Pearl Harbor

Tora, Tora, Tora...

 

 

“Este livro é uma narrativa extraordinariamente reveladora do dramático golpe que marcou a entrada do Japão na Segunda Guerra Mundial, paralisando temporariamente a esquadra americana no Pacífico. Como prelúdio, também dá ao leitor uma clara exposição das relações nipo-americanas no meio século anterior, que conduziram ao conflito. Suas qualidades o tornam um livro excepcional”.

 

A falha fatal

 

A partir de 1931, os japoneses empenharam-se agressivamente na expansão dos seus pontos de apoio no continente asiático, à custa dos chineses, enfraquecidos por conflitos internos, e em prejuízo dos interesses americanos e britânicos na região. Naquele ano, invadiram a Manchúria, transformando-a num estado-satélite do Japão. Depois da conquista da França e dos Países Baixos, em 1940, por Hitler, os japoneses aproveitaram a incapacidade da França para obrigá-la a concordar, sob ameaça, com a ocupação da Indochina francesa.

 

Em resposta, o Presidente Roosevelt exigiu, a 24 de julho de 1941, que as tropas japonesas se retirassem da Indochina - e, para reforçar a exigência, deu ordens, a 26 daquele mesmo mês, para que se congelassem todos os bens japoneses nos Estados Unidos e embargou o fornecimento de petróleo. Churchill tomou providências simultaneamente, e, dois dias depois, o governo holandês refugiado em Londres foi induzido a seguir-lhe o exemplo - o que significava, segundo comentara Churchill, que o “Japão fora privado, de um só golpe, dos vitais suprimentos de petróleo”.

 

Em discussões anteriores, já em 1931, reconhecera-se que esse golpe paralisador obrigaria o Japão a lutar, como única alternativa para o colapso ou abandono da sua política. É significativo que ele tenha adiado o ataque por mais de quatro meses, enquanto procurava negociar o cancelamento do embargo ao abastecimento do petróleo. Os Estados Unidos recusaram-se a cancelá-lo, a menos que o Japão se retirasse não só da Indochina como também da China. Nenhum governo, e muito menos o japonês, concordaria com tais condições. Assim, eram muitas as razões para se esperar guerra no Pacífico a qualquer momento, a partir da última semana de julho. Nessas circunstâncias, americanos e ingleses ganharam quatro meses, antes que explodisse o ataque japonês. Mas não se tirou muito partido desse intervalo para o preparo defensivo.

 

A 7 de dezembro de 1941, uma força naval de seis porta-aviões desfechou um ataque devastador sobre Pearl Harbor, a base naval americana nas Ilhas Havaí. O ataque foi feito antes da declaração de guerra, seguindo o precedente de Porto Artur, em 1904, o primeiro ataque do Japão na guerra que sustentou contra a Rússia.

 

Até começos de 1941, o plano japonês, em caso de guerra contra os Estados Unidos, consistia em usar sua frota principal no Pacífico sul juntamente com um ataque às Ilhas Filipinas, para enfrentar um avanço americano, pelo oceano, para auxiliar sua guarnição nas Filipinas. Era essa a atitude que os americanos esperavam dos japoneses.

 

Contudo, nesse ínterim, o Almirante Yamamoto concebera novo plano - um ataque de surpresa a Pearl Harbor. A força de ataque fez uma aproximação indireta pelas Ilhas Curilas, desceu sobre as Ilhas Havaí pelo norte, sem ser percebida, e desfechou o ataque antes do amanhecer, com 360 aviões, partindo de uma posição a quase 500 quilômetros de Pearl Harbor.

 

Dessa forma, abriu-se caminho para uma ininterrupta invasão naval de territórios americanos, britânicos e holandeses no Pacífico. Enquanto a principal força de ataque japonesa se dirigia, pelo nordeste, para as Ilhas Havaí, outras forças navais escoltavam comboios de tropas para o sudoeste do Pacífico.

 

Em Pearl Harbor, os alvos, em ordem de importância, eram: os porta-aviões americanos (os japoneses esperavam que até seis deles, no mínimo três, estivessem em Pearl Harbor); os couraçados dos Estados Unidos; os tanques de petróleo e outras instalações portuárias e os aviões nas bases principais em Wheeler, Hickam e Bellows Field.

 

A força tarefa principal reuniu-se a 22 de novembro na Baía de Tankan, nas Ilhas Curilas, dali partindo no dia 26. A 2 de dezembro ela recebeu informações de que as ordens de ataque estavam confirmadas, de modo que os navios foram ocultados. Estabeleceram que a missão seria abandonada se a frota fosse descoberta antes de 6 de dezembro, ou se se chegasse a um acordo de última hora em Washington.

 

Houve desapontamentos quando a 6 de dezembro, véspera do ataque, não se informou da presença de nenhum porta-aviões em Pearl Harbor. (Na realidade, um deles estava na costa da Califórnia, outro levava bombardeiros para Midway, outro acabara de entregar caças à Ilha Wake, enquanto outros três estavam no Atlântico). Todavia informou-se da presença de oito couraçados em Pearl Harbor, e sem a proteção de redes antitorpedos, de modo que o Almirante Nagumo decidiu prosseguir. Os aviões decolaram entre 06:00 e 07:15 h (horário do Havaí) da manhã seguinte, a cerca de 440 quilômetros diretamente ao norte de Pearl Harbor.

 

O ataque foi iniciado às 7:55h e prosseguiu até as 8:25h; então, uma segunda leva de bombardeiros de mergulho e de grande altura (high level) atacaram às 08:40h. Mas o uso dos bombardeiros-torpedeiros na primeira leva fora o fator decisivo. Dos couraçados americanos, 5 foram afundados e os outros três sofreram danos sérios. Dos aviões, 188 foram destruídos e 63 danificados. Os japoneses só perderam 23 aviões e 70 ficaram avariados - exceto os cinco mini-submarinos perdidos num ataque que fracassou redondamente. Das baixas humanas, os Estados Unidos tiveram 3.435 mortos ou feridos; enquanto que os números japoneses são mais incertos, sendo que os mortos não chegaram a 100. Os aviões japoneses que retornaram pousaram nos porta-aviões entre 10:30h e 13:30h.

 

O golpe deu três grandes vantagens ao Japão. A frota americana do Pacífico foi totalmente posta fora de ação. As operações no Pacífico Sudoeste ficaram a salvo de interferência naval, enquanto que a força-tarefa de Pearl Harbor podia agora apoiar estas últimas operações. Os japoneses passaram, então, a ter mais tempo para ampliar e fortalecer seu anel defensivo.

 

A falha fatal é que o ataque não atingira os porta-aviões dos Estados Unidos, seu alvo principal, e também não atingira os reservatórios de petróleo e outras instalações importantes, cuja destruição teria tornado muito mais lenta a recuperação americana, já que Pearl Harbor era a única base para toda a frota. Vindo de surpresa, antes de qualquer declaração de guerra, o ataque despertou tal indignação nos Estados Unidos, que reuniu a opinião pública em torno do Presidente Roosevelt, em violenta ira contra o Japão.

 

 

 

 

Prelúdio

 

Durante o século XVI, o Shogun Hideyoshi trouxera paz e unidade a um Japão violentamente sacudido por guerra civil por mais de cem anos. Assumindo o poder supremo no Japão, Hideyoshi voltou-se para a conquista de outros mundos, e a Coréia parecia ser um degrau natural para a conquista da China. Assim é que, em 1592, depois que a Coréia se negara a permitir o trânsito de tropas japonesas pela península para atacar a China, Hideyoshi desfechou a primeira de suas duas invasões. Os exércitos japoneses arrastaram tudo à sua frente e logo dominaram todo o país. Mas Hideyoshi não lograra assegurar a segurança das suas comunicações marítimas, e uma esquadra de belonaves coreanas blindadas afundou sua frota. Cortando-lhe a linha de abastecimento, obrigou-o a retirar-se. Isto fez com que Hideyoshi sentisse a necessidade de controlar o mar e, quando tentou uma segunda invasão, seu plano foi quase idêntico ao usado em Pearl Harbor três séculos e meio depois. Enquanto diplomatas japoneses ainda conversavam em Seul, Hideyoshi atacou de surpresa. Os navios defensores foram destruídos e as tropas japonesas desembarcaram. Mas desta feita os chineses combatiam ao lado dos coreanos, e os exércitos japoneses encontraram desesperada resistência. Foram obrigados a recuar, sendo aniquilados quando tentaram, por mar, retornar ao Japão. Pela segunda vez, aprenderam os japoneses que o sucesso de uma campanha ultramarina dependia não só da qualidade das forças terrestres empregadas, mas também do domínio do mar. Diz-se que, em seu leito de morte, o derrotado Hideyoshi expressou arrependimento por haver causado a morte a tantos compatriotas em terras estrangeiras e promulgou seu famoso edito do isolamento. Como resultado, os japoneses ficaram isolados do resto do mundo por mais de 200 anos.

 

O longo período de reclusão chegou ao fim em julho de 1853, quando uma esquadra americana entrou na Baía de Tóquio sem permissão. Esse acontecimento está registrado nos anais japoneses como “O Dia das Naves Negras”. Impressionados pelo número e pelo tamanho dos canhões dos navios americanos, que se moviam, expelindo grossos rolos de fumaça, sem auxílio de velas e do vento, os senhores da guerra japonesa sentiram a necessidade de ter navios e canhões iguais. Esse exercício americano de diplomacia de canhoneiras provocou o fim da herança feudal japonesa, levando o país à sua modernização e ocidentalização, bem como a adquirir suas próprias “naves negras”. Por volta de 1897 os japoneses estavam encomendando e construindo belonaves mais depressa do que qualquer outro país, excetuando-se a Grã-Bretanha, e, pelo começo deste século, a Marinha Imperial Japonesa era tão grande e moderna quanto a de muitas das potências ocidentais, e quem a equipou foi a nata da juventude japonesa.

 

Passados quase trezentos anos depois da derrota de Hideyoshi, o Japão decidiu tentar nova invasão da China continental. A influência russa crescia na Coréia, onde os interesses comerciais do Japão eram de suma importância. Além disso, a Rússia adquirira em 1898 a fortaleza manchu de Porto Artur, e a intenção de ligá-la por ferrovia até a Europa, para o transporte de tropas e suprimentos, era encarada como uma ameaça à existência do Japão como estado independente. Em fins do século XIX a imprensa japonesa já falava de guerra com o Colosso do Ocidente, e as forças armadas japonesas experimentavam rápida expansão. A 10 de fevereiro a guerra foi formalmente declarada. Contudo, o primeiro tiro fora disparado quase 48 horas antes. Pearl Harbor, 38 anos depois, repetira Porto Artur.

 

Grandemente inferior ao seu imenso adversário russo em potencial humano e material, a esperança do Japão estava em conseguir o domínio do mar e o controle da Coréia logo de início. Com isso, os russos ficariam privados de qualquer porto sul-coreano de onde pudessem desfechar operações contra o Japão; as baías da costa ocidental da Coréia serviriam de bases para a frota japonesa, e as tropas nipônicas poderiam ser enviadas à Manchúria - tanto por mar como por terra, através da Coréia - antes que os russos tivessem tempo de trazer da Europa forças capazes de combatê-las. Para obter essas vantagens, o Japão atacou antes de declarar guerra. Um navio russo, ancorado no porto coreano neutro de Chemulpo, foi afundado e as tropas japonesas desembarcaram na Coréia. Entrementes, a principal frota japonesa comandada pelo Almirante Togo, rumava para Porto Artur. Pouco antes da meia-noite de 8 de fevereiro, três couraçados russos foram torpedeados por destróieres japoneses, que os atacaram quando ainda estavam fundeados. Ao meio dia do dia seguinte, desfechou-se outro ataque e quatro cruzadores russos foram atingidos. Togo, então, bloqueou o porto e quando, depois de um sítio de cinco meses, ele foi capturado pelas tropas japonesas, o resto da frota russa caiu-lhe nas mãos.

 

Vários meses antes que Porto Artur caísse, os russos haviam mandado sua frota principal, sediada no Báltico, para levantar o bloqueio. Foram precisos sete meses para essa armada chegar à zona de batalha, e ela foi aniquilada num só dia, nos Estreitos de Tsushima. Considerada, por alguns historiadores navais, como o maior combate marítimo desde Trafalgar, essa batalha histórica seu ao Almirante Togo o título de Nelson do Japão. Também aos olhos do mundo ela aumentou de tal modo o prestígio do Japão, que ele de pronto foi reconhecido como uma das grandes potências. Os frutos da vitória incluíam a Coréia, que se tornou ptotetorado japonês, e o controle virtual da parte sul da Mandchúria. Porém, o mais importante era algo menos palpável. Derrotando o colosso russo, o Japão destruíra o mito da invencibilidade do Homem Branco, e os japoneses não perderam tempo em tirar partido da situação.

 

Nos anos imediatamente após a guerra com a Rússia, o Japão passou a consolidar sua posição no Sudeste Asiático e a apertar seu domínio da Mandchúria meridional. Enquanto assim procedia, suas façanhas eram observadas, em Washington, com crescente apreensão. Embora na guerra com a Rússia o Japão recebesse apoio moral e financeiro dos Estados Unidos, suas atividades no Pacífico eram vistas com desconfiança. A afluência de trabalhadores japoneses para os Estados Unidos tornou maior o atrito e, na primavera de 1905, à crescente agitação para que se detivesse a imigração japonesa juntou-se a exigência para que se boicotassem as firmas nipônicas nos Estados Unidos. O Presidente Roosevelt, que insistia na necessidade de uma frota poderosa como o melhor meio de manter o Japão em xeque, considerava a reação antinipônica como provocadora e inconsistente com os sentimentos manifestados pelos que, havia pouco, se haviam recusado a apoiar o pedido que fizera de uma marinha mais forte. Contudo, pela assinatura de um acordo em 1908, no qual o governo japonês concordava em restringir a imigração de mão-de-obra japonesa para os Estados Unidos, houve um alívio na tensão, e cinco anos se passariam para que a questão da imigração se fizesse novamente sentir.

 

As duas décadas que se seguiram presenciaram um aumento espetacular no poderio industrial, comercial e econômico japonês. Durante esse período houve também um aumento gradativo no estado de tensão entre o Japão e os Estados Unidos, provocado pela competição pela supremacia naval no Pacífico Ocidental. Porém a corrida armamentista naval só começou, de verdade, em 1916, mas se prenunciara no começo do século. Com a aquisição do Havaí e das Filipinas pelos Estados Unidos, em 1898, a necessidade de uma frota poderosa para protegê-los tornara-se evidente para todos os americanos ponderados. E em seus sete anos no cargo de Presidente, Roosevelt conseguiu duplicar a esquadra dos Estados Unidos - embora não lograsse obter mais que uma fração dos navios que pedira. De sua parte, o Japão, havendo criado uma marinha bastante forte para obter o domínio dos mares e vencer os russos, continuou aumentando o poderio naval depois da vitória. Por volta de 1912 seus gastos com a esquadra atingiam a 35% do orçamento nacional, e teriam sido maiores se uma proposta para criar nova frota de oito grandes couraçados e oito formidáveis cruzadores não tivesse sido rejeitada. Só em 1920 é que esse programa de 8-8, como era chamado, foi sancionado, mas a expansão da Marinha Imperial já começara.

 

Embora estivesse preso por obrigações de tratado com a Grã-Bretanha, o Japão poderia ter permanecido neutro quando a Primeira Guerra Mundial estourou na Europa. Ele não era obrigado a participar do conflito, a menos que os germânicos atacassem possessões britânicas no Extremo Oriente, coisa que a Alemanha não fez. Mas o Japão decidiu alinhar-se com a Grã-Bretanha, e sua ajuda foi inestimável. Por conseguinte, no final da guerra, ele foi recompensado, recebendo todas as ilhas alemãs do Pacífico situadas ao norte do equador e que ocupara - as Carolinas, Pelew, Marshall e o grupo das Marianas. Dispondo de posição estrategicamente valiosa no meio do Pacífico, o Japão podia agora desafiar os Estados Unidos pelo controle daquele oceano. E assim como a corrida na construção de belonaves entre a Grã-Bretanha e a Alemanha fora um fator contribuinte para a Primeira Guerra Mundial também a rivalidade naval entre o Japão, Estados Unidos e Grã-Bretanha que se seguiu ameaçou desencadear outra guerra. Durante a década dos 20, o poderio naval japonês foi governado pelo acordo de 5-5-3, que significava que, para cada cinco navios de linha que a Grã-Bretanha e os Estados Unidos construíssem, o Japão só podia construir três. O acordo, celebrado em Washington em 1922, relegava virtualmente o Japão à condição de terceira potência e conferia à Marinha Imperial o papel de força de dissuasão. De início, o representante japonês à conferência, Almirante Kato, exigia que a proporção da frota devia ser de 10-10-7. Mas os especialistas navais da época acreditavam que uma frota defensiva devia ser 50% mais forte que seus atacantes, e a concessão de uma proporção de 10-7 representaria a perda da margem de superioridade que poderia fazer toda a diferença entre a vitória e a derrota, se o Japão atacasse os Estados Unidos. Por conseguinte, em termos de couraçados, a proporção de 5-5-3 que a Grã-Bretanha e os Estados Unidos haviam convencido o Japão a aceitar assegurava a superioridade ininterrupta dos Estados Unidos. Os porta-aviões, que decidiriam o domínio do Pacífico, nem sequer entraram em cogitação na conferência, porque eram pouquíssimos os existentes.

 

Durante alguns anos o Japão obedeceu à risca o acordo de Washington. A marinha ampliou-se praticamente aos limites por ele permitido. Por volta de 1930, as frações militaristas do Japão sonhavam com uma “Ásia para os asiáticos” sob domínio japonês. E como o acordo de 5-5-3 atrapalhava a expansão do poderio naval do Japão, houve um apelo para sua renúncia ou por uma proporção mais favorável. Nem uma coisa nem outra resultou da Conferência do Desarmamento realizada em Londres, em 1930, e, à medida que os ativistas começavam a ganhar o controle do governo japonês, a crítica que faziam deste e do antigo acordo aumentou. Outra Conferência de Desarmamento estava programada para Londres, em 1935, mas o clamor foi tal que se decidiu fazer uma conferência preliminar em 1934. Esta, que revelou ser a última tentativa de limitar as forças navais mediante tratado, estava fadada ao fracasso. As discussões arrastaram-se por dois meses, mas a representação japonesa parecia decidida a não chegar a qualquer acordo. O Japão exigia que se lhe reconhecesse o direito de se armar como lhe aprouvesse, como país soberano que era, e as sugestões para que se mantivesse a mesma proporção enquanto se buscava um compromisso foram todas rejeitadas. Naquele outono, o Japão declarou que qualquer prorrogação do Tratado de Washington seria inútil e notificou que se estava retirando dele. No Japão, o novo grupo de linha-dura de políticos militares triunfara; agora seria muito difícil deter a avalancha da guerra.

 

Uma vez eliminadas as restrições ao seu tamanho e composição, o Japão estava livre para ampliar a Marinha Imperial até onde o permitissem seus recursos financeiros e, por volta de 1941, ela era mais poderosa do que as frotas britânicas e americanas no Pacífico, reunidas. O Japão não só possuía os dois maiores couraçados que o mundo já vira, como também tinha dez porta-aviões, enquanto que os Estados Unidos só tinham três e a Grã-Bretanha um. Mais importante ainda é o fato de haver a Marinha Imperial adotado a estratégia de usar o porta-aviões como arma ofensiva, enquanto os Estados Unidos ainda pensavam que ele só tinha utilidade como proteção aérea para os couraçados.

 

Em 1931, o Japão ocupou a Mandchúria setentrional. Segundo os japoneses, eles foram obrigados a tomar essa decisão porque os chineses mostravam-se arrogantes e provocadores. Mas a rápida expansão das operações militares deixou claro que eles há algum tempo planejavam dominar a província. A verdadeira razão residia no fato de os ativistas, agora no controle do governo japonês, realizarem apelos freqüentes ao fervor patriótico do povo, pela expansão do Japão. Suas ilhas eram de excepcional beleza, mas seu terreno montanhoso carecia da matéria-prima para alimentar as indústrias modernas, das quais dependia sua população, que crescia assustadoramente. Era preciso cada vez mais território, e seis anos após a ocupação da Mandchúria os japoneses invadiram a China. A luta prosseguiu por oito anos, até 1945.

 

Por volta de 1939, o Japão estava inteiramente dedicado à guerra, e com imenso sucesso, na grande massa continental da Ásia. A facção ativista apertara seu domínio do governo. Mas à medida que os generais arrastavam o Japão cada vez mais para o interior da China setentrional, os almirantes viam que o país se aproximava sempre mais de um choque com a Rússia Soviética. Na sua opinião, se o Japão quisesse arriscar-se numa guerra com uma grande potência, então devia ser numa direção que lhe dava maior possibilidade de sucesso - e na qual se poderia explorar o poderio da Marinha Imperial. Desde  que o Japão se comprometera numa campanha na China continental, parecia que a maneira lógica de concluí-la com sucesso seria empregar a Marinha ao longo da costa chinesa, em vez de deixar o exército avançar para o norte e correr o risco de um choque direto com a União Soviética. Os almirantes diziam que, numa série de operações combinadas, se poderia usar um exército relativamente pequeno de maneira eficaz e flexível contra os chineses, que eram numericamente superiores. Essas táticas deveriam trazer dividendos dobrados. Primeiro, havia menos possibilidade de o Japão se atolar numa guerra com duas grandes potências terrestres, cada qual com uma população muito maior do que a japonesa. Segundo, a presença da poderosa marinha japonesa operando no Sudeste Asiático defenderia as tentativas diplomáticas e comerciais de expansão naquela região. Os japoneses já vinham há algum tempo tentando aumentar seu comércio com as Índias Orientais Holandesas, que são ricas em petróleo, e à medida que a guerra na China se arrastava e tornava mais aguda a necessidade de petróleo e de outras matérias-primas, os próprios almirantes passaram a considerar essa área vital para eles.

 

Até 1938, os japoneses sempre consideraram a Rússia Soviética como o principal inimigo potencial do Japão. Mas o crescente ressentimento com a pressão diplomática aplicada pelos Estados Unidos para acabar a guerra com a China fez com que a Rússia fosse substituída pelos Estados Unidos. A Marinha Imperial, expandindo-se rapidamente, jamais tivera quaisquer dúvidas sobre quem seria o verdadeiro inimigo numa grande guerra. Os generais japoneses sentiam que o avanço pela China adentro levaria inevitavelmente ao choque com a Rússia, mais cedo ou mais tarde. Por outro lado, os almirantes japoneses sabiam que um avanço para o sul provocaria atrito com os Estados Unidos, e a guerra com este país seria marítima. Nem eles nem os almirantes americanos se compraziam com a perspectiva. Mas os generais é que tinham o controle nas mãos, e tacharam as negociações com os Estados Unidos como “diplomacia tola”.

 

Envaidecidos com as conquistas na China e sentindo-se todo-poderosos, os líderes do exército eram favoráveis à guerra e à promoção de uma “Esfera de Co-prosperidade do Grande Sudeste Asiático”. Hitler e Mussolini estavam insistindo para que o Japão se unisse a eles num pacto defensivo de três potências e os generais eram favoráveis a isso. A maioria dos almirantes era contra. Mas a situação mudou quando o Presidente Roosevelt ordenou que a frota americana do Pacífico deixasse seus portos na Costa Ocidental americana e se concentrasse em Pearl Harbor. Ele já impusera sanções econômicas ao Japão, e estas começavam a incomodar, mas os movimentos da frota americana sugeriam que o Presidente estava pensando numa intervenção armada. Quando, em julho de 1941, o comércio americano com o Japão foi suspenso e os bens japoneses nos Estados Unidos foram congelados, a guerra parecia iminente.

 

O Almirante Yamamoto

 

Isoruku Yamamoto foi nomeado Comandante-Chefe da frota combinada japonesa - a rengo Kantai - a 30 de agosto de 1939. O cargo era o mais alto comando executivo da Marinha Imperial e diz-se que Yamamoto, um abstêmio, ficou tão surpreso ao saber que fora escolhido para o posto, que bebeu um copo inteiro de cerveja num só gole. Duas semanas depois da nomeação, os alemães invadiram a Polônia e teve início a Segunda Guerra Mundial. Yamamoto sabia que cedo ou tarde o Japão seria envolvido e se dedicou de corpo e alma ao trabalho de preparação da Marinha Imperial para a guerra com seu costumeiro e implacável vigor. “Sob  meu comando”, anunciou ele, “dar-se-á prioridade ao treinamento aéreo”. Começava a enfrentar o problema de como destruir a frota americana do Pacífico, se os políticos japoneses fossem tão insensatos a ponto de envolver o país numa guerra com os Estados Unidos.

 

Como Yamamoto era francamente contra tal guerra, era uma ironia que tivesse concebido e levado a cabo o plano de ataque a Pearl Harbor. A franqueza com que combatia a política que provocava risco de tal guerra já tinha feito com que os extremados políticos japoneses o acusassem de pró-americano e traidor. Quando Vice-Ministro da Marinha Imperial, fora ameaçado de assassinato devido ao que pensava sobre tal guerra. Yamamoto vira pessoalmente o poderio industrial dos Estados Unidos, quando estudava na Universidade de Harvard e, mais tarde, quando serviu como adido naval em Washington. Assim como a maioria do povo do Japão, ele acreditava que os japoneses eram uma raça predestinada, escolhida para desempenhar o papel dominante na Ásia. Contudo a realidade que tivera a oportunidade de ver o levava a recear as conseqüências de uma guerra com os Estados Unidos e a Grã-Bretanha. Como Vice-Ministro da Marinha, sua opinião, muitas vezes expressa, era a de que tal guerra só poderia terminar em desastre. Então, como era possível que tivesse ideado o ataque devastador que a precipitaria? A resposta é que Yamamoto não tinha outra alternativa; era prisioneiro da história. Nascido de linhagem Samurai empobrecida, sua própria natureza exigia-lhe que seguisse as tradições do Bushido - o código de honra dos Samurais. O dever para com o Imperador e para com o Japão estava acima de tudo o mais. Como Comandante-Chefe, a responsabilidade de Yamamoto era a proteção da sua pátria. Se outros decidissem pela guerra, ele teria de estar pronto para ela.

 

Já em 1927, Yamamoto reconhecera a potência aérea como um elemento novo e crucial da estratégia naval, e quando foi nomeado para o novo porta-aviões Akagi, no ano seguinte, dedicou-se, como o disse um dos seus biógrafos, “aos problemas práticos implicados no desenvolvimento de teorias da guerra aérea”. Capitão aos 39 anos de idade, contra-almirante aos 44 e Vice-Ministro da Marinha em 1937, somente quando se tornou Comandante-Chefe é que pôde exercer influência no pensamento estratégico da Marinha Imperial. Depois da conferência do Desarmamento, em Londres, em 1934 - à qual Yamamoto fora o principal representante japonês - empenhou-se o Japão num amplo programa de construção de couraçados destinados a dar ao país a superioridade em grandes unidades navais. Foram feitos planos para quatro gigantescos couraçados, cada um equipado com nove canhões de 18.1 polegadas. (O primeiro desses monstros, o Yamato, ficou pronto em dezembro de 1941, e o segundo, o Musashi, oito meses depois. O terceiro vaso, o Shinano, era o maior porta-aviões do mundo, e a construção do quarto foi abandonada.) Como não era provável que os Estados Unidos construíssem navios que não pudessem passar pelo Canal do Panamá, uma liderança na tonelagem asseguraria a vitória do Japão em qualquer batalha naval que obedecesse ao conceito clássico. Na paz, os novos gigantes acentuariam a posição internacional do Japão e dariam grande poder de negociação com os Estados Unidos e Grã-Bretanha; numa emergência, eles serviriam como “garantia de ferro”.

 

Dos almirantes, apenas Yamamoto não confiava na construção desses grandes navios. Na sua opinião, eles já eram obsoletos antes mesmo de batidas suas quilhas. “Eles eram como os complicados amuletos que certas pessoas penduram em casa. Não tem qualquer valos comprovado; são puramente uma questão de fé, não de realidade. Na realidade, eles serão tão úteis ao Japão, numa guerra moderna, quanto uma espada de Samurai...” Na sua opinião, seriam os porta-aviões, cercados e protegidos por cruzadores e destróieres, que dariam a palavra final, nas batalhas navais do futuro. O dinheiro gasto nos monstruosos couraçados seria melhor empregado em porta-aviões e aviões.

 

Desafiado pelos seus colegas, Yamamoto insistia que os ataques por aviões transportando torpedos provavelmente se mostrariam o método mais eficiente para destruir couraçados. “A maior serpente”, disse ele citando um velho provérbio japonês, “pode ser vencida por um monte de formigas”. Pearl Harbor viria a justificar suas palavras.

 

A despeito da oposição, as imaginosas idéias de Yamamoto começaram a ser aceitas gradativamente. Por insistência sua, Construíram-se dois novos porta-aviões (o Shokaku e o Zuikaku, de 30.000 t e 34 nós); hidroaviões de longo alcance, capazes de transportar uma tonelada de bombas a uma distância de 1.200 km (e cujo desempenho, em 1938, numa incursão de Kigushy a Xangai, espantou as marinhas ocidentais), entraram em serviço. Protegido por grande segredo, começou-se a produzir um caça novo e revolucionário. (Esse avião, o Mitsubishi A6M Zero, dominaria o Pacífico durante dois anos). Nenhum desses desenvolvimentos foi conseguido sem dificuldades. As revistas americanas garantiam aos seus leitores que os navios e aviões japoneses não eram páreo para os dos Estados Unidos. Um artigo publicado na revista Aviation dizia que os pilotos japoneses eram os que sofriam mais baixas em todo o mundo. Além disso, concluía o mesmo artigo: “Os especialistas aeronáuticos dos Estados Unidos podem dizer com certeza que os principais aviões militares do Japão já são ou estão ficando obsoletos...” Outra revista dizia aos seus leitores: “A aviação naval japonesa consiste de quatro porta-aviões com 200 aparelhos. Tal como a avaliação que a Grã-Bretanha fez do poderio dos tanques “de papelão” da Alemanha, pouco antes de Dunquerque, que a avaliação internacional do poderio aéreo japonês estava muito errada.

 

Dois meses depois de tornar-se Comandante-Chefe, Yamamoto iniciara a primeira de uma série de mudanças no plano estratégico básico da Marinha Imperial. Em 1909, quando se formulara uma “Política de Defesa Nacional”, na qual os Estados Unidos se tornaram o hipotético Inimigo nº 1, fora prevista uma batalha decisiva no Pacífico Ocidental. Acreditando que os americanos tomariam a ofensiva no Pacífico Ocidental, os japoneses planejaram destruir a frota americana em águas territoriais. Numa linha interna dos Mares do Sul, situada nalgum ponto entre os grupos de Ilhas Marianas e Marshall, a Marinha Imperial travaria essa batalha, e durante mais de trinta anos ela treinou para isso. As belonaves japonesas foram especificamente projetadas para operar nos mares agitados que circundam o Japão e nunca se considerou seriamente a idéia de mandá-los até o longínquo Havaí. A primeira mudança de Yamamoto foi ampliar a proposta aérea da batalha para Leste, a fim de incluir as Ilhas Marshall. Como a mudança parecia insignificante e sem nenhuma importância aparente, o Estado-Maior da Marinha aceitou-a sem problemas.

 

A providência seguinte de Yamamoto foi tornar a Frota Combinada realmente merecedora desse nome. Quando assumiu o cargo, seus dois componentes estavam operando separadamente. Sob seu comando operacional direto, ele os reuniu, combinando porta-aviões, couraçados, cruzadores e vasos auxiliares numa única frota poderosa. Na primavera de 1940 foram preparadas as primeiras manobras que se realizariam sob seu comando, e, nestas, o Comandante-Chefe salientou a necessidade de se melhorar o treinamento em ataques por aparelhos lançados de porta-aviões. depois do que pôde observar, determinou que se intensificassem os treinamentos. Isto quase dois anos antes de Pearl Harbor, e o vigoroso programa de treinamento foi resultante do que estabeleceu Yamamoto; em dezembro de 1941, os pilotos navais japoneses haviam atingido grau muito elevado de competência.

 

Apoiando-se na crescente influência do poderio aéreo demonstrado pelas recentes manobras, Yamamoto agora empurrava as fronteiras da área de batalha do plano estratégico mais para leste - dessa vez, significativamente - até o Havaí. Uma vez mais o Estado-Maior da Marinha também não fez objeções. O Havaí sempre estivera incluído no plano diretor como a área de operações para uma força expedicionária avançada de submarinos. Já então, Yamamoto convencera-se de que os políticos arrastavam o Japão para uma guerra com os Estados Unidos. Mais cedo ou mais tarde, o exército japonês teria de mover-se para o sul, para romper o impasse na China, fazendo a escalada da luta inconclusiva ali para uma guerra por todo o Grande Sudeste Asiático. O Japão sofria desesperada escassez de combustível e se os recursos petrolíferos das Índias Orientais Holandesas fossem cortados, até mesmo seus aviões ficariam imobilizados. Entretanto, do jeito que Yamamoto via a situação, um movimento para o sul, contra as colônias britânicas e holandesas, representaria guerra com os Estados Unidos, e, embora se pudesse desprezar a frota americana do Pacífico como uma ameaça ao Japão propriamente dito, ela seria uma ameaça em potencial para as forças expedicionárias japonesas no sul. A única maneira de garantir suas linhas de comunicação seria destruir a frota americana na sua base. Yamamoto confidenciou para o Almirante Ryunsuke Kusaka: “Se recebêssemos ordens de lutar contra os Estados Unidos, talvez pudéssemos conquistar uma vitória fácil e manter nossa posição por uns seis meses ou um ano. Mas, no segundo ano, os americanos aumentarão sua força e nos será muito difícil continuar combatendo com quaisquer perspectivas de vitória final”. Ele não revelou a Kusaka o que tinha em mente, mas isso estava implícito no que disse.

 

Não há dúvida de que a idéia de um ataque de surpresa a Pearl Harbor, que Yamamoto acalentava, se originara da ação do Almirante Togo em Porto Artur. Mas quem primeiro considerou tal possibilidade foi um almirante americano. Em 1932, o Almirante Frank A. Schofield, que então se reformava, sugerira que um inimigo imaginário poderia resolver concentrar uma força de porta-aviões e atacar o Havaí ou a costa ocidental dos Estados Unidos antes de declarar guerra. Até então se considerara que a força de 38 aviões baseada em Pearl Harbor era adequada para a sua defesa. Para provar isso, os porta-aviões recém-construídos, Saratoga e Lexington, singraram o Pacífico e, à 780 km de Oahu, 150 aviões foram lançados, antes que nascesse o sol de uma manhã enevoada. Os navios balouçavam nas águas agitadas, tal como aconteceria com os porta-aviões japoneses nove anos mais tarde. Surgindo das nuvens sobre o alvo, os aviões mergulharam em ataques simulados contra os navios ancorados em Pearl Harbor, considerando-se que os atacantes conseguiram pleno êxito. Esse resultado, por alguns dias, produziu consternação nos círculos navais americanos. Então, com a reforma de Shofield e com a imprensa preocupando-se com outros assuntos naquela serena época de paz, o nervosismo diminuiu e o problema foi convenientemente esquecido. Mas não por Yamamoto, que tinha plena consciência da importância do poderio aéreo.

 

Durante 1940, demonstrou-se habilmente no Mediterrâneo a viabilidade do uso de aviões transportadores de torpedos. Aos italianos, que tentaram afundar o cruzador HMS Gloucester na baía de Alexandria, cabe o crédito de serem os primeiros a tentar essa nova forma de ataque. Embora fracassasse, eles mostraram as possibilidades e os ingleses logo seguiram o exemplo. A 11 de novembro, a frota italiana fundeada na base de Taranto foi incapacitada, num audacioso ataque, por duas levas de velhos biplanos Swordfish de vôo baixo, que decolaram do porta-aviões HMS Illustrious. Com apenas uma perda de dois aviões britânicos, a marinha italiana recebeu um golpe do qual nunca se recuperou totalmente e, em pouco mais de uma hora, todo o domínio do poderio naval no Mediterrâneo passou para a Grã-Bretanha. Para Yamamoto, parecia que suas teorias haviam sido submetidas a testes e aprovadas. Concebia-se agora a “Operação Z”.

 

“Operação Z”: o plano de Pearl Harbor

 

As Ilhas Havaí, situadas no Pacífico Norte, ficam a 2.090 milhas náuticas a sudoeste de São Francisco. Como o nome sugere, a ilha principal é a Havaí, mas a capital, Honolulu, está situadas na ilha menor, Oahu, caracterizada por maciços montanhosos nas suas costas oriental e ocidental. Honolulu e a base naval americana de Pearl Harbor ficam entre essas montanhas. A população é uma mistura de caucasianos, japoneses, chineses e filipinos, grupos que se misturam com grande freqüência pelo casamento. Em 1941, cerca de 90% dessa população tinham cidadania americana.

 

Durante muitos anos os americanos haviam reconhecido que Pearl Harbor tinha todos os atributos naturais de uma baía convenientemente localizada para o deslocamento estratégico da Marinha dos Estados Unidos. E em agosto de 1919 ela foi inaugurada como base, embora a frota americana não ficasse sediada ali permanentemente, antes de 1940. “Pearl” nunca foi muito apreciada pelos marinheiros porque, como observou o Contra-Almirante Samuel E. Morrison: “Havia poucas brancas e os lojistas eram desonestos...” A base tampouco era popular entre os almirantes. À parte os problemas logísticos oriundos do fato de que ela precisava ser abastecida diretamente da costa ocidental dos Estados Unidos, a quase 5.000 km de distância, a segurança de uma baía fechada, e com uma única entrada, era uma preocupação que os importunava constantemente. Bastava afundar um só navio na única entrada para fechar a baía. Gastavam-se três horas para que a frota saísse da baía, através do canal de entrada, até mar alto, e, com a frota fundeada no porto, o congestionamento de navios, instalações de combustível e reparos, e, os armazéns de suprimento, faziam da baía um alvo sedutor para um ataque aéreo. Entretanto, em maio de 1940, quando Washington resolveu manter uma frota de batalha em águas havaianas, para deter os japoneses, não havia qualquer alternativa, em parte alguma da área, que oferecesse as mesmas facilidades que Pearl Harbor. O Almirante Joseph  O. Richardson, Comandante-Chefe em maio de 1940, duvidou da sensatez da decisão de se basear uma frota mais ou menos “permanentemente” em Pearl. Ele argumentou que seria mais seguro voltar às bases melhores da costa ocidental dos Estados Unidos, mas quando levou suas objeções ao Presidente, Richardson foi destituído do comando e substituído pelo Almirante Husband E. Kimmel.

 

Ninguém da Marinha Imperial conhecia melhor os problemas de Pearl Harbor do que o Almirante Yamamoto. Pendurado no anteparo da sua cabina, na nave capitânea Nagato, havia um mapa atualizado da base e que trazia sinais do seu interesse especial. Numa gaveta fechada da sua mesa havia um impressionante sumário, encadernado, da grande quantidade de informações acumuladas pelo Serviço Japonês de Inteligência sobre a base. Com o título grandioso de Os Hábitos, Forças e Defesas da Frota Americana na Área Havaiana, esse volume continha descrições topográficas, cartas das águas havaianas, detalhes sobre instalações militares, navais e de defesa; horários pelos quais se podia estabelecer uma configuração das patrulhas aéreas e marítimas americanas; o ritmo do movimento dos navios e os procedimentos costumeiros sobre substituição e “licença” da tripulação, quando os navios estavam fundeados. Das suas páginas, Yamamoto podia tirar um quadro completo da vida diária da base. Como também sabia que a frota americana estacionada em Pearl Harbor estava lá somente para fins de treinamento, Yamamoto reconhecia que esse quadro da vida na base provavelmente não variaria muito, pois um programa de treinamento não permitia muita flexibilidade. Por necessidade, os navios operavam numa rotina regular - fazendo-se ao mar por períodos fixos, para se exercitarem, e permanecendo fundeados entre esses períodos. Contanto que se obedecesse ao programa de treinamento e que não se dessem ordens para qualquer deslocamento estratégico, deveria ser possível prever quando a maior concentração de belonaves estaria na baía. Além disso, a configuração da base, que impunha uma limitação tão rígida aos navios que entravam e saíam da baía, era tanto uma vantagem para o provável atacante como uma dor de cabeça para o comandante-chefe da frota dos Estados Unidos. A menos que os americanos fizessem alguns melhoramentos radicais nas defesas aéreas de Pearl Harbor, Yamamoto chegou à conclusão de que as possibilidades de sucesso de um ataque aéreo eram excelentes. Como vimos, perdendo apenas dois dos seus, os 24 aviões britânicos haviam afundado três couraçados italianos em Taranto; contando com o elemento surpresa, uma incursão em escala maior prometia prêmios ainda maiores em Pearl Harbor.

 

E mesmo o elemento surpresa não era de difícil obtenção, pois durante a maior parte do ano os ventos predominantes na área havaiana são os alísios de nordeste, os quais são desviados para cima pelos picos da Serra de Koolau, que domina o lado leste de Pearl Harbor, para formar bancos de nuvens em torno dos picos e fazendo chover a barlavento. Mas nos chamados meses chuvosos o vento, às vezes, muda para norte e sopra o vale. Quando isso acontece, há nuvens esparsas e às vezes chuvas sobre Honolulu e Pearl Harbor, bem como bancos de cúmulos sobre as montanhas. Tais condições poderiam oferecer abrigo para uma força incursora que se infiltrasse pelo norte e serviriam para confundir as defesas antiaéreas da base.

 

Do outro lado do mundo, a Marinha dos Estados Unidos, não ignorou a importância do ataque britânico a Taranto. Num memorando dirigido ao Secretário do Exército, Henry L. Stimson, o Secretário da Marinha, Frank Knox, disse: “O sucesso do ataque aéreo britânico, com torpedos contra navios fundeados, sugere medidas de precaução imediatas para proteger Pearl Harbor contra um ataque de surpresa, no caso de guerra entre os Estados Unidos e o Japão. O maior perigo é o torpedo aéreo. Deve-se dar a máxima prioridade à obtenção de aviões interceptadores, canhões antiaéreos e equipamento de radar adicional”.

 

Stimson concordou com isso, e o comando havaiano recebeu ordens de fortalecer suas defesas contra possível ataque aéreo de surpresa. Um mês depois, em dezembro de 1940, o Almirante Kimmel, comandante-chefe da frota baseada em Pearl Harbor disse a Washington que as “redes antitorpedos naquela base restringiriam o tráfego de navios, reduzindo a largura do canal”. Com essa decisão, Kimmel decretara a destruição da maioria dos seus grandes couraçados.

 

Mais ou menos na mesma época em que Kimmel rejeitava as precauções das redes antitorpedo, Yamamoto confidenciou, pela primeira vez, a seu chefe de estado-maior, Almirante Shigery Fukudome, as suas idéias para um ataque a Pearl Harbor. Até então preferira calar, embora o fato de ter iniciado vigoroso programa de treinamento para os pilotos dos seus porta-aviões fosse prova de que suas idéias se haviam cristalizado. Yamamoto guardara seu segredo. A justificativa que os pilotos e os capitães dos porta-aviões receberam sobre o objetivo do seu programa de treinamento aéreo, que simulava ataques a um vale fechado, foi a de que este era uma prática para apoiar operações do exército em terra. Idêntico apoio fora dado em 1937, em Nanking, pelos aviões lançados de porta-aviões da marinha, e Yamamoto achou que os pilotos careciam de experiência e treinamento em ataques contra alvos terrestres. Como um diretor de cinema à procura do local para um cenário adequado, o próprio Yamamoto percorreu a costa japonesa até descobrir o lugar que servia às suas necessidades. Ao sul de Kyushu, na baía de Kagoshima, o terreno apresentava fortes semelhanças com Pearl Harbor, e os porta-aviões da frota se dirigiam para lá. Mas, dia após dia, enquanto os aviões faziam vôos rasantes sobre a baía, para praticar o lançamento de bombas e torpedos a baixa altitude, ninguém ainda sabia do verdadeiro propósito do seu treinamento.

 

Intimamente, Yamamoto decidira-se numa coisa, o nome código para a projetada operação. Ela seria “Operação Z”, em homenagem ao famoso sinal “Z” do Almirante Togo, enviado na véspera da gloriosa batalha do estreito de Tsumisha, havia trinta e seis anos. “A Ascensão ou queda da nação está em jogo nesta batalha”. Esta era a maneira de Yamamoto venerar a memória do herói da sua juventude. Para transformar suas idéias em realidade, ele agora começava a solicitar a opinião do seu seleto grupo de colegas. O primeiro a quem recorreu foi o Contra-Almirante Takijuro Onishi, um dos poucos oficiais da Marinha Imperial que se interessava pela aviação e que, no final da guerra, viria a ser o organizador das primeiras unidades Kamikaze. Como chefe do estado-maior da 11a Frota Aérea de bombardeiros sediada em terra, Onishi já contemplava a idéia de um ataque ao Havaí, partindo das bases japonesas nas Ilhas Marshall - feito esse impossível devido à distância envolvida. Yamamoto estava certo de que a adesão de Onishi à sua idéia não seria prejudicada por pensamento operacional convencional, e se achasse que o plano era viável, ele o diria. Esboçou as partes essenciais do seu plano para Onishi. Yamamoto queria inutilizar a frota americana do Pacífico por um ataque de surpresa, como preliminar das operações destinadas à captura das áreas petrolíferas do Sudeste Asiático. Aparentemente, impassível, Onishi o escutou e, depois, pediu sua permissão para consultar o Comandante Minoru Genda, brilhante e experiente oficial do estado-maior aéreo, que estava servindo no porta-aviões Kaga, em Kyushu. Com 36 anos de idade, Genda acabara de completar um período como assistente adido naval em Londres, cargo que ocupava quando comunicou sobre a operação britânica em Taranto. Tal como Onishi e Yamamoto, Genda demonstrava acreditar na supremacia do poderio aeronaval e, devido à sua familiaridade com o ataque a Taranto, era de se esperar que fosse favorável à projetada “Operação Z”. Ele a estudou profundamente durante dez dias e depois apresentou suas conclusões a Onishi: “O plano é difícil mas não impossível”.

 

De início, Yamamoto pretendia concentrar seu ataque nos couraçados americanos. Ele sabia que os porta-aviões eram superiores como unidades de ataque, mas como a maioria dos americanos - assim como a maioria dos japoneses - ainda pensava que os couraçados eram a espinha dorsal da frota, ele achava que sua destruição representaria um golpe mais paralisante nos americanos. Também, no começo, acalentou a idéia de que os aviões atacantes não pudessem retornar aos seus porta-aviões. Lançando seus aviões fora do seu alcance operacional, os porta-aviões não precisariam aproximar-se tanto do Havaí, e podiam voltar a suas bases assim que os aviões decolassem. Depois do ataque, os pilotos poderiam fazer amerissagens forçadas e ser recolhidos por destróieres e submarinos. Genda não era favorável a nenhuma dessas duas idéias. Ele disse que o alvo básico deveria ser os porta-aviões americanos, por serem a maior ameaça potencial para a Marinha Imperial e, para obterem os melhores resultados, os porta-aviões japoneses teriam de se aproximar o máximo possível de Pearl Harbor. Uma forma suicida de ataque teria tido mau efeito psicológico sobre os pilotos, e num estágio crítico da guerra o Japão não podia dar ao luxo de perder aviões ou pilotos. Além disso, o retorno às bases sem os aviões poria os porta-aviões em risco, se os americanos contra-atacassem.

 

Um fator que favorecia a operação era a suficiência de porta aviões da Marinha Imperial. O Akagi, de 36.500 toneladas, era um dos mais formidáveis porta-aviões do mundo, maior ainda que o Lexington e o Saratoga, americanos, e depois da reforma por que passou, em 1936-1938, ele podia transportar 91 aviões idêntico ao Akagi. Dois porta-aviões menores, o Hiryu e o Soryu, que deslocavam respectivamente 17.300 t e 15.900 t, também estavam na ativa. Dois outros, de 25.675 t cada um, o Zuikaku e o Shokaku, deviam ser comissionados em agosto de 1941, o que elevaria a frota total de porta-aviões para seis.

 

Na opinião de Genda, todos eles deveriam ser empregados na “Operação Z”. Também fez mais duas observações a Onishi: somente os oficiais mais competentes e os pilotos mais bem treinados deviam ser escolhidos para a tarefa; a operação deveria ser mantida em completo segredo até o instante de se desfechar o ataque.

 

Com a aprovação de Yamamoto, Onishi pôs Genda a trabalhar num esboço do plano para a operação e, por volta de fins de março, ele começava a tomar forma. O ataque seria montado por uma força-tarefa especial, de aproximadamente 20 submarinos classe-I e 5 mini-submarinos com sua tela protetora, juntamente com a principal força de ataque montada em torno dos seis porta-aviões. Essa força de ataque tomaria um caminho indireto, que a colocaria a 360 km do Havaí. Dessa distância, os aviões decolariam dos porta-aviões, dirigindo-se a Pearl Harbor por um corredor aéreo onde, segundo se acreditava, as patrulhas aéreas americanas eram poucas e muito espaçadas. Seria preciso uma força estimada de 360 aviões, que deveria incluir bombardeiros de mergulho, bombardeiros de grande altitude, bombardeiros-torpedeiros e caças. Por serem mais destrutivos do que as bombas e mais certeiros a curta distância, os torpedos provavelmente seriam a mais eficiente arma a ser usada contra os navios americanos. Infelizmente isso criava um problema técnico. Pearl Harbor era tão rasa que os torpedos convencionais japoneses em uso atingiriam o fundo, se lançados da maneira normal. Como a profundidade das águas na baía de Taranto era de 12,60 m, ou menos, e os ingleses conseguiram afundar navios com torpedos lançados de avião, era evidente que o problema podia ser resolvido, pois Pearl Harbor tinha 13,50 m de profundidade. Quanto às bombas a serem utilizadas, teriam que ter mais de três vezes o seu peso normal, para perfurar a blindagem dos conveses dos couraçados americanos. Por último, para que o ataque tivesse sucesso, a surpresa era essencial. Sem o elemento surpresa haveria o risco de sérias perdas para a força-tarefa, durante sua longa e vulnerável viagem de retorno ao Japão. Para se ter certeza dessa surpresa, os Estados Unidos não deveriam saber da iminência das hostilidades.

 

O próprio Onishi calculava que a “Operação Z” tinha uns 60% de chance de sucesso; outros oficiais graduados que cooperaram na fase de planejamento não eram tão otimistas. Alguns, inclusive o Almirante Fukudome, considerava o plano francamente temerário, e quando o Estado-Maior geral da Marinha fez objeções à operação, a opinião dos seus membros de baseou principalmente nos pontos de vista de Fukudome. Mais tarde, ele admitiu que se tivesse sido encarregado do planejamento da “Operação Z”, e não Onishi, teria recomendado a Yamamoto que abandonasse a idéia. A despeito da falta de entusiasmo de Fukudome e das dúvidas de Onishi, Yamamoto estava convencido de que um assalto aéreo lançado de porta-aviões contra Pearl Harbor era viável. Em fins de março o planejamento já estava em estágio bem adiantado, surgindo então o problema de saber quem seria escolhido para comandar a força-tarefa montada para o assalto. É evidente que o próprio Yamamoto teria tido grande prazer em comandá-la pessoalmente. Mas isto não era possível; como comandante-chefe da frota combinada, tinha responsabilidades demais, tornando-se necessário nomear alguém subordinado a ele. A escolha recaiu no Contra-Almirante Chuichi Nagumo, velho marinheiro, obstinado e sem imaginação, que nada sabia de aviões ou de porta-aviões, mas que era o contra-almirante que encabeçava a lista de promoção. Tinha apenas especialização em navegação, e, ao saber que seria obrigado a levar uma gigantesca frota por milhares de quilômetros através do Oceano Pacífico, até quase às portas da fortaleza inimiga, reabastecer-se no caminho, passar completamente despercebido e obedecer a um horário rigoroso, ficou estarrecido. Como o êxito da operação dependia em grande parte do elemento surpresa, sentia que se algo saísse errado o Japão perderia grande parte da Marinha Imperial - e que ele seria o culpado. O que confortava Nagumo, com sua cara de coruja, era a idéia de que talvez o plano jamais se materializasse. A guerra com os Estados Unidos ainda não era coisa certa, e o plano não havia sido ainda aprovado pelo Alto Comando Nipônico.

 

A guerra torna-se inevitável

 

A despeito das esperanças de Nagumo, o Japão continuou a marchar inexoravelmente para a guerra com os Estados Unidos. Aproveitando-se da tomada da França pelos alemães, os japoneses fizeram seu primeiro avanço para além da China, em 1940. Afirmando que importantes suprimentos estavam chegando para as forças de Chiang Kai-shek através da Indochina francesa, eles insistiram que a fronteira  indochinesa, no norte, precisava ser controlada por tropas japonesas. A pressão alemã sobre o governo francês de Vichy, combinada com as ameaças japonesas dirigidas ao governo da colônia, resultou na concordância deste com a ocupação do norte da Indochina. Então, quando as tropas ali se instalaram, mais pressão obrigou o governador a aceitar um “protetorado” de toda a Indochina, e os japoneses logo moveram-se para o sul, para tomar o resto do país. Das bases aéreas e navais na Indochina, agora à sua disposição, as tropas japonesas sentiam-se bem situadas para outros avanços, para o Sião, e o governo desse país foi convidado a imitar o exemplo da Indochina e aceitar a “proteção” de Tóquio.

 

“Se for preciso”- declarou o Ministro da Guerra Hideki Tojo, quando a decisão de ocupar a Indochina foi anunciada ao Parlamento japonês - “faremos a guerra contra a Grã-Bretanha e Estados Unidos”. Contudo,  como era óbvio que nem um nem outro estavam preparados para entrar em guerra, a fim de recuperar a Indochina para os franceses de Vichy, essas palavras foram um desafio tão provocador como poderiam parecer. Nenhum dos dois países queria a guerra. Não obstante, o movimento de poderosas forças japonesas dentro de uma área crítica e estratégica do Sudeste Asiático despertou alarma, assim como irritação, e, 48 horas depois desta façanha japonesa, os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a Holanda congelaram os bens japoneses e aplicaram embargos comerciais ao Japão. Poucos dias depois, o Presidente Roosevelt proibiu todo e qualquer embarque de petróleo para o Japão. O governo holandês exilado em Londres seguiu-lhe o exemplo, proibindo o abastecimento pelos seus campos petrolíferos das Índias Orientais Holandesas. “A guerra econômica foi declarada”, disse um jornal japonês, em artigo que salientava a vulnerabilidade do país ao embargo petrolífero. Confrontado com um bloqueio econômico, o Japão enfrentava um estrangulamento lento mas certo. A menos que se levantasse o embargo petrolífero, a necessidade de se tomar os campos petrolíferos das Índias Orientais Holandesas era uma questão de vida ou morte para a Marinha Imperial. Tendo reservas de petróleo suficientes apenas para alguns meses, a questão não era tanto de saber se eles deveriam ser tomados, mas de quanto tempo restava até que fosse preciso fazer tal coisa. Diante dessa situação, os chefes navais disseram asperamente ao primeiro-ministro que isso devia ser resolvido o mais tardar até outubro: guerra ou paz, o Japão precisa de petróleo.

 

Fuminaro Konoye, primeiro-ministro, estava na linha de sucessão ao trono japonês. Dotado de maneiras requintadas e de todas as qualidades pessoais de um nobre japonês culto, não era o homem para liderar seu inquieto país naquela conjuntura.. Foi a impetuosidade de Konoye que colocou a nação numa posição de onde não havia nenhuma alternativa para a guerra e, tendo-o colocado nessa posição, ficara assustado com os espectros que invocara. Em Washington, o embaixador japonês, o caolho Almirante Nomura, lutava arduamente com problemas diplomáticos que estavam muito além da sua experiência de marinheiro, e não conseguia êxito algum com Cordell Hull, o Secretário de Estado americano. (Embora importantes interesses holandeses e britânicos estivessem em jogo, essas negociações eram assunto inteiramente deixado à alçada americana.) Em virtude do que vinha ocorrendo, a atitude dos Estados Unidos endurecera. Exigiam não só a evacuação das forças japonesas da Indochina, mas também que se retirassem da China. Porém os generais disseram a Konoye que uma retirada de tal magnitude não poderia ser feita sem destruir o moral do Exército Imperial; ele deveria recusar a proposta com firmeza. Quaisquer concessões deveriam partir dos Estados Unidos. Contudo, Cordell Hull era igualmente inflexível. Acreditava haver chegado o momento de ser firme; o Japão poderia ter paz com honra, mas teria de ser paz sem império. Hull lembrava-se da humilhação e do fracasso da Grã-Bretanha em Munique e decidira que os Estados Unidos não se empenhariam numa política de pacificação com o Japão. Estava também influenciado pela opinião predominante no país, de que a força do Japão se esgotara na China. (Isso era racionalização de desejo, alimentada pelos relatórios exagerados, enviados pelo governo de Chiang Kai-shek, sobre a escala da resistência e as baixas japonesas. Logo se veria que a verdade era que, em 1941, o Japão apenas se aproximava do seu pleno potencial militar e que somente parte dele fora comprometida na China.) Finalmente, quando os peritos americanos lhe informaram que as sanções econômicas dobrariam os japoneses, Cordell Hull decidiu manter-se firme; as forças americanas no Extremo oriente vinham sendo reforçadas, e ele achava que o fator tempo estava do lado dos Estados Unidos.

 

Com as negociações diplomáticas, em Washington, num impasse e com o ultimato dos chefes da Marinha pendendo sobre sua cabeça como uma espada de Dâmocles, Konoye tentou uma aproximação direta com os Estados Unidos. Por intermédio do embaixador americano em Tóquio, Joseph Grew, sugeriu uma conferência de cúpula no Havaí, entre ele próprio e o Presidente Roosevelt. Quando anunciada no Parlamento japonês, a proposta foi desacreditada, alegando-se que tal reunião desagradaria à Alemanha, aliada do Japão no Eixo - embora a junta militar que fazia objeções à visita não a vetasse realmente. Tampouco foi ela bem recebida nos Estados Unidos e quaisquer esperanças que Konoye possa ter tido para um confronto de alto nível extinguiram-se quando os Estados Unidos recusaram a proposta. A resposta americana, dada a 3 de setembro, estipulava que, antes de mais nada, era preciso que se estabelecesse substancial concordância entre os dois governos.

 

Pressionado pelo Alto Comando japonês para que tomasse uma decisão antes de outubro, e angustiado pela nota americana, Konoye procurou ouvir o Imperador. O primeiro-ministro compreendia que tinha pouca esperança de convencer os militares a abrir mão dos seus planos de ampliar as operações até o Pacífico Sul, mas esperava que Hirohito pudesse demovê-los disso. A 5 de setembro, na véspera da convocação de uma conferência imperial, Konoye teve uma audiência privada com o Imperador. Quando Hirohito foi informado da provável tendência dos acontecimentos ficou horrorizado. “Você quer dizer-me” - indagou incrédulo - “que os preparativos para a guerra estão tendo prioridade sobre as negociações diplomáticas?” Konoye admitiu que sim, e disse esperar que Sua Majestade interviesse. Sem mais cerimônias, o General Sugiyama e o Almirante Nagano, os chefes de estado-maior do exército e da marinha, foram convocados à imperial presença para enfrentar um interrogatório perspicaz.

 

“Quanto tempo demoraria para concluir uma campanha bem sucedida na região sul?”- perguntou o Imperador.

 

Sugiyama replicou que a estimativa era de três meses. O Imperador retrucou friamente que se lembrava de que Sugiyama lhe garantira que a guerra com a China seria breve; entretanto, passados quatro anos, a luta prosseguia acirrada. “O Chefe do Estado Maior” - escreveu Konoye, mais tarde - “curvou a cabeça, incapaz de responder”. Nesse ponto, o Almirante Nagano veio em socorro do colega.

 

“A situação era crítica”, disse ele ao Imperador. Admitiu que, como Sugiyama, era favorável à negociação com os Estados Unidos, mas era preciso fazer algo depressa. Se as negociações falhassem, seria seu dever cuidar para que o Japão tivesse preparado para o pior.

 

“Você que dizer”- perguntou o Imperador, procurando uma garantia franca, “que o Alto Comando está, como antes, dando precedência à diplomacia?” Tanto Sugiyama como Nagano asseguraram à Sua Majestade que assim era.

 

Na conferência Imperial, no dia seguinte, Hirohito permaneceu calado e aparentemente impassível, enquanto Konoye lia o plano de política nacional proposto pelo seu gabinete. Tradicionalmente, a “divina radiação” do Imperador o impedia de tomar parte ativa nos trabalhos, cabendo ao Barão Yoshimich Hara, Presidente do Conselho Privado, falar por Hirohito. “temos a impressão”, disse ele, na conferência, “que todas as esperanças de paz foram agora abandonadas e que ora se dá mais ênfase à guerra do que à diplomacia, no caminho futuro do Japão...” O Ministro da Marinha Imperial o velho Almirante Oikawa, apressou-se em tranqüilizar o Barão Hara, afirmando que a diplomacia ainda tinha prioridade sobre a guerra. Mas Sugiyama e Nagano nada disseram. Houve breve silêncio, e então, para espanto dos presentes, o próprio Imperador ergueu-se para falar à conferência. “Lamentamos profundamente”, disse ele, “que o Alto Comando não fosse capaz de esclarecer a questão na nossa presença”. Olhando um pequeno pedaço de papel que tirara do bolso, prosseguiu: “Nosso antepassado Meiji Tenno, certa vez escreveu um poema do qual lhes lerei agora um trecho: “Já que somos todos irmãos neste mundo, por que as ondas e os ventos estão tão inquietos hoje?” temos lido esse poema repetidamente e nos decidimos a fazer com que a idéia de paz de Meiji predomine no mundo”. Sua audiência estava visivelmente abalada - não pela significação daquelas palavras do Imperador, mas pelo fato de ele considerar a situação séria demais, senão, não se justificaria sua decisão de dizer alguma coisa - e o silêncio perdurou por alguns minutos, depois de Hirohito haver-se sentado novamente. Por fim, o Almirante Nagano ergueu-se, para assegurar ao Imperador que os membros do Alto Comando permaneciam leais ao trono; que estavam perturbados pelo receio de incorrer no desagrado do Imperador e que reconheciam a importância da diplomacia. Disse que ele e seus colegas só pensavam no uso da força das armas em último recurso. Depois disso a reunião foi suspensa, “numa atmosfera de tensão sem precedentes”, segundo Konoye.

 

A despeito da sua intervenção inédita, havia os que preferiam acreditar que o Imperador aceitara o “plano nacional” - ainda que com relutância. Ele fora anunciado e Hirohito não vetara formalmente o plano. Se poderia ter feito isso, é um questão de opinião. Ele praticamente fora até onde sua autoridade sutil e complexa o permitia, sem prejudicar sua posição de “Filho do Céu”. Além disso, até aquele momento o Imperador nada sabia do projetado ataque a Pearl Harbor, porque a despeito da sua aparente lealdade ao trono, tanto Sugiyama como Nagano o estavam iludindo. Em meados de agosto, os estados-maiores militares estavam preparando os detalhes finais para a guerra no Sul e as forças navais - que já haviam sido designadas para participar nessas operações - adestravam-se no apoio a operações de desembarque de assalto.

 

Os jogos navais anuais, jogados com modelos de navios no colégio naval de Tóquio, normalmente realizavam-se em novembro ou dezembro. Mas, devido à situação crítica, um aviso - enviado sob a autoridade conjunta do Chefe do Estado- Maior da Marinha e do Comandante-Chefe da Frota Combinada - antecipara os jogos de 1941 para meados de setembro. Três almirantes, sete vice-almirantes, seis contra-almirante, sete capitães e vinte comandantes se reuniram pontualmente em Tóquio, e os jogos começaram três dias antes da audiência de Nagano com o Imperador. Nenhum deles sabia que os jogos incluiriam o plano de Yamamoto para um ataque de surpresa a Pearl Harbor até que ele apresentou seu plano para a “Operação Z”, no dia 5 de setembro. Depois dos exercícios mais convencionais de operações de apoio, montadas em colaboração com o exército, ele esperava uma recepção controvertida e suas expectativas foram plenamente realizadas.

 

Mesmo nos debates preliminares, nenhum deles ficou muito entusiasmado com o plano. Praticamente todos eram concordes que ele era audacioso e alguns disseram mesmo que poderia ser viável. Mas a preocupação maior era saber quantos porta-aviões poderiam perder, e um laço de dados (que é a maneira de injetar os inexplicáveis azares em jogos de guerra) mostrou dois porta-aviões afundados. Praticamente ninguém fora do círculo íntimo de Yamamoto, e certamente nenhum dos oficiais graduados, mostrou-se favorável à empreitada. Não obstante, concordou-se em passar o plano como um jogo e a platéia preparou-se para debater a abordagem à Oahu. Para isso, o infatigável Genda elaborara três caminhos possíveis: uma rota sul, através das Ilhas Marshall; uma rota central, que passava ao sul de Midway, e uma rota norte - sendo que esta última afastava praticamente a probabilidade de encontrar outros navios. Como a maioria dos navios japoneses tinha alcances de cruzeiros relativamente curtos, teriam de ser reabastecidos a caminho do Havaí. As tempestades do Pacífico Norte, predominantes no outono e inverno, tornariam isso difícil, especialmente para os vasos de escolta menores, como os destróieres, que teriam de ser reabastecidos duas vezes. Por esta razão, o Almirante Nagumo expressou sua preferência pela rota sul. “O tempo estará contra nós”, disse ele. “Se você pensa assim”, observou Genda, “também os almirantes americanos terão a mesma idéia”. Nagumo concordou que o exercício deveria ser baseado numa aproximação pelo norte e, nesse caso, tomou-se a passagem norte, entre as Aleutas e Midway.

 

Para o exercício propriamente dito, os participantes foram divididos em duas equipes: uma azul, representando o Japão, e uma vermelha, representando os Estados Unidos. Na primeira tentativa julgou-se que o ataque fora um fracasso relativo. Tendo os americanos agido segundo a maneira prevista pelo Serviço Japonês de Inteligência, a equipe vermelha descobriu as forças de Nagumo na manhã do ataque e seus aviões foram interceptados por caças dos Estados Unidos. O árbitro decidiu que metade dos aviões de Nagumo foi derrubada, enquanto que dois porta-aviões foram afundados e outros navios ficaram seriamente danificados num contra-ataque que se seguiu. Não era provável que tal resultado fortalecesse os nervos do apreensivo Nagumo. A segunda passada foi mais bem sucedida. Aproximando-se diretamente pelo norte, num horário cuidadosamente escolhido, que dava à frota a proteção da escuridão, quando chegou aos limites operacionais dos aviões de reconhecimento americano, a força de Nagumo não foi descoberta e o ataque foi uma surpresa. Desta vez, os árbitros decidiram que as perdas americanas foram sérias e os japoneses escaparam quase ilesos.

 

Esse resultado não significava que a oposição à “Operação Z” diminuíra. Os almirantes continuavam convencidos de que a proposta era arriscada e provavelmente levaria aos limites dos recursos navais do Japão. O Estado-Maior Geral da Marinha já completara um plano que empregava toda a frota na invasão ao sul e era unânime e violentamente contrário ao empreendimento de Yamamoto. O Chefe do Estado-Maior, Almirante Nagano, tinha dúvidas ainda maiores. “Por que atiçar os Estados Unidos?” - argumentou ele.

 

Como Yamamoto ele também passara algum tempo naquele país, e respeitava a Frota do Pacífico e o potencial industrial americano.

 

“Concentremo-nos em tomar Java e em garantir nossos suprimentos de petróleo”, implorou ele. “Quando a frota americana do Pacífico chegar às nossas águas territoriais, então sim, nós a aniquilaremos”.

 

Como Yamamoto compartilhava plenamente do respeito pela marinha americana, ele estava convencido de que a única oportunidade do Japão era esmagá-la imediatamente. Se o Japão esperasse que os americanos reunissem suas forças, haveria toda a possibilidade de que destruíssem a frota japonesa primeiro. O Japão tinha porta-aviões suficientes para atacar Pearl Harbor ao mesmo tempo que invadia Java, argumentava ele. Por que não preparar as duas operações antes que a Frota do Pacífico pudesse atacar? Se a frota americana do Pacífico sofresse um golpe mortal, ela não poderia recuperar antes que o Japão tivesse ocupado as Filipinas, a Malaia e as Índias Orientais.

 

O Estado-Maior Geral da Marinha insistia em que o plano era arriscado demais. Sua única chance de êxito dependia de se pegar a frota americana de surpresa. Se não houvesse surpresa, o ataque seria um grande desastre. Mas a objeção  subjacente era impressão de que a “Operação Z” contrariava o caráter estabelecido e tradicional da guerra naval. Os almirantes japoneses, assim como os americanos, britânicos ou alemães, estavam impregnados da formidável potência do couraçado. Seu conceito de guerra era o duelo com grandes navios de linha, e por essa exata razão a frota japonesa fora desenvolvida em torno dos dez couraçados de antes da guerra, que o colocavam numa proporção de 3 para 5 em potência de fogo com os Estados Unidos. Tão grande era a fé no poderio desses leviatãs e na invencibilidade de uma armada erguida em torno deles, que o Yamato e o Musashi estavam em construção, esperando-se que entrassem na ativa em inícios de 1942. Durante mais de 20 anos, o objetivo secreto da marinha japonesa fora definido como o aniquilamento da esquadra dos Estados Unidos e, repentinamente, os meios e a área para a realização dessa meta foram reconhecidos como uma batalha entre couraçados nas vizinhanças das Ilhas Marshall. Aqueles cuja confiança se baseava na doutrina do poderio insubmergível e estratégico dos couraçados desconfiavam da mudança para um ataque aéreo ao Havaí; também muitos dos que se opunham à “Operação Z” o faziam por estarem sinceramente convencidos de que era errado depender de uma arma, relativamente nova, que só tinha o bem sucedido ataque britânico em Taranto a recomendá-la.

 

Nagumo, o relutante comandante nomeado, apresentou outra objeção. Ele acreditava que os porta-aviões do Japão deveriam ser usados para apoiar a invasão das regiões petrolíferas vitais. Ao seu argumento acrescentou a observação profética de que mesmo o maior dos porta-aviões poderia ser incapacitado por algumas bombas. Suas palavras seriam lembradas nove meses depois, em Midway. Todavia, nem todos eram contrários ao plano. O contra-almirante Tamon Yamaguchi, um dos almirantes do setor aéreo, apoiava-o entusiasticamente. Se a frota do Pacífico permanecesse intacta, argumentava, como poderia o Japão explorar seu sucesso no sul? Oficiais mais jovens, excitados pela temeridade do plano, estavam francamente entusiasmados e queriam ampliar seu campo de ação. Desejavam que o ataque fosse seguido de um desembarque para tomar Pearl Harbor e ocupar Oahu. Isso resultou em outras discussões com o Estado-Maior Geral da Marinha, que afirmava que todos os transportes do Japão seriam necessários para as operações contra as Índias Orientais Holandesas e a Malaia. Não se podia abrir mão de nenhum deles para o que seria uma operação duplamente arriscada. Yamamoto ficou do lado do Estado-Maior  nesse argumento. Como seria impossível ter as barcaças de desembarques até que se completassem as operações no sul, e como isto levaria talvez um mês, seria insensato tentar um desembarque em Oahu. Já então, os americanos teriam tido tempo para se recuperar do ataque aéreo a Pearl Harbor e a lentidão de um comboio anfíbio tornaria os primeiros desembarques extremamente vulneráveis a ataques aéreos e marítimos. Ademais, mesmo que os desembarques tivessem êxito, a manutenção de uma força em Oahu representaria um problema insuperável de abastecimento.

 

Durante todo o mês de setembro, os oficiais do Estado-Maior Geral da Marinha e do Quartel-General da Frota Combinada de Yamamoto se reuniram numa série de intermináveis discussões sobre os cometimentos operacionais para a guerra iminente. A “Operação Z” foi arquivada como algo com o qual ninguém podia concordar. Mesmo o Almirante Onishi voltara atrás, depois dos jogos de guerra, e tanto ele como o timorato Nagumo aconselharam sinceramente a Yamamoto que abandonasse a idéia. Yamamoto, que um sumário biográfico existente nos arquivos do Serviço americano de Inteligência descrevia como “excepcionalmente capaz, convincente... e um vencedor habitual no pôquer”, recusou o conselho dos seus colegas com apaixonada veemência. Por mais absurda que a “Operação Z” pudesse parecer, a confiança fanática de Yamamoto na validade dos seus argumentos era tal que, se tivesse de haver guerra com os Estados Unidos, ele estava preparado para apostar sua reputação e mesmo sua carreira, levando-a a cabo. Talvez não estivesse tão confiante, se conhecesse a eficiência da contra-inteligência americana.

 

Durante setembro, o estudo da equipe dos jogos de guerra, contendo a possibilidade do afundamento de dois porta-aviões, foi publicado e a controvérsia sobre os méritos de um ataque aéreo a Pearl Harbor penetrou até os oficiais que serviam na Frota Combinada. A 11 de outubro, para acabar com todos os boatos e altercações, Yamamoto convocou seus oficiais graduados para uma conferência na nave capitânia. Depois de um jantar cordial, pediu-lhes que apresentassem, extra-oficialmente, suas objeções à “Operação Z”. Encorajados por essa abordagem pouco ortodoxa, os que tinham objeções falaram das suas dúvidas. Grande parte da Marinha Imperial estaria comprometida numa operação perigosa; se fracassasse, a guerra estaria perdida antes mesmo de iniciada. Era preciso ficar atento à Rússia Soviética. Como a situação política deteriorara nos últimos dois meses, era de esperar que os americanos se estivessem preparando para enfrentar um ataque de surpresa. E se eles tivessem admitido a possibilidade da “Operação Z”, os japoneses talvez estivessem caminhando para a armadilha. O mar agitado naquela época do ano tornaria impossível o reabastecimento en route. Assim, os argumentos prosseguiram até que Yamamoto se ergueu e a conferência caiu em silêncio. Lenta e sardonicamente, mas com inequívoca determinação, o comandante-chefe anunciou que ouvira tudo com muito interesse. Alguns dos pontos apresentados eram importantes e ele os anotaria. Mas tendo estudado a situação estratégica durante longo período, chegara à conclusão de que a “Operação Z” era essencial para a grande estratégia do Japão. Por conseguinte, queria deixar bem claro que, enquanto fosse comandante-chefe da Frota Combinada, a operação contra Pearl Harbor seria realizada.

 

Depois disso não houve mais discussão - pelo menos  na frota. Todos os oficiais superiores que serviam sob o comando de Yamamoto sabiam agora que, se os diplomatas não conseguissem um acordo com os Estados Unidos, e se Yamamoto pudesse fazer o que queria, a Marinha Imperial estaria comprometida com um ataque a Pearl Harbor. Mas a hierarquia naval, no Estado-Maior Geral da Marinha, ainda se opunha à “Operação Z”, e quando, em fins de outubro, esse organismo lhe enviou cinco objeções detalhadas ao seu plano, parecia que Yamamoto não conseguiria obter sua aprovação. Todavia, não seria por nada que Yamamoto era considerado um bom jogador de pôquer: um emissário, o Capitão Kameto Kuroshima, foi enviado a Tóquio com uma carta e com firmes instruções de não voltar sem obter a aprovação para a “Operação Z”. Na carta, Yamamoto escreveu: “A presença da frota americana no Havaí é uma adaga apontada para nossas gargantas. Se a guerra for declarada, a amplitude e profundidade das nossas operações no sul logo ficarão expostas a séria ameaça contra seus flancos.

 

“A operação no Havaí é absolutamente indispensável. A menos que seja realizada, o Almirante Yamamoto não estará muito confiante em que possa desincumbir-se das responsabilidades que lhe foram atribuídas. As numerosas dificuldades desta operação não a tornam impossível. As condições atmosféricas são o que mais nos preocupa, mas como há sete dias, num mês, em que se pode reabastecer no mar, a possibilidade de êxito não é de modo algum insignificante. Se tivermos boa fortuna, podemos estar certos do sucesso.”

 

“Se a operação no Havaí por acaso fracassar, isso significará simplesmente que a fortuna não está do nosso lado. Esse seria também o momento de se sustar definitivamente todas as operações...” A carta terminava dizendo: “Se este plano falhar, isso representará a derrota na guerra”. Quando Kuroshima a entregou ao Capitão Tomioka, chefe da Seção de Operações, este ficou visivelmente perturbado. Yamamoto jamais se teria expressado tão energicamente se não tivesse total confiança no sucesso. Mas Tomioka não era dos que se apavoram e as cinco objeções padronizadas à “Operação Z” foram reiteradas: O sucesso dependia unicamente da surpresa. Era uma operação de grande escala, empregando cerca de 60 navios. Esses navios teriam de partir um mês antes do início da guerra e era provável que atraíssem atenção. Era de se acreditar que as redes de Inteligência da Grã-Bretanha, dos Estados Unidos e da Rússia tivessem sido ampliadas. O Estado-Maior Geral da Marinha duvidava que se pudesse manter o segredo.

 

Admitiam que os americanos não partiriam diretamente rumo ao Japão, no começo da guerra; acreditavam que primeiramente eles estabeleceriam bases avançadas nas Ilhas Marshall e, então, tentariam a estratégia de tomar ilha por ilha. Isto queria dizer que a “Operação Z” não era vital, a ponto de ser executada independente do risco. Se não fosse levada a cabo, os japoneses teriam tempo de concentrar todas as suas forças numa batalha decisiva, para a qual vinham treinando há muito tempo. Seria mais sensato procurar essa batalha em águas familiares.

 

Quase todos os navios da Marinha que participassem da operação contra o Havaí teriam de ser reabastecidos no mar, os destróieres pelo menos duas vezes. As estatísticas meteorológicas mostravam que somente sete dias do mês apresentavam condições adequadas para o reabastecimento no mar, no Pacífico Norte. Se isso se mostrasse impossível, o ataque ao Havaí fracassaria e todos os navios envolvidos na operação teriam sido inutilmente desviados de outras operações planejadas. Uma dificuldade poderia levar à outra. Se o reabastecimento no mar fracassasse, seria preciso usar o rádio, perdendo-se o segredo.

 

A Seção de Inteligência Radiofônica do Estado-Maior Geral da Marinha sabia que a patrulha aérea diária dos americanos fora ampliada para 960 km de Oahu, o que queria dizer que a força-tarefa provavelmente seria descoberta. Como os porta-aviões tinham de se aproximar até 360 km de Pearl Harbor antes de desfechar seus ataques, havia considerável risco de um contra-ataque.

 

Qualquer indicação de que esse plano estava em andamento destruiria as negociações diplomáticas que se realizavam entre Estados Unidos e Japão.

 

Kuroshima refutava as objeções com os melhores argumentos de Yamamoto, mas, vendo que não estava conseguindo nada, pediu permissão para telefonar a Yamamoto. Ao voltar do telefone, disse ele: “O comandante-chefe, insiste em saber se o plano está aceito ou não”. Quando recebeu uma resposta neutra, Kuroshima prosseguiu energicamente: “Recebi ordens de lhe dizer que se o plano do Almirante Yamamnoto não for adotado, ele não poderá continuar como Comandante-Chefe da Frota Combinada; que ele se demitirá - e, com ele, todo o seu estado-maior”.

 

Esta era uma ameaça impressionante. O perturbado Tomioka sentia-se incapaz de enfrentá-la. Pedir a Kuroshima que esperasse enquanto levava a questão às autoridades superiores. Foi um momento de emoção - a hora das cartas na mesa. Yamamoto jogara a própria carreira na decisão, e só o Chefe do Estado-Maior poderia responder. Kuroshima esperou tenso na ante-sala do escritório de Nagano enquanto se tomava a decisão. Então Nagano apareceu e, abraçando Kuroshima disse: “Aprovarei o plano”. Era uma capitulação relutante, mas Yamamoto vencera; Nagano não estava preparado para ver o Japão entrar em guerra sem Yamamoto ao leme da Frota Combinada.

 

O dia era 3 de novembro de 1941; restavam 35 dias para se desfechar o ataque.

 

Atividades de espionagem em Oahu

 

O interesse japonês por Pearl Harbor remontava a 1898, quando os Estados Unidos anexaram as Ilhas Havaí. Durante algum tempo o Havaí teve pouca importância, do ponto de vista militar, mas como a vinda dos americanos fizera com que os Estados Unidos ficassem 4.800 km mais próximos da sua pátria, os japoneses passaram a olhar com desconfiança todas as atividades militares na região. Seu interesse tornou-se ainda maior, quando em Pearl Harbor se estabeleceu uma base naval. Por volta de 1932, ano em que o Presidente Hoover decidiu que boa parte da esquadra dos Estados Unidos ficasse em águas havaianas, por causa dos acontecimentos na Manchúria, já havia rede de espionagem em Honolulu. Como a população do Havaí incluía grande número de imigrantes japoneses, que para lá foram à procura de trabalho, a tarefa de enviar e recrutar agentes ali não foi muito difícil. Mas as autoridades americanas sabiam o que estava acontecendo, e, a partir de 1930, começaram a identificar os suspeitos entre os muitos japoneses ali residentes.

 

As mensagens captadas por estações radiofônicas japonesas secretas que monitoravam as radiocomunicações das frotas americanas do Pacífico e do Atlântico, juntamente com informações fornecidas por submarinos mandados para observar à profundidade de periscópio a Frota do Pacífico em suas áreas de treinamento, também contribuíram para elaborar o quadro que o Serviço japonês de Inteligência estava formando da atividade americana no Havaí e adjacências. O mesmo acontecia com informações fornecidas pelos adidos navais em Washington, por tripulações de navios que faziam escala em Honolulu, por representantes de firmas comerciais nas ilhas e pelos relatórios dos cônsules japoneses. Estes examinavam os jornais e ouviam as transmissões radiofônicas locais, colecionando diligentemente notícias que interessassem ao Serviço de Inteligência para transmitir a Tóquio. Nada havia de incomum ou inaceitável nisso. A maioria dos consulados e embaixadas está empenhada em alguma atividade colateral de Inteligência, enviando para seu país relatórios periódicos sobre o que descobrem. Os consulados americanos no Japão e no Sudeste Asiático faziam exatamente a mesma coisa que seus equivalentes japoneses em Honolulu e na Costa Oeste dos Estados Unidos. Aliás, as informações recebidas dos cônsules americanos em Saigon, Hainan, Cantão e Tsingtao foram de considerável valor, para descobrir a marcha do Japão para a guerra com o Ocidente.

 

Essa espionagem “legal” às vezes dava informações vitais; exemplo excelente disso é o relatório que chegou a Tóquio em 1940, dizendo que a frota  americana havia abandonado seu ancoradouro ao largo de Lahaisin, na ilha de Maui. Essa valiosa informação estratégica foi fruto de descoberta que fez um dos agentes consulares do Japão em Honolulu, um sacerdote budista. Observara ele, durante três semanas, que os navios não estavam voltando aos seus ancoradouros normais. Ele não teve de envolver-se em nenhuma atividade suspeita para obter essa informação: tudo o que precisou fazer foi observar. Mas informações assim importantes raramente se tornam disponíveis por meios tão simples, e como a função normal dos cônsules e dos funcionários consulares não é a espionagem, tem-se que tomar muito cuidado para não comprometê-los, envolvendo-os em qualquer coisa ilegal. E, em qualquer país, a espionagem, no sentido aceito da palavra, é sempre considerada ilegal. Um círculo ilegal de espionagem pode ter ligações com o Serviço de Inteligência oficialmente conhecido, já que é preciso haver um canal pelo qual os agentes ilegais possam passar as informações conseguidas. Mas muitas vezes não existe esse contato, sendo mais freqüente que os funcionários que dirigem o sistema legal não estejam cientes de qualquer rede ilegal. Tampouco se desconhece que freqüentemente se estabelecem mais de uma rede de espionagem, cada qual trabalhando independentemente, e ignorando a existência de outra.

 

Em 1941, vários agentes secretos japoneses trabalhavam em Pearl Harbor e arredores. Mas a rede de espionagem do Japão não era nem tão eficiente nem tão grande como muita gente nos Estados Unidos foi levada a crer. Na caça aos suspeitos de atividades de espionagem realizada depois do ataque a Pearl Harbor, verificou-se que apenas umas doze pessoas haviam sido mandadas para o Havaí com aquela finalidade. Uma delas, que se passava por merceeiro, foi vista a falar com autoridade com oficiais superiores de belonaves japonesas em visita de cortesia a Honolulu, e, a julgar pela atitude respeitosa dos oficiais, ficou claro que era muito mais do que um simples comerciante. Outro era proprietário do Café Veneza, cabaré muito popular entre os marinheiros americanos devido às suas “dançarinas”. Quando ele foi revistado depois do ataque a Pearl Harbor, descobriu-se que as paredes do seu escritório particular estavam cobertas de fotografias autografadas de oficiais japoneses em uniforme. Entre elas estava uma do suposto “cabaretier”, em grande uniforme de oficial da Marinha Imperial. Um outro agente, que trabalhava como químico numa cervejaria em Honolulu e que era alcoólatra, costumava gabar-se em sua embriaguês, para os que quisessem ouvir, que não era o que aparentava e sim um oficial da marinha japonesa em missão secreta.

 

Operando sozinhos e com verbas para comprar segredos, se necessário, tais agentes eram obrigados a descobrir informações que não estivessem facilmente disponíveis para o sistema “legal” de espionagem. Mas, como eram poucos os segredos, no Havaí, cuja descoberta precisasse dos esforços de espiões treinados, sua contribuição para o Serviço japonês de Inteligência foi infinitesimal. Era possível ver claramente o que se passava em Pearl Harbor do Aiea Heights, ou de qualquer avião particular que se pudesse alugar no aeroporto John Rodgers, que ficava nas proximidades. Ademais, por cortesia da Marinha dos Estados Unidos, em geral havia várias visitas grátis à baía para quem quisesse, e um velho japonês teve permissão de montar uma barraca na entrada do Estaleiro Naval. Era possível ficar-se ali, e desfrutar de excelente visão da baía interna, pelo preço de um refrigerante. Assim, pode-se supor com segurança que foi pelas observações francas e por informações impressas, e não por relatórios de agentes secretos, que o Serviço de Inteligência da Marinha do Japão selecionou e coletou o material do qual se compilou o arquivo de Yamamoto sobre Pearl Harbor. Depois disso, um engenhoso estudo estatístico das observações revelou que os movimentos dos navios americanos obedeciam a um padrão; também idêntico estudo mostrara que as patrulhas aéreas se comportavam de um modo igualmente previsível - nunca mais de três de cada vez, cobrindo um quadrante que se estendia, no máximo, por 1.300 km ao norte e ao sul de Oahu. Fora dessa área havia um setor desguarnecido, pelo qual os aviões japoneses poderiam aproximar-se de Honolulu sem serem interceptados.

 

Outro agente secreto japonês, não incluído no sistema “legal” ou na rede de espionagem e que merece ser citado, era Otto Kuhn, um alemão recrutado em Tóquio em 1936. Kuhn afirmava ter sido oficial da marinha do Kaiser durante a Primeira Guerra Mundial. Isso pode ter sido verdade, mas na realidade ele era pouco mais do que um “garimpeiro de praia” à procura de vida fácil e lucrativa e pronto a aproveitar a chance de ir para o Havaí, onde viveria mais ou menos ociosamente, às custas dos japoneses. Tendo convencido a organização japonesa de Inteligência de que poderia ser útil, puseram verbas à sua disposição através de um banco alemão em Berlim. Esse dinheiro permitiu-lhe passar por um aposentado de posses; ele, sua mulher, Elfriede, que recebera treinamento superficial nos deveres de espionagem pelos alemães, e seus filhos, um rapaz e uma moça, instalaram-se numa casa confortável nos arredores de Honolulu. Nos três anos seguintes, Kauhn e Elfriede tentaram separadamente vários empreendimentos, mas nenhum deles teve sucesso. Somente graças às verbas japonesas à sua disposição é que puderam continuar vivendo com elegância e conforto. Até então não tivera de fazer nenhum trabalho para seus benfeitores, pois fora “plantado” em Honolulu para aguardar uma “emergência”.

 

Durante o outono de 1939, Otto Kuhn recebeu a visita de certo Capitão Ogawa, e seu papel de agente “secreto” foi confirmado. Kanji Ogawa era o “mestre-espião” da Seção 5 do terceiro Departamento Japonês (o departamento japonês de Inteligência da Marinha especializado em tarefas relativas aos Estados Unidos) e nessa época estava fazendo uma viagem de inspeção à sua organização, verificando sua eficiência e seu estado de prontidão. Mal entrado na casa dos quarenta, Ogawa era um dos poucos oficiais da Marinha Imperial cuja carreira fora dedicada exclusivamente aos deveres do Serviço de Inteligência. Capaz e ativo, previra a necessidade de informações exatas sobre Pearl Harbor. Kuhn parece tê-lo impressionado, e diz-se que Ogawa deixou o Havaí confiante de que o alemão prestaria bons serviços quando fosse “ativado”. Mas o mestre-espião ficou menos satisfeito com o que viu do homem responsável pela Inteligência “legal” em Honolulu: Gunji Kiichi, o Cônsul-Geral, era um velho diplomata com pronunciada aversão por espiões e espionagem - como a escassez de relatórios sobre questões de interesse para o Serviço japonês de Inteligência já mostrara. Escusando-se sob a alegação de que o trabalho de coleta de informações era de importância secundária, Kiichi o transferiu para Otagiro Okuda, seu vice-cônsul. Este tratou seriamente a sua responsabilidade, mas estava por demais preocupado com os trabalhos rotineiros para dedicar-lhe o tempo que Ogawa achava necessário. Entre o pessoal do consulado havia um oficial profissional do Serviço de Inteligência, mas como ele devia estar ali especificamente para observar as atividades dos refugiados coreanos no Havaí, o trabalho geral de Inteligência era feito por um dos secretários do consulado.

 

Ogawa achava que os melhoramentos no sistema teriam de ser precedidos pela remoção de Kiichi e, em outubro de 1940, o velho cônsul-geral foi chamado de volta a Tóquio. Na ausência de substituto, Okuda, o vice-consul , foi promovido a cônsul-geral em exercício, e assim que ele se livrou da influência inibidora de Kiichi, o campo de ação das atividades legais de espionagem do consulado se ampliou. Aumentou-se a vigilância em Pearl Harbor, recrutando-se dois dos nipo-americanos locais para observar mais atentamente as atividades da Frota do Pacífico. Um deles era um jovem chamado Richard Kotoshirodo, apelidado de “Masayuki”, que já era empregado como escriturário no consulado. Ele visitava semanalmente os pontos de observação sobre Pearl Harbor para ver os navios que estavam fundeados e onde. O outro recruta era um mal-vestido motorista de táxi, de meia idade, Yoshie Mikami. Conhecido pelos colegas motoristas como “Johnny, o Jap”, Mikami não tivera qualquer educação formal, mas, de um modo ou de outro, adquirira profundo conhecimento de assuntos navais, e como a maioria dos seus passageiros era de marinheiros, americanos que ele pegava no portão principal do Estaleiro Naval, esse conhecimento era inestimável. Levando-os para lugares de lazer no centro da cidade, ele arrancava-lhes habitualmente informações sobre questões que iam desde a espessura da blindagem dos seus navios ao calibre dos canhões. No devido tempo esses dados técnicos eram transmitidos ao consulado-geral, para serem incluídos nos relatórios que Okuda enviava para Tóquio.

 

Este, portanto, era o estado da espionagem japonesa no Havaí, quando Yamamoto decidiu que tinha de saber mais a respeito da frota americana baseada em Pearl Harbor e dos dispositivos de defesa em Oahu. A 5 de fevereiro, Ogawa foi chamado para uma conferência a bordo da nave capitânia Nagato, onde lhe deram as linhas gerais da “Operação Z”. Impressionado pela importância da operação projetada, Ogawa viu claramente que teria que aumentar a cobertura de espionagem do Havaí. Mas como? Ele dificilmente poderia suplementar seus agentes secretos colocando outros no tempo disponível. Por outro lado, quaisquer mudanças radicais no número e no pessoal do consulado-geral em Honolulu poderiam muito bem chamar a atenção e levar os americanos a apertar as medidas de segurança. Um caminho óbvio residia em ativar o “secreto” Kuhn. O alemão estava em dificuldades financeiras e, na esperança de receber mais dinheiro, recentemente procurara Okuda no consulado, sugerindo que devia “aparecer” e revigorar a cobertura de informações do Havaí. Okuda, que até então nada sabia da missão latente de Kuhn, pedira a Ogawa que lhe confirmasse o papel do alemão e expressou a opinião de que ele não era digno de confiança. Nas circunstâncias, Ogawa chegara à conclusão de que Kuhn não servia para o trabalho que tinha em mira.

 

Finalmente, decidiu-se que um oficial treinado da Inteligência, que falasse inglês e fosse especializado no reconhecimento de belonaves, devia ser mandado de Tóquio para o Havaí. O escolhido foi Takeo Yoshikawa, de 28 anos de idade, filho de um policial e que saíra da ativa na Marinha Imperial em 1936 - sob o pretexto de estar tuberculoso. (depois da guerra Ogawa disse que esse arranjo era comum, para o recrutamento de diplomatas “especialistas”. Oficiais da Marinha escolhidos eram reformados por motivos disciplinares ou de saúde. Então, depois de um período de ócio para encorajar um estado de espírito receptivo, eles recebiam cargos no Serviço Diplomático japonês e eram enviados para lugares onde seus conhecimentos navais fossem necessários ao Serviço de Inteligência.) Como civil, ele trabalhara na sede do Serviço de Inteligência da Marinha e, enquanto traçava os movimentos de navios da Marinha Real Britânica em águas asiáticas, leu tudo o que podia sobre belonaves, como o Jane’s Fighting Ships e o US Naval Institute Proceedings. Então, em 1940, depois de submeter-se com êxito a um exame de língua inglesa, Yoshikawa foi oficialmente aceito no Serviço Diplomático japonês como diplomata. Este o seu disfarce, e sua competência no reconhecimento de navios fez que nele recaísse a escolha de Ogawa para o trabalho no Havaí.

 

Ao mesmo tempo em que se decidia mandar Yoshikawa para Honolulu, Ogawa pedia ao Ministro do exterior que nomeasse um novo cônsul-geral para substituir Okuda e preencher a vaga criada com a retirada de Kiichi. Estipulou-se que o escolhido teria de ser um homem sob cuja supervisão benevolente o consulado de Honolulu pudesse transformar-se no ponto principal da espionagem no Havaí. Depois da devida deliberação, o Ministro decidiu que Nagao Kita, cônsul-geral no Cantão, seria o mais adequado para o posto.

 

Nascido em 1895, Kita era diplomata de carreira e passara a maior parte do seu tempo em postos sensíveis que mereciam interesse especial do serviço de Inteligência da Marinha: Amoy, Xangai, Cantão. Viúvo, apreciador de mulheres e sake, ele não era homem de brincadeiras, como se pode julgar pelo fato de ter adquirido o apelido de “o patrão” durante o tempo em que esteve como cônsul-geral em Xangai. Ele chegou a 14 de março de 1951 para tomar posse do consulado japonês em Honolulu; doze dias depois, chegava Yoshikawa. Aparecendo na lista de passageiros como “Vice-Cônsul Tadashi Morimura”, Yoshikawa viajara com distinção no navio Nitta Maru, e como ele parece ter pago uma soma dez vezes maior que o salário mensal de um vice-cônsul principiante, este fato parece ter provocado muitos comentários entre o resto do pessoal do consulado-geral de Honolulu. Também  era estranho que não houvesse nenhum “Tadashi Morimura” no Anuário do Serviço Diplomático, e quando Kita e Okuda se esquivaram de responder perguntas a respeito do seu novo colega, a aura de mistério aumentou.

 

Yoshikawa, ou Morimura, como seria agora chamado, foi recebido por Okuda e levado diretamente ao escritório de Kita. Ali, a portas fechadas, os três discutiram suas ordens. Em suma, as ordens de Morimura eram para que se comportasse como diplomata, mas apresentasse relatórios semanais a Kita sobre a prontidão diária da frota americana na base; Okuda continuaria coletando informações de outras fontes conhecidas e Kita confrontaria todos os relatórios e os remeteria a Tóquio. Naquela noite, no Shuncho-ro (Restaurante Primavera), nos altiplanos que sobranceiam Pearl Harbor, os três homens brindaram ao êxito da sua missão.

 

Na aparência e nas maneiras, Yoshikawa não estava à altura de qualquer das idéias convencionais que se faz de um mestre-espião. Além disso, ele carecia de experiência, embora se pudesse considerar isso como uma vantagem, pois nunca aparecera em qualquer relação e adidos para despertar a curiosidade das agências de informações dos Estados Unidos. No consulado, somente Kita e Okuda sabiam o que ele estava fazendo; para o resto do pessoal, era um arrivista estouvado, indolente e beberrão, com quem o cônsul-geral era incomumente tolerante. Assim que se acomodou num trabalho nominal (estava oficialmente registrado no Departamento de Estado dos Estados Unidos como chanceler do Consulado japonês), ele só se parecia interessar em divertir-se. Passadas poucas semanas, Yoshikawa já fizera muitos amigos, era conhecido em todos os restaurantes e boates populares, começara a praticar esgrima no Daí Nippon Club e, entre breves aparecimentos no escritório, jogava golfe. À noite, ficava acordado até tarde, bebia muito e flertava com as garotas da casa de chá, muitas das quais ele levava a passeio por Pearl Harbor num barco de fundo de vidro. O Shuncho-ro era um dos seus lugares favoritos, onde vez por outra parecia ter bebido sake demais e o gerente o punha discretamente na cama, num quarto que dava para a baía e para o Campo Hickam, base aeronaval de Pearl. Poucos dos que conheceram o novo vice-cônsul nessa época o consideravam inteligente; a maioria o achava um bufão amável.

 

Yashikawa estava desempenhando muito bem o seu papel, pois não era nem o simplório nem o sibarita que fingia ser. Vivendo constantemente à sombra da contra-informação americana, ele escolhera a abordagem despreocupada à espionagem e seu papel de “playbly” era o disfarce que escolhera astutamente.

 

Tudo o que fazia servia ao propósito da sua missão, que encarava fatalisticamente com a submissão estóica de quem está simplesmente cumprindo seu dever. Ele próprio dizia que tudo o que sabia sobre Honolulu, desde que chegara, é que a “Seaview Inn” servia excelente sopa de peixe. Passados quinze dias já familiarizara com Oahu, e em poucos meses aprendera mais sobre as defesa de Pearl Harbor do que muitos americanos que ali serviam havia anos.

 

Para os motoristas de táxi de Honolulu, Yoshikawa era uma dádiva. Ele não sabia dirigir, e Kita prevenira-o para que não andasse sempre no mesmo veículo, por motivos óbvios. Por esta razão, preferiu não depender de Mikami como seu motorista. Passava grande parte do tempo vagando por Oahu, muitas vezes aparentemente sem destino, tomando ônibus e táxis ou andando como se houvesse algum panorama especial que quisesse ver. E os que lhe interessavam eram os panoramas de Pearl Harbor e dos campos de aviação. De pontos de observação escolhidos, ficava a fitar a baía lá embaixo, verificando o tempo necessário para a frota sair e a maneira como os navios se moviam, mas isso nunca por mais de alguns minutos em qualquer ponto determinado. Ele visava a evitar ser descoberto e, embora levasse consigo uma câmara fotográfica, era basicamente como turista, tampouco tomava notas ou fazia esboços; o que via em suas andanças ficava-lhe gravado na memória. A comunicação a Kita era feita à noite, quando o pessoal do consulado já estava em suas casas, dormindo.

 

O fato de Yoshikawa ter conseguido permanecer insuspeitado é um tributo à sua determinação e premeditação, bem como à sua habilidade como ator. Não eram poucos os órgãos de contra-informação americanos no Havaí e o consulado-geral japonês estava sob rigorosa observação. Mas nem uma única vez se desconfiou que Yoshikawa fosse alguma coisa diferente do que mostrava ser - um obscuro funcionário inferior que se divertia no Havaí. Kuhn estava na relação dos suspeitos, o mesmo acontecendo com o merceeiro e o oficial que se fazia passar por químico. Mas Yoshikawa, não. Sem se inquietar, ele manteve seu exaustivo programa de “observação” até outubro de 1941. E então, o ritmo acelerou.

 

A 23 de outubro, o Tatsuta Maru chegou a Honolulu, trazendo do Japão dois visitantes que foram diretamente para o consulado. Um deles fingia ser um oficial do Ministério das Relações Exteriores japonês, viajando com passaporte diplomático que disfarçava sua verdadeira identidade de oficial do Serviço de Inteligência da Marinha; o outro era um estafeta que escoltava a mala diplomática. O homem do Serviço de Inteligência viera “liquidar” a rede de espionagem secreta, o que fez comunicando aos interessados que encerrassem seus negócios e assegurassem sua presença no navio japonês que partiria de Honolulu a 1o de novembro. A mala diplomática continha um envelope selado e 14.000 dólares e, numa nota que estava junto, Kita recebeu ordens para que o envelope selado e o dinheiro fossem entregues ao “reserva” Kuhn. A mensagem de Kuhn, naturalmente, eram suas ordens de “ativação” e Kita decidiu que Yoshikawa é que deveria fazer-lhe a entrega.

 

Cônscio do perigo potencial para seu disfarce, Yoshikawa não estava gostando da tarefa. Mas para Kuhn a mensagem foi o choque da sua vida. Tudo o que ele queria era um dinheiro fácil, e a idéia de vir a ter participação capital num negócio como aquele não era atraente. A mensagem de Tóquio lhe dizia para inventar um sistema de sinalização e preparar-se para importante trabalho. Como precisava de dinheiro, Kuhn decidiu que teria de obedecer. Nesse caso, o sistema imaginado por Kuhn era um dos sinais visuais destinados a desviar a frota japonesa que se aproximava do Havaí se a esquadra americana, ou parte desta, tivesse deixado Pearl Harbor nos dias imediatamente anteriores ao domingo, 7 de dezembro. O sistema se baseava nas informações obtidas por observações de periscópio, feitas por três submarinos ocultos ao largo de Oahu, de três posições na costa. Esta informação seria então transmitida pelo rádio para a frota. Luzes da casa e uma fogueira seriam usadas à noite; durante o dia, modelos de formas diferentes seriam mostrados. Acontece que o sistema não foi necessário e Kuhn foi preso.

 

Na manhã de 1o de novembro, o Taiyo Maru atracou em Honolulu. Notava-se claramente a ausência da atmosfera carnavalesca e as cenas de hula; os oficiais da imigração levaram mais tempo para inspecionar os que desembarcavam. Com as nuvens da guerra acumulando-se, todos os navios mercantes japoneses que se dirigiam para os Estados Unidos tiveram suas viagens canceladas. Mas esse navio fora especialmente fretado para levar para suas terras as pessoas que haviam ficado retidas no Japão ou no Havaí.

 

Sem que as autoridades americanas soubessem, a viagem do Taiyu Maru fora feita por outras razões, nada humanitárias. Partindo do Japão, ele traçara a rota da força-tarefa do Almirante Yamamoto e levava consigo dois jovens oficiais da Marinha Imperial disfarçados de taifeiros: Suguru Syzyki, membro do estado-maior do Almirante Nagumo, e Toshihide Maejima, do estado-maior do Vice-Almirante Gunishi Mikawa, nomeado comandante do grupo de couraçados e cruzadores da força-tarefa. Em lugar de seguir sua rota regular, o Taiyu Maru seguira a rota norte, entre Midway e as Aleutas, por ordens do Estado-Maior Geral da Marinha japonesa. Durante a travessia, Suzuki e Maejima registraram dados sobre ventos e pressões atmosféricas e observaram quantos navios encontravam no caminho. Não se avistou nenhum durante toda a viagem.

 

A 2 de novembro a tripulação teve permissão de desembarcar e Suzuki foi diretamente para o consulado, para avistar-se com Kita, avisado as sua chegada por um telegrama enviado por Ogawa. Kita foi informado de que “o dia” estava-se “aproximando rapidamente”. Antes de sair, Suzuki também entregou ao cônsul-geral uma longa relação de perguntas urgentes sobre as defesas de Pearl Harbor. Yoshikawa foi chamado e, naquela tarde, quando Kita embarcou no Taiyu Maru - ostensivamente para supervisionar a repatriação dos cidadãos japoneses, no seu papel de cônsul-geral - Suzuki recebeu um pacote contendo as respostas à maioria delas. A mais importante de todas era a primeira pergunta: “Normalmente, em que dia da semana haveria maior número de navios em Pearl Harbor?” “Domingo”, respondeu Yoshikawa.

 

Juntamente com suas respostas, Yoshikawa enviara a Suzuki uma coleção de outros documentos, inclusive esboços de Pearl Harbor, um plano de atracação e a disposição nos Campos Hickam e Wheeler de aviação. Estes seriam de valor inestimável para os pilotos de Yamamoto, embora seja provável que a aquisição mais valiosa fosse um conjunto de cartões-postais comprados numa das lojas de Honolulu. Custando um dólar, esses cartões mostravam uma completa vista panorâmica, aérea, de Pearl Harbor. Menos de cinco semanas depois, todo piloto japonês que atacou a base tinha um conjunto desses colado na carlinga de seus aviões. (Os cartões haviam sido