Stalingrado

O princípio do fim

 

 

Stalingrado... Onde Hitler lançou divisões inteiras em ataques suicidas, aniquiladas nas mais sangrentas batalhas da guerra... Quando tudo terminou, o “magnífico 6o Exército alemão”, com seus 300.000 “insubstituíveis soldados”, tinha sido completamente destruído. – Geoffrey Jukes

 

Stalingrado: A batalha crítica

 

Stalingrado foi a mais longa e a mais cruciante das batalhas da Segunda Guerra Mundial. Os acontecimentos da frente Oriental tiveram em Geoffrey Jukes o seu historiógrafo mais famoso. A narrativa que produziu da momentosa luta, minuciosa e vibrante, como que faz voltar a roda do espelho que retratasse aquele vulcão.

 

Após o fracasso da invasão da Rússia por Hitler em 1941, o exercito alemão já não tinha os efetivos e os recursos para renovar a ofensiva, para colocar no ataque a mesma intensidade que pós naquele ano, mas Hitler não estava disposto a ficar na defensiva e consolidar seus ganhos. Assim, ele procurou uma solução ofensiva que, com meios ilimitados, prometesse mais resultados apenas limitados. Não tendo mais força para atacar ao longo de toda à frente, ele se concentrou na parte sul, visando a capturar os campos petrolíferos do Cáucaso, de que tanto precisavam os dois contendores para não caírem na imobilidade. Se lhe fosse possível conseguir aquele petróleo, ele poderia, subseqüentemente, voltar para o norte, sobre a retaguarda dos exércitos russos assim imobilizados, e que protegiam Moscou, ou até mesmo atacar as novas indústrias bélicas russas que haviam sido instaladas nos Urais. Contudo, a ofensiva de 1942 foi um risco maior que a do ano anterior, porque, se fosse detida, o longo flanco desse avanço para o sul ficaria exposto a um contra-ataque, em qualquer ponto dos seus 1.600 km de extensão.

 

De inicio, a técnica alemã da Blitzkrieg acertou mais uma vez - seu quinto sucesso nítido, e tremendo, desde a conquista da Polônia, em 1939. A penetração rápida deu-se no setor Kursk-Kharkov, e então o 1º Exército Panzer, do General Ewald von Kleist, avançou como uma torrente pelo corredor entre os dois rios Don e Donetz. Estuando pelo baixo Don, à porta do Cáucaso, ele conquistou, em seis semanas, os campos petrolíferos mais ocidentais, situados em redor de Maikop.

 

A resistência russa esboroara fragorosamente ante o impacto da Blitzkrieg e Kleist encontrara reduzida oposição nos últimos estágios do seu avanço. Este foi o momento em que a Rússia se mostrou mais fraca. Somente uma fração dos seus exércitos recém-formados estava pronta para ação, e mesmo essa fração carecia muito de equipamento, especialmente de artilharia.

 

Felizmente para a Rússia, Hitler dividiu a força do ataque entre o Cáucaso e Stalingrado, cidade situada na margem do Volga, que era a porta pra o norte e para os Urais. Além disso, quando os primeiros ataques a Stalingrado, desfechados pelo 6º Exército de Paulus, foram detidos, em meados de julho com enorme dificuldade, Hitler passou a desviar, cada vez mais, forcas do Cáucaso para fortalecer seu ataque divergente a cidade. Isto por causa do nome, ”a cidade de Stalin”, que para Hitler passou de desafio a obsessão. Ele desgastou as forças que possuía no prolongado esforço por captura-la, perdendo de vista seu objetivo principal, os suprimentos de petróleo do Cáucaso, verdadeiramente vitais. Quando Kleist se dirigiu de Maikop para os campos petrolíferos principais, seu exército foi esbarrando em resistência cada vez maior, por parte de tropas locais que já lutavam em defesa do lar, da família, enquanto forças suas eram retiradas, em favor dos esforços de Paulus para capturar Stalingrado.

 

A resistência russa nessa cidade foi-se tornando, a cada golpe recebido, mais e mais áspera, enquanto que a direção dos ataques alemães, suficientemente clara, simplificava o problema do Alto-Comando russo de enfrentar a ameaça. Além disso, a concentração dos alemães em Stalingrado drenava continuamente as reservas da sua proteção de flanco, que já estavam em dificuldades por se terem de estender tanto - quase 640 km, desde Voronezh, ao longo do Don, até o ponto em que este se aproxima do Volga, em Stalingrado bem como desse local ate o rio Terek, no Cáucaso. A percepção dos riscos levou o Estado-Maior-Geral alemão a dizer a Hitler, em agosto, que seria impossível dar à linha do Don as características todas de flanco defensivo, durante o inverno -, mas ele ignorou a advertência, em sua obsessão pela captura de Stalingrado.

 

A posição dos defensores daquela área começou a parecer cada vez mais perigosa, e até mesmo desesperada, à medida que o círculo se contraía e que os alemães se aproximavam do coração da cidade. O momento mais critico deu-se a 14 de outubro. Os russos estavam com sua retaguarda tão próxima do Volga, que não tinham espaço para executar táticas para absorver choques, nem terreno para ceder, a fim de ganhar tempo. Mas, abaixo da superfície, fatores básicos trabalhavam a seu favor. O moral dos ataques alemães estava sendo solapado pelas pesadas baixas que vinham sofrendo e pelo crescente senso de frustração, criando assim o clima propicio à contra-ofensiva que os russos se preparavam para desfechar, com novos exércitos, contra os flancos alemães defendidos por tropas romenas e de outras nacionalidades, de qualidade inferior às alemães. Essa contra-ofensiva teve início a 19 de novembro.

 

Várias cunhas foram fincadas em diferentes lugares dos flancos, de modo a isolar o 6º Exército de Paulus. Por volta do dia 23 o cerco estava completo, e mais de 250 mil soldados, alemães e satélites seus, estavam isolados. Hitler não permitia a retirada. As tentativas de ajuda, feitas em dezembro, foram repelidas. Mesmo então, Hitler relutava em permitir que o 6º Exército tentasse abrir caminho para oeste antes que fosse tarde demais; além disso, o abastecimento aéreo se mostrava inadequado.

 

Veio o fim - o fim de uma batalha que durou mais de seis meses - com a rendição de Paulus e do grosso do que restava do seu esgotado e faminto exército, a 31 de janeiro, embora um resto de tropa, isolado num bolsão, ao norte, ainda resistisse por mais dois dias.

 

Este livro de Geoffrey Jukes se beneficia do seu amplo conhecimento de fontes russas, como a história oficial da Grande Guerra Patriótica da URSS, em seis volumes, e as memórias de alguns dos lideres militares.

 

Aquela história oficial forneceu muito mais provas concretas do que os relatos puramente propagandísticos publicados durante a guerra e os primeiros anos do pós-guerra. Ela corrigiu o retrato absurdamente exagerado da influência de Stalin na luta, que antes predominada. Deve-se considerar, entretanto, que a narrativa revista foi produzida durante o período de Krushev e com seu apoio - de modo que ela tendia a salientar excessivamente a influencia do sucessor de Stalin na luta, ao mesmo tempo em que depreciava a de seu antecessor. Ademais, a indolência do Marechal Zhukov, relegada a segundo plano na época de Stalin, mas que começava a ser citada depois da morte deste, foi novamente obscurecida por Krushev. Desde a queda deste, Zhukov passou a receber o merecido reconhecimento, após a publicação, em 1965, de uma historia oficial, em um volume, que, embora sintetizasse a primeira historia, em seis volumes, revisava de maneira considerável seu conteúdo e suas conclusões. Além disso, o próprio Zhukov teve permissão ou foi talvez mesmo encorajado a escrever as suas memórias, as quais, significativamente, contradizem várias afirmações contidas na primeira narrativa da Batalha de Stalingrado, feita pelo Marechal Chuykov.

 

Deve-se ter em mente esse longo processo de alteração da historia e da sua perversão para fins de propaganda quando estudam narrativas e declarações de fonte russas, que nos obriga, também a usar de cutela na verificação do numero de efetivos e de baixas nela registrado, embora parecia mais correto do que o anteriormente publicado, que é bem maior.

 

 

Porque Stalingrado?

 

A grande planície da Europa estende-se desde a costa do Canal da Mancha, através dos Países Baixos, Alemanha, Polônia, e União Soviética, ate o sopé dos Montes Urais. Ocasionalmente, como se quisesse mudar sua característica, ela se franze nas dobras de colinas ondulantes, mas sempre volta a ser a mesma planura monótona. Limitada ao norte pelo mar e ao sul - pelo menos até a Ucrânia - por montanhas, foi durante séculos o palco onde primeiro as tribos da Europa, celtas, teutões e eslavos, depois os fanáticos religiosos e finalmente os exércitos mais formalizados, porém não menos belicosos, das nações que lhes sucederam, desempenharam os sangrentos dramas de que a historia européia tão deploravelmente se acha repleta.

 

Na ausência de altitudes dominantes, as barreiras defensivas mais importantes da planície são inevitavelmente os seus grandes rios - Reno, Elba, Oder, Vístula, Bug, Divina, Dniester, Dnieper, Don, Volga e seus tributários - que a cortam para o norte ou para o sul. E foi às margens do mais imponente de todos, o Volga, e do seu vizinho quase tão grande, o Don, que ocorreu, em fins de 1942 e começos de 1943, o grande complexo de batalhas que a história conhece como “Stalingrado”. Ali, onde os imensos trigais da Ucrânia cedem lugar às ravinas da bacia do Volga, os exércitos de duas ideologias militares se chocaram pela posse de uma cidade que, embora a princípio não fosse considerada um objetivo militar básico, pelo simbolismo do seu nome e pela tenacidade da suas defesa, passou a dominar os esforços de ambos os lados e jogou por terra a tentativa nazista de criar um império no leste.

 

Não que esta fosse a primeira vez que o Exército Vermelho detinha os alemães. A irresistível maré da conquista alemã despejara-se sobre a Rússia européia durante o verão de 1941, como acontecera na Europa ocidental no ano anterior, e, divisão após divisão, o mal equipado, mal treinado e mal dirigido Exército Vermelho experimentara o mesmo destino dos poloneses, franceses, holandeses, belgas, iugoslavos e gregos - sítio e captura. Eles também haviam suportado o peso da cruz do bárbaro tratamento que lhes dispensavam os seus captores, pois a União Soviética não era signatária da Convenção de Genebra sobre o tratamento de prisioneiros de guerra e, além disso, o russo ocupara, com o judeu, o lugar de mais baixo na obscena hierarquia racial dos nazistas, em cujo ápice se colocava o Herrenvolk - a Raça dominante - germânica, naturalmente. Assim, o respeito alemão às formalidades legais levou-o a dispensar tratamentos mais ou menos correto aos da Europa ocidental e da Escandinávia; no leste, porém, o germânico, sobrepondo a letra da lei ao seu espírito, foi impiedoso.

 

Não havia empecilhos legais à aplicação do horror nazista aos prisioneiros russos, que morriam aos milhares nos campos de concentração, cerca de 5.500.000 oficiais e soldados do Exército Vermelho foram capturados durante a guerra: três quartos deles morreram em 1941 e cerca de 4.000.000 antes do final da guerra. À população civil foi um pouco melhor o tratamento dispensado, sobretudo depois que o exército alemão, prosseguindo para o leste, fora sucedido pela administração civil, com sua aparelhagem formada pela Gestapo, equipes especiais (de extermínio) e campos de concentração.

 

Nas áreas ocupadas, isso resultara numa supressão do entusiasmo pelo nazismo como uma libertação dos horrores do regime stalinista e, nas áreas não ocupadas, numa aceleração da vontade de resistir, pois pelo menos as severidades do stalinismo eram temperadas pela promessa de um futuro melhor, do qual já começavam a aparecer alguns sinais na forma da revolução industrial levada a cabo dentro dos planos Qüinqüenais. Stalin os castigava com chicotes, mas Hitler o fazia com escorpiões. Além disso, o nazismo não oferecia ao eslavo senão a condição de escravo nas colônias agrícolas que seriam estabelecidas no leste como o celeiro do “Reich de Mil Anos”.

 

Embora muitas pessoas colaborassem com os alemães, por acreditarem na inevitabilidade da vitória destes ou por causa do que haviam sofrido com o comunismo de Stalin, ou ainda porque queriam alimentar suas famílias ou se libertar do jugo russo (este motivo era particularmente forte entre as minorias não-russas, que compõem mais de um terço da população soviética), para a grande maioria dos russos a ditadura doméstica era, dos males, o menor. Ademais, à medida que as provas das atrocidades nazistas iam sendo habilmente divulgadas pelo partido comunista e que se faziam concessões para estimular o patriotismo e recrutar sentimento religioso para causa, a resistência soviética endureceu e a população se reuniu em torno da figura de Stalin como jamais ocorrera, em tempo de paz.

 

Assim, a despeito das brilhantes vitórias conquistadas na campanha do verão e outono de 1941, os alemães viram que o Exército Vermelho e o regime de Stalin ainda estavam firmes. O inverno, porém, se aproximava. Com  a chegada dessa estação, dos três objetivos principais - Leningrado, Moscou e Kiev - os dois primeiros ainda não haviam sido tomados, e, o que é pior, o controle das tropas soviéticas pelos seus mais graduados comandantes vinha melhorando perceptivelmente, à medida que os velhos “cavalos de batalha” stalinistas eram levados para a retaguarda, substituídos por gente mais jovem e mais atualizada do ponto de vista militar.

 

O mais notável dentre estes era sem duvida o ex-chefe do Estado-Maior-Geral, o General-de-Exército Georgy Konstantinovich Zhukov, que ganhou notoriedade por sua determinação e pela capacidade de se impor aos acontecimentos. Em outubro de 1941 Stalin designou-o para Leningrado, onde em três frenéticos dias de atividade, deu ordem ao caos reinante na organização da defesa e pôs em execução um plano que resistiu por mais de 900 dias ao sítio do exército germânico. Dali, foi chamado com urgência de volta a Moscou, que corria o risco de ser capturada. Como comandante da Frente Oriental (o Grupo de Exército que defendia a cidade) e como membro do Stavka (o QG supremo), ele não só conseguiu rechaçar os alemães da capital como também explorou as condições atmosféricas e o cansaço alemão para improvisar uma contra-ofensiva que fez a Wehrmacht girar sobre os calcanhares, levou seu Grupo de Exércitos Centro à beira da desintegração e infligiu aos alemães sua primeira grande derrota terrestre de toda a guerra.

 

Mas, finalmente, a ofensiva de Zhukov se esgotou, por falta de recursos, e ambos os lados pararam para um balanço dos acontecimentos. Para os generais alemães a experiência parecia não ter sido totalmente digerida. Ao racionalizarem a derrota, eles a atribuíam a um série de motivos: às vacilações de Hitler com relação a prioridades, ou à lama do outono, ou a neve e ao gelo do inverno - como se Stalin jamais tivesse prejudicado os generais do Exército Vermelho com as vacilações ou decisões erradas, como se a chuva e as neves de inverno não tivesse caído igualmente sobre o super-homem germânico e o subumano russo; como se o envio de tropas alemãs para uma operação essencialmente móvel e da alta velocidade, debaixo de tempo que congela os lubrificantes, impedindo a movimentação de seus veículos, impossibilitando seus caminhões de atirar até cada granada, ou cartucho , se livrasse da graxa solidificada, que a tornava grande demais para a culatra, não fosse em si a negação da boa estratégia pela qual eles próprios eram os responsáveis.

 

Se as tropas soviéticas estavam adequadamente vestidas para o inverno e as alemãs não, a culpa cabia a alguém. Era como se Stalin, com sua paixão pelo segredo, tivesse conseguido ocultar não só os efetivos das reservas do Exército Vermelho como também a severidade do inverno russo. De qualquer modo, quando o tempo propício à campanha retornasse, na primavera, tudo seria diferente. Não fora a habilidade militar soviética que vencera a batalha de Moscou e sim o “General Inverno”, com alguma ajuda do Fuhrer. Entrementes, a experiência adquirida pelos soldados alemães experiência que lhes fora negada duramente todo o treinamento, que era unicamente ofensivo, lhes poderia ser utilidade.

 

Assim tranqüilizados, os generais alemães não perceberam a principal lição da campanha de inverno - que toda a campanha no leste dependia de derrotar o Exército Vermelho antes que ele desenvolvesse a habilidade necessária para enfrentar a veloz guerra de blindados e que, em essência, isso significava derrota-los antes do inverno de 1941. Já tinha havido evidências de que as ruinosas tentativas soviéticas de resistir firmemente, com a inevitável conseqüência do sítio, estavam sendo abandonadas, sob a influência de um pensamento melhor, estimulado pela escassez de potencial humano, e que, quando os russos tivesse absorvido plenamente as lições do verão (Zhukov sem dúvida as tinha aprendido), como ficou evidenciado em sua ordem durante a contra-ofensiva de Moscou, que proibia categoricamente os ataques frontais aos pontos fortes, insistindo, em vez disso, nas táticas de desbordo (by passing), o Exército Vermelho se mostraria mais difícil de quebrar na nova estação de campanha.

 

De sua parte, a liderança soviética, Stalin em particular, superestimou a importância da mudança no equilíbrio estratégico, tal como o haviam feito os alemães, e planejaram acompanhar o sucesso de Zhukov com uma ofensiva estratégica ao longo de toda a frente. Foi a 5 de janeiro de 1942 que realmente começou a forjar-se a cadeia de decisões que tornaram inevitável a Batalha de Stalingrado. Naquele dia, Zhukov foi chamado à Frente Ocidental  (na linguagem militar soviética “Frente” significa um Grupo de Exércitos) para um reunião do Stavka em que se examinariam as futuras operações. Nessa reunião, Stalin propôs o plano de uma ofensiva geral, ao longo de toda a frente entre Leningrado e o Mar Negro.

 

Zhukov sabia que os alemães, embora acabassem de sofrer sérios reverses no centro e no sul, este bem menor, ainda eram um inimigo perigoso. Partindo desse ponto de vista, optou por uma vagarosa ofensiva limitada ao centro, onde o Grupo Centro de Exércitos alemães se encontrava em grande confusão. Stalin, porém, já havia decidido. No fim da reunião, o Chefe do Estado-Maior-Geral, Marechal Shaposhnikov, disse a Zhukov: “Você estava perdendo tempo em discutir. O Supremo já havia decidido. As diretivas já haviam sido emitidas...”

“Então, porque ele pediu as nossas opiniões?”

“Não sei, meu caro, não sei”, disse Shaposhnikov com um suspiro. Ele tampouco favorecia a ofensiva geral.

 

Esta foi desfechada alguns dias depois, mas não podia ser suficientemente forte em parte alguma para servir de garantia de êxito. Ela falhou em toda a parte. Em certos lugares, transformou-se em desastre, com o desperdício de mais exércitos, de modo que o Exército Vermelho ficou bem mais fraco para enfrentar a campanha de verão. E, o que era pior, o exército alemão, saindo-se bem em suas primeiras ações defensivas da guerra, recuperou-se do abalo sofrido e adquiriu a experiência que seu treinamento não lhe tinha fornecido. Assim, o Exército Vermelho perdeu a oportunidade de fazer uma penetração no centro, tornando-se inevitável mais uma campanha de verão em território soviético. Os dois lados começaram a planejar ofensivas e ambos escolheram o setor sul da frente para concentrar o ataque.

 

O combate de inverno deixara a linha de frente muito sinuosa. Leningrado estava sitiada, parte da Criméia ainda se encontrava em mãos russas e ao sul de Kharkov havia um grande bolsão na linha, bolsão conhecido como o “Saliente de Barvenkovo”. Desse modo, o plano do Stavka visava a socorrer Leningrado e a fortaleza da Criméia, a  base naval de Sebastopol, juntamente com um grande ataque de fora e ao norte do saliente de Barvenkovo, sendo que contra este último objetivo se encontraria a parte principal de toda a ofensiva de verão, que procurava recapturar Khakov. O plano seria tentado por forças de dois Grupos de Exércitos - as Frentes Sudoestes e Sul - sob o comando do Marechal S. K. Timoshenko, um veterano da Guerra Civil, promovido a Comissário do Povo para a Defesa depois do colapso da guerra de inverno contra a Finlândia. A ele deve-se também a reorganização implacável do Exército Vermelho.

 

A ofensiva dirigida contra o saliente de Barvenkovo tomaria a forma de um movimento de pinças realizado pelo 6º Exército  (Tenente-General A. M. Gorodnyansky), que atacaria pela face norte do saliente, dirigindo-se para Kharkov. Partindo da área de Volchansk, a nordeste da cidade, o 28º Exército, sob o comando do Tenente-General D. I. Ryabishev , com elementos do adjacentes 21º e 38º Exércitos, desceria ao encontro do 6º Exército. Um grupamento de combate, comandado pelo Major-General L. V. Bobkin, atacaria do saliente para oeste, na direção de Krasnograd, a fim de proteger a retaguarda do 6º Exército enquanto este se dirigia para o norte e para trazer as forças alemães ocupadas na face sul do saliente, o 9º Exercito (Major-General F. M. Kharitonov) e o 57º Exército (Tenente-General K. P. Podlas) montariam ofensivas limitadas, destinadas a imobiliza-las.

 

O plano era previsível, dadas a forma da linha de frente e a importância de Kharkov, que era a segunda maior cidade soviética em mãos alemãs e o centro principal das comunicações e abastecimento dos alemães no sul. Contudo, isto não era necessariamente decisivo para seu sucesso; agindo em condições certas, muitos movimentos menos imaginativos tem logrado êxito. Sua falha realmente fatal era mais básica e, como que de propósito, se adaptava aos planos alemães.

 

O projeto de Hitler para o verão era muito mais ambicioso que o de Stalin, mas, antes que pudesse ser posto em vigor, teria a Wehrmacht que realizar algumas operações preliminares. A cabeça-de-ponte soviética na Criméia tinha de ser eliminada, assim como o saliente de Barvenkovo. Por conseguinte, enquanto Timoshenko principiava a encher o saliente com forças de assalto (incluindo cerca de 600 tanques, dois terços do total de blindados), também o Feld-Marechal Fedor von Bock, comandante do Grupo de Exércitos Sul, concentrava a maior parte do seu 6º Exercito (Coronel-General Friedrich Paulus) contra sua face norte, e reunindo seu 1º Exército Panzer (Coronel-General Ewald von Kleist) do lado oposto da sua garganta sul, em Barvenkovo. Em suma, as melhores armas de Timoskenko - seus tanques T-34 médios e KV-1 pesados, superiores a quaisquer dos tanques alemães - estavam sendo empenhados num ataque contra um vazio, contra a face leste do saliente, ligeiramente defendida, enquanto que a verdadeira ameaça se desenvolvia atrás deles, na forma da “Operação Fredericus”- o fechamento do Saliente.

 

Nenhum dos comandantes percebia o que o outro estava querendo fazer, e se Bock estivesse pronto para atacar antes que os tanques de Timoshenko fossem lançados no vazio, seu Grupo de Exércitos Sul ter-se-ia encontrado em sérias dificuldades. Na verdade porém, Timoshenko desfechou sua ofensiva a 12 de maio de 1942, cerca de uma semana antes que Bock estivesse pronto. A princípio, a pinça sul de Timoshenko parecia esta indo bem (embora a do norte encontrasse dificuldade desde o início) e, do ponte de vista de Timoshenko, o único inesperado é que as brigadas de tanques da sua força sul não estavam, ao que parecia, encontrando muita oposição. Onde se haviam metido os alemães?

 

A pergunta foi respondida a 17 de maio, quando patrulhas de exploração, destacadas para ver a identidade e os efetivos das forças alemãs no flanco sul, retornaram com prisioneiros do 1º Exército Panzer, compreendendo que haviam caído numa armadilha, e que a cada hora que passava seus exércitos corriam mais perigo, Timoshenko comunicou-se por telefone com o Stavka e pediu permissão para diminuir a velocidade da ofensiva, para, reagrupando-se, poder enfrentar a nova ameaça. A permissão lhe foi recusada. Kharkov tinha de ser recapturada.

 

A ofensiva soviética não deixara de influir na paz de espírito de Bock. A “Fridericus” pretendera ser uma operação padronizada de duas pontas, com ataques pelo norte e pelo sul para fechar a garganta do saliente, o que não foi possível, porque a garganta norte, em Balakleya, defendida pela 44º Divisão de Infantaria (uma divisão vienense do ex-exército austríaco), debaixo de forte pressão soviética, não dava a ninguém a certeza de que podia ser defendida. Por certo, não poderia ser montada qualquer ofensiva partindo dali.

 

Portanto, foi com algum temor que Bock determinou um operação “Fredericus”de um só braço, realizada pelo 1º Exército Panzer do lado sul do saliente, com o apoio de infantaria fornecido pelo 17º Exército. Uma força de duas divisões Panzer, uma motorizada e oito de infantaria reuniu-se ao sul de Barvenkovo e se lançou à batalha na manhã de 17 de maio um dia antes do início marcado para “Fredericus” de duas pontas. De início houve dificuldades em penetrar as posições soviéticas, mas pela tarde do dia 22 a 14º Divisão Panzer chegara à margem sul da parte norte do rio Donetz, em Bayrak, fronteiro aos austríacos da 44º Divisão, que estavam em sérias dificuldades. O bolsão foi fechado e dentro dele encontrava-se a maior parte da força de assalto de Timoshenko, porque, embora ele tivesse conseguido a permissão do Stavka, no dia 19, para abandonar a ofensiva e enviado um representante, General Kostenko, para organizar a retirada, Kleist fora mais veloz que ele.

 

Algumas unidades do Exército vermelho conseguiram, combatendo, abrir caminho para o leste, mas a maioria das forças foi, dentro do bolsão, destruída; 29 divisões soviéticas se destroçaram completamente e muitas outras sofreram danos sérios, três exércitos haviam deixado de existir - o 6º, o 9­º, e o 57º, juntamente com seus comandantes, excetuando-se Khariatonov e seu QG, do 9º Exército, que saíram de avião no último momento; Kostenko estava morto; Bokin e seu grupo de assalto não mais existiam; o 9º Exército, que sob o comando de Kharitonov havia adquirido invejável folha de serviços nas batalhas defensivas do outono anterior, faria muita falta na prolongada defesa que se seguiria; dois terços dos tanques estavam perdidos.

 

E esta fora apenas um operação de arrumação, pois a principal ofensiva alemã estava por vir!

 

Muitos dos generais alemães se haviam opostos à invasão da União Soviética, especialmente com os britânicos às suas costas e com a possibilidade de a Grã-bretanha vir a servir de base para a invasão do continente e para a guerra de duas frentes que a Alemanha tanto temia. Como os planos ambiciosos de 1941, com sua ofensiva ao longo de toda a frente, não trouxeram nem o aniquilamento do Exército Vermelho nem o colapso do regime de Stalin, os estrategistas alemães tiveram de examinar mais atentamente as premissas militares, políticas e econômicas da guerra para decidir onde montar seu principal esforço, com suas forças agora mais limitadas. Também Hitler se mostrava muito preocupado com as realidades políticas e econômicas - já que o fracasso da Blitzkrieg de 1941 comprometera inevitavelmente a Alemanha com uma guerra prolongada, já agora com três grandes potências industriais alinhadas contra si, inclusive o colosso estadunidense.

 

Durante os meses de verão e outono de 1941, o regime de Stalin resistira a choques maiores que os que haviam derrubado o regime dos tzares na primeira guerra mundial. À parte as razões já discutidas, razões que Hitler talvez identificasse melhor que qualquer de seus generais, havia o fato de a industrialização haver dado a Stalin meios financeiros em quantidade que nenhum tzar jamais tivera. Grande parte do novo poderio industrial da Rússia - particularmente as grandes siderúrgicas dos Urais, como ss de Magnitogorsk - estava fora do alcance da Alemanha durante o futuro previsível; além disso, a capacidade soviética de produção de tanques vinha sendo suplementada por maquinaria evacuada das área industriais ocidentais antes que os alemães as alcançasse. A produção soviética de aviões também aumentava regularmente.

 

Assim, tendo as táticas de Blitzkrieg fracassado em 1941, quanto mais tempo o Urso Russo tivesse de vida, maior a probabilidade de ele finalmente vencer o antagonista, sobretudo quando grande parte do poderio industrial americano começou a ampara-lo.

 

Mas o colosso econômico soviético tinha um calcanhar-de-aquiles bem visível: o petróleo soviético localizava-se principalmente no Cáucaso e só haviam uns poucos caminhos, de Maikop, Grozny e Baku, por onde ele podia chegar aos centros de distribuição e finalmente acionar as rodas e lagartas dos veículos do Exército Vermelho. Havia a ferrovia que passava por Rostov; havia outra, que se separava da primeira em Trikorestk e seguia para Stalingrado, e uma terceira, que percorria a margem ocidental do Mar Cáspio de Baku e Grozny, seguindo para Astrakhan, onde se unia a uma linha que alcançava a Rússia Central. Havia o último e o mais importante dos caminhos, o imponente Volga, pelo qual iam e vinham imensas barcaças petroleiras, diretamente de Baku.

 

Capturada Rostov, a primeira rota estaria isolada. Tomadas Maikop e Grozny, situadas ao norte das montanhas do Cáucaso, e as segunda e terceira ferrovias estariam cortadas. Dispostas tropas na margem ocidental do Volga, a última rota estaria isolada, asfixiando toda a atividade industrial soviética e detendo completamente o Exército Vermelho. Melhor ainda, se fosse possível cruzar o Cáucaso e capturar o Baku, o petróleo soviético acionaria os veículos da Alemanha e lhe permitiria suportar uma guerra prolongada, aliviando-a da dependência dos campos petrolíferos romenos de Ploesti - vulneráveis aos ataques dos bombardeiros soviéticos estacionados da Criméia (até que a cabeça-de-ponte soviética dali fosse eliminada), ou dos aviões britânicos e americanos de longo alcance, sediados no Oriente Médio.

 

Mesmo isoladas, estas eram razões convincentes para Hitler dar ênfase à sua campanha de 1942, no sul; mas havia outras. A Alemanha estava firmemente plantada na parte Ocidental da área industrial de Kharkov, mas a área oriental - o carvão e o aço do Donbass - ainda era controlada pelos soviéticos. Um avanço pelo Volga a cortaria bem pelo meio e a acrescentaria às fontes de potencial industrial-militar da Alemanha.

 

Além disso, grandes benefícios políticos adviriam do sucesso no sul. Talvez se pudesse convencer  a Turquia a abandonar a neutralidade, que se encontrava, pois, embora a política do seu governo fosse em geral favorável aos aliados, havia no país disposição para colaborar com a Alemanha, baseada sobretudo no companheirismo de armas da Primeira Guerra Mundial. Derrotando o inimigo hereditário da Turquia e aparecendo na fronteira turco-soviética; cortando a rota de abastecimento do Estados Unidos ã União Soviética, que passava pelo Irã, e, assim, ameaçando o controle anglo-soviético desse pais, a Alemanha se tornaria uma potência no Oriente Médio. Desse modo se a Turquia entrasse no jogo, a Alemanha poderia ameaçar toda a posição britânica naquela parte do mundo, avançando para os campos petrolíferos do Golfo Pérsico e para o Canal de Suez, visando a surpreender no Egito o 8º Exército britânico pela retaguarda.

 

Está claro que tudo isso eram considerações a longo prazo. No começo de 1942, a tarefa que confrontava os estrategistas militares alemães era o mais modesto, embora ainda formidável, dos problemas: conquistar as posições que lhe permitiriam realizar as brilhantes perspectivas que pululavam ativamente na desordenada imaginação de Hitler. As forças alemãs já estavam consideravelmente estendidas, objetivando manter as linhas de frente existentes, após as baixas das batalhas do inverno. Um movimento para sudeste sobre o Cáucaso estenderia mais estas linhas, e as forças enviadas para aquela área não estariam disponíveis para um desenvolvimento rápido, no caso de surgirem dificuldades em outra parte qualquer. Ademais, a retaguarda dessas forças estaria sempre aberta a qualquer golpe soviético que tomasse a forma de um ataque norte-sul, ao longo do Don e na direção de Rostov.

 

Caso isto acontecesse, elas seriam isoladas, ou teriam de sair apressadamente de Kuban e do Cáucaso. Portanto, era necessário colocar uma guarda de flanco e de retaguarda, para protege-las contra esse perigo, e o problema residia em saber onde coloca-la, tendo-se em mente que as forças da Alemanha estavam muito estendidas e que seus aliados, Romênia, Itália e Hungria, com sua tropa relativamente mal equipada, mal treinada e de duvidoso entusiasmo, teriam de participar da operação.

 

Qualquer exame, ainda que superficial, do mapa mostra, com toda clareza, a linha ideal. Ao sul do centro principal de comunicações de Voronesh, o Don começa a desviar-se para o leste, prosseguindo assim até o leste de Serafimovich, onde dobra para o sul, antes de finalmente, retomar o curso para oeste, até sua foz, no Mar de Azov. Por outro lado, o Volga dobra para oeste entre a sua foz, em Astrakhan, e Stalingrado. Assim, qualquer linha defensiva baseada no Don teria o rio à sua frente, até um ponto a leste de Serafimovich, e desse ponto até o Volga a distância não chega a 80 km. O Exército Vermelho podia atacar por esse trecho sem ter que inicialmente atravessar um grande rio. Portanto, o local natural para ancorar a extremidade oriental da linha de defesa do flanco era o Volga, na área de Stalingrado. Nesse ponto o rio tem cerca de 1.500 m de largura, o tráfego sobre ele poderia ser interrompido por bombardeio aéreo ou de artilharia, e qualquer tentativa soviética de cruza-lo seria prejudicada pela quantidade de água a atravessar. Não havia necessidade de tomar a cidade; isolada do norte, e só acessível por barcos fluviais, sob constante ataque aéreo e de artilharia,  ela seria indefensável.

 

Assim, não se fez qualquer plano específico para toma-la. Como Kleist disse, depois da guerra:  “No começo, Stalingrado para nós não passava de um nome no mapa”, e a maneira como a cidade foi ganhando importância no drama, aparece nas declarações e Diretivas de Hitler, feitas com o passar do ano e à medida que os fatores políticos, econômicos e militares se foram transformando na grande preocupação da sua mente, brilhante mas tão cheia de aberrações.

 

O plano básico para o verão preparado no inverno anterior, pelo Alto-Comando do Exercito (Oberkommando des Heeres, ou OKH), visara apenas a uma campanha modesta no sul. A parte principal ocorreria no norte, na captura de Leningrado e numa ligação com os finlandeses. O plano foi recusado, mas a operação de Leningrado permaneceu presente em todos os rascunhos que se seguiam e, no devido tempo, este fato influenciaria a luta muito longe do Volga.

 

 A 28 de março o Chefe do Estado-Maior-Geral do OKH, Coronel-General Franz Halder, um brilhante planificador que se constituía em exceção, por não ser produto do Estado-Maior-Geral prussiano, e sim do velho exército bávaro, apresentou um plano operacional, revisto, para a defesa de verão, numa conferência realizada no QG de Hitler, o Wolfsschanze (a Toca do Lobo), situada no coração de florestas sombrias perto de Rastenburg. Ele recebeu o codinome de Fall Blau  (“Caso Azul” - voltara-se ao uso de cores para codinomes, desde o fracasso da grande exceção, “Barbarossa”) e contemplava uma ofensiva em dois estágios.

 

Esta ofensiva era fora do comum porque seria montada de uma linha com uma inclinação para trás, e portanto,  a primeira força a se mover seria a que partisse do ponto mais distante a oeste. Esta se dirigia para sudoeste, ao longo do Don, partindo da área de Krisk-Kharkov, afastando os exércitos de Timoshenko do rio e circundando-os. Então, no momento certo, a força situada na extremidade sudoeste da linha se moveria na direção leste, partindo do Rio Mius, desviando a Frente Sul soviética para noroeste. As duas forças se encontrariam a oeste de Stalingrado, cercando e eliminando totalmente as Frentes Sudoeste e Sul soviéticas, terminando com êxito a primeira fase da operação. Só então é que se desviariam para o sul rumo ao Cáucaso e aos campos petrolíferos.

 

Hitler aceitou o plano, mas recusou a Diretiva que o explicava insistindo em que ele próprio faria o rascunho, tornando-a muito mais específica do que era normal (uma Diretiva comumente estipula os objetivos e deixa os detalhes da sua consecução a critério dos comandantes interessados, mas Hitler desconfiava dos seus generais, sobretudo depois do colapso da campanha de inverno).

 

Por conseguinte, o resultado, a Diretiva nº 41, de 5 de abril de 1942, dá uma boa idéia do pensamento de Hitler na época. Nela, ele diz; “é fundamentalmente necessário unir todas as forças disponíveis para a realização da operação principal no setor sul visando a destruir o inimigo a oeste do Don, de modo a, subseqüentemente, capturar as regiões petrolíferas caucasianas e cruzar as montanhas do Cáucaso”. Ele também disse: “de qualquer modo, deve-se tentar alcançar Stalingrado propriamente dita, ou pelo menos elimina-la da lista dos centros industriais e de comunicações, submetendo-a à ação das nossas armas pesadas...”. A ênfase era clara: era “fundamentalmente necessário” destruir as forcas soviéticas no sul e depois tomar os campos petrolíferos; mas se devia “tentar” tomar Stalingrado ou pô-la ao alcance dos canhões e bombardeiros pesados.

 

Para a operação, Bock recebeu forças formidáveis. Para a pinça norte, ao longo do Don, ele tinha o 4o Exército Panzer (Coronel-General Hermann Hoth) e o 6o Exército (Coronel-General Paulus); para a pinça sul, o 1o Exército Panzer (Kleist) e o 17o Exército (Coronel Richard Ruoff), enquanto que o 11o Exército (Coronel-General Erich von Manstein) também estaria disponível tão logo tivesse limpado a Criméia e tomado a fortaleza de Sebastopol. Forças-satélites, consistiriam dos seguintes exércitos: 3o e 4o Romenos, 8o Italiano e 2o Húngaro; assim, o total das forças sob o comando de Bock atingia a 89 divisões, nove delas blindadas.

 

No começo de maio de 1942, os dois “Eixos” soviéticos (QG de controle de mais de um Grupo de Exércitos) no sul - sudoeste e norte do Caúcaso - tinham entre si 78 divisões (14 de cavalaria) e 17 brigadas de tanques que, a julgar pelas aparências, era uma força adequada para a defesa da sua área.

 

Mas esses números tem de ser interpretados com certo cuidado. Em primeiro lugar, uma divisão soviética, com todos os seus efetivos, tinha apenas dois terços ou três quartos da divisão alemã. Em segundo, em todos os aspectos, excetuando-se a coragem pessoal, o soldado de infantaria soviético e seus oficiais subalternos não eram iguais aos alemães. Em terceiro, as táticas soviéticas ainda eram estereotipadas e “lentas”. Em quarto, as forças blindadas soviéticas não tinham a experiência dos alemães em penetração profunda; a Blitzkrieg era algo sobre o qual haviam lido em jornais e livros, ao passo que os comandantes alemães a vinham usando com sucesso desde 1939; além disso, sua familiaridade com o controle e abastecimento de colunas velozes de tanques e infantaria motorizada compensava em muito a inferioridade da qualidade de seus blindados. Como veículos de combate, os tanques alemães - sobretudo os PzKpfw III e IV - eram marcadamente inferiores ao pesado KV-1 russo e, em especial, ao T-34 médio (o mais bem sucedido dos tanques produzido em qualquer parte durante a Segunda Guerra Mundial) em blindagem, poder de tiro e mobilidade.

 

Além disso, a inferioridade soviética aumentara com o colapso verificado no saliente de Barvenkovo, em maio, que destruíra 29 divisões de infantaria soviéticas e dois terços dos tanques de Timoshenko, deixando-o numericamente inferiorizado em blindados na proporção de 8 para 1 quando o ataque alemão começou; e a captura da Criméia pelos alemães eliminou mais cinco exércitos soviéticos, com um total de pelo menos 15 divisões. Assim, o equilíbrio de forças existentes no começo de maio, já no início de junho desaparecera, de modo que o prognóstico de uma grande ofensiva alemã no sul era bom.

 

Seria enfadonho traçar detalhadamente a história do equilíbrio de potencial humano durante as batalhas que precederam a de Stalingrado; basta dizer que quando o Grupo de Exércitos soviético chamado “Frente de Stalingrado” foi formado, em 12 de julho, composto de 38 divisões, 14 dessas divisões tinham menos de 1.000 homens cada uma, e outras seis tinham menos de 4.000, quando o organograma da divisão, “no papel”, dava-lhe um total de efetivos de 15.000 homens. Três exércitos que haviam combatido na ofensiva de Kharkov em maio (21o, 28o e 30o), tinham, entre si, 21 divisões, todas oficialmente classificadas como “remanescentes”, e o 4o Exército de tanques, formado a 22 de julho, possuía 80 tanques; por volta de 10 de agosto, não existia mais nenhum. Não havia força para acionar o “rolo compressor” russo, e fora basicamente a ofensiva para sair do saliente de Barvenkovo que colocara o Exército Vermelho nessa entaladela.

 

 O Russo acabou

 

A 28 de junho, Bock fez seu primeiro movimento, lançando seu 4º Exército Panzer contra Voronezh, importante cidade no sistema lateral de comunicação soviético, situada atrás da linha de frente. Dois dias depois, ele colocou o 6º Exército em movimento, dirigindo-o para nordeste, contra o mesmo alvo, visando a formar um bolsão centralizado em Stary Oskol, onde os 6º, 21º e 40º Exércitos soviéticos ficariam envolvidos. Os dois exércitos alemães se posicionaram atrás deles, e o 2º Exército húngaro estaria a oeste. Ele iniciaria violentamente a ofensiva.

 

Todavia, Timoshenko recusou-se a cooperar. Fontes soviéticas não dizem que ele teve informações antecipadas, muito embora possa tê-las recebido, porque, a 19 de junho, o oficial de operações da 22º Divisão Panzer, Major Reichel, fez uma aterrissagem forçada perto das linhas Russas, quando voava para um visinho QG de corpo. Reichel tinha consigo alguns documentos, incluindo os objetivos para  primeira fase do “Caso Azul” e que não foram recuperados. Por isso, tanto seu comandante de corpo, General Stumme, como seu comandante-de-divisão, General von Baoneburg-Lengsfeld, foram demitidos dos seus postos e mais tarde submetidos a conselho de guerra por quebra de sigilo.

 

Parece muito provável que os documentos tenham caído em mãos soviéticas, mas se os soviéticos acreditaram neles ou não, é coisa que não sabemos. É comum “plantar” documentos falsos durante a guerra, e muitos desses “cavalos dados” tiveram seus dentes ceticamente examinados, entre 1939 e 1945. De qualquer modo, dadas a inferioridade soviética de forças no setor sul da frente e a relutância do Stavka em desviar seus exércitos de reserva do setor central   nesse ponto ainda se acreditava que a principal ofensiva alemã seria inevitavelmente contra Moscou), Timoshenko não teve outra alternativa senão recuar assim que as divisões Panzer se puseram em movimento. Estas traziam a intenção de cerca-lo, e destruir a força sobre seu comando, e uma vez que tivessem penetrado, Timoshenko estaria fazendo o jogo delas se se mantivesse firme.

 

Mas Voronezh tinha de ser defendida, porque,  se caísse, as comunicações  laterais soviéticas correriam perigo. Pior ainda, os alemães teriam a opção de atacar para o norte, atrás da frente de Bryansk, na direção de Moscou. O Stavka ignorava que Moscou não se encontrava na agenda alemã para 1942, e o fato de Voronezh aparecer como o primeiro objetivo alemão reforçaria a crença dos que achavam que os documentos de Reichel faziam parte de um ardil bem preparado. Assim, as reservas do Stavka começaram a dirigir-se para Voronezh; dois exércitos de “armas combinadas”(infantaria) e um exército de tanques tomaram posição na margem leste do Don, enquanto outro exército de tanques da ala direita da adjacente frente de Bryansk era deslocado para a área situada ao sul de Yelets, com ordens para fustigar o 4º Exército Panzer pelo flanco e pela retaguarda. Isto era arriscado, pois o 4º Exército Panzer já havia chegado à ferrovia Kastornoye-Stary Oskol ao anoitecer de 2 de julho e lançara um anzol em torno do flanco esquerdo do 40º Exército russo, pronto para envolve-lo,  ao passo que o 6º Exército, atirado à batalha a 30 de junho, encontrava-se a apenas 40 km de Stary Oskol ao anoitecer de 2 de julho e se preparava para cercar os 21º e 28º Exércitos soviéticos.

 

Pelo menos dessa vez o Stavka reagiu com presteza. Um novo QG foi apressadamente instalado em Voronezh, pelo Tenente-General F. I. Golikov, e um grupo de oficiais de Estado-Maior e Chefe de Estado-Maior-Geral, Coronel-General  A. M. Vasilevsky, partiram imediatamente de Moscou para o QG da frente de Bryansk a fim de assegurar o controle local. Tudo ficou pronto bem a tempo. Os alemães tomaram uma cabeça-de-ponte sobre o Don a 6 de julho, mas não conseguiram fazer qualquer progresso contra as forcas soviéticas entrincheiradas e, enquanto assediavam as portas de Voronezh, eles correram perigo de serem flanqueados quando a reserva da frente de Bryansk desfechou seu contra-ataque, pelo sul de Yelets, no mesmo dia. O 24º Corpo Panzer e três divisões de infantaria tiveram de ser destacados para enfrentar essa nova ameaça, e, com isso, Voronezh foi salva. Sua conquista exigiria agora uma grande operação.

 

Isto criou o primeiro problema importante de decisão para a liderança alemã. A tenacidade com o Exército Vermelho defendia Voronezh devia-se ao medo de que estava possuído pelo Stavka de que sua queda fosse o prelúdio de um avanço sobre Moscou, mas, como os alemães não tinham qualquer intenção de se dirigir para o norte, a captura rápida da cidade era menos importante do que  o cerco dos exércitos de Timoshenko. Enquanto as divisões do 49º Exército Panzer estavam empenhadas na tentativa de tomar a cidade - tarefa para a qual não serviam e que desperdiçava a vantagem da sua mobilidade - os exércitos da Frente Sudoeste escapavam tranqüilamente por entre poderosas retaguardas, em boa ordem e com todo o seu equipamento pesado.

 

Em geral, Hitler não era avesso a impor decisões aos seus generais, mas dessa vez ele demonstrou uma humildade incomum. A 3 de julho ele chegou ao QG de Bock. Disse apenas que “não insistia mais” na captura de Voronezh - mas Bock, influenciado pelo fato de suas patrulhas se encontrarem já nos arredores da cidade, persistiu na empreitada. À medida que as reservas soviéticas entraram na cidade, e  com a criação de um novo Grupo de Exército  (a Frente de Voronezh), entendeu o comando nazista ser perigoso aliviar a pressão, pelo receio de que as forças soviéticas, agora muito maiores, contra-atacassem pelo flanco e pela retaguarda das forcas de Bock, de modo que boa parte do 4º Exército Panzer ficou retida ali até 13 de julho. Mesmo assim, ele não conseguiu tomar a parte oriental da cidade nem cortar as linhas de abastecimento soviéticas ao norte do Don. Entrementes, os exércitos de Timoshenko afastavam-se pelas estepes praticamente em paz. Finalmente Hitler perdeu a paciência, demitiu Bock, responsabilizando-o pelo fracasso da ofensiva e pelo desastre em Stalingrado, o ponto culminante seis meses depois.

 

Mesmo antes da demissão de Bock, Hitler tencionava dividir o Grupo de Exércitos Sul em dois Grupos, o (A) para cuidar do avanço para Cáucaso, e o (B) para a investida rumo ao Volga. Com esse objetivo em mente, mudou seu QG de Rastenburg para Vinnitsa, na Ucrânia, e empenhou-se numa revisão completa do programa operacional, culminando na emissão da Diretiva nº 45, a 23 de julho. Antes, porém, de examinarmos essa diretiva, levemos em conta a situação militar, tanto como a via Hitler, e como esta era na realidade.

 

Não há duvidas de que a pouca resistência soviética ao avanço dos 4º e 6º Exército Panzer para o leste foi para Hitler uma surpresa. Suas tropas percorriam os intermináveis trigais da Ucrânia em velocidade que lembravam as primeiras semanas inebriantes do verão anterior e as nuvens de poeira que marcavam seu progresso eram praticamente tão espessas quanto o nevoeiro do pseudo-sociológico absurdo que os ideólogos nazistas estavam provocando no jubilo prematuro pela queda dos infra-humanos russos. Até mesmo seus generais, que às vezes tentavam fazer com que Hitler descesse das nuvens, pareciam ter-se deixado envolver na euforia predominante. Halder, talvez o mais cético de todos, não encontrou resposta, quando Hitler lhe disse a 20 de julho: “Os russos estão liquidados”, exceto retrucar: “Devo admitir que assim parece”.

 

Não há como negar que o Exército Vermelho estivesse recuando para o sul a velocidades mais adequadas a uma fuga em pânico, porém a resistência que oferecia ao cerco e a tantas vezes demonstrada relutância em abandonar equipamento pesado indicava uma retirada apressada, mas organizada, para linha mais defensável. O General Warlimont, Subchefe do Estado-Maior de Operações do QG de Hitler, OKW (Alto-Comando das Forças Armadas), afirmou mais tarde, que “... estávamos esperando por uma vitória real; parecia-nos que o inimigo ainda não fora forçado a travar combate, a julgar pelo pequeno número de equipamento capturado”. Ele estava certo, mas não há nada que sugira que ele ou seus superiores, exceto Halder, fizessem outra coisa senão esperar em silêncio.

 

Admita-se que Hitler sempre relutou, até muito depois de Stalingrado, em aceitar qualquer argumento sobre as possibilidades do Exército Vermelho, que para ele havia chegado ao fim. Muitos meses depois, quando todo o seu frágil império ruía em seu redor, ele determinou a internação num asilo o chefe dos “Exércitos Estrangeiros do Leste”(o setor do Serviço Militar de Inteligência responsável pelos cálculos dos efetivos do Exército Vermelho), por ter feito estimativas que o Führer considerara exageradas. Assim, talvez fosse necessário um coração forte e um total desprezo pela própria carreira para sugerir ao Supremo “General” que o inimigo ainda se encontrava um tanto distante do último suspiro. Não obstante, é inacreditável que houvesse alguém em condições de poder concordar com as eufóricas bazofias de Hitler e seu séqüito, pois a situação real não era tão rósea.

 

É verdade que as coisas iam mal para o Exército Vermelho. O publico soviético mergulhara em profunda melancolia com a retirada aparentemente interminável; além disso, a “fraqueza” revelada pelos defensores da área sul estava sendo abertamente comparada com a firmeza dos que lutavam por Leningrado e Moscou. Isto provocou tensões entre generais do sul e os homens enviados pelo Stavka, que persistem até hoje, porque, afinal de contas, se tivessem permitido a Timoshenko abandonar a ofensiva de maio forças teriam estado em melhores condições de enfrentar o ataque alemão. O Stavka e Stalin foram os verdadeiros vilões da peça, e os generais do sul o sabiam, mas o público geral ignorava isso. Tudo o que este e o soldado comum sabiam é que, a  cada dia que passava, a herança industrial soviética, criada tão recentemente e debaixo de tanto sacrifício, estava sendo entregue aos rapinantes alemães.

 

Assim, o estado de espírito da infantaria soviética que se dirigia para a grande curva do Don era a depressão e incerteza, situação que as exortações transmitidas por grupos de civis entusiásticos não aliviaram. O moral estava baixo. Muitos oficiais soviéticos tem narrado que, naqueles dias sombrios de julho, dias visinhos do momento da batalha de Stalingrado, foram designados para ocupar pontes ou cruzamentos de estrada, pistola de mão, organizando o pessoal desgarrado em unidades ad hoc e ouvindo as engenhosas razões dessa gente para dizer que não podia parar no momento.

 

Não obstante, a retirada foi, de modo geral, feita em ordem e sua extensão era facilmente explicada. O lugar óbvio para tomar posição e lutar era a extremidade oriental da grande curva do Don e o sincronismo da retirada era governado pela rapidez com que os exércitos da Reserva do Stavka podiam ser deslocadas para o sul. Devemos lembrar-nos de que esses exércitos haviam sido deslocados do centro, para que estivessem disponíveis par a defesa de Moscou, se necessário; todos eles estavam ao norte de uma linha traçada desde Borisoglebsk ate Saratov e só começaram a mover-se para o sul no início de julho.

 

O sensato seria desloca-los para a área da curva do Don, atrás das forças em retirada de Timoshenko, e era isto realmente que o Stavka pretendia. Não há duvidas de que teria sido mais dramático lança-los à frente aos bocados. A colocação desses homens em posições preparadas militarmente fazia mais sentido, embora isso também significasse que eles não estavam identificados na frente de batalha, o que confirmava a crença dos alemães de que o Exército Vermelho não tinha mais nenhuma reserva operacional. As ações alemãs decorrentes dessa concepção errônea seriam catastróficas para a Wehrmacht, porque, longe de estarem liquidados, o russos “ainda não haviam começado a lutar”.

 

A principio, Hitler ficou preocupado com o fato de o colapso iminente do Exército Vermelho vir a determinar aumento de pressão por parte dos britânicos e americanos na forma de uma invasão da Europa Ocidental. Ele retirara doze divisões do oeste durante os meses de maio e junho, transferindo-as para a Rússia, para a ofensiva de verão. Agora, ele retinha uma unidade de elite, a 1ª Divisão SS de Panzergrenadier (sua guarda pessoal, Leibstandarte Adolf Hitler), fora da batalha, e a 9 de julho ordenou que ele se dirigisse para oeste; depois determinou que a Divisão de Infantaria Motorizada, também de elite, a Gross Deutschland, seguisse a primeira. A seguir, o Führer começou a preocupar-se com a possível ação soviética contra o Grupo de Exércitos Centro e enviou as 9ª e 11ª Divisões Panzer para reforçá-lo.

 

A 11 de Julho, Hitler emitiu a Diretiva nº 43, ordenando que o 11ª Exército de Manstein, que acabara de capturar Sebastopol, atravessasse e Estreito de Kerch e participasse da invasão do Cáucaso. Dias depois, ele revogou a ordem e despachou todo o Exército, excetuando-se um corpo, para o norte, onde sua experiência na captura de fortalezas poderia ser explorada na conquista de Leningrado (operação remanescente do primeiro rascunho do plano para a ofensiva de verão, no qual fazia sentido. Agora, no plano definitivo, ela não tinha sentido algum, porque a ênfase fora desviada para o sul).

 

Então, para amontoar loucuras sobre loucuras, Hitler ordenou, a 13 de julho, que o 4º Exército Panzer, que estava avançando sobre Stalingrado, se desviasse para sudoeste, afim de ajudar o 1º Exército Panzer de Kleist na tomada de travessias sobre o baixo Don, a leste de Rostov. O 4o Exército Panzer acabara de ser liberado da tarefa que lhe fora atribuída na Diretiva original, mas agora  tiravam-no desta para ajudar Kleist, cujas as forças  (agindo como ponta-de-lança para o braço sul da pinça só se puseram em movimento quatro dias antes.

 

Para piorar as coisas, Kleist não precisava de qualquer ajuda, pois naquele mesmo dia o Stavka ordenou uma retirada geral da Frente Sul sobre o Don, exceto em Rostov, de modo que Hoth praticamente fechou um bolsão vazio  , ao chegar às travessias do Don, encontrou-os praticamente sem defesa e as estradas de aproximação apinhadas com o trafego de Kleist, com o qual seus próprios tanques começaram a se enredar, impedindo o movimento de Kleist para o Cáucaso. Depois da guerra, Kleist afirmou que se o 4º Panzer não tivesse sido desviado dessa forma, ele poderia ter tomado Stalingrado em fins de Julho, e sem lutar. Isto é discutível, porque as divisões Panzer não são lá muito adequadas para conquistar grandes cidades; além disso, forças consideráveis da reserva do Stavka - notadamente os 62o e 64o Exércitos - provavelmente teriam sido desviadas para defender a cidade, caso estivesse sendo ameaçada por um Exército Panzer, e não pela sobrecarregada infantaria do 6o Exército.

 

Entretanto quaisquer que fossem os méritos da afirmação de Kleist, não há duvida alguma de que não havia necessidade do 4o Exército Panzer na área de Kleist, e pelo menos uma autoridade soviética (o Marechal Yeremenko) chegou a descrever sua diversão como “flagrante erro de cálculo estratégico”. Também não há provas de que os generais alemães objetassem na época, independente do que mais tarde pudesse ter falado a respeito, pois ignoravam a diretiva do Stavka para uma retirada geral e esperavam fazer boa colheita de divisões soviéticas - embora não tivessem tido sorte até então. Mesmo quando a pinça sul (1o Exército Panzer e 17o Exército) começou a mover-se, não conseguiu fazer mais do que empurrar a Frente Sul à sua vanguarda, pois assim como a Frente Sudoeste voltava sobre Voronezh, também a Frente Sul estava voltando sobre Rostov e, com isso, outra tentativa de cerco fracassara.

 

Todavia, o Alto-Comando ainda se apegava à crença de que o Exército Vermelho estava liquidado e foi nesse ponto - 23 de julho de 1942 - que Hitler emitiu sua Diretiva nº 45. Em vista da situação, o documento era surpreendente. A seqüência organizada do plano original - primeiro o Volga e depois o Cáucaso - desaparecera: os dois objetivos deveriam ser alcançados simultaneamente. Agora também já não bastava bombardear Stalingrado - era preciso tomá-la. Quanto aos campos petrolíferos caucasianos, Maikop e Grozny não eram o suficiente, a despeito do fato de a captura de Grozny possibilitar o isolamento do abastecimento de petróleo soviético por ferrovia, desde os campos principais de Baiku, que tinham de ser tomados, muito embora isto implicasse a travessia da cordilheira do Cáucaso - importante barreira defensiva, com poucos passos e cujos píncaros ultrapassavam os 3 mil metros - por desfiladeiros estreitos onde uns poucos defensores decididos poderiam deter toda uma divisão.

 

O 4o Exército Panzer ainda estava nos arredores das travessias do Don e, a despeito de necessitarem dele mais ao norte, só seis dias depois é que as ordens que trazia foram mudadas. A 29 de julho, Hoth conseguiu fazer seus primeiros tanques atravessar o rio e, tão logo o fez, recebeu novas ordens. Ele teria de deixar uma divisão para trás, para manter contato com Kleist, e fazer o restante atravessar novamente o tio Akasay e abordar Stalingrado pelo Sul. A cidade começava a dominar a imaginação alemã.

 

O Exército Vermelho não ficara esperando passivamente que os alemães decidissem o que fazer a seguir, pois, embora a importância de Stalingrado pudesse variar, na concepção de Hitler e dos generais, não haviam dúvida quanto ao lugar que ela ocupava na mística soviética. O próprio nome significava “cidade de Stalin” - e nomes podem ser importantes. Não tinha Hitler mudado o nome do couraçado-de-bolso Deutschland devido a possíveis efeitos sobre a moral do povo se um navio chamado “Alemanha” fosse posto a pique? Mais do que isso, o próprio Stalin desempenhara em 1920 papel importante na derrota dos Exércitos Brancos do General Denikin nesse local (então chamado Tsaritsyn).

 

Nos anos subseqüentes, a cidade fora escolhida para símbolo da União Soviética e se tornou um gigante industrial, estendendo-se por 40 km ao longo da margem ocidental do Volga. Stalingrado sustentava uma população de 600.000 habitantes com suas fábricas - três das quais, a siderúrgica “Outubro Vermelho”, a fábrica de material bélico “Barricadas” e a Fábrica de Tratores de Stalingrado, se enfileiravam ao longo do rio, no setor norte da cidade, cujos “Bairros Operários”, situados imediatamente a oeste, desempenhariam papel importante na próxima batalha.

 

Embora a cidade, como sinal especial da preferência de Stalin, fosse sobrecarregada da arquitetura do tipo bolo de noiva, da qual ele tanto gostava, seus habitantes sentiam por ela grande orgulho, com seus parques e passeios ao longo do rio, com numerosas ravinas ligando-se ao Volga e, em seu centro, muito indícios de um futuro mais amplo, coisa a que todos aspiravam. O próprio Volga, que ali tinha quase 1.500 metros de larguras, contava numerosas ilhas; sua margem ocidental era alta e alcantilada, com saliências em certos lugares, debaixo das quais havia muitas cavernas. No interior da cidade salientavam-se várias colinas de pequena altitude, uma das quais, a Mamayev Kurgan  (Túmulo de Mamay), com seus 110 m de altura, oferecia excelente panorama de todo o centro. Embora não houvesse pontes sobre o Volga, grandes barcaças ferroviárias e rodoviárias o cruzavam, e o porto fluvial crescia cada vez mais em importância, depois da tomada de Rostov e das suas ferrovias, a 25 de julho. O Exército Vermelho não abandonaria facilmente essa cidade.

 

Varias mudanças foram então introduzidas na organização da defesa da área. A Frente Sudoeste fora eliminada e os Grupos de Exércitos ficaram diretamente subordinados ao Stavka, enquanto que a nova Frente de Voronezh, formada para conter Bock no norte, fora entregue ao comando de um antigo Subchefe do Estado-Maior-Geral, General N.F. Vatutin, e seu vizinho do norte, a Frente de Bryansk, também era entregue  a outro antigo Subchefe do Estado-Maior-Geral, General F.I. Golikov. Essas duas nomeações refletiam a influência de Zhukov, pois os dois homens haviam servido sob seu comando no passado recente e ambos viriam a despenhar papéis importantes, mais tarde, na batalha de Stalingrado, à medida que Zhukov passava a envolver-se nela e a orientá-la cada vez mais. Com a eliminação da Frente Sudoeste, à medida que suas forças se retirassem para a curva do Don, seriam absorvidas pela Frente de Stalingrado, que estava sendo formada com tropas dos exércitos de reserva do Stavka.

 

A nova Frente passou a ter existência oficial a 12 de julho e de início Timoshenko foi quem a comandou, mas era evidente que ele teria de sair - não em desgraça, porque, no todo, a retirada para a curva do Don fora feita com habilidade e economia, mas porque a nova Frente era importante demais para ser comandada por um general que rescendia a derrota. De qualquer modo, ele pertencia à geração mais velha de comandantes do Exército Vermelho, que agora começavam a ceder lugar a homens educados dentro de escola mais moderna, ligados ao próprio Zhukov ou ao antigo líder deste, o grande Marechal Tukhachevsky, a quem Stalin “expurgara” e executara usando a acusação falsa de ter tramado com a Alemanha contra o estado soviético. Assim, a 22 de julho, Timoshenko foi investido no posto mais alto do importante, mas ainda tranqüilo, setor noroeste da frente, e seu lugar foi ocupado pelo General V.N. Gordov, que três dias antes assumira a direção do 64º Exército, uma das formações da reserva do Stavka que fora deslocada para a curva do Don e estava em vias de tomar posição.

 

O Grupo de Exércitos B havia formado três subgrupos para o ataque a Stalingrado, sendo-lhes distribuídas as seguintes tarefas: o Grupo Norte, consistindo de duas divisões Panzer, atacaria a 23 de julho, partindo da área de Golovsky-Peralazovsky, visando a capturar a grande ponte sobre o Don, em Kalach, atrás das forças soviéticas deslocadas a oeste do Don. A Força Central, com uma divisão Panzer e duas de infantaria, atacando a 25 de julho, avançaria da área de Oblivskaya-Verkhne-Aksenovsky, também na direção de Kalach. Enquanto esses dois grupos formavam uma escora contra as forças soviéticas na curva do Don, o 6o Exército se aproximaria, vindo do lado oeste, e os envolveria, deixando aberto o caminho para o Volga. A oportunidade seria então explorada pelo terceiro grupo (Sul), com uma divisão blindada, uma motorizada e quatro de infantaria, que já teriam atravessado o Don em Tsimlyanskay no dia 21 e estabelecido uma grande cabeça-de-ponte de onde ele avançaria do sul sobre Stalingrado; enquanto isso, os dois outros grupos, tendo terminado sua tarefa na curva do Don, avançariam para o Volga, pelo oeste e noroeste da cidade.

 

Para a execução desse plano, o Comandante-Chefe do Grupo de Exércitos B, Coronel-General Freiherr von Weichs, tinha uma força total equivalente a 30 divisões - embora menos de dois terços destas fossem alemães - e mais de 1.200 aviões, superando numericamente as forças soviéticas na curva do Don na proporção de cerca de doid pra um. Contudo, para uma operação defensiva, essa proporção não era desesperadamente desfavorável para os comandantes soviéticos. Para eles, uma disparidade muito maior de armas, porque, graças às perdas na ofensiva de Kharkov, eles estavam em inferioridade numérica de cerca de dois pra um em tanques e canhões, e de três pra um em aviões. Além disso, para piorar as coisas, quase 300 dos 400 aviões do seu 8º Exército Aéreo eram de tipos obsoletos, porque os aviões melhores e mais novos - os caças Yak-1, os bombardeiros leves Pe-2 e o excelente avião de ataque a terra Il-2 (o Sturmovik) - só estavam disponíveis em poucas quantidades. Na prática, isto significava que a superioridade aérea alemã sobre a área era quase total.

 

Do seu total de 30 divisões, Weichs pode deslocar cerca de 20 contra as forças soviéticas na curva do Don (quase todas elas alemãs e uma romena), às quais pode acrescentar mais um corpo a partir de começos de agosto, quando o 8o Exército italiano começou a ocupar seu setor ao longo do Don, de ambos os lados de Veshenskya. As forças soviéticas eram formadas pelos 62o e 64o Exércitos, apoiados pelo 1o Exercito de Tanques (que tinha 160 tanques) e pelo 4o Exército de Tanques (com 80 tanques), enquanto que o canto norte da curva era ocupado pelo 1o Exércitos de Guardas, cujo único papel na batalha foi defender uma cabeça-de-ponte ao sul do rio, em Kermenskaya. Mas todos os exércitos que tinham de suportar o peso principal do ataque alemão eram recém-formados e os dois exércitos de tanques eram particularmente inexperiente, pois só a 22 de julho é que tinham sido criados.

 

À parte algumas escaramuças entre o 14o Corpo Panzer e os elementos avançados do 62o Exército, ao longo do Rio Chir, a partir de 17 de julho, não houve nenhuma ação importante antes de 23 daquele mês, quando cinco divisões alemães atacaram a ala direita do 62o Exército ao norte de Manyolin, enquanto que o 64o Exército era atacado no rio Tsimla. Depois de três dias de luta, o 14o Corpo Panzer penetrou as defesas do 62o Exército e avançou para Kamensky sobre o Don, flanqueando aquele exército pelo norte. O 1o Exército de Tanques, que se foi deslocado atrás do 62o, tentou isolar a força alemã atacando-a pelo norte, através da sua retaguarda enquanto o 4o Exército de Tanques tentava um ataque de desvio pelo norte do saliente alemão -, mas, como nenhum dos dois exércitos existia há mais de cinco dias, como ambos continham uma mistura heterogênea de tanques e infantaria não-motorizada, ainda estavam apenas parcialmente equipados e eram comandados por oficiais de infantaria que não tinham experiência no trabalho com blindados, era pouco provável que seus ataques tivessem êxito; e não tiveram - especialmente por não terem qualquer coordenação e receber pouco apoio de artilharia e praticamente nenhuma cobertura aérea.

 

Enquanto esse mal-dirigido ataque caminhava vacilante para o fim inevitável, o 24o Corpo Panzer enfiava uma cunha entre os 62o e 64o Exércitos ao se dirigir do sudoeste para Kalach ao longo da margem ocidental do Don. O Stavka ficou muito inquieto com a penetração sul e a 28 de julho deu ordens a Gordov para que fortalecesse as defesas sul da área situada entre os rios desde Logovsky. Assim, a 1o de agosto ele deslocou o 57o Exército ao longo dessa linha e também recebeu o comando do 51o Exército, que se deslocaria pelo sul da curva do Volga, desde os Lagos Sarpa ate o ponto em que a linha de frente chegava à estepe Calmucos, na direção de Rostov. Isto dava à Frente de Stalingrado uma linha de quase 700 km de extensão, e em vista da dificuldade de se administrar frente tão longa decidiu-se criar um novo Grupo de Exércitos, a Frente Sudeste, que cuidaria da parte meridional da linha do Gordov. Com isso, teve inicio a procura de um oficial adequado para comanda-lo.

 

Entrementes, na área da curva do Don a situação tornara-se relativamente calma, porque, embora as forças móveis alemãs tivessem chegado ao Don e feito penetrações profundas de ambos os lados do 62o Exército, as tropas inexperientes da reserva do Stavka haviam-se saído muito bem, e nem o 6o e nem o 4o Exército Panzer estavam em posição de forçar a linha do Don ou envolver o 62o Exército sem parar para reagrupar. A maior parte do 4o Exército Panzer já havia voltado da inútil expedição que fizera às travessias do Don, no sul, e a 31 de julho Hoth levou-o à ofensiva, na área de Tsimlyanskaya, contra o 51o Exército, que estava por demais estendido e que, com cinco divisões de infantaria abaixo dos seus efetivos, tentava proteger uma frente de 200 km de Verkhne-Kurmoyarskaya ate Orlovskaya.

 

O golpe de Hoth penetrou as defesas do 51o Exército, que começou uma retirada apressada para a ferrovia Tikhorestsk-Krasnoarmeysk. Assim, por volta de 2 de agosto, ele chegara a Kotelnikovo, restando entre ele e Stalingrado apenas 135 km de território com alguns pequenos obstáculos naturais, sendo com mais importante deles os rios Aksay e Myshkova.

 

Tinha havido algumas mudanças de comando na frente de Stalingrado: o 62o Exército passara para o comando do General A.I. Lopatin, enquanto que o comandante em exercício do 64o Exército, Tenente-General A.I. Chuykov, passara a direção de seu exército ao Major-General M.S. Shumilov, partiu para apresentar-se ao QG da Frente em Stalingrado, discutira com Gordov (por cujas qualidades como comandante de Frente não tinha muito respeito) e voltara para o 64o Exército, a fim de dar alguma explicação por escrito da retirada de algumas das unidades desse exercito para o outro lado do Chir, quando ainda sob seu comando. Na manha de 2 de agosto, Shumilov mandou chamá-lo, informou-o da penetração de Hoth, que ameaçava flanquear todo o exército e talvez toda a frente, e sugeriu que ele se encarregasse do setor sul.

 

Chuykov, satisfeito por escapar à tarefa de escrever o relatório, partiu imediatamente. Ao chegar ao setor sul, descobriu ele duas divisões de infantaria soviéticas, parte do 51o exército, vagando pela estepe, a caminho de Stalingrado, para se reunir ao exército do qual se haviam desgarrado, levando consigo dois regimentos de morteiros de foguetes Katyusha e evidentemente abalados pelas pesadas baixas que haviam sofrido no ataque de Hoth; mas eles não tinham rádio. Chuykov assumiu seu comando, colocou-os atrás do rio Aksay e pôs um regimento de infantaria na retaguarda deles para consolidar sua resolução; a seguir, entrou em contato com o QG da frente, comunicou o que tinha feito e foi informado de que 208a Divisão de infantaria da Sibéria estava desembarcando de um trem na região, devendo também subordinar-se ao seu comando - se ele conseguisse encontrar seu QG, cujo paradeiro era desconhecido.

 

Depois de várias horas, ele encontrou a divisão, que começara a desembarcar no dia anterior, mas soube que quatro trens carregados haviam sido destruídos por aviões alemãs e os sobreviventes se haviam espalhado. Pouco mais adiante, na estação de Chilekov, encontrou mais trens carregados de soldados da mesma divisão e que começavam a desembarcar, mas de repente sete aviões alemãs apareceram e bombardearam a estação, causando pesadas baixas entre as tropas e destruindo seu radio. Maldizendo Godov por não ter assegurado a proteção aérea à divisão, Chuykov começou a reunir os desgarrados, organizando-os em unidades e encarregando-as de varias tarefas.

 

Com essa força improvisada, organizou um defesa ao longo do Aksay e despachou patrulhas de reconhecimento, que verificaram que a principal força de Hoth fazia largo desvio para o leste -obviamente com a intenção de atacar Stalingrado pelo sul. A própria força de Chuykov, situada no Aksay, foi atacada, a 6 de agosto, por tropas de infantaria alemãs e romenas. Chuykov rechaçou o golpe e sustentou a posição até que recebeu ordens de recuar, a 17 de Agosto, em conformidade com a retirada geral de toda a linha. Ele aprendera algumas lições a serem empregadas para romper ataques alemães e as aplicaria muito bem, em momentos mais importantes, em vários estágios cruciais da batalha.

 

Na frente principal, na curva do Don, a situação piorara para o Exército Vermelho após o fracasso do contra-ataque. O 62o Exercito perdera a maioria das suas oito divisões de infantaria, que abriram caminho lutando em pequenos grupos mas deixaram a maior parte do seu equipamento para trás e levariam algum tempo para se reagruparem e reequiparem. Para substitui-las, ele recebeu algumas das divisões do 1o Exército de tangues que fora dispensado, bem como um divisão pertencente ao 64o Exército, mas que fora afastada para o norte pela penetração alemã entre os dois exércitos. A grande ponte em Kalach fora tomada intacta por audacioso golpe levado a cabo por pequeno grupo de sapadores de assalto alemães, permitindo assim aos tanques alemães o salto fácil para a língua de terra entre o Don e o  Volga. Gordov começara mal como comandante de Frente, sendo evidente que não poderia manter a posição por muito mais tempo.

 

Por volta de 16 de agosto, a última cabeça-de-ponte no trecho do Don que corre de norte a sul entre Kamensky e Verhne-Kurmoyarskaya fora entregue; porém, mais ao norte, ao longo do trecho oeste-leste do Don, antes que este alcance a grande curva, o 1o Exército de Guardas e o 21o continuaram de posse de vários trechos da margem sul entre Kletskaya e Serafimovich, enquanto que os romenos do 3o Exército permaneciam obstinadamente na defensiva. Essas cabeças-de-ponte esquecidas, que então pareciam não preocupar ninguém no OKW, no OKH ou no grupo de Exércitos B, revelar-se-iam decisivas quando o calor e a poeira de agosto cedessem lugar às neves de novembro.

 

Yeremenko assume

 

A principio, Stalin estava interessado em encontrar não um substituto para Gordov, e sim um comandante para a Frente Sudeste. Em vista, porem, dos desenvolvimentos subseqüentes, causados pelo trabalho insatisfatório de Gordov na batalha da curva do Don, ele viria a dar importância extraordinária à nomeação do homem que seria encarregado do novo Grupo de Exércitos.

 

A 1o de agosto, um atarracado general soviético discutia com seu médico num quarto de hospital em Moscou, onde se recuperava de um ferimento na perna, seu segundo ferimento sério na guerra. Ele tentava convencer o médico de que estava em condições de retornar à ativa, e, depois de áspera discussão sobre os direitos dos pacientes versus os dos médicos em decidir quando se está ou não apto para receber alta, foi ele submetido a um teste prático de verificação de sua habilidade em andar sem o auxilio da bengala. Meia dúzia de passos foram o bastante para lhe provocar um suor frio na fronte e a perna ficou dormente.

 

“Basta, basta”, ordenou o médico em triunfo. “Agora está claro, estimado Coronel-General, sobre quem está errado quanto ao momento da recuperação. Ainda é preciso um período de cura fundamental”. O general confessou timidamente que já se havia apresentado ao Stavka dizendo-se apto para voltar à frente. “Pior para o senhor”, disse o médico. “Sem uma nota do médico encarregado, eles nem se quer olharão para o relatório.”

 

Com o fracasso do blefe, o general recorreu ao apelo emocional. “Diga-me, professor, com sinceridade, se o senhor estivesse sofrendo do meu mal, e no mesmo estado, será que ficaria calmo, sabendo que centenas de pessoas estão morrendo de ferimentos e esperando sua ajuda, professor, somente sua ajuda, de ninguém mais?”. O professor ponderou, mas não deu nenhuma resposta direta. “Está bem , se o senhor me der sua palavra de honra de que obedecera estritamente o regime que eu prescrever, não hesitarei em dar-lhe alta”. O general passou o resto do dia procurando caminhar sem a bengala, enquanto aguardava um telefonema. Este veio volta da meia-noite, do Secretário do Comissário do Povo para a Defesa. “Seu relatório foi examinado. Venha imediatamente ao Kremlin.”

 

Ele deixou sua bengala na ante-sala de Stalin e entrou corajosamente na sala de conferencias do Comitê de Defesa do Estado. Stalin, que acabava de dar um telefonema, voltou-se para ele, fitou-o cautelosamente nos olhos e disse: “Bem, o senhor acha que já esta bom?”. “Sim, estou recuperado”, disse o general. Um dos outros membros dos comitê observou que ele estava mancando, mas o general retrucou, alegando um bem-estar que estava longe de sentir. “Então, está bem”, disse Stalin. “Para nós o senhor está de volta à ativa. Temos muita necessidade do senhor neste momento. Vamos tratar dos negócios. As circunstâncias em Stalingrado agora são tais, que não podemos deixar de tomar medidas para fortalecer esse importantíssimo setor da frente e para melhorar a direção das tropas. Decidimos dividir em duas a recém-formada Frente de Stalingrado. O Comitê de Defesa do Estado pretende dar-lhe o comando de uma delas. Qual a sua opinião?” “Estou pronto para servir em qualquer lugar que o camarada julgue necessário mandar-me”, respondeu o general. Seu nome era Andrey Ivanovich Yeremenko, Coronel-General com 39 anos de idade.

 

Yeremenko era um dos “quebra-galhos” favoritos de Stalin e já fora encarregado de algumas tarefas difíceis, embora não fosse em todas bem sucedido. Mas ele era um estrategista atilado e um grande otimista. Os desafios eram para ele uma das razões da vida. Talvez seu otimismo, às vezes, disparasse, talvez ele às vezes tendesse para considerar-se um homem do destino, mas a situação não era para os timoratos e ninguém podia acusá-lo disso. Ele logo se dirigiu para o edifício do Estado-Maior-Geral, a fim de se familiarizar com a situação no sul, retornando ao gabinete de Stalin naquela noite. Depois de alguma discussão com Stalin sobre a conveniência de se manter uma única Frente de área (implicitamente sob o seu comando, e não sob o de Gordov), ele cedeu à decisão de Stalin e pediu o comando da Frente Norte, observando que o extenso flanco alemão ao longo do Don seria muito vulnerável a um contra-ataque, mais adequado ao seu temperamento do que a defesa. Stalin ouviu-o até o fim e retrucou: “Sua proposta merece atenção, mas isto é para o futuro; por enquanto temos de deter a ofensiva alemã”.

 

Fez um pausa para encher o cachimbo, e Yeremenko apressou-se em concordar. “Seu raciocínio é perfeito”, prosseguiu Stalin. “Estamos enviando-o à Frente Sudeste para deter o inimigo, que está atacando pela área de Kotelnikovo, na direção de Stalingrado. A Frente Sudeste tem de ser criada do nada, e depressa. O senhor tem experiência disso; criou a Frente de Bryansk do nada (em 1941). Assim, voe ate Stalingrado amanhã e crie a Frente Sudeste.”

 

Yeremenko chegou a Stalingrado na manhã de 4 de agosto. No aeroporto, esperava-o um carro, enviado pelo seu “Membro do Conselho Militar”, o homem responsável pela supervisão do Departamento Político da Frente, incumbindo da doutrinação, propaganda, moral e bem-estar dos soldados, apara assegurar a máxima cooperação das autoridades partido e do governo em Moscou e, se preciso, para assegurar (discretamente) que Yeremenko permanecesse “politicamente” sensato. O “Membro do Conselho Militar”, muito conhecido no sul, era o Primeiro-Secretário do Partido Comunista Ucraniano. Servira a Timoshenko no cargo em que passou a servir a Yeremenko. O cargo de Comissário equivalente à patente de Tenente-General. Era um homem baixo, atarracado, dotado de um temperamento que, depois da guerra, se tornaria conhecido do mundo inteiro. Seu nome; Nikita Sergeyevich Krushev.

 

Yeremenko tinha quatro dias pra criar a Frente Sudeste e passaria a comandá-la a 9 de agosto. A linha demarcatória das suas responsabilidades e as de Gordov partia de Kalach, descendo o vale do rio Tsaritsa até o Volga, cortando assim em duas partes a área da cidade. Seu QG estava situado numa instalação subterrânea, o Abrigo Tsaritsyn, especialmente construído no começo do ano. Assim que começou a organizar seu QG, suas reações foram postas à prova quando, a 7 de Agosto, os Panzer de Hoth  (que Chuykov vira evitando a linha de Aksay nos dias 5 e 6) se aproximaram de Stalingrado pelo sul, penetraram o flanco esquerdo do 64o Exército e chegaram a 30 km da cidade. Ele não podia esperar ajuda da Frente de Stalingrado, cujas forças estavam plenamente comprometidas, e seus outros exércitos (51o e 57o) encontravam-se muito aquém dos seus efetivos: o 51o tinha apenas o equivalente a uma divisão completa na área - os remanescentes dos dois outros ainda estavam na linha Aksay, com Chuykov, longe demais para ajudar.

 

O pânico irrompeu na cidade e foi necessário que se adotassem medidas draconianas para evitar que os civis invadissem as estradas necessárias ao tráfego militar. Depois disso, reuniu-se apressadamente uma força improvisada, com canhões antitanques e morteiros de foguetes Katyusha, a qual foi enviada para enfrentar Hoth em Abganerovo. Seguiram-se sete dias de luta, com o primeiro choque ocorrendo a 9 de agosto, mas finalmente se deteve a penetração de Hoth, que abandonou momentaneamente a tentativa de penetrar pelo Sul. Assim, Yeremenko saiu-se bem em sua primeira prova; porém, outras mais severas estavam por vir, a começar a 10 de agosto, enquanto a luta em Abganerovo estava no auge.

 

Naquele dia surgiu uma situação muito séria na ala esquerda da Frente de Stalingrado, imediatamente adjacente à direita de Yeremenko, quando o 62o Exército do General Lopatin encontrou dificuldades ao tentar um contra-ataque com três das suas divisões. Embora estas causassem algumas baixas aos alemães, acabarem cercadas por três lados e só puderam escapar com grande dificuldade e pesadas baixas. Com isso, embora o avanço alemão fosse temporariamente detido na margem ocidental do Don, a situação continuou crítica, porque a linha natural do avanço para Stalingrado era diretamente oblíqua à linha de demarcação entre as Frentes de Stalingrado e Sudeste, com todas as dificuldades impostas pela coordenação das operações entre dois comandantes de igual patente especialmente no tocante ao movimento de reservas. Naquele momento, Yeremenko não dispunha de reservas, sendo, portando, obrigado a depender de Gordov (com o qual, ou para quem, quase todos os oficiais graduados soviéticos tinham tido dificuldades de trabalhar e que, no momento, também não contava com reserva alguma). Yeremenko informou ao Stavka essa dificuldade, com o resultado talvez inesperado de que, na noite do dia 13, ele se viu nomeado comandante das duas Frentes, tendo Gordov como seu subcomandante para a Frente de Stalingrado e Golikov (mais tarde da Frente de Bryansk) preenchendo o mesmo posto na Frente Sudeste. Assim, ele tornou-se Comandante Supremo no local, e, embora membros do Stavka visitassem freqüentemente o seu QG, quaisquer decisões que tivessem de ser tomadas rapidamente, a ele cabia tomá-las. Sua faculdade de agir com presteza em breve seria posta à prova, pois Paulus estava prestes a montar a mais séria ameaça aos defensores da cidade, na forma de um ataque pelo norte, oeste e sul.

 

Hitler estava muito revoltado com o fracasso dos seus generais em capturar Stalingrado e Paulus  não podia deixar de reagir aos desejos do seu senhor. O limite do prazo para a captura da cidade era 25 de agosto, data que se aproximava, de modo que o QG do 6o Exército emitiu ordens operacionais no sentido da tomada a 19 de agosto, fixando-se o início das operações para as 04:30 h do dia 23. Na primeira fase, uma ponta-de-lança móvel, de que faziam parte a 16a Divisão Panzer, a 3a e a 60a Divisões Motorizadas, comandadas pelo Tenente-General Hube, abriria um caminho pelo corredor entre o Don e o Volga, partindo de cabeças-de-ponte de ambos os lados do Vertyachi. Quando tivessem alcançado os subúrbios norte de Stalingrado (Spartakovka, Rynok e Latashinka), elas se preparariam para entrar na cidade na direção do sul, enquanto forças subseqüentes consolidavam e ampliavam o corredor conquistado. O 4o Exército Panzer invadiria a cidade, pelo sul, assim que ela tivesse sido isolada pelo seu lado norte, e o 51o Corpo do General von Seydlitz-Kurzbach se dirigiria de Kalach para leste, mantendo contato em seu flanco norte com a força subseqüente de Hube e visando a atacar Stalingrado na junção entre os 62o e 64o Exércitos, de modo a isolá-los um do outro.

 

A força de Hube partiu na hora marcada, sobrepujando as defesas soviéticas pelo peso, velocidade e eficiência. A quilômetros de distância, para o sudeste, seus integrantes podiam ver as nuvens de fumaça provocadas pelos incêndios lavrados em Stalingrado pelos ataques da aviação alemã (Luftflotte IV) que, somente naquele dia, realizara mais de 2.000 surtidas, numa campanha de terror com a qual os habitantes de Varsóvia e Roterdã estavam familiarizados. No meio da tarde os homens de Hube já avistavam a cidade e, à aproximação da noite, abriram caminho esmagando a defesa improvisada das operárias da fábrica “Barrikady”, que guarneciam canhões antiaéreos, e avançando para a elevada margem ocidental do Volga, ao norte de Rynok. Ali, eles passaram a noite preparando-se para a batalha do dia seguinte, quando a cidade, por certo, cairia. Mas, sem que soubessem, Yeremenko estava prestes a agir como parteira, trazendo à luz uma fortaleza numa cidade morta.

 

Ele despertara, bem cedo, com a notícia de que os alemães avançavam através do espaço entre os 62o Exército e o 4o Exército de Tanques (este, agora, só tinha infantaria, pois todos os seus tanques haviam-se perdido na batalha da curva do Don), alertando para o fato o Coronel Sarayev, comandante da 10a Divisão de forças do NKVD (Comissariado do Povo para Assuntos Internos), que eram, essencialmente, tropas dedicadas à segurança interna, os “primos” uniformizados da polícia secreta, motivo por que não tinham armamentos pesados, como artilharia. A despeito disso, porém, a defesa do perímetro urbano, de 50 km de extensão, estava em suas mãos, já que não podiam empregar formações do exército regular para essa tarefa.

 

Às 08:00 h, Yeremenko telefonou ao QG do 62o Exército pedindo um relatório sobre a situação, o qual deixou claro que os alemães corriam velozmente contra a cidade. Às 09:00 h, o Chefe do Estado-Maior do 8o Exército Aéreo, General Seleznev, informou: “Pilotos que acabam de regressar de um vôo de reconhecimento dão conta de que se ferem  intensas lutas na área de Malaya Rossoshka. Em terra, tudo está em chamas. Os pilotos viram duas colunas de cerca de 100 tanques cada uma, seguidas de densas colunas de infantaria transportadas em caminhões. Vêm na direção de Stalingrado. As vanguardas das colunas estão passando pela linha Malaya Rossoshka. Grandes grupos de aviões inimigos estão bombardeando nossas forças, para abrir caminho para suas colunas”.

 

Yeremenko não gastou palavras. “Minha decisão: mande todos os aviões da Frente de Stalingrado decolar imediatamente. Desfeche um golpe violento contra as colunas de tanques e infantaria motorizada inimigas”. A seguir, telefonou ao Major-General T. T. Khryukin, comandante das forças aéreas da Frente Sudeste, mandando-o lançar todos os seus aviões de ataque terrestre contra a coluna de Hube. Depois disso, chamou o comandante dos blindados, General Shtevnev, e o Chefe das operações, General Rukhle.

 

O telefone tornou a tocar. Era Krushev. “Que há de novo?”. “Notícias não muito agradáveis”. “Irei ao QG imediatamente”. Outro chamado telefônico. Desta feita era o comandante da artilharia antiaérea, Coronel Raynin, informando que seus detetores de som em Bolshaya Rossoshka haviam captado o ruído dos tanques de Hube. Yeremenko ordenou-lhe que se preparasse para usar seus canhões contra tanques e aviões, pois a cidade em breve seria bombardeada. Agora que Shtevnev e Rukhle haviam chegado, ele deu ordens ao primeiro para que reunisse os remanescentes de dois corpos de tanques que estavam prestes a ser enviados para a retaguarda, a fim de, uma vez organizados, receberem novo equipamento e rapidamente partirem para o bloqueio do avanço alemão, preparando-se a seguir para um contra-ataque (empresa perigosa, considerando-se que os dois corpos tinham, em conjunto, menos de 150 tanques, a maioria deles o obsoleto T-70). Rukhle saiu para cumprir as ordens.

 

Eram 11:00 h quando Krushev chegou para notificar que as formações integradas pelo pessoal do partido e dos trabalhadores estavam preparadas para se unirem à defesa e queriam receber tarefas. Um clima de inquietação dominava o QG e Yeremenko teve de se esforçar para manter a aparência de calma no meio de toda aquela frenética atividade. O telefone tornou a tocar. O Chefe das Comunicações, Major-General Kroshunov, informou, preocupado, que um trem carregado de munição, alimentos e reforços havia sido destruído por blindados alemães.

 

“Os tanques inimigos estão avançando sobre Stalingrado. Que faremos?”. “O seu dever. Detenha o pânico”, respondeu Yeremenko acremente. O Coronel Sarayev, do NKVD, entrou. “Os tanques inimigos estão a uns 16 km de Stalingrado e aproximando-se rapidamente da parte norte da cidade”, disse Yeremenko. “Sei disso”, murmurou Sarayev. “E o que fez?”. “De acordo com suas ordens anteriores disse aos dois regimentos que se ocupam das defesas no norte e noroeste para que fiquem prontos para a batalha”. Yeremenko ordenou que, além disso, o regimento de reserva se deslocasse do subúrbio de Minina para a fábrica “Barrikady”, situadas na área ameaçada. Agora seu subchefe para a Frente Sudeste, Tenente-General Golikov, estava ao telefone. A trama se complicava. O 4o Exército Panzer começava atacando pelo sul, às 07:00 h; por volta do meio-dia, ele havia capturado a estação de Tinguta e o desvio na marca dos 74 km. A 38a Divisão de Fuzileiros estava parcialmente cercada, mas, em outros locais, os alemães haviam sido rechaçados e se preparava um contra-ataque. “Muito bem, vá em frente. Dê ordens à 56a Brigada de Tanques, na reserva da Frente Sudeste, para que se prepare para ação imediata”- disse-lhe Yeremenko.

 

Trouxeram-lhe alimento, mas não havia tempo para comer. O subchefe do Estado-Maior-Geral estava telefonando de Moscou querendo saber como se desenvolvia a ação. Enquanto Yeremenko falava com ele, vieram dizer que o General Lopatin, comandante do 62o Exército, queria falar-lhe imediatamente ao telefone. “Lopatin informando. Cerca de 250 tanques e uns 1.000 caminhões cheios de soldados de infantaria, com apoio aéreo muito forte, eliminaram um regimento da 87a Divisão de Fuzileiros ao norte de Malaya Rossoshka”. “Sei disso. Providencie o fechamento da brecha imediatamente e rechace o inimigo do perímetro intermediário e recupere a situação.”

 

Agora o Coronel Raynin informava que seus canhões estavam combatendo tanques a leste de Orlovka e tinham sofrido algumas baixas, e o Coronel Sarayev veio dizer que o 282o Regimento da 10a Divisão da NKVD estava em combate com tanques e infantaria motorizada inimigos a leste de Orlovka. Yeremenko principiou a examinar mentalmente o estado das suas reservas; ele tinha algumas unidades particularmente boas, que já haviam sido testadas, mas não eram muitas – uma brigada de tanques, uma só de infantaria motorizada, pouco mais de uma de destruidores de tanques e uma brigada de infantaria agora a caminho. O telefone tocou, interrompendo seus pensamentos. Desta feita não era um militar, e sim Malyshev, o Ministro da Produção de Tanques e representante do Comitê de Defesa do Estado, falando da “Fábrica de Tratores Stalingrado”, que se tornara grande produtora de tanques.

 

“Da fábrica podemos ver a luta no norte da cidade. Artilheiros de canhões antiaéreos combatendo tanques (estes eram os canhões guarnecidos por operárias da fábrica, que a coluna de Hube dominou no fim da tarde). Várias granadas já caíram na área da fábrica. Os tanques inimigos estão avançando sobre Rynok. Preparamos os alvos mais importantes para serem destruídos”. “Não destrua nada por enquanto. Defenda a fábrica a qualquer preço. Ponha o destacamento de operários de prontidão para a batalha e mantenha o inimigo longe da fábrica. A ajuda já está a caminho.”

 

Malyshev entregou o fone ao Major-General Feklenko. “Estou no centro de treinamento de tanques e tenho cerca de 2.000 homens e 30 tanques. Decidi defender a fábrica”. “Uma decisão correta. Nomeio-o comandante do setor. Organize imediatamente a defesa da fábrica com força do centro de treinamento e do destacamento de operários. Duas brigadas estão a caminho daí, uma de tanques e outra de fuzileiros.”

 

Agora o Engenheiro-Chefe da Frente Sudeste, acompanhado do seu oficial de abastecimento, chegava para informar orgulhosamente que haviam completado a construção de uma ponte flutuante sobre o Volga, defronte à Fábrica de Tratores, em dez dias, dois dias antes do prazo, com a extensão de 3.200 m. “Muito bem. Agradeça aos homens que a construíram e aos oficiais que a supervisionaram, especialmente ao Camarada Stepanov e aos outros. Quanto à ponte, mande destruí-la”. Os dois técnicos olharam um para o outro, imaginando se Yeremenko ficara louco. “Sim, sim destruam-na imediatamente”. E explicou sucintamente por que isso tinha de ser feito, e eles partiram para cumprir as ordens.

 

Entraram a seguir os especialistas em artilharia, Major-General Degtyarev e Zubanov, para informar que os alemães estavam muito perto dos paióis de munição e receberam ordens de transferir o máximo que pudessem da munição para local seguro.

 

Começaram então a chegar algumas notícias melhores. O Coronel Gorokhov veio comunicar a chegada das suas tropas, a 124a Brigada de Fuzileiros, à margem oposta. “Faça sua brigada atravessar o mais rápido que puder e leve-a para a Fábrica de Tratores. Lá, apresente-se ao Camarada Feklenko; ele lhe dirá qual a sua tarefa.”

 

Yeremenko tentou uma vez mais comer seu desjejum (eram quase 18:00 h), mas o telefone tornou a chamar. O Coronel Raynin informou que “Grandes grupos de bombardeios alemães se aproximavam de Stalingrado, a oeste e a sudoeste. Eles estarão sobre a cidade dentro de três a cinco minutos. As sereias de alarma já soaram, as ordens de combate foram dadas e os caças estão decolando”.

 

“Certo. Vá em frente”, disse Yeremenko o mais calmamente que podia, enquanto seu coração começava a disparar e sua fronte se inundava de suor. “Grandes grupos”- isso queria dizer trinta ou quarenta em cada grupo; pelo menos cem aviões (na verdade era cerca de seiscentos, já que muitos dos aviões fizeram várias surtidas). Com a chegada dos aviões, a força de Hube começou a atacar de Rynok para o sul. Primeiro, ela foi enfrentada por fogo de morteiros e canhões antiaéreos; em breve vieram os batalhões de fuzileiros antitanques, que apressadamente tomaram posição no arroio de Sukhaya Mechetka, a uns 800 metros ao norte da Fábrica de Tratores. Depois de algumas horas de combate encarniçado, os tanques de Hube retiraram-se para reabastecer, para reparos e receber munições para o dia seguinte. Enquanto eles assim faziam, os defensores, em apuros, da Fábrica de Tratores recebiam reforços. Finalmente, Yeremenko podia tomar seu desjejum.

 

Morte de uma cidade

 

Os incêndios provocados pelos bombardeiros alemães permaneceram em atividade durante toda a noite, e o sol, na manhã seguinte, espancou a treva que recobria uma cidade em devastação. Tinham sido dois meses de tempo bom, sem qualquer chuva, e as casas dos subúrbios, predominantemente de madeira, arderam como palha, de modo que, em grandes áreas dos arredores, só as chaminés de tijolos permaneceram de pé, como pedras tumulares. No centro e na área industrial, onde os prédios eram de construção mais sólida, à primeira vista as coisas pareciam mais ou menos normais, porém um exame mais detalhado revelava que por trás das paredes havia apenas montões calcinados. Alguns depósitos de combustíveis explodiram como gigantescos fogos de artifício, despejando seu conteúdo incandescente nas águas do Volga, onde se espalhava, ainda ardente, pela superfície do rio. Os desembarcadouros, assim como muitos navios neles atracados, foram consumidos pelo fogo. O sistema telefônico deixara de funcionar, porque os postes de sustentação dos fios, de madeira, arderam também. O próprio asfalto das ruas contribuíra para o holocausto. Os primeiros bombardeiros haviam destruído o sistema de abastecimento de água, de modo que os bombeiros tiveram de assistir impotentes à catástrofe, dedicando-se apenas ao auxílio das vítimas que fazia. Devido à proximidade dos seus aeródromos, os bombardeiros puderam fazer várias viagens. Durante o dia, Stalingrado recebera 2.000 incursões de bombardeiros. Pela manhã do dia 24, a cidade era só ruínas e milhares dos seus cidadãos jaziam mortos. Depois da guerra, embora muitos autores alemães afirmassem que as incursões tinham visado a objetivos estritamente militares, a verdade é que elas se realizaram com finalidades terroristas.

 

O bloqueio das ruas, feito com os escombros dos prédios, prejudicara bastante o movimento das forças de Yeremenko para os setores ameaçados da linha de frente, e por muitas vezes o Posto de Comando esteve fora de ação; mas havia poucas tropas soviéticas na área urbana propriamente dita, já que a maioria delas se encontrava nos perímetros externos e intermediário de defesa.

 

Mais tarde, a experiência dos Aliados ocidentais em Cassino e Caen mostraria que a destruição de grandes prédios, ao contrário do pretendido, pode ajudar um defensor decidido a impedir a acesso dos atacantes às posições desejadas. Examinado por esse prisma, o bombardeio de Stalingrado foi um erro. A calma visão posterior dos fatos é um dos vícios de análise mais perniciosos do historiador, mas é tentador imaginar qual teria sido um instrumento de precisão suficiente para ser usado, não contra a cidade, mas contra as tropas estáticas da 10a Divisão do NKVD, os homens de Feklenko que se encontravam nos terrenos próximos à Fábrica de Tratores, ou contra os tanques de Golikov, que se reuniam em Tinguta para o contra-ataque. Pois o fato é que, quando os alemães reiniciaram o ataque, em terra, na manhã de 24, enfrentaram defesa tão sólida quanto um rochedo, e foi esta súbita fuga de um prêmio que parecera estar ao alcance das suas mãos que os levou a aplicar cada vez mais força à ponta de uma penetração longa e vulnerável, ignorando completamente o perigo a que se expunha seu flanco norte, ao longo do Don.

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