios ter
sido afundado por um bombardeiro americano e de um ataque desfechado, tarde
da noite, por quatro destróieres americanos. No primeiro combate de
superfície de que a marinha americana participou, depois de 1898, três
transportes foram afundados, mas a invasão japonesa não foi retardada por
isso. Pelo dia 24, as tropas haviam desembarcado e a guarnição defensora
estava recuando. Num ataque levado a efeito por forças de mar e de terra, os
japoneses avançaram para Bandjarmasin a 10 de fevereiro. Virtualmente toda a
grande Ilha de Bornéu, com seus campos petrolíferos e bases aéreas, estava
nas mãos dos nipônicos.
No mesmo dia em que a Força Central tomou Tarakan, 1600
soldados japoneses da Força Oriental, ajudados por desembarques de
pará-quedistas, capturaram Menado e Kemma, nas Célebes do norte. No dia 24,
os aeródromos ali situados novamente já em condições de uso, eles ancoraram
ao largo de Kendari e logo tomaram a melhor base aérea das Índias orientais.
No fim daquele mês, uma força de 3.600 homens tomou a cidade de Ambon.
Ajudados por apoio aéreo fornecido pelos porta-aviões Soryu e Hiryu, os
japoneses conquistaram o resto da ilha em três dias, isolando, desse modo, o
caminho de reforços aliados para as Filipinas. Pouco depois, Macassar foi
capturada por forças vindas de Kendari e, no dia 20 de fevereiro, Timor foi
invadida por uma expedição de desembarque e pára-quedistas que tomou a ilha
toda - também em três dias. Com monótona regularidade, esses destacamentos,
relativamente pequenos mas bem treinados, de soldados japoneses, recorrendo a
apoio aéreo e naval, puderam tomar quase todas as posições nas índias. Restava
então Java, e sua posição parecia cada vez mais precária após a tomada de
Sumatra e Timor e a dissolução do comando ABHA, a 25 de fevereiro. O plano de
defender a barreira malaia até a chegada de reforços fora destroçado pela
rapidez da movimentação japonesa, passando Wavell a mandar novas unidades
para a Birmânia, enquanto que os americanos mandavam as suas para a
Austrália. Os holandeses, com muitas unidades aliadas mistas sob seu comando,
ficaram encarregados da defesa de Java.
Devido ao domínio do ar exercido pelos japoneses, as
forças navais aliadas não tinham podido desempenhar papel muito importante na
defesa das Índias Orientais Holandesas, exceto o ataque de destróieres a
Balikpapan. A 4 de fevereiro, por exemplo, a Força Combinada de Ataque,
composta de cruzadores e destróieres e comandada pelo Contra-Almirante
Doorman, tentou opor-se a invasão japonesa de Macassar, mas foi obrigada a
recuar depois que três cruzadores foram danificados por bombas. Um esforço
posteriormente feito para interceptar o comboio invasor que se dirigia para
Palembang a 13 de fevereiro, também foi suspenso, saindo miraculosamente
ilesos os que dele participaram, depois de cinco ataques aéreos separados.
Contudo, no fim do dia 19, unidades navais aliadas entraram em combate com
uma força japonesa no Estreito de Lumbok, durante o qual dois destróieres e
um transporte inimigos foram avariados. Não obstante, um destróier holandês
foi afundado e um destróier americano e um cruzador holandês foram avariados.
A invasão de Bali, que isolou Java da Austrália, não foi impedida por essa
ação.
Por volta da última semana de fevereiro, era evidente
que em breve se tentaria a invasão de Java. Ostensivamente, o número de
soldados deveria ter sido grande para defender essa importante ilha, o último
refúgio aliado na região. Mas a defesa, como ficou tantas vezes demonstrado
nessa fase da Guerra do Pacífico, sofria a carência de comando organizado, a
força aérea era deploravelmente fraca e abundantes os refugiados de vários
outros lugares (incluindo 10.000 homens das tripulações de terra da Força
Aérea). Além de tudo isso, um derrotismo geral. Embora ajuda alguma pudesse
ser esperada dos indonésios, não era de todo impossível rechaçar uma invasão
no mar, pois Doorman comandava 8 cruzadores e 12 destróieres. Por outro lado,
os japoneses não pretendiam deixar que nada saísse errado na conquista de
Java. O Vice-Almirante Kondo deveria dar cobertura cerrada aos comboios de
invasão com seus cruzadores pesados e destróieres, enquanto que a força de
Nagumo, formada de 4 porta-aviões, 2 couraçados e suas escoltas, ficava à
espreita. A força-tarefa de porta-aviões patrulhava o sul de Java, para
isolar qualquer retirada e, como uma demonstração de poderio, já devastara
Darwin com 188 aviões, no dia 19 de fevereiro.
No dia 26, os navios de Doorman zarparam de Surabaia
para atacar os comboios de invasão e, no dia seguinte, encontraram um grupo
japonês de 2 cruzadores pesados, 2 cruzadores leves e 14 destróieres.
Teoricamente, a força aliada, de 2 cruzadores pesados, o USS Houston e o HMS
Exeter, 3 cruzadores leves HMNS Java, de Ruyter, HMAS Perth, e 9 destróieres,
deveria ter-se imposto, mas o esquadrão anglo-americano-holandês-australiano
simplesmente não era uma força organizada e tinha muitas dificuldades de
língua e de comando. Em contraste, os navios japoneses eram muito eficientes
e possuíam uma arma admirável em seus torpedos “lança longa”. Depois de uma
hora de bombardeio distante, estabeleceu-se uma ação confusa na qual o
Exeter, por seriamente avariado, teve de ser escoltado para fora do local;
dois destróieres aliados foram afundados, um terceiro bateu numa mina e os
quatro destróieres americanos tiveram de se retirar para reabastecimento. Com
os quatro cruzadores restantes, Doorman tornou a entrar valentemente em
combate com o inimigo às 23:00 h, mas os dois cruzadores holandeses foram
afundados por torpedos, levando o almirante consigo; os dois outros então se
retiraram. Do começo ao fim da Batalha do Mar de Java, como ficou sendo
chamada, fora um desastre. A que se lhe seguiu também foi nada encorajadora.
O Perth e o Houston foram afundados depois de terem massacrado uma força de
desembarque japonesa na Baía de Bantam, e dois destróieres holandeses,
atingidos por bombas no porto de Surabaia, foram postos fora de ação. O
avariado Exeter, o herói da Batalha do Rio da Prata, encontrou o fim com seus
dois destróieres de escolta, ao serem descobertos por uma força naval
japonesa quando tentaram passar despercebidos pelo Estreito de Sonda. Apenas
os quatro destróieres americanos conseguiram escapar à caçada do inimigo.
Com a esquadra de Doorman destruída, o destino de Java
teria que ser inevitavelmente o que foi. A 1o de março, a Força
Oriental desembarcou em Kragen e logo avançou para Surabaia, enquanto a Força
Ocidental desembarcava em três pontos deferentes da parte ocidental de Java e
partia para sitiar Batávia. A resposta aliada, lenta e confusa, não impediu
que os japoneses pusessem rapidamente três divisões na ilha. Batávia foi
tomada a 5 de março e Surabaia dois dias depois. Dobrando-se ao inevitável, o
General Poorten rendeu suas forças na manhã do dia 9 e o contingente
britânico fez o mesmo na tarde desse mesmo dia. A conquista das Índias
Orientais Holandesas, exceto os bolsões de resistência no norte de Sumatra,
estava para os nipônicos terminada. Durou apenas três meses, metade do tempo
esperado. O Japão entrou na posse dos cobiçados campos petrolíferos,
desferindo um golpe fatal na supremacia do europeu no Oriente.
Birmânia e a
ameaça à Índia
Por tradição, a importância estratégica da Birmânia se
apoiou sempre no fato de poder ela servir como amortecedor contra qualquer
ameaça que partisse do nordeste contra a Índia. Por volta de 1941, pretendendo
claramente o Japão ampliar sua influência na China e no Sudeste Asiático, a
validade de tal política fugia a qualquer contestação. No decurso daquele
ano, porém, razões de outro tipo vieram juntar-se à já existente para
conferir à Birmânia significação verdadeiramente vital para o Império, pois,
além de atender a 35% de suas necessidades de tungstênio, ali se produzia
petróleo, além de arroz, e era importante elo de abastecimento para Cingapura
e o Extremo Oriente, pois a aeródromo de Victória Point, no sul, era a
principal base dos aviões-transporte. Finalmente ela proporcionava - por meio
da Estrada da Birmânia - a única ligação com a China. Os britânicos, mais
ainda os americanos, ansiavam pela manutenção do governo nacionalista por
motivos políticos, assim como se estava tornando vitalmente importante reter
o maior número possível de divisões japonesas na China.
Apesar de tudo isso, as defesas da Birmânia eram muito
fracas quando a Guerra do Pacífico estourou. Desde 1937 o país tinha variado entre
os Comandos Indianos e do Extremo Oriente, mas fora bastante ignorado por
ambos. A 12 de dezembro de 1941, Wavell (Comandante-Chefe na Índia) colocou-a
sob o comando Indiano, mas quando ele se tornou Comandante ABHA, a posição da
Birmânia mudou novamente. O Tenente-General Hutton era o comandante-chefe da
Birmânia; suas forças incluíam dois batalhões britânicos e duas brigadas
indianas, além dos mais duvidosos fuzileiros da Birmânia e da Polícia Militar
birmanesa, cujos efetivos aumentavam rapidamente. O sistema de alarma
antiaéreo era precário e a única proteção de caça era proporcionada por 16
Buffalos, juntamente com 21 Tomahawks P-40 do Grupo Voluntário Americano, que
Chiang Kai-shek concordara em emprestar. O Generalíssimo oferecera dois
exércitos chineses também, mas Wavell os recusou, julgando que os japoneses
não passariam da Malásia, aceitando apenas uma divisão chinesa, que protegia
os Estados Shan. Devido a essa recusa e a uma disputa sobre a distribuição
dos suprimentos que passavam por Rangum, as relações anglo-chinesas perderam
um pouco de cordialidade. Além disso, não seria de esperar muita ajuda da
população birmanesa, no seio da qual havia muitos simpatizantes japoneses.
Para o Japão, a invasão da Birmânia era considerada imprescindível,
no sentido de obrigar os chineses a renderem-se. O Tenente-General Iida, do 5o
Exército, foi colocado no comando das 33a e 55a
Divisões, além de algumas unidades de apoio, totalizando 35.440 homens, os
quais carregariam sobre a Birmânia. De início, o apoio aéreo foi dado pelos
100 aviões da 10a Brigada Aérea, mas após a queda da Manila, o
número de aviões foi duplicado. A estratégia seria simples: penetrar no sul
da Birmânia, avançar sobre Rangum e então prosseguir para o norte. A 8 de
dezembro, o 15o Exército ocupou o Sião juntamente com 21o
Exército de Yamashita. Imediatamente, forças foram despachadas para o istmo
de Kra e, no dia 16, a importante base aérea britânica de Victória Point foi
tomada. Depois disso, as forças de Iida se concentraram na “pacificação” do
Sião e nos preparativos para o próximo avanço.
Embora não houvesse muita luta em terra durante um mês,
o Japão, nesse período, procurou estabelecer a superioridade aérea sobre o
sul da Birmânia. Contudo, em incursões contra Rangum, nos dias 23 e 25 de
dezembro, 31 dos seus aviões foram derrubados, contra 12 aparelhos aliados
perdidos. Mas quase 3.000 civis foram mortos pelas bombas e houve grande
pânico. A vital força de trabalho indiana foi para o oeste, bloqueando as
estradas e provocando a interrupção dos trabalhos de defesa e de descarga de
navios. Além disso, os efetivos aéreos aliados sofreram mais alguns
desfalques. Mas pouco depois chegaram 30 Hurricanes para restabelecer um
pouco o equilíbrio, e estes logo derrubaram 50 aviões japoneses, com a perda
de apenas 12 dos seus. E um novo esquadrão de bombardeiros Blenheim destruiu
58 aviões japoneses durante um ataque a uma base de Bangkok. Pelo menos
durante algum tempo as incursões diurnas contra Rangum foram canceladas.
Compreendendo que a cidade era vulnerável a ataque por
terra, mar ou ar, o General Hutton começou a mandar suprimentos para a região
de Mandalay e a acelerar a construção de uma estrada entre Tamu (Índia) e
Kalewa (Birmânia); assim a Estrada da Birmânia, ainda que Rangum caísse,
permaneceria aberta. O fato revestia uma hábil antecipação por parte de
Hutton, pois os japoneses es |