Tobruk

A chave do Egito

 

 

A guarnição de Tobruk, auxiliada pela RAF, pela Marinha Real e pelas colunas móveis de blindados, salvou a Campanha da África, em 1941. À sua heróica resistência, de 242 dias de duração, deveu-se a série de grandes vitórias conquistadas ali pelos Aliados.

 

No azul

 

Mesmo no setor dos tanques, nem tudo na guerra no deserto combate. A gente passava a maioria dos dias procurando contornar a hostilidade do meio e tornar familiares os problemas que tínhamos de enfrentar. Os desconfortos eram aceitos e esquecidos e aprendíamos a passar sem muitas coisas a que estávamos acostumados, como água ilimitada, frutas e legumes frescos, camas, cerveja, a companhia de mulheres e o luxo de, ao anoitecer, poder fugir um pouco ao convívio daqueles com quem havíamos passado todo o dia. Vivíamos na algibeira uns dos outros e inventávamos regras para não nos trucidarmos mutuamente.

 

Os velhos Ratos do deserto que lerem este livro verão que ele constitui uma verdadeira fonte de lembranças: o círculo amplo e perfeito do horizonte; o céu azul sempre a nos cobrir, durante o dia; em noites sem lua, um pálio negro perfurado por centenas de pontos brilhantes; os amarelos, os marrons, os cinzas; a touceira de sal; o espinho de camelo e a grama rija que brotava esparsa, dando a impressão de que os camelos estavam pastando areia. Os nossos sentidos recordam o abençoado alívio da tensão nervosa que vinha quando o khamsin finalmente parava de soprar; o frescor da brisa, noturna depois da fornalha do dia; o frio penetrante das horas que precedem o amanhecer; as canções, “Saída Bint”, “Lili Marlene” (que os veteranos sempre cantavam em alemão) e a irreverente “Rainha Farida”, berrada com a melodia do hino nacional egípcio; o gosto de carne enlatada, quase sempre muito gordurosa, de batata e repolho desidratados, reconstituídos com água salobra misturada com cloro, de “biscoito burger”, uma mistura de biscoito do exército, partido, leite enlatado e xarope dourado aquecida numa caneca e, raramente, os deliciosos artigos de luxo enlatados capturados aos italianos, ou o pão preto, sardinha e queijo beneficiado que constituíam a alimentação do Afrika Korps.

 

Nós que vivíamos “no azul”, como chamávamos o deserto, num reconhecimento semiconsciente da sua semelhança com o mar, sentíamos-nos tão fora de contato com o mundo, quanto os marinheiros ao singrarem o mar alto. Nossos lares, os caminhões, meias-lagartas, carros blindados ou tanques, eram auto-suficientes, como os navios, e transportávamos conosco nosso abrigo e nossas provisões. As batalhas, breves e intensas, travadas com forças inimigas encontradas, de repente, em lugares inesperados eram importantes não pelo terreno conquistado, como na guerra terrestre, mas, pela redução das forças do inimigo, como nas batalhas navais. A luta que entre 1940 e 1942 teve lugar no deserto norte-africano tem sido descrita freqüentemente como guerra naval em terra, pois a mobilidade possibilitada pelos veículos de lagartas e pneus próprios para o deserto permitia que as forças fossem empenhadas em combate de modo muito parecido com as esquadras de alto-mar. A relativa vastidão do deserto significava que, como o mar, ele podia ser limpo, mas não conservado; os oásis eram ilhas; os trechos de intransponível areia fofa ou repletos de rochas eram os baixios e recifes e os portos ao longo do Mediterrâneo serviam à mesma finalidade, exceto que as forças chegavam até eles por terra e muitas vezes os canhões da marinha funcionavam como parte das baterias de terra. Tudo isto fez que o Chefe do Estado-Maior Geral Imperial (CIGS). Sir John Dill dissesse, pouco antes do reinício da luta, em março de 1941, que “a esquadra mais forte vencerá”.

 

Na época do ataque alemão à Cirenaica, os dois contendores demonstravam possuir mentalidade fortemente defensiva. O General Wavell enviara a maior parte da sua infantaria e dos seus blindados para a Grécia e estava defendendo a vasta área que tomara aos italianos com uma força ridiculamente pequena. O Marechal Graziani, ainda sob o efeito da humilhante derrota sofrida por seu grande e bem equipado exército para uma força de certo modo fraca, estava inteiramente preocupado com a ameaça de um avanço britânico para Trípole. A princípio, o General Rommel concordou com o planejamento feito por Graziani e prudentemente estabeleceu uma forte linha defensiva a cerca de 32 km da posição avançada britânica em El Agheila. Era seu objetivo estabelecer ali uma defesa móvel e agressiva e fazer com que os britânicos pensassem duas vezes antes de invadir a Tripolitânia. Mas seu bem treinado serviço de reconhecimento logo descobriu que a infantaria australiana era escassa na área avançada e fraco o corpo de blindados de apoio disposto em torno de Antelat. Pelo meado de março, Rommel admitiu que os britânicos provavelmente recuariam para posições mais facilmente defensáveis, se atacados com vigor.

 

Até mesmo Rommel, o mais otimista dos comandantes alemães, ficou surpreso com a rapidez do sucesso que obteve. Ele não sabia que os britânicos haviam decidido não se preocuparem com a manutenção do terreno, nem mesmo com a própria Benghazi que, segundo Wavell dissera ao General Neame, tinha valor como propaganda, não como objetivo militar.

 

No contexto, porém, dos objetivos alemães no Egito, Tobruk era de grande importância militar. Surpreendentemente, isto não foi compreendido por Wavell, que deu como resposta ao cabograma em que Churchill lhe falava sobre a necessidade de se defender Tobruk não era uma boa posição defensiva. Irritado, Churchill ordenou-lhe então que defendesse Tobruk.

 

Se a cidade tivesse sido abandonada, provavelmente Hitler teria mudado de idéia sobre a inviabilidade de uma ofensiva contra o Egito e teria reforçado o Afrika Korps para que desfechasse uma blitzkrieg contra o Cairo e o Canal. No começo da primavera de 1941, aos britânicos não seria possível conter tal ataque.

 

Foi a guarnição de Tobruk, ajudada pela RAF, pela Marinha Real e pelas colunas blindadas do deserto, que salvou o nordeste da África em 1941 e deu aos Aliados o tempo de que precisavam para se prepararem para colher as grandes vitórias que se seguiriam.

 

 

 

 

Prelúdio da guerra no deserto

 

O interesse colonial italiano na África do Norte começou em 1912 quando, ao fim da guerra ítalo-turca, a Tripolitânia e a Cirenaica foram cedidas à Itália. Na Cirenaica, os italianos preferiram ocupar apenas as cidades de Benghazi, Derna e Tobruk, deixando o deserto e os oásis aos senussitas indígenas. Essa divisão do país foi regularizada por um acordo celebrado em 1917, do qual a Grã-Bretanha fez parte, dando todo o país aos senussitas, excetuando-se as cidades ocupadas pelos italianos. Pelo Acordo de Ar-Rajma, assinado em 1920, os italianos, tendo conferido o título de “Amir” ou “Príncipe”, juntamente com um subsídio financeiro, ao líder senussi Mohammed Idris, receberam deste o reconhecimento do controle da área costeira, com sua população muçulmana principalmente estática, enquanto que os italianos, de sua parte, reconheciam a administração autônoma do Amir dos oásis e dos povos beduínos nômades.

 

Com a subida ao poder, na Itália, do governo fascista, o acordo foi revogado e as relações entre italianos e senussitas, nunca muito estáveis, deterioraram a tal ponto que os senussitas começaram a travar guerra de guerrilha contra os colonos italianos.  Como resultado das represálias que isso provocou, a população beduína foi consideravelmente reduzida, por morte ou emigração forçada. Os italianos, com seu novo líder fascista, Benito Mussolini, anelando a criação de um novo Império Romano, tratavam as populações dos países africanos que procuravam submeter de modo desapiedado e cruel e as governavam com cínico desrespeito pelos seus direitos legais.

 

Na Cirenaica, as terras de beduínos e as propriedades dos senussitas que os italianos precisavam controlar, se quisessem obter êxito na tentativa de colonizar o Jebel Akhdar, foram por eles sumariamente seqüestradas e só ofereceram compensação nos casos em que não puderam obter nenhuma condenação por “rebelião” contra o antigo dono. Por volta de 1940, cerca de 50.000 colonos camponeses italianos estavam ocupados no cultivo de cereais e na plantação de videiras e árvores frutíferas várias nas áreas setentrionais da região, num esforço por estabelecer ali uma província italiana.

 

Desde o começo, os italianos haviam ocupado a pequena cidade costeira de Tobruk. Com sua baía natural, abençoada com águas profundas e protegida por terras altas, ela proporcionava um ancoradouro seguro, acessível a grandes navios. A baía é formada por uma enseada que se projeta na direção norte da linha costeira cirenaica, com sua entrada voltada para leste. A cidade de Tobruk foi construída na margem norte da enseada e, em 1940, ocupava cerca de 1.600 m dos seus 4 km de extensão.

 

Com o correr dos anos, os italianos haviam-na transformado numa base de guarnição modesta mas agradável. Embora a maioria dos soldados vivesse em bairros próximos, os oficiais graduados e os funcionários civis tinham casas na cidade, na maioria agrupadas em torno de uma praça pomposamente batizada de Piazza Vittorio Emmanuele. A maior parte das casas e prédios militares italianos apresentava certa uniformidade regimental, mas havia prédios de aspecto mais sofisticado e com maior distinção arquitetônica. Neste grupo de prédios incluíam-se a prefeitura e o banco, simbolizando a solidez administrativa e comercial do novo Império, e uma bela escola, que ostentava o nome daquele que, em poucos anos, levaria seu país, destituído de todas as possessões coloniais, à rendição ignominiosa: Benito Mussolini.

 

Entre as comodidades que Tobruk garantia a seus habitantes relacionava-se o “Grande Hotel” e duas outras hospedarias; um restaurante cabaré, que oferecia diversão aos civis e militares; um hospital, para cuidar do bem-estar físico da população; e uma igreja e uma mesquita, para atender às necessidades espirituais dos católicos romanos e dos muçulmanos. A eletricidade era produzida por uma usina construída à beira do mar. Nas proximidades dela erguia-se um grande frigorífico, que conservava carne fresca em quantidade suficiente para satisfazer às necessidades da guarnição. A água, sempre escassa nas áridas vastidões do deserto líbio, vinha de poços subartesianos cuja produção era aumentada por uma usina destiladora de água. A água salobra dos poços não agradava aos italianos como bebida; eles preferiam as águas minerais “Rocoaro”, importadas em grandes quantidades da Itália.

 

Numa elevação que dominava as águas azuis da baía erguia-se o edifício mais importante de Tobruk, o QG naval. Um grande prédio de três andares, de concreto, que dominava toda a cidade. Embora ainda inacabado no momento da eclosão da guerra, era de construção tão sólida, que resistiu ao impacto de uma bomba de 250 kg quando a cidade foi, mais tarde, submetida a ataques aéreos.

 

Os italianos haviam tomado providências contra a possibilidade de ataque por terra ou bombardeio naval ou aéreo, construindo túneis profundos na rocha sólida do promontório, para fazer abrigos à prova de granadas e bombas, para armazenar combustível, munição e suprimentos para a guarnição.

 

Esta era, pois, a modesta e até então desconhecida cidade cujo nome se tornaria familiar ao mundo inteiro durante as campanhas do deserto, travadas de 1940 a 1942, em idas e vindas desde El Agheila, nas fronteiras da Tripolitânia, até El Alamein, já bem dentro da fronteira egípcia. Ao longo dessa fronteira, durante o verão e outono de 1940, um grande exército italiano reuniu-se e preparou-se para um ataque rumo leste, Egito adentro, contra uma força britânica relativamente fraca.

 

No final dos anos 30, à medida que as nações européias se moviam inexoravelmente para uma nova guerra, o ditador italiano, confiante em que podia zombar do poder da Grã-Bretanha e da França (pois nenhuma das duas nada fez para impedir que ele promovesse a anexação implacável da Etiópia, em 1935), aproximou-se ainda mais de Adolf Hitler e selou com ele a aliança do Eixo. A Liga das Nações reagiu à agressão italiana na Etiópia impondo sanções econômicas à Itália, medida que não fez mais que irritar os seus dirigentes e encorajar a aproximação dos regimes fascista e nazista, afinal de contas.

 

O sucesso das armas italianas na Etiópia e o apoio e adulação do povo ao líder fascista tiveram o efeito lamentável de aumentar nele a crença de que a Itália era uma enormíssima potência militar, capaz de vencer rapidamente quem quer que visse a enfrentar. Essa euforia militar, somada à suposição de que os britânicos estavam em decadência, convenceu-o de que a Itália seria capaz de ampliar ainda mais seu império no Mediterrâneo, às custas da Grã-Bretanha.

 

Tudo quanto se registrou nos anos que precederam a guerra concorreu para sustentar essa convicção: a atitude pusilânime da liga diante das ambições territoriais de Hitler, que haviam começado com a reocupação da zona desmilitarizada da Renânia; a política de não-intervenção adotada pelas potências ocidentais enquanto Franco introduzia um regime fascista na Espanha, abertamente ajudado pela Itália e pela Alemanha; a anexação da Áustria, que o Führer concretizou em março de 1938, seguida de perto, em setembro do mesmo ano, da reunião de Munique, na qual Mussolini experimentou a atitude de apaziguamento do Primeiro-Ministro britânico em primeira mão.

 

Apesar, porém, dessa grande quantidade de fatos comprobatórios, apesar do tom belicoso dos seus discursos, entremeados de gestos dramáticos e agressivos, Mussolini não tomou imediatamente das armas quando seu colega do Eixo invadiu a Polônia. Esperou por mais nove meses, quando então a França e os Países Baixos já haviam sido reduzidos à impotência pela rapidez e poder da Blitzkrieg alemã, para finalmente declarar guerra à Grã-Bretanha e à França, a 10 de junho de 1940, pouco antes de os franceses pedirem a paz.

 

Assinado o armistício com a França, os italianos não tinham mais que temer as forças coloniais francesas na África do Norte, nas fronteiras ocidentais da Tripolitânia. Estavam livres para concentrar avassaladoramente todo o seu poderio contra os britânicos.

 

O Marechal Graziani tinha à disposição forças consideráveis para atacar os britânicos no Egito. Por toda a Cirenaica e a Tripolitânia, os italianos possuíam quase 250.000 homens organizados em dois exércitos; o 10o Exército, alinhado na Cirenaica, era formado de um corpo regular e um de Camisas Pretas, cada qual composto de duas divisões italianas; havia ainda duas divisões líbias de askaris; o restante, conhecido como 5o Exército, estava na Tripolitânia. Toda essa enorme tropa encontrava-se sob o comando do QG Supremo da África do Norte, de Graziani. Afastada a ameaça representada pelos franceses, na fronteira da Tunísia, pela rendição da França, o marechal podia tranqüilamente colocar o grosso das forças existentes na Tripolitânia em reforço do 10o Exército, se necessário, embora o 10o Exército sozinho superasse bastante em volume de tropa o contingente britânico que os italianos tinham pela frente.

 

Em meados de setembro, Graziani começou a avançar – cautelosamente, apesar da sua superioridade numérica avassaladora – para o interior do Egito. Foi um começo moderado, tendo em vista a grandiloqüente estratégia concebida pelo Duce para o Oriente Médio, destinada a aumentar radicalmente o tamanho do Império Africano da Itália, melhorar sua imagem perante o povo italiano e obrigar Hitler a reconhece-lo como um parceiro de igual valor na aliança do Eixo. Diante de uma retirada habilmente conduzida pelos comandantes britânicos, prejudicados pelos campos minados, bombardeados pela RAF e continuamente hostilizados pela artilharia britânica, os italianos levaram quatro dias para chegar a Sidi Barrani, 104 km distante do ponto em que partiram.

 

Esse laborioso avanço foi saudado como uma grande vitória pela Rádio de Roma e Mussolini começou a pressionar o seu comandante para que continuasse atacando para oeste. Mas Graziani não revelava muita pressa. Enquanto seu exército se empenhava em fortalecer as linhas de comunicações contra a ameaça de ação britânica e a entrincheirar-se e construir posições defensivas, o Marechal respondia às incitações de Roma com um fluxo constante de queixas sobre a má qualidade do equipamento, dos blindados e da artilharia de que dispunha. A tenaz resistência britânica enervava o italiano.

 

Apesar de não ter sido obrigado a enfrentar nenhuma posição firmemente preparada durante o avanço que fez, Graziani não esperava pela contínua hostilização a que suas colunas haviam sido submetidas. Em cada crista do terreno, uma contestação a anular, e até mesmo à noite, quando já recolhidos aos acampamentos, os italianos eram bombardeados com grande precisão, devido ao hábito, sem dúvida proveniente do nervosismo da tropa, de iluminar com holofotes a área situada em torno de suas posições.

 

Graziani e seu exército não mostravam grande inclinação para continuar avançando, parecendo satisfeitos com as posições defensivas que ocupavam em torno de Sidi Barrani. Enquanto isso, a guerra estava parada e a iniciativa fugira às mãos dos italianos. Os soldados realizavam apenas uma pequena adaptação à vida no deserto, permanecendo praticamente como estranhos naquelas inóspitas paragens.

 

A atitude dos britânicos que defendiam o Egito fazia um contraste muito forte com a dos hesitantes construtores de império de Mussolini.

 

O General Sir Archibald Wavell fora nomeado Comandante Geral a 2 de agosto de 1939, com as forças terrestres do Sudão, Egito, Palestina, Transjordânia e Chipre sob seu comando. Quando do começo da guerra, ampliou-se a sua área de responsabilidade para incluir a Somália Britânica, Aden, Iraque e as costas do Golfo Pérsico. Durante o período em que os italianos ficaram como espectadores das façanhas de seu aliado alemão, Wavell fez o que pôde, dentro das rígidas restrições que lhe foram impostas, para se preparar para a luta inevitável no Oriente Médio. Essas restrições foram eliminadas quando Winston Churchill se tornou chefe de um governo de coalizão cujo objetivo era levar a guerra, independente do que viesse a custar, à vitória final. Wavell concordava plenamente com essa nova e agressiva política.

 

Apenas três dias antes que a Itália declarasse guerra à Grã-Bretanha e França, o Major-General Richard O’Connor assumiu o comando da Frota do Deserto Ocidental, instalando seu QG em Mersa Matruh, com a tarefa de proteger o Egito contra a invasão italiana. Para isto, ele tinha a 7a Divisão Blindada, menos uma brigada, dois regimentos da Real Artilharia e dois batalhões motorizados; era verdadeiramente um Davi britânico diante de um Golias italiano. O’Connor, porém, logo de saída adotou uma política ativamente agressiva que estabeleceu uma tradição de ascendência moral dentro da Frota do Deserto Ocidental. O exército italiano, que era menos ativo, desenvolveu, ao contrário, um sentimento de inferioridade que afetaria o seu desempenho durante a campanha do deserto, mesmo depois da chegada de forças alemãs à África do Norte.

 

O volume das tropas à disposição de Wavell no Egito, no começo das hostilidades, atingia cerca de 36.000 homens. Integravam-nas a 7a Divisão Blindada, comandada pelo Major-General O’Moore Creagh; a 4a Divisão Indiana, sob o Major-General Noel Beresford-Pierse; a Divisão Neozelandesa, comandada pelo Major-General Bernard Freyburg; 14 batalhões de infantaria britânicos e dois regimentos de artilharia. Essas divisões estavam todas abaixo dos seus efetivos e careciam tristemente de equipamento, artilharia, blindados e transporte motorizado. Para compensar até certo ponto essas deficiências, Wavell insistira, durante o período que precedeu o governo de Churchill, período decepcionante do ponto de vista militar, para que suas formações atingissem elevado padrão de treinamento, o que foi feito com a máxima eficiência.

 

Em agosto de 1940, Wavell visitou Londres e, após consultas com Churchill e com o Chefe do Estado-Maior Geral Imperial, General Sir John Dill, retornou ao Oriente Médio alentado pela promessa de que receberia reforços de tanques, artilharia, armas automáticas e munição. Nessa época a própria Grã-Bretanha estava sofrendo violentos ataques aéreos e vivia a ameaça de invasão. Grande parte do equipamento que a Força Expedicionária Britânica havia levado para a França tinha sido abandonada do lado errado do Canal da Mancha, quando os britânicos foram evacuados em Dunquerque, e o exército alemão começou a reunir barcaças de invasão nos portos do Canal com a nítida intenção de pular para as Ilhas Britânicas. Nessas circunstâncias, a decisão de reforçar o Exército do Nilo era desassombrada e previdente.

 

Encorajado pelo apoio de Churchill e pela relutância de Graziani em deixar as posições que mantinha em torno de Sidi Barrani, Wavell começou a planejar a ofensiva que entrara em sua cogitação desde o momento em que os italianos declararam guerra. Esses planos foram feitos em segredo, pois ele queria criar a impressão, com seus movimentos iniciais, de que objetivava apenas uma incursão de cinco dias, com grande número de soldados. O comboio da Inglaterra que trazia os prometidos reforços chegou ao Egito em meados de setembro e começaram de pronto os preparativos para o ataque que se iniciaria em princípios de dezembro. Durante o período de relativa calma que se seguiu à movimentação dos italianos para Sidi Barrani, os homens da Força do Deserto Ocidental aclimataram-se às condições em que teriam de lutar.

 

Entre El Alamein, no Egito, e El Agheila, na fronteira da Tripolitânia, o deserto se estende por cerca de 800 km, cobrindo toda a largura da Cirenaica. As poucas áreas habitadas nesse ermo árido estão todas situadas numa estreita faixa que acompanha a costa, assim como as estradas e, onde existe, a ferrovia. Ao sul do cinturão costeiro, o deserto se estende ininterrupto por centenas de quilômetros, vazio, exceto quanto aos oásis de Jalo e Jarabub, na Cirenaica, e Siwa, no Egito. Nessa vasta arena de areia e pedra travou-se a guerra do deserto.

 

Alimento, água, combustível para veículos, munição para armas, tudo tinha de ser transportado por caminhões. A guerra no deserto era eminentemente móvel. Os tanques e a infantaria motorizada constituíam as armas de maior eficácia. A infantaria sem veículos, de uso limitado, era empregada nas lutas de sítio, nos momentos defensivos. Mas os infantes, mesmo quando móveis, tinham de ser protegidos por blindados e artilharia, pois os tanques soltos entre os soldados de infantaria e veículos “sem blindagem” no deserto aberto eram como lobos num aprisco. O tanque tornou-se o senhor do campo de batalha no deserto, embora sua operação fosse atribulada por dificuldades. Foi o general alemão Ravenstein que mais tarde resumiu sucintamente os problemas das batalhas blindadas nesse teatro de guerra: “Os tanques no deserto”, disse ele, “são um paraíso para o tático e um inferno para o oficial de intendência”.

 

O soldados britânicos, tradicionalmente adaptável, cuidou de tornar a vida tolerável nesse mundo de grandes contrastes. Durante os meses de verão, os dias ensolarados se sucedem numa seqüência contínua e monótona; pelo meio-dia, o revestimento metálico dos veículos ficava tão quente que não se podia tocar nele, ao passo que à noite, a temperatura, caindo rapidamente, gelava os corpos. Vez por outra, essa seqüência era interrompida, quando caíam tempestades de areia, tão fortes que ocultavam o sol. O vento levantava a superfície pulverizada do deserto, revolvida pela passagem de muitos veículos de rodas e lagartas, e fazia penetrar em cada escaninho do equipamento e dos instrumentos, em cada dobra da roupa e em todas as partes do corpo. Quando esse vento  era o Khamsin, sopro quente e seco tocado do sul ou sudeste, era como se as portas do inferno se escancarassem, lançando uma ventania que levantava a areia para queimar e sufocar todas as coisas vivas pelo caminho.

 

Quando os elementos de manutenção da vida se reduziam ao essencial, certas coisas assumiam extraordinária importância. No deserto, o chá era uma dessas coisas. Era tido como o principal antídoto do tédio e das dificuldades diárias. Até mesmo o ritual do seu preparo ganhava propriedades quase terapêuticas, devido à rotina de sua realização. Para fazer chá no deserto, uma lata de gasolina de 20 litros era cortada ao meio. Uma metade era cheia de areia e cascalho, ensopada em gasolina e acesa; a outra metade era usada para aquecer a água e, quando esta fervia, acrescentava-se chá açúcar e leite, mexendo-se vigorosamente toda essa mistura. O resultado era uma bebida forte, doce e estimulante – um restaurador de energia e um refrigério para o moral submetido ao stress.

 

As rações distribuídas aos soldados variavam muito pouco. A carne enlatada era o alimento principal e, provavelmente, o favorito de todos. Em seu preparo entravam muitas idéias e muita engenhosidade, num esforço por obter certa variedade de sabor. O bacon eram muitas vezes de qualidade medíocre, mas a carne enlatada e o ensopado de legumes forneciam uma refeição relativamente satisfatória. Qualquer outra coisa poderia ser escassa, mas biscoito não faltava. O exército distribuía-o numa variedade infinita de sabores e texturas, que os soldados comiam com margarina, geléia ou marmelada.

 

A idéia que os que não a viveram faz da vida no deserto é em geral errada, mas no tocante à água, todas as opiniões são concordes – era de fato escassa, quase inexistente. Numa comunidade civilizada, onde se pode obter água na qualidade desejada, é difícil imaginar as aflições que da sua inexistência decorrem. No deserto, a água, como tudo o mais, tinha de ser transportada até os soldados. Oficialmente, a ração diária era de 4 litros por homem, mas para os que estavam distantes dos pontos de abastecimento, a ração muitas vezes era de apenas a metade, quase nunca de mais de três litros. Para ir-se remediando com tão magra quantidade, os soldados eram obrigados a adotar um sistema rígido de consumo.

 

Uma ração de 2 litros seria distribuída da seguinte maneira: meio litro para um meio banho e barba; a água consumida nisso era, depois de filtrada, acumulada até fazer o suficiente para um banho geral. Depois de mais outra filtragem, era usada para lavar roupas; novamente filtrada, ia abastecer os veículos da unidade. Um segundo meio litro reservava-se ao cantil individual do soldado e o litro restante era destinado ao preparo do chá ou das refeições. O soldado do deserto criou um jeito todo seu de usar o material obtenível na região. Por exemplo, o aparelho de filtragem era feito da onipresente lata de gasolina de 20 litros, perfurada no fundo e cheia de camadas alternadas de areia e cascalho.

 

Assim, nos meses de relativa calma permitida pelo malogro do Marechal Graziani em avançar, o exército britânico transformou-se numa força apta a enfrentar os problemas do deserto, aprendendo a navegar com precisão pelas imensidões informes utilizando da melhor maneira possível seu equipamento e suas armas. Esse treinamento e aclimatação seriam úteis aos britânicos quando eles passassem à ofensiva, compensando com determinação e habilidade a vantagem que os italianos levavam em quantidade de soldado e de equipamentos.

 

De Sidi Barrani a Tobruk

 

A ofensiva de Wavell, chamada “Operação Bússola”, foi planejada sob a proteção de um véu de segredo raramente tão espesso. O General O’Connor não estava no conhecimento de que, se sua Força do Deserto Ocidental fosse bem sucedida na primeira fase do ataque, lhe seria dada permissão para continuar na ofensiva, de ir até onde lhe permitissem os recursos de que dispunha. Para que se mantivesse no maior sigilo o que planejavam, os britânicos fizeram espalhar que, longe de estarem pensando em ação agressiva no deserto, o mais provável é que houvesse novas retiradas, pois haviam sido muito enfraquecidas suas forças com a necessidade de desviar tropas para lutar na Grécia.

 

A 26 de novembro, sob o disfarce de Exercício de Treinamento nº 1, realizou-se o ensaio da operação. Os soldados que participaram dele sabiam apenas que se empenhariam em outra manobra, o Exercício de Treinamento nº2, durante a segunda semana de dezembro.

 

A 7 de dezembro, as forças de ataque estavam em suas posições. Movimentando-se no dia 6, registraram-se apenas as reclamações comumente feitas contra os planos de treinamento, embora alguns veteranos do deserto que já haviam viajado naquela direção desconfiassem de que estivesse em curso uma aproximação da linha defensiva italiana. Na manhã seguinte, bem cedo, depois de passarem a noite num bivaque, todos foram instruídos sobre a batalha iminente.

 

Os italianos ocupavam vários campos fortificados, construídos para bloquear as aproximações da estrada costeira, que estava sendo melhorada entre Sidi Barrani e Bardia, colocados para cobrir todos os possíveis caminhos de ataque. Havia campos fortificados a leste da própria Sidi Barrani e no lado norte da estrada costeira, a uns 32 km de distância, em Maktila. Ao sul de Maktila e da estrada havia outro campo fortificado, num lugar conhecido como Ponto 90. Maktila e o Ponto 90 serviam para proteger Sidi Barrani contra arremetida feita ao longo da estrada, vinda de Mersa Matruh.

 

Em Tummar, outra concentração de tropa protegeria o sul do Ponto 90 e, também ao sul de Tummar, o Campo Nibeiwa vigiava as escarpas de Bir Enba. Os campos fortificados restantes, em Rabia e Sofaffi, a sudoeste de Nibeiwa, procurariam barrar qualquer movimento de flanco na direção de Buq Buq, a oeste de Sidi Barrani.

 

Em geral, esses campos distavam não mais de 8 km uns dos outros, mas entre Nibeiwa e Rabia, a brecha era de quase 48 km de deserto inteiramente plano. Nos meses que sucederam o avanço italiano para Sidi Barrani, os britânicos mantiveram os campos fortificados sob constante observação, para avaliar seus efetivos; fizeram incursões para, através dos prisioneiros que conseguissem pegar, obter informações. De modo geral, dominavam o deserto em torno deles, estabelecendo, desse modo, uma ascendência moral sobre o adversário, que se revelava muito defensivista.

 

As forças italianas que O’Connor teria que enfrentar eram bastante volumosas. Espalhadas pelos campos fortificados e pelas imediações de Sidi Barrani havia duas divisões líbias, a 4a Divisão de Camisas Pretas, e uma unidade, denominada “Grupo do General Maletti”, com efetivos de divisão. Esta formação ocupava o campo de Nibeiwa. Nos campos de Sofaffi e Rabia e ao longo do lado sul da escarpa postava-se outra divisão e, mais para trás, uma divisão fora posicionada entre Sidi Barrani e Buq Buq, com duas outras no triângulo formado por Forte Capuzzo, Sollum e Sidi Omar.

 

A Força do Deserto Ocidental se propunha atacar com a 7a Divisão Blindada, a 4a Divisão Italiana e a  “Força de Selby”, uma formação comandada pelo Brigadeiro A. R. Selby e integrada por três colunas móveis de infantaria, uma tropa de carros blindados e uns poucos canhões antiaéreos e canhões de campanha, leves. Toda a força de ataque de O’Connor não chegava a somar 30.000 homens, só que eram excepcionalmente bem treinados e cheios de confiança.

 

Há tantos imponderáveis na guerra que nenhuma batalha segue fielmente o plano preparado, por mais bem ponderado e ensaiado. Mas a “Operação Bússola” quase foi uma exceção à regra. Para começar, a força atacante aproximara-se sem ser descoberta até as posições que os italianos ocupavam a 7 de dezembro, apesar da massa de tropas e veículos envolvidos e do terreno, inteiramente aberto. E quando, no dia 8 de dezembro, domingo, ela fez a aproximação das posições de pré-ataque, nuvens baixas proporcionaram a cobertura de que precisava para não ser descoberta pelos aviões de reconhecimento italianos.

 

Durante a noite de 8 de dezembro, as duas divisões se separaram, a 4a Indiana para fazer os primeiros ataques à área fortificada de Nibeiwa e Tummar, e a 7a Divisão Blindada, fletindo para oeste, dirigiu-se para trás do campo de defesa da estrada Sidi Barrani-Buq Buq. A Força Selby, deixando Mersa Matruh a 9 de dezembro, dirigir-se-ia para oeste, ao longo da estrada costeira, encarregada de manter a guarnição de Maktila ocupada, depois do que avançaria para a própria Sidi Barrani.

 

Durante toda a noite de 8 de dezembro, a RAF e a Marinha Real promoveram apoio à Força do Deserto Ocidental. Sidi Barrani e os aeródromos situados a oeste foram bombardeados, enquanto que o monitor Terror, apoiado pelas canhoneiras Aphis e Lady-Bird, bombardeavam Maktila e Sidi Barrani. Para as tropas que no deserto aguardavam o começo do ataque, a expectativa do momento da luta foi suportada com dificuldade, em vista do desconforto físico e da excitação nervosa. Como de hábito, a tensão da vigília do pré-ataque foi quebrada pelos artilheiros. Às 07:15h os canhões da artilharia divisionária abriram fogo contra Nibeiwa e trovejaram um bombardeio breve mas intenso.

 

Mais cedo, às 05:00h, um batalhão da 4a Divisão Indiana, deslocando-se do setor oriental em que se encontrava a Divisão, disparou rápida série de tiros, silenciando a seguir, estratagema calculado para induzir apreensão dentro das defesas. Também a barragem de artilharia foi desfechada do lado oriental do campo fortificado, mas quando, uns dez minutos mais tarde, o ataque começou, foi dirigido contra o ângulo noroeste.

 

A ponta-de-lança do ataque era composta de tanques Mark II da infantaria – Matildas, lentos mas fortemente armados – do 7o do Real Regimento de Tanques, que penetraram as defesas de Nibeiwa, eliminando logo de saída cerca de 25 tanques leves e médios italianos que estavam estacionados fora das linhas de defesa. Quando os Matildas entraram em combate com a artilharia e a infantaria inimigas, a pequena distância, a infantaria britânica do 1/6o Fuzileiros Rajputanos e do 2o Cameron Highlanders, seguindo logo atrás, fez a limpeza dos bolsões de resistência mais tenazes. No começo do ataque, o comandante de grupo italiano “General Maletti” foi morto por uma rajada de fogo de metralhadora de um ataque quando deixava sua trincheira, mas, apesar desse revés para o moral italiano e do elemento surpresa conseguido pelo ataque feito pela “porta dos fundos”, foram precisas duas horas de luta árdua até que Nibeiwa caísse inteiramente em mãos britânicas.

 

Enquanto a ação se desenrolava, uma força  formada da 5a Brigada Indiana – 1o Real de Fuzileiros, 3/10 Regimento do Punjab, 4/6o Fuzileiros Rajputanos – e um regimento de artilharia de campanha fizeram um deslocamento em arco pelo oeste de Nibeiwa, para ficar em posição de atacar o acampamento de Tummar. Fazendo um círculo ainda maior para oeste, a 7a Divisão Blindada, com a 4a Brigada Blindada à frente, preparava-se para cortar a estrada costeira entre Buq Buq e Sidi Barrani.

 

Os tanques e veículos que percorriam o deserto aberto forneciam uma visão esplêndida: cada veículo deixava atrás de si uma leve nuvem de poeira que se contorcia na clara luz do sol da manhã; os estandartes presos às antenas de rádio dos tanques destacavam-se, esticados ao vento produzido por seu rápido deslocamento. A cena lembrava a guerra no mar, com a qual a guerra no deserto muito se assemelha. Por volta das 10:00h, a estrada costeira havia sido cortada e o resto do dia foi dedicado à captura e destruição de veículos italianos que topavam confiantemente os obstáculos erguidos sobre suas linhas de comunicação.

 

Entrementes, depois de concluir o reconhecimento de Tummar, a 5a Brigada Indiana montou seu ataque durante a tarde. Este seguiu o mesmo padrão tão bem sucedido do ataque a Nibeiwa, mas com menos tanques e sem o elemento surpresa. Contudo, o resultado foi o mesmo. O forte foi tomado ao anoitecer, embora os britânicos sofressem mais baixas do que em Nibeiwa.

 

Mais ao norte, na faixa costeira, a “Força Selby” se esforçara para impedir que a guarnição italiana do forte Maktila escapasse. Infelizmente, seus esforços foram frustrados por grossa tempestade de areia que se levantou e, remoinhando na retaguarda dos italianos em retirada, permitiu-lhes recuar para posições a cerca de 10 km a oeste.

 

Apesar do desapontamento por não terem podido impedir a fuga dos defensores de Maktila, no fim do dia era evidente que as coisas tinham saído muito bem na “Operação Bússola”. Em Nibeiwa, o número de prisioneiros passou dos 2.000, além de vários tanques e canhões. Em Tummar, o resultado do ataque foi igualmente bom. A barricada que a 7a Divisão Blindada ergueu na estrada costeira redundara em cerca de 300 prisioneiros, grande quantidade de veículos capturados e número ainda maior de destruídos. Em suma, o começo da ofensiva foi bastante satisfatório, mas o General Wavell considerou prudente incluir uma nota de cautela no comunicado que dirigiu a Londres narrando as ocorrências que acabavam de se verificar. Embora pretendesse levar a ofensiva até onde pudesse, havia ainda um longo caminho a percorrer e Wavell era um homem que não gostava de celebrar vitórias antes de tê-las inteiramente conquistado.

 

A tempestade de areia que interferira nos planos da “Força Selby” de isolar a guarnição italiana de Maktila foi o prelúdio de um período de mau tempo. Os dias eram frescos e as noites, penetrantemente frias; ventos fortes reuniam a areia e a impulsionavam em nuvens densas e abrasivas que varriam a face do deserto, reduzindo a visibilidade a uns poucos metros e tornando desgraçadamente dura a vida dos soldados que tentavam manter o impulso da ofensiva. Para aumentar as dificuldades, fortes chuvas caíram quando o vento cessou.

 

No dia 10 de dezembro, duas brigadas da 4a Divisão Indiana abriam caminho, lutando forte, na direção de Sidi Barrani; eram a 5a Indiana, que estivera em ação em Tummar, e a 16a  Britânica, que permanecera na reserva no começo da luta. Apesar do mau tempo, que impossibilitava operações coordenadas de tanques e infantaria, e da vigorosa resistência dos italianos, o primeiro batalhão da 16a Brigada Britânica chegou à estrada em Alam el Dab. Por volta das 13:30h, as brigadas haviam alcançado os objetivos que buscavam.

 

Desejando manter a pressão sobre os italianos, o Major-General Beresford-Pierse ordenou que a 16a Brigada, com tantos Matildas quantos podiam ser postos em serviço, atacasse Sidi Barrani às 16:00h. Chegaram também para o apoio a 4a Brigada Blindada, que fora a ponta-de-lança do rápido avanço da 7a Divisão Blindada pelo deserto, para cortar as linhas de comunicação italianas, e todos os efetivos da artilharia divisional. Sidi Barrani foi tomada e ultrapassada em meia hora. Recebendo a adição da “Força Selby”, a 16a Brigada Britânica conseguiu enredar os remanescentes de duas divisões líbias e de uma Divisão Camisas Pretas antes do anoitecer.

 

Enquanto essa luta se desenrolava, a 7a Divisão Blindada permanecera disponível no deserto, ao sul da estrada costeira e a oeste da trilha que vai de Sidi Barrani a Bir Enba; mas, à noite, com Sidi Barrani tomada, o Major-General O’Connor deu ordens para que a divisão avançasse sobre Buq Buq.

 

Nessa conjuntura, tendo planejado com sucesso o colapso total das forças italianas na área de Sidi Barrani, O’Connor foi repentinamente confrontado com a perda da 4a Divisão Indiana. Wavell havia inicialmente destacado essa divisão para atuar no Sudão, juntamente com a 5a Divisão Indiana, na campanha do leste africano, contra a Eritréia e a Etiópia ocupadas pelos italianos, assim que a primeira fase da “Operação Bússola” fosse concluída. Navios mercantes estavam já disponíveis e a 11 de dezembro O’Connor recebeu ordem para devolver a formação, altamente treinada, menos a 16a Brigada Britânica, embora isso, indubitavelmente, freasse a ofensiva. Para substituí-la, ele recebeu a 6a Divisão Australiana que, na época, tinha apenas uma brigada na área do deserto e em geral carente de transporte e equipamento; além disso, haveria uma defasagem, enquanto os australianos se aprontavam para a luta e se adaptavam à vida no deserto, tal como acontecera com a Divisão Indiana.

 

Contudo, nesse estágio, o General O’Connor tinha, a consolar-lhe o pesar de não poder prosseguir, o resultado das lutas dos últimos dias, o que era uma satisfação. Quatro divisões italianas haviam sido destruídas e duas outras tinham sido seriamente maltratadas. No processo, cerca de 38.000 soldados italianos e líbios haviam parado, não totalmente a contragosto, nas gaiolas de prisioneiros. Setenta e três tanques e 237 peças de artilharia tinham sido capturados, além de considerável número de veículos motorizados, que, numa campanha em que era essencial, se constituíam numa aquisição bem-vinda.

 

Mas O’Connor, homem de ação por natureza, não era de se contentar com louros de feitos passados; com o restante das suas forças, ele continuou a hostilizar e perseguir os italianos, atacando bolsões de resistência e avançando bem para oeste. Era sabido que Graziani pretendia defender Bardia e Tobruk e que Mussolini apoiava firmemente essas intenções, de modo que como a necessidade de infantaria se fazia urgente, os australianos foram levados para o deserto o mais rápido possível.

 

Entrementes, a violência da luta se abateu sobre a 7a Divisão Blindada. Pelo meio-dia de 15 de dezembro, a 4a Divisão Blindada estava de volta ao trabalho de isolar a estrada entre Bardia e Tobruk, tendo tomado anteriormente Sidi Azeiz. A 17 de dezembro, Sido Omar foi capturada e, pelo dia 20, Capuzzo e Sollum estavam em mãos britânicas; embora a captura de Sidi Omar tivesse elevado o número de prisioneiros italianos para mais de 1.000, em Capuzzo e Sollum os britânicos não tiveram efetivos suficientes para impedir que grande quantidade de soldados de infantaria e artilharia pudessem fugir para engrossar a guarnição de Bardia, tornando, desse modo, a captura daquela cidade empreitada mais difícil.

 

Bardia apresentava ao atacante mais dificuldades do que qualquer das posições fortificadas já acossadas. O perímetro defensivo da cidade, de cerca de 27 km de extensão, consistia de uma trincheira antitanque contínua, obstáculos de arame farpado e fortins de concreto colocados para cobrir com fogo esses obstáculos. Dentro do perímetro havia cerca de 45.000 homens e mais de 400 canhões.

 

A 21 de dezembro, o Major-General Iven Mackay assumiu o comando da área de Sollum. O comandante da 6a Divisão Australiana era um soldado e acadêmico, tendo passado vinte anos de sua vida como catedrático universitário e diretor de escola. Como comandante de companhia em Gallipoli, durante a Primeira Guerra Mundial, ele se distinguira como líder combatente e passara a comandar um batalhão aos 34 anos e uma brigada aos 36 anos de idade. Seus méritos de comandante corajoso e determinado foram ainda reconhecidos com a concessão da DSO (Ordem de Serviços Distintos).

 

Na 6a Divisão Australiana havia homens, muitos deles, que correram a apresentarem-se como voluntários quando da eclosão da guerra e ansiavam por justificar a reputação adquirida pelos seus antepassados do Anzac (Corpo Australiano e Neozelandês) na luta sangrenta de Gallipoli e na Frente Ocidental durante a guerra de 1914-1918. Eles haviam treinado arduamente na Palestina, o moral da tropa era elevado e os oficiais que a comandavam, embora em geral individualistas ferrenhos e homens de personalidade forte, haviam sido fundidos numa equipe pelos esforços do seu comandante de divisão. Infelizmente, o equipamento de que dispunha não se identificava com os padrões de eficiência da tropa.

 

A divisão carecia de canhões, carretas transportadoras de metralhadoras Bren (Pau para toda obra do soldado de infantaria), de sobressalentes para o transporte e, além disso, grande parte do equipamento que possuía era obsoleta. Apesar dessas desvantagens, a divisão se preparou com entusiasmo para a primeira batalha.

 

Os generais O’Connor e Mackay decidiram iniciar o ataque a Bardia despachando um batalhão de infantaria para tomar uma cabeça-de-ponte sobre a trincheira e a cerca de arame antitanques. Quando a trincheira fosse transposta e eliminados o arame farpado e as minas, os tanques do 7o do Real Regimento de Tanques entrariam no perímetro e começariam o ataque, conduzindo mais de dois batalhões de infantaria. Enquanto essa operação se realizava, num ponto situado ao centro das defesas ocidentais, a 7a Divisão Blindada se colocaria em posição para cortar a retirada da guarnição, a norte e a noroeste da cidade. O grupo de Apoio, consistindo de três batalhões de infantaria, um regimento de artilharia, um regimento de carros blindados e um esquadrão de tanques, observaria o perímetro defensivo da cidade e, se se apresentasse a oportunidade, procuraria penetrá-lo.

 

O início do ataque foi finalmente fixado para as 05:30h de 3 de janeiro de 1941,após um atraso de 24 horas porque a munição necessária não chegara. Apesar desse problema, o ataque, uma vez iniciado, prosseguiu com um desembaraço que desmentia a falta de experiência de combate da infantaria australiana. Por volta das 07:00h, os tanques estavam entrando na cabeça-de-ponte sobre a trincheira antitanques e passando por brechas abertas nos campos minados. Por volta do meio-dia, muitos dos membros da guarnição, demonstrando estarem saturados da guerra, começaram a entregar-se. A combinação dos tanques Matildas, de blindagem pesada, com a valentia da 6a Divisão Australiana, mais os pesados canhões do Warspite, Barham e Valiant da Marinha Real, convenceram-nos de que a batalha de Bardia estava perdida. Mas nem todos os soldados italianos cederam com tanta facilidade. Os dois dias seguintes foram gastos na limpeza dos bolsões de resistência mais tenazes, até que, a 5 de janeiro, a fortaleza se rendeu.

 

O comandante italiano em Bardia, General Bergonzoli – conhecido dos soldados britânicos como “Barba Elétrica”- não estava entre os 38.000 soldados que acabavam de deixar o serviço de Duce para passar o resto da guerra em campos de prisioneiros: a mais vistosa barba do exército italiano, varando a rede que os britânicos estenderam em torno da cidade, tomara o rumo de Tobruk. Mas, como consolação pela perda do general-comandante, os britânicos foram bem recompensados na quantidade de material bélico que tomaram. Além das peças de artilharia de costa  e de canhões médios, capturaram ainda mais de 200 canhões de campanha, 26 canhões antiaéreos, alguns canhões de infantaria de 40 mm e 16 canhões antitanques. Outra boa colheita foi feita na forma de tanques e veículos de transporte. A primeira ação dos australianos fora lucrativa, bastante lucrativa mesmo.

 

Ainda assim, o General O’Connor instava junto às tropas para que avançassem. A Força do Deserto Ocidental fora rebatizada a 1o de janeiro; passou a chamar-se 13o Corpo e pôs-se rapidamente a adquirir reputação sob seu novo título. No dia em que Bardia caiu, a 7a Brigada Blindada avançou célere para El Adem, que era o principal aeródromo italiano na Líbia e, no dia seguinte, deslocou-se para cortar Tobruk pelo oeste. Nesse dia 6, o 19o Grupo de Brigada Australiano deixou Bardia e, na manhã de 7 de janeiro, tomou posição diante do setor oriental das defesas de Tobruk. O anel de forças britânicas em torno do porto fechou-se com a chegada da 16a Brigada Britânica, da 4a Brigada Blindada, que passou a ocupar posição de ataque ao perímetro de defesa da parte ocidental da cidade.

 

Imediatamente foram feitos preparativos para derrubar a segunda das duas fortalezas que Mussolini ordenara fossem defendidas a qualquer preço.

 

Tobruk: a tomada

 

Não se pode descrever, mesmo num esforço de imaginação, Tobruk como uma fortaleza natural. A linha de proteção do porto era um semicírculo que tinha início na costa, a mais ou menos 13 km a leste da cidade, avançava pelo deserto aberto, ao sul de Tobruk, e retornava à costa, fixando-se o seu término a cerca de 15 km a oeste. Essas defesas consistiam de uma série de pontos fortificados de concreto, construídos rente ao chão, praticamente invisíveis para os que se aproximavam pelo deserto. O comprimento dessa linha de defesa era de uns 48 km. À frente desses pontos fortificados os italianos haviam erguido uma dupla cerca de arame farpado e, fora desta, haviam começado a cavar uma trincheira antitanque.

 

A construção da trincheira foi um verdadeiro trabalho de Hércules, pois em muitos lugares ela teve de ser talhada na rocha sólida, mas nunca foi inteiramente terminada. Segundo as especificações, a trincheira deveria ter 6 m de largura e 3,60 m de profundidade, mas numa extensão de mais ou menos 7 km para leste do ponto em que a estrada de El Adem entrava nas defesas, ela estava apenas parcialmente completada e era muito rasa. O setor ocidental não tinha trincheira antitanques, mas ali existe um wadi profundo que constitui um obstáculo natural e os italianos dispuseram em suas laterais vários pontos fortificados. Onde a trincheira era ineficaz ou inexistente, eles procuraram defender com campos minados, preparados de tal forma que fosse extremamente difícil a qualquer atacante que avançasse protegido pela escuridão desarmar as minas.

 

Dentro da área coberta pela linha de defesa, o terreno tinha três patamares acima do nível do deserto circundante, o mais alto dos quais elevava-se à altura dos rochedos costeiros. Os patamares eram separados por uma faixa de terra plana de mais ou menos 1.600 metros. As escarpas que formavam os pés desses degraus era protegidas, aqui e ali, por wadis – cursos de água secos – o que lhes aumentava a segurança. Também nos rochedos costeiros viam-se numerosos wadis, nalguns dos quais havia poços e algumas palmeiras que corriam para as praias de areia muito clara, formando um contraste agradável com a terra comum, nua, marrom e calcinada pelo sol, com seus afloramentos rochosos e o enfezado espinho de camelo.

 

Embora os pontos da linha de defesa fossem quase invisíveis, qualquer força que se dirigisse para Tobruk caía na observação dos defensores ainda a boa distância do alvo.

 

As defesas da área eram arranjadas em duas linhas curvas concêntricas. A linha externa corria logo atrás da primeira cerca de arame e a interna situava-se a uns 500 metros à retaguarda, com seus postos posicionados de forma a cobrir as lacunas deixadas entre os pontos fortificados externos. Cada posto tinha sua cerca individual de arame farpado, enquanto que os avançados tinham a proteção adicional de uma trincheira antitanque circular.

 

Não havia trincheira de ligação entre os pontos fortificados, mas eles se sustentavam mutuamente e seus campos de tiro se sobrepunham para cobrir a cerca de arame farpado e a trincheira antitanque ou o campo minado, bem como varriam o deserto descoberto e as áreas de aproximação. Além disso, o atacante seria obrigado a passar pela zona de fogo dos canhões de campanha e médios situados mais atrás, que os defensores podiam facilmente assestar contra ele.

 

As armas à disposição dos homens que guarneciam os postos variavam, mas uma distribuição mínima seria de duas ou três metralhadoras, um canhão antitanque ou canhão de campanha leve, e possivelmente um morteiro. Essas armas focavam em embasamentos circulares, com pisos e paredes de concreto e posicionados a uns 18 m de distância uns dos outros. Os soldados podiam passar de um embasamento para outro através de profundas trincheiras interligadas, junto das quais havia dormitórios e depósitos de munição. As casamatas e as trincheiras não eram cobertas, mas os abrigos junto das trincheiras eram à prova de tudo, exceto de um tiro direto, de uma bomba pesada ou de uma granada de grande calibre. Tudo aquilo permitia à guarnição proteger-se bem do fogo de artilharia, permanecendo no interior das trincheiras, abaixo do nível do chão.

 

A força italiana disponível para a defesa de Tobruk era, no entanto, mal distribuída. Totalizando uns 30.000 homens, era fraca em infantaria e forte em artilharia. Com tal força, era impossível estabelecer uma defesa em profundidade; portanto, a esperança dos defensores residia na artilharia e numa pequena força defensiva móvel de tanques e infantaria. Dentro do anel protetor da cidade havia poucos pontos fortificados e os que existiam tinham sido colocados somente em entroncamentos rodoviários, para proteger as principais posições de canhão, embora tivessem sido suplementados pela colocação de tanques entrincheirados, para servir de casamatas, que eram protegidos por campos minados e armadilhas.

 

Apesar disso, um ataque a Tobruk era algo que podia ser tentado levianamente, embora houvesse fracassado a tentativa feita pelo restante das forças italianas que se encontravam na Cirenaica no sentido de desviar os britânicos do caminho da cidade. A guarnição de Tobruk foi largada à própria sorte.

 

Tendo em mente, sem dúvida, o bem sucedido ataque a Bardia, o General O’Connor decidiu deixar a responsabilidade do planejamento e execução do ataque a Tobruk ao Major-General Mackay e sua 6a Divisão Australiana. Mackay planejou iniciar seu ataque com brigadas de infantaria, apoiadas por blindados e artilharia. A 16a Brigada Australiana avançaria antes do amanhecer, para estabelecer uma cabeça-de-ponte no perímetro de defesa a cerca de 5 km a leste do ponto em que a estrada de El Adem entrava nas linhas de defesa e onde a trincheira antitanques, por inacabada, oferecia um obstáculo menor. Essa brigada tentaria então avançar para leste e oeste, ao longo da área de defesa, capturando pontos armados e devastando a artilharia de campanha situada próximo deles, até que conseguisse criar uma brecha de uns 10 km de largura nas defesas externas de Tobruk. Por essa abertura, a 19a Brigada Australiana penetraria, rumando na direção noroeste, para a junção das estradas El Adem e Bardia e mais além.

 

A terceira brigada que Mackay tinha disponível para o ataque deveria, nesse momento, estar preparada para engajar no assalto. De início, a 17a Brigada Australiana seria empregada para fazer uma demonstração a leste do ponto designado para o ataque, o mesmo acontecendo com unidades da 7a Divisão Blindada, para oeste. Além disso, a Marinha Real e a RAF apoiariam os dois esforços diversivos e a operação principal, bombardeando alvos situados no perímetro de defesa durante as horas noturnas. Embora o plano relacionasse os objetivos do primeiro dia do ataque, ele não era de modo algum restritivo, pois, ao contrário, todos teriam liberdade de explorar plenamente o sucesso que viesse a obter. O General Mackay não duvidava de que suas forças poderiam tomar Tobruk. O que o preocupava era conseguir o máximo em rapidez e o mínimo em baixas. Quanto mais rapidamente fosse capturada a cidade, menos tempo os italianos teriam para realizar demolições, não se reduzindo muito, conseqüentemente, o número de prédios que os britânicos poderiam usar.

 

Antes de ser feito o ataque, era necessário reconhecer minuciosamente um setor considerável da linha defensiva, para descobrir o melhor ponto de entrada e, escolhido esse ponto, obter detalhes das defesas existentes nas vizinhanças. Era essencial que os italianos não desconfiassem das intenções dos britânicos, para minimizar os perigos para os atacantes. A intensa atividade das patrulhas, necessária para atender às exigências do planejamento, teve de ser realizada com grande cuidado. No ponto finalmente escolhido, a trincheira antitanque só tinha 1,20 m de profundidade, o que poderia permitir, com um ligeiro esforço, a passagem de tanques e veículos.

 

Os engenheiros inspecionaram cuidadosamente os campos minados italianos e suas armadilhas protetoras, encontrando meios de neutralizar as armadilhas e remover as espoletas e detonadores das minas. A técnica que recomendaram foi transmitida à infantaria, para que praticassem antes do ataque. Foram construídos modelos exatos das defesas italianas e feitas experiências com torpedos Bangalore de fabricação caseira, feitos de pedaços de cano de água, de 3,50 mm de comprimento por 3 polegadas de espessura, entupidos de explosivo, para testar sua eficiência na abertura de buracos na cerca de arame farpado. Não se poupou esforço para fazer que a penetração inicial fosse feita de maneira mais rápida e segura possível.

 

A tarefa da artilharia de apoio era dupla: primeiro, calar as armas italianas existentes na área imediata da penetração, e, depois, proporcionar apoio cerrado à infantaria, que faria recuar as defesas a leste e oeste da área do ataque inicial para reduzir as atividades da artilharia defensiva dos italianos. Na realização da segunda dessas tarefas é que se encontrava o maior problema.

 

Era essencial demarcar com precisão as posições das baterias italianas. Isto foi possibilitado pelos mapas recolhidos por ocasião da captura de Bardia e pelas informações fornecidas por aviões de observação da RAF. Os aviões usados nesse trabalho, Westland Lysanders, lentos e pesadões, voavam por consideráveis períodos, a pequena altura e diante de violento fogo antiaéreo, para verificarem se as posições das baterias estavam demarcadas com precisão e se os canhões vistos nos embasamentos eram reais. A artilharia não tinha intenção de desperdiçar suas preciosas granadas, trazidas com muito custo e esforço, em canhões falsos.

 

Colocando vários observadores para traçar os clarões dos disparos da artilharia italiana e a queda das granadas, foi possível verificar quais os canhões que estariam disparando na área do ataque quando este começasse. Estes canhões foram marcados como alvos prioritários para a artilharia britânica. Como os canhões britânicos estavam na maioria nas proximidades da estrada de Bardia, tinham de ser transportados para a área ao sul do ponto de ataque, para dar-lhe apoio. Dispará-los prematuramente seria indicar aos italianos o setor onde deveriam esperar o ataque, de modo que teve de ser modificada a maneira de ajustar os canhões aos seus alvos, em geral feita por determinação do ângulo de tiro. Em vez disso, o ajustamento teve de ser feito através de cálculos matemáticos.

 

O ataque estava marcado para começar às 05:40h de terça-feira, 21 de janeiro, e seria precedido de um bombardeio feito pela artilharia, por navios da Marinha Real e por aviões da RAF. Assim, não se daria aviso aos italianos, o mesmo programa de bombardeio como o que seria levado a cabo à véspera do ataque, foi realizado nas noites de sexta-feira, sábado e domingo anteriores. Em muitos lugares, ao longo do perímetro de defesa, os postos de resistência foram submetidos a fogo intenso, por patrulhas que se aproximavam muito, e buracos foram abertos no arame farpado com torpedos Bangalore. Esse estratagema manteve os italianos em constante apreensão, mas ao mesmo tempo acostumavam-nos a noites barulhentas provocadas pela atividade agressiva dos britânicos. Esperava-se que isso tornasse mais difícil aos italianos reconhecerem o ataque real quando este começasse, adiando assim a organização de contramedidas.

 

Até o último momento,  a área de reunião para o ataque foi mantida o mais limpa possível. Depois de escurecer, quando os navios da Marinha Real se aproximaram e abriram fogo contra os alvos determinados, no deserto, tanques e veículos deslocaram-se para as posições de pré-ataque, com o som dos seus motores abafado pelo troar de granadas dos canhões navais que explodiam. Por volta da meia noite, quando os navios suspenderam o bombardeio e se fizeram novamente ao largo, tudo estava pronto; os canhões haviam sido colocados em seus lugares e tanques e transportadores permaneciam silenciosos, na expectativa, com suas guarnições nas proximidades.

 

A infantaria de assalto já estava pronta há algum tempo. De acordo com a ordem de batalha, a tropa teve reduzido o equipamento, para que pudesse carregar maior quantidade de munição. Os soldados haviam feito uma refeição quente quando escureceu e bebido um gole de rum, para fortalecer o espírito e combater o frio intenso da noite de janeiro. Enquanto os navios martelavam as posições italianas e suas armas de apoio estavam tomando posição, os soldados de infantaria permaneciam enrolados em seus cobertores, tentando tirar uma pestana. Bem longe dos que esperavam no deserto, nos aeródromos do Egito, as tripulações dos bombardeiros, já abastecidos e carregados de bombas, eram instruídas para a ofensiva a ser feita assim que o dia amanhecesse.

 

Ia ter início a batalha de Tobruk. Para alguns, atividade febril, com o tempo correndo: para outros, a cansativa espera, com o tempo parado, com os segundos parecendo minutos, e as horas, uma eternidade.

 

Mas havia alguns homens que já estavam cumprindo a sua parte na batalha antes mesmo que esta começasse. Não viviam a excitação nervosa do avanço, atrás de uma barragem de artilharia, ou o frenesi apavorante do combate corpo a corpo, quando por efeito do calor da ação silenciava momentaneamente o medo natural. Para eles havia uma tarefa que exigia nervos firmes e habilidade manual. Eram os integrantes do Grupamento de Engenharia, que se haviam aproximado sorrateiramente durante a noite de 20 de janeiro para desarmar as armadilhas que protegiam os campos minados. Eles trabalhavam em silêncio, as mãos entorpecidas pelo vento frio, quedando-se inertes à passagem das patrulhas italianas, numa batalha contra o tempo, pois tudo deveria estar pronto antes do nascer da lua.

 

Às 02:30h de 21 de janeiro, foi servida outra refeição quente aos soldados: ninguém sabia quanto tempo se passaria até que pudessem comer novamente alimentos cozidos. Às 03:30h ouviu-se o ronco de aviões, quando os Wellington e Blenheims, vindos do Egito, deram início ao ataque. Ao explodirem as primeiras bombas sobre as defesas internas de Tobruk, a infantaria avançou para a linha de partida.

 

Às 05:30h o bombardeio parou e o deserto tornou-se de novo silente; depois do barulho do ataque aéreo, o silêncio parecia quase palpável, como a calma que precede a tempestade, que se desencadeou exatamente às 05:40h, quando, a escuridão foi espancada pelos brilhantes clarões acesos pela barragem de artilharia e granadas de canhões de campanha, médios e pesados. Uma vez mais, a Marinha Real prestou apoio à operação terrestre. No mar, mais de 20 navios contribuíram com o peso da sua artilharia para a considerável concentração de fogo que se estabeleceu, disparando granadas de até 15 polegadas de calibre sobre as defesas italianas.

 

Iniciada a barragem de fogo, a primeira leva de soldados de infantaria avançou pelo deserto aberto, acompanhada de sapadores, que portavam o rompedor de cerca, o torpedo Bangalore. Não encontrou muita resistência da artilharia italiana, embora se registrassem entre eles algumas baixas. Os soldados de infantaria avançaram por sobre o campo minado, já livre de armadilhas, cruzando as minas em segurança, pois não mais estavam armadas para detonar com o peso de um homem. As tropas de vanguarda, o 2/30 Batalhão da 16a Brigada de Infantaria, chegaram à trincheira antitanques às 05:55h e ali se protegeram por uns dez minutos, enquanto os dois postos de defesa italianos que se encontravam no caminho da penetração eram submetidos a um martelamento intenso pelos canhões.

 

Entrementes, o Grupamento de Engenharia preparava o caminho através do campo minado para a passagem da força motorizada, deslocando-se em seguida para a parte mais rasa da trincheira antitanques, onde formaram rampas para possibilitar-lhe o avanço.

 

Assim que suspenso o fogo sobre os dois postos avançados italianos, cujos números eram 55 e 57, os sapadores com a infantaria de assalto, avançaram céleres para a cerca de arame farpado, levando os incômodos torpedos Bangalores. Vários homens foram atingidos pelos disparos feitos dos postos e pelas granadas que voavam de vários pontos. Por volta das 06:15h, cinco brechas haviam sido feitas na cinta de arame para a infantaria passar. Agora, era uma corrida contra o tempo, pois restavam só 30 minutos de escuridão protetora e os cinco postos defensivos tinham de ser capturados antes de clarear o dia – três avançados e dois de apoio.

 

Nos 25 minutos seguintes estabeleceu-se luta violenta e confusa. Na escuridão e nos remoinhos de areia e fumaça do fogo de artilharia, crescia o risco de os próprios companheiros se matarem uns aos outros. As Companhias “D” e “C” do 2/3o Batalhão, destacadas para capturar os postos, sofreram baixas provocadas pelo violento fogo defensivo dos italianos. Por volta das 06:40h os cinco postos haviam caído e a Companhia “B” tomou posição defensiva a uns 1.000 m para o norte, ao longo da borda de uma escarpa, pronta para repelir qualquer contramovimento dos italianos. Havia já uma cabeça-de-ponte no perímetro de defesa da cidade, de cerca de 1.500 m de largura e outro tanto de profundidade.

 

Os Matildas do 7o/Real Regimento de Tanques, as carretas transportadoras de metralhadoras pesadas, as Bren, e demais veículos começaram a dirigir-se para a brecha, com suas silhuetas tornando-se mais nítidas à medida que as trevas se dissipavam e uma aurora cinzenta e sombria de janeiro vinha tomar-lhe o lugar. Em pouco o tráfego pelos trechos abertos na linha de defesa dos italianos passou a ser feito nos dois sentidos, quando começaram a ser levados para trás das linhas dos britânicos os prisioneiros feitos entre os defensores. Para eles a guerra terminara, mas não sabiam quando veriam novamente seus lares, na Itália. Não obstante, estavam felizes por não se encontrarem entre os que aguardavam, em macas, remoção para o hospital, ou entre os que jaziam em silêncio espalhados pela areia do deserto.

 

O 2/1o Batalhão da 6a Brigada de Infantaria ganhou também a cabeça-de-ponte e voltou-se para leste, atrás de três Matildas, para começar a operação de “recuo das defesas inimigas”; enquanto isso, o 2/3o Batalhão abria para oeste, arrastando para trás a defesa inimiga, na direção da estrada El Adem. A tarefa  do 2/2o, que penetrou o perímetro de defesa logo depois do 2/3o, era atacar as baterias situadas no flanco norte do 2/1o e do 2/3o, com ajuda de 9 tanques. Os três batalhões fizeram bom progresso. Tanques e infantaria avançavam atrás da barragem de artilharia, o mais perto possível. Suspensa a barragem de fogo, se ainda havia sinais de resistência por parte da guarnição dos postos, os tanques davam-lhe combate enquanto a infantaria se aproximava para, finalmente, subjuga-los com granadas de mão e baioneta calada.

 

O 2/3o Batalhão foi finalmente retido na vizinhança do posto 45, perto da estrada El Adem. Com seus três Matildas fora de combate, por defeito mecânico ou danos de batalha, a infantaria foi obrigada a esperar até que chegassem reforços. Mais para leste, o 2/1o avançou com boa rapidez e chegou à estrada de Bardia às 09:00h. Esse batalhão evitara certos postos de defesa, para manter a velocidade do avanço, deixando-os a cargo do 2/6o Batalhão da 17a Brigada de Infantaria, que lhe servia de apoio. Chegando à estrada de Bardia, o 2/1o Batalhão perdeu o apoio da artilharia, que se deslocara para ajudar o ataque da 19a Brigada de Infantaria. Sem artilharia, o 2/1o ficou retido ao norte da estrada de Bardia até ser reforçado pelo 2/7o Batalhão, também da 17a Brigada, que rompera a linha de defesa próximo do posto 65, depois de haver “recuado” a sua guarnição.

 

A seção do terreno situada entre o ponto onde as defesas italianas haviam sido rompidas inicialmente e o local escolhido para a linha de partida da 19a Brigada havia sido limpa por uma força mista, formada de carretas Bren da 6a Cavalaria Divisionária, metralhadores do 1o/Fuzileiros de Northumberland, e canhões antitanques do 3o/Real Artilharia. Eles haviam chegado ao objetivo por volta das 08:00h, cerca de 3.500 m dentro da linha defensiva, tendo vencido várias posições de artilharia italianas; dali começaria a segunda fase do ataque.

 

Os três batalhões da 19a Brigada de Infantaria começaram o assalto às 08:40h, assumindo a seguinte formação: 2/4o no centro, 2/11o à direita e o 2/8o à esquerda. O batalhão do centro rumou na direção norte, para capturar o QG do setor oriental, a cerca de 1.500 m além da estrada de Bardia; o batalhão da direita devia limpar o wadi daquele flanco e encontrar-se com o 2/6o ao longo da estrada de Bardia; o batalhão da esquerda avançou para a junção fortemente defendida das estradas El Adem e Bardia. Os três batalhões contavam com o apoio dos transportadores da 6a Cavalaria Divisional e de tanques italianos capturados, recuperados e postos em serviço pelos soldados de cavalaria.

 

A 19a Brigada avançou atrás de uma barragem de fogo móvel, disparada por canhões de 25 libras, correndo a infantaria riscos consideráveis por seguir o mais perto possível as granadas que explodiam. Os batalhões conseguiram manter-se bem desde o estágio inicial do avanço e, passada uma hora, o 2/4o havia tomado seu objetivo. Tudo correu bem também com o 2/11o, à direita, mas o 2/8o, depois de uma aproximação fácil, topou com as defesas da junção rodoviária, que, embora não estivessem completas, eram, não obstante, formidáveis. Os embasamentos de metralhadoras eram protegidos por campos minados, armadilhas e artilharia, mas o que deu mais trabalho à infantaria foi o número de tanques que haviam sido entrincheirados à guisa de casamatas.

 

Já então o apoio blindado se havia reduzido a um tanque, porque, apesar dos esforços dos cavalarianos em mantê-los em funcionamento, os tanques italianos recusaram-se a funcionar adequadamente com os novos donos e abandonaram a batalha um a um, apresentando enorme variedade de defeitos mecânicos. As carretas transportadoras de metralhadora Bren, agressivamente usadas, fizeram o melhor possível para ajudar os soldados de infantaria e o único tanque restante.

 

Era em situações como esta que os australianos demonstravam suas grandes qualidades de soldado. Sempre dispostos a tomar a iniciativa, independente do posto, eles empregavam uma variedade de métodos para subjugar os pontos forte italianos. Às vezes, os soldados de infantaria mostravam-se capazes de varar os tanques com seus fuzis antitanques Boyes; em outras circunstâncias, aproximavam-se dos tanques para disparar à queima-roupa, com as Brens, por qualquer abertura que vissem na blindagem. Não logrando êxito com esses métodos, um ou dois soldados se aproximavam correndo, subiam no tanque e tentavam lançar granadas dentro dele, pela torre. Naquele dia, muitos foram os atos de heroísmos individual, pois os australianos estavam decididos a não deixar que nenhum posto de defesa prejudicasse o ímpeto desenfreado do ataque.

 

Ao meio-dia, os batalhões atacantes se haviam estabelecido nos seguintes pontos: na junção rodoviária El Adem-Bardia estava o 2/8o, com os 2/4o, 2/11o, 2/6o e 2/7o movendo-se na direção leste e procurando alinhar-se ao longo da estrada de Bardia. Na estrada de El Adem encontravam-se duas companhias dos Reais Fuzileiros de Northumberland, uma companhia do 2/2o, com todo o 2/3o Batalhão. A essas unidades se juntariam o 2/1o Batalhão e o restante do 2/2o, que se deslocavam pelo deserto, deixando as posições que haviam capturado na estrada de Bardia, adjacentes à parte oriental do perímetro defensivo.

 

O comandante da 19a Brigada de Infantaria, Brigadeiro Robertson, estava decidido a manter o ímpeto do ataque e esperava capturar o QG da guarnição de Tobruk que, segundo acreditava, estava situado num velho forte, em Solaro, a aproximadamente 5 km nor-noroeste da junção rodoviária El Adem-Bardia. O brigadeiro fora advertido por aviões de reconhecimento da RAF (a RAF vinha apoiando o ataque com incursões de bombardeio e observando os canhões) que as forças italianas estavam-se reunindo num lugar chamado Forte Pilastrino com a finalidade de montar um contra-ataque, Pilastrino ficava a uns 6 km da junção rodoviária, ligeiramente ao sul e oeste de Solaro. Apesar da ameaça de contramedidas italianas, Robertson despachou o 2/4o Batalhão para Solaro, enquanto o 2/8o recebeu ordens de mover-se, ao longo da parte superior da escarpa, até Forte Pilastrino. Para proteger o flanco direito do 2/4o, o 2/11o foi despachado para o norte, para a costa sul da baía de Tobruk.

 

A tarde seria momentosa para o 2/8o Batalhão. Primeiro, havia tanques entrincheirados a silenciar, o que sugeria maior quantidade de baixas; depois, a Companhia “C” encontrou-se frontalmente com o contra-ataque italiano. Reforçada por homens da Companhia do QG, a Companhia “C” confrontou-se com várias centenas de soldados de infantaria italianos, apoiados por mais de 12 tanques M13. Foi bom que os blindados italianos não fossem mais potentes que o M13, pois os australianos já estavam sentindo o efeito das deficiências do seu equipamento; mesmo esses tanques lentos, com velocidade de apenas 11 km/h, apresentavam problemas para a infantaria de apoio. Os australianos, atacando com fuzis antitanques Boyes, que eram apenas adequados, e granadas, conseguiram causar várias baixas antes de receberem ajuda. Esta veio na forma de um canhão antitanque italiano capturado e que a infantaria pusera em uso. A esta arma em breve se juntariam mais dois canhões antitanques do 3o/Real Artilharia, e abriu-se fogo rápido contra os italianos. Quando dois Matildas apareceram, os M13 decidiram retirar-se, evitando um confronto direto com os fortemente blindados tanques britânicos.

 

Mas as dificuldades do batalhão ainda não tinham terminado, pois à medida que continuou avançando, após a dispersão do contra-ataque italiano, ele foi submetido a violento fogo de artilharia, disparado por quatro canhões antiaéreos que lançavam rajadas de ar sobre a cabeça dos soldados de infantaria. Esses canhões foram finalmente postos fora de ação pelos tiros precisos da Real Artilharia e os australianos continuaram avançando, embora ainda sob o fogo de metralhadoras e morteiros de Pilastrino.

 

Com os canhões antitanques silenciados, o 2/8o apertou o passo e, pelo anoitecer, estava perto do forte. Já cansados, os soldados tinham ainda que enfrentar vários postos de metralhadoras e defesas de arame farpado, de modo que a limpeza final de Pilastrino só se completou após o anoitecer. Por volta das 21:30h, o QG do Batalhão fora instalado dentro do forte e o 2/8o ganhou o direito a uma pausa durante a qual seria dado um balanço nos feitos conseguidos pelo batalhão e nas baixas por ele sofridas.

 

Como o 2/8o recebera o contra-ataque italiano frontalmente, o caminho para o ataque a Solaro do 2/4o fora facilitado. A infantaria avançara com muita rapidez e o fogo de metralhadora italiano nada fez para detê-la. Vários tanques italianos que permaneciam timidamente próximos do flanco esquerdo do batalhão foram rechaçados por canhões antitanques da Real Artilharia que vinham dando apoio às companhias de infantaria de vanguarda. Os australianos conquistaram uma pequena colina em que havia um forte que resistiu por 16 horas. O monte de escombros que coroava o topo da colina já não merecia o nome de “forte” com que os italianos o haviam dignificado. Debaixo desses escombros, os soldados descobriram vários túneis – mas nenhum sinal do QG da fortaleza de Tobruk.

 

A companhia de vanguarda encontrou pesada oposição por parte de vários postos de defesa próximos do Pilastrino, na estrada de Tobruk; depois de capturados e quando os prisioneiros estavam sendo arrebanhados, descobriu-se que o General Manella, o comandante italiano de Tobruk, encontrava-se entre eles. Nas últimas horas de luta, cerca de 1.600 italianos renderam-se ao batalhão.

 

Durante a tarde, o 2/11o Batalhão não encontrara oposição tão rija quanto os seus camaradas dos 2/8o e 2/4o. Chegando às 16:00h ao topo da última escarpa que dominava Tobruk, experimentaram a sensação de ver a cidade e a baía estender-se aos seus pés. Encalhados na costa sul havia dois navios italianos; o de carreira, Marco Pólo, de 15.000 toneladas, e o Ligúria, um cargueiro; ambos ardiam furiosamente. Na costa norte encontrava-se o cruzador San Giorgio, com seus canhões salientes. Ele fora bombardeado pela RAF no terceiro dia da guerra e ficara tão seriamente danificado que teve de ser encalhado; desde então, era usado como posto de defesa antiaérea pelos italianos.

 

Olhando lá de cima a cidade, os soldados podiam ver as nuvens de fumaça que contavam a história das demolições que os italianos estavam fazendo. A cada minuto, o estalar seco das detonações chegava aos ouvidos dos que se encontravam no alto da escarpa, e outro rolo de fumaça negra juntava-se aos que, contorcendo-se, dançavam sobre a cidade.

 

Os atacantes estavam particularmente preocupados com a usina de destilação de água, situada numa elevação próxima da costa sul da baía e a menos de 1 km das unidades avançadas do 2/11o. Um pelotão foi despachado com ordens de abrir caminho até a usina o mais rápido possível, para tentar impedir que os italianos a destruíssem. Ele foi bem sucedido na empreitada, surpreendendo os italianos quando faziam uma refeição; os homens capturados foram despachados para engrossar o fluxo sempre crescente de prisioneiros que se moviam para a retaguarda, enquanto os captores acabavam rapidamente a refeição preparada pelos italianos.

 

O 2/3o Batalhão enfrentara muita luta árdua durante o primeiro dia. Lembremo-nos de que ele fora detido durante a manhã e obrigado a aguardar reforços. Depois de esperar cerca de quatro horas e meia, um grupo de Matildas do 7o/Real Regimento de Tanques apareceu. Apoiados pelo fogo dos canhões de 25 libras e das metralhadoras Vickers dos Reais Fuzileiros de Northumberland, o 2/3o e os tanques reiniciaram o ataque por volta das 13:30h. Vários postos foram capturados após uma luta que continuou mesmo depois que os tanques tiveram de recuar para restabelecer-se. O batalhão continuou em ação até o anoitecer.

 

A maioria dos batalhões atacantes pôde desfrutar de uma noite calma, embora a atividade não cessasse de todo. As patrulhas que foram despachadas capturaram ainda dois postos de defesa italianos. Durante toda a noite, pelo ruído das explosões que vinha da cidade, os atacantes sentiam que os italianos ainda estavam atarefadamente empenhados na orgia da destruição. A batalha de Tobruk estava, porém, para todos os fins, terminada.

 

O General Mackay ordenou o prosseguimento da operação na quarta-feira: a 19a Brigada deveria ocupar a cidade de Tobruk e o promontório que fica por trás dela. A 17a Brigada foi encarregada da limpeza da área situada entre a estrada de Bardia e o mar, no setor oriental, e a 16a Brigada deveria fazer o mesmo no setor ocidental. Mas antes do início do avanço, na manhã de quarta-feira, dois grupos de carretas Bren foram despachados, na frente do 2/4o Batalhão, para Tobruk e chegou ao centro da cidade virtualmente sem incidentes. Ali foram recebidos por um oficial italiano que os informou de que o almirante os aguardava no edifício do QG Naval, junto da baía, para render-se formalmente. Uma mensagem foi logo despachada para o Brigadeiro Robertson, comandante da 19a Brigada, que sem demora chegou à cidade, acompanhado de pequeno séquito que incluía vários correspondentes de guerra ávidos por estarem presentes no momento decisivo.

 

O Almirante Massimiliano Vietina desejava render os 1.500 oficiais e soldados da guarnição naval e o Brigadeiro Robertson aceitou. Imediatamente realizou-se breve cerimônia; um oficial foi incumbido de, no pátio da base naval, disparar meia dúzia de foguetes Very lights para o céu, indicando o fim da resistência dentro da cidade. Essa pequena demonstração pirotécnica marcou o encerramento da campanha por Tobruk, embora talvez o que mais simbolizasse a vitória, que era sobretudo australiana, foi o hasteamento do chapéu desabado no topo do mastro que havia no centro da base naval.

 

Fazia parte do grupo de oficiais que acompanharam o Brigadeiro Robertson à cidade para aceitar a rendição do Almirante um certo Brigadeiro Morshead, recém-chegado ao Oriente Médio e presente ao ataque a Tobruk como observador. Enquanto assistia ao ato que assinalava o fim da ocupação italiana da cidade, ele não podia imaginar que, em futuro próximo, estaria comandando a guarnição do pequeno porto cirenaico durante o sítio que tornaria famosos a cidade e seus defensores.

 

Nos últimos estágios da campanha da Líbia os italianos eram considerados oposição de segunda classe, uma espécie de força contra a qual a obtenção de sucesso não era coisa difícil, resultando daí certo esvaziamento do feito dos britânicos e australianos desde o início da “Operação Bússola” à chegada a El Agheila, na fronteira da Tripolitânia. Talvez seja verdade que a guarnição italiana não se tivesse empenhado com a determinação ou fanatismo dos soldados alemães, mas a campanha, é de justiça que se diga, não teve como nota dominante a fraqueza dos defensores da cidade, mas a eficiência dos atacantes.

 

O planejamento e a execução de todos os pormenores da campanha foram um desmentido à fama de “amadoristas” que muitos oficiais da 6a Divisão Australiana carregavam e permitiram uma perfeita avaliação das qualidades de soldado e do preparo técnico dos que a integravam. A perícia com que se houveram os sapadores, os artilheiros e os membros das armas de apoio foi tal, que conferiu à campanha por Tobruk a falsa aparência de coisa fácil.

 

Uma vez mais, a leva de prisioneiros foi imensa. Apesar da atividade das turmas de demolição dos italianos, não lhes foi possível destruir os grandes estoques de munição que haviam sido armazenados em Tobruk. Numerosos canhões foram destruídos por ação de explosivos, enquanto que dos outros se retiraram, para silenciá-los, peças essenciais ao seu funcionamento.

 

A outrora elegante cidade de Tobruk estava agora desfigurada pelas horríveis cicatrizes da guerra; objetos de uso doméstico enchiam as ruas, despejados dos prédios destruídos, e muitos incêndios ainda ardiam, engrossando o manto de fumaça que recobria a cidade e que só lentamente o vento desfazia. Os soldados, momentaneamente livres dos perigos da batalha, cozinhavam suas refeições em prédios que davam bem a medida da prosperidade do novo Império Italiano.

 

Na baía, jaziam os destroços de talvez uns 12 navios, alguns mostrando apenas a parte superior das chaminés e dos mastros; de todos, o óleo vertido punha no mar ondulações pesadas, vagarosas.

 

De Tobruk a El Agheila – e de volta

 

A 21 de janeiro, dia do início do ataque a Tobruk, Wavell havia sido informado pelos Chefes de Estado-Maior de que a captura de Benghazi era considerada de grande importância. Embora o 13o Corpo tivesse estado em contínua ação ofensiva durante um mês, não havia tempo para descansar. Homens e máquinas, exigidos bastante por tanto tempo, tinham de prosseguir no encalço do exército italiano. Encorajados pelos sucessos colhidos e pela possibilidade de continuar avançando pela Cirenaica – possibilidade que se tornava cada vez mais provável a cada quilômetro percorrido – os soldados redobravam esforços.

 

O General O’Connor, comandante do 13o Corpo, planejara fazer avançar a 7a Divisão Blindada ao longo da costa, até Derna, enquanto que a 4a Brigada Australiana se deslocaria mais para o interior, na direção de Mechili. Na noite de 22 de janeiro a 7a Blindada encontrava-se a apenas 32 km de Derna, e os australianos haviam levado suas patrulhas para além das trilhas que se irradiam de Mechili na direção oeste, sul e sudeste. Os britânicos ganharam a região da Cirenaica que leva ao Mediterrâneo, banhada na sua parte oeste pelas águas do Golfo de Bomba e, a oeste, pelo Golfo de Sidra. Ali, as intermináveis ondulações rochosas do deserto terminam e o terreno eleva-se para a área conhecida como Jebel Akhdar – as “Montanhas Verdes” – onde algumas das colinas ultrapassam 600 m de altura. O Jebel havia atraído numerosos colonos italianos que, com o passar dos anos, chegaram a criar uma comunidade agrícola mais ou menos grande em seus férteis terrenos elevados. Na extremidade ocidental do Jebel fica a cidade portuária de Benghazi, que na época tinha uma população de 65.000 habitantes, um terço da qual era italiano.

 

Duas estradas de grande significação tática penetram pelo leste da região. A primeira acompanha a costa e, depois de deixar Tobruk, passa por Gazala, Tmimi, Martuba e Derna. Voltando para oeste-sudoeste, ela cruza os ricos altiplanos de Barce e Benina e se dirige para Benghazi. A segunda estrada corre de El Adem, ao sul de Tobruk, até Mechili, onde dobra para sudoeste, na direção de Msus, Antelat, Agedabia e El Agheila. Um desvio que parte dessa estrada passa por Solluch e une-se à estrada costeira de Benghazi e Agedabia.

 

A 7a Divisão Blindada empenhou-se numa das primeiras batalhas de tanques de guerra no deserto em Mechili, a 24 de janeiro. Oito tanques médios italianos foram destruídos e um capturado; os britânicos perderam um tanque cruzador e seis leves. O’Connor esperava travar uma batalha decisiva nessa área, de modo que, deixando duas brigadas da 6a Divisão Australiana para conter os italianos em Derna, mandou a terceira juntar-se à 7a Divisão Blindada e o Grupo de Apoio, com ordens de impedir que os italianos saíssem de Mechili. Essas instruções foram dadas a 25 de janeiro, mas já então os britânicos sofriam os efeitos do rápido avanço que haviam realizado de modo que não houve gasolina suficiente para completar os movimentos necessários até amanhã de 27. Entrementes, para aflição de O’Connor, os italianos escaparam de Mechili para o norte. A 4a Brigada Blindada os perseguiu e a RAF atacou as colunas italianas com bombas e fogo de metralhadora, mas depois de dois dias de perseguição a 4a Blindada foi obrigada a parar, em virtude do mau tempo, das dificuldades naturais do caminho, da escassez de combustível e por número cada vez maior de enguiços mecânicos.

 

Os australianos entraram em Derna a 30 de janeiro, A princípio pareceu que os italianos talvez tentassem uma batalha defensiva nas terras altas de Jebel Akhdar, mas à medida que fraquejava a oposição ao golpe dos australianos, tornou-se evidente que o exército italiano estava em franca retirada. Os informes de reconhecimento davam conta de que os italianos começavam a abandonar os aeródromos ali existentes; longas colunas de veículos retornavam a Barce e, na estação de Barce, podiam-se ver tanques sendo embarcados em vagões ferroviários. Numa conferência realizada a 31 de janeiro, com a presença do Brigadeiro John Harding, oficial do Estado-Maior de O’Connor, e do General O’Moore Creagh, O’Connor afirmou que estava no convencimento de que, à vista do que vinha ocorrendo, os italianos iam-se retirar da Cirenaica. Se isto fosse verdade, então os britânicos teriam de prosseguir rapidamente e, o que era mais importante, deveriam esforçar-se por cortar a retirada deles.

 

O oficial-de-ligação do General Wavell, Brigadeiro Eric Dorman-Smith, que também estivera presente à conferência, retornou ao Cairo, de avião, para obter dele o beneplácito para essa movimentação. Ao retornar ao QG de O’Connor com a concordância e votos de êxito de Wavell, Dorman-Smith verificou que a 7a Divisão Blindada já estava em movimento. A 4 de fevereiro, o próprio Wavell voou através do deserto para ver pessoalmente como as coisas estavam indo e, na noite daquele dia, comunicou ao Chefe do Estado-Maior-Geral Imperial que a muito reduzida 7a Divisão Blindada, com o Grupo de Apoio, poderia chegar a Msus ao amanhecer. Na verdade, os carros blindados britânicos passaram a ocupa-la naquele dia, mas a 7a Blindada só ao alvorecer do dia 5 pôde comunicar haver chegado a uma posição situada a leste de Msus.

 

A perseguição continuou durante todo o dia. Os homens receberam rações para dois dias e os tanques foram carregados com munição suficiente para suas necessidades, esperava-se; a questão crítica era, entretanto, saber se o combustível daria para cumprir a jornada distribuída à força motorizada. No fim do dia, os britânicos moviam-se livremente pelo sul e oeste da Cirenaica, e a 4a Brigada Blindada começava a aproximar-se de Beda Fomm, entre Agedabia e Solluch. Para que se tenha uma idéia das dificuldades que o 13o Corpo teve de superar, acompanhemos o deslocamento dessa brigada para cortar a retirada italiana.

 

A brigada partiu ao amanhecer de 4 de fevereiro, à frente da divisão. Os tanques moveram-se pelo deserto bem espalhados, para retirar a máxima vantagem das facilidades que o caminho tornou-se repleto de grandes rochedos por entre os quais tinham de passar, obrigando a muito cuidado, por parte dos condutores, para evitar o risco de perderem uma lagarta. Os comandantes de tropa foram instalados pelos comandantes de esquadrão, que por sua vez o foram pelos comandantes de regimento, e assim sucessivamente, hierarquia acima, a imprimir à marcha a maior velocidade possível. Depois de todo esforço desenvolvido na perseguição, a perspectiva de o exército italiano, expulso de Benghazi para o sul pelos australianos, vir a escapar à armadilha, tão rápido era o recuo que fazia, inquietava os homens da 7a Divisão Blindada.

 

O dia arrastava-se. As tripulações dos tanques mantinham-se atentas a qualquer coisa que pudesse representar perigo para seus veículos já bastante exigidos, escolhendo cuidadosamente os caminhos por essa região incrível. Onde a superfície do deserto permitia, a velocidade era aumentada ao máximo, fazendo sacudir no interior daquelas caixas de aço, desconfortáveis e barulhentas, os que nelas viajavam. Quando, como acontecia com freqüência, eles passavam pelos trechos juncados de grandes pedras, os comandantes dos tanques e seus motoristas tinham de dominar firmemente a impaciência e conduzir os veículos por entre as rochas com o cuidado com que os navegadores conduzem as embarcações através de estreitos traiçoeiros e desconhecidos. A velocidade média mantida durante a viagem provavelmente era pouco maior do que uma caminhada.

 

Os blindados capturaram o Forte Msus, após rápida luta, e aprisionaram a sua guarnição. Anoitecia quando a 4a brigada Blindada reencetou a marcha. À medida que se fazia noite, a temperatura começava a cair e o frio intenso e constante durante as horas de escuro fazia enregelar o rosto dos comandantes de tanques, que tinham por imposição do cargo de viajar com a cabeça fora dos veículos. Dentro do tanque, o motorista espiava por um visor estreito e o artilheiro observava o mundo exterior pelo telescópio da sua arma, com a face comprimida contra a almofada de borracha que protegia o visor. O operador de rádio, que durante as batalhas de incumbia do canhão, fazia a viagem sempre atento ao painel fracamente iluminado pela luz do aparelho de rádio, suportando o ruído produzido pela estática.

 

Às primeiras horas da manhã deteve-se o avanço. A lua já se pusera e, evidentemente, era impossível continuar a marcha sem que se fizesse a manutenção rotineira dos tanques e, se necessário, a substituição das peças gastas. Apesar do frio, não havia possibilidade de qualquer refeição quente, pois não se podia acender fogo. Os soldados tinham de passar com a alimentação fria, desagradável, engolida com a ajuda de água salobra. Para piorar as coisas, o vento cortante trouxe consigo uma chuva forte e, apesar da fadiga, poucos homens conseguiram dormir mais que alguns instantes do que restava da noite.

 

Ao amanhecer, a divisão foi dividida em três grupos. O grupo Um, formado com metade dos carros blindados, um batalhão de infantaria motorizada com duas baterias de artilharia, tinha ordens de avançar o mais rápido possível para cortar a estrada principal ao sul de Benghazi. O Grupo Dois – a 4a Brigada Blindada – foi instruído a ir na direção da costa. O Grupo Três – a 7a Brigada Blindada com o resto do grupo de Apoio – se dirigiria para Benghazi propriamente dita. Uma vez mais, os tanques e veículos reiniciaram o avanço; para as cansadas tripulações, era como se jamais tivessem conhecido outra existência que não essa demorada perseguição pelo deserto.

 

Às 12:30h, os Grupos Dois e Três souberam pelo rádio que o grupo Um fora bem sucedido na tentativa de cortar a estrada, no ponto em que ela se bifurca com a pequena trilha bem próxima da costa marítima. Os britânicos haviam chegado a tempo, pois enquanto tomavam posição ali, foi avistada a vanguarda da força italiana que se retirava. A ala de bloqueio abriu fogo com tal efeito que os italianos que vinham na frente, acreditando estarem confrontados por uma gigantesca formação, renderam-se prontamente. A 4a Brigada Blindada, que ao anoitecer não havia ainda chegado à estrada, recebeu ordens para que acampassem onde se encontrava e que aguardasse até que a barricada tivesse sido claramente estabelecida.

 

Depois de uma noite de descanso, a 4a Brigada Blindada aproximou-se mais da estrada costeira na área de Beda Fomm. Mensagens radiofônicas deixaram claro que o Grupo Um estava tendo dificuldades em manter a barricada e que os italianos tentavam desesperadamente escapar aos seus perseguidores. Era evidente que, a menos que se exercesse maior pressão sobre o flanco italiano, era apenas uma questão de tempo até que a força de bloqueio, relativamente fraca, cedesse ante efetivos esmagadores. Portanto, o grupo Dois avançou com a maior velocidade possível para oeste e, atingido o topo de uma crista a uns 3 km aquém da estrada, viu uma cena que lembrava os engarrafamentos de tráfegos das estradas em dias de feriados. Para o sul, o som de fogo de artilharia e as explosões de granadas indicavam a presença da barricada, mas no local distante da luta tudo era calmo, com os italianos esperando pacientemente que o tráfego recomeçasse a mover.

 

Os tanques britânicos avançaram sistematicamente para a estrada apinhada, aproximando-se o máximo possível, de modo que a coluna estava dentro do alcance das suas metralhadoras. Vários tanques italianos que passavam pelos veículos parados, a caminho para atacar a barricada, desviaram-se para enfrentar esse novo agressor e abriram fogo com seu armamento  principal. O som da batalha no flanco da coluna atraiu a atenção da artilharia italiana, que reagiu rapidamente e logo estava disparando com rapidez contra os blindados britânicos que os atacavam, em apoio dos seus próprios tanques. A luta espalhou-se ainda mais, estendendo-se para o norte, ao longo da coluna, como uma chama que corre lentamente por um palito de fósforo, à medida que mais esquadrões de tanques britânicos chegavam à estrada e entravam imediatamente em ação. O troar profundo da artilharia soava ao longo de uns 24 km da estrada costeira, pontilhado pelos estalos secos e em estacato dos canhões de tanque e antitanque de alta velocidade.