Midway

Holocausto japonês

 

 

A Batalha de Midway foi, sem dúvida, uma das mais decisivas da Segunda Guerra Mundial. No desdobramento da seqüência de episódios verdadeiramente cataclísmicos que no seu desenrolar se verificou, desmantelou-se a superioridade aeronaval dos japoneses nas vastidões do Pacífico. Mais da metade dos porta-aviões japoneses - com a elite de seus treinadíssimos pilotos - foi eliminada. O Sol Nascente passou a cair, daí por diante, para o Ocaso.

 

A maior batalha naval desde Trafalgar

 

A Batalha de Midway foi singular. Foi a primeira batalha da História em que nove décimos dos homens nela envolvidos nem sequer avistaram o inimigo e foi também a única até agora travada através de um meridiano onde os aviões podiam decolar ontem para bombardear um alvo amanhã e retornar aos seus porta-aviões hoje.

 

Muito mais que isto, Midway foi a linha divisória. Antes dela tudo parecia favorecer a sempre crescente expansão japonesa; após ela, no entanto, o avanço aliado sobre Tóquio foi inexorável. Para o Japão, em especial, tudo sofreu uma transformação radical após Midway. As perdas em porta-aviões e pilotos treinados foram causa de mudanças drásticas em toda a organização da marinha imperial; tênderes de hidraviões foram adaptados para substituir os porta-aviões e dois dos couraçados receberam conveses de vôo. Entretanto, mais de uma centena de pilotos experimentados que morreram em Midway nunca puderam ser substituídos.

 

Estrategicamente, a ameaça ao Havaí e à costa oeste dos Estados Unidos desapareceu; o avanço do Japão para o leste foi detido e ele foi obrigado a limitar seus esforços à Nova Guiné e às Salomão. Além disso, sua meta já não visava à expansão, mas apenas à conservação do que havia conquistado, e a iniciativa transferiu-se, então, para os americanos, que, na fraseologia do Almirante King, passaram da "defensiva-ofensiva" para a "ofensiva-defensiva" e, finalmente, alcançaram a Baía de Tóquio. Chegou a seu término ali o que começara em Midway.

 

"O fracasso na campanha de Midway", disse o Almirante Takata no fim da guerra, "deu início à derrocada total".

 

Ambos os lados devem ter chegado à mesma conclusão na época, mas os americanos refrearam seu otimismo. Para eles, Midway foi não só uma vitória mas também a constatação de sua maioridade, pois foi a primeira grande batalha que travaram em defesa de seu país desde os tempos coloniais. Ela veio provar que, mesmo estando, como estavam, despreparados, seus homens e comandantes igualavam-se em coragem e decisão a quaisquer outros do mundo, e aliando-se esse fato ao grande potencial industrial dos Estados Unidos, tudo indicava, que a vitória final resumia-se apenas numa questão de tempo.

 

Contudo, a espetacular Batalha de Midway foi uma das "coisas mais arriscadas" da História. Se os criptanalistas americanos tivessem deixado passar, ou deixado de interpretar corretamente, apenas uma da avalancha de mensagens codificadas japonesas; se o piloto de um avião de reconhecimento japonês tivesse prolongado um pouco mais sua busca; se o comandante de um esquadrão americano de bombardeiros de mergulho tivesse feito apenas um cálculo errado; se o capitão de um dos porta-aviões japoneses tivesse tomado ação evasiva um instante antes - se qualquer desses componentes de aparência insignificante tivesse sido diferente, a batalha poderia ter tido outro resultado e de conseqüências sobremodo terríveis.

 

O que aconteceria se a operação de Yamamoto o tivesse levado a uma grande vitória?

 

Este é um dos mais angustiantes "se" da História. Se Yamamoto tivesse conseguido afundar os porta-aviões americanos, toda a história da Segunda Guerra Mundial teria sido diferente. O Havaí sem dúvida seria tomado e a longa e indefensável linha costeira americana do Pacífico estaria aberta ao ataque da Marinha Imperial Japonesa. Isto ocasionaria efeitos catastróficos sobre o moral americano - e embora não pudesse levar à paz negociada que Yamamoto esperava, por certo teria tido conseqüências imprevisíveis e importantes.

 

Tendo a esquadra japonesa ao largo da sua costa oeste e às portas do Panamá, os americanos estariam muito pouco interessados na guerra européia, podendo empregar todos os seus esforços no combate aos japoneses. Não se teriam dado desembarques na Normandia, porque a Grã-Bretanha não estaria em condições de empreender a invasão da Europa sozinha, de modo que, se a Alemanha tivesse sido vencida, tê-lo-ia sido pelos russos e praticamente sem ajuda.

 

E, como resultado, a Cortina de Ferro poderia ter corrido de Calais para o sul.

 

Prólogo

 

A 7 de dezembro de 1941, os japoneses atacaram Pearl Harbor e para a esquadra americana do Pacífico esse golpe foi uma verdadeira catástrofe. Mais de 70 belonaves foram tomadas de surpresa dentro da base americana, quando os bombardeiros japoneses, sem qualquer aviso, fizeram seu primeiro ataque. Desses vasos, os couraçados eram os alvos mais visados, e quando o ataque terminou, quatro deles haviam sido afundados e outros quatro estavam avariados. No começo de dezembro de 1941 parecia que a esquadra do Pacífico fora arrasada numa única operação traiçoeira porém brilhante.

Mas o tempo mostraria que a vitória japonesa não foi o desastre que se temia ser. Os navios afundados não eram do tipo que pudesse enfrentar os modernos couraçados japoneses e demasiado lentos para escoltar até mesmo os porta-aviões americanos existentes. Assim, Pearl Harbor obrigou os Estados Unidos a recorrer ao uso de porta-aviões, o que, em última análise, lhes daria a vitória. Foi uma sorte para os americanos o fato de os três porta-aviões da esquadra do Pacífico não estarem em Pearl Harbor quando se deu o ataque. Se estivessem ali com o resto da esquadra, não há dúvida, de que teriam sofrido o mesmo destino dos quatro couraçados afundados, pois haviam sido condenados como alvos principais da operação. Foi sua ausência que influiu no fracasso da vitória japonesa.

 

A notícia do ataque a Pearl Harbor foi um tremendo choque para os americanos. Antes do ataque, considerava-se a guerra com o Japão uma possibilidade remota. Além disso, o fato de as hostilidades terem iniciado sem que houvesse declaração formal, enquanto os diplomatas ainda discutiam uma solução pacífica para as divergências existentes entre o Japão e os Estados Unidos, inflamou ainda mais os ânimos dos americanos, e, em conseqüência, quando a notícia do ataque foi divulgada, uma onda de ódio contra o Japão varreu os Estados Unidos: patriotas enganados em Washington destruíram as famosas cerejeiras japonesas e no Zoológico do Central Park, em Nova York, só por pouco os veados japoneses escaparam à sanha dos elementos revoltados.

 

Também para o povo japonês o ataque a Pearl Harbor foi um impacto. Ao receber a inesperada notícia, através de uma transmissão radiofônica, que unidades do exército e marinha japoneses haviam iniciado as hostilidades contra forças britânicas e americanas, o povo, em sua maioria, ficou estarrecido. Como tantos equivalentes seus em outras nações, o "homem comum" japonês teve dificuldade em compreender as circunstâncias que deram ensejo à guerra, e somente depois que o Decreto Imperial foi solenemente transmitido pelo rádio, é que o povo realmente acreditou estar o país em guerra com os Estados Unidos. A notícia foi recebida com certa apreensão. Os comunicados emocionantes sobre o sucesso da façanha realizada pela marinha imperial infundiram alguma confiança, e o homem que planejara esse arrojado feito, Almirante Isoruku Yamamoto, tornava-se importante assunto em todas as casas. Na Marinha Imperial Japonesa, alguns oficiais previam, e com grande otimismo, que a ofensiva estaria terminada em um mês, e os pilotos da força aérea da esquadra exigiam sua ida para combate enquanto ainda havia alguma oportunidade para eles. O tremendo potencial industrial dos adversários do Japão nada representava para esses jovens oficiais. Mas seus superiores, com maior experiência e percepção, estavam apreensivos quanto ao futuro, como o próprio Almirante Yamamoto - até então conhecido apenas de um punhado de americanos como o Comandante-Chefe da Esquadra Combinada do Japão, a rengo katai, que alimentava certas dúvidas quanto à possibilidade de uma vitória rápida.

 

Contudo, apesar das apreensões, não se pode contestar que, estrategicamente, o Japão granjeara pontos consideráveis com a operação contra Pearl Harbor. Para todos os efeitos, a esquadra americana do Pacífico fora neutralizada e o caminho estava livre, para o Japão prosseguir em seus planos no sentido de dominar a Ásia. As Filipinas seriam o próximo objetivo. As ilhas em si ofereciam reduzida vantagem econômica para o Japão, mas para assegurar suas linhas de comunicação visando a invadir as Índias Orientais Holandesas, por serem ricas em petróleo, o Japão tinha de neutralizá-las.

 

Como em Pearl Harbor, o Japão atacou rápida e eficazmente. A notícia do ataque a Pearl Harbor fora transmitida para as autoridades americanas nas Filipinas horas antes que aviões japoneses bombardeassem os aeródromos em Luzon. Mas os Estados Unidos haviam demorado demais para reforçar aquelas ilhas, e quando os japoneses desembarcaram no Golfo de Lingayen, a 22 de dezembro de 1941, não tiveram muita dificuldade em estabelecer ali uma cabeça-de-praia. Supondo e com razão que seria impossível defender Manilha, o comandante das forças americanas nas Filipinas, General MacArthur, concentrou suas tropas na Península de Bataan.

 

Uma vez constatado que os acontecimentos eram favoráveis para eles nas Filipinas, os japoneses empenharam-se na ofensiva, destinada a culminar com a captura das Índias Orientais Holandesas. Nem bem a força-tarefa de Pearl Harbor retornou ao Japão, a Tailândia fora ocupada e uma força expedicionária já estava descendo a Malásia rumo a Cingapura. A tomada dos importantes campos petrolíferos de Bornéu havia começado com a captura de Miri, a 16 de dezembro de 1941; e a leste da Malásia, um avião naval baseado em terra conseguira com grande êxito, apenas dois dias após a declaração de guerra, afundar os couraçados Prince of Wales e Repulse, a espinha dorsal da esquadra britânica do Extremo Oriente. Guam nas Marianas, Makin e Tarawa nas Gilberts, e Wake caíram todas em poder dos japoneses durante aquele fatídico mês de dezembro. Contando com oito porta-aviões, a Marinha Imperial Japonesa desfrutava de maioria esmagadora naquela parte do mundo e segundo tudo indicava, as belonaves do Almirante Yamamoto podiam navegar livremente por todos os mares do Sul.

 

Pelo final de fevereiro de 1942 houve uma tremenda batalha no Mar de Java, travada por cruzadores contra cruzadores; este foi não só o primeiro combate de superfície-para-superfície da Guerra do Pacífico mas também a maior batalha naval desde a Jutlândia - numa questão de horas, a esquadra aliada foi encurralada e dispersada. O sucesso alcançado pela marinha japonesa deveu-se quase que exclusivamente ao emprego de torpedos com oxigênio como combustível, não formando assim a esteira de bolhas que alertaria as vítimas de sua aproximação. Os navios que tentaram escapar foram perseguidos e, no Mar de Sonda, outra investida resultou na destruição quase total dos navios aliados que haviam fugido do combate no Mar de Java. Nestas duas batalhas, o Japão obteve o controle absoluto dos mares ao redor de Java, facilitando o desembarque de suas tropas nas Índias Orientais Holandesas praticamente em paz. Numa questão de semanas, os poços petrolíferos de Java estavam inteiramente em poder dos japoneses e Yamamoto dispunha de combustível suficiente para manutenção de seus navios.

 

Às batalhas do Mar de Java e do Mar de Sonda seguiu-se uma tentativa de pôr em ação a esquadra britânica do Extremo Oriente reunida às pressas e baseada no Ceilão. Em fins de março de 1942, o Almirante Nagumo zarpou para o Ceilão com uma esquadra de cinco porta-aviões, três couraçados, seis cruzadores e vinte destróieres. Para contra-atacar essa potente força, o Almirante Sir James Somerville dispunha de cinco couraçados obsoletos, três porta-aviões - dois modernos e um antigo - dois cruzadores pesados, seis cruzadores leves e quinze destróieres. Nagumo esperava empregar a mesma tática tão bem sucedida em Pearl Harbor - surpreender a esquadra britânica ancorada. Mas desta vez faltava o elemento surpresa; os aviões de Somerville estavam alerta. Um aerobote Catalina de patrulha avistou a esquadra japonesa aproximando-se e mandou um aviso pelo rádio. O Catalina foi derrubado pelos caças do Hiryu, mas o sinal de aviso fora recebido em Colombo, no Ceilão. Na manhã seguinte, os aviões de Nagumo bombardearam e metralharam Colombo, infligindo consideráveis danos a navios e instalações em terra. Mas ao voltar para os porta-aviões, os aviões japoneses foram interceptados por Hurricanes da RAF e derrubados.

 

Entrementes, uma força de 45 bombardeiros de mergulho japoneses partira para atacar dois dos cruzadores de Somerville, o Dorsetshire e o Cornwall que, segundo informações de um avião de patrulha, estavam navegando para o sul, visando a interceptar a esquadra de Nagumo. Meia hora depois de ser avistados pelos pilotos de Nagumo, os dois cruzadores foram atingidos e afundados. Quando Somerville teve conhecimento do fato, reconheceu que a esquadra japonesa era superior a dele e, sensatamente, chegou à conclusão que, não tendo esperanças de derrotá-la, seria de bom senso retirar-se.

 

Essa decisão confundiu Nagumo. Ele não esperava que Somerville recuasse ao desafio, e durante quatro dias ficou navegando ao redor de Ceilão; nesse meio tempo, seus aviões atacaram a base naval britânica à borda da selva em Trincomalee, afundando mais quatro belonaves. Somente quando ficou certo de que não conseguiria forçar Somerville a combater é que Nagumo desistiu e retirou-se.

 

Esta foi a última excursão da marinha japonesa no Oceano Índico. Daí em diante, o Almirante Yamamoto não quis mais arriscar seus porta-aviões em águas tão distantes e decidiu, em vez disso, atacar novamente no Pacífico.

 

 

 

 

A estratégia naval japonesa

 

Pelo ataque arrojado e pouco ortodoxo a Pearl Harbor, o Japão tomara a iniciativa e obrigara a esquadra americana do Pacífico a se colocar em posição defensiva. Em meados de dezembro, o Almirante Kimmel, parcialmente o culpado pelo desastre em Pearl Harbor, foi substituído por um texano perspicaz, de olhos azuis, Almirante Chester Nimitz. Seu objetivo básico era defender uma linha que ia do Havaí à vital base americana na ilha Midway, a 1.760 km a sudoeste de Pearl Harbor, e também recebera instruções para que mantivesse comunicação com e entre os Estados Unidos e Austrália. Neste ponto, os americanos estavam decididos a impedir outro avanço japonês para oeste, sem, no entanto, desfechar qualquer ataque.

 

Desde Pearl Harbor, o Alto Comando japonês estava tão absorto no problema da obtenção de petróleo que, com exceção do Almirante Isoruku Yamamoto, não pensara muito num plano estratégico a longo prazo. Mas por volta de março de 1942, uma série de brilhantes iniciativas dera ao Japão todo o petróleo de que precisava. Desde então, parecia que a guerra lhe estava sendo favorável. O Japão alcançara todos os objetivos iniciais sem dificuldades e tudo o que restava era determinar sua futura estratégia. Era conveniente concentrar-se em consolidar o que já obtivera, ou deveria aproveitar-se da maré de vitórias e empreender a conquista de novos territórios? E se assim fosse, por onde começar? Deveria ele atacar na direção oeste, para a Índia, e dar as mãos ao seu aliado do Eixo em algum ponto do Oriente Médio? Ou deveria concentrar sua força num avanço para leste contra os Estados Unidos? Era difícil determinar o que seria mais eficaz e, se devesse haver uma ofensiva, qual seria a mais produtiva em termos de lucro econômico.

 

Teoricamente, o comando supremo estava dividido entre o exército e a marinha, e a estratégia ideada pelo QG imperial era assunto conjunto já debatido e concordado pelas duas forças armadas, mas a velha rivalidade entre elas acabaria por ter um desastroso efeito na conduta de guerra. Nos escalões superiores da hierarquia da marinha imperial a tomada de decisões também era afetada por questões de posto. Como Chefe do Estado-Maior naval, o Almirante Osami Nagano era superior ao Comandante-Chefe da Esquadra Combinada e naturalmente podia dar ordens ao Almirante Yamamoto. Mas após Pearl Harbor, aquela autoridade declinou e Yamamoto é que na realidade ditava a estratégia naval. O papel do Estado-Maior-Geral imperial fora reduzido ao de árbitro no caso de discordâncias. A capacidade de Yamamoto de conseguir o que queria ficara demonstrada logo no começo da guerra, quando insistiu no ataque a Pearl Harbor, enfrentando forte oposição por parte do Estado-Maior-Geral naval. Pearl Harbor e a série de vitórias que se seguiu serviram para reforçar a influência de Yamamoto que, por volta de janeiro de 1942, era suprema e sem contestação. Os oficiais que serviam no Estado-Maior-Geral naval se ressentiam da atitude dos seus colegas no QG da Esquadra Combinada. Mas eles eram obrigados a lidar com o estado-maior de Yamamoto corm habilidade e comedimento, pois Yamamoto provara estar com razão e os almirantes da cúpula em Tóquio haviam-se enganado.

 

Em tais circunstâncias, não é de surpreender que o QG de Yamamoto devesse tomar a iniciativa no planejamento da estratégia naval em fases posteriores. Em meados de janeiro, o Contra-Almirante Matome Ugaki, o diligente e zeloso Chefe de Estado-Maior de Yamamoto, recebeu ordens de avaliar a situação e sugerir um curso que a marinha imperial deveria seguir quando terminassem as operações ofensivas em andamento. A tendência dos acontecimentos sugeria que tal aconteceria por volta de março, de modo que não havia muito tempo a perder. Admitia-se que a Grã-Bretanha e os Estados Unidos logo se recuperariam dos seus reveses iniciais, e se podia então esperar um contra-ataque. Sabia-se que os americanos estavam ansiosos por se vingarem da catástrofe de Pearl Harbor, e sem algum plano de ação bem delineado, o Japão poderia muito bem ser surpreendido.

 

O Almirante Ugaki pensava no problema, fechado em sua cabina no couraçado Nagato, ancorado na Baía de Hiroxima, onde meditou durante quatro dias, tomando chá. Ao final do seu confinamento, ele concluíra que o Japão não podia dar-se ao luxo de retornar à tática defensiva e disse a Yamamoto que só havia três alternativas possíveis. Poder-se-ia dirigir uma nova ofensiva a contra a Austrália, Índia ou Havaí. Ele próprio sugeria um ataque ao Havaí, precedido por operações para capturar Midway, Johnston e as ilhas Palmira. A captura dessas ilhas, salientou ele, forneceria bases para facilitar o ataque ao Havaí e as operações implicadas provavelmente provocariam um choque decisivo com a esquadra americana do Pacífico.

 

Ugaki apresentou quatro razões para sua decisão:

1. O tempo favorecia os Estados Unidos, que possuíam recursos nacionais vastamente superiores aos do Japão, e a menos que este reiniciasse rapidamente a ofensiva, estaria exposto ao risco de ser esmagado por um contra-ataque. O Japão se preparara para resistir a uma guerra prolongada, mas evidentemente era-lhe vantajoso encurtá-la, se possível, e a única esperança de o conseguir era por meio de uma vigorosa ação ofensiva.

2. Se a Alemanha conseguisse dominar a Grã-Bretanha, a esquadra britânica talvez se juntasse à esquadra americana no Pacífico. Isto duplicaria a pressão sobre a marinha imperial japonesa e a maneira mais certa de evitá-lo seria destruir a esquadra americana antes que surgisse essa eventualidade. A esquadra britânica poderia ser então atacada separadamente, e a destruição das duas marinhas aliadas oferecia, assim, uma grande oportunidade de terminar a guerra rapidamente.

3. A tomada do Havaí e a perda da esquadra do Pacífico seriam um golpe extremamente prejudicial para os Estados Unidos.

4. Apesar dos riscos implicados numa invasão, e numa ação naval decisiva travada próximo do Havaí, as chances de sucesso pareciam altas, pois a esquadra japonesa tinha uma vantagem de três para um em porta-aviões e uma superioridade esmagadora em couraçados.

 

Os oficiais menos graduados do estado-maior começavam agora a estudar a maneira como as decisões de Ugaki poderiam ser transformadas em plano de ação. Logo concluíram que não era fácil, pois evidentemente a esquadra japonesa não tinha condições de zarpar direto para o Havaí. Para chegar lá, ela teria de passar muito perto da ilha Midway, que funcionava como um posto avançado de longa distância do Havaí. A guarnição ali por certo alertaria a esquadra americana, eliminando dessa maneira qualquer esperança de se recorrer ao elemento surpresa, como acontecera em Pearl Harbor. Tampouco os japoneses podiam contar com efetivos aéreos suficientes para manter o controle dos céus sobre uma área tão grande como as ilhas Havaí. Outro grande problema que tinha de ser resolvido surgia do fato de que, numa batalha entre navios e baterias de terra, as desvantagens seriam seriamente dos couraçados.

 

Quando lhe apresentaram essas considerações, Ugaki admitiu relutantemente que suas decisões originais eram impraticáveis.

 

Entrementes, um dos oficiais graduados de estado-maior, Capitão Kameto Kuroshima, vinha elaborando um curso de ação alternativo para a Esquadra Combinada. Basicamente, este era um plano "vá-para-o-oeste", cujo sucesso dependia da destruição da esquadra britânica no Extremo Oriente, e da captura do Ceilão. Esta alternativa não atraía muito a Ugaki, mas diante da insistência de Yamamoto de que a marinha imperial não devia dormir sobre os louros da vitória, Ugaki mandou que seu estado-maior apressasse os preparativos para uma invasão do Havaí, e também que estudasse o plano de Kuroshima.

 

Ugaki impôs, no entanto, certas condições à proposta de Kuroshima para oeste. Ele logo deixou claro que embora, de princípio, não houvesse indícios de perigo iminente de hostilidades nipo-soviéticas, tal contingência deveria ser levada em conta nos planos. De igual modo, não se deveria ignorar a possibilidade de incursões rápidas dos porta-aviões americanos operando do Havaí. Finalmente, recomendava que a ofensiva deveria esperar o término da presente série de operações e que ela fosse sincronizada para ser iniciada ao mesmo tempo que se desse a esperada ofensiva alemã no Oriente Médio. A idéia de um movimento de pinças estreitamente coordenado agradava a Ugaki e seu estado-maior. Mas suas esperanças neste sentido foram rudemente destruídas quando receberam uma cópia de novo acordo militar tripartite do Eixo assinado a 19 de janeiro. Esse documento continha uma breve referência a uma ofensiva alemã no Oriente Médio e a um avanço japonês para o oeste. Mas nada dizia quanto a uma ofensiva conjunta, e Ugaki admitiu que não havia futuro em tentar promover uma estratégia ofensiva conjunta nipo-germânica; a melhor contribuição do Japão para uma vitória do Eixo consistia numa ofensiva bem sucedida levada a efeito independentemente.

 

Por volta de fins de fevereiro os planos esboçados para as duas operações alternativas estavam prontos e um jogo de guerra de quatro dias de duração foi realizado a bordo da nova nave-capitânia de Yamamoto, o Yamato, para que fossem examinados. Mas durante as discussões não se chegou a nenhum acordo quanto ao curso de ação que se deveria adotar, e uma conferência conjunta foi convocada pelo QG imperial em Tóquio para estudar os dois planos com os comandantes do exército. Em caso de ataque ao Ceilão, os soldados teriam de ser desviados da Birmânia e Malásia, mas os comandantes do exército, obcecados com a idéia de um ataque à União Soviética, eram contrários ao desvio de tropas para este fim e bloquearam eficazmente o plano de Kuroshima.

 

Enquanto o estado-maior de Yamamoto trabalhava nos limites restritos de suas cabinas a bordo da esquadra na Baía de Hiroxima, seus colegas do Estado-Maior-Geral naval em Tóquio vinham formulando um plano para futuras operações. O Almirante Nagano, nominalmente o Chefe do Estado-Maior naval, podia ser considerado como a autoridade responsável por tal plano, mas nem Nagano nem o subchefe, Vice-Almirante Seiichi Ito, eram bastante resolutos no comando dos seus subordinados. Eles só permitiam que outros tomassem a iniciativa e expressassem suas opiniões quando os planos já tinham sido esboçados e apresentados para aprovação. Os pontos de vista do Estado-Maior-Geral naval vinham principalmente da sua Seção de Operações, cujo chefe era o Contra-Almirante Shigeru Fukudome. Sob ele estava a Divisão de Planos, dirigida pelo brilhante e presunçosamente autoconfiante Capitão Sadatoshi Tomioka. Este foi basicamente responsável pela sugestão indicando a Austrália como o próximo objetivo importante do Japão. A Austrália, afirmava ele, poderia eventualmente tornar-se o trampolim para uma contra-ofensiva sobre o Japão. Para impedir isto, ela precisava ser entregue ao controle japonês ou, se tal não fosse possível, pelo menos isolá-la dos Estados Unidos.

 

Mas este plano de "a Austrália primeiro" foi rejeitado pelo exército ainda mais rapidamente do que a proposta para a invasão do Ceilão de Kuroshima. Dez divisões de combate eram o mínimo exigido para a operação contra a Austrália e o Alto Comando do exército declarou enfaticamente que não podia dispor delas. A verdade é que os generais japoneses não estavam interessados em qualquer desses planos. Eles sabiam que a Alemanha estava planejando um grande ataque no Cáucaso e tinham grande confiança na vitória alemã. Realizado isto, eles queriam estar prontos para apunhalar seu velho inimigo, a Rússia, pelas costas. Por essa razão, estavam mantendo na reserva forças poderosas que seriam lançadas através da fronteira siberiana da União Soviética.

 

Logo, confrontado com a rejeição, pelo exército, de uma invasão geral da Austrália, o Estado-Maior-Geral naval foi obrigado a adotar um plano menos ambicioso. Este envolvia o isolamento da Austrália e a suspensão do seu fluxo de material de guerra por meio da ampliação gradual do controle japonês sobre as ilhas da Nova Guiné, das Salomão; Nova Caledônia e Fiji.

 

Mas foi neste ponto que Yamamoto decidiu mostrar seu trunfo. Até então ele não interviera nas atividades de planejamento de Ugaki e se furtara a dar qualquer opinião durante o jogo de, guerra no Yamato ou na conferência de Tóquio. Agora, informes sobre maior atividade de porta-aviões e submarinos americanos o estavam preocupando muito. Midway era um importante posto avançado de reabastecimento para os submarinos americanos. Sua captura limitaria as atividades destes e o estabelecimento de uma base aérea japonesa lá também contribuiria muito para limitar as atividades dos aviões dos porta-aviões. Uma ação contra Midway era a primeira fase do plano de Ugaki para a invasão do Havaí, mas não era isto o que interessava a Yamamoto. Ele sabia que tinha de atrair e aniquilar a esquadra americana do Pacífico em 1942 ou o Japão perderia a guerra. Midway, pensava ele, era a isca ideal. O Almirante Nimitz não podia deixar que o "posto de sentinela" do Havaí caísse por omissão e o que quer que ele decidisse fazer a respeito implicaria num movimento da esquadra americana do Pacifico para oeste, até o ponto onde provavelmente seria atacada pela Esquadra Combinada. Na verdade, Yamamoto estava apenas perseguindo seus velhos sonhos. Destruindo os porta-aviões americanos, capturando Midway e ameaçando o Havaí, ele acreditava que o ânimo de luta dos Estados Unidos seria solapada e o caminho para uma paz negociada estaria aberto.

 

No começo de abril, o oficial de estado maior de operações de Yamamoto, Comandante Ysasuji Watanabe, foi enviado a Tóquio para submeter o plano para a "Operação MI" contra Midway à aprovação do Estado-Maior-Geral naval. Logo ficou claro que o plano não seria aprovado tão facilmente. Como aconteceu com a "Operação Pearl Harbor", os almirantes em Tóquio foram violentamente contrários ao plano de Yamamoto, e o equivalente de Watanabe, o Comandante Tatsukichi Miyo, argumentou veementemente contra o plano. A enorme série de objeções apresentadas por Miyo ia desde todas as dificuldades logísticas concebíveis, passando por todos os aspectos táticos desfavoráveis da operação, até o valor estratégico duvidoso de uma Midway ocupada. Quando acabou de expor sua opinião, ele havia reduzido o iradamente emocional Watanabe quase às lágrimas.

 

A principal objeção de Miyo era que Midway ficava a pouco mais de 1.760 km do Havaí. Depois de Pearl Harbor era pouco provável apanhar de surpresa novamente os americanos, e o grande número de aviões baseados no Havaí seria trazido para apoio dos porta-aviões em defesa da ilha. Ele discordava totalmente da previsão de Yamamoto de que os americanos lançariam o restante da sua esquadra do Pacífico numa tentativa de preservar Midway. E mesmo que Midway fosse capturada, postulou Miyo, a ilha era tão pequenina e estava tão longe do Japão que poderia ser facilmente retomada num contra-ataque de surpresa americano. Para impedir tal contra-ataque, seria preciso deslocar grande número de aviões para patrulhas de reconhecimento. Esses aviões precisariam de grande quantidade de combustível, e num período muito longo isto talvez se mostrasse além da capacidade do Japão. Miyo também era contrário à idéia de Yamamoto de que Midway seria um bom lugar para se estabelecer uma base avançada de onde se poderia vigiar os movimentos da esquadra americana do Pacífico na direção do Japão. O raio de ação dos aviões de reconhecimento japoneses era de 1.100 km, representando valor limitado nas vastas extensões do Pacífico. Miyo tampouco concordava que a captura do Havaí fizesse os americanos buscar a paz. Mesmo o Havaí, observou ele, estava muito longe dos Estados Unidos e sua captura não causaria grande efeito sobre o moral do povo americano.

 

Tendo tentado destruir a base da "Operação Midway" proposta por Yamamoto, Miyo agora apresentava um plano alternativo, preparado pelo seu próprio estado-maior: o plano visava a uma ofensiva contra a Nova Caledônia, Fiji e Samoa. Embora estás áreas se achassem muito mais distantes do Japão do que Midway, elas estavam mais ou menos à mesma distância do Havaí. Na opinião de Miyo, um ataque ali teria mais probabilidade de atrair a esquadra americana do que uma ofensiva contra Midway, pois os australianos, vendo a ameaça às suas próprias costas, sem dúvida apelariam para os Estados Unidos. Em qualquer combate que se seguisse, a esquadra americana estaria muito distante da sua base e, assim, ficaria mais vulnerável.

 

Watanabe e Miyo discutiram irascivelmente durante todo o dia sobre os méritos dos seus respectivos planos. Nenhum dos dois queria ceder, mas nenhum rejeitava por completo o plano do outro. Em conseqüência, no dia seguinte o plano passou para um nível mais alto, e em quarenta e oito horas o enviado de Yamamoto se viu tentando convencer o Almirante Ito, Subchefe do Estado-Maior-Geral naval; e o chefe de operações de Ito, Contra-Almirante Fukudome, quanto à sensatez do plano de Yamamoto. O estado-maior de Fukudome já determinara que 70% das necessidades apresentadas por Yamamoto poderiam ser satisfeitas, mas apesar disso Fukudome e Ito não sé deixaram convencer e rejeitaram peremptoriamente a idéia de uma operação contra Midway.

 

Confrontado com um impasse, Watanabe pediu permissão para telefonar ao seu superior. A bordo de sua nave-capitânia, Yamamoto ouviu calmamente o relato de Watanabe sobre as reações do Estado-Maior-Geral naval e depois ditou uma mensagem para Ito e Fukudome: "Em última análise", disse ele, "o sucesso da nossa estratégia no Pacífico será determinado pelo fato de conseguirmos ou não destruir a esquadra dos Estados Unidos, sobretudo a força-tarefa de porta-aviões. O Estado-Maior-Geral naval defende o secionamento da linha de abastecimento entre Estados Unidos e Austrália. Ele procuraria fazer isto colocando certas áreas sob controle japonês, porém o modo mais eficaz e direto de alcançar este objetivo é destruindo as forças de porta-aviões do inimigo, sem as quais não se poderia manter a linha de abastecimento. Acreditamos que, desfechando a proposta operação contra Midway, conseguiremos atrair os porta-aviões do inimigo e destruí-los numa batalha decisiva. Se, por outro lado, o inimigo evitar nosso desafio, ainda assim conseguiremos um ganho importante ampliando nosso perímetro defensivo até Midway e as Aleútas Ocidentais sem obstrução". Assim, ficou claro para o Estado-Maior-Geral naval que o mais importante almirante da marinha imperial, o homem que planejara e realizara com sucesso o ataque a Pearl Harbor, estava decidido a não se deixar dissuadir nem a aceitar um meio-termo. O Contra-Almirante Fukudome voltou-se inquisitivamente para o Vice-Almirante Ito, este hesitou por instantes e depois aquiesceu calmamente. A "Operação Midway" estava em andamento.

 

Em marcante contraste com a oposição que o plano Midway encontrara no Estado-Maior-Geral naval, o Estado-Maior-Geral do exército foi convencido com relativa facilidade. Dessa vez o exército estava satisfeito em cooperar porque a operação era basicamente naval e requeria relativamente poucos homens para reforçar as tropas especiais de desembarque da marinha.

 

Na Esquadra Combinada, as reações variavam muito entre os oficiais graduados. O Vice-Almirante Moshiro Hosogaya, comandante da 5a Frota que guardava os acessos nordestes para o Japão, era um dos que se sentiam ansiosos por atrair a esquadra americana para a batalha, de modo que se esperava que ele apoiasse irrestritamente o plano. O Vice-Almirante Nishizo Tsukahara, Comandante da 11a Frota Aérea operacionalmente sediada no Sudeste Asiático, também era favorável ao plano, embora esperasse que a grande operação seguinte fosse desfechada no oceano Índico, e mudara seu QG para Bangkok, ficando de prontidão para o que fosse preciso. Somente o Vice-Almirante Shigeyoshi Inouye, Comandante da 4a Frota no Pacífico Sudoeste, era realmente contrário ao plano. Quando Yamamoto enviou um oficial de estado-maior ao QG de Inouye, no atol Truk, para discutir o transporte de suprimentos para Midway após sua invasão, este declarou rudemente que não confiava no plano. Na sua opinião, a frota não teria possibilidade de continuar abastecendo a ilha. A discussão tornou-se tão acalorada que o enviado de Yamamoto abandonou furiosamente a sala, declarando que "comunicaria ao Comandante-Chefe que não poderia contar com a 4a Frota".

 

No decorrer das discussões, os dois almirantes que deveriam estar à frente da "Operação Midway", Vice-Almirante Kondo, da 2a Frota, e Vice-Almirante Nagumo, Comandante da 1a Frota Aérea, ignoravam por completo que se preparava uma operação contra Midway. Os navios de superfície de Kondo estavam ativamente empenhados nas operações em torno da Malásia nessa época e somente em meados de abril é que Nagumo retornou da sua surtida ao Ceilão. Assim, nenhum dos dois havia sido consultado. Yamamoto não queria desviar a atenção deles de suas próprias responsabilidades operacionais apenas para estudar os esboços do plano para a "Operação MI". Foi uma insensatez, pois o plano vital da batalha teve de ser preparado por oficiais de estado-maior que não tinham qualquer experiência pessoal da eficiência de combate das duas frotas que conduziriam a operação. Em meados de abril, o estado-maior de Yamamoto ainda estava discutindo os detalhes com o Estado-Maior-Geral naval, sendo que o mais importante deles era a sincronização da operação. O próprio Yamamoto era favorável a um ataque a ser lançado em meados de maio, quando haveria lua cheia, enquanto que Tóquio queria adiá-lo até junho a fim de poder contar com mais três semanas de preparativos. Neste ponto, o Contra-Almirante Ryunosuke Kusaka observou que os porta-aviões de Nagumo acabavam de completar uma longa série de operações e que tanto os pilotos como as tripulações estavam fatigados. Também no seu modo de ver, a operação deveria ser adiada pelo menos por dois meses, de maneira que os pilotos tivessem uma oportunidade de retreinamento e os novos aviadores estivessem em boas condições para a próxima batalha.

 

Yamamoto recusou. Na sua opinião, cada semana era de grande importância. Os efetivos navais americanos estavam quase igualmente divididos entre os oceanos Atlântico e Pacífico, e ele queria afundar a esquadra do Pacífico antes que esta recebesse reforços. Apesar da incrível série de sucessos alcançados pelo Japão, ele se sentia incapaz de livrar-se de um temor específico - o de que os americanos conseguissem atacar Tóquio e a segurança do Imperador pudesse correr perigo. A defesa contra ataques aéreos estava sob inteira responsabilidade do exército. Mas como os únicos bombardeiros que podiam alcançar o Japão teriam de decolar de porta-aviões, Yamamoto considerava de seu dever destruir qualquer força-tarefa de porta-aviões inimiga em alto-mar antes que ela chegasse a um ponto de onde pudesse atacar sua pátria. Com o passar do tempo, sua idéia de que Tóquio, a cidade imperial e residência do Imperador, deveria permanecer inviolada, tornou-se quase uma obsessão.

 

Compreendendo que seu próprio ataque de surpresa contra Pearl Harbor, realizado com aviões transportados por porta-aviões, abrira um precedente que os americanos não demorariam a explorar, ele permanecia cada vez mais firme em sua determinação. A experiência que tivera em Washington como adido naval da embaixada japonesa, dera-lhe uma nítida compreensão do caráter nacional americano e ele não duvidava que o Almirante Nimitz tentaria uma revanche contra o Japão tão logo isso fosse possível. O problema de Yamamoto era determinar quando e como esse golpe seria desfechado.

 

Seus contínuos pedidos dos últimos boletins sobre as condições meteorológicas de Tóquio eram interpretados pelos seus oficiais, erroneamente, como prova da sua excentricidade. Aparentando alegria quando os boletins eram desfavoráveis, isso também lhes parecia bastante incompreensível. Naturalmente, a razão era que Yamamoto sabia que o mau tempo oferecia certa proteção contra os bombardeiros.

 

Mas à parte a segurança do Imperador, Yamamoto tinha outro motivo para estar ansioso com relação a ataques aéreos americanos contra o Japão. Durante seu serviço como jovem oficial na guerra nipo-russa, no início do século, uma esquadra russa apareceu repentinamente ao largo da Baia de Tóquio. Os habitantes entraram em pânico e multidões iradas haviam apedrejado a casa do almirante responsável pela segurança das águas japonesas. Esse incidente serviu de ensinamento de alguma coisa a Yamamoto sobre seu povo. A segurança pessoal era de pouca importância para um homem que enfrentara o assassínio antes da guerra pela sua posição pública contra os fomentadores de discórdias, mas se Tóquio fosse bombardeada, Yamamoto temia que o moral civil pudesse sofrer um choque que seria catastrófico para o esforço de guerra japonês.

 

O Japão não tinha radar, e para se defender da penetração de porta-aviões inimigos, Yamamoto criara uma linha de barcos piquetes de 1.000 a 1.100 km a leste da costa japonesa, estendendo-se por uma distância de 1.600 km de norte a sul. Este sistema primitivo de aviso antecipado era suplementado por uma patrulha de aviões navais de longo alcance. A 3 de março de 1942, seu temor de um ataque a Tóquio aumentou terrivelmente quando uma força-tarefa americana, comandada pelo Almirante Halsey, atacou a ilha Marcus, a uns 1.500 km de Tóquio. Isto ficava bem dentro do anel externo de defesas japonesas e sua proximidade não era nada tranqüilizadora.

 

Yamamoto não perdeu tempo em tentar fortalecer suas defesas. Os dois porta-aviões, Zuikaku e Shokaku, que patrulhavam o Pacífico Sudoeste, receberam ordens de retornar às águas continentais imediatamente, e a 21a Flotilha Aérea, baseada em terra, foi chamada do sudeste asiático para que fosse estacionada próximo de Tóquio.

 

Acontece que estas precauções não fizeram muita diferença. Na manhã de 18 de abril, o barco de pesca Nitto Maru estava em seu posto na linha de patrulha a 1.150 km a leste de Tóquio quando o vigia informou da presença de uma frota de grandes navios não-identificados que navegavam a grande velocidade para o Japão. Estes eram os incursores que Yamamoto temia. Sua força principal eram os dois porta-aviões americanos Enterprise e Hornet e a bordo do segundo, estavam 20 bombardeiros B-25 do Tenente-Coronel James Doolittle, destinados a atacar alvos em solo japonês.

 

Mais ou menos ao mesmo tempo em que foram avistados pelo Nitto Maru, os porta-aviões americanos viram o barco japonês e convocou-se uma reunião imediata a bordo do Hornet. O plano americano original estipulava que os aviadores de Doolittle decolariam naquela tarde - quando os porta-aviões estivessem a 800 km da costa japonesa. Isto teria permitido que os aviões chegassem aos seus alvos já à noite. Mas agora que haviam sido descobertos, o plano teve de ser modificado, e embora uma decolagem imediata representasse um ataque diurno mais perigoso, acreditava-se que os bombardeiros chegariam ao Japão antes que a força aérea japonesa tivesse tempo de ir em defesa da capital.

 

Yamamoto recebeu a mensagem radiofônica do Nitto Maru por volta das 06:30 h, quando então as B-15 de Doolittle já estavam em vôo, tendo decolado 320 km mais longe do Japão do que se planejara. Ignorando a verdadeira situação, Yamamoto não se alarmou demais com o informe do Nitto Maru. De acordo com sua estimativa, os aviões dos porta-aviões americanos só estariam dentro dos limites de lançamento ao amanhecer do dia seguinte, o que dava à defesa tempo bastante para preparar a recepção.

 

Yamamoto deu ordens rapidamente. A 2a Frota do Almirante Kondo, com seus quatro grandes couraçados, recebeu ordens de interceptar a frota americana. Entrementes, 32 bombardeiros, escoltados por 12 caças Zero, decolaram da sua base próximo de Tóquio e voaram para leste, sobre o Pacífico, até os limites do seu raio de ação, à procura dos americanos. Como não conseguiram travar contato, concluiu-se que a força-tarefa americana decidira abandonar o ataque e retornar ao ponto de partida. Na verdade, os aviões japoneses haviam decolado no momento em que os aviões de Doolittle se aproximavam dos seus alvos, e os grandes couraçados de Kondo mal haviam zarpado quando Yamamoto foi informado de que Tóquio fora bombardeada.

 

Para o Comandante-Chefe da Esquadra Combinada, esta mensagem era praticamente inacreditável. Ele e seu estado-maior ficaram desconcertados. Não podiam crer que os aviões de porta-aviões tivessem tal raio de ação e que as defesas japonesas tivessem sido apanhadas de surpresa, completamente despreparadas - não só em Tóquio, mas também em Yokohama, Kawasaki e na base naval de Yokosuka. Os aviões de Doolittle haviam-se aproximado em vôo rasante muito antes do esperado e nenhum dos caças japoneses os percebeu. Somente quando relatos mais detalhados revelaram que o ataque fora realizado por apenas 20 bombardeiros - identificados como B-25, que tinham um raio de ação operacional muito maior do que qualquer avião naval - é que o quadro se tornou claro. Agora parecia que esses aviões haviam decolado dos porta-aviões avistados pelo Nitto Maru; mas como eles voltariam, continuou sendo um mistério. Aviões como B-25 jamais poderiam pousar num porta-aviões, de modo que o ataque tinha de ser uma operação-suicida sem volta ou então os americanos haviam tomado alguma providência para recuperar suas tripulações.

 

Logo chegaram mensagens informando que os incursores tinham rumado para o sul. Cinco foram avistados voando ao largo da  extremidade de Kyushu, a ilha mais meridional do Japão, e durante algum tempo julgou-se que suas tripulações talvez tivessem recebido ordens de lançar seus aviões ao mar em algum ponto ao largo da costa sul japonesa - onde submarinos americanos estariam à espera para recolhê-las. Algumas horas mais tarde, unidades do exército japonês na China radiografaram dizendo que vários aviões americanos haviam feito aterrissagens forçadas próximo de Nanchang. Apesar da informação, não se tinha ainda uma idéia clara do que acontecera.

 

Yamamoto e seu estado-maior estudaram seus mapas. Excetuando as ilhas Aleútas, constantemente envoltas em névoa e chuva, o posto avançado americano mais próximo de Tóquio era a ilha Midway, a 3.600 km para o leste. Seria esta a "Shangri-La" a que o Presidente Roosevelt se referira quando transmitiu pelo rádio ao povo americano a notícia do bombardeio do Japão? A especulação prosseguiu, mas uma coisa agora era certa: a incursão acabara efetivamente com a controvérsia sobre o plano para o ataque a Midway. As bombas do Coronel Doolittle haviam causado poucos danos, mas o fato de que ele pudera lançá-las sobre Tóquio fortalecera a decisão de Yamamoto de não permitir que esse fato se repetisse, a qualquer preço. Ele decidiu que não haveria mais prevaricação; os porta-aviões americanos tinham de ser destruídos e a linha de frente da marinha imperial deveria ser avançada para leste, até Midway e Aleútas ocidentais.

 

O plano de Midway

 

No começo de maio, o primeiro rascunho do plano operacional para Midway foi apresentado formalmente ao Almirante Nagano, Chefe do Estado-Maior-Geral naval. Ele foi aprovado e, a 5 de maio de 1942, uma diretiva imperial foi emitida ordenando ao Comandante-Chefe da Esquadra Combinada que "realizasse a ocupação da ilha Midway e pontos-chaves nas Aleútas ocidentais, em cooperação com o exército". Simultaneamente, as seções do exército e da marinha no Q-G-Geral imperial concluíram um "acordo central" conjunto quanto às suas respectivas contribuições para a operação. Segundo este acordo o exército forneceria um grupo regimental de infantaria para o desembarque em Midway. Mas logo que a ilha tivesse sido ocupada, a marinha substituiria essas tropas e seria subseqüentemente responsável pela sua defesa. Ainda não se fixara nenhuma data específica para a operação, mas o acordo observava que ela começaria durante "os primeiros vinte dias de junho", simultaneamente com operações nas Aleútas ocidentais. Finalmente se tomara a decisão. Tudo o que restava agora era organizar e preparar o que seria a mais formidável operação empreendida pela marinha japonesa.

 

Grande número de oficiais de estado-maior foi responsável pela produção do complexo e volumoso documento que detalhava o funcionamento da "Operação MI". O Capitão Kuroshima, o oficial de estado-maior graduado de operações da Esquadra Combinada, foi o criador do seu esboço; muitos outros membros do estado-maior de Yamamoto passaram longas horas em cabinas escuras, aperfeiçoando os detalhes meticulosos dos seus parágrafos e numerosos apêndices, enquanto o incansável, engenhoso e agressivo Chefe do Estado-Maior, Almirante Ugaki, cuidava da sua coordenação. Mas o verdadeiro arquiteto do plano era o próprio Comandante-Chefe.

 

Isoruku Yamamoto era um homem fora do comum, que pode agora ser considerado como um dos grandes capitães - comparável a Nelson, e ao seu próprio ídolo, o grande Almirante Togo. Como jovem oficial da marinha japonesa, estudando em Harvard durante a Primeira Guerra Mundial, ele observara o desenvolvimento de uma nova e incalculável arma de guerra - o avião. Por volta de 1918 já decidira que a chave das futuras guerras estava no poderio aéreo. Em sua própria experiência, Yamamoto vira couraçados mudar a sorte da História, mas depois disto, seus sonhos passaram a ser de belonaves que lançariam aviões em lugar de disparar canhões. Na marinha imperial, Yamamoto desfrutava de uma popularidade sem precedentes e entre os aviadores do Corpo Aeronaval ele tinha seguidores especiais. Isto resultava do fato de que ele era considerado como um dos mais preeminentes promotores da aviação naval. Numa época em que o Corpo Aeronaval ainda infante precisava seriamente de um líder e defensor, Yamamoto foi nomeado oficial executivo de um novo centro de treinamento aéreo. Embora fosse um importante teórico no estudo do avião, ele não era, então, aviador, mas não demorou a adquirir a experiência necessária tomando lições de vôo durante o dia e terminando sua tarefa administrativa à noite.

 

Neste estágio do desenvolvimento do aeroplano, a carreira de aviador não era particularmente atraente, sobretudo devido ao grande número de acidentes fatais. Muitos dos oficiais japoneses graduados nem pensariam em pôr os pés num avião se julgassem que este poderia decolar. Um contemporâneo de Yamamoto e seu predecessor como Comandante-Chefe da Esquadra Combinada, Almirante Zengo Yoshida, recusou-se terminantemente a embarcar num avião. Outros oficiais graduados fingiam louvar a importância da aviação naval e instigavam jovens oficiais da marinha a se tornarem pilotos. Mas seu entusiasmo logo desaparecia se um dos seus próprios filhos queria tornar-se aviador, ou se uma de suas filhas quisesse desposar algum deles.

 

Devido a este sentimento existente na força armada, os pilotos que desfilaram perante Yamamoto pela primeira vez eram, no todo, desleixados e indisciplinados.

 

Sua ordem peremptória para que cortassem o cabelo os chocou, pois eles se consideravam independentes, a quem a disciplina naval comum não se aplicava. De início ressentidos, os pilotos, contudo, passaram a respeitar o primeiro oficial graduado que conheceram e que parecia ser tão grande entusiasta, quanto eles próprios, pela aviação. Além disso, Yamamoto tentou identificar-se com eles de todas as maneiras exceto uma: bebida. Sendo abstêmio, ele não objetava a que os próprios pilotos bebessem, mas ele mesmo só bebia chá frio. Mas se Yamamoto era avesso à bebida, não se pode dizer o mesmo quanto ao jogo. Quando jovem oficial, ele adquirira a reputação de ser um jogador de pôquer bastante competente e, nos Estados Unidos, seu brilhantismo no bridge deu-lhe uma popularidade especial entre os oficiais navais americanos que eram então seus colegas e amigos. Não seria insensato dizer que o ataque a Pearl Harbor reflete seu espírito de jogador. Nas cartas ele invariavelmente adotava o sistema do "tudo ou nada" do verdadeiro jogador e o arrojado empreendimento desta operação por certo era a estratégia do tudo ou nada.

 

Nos anos 20 e no começo dos anos 30, a liderança decisiva era exceção entre os oficiais navais japoneses. Influenciada pelas tradições navais britânicas, a marinha imperial insistia para que seus oficiais mantivessem o cavalheirismo. Mas, na aplicação dessa regra, ela não conseguiu assimilar a lição dos seus tutores britânicos, confundindo afabilidade e camaradagem com cavalheirismo e não compreendendo que a máscara de polidez britânica ocultava uma disciplina férrea. O resultado é que a marinha imperial criou muitos oficiais-gerais-da-armada amáveis e inteligentes, mas na realidade, poucos líderes e comandantes. A cortesia e a polidez chegavam às raias do exagero. Nas discussões subseqüentes às manobras e exercícios navais, por exemplo, o comandante-de-frota raramente fazia qualquer crítica mais severa, para não ofender os que haviam participado. Em conseqüência, os oficiais subalternos não sabiam muito bem se estavam certos ou errados.

 

Yamamoto tinha outra maneira de abordar os assuntos, e quando se tornou Comandante-Chefe da Esquadra Combinada, as reuniões assumiram aspecto bem diferente. Ele não só desempenhava papel importante nas discussões como também não hesitava em criticar a quem quer que merecesse quando algo saía errado. Yamamoto deixava bem claro a todos que ele era o chefe, e o estado-maior empregado pelo seu predecessor como uma espécie de "banco de cérebros" logo aprendeu que o novo Comandante-Chefe o usaria para divulgar sua própria política e não a dos membros do estado-maior.

 

A reputação de Yamamoto como líder inflexível e algumas vezes desprezando a diplomacia o precedera até o Supremo Comando Executivo da marinha imperial. Em sua ascensão ele granjeara, como era de esperar, muitos inimigos, mas em 1941 a maioria dos oficiais navais japoneses concordava que Yamamoto era o homem certo para o lugar certo. Quando o plano de Midway estava sendo discutido em Tóquio, seu prestígio era praticamente inatacável.

 

Como já observamos, o plano pelo qual Yamamoto era responsável tinha dois objetivos primordiais. O primeiro, mais restrito referia-se à captura do atol de Midway para servir de base avançada japonesa; o segundo objetivo, e mais importante, era precipitar uma batalha decisiva com a esquadra americana do Pacífico. A própria ilha Midway carece de quase todos os atributos normalmente dados às ilhas dos Mares do Sul. O atol todo tem apenas 10 km de diâmetro e sua área de terra firme é bastante reduzida. Das suas duas ilhotas, Sand e Oriental, a primeira tem menos de 3 km de comprimento e a outra, pouco mais de 1.500 m. No meio há uma lagoa com um canal estreito navegável que leva até ela, e na costa ocidental existe uma espécie de baía aberta. No todo, trata-se de um pontinho insignificante de terra. Mas em dezembro de 1941 ela se tornara a base americana mais ocidental do Pacífico.

 

Midway já estava nos planos de guerra japoneses desde 1938. Sua captura e a das Aleútas Ocidentais visavam a estender o perímetro externo do Japão mais para oeste, e a idéia de "uma batalha decisiva" com a esquadra americana do Pacifico não era uma das inovações de Yamamoto. O objetivo da "batalha decisiva" fizera parte importante das estratégias pré-guerra americana e japonesa no Pacífico. Destruam a marinha japonesa, raciocinavam os oficiais americanos, e o caminho para Tóquio estará desimpedido; destruam a esquadra americana do Pacífico, afirmavam os oficiais japoneses, e a nossa pátria não será mais ameaçada durante muitos anos. Uma vez alcançado este objetivo, ele também daria tempo para reforçar as defesas japonesas e, nesse meio tempo, os Estados Unidos poderiam muito bem concordar numa paz negociada, o Japão conservando todas as suas conquistas na Ásia. O que Yamamoto fez foi reduzir o prazo para a data da captura de Midway, mudar a estratégia japonesa tradicional e esperar em águas continentais para travar a grande ação da esquadra ali. Se a Esquadra Combinada pudesse destruir a esquadra americana do Pacífico, e fazer cobertura aérea entre Wake, Midway e as Aleútas, a marinha imperial poderia desembarcar tropas em qualquer parte do Pacífico. Inversamente, se a esquadra americana não fosse aniquilada, a simples manutenção de um perímetro defensivo de nada adiantaria para o Japão no fim. Em dois anos, o jaganarta americano teria reunido suas forças e o Japão estaria liquidado.

 

A razão por que Yamamoto apressou-se a realizar a "Operação Midway" pode ser parcialmente explicada pela sua convicção de que tinha de desfechar uma série de golpes maciços e devastadores antes que o tempo que o Japão dispunha se esgotasse. Mas não pode haver dúvida de que seu julgamento foi prejudicado pela incursão Doolittle. Embora os jornais japoneses a apelidassem galhofeiramente de a "Incursão Do Nothing" (Faça Nada) (Do Little em inglês significa Faz Pouco), ela exacerbou a preocupação de Yamamoto com a capital imperial e a pessoa do Mikado. Na época, ele não fazia segredo da sua atitude em relação à guerra: se a batalha de Midway conseguisse destruir a esquadra americana, ele pretendia forçar o Primeiro-Ministro a iniciar propostas para uma paz negociada. Em momento algum Yamamoto pensou que a batalha que procurava tão ansiosamente pudesse ser-lhe contrária. As vantagens eram imensamente favoráveis à Esquadra Combinada e assim sendo uma derrota achava-se inteiramente fora de cogitação. Os navios disponíveis de toda a marinha imperial receberam um lugar na imensa armada da qual Yamamoto se propunha a assumir o comando. Espalhando-se pelo Pacífico norte e central, a imensa operação seria desenvolvida numa escala titânica.

Pelo final da primeira semana de maio, a maior esquadra da história da guerra naval recebeu ordens para se concentrar em águas japonesas. Sua espinha dorsal seria,a Força de Ataque de Porta-Aviões, formada dos quatro grandes porta-aviões, Akagi, Kaga, Hiryu e Soryu. Estes estariam sob o comando do Vice-Almirante Chuichi Nagumo, a bordo do Akagi, como tinham estado em Pearl Harbor, e defendidos pelos dois velozes couraçados, Kirishima e Haruna, dois cruzadores pesados e um leve e onze destróieres. Esta era a força encarregada de encontrar e destruir a esquadra americana do Pacífico. O restante da Esquadra Combinada estava dividido em quatro grupos: a "Força Expedicionária Avançada de Submarinos", que tomaria posição antes que os grupos entrassem em ação; uma "Força de Ocupação Midway"; uma "Força da Área Norte"; e o chamado "Corpo Principal", sob o comando direto do Almirante Yamamoto.

 

Os submarinos eram parte essencial do plano de Yamamoto. Um deles faria reconhecimento à frente para a "Força de Ocupação de Midway", enquanto quatro estacionavam ao largo das Aleútas e dois outros, ao largo da costa oeste dos Estados Unidos. Outros cobririam Pearl Harbor - quatro tomando posição a 800 km a oeste de Oahu e outros sete, sobre a rota entre Pearl Harbor e Midway. Todos deveriam estar nas devidas posições até 1o de junho. Com estes submarinos à espreita, a oeste e norte do Havaí, Yamamoto presumia que, na ausência de outras fontes de informação, ele seria convenientemente avisado quando os navios da esquadra do Pacífico zarpassem ao seu encontro. Depois de radiografarem seus informes, os submarinos poderiam então atacar e, esperava-se, infligir as primeiras perdas na "ação decisiva".

 

O Almirante Nobutake Kondo, que desempenhara função importante na invasão das Índias Orientais Holandesas, foi nomeado comandante da "Força de Ocupação de Midway" e a ele seria entregue a tarefa de capturar a ilha. Sob seu comando havia dois couraçados, o porta-aviões leve Zuiho, oito cruzadores e nove destróieres para escoltar a força de invasão de quinze transportes de tropas com cerca de 5.000 soldados. O Vice-Almirante Moshiro Hosogaya recebeu o comando da "Força da Área Setentrional", cujo elemento de ataque se apoiava nos dois porta-aviões, o Ryujo e o novo Junyo, sob o comando do Contra-Almirante Kakuji Kakuda. Esperava-se que os desembarques nas Aleútas desviassem a atenção americana de Midway e a "Força Principal" de Hosogaya deveria estacionar entre Midway e as Aleútas para interceptar qualquer força americana que viesse de uma ou outra direção.

 

O "Corpo Principal" centrava-se em sete gigantescos couraçados, incluindo a nave-capitânia de Yamamoto, o Yamato, de onde ele dirigiria a batalha. O Yamato e seu novo par, o Musashi, montavam ambos 18 canhões de 11 pol. e eram as mais formidáveis belonaves do mundo. A cobertura aérea para esta força era proporcionada pelo velho porta-aviões leve Hosko.

 

Ao todo, Yamamoto tinha 700 aviões e 200 navios - entre os quais onze couraçados, oito porta-aviões, 22 cruzadores, 65 destróieres e vinte submarinos. A tonelagem total desses navios excedia um milhão e meio e eles eram tripulados por 100.000 oficiais e marinheiros, muitos dos quais eram veteranos de ações nos oceanos Pacifico e Índico. Eles seriam deslocados da seguinte maneira: a força principal de Yamamoto, de couraçados - a 960 km a noroeste de Midway, protegida por um grande destacamento sob o comando do Vice-Almirante Takasu a 800 km ao norte dela. E os porta-aviões de Nagumo estariam estacionados aproximadamente a 480 km a leste de Yamamoto.

 

Em termos de relativos efetivos, Yamamoto tinha uma vantagem de quase três para um em porta-aviões sobre os americanos em fins de abril. Para enfrentar os quatro porta-aviões que então os japoneses acreditavam estarem à disposição do Almirante Nimitz - Yorktown, Saratoga (este na verdade era o Lexington, também de 33.000 toneladas em plena carga. Os japoneses acreditavam que ele havia sido afundado por um submarino japonês ao largo do Havaí em janeiro de 1942. Aliás, o Saratoga é que foi atingido, e embora não fosse afundado, ficou seriamente avariado. Este erro levou os japoneses a confundir o Lexington com o Saratoga na Batalha do Mar de Coral), Hornet e Enterprise - a Esquadra Combinada vangloriava-se de poder dispor de sete porta-aviões grandes e quatro leves. Em vista desta confortável margem de superioridade, a principal preocupação de Yamamoto concentrava-se na recusa do inimigo em travar combate com essa invencível armada. Ao contrário dos americanos, ele também era limitado pela falta de informações, pois seus oficiais do Serviço de Inteligência não tinham qualquer orientação sobre o paradeiro dos porta-aviões inimigos.

 

O plano geral de Yamamoto indicava que a "Força da Área Norte", deveria dar início à batalha. Vinte e quatro horas antes da invasão de Midway, no Dia "D", os dois porta-aviões de Kakuda, o Ryujo e o Junyo, desfechariam tremendo bombardeio aéreo contra Dutch Harbour e as tropas poderiam então desembarcar em Adak, Attu e Kiska. Esta operação tinha como objetivo confundir o Almirante Nimitz quanto às verdadeiras intenções dos japoneses. Não se pretendia que a invasão fosse prolongada e Yamamoto queria retirar suas tropas em meados de setembro, antes do início do inverno.

 

Ao amanhecer do dia seguinte, os grandes porta-aviões de Nagumo bombardeariam Midway e, segundo se esperava, destruiriam os aviões ali estacionados. Se a esquadra do Pacífico tentasse interferir, Nagumo desfecharia o primeiro golpe contra ela. Entrementes, a força principal de Yamamoto estaria deslocando-se para uma posição a oeste para o golpe final. Simultaneamente, após o anoitecer do Dia "D" mais um, a "Força de Ocupação de Midway" seria desembarcada pelo Almirante Kondo e estaria alcançado o primeiro objetivo da operação.

 

Estas eram as suas linhas gerais, conforme vistas no começo de abril. Do lado japonês todos eram otimistas acreditando que a ocupação de Midway seria realizada sem muita dificuldade. E, no tocante ao segundo objetivo, parecia razoável supor que os porta-aviões japoneses poderiam isolar a esquadra do Pacífico de sua base em Pearl Harbor, quando aquela saísse para tentar impedir a invasão de Midway. Uma vez os americanos afastados da base, os grandes couraçados de Yamamoto estariam habilitados a uma vitória fácil. Tudo muito simples, com efeito, mas é preciso convir que todo o sucesso desse tipo de plano está dependendo que o adversário faça exatamente o que se espera dele. Mas se este não consegue agir segundo todas as expectativas, a operação torna-se confusa e o resultado é muito, muito diferente, sem dúvida.

 

As forças em oposição

 

A composição da força-tarefa japonesa para a "Operação MI" contra Midway

 

A força-tarefa propriamente dita era composta de cinco grupos táticos principais, e alguns divididos em dois ou mais subgrupos. Havia também um grupo de força aérea baseado em terra, que aparece como grupo 6.

O comando-geral fora entregue ao Almirante Yamamoto a bordo do Yamato; o Contra-Almirante Matome Ugaki, seu Chefe de Estado-Maior, viajava com ele. Todos os grupos deslocaram-se independentemente em direção à área de operações.

 

1. A Força Expedicionária Avançada com o Vice-Almirante Teruhisa Komatsu, no cruzador leve Katori (nave-capitânia da 6a Frota) em Kwajalein.

Esquadrão de Submarinos n° 3 - Contra-Almirante Chimaki Kono

Submarinos I-168, I-171, 1-174 e 1-175, deslocados entre a latitude 20°N e longitude 166°20'W, e latitude 23°30'N e longitude 166°20'W.

Esquadrão de Submarinos n° 5 - Contra-Almirante Tadashige Daigo

Submarinos I-156, I-157, I-158, 1-159, I-162, I-164, I-165 e I-166, deslocados entre a latitude 28o20'N, longitude 162o20'W, e latitude 26°N, longitude 165oW.

Esquadrão de Submarinos n° 13 - Capitão Takeharu Miyazaki

Submarinos I-121, I-122 e I-123 para transportar gasolina e óleo para os Abrolhos da Fragata Francesa e outras ilhas a caminho de Pearl Harbor.

2. A Primeira Força de Ataque de Porta-Aviões - Vice-Almirante Chuichi Nagumo

1a Divisão de Porta-aviões - Almirante Nagumo

Porta-Aviões Akagi (capitânia) e Kaga, 42 caças, 42 bombardeiros do mergulho, 51 bombardeiros-torpedeiros.

2a Divisão de Porta-aviões - Contra-Almirante Tamon Yamaguchi

Porta-aviões Niryu (capitânia) e Soryu, 42 caças, 42 bombardeiros de mergulho, 42 bombardeiros-torpedeiros.

Grupo de Apoio - Contra-Almirante Hiroaki Abe

Couraçados Haruna, Kirishima.

Cruzadores pesados Tone (capitânia), Chikuma.

Grupo de Proteção - Contra-Almirante Susumu Kimura

Cruzador leve Nagara (capitânia).

Destróieres (11) Kazagumo, Yugumo, Makigumo, Akigumo, Isokase, Urakase, Hamakase, Tanikase, Arashi, Nowaki, Hagikaze, Maikaze.

Navios de suprimento Kyokuto Maru, Shinkoku Maru, Toho Maru, Nippon Maru, Kokuyo Maru.

3. Força de Ocupação de Midway - Vice-Almirante Nobutake Kondo

Grupo de Cobertura - Almirante Kondo

Couraçados Kongo, Hiei.

Cruzadores pesados Alago (capitânia), Chokai, Myoku, Haguro.

Cruzador leve Yura.

Porta-aviões leve Zuiho (12 caças, 12 bombardeiros-torpedeiros).

Destróieres (8) Murasame, Harusame, Yudachi, Samidare, Asagumo, Miegumo, Natsugumo, Miyazuki.

Navios de abastecimento Cenyo Maru, Kepvo Maru, Sata, Tsurumi.

Navio-Oficina Akami.

Grupo de Apoio - Contra-Almirante Takeo Kurita

Cruzadores pesados Kumano (capitânia), Suzuya, Mikuma, Mogami.

Destróieres (2) Asashio, Arashio.

Navio de abastecimento Nichiei Maru.

Grupo de Transporte - Contra-Almirante Raizo Tanaka

Cruzador leve Jintsu (capitânia).

12 transportes e cargueiros levando as Forças de Desembarque Naval Especiais "Kure" e "Yokosuka" e o Destacamento Ichiki do exército; dois batalhões de construção: "grupo de levantamento", grupo meteorológico, etc.; cerca de 5.000 oficiais e soldados.

Petroleiro Akeboho Maru.

Torpedeiras n° 1, 2, 3 e 4, transportando destacamento de assalto, SNLF.

Destróieres (10) Kuroshio, Oyashio, Hatsukaze, Yukikaze, Amatsukaze, Tokitsukaze, Kasumi, Arare, Kagero, Shiranuhi.

Grupo de Tênderes de Hidraviões - Contra-Almirante Ruitero Fujita

Porta-aviões de hidraviões Chitose (16 hidraviões com flutuadores e 4 aviões de reconhecimento), Kamikawa Maru (oito hidraviões e dois aviões de reconhecimento). (Estes 32 hidraviões seriam estabelecidos numa base na ilha Kure.)

Destróier Hayashio.

Torpedeira n° 35.

4. O Corpo Principal (1a Frota) - Almirante Yamamoto

Couraçados Yamato (capitânia da Esquadra Combinada), Nagato, Mutsu.

Porta-aviões leve Hosko (oito bombardeiros Tipo-96).

Cruzador leve Sendai.

Destróieres (12) Fubuki, Shirayuki, Katsuyuki, Murakumo, lsonarni, Uranami, Shikinami, Ayanami, Amagiri, Asagiri, Yugiri, Shirakumo.

Porta-aviões de hidraviões Chiyoda, Nigshin (transportando duas torpedeiras e seis mini-submarinos).

Departamento da Força de Apoio Aleúta - Vice-Almirante Shiro Takasu

Couraçados Hyuga (capitânia), Ise, Fuso, Yamashiro.

Cruzadores leves Oi, Kikakama.

Navios de abastecimento Toli Maru, Naruto, San Clemente Maru, Toa Maru.

5. A Força Norte (Aleútas) - Vice-Almirante Moshiro Hosogaya

Corpo Principal da Força Norte

Cruzador pesado Nachi (capitânia) e dois destróieres.

Segunda Força de Ataque de Porta-aviões - Contra-Almirante Kakuji Kakuta

Porta-aviões leve Ryujo (capitânia) (16 caças, 21 bombardeiros-torpedeiros).

Porta-aviões Junyo (24 caças e 21 bombardeiros de mergulho).

Cruzadores leves Maya, Takao.

Três de