A Queda de Cingapura

Derrota na Malásia

 

 

A colônia pagou caro pela incrível falha dos britânicos em reconhecer a crescente ameaça japonesa. Uma das rotas para Cingapura - a que atravessava a floresta - era “impenetrável” a um exército invasor... mas foi por ali que passaram os nipônicos. E uma retirada humilhante e sangrenta deixou os civis à mercê da medonha ocupação.

 

Colapso de uma fachada

 

O livro de Arhur Swinson é um relato inteligente e fascinante da campanha japonesa na Malásia, iniciada em dezembro de 1941, que culminou com a queda de Cingapura, no começo de fevereiro de 1942.

 

No plano japonês, a conquista da Malásia e Cingapura cabia ao 25o Exército nipônico, do General Yamashita, formado de três divisões, com tropas de apoio - somando o efetivo de combate uns 70.000 homens e o efetivo total aproximadamente 110.000 homens. Os transportes marítimos à disposição de Yamashita eram suficientes para levar apenas um quarto da força através do Golfo do Sião - 17.000 soldados combatentes, 26.000 ao todo. Essa fração avançada deveria tomar os aeródromos setentrionais; o grosso do exército nipônico se deslocaria por terra, através da Indochina e do Sião.

 

Os principais desembarques japoneses foram feitos em Singora e Patani, na garganta siamesa da península Malaia, com quatro desembarques subsidiários, mais ao norte, na costa do Sião.. Estes desembarques foram feitos às primeiras horas do dia 8 de dezembro, hora local. O avanço de evitação pretendido pelos britânicos, a “Operação Matador”, iniciou-se tarde demais, por relutarem estes em cruzar a fronteira do Sião antes que a neutralidade do país fosse violada pelos japoneses. Pela manhã de 10 de dezembro, a 5a Divisão japonesa já se havia desviado para a costa oeste e penetrara a fronteira da Malásia, avançando, por duas estradas, até Kedah.

 

Naquele dia, os britânicos sofreram um desastre no mar. Após a decisão, tomada em julho, de cortar os suprimentos petrolíferos para o Japão, Winston Churchill “compreendera os efeitos formidáveis dos embargos” - tarde demais, conforme ele próprio reconheceu - e um mês depois, a 25 de agosto, propôs o envio para o Oriente de uma força naval “repressiva”, conforme classificação sua. Nessa conformidade, o Prince of Wales e o cruzador de batalha Repulse zarparam para Cingapura - mas sem o apoio de porta-aviões. O que fora destacado para acompanhá-los encalhara na Jamaica e teve de ser levado para o estaleiro, para reparos. Havia outro no oceano Índico e ao alcance de Cingapura, mas não recebeu ordens para se deslocar para lá.

 

O Prince of Wales e o Repulse chegaram a Cingapura a 2 de dezembro e, no dia seguinte, o Almirante Sir Tom Phillips assumiu o comando da Esquadra do Extremo Oriente. Pelo meio-dia de 8 de dezembro, Phillips soube que os japoneses estavam desembarcando tropas em Singora e Kota Bahru, protegidos por pelo menos um couraçado da classe Kongo, cinco cruzadores e 20 destróieres. No fim da tarde, Phillips zarpou para o norte, com a chamada “Força Z” - os dois grandes navios referidos e uma escolta de quatro destróieres - para atacar os transportes, embora não pudesse contar com cobertura aérea de aviões baseados em terra, uma vez que os aeródromos haviam sido tomados pelo inimigo.

 

Na noite do dia 9, o tempo melhorou, desfazendo-se do manto que aumentava a obscuridade. Sua “Força Z” foi avistada do ar, de modo que Phillips desviou-se para o sul, rumando para Cingapura. Mas, naquela noite chegou um sinal de lá informando, erroneamente, que os japoneses haviam feito um desembarque em Kuantan, ponto situado a meio do caminho. Julgando que talvez fosse possível surpreendê-los, e que o risco era justificado, ele alterou o curso da força, dirigindo-se para Kuantan.

 

Os japoneses estavam porém, preparados para qualquer movimento de interceptação que a “Força Z”, cuja chegada a Cingapura fora transmitida ao mundo, viesse a tentar. Sua 22a Flotilha Aérea, de elite, com os melhores pilotos da arma aeronaval, estava baseada nos aeródromos próximos de Saigon, no sul da Indochina. Os dois navios foram afundados, o Repulse por volta das 12h30, e o Prince of Wales às 13h20.

 

Este golpe selou o destino da Malásia - e de Cingapura. Os japoneses puderam continuar desembarcando sem obstáculos e estabelecer bases aéreas em terra. A superioridade da força aérea nipônica sobre os parcos efetivos aéreos que os britânicos possuíam na Malásia foi decisiva no colapso da resistência que estes tentaram, permitindo que as tropas de terra japonesas abrissem caminho pela Península Malaia abaixo e forçassem a porta traseira de Cingapura.

 

A partir de 10 de dezembro, a retirada britânica pela costa oeste tornou-se quase contínua. Obstáculos rodoviários eram vencidos, ora pelos tanques e artilharia japoneses, ora pelo ataque de flanco da infantaria nipônica, que se infiltrava pela selva limítrofe.

 

Na noite de sábado, 8 de fevereiro de 1942, as duas divisões avançadas da força invasora, que haviam coberto os 800 km de extensão da península Malaia, cruzaram o estreito canal que separa a ilha de Cingapura do continente. A travessia foi feita num trecho do canal, cujo comprimento é de 48 km, de 1.600 m de largura.

 

Barcaças de desembarque blindadas transportaram as primeiras levas de atacantes, seguindo as restantes em toda sorte de barcos que puderam ser reunidos, e vários japoneses chegaram mesmo a nadar até a outra margem - levando seus fuzis e munição. Algumas das barcaças foram afundadas, mas a maioria das tropas de assalto desembarcou a salvo, pois houve falhas dos defensores, falhas que nunca foram explicadas satisfatoriamente. Os holofotes das praias não foram utilizados, meios de comunicação falharam, ou não fizeram uso deles, e a artilharia demorou a lançar sua cortina de fogo defensivo.

 

Ao clarear o dia, 13.000 japoneses estavam em terra e os defensores haviam recuado para posições situadas no interior. Antes do meio-dia, os efetivos dos invasores haviam subido para mais de 20.000 homens, que estabeleceram um profundo “alojamento” na parte noroeste da ilha - que tem mais ou menos o mesmo tamanho da Ilha de Wight. Mais tarde, uma terceira divisão japonesa também desembarcou, elevando o total para bem mais de 30.000 homens.

 

Havia duas outras divisões nas proximidades, no continente, mas o General Yamashita julgou que não poderia deslocá-las eficazmente no avanço para a ilha.

 

Numericamente, os defensores tinham na ilha efetivos mais que suficientes para repelir a invasão, sobretudo porque ela se deu no setor onde era mais esperada. O General Percival tinha cerca de 85.000 soldados sob seu comando - na maioria britânicos, australianos e indianos, além de unidades locais, malaias e chinesas. Mas a maioria era mal treinada para enfrentar a força atacante japonesa, composta de soldados especialmente escolhidos para a finalidade, e foram sempre superados na densa selva ou nos seringais. Em geral, a liderança eram ruim.

 

As unidades aéreas foram logo batidas, inferiorizadas em número e na qualidade de aviões, e o pouco que restava foi retirado nos momentos finais da luta. A falta de proteção contra os ferozes e incessantes ataques aéreos do inimigo foi o fator mais desmoralizante para os soldados, cujo ânimo já estava deprimido pelo longa retirada através da Península Malaia.

 

Em Cingapura, o fim deu-se no domingo, 15 de fevereiro - exatamente uma semana após os desembarques dos japoneses. Já então, os defensores haviam sido repelidos para os subúrbios da cidade de Cingapura, situada na costa sul da ilha. Os estoques de alimento estavam diminuindo e o suprimento de água podia ser cortado a qualquer momento. Naquela noite, bandeira branca em punho, o General Percival saiu para render-se ao comandante japonês.

 

Pelo menos de imediato, o efeito estratégico da perda de Cingapura foi desastroso, pois a ela seguiu-se logo a conquista da Birmânia e das Índias Orientais Holandesas - num avanço de duas pontas que levou os japoneses a se aproximarem ameaçadoramente da Índia, num flanco, e da Austrália, no outro. Seguiram-se quase quatro anos de luta, de luta muito cruenta, antes que Cingapura fosse recuperada, como resultado do colapso definitivo do Japão, devido à exaustão e ao choque da explosão das bombas atômicas.

 

Mas os efeitos mais prolongados e mais amplos da queda inicial de Cingapura foram irreparáveis. Cingapura fora um símbolo - símbolo do poderio do Ocidente no Extremo Oriente, erguido e por muito tempo mantido pelo poderio marítimo britânico.

 

 

 

O general e a tarefa

 

Na manhã de 2 novembro de 1941, três tenentes-generais graduados do Exército Imperial Japonês apresentaram-se ao Chefe do Estado-Maior-Geral, General Sugiyama. Eram eles Masaharu Homma, Hitoshi Imamura e Tomoyuki Yamashita, e a notícia que receberam foi provavelmente o fato mais importante da carreira desses oficiais: dentro de poucas semanas, o Japão estaria em guerra e eles seriam os principais comandantes-de-campanha. Homma dirigiria o 14o Exército contra o General Douglas MacArthur, nas Filipinas; Imamura, o 26o Exército contra as Índias Orientais Holandesas; e Yamashita, o 25o Exército contra a Malásia e Cingapura. Silenciando por instantes para permitir que os generais expressassem humildemente gratidão pela honra que lhes estava sendo concedida, Sugiyama ficou surpreendido ao ver-se sob uma barragem de perguntas feitas por Homma, que desejava saber exatamente quem compilara os sumários do Serviço de Inteligência sobre as forças inimigas, quem marcara as datas para o término das campanhas e como as tropas destinadas às operações haviam sido distribuídas. Homma detestava Sugiyama e não demorou muito para que a atmosfera ficasse um tanto tensa; mas Imamura conseguiu fazer que se restabelecesse a calma, observando que embora fosse necessária a fixação de datas, ninguém estava sendo obrigado a dar garantias. Homma, acrescentou ele, devia aceitar a tarefa que lhe fora destinada e fazer o melhor possível. Nenhum soldado podia fazer mais que isso.

 

Terminada a reunião, depois de trocarem votos de boa sorte, Homma, Imamura e Yamashita partiram em direção aos respectivos Q-Gs, para darem início ao planejamento. Embora compreendesse o ponto de vista de Homma, Yamashita não pensaria em discutir daquele modo, pois era por demais versado no código samurai, que dispunha que o soldado deveria cumprir qualquer tarefa, ainda que lhe custasse a vida. Os padrões que adotava eram rígidos e absolutos, assim como sua devoção ao Imperador.

 

Não obstante, Yamashita recebeu seu comando com dubiedade, pois sabia que Tojo, Sugiyama e a Facção de Controle - uma das panelinhas políticas do exército japonês - que ocupavam o poder, não gostavam dele. Sabia também que seria meticulosamente observado e espionado, e qualquer fracasso seria punido com demissão e ignomínia. Tampouco estava ele confiante em que o sucesso lhe pudesse render grandes recompensas. Yamashita era uma personalidade curiosa e complexa. Com 56 anos de idade, era gordo, mas muito tenso; talentoso, mas muitas vezes desorientado; inflexível e difícil de contentar; moderno em muitos aspectos, mas preso ao passado. Embora avesso à hipocrisia e à evasão, e no tocante à arte militar mostrasse grande realismo e tirocínio, ainda assim sua carreira sofria por causa da divisão de lealdades e de problemas não solucionados. Às vezes ele se enterrava até o pescoço em aventuras políticas, e suas mãos não eram nada limpas. Mas, mesmo seus inimigos reconheciam nele notáveis qualidades de competência e liderança, e seus amigos - especialmente os jovens oficiais que haviam servido em seu Estado-Maior - consideravam-no o melhor comandante de todo o exército, não duvidando que ele tomaria Cingapura.

 

Yamashita nasceu na aldeia de Osugi Mura, em Shikoku, a menor das ilhas metropolitanas do Japão, filho de um médico. Durante algum tempo, Yamashita pensou em seguir a carreira do pai, mas suas notas escolares não eram nada boas, por isso que seus pais passaram a ver o exército a melhor esperança para o filho. Ele disse o seguinte dessa decisão: “Talvez fosse meu destino. Eu não escolhi essa carreira. Talvez meu pai tivesse sugerido a idéia porque eu era grande e saudável, e minha mãe não fez objeções sérias porque acreditava, Deus a abençoe, que eu jamais passaria no rigoroso exame de admissão”. Mas ele passou com facilidade e ingressou na Academia Militar de Hiroxima, formando-se com distinção. Destacado para a infantaria, demonstrou tal domínio dos segredos da arma, que ganhou ingresso na Escola de Estado-Maior. Em 1916, formou-se em sexto lugar e em seguida começou uma temporada de serviço no Estado-Maior-Geral. Ali, as suas qualidades foram-se evidenciando e, em três anos, subiu de capitão a tenente-coronel. Em 1919, foi para a Suiça, como adido militar; em 1926, já no posto de major-general, retornou ao Japão, para lecionar na escola de Estado-Maior, sendo depois mandado para Viena. Casado com uma filha do General Nagayama, em 1916, não tinha filhos; quando de folga, seu passatempo eram a pesca e a jardinagem. Ele gostava de música, mas não de dançar; não tinha automóvel e nunca aprendeu a dirigir. Era profundamente religioso, acreditando sem reservas no grande Deus Norito e no Deus mau, ou Diabo, Susano, embora ainda se discuta se ele era tão profundamente ligado à religião quanto ao código samurai.

 

Pelo final dos anos 20, as panelinhas militares do Japão estavam agindo, cada qual procurando gritar mais alto seu patriotismo e sua lealdade ao Imperador, mas todas, desmedidamente ambiciosas, decididas a conseguir o que queriam, independente do custo. Yamashita ligou-se à Casta Imperial e a seu líder, o fanático General Araki, que pregava a necessidade de um governo militar. Yamashita detestava os ricos representantes da classe empresarial, que compravam o poder, e não confiava nas suas ambições políticas; e ele encorajava alguns dos jovens oficiais com suas perigosas intrigas. Enquanto Yamashita comandava o 3o Regimento, Tojo comandava o 1o, e fazia deste o centro de atividade de uma panelinha militar rival: a Facção de Controle. Eles haviam servido juntos na Suiça, onde entre os dois nasceu forte antipatia que a rivalidade política transformaria em inimizade muito séria. Em 1936, depois que os moderados triunfaram nas eleições para a Dieta, o Ministério da Guerra notificou que a 1a Divisão de Infantaria (incluindo o 1o e o 3o Regimentos) seria transferida para a Manchúria. Isto provocou agitação entre os jovens oficiais, e dois dos protegidos de Yamashita, Capitão Ando e Capitão Nonaka, o procuraram com o rascunho de um manifesto que declarava abertamente que a guerra contra a Rússia, China, Grã-Bretanha e Estados Unidos não estava longe, e prosseguia: “Estamos convencidos de que é nosso dever destituir os vilões que cercam o trono. Nós, filhos da querida pátria dos deuses, agimos com pureza de coração”. Sem aconselhar ou restringir os conspiradores, Yamashita devolveu-lhes o manifesto sem qualquer comentário, e a 26 de fevereiro eles entraram em ação. Vários membros do governo foram assassinados e a vida em Tóquio parou. Yamashita foi destacado para atuar como negociador entre o governo e os rebeldes e, a 28, transmitiu-lhes as ordens do Imperador, para que todos depusessem as armas e retornassem aos quartéis. Quando Ando, Nonaka e o grupo de jovens oficiais que o cercavam lhe perguntaram o que deveriam fazer, ele respondeu secamente: “Suicidem-se - cometam seppuku”. A maioria concordou, mas quando o Capitão Isobe declarou que não tinha intenção de morrer, Yamashita olhou-o com frio desprezo e afastou-se. Na sua opinião, o código samurai, dispondo que o fracasso devia ser expiado com o suicídio, não admitia exceções. Ao mesmo tempo, enquanto encorajava a revolta de todas as maneiras concebíveis, Yamashita tomara o cuidado de não fazer nada que pudesse implicá-lo. Um dos conspiradores, ao comentar suas atitudes colocava-o “entre o esperto e o ardiloso”, e havia muita verdade nisso. Só que não era suficientemente ardiloso para iludir o Imperador, que depois que Araki e outros oficiais ou foram reformados ou demitidos de seus postos, retirou da lista de promoções o nome de Yamashita e o designou para o comando de uma brigada na Coréia. Ali ele se saiu bem. Mais tarde, foi mandado para a China, onde comandou uma divisão. Posteriormente, tornou-se Chefe de Estado-Maior do Exército da China Setentrional. Os oficiais que na época serviam sob seu comando ouviram-no dizer, mais de uma vez, que ansiava morrer em ação, pois sentia profundamente a censura que lhe fizera o Imperador. Mas as chances para o serviço ativo eram limitadas e, quando lhe suspenderam o impedimento a promoções, em 1937, ele foi a tenente-general. Sua reputação militar cresceu gradualmente, e em julho de 1940 foi chamado de volta a Tóquio, para substituir Tojo como Inspetor-Geral da Aviação do Exército. Alguns meses depois, nomeado Tojo Ministro da Guerra, ele foi mandado em viagem à Alemanha e Itália. Tojo decidira que era preciso negar a Yamashita qualquer chance de se transformar no ponto focal de elementos dissidentes. Ele passou seis meses na Europa, visitando depósitos e áreas de treinamento e estudando as armas mais modernas do exército alemão. Em seu relatório, chamou a atenção das autoridades nipônicas para o fato de que o Japão não poderia travar uma guerra moderna se não procedesse a um completo programa de atualização de sua força aérea, de sua unidades mecanizadas, de todo o equipamento de comunicações e de engenharia. Tojo não gostou do relatório, ignorando-o quase todo. Ao retornar ao Japão, Yamashita foi mandado para o posto insignificante de comandante do Exército de Defesa de Kwantung, na Manchúria, onde permaneceu até novembro de 1941, quando recebeu ordens de Sugiyama para se apresentar ao Q-G Imperial, em Tóquio, onde foi informado da sua nomeação para o 25o Exército.

 

Embora não fosse imperialista fanático, como alguns, não pode haver dúvida de que Yamashita considerava justa e inevitável a guerra iminente. Mais tarde escreveu:

“A causa desta guerra é fundamentalmente econômica. Há cinqüenta anos o Japão era mais ou menos auto-suficiente - o povo podia viver da terra. Desde então, a população praticamente dobrou, de modo que o Japão passou a depender de fontes externas para suprir-se de alimentos e outras necessidades. A importação de tais mercadorias tem de ser custeada, basicamente, por mercadorias. Este esforço foi, entretanto, prejudicado, por uma ou outra razão, pelos outros países. O Japão tentou resolver as incompreensões através de métodos pacíficos, mas, frustrados, ou negados, os esforços que desenvolveu, considerou necessário empenhar-se em guerra aberta”.

 

Este argumento eqüivale, virtualmente, a afirmar que se um país necessita de territórios, por motivos econômicos, pode tomá-los à força.

 

A verdade é que o exército japonês havia muito mostrava-se propenso à guerra e, aos poucos, reuniu força suficiente para buscar seus objetivos. Já em 1919, o senador americano Henry Cabot Lofge advertira:

“O Japão está apoiado em idéias alemãs e considera a guerra uma indústria, porque, pela guerra, conseguiu ampliar o Império. Ele ameaçará a segurança do mundo”.

 

Demorou um pouco para que as profecias do senador se realizassem, mas em 1931 o Japão invadiu a Manchúria e criou o Estado do Exército de Machukuo. Em 1937, ele inventou o incidente da Ponte de Marco Polo, em Pequim, que provocou a guerra com a China e, dois anos mais tarde, ele levou a guerra até a China meridional. Em setembro de 1940, pouco antes de assinatura do “Pacto Tripartite”, com a Alemanha e a Itália, suas tropas invadiram o norte da Indochina. Naturalmente, estas conquistas provocaram grande oposição entre as Potências Ocidentais, especialmente nos Estados Unidos, que mantinham elos de amizade com a China. A partir de 1938, o governo americano começou a embargar as exportações de bens manufaturados para o Japão, e nos dois anos seguintes incluiu na lista de mercadorias embargadas duas das que mais necessitava ele: sucata de ferro e petróleo. Pelo verão de 1941, o laço estava tão apertado que os líderes japoneses compreenderam que tinham de submeter-se às exigências americanas, e se retirarem dos territórios conquistados, ou lutar contra os Estados Unidos. Não é de espantar que escolhessem a luta.

 

Mas o passo que tornou a guerra inevitável - se é que já não o era - foi a ascensão de Hideki Tojo ao posto de Primeiro-Ministro. Figura sinistra, ele adquiriu enorme prestígio em 1937, como Chefe de Estado-Maior do Exército de Kwantung. Líder inconteste da Facção de Controle, ele fora, anteriormente, chefe da kempei, ou Polícia Militar, que sob sua orientação desfrutou de grande poder em todo o exército e marinha, e, na verdade, no país inteiro. Como Ministro da Guerra, aumentou ele, gradualmente, a força que possuía e o domínio do exército sobre o destino da nação. Mas, quando aceitou o convite para formar um gabinete, em outubro de 1941, para evitar uma crise política, ele externou a disposição em que estava de levar o país à guerra. Assim, o exército e a marinha aceleraram seus preparativos e a finalização dos planos de guerra tornou-se questão da mais alta prioridade.

 

Esses planos já iam bem adiantados quando, a 6 de setembro, houve uma Conferência Imperial, presente o Imperador, e se fixara limite de tempo para as negociações com os Estados Unidos. A despeito da afirmação do Imperador, de que todos os recursos diplomáticos tinham de ser tentados antes de se pensar em qualquer outra forma de ação, foram feitos pedidos de 400.000 toneladas de navios, para o deslocamento de quatro milhões de soldados, e o recrutamento de milhares de outros. Ao mesmo tempo, um ataque à Rússia, defendido por um grupo de generais (“os defensores do caminho do norte”), foi decisivamente rejeitado, em favor de um ataque contra o Sião, a Malásia e as Filipinas. Ademais, o Almirante Yamamoto, Comandante-Chefe das Forças Combinadas Navais e Aéreas, que combatera o plano de ataque aos Estados Unidos e Grã-Bretanha, fora vencido e tachado de derrotista. O Estado-Maior-Geral Naval aliava-se ao exército.

 

Havia, contudo, controvérsias sobre a tática a ser empregada contra a Malásia, as quais foram resolvidas numa série de conferências dos representantes das várias armas. A Marinha queria que os desembarques fossem precedidos por bombardeio prolongado das defesas de praia e de um ataque intensivo contra as bases aéreas. A menos que se fizesse isso, argumentou o Estado-Maior Naval, suas belonaves estariam vulneráveis a ataques aéreos e, como disse um oficial: “Retidos ali, protegendo os comboios, seríamos presas fáceis”. O exército, por outro lado, defendia a aplicação do elemento surpresa. Os generais estavam convencidos de que os britânicos não moveriam um dedo antes que a guerra fosse declarada ou as hostilidades se iniciassem, quando então as tropas de assalto já estariam em terra. Além disso, desde o clarear do dia, a 3a Divisão Aérea estaria em ação e, com sua grande vantagem em quantidade e qualidade de aviões, poderia obter o domínio aéreo em poucas horas.

 

Havia outros fatores implicados no argumento. O Dr. Nishimura, oficial do serviço de meteorologia de Formosa, era de opinião que a 6 e 7 de dezembro haveria ventos moderados, mas no dia 8 a monção norte-leste começaria e, daí em diante, o mar ao longo da costa malaia se tornaria cada vez mais agitado. Portanto, 8 de dezembro era o último dia possível para os desembarques, e se se perdesse tempo com um bombardeio preliminar, toda a operação talvez fracassasse. Era muito provável que os desembarques não pudessem ser tentados novamente antes do mês de abril.

 

Mas, a despeito desse argumento, e de outros, o Estado-Maior Naval manteve-se firme; os riscos para suas belonaves eram inaceitáveis, diziam os representantes do órgão. Era preciso chegar-se a um meio-termo. Então, diante do impasse, o Vice-Almirante Jisaburo Ozawa, já designado Comandante da Força Combinada, levantou-se e falou aos presentes à conferência. Ele compreendia o desejo do exército, de desembarcar logo e sem bombardeio prévio, disse. Suas razões eram válidas e deviam ser aceitas pelo Almirante Yamamoto e pelo Estado-Maior Naval. Então, para espanto de todos e para horror do Almirante, ele declarou: “Acho que a Marinha devia aceitar a proposta do Exército, mesmo com risco de aniquilamento”. A discussão terminara, havendo concordância sobre o plano de invasão da Malásia.

 

Naturalmente, tudo isto aconteceu antes da nomeação de Yamashita, que ao assumir o comando, a 5 de novembro, descobriu que seus interesses haviam sido protegidos pelo General Iida. É de duvidar que Yamashita soubesse muita coisa sobre a Malásia, embora freqüentemente mencionada nas reuniões do Estado-Maior, pela grande importância que tinha para o Japão, tendo em vista o embargo que lhe era aplicado pelos Aliados. Juntamente com a grande base naval britânica que havia na Ilha de Cingapura, ela representava uma presa de espantosa riqueza.

 

Mas, como seria ela capturada? Como Yamashita viria a descobrir, o Alto Comando estudava o problema havia um ano. Em janeiro de 1941, estabelecera-se na ilha de Formosa uma pequena unidade chamada “Seção de Pesquisa do Exército de Taiwan”, sob o comando de uma figura secundária da Facção de Controle e sequaz do general Tojo, o Coronel Masanobu Tsuji. Tsuji era mandão e vivia interferindo em tudo, sendo por isso, e por ser espião de Tojo ali colocado para controlar os passos dos comandantes, segundo opinião de todos, odiado por seus companheiros de farda. Não obstante, ele tinha grande poder de percepção e assimilação, o que lhe seria de grande utilidade, pois recebera instruções para estudar a questão da guerra na selva, como seria travada na Malásia, e resolver os problemas por ela apresentados. Assim, com o auxílio de dez ajudantes, ele começou a sondar rápido e profundamente. De que maneira as táticas deveriam ser adaptadas para a guerra tropical e na selva? Que tipo de roupa e que equipamento seriam necessários? E as comunicações, como seriam feitas? Como seriam solucionados os problemas sanitários e de socorro aos feridos? Conforme Tsuji registrou: “Infernamos os especialistas em todos os setores. Chegamos mesmo a usar nossa hora da sesta para palestras, sempre assistidas com avidez... Esse grupo insignificante, naquele momento era por certo a autoridade suprema em guerra tropical”. Pela primavera de 1941, Tsuji começou a pensar na solução do caso relacionado com o objetivo final da campanha, ou seja, a base naval de Cingapura. Depois de interrogar oficiais do exército e da marinha, redigiu suas conclusões, nos seguintes termos:

 

“1. A Fortaleza Cingapura era sólida e poderosa na parte do litoral, mas praticamente indefesa na parte posterior, confrontante com a Província de Johore.

 2. Os informes publicados nos jornais sobre os efetivos de aviões de caça da RAF eram propaganda intencional, exagerando seus efetivos reais.

 3. O exército britânico na Malásia contava com cinco ou seis divisões, cujos efetivos totalizavam aproximadamente 80.000 homens. A proporção de soldados europeus era provavelmente inferior a 50%”.

 

A despeito da rede de espionagem que o Japão vinham mantendo por todo o Extremo Oriente há muitos anos, Tsuji descobriu que carecia de dados topográficos precisos. Felizmente para ele, o Major Terundo Kunitake fora adido militar no consulado de Cingapura e durante o tempo em que lá funcionou fez um levantamento de estradas, rios e pontes. Ao longo da principal rodovia-tronco, que ia de Cingapura à fronteira do Sião, informou ele, havia nada menos de 250 pontes, número bem superior ao que Tsuji calculara pelos mapas em pequena escala e imprecisos que possuía. Ele compreendeu imediatamente que quanto mais tempo demorasse para reparar as pontes durante o avanço para o sul, mais tempo teriam os britânicos para construir as defesas terrestres de Cingapura. Assim, ele recomendou que um regimento de sapadores fosse agregado a cada divisão de infantaria empenhada no ataque, e que um regimento adicional ficasse sob o controle direto do comandante-de-exército. As estimativas do tipo e quantidade de equipamento para pontes também foram revistas à luz da informação fornecida pelo Major Kunitake, e os sapadores puseram-se a ensaiar seu papel nas selvas de Formosa.

 

Recebendo rapidamente todo esse material ao assumir o comando, Yamashita estava confiante na capacidade de cumprir a tarefa que lhe fora destinada. Uma das coisas que o impressionaram foi a constatação de que o grosso das tropas que o confrontavam seria de indianos que, segundo comentou ele, “deveriam facilitar muito as coisas para nós”. A idéia de que quaisquer tropas asiáticas pudessem resistir aos japoneses numa batalha franca lhe parecia muito ridícula. Na verdade, quando lhe ofereceram cinco divisões para a campanha, ele respondeu: “Não - quatro bastarão. E só recorrerei à quarta se realmente precisar dela”. As formações finalmente escolhidas foram a 5a Divisão do Tenente-General Takuro Matsui, a 18a Divisão, do Tenente-General Renya Mutaguchi, e a Divisão de Guardas Imperiais, do Tenente-General Nishimura. Destas, a altamente mecanizada 5a Divisão, que servira na China, era decididamente a mais experiente e as relações de Yamashita com seu comandante eram excelentes. Suas relações com Renya Mutaguchi, o colérico e ambicioso comandante da 18a Divisão, também eram amistosas. Ambos haviam sido baluartes da panelinha do Caminho Imperial e, em 1937, Mutaguchi servira como chefe de Estado-Maior de Yamashita. A 18a Divisão, embora não tão mecanizada e experiente quanto a 5a Divisão, ainda assim desfrutava de sólida reputação e obviamente se sairia muito bem sob seu atual comandante. Na verdade, ao chegar ao Q-G do 25o Exército, Mutaguchi começou a exigir papel preponderante para a sua formação, oferecendo-se também para liderar o avanço desde a costa até Cingapura. Ninguém ansiava mais pela glória militar do que Mutaguchi.

 

As relações com Takuma Nishimura, que comandava a Divisão de Guardas, não eram tão boas. Ele e Yamashita haviam entrado em choque alguns anos antes, quando Nishimura presidiu um conselho de guerra que julgou alguns jovens oficiais da Casta Imperial. Nishimura, que era teimoso e de capacidade limitada, ressentia-se por estar sob o comando de Yamashita e resolveu obedecer o mínimo possível às suas ordens. Embora os regimentos dos Guardas fossem soberbos em cerimônias, tinham recebido pouco treinamento e a Divisão não entrava em ação desde a guerra russo-japonesa de 1905. Quando Yamashita a viu em manobras, ficou um tanto horrorizado, e mandou Nishimura imediatamente intensificar o treinamento de batalha. Entretanto, Nishimura nada fez nesse sentido e, quando sua divisão embarcou para a campanha, a opinião do Estado-Maior do 25o Exército era de que ela estava inapta para combate. Para complicar ainda mais as coisas, Nishimura era velho aliado do feldmarechal Conde Terauchi, superior de Yamashita no Exército Sul e que também pertencia à Facção de Controle. Yamashita tinha inimigos tanto no escalão superior quanto no inferior e não deve ter ficado satisfeito ao saber que Masanobu Tsuji fora agregado ao seu Estado-Maior, como espião pessoal do Primeiro Ministro, Tojo. Pode-se mencionar aqui também que, quando Yamashita decidiu iniciar sua ofensiva com três divisões, em lugar das cinco que lhe haviam sido oferecidas, ele não o fez por fanfarronada, mas por entender que a força escolhida era a maior que poderia ser abastecida à medida que a linha de comunicações aumentasse, com o avanço para o sul, na direção de Cingapura. Ele não tinha confiança alguma em qualquer Q-G dirigido por Terauchi.

 

Para completar a composição da força de assalto de Yamashita, dois regimentos de artilharia pesada de campanha e a 3a Brigada de Tanques apoiariam a infantaria. A cobertura aérea seria proporcionada pela 3a Divisão Aérea, com um total de 459 aviões e outros 159 aparelhos seriam fornecidos pela Marinha. O Esquadrão Sul, do Vice-Almirante Ozawa, que seria responsável pela proteção aos comboios até que estes chegassem à costa malaia, compreenderia um cruzador de batalha, 10 destróieres e cinco submarinos.

 

Somente na segunda semana de novembro é que Yamashita deixou Tóquio, dirigindo-se de avião ao seu Q-G, que ficava no porto de Samah, em Hainan, uma ilha, estrategicamente colocada, que os japoneses haviam ocupado em fevereiro de 1939. Ela fica situada a meio caminho da costa sudeste da China e a costa da Indochina. Ali, Yamashita encontrou atividade febril. Seu Estado-Maior formava-se apressadamente - seus membros haviam sido trazidos de unidades e Q-Gs espalhados pelo Japão e territórios por ele ocupados, não havendo entre eles qualquer relacionamento anterior. Cada qual apresentou-se pessoalmente a Yamashita. Assim, especula-se ainda, sobre a maneira como se teriam organizado para trabalhar em equipe. Mas, a personalidade de Yamashita causou em todos impressão profunda e imediata, e a pressa, o pânico e a confusão foram evitados. O chefe de Estado-Maior era o Tenente-Coronel Ichiji Sugita, e também havia um subcomandante de exército, Majot-General Managi.

 

Por enquanto, é só o que se pode falar do 25o Exército e de sua tarefa. E quanto ao plano? Em síntese, este estipulava que a esquadra de invasão partiria de Samah a 4 de dezembro - quatro dias antes do começo da guerra - e se dividiria em cinco comboios. Dois destes, levando a 5a Divisão, de Matsui, e parte da 18a Divisão, de Mutaguchi, rumariam para Singora, 200 km a noroeste da fronteira malaio-tailandesa, no Istmo de Kra; dois outros comboios rumariam para Patani, 100 km a sudeste; e um forte grupo de brigada da 18a Divisão, sob o comando do Major-General Takumi, seria transportado pelo comboio restante para Kota Bharu, na costa malaia, logo ao sul da fronteira Thai. Como uma olhada no mapa mostrará, as rodovias-troncos que cortam a Península Malaia vão diretamente até Cingapura e Patani, de modo que facilitariam as comunicações ao longo do eixo de avanço. Além disso, como Yamashita podia ver de imediato, usando esses portos tailandeses, ele poderia desembarcar o grosso das suas forças antes que os britânicos cruzassem a fronteira da Malásia para enfrentá-las. Os desembarques em Kota Bharu seriam sem dúvida combatidos e os riscos neles implicados, consideráveis. Não obstante, Yamashita ponderou, eles desviariam a atenção do adversário do ponto em que seria feito o ataque principal, e se tudo corresse bem, Takumi poderia ganhar rapidamente o interior e cuidar dos aeródromos avançados. Tudo dependeria do estabelecimento da superioridade aérea logo de início.

 

Contudo, era imperioso que fossem reunidos os transportes, não só vindos dos portos japoneses, mas também de Xangai, Cantão e Formosa. O Tenente-Coronel Kera, Chefe dos Transportes Navais do Exército, parecia estar certo de que todos os navios chegariam antes do anoitecer de 2 de dezembro, a data marcada. Mas. Na verdade, às 16h nenhum navio ainda aparecera e Yamashita começava a imaginar o que poderia ter acontecido. Será que os capitães haviam lido errado as suas ordens? Será que o Q-G Imperial havia mudado de plano sem avisá-lo? Ou será que o Q-G de Terauchi cometera a primeira das muitas palermices que cometeu? A situação ficou tensa, pois o horário para os embarques era apertado e, a menos que as tropas e o equipamento começassem a embarcar de acordo com os planos, o resultado seria o caos. Para complicar as coisas, a comunicação pelo rádio estava proibida e uma série de telefonemas feitos pelo agitado Kera não conseguiu informação alguma. Parecia que a guerra, ou pelo menos a campanha de Yamashita, começaria com fracasso. Então, pouco antes do pôr-do-sol, avistou-se fumaça no horizonte e, um a um, os navios entraram no porto. Por volta das 12h do dia seguinte, Yamashita foi informado pelo seu Estado-Maior que o embarque começara no horário.

 

Naquela noite ele recebeu as ordens finais de Terauchi:

1.       Fica estabelecido que as operações militares comecem a 8 de dezembro.

2.       O 25o Exército deve cooperar com a marinha, no começo das operações militares para a ocupação da Malásia.

3.       O 25o Exército iniciará as operações baseado em ordens anteriores. Contudo, se as negociações nipo-americanas forem concluídas até a data acima fixada, as operações militares serão canceladas.

 

Ninguém pensava seriamente no cancelamento das operações, e alguns oficiais achavam que a inserção de um “se” nesse estágio tardio poderia ter efeito negativo sobre o moral da tropa. Contudo, quando Yamashita convocou seu Estado-Maior, na manhã seguinte, para dar as instruções finais, a confiança voltou. Muitos oficiais tinham lágrimas nos olhos; o momento era de emoção. Para os japoneses, 8 de dezembro seria o que “Der Tag” fôra para os prussianos, em 1914: “O Dia” com que havia muito sonhavam e para o qual tanto haviam planejado; a oportunidade de esmagar os britânicos e americanos e estabelecer nova ordem no Extremo Oriente, sob o sol glorioso do Japão. Eles confiavam inteiramente no comandante que tinham e no resultado da campanha. Nada poderia detê-los.

 

A fortaleza ao sol

 

“Aqui estou, em Cingapura, fiel à minha palavra e deleitando-me com todo o prazer que um apoio em tal exemplo clássico deve inspirar. Este local possui um porto excelente... Estamos a uma semana, por mar, da China, perto de Sião e do próprio centro do Império Malaio. Nosso posto flanqueia por completo o Estreito de Málaca e defende, quaisquer que sejam as circunstâncias, uma passagem para nossos navios que vêm da China...” O autor destas palavras foi Sir Thomas Stamford Raffles e o ano, 1819. Com a rivalidade, nas Índias Orientais, entre britânicos e holandeses tornando-se mais intensa com o passar dos anos, Raffles (funcionário da Companhia das Índias Orientais) recebera ordens para ir lá e descobrir novo porto, dentro do arquipélago, para formar o centro de todo o comércio nativo. Felizmente, antes de partir para a Malásia, ele havia tomado conhecimento da existência da pequena Ilha de Cingapura, aninhada perto da ponta da península Malaia, e marcou-a como possível novo posto. Completamente desconhecido dos holandeses, o local, formado principalmente de pântanos e selva, era quase desabitado. Raffles se inteirava, nos estudos que realizou sobre a região malaia, que séculos antes existira na ilha uma velha civilização cujas ruínas ainda eram parcialmente visíveis. Agindo com base no conselho de Raffles, a Companhia comprou Cingapura ao Sultão de Johore e a bandeira britânica foi hasteada a 29 de fevereiro de 1819.

 

A Ilha de Cingapura se parece com a forma da Ilha Wight, estendendo-se por 43 km de leste a oeste e por 21 km (na sua largura máxima) de norte a sul. O Estreito de Johore, que a separa do continente, varia, em largura de 600 m a 5.000 m, e próximo do ponto mais estreito os britânicos ergueram uma ponte. O terreno é ondulado e os únicos acidentes geográficos notáveis são algumas colinas situadas perto do centro da ilha, incluindo Bukit Timah e Bukit Mandai, que se erguem à altura de 200 m. No sul, há uma crista baixa, chamada Pasir Panjang, com cerca de 6.500 m de comprimento, que domina os acessos ocidentais da ilha. Com exceção do sudeste, a linha costeira é interrompida por cursos de água e pequenos rios, orlados por mangues. A maioria das estradas leva à cidade de Cingapura, situada na costa sul, ligeiramente para a extremidade leste da ilha. Ali, em 1941, viviam cerca de 550.000 pessoas, compostas, como a população da Malásia, de chineses, e malaios, com pequena proporção de tamil e até mesmo alguns europeus. Se, como local, Cingapura era ideal, o mesmo não acontecia com seu clima. A ilha fica situada a apenas 150 km do equador e o ar é quente e úmido; o clima desgasta a energia física  e mental, sobretudo dos europeus. Na verdade, o clima causou grande impacto sobre os acontecimentos entre 1920 e 1941.

 

A Península Malaia tem aproximadamente 640 km de comprimento; sua largura varia entre 100 e 320 km. Como uma ligeira olhada no mapa mostrará, ela se estende de norte para o sul, com o Estreito de Málaca a oeste e o Mar da China Meridional no leste; é ligada à Tailândia por um trecho estreito de terra, chamado Istmo de Kra. A extensão territorial da península é equivalente à da Inglaterra e País de Gales juntos e tem  um espinhaço que lhe corre pelo centro, uma série de montanhas cobertas de selva. Estas montanhas chegam a alcançar, no norte, 2.300 m de altura, caindo parra 1.000 m no sul. Em ambos os lados dos montes estendem-se planícies costeiras, orladas, na costa oeste, por mangues e, na costa leste, por praias arenosas. As planícies são cortadas por centenas de rios e cursos de água que descem das montanhas para o mar e, como estes muitas vezes são cobertos por selva densa, há extensas áreas pantanosas. Devido à grande precipitação pluviométrica (até 5,50 m nas montanhas), a vegetação cresce durante todo o ano e, na sua maioria, as selvas malaias são muito mais densas do que as indianas ou birmanesas. Existem árvores gigantescas interligadas por trepadeiras, enquanto que, ao nível do solo, os arbustos são densos e quase intransponíveis, com a visibilidade reduzida a pouco mais de um metro. Nas áreas pantanosas existem grossos cinturões de espinheiros, fazendo da abertura de caminhos através deles tarefa lenta e dolorosa. Mais da metade da área total é coberta por essa selva espessa e primitiva, mas na planície oeste e em Johore grandes áreas foram abertas para cultivo, estendendo-se por considerável distância de ambos os lados da rodovia e da ferrovia. No norte, existem arrozais e, no sul, áreas de produção de mandioca e legumes. Nos locais onde o cultivo é abandonado, ainda que por breve período, a selva se reapossa deles, havendo plantas secundárias de densidade espantosa e capim-elefante de até 2 metros de altura.

 

Em 1941, a população ficava entre 4 e 5 milhões de almas, dois milhões de malaios, dois milhões de chineses e o restante era tamil, da Índia. A população européia totalizava cerca de 20.000. Os malaios são uma raça gentil de pescadores e plantadores. Gostam de levar horas sentados sob um coqueiro, esperando que o coco caia, a subir nele para colher o fruto. Os chineses, a maioria dos quais se deslocou para a malásia para comerciar, mostravam-se muito mais dinâmicos, chegando vários deles a fazer consideráveis fortunas. Na sua maioria, eles pareciam não ter ambição política e não revelavam interesse (pelo menos até fins de 1941) pela defesa do país. Havia também milhares de japoneses, muitos deles barbeiros ou fotógrafos, embora alguns possuíssem seringais. Era corrente a afirmação de que em grande parte pertenciam ao Serviço de Inteligência japonês.

 

A história de como os britânicos tomaram a Malásia é complicada, e não há necessidade de contá-la em detalhes aqui. Foi um processo de instalações de postos de comércio, desenvolvimento de relações com os governantes locais e depois a assinatura de tratados pelos quais os britânicos lhes garantiam proteção em troca de direitos de comércio e outros. Por volta de 1941, quando o sultão de Johore aceitou um conselheiro britânico, o país adquiriu estrutura política que perduraria até a chegada dos japoneses. Essa estrutura era complexa e esta complexidade teve seu impacto sobre os acontecimentos dos anos 20 e dos anos 30. O governador britânico, por exemplo, se quisesse chegar a novo acordo, teria de negociar com nada menos de 11 governos separados. Estes representavam os Estabelecimentos do Estreito de Cingapura, Málaca e Penang, que formavam uma colônia britânica; os Estados federados da Malásia (Perak, Selangor, Negri Semilan e Pahang); e os Estados Não-Federados  de Johore (Trengganu, Kelantan, Kedah e Perlis). Os quatro últimos estados tinham cada qual seu próprio sultão e estavam incorporados ao Império Britânico por tratado assinado separadamente. Embora essa constituição desconjuntada fosse viável em tempos de paz, não estava preparada para resistir às tensões da guerra.

 

Para os britânicos, a Malásia não era um baluarte da defesa imperial, mas apenas uma mina de ouro - ou, para ser mais preciso, uma mina de borracha e estanho. Pouco depois do começo do século, o governo britânico pensou que se pudesse encontrar a espécie certa de seringueira, o domínio mantido pelo Brasil sobre os suprimentos mundiais de borracha poderia ser destruído. Assim, com a cooperação dos jardins botânicos de Kew, mandou-se um enviado às florestas de seringais silvestres do Brasil para colher espécimes que crescessem em solo e sob precipitação pluviométrica semelhante aos da Malásia. Finalmente, escolheram-se dois espécimes e grandes áreas de selva das planícies ocidentais da Malásia foram abertas e cultivadas. As seringueiras pegaram e cresceram livremente. Por volta de 1941, os seringais cobriam nada menos que 1,2 milhão de hectares e alcançavam mais de um terço da produção mundial de borracha, enquanto que a exploração das jazidas de estanho ganhou tal desenvolvimento, que passou a produzir 58% do metal extraído no mundo.

 

Esta ênfase na produção de matérias-primas e no comércio naturalmente causou impacto sobre a hierarquia européia e em sua escala de valores. Os homens de negócios consideravam os seus interesses - incluindo seus prazeres - de suma importância, e se julgavam acima das forças armadas praticamente não entravam em seus cálculos. Nenhum comandante, por exemplo, se atrevia a levar suas tropas através de um seringal, mesmo para treinamento considerado vitalmente necessário. Essa subjugação dos interesses da defesa não é tão extraordinária como possa parecer, pois durante todo o século XIX não houve nenhum inimigo concebível. Até que, sob pressão dos americanos, o Japão abriu seus portos ao comércio internacional, ele estivera mergulhado em isolamento primitivo e, depois disso, a Grã-Bretanha o tinha como país amigo. Em 1902, os dois países assinaram um tratado de aliança.

 

Somente em 1915 é que o Japão revelou ao mundo os primeiros sinais de sonhos de expansão, publicando suas “Vinte e Uma Exigências” à China. Embora viesse a modificá-las, depois de violentos protestos da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos, ainda assim o Japão obteve importantes concessões na Península de Xantung e na Manchúria meridional. Pela ajuda prestada aos Aliados na Primeira Guerra Mundial, o Japão recebeu um mandato sobre as ilhas Marianas, Carolinas e Marshall. Mais importante, começou a aumentar sua marinha, que passou a ser a terceira do mundo. Então, em 1929, surgiu o “Memorial Tanaka”, uma declaração das intenções japonesas que muitos comparam ao Mein Kampf de Hitler. O Barão Tanaka, que ocupava o posto de general no exército japonês, era o Primeiro-Ministro e líder do Partido Seiyukai (liberal) e no memorial apresentava sua solução para os problemas do Japão:

 

“Os suprimentos de alimento e as matérias-primas do Japão diminuem na proporção do aumento de sua população. Se esperarmos apenas desenvolver o comércio, seremos derrotados pela Inglaterra e pelos Estados Unidos, que possuem poderio capitalista inigualável. Nossa melhor política reside na tomada de providências positivas para nos assegurar direitos e privilégios na Manchúria e na Mongólia. Com os recursos da China à nossa disposição, poderemos conquistar a Índia, o Arquipélago, a Ásia Menor, a Ásia Central e até mesmo a Europa”.

 

Diante dos protestos das potências ocidentais, o governo japonês declarou que o documento era falso, mas os acontecimentos logo indicariam que, como declaração de intenções, ele era muito exato.

 

Oito anos antes do aparecimento do “Memorial”, o governo britânico reconhecera que, com a eliminação da marinha alemã e com a ascensão da marinha japonesa, a balança do poderio naval pendeu mais para o Pacífico. A única base naval britânica no Extremo Oriente estava em Hong-Kong, e esta - independente de contar com instalações apenas limitadas - não poderia ser defendida em tempo de guerra. Assim, em 1921, a Comissão de Defesa Imperial examinou a situação e recomendou que se construísse uma base em Cingapura. A 16 de junho daquele ano, o Gabinete concedeu aprovação à medida, e no ano seguinte escolheu-se o local exato - no lado norte da ilha, a uns 8 km a leste da ponte. Dois anos depois, antes que o projeto começasse realmente a ser executado, o governo trabalhista subiu ao poder e o pôs de lado. Entretanto, a vida desse governo foi breve e, ao retornarem ao poder, os conservadores mandaram que se reiniciassem os trabalhos. Também foi examinada a questão da defesa. O exército considerava extremamente difícil, se não impossível, o ataque pela Península Malaia, devido ao terreno e à selva. O único ataque possível a Cingapura, segundo o governo concordava, era por mar.

 

Tinham assim início dez anos de brigas entre as forças armadas. O Ministério da Aeronáutica dizia que os bombardeiros-torpedeiros, protegidos por caças, com o apoio de baterias de canhões médios, poderiam proporcionar um sistema de defesa mais barato e mais eficiente do que as baterias de canhões pesados. O Almirantado e o Ministério da Guerra, contudo, não aceitavam isso, afirmando que os canhões pesados sempre se mostraram os mais poderosos repressores contra belonaves. Somente em 1926 é que a Comissão de Defesa Imperial chegou a uma decisão: o primeiro estágio do desenvolvimento deveria incluir baterias pesadas e médias, mais três canhões de 15 polegadas, e que a questão dos aviões versus baterias pesadas seria resolvida mais tarde. Mais alguns anos foram desperdiçados em brigas e, em 1929, quando outro governo trabalhista subiu ao poder, decidiu concentrar esforços no desarmamento. Em 1930, realizou-se uma conferência que resultou na assinatura do Tratado Naval de Londres, que previa a redução de armamentos. Para Cingapura, adotou-se uma política de trabalho lento.

 

No ano seguinte, essa política começou a parecer um tanto desorientada, pois, na Alemanha, Hitler havia começado sua marcha para o poder e o exército japonês, tendo forjado um incidente na Ferrovia Manchuriana Meridional, ocupou Mukden e outros pontos estratégicos, engolindo finalmente toda a Manchúria. Já então os Chefes de Estado-Maior haviam advertido ao governo que “seria o cúmulo da loucura perpetuar o estado de indefensibilidade no Extremo Oriente”, e se decidiu que os planos traçados para Cingapura deveriam ser levados avante. Mas a guerra entre as forças armadas ressurgiu e somente em maio de 1932 é que o governo ordenou que, embora o canhão devesse constituir a principal arma de defesa, os aviões deveriam proporcionar valiosa ajuda. A responsabilidade pela defesa de Cingapura seria distribuída pelas três armas que, segundo se esperava, trabalhariam em estreita colaboração.

 

Mas o trabalho prosseguiu com muita lentidão e no final de 1935 - quinze anos após a decisão inicial de se construir a base - o primeiro estágio ficou pronto. Já então o governo havia concedido permissão para que fossem instaladas baterias de canhões pesados, e certa urgência finalmente apareceu. E havia boa razão para isso, pois à parte exigirem paridade em armamentos navais, os japoneses evidentemente visavam ao domínio total da China. Paralelamente à construção da base naval, os trabalhos nos aeródromos da Malásia prosseguiram e os locais escolhidos para localizá-los foram Kota Bharu e Kuantan. A razão para que fossem instalados tão ao norte devia-se à necessidade de serem detetados os comboios inimigos o mais cedo possível, mas a RAF não se dignou de consultar o exército e, com isso, os aeródromos não podiam ser defendidos contra as forças da terra assim que estas conseguissem desembarcar. Para aumentar a confusão, o plano de defesa em operação nessa época não incluía o norte e o leste da Malásia, de modo que era necessário revê-lo com urgência.

 

Curiosamente, durante todos esses anos de discussões e indecisão ninguém pensara no fato de ter a Malásia mais de 1.600  km de costa, a metade da qual exposta, à época, a ataque japonês. Ninguém tampouco pensara em que a defesa da base naval da Ilha de Cingapura estava ligada à defesa de toda a Península Malaia. Contudo, em 1937, um tênue raio de luz da realidade começou a penetrar o nevoeiro, e o Major-General Dobbie, Comandante da Malásia, foi chamado a examinar novamente o plano de defesa, e do ponto de vista japonês. Todos os seus cálculos se baseariam na suposição de que uma esquadra britânica não poderia chegar em menos de setenta dias para ajudar a Península. Dobbie, homem capaz e de boa formação religiosa (ele alcançaria grande distinção na defesa de Malta), começou por realizar vários exercícios com tropas e, em outubro, informou que, ao contrário da opinião ortodoxa, os desembarques pelos japoneses na costa leste eram possíveis durante a monção do nordeste, de outubro a março, e aliás esse período era particularmente perigoso, porque a má visibilidade limitaria o reconhecimento aéreo. Dobbie também observou que, como medida preliminar do ataque, os japoneses provavelmente estabeleceriam bases aéreas avançadas no Sião e também poderiam realizar desembarques ao longo da costa daquele país. Previu com extraordinária precisão que os desembarques principais ocorreriam em Singora e Patani, no Sião, e em Kota Bharu, na Malásia. Se sua previsão fosse considerada, declarou ele, grandes reforços reveriam ser enviados sem delongas. A sugestão foi ignorada. Em julho de 1938, quando as ambições japonesas se haviam revelado de maneira mais clara, Dobbie advertiu que a selva em Johore (na Malásia meridional) não era intransponível para a infantaria, mas foi novamente ignorado. Por volta de 1939, tudo o que conseguira arrancar do governo não ia além de umas míseras 60.000 libras, gastas em grande parte na construção de embasamentos para metralhadoras ao longo da costa sul da Ilha de Cingapura e em Johore.

 

Entrementes, enquanto os japoneses provocavam o incidente de Pequim, em julho de 1937, que levaria a guerra à China setentrional, desembarcando no ano seguinte em Amoy, cerca de 480 km a nordeste de Hong-Kong, os Chefes de Estado-Maior continuavam revendo as defesas do Extremo Oriente e foram instados pela Nova Zelândia a despachar uma esquadra imediatamente, antes do início das hostilidades. Mas a atenção de todos se voltava cada vez mais para a Europa, onde Hitler fazia ameaças terríveis, e a ridícula figura de Neville Chamberlain se deslocava apressadamente de Londres para a Alemanha e vice-versa. Em fevereiro de 1939, os Chefes de Estado-Maior completaram mais uma apreciação, baseada na premissa de que os inimigos principais seriam a Alemanha, a Itália e o Japão. Já se admitia que a esquadra tinha de ser enviada para o Extremo Oriente, embora seus efetivos devessem “Depender das nossas reservas e da evolução dos problemas surgidos na Europa”. Mas, com a situação na Alemanha se deteriorando rapidamente, não se tomou nenhuma atitude específica, e em maio, quando a Comissão de Defesa Imperial realizou sua sessão, embora o Japão já fosse considerado inimigo mais sério do que a Itália, chegaram os Chefes de Estado-Maior à conclusão de que, diante dos fatores que tinham de ser levados em conta, “não seria possível declarar definitivamente quando, após a intervenção japonesa, a esquadra poderia ser despachada para o Extremo Oriente”, nem o número de navios que poderiam integrá-la. Em julho, decidiram eles investigar a possibilidade de se acumular estoques de alimentos na Malásia, para os civis e soldados, suficientes para seis meses. E, pouco antes de Hitler invadir a Polônia, uma brigada indiana, um regimento de artilharia de montanha e dois esquadrões de bombardeiros foram enviados da Índia.

 

Qual seria então o efetivo total disponível para defender o país, agora que a guerra se tornara uma realidade? Incrivelmente, a defesa da Malásia setentrional ficou entregue aos Voluntários dos Estados Malaios Federados, e a Johore, às forças dos seus estados. A recém-chegada brigada indiana foi mantida na reserva, para a defesa de Johore. E a Ilha de Cingapura - que, como nos lembramos, tem mais de 32 km de comprimento - foi confiada a cinco batalhões regulares, dois batalhões de voluntários, dois regimentos de artilharia de costa, três regimentos antiaéreos e quatro companhias de sapadores da fortaleza. Havia uma força ainda menor em Penang. Os seis esquadrões da força aérea tinham um total de 58 aviões. Se o Japão atacasse naquele momento, a resistência seria apenas simbólica.

 

Não se pode dizer que a situação preocupava muito à grande maioria do povo. Em geral os malaios só se preocupavam com o que sucedia em seus próprios kampongs, os chineses cuidavam dos seus negócios e os trabalhadores tamil, na maioria analfabetos, cuidavam apenas, como sempre, da sobrevivência. Os comerciantes e administradores britânicos permaneciam bem-aventuradamente ignorantes da situação estratégica e concentravam suas energias sobretudo no cumprimento das instruções governamentais para aumentar a produção de borracha e estanho. A demanda desses produtos, vitais para o esforço de guerra aliado, se intensificaria com o passar dos meses. Exceto mudanças marginais, não se pode dizer que a vida nas comunidades européias mudou muito. Ainda havia uísque no clube e as quadras de tênis e os campos de golfe permaneciam imaculadamente bem cuidados, como sempre. O traje de rigor era usado até mesmo para as ocasiões menos importantes, e os criados eram abundantes e baratos. Para a Malásia, a guerra parecia muito distante. Os jornais cinematográficos com os fatos da Europa tinham um ar de completa irrealidade. E continuariam a tê-lo, mesmo quando a Polônia caiu e, depois, a França, bem como quando Hitler lançou toda a fúria do exército e da força aérea alemães contra o povo da Rússia.

 

Em 1940, o Governador da Colônia dos estabelecimentos do Estreito era Sir Shenton Thomas filho de um vigário de Cambridge, que adquirira experiência no serviço colonial na África. Já na casa dos sessenta anos, ele achava o clima de Cingapura um tormento que o fazia sonhar a cada passo com a aposentadoria. Embora não fosse inábil, não era homem para uma crise; não podia dominar os acontecimentos. Agora ele estava em conflito com o recém-chegado comandante, Tenente-Coronel Bond, que ficou horrorizado com a ausência de defesas em Cingapura e queria recrutar uma força de trabalho de cules para pôr as coisas a funcionar. Thomas, discordando da medida, fez a seguinte comunicação ao governo central: “Considero nosso dever dar absoluta prioridade às exigências da indústria”. O governo, tanto quanto se pode afirmar, não lhe abriu os olhos, e os chineses, os tamis e os malaios continuaram trabalhando nas minas e plantações. Thomas costumava chamar a Malásia de “o arsenal do dólar”, observando que os Estados Unidos compravam 25 vezes a quantidade de bens que a ela vendiam. Em 1937, as compras dos Estados Unidos àquele país subiram nada menos de 235 milhões de dólares. Enquanto sua rixa com Bond prosseguia, Thomas afirmava que só no trimestre terminado a 30 de novembro, 137.331 toneladas de borracha foram exportadas para os Estados Unidos. Seria errado dizer que Sir Shenton ignorava por completo o perigo de guerra. Em seus cabogramas para Londres, ele sempre expressava a opinião de que só com aviões em quantidade suficiente é que a repressão a ataques seria factível. O Comandante do grupamento aéreo no Extremo Oriente, Marechal-do-Ar Babington, naturalmente concordava com ele.

 

Durante todo o ano de 1940 houve conferências, reuniões, apreciações e um constante vaivém de papéis, mas não se fez muita coisa de prático. Com a piora da situação na Europa, Rússia e Oriente Médio, os assuntos do Extremo Oriente ficaram em último lugar nas prioridades. Contudo, em outubro, os Chefes de Estado-Maior recomendaram a criação de um sistema unificado de defesa para o Extremo Oriente, sob um comandante-chefe. O homem escolhido para esse posto vital foi o Marechal-do-Ar Sir Robert Brooke-Popham, ex-governador do Quênia e que fora chamado novamente para a ativa quando do começo da guerra. A nomeação não entusiasmou a muita gente. “Brookham”, como o Marechal-do-Ar era conhecido em toda a RAF, alto e desengonçado, com bigode vermelho e maneiras tímidas, quase juvenis, recebeu essa enorme tarefa tarde demais. Contudo, era corajoso e nada tinha de tolo. Assim que seu Q-G entrou em operação, ele informou aos Chefes de Estado-Maior que a base de Cingapura não tinha condição de ser defendida para uso da esquadra se toda a Malásia também o fosse. Para garantir a segurança, o exército teria de trabalhar estreitamente com a RAF e no momento havia séria escassez de homens e aviões. Sendo a estimativa dos próprios Chefes de Estado-maior de 336 aviões, somente 48 estavam disponíveis. A resposta que lhe deram foi que aquela quantidade seria alcançada em fins de 1941, mais Brooke-Popham continuou cético, e tinha boas razões para isso. Um dos obstáculos principais ao envio de reforços para o Extremo Oriente nessa época era Winston Churchill que, a 13 de janeiro de 1941, comunicou aos chefes de Estado-Maior: “A situação política no Extremo Oriente não parece exigir, e os efetivos da Força Aérea de modo algum permitem, a manutenção de forças tão grandes no Extremo Oriente nesse momento”. Portanto, Brooke-Popham jamais recebeu os reforços de que necessitava, mas, ao mesmo tempo, deve-se dizer que ele aparentava equilibrar-se naquela atmosfera de Cingapura, que parecia a “Terra do Nunca”, de “Peter Pan”. Suas freqüentes declarações otimistas, destinadas a iludir os japoneses, apenas serviam para aumentar a sensação de irrealidade. Naturalmente, os japoneses, com se excelente Serviço de Inteligência, não se deixaram iludir por um instante sequer.

 

Contudo, chegaram reforços, ainda que em escala inadequada. Em fevereiro, o Major-General Gordon Bennett ali desembarcou com a 8a Divisão australiana, e dizia-se que mais navios de tropas estavam a caminho. Entrementes, Babington foi substituído pelo Vice-Marechal-do-Ar Conway Pulford, e Bond pelo Tenente-General A. E. Percival. Uma das principais figuras do drama iminente, Percival era uma personalidade neutra, sendo mais oficial de Estado-Maior do que comandante de tropa, não possuindo mesmo qualidades de liderança. Ele fazia tudo de acordo com os regulamentos, ainda que as circunstâncias exigissem procedimentos diferente, e se não carecia do senso de urgência, por certo carecia de emoção. Não era homem para uma crise e certamente não o era para uma campanha desesperada. Pergunta-se, então: Como é que ele alcançou tão alto posto? Para começar, ele demonstrara grande bravura pessoal na Primeira Guerra Mundial, recebendo a Ordem do Mérito Militar com barra, a Cruz Militar e a Croix de Guerre francesa. Começando a guerra como soldado raso - tinha 27 anos quando se alistou - chegou ao comando de um batalhão antes do fim do conflito. Seu trabalho durante os distúrbios na Irlanda, em 1921, impressionaram Churchill, então Ministro da Guerra, e Lloyd George, o Primeiro-Ministro, e foi este quem o recomendou para um curso na Escola de Estado-Maior, em Camberley, embora tivesse passado da idade normal. Demonstrando notável aptidão para o trabalho burocrático, ele se saiu bem na escola de Estado-Maior e passou para a Escola de Defesa Imperial. O ano de 1936 o encontrou na Malásia, como Chefe de Estado-Maior do General Dobbie, onde seus dotes para redigir memorandos bem escritos e enérgicos, sobre qualquer assunto, também lhe valeram muito. Na verdade, ele era excelente em qualquer trabalho que não incluísse contato com soldados. Terminando seu tempo de serviço, retornou à Inglaterra, mas, com o começo da guerra, movimentou-se para obter um posto mais ativo e alguém no Ministério da Guerra se lembrou de que ele se saíra muito bem na Malásia, Assim, a decisão fatídica foi tomada. Nomeado Comandante em março de 1941, recebeu ordens para partir dentro de três dias.

 

Desde o começo ele foi perseguido pelo azar. O aerobote destacado para levá-lo enguiçou e a substituição da peça que deu origem ao defeito demorou cinco semanas. Ao chegar a Cingapura, verificou que pouco havia sido feito desde que ali estivera, vários anos antes. Não havia um único avião disponível para ajudar o exército e a RAF lhe pediu que não usasse nenhum dos seus aviões “exceto em ocasiões especiais”. Nas viagens de inspeção que realizou pela península, teve de utilizar aviões civis ou os pequenos aparelhos DH Moth, pilotados por homens da Força Aérea Voluntária. Aí é que ele descobriu que as pistas de pouso, no norte, haviam sido feitas em posições indefensáveis. Além disso, não estavam sendo usadas, pois a RAF não tinha homens ou aviões suficientes para ocupá-las. (Entretanto, todas foram equipadas com vastas quantidades de combustíveis que acabaram caindo em poder dos japoneses). Os trabalhos de instalações de defesa, tanto na península como na Ilha de Cingapura, estavam quase parados. As forças armadas não tinham permissão de pagar aos cules salário suficientemente alto para atraí-los das minas de estanho e dos seringais. Com isso, o trabalho de defesa, que Dobbie considerava urgente em 1937, ainda estava no estágio de planejamento. E, dos caças que o governo prometera enviar, não havia nem sinal.

 

Acontece que o envio de Hurricanes estava sendo discutido pelos Chefes de Estado-Maior, em Londres, nessa época. O representante da RAF alegou que os Buffalos, caças americanos, seriam adversários para qualquer avião japonês que aparecesse, alegação que foi aceita. Avisado disso, Sir Robert Brooke-Popham comentou: “Daremos um jeito, com os Buffalos aqui... A Inglaterra pode ficar com os Super-Spitfires e Hiper-Hurricanes”. Seu Serviço de Inteligência nada podia informar com precisão sobre os aviões japoneses.

 

Não eram somente aviões que faltavam na Malásia. Quando Percival terminou sua primeira viagem de inspeção, descobrira que não havia um só tanque em toda a área.

 

Mas um otimismo complacente ainda predominava nos altos escalões. A 9 de setembro, Duff Cooper, ex-diplomata e amigo de Winston Churchill, chegou a Cingapura com instruções “para examinar os arranjos existentes para consulta e comunicações entre as várias autoridades britânicas na área... e informar como estes poderiam ser mais eficazes”. A 29 daquele mês, ele realizou sua primeira conferência, e o grupo de talentos militares, administrativos e políticos aceitou a opinião de que o Japão estava concentrando forças contra a Rússia. Considerava-se muito pouco provável que ele arriscasse uma guerra contra os Estados Unidos, Grã-Bretanha e Holanda simultaneamente. Os desembarques na costa da Malásia pareciam tão improváveis que nem mereceram o direito de um exame detalhado. Essa conferência foi realizada quatro dias depois que o relatório do General Dobbie mostrou com clareza que tais desembarques eram bastante viáveis e nove meses depois que os nipônicos deram início aos preparativos para os mesmos, na Ilha de Hainan.

 

A despeito da queda do governo Konoye, a 16 de outubro, e da sua substituição pela administração militar extremista do General Tojo, o otimismo ainda persistia. Ainda a 26 de outubro, Churchill telegrafou ao Primeiro Ministro australiano, dizendo que o Japão não arriscaria uma guerra até que a Rússia fosse vencida pelos alemães. Contudo, para fazer face a qualquer eventualidade, duas das mais poderosas belonaves da Grã-Bretanha, o HMS Prince of Wales e o HMS Repulse, estariam rumando para o Extremo Oriente. O que ele não disse é que o porta-aviões HMS Indomitable, destacado para acompanhá-las, havia sido danificado em Kingston, Jamaica, e como não havia outro para substituí-lo, os gigantescos navios de linha zarpariam sozinhos.

 

Os preparativos de defesa em terra não impressionavam nada. Para defender o norte da Malásia havia só a 11a Divisão indiana (então com apenas duas brigadas de tropas parcialmente treinadas, a 6a e a 15a Brigadas), enquanto que, na costa leste, estavam a 8a e a 22a Brigada da 9a Divisão indiana. Com a 28a Brigada de Infantaria Independente e algumas tropas de defesa de aeródromos, essas fracas formações compunham o III Corpo, do General Heath. Elas eram bem fortes em artilharia, mas não tinham tanque algum - ainda não havia um só tanque na Península Malaia nem na Ilha de Cingapura. As tropas da Fortaleza Cingapura consistiam da 8a Divisão australiana, de Gordon Bennett (apenas duas brigadas), a 12a Brigada Independente e duas Brigadas de Infantaria malaias. Exceto uns poucos batalhões britânicos, como os Leicesters e os Argyll and Sutherland Highlanders, estas tropas era de qualidade ruim, mal treinadas e lideradas com indiferença. Os reforços, ainda a caminho, não eram melhores. E ninguém sabia como operar na selva.

 

Assim, escoaram-se os últimos dias de paz. Ajudado pelo General Heath, Percival tentou intensificar o treinamento de suas tropas; tentou, inutilmente, arrancar dinheiro do governo para realizar trabalhos defensivos; tentou construir grandes posições defensivas em Jitra, na rodovia-tronco, a 63 km ao sul da fronteira siamesa, e em Gurun, a 32 km abaixo desta. Mas os homens de negócio ainda dominavam a Malásia e não queriam tropas por perto das suas plantações ou em suas propriedades. À mais leve aproximação de tropas, eles reagiam com protestos junto ao governador, Sir Shenton Thomas, que normalmente os apoiava. A vida civil corria sem anormalidade. Qualquer um que falasse de guerra era acusado de “tagarela”. Para Brooke-Popham, para Percival e Duff Cooper, e, aliás, para qualquer comandante de força armada, mesmo de regimento, conseguir qualquer coisa nessa atmosfera parecia quase impossível. Era como tentar nadar em melado.

 

Nada ilustra melhor seu problema do que a mixórdia contida no “Matador”, nome do plano que lhe mandaram seguir assim que começassem as hostilidades, que estabelecia fosse feito um rápido avanço contra Singora, no Sião, para tomá-la e defendê-la contra qualquer invasão marítima. A unidade destacada para essa difícil tarefa foi a 11a Divisão indiana, do Major-General Murray-Lyon - que também fora designada para defender a posição de Jitra. Como cumpriria ele as duas tarefas, completamente antagônicas, é algo que jamais se resolveu. Tampouco se decidiu quando exatamente se daria a ordem para o avanço. A política do governo era impedir qualquer ato de provocação, mas os militares naturalmente queriam chegar a Singora muito antes dos japoneses, para terem tempo de preparar a defesa. As discussões prosseguiram até 5 de dezembro - dia seguinte à partida do exército de Yamashita de Samah. Mesmo então, Brooke-Popham recebeu ordens de esperar até que o território do Sião fosse violado. A única concessão que recebeu foi de poder despachar suas tropas sem necessitar da prévia aprovação de Londres.

 

Mas esta concessão, como tudo o mais, viera tarde. Pouco depois as bombas estariam caindo, fazendo ecoar pela selva o som de muitos estrondos. A ameaça japonesa, transformando-se em fúria por todo o Pacífico Ocidental, lançara “um crepúsculo sinistro”, para usar a expressão de Winston Churchill, a 8 de dezembro de 1941.

 

O gosto da realidade

 

“A lua, como uma bandeja, mergulhava para além do mar ocidental e o sol, de um vermelho intenso, surgia no leste. A baía de Smah, cintilando em ondas de ouro e prata, era uma pintura. Os homens, no comboio de vinte navios, olhavam para onde aproavam... quando os navios de escolta alinharam à direita e esquerda do comboio... marcaram, por certo, o ponto de partida que determinaria o destino da nação para o próprio século. A sorte estava lançada”. Assim o Coronel Tsuji descreveu a cena do momento em que o comboio de Yamashita zarpou, na noite de 4 de dezembro. Não há dúvida de que seus sentimentos refletiam os de muitos oficiais e soldados do 25o Exército.

 

Durante a noite de 4 para 5 de dezembro, a viagem prosseguiu sem incidentes. Pouco depois de clarear o dia, veio um sinal de um dos aviões de escolta, comunicando: “Nenhum inimigo à vista no mar da China Meridional”, e esta informação foi confirmada por vários outros relatórios, Mas, por volta das 10h, Yamashita recebeu uma mensagem, a bordo do Ryijo, não muito confortante: “Submarino inimigo a 314 km, ao largo de Saigon; velocidade 10 nós”- porém, mais tarde, revelou-se tratar-se de alarme falso. O incidente seguinte só ocorreu às 13h30 do dia 6, quando um avião britânico sobrevoou o comboio. Era um Hudson de Kota Bharu que, embora atacado por caças, conseguiu escapar. Yamashita acreditava que ele tivesse transmitido informações sobre o tamanho, rumo e velocidade do comboio e que se podia esperar alguma reação. Mas a sorte veio colocar-se de seu lado, pois o tempo nublou-se mais, desencadeando-se um temporal que cegou a visibilidade e impossibilitou o reconhecimento aéreo. Às 19h, conforme planejado, o comboio desviou-se para o norte, como se rumasse para o Golfo do Sião, e quando tornou a mudar de rumo, na manhã seguinte, o céu ainda estava nublado e o tempo piorara. Contudo, às 10h10 Yamashita recebeu um sinal do Vice-Almirante Ozawa: “Operações de desembarque podem prosseguir de acordo com os planos”.

 

O desembarque mais prejudicado pelo tempo foi o de Kota Bharu, onde o Major-General Takumi estaria no comando. Um sinal retransmitido pela nave-capitânia indicou que, embora as ondas subissem já a um metro, as condições gerais eram boas. Nas primeiras horas do dia 8, Yamashita soube que pouco antes da meia-noite os três barcos que conduziam Takumi e seus homens haviam ancorado ao largo, com sua escolta naval. O que não lhe disseram era que eles estavam a 2.000 m ao sul da sua posição correta e bem defronte aos canhões da 8a Brigada indiana. Como Takumi recordou mais tarde: “Havia uma luz pálida, da lua em crescente sobre o mar. Uma brisa forte soprava e eu podia ouvi-la assobiando nas antenas do rádio. As ondas tinham agora dois metros” Esperando que elas não aumentassem ainda mais, Takumi lembrou que, de acordo com os estudos de estado-maior para a operação, ondas desse tamanho eram as maiores que se podia aceitar. Mais forte o vento do que o que estava soprando, então resultaria no caos.

 

Na verdade, quase se estabeleceu o caos. O trabalho de arriamento das barcaças e de levá-las até a terra foi extremamente difícil. Tão logo tocavam a água, elas começavam a balançar violentamente, afastando-se dos costados dos navios para logo se chocarem contra eles. Os soldados, temerosos de serem esmagados pelo violento vaivém que faziam, gritavam na escuridão. Citando novamente Takumi: “Eles não só estavam atrapalhados pelos coletes salva-vidas, como também sobrecarregados de fuzis, metralhadoras leves, munição e equipamento. Era muito difícil saltar dentro da barcaça de desembarque e mais difícil ainda tomar os lugares devidos. De vez em quando, um soldado caía gritando, dentro da água e os sapadores o pescavam”.

 

Nessas circunstâncias, não é de surpreender que  primeira leva de barcaças, sob o comando do Coronel Nasu, demorasse mais de uma hora para ser lançada. Pacientemente, Nasu esperou, no mar agitado, até que Takumi desse o sinal luminoso mandando-o avançar; respondeu ao sinal recebido, e deu a ordem. Takumi prossegue: “As barcaças de desembarque puseram-se a caminho da costa em quatro fileiras. O barulho do motor superpunha-se ao som das ondas. Então, uma luz vermelha brilhou duas vezes, entre as palmeiras, na costa. A isto seguiu-se o fogo de fuzil, partido de sete ou oito lugares, e depois fogo de artilharia e metralhadora. O inimigo parecia estar ali em grande número”.

 

Às 02h, com a segunda leva ainda por ser lançada, a RAF apareceu e bombardeou o comboio. Isto de tal modo perturbou o Comandante da escolta naval que ele assinalou para Takumi exigindo o cancelamento da operação. Takumi recusou, observando que não podia chamar de volta os que estavam já à beira da praia, e de qualquer modo, as outras levas estariam a caminho aí pelas 06h. Até então, seria preciso aceitar os riscos. O comandante da escolta cedeu com relutância, mas, minutos mais tarde, o Awajisan Maru, que transportava Takumi e seu Estado-Maior, foi atingido por uma bomba e começou a adernar. Pedindo uma lancha, Takumi estava prestes a dirigir-se para outro transporte, mas mudou de idéia e rumou direto para a praia. A decisão foi, sem dúvida corajosa, pois a recepção que recebeu foi violenta. Ele a descreve: “Muitos oficiais e soldados foram mortos ou feridos, muitos saltaram na água antes de a barcaça encalhar e nadaram até a praia. As posições inimigas situavam-se a cerca de 100 m da água e podíamos ver que seus postos estavam cercados de alambrados. Os canhões apontavam diretamente para nós”. Outra barcaça, como Takumi pôde ver, encalhara logo abaixo dos postos defensivos e em local ainda mais difícil. Grandes quantidades de homens eram ceifados pelo fogo de metralhadora pesada. O mar ainda estava tão agitado que os soldados tinham dificuldade em se manterem equilibrados, ao saltarem dos barcos, e muitos foram mortos na corrida de alguns metros da água à areia da praia. “A confusão, em todas as praias, era total”, escreveu Takumi, “mas os comandantes de unidade compreenderam que se permanecessem onde estavam morreriam até o último homem, de modo que a ordem foi para “prosseguir”. Os oficiais correram para o interior, seguidos dos soldados, que logo começaram a rodear as posições inimigas e a escavar a areia sob o arame farpado. Também usamos granadas”.

 

Eram quase 04h quando Yamashita recebeu a primeira notícia de Takumi, expressa sucintamente: “Conseguimos desembarcar às 02h15”. Yamashita estava a bordo do seu navio, na baía de Singora, onde chegara às 00h35. Não houve oposição, desembarcando as tropas em ordem de parada. O próprio Yamashita desceu a terra às 05h20 e registra em seu diário:

“08h. Entrei na residência do governador e mandei que a polícia fosse desarmada.

 13h. Consegui chegar a acordo com o governo tailandês.

 23h. Terminadas as diligências que nos permitem passar por território tailandês”.

 

Naturalmente, o governo siamês não tinha outra alternativa senão submeter-se humildemente para não ver seu país destruído. O que Yamashita chamou “formalidades” foi simplesmente uma exigência ríspida.

 

Enquanto Yamashita cumpria as tarefas mencionadas, o Estado-Maior do 25o Exército aprontava-se rapidamente para avançar rumo sul, Malásia adentro. O Coronel Tsuji (Oficial de Operações do Estado-Maior) enchera os caminhões de soldados, disfarçados de refugiados civis e soldados siameses, e mandou-os apressadamente pela fronteira, para tomar as pontes vitais antes que os britânicos as demolissem.

 

Yamashita já havia tomado conhecimento de que o ataque aéreo à base naval americana de Pearl Harbor fora um sucesso. Ele sabia que a supremacia naval no Pacífico passara, dessa forma, para os japoneses, e que a superioridade aérea sobre toda a península Malaia e Cingapura seria questão de horas. Entrementes, Matsui e a 5a Divisão, deslocando-se pelas rodovias Singora - Alor - Star e Patani - Kroh, dirigiram-se para o sul, liderados por colunas de tanques. Seu objetivo era Jitra, na província de Kedah, situada perto da costa ocidental, no entroncamento da rodovia de Kangar com a rodovia-tronco principal. Na verdade, Jitra era a chave de toda a campanha.

 

Chegamos então ao momento de examinar as primeiras horas da guerra, segundo o comportamento dos britânicos, que se mostraram lentos, confusos  e sem o necessário aguerrimento. A realidade se fez sentir com dolorosa lentidão.

 

A edição matutina do Malaya Tribute estampava em manchete: “Vinte e sete navios japoneses avistados ao largo da ponta do Camboja”, situado na extremidade sul da Indochina e, segundo mensagem de Reuter, transcrita logo abaixo, os navios rumavam para oeste, na direção do Sião, da Malásia, ou de ambos. Para James Glover, que era o principal redator do jornal, a notícia só tinha um significado: guerra. Brooke-Popham, para quem o significado era outro, não demorou a telefonar para Glover, protestando contra a “publicação de notícias alarmistas”. “A situação não é tão séria como o Tribune quer fazer crer.” Evidentemente, deste ponto de vista partilhava a maioria da comunidade européia, pois quando Glover foi para o seu ponto de encontro dominical favorito, o Hotel Sea View, ali, estavam homens de negócios, oficiais das forças armadas, funcionários públicos e suas esposas, relaxando, com seus copos de drinks gelados, enquanto os criados chineses se movimentavam discretamente de mesa em mesa e a orquestra tocava uma seleção de músicas do filme “Branca de Neve e os Sete Anões”, de Walt Disney.

 

Os comandantes militares não se encontravam no hotel, mas não se pode dizer que estavam reagindo com a necessária rapidez. A 6 de dezembro, quando o sinal do avião Hudson foi recebido, Brooke-popham não desfechou a “Operação Matador”, ordenando apenas “Estado de Prontidão”. Assim, as tropas da 11a Divisão indiana permaneceram em seus acampamentos, na fronteira siamesa, que as chuvas da monção encharcara. Percival, mais tarde, escreveu em seus despachos que “não havia causa exagerada de alarma, pois, segundo supunha, a expedição japonesa rumava contra o Sião”. Na noite do dia 7, outro avião informou sobre a presença de um cruzador japonês que navegava na direção oeste e, mais tarde, de quatro destróieres e um navio mercante, com o convés abarrotado de soldados, que se dirigiam para o sul. Ainda assim, não houve alarma. Embora o embaixador japonês no Sião já tivesse tido uma audiência com o governo do país exigindo a passagem das tropas de Yamashita pelo seu território, em direção à Malásia, nem a Legação Britânica, nem o Serviço de Inteligência britânico souberam disso.

 

Foi pouco depois de uma hora da manhã de segunda-feira, dia 8, que Sir Shenton Thomas soube que a guerra realmente chegara. Do seu Q-G, em Fort Cunning, o General Percival informava, pelo telefone, ao governador que os desembarques haviam começado em Kota Bharu. Segundo um relato, Thomas respondeu, um tanto impremeditadamente: “Bem, creio que você expulsou os homenzinhos dali”, e depois telefonou, dando instruções para que todos os japoneses fossem arrebanhados e os planos de segurança fossem postos em operação. Três horas depois houve outro telefonema, desta vez do Vice-Marechal-do-Ar Pulford, que informou que os aviões inimigos estavam a apenas 40 km de Cingapura. Às 04h15 as primeiras bombas começaram a cair. Quando o ataque terminou, 61 pessoas haviam sido mortas e 133 feridas, a maioria no quarteirão chinês.

 

O ataque foi um choque para Thomas e para os comandantes militares. Percival nem sequer sabia que havia aviões inimigos mais perto do que a Indochina francesa, a 1.000 km de distância. Assim, as horas que mediaram entre o recebimento da notícia de Kota Bharu e o começo do ataque foram desperdiçadas. Não foram dadas instruções para reduzir o número de lâmpadas acesas, ou para o completo escurecimento da cidade. As ruas permaneciam intensamente iluminadas. A iluminação era feita a gás e as lâmpadas tinham de ser apagadas uma a uma por um homem que para tanto se utilizava de uma vara comprida - processo que demorava muitas horas. Mais tarde, num exemplo excelente de bagunça administrativa, Sir Shenton Thomas escreveu: “A ordem de prontidão não incluía o black-out”. Fica-se pensando: Para que se incomodou ele em dar instruções?

 

Se havia confusão civil em Cingapura, também havia confusão militar mais ao norte. Sabendo dos desembarques feitos em Kota Bharu, Brooke-Popham admitiu que era perfeitamente inútil o lançamento da “Matador”, pois a 11a Divisão se veria flanqueada. Assim, cancelou a operação e mandou que as tropas se retirassem para Jitra, a fim de tomarem posição defensiva. É justo que se mencione que os soldados estavam exasperados e desmoralizados. Eles eram inexperientes até mesmo em treinamento básico, quanto mais em preparo para a guerra na selva. Muitas unidades haviam perdido seus melhores suboficiais e soldados, que haviam sido despachados para a Índia, a fim de treinarem novas unidades. Havia uma longa cadeia de comando entre Brooke-Popham e as tropas que guarneciam a fronteira e, naquele momento, tal cadeia de comando parecia um tanto tênue. Para começar, Brooke-Popham não conseguia encontrar Percival, pois este escolhera aquele momento para deixar seu Q-G, a fim de colocar a par o Conselho Legislativo do que se passava. Encontrado Percival, este teve de retornar ao seu gabinete e pedir uma ligação telefônica com a frente de batalha pela linha civil. As ordens só chegaram a Murray-Lyon, comandante da 11a Divisão, às 13h, o que representou a perda de 10 preciosas horas. Quando os soldados afinal retornaram a Jitra, encontraram as trincheiras inundadas e inúteis, sendo obrigados a cavar outras. A perda das dez horas deu aos japoneses a vitória em Jitra, antes mesmo de iniciados os disparos. Mas, ficou evidente, toda a idéia da “Operação Matador” fora mal concebida. Os soldados que montavam guarda à fronteira, que deveria estar protegida por alambrados, teriam que ser substituídos por tropas descansadas. A História Oficial da Guerra observa simplesmente que “O Q-G do Comandante Malaio, ao que tudo indica, não compreendeu a necessidade de uma decisão rápida”. Isto, naturalmente, atenua a espantosa proporção da verdade. Se um comandante não toma uma decisão rápida, tendo o inimigo às portas, que se pode dizer dele? Ninguém esperava grande coisa de Brooke-Popham, mas Percival deixou bem clara a impressão de que, apesar do consignado sobre seu comportamento pessoal em ação e do sucesso que colheu como oficial de Estado-maior, não era absolutamente um líder. Daí em diante, as impressões viriam com crescente freqüência.

 

Confusão em Cingapura e mixórdia na fronteira. Já houvera confusão em Kota Bharu. Os soldados indianos da 8a Brigada, do Brigadeiro Key, haviam lutado com grande bravura atrás das suas defesas fortemente minadas e alambradas, infligindo pesadas baixas ao inimigo, mas por volta das 04h os japoneses tinham conseguido tomar dois pontos fortes. Ao amanhecer, quando eles estavam ampliando gradualmente o ponto de apoio que conquistaram, o comandante da brigada decidiu lançar um contra-ataque com os Fuzileiros Dogras da Força de Fronteira Indiana, que deveriam avançar para leste, ao longo das praias desde Badang, enquanto o apoio seria dado pelos canhões embasados perto do aeródromo. O terreno, cortado por rios e cursos de água pantanosos, era difícil e o contra-ataque fracassou. Ainda assim, os dogras mantiveram-se firmes na praia e, embora a situação ali fosse confusa, estava, no entanto, longe de ser desesperada.

 

A freqüente intervalos, durante o dia, o aeródromo fora bombardeado e metralhado. Então, por volta das 16h, começaram a correr boatos de que os japoneses haviam penetrado livremente através das defesas da praia e estavam no perímetro do aeródromo. O que pode ter acontecido é que algumas balas perdidas chegaram até ali, e os soldados - que nunca haviam estado em ação - tiraram conclusões precipitadas. O mais importante é que um oficial, ainda por ser identificado, deu ordens para que o “plano de negação” fosse executado. Assim, em questão de minutos, os prédios foram incendiados e a equipe de terra embarcou em seus veículos e foi embora. Sabendo disso, o comandante de esquadrilha e o Brigadeiro Key realizaram um reconhecimento rápido, descobrindo que não havia japoneses nas proximidades do aeródromo. Mas era tarde demais; os homens não podiam ser chamados de volta. O pior ainda é que os estoques de bombas e gasolina estavam ainda por serem destruídos, e as pistas, por serem postas fora de ação. Os aviões já haviam sido retirados para Kuantan, por ordem do Q-G da Aeronáutica, de modo que os soldados indianos que defendiam resolutamente as praias ficaram sem qualquer cobertura aérea.

 

A providência seguinte era inevitável. Quando mais navios de tropas japonesas chegaram ao largo da costa, o Brigadeiro Key decidiu recuar. Os nipônicos haviam conseguido sua cabeça-de-praia em menos de 24 horas. Felizmente, a 73a Bateria de Campanha fora para o aeródromo e incendiara os depósitos de gasolina, bombardeando-os a queima-roupa, mas as pistas ainda estavam utilizáveis.

 

Após o anoitecer, a artilharia e os canhões antiaéreos escaparam sem dificuldades. Mas os três batalhões avançados passaram maus bocados, atolando-se nos arroios e pântanos, sob chuva torrencial. Ocupando uma linha defensiva a alguns quilômetros para o interior, eles foram intensamente atacados por morteiros e, depois, por infantaria, e para evitar o perigo de cerco foram obrigados a recuar novamente. Os aeródromos de Gong Kedah e Machang foram abandonados. Por volta de 11 de dezembro, Key concentrara sua brigada sobre a ferrovia que corre ao sul de Machang, e ali tomou poderosa posição defensiva. Contudo, o comandante-de-divisão de Key, Major-General Barstow, já havia solicitado a seu superior, General Heath, permissão para recuar para Lipis, na Malásia central. A tarefa principal da brigada, observou ele, fora a defesa dos aeródromos do norte que, uma vez abandonados, levava a que ela procurasse encurtar sua tênue linha de comunicação. Hearth, por sua vez, buscou a permissão de Percival, que novamente não estava onde deveria estar. Ele deixara seu QG e tomara o trem para Cingapura. Nas palavras dos historiadores oficiais, “Sua ausência da frente, nessa conjuntura crítica, foi inoportuna”. Foi pior que inoportuna, foi absoluta falta de habilidade militar.

 

A guerra aérea fora pior que a terrestre. Uma força de bombardeiros despachada para bombardear Singora não tivera êxito algum, perdendo, além disso, muitos aparelhos para os caças inimigos. A RAF não conseguira proporcionar cobertura aérea suficiente aos aeródromos do norte e o sistema de aviso se mostrara apenas ainda inadequado. Repetidamente os aviões foram surpreendidos em terra, e só durante o dia 8 de dezembro as unidades aéreas que operavam dos aeródromos do norte foram reduzidas de 110 para 50 aparelhos. Dos aeródromos situados em torno de Singora e dos aeródromos do norte, depois que estes entraram de novo em funcionamento, os japoneses logo aumentaram sua força de ataque. Em breve os céus lhes pertenceriam.

 

Nessa atmosfera de confusão e de desintegração, não é de surpreender que os boatos e informações falsas se multiplicassem. O mais sério destes foi o de um desembarque em Kuantan, na costa leste, a 300 km ao norte de Cingapura. Os acontecimentos sucederam-se assim:

 

Pouco depois do meio-dia de 8 de dezembro, o Almirante Tom Phillips, comandante da “Força Z”, integrada pelo HMS Prince of Wales, pelo HMS Repulse e quatro destróieres, convocou uma conferência, a bordo da sua nave-capitânia. Acabara de chegar a informação dos desembarques em Singora e Kota Bharu, e Phillips era de opinião de que, com cobertura de caça, a Marinha Real poderia destruir os transportes japoneses e suas escoltas. De qualquer modo, a “Força Z” não poderia permanecer inativa em tal conjuntura. Assim, às 15h35, deixou ela o porto de Cingapura, rumando para noroeste. Pouco antes de zarpar, Phillips foi avisado de que a RAF duvidava que pudesse proporcionar cobertura de caça ao largo de Singora e, no dia seguinte, ele soube que os aeródromos do norte da Malásia tinham caído em poder do inimigo. Corajosamente, Phillips decidiu que, se sua força não fosse avistada por aviões no dia 9, ele tentaria executar sua missão, e às 16h ordenou que a esquadra tomasse o rumo norte. Nesse momento o tempo estava encoberto e caíam violentas chuvas, mas algumas horas depois o céu clareou e três aviões apareceram. Toda a esperança de surpresa se perdera e sem cobertura aérea os navios seriam violentamente atacados pelos esquadrões japoneses muito antes de chegarem ao objetivo. Assim, às 20h15, Phillips, sentindo que os riscos eram grandes demais, retornou pesarosamente a Cingapura. Chegavam, porém, informações dos “desembarques” em Kuantan e o almirante decidiu que tinha de agir. Tendo sido visto zarpar para o norte antes do anoitecer, era pouco provável, ponderou ele, que os japoneses desconfiassem da sua presença em Kuantan, situada bem ao sul, e havia boa chance de ele conseguir surpresa. Assim, pouco antes de uma hora do dia 10 de dezembro ele tornou a alterar o rumo - para Kuantan.

 

Mas o almirante subestimara a eficiência dos nipônicos e a determinação em que se encontravam de não deixar que Prince of Wales e o Repulse prejudicasse, seus planos. Submarinos haviam avistado a “Força Z” no dia 9 cedo, comunicando aos seus o rumo e a velocidade que ela levava. O Almirante Kondo mandara imediatamente o 7o Esquadrão de Cruzadores rumar para o sul, a fim de interceptar Phillips. Os aviões da 22a Flotilha Aérea, armados de torpedos, decolaram para um ataque noturno, mas não conseguiram encontrar a “Força Z”, devido à mudança de rumo, e retornaram a Saigon. Então, às 02h10 do dia 10, outro submarino avistou os navios britânicos e disparou cinco torpedos, que erraram, todos o alvo. Enfurecido, Kondo, verificando que seus navios jamais alcançariam Phillips, mandou a 22a Flotilha Aérea atacar ao amanhecer. Imediatamente após receber a ordem, o comandante da flotilha despachou 12 aviões de reconhecimento e pouco antes das 03h30 um destes avistou os navios de Phillips. Mantendo-os à vista, o piloto comunicou-se com seu QG e, pouco antes do amanhecer, a força de ataque decolou: 34 bombardeiros de alto nível e 51 bombardeiros-torpedeiros, que rumaram confiantes para sudoeste.

 

Entrementes, a “Força Z” navegava para Kuantan, onde chegou às 08h. Não encontrando sinal algum de invasão, Phillips decidiu realizar uma varredura para o norte e leste a fim de examinar algumas barcaças que haviam sido avistadas a distância. Às 10h chegaram informes sobre a presença de aviões hostis e 20 minutos depois o operador do radar do Repulse comunicou o surgimento de pontos em sua tela. Os aviões se aproximavam, vindos do sudoeste. Pelas 11h era possível ver nove deles no céu, os quais começaram sistematicamente um ataque de bombardeio de alto nível contra o Repulse. Demonstrando boa precisão de tiros, os nipônicos faziam cair, de ambos os lados do navio, sua bombas, atingindo uma delas o convés do barco, mas, felizmente, não conseguiu perfurar sua blindagem. Pouco antes do meio-dia, um esquadrão de bombardeiros-torpedeiros apareceu e os grandes navios de linha começaram a manobrar. O Repulse conseguiu, mas quando o Prince of Wales se desviou para bombordo, houve duas enormes explosões. Seus eixos de hélice pararam imediatamente e ele ficou desgovernado. Alguns minutos depois, adernava para bombordo, baixando sua velocidade para 15 nós. Às 12h10 seu capitão comunicou: “Fora de controle”. Entrementes, o Repulse fora violentamente atacado pelos bombardeiros e bombardeiros-torpedeiros, mas mostrando incrível habilidade de manobra, seu comandante, Capitão Tennant, conseguira escapar a todos. Os aviões continuavam chegando. O Prince of Wales foi atingido por mais três torpedos, e depois foi a vez do Repulse. Aviões convergiam sobre ele de todas as direções, não demorando muito para um torpedo atingi-lo. Perdendo o poder de manobra, ele foi repetidamente atingido. O leme enguiçou e o Capitão Tennant, compreendendo que a situação era desesperada, mandou sua tripulação para o convés, a fim de soltar os barcos salva-vidas. Ele próprio narra o que aconteceu:

“Os homens corriam para o convés. Todos haviam sido avisados 24 horas antes para que se munissem de salva-vidas. Quando o navio estava com 34 graus de adernamento para bombordo, olhei para boreste da ponte e vi o imediato e duzentos ou trezentos homens se reunirem a boreste. Não vislumbrei qualquer indício de pânico ou indisciplina. Da ponte, disse-lhes que eles haviam lutado muito bem e lhes desejava boa sorte. O navio manteve-se por pelo menos um ou dois minutos com uma inclinação de 60 ou 70 graus para bombordo, tombando às 12h33”.

 

Dos 69 oficiais e 1.240 marinheiros, 42 e 754, respectivamente, foram recolhidos pelos destróieres. Muitos foram mortos durante o ataque, outros afogaram-se.

 

Entrementes, com os conveses inundados, o avariado Prince of Wales navegava para o norte, sempre atacado pelos bombardeiros. Por volta das 13h ele começou a afundar e seu capitão ordenou aos que ainda se encontravam a bordo que abandonassem o barco. Todos, exceto 20 oficiais e uns 300 homens foram salvos, mas não havia sinal do Almirante Tom Phillips nem do Capitão Leach entre os sobreviventes. Talvez não quisessem ser salvos. Quando o esquadrão de Buffalos, destacados para dar cobertura aérea chegou a Cingapura, o mar estava coalhado de destroços e homens flutuando à espera de serem recolhidos pelos destróieres. Curiosamente, os homens estavam longe de se sentirem desanimados, como um piloto disse mais tarde:

“Era evidente que os três destróieres demorariam horas para recolher aquelas centenas de homens agarrados a destroços ou nadando na água suja e oleosa. Além do mais, havia a ameaça iminente de outro ataque, de bombardeio e metralhadora. Todos eles deveriam estar compreendendo isso, mas quando sobrevoei o local, todos acenaram e ergueram o polegar... o que me deixou meio abalado, pois ali estava algo acima da natureza humana”.

 

A perda da “Força Z” foi um dos maiores desastres sofridos pela Marinha Real em toda a sua história. Para os britânicos que viviam na Malásia, a perda de uma lenda, pois haviam sido informados de que a chegada da esquadra lhes garantiria a segurança, e a esquadra fora eliminada em questão de horas, tal como a esquadra americana em Pearl Harbor. Quando Duff Cooper transmitiu pelo rádio, de Cingapura, naquela noite, que a lamentável perda exigia que os soldados lutassem mais e mais aguerridamente, eles riram tibiamente, com o moral ainda mais abatido. Que diabo estariam fazendo seus líderes? E o almirante? Onde estavam os aviões? Ninguém lhes podia dar uma resposta satisfatória e nem mesmo um raio de esperança. Tudo o que podiam fazer era continuar lutando na chuva torrencial.

 

Para Winston Churchill, o desastre foi sem paralelo. Mais tarde, ele escreveu:

“Em toda a guerra, jamais recebi choque tão direto... Enquanto rolava para lá e para cá, na cama, compreendi todo o horror da notícia. Não havia navios de linha britânica ou americanos no Oceano Índico ou Pacífico, exceto os sobreviventes de Pearl Harbor, que voltava, às pressas para a Califórnia. Por toda aquela vasta extensão de água, o Japão reinava supremo, e por toda parte estávamos fracos e nus”.

 

Como em todos os grandes desastres navais, a perda da “Força Z” tinha seus mistérios. Por que Tom Phillips não avisou Cingapura, ao saber que estava sendo seguido às 10h20 do dia 10? Por que não comunicou à base a intenção de rumar para Kuantan? E, uma vez avistados os aviões inimigos na tela do radar, por que não solicitou o apoio dos Buffalos do Esquadrão 453, que aguardavam em Sembawang para lhe dar cobertura aérea? A informação de que os couraçados estavam sendo atacados partiu do Capitão Tennant, mas... tarde demais.

 

A notícia de que o Prince of Wales e o Repulse haviam sido afundados pelo preço insignificante de três aviões foi recebida no Japão com enorme entusiasmo. Era uma vitória única e sem precedentes em toda a história militar. Para Yamashita, cujo QG ainda estava em Singora, isto significava que sua linha de comunicações, que ia até Samah, estava segura. Entrementes, suas tropas dirigiam-se para o sul, para Jitra, e ele confiava em que seria vitorioso ali, alcançando depois, inevitavelmente, Cingapura.

 

Desastre em Jitra

 

No começo da guerra, o político e ex-diplomata Duff Cooper fora nomeado por Churchill para o postos de Ministro Residente para Assuntos do Extremo Oriente, em nível de gabinete. Sua tarefa principal era presidir o Conselho de Guerra, mas ele também substituiria os comandantes das forças armadas nas suas “atribuições extemporâneas”, daria orientação política e solucionaria qualquer problema no local, desde que, por falta de tempo, não pudesse submetê-lo à decisão de Whitehall. Contudo, segundo dispunham as instruções que tinha, não lhe cabia interferir naquilo que fosse de responsabilidade dos chefes das forças armadas ou dos “representantes de Sua Majestade no Extremo Oriente”. Como se vê, a função de Duff Cooper nada tinha de fácil. Entretanto, homem muito inteligente e dotado de certa agressividade, na primeira reunião que teve com os militares, a 10 de dezembro, afirmou que, como presidente do Conselho, a ele cabia dirigir a guerra. Logo houve oposição por parte de Sir Shenton Thomas, que contestou que o Conselho tivesse poderes executivos. Brooke-Popham concordou que ele continuaria recebendo ordens do Ministério da Guerra, e não de qualquer civil. Assim, o Presidente do Conselho de Guerra e seus dois principais colegas tornaram-se inimigos jurados, e, com isso, as três armas não trabalhavam em conjunto agora, como não trabalhavam antes. Chegara a ter-se a impressão de que alguns dos comandantes graduados preferiam a derrota a cooperar com seus colegas. Desse modo, o Conselho de Guerra redundou num fracasso.

 

Voltando à 11a Divisão, que havia tomado posição no entroncamento rodoviário de Jitra. Embora fosse a melhor posição da área, ela estava longe de ser ideal, sendo escolhida porque protegia o aeródromo de Alor Star e um grupo de aeródromos menores, mais ao sul. Alor Star era um dos mais famosos aeródromos do Extremo Oriente, na época, porque ali foram feitas dezenas de tentativas de quebra de recordes de vôo e corridas aéreas. Amy Johnson parara ali, no vôo da Inglaterra à Austrália, em 1930, assim como Kingsford-Smith, Bert Hunkler, Ray Parer e outros. Ele também foi usado na famosa Corrida Aérea Inglaterra-Austrália de 1934, e os holandeses Moll e Parmentier pousaram ali, assim como os americanos Roscoe Turner e Clyde Pangborn, e os vitoriosos ingleses Scott e Black. Alor Star, com suas instalações e sua reserva de combustível e suprimentos, era de imensa importância para a RAF.

 

Como já dissemos, a 11a Divisão, ao retornar da “Operação Matador”, encontrou as trincheiras inundadas, sem qualquer alambrado e outras formas de proteção. As minas antitanques ainda estavam empilhadas e não havia um metro sequer de linha telefônica estendido. Seus integrantes puseram-se logo a trabalhar, chapinhando na lama e com chuva pesada caindo sobre eles. Cada minuto era precioso e, como eles compreendiam muito bem, não restavam muitos.

 

Murray-Lyon deslocara sua divisão com a 15a Brigada à direita, a 6a Brigada à esquerda e a 26a Brigada na reserva. A frente ia das colinas cobertas de selva, passando por grandes áreas de plantio de arroz, ao mar, estendendo-se por cerca de 24 km, dos quais a 6a Brigada cobria três quartos. Apoiando a infantaria havia duas baterias do 155o Regimento de Campanha e uma bateria do 22o Regimento de Montanha, além do 80o Regimento Antitanque, menos uma de suas baterias. Destacamentos do 1/14o do Punjab cobriam a posição principal e, a partir das 08h do dia 11, estes foram atacados pelos japoneses. Em pouco, suas seções avançadas foram vencidas e os dois canhões antitanques se perderam. O Brigadeiro Garrett (15a Brigada) decidiu recuar a unidade através da posição principal. Mas, às 15h, Murray-Lyon mandou-o tomar posição perto de Nangka, a 3 km de Jitra, e os Punjabis começaram a recuar na chuva. Então os japoneses atacaram com uma coluna de infantaria liderada por tanques, que desceu pela estrada a grande velocidade. Em pouco, ela destruiu a retaguarda da 15a e alcançou