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A colônia pagou caro pela incrível falha dos britânicos em reconhecer a crescente ameaça japonesa. Uma das rotas para Cingapura - a que atravessava a floresta - era “impenetrável” a um exército invasor... mas foi por ali que passaram os nipônicos. E uma retirada humilhante e sangrenta deixou os civis à mercê da medonha ocupação. A Investida
A conquista das Filipinas foi apenas parte de um plano estratégico a que os japoneses deram o suntuoso título de “Guerra do Grande Leste Asiático”, que incluía a invasão da Malásia, da Tailândia, de Bornéu e das Índias orientais Holandesas. Empenhado desde 1937 em guerra com a China, o Japão encontrava-se em desesperada necessidade de petróleo, para abastecer seus aviões e veículos militares, e de muita matéria-prima para atender à fome voraz da sua indústria de munições, e em 1940 e 1941 ele assistia com ansiedade ao fechamento, uma após outra, das fontes a que recorria para a obtenção desses produtos. Primeiro, os Estados Unidos impuseram embargo a toda a exportação de ferro a ele destinada; em seguida, os britânicos cortaram-lhe abruptamente o fornecimento de borracha; depois, em julho de 1941, seus bens nos Estados Unidos foram congelados e, simultaneamente, os americanos suspenderam-lhe as vendas de petróleo. Estava, dessa forma, o Japão entre duas veredas difíceis de palmilhar: abandonar tudo quanto havia tomado à China ou conquistar pela força das armas o que lhe era essencial. Havia petróleo em Bornéu, Java e Sumatra que lhe satisfaria plenamente as necessidades, e mais ao norte, na Birmânia, outra fonte se encontrava disponível. Borracha, era um golpe em cima da Malásia, e pronto. Contudo, para proteger suas rotas de navegação e preparar uma plataforma para as conquistas subseqüentes, o Japão também teria de tomar as Filipinas, controladas pelos americanos. O resultado desse conjunto de medidas seria inevitavelmente um desafio à força da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos. Embora a Grã-Bretanha estivesse às voltas com a guerra na Europa, os Estados Unidos ainda não estavam comprometidos, apesar das restrições que impuseram à venda de matérias-primas ao Japão. A 6 de dezembro de 1941, os japoneses criaram o Exército do Sul, sob o comando do General Hisaichi Terauchi, com a finalidade específica de anexar as fontes de riqueza mineral, além dos territórios que fossem necessários à realização dos objetivos básicos. O exército era composto de dez divisões e três brigadas mistas, e só para a captura das Filipinas, Terauchi destacou duas divisões completas (a 16a e a 48a), dois regimentos de tanques e um batalhão de artilharia média, três regimentos de sapadores e cinco batalhões antiaéreos, formando o 14o Exército, comandado pelo Tenente-General Masaharu Homma. Ele enfrentaria uma força defensiva que consistia de dez divisões de infantaria. Os preparativos para o ataque às Filipinas foram caracteristicamente minuciosos. A partir de meados dos anos 30, os nipônicos haviam realizado atividades de espionagem em grande escala, que lhes deram perfeito conhecimento das forças que os enfrentariam. De posse dos elementos que lhes foram fornecidos pelo Serviço de Inteligência e perfeitamente inteirados da importância do poderio aéreo, através das experiências vividas na China, eles prepararam, para o assalto, duas forças aéreas que apoiariam os ataques terrestres; o 5o Grupo Aéreo da Força do Exército, com 3.075 aviões, e a 11a Frota Aérea (baseada em terra e em porta-aviões) da marinha japonesa, com 444 aviões. Os ataques aéreos se iniciaram ao raiar do dia 7 de dezembro de 1941, cerca de três horas após o golpe contra Pearl Harbor, devido à diferença em longitude, e, no primeiro dia de batalha, eles perderam apenas sete aviões, destruindo 18 de 34 bombardeiros B-17 e dois terços dos efetivos de caças americanos. A 10 de dezembro tiveram início os primeiros desembarques das divisões do exército. O General Douglas MacArthur assumiu o comando da USAFFE, Forças do Exército dos Estados Unidos no Extremo Oriente, integrada também pelas tropas da Comunidade Filipina, em maio de 1941. Manifestando-se contrário à defensividade do plano “Arco-Íris V”, de cuja elaboração participou o Estado-Maior-Geral britânico, e que punha os Estados Unidos na condição de adversário do Japão e Alemanha, ele sugeriu que suas forças, cada vez maiores, fossem aplicadas na manutenção dos japoneses totalmente fora das Filipinas e que o poderio aéreo, desde que aumentado e agindo mais agressivamente, complicaria muito o desenvolvimento dos planos expansionistas dos nipônicos, através da constante ameaça às suas linhas de comunicação marítimas. Para satisfação de MacArthur, o General Marshall aprovou as sugestões por ele feitas e enviou-lhe reforços embora não na quantidade que ele julgava necessária. Quando a guerra começou, MacArthur tinha, pelo menos do ponto de vista numérico, força muito mais poderosa do que os autores do Plano de Guerra Laranja III (War Plan Orange III) - precursor do “Arco-Íris V” (Rainbow V) - haviam pretendido quando formularam a esquematização da defesa das ilhas. Apesar, porém, da correta previsão de MacArthur quanto às áreas que os japoneses visariam e dos informes do Serviço de Inteligência, recebidos dois dias antes dos desembarques principais, realizados a 2 de dezembro, de que um grande comboio de transportes de tropas se dirigia para as Filipinas, os defensores ainda não estavam preparados, e o único obstáculo encontrado pelas tropas de assalto foi a agitação do mar, que dificultou o manejo das suas barcaças. A 23 de dezembro, MacArthur decidiu voltar ao plano de guerra “Arco-Íris V” e concentrar suas tropas na área mais facilmente defensável, Bataan e Corregidor, na entrada da Baía de Manilha. Como resultado dessa medida, embora houvesse verdade na afirmação do General Homma de que a retirada dos soldados aliados da Península de Bataan parecia “gatos entrando numa sacola”, foram precisos três meses de luta selvagem e feroz, desde começo de janeiro até abril, para levar o General King a render suas tropas, exaustas e doentes aos japoneses, quase tão exaustos quanto elas. Uma vez rendidas as forças de Bataan, passou a ser apenas questão de tempo a queda de Corregidor. Atacados por enormes canhões de cerco - obuseiros de 240 mm - e sem meios de ser reabastecidos, os 15.000 americanos que se encontravam na ilha entraram em situação irremediável. Os japoneses estabeleceram uma cabeça-de-praia a 5 de maio e, no dia seguinte, 6 de maio de 1942, Corregidor rendeu-se para uma força de desembarque de apenas 1.000 homens, indo sua guarnição reunir-se aos seus companheiros de Bataan em cruel cativeiro. A perda das Filipinas foi uma verdadeira chicotada no prestígio dos americanos e pôs em destaque a diferença fundamental que havia entre os dois combatentes - do lado americano, confusão, desorganização e falta de decisão de seus líderes; do lado japonês, treinamento rigoroso, disciplina rígida e confiança na vitória e na justiça da causa por que lutavam. Vale dizer, a diferença entre uma nação preparada para a guerra e uma que supunha lhe passasse distante o conflito. |
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Rumores de guerra No transcurso do verão e o outono de 1941, dizia-se que a guerra talvez chegasse às Filipinas, mas ao longo das suas costas enfeitadas de palmeiras, o Pacífico quebrava em brancas fímbrias de espuma. As borboletas, de formas extravagantes e cores muito vivas, voavam por entre os hibiscos, buganvílias, jasmins e orquídeas silvestres. Nas plantações, frutos amadureciam, um mundo deles: mangas, goiabas, frutas-pão, mamões, tamarindos, bananas, abacaxis, cocos. Nas árvores, a passarada inquieta levava longe o som alegre de um chilrar sem fim, e os lagartos, cujas espécies vão a mais de uma centena, esticavam-se ao sol, nas pedras e paredes. O povo, em grande parte católico desde os tempos da ocupação espanhola, mas com a mistura de uns quatro por cento de muçulmanos, descendentes dos antigos conquistadores árabes, dedicava-se às suas tarefas diárias tão pacificamente quanto qualquer outro. Quem poderia pensar em investir contra tanta sugestão de paz? Uma mistura de malaios, chineses, japoneses, hindus, árabes e espanhóis, que produziu homens tranqüilos e belas mulheres, os filipinos nessa época tateavam incertos o caminho da independência dos Estados Unidos da América, que tomaram as ilhas no começo do século ao decadente império espanhol. Mais importante para os filipinos, naquele ano, do que a remota possibilidade de guerra era a própria política local. Excitação e a tensão aumentavam por causa das eleições, que se realizariam em novembro, a primeira depois de introduzida a emenda constitucional que previa uma forma de governo de dois níveis, com um Senado, eleito por voto nacional, e uma Câmara de Deputados, escolhida por voto distrital. Ela também estipulava um mandato de quatro anos para o presidente e o vice-presidente. A liberdade que as Filipinas haviam desfrutado até então, e que lhes permitia eleger seu próprio presidente e sua legislatura, resultara de uma lei aprovada pelas duas casas do congresso americano e ratificada pelo presidente em 1934. Nos termos dessa lei, as Filipinas teriam independência total dentro de dez anos. As negociações que resultaram em tal lei haviam popularizado bastante uma figura no cenário político filipino. Era Manuel Quezon que, em 1935, tornou-se o primeiro Presidente da Comunidade das Filipinas - como era então chamada - com outro político importante, Sergio Osmeña, na vice-presidência. Uma questão que se mostrara particularmente difícil nas negociações era a presença de bases americanas nas ilhas. Os filipinos haviam protestado com tal veemência contra tais bases que sua legislatura rejeitara uma lei de independência anteriormente proposta. Por algum tempo, a questão permaneceu em suspenso, mas era crença geral que os americanos sairiam quando as próprias forças das Filipinas tivessem condições de assumir a responsabilidade pela área. Os soldados, marinheiros e aviadores americanos que guarneciam as bases ou ajudavam no treinamento do exército filipino viviam numa atmosfera de indolência, em parte produto do clima, úmido e enervante, em parte em virtude da certeza em que se encontravam de que a base americana se aproximava do fim. Havia oficiais que insistiam em que a guerra poderia ocorrer a qualquer momento e salientavam a necessidade de que todos deveriam preparar-se para ela. Mas, na maior parte do tempo, o trabalho era levado na base da rotina, com um mínimo de esforço. Nos momentos de folga, eles exploravam o interior, com seus vulcões extintos e aldeias feitas de nipa, um tipo de palmeira onde tribos primitivas viviam o mesmo tipo de existência há séculos. Os visitantes compravam aos navios peças de cerâmica ou talhas de madeira “ifugao”. Quando não estavam nessas explorações, estavam namorando as fascinantes jovens locais - meio orientais e meio ocidentais - pescando nos lagos, por sinal muito piscosos, assistindo aos jogos de jai-lai, nadando ou tomando sol nas praias. Às vezes, divertiam-se com as cabriolas dos társios, com seus olhos grandes e redondos, ou com a destreza do caranguejo-ladrão em subir aos coqueiros, à cata de cocos, que derrubavam e descascavam com sua garra grande e afiada. Uma coisa em que não deixavam de pensar era na possibilidade de um Natal em casa. Quais, dentre eles, seriam agarrados pela mão da sorte? Eles conseguiam admitir pudesse a guerra chegar àquela profusão de cores e à tranqüila beleza das paisagens tropicais. No entanto, sob os cinzentos e chuvosos céus da Europa, na lama da Rússia e nos desertos ardentes da África do Norte era bem acesa a guerra. Aproxima-se a crise Houve algo de quase dinástico na nomeação de um MacArthur como consultor militar do Governo da Comunidade das Filipinas, no posto de marechal de seu exército. Isto porque, em março de 1899, o pai de Douglas MacArthur, General Arthur MacArthur, comandara as forças americanas que derrotaram os insurgentes filipinos e capturaram Manilha, assinalando o início da ocupação americana. Mas seu filho tinha direitos mais que hereditários. A ligação que mantinha com as Filipinas remontava ao seu primeiro turno de serviço, em 1904, logo após formado pela Academia Militar de West Point. Então, em meados dos anos 20, Douglas MacArthur, já Major-General, fez-lhe uma segunda visita, desta vez como comandante do Departamento Filipino, setor do exército responsável pela defesa das ilhas. Também nessa época, o jovem advogado Quezon estava surgindo como líder do povo na luta por sua completa autonomia política. Assim, era lógico que em 1935 Quezon procurasse MacArthur, então Chefe de Estado-Maior, em Washington, e o convidasse para encarregar-se da formação de uma força defensiva para a Comunidade. No outono daquele ano, ele de novo zarpou para Manilha, a fim de se desincumbir da nova tarefa, sabendo que as unidades americanas que se encontravam nas ilhas e com as pequenas forças britânicas e holandesas em Bornéu, Malásia e nas Índias Orientais, eles seriam os únicos baluartes contra o Japão, que todos, Quezon, MacArthur e o Estado-Maior das forças americanas, consideravam os japoneses a principal ameaça à paz naquela área. Para sua força defensiva, ele tinha em mente organizar um exército de cidadãos-soldados baseado no modelo suíço, apoiado por uma pequena força de soldados regulares, que de início consistiria da Força Pública Filipina, unidade americana baseada nas ilhas. De acordo com este plano, a Comunidade, quando recebesse independência total, em 1946, teria cerca de 40 divisões, totalizando aproximadamente 400.000 homens, que seriam estacionados em pontos estratégicos das ilhas. Na realização da tarefa, tanto MacArthur quanto Quezon esperavam grande apoio americano. Quando se evidenciou que tal não ocorreria na escala que ambos esperavam, as relações entre Manilha e Washington ficaram tão tensas, que em julho de 1938 MacArthur demitiu-se da comissão que exercia. Em maio de 1941, porém, o seu sucessor na chefia do Estado-Maior, General George Marshall, enviou-lhe, de Washington, um convite para assumir novo comando, que seria conhecido como Força do Exército dos Estados Unidos no Extremo Oriente (USAFFE). Este seria constituído nas Filipinas, para enfrentar a crescente ameaça do Japão, resumindo numa única força o velho Departamento Filipino e as forças da Comunidade Filipina. MacArthur aceitou e a nomeação entrou em vigor no mesmo instante em que as relações entre Japão e Estados Unidos atingiam o ponto crítico, pois dois meses depois de aceito por ele o convite para o exercício do novo cargo, havendo o Japão, com a conivência do governo de Vichy, ocupado a Indochina Francesa, o Presidente Roosevelt congelou os bens dos súditos japoneses nos Estados Unidos, cortando, simultaneamente, o fornecimento de petróleo americano de que tanto dependiam os nipônicos na guerra que moviam contra os chineses. O Primeiro-Ministro moderado do Japão, Príncipe Fumimaro Konoye, renunciou ao cargo, malogradas as tentativas de negociação, indo substituí-lo o ex-Ministro da Guerra, General Hideki Tojo, militarista conhecido. Era agora evidente que a balança estava pendendo agourentamente para a guerra. Durante anos, Washington desenvolveu toda uma série de planos para a defesa das Filipinas, identificados por um código de cores, correspondendo cada cor a uma situação diferente. O último destes fora preparado na primavera de 1941 e chamava-se “Plano de Guerra Laranja III’, ou “WPO-III” (War Plan Orange III). Previa tal plano uma situação em que somente o Japão e os Estados Unidos estivessem envolvidos em guerra. Ele postulava o abandono de Manilha e a retirada dos defensores para a Península de Bataan, que domina a Baía de Manilha. Dali e das fortalezas situadas ao largo da costa, das quais Corregidor era a mais importante, a baía poderia ser defendida até o momento em que a Esquadra do Pacífico, baseada a 8.000 km dali, em Pearl Harbor, pudesse chegar ao local. Em outubro do mesmo ano, o “Wpo-III” foi substituído por outro plano - o “Arco-Íris V”. Este era de âmbito mundial e em sua preparação foi ouvido o Estado-Maior Geral britânico, destinando-se à fixação de medidas a serem tomadas quando os Estados Unidos estivessem em combate com Japão e Alemanha, esta considerada o Inimigo Nº 1. Neste caso, as forças existentes nas Filipinas adotariam uma estratégia defensiva, semelhante à prevista no “WPO-III”. MacArthur não gostava da abordagem negativa e defensiva destes dois planos, diante do que, escreveu a Marshall, em Washington, sugerindo que, dispondo de forças cada vez maiores, a “defesa tipo cidadela”, baseada em Bataan e Corregidor, poderia perfeitamente ceder lugar a medidas destinadas a manter os japoneses distantes das Filipinas. Melhor ainda, se pudesse ao mesmo tempo aumentar o volume de sua força aérea, colocando-o em níveis adequados, ele se acreditava capaz de ameaçar as rotas de navegação marítima do Japão para o sul, bloqueando-lhe a obtenção de matérias-primas e seus planos de conquista. Em cinco meses poderia reunir as forças necessárias pata tal e, segundo supunha, a guerra não explodiria antes desse tempo. Marshall entusiasmou-se com a sugestão e a 3 de novembro o Major-General Lewis H. Brereton chegou a Manilha para assumir o comando de novo grupamento aéreo, a Força Aérea do Extremo Oriente (FEAF), que seria formada nas ilhas segundo as diretrizes sugeridas por MacArthur. Brereton - que estivera com MacArthur apenas uma vez, antes, quando no comando do 13o Esquadrão de Observação, na França, em 1918 - levara consigo a carta em que Marshall manifestava a MacArthur sua inteira concordância com a mudança de plano. O general ficou de tal modo encantado com isto que, erguendo-se de chofre da mesa, abraçou Brereton e disse: “Lewis, você é tão bem-vindo quanto as flores da primavera”. Voltando-se para o seu Chefe de Estado-Maior, Tenente-General Richard Sutherland, exclamou Mac: “Dick, eles nos vão dar tudo o que pedimos”. O envio de homens e suprimentos dos Estados Unidos aumentou de imediato, embora nunca na qualidade desejada por MacArthur. Pelo final da primeira semana de dezembro, 10 divisões do Exército Filipino haviam sido mobilizadas, somando 20.000 soldados regulares e 100.000 reservistas filipinos, totalmente inexperientes, do chamado Exército Nacional de Cidadãos. O estado de treinamento da tropa variava terrivelmente de divisão para divisão e a convocação fora de tal forma desorganizada que algumas unidades estavam aquém dos efetivos normais, ao passo que outras os ultrapassavam. Entre as que excediam os limites oficiais, havia duas baterias, de artilharia com um total de 80 canhões; estes permaneceram ociosos até que, com o resto dos excedentes, foram distribuídos por outras unidades. Devido a este erro, o treinamento da artilharia, arma que se revelaria vital, só começou quando já iniciadas as hostilidades. O nível cultural dos filipinos, muitos dos quais analfabetos, virou problema, como é fácil imaginar, pois a maioria se expressava no dialeto das aldeias de onde eram originários, enquanto que seus oficiais só conheciam o inglês, o espanhol ou “tagalog”, a língua falada em Manilha e arredores. Havia escassez de peças de artilharia leve e metralhadoras e as armas portáteis eram fuzis Enfield, do modelo usado na Primeira Guerra Mundial. O uniforme da tropa consistia de calção, camisa de mangas curtas - ambos totalmente inadequados para as longas noites frias que viriam - e sapatos de lona, que não agüentavam duas semanas de uso. Não havia reposições para uniformes e armas, e capacete de aço era coisa inexistente. Em quase todos os aspectos, eles eram mais um apressado ajuntamento de homens que propriamente um exército. As únicas unidades que mostravam quaisquer sinais de disciplina e coesão pertenciam aos Exploradores Filipinos, força mista de americanos e filipinos. Teoricamente, os Exploradores faziam parte da Divisão Filipina, com 10.473 homens, que também incluía o 31o Regimento, a única unidade de infantaria totalmente americana sediada nas ilhas. A divisão tinha alguma artilharia, incluindo duas baterias de canhões de artilharia de montanha de 2,95 polegadas. Na prática, a Divisão Filipina, sem dúvida a força mais digna de confiança, raramente operou como unidade independente e quase sempre estava fragmentada pelo território. Apesar da soma de empecilhos e imponderáveis, MacArthur tinha, pelo menos numericamente, uma força muito mais poderosa que qualquer de seus predecessores tiveram e por certo muito maior que a imaginada pelos estrategistas americanos que prepararam o “WPO-III”. Ademais, desde setembro ele vinha recebendo reforços, inclusive o 200o Regimento de Artilharia de Costa (Antiaérea), com 12 canhões de 3 pol. e 25 canhões de 75 mm em reparos autopropulsados. Foram-lhe também enviados 108 tanques leves M-3 e, a 21 de novembro, o chamado Grupo de Tanques Provisório foi criado, sob o comando do Coronel James Weaver. Também em termos de efetivos aéreos MacArthur teve mais sorte que seus antecessores, embora, considerando-se a magnitude e a urgência da ameaça, sua força na verdade estivesse crescendo com demasiada lentidão. Em outubro, 9 Fortalezas Voadoras B-17 haviam pousado no Campo Clark, em Manilha, seguidas de 50 caças, totalizando os efetivos operacionais de Brereton 35 Fortalezas Voadoras e 72 caças, na maioria Curtiss P-40 “Kittyhawks”. Isto era cerca de um terço do que MacArthur solicitara, mas, mesmo assim, era uma força bem razoável, não se justificando o que, mais tarde, veio o general a afirmar, de que “não passava de uma força meramente simbólica” a que possuía. É certo que em novembro de 1941 o General Marshall sentia-se perfeitamente justificado quando, em entrevista coletiva à imprensa, declarou que a situação das Filipinas era excelente. Referindo-se às B-17, disse que ali se encontrava a “maior concentração de efetivos em bombardeiros pesados de qualquer parte do mundo”, poderiam contra-atacar e incendiar as “cidades de papel do Japão”, ao mesmo tempo que tornavam a guarnição filipina independente de poderio naval. Com seus efetivos crescendo assim e tendo obtido a aprovação do plano que havia traçado para a defesa das ilhas, MacArthur passou a organizar suas forças e a planejar seus movimentos. Não foi nada fácil a organização da defesa de um grupo de mais de 7.000 ilhas vulcânicas de tal modo dispostas a ponto de negar acesso ao inimigo. Este, contudo, empreendeu com entusiasmo tal proeza. A maior massa terrestre nas Filipinas é Luzon, com quase 41.000 milhas quadradas de área em grande parte montanhosa. Duas planícies interpõem-se entre as cadeias de montanhas ali existentes, das quais a mais elevada chega a quase 3.000 metros de altura. A mais setentrional, estendendo-se como um corredor entre as montanhas que margeiam o rio Cagayan, vai desde a costa norte até onde as duas cadeias de montanhas se aproximam. A planície central, mais ao sul, corre do golfo de Lingayen, na costa oeste, até Manilha propriamente dita. MacArthur viria a dizer, na época e posteriormente, que sempre esteve na quase certeza de que os japoneses desembarcariam no golfo de Lingayen. Esta quase certeza baseava-se não só na dedução lógica - a conveniência ao desenvolvimento de grandes forças, a proximidade de Manilha etc. - como também nas previsões feitas por Homer Lea, em seu livro The Valor of Ignorance, publicado em 1911. Lea previu o crescimento da agressão japonesa na Ásia e que Lingayen seria o mais provável ponto de desembarque das forças nipônicas nas Filipinas. Veremos mais adiante como MacArthur reagiu à previsão de Lea e à dedução a que chegou baseado na lógica. Como Luzon era a maior ilha, a principal concentração defensiva teria, obviamente, de ser montada ali. MacArthur dividiu em dois grupos as forças que tinha na referida ilha. O maior, chamado Força Luzon Norte, foi colocado sob o comando do Tenente-General Jonathan Wainwright, descendente de tradicional família militar. Formado em West Point em 1906, em seus primeiros 34 anos de atividade não se registraram, em sua carreira, fatos que o notabilizassem. A experiência de combate que tinha fora adquirida contra insurgentes filipinos e como oficial de Estado-Maior, na França, na Primeira Guerra Mundial. Em 1938 ele foi promovido a brigadeiro-general, sendo, dois anos depois, enviado a Manilha, para comandar a Divisão Filipina, que se encontrava em formação. Alto e magro, com demorada permanência sobretudo na cavalaria, ele estava prestes a iniciar, como diz William Craig em seu livro, A Queda do Japão, “a tarefa culminante da sua carreira - talvez a mais dolorosa das que foram atribuídas a qualquer general americano durante toda a guerra”. Para tal missão, entregou-lhe MacArthur quatro divisões, inclusive uma de Exploradores Filipinos, bem como o 26o de Cavalaria dos Exploradores Filipinos; duas baterias de canhões de 155 mm e uma bateria de canhões de montanha de 2,95 pol. Além disso, a 71a Divisão do Exército Filipino também foi posta sob seu comando, embora ele só pudesse usá-la com prévia permissão do USAFFE. O grupamento menor, denominado Força Luzon Sul, estava sob o comando do Brigadeiro-General George Parker Jr., e devia cobrir as partes baixas da ilha, desde as Batangas até Legaspi - onde se esperava que os atacantes, partindo das Ilhas Carolinas, sob mandato japonês, desembarcassem. A força consistia de duas divisões do exército filipino e uma bateria de artilharia de campanha. A segunda ilha em tamanho é Mindanao, situada na extremidade sul do arquipélago com área de 36.906 milhas quadradas. Mindanao foi colocada sob o comando do Brigadeiro-General William Sharp, com duas divisões do exército filipino e uma bateria de artilharia, enquanto as Visayas, o conjunto de ilhas de menor extensão territorial que as duas já referidas, ou seja, Cebu, Leyte, Panay, Negros, Samar, Madbate e Bahol, ficavam sob o comando do Brigadeiro-General Bragford Chynoweth, com três divisões do exército filipino. Enquanto MacArthur tomava suas providências em terra, o Almirante Thomas Hart, comandante da Esquadra Asiática examinava a melhor maneira de acionar as forças de que dispunha. Hart, já com 44 anos de serviço ativo, estava no comando da Esquadra Asiática havia pouco mais de dois anos, onde gozava de reputação de ser rigoroso disciplinador. Esguio e irascível, o seu relacionamento com MacArthur, a quem considerava egoísta e histriônico, não tinha por característica a lhaneza e afabilidade. MacArthur, por seu turno, via no almirante um pessimista, um derrotista rematado. Certa feita, pouco depois do começo da guerra, ele comunicou, irritado, a Marshall que Hart se recusara a escoltar até Manilha um comboio, com carregamento de canhões, munição e aviões, que havia sido desviado para Brisbane, Austrália. “Hart”, declarou ele, “parecia convencido de que as ilhas estavam irremediavelmente condenadas”. Esta queixa, de que a Marinha carecia de dinamismo e agressividade, ele não cansava de repetir. De sua parte, Hart afirmava que MacArthur era inteiramente incapaz de ver as limitações de uma esquadra tão pequena quanto a dele, consistindo apenas de um cruzador pesado, o Houston, dois cruzadores leves, 30 cruzadores da Primeira Guerra Mundial, 28 submarinos e vários navios auxiliares. Além destes, ele tinha em Olongapo, na baía de Subic, o 4o Batalhão de Fuzileiros Navais, uma força de elite de 750 homens, sob o Coronel Samuel Howard, e sua pequena força aérea naval. Esta compreendia 28 aerobotes Catalina - três dos quais anexados ao tênder William Preston, quatro aviões utilitários e um avião de observação. A força estava organizada sob o nome de “Ala de Patrulha 10”. No outono do ano anterior, Hart transferiu suas unidades da China para a baía de Manilha. Segundo os planos vigentes, sua pequena esquadra era responsável pela defesa das Filipinas e devia ajudar o exército no máximo que pudesse, mas Hart, como, de resto, os que se encontravam na ilha, não tinha ilusões sobre o que força tão pequena podia fazer. Ele acreditava que sua melhor esperança estava numa ação de retardamento baseada na baía de Manilha, enquanto esperava - como no “WPO-III” as forças terrestres tinham de esperar - que a Esquadra do Pacífico fosse libertá-los. Entretanto, já a 20 de novembro Hart recebera ordem, do departamento da Marinha, para deixar Manilha e levar seus navios para o sul, onde, segundo se supunha, ficariam fora do alcance dos japoneses. Excetuando-se os submarinos, que seriam usados para tentar o afundamento dos navios que transportariam as tropas de invasão, e alguns Catalinas, necessários ao serviço de reconhecimento, a esquadra partiu naquele mesmo dia, à exceção de quatro destróieres, seis canhoneiras fluviais e cinco caça-minas, bem como algumas embarcações auxiliares. A 27 de novembro Hart foi avisado pelo mesmo Departamento da Marinha que era de esperar uma “ação agressiva por parte do Japão”, provavelmente contra Bornéu, a península de Kra - a estreita faixa de terra pelo qual a Tailândia se liga à Malásia - ou às Filipinas. Esta informação foi extraída das mensagens diplomáticas, altamente secretas, enviadas pelos japoneses através da chamada rede “Mágica”, num código que os americanos haviam conseguido decifrar. Nessas mensagens, o dia 29 de novembro era freqüentemente mencionado como o “fim de prazo”, daí a convicção de que aquele seria o dia escolhido pelos japoneses para o que quer que pretendiam fazer. Hart e MacArthur agiram com base na advertência recebida. Hart fez aumentar a atividade de patrulha dos Catalinas e MacArthur mandou que as B-17, estacionadas no Campo Clark e em bases aéreas próximas de Manilha, fossem transferidas para locais menos suscetíveis de sofrer ataque aéreo. Esta providência, porém, mostrou-se mais lenta e difícil do que parecia, porque os únicos campos, ao sul, situados fora do alcance dos nipônicos, aguardavam a chegada de mais Fortalezas Voadoras deslocadas do Havaí, sendo preciso reservar-lhes espaço. Além disso, em vista dos novos planos, os bombardeiros talvez tivessem de realizar um contra-ataque rápido, depois que o Japão declarasse guerra, e, para tanto, precisavam encontrar-se em local onde pudessem ser aprontadas. No fim, somente uma 17 foram transferidas para o sul. Embora os japoneses tivessem com freqüência mencionado o dia 29 de novembro, eles haviam sido suficientemente cautelosos para não especificar a data precisa e o local exato das pretendidas ações, em virtude do que, todas as bases americanas nas Filipinas e outros locais foram postas em estado de alerta, sendo inevitável que, ao passar o sábado, 29 de novembro, e o domingo, 30, sem que nada acontecesse, viesse a declinar a expectativa. Compreendendo isto, e diante do que revelavam as mensagens interceptadas, que não deixavam dúvida quanto ao que vinha sendo em segredo preparado, o Departamento de Inteligência Naval queria mandar um segundo aviso de guerra, a 4 de dezembro. Isto, porém, foi vetado em nível mais alto. Não obstante, a partir daquele dia, MacArthur mandou que seus aviões interceptadores iniciassem patrulhas noturnas das águas territoriais. A cada noite, daí por diante, eles encontravam grupos de bombardeiros japoneses entre 30 e 80 km da costa, voltando sempre antes de chegar à Linha Internacional. Planos e decisões Para os japoneses, havia quatro barreiras às suas ambições no Pacífico: a Indochina Francesa; os britânicos em Cingapura - apoiados até certo ponto pelos holandeses que se encontravam nas Índias Orientais; a Frota Americana do Pacífico e, por último, os sempre crescentes efetivos da Força Aérea do Extremo Oriente, nas Filipinas. Em meados de 1940, a derrota da França a eliminara como força a ser considerada, enquanto que a Grã-Bretanha, sem a Frota do Pacífico (que há vinte anos seus estrategistas navais insistiam em que era o único modo de proteger suas possessões no Extremo Oriente), estava seriamente comprometida com a defesa do próprio solo. Restava apenas a custosa base de Cingapura para qualquer manifestação, em última análise inútil, do poderio imperial na ponta da Península Malaia. Os japoneses sabiam que o Exército Britânico era ali representado pelo III Corpo Imperial, formado de apenas 32 batalhões de infantaria, ou o equivalente a três fracas e mal armadas divisões, transferidas principalmente da Austrália e da Índia, sem qualquer treinamento especial, como, por exemplo, a guerra na selva, antes de tomarem posição na linha. Em termos de forças aéreas, os britânicos tinham 150 aviões, todos de reduzido raio de ação (exatamente onde era essencial que fosse amplo), e na maioria antiquados. As substituições de peças não podiam ser feitas, porque os aviões e navios que poderiam transportá-las eram necessários ao envio de ajuda à Rússia, para que seus exércitos se mantivessem em luta. Em novembro de 1941, quando as negociações com os Estados Unidos rumavam para o impasse, o Estado-Maior Geral Imperial Japonês começou a arrumar os pormenores do grande plano de guerra. A conquista das Filipinas passou a fazer parte da Guerra do Grande Leste Asiático, que também incluiria a tomada da Malásia, da Tailândia, de Bornéu e das Índias Orientais Holandesas. A 6 de novembro, o Exército Sul foi criado para esta tarefa, com o General Conde Hisaichi Terauchi, ex-ministro da guerra, como seu comandante. Suas forças compreendiam o 14o, o 15o o 16o e o 21o Exércitos, somando 10 divisões e três brigadas mistas. O 14o Exército foi destacado para a captura das Filipinas e Terauchi nomeou o Tenente-General Masahuru Homma seu comandante. Homma, o Comandante-Chefe em Formosa, já havia ocupado o comando de combate na guerra da China. De compleição física que lembrava um autêntico peso-pesado, excepcionalmente alto para um japonês, com 1,80 m dos pés à cabeça, que trazia sempre raspada, Homma era a imagem viva de um valente gladiador. As aparências externas, porém, ocultavam um espírito arguto e ágil. Estava com 47 anos de idade e com muita experiência. Após formar-se pela Escola de Estado-Maior japonesa, ele fora nomeado, no último ano da Primeira Guerra Mundial, Adido Militar do Japão na Grã-Bretanha e, depois, em 1922, na Índia. Mais tarde, como chefe do Departamento de Imprensa do Exército, ele sentiu melhor que a maioria de seus colegas a importância de um bom relacionamento com a imprensa, passando os correspondentes de guerra nipônicos a fazer parte quase sempre de sua comitiva. Os planos para a tomada das Filipinas já haviam sido preparados pelo Estado-Maior Geral Imperial e, em meados de novembro, Homma e outros comandantes inteiravam-se de tais planos, numa série de reuniões presididas pelo Primeiro-Ministro Tojo, que acumulava o cargo de Ministro da Guerra. Explicaram-lhes que o ataque a Pearl Harbor eliminaria a Frota Americana do Pacífico, deixando como única oposição naval a pequena Frota Asiática de Hart. Os estrategistas japoneses estavam na disposição de não deixar nada ao acaso e deixaram ao Vice-Almirante Ibo Takahashi, Comandante-Chefe da 3a Frota, a responsabilidade de cobertura naval dos desembarques nas Filipinas, dando-lhe uma frota poderosa para levar a cabo a tarefa. Ao mesmo tempo, Takakashi devia dirigir todas as operações navais e anfíbias até que Homma desembarcasse com as principais forças de invasão que desceriam em Luzon. Takahashi dividiu sua frota em duas forças, com uma em Formosa e a outra em Palau, nas Ilhas Carolinas. Os detalhes foram preparados por Homma e seus colegas de comando, numa conferência realizada na cidade de Iwakuni, em Honshu do Sul, de 13 a 15 de novembro. Ali decidiu-se que, devido à presença da Força Aérea do Extremo Oriente, um ataque às Filipinas tinha de ser dividido em duas fases distintas e mutuamente dependentes. Na primeira, deveria haver um poderoso ataque aéreo destinado a anular a capacidade da Força Aérea do Extremo Oriente de atacar Formosa ou o Japão metropolitano. Deste modo, o potencial de guerra dos Estados Unidos no Pacífico, no mar e no ar - os dois setores mais importantes na região - seria obliterado. Ao mesmo tempo, abrir-se-ia caminho para a segunda fase da operação, que deveria ser realizada em seguida e rapidamente. Esta consistia dos desembarques marítimos nas ilhas principais, visando a sua rápida neutralização. Os japoneses então poderiam avançar sem ser molestados para a conquista da Sudeste Asiático. Uma medida da confiança (ou arrogância) japonesa é que as forças destacadas para esta tarefa eram relativamente pequenas: duas divisões completas, a 16a e a 48a, juntamente com dois regimentos de tanques, dois regimentos e um batalhão de artilharia média, três regimentos de sapadores e cinco batalhões antiaéreos. Com forças desse porte, Homma devia atacar as 10 divisões da USAFFE. Esta confiança resultava não só de convicção da superioridade do combatente nipônico em relação aos soldados do inimigo, mas também do conhecimento exato da sua situação defensiva. Durante anos, o sistema de espionagem japonês reunira detalhes das posições e tamanhos das bases americanas nas Filipinas, bem como da viabilidade das ilhas como terreno de lançamento de ataques subseqüentes a Bornéu e às Índias Orientais Holandesas, situadas mais ao sul. Desde meados dos anos 30, eles haviam entrado, aos milhares, pelo porto de Davao, na extremidade sul de Mindanao, intitulando-se homens de negócios, fotógrafos itinerantes ou caixeiros viajantes percorrendo cidades e aldeias. Eles ajudaram o Alto Comando Imperial a formar um quadro da situação nas ilhas e a inteirar-se minuciosamente da vida nas Filipinas. Este conjunto de informações seria de grande utilidade para o exército, a longo prazo. De imediato, porém, ele ajudou os estrategistas da força aérea a preparar planos para a derrota da Força Aérea do Extremo oriente, etapa considerada vital para o êxito nas Filipinas e para o bom resultado no ataque a Pearl Harbor. A certeza dos danos que a espionagem bem organizada poderia causar, porém, deixou-os nervosamente cônscios da segurança. Neste estágio, eles estavam preocupados sobretudo com a possibilidades de os americanos serem avisados a tempo e deslocarem seus aviões dos aeródromos situados em torno de Manilha para bases existentes no sul, onde estariam fora do alcance dos aviões japoneses. Aliás como vimos, estas mudanças já estavam em curso. Para não dar tempo aos americanos de promover a evacuação, os ataques aéreos às suas bases foram programados para ter lugar no Dia “X”, o primeiro dia da guerra, e o mais breve possível após o ataque a Pearl Harbor. A intenção original fora fazê-los coincidir, mas isto se revelara impossível, pois ainda seria noite em Formosa algumas horas após o nascer-do-sol no Havaí. Os ataques às Filipinas, portanto, não poderia, ocorrer antes de três horas após o ataque à Frota do Pacífico. O mais cedo possível, mas concordou-se em que, se o cronograma fosse seguido à risca, e os aviões japoneses não se atrasassem, ainda assim tudo deveria correr bem. Para que suas intenções não fossem descobertas, os japoneses tomaram a precaução de proibir reconhecimento aéreo ou submarino antes do ataque, excetuando-se a aerofotografia, de grande altitude, dos lugares que o exército iria invadir. Usando as fontes de Inteligência, cuidadosa e pacientemente exploradas, o Tenente-Coronel Tokutaro Sato, chefe de operações do 14o Exército, calculou que os americanos tinham cerca de 200 aviões em condições de combate. (Esta, na realidade, era uma estimativa liberal, pois o Estado-Maior de MacArthur estimava-os em 150). Confiando nesses números, os japoneses destacaram duas forças aéreas para a campanha das Filipinas, que eram: o 5o Grupo Aéreo da Força Aérea do Exército, comandado pelo Tenente-General Hideyoshi Obata, que daria 307 aviões de primeira linha, incluindo os bombardeiros leves Kawasaki Ki-15 e Mitsubishi Ki-30, além de elementos de apoio; e a 11a Frota Aérea da Marinha comandada pelo Vice-Almirante Nishizo Tsukahara, que daria 444 aviões baseados em terra e em porta-aviões, na maioria caças Mitsubishi Zero-Sem (“Zeros”) e bombardeiros bimotores Mitsubishi Tipo 1 (“Bettys”), perfazendo um total de 751 aviões. Calculou-se que isto lhes daria a proporção de três para um, necessária para garantir a supremacia aérea sobre os americanos. Entre as dificuldades que confrontavam os planejadores da força aérea, estava a maneira como os aviões japoneses alcançariam alvos situados nos limites do seu raio de ação. Se os aviões fossem levados por porta-aviões, estaria resolvido o problema, mas somente um porta-aviões pequeno, o Ryujo, poderia ser retirado da força que atacaria Pearl Harbor. Portanto, os comandantes da força aérea do exército e da marinha estabeleceram que a marinha, cujos aviões tinham maior raio de ação, atacariam a metade sul de Luzon, que compreendia a principal base aérea, no Campo Clark, a área de Manilha, a Base Naval de Cavite e as defesas do porto. A força aérea do exército, com menor capacidade de alcance, atacaria a metade de Luzon situada ao norte de uma linha traçada desde o golfo de Lingayen até a costa oeste. Ao mesmo tempo, como precisavam de aeródromos situados na distância de ataque, uma das primeiras tarefas das forças de desembarque avançadas seria tomar campos de pouso americanos e filipinos. Como outra tarefa preliminar, uma força-tarefa especial, de 500 homens, devia tomar a ilha de Bataan, a meio caminho entre as Filipinas e Formosa, e adaptar rapidamente a pista de pouso para utilização. Este desembarque ocorreria no Dia “X” e, assim, representaria o primeiro assalto terrestre da campanha. Uma vez obtida a superioridade aérea, o caminho estaria aberto para os ataques anfíbios principais. Estes ocorreriam a 22 de dezembro, no golfo de Lingayen. Dali, as forças, descendo pelo corredor da planície central, avançariam sobre Manilha, onde, segundo esperavam os nipônicos, ocorreria a principal batalha da campanha. Para envolver os defensores, haveria um segundo desembarque, a 24 de dezembro, num ponto da costa leste de Luzon, logo abaixo de Manilha. Assim, os dois eixos principais do ataque ficavam exatamente ao longo das linhas previstas, havia mais de trinta anos, por Homer Lea, em cujo trabalho MacArthur se baseou, segundo veio a afirmar, para desenvolver suas medidas defensivas. Para proteger os flancos do seu avanço principal, Homma decidiu que, antes do ataque, forças menores deveriam desembarcar em Aparri, na costa norte de Luzon, onde a planície de Cagayan chega ao mar, e em Vigan, na pequena faixa costeira do noroeste, seguido de um desembarque na extremidade mais meridional de Luzon, na área de Legaspi. Além de dar cobertura aos flancos, ele esperava que tais desembarques serviriam ainda a duas outras finalidades: dividiriam e afastariam número de defensores suficiente para facilitar a ação principal e, ao mesmo tempo levariam à tomada dos aeródromos de onde poderia se promovida a destruição da Força Aérea do Extremo Oriente. Devido às forças limitadas disponíveis para toda a campanha, necessário se fazia que fosse parcimonioso na distribuição de homens para estes ataques subsidiários e no fim, somente seis batalhões, com suas várias unidades de apoio, puderam ser destacados para realizá-los. Depois que as forças de Homma tivessem completado o envolvimento dos defensores de Manilha e o seu aniquilamento, as ilhas-fortalezas da baía deveriam ser neutralizadas e, em seguida, toda a Luzon seria ocupada. Apesar das forças que tinha sob comando, o plano exigia que Homma completasse toda a missão em cerca de 50 dias. Aliás, era essencial, para o planejamento do Estado-Maior Geral que assim fosse, pois grande parte das suas forças seria usada nas campanhas além das Filipinas. Como o arquipélago era considerado um segmento importante da caminhada para as Índias Orientais Holandesas, ao mesmo tempo foram preparados planos para a ocupação de Davao, em Mindanao e da Ilha de Jolo, situada entre Mindanao e Bornéu, para servirem de áreas de concentração do avanço do 16o Exército para o sul. Quando prontos todos estes planos, Homma começou a fazer seus preparativos no 14o Exército. A 48a Divisão, incluindo suas unidades aéreas, foi concentrada em Formosa e seus aeródromos. Os aviões seriam lançados nos ataques a Aparri e Vigan e nos desembarques principais no golfo de Lingayen. Destacamentos da 48a foram enviados às Pescadores e Palau, onde embarcariam para os desembarques em Legaspi. Ao mesmo tempo, Homma concentrou a 16a Divisão em Amami Oshima, a mais setentrional das Ryukyus - a faixa de ilhas que se estende do Japão metropolitano na direção de Formosa como a cauda de um dragão. Estas tropas participariam dos desembarques ao sul de Manilha. Durante a concentração e o carregamento dos barcos, o segredo em torno dos portos era tal que somente um punhado de oficiais do estado-maior de Homma conhecia inteiramente o plano. Este grupo de oficiais tinha de viajar constantemente entre as zonas de embarque, respondendo a perguntas resolvendo as dificuldades que surgiam. Mesmo assim, a confusão era enorme. Comandantes de unidade recebiam informações muito sucintas. Os movimentos mais complicados só lhes eram dados a conhecer momentos antes de serem executados, não sobrando tempo para uma avaliação crítica. A qualquer problema emergente era sempre dada solução provisória, pois os oficiais nunca sabiam ao certo se, com seus esforços, por mais bem intencionados, estavam ou não sabotando a operação. Durante este período, a 21a e a 23a Flotilhas Aéreas da 11a frota Aérea, do Vice-Almirante Tsukahara, estiveram estacionadas em Formosa, com destacamentos menores em Palau, em prontidão para o ataque, Ao mesmo tempo, enquanto a força atacante estava manobrando para tomar posição, em meio a fechadíssimo segredo, as forças americanas, no mundo inteiro, estavam ansiosamente em alerta, após o aviso de 27 de novembro. Nas Filipinas, Hart fazia os preparativos que podia e MacArthur iniciara seus vôos de interceptação, encontrando formações de bombardeiros japoneses em noites consecutivas. O que Hart e MacArthur ignoravam é que, na Conferência Imperial que contou inclusive com a presença do Imperador Hiroíto, realizada a 1o de dezembro, os nipônicos decidiram ir à guerra. Ao mesmo tempo, a frota destinada à “Operação Z”, o ataque a Pearl Harbor, já percorrera três quartos do caminho a ser coberto através do Pacífico. O Dia “X”, fora fixado, era 7 de dezembro. Foi na noite daquele dia que três forças-tarefas japonesas zarparam de Formosa, protegidas pela escuridão. Duas dirigiam-se para Luzon e uma para Bataan. Os primeiros atos de
guerra O Almirante Hart não era exatamente o tipo do homem para quem pudesse telefonar de madrugada sem que houvesse uma razão muito boa. Mas o Tenente-Coronel William Clement, o oficial de dia, sabia que suas razões eram de fato fortes quando pegou o telefone às 03h - hora de Manilha - de segunda-feira, 8 de dezembro, no QG da Frota Asiática, localizado no Edifício Marsman. “Almirante”, disse ele, “lave o rosto com água fria. Estou indo para aí com uma mensagem”. O apartamento de Hart ficava a uns 300 m do Edifício Marsman, no Hotel Manilha. Um dos mais modernos hotéis da cidade, ele era o lar ou local de reunião de maior parte dos líderes da vida filipina, inclusive altas patentes das forças armadas americanas e suas famílias. Diante da ameaça de guerra, porém, as famílias de muitos deles haviam sido mandadas para os Estados Unidos, e Clement, ao atravessar o saguão vazio, tomando o elevador para o andar de Hart, sentiu o peso da solidão que ali passou a fazer residência. Em seu quarto, Hart sentou-se na beira da cama e leu a mensagem que Clement lhe levara: “Ataque aéreo sobre Pearl Harbor. Não é exercício”. Clement explicou que o operador de rádio do Edifício Marsman captara a mensagem do Havaí e, como era seu amigo, tendo reconhecido, pela “batida”, que era procedente de lá, entregou-lhe rapidamente o texto recebido, certo de que o alarma era verdadeiro. No Havaí seriam 08h de domingo, 7 de dezembro, o que significava que os japoneses haviam atacado após o nascer-do-sol. Hart pegou um bloco de papel e escreveu seu primeiro despacho de guerra, a lápis, para ser transmitido à sua frota: “Japão iniciou hostilidades. Comportem-se de acordo com esse fato”. Ele ensaiara o texto, mentalmente, vezes sem conta nas últimas semanas, mas quando teve de escrevê-lo, estava tão nervoso que errou. A seguir, vestiu-se, fez uma rápida refeição e, às 04h, chegou ao seu gabinete. Meia hora antes é que MacArthur ouviu a notícia. Significativamente, a informação não partiu de fontes da Frota Asiática (Clement afirmou, mais tarde, que tentara telefonar para o QG da USAFFE, mas não conseguindo, ligou para a casa de um dos oficiais de Estado-Maior de serviço). Quem lhe deu a notícia foi seu chefe de Estado-Maior, Sutherland. Como Hart, MacArthur vivia no Hotel Manilha, ocupando-lhe a cobertura, com sua mulher, Jean (com quem se casara quatro anos antes), seu filho, de três anos, Arthur, e sua babá cantonesa, Ah Cheu. Eles eram uma das poucas famílias ainda residentes no hotel. MacArthur e sua mulher discutiram se ela e a criança deviam partir, mas chegaram à conclusão de que, ficando - sobretudo por ser ele um marechal do exército filipino - estariam demonstrando confiança na capacidade dos filipinos de se defender. Conhecendo os efetivos das forças americanas no Havaí, a primeira reação de MacArthur à notícia foi que, se os japoneses haviam sido realmente tão temerário a ponto de atacar aquela base, sofreram, sem dúvida, derrota considerável. Somente às 05h30 é que, incrédulo, começou a receber notícias do desastre que se abatera sobre a Frota do Pacífico. Quem primeiro lhe falou a respeito foi Sutherland, homem sério e competente que, como de hábito, estava em seu gabinete de trabalho, já bem alta a noite, quando ouviu a notícia, por uma rádio comercial. Sua reação também foi típica. Ele a transmitiu ao seu comandante e, depois, comunicou-a a todos os comandos de tropas, determinando-lhes que tomassem posições de batalha. Foi nesta mesma transmissão comercial que Brereton, no Campo Clark, a base principal da Força Aérea do Extremo Oriente, ouvira a notícia e, por sua vez, alertara suas unidades. Brereton era, sob muitos aspectos, a antítese de Sutherland. Dava a impressão de estar mais feliz em vôo do que cuidando de detalhes administrativos e de não ter nenhuma vocação para militar de gabinete do qual Sutherland era o arquétipo. Na verdade, sua nomeação para Manilha, naquele mês de novembro, fora uma surpresa agradável. Quando chamado à presença do seu superior para receber a notícia, ele esperava ser repreendido por negligência. A impressão geral era que haveria conflito entre personalidades tão diferentes como as de Sutherland e Brereton. Mas, se qualquer divergência houvesse ocorrido antes das últimas 24 horas, teria sido um desastre. Menos de três horas depois que as três pessoas profundamente envolvidas ouviram a notícia, ocorreu o primeiro ato de guerra contra as Filipinas. Ao amanhecer, 13 bombardeiros de mergulho japoneses, acompanhados de nove Zeros, atacaram o William Preston, no golfo de Davao, ao largo de Mindanao. Acreditava-se que os atacantes haviam decolado do porta-aviões Ryujo, um dos menores da esquadra japonesa, com efetivo de 36 aviões. Um dos três aerobotes Catalinas do Preston estava de patrulha; os outros dois foram destruídos, perdendo-se um piloto. Mas o Preston escapou sem danos e chegou a um ancoradouro seguro. Este ataque não passou de uma escaramuça preliminar, uma luta fortuita. Em Formosa, as turmas de terra haviam trabalhado durante toda a noite, à luz de lâmpadas a arco elétrico, armando e preparando as fileiras de aviões para a batalha real, em atmosfera de densa expectativa. Ninguém tinha a menor idéia do que se planejava, embora soubessem todos que o momento era da maior gravidade, pois sentiam a tensão dos seus superiores e eram por ela afetados. No QG do 14o Exército, a tensão atingia quase o ponto de ruptura. Homma e seu estado-maior sabiam que seu sucesso e o de Pearl Harbor eram interdependentes. Então, mais ou menos ao mesmo tempo que Hart, MacArthur e Brereton ouviram nas Filipinas a notícia de que o êxito do ataque tornou-se do conhecimento geral em Formosa. Ela, contudo, foi recebida com certa dubiedade. Os pilotos, levantando-se sonolentos, viam a ilha envolta num daqueles impenetráveis nevoeiros marítimos a que está sujeita. Os aviões, exceto os já em patrulha, estavam retidos em terra e se o nevoeiro continuasse, o sacrifício e os feitos dos seus compatriotas no Havaí, destinados a possibilitar todas as conquistas subseqüentes, seriam em grande parte desperdiçados. Os americanos perceberiam logo onde se daria o ataque seguinte, dispersaria sua Força Aérea do Extremo Oriente, pondo-a fora do alcance dele e tomaria medidas preventivas. Não obstante, dois esquadrões conseguiram decolar do aeródromo Haito, em Formosa, e atacaram as bases americanas de Baguio, na capital de verão das Filipinas, no norte de Luzon, causando-lhes consideráveis danos e muitas baixas. Também ao amanhecer, uma força-tarefa especial desembarcou, sem oposição, na Ilha de Bataan sem que a USAFFE soubesse. Tropas da força aérea japonesa foram imediatamente examinar o Aeródromo Basco da ilha, verificando ser ele apenas adequado para caças. Para ser utilizado por aviões maiores, teria de ser bastante ampliado. Mesmo assim, no dia seguinte, o 5o e o 24o Regimentos de Caça começaram a usar a base, enquanto uma força era despachada para o sul, da Ilha de Bataan para a Ilha Camiguin, onde se estabeleceu uma base de hidraviões a 56 km da costa norte de Luzon. O desembarque em Bataan e os ataques preliminares, porém, não serviriam para nada se os aviadores baseados em Formosa naquele primeiro dia de guerra não pudessem levantar vôo. Mas, por volta das 09h, os atacantes já nervosos, tiveram novo choque. Brereton, para evitar que suas B-17 fossem surpreendidas em terra, mandara-as decolar, sem cargas de bombas, em patrulhas. Esta ordem foi captada por estações de escuta japonesas e interpretadas como se os americanos estivessem a caminho de Formosa, para atacá-la. Máscaras de gás foram distribuídas e tantos aviões quanto possível receberam ordens de decolar. Na verdade, aquela ordem foi apenas mais um fio numa rede de incompreensões, atrasos e discordâncias, cujos detalhes jamais seriam solucionados. Às 05h, Brereton fora ao QG da USAFFE solicitar de MacArthur permissão para um bombardeio diurno contra Formosa. Como MacArthur não estivesse presente, Sutherland disse a Brereton que armasse os aviões, mas que não montasse o ataque até receber permissão direta de MacArthur. Duas horas depois Brereton retornou à USAFFE, onde lhe tornaram a dizer que aguardasse ordens do Comandante-Chefe. Então, duas coisas aconteceram. De Washington, o General Henry Arnold telefonou a Brereton, adiantando detalhes do ataque e ordenando-lhe que mandasse seus aviões decolar, para evitar a repetição do sucedido. Ao mesmo tempo, começaram a chegar informes da presença de aviões inimigos nas proximidades. Brereton mandou, então, que suas B-17 decolassem em patrulha. Às 10h, Brereton reiterou o pedido de permissão para o ataque e a resposta foi novamente adiada. A verdade é que havia dúvidas, no QG da USAFFE, quanto à viabilidade do ataque. Os pilotos, dizia-se, careciam de informações verdadeiramente vitais e não se fizeram reconhecimento fotográficos - embora ninguém explicasse por que deixaram de ser feitos. Brereton, então, ordenou que se realizasse uma missão de reconhecimento fotográfico do sul de Formosa. Quando estas instruções estavam sendo cumpridas, MacArthur - afirma Brereton - telefonou-lhe concordando com a realização do ataque, que deveria ocorrer naquela tarde, uma vez avaliados os resultados da missão. Por volta das 11h30, seis horas e meia após haver feito o pedido, as turmas de terra começaram a armas os aviões de Brereton. Ao mesmo tempo, as B-17 que estavam em patrulha foram chamadas de volta e carregadas com bombas de 100 e 300 lb., enquanto todos os interceptadores de patrulha foram também chamados, para reabastecer. Os pilotos, esperando decolar no começo da tarde, foram almoçar cedo. Em Formosa, mais ou menos ao mesmo tempo, o nevoeiro começou a dissipar-se e, pouco depois, 108 bombardeiros, escoltados por 48 caças, levantaram vôo. Os nipônicos estavam convencidos de que era tarde demais e que os americanos já teriam levado seus aviões para área distante. Só havia um aparelho de radar em funcionamento nas Filipinas, porém, mais ou menos no momento em que a maior parte da Força Aérea Americana do Extremo Oriente estava em terra, sendo abastecida ou armada nos Aeródromos Clark, Nicholls e Iba, foram avistados os aviões inimigos, que se aproximavam. Simultaneamente, um posto de observação, no norte de Luzon, comunicou a presença da força na sala de planejamento do Campo Nielson; pouco depois, observadores posicionados ao longo de toda a costa de Luzon passaram a comunicar a passagem de uma força voando alto na direção de Manilha. Um aviso foi transmitido de Nielson para o Campo Clark pelo teletipo. Outro foi enviado pela rede de rádio das forças. Afirma-se que a mensagem pelo teletipo não foi recebida porque o operador era inexperiente, abandonara seu aparelho, indo almoçar. A mensagem radiofônica foi engolfada pela estática, provavelmente provocada pelos próprios japoneses. A única mensagem recebido foi a que um oficial superior baseado em Nielson transmitiu por telefone ao Campo Clark, sendo ali recebida por um oficial subalterno que prometeu entregá-la o mais breve possível. Quaisquer que sejam as causas, o fato é que somente um esquadrão de caça americano, o 3o decolou de Iba. Às 12h15, as primeiras levas de atacantes japoneses, voando em “V”, estavam sobre os aeródromos e viram, encantados, que, apesar da oportunidade e do tempo que lhes haviam sido dados, os aviões americanos ainda se encontravam em terra. Em Clark estavam dois esquadrões de B-17 cheios de bombas e combustível para o ataque a Formosa e, com eles, os P-40 do 20o Esquadrão de Caça, que devia dar cobertura ao Campo Clark, e que acabara de pousar para reabastecer. Os japoneses começaram a lançar suas bombas de uma altitude de 7.200 m e depois deram o fora. Os americanos, cônscios do que estava acontecendo, correram para os canhões antiaéreos quando uma segunda formação em “V” de bombardeiros apareceu. Os canhões, porém, não tinham munição atualizada e suas granadas explodiam a uns 600 a 1.200 m abaixo dos bombardeiros, que atacaram impunemente e sem qualquer senso de urgência durante 15 minutos inteiros. Quando a segunda leva de bombardeiros se afastou, 34 Zeros aproximaram-se para os ataques de metralhamento. Então, quando os 12 últimos aviões sobreviventes do 3o Esquadrão de Caças, o único a levantar vôo, estavam para pousar, 54 aviões japoneses atacaram o Campo Iba. Pelo fim do dia, das 34 B-17, 18 haviam sido destruídas e, com elas, 56 caças - ou dois terços da força de interceptadores - e 26 aviões de vários outros tipos. Oitenta homens jaziam mortos e 150 feridos e muitas instalações e hangares de serviço da força aérea foram destruídos. Tudo isso custou aos japoneses apenas sete caças. O que saíra errado? Sugeriu-se que a procrastinação do ataque a Formosa, que resultou no fato de as B-17 se encontrarem ainda em terra quando os japoneses atacaram, deveu-se ao fato de que MacArthur estava sob ordens de não cometer o primeiro “ato aberto de guerra”. Mas a idéia não resiste ao mais leve exame. Ele sabia que a guerra começara. Não só Pearl Harbor como também as próprias Filipinas haviam sido atacadas. Poder-se-ia afirmar que ele adiou o ataque por desejar que se fizessem reconhecimentos aéreos, mas é claro que se estava proibido de cometer o primeiro ato de guerra, proibido estaria também de realizar quaisquer reconhecimentos, por mais necessários, antes das hostilidades. MacArthur, de sua parte, afirmou nada saber da pretendida incursão contra Formosa. Só veio a saber disso através dos jornais, meses mais tarde. Se Brereton recebeu, como afirmou, um telefonema de MacArthur autorizando a missão aerofotográfica, é questão ainda controvertida. A julgar pelas evidências, parece improvável que MacArthur ignorasse a razão por que as B-17 ainda estavam em terra quando os japoneses atacaram. No dia seguinte, outro nevoeiro em Formosa impediu as atividades japonesas, permitindo aos americanos sepultar seus mortos e retirar os escombros. Não obstante, naquele dia Manilha teve sua primeira experiência com ataque aéreos, quando, antes do amanhecer, um esquadrão de aviões japoneses sobrevoou a cidade, causando-lhe danos e baixas. Foi o primeiro de uma série de ataques que daí por diante ocorreriam quase que diariamente. Novo golpe ocorreu no dia seguinte, 10 de dezembro. O QG do Exército foi avisado de que uma força de aviões inimigos aproximava-se do norte de Luzon. Ela se compunha de 52 bombardeiros, escoltados por cerca de 100 Zeros, pois os nipônicos esperavam encontrar oposição dos aviões baseados em porta-aviões americanos - mas, na verdade, não havia nenhum. Os atacantes haviam partido das bases costeiras da marinha japonesa e do porta-aviões Ryujo. Os 20 P-40 e os 17 P-35 “Republics” que levantaram vôo às pressas não tiveram qualquer chance contra tal força. Sobre o norte de Manilha, os incursores dividiram-se em dois grupos, indo um deles atacar os Aeródromos O’Neill e Nicholls e o Campo Murphy. O outro, composto de uns 27 Bettys, sobrevoou o estaleiro naval de Cavite numa altitude que, como os aviões que atacaram Clark, dois dias antes, os colocava fora do alcance das obsoletas granadas antiaéreas. Durante duas horas, os bombardeiros sobrevoaram o local escolhendo, sem pressa, os alvos e os bombardeando com precisão. No telhado do Edifício Marsman, Hart e um grupo de oficiais observavam, sem poder conter a ira, a implacável destruição da base. Quando os bombardeiros se foram, não só os estaleiros como também quase toda a cidade de Cavite estavam em chamas. As oficinas de reparos, os armazéns, a estação de rádio, a enfermaria, o quartel dos fuzileiros navais e a usina elétrica e todo o estoque de reserva de torpedos da Marinha, que ia a cerca de 200, necessários para repelir quaisquer frotas invasoras, tudo estava destruído. Os barcos perdidos incluíam o lança-minas Bittern e o submarino Sealion. O vento, que não cessava de mudar de direção, mantinha vivas as chamas, de modo que os bombeiros, já cansados, concluindo que estavam diante de uma tarefa impossível, deixaram arder o estaleiro até consumir-se todo. Mas houve sorte em duas coisas: os bombardeiros não atingiram o enorme estoque de munição da Marinha e uma frota de 40 navios mercantes, ancorada na baía, também escapou ilesa e pôde zarpar. Mas foi pouca coisa, diante da perda de todo o grande estaleiro naval de Cavite. Naquela noite, já tarde, os sobreviventes foram reunidos no pátio de uma escola próxima. O ataque causara cerca de 500 baixas, incluindo não só pessoal da marinha mas também civis filipinos. Na manhã seguinte, bem cedo, o Contra-Almirante Francis Rockwell, do Estado-Maior de Hart, com o rosto enegrecido e o uniforme sujo de sangue dos feridos a quem ajudara, inspecionou o estaleiro. Ele informou que todos os incêndios estavam descontrolados. Iniciou-se rapidamente uma operação de salvamento, instalou-se um hospital e a munição e outros suprimentos foram retirados e distribuídos pelas bases navais de Corregidor e Mariveles. Contudo, avizinhava-se novo desastre para as minguantes forças aéreas americanas. A 12 de dezembro, o deslocamento das B-17 para o sul estava quase terminado, e os aviões de reconhecimento, dos quais só restava a metade, os seguiram o mais breve possível. Então, naquela manhã, chegou um informe dando conta de que uma frota de porta-aviões japoneses se aproximava de Luzon e sete aviões da Ala de Patrulha 10, da Marinha partiram numa busca infrutífera. Somente já quase sem combustível é que os aviões voltaram. Quando as tripulações, cansadas, se aproximavam para pousar, após vasculharem o oceano deserto, os Zeros que os vinham acompanhando atacaram. Todos os sete - representando um quarto do total de aerobotes da Frota Asiática - foram destruídos. Pelo final do quinto dia de guerra, a Força Aérea Americana do Extremo Oriente, a Força Aérea Filipina e a Força Aérea Naval haviam entregue o céu das Filipinas ao inimigo. Para defender a ilha principal do arquipélago e sua capital, Brereton tinha apenas 35 caças operacionais e estes deviam ser poupados, sendo usados mais para serviços de reconhecimento do que para combate. Hart pensara, assim que as primeiras batalhas terminarem, em levar seu navios, agora no sul, de volta a Luzon, onde poderiam servir para conter desembarques anfíbios. Mas, sem nenhum avião baseado em terra para dar-lhes cobertura, seus navios não teriam a menor chance de repelir qualquer invasão. A depressão tampouco foi aliviada pelo exame de eventos verificados em outros locais. Com a frota do Pacífico destruída e com a Frota Asiática imobilizada, a única oposição em alto-mar à agressão do Japão só poderia partir do pequeno contingente da Marinha Real dos Países Baixos baseado nas Índias Orientais Holandesas, e da Marinha Real Britânica. Incapaz de defender suas possessões no Extremo Oriente com suas forças navais tão estendidas, a Grã-Bretanha, em vez disso, depositara toda a sua esperança no poder repressivo da Frota Americana do Pacífico. Quando a guerra com o Japão pareceu inevitável e a Grã-Bretanha se uniu aos Estados Unidos nos embargos ao comércio japonês, era evidente que tais atos teriam de ser apoiados por forças militares, para impedir que os japoneses saíssem para tomar à força o material de que necessitava e que estava impedido de receber. Churchill, ativado não só por considerações estratégicas mas também políticas, ignorou os protestos do Primeiro-Lorde do Mar, Almirante Sir Dudley Pond, e propôs que o recém-incorporado Prince of Wales e o cruzador de batalha Repulse fossem enviados para o pacífico, juntamente com um porta-aviões de esquadra, para dar-lhes cobertura aérea. Os dois navios de linha foram enviados, mas um acidente com o único porta-aviões disponível impediu que este zarpasse junto com aqueles, que se tornaram alvos fáceis a ataque aéreo japonês. A 10 de dezembro os japoneses aproveitaram-se dessa situação. Os dois navios foram avistados às 11h. Duas horas e 20 minutos mais tarde, ambos haviam sido afundados por bombardeiros-torpedeiros. Destróieres recolheram alguns dos 2.000 tripulantes dos dois navios, porém quase 1.000 morreram afogados, incluindo o Comandante-Chefe, Almirante Sir Tom Phillips, e o Comandante do seu navio-capitânia, John Leach. Ambos haviam estado nas Filipinas dias antes, discutindo estratégia conjunta com Hart e MacArthur. Começam os desembarques Foi tal o efeito da perda das unidades aéreas e da destruição do estaleiro naval de Cavite, que, comparado com isso, o início da ofensiva terrestre japonesa, a 10 de dezembro, pareceu sem importância. Os dois desembarques iniciais ocorreram conforme os planos, em Aparri e Vigan. Aparri, então com 26.000 habitantes, situa-se na foz do rio Cagayan e na cabeceira do vale de Cagayan. O porto da cidade podia ser alcançado pela planície central, onde se ergue Manilha, por uma garganta existente nas montanhas, ou pelo mar, contornando a costa norte de Luzon. Vigan, capital da província Ilocos Sul, ergue-se próximo da foz do rio Abra, a cerca de 400 km de Manilha, à qual está ligada por uma rodovia, a Via 3. A leste fica a Cordilheira, que separa a estreita planície costeira do vale de Cagayan. Soldados da força-tarefa Aparri, 2.000 homens do 2o Regimento de Formosa, da 48a Divisão, conhecida pelo nome de Destacamento Tanaka, por ser seu comandante o Coronel Toru Tanaka, fora uma das três forças-tarefas que zarparam de Formosa na noite de 7 de dezembro. A Força Vigan, também retirada do Regimento de Formosa e totalizando 2.000 homens, era denominada Destacamento Kanno, em homenagem ao comandante do 30 Batalhão do 2o de Formosa. Eles partiram ao mesmo tempo. A força naval que lhes dava cobertura, comandada pelo Vice-Almirante Takahashi, incluía os dois cruzadores pesados Ashigara e Maya, dois destróieres e um tênder de hidravião, e todos eles zarparam a 8 de dezembro. A partida desses grupos fora observada pelo General Homma e seu Estado-Maior com enorme apreensão. Os desembarques que pretendiam realizar eram essenciais para o êxito do ataque principal, e, embora, como grupos avançados, o comboio se constituísse dos mais velozes navios disponíveis, capazes de fazer de 12 a 14 nós, parecia inconcebível que eles pudesse, escapar à detecção pelos americanos, em sua jornada de três dias pelo Mar das Filipinas. Desde o amanhecer do dia 8, assim que os nevoeiros de Formosa se dissiparam, eles receberam a cobertura do 24o e do 50o Regimentos de Caça e durante toda a travessia foram escoltados por aviões do 5o Grupo Aéreo. Às primeiras horas de 10 de dezembro, chegaram aos seus ancoradouros, sem terem avistado um único avião americano durante todo o percurso. Ao romper da aurora, os homens do Destacamento Tanaka começaram a transferir-se dos navios-transportes para as barcaças de desembarque Daihatsu “A”. Estas embarcações, com 16 m de comprimento, armadas com metralhadoras calibre 25 e capazes de velocidades entre 8 e 10 nós, recebiam, cada uma, 120 homens. As duas primeiras companhias desembarcaram sem oposição, o que não era de surpreender, pois a defesa da área ao norte do golfo de Lingayen fora confiada à 11a Divisão, do Exército Filipino. Os regimentos de infantaria da divisão, que apenas dois meses antes começara a mobilizar-se, ainda estava um terço aquém dos seus efetivos. Não tinha artilharia nem transportes e seus elementos de serviço ainda não haviam recebido treinamento. Tendo de cobrir uma área tão grande, eles só puderam dispor de um batalhão para a defesa de todo o vale do Cagayan. Mas, se a oposição militar estava ausente, o tempo vinha criando dificuldades para Tanaka. Forte vento nordeste fazia ondular muito as águas do mar, tornando perigosa a transferência dos transportes para as barcaças de desembarque, e bastante difícil o percurso até as praias. Por causa disso, depois que a segunda companhia chegou à praia, o comandante do comboio decidiu que os transportes teriam de ser afastados. Eles foram levados para 30 km a leste, para Gonzaga, onde ficaram parcialmente protegidos pelo cabo Engaño. No fim da tarde, quando o desembarque no novo local recomeçou, os primeiros informes que chegaram ao QG de MacArthur fizeram com que dois esquadrões de P-40 e B-17 fossem despachados para atacá-los. Eles atingiram um caça-minas, que foi reduzido a pedaços com a explosão das suas cargas de profundidade. A violência do ataque foi tal, que as operações de desembarque foram novamente suspensas. A força de escolta naval, que devia cobrir todos os desembarques subseqüentes, não se revelou muito disposta a pegar-se em luta com o inimigo, e queria afastar-se rapidamente. Por isso, insistia para que as tripulações dos transportes se apressassem, até que, no fim, elas foram obrigadas a jogar tambores de óleo ao mar, na esperança de que flutuassem até as praias. Algum equipamento pesado, como rolos compressores, necessários para a construção das pistas de pouso, não puderam ser desembarcados. Apesar dessas dificuldades, todo o Destacamento Tanaka finalmente chegou à praia, sem oposição. Em Aparri, um jovem oficial americano que comandava uma companhia do 3o Batalhão, 12o de Infantaria, recebeu ordens de atacar e repelir o inimigo para o mar. Verificando que as duas companhias do Destacamento Tanaka superavam muito os efetivos que tinha, prontamente recuou para o sul, sem disparar um só tiro. Pouco depois do meio-dia, o destacamento estava de posse da pista de pouso de Aparri. Porém, quando os sapadores encarregados do aeródromo o viram, declararam que ele e outro que havia nas proximidades não serviam para receber bombardeiros pesados. Assim, uma das finalidades principais do ataque a Aparri - buscar pistas de pouso onde pudessem bombardear os americanos continuamente - fora despropositada. Mas as forças aéreas estavam trabalhando tão bem, que não havia mais necessidade desses campos. Entrementes, em Vigan, o Destacamento Kanno estava enfrentando o mesmo tipo de dificuldade que seus companheiros em Aparri. A ondulação do mar, muito forte, impedia o destacamento de desembarcar ele teve de deslocar-se mais 6 km para o sul, sob a proteção de caças. Ali, num ponto mais protegido, os 2.000 homens do destacamento desembarcaram, mas foram avistados por um Kittyhawk de patrulha às 05h13. Cinco B-17 e um esquadrão de P-35 juntaram-se para o ataque. Como em Aparri, o mau tempo estava interferindo no programa de desembarque. Os pequenos grupos que conseguiram descer a terra agiram com rapidez, para tomar Vigan às 10h30, mas, nesse meio tempo, os ataques aéreos haviam começado. Apesar do fogo antiaéreo, os bombardeiros e os caças, em vôo baixo, fizeram ataques desesperados. Numa dessas passagens, um transporte japonês, atingido por uma bomba de uma B-17, explodiu com tal violência, que destruiu o avião do comandante do esquadrão. Os ataques aéreos prosseguiram durante todo o dia, representando a oposição mais vigorosa que os japoneses já haviam encontrado em seus desembarques nas Filipinas, resultando na perda de dois dos seus transportes Maru. Não obstante, foram os últimos esforços coordenados da Força Aérea Americana do Extremo Oriente. Outros ataques aos aeródromos Nicholls, Nielson e Cavite completaram a destruição iniciada antes, e daí por diante os aviões só poderiam fazer vôos de patrulha. Naquele dia, os americanos, mais uma vez, lamentaram muito a perda da sua força aérea, pois se tivessem mais alguns aviões, os invasores teriam sido rechaçados em Aparri e Vigan. Acontece que o Destacamento Tanaka, uma vez em segurança em terra, decidiu inverter o plano que deveria seguir, que lhe recomendava cautela, e desceu o vale do Cagayan. Quando Wainwright, Comandante da Força Luzon Norte, foi informado de que os nipônicos desembarcaram forças com efetivos calculados em uma brigada reforçada (na realidade não passavam de dois batalhões), ele pensou tratar-se de um ataque simulado e conteve suas forças. A única saída do vale era através da garganta existente nas montanhas de Abalete. Acreditava ele que, ali, com uma pequena força seria perfeitamente possível deter os nipônicos. Mesmo assim, despachou vários carros de exploração do 26o de Cavalaria dos Exploradores Filipinos, para subir o vale do Cagayan e estabelecer comunicações com as tropas da 11a Divisão filipina que se encontravam naquela área. Ao mesmo tempo, o QG de MacArthur mandara destruir todas as pontes existentes no vale e instalar um obstáculo na estrada que passava pela garganta das montanhas. O Destacamento Tanaka estava em pleno avanço para o sul, na direção de Tuguegarao, ao longo da Via 5, enquanto à frente deles os aviões da força aérea do exército bombardeavam e metralhavam o que quer que pudesse dificultar a progressão que os nipônicos faziam. Diante disso, o 3o Batalhão, o 12o de Infantaria, que já evitara luta com o inimigo, retirou-se, descendo rapidamente o vale do Cagayan, para escapar à possibilidade de ser isolado. Pelas 05h30 de 12 de dezembro, o Destacamento Tanaka já se encontrava na posse do terceiro aeródromo - o de Taguegarao, mais de 80 km dentro do território filipino. O Destacamento Kanno, igualmente firme em terra, enviou uma pequena força para o norte e, antes do anoitecer, ocupou a capital da província Ilocos Norte, Laoag, com seu aeródromo. Ambos os destacamentos, portanto, tinham quatro aeródromos. A USAFFE reconheceu nos desembarques de Tanaka e Kanno o que realmente eram - a preliminar de um grande ataque em outro local - e compreendeu que a força principal ainda estava por chegar. Porém o receio de novos desembarques produziu em todos verdadeira febre de invasão, de tal sorte que naquela noite os homens de uma unidade filipina se convenceram de que os japoneses estavam tentando descer no golfo de Lingayen, e travaram ruidosa batalha com um inimigo imaginário. No dia seguinte, apesar da ausência de qualquer indício de que os nipônicos ali estiveram, o comunicado de MacArthur dizia: “Houve tentativa de desembarque inimigo na área de Lingayen, mas foi repelido por uma divisão do exército filipino”. Mais tarde, descobriu-se que tudo o que os japoneses haviam feito fora mandar uma lancha à baía, em missão de reconhecimento. Homma, nesse meio tempo, percebeu claramente que os americanos não iriam contra-atacar, como supunha que fizessem. Assim, deixando reduzido grupo de homens guardando os aeródromos recém-capturados, grupou os dois destacamentos numa única unidade e a despachou para o sul, na direção de Lingayen, ao encontro da força de invasão principal, quando esta desembarcasse. O Coronel Tanaka foi encarregado dos dois destacamentos fundidos e, a 20 de dezembro, iniciaram o avanço para Lingayen, saindo de Vigan pela Via 5. No dia seguinte, os grupos avançados de Tanaka encontraram tropas da 11a Divisão filipina, mas na batalha que se seguiu eles flanquearam os filipinos com um movimento pelo leste, que repeliu uma seção e isolou a outra. Tanaka, então, continuou avançando até chegar a San Fernando, La Union, a 22 de dezembro - dia exato em que se daria o desembarque principal. E assim, no momento crítico, ele estaria idealmente colocado para o confronto com quaisquer forças enviadas para deter os invasores. Quando os Destacamentos Tanaka e Kanno partiram de Formosa, um outro saía de Palau, nas Ilhas Carolinas, em direção a Legaspi, na extremidade sul de Luzon, onde a terra se afina como a cauda de uma raia-lixa. A finalidade do desembarque deste destacamento era conseguir um aeródromo no sul e, ao mesmo tempo, obtendo o controle do Estreito de San Bernardino - o canal raso que divide Luzon da ilha Samar, que é menor -, impedir que os americanos enviassem reforços por esse caminho. Para ajudar nesta operação, dois lança-minas foram enviados com as forças de invasão, para minar todos os acessos. Nesse desembarque seriam lançados 2.500 homens da 16a Divisão, sob o comando do Major-General Noaki Kimura. A força era composta do 33o Regimento de Infantaria, uma bateria do 22o de Artilharia de Campanha, além de destacamentos de sapadores e 557 homens da 1a Força Especial de Desembarque de Kure, da Marinha, unidade semelhante aos fuzileiros navais, especialmente treinada para a tomada de praias. As forças de mar que cobriam o desembarque eram comandadas pelo Contra-Almirante Takeo Takagi, e zarparam de Palau a 6 de dezembro, integradas por três cruzadores pesados, Nachi, Haguro e Myoko, um cruzador leve, sete destróieres e dois lança-minas. Além disso, havia o porta-aviões Ryujo, cujos aviões deveriam dar cobertura aérea à força de mar e aos desembarques. Foram estes aviões que, às primeiras horas da guerra, atacaram o William Preston e destruíram seu avião. A 9 de dezembro, os transportes de tropa alcançaram a força naval de Takagi e, a partir de mais ou menos 160 km da costa, os aviões do Ryujo começaram a dar cobertura aérea. A tranqüilidade da viagem só foi quebrada pelo encontro com um submarino americano, o S-39, que foi repelido por um ataque de cargas de profundidade. Quando o comboio se aproximou das praias, a escolta naval ficou para trás, a fim de dar cobertura a distância, e os aviões do porta-aviões iniciaram a ofensiva contra a área de Legaspi. Pouco depois. O 34o de Infantaria e outras unidades do exército começaram a desembarcar, sem as dificuldades com que se defrontaram os destacamentos que desceram no norte, e sem encontrar oposição. A verdade é que as tropas americanas mais próximas estavam a 240 km dali. A primeira informação que a USAFFE teve dos desembarques partiu do agente da estação ferroviária de Legaspi, que por acaso falava com o QG da USAFFE, em Manilha, no momento exato em que eles ocorriam. Pelo telégrafo, ele os descreveu até que um oficial japonês e um grupo de soldados entraram em seu escritório, pedindo-lhe um trem para levá-los a Manilha. O agente, depois de transmitir à USAFFE o pretendido pelos japoneses, perguntou o que deveria fazer, recebendo, então, a seguinte resposta: “Diga-lhes que o próximo trem parte de domingo a uma semana”. Quando a Força Luzon Sul foi informada dos desembarques, chegou a pensar em mandar uma grande força ao encontro dos japoneses e repeli-los para o mar, mas a medida foi abandonada, porque julgou-se que as forças filipinas seriam incapazes de se deslocar com a rapidez necessária a tal empreendimento. As forças filipinas responsáveis pela defesa da parte sul de Luzon, com suas cinco baías abrigadas e seus 400 km de praias, com possibilidade de serem usadas para desembarques, consistiam de duas divisões: a 41a e a 51a, ambas mal equipadas, e dos regimentos de infantaria que as integravam, poucos haviam completado o treinamento, e um deles se encontrava sem adestramento algum. Em vista disso, a única medida tomada consistiu no envio da 51a Divisão, comandada pelo Brigadeiro-General Albert Jones, para o sul, a fim de destruir as pontes ferroviárias e rodoviárias que pudesse e evacuar o maior número possível de material ferroviário rodante. Somente dois dias depois, a 14 de dezembro, é que a USAFFE conseguiu reunir cinco B-17 para atacar os navios posicionados ao largo de Legaspi. Elas partiram, mas a oposição dos caças navais japoneses foi tão intensa, que somente uma delas retornou à base, em Del Monte, Mindanao. O restante fez aterrissagens forçadas onde pôde. Três dias mais tarde, a 17 de dezembro, as últimas Fortalezas Voadoras partiram definitivamente das Filipinas para Darwin, na Austrália, tendo feito mais uma surtida contra Luzon. Naquele mesmo dia, cinco dias após os desembarques em Legaspi, os japoneses deram com a primeira resistência terrestre, quando uma patrulha se encontrou com um dos destacamentos de demolição do General Jones. Os filipinos completaram o trabalho de destruição de uma ponte e, então, partiram, deixando que os japoneses prosseguisse, em seu avanço. Contudo, eles não continuariam sem dificuldades. Na extremidade norte da península de Bicol, por onde estavam avançando, a terra se reduz a uma faixa que em determinado ponto tem apenas 11 km de largura. Ali, Jones colocara um posto avançado de duas companhias do 1o Batalhão, 52o de Infantaria, sabendo que os japoneses teriam de chocar-se com uma delas. O encontro deu-se a 22 de dezembro, quando os japoneses atacaram a Companhia “B” e sofreram baixas tão grandes, que viraram as costas e fugiram, sendo perseguidos pelos filipinos por uns 10 km. Foi uma vitória insignificante e que se mostraria transitória. Mesmo assim, foi o único êxito da Força Luzon Sul. Entrementes, houve ação mais ao sul. Dois dias antes, a 20 de dezembro, os japoneses haviam desembarcado uma força de uns 5.000 homens em Davao, Mindanao. Esta força zarpara de Palau a 17 de dezembro, escoltada por um cruzador, seis destróieres e embarcações auxiliares, além de aviões do Ryujo e dos porta-hidraviões Chitose e Mizuho. A única oposição que os invasores encontraram partiu de um destacamento de metralhadores filipino, que lhes infligiu pesadas baixas, até ser destruído por uma granada de um dos destróieres japoneses. Embora estes desembarques não se destinassem a afetar o esforço japonês mais ao norte e fossem feitos apenas para dar bases avançadas ao 16o Exército, em seu avanço pela Ásia meridional, eles, não obstante, eram um meio de isolar o arquipélago das bases que os Aliados tinham no sul e, assim, tornar mais difícil a tarefa de abastecer as ilhas. Transportes ao largo de Lingayen Nos dias que precederam o Natal daquele ano, era quase inexistente o ânimo para celebrações. Nas igrejas de Manilha, com sua estranha mistura de estilos arquitetônicos, barroco espanhol, filipino e chinês, os sacerdotes montaram os presépios para a festa do Natal como faziam todos os anos, desde a conversão da ilha pelos agostinianos, no século XVI. Havia poucas pessoas para admirá-los e as autoridades eclesiásticas determinaram a supressão da “Missa do Galo”, a série de nove missas matinais, que culminavam com missa triunfal da meia-noite da Noite de Natal, ou Buena Noche. O raiar do dia era o momento de eleição dos atacantes japoneses. Manilha, capital das Filipinas, desde que o conquistador, Miguel Legaspi, a proclamara província da Espanha, em 1571, era, em tempos normais, uma cidade cosmopolita, agitada por dois milhões de almas. Submetida aos quase diários ataques que a todos enchiam de terror, os que a podiam deixar, deixavam-na, e os que, por qualquer motivo, não podiam, em muitos casos mandavam a família para longe. Como a maior parte das grandes cidades orientais, a sua população era muito densa, com cerca de 120.000 pessoas por quilômetro quadrado e grandes áreas de cortiços e favelas. Portanto, os japoneses sabiam que seus ataques não deixariam de causar enorme devastação. Os artilheiros antiaéreos americanos e filipinos fizeram alguma demonstração de defesa contra os bombardeiros que voavam a grande altitude, mas só ocasionalmente um piloto mais temerário ou mais arrojado que os companheiros descia o bastante para ser atingido. Então, a população local - chineses, filipinos e europeus - era brindada com o espetáculo de um avião inimigo caindo em chamas. Mas, de qualquer modo, a vida continuava. Lojas e armazéns faziam seus negócios. Os teatros e cinemas, em geral exibindo filmes americanos, continuavam abertos. As elegantes mulheres filipinas pechinchavam com os logistas chineses. Os camponeses das aldeias mais próximas levavam seus produtos para o mercado e ofereciam uma cena bem pitoresca: as mulheres em suas saias esvoaçantes, chamadas “Maria Clara”, pretas com largas faixas brancas, os homens com camisas “Barong Tagalog” repletas de bordados. A Orquestra Sinfônica de Manilha dava concertos e as estações de rádio de algum modo continuavam transmitindo a dissonante e lamuriosa música oriental, o “jazz” americano mais recente de Jimmy Dorsey ou Glen Miller, ou boletins noticiosos tensos, inquietantes e muitas vezes bombásticos. Tanto quanto possível, prosseguia normalmente o trabalho nos escritórios e nas repartições públicas, grandes blocos de concreto que os arquitetos filipinos dos anos 20 abandonando suas antigas tradições, copiaram dos Estados Unidos, como demonstração de sucesso, de modernismo e de riqueza. Os porta-vozes do governo declaravam pelos jornais que o moral nunca esteve mais alto. Mas esses mesmos porta-vozes sabiam que a normalidade era, ali, objeto frágil, que com freqüência se rompia, ao aparecimento dos bombardeiros, que faziam desertar as ruas. Sabiam também que, cada dia mais, menos tranqüilo e otimista se mostrava o povo, à medida que se conscientizava do desamparo ante a arremetida japonesa. Entre os mais preocupados estava o Prefeito, Jorge Vargas, que dera suas opiniões ao Presidente Quezon, que apelou para MacArthur no sentido de obter ajuda americana para melhorar as condições da população civil. MacArthur, compreendendo que a finalidade dos ataques era fazer que os filipinos, premidos pelo desespero, tentassem a qualquer preço livrar-se dos Yanquis, atribuindo-lhes a causa das dificuldades, que enfrentavam, recorreu imediatamente a Washington. Ele recebeu autorização direta do Presidente Roosevelt para aplicar 20 milhões de pesos na ajuda ao povo, que compreendia a construção de casa para os desabrigados e de um sistema de alarma antiaéreo, além do atendimento a outras necessidades. Então, três dias antes do Natal, os jornais publicaram reportagens sobre os novos desembarques japoneses, desta feita no golfo de Lingayen. Informaram também que tropas americanas e filipinas lutaram heroicamente para impedir que o inimigo conseguisse um ponto de apoio. Mas no QG da USAFFE, a agourenta verdade estava aparecendo. Já se reconhecera que esses novos desembarques representavam o principal esforço japonês, pelo qual esperavam. Também se compreendeu que o heroísmo dos defensores era o menor dos problemas japoneses. MacArthur estava sendo obrigado a aceitar a amarga verdade de que o Exército Nacional dos Cidadãos, que ele vinha organizando e treinando nos últimos seis anos, e no qual acreditava tão profundamente, era incapaz de ir além de uma imitação de resistência. Uma força de 76 transportes do exército e nove navais estava agora ao largo do golfo de Lingayen, transportando os efetivos principais do 14o Exército japonês, bem como artilharia de montanha e de campanha e cerca de 190 tanques. Estes eram na maioria Shiki 94, um tanque deselegante e de silhueta alta, que começou a ser construído em 1934, armado de canhões de 37 mm. Eles foram os primeiros blindados usados pelos japoneses nas Filipinas e, apesar da sua forma obsoleta, segundo os padrões ocidentais, mostrar-se-iam adequados para sua função. As forças de terra eram acompanhadas de poderosa escolta naval, dada pela 3a Frota, sob a direção pessoal do seu comandante, o Almirante Takahashi. Esta força-tarefa zarpara dividida em três segmentos, cada qual com sua própria escolta, e se a partida de todos os comboios de assalto japoneses anteriores se fez em segredo, este foi redobrado no caso dos destinados ao golfo de Lingayen. Apenas poucas pessoas tomaram conhecimento de sua destinação, e depois que as tropas embarcaram nos transportes, a proibição do uso de mapas aumentou seu nervosismo. A ansiedade era partilhada por Homma e seu Estado-Maior, que estavam viajando nos comboios. Eles sabiam muito bem que tudo o que ocorrera antes não passara de preparação. Como Homma disse, mais tarde, perante o Tribunal de Crimes de Guerra: “Durante as minhas campanhas nas Filipinas, tive três momentos críticos. Este foi o nº 1”. O primeiro comboio partiu de Kirun, em Formosa, a 17 de dezembro e continha 21 transportes; o segundo, zarpando de Mako, nas Pescadores, partiu ao meio-dia do dia 18; e o terceiro, de Takao, em Formosa, saiu na noite do mesmo dia 18. Além da escolta naval que os acompanhava, havia ao todo dois cruzadores leves, 16 destróieres e grande número de torpedeiras, lança-minas e barcos de patrulha apoiando a expedição, enquanto que unidades da 2a Frota, do Vice-Almirante Nabutake Kondo, que deram cobertura aos desembarques feitos anteriormente, na Malásia, dariam cobertura separada. A principal força de combate terrestre era a 49a Divisão, do Tenente-General Yuichi Tsuchibashi, que se compunha, em grande parte, do 1o e do 2o Regimentos de Formosa, com o 47o Regimento de Infantaria, unidades de artilharia, reconhecimento, sapadores e transporte, bem como outras unidades de serviço. O QG do 14o Exército, além de outras preocupações, estava inquieto com os Regimentos de Formosa. Estes não tinham experiência em batalha e o 2o de Formosa já fora reduzido para formar os Destacamentos Kanno e Tanaka, usados nos desembarques em Aparri e Vigan. Segundo o plano de ataque, cada comboio representava uma força-tarefa distinta e cada um devia desembarcar num ponto diferente do outro, ao longo do golfo. Os primeiros a desembarcar seriam os homens do 47o de Infantaria e um destacamento de tanques. Eles desceriam em Agoo, o mais meridional dos três pontos, a 8 km da cidade de Damortis. Trinta minutos depois, os homens do 1o de Formosa e uma segunda unidade de tanques iniciariam o desembarque em Caba, a 11 km ao norte de Agoo. A terceira força, chamada Destacamento Kamajima, começaria a descer em Bauang meia hora mais tarde, cerca de 12 km ao norte de Caba. Se tudo corresse bem, o 14o Exército contaria com uma cabeça-de-ponte de 24 km de comprimento, de Bauang a Agoo, pelo amanhecer do dia. Para os desembarques os japoneses haviam reunido quase 200 barcaças, sessenta e três delas do tipo Daihatsu normais, 73 maiores e 15 barcaças extra grandes, chamadas Tobubestu Daihatsu, havendo ainda cerca de 48 sampans a motor. A posição escolhida era admirável, situada na estreita faixa costeira entre o mar e as montanhas, ao longo da qual corria a Via 3, uma das principais rodovias de Luzon, que em Bauang cruzava com a estrada que conduzia, pela garganta da montanha, a Baguio. A área era também um ponto de encontro de muitas estradas que levavam a Manilha, inclusive a própria Via 3, que atravessava a larga planície central ao sul das praias de desembarque. Uma vez em terra, as tropas de assalto deviam liquidar a oposição o mais depressa possível e avançar aceleradamente para o interior, sem perder tempo em consolidar posições porventura tomadas. Esta tarefa caberia às levas subseqüentes. O Destacamento Kamajima devia dividir-se quando do desembarque: um grupo iria para o norte, a fim de juntar-se à força Aparri, de Tanaka, então dirigindo-se para o sul, com o destacamento Kanno; o outro corpo tomaria o aeródromo de Naguilan e, depois, avançaria para tomar Baguio. Deste modo, retaguarda do avanço japonês seria protegida, enquanto que a tomada de Baguio impediria o contra-ataque americano, do leste, pelas montanhas. As duas outras forças de desembarque se moveriam para o sul, a fim de tomar Damortis e Rosário, reorganizando-se em seguida para prosseguir rumo ao sul. O segredo com que se fez o carregamento do comboio não foi quebrado, mesmo depois de terem zarpado. Para confundir qualquer observador quanto ao destino que levavam, os transportes primeiro dirigiram-se para sudoeste, como se fossem para a Indochina, tomando depois a sua verdadeira destinação. Mas tais subterfúgios foram desnecessários. Não apareceu nenhum navio ou avião enquanto o comboio se deslocava, fato que os que estavam a bordo encaravam como milagre, como a confirmação de que os deuses da guerra do Japão estavam com eles. O único perigo que encontraram, aliás, perigo natural, foi um tufão no mar da China Meridional. Os japoneses estavam tão convencidos da supremacia aérea que tinham, que o comboio só recebeu cobertura aérea a 21 de dezembro, quando 20 aviões dos 24o e 50o Regimentos de caça, agora capazes de decolar de bases situadas na própria Luzon, partiram ao encontro dos invasores. Naquela noite, de tempo frio e úmido e céu sem luz, os transportes começaram a arriar ferros no golfo de Lingayen. Até então, tudo correra bem, mas desse momento em diante as coisas começaram a complicar. Os comandantes dos comboios foram advertidos para que não parassem à distância muito grande de seus objetivos, mas sendo impedidos de localizá-los pela escuridão, eles prosseguiram para a outra extremidade, ultrapassando-os, o que obrigaria as barcaças de desembarque a um percurso extra longo, durante o qual estariam vulneráveis à artilharia. Devido à agitaçã |