|
A série de vitórias japonesas
iniciou-se em Pearl Harbor, seguindo-se Guam, Hong-Kong, Filipinas,
Cingapura, Indonésia, Rabaul, Bougainville: conquistas retumbantes. Mas
então, em Guadalcanal, tudo mudou. Por seis meses, travaram-se ali batalhas
furiosas, ao fim das quais um general japonês afirmaria, em lágrimas, que nos
cemitérios de Guadalcanal jazia morto o exército imperial japonês. O trampolim
Os cronistas dos conflitos
humanos são sempre propensos são
sempre propensos a considerar singularmente crítica a campanha em que estão
envolvidos. É natural e humana a sensação de que a dificuldade em que vivemos
é a pior e mais cruel. A dor mais cruciante, a que mais mortifica e abate é
sempre a que sofremos. Não a que o vizinho padece. Sem fugir à regra, os
comentaristas de guerra propendem naturalmente para a exaltação das
ocorrências verificadas no campo em que atuaram. A natureza da guerra no Pacífico, tão cheia de singularidades e
de contingências inusitadas, proporcionou a alguns cronistas a oportunidade
de semear superlativos, no relato de tantos lances de dramaticidade intensa.
Mas na vanguarda dos muitos atos desse poderoso drama ergue-se, sem sombra de
dúvida, a jornada por Guadalcanal. Esta narrativa situa a campanha firmemente no lugar que lhe é de
direito. Conforme ressalta, numa narrativa de grande clareza, ela incorpora
várias "primeiras vezes" que seriam notáveis se a campanha não
reivindicasse outros direitos à fama. Por exemplo, foi o primeiro desembarque
anfíbio feito por forças americanas desde 1898 - sendo improvável que
houvesse no mundo militar americano quem pudesse recorrer à duvidosa vantagem
de haver participado daquela experiência anterior. Portanto, nos desembarques
em Guadalcanal, todas as decisões e todos os movimentos táticos foram virtual
e essencialmente uma experiência nova. Nessas circunstâncias, não é de
surpreender que a operação fosse caracterizada por alguma confusão. Por
certo, ela contrastou muito com os desembarques posteriormente feitos no
Pacífico, que foram altamente sistematizados e eficientes, mas foi um sucesso
extraordinário - embora com restrições - e as lições foram muito bem
aprendidas. Todavia, a luta subseqüente pela conquista da ilha é lembrada
principalmente por ter sido "a primeira vez", em outro aspecto: ela
viu, depois de uma sucessão de conquistas territoriais sem precedentes, o
"imbatível" invasor japonês ser violenta e espetacularmente
derrotado e obrigado a uma retirada ignominiosa. Não que isto tenha sido uma
realização repentina e fácil: ao contrário. Os japoneses lutaram como sempre:
com absoluta dedicação, obstinação e ferocidade sistemática, que só
terminavam com a derrota total. As perdas, de ambos os lados, foram
eclipsadas pelas baixas em campanhas posteriores, mas, em selvageria, a luta
em Guadalcanal e em seus arredores jamais foi superada. Também a variedade de
ação foi enorme, coisa que se tornaria típica das campanhas da ilha, em que
ocorria, a um só tempo, toda sorte concebível de batalhas. Freqüentemente uma
ação naval coincidia com um bombardeio das praias, enquanto bombardeiros
roncavam pelos céus da ilha, e caças baseados em terra e em porta-aviões,
bombardeiros de mergulho e aviões torpedeiros disputavam o palco; em terra,
as batalhas, que alternavam marés de homens em choques com pequenas ações de
guerrilha, multiplicavam o tumulto. Essa ilha relativamente insignificante do arquipélago das
Salomão transformou-se num símbolo para japoneses e americanos, e a luta por
sua posse foi um teste, um exemplo clássico do que se convencionou chamar a
"escalada". A campanha tomou de certo modo o caráter de leilão
implacável, no qual cada licitante se tornava cada vez mais decidido,
elevando temerariamente o preço à medida que seu oponente ameaçava vencê-lo
nos lances. Entrementes, o valor do artigo em si passava para segundo plano
enquanto a disputa se transformava na sua própria razão de ser. Freqüentemente os japoneses recebiam enormes quantidades de
reforços pelo "Expresso de Tóquio" e, em resposta, mais homens e
materiais chegavam para reforçar a posição Aliada, tornando mais áspero o
conflito, mais acerbo e mais intenso. Naturalmente, quanto mais prolongado este processo, maior se
torna o eventual triunfo para o vencedor - e a humilhação para o vencido - e
nenhum dos combatentes podia imaginar-se nesta última posição. Conscientes
disso estavam todos, americanos e japoneses. Assim, quando Guadalcanal foi
tomada, ficou claro que as forças americanas haviam sobrevivido e vencido,
apesar do que os japoneses pudessem ter lançado contra elas. Pela primeira
vez a balança do moral no Pacífico e no Sudeste Asiático pendeu
significativamente para o lado dos Aliados - e a partir desse momento os
japoneses passaram a travar guerra defensiva. Fator de grande importância, que acrescentou muita dificuldade
aos japoneses nas Ilhas Salomão e em outros grupos de ilhas ocupados, foi o
tratamento arrogante e insensível que os nipônicos dispensavam às populações
nativas. Apenas para exibir sua imaginária superioridade, eles maltratavam e
exploravam seus "novos súditos" e lhes destruíam arbitrariamente as
plantações, que muitas vezes eram a única fonte de subsistência dos nativos.
Em vez de se acovardarem com esse tratamento, como esperavam os japoneses, os
ilhéus logo criaram viva aversão por eles, não deixando escapar qualquer
oportunidade para sabotar suas operações. Juntamente com as sentinelas
costeiras, eles formaram redes eficientes de espionagem e ligação que muito
contribuíram para a eficácia do planejamento Aliado. Mesmo assim, a evacuação
dos remanescentes da força terrestre japonesa, uma das mais bem organizadas
operações da Guerra do Pacífico, foi, de alguma forma, realizada em perfeito
segredo. O esforço desesperado dos japoneses para reconquistar
Guadalcanal - a "Operação Ka" - foi um fracasso tanto de propósito
como de recursos. A disposição do combatente japonês para o sacrifício era o
lado positivo da moeda, cujo reverso era o desperdício irracional de vidas em
missões desesperadas. A derrota ali já era certa, logo que o enorme potencial
industrial dos Estados Unidos passou a pesar localmente; assim, a obstinação
extrema dos japoneses lhes trouxe apenas uma derrota mais sangrenta e
esmagadora. |
|
"Japani estão chegando..." Quando o novelista Jack London visitou as Ilhas Salomão, em
1908, ele as considerou "um dos cantos mais rudes, de selvageria mais
gritante, da terra". Trinta e quatro anos depois, americanos e japoneses
fariam em Guadalcanal um corpo-a-corpo tão sanguinolento, que encheria de
espanto os "caçadores de cabeça" dos velhos tempos. Durante alguns
meses, o nome de Guadalcanal não saiu das manchetes dos jornais. Ele se
tornou sinônimo de luta desesperada em condições atrozes; hoje em dia,
reconhece-se que a ilha foi o momento decisivo da campanha do Pacífico e o
trampolim de onde os Aliados desfecharam sua primeira ofensiva bem sucedida
contra os japoneses. Nunca foram com segurança determinadas as baixas totais dessa
campanha. Somente das forças terrestres japonesas, entre 21.000 e 28.500
soldados morreram em pouco mais de cinco meses, justificando a afirmação de
um dos seus generais, de que o exército japonês estava sepultado nos
cemitérios de Guadalcanal. Os mortos das forças terrestres americanas
atingiram mais de 1.500, enquanto número muito maior de marinheiros morreu ao
largo da ilha. A atitude dos combatentes para com seus terríveis ambientes é
sintetizada num trecho de uma versalhada popular entre os fuzileiros navais
americanos na época: "E quando ele chegar ao céu A São Pedro dirá: Mais um fuzileiro se apresentando, senhor - Já "tirei" meu tempo no inferno!" Pela sua vegetação luxuriante, e pelas promessas de sua natureza
dramática, estas ilhas inspiraram a seus descobridores espanhóis, no século
XVI, o nome de Ilhas Salomão, como se fossem o legendário Ofir. As Ilhas Salomão se estendem numa cadeia irregular para sudeste,
com mais de 1.400 km de comprimento, entre Papua, Nova Guiné e as Novas
Hébridas. Fazem parte de um colar esparso de ilhas que se estendem pelo
Pacífico, ao Nordeste da Austrália. São seis ilhas grandes, das quais
Guadalcanal é a maior, e muitas outras menores. O terreno é em geral
montanhoso e coberto de densas florestas. O calor e a umidade são intensos,
havendo violentas tempestades tropicais; precipitação pluviométrica de mais
de 508 cm foi registrada num ano. A maioria dos habitantes das Salomão é composta de melanésios,
com alguns polinésios e uns poucos micronésios. Eles são gente reservada e
inteligente, obstinadamente independente e zelosa dos seus direitos territoriais,
vivendo em pequenas comunidades bem unidas. Mais de 60 línguas são faladas
entre as 160.000 pessoas e há uma antiga tradição de guerras entre ilhas e
mesmo entre aldeias. Antes da Segunda Guerra Mundial, como acontece hoje, a
maioria dos ilhéus vivia do cultivo das suas hortas - plantando kumura,
inhames, cará e frutas - e da pesca. Nominalmente administradas pela Grã-Bretanha, mas tendo poucos
recursos naturais - sendo a copra a única colheita rentável - pouco se fizera
para desenvolver o Protetorado antes de 1942. Um punhado de oficiais
distritais mantinha a lei e a ordem entre as aldeias dos charcos e capoeiras,
enquanto alguns missionários, agricultores, comerciantes e soldados da
fortuna europeus também estavam em evidência. As ilhas, normalmente belas e
fascinantes, eram muito atrasadas. A guerra chegou às Salomão e pela primeira vez em sua história o
Protetorado adquiriu importância para o mundo exterior. Desde Pearl Harbor,
os japoneses vinham avançando implacavelmente. Tomaram Guam, Hong-Kong, as
Filipinas, Cingapura e as Índias Orientais Holandesas, atualmente Indonésia.
Em janeiro, haviam ocupado Rabaul, na Nova Guiné; Bougainville foi tomada em
março, e logo depois os japoneses invadiram o Protetorado Britânico das Ilhas
Salomão, um obstáculo para qualquer avanço japonês sobre a Austrália ou o
Havaí. Com as Novas Hébridas e as Fiji, elas constituiam parte preciosa das
linhas de comunicação aliadas e também eram uma área lógica para qualquer
contra-ataque americano. A 5 de março de 1942, o Almirante Ernest King, Comandante-Chefe
da Marinha dos Estados Unidos, informou ao Presidente Roosevelt das suas
pretenções de prosseguir a guerra no Pacífico: defender o Havaí, apoiar a
Australásia e avançar das Novas Hébridas para noroeste. A terceira parte do
plano esboçado consistiria de um ataque desfechado de Guadalcanal contra os
japoneses entrincheirados em Rabaul. Já então os japoneses se aproximavam das Salomão. Em julho,
Guadalcanal fora ocupada por tropas das 81a e 84a
Unidades de Guarnição e pelos 11o e 13o Batalhões de
Construção Naval da 8a Força Básica. O avanço japonês no
Protetorado foi virtualmente desimpedido. O Comissário Residente, William
Marchant, permanecera em seu posto, com uns poucos voluntários da equipe que
o auxiliava. Os missionários de todas as religiões também decidiram ficar.
Todavia, os europeus, em sua maioria, foram evacuados de Tulagi, a sede da
administração britânica, situada na ilha de N'Gela, fronteira a Guadalcanal,
a bordo do navio Morinda. Quando da invasão japonesa, havia apenas uma força armada
simbólica nas ilhas. Qualquer tentativa de resistência teria sido totalmente
inútil. Havia alguns fuzileiros navais da Força Imperial Australiana, uns
poucos homens da RAAF (Real Força Aérea Australiana), que davam assistência
técnica aos hidroaviões Catalina, que vez por outra paravam para reabastecer
na pequena base aeronaval perto de Tulagi, e também a Força de Defesa das
ilhas Salomão, que fora recrutada às pressas. Esta última organização consistia originariamente de três
oficiais, dois suboficiais e 112 soldados nativos, na maioria recrutados da
força policial local. Eventualmente todos os oficiais administrativos
britânicos que haviam ficado receberam patentes de oficial nessa força. Uma outra organização foi recrutada - as sentinelas costeiras.
Esses homens, oficiais do governo, agricultores e comerciantes australianos,
apresentaram-se como voluntários para ficar atrás das linhas japonesas e
transmitir informações sobre movimentos de navios mercantes e aviões inimigos.
Dispostos desde a Nova Guiné pelo Capitão-de-Fragata Eric Feldt, da Real
Marinha Australiana, as sentinelas costeiras funcionavam como uma cadeia
vital de agentes de inteligência entre as ilhas do Pacífico. Cada homem era
equipado com um telerrádio AWA, um transmissor-receptor com quatro
freqüências alternativas de transmissão e com raio de ação de 60 a 100 km. Entre as primeiras sentinelas costeiras a serem nomeadas nas
Salomão estavam Kennedy, no Oeste; Wilson, no Leste e Forster, em San
Cristobal. Devido à sua localização nas Salomão Centrais, Guadalcanal,
evidentemente, teria importância estratégica. Havia três sentinelas costeiras
ali, Martin Clemens, jovem oficial distrital que tomou posição na aldeia de
Aola, uma subestação distrital na costa norte da ilha; Macfarlan, Tenente da
Reserva da Real Marinha Australiana, de início acampou perto de Lunga,
defronte a Tulagi, mudando-se, mais tarde, para o interior, para Gold Ridge,
onde já encontrou Hay, um agricultor, e Andersen, minerador de ouro. Na costa
oeste de Guadalcanal, a terceira sentinela costeira, "Snowy"
Rhoades, ex-administrador de plantação, instalou-se para aguardar a chegada
dos japoneses. Todos esses movimentos haviam sido feitos com certa pressa,
porque já em março os japoneses estavam bombardeando Tulagi regularmente. O
Comissário Residente mudou sua sede para a Ilha de Malaita, onde ninguém o
incomodava. Enquanto aguardava a inevitável invasão japonesa, ele mandou seus
oficiais percorrer as ilhas e conversar com os habitantes. Sua mensagem era
simples. Era possível que o inimigo não demorasse a chegar. Contudo, as ilhas
eram e continuariam sendo britânicas. Nenhum ilhéu das Salomão se ofereceria
para ajudar aos japoneses. Havia outro importante trabalho administrativo a ser feito. Muitos
trabalhadores haviam ficado retidos em plantações longe de casa e sua volta
foi realizada em duas semanas, com o auxílio de uma frota de escunas. Esses
barcos às vezes eram bombardeados, mas todos os trabalhadores voltaram às
suas respectivas ilhas. A 10 de abril os japoneses desembarcaram nas Ilhas Shortland,
nas Salomão Ocidentais. A ocupação do resto do Protetorado parecia iminente.
As incursões de bombardeio contra Tulagi aumentaram de intensidade, havendo
cinco ataques violentos no dia 2 de maio. Na manhã seguinte, uma unidade naval japonesa, comandada pelo
Contra-Almirante Goto, ancorou sem oposição na baía de Tulagi. Entre a força
que desembarcou nos navios estava o Grupo Aéreo Yokohama, a Terceira Força
Kure Especial de Desembarque da Marinha, uma unidade básica naval de
hidroaviões, uma bateria antiaérea e pessoal de comunicações radiofônicas.
Doze hidroaviões de flutuadores Kawanishi e doze hidroaviões Zero chegaram
mais tarde. Não se permitiu que os japoneses se instalassem em Tulagi em paz,
embora o ataque americano ocorrido fosse um tanto fortuito. A 4 de maio,
enquanto Goto ainda estava desembarcando suprimentos, seus navios foram
atacados por aviões dos porta-aviões leves americanos Lexington e Yorktown. Esses navios faziam parte da "Força-Tarefa 17",
comandada pelo Contra-Almirante Fletcher. Este estava a caminho para
interceptar uma força de desembarque japonesa que, segundo se informara,
estava atravessando o Mar de Coral, rumo a Port Moresby. Aviões dos seus
porta-aviões avistaram os japoneses ancorados em Tulagi e os atacaram.
Considerável número de bombas foi despejado e gastou-se muita munição. As
afirmações de sucesso dessa missão foram exageradas, mas, terminado o ataque,
somente o destróier Kikutsuki, dois pequenos caça-minas e vários hidroaviões
haviam sido destruídos. Este era o último revés que os japoneses sofreriam durante
alguns meses nas Salomão e eles passaram a se instalar em Tulagi. Em
Guadalcanal e outras ilhas, as sentinelas costeiras acumularam estoques de
alimentos e continuaram advertindo aos nativos para que não colaborassem com
o inimigo. Em Aola, Martin Clemens reunira para si uma força particular de
uns 60 nativos, entre os quais dividiu os doze fuzis que estavam consigo.
Mais tarde, seus homens recuperaram outros seis fuzis e 2.500 cartuchos de
munição abandonados pelos australianos ao deixarem as Salomão. Clemens também
criou uma frota de canoas e os homens de uma delas informaram que os
japoneses pareciam estar-se preparando para invadir Guadalcanal. Duas semanas
depois, a 28 de maio, uma força exploratória japonesa desembarcou em Lunga
Point. Clemens mudou-se para o interior, para a aldeia de Vungana, e
continuou enviando patrulhas e mantendo uma vigília no alto das árvores. A 1o de julho um dos exploradores de Clemens, Dovu,
trouxe a notícia que a sentinela costeira esperava e temia: "Japani
estão chegando". Os japoneses haviam desembarcado em grande número em
Guadalcanal e agora tudo o que Clemens podia fazer era vigiar e esperar que
os americanos, por sua vez, estivessem planejando invadir Guadalcanal. "Operação Atalaia"
No começo de 1942, Guadalcanal
não era a preocupação mais
urgente dos Chefes Conjuntos de Estados-Maiores; havia outras ilhas
igualmente importantes e estas tinham de ser ocupadas e fortificadas antes
que se pudesse pensar em ataque. Forças mistas do exército e da marinha
americanos começaram a desembarcar em várias das ilhas que ainda não estavam
dentro da esfera de influência japonesa. Samoa e Fiji foram guarnecidas, e a
12 de março ocupou-se a Noumea, na Nova Caledônia. Duas semanas depois, a
Força de Fuzileiros Navais da Frota, do 4o Batalhão de Defesa
(Reforçado) ocupou Port Vila, nas Novas Hébridas. O que parecia ser necessário era uma operação de resistência, o
que fora decidido em reuniões dos Estados-Maiores militares britânicos e
americanos muito antes do ataque a Pearl Harbor. Suas descobertas haviam sido
confirmadas no começo de 1942 pelo Presidente Roosevelt e por Churchill. Se
os japoneses entrassem na guerra, eles seriam contidos no Pacífico até que
terminasse a luta na Europa. Esse plano não levava em conta as poderosas personalidades dos
homens encarregados da conduta da campanha Aliada no Pacífico, ou as
influências que os motivavam. Os Estados Unidos estavam sentindo as dores de
uma série de reveses, os japoneses haviam desmentido a reputação do
combatente americano em termos firmes e era preciso uma vitória importante
para restaurar o moral no país e nas forças armadas. Os três homens mais estreitamente interessados no planejamento
das operações no Pacífico insistiram nesse ponto: General Douglas MacArthur,
Almirante Ernest King e Almirante Chester Nimitz. Cada homem era uma
personalidade por direito próprio. MacArthur, depois da sua bem divulgada
fuga de Corregidor, e com sua inclinação para o dramático, talvez fosse o
mais famoso, mas King, homem rude, sem o menor senso de humor e que, segundo
se dizia, fazia a barba com um maçarico, não era menos inflexível. Nimitz,
com seus cabelos brancos, embora tendendo a ser eclipsado pelos outros dois,
era um oficial de carreira eficiente e experimentado. No dia 4 de abril, os Chefes Conjuntos de Estado-Maior (a
conjunção era dos chefes, e não dos Estados-Maiores) dividiram a área do
Pacífico entre MacArthur e Nimitz, decidindo-se que a linha divisória ficaria
a 160 graus de longitude leste de Greenwich. Isto queria dizer que MacArthur
era responsável pelo sudoeste, que incluía a Austrália, Nova Guiné, as
Filipinas e as Ilhas Salomão, enquanto Nimitz assumia o controle do resto. Quatro
meses depois, com a "Operação Atalaia", o assalto às Salomão,
prestes a ocorrer como uma operação conjunta da marinha e dos fuzileiros
navais, essa linha foi ajustada em um grau para oeste, de modo que Nimitz
ficou com toda a Ilha de Guadalcanal, Tulagi e também com a Florida (N'Gela). A dissensão entre os membros do CEMC sobre as táticas a serem
empregadas no Pacífico foi intensa. De Washington, o General George Marshall,
chefe do Estado-Maior do Exército dos Estados Unidos, queria ater-se à concepção
original: "a estratégia militar no Extremo Oriente será defensiva".
Ele era apoiado pelo General Arnold, chefe da Força Aérea do Exército.
MacArthur e King discordavam com veemência dessa atitude, mas infelizmente
não havia quase nenhuma unanimidade entre eles. King defendia uma ofensiva
limitada na área de Guadalcanal e Tulagi, com apoio aéreo das
"Fortalezas-Voadoras" B-17 do exército e dos PBY da marinha, que
partiriam do recém-construído aeródromo em Espírito Santo, nas Novas
Hébridas. A 28 de maio, Nimitz sugeriu uma alteração nesse plano - tomar e
arrasar Tulagi com um só batalhão incursor (raider). Marshall, MacArthur e
King vetaram essa proposta, alegando impraticabilidade. Nos dias 4 e 5 de junho, aviões de porta-aviões americanos
afundaram quatro porta-aviões japoneses ao largo da Ilha de Midway. Esse
sucesso inspirou MacArthur a insistir num ataque direto a Rabaul, na Nova
Grã-Bretanha. Ele estava convencido de que esta ilha poderia ser tomada em
julho, por uma divisão treinada em guerra anfíbia e levada em doze
transportes, apoiados por dois porta-aviões e vários bombardeiros. Esse plano
recebeu o apoio do General Marshall, que via a Primeira Divisão de Fuzileiros
Navais (Marines) fazendo o primeiro desembarque de cabeça-de-praia, sendo
depois substituída por duas divisões americanas e uma australiana. O Almirante King recusou-se a apoiar esse projeto, declarando
que, para que esse empreendimento tivesse êxito, também seriam precisos
caças, e que seria temerário arriscar dois dos porta-aviões numa expedição
perigosa como essa. King apresentou então uma contraproposta - ataques a
Tulagi-Guadalcanal e também ao grupo Santa Cruz, nas Salomão Orientais,
enquanto o General MacArthur dirigia um ataque simulado às Índias Orientais
Holandesas. Esta última sugestão foi considerada ambiciosa demais, porém
King insistiu energicamente num ataque a Tulagi e Guadalcanal, sobretudo
porque as sentinelas costeiras haviam comunicado que nesta ilha os japoneses
estavam construindo um aeródromo. Por fim o almirante conseguiu seu intento.
Vencendo a oposição de Marshall e MacArthur, King recebeu o relutante
consentimento destes ao seu plano e os Chefes Conjuntos de Estado-Maior deram
ordens para a realização da operação. King transmitiu-as imediatamente a
Nimitz, que recebera o comando da "Tarefa I" da Operação Atalaia, o
ataque inicial. O General MacArthur ficaria encarregado da "Tarefa
II", a tomada das Salomão do Norte, e da "Tarefa III", o
ataque a Rabaul. Nimitz, por sua vez, deu instruções ao Vice-Almirante Robert
Ghormley, que fora nomeado comandante da marinha no Pacífico Sul. Ghormley
não ficou satisfeito com o fato de ser inteirado de tudo tão tarde. Restava
pouco tempo para coletar informações e planejar as operações. Contudo, o
Almirante King foi inflexível; ele conseguira fazer com que a missão
Tulagi-Guadalcanal fosse um projeto da marinha, e o resto agora cabia a
Ghormley e a Nimitz. A 26 de junho em Auckland, Nova Zelândia, o Vice-Almirante
Ghormley informou ao General Alexander Archer Vandegrift, comandante da
Primeira Divisão de Fuzileiros, que ele lideraria o assalto anfíbio a Tulagi
e Guadalcanal a 1o de agosto - dali a menos de cinco semanas.
Vandegrift, um homem calmo e cortês da Virgínia, com 35 anos na ativa, ficou
muito preocupado com a exigüidade do prazo. Havia apenas doze dias que ele
chegara à Nova Zelândia. Menos de metade da sua divisão estava consigo; seu 1o
Regimento encontrava-se em algum ponto do Pacífico, tendo partido de São
Francisco havia apenas quatro dias, em oito cargueiros, e o 7o de
Fuzileiros Navais estava nas Samoa. Vandegrift advertiu, em vão, que não esperava ser chamado para
entrar em ação antes do começo de 1943. Assim como o comandante dos
fuzileiros navais, Ghormley não estava gostando muito da situação, mas tinha
as mãos atadas. Vandegrift simplesmente teria de ir em frente e fazer seus
preparativos da melhor maneira que pudesse. Como concessão, ele receberia o 2o
Regimento de Fuzileiros Navais da 2a Divisão, que partiria de San
Diego a 1o de julho. Vandegrift e seu Estado-Maior puseram-se a trabalhar
vigorosamente para fazer o máximo que pudessem no tempo disponível. O
primeiro problema a ser enfrentado residia no fato de ninguém, ao que
parecia, saber nada sobre Tulagi e Guadalcanal. Do seu Q-G, no "Cecil
Hotel", em Wellington, Nova Zelândia, Vandegrift mandou seu oficial do
serviço de inteligência, Tenente-Coronel Goettge, à Austrália, para
entrevistar missionários, fazendeiros e funcionários do governo que haviam
deixado recentemente as Salomão. Acumulou-se grande quantidade de
informações, algumas delas úteis, outras apenas desorientadoras, como se
verificaria em Guadalcanal. Não havia nem tempo nem os meios de verificar os
fatos. Goettge providenciou para que oito dos veteranos das Salomão
recebessem patentes de oficial, de modo que pudessem acompanhar os fuzileiros
navais como guias na expedição, e voltou à presença do General Vandegrift. Nada parecia dar certo. O próprio Vandegrift é quem diz:
"Não havia tempo para a fase de planejamento e, em muitos casos, foi preciso
tomar decisões irrevogáveis antes mesmo de se averiguar as características
essenciais do plano de operações navais". O que preocupava em particular
era a falta de conhecimento detalhado da área a ser invadida. Dois oficiais
de fuzileiros navais foram destacados para um vôo de reconhecimento, numa
B-17, sobre Guadalcanal. Seu avião foi atacado por hidroaviões japoneses que
decolaram de Tulagi. A B-17 derrubou dois Zero e voltou a salvo a Port
Moresby, mas os observadores não viram quase nada de Guadalcanal. Com o
passar do mês de julho tornou-se evidente que a Operação Atalaia não poderia
ser iniciada a 1o de agosto. Assim, a data do assalto foi adiada
para 7 de agosto. A cadeia de comando também começava a ser elaborada, com
esforço. Com base em Noumea, na Nova Caledônia francesa, Ghormley ficaria
encarregado da estratégia, dando conta dos seus serviços a Nimitz.
Representando Ghormley no local estaria o Vice-Almirante Fletcher.
Imediatamente abaixo vinha o Contra-Almirante Kelly Turner, que comandava a
força anfíbia. O subcomandante de Turner era o Contra-Almirante Crutchley, da
Marinha Real britânica, herói da Primeira Guerra Mundial. A força de
cobertura deste último consistia de vasos americanos e australianos. O
encarregado de todos os aviões baseados em terra era o Vice-Almirante John
McCain, Comandante da Aviação no Pacífico Sul e responsável pela ordem para
construir o aeródromo em Espírito Santo. Na Nova Zelândia, os fuzileiros-navais afadigavam-se
desesperadamente para se preparar para os desembarques. Abastecimentos eram
desembarcados e separados em condições tão desagradáveis, que os estivadores
da Nova Zelândia se recusaram a trabalhar com eles. A polícia os tirou das
docas e os fuzileiros navais trabalhavam em turnos de oito horas cada um,
embarcando e desembarcando seus próprios suprimentos. O dia da Operação Atalaia se aproximava, esperado com crescente
apreensão pelos responsáveis pelo seu planejamento. MacArthur e Ghormley
recomendaram outro adiamento, mas King recusou-se a concedê-lo. Mais tarde o
almirante viria a comentar, numa considerável atenuação dos fatos:
"Devido à urgência da tomada e ocupação de Guadalcanal, o planejamento
não esteve à altura do padrão normal". No meio de toda essa confusão, Vandegrift se ocupava com o
planejamento do primeiro desembarque anfíbio americano em tempo de guerra,
desde 1898, na Guerra Hispano-Americana. O estado da linha costeira onde seus
fuzileiros navais desembarcariam continuava em grande parte desconhecido e
ele foi mais prejudicado ainda quando os mapas fotográficos de Guadalcanal
especialmente encomendados se extraviaram num armazém da Nova Zelândia.
Tampouco a estimativa das forças japonesas era mais precisa. Julgava-se que
cerca de 5.000 soldados inimigos ocupavam a área a ser atacada e, conforme se
verificou posteriormente, esta estimativa era consideravelmente exagerada. Durante todo o frenético mês de julho, Vandegrift e seu
Estado-Maior continuaram obstinadamente a traçar planos. Confirmou-se que
haveria dois ataques - um em Guadalcanal e outro contra Tulagi e as ilhas
vizinhas de Gavatu, Tanambogo e as Floridas. Esperava-se que a força de
desembarque em Guadalcanal (Grupo Raios-X) encontraria uma oposição
relativamente discreta. Mas em Tulagi o inimigo teria de lhes fazer frente e
lutar. Nessa conformidade, Vandegrift designou para Tulagi as forças que
considerava mais bem treinadas. Sob o comando-geral do Brigadeiro-General
Rupertus estariam o 1o Batalhão de Fuzileiros Navais Incursores
(Raiders) e seu líder, Tenente-Coronel Merritt Edson; o 1o
Batalhão de Pára-quedistas, do Major Robert Williams, e o 2o
Batalhão do 5o Regimento de Fuzileiros Navais, do Tenente-Coronel
Harold Rosecrans. O desembarque em Guadalcanal seria comandado pelo próprio
Vandegrift, conduzindo o restante da 1a Divisão de Fuzileiros
Navais e quaisquer tropas especiais e de serviço. Toda a força seria transportada para as Salomão num comboio que,
na verdade, era a maior parte da marinha americana situada no Pacífico, na
época: os porta-aviões Saratoga, Enterprise e Wasp e vários cruzadores e
destróieres para escoltar os navios-transporte. Ao todo, 959 oficiais e
18.156 praças seriam transportados nessa força expedicionária. Devido à escassez de barcaças de desembarque, não seria possível
iniciar ataques simultâneos em Tulagi e Guadalcanal; por isso, preparou-se
cuidadoso cronograma. Em Tulagi, os Incursores de Edson desembarcariam do
lado sul, seguidos do II/5o Batalhão de Fuzileiros Navais. Eles
abririam caminho, lutando, para o interior e depois atacariam para o leste. O
Batalhão de Pára-quedistas vadearia até a terra nas ilhas gêmeas de Gavatu e
Tanambogo, onde faria uma varredura de precaução ao longo da linha costeira
das Floridas mais próximas de Tulagi. O desembarque em Guadalcanal ocorreria a leste da área de Lunga,
onde os japoneses talvez tivessem instalado posições defensivas. O 5o
RFN (Regimento de Fuzileiros Navais), com exceção do 2o Batalhão,
que estaria em Tulagi, desembarcaria e estabeleceria uma cabeça-de-praia de
dois batalhões lado a lado. O 1o de Fuzileiros Navais se juntaria
a eles, o que possibilitaria uma situação adequada para fazer partir o ataque
para oeste. Enquanto lutava para coordenar seu plano, Vandegrift também se
esforçava por resolver todos os outros problemas criados pela tentativa de
reunir uma grande força de invasão anfíbia em pouco tempo. As condições nas
docas continuavam caóticas. Em meio à chuva torrencial de um inverno
neozelandês, os navais lutavam para desembarcar, separar e tornar a embarcar
provisões, numa corrida contra o relógio. O moral não era elevado. Um navio
transporte civil, o Ericsson, contratado para trazer fuzileiros navais dos
Estados Unidos para a Nova Zelândia, foi motivo de muitas queixas por haver
servido alimentação tão ruim, durante toda a viagem, que os soldados
perderam, em média, de 7 a 9 quilos de peso, a bordo! Num esforço para poupar tempo, Vandegrift deu ordens para que
suas unidades "reduzissem seu equipamento e suprimentos ao realmente
necessário à luta e à sobrevivência". A quota de munição foi reduzida em
50 por cento. Quando a força-tarefa zarpou de Nova Zelândia, quase metade dos
suprimentos originais ficou para trás, mas os navios partiram conforme as
ordens, às 09:00 h de 22 de julho. Ghormley ordenou que todos os navios da expedição estivessem no
ponto de encontro às 14:00 h de 26 de julho. Nesse momento a
"Força-Tarefa 62", de Turner, uniu-se à "Força-Tarefa
61", de Fletcher, perto da ilha de Koro, cerca de 600 km ao sul das
Ilhas Fiji. Houve uma reunião dos comandantes da expedição a bordo do
Saratoga. Ghormley estava ocupado demais para comparecer, sendo representado
pelo Almirante Daniel Callaghan. A reunião não foi inspirada, servindo apenas
para salientar as lacunas no planejamento, a falta de afinidade entre
Marshall e King, dos Chefes Conjuntos de Estado-Maior e a canhestra e quase
impraticável cadeia de comando criada para a operação. Na reunião, Fletcher deixou claro que considerava a sua função
apenas como a do líder de uma operação de vaivém, desembarcando homens e
suprimentos e partindo o mais depressa possível. Essa opinião afligiu
Vandegrift, que contava com apoio aéreo e naval durante pelo menos quatro
dias após o desembarque inicial. Divulgara-se que Ghormley não dera uma
"Carta de Instrução" a Fletcher, que estava pessimista quanto às
possibilidades de sucesso da "Operação Atalaia". O fato de o
Contra-Almirante McCain, encarregado dos aviões baseados na costa, operar
diretamente subordinado a Ghormley, e não a Turner, também causou certa
confusão. Vandegrift sofreu outro golpe quando foi informado de que não
receberia o 2o Regimento de Fuzileiros Navais, que estava sendo
desviado para ocupar Ndeni, no grupo Santa Cruz, entre as Salomão Orientais,
porém esta última ordem foi mais tarde revogada. Após essa reunião confusa e inconcludente, os ensaios dos
projetados desembarques, realizados entre 28 e 31 de julho, pouco fizeram
para dissipar a depressão geral. As cortantes praias de coral de Koro
mostraram-se quase inexpugnáveis, enquanto que o silêncio radiofônico rígido
impossibilitava a coordenação dos movimentos aéreos e de tropas. Diante da
desordem, Vandegrift estava ansioso por retirar-se; perdia-se tempo muito
precioso. Os navios reagruparam-se e começaram sua viagem para as Salomão.
Até então quase nada dera certo na expedição. Para a viagem das Fiji até
Guadalcanal houve uma inversão da sorte. A armada percorreu seu caminho sem
ser descoberta pelos japoneses. Às 02:00 h foram avistados a Ilha Savo e,
depois, o Cabo Esperança. Ao amanhecer, os cruzadores iniciaram o bombardeio
das praias de Guadalcanal e Tulagi, enquanto os aviões que decolaram dos
porta-aviões afundavam hidroaviões japoneses em seus ancoradouros. Na Praia Vermelha e depois
Às 06:14 h de 7 de agosto, os três cruzadores e quatro
destróieres do Grupo de Apoio de Fogo de Guadalcanal começaram a bombardear
alvos escolhidos entre Kukum e a Ponta de Koli, ao longo da costa norte da
ilha. Dois minutos depois, o cruzador e os dois destróieres do Grupo de Apoio
de Fogo de Tulagi começaram a disparar contra a costa desta ilha. Oitenta e
cinco bombardeiros de mergulho e caças dos porta-aviões agora à espreita, a
120 km a sudoeste de Guadalcanal, atacaram esta ilha e Tulagi, destruindo 18
hidroaviões em seus ancoradouros, só encontrando fogo antiaéreo esporádico. Por volta das 06:51 h, percorrendo um mar calmo, os transportes
haviam atingido seus objetivos, a cerca de 9.000 m ao largo das praias
escolhidas para as operações de desembarque. Os homens começaram a descer dos
navios para as barcas Higgins. Tudo foi feito com calma e eficiência, levando
vários observadores a comentar que a coisa mais parecia um exercício do que
operação de guerra. Para proteger o flanco esquerdo da força que desembarcava em
Tulagi, a Companhia B do 1o Batalhão do 2o Regimento de
Fuzileiros Navais, sob o comando do Capitão Edgar Crane, desembarcou na Ilha
Florida, reivindicando assim o título de primeira tropa americana a
desembarcar em território ocupado pelo inimigo, na Segunda Guerra Mundial. A
aldeia de Haleta, seu objetivo, estava deserta, assim como a de Halavo, para
onde se dirigiram depois. Por volta do meio-dia, Crane e seus homens se
reagruparam na praia; os japoneses haviam-se retirado da Florida. O desembarque em Tulagi ocorreu na hora certa, às 08:00 h, na
Praia Azul, na costa ocidental, a pouco mais de 1.600 m da ponta noroeste da
ilha. Não houve oposição japonesa na praia, o que talvez fosse bom, porque
nenhuma das barcaças de desembarque podia transpor os afloramentos de coral,
e os incursores tiveram de vadear uns cem metros até a terra firme. Os
comandos de Edson foram os primeiros a chegar às praias, embora seu
comandante, detido pelo enguiço do motor da sua barcaça de desembarque, só
pudesse alcançá-los quando estes já haviam penetrado o interior. Os japoneses, em Tulagi, lutaram ferozmente das suas tocas e
cavernas, mas pareciam estar cientes, desde o começo, da insustentabilidade
da situação. Sua última mensagem pelo rádio, enviada às 08:10 h, foi:
"Efetivos de tropas inimigas são avassaladores. Defenderemos até o último
homem". Isto foi quase que literalmente verdadeiro. Dos defensores
japoneses de Tulagi, 200 foram mortos, cerca de 40 escaparam a nado para a
Florida e três se renderam. Os americanos compreenderam ser quase impossível
expulsar os japoneses das suas posições com os tiros de armas pequenas.
Recorreram então ao uso de granadas e explosivos para bombardeá-los e
expulsá-los. Pelo final da tarde, os japoneses haviam sido empurrados para
uma posição no extremo sudeste da ilha. As comunicações de rádio dos americanos
haviam piorado com o passar do dia, mas Edson conseguiu mandar uma mensagem
dizendo que não podia tomar a ilha naquele primeiro dia. Ele recebeu
permissão para estabelecer uma linha defronte aos japoneses encurralados.
Cinco companhias de incursores e a Companhia G do 5o RFN formavam
essa força. Entre os americanos havia dois britânicos, Horton e Henry
Josselyn, ex-Oficiais Administrativos das Salomão e agora tenentes da Real
Marinha australiana, adidos à força invasora. Horton e Josselyn haviam desembarcado
com a primeira leva das tropas de assalto e ambos viriam a receber a
"Estrela de Prata" pelo seu trabalho em Tulagi. Durante a noite de 7 para 8 de agosto, os japoneses fizeram
várias tentativas decididas de escapar da sua posição. Alguns deles chegaram
mesmo a alcançar a antiga Residência, agora usada como posto de comando, mas
nenhum deles conseguiu escapar. Na manhã do dia 8 de agosto, as Companhias F
e E do 5o RFN juntaram-se a Edson. Os navais tinham estado
expulsando os japoneses do noroeste de Tulagi e, com sua força aumentada,
Edson atacou e venceu os japoneses restantes. Pelo meio da tarde do dia 8,
Tulagi fora ocupada com sucesso. Trinta e seis americanos tombaram mortos, e
54 feridos. Os japoneses, nas pequeninas ilhas adjacentes de Gavatu e
Tanambogo, resistiram com a mesma obstinação dos seus companheiros de armas
em Tulagi. A 7 de agosto, às 11:45 h, os navios do Grupo de Fogo de Apoio de
Tulagi bombardearam Gavatu, enquanto os homens do 1o Batalhão de
Pára-quedistas se aproximavam da praia em suas barcaças de desembarque. Os
primeiros homens desembarcaram sem problemas, mas as levas subseqüentes foram
abatidas pelo fogo fulminante de armas individuais e automáticas dos
defensores. Os integrantes do Batalhão de Pára-quedistas avançaram para o
interior, para sitiar a pequena colina ocupada pelos japoneses. Estes a
defenderam ferozmente, auxiliados pelo fogo de apoio dos seus companheiros na
Ilha de Tanambogo, e somente às 18:00 h é que as tropas americanas tomaram a
colina; no dia seguinte ainda estavam limpando o terreno. Tanambogo está ligada a Gavatu por uma estrada de concreto
elevada, mas a princípio as forças americanas não puderam atacar a ilha nem
por terra nem pelo mar. Tampouco as incursões de bombardeio nem a artilharia
naval puderam subjugar os japoneses entrincheirados nesta sua última posição.
Como medida de emergência, a Companhia B do 2o RFN foi retirada da
Florida e lançada em ação num desembarque realizado na costa norte de
Tanambogo, mas o ataque foi sangrentamente repelido. A 8 de agosto, às 11:30
h, o 2o RFN e dois tanques leves fizeram um ataque simultâneo da
praia e da estrada, e os japoneses puseram na luta enorme furor - parecia que
eles só sabiam lutar assim - mas, ao anoitecer, Tanambogo estava nas mãos dos
navais. Em Gavatu e Tanambogo, cerca de 500 japoneses e 108 americanos
perderam a vida. Enquanto Tulagi e as ilhas vizinhas haviam sido palco de
acirrada luta, os desembarques em Guadalcanal haviam sido calmos e sem
qualquer demonstração de resistência. Depois do bombardeio inicial, os
japoneses - cerca de 600 combatentes e 1.400 trabalhadores - haviam fugido em
certa confusão para o interior, deixando o caminho livre para os fuzileiros
navais desembarcarem na Praia Vermelha. Aviões de reconhecimento do cruzador Astoria
confirmaram a ausência de tropas inimigas. Às 09:09 h, o Coronel LeRoy Hunt
desembarcou seu Grupo de Combate A na Praia Vermelha. Seus homens
espalharam-se para cobrir uma frente de 2.000 m; começava a invasão de
Guadalcanal. O Grupo de Combate B do 1o RFN desembarcou a seguir,
dirigido pelo Coronel Clifton Cates, que, como Hunt, era veterano da Primeira
Guerra Mundial. Os fuzileiros navais avançaram, passando pelo Grupo A (5o
RFN) e começaram a dirigir-se para o Monte Austen. Durante os preparativos
para o ataque, essa montanha fora chamada "Grassy Knoll".
Julgava-se que estivesse situada a uns 3 km para o interior. A informação
fora falha, pois o Monte Austen está a cerca de 6.400 m, como os navais do
Grupamento de Combate B em pouco saberiam. Durante as primeiras três horas as coisas correram bem na
cabeça-de-praia. As tropas eram transportadas para terra com rapidez e sem
complicações. A falta de oposição revelou-se uma decepção para alguns dos
soldados, especialmente porque os disparos de Tulagi indicavam que os homens
sob o comando de Rupertus estavam onde a luta era mais intensa. Mas
Vandegrift satisfez-se com o desembaraço da operação, até então. É verdade
que os relatórios que chegavam diziam que Cates e o 1o RFN haviam
diminuído consideravelmente sua rapidez, mas pelo menos seus homens estavam
desembarcando inteiros. A situação não foi muito satisfatória quando chegou a vez das
provisões e suprimentos, pois não havia homens suficientes para
desembarcá-los e transportá-los da Praia Vermelha para o interior. Com o
passar do dia, os montes de suprimentos aumentaram muito, porque as barcaças
de desembarque chegavam à praia carregadas de caixas. As tropas de combate,
embora não tivessem estado em ação, não podiam ser destacadas para esse
trabalho enquanto houvesse possibilidade de os japoneses atacarem a
cabeça-de-praia. De uma feita, 100 barcaças haviam desembarcado sua carga de
suprimentos enquanto outras cinqüenta aguardavam para chegar à praia.
Vandegrift recebeu uma mensagem informando-o de que eram precisos mais 500
homens para o descarregamento, mas não havia disponibilidade senão de 15
homens para cada cargueiro. Já anoitecera quando o comandante do grupo de
terra foi obrigado a informar que a situação estava fora de controle e
mandou-se parar a vinda de suprimentos dos navios. O relatório oficial dizia
que o caos fora provocado por "total falta de concepção do número de
homens necessários para descarregar os barcos e tirar o material da praia,
pelo fracasso em ampliar os limites da praia mais cedo, durante a operação e,
até certo ponto, pela falta de controle dos soldados na praia e na sua
vizinhança imediata... " A desorganização da situação do abastecimento e o serviço falho
de inteligência, que levou Cates e seu 1o RFN a fracassarem na tentativa
de alcançar o Monte Austen, eram duas grandes preocupações de Vandegrift. Sob
outros aspectos, tudo saíra bem no desembarque de Guadalcanal. Vandegrift
concentrou-se em tentar manter seu programa original. Às 14:00 h deu ordens
para que o I/5o RFN avançasse para oeste, até o Arroio Aligátor, e
se entrincheirasse para passar a noite. Duas horas depois o General
Vandegrift desceu a terra e instalou seu posto de comando. Já então houvera
dois ataques aéreos japoneses. O primeiro ocorrera às 13:20 h, quando o
Contra-Almirante Sadayoshi Yamada, no comando da 25a Flotilha
Aérea Japonesa, enviou 24 aviões para bombardear Tulagi. O aviso do ataque
foi dado por uma das onipresentes sentinelas costeiras, e os americanos
estavam preparados. Doze aviões japoneses foram derrubados pelos Wildcat do
porta-aviões Saratoga, mas o destróier Mugford foi atingido e 22 homens
morreram. As 15:00 h houve um ataque de 10 bombardeiros de mergulho Aichi 99
e depois os japoneses desapareceram pelo resto do dia. Seis hidroaviões do
Astoria e três do Quincy ocuparam os céus de Guadalcanal, para lançar bombas
de fumaça para marcar as extremidades das praias de desembarque e como aviões
observadores para a artilharia dos fuzileiros navais. No começo da noite, Cates e seus fuzileiros haviam quase parado
em sua progressão, por causa do calor e da vegetação rasteira. Vandegrift
compreendeu que não seria possível alcançar o Monte Austen naquele dia.
Assim, ele mudou os planos, dando novas ordens do seu posto de comando. Os
navais deveriam entrincheirar-se para passar a noite. Na manhã seguinte, o 1o
RFN se dirigiria para oeste, para o Lunga, esquecendo-se do Monte Austen, e
ocuparia a pista de pouso no Lunga, prosseguindo, a seguir, para Kukum. A noite de 7 para 8 de agosto foi barulhenta, mas somente porque
muitos fuzileiros, nervosos, disparavam contra sombras. Não houve nenhum
ataque japonês. Na manhã seguinte, sábado, dia 8, às 09:30, o I Batalhão do 5o
de Fuzileiros Navais, apoiado pelo 1o Batalhão de Tanques, cruzou
a foz do que nos mapas em código era chamado Arroio Aligátor. Na verdade,
este era o Rio Ilu, embora o serviço de inteligência erradamente levasse os
navais a pensar que se tratava do Tenaru, e foi com este nome que ele
continuou sendo conhecido durante algum tempo. Obedecendo às instruções
recebidas, o I/1o RFN desviou-se para oeste, afastando-se do Monte
Austen, e começou seu avanço. Uma vez mais, essa unidade progrediu com
lentidão e teve muita dificuldade em cruzar um arroio, enquanto os II e III
Batalhões avançaram com mais rapidez pela selva. O dia foi longo e quente e,
no fim deste, o I Batalhão do 1o RFN havia alcançado e passado o
aeródromo, mas, por sua vez, os II e III Batalhões não avançaram com tanta
rapidez. Ainda estavam ao sul da pista de pouso quando chegou a hora de se
entrincheirar para a noite. O 5o RFN progrediu satisfatoriamente e também
encontrou soldados japoneses isolados, que se haviam atrasado na retirada.
Alguns prisioneiros foram feitos, verificando-se que não havia probabilidade
de qualquer resistência japonesa imediata. Isto fez com que Vandegrift
ordenasse ao 5o RFN que se reagrupasse e avançasse com mais
rapidez, numa frente menos ampla. O regimento atravessou o Lunga pela ponte
principal; margeando o aeródromo para o norte, ele avançou para Kukum,
capturando grandes quantidades de alimentos e equipamentos abandonados. Na cabeça-de-praia, o dia fora menos satisfatório para os
americanos. Outra força de aviões japoneses, bombardeiros Betty escoltados
por caças Zero, tinha vindo de Rabaul. Jack Read, a sentinela costeira em
Bougainville, enviou essa informação para a Austrália, de onde foi
transmitida para Fletcher e Turner, ao largo de Guadalcanal. Todos os navios
de transporte e de carga pararam o descarregamento e se fizeram ao mar, enquanto
os Wildcat do Saratoga decolavam e tomavam posição sobre a Ilha de Savo. Os
aviões atacantes japoneses evitaram os Wildcat, mas encontraram intenso fogo
antiaéreo, que repeliu os bombardeiros-torpedeiros que voavam baixo. Mas
alguns conseguiram passar. Um Betty chocou-se contra o convés do transporte
George Elliott, explodindo e incendiando o navio. O destróier Jarvis também
foi posto fora de ação. Os americanos tinham motivos para estarem orgulhosos da
eficiência dos pilotos dos seus Wildcat e aos seus artilheiros antiaéreo,
mas, a 8 de agosto, Fletcher era um homem muito preocupado. Sua força de
caças fora reduzida de 99 para 78 aviões e os suprimentos de combustível
estavam perigosamente baixos. Fletcher decidiu que não podia dar-se ao luxo
de arriscar a "Força-Tarefa 61", permitindo-lhe ficar ao largo das
costas de Guadalcanal. Às 18:07 h de 8 de agosto, entrou em contato com
Ghormley e defendeu vigorosamente a necessidade de retirar seus porta-aviões.
Ghormley relutou em concordar com o pedido, mas achava que estava muito longe
do palco das operações para negar uma exigência apoiada em termos tão
urgentes. O pedido foi aceito e veio a ser uma das mais controvertidas
decisões tomadas durante toda a campanha de Guadalcanal. Fletcher tinha
combustível suficiente para mais alguns dias. Os ataques aéreos japoneses
haviam sido repelidos e a maioria dos seus navios estavam intactos. Além
disso, metade dos suprimentos encontrava-se ainda por desembarcar. A decisão de Ghormley foi transmitida para Turner, que, famoso
pelos seus vivos rompantes de palavrões, foi, no entanto, extraordinariamente
comedido, embora mais tarde se referisse acerbamente a esta "deserção
das partes vitais da força". Turner chamou Vandegrift e o
Contra-Almirante Crutchley à sua nave-capitânia, McCawIey, e os informou de
que Fletcher estava de partida, levando consigo o apoio aéreo e considerável
porção de suprimentos. Atenuando a verdade, Vandegrift disse que o movimento
era "muito alarmante". Turner concordou e passou a abordar os
detalhes. Nem todos os navios seriam retirados; Crutchley ficaria no comando
do grupo misto de cruzadores australianos e americanos, formado do Australia,
Canberra, Chicago, Vincennes, Astoria, Quincy e seis destróieres. Enquanto se realizava uma reunião sombria a bordo do McCawley,
uma força naval japonesa se aproximava de Guadalcanal, com ordens de atacar e
destruir os transportes americanos ancorados ao largo da ilha. Esta força era
comandada pelo Vice-Almirante Mikawa, Comandante-Chefe da 8a
Frota, e era formada de cinco cruzadores pesados, dois leves e um destróier.
A 8 de agosto, enquanto os navios desciam a costa de Bougainville, foram
avistados por dois aviões de reconhecimento australianos. Ou os pilotos deram
informes incorretos ou foram truncados na recepção, porque o Almirante Turner
só recebeu a mensagem às 18:00 h. Ele supôs que a força japonesa se dirigia
para Gizo, mas transmitiu o informe para Crutchley, por questão de rotina. Entrementes, Mikawa, que dirigia a força expedicionária no
Chokai, navegava pela "Abertura" entre as duas cadeias das Ilhas
Salomão e se aproximava de Savo sem ser visto. Crutchley não deixara nenhum
plano de combate com seus navios enquanto conferenciava com Turner e
Vandegrift. Dois destróieres equipados com radar. O Blue e o Ralph Talbot,
estavam ancorados de ambos os lados do canal, a noroeste da Ilha de Savo.
Entre esta e o Cabo Esperança, as águas estavam sendo patrulhadas pelos
cruzadores Australia, Canberra e Chicago e pelos destróieres Bagley e
Patterson. Também havia atividades de patrulha entre a Savo e a Florida,
pelos cruzadores Vincennes, Astoria e Quincy e pelos destróieres Hebxt e
Wilson. Dois outros cruzadores e vários destróieres supervisionavam os
transportes. Mikawa navegava cautelosamente para Savo enquanto a noite caía,
esperando ser avistado a qualquer momento, mas a sorte não o abandonou. À
meia-noite, vários hidroaviões partiram dos seus cruzadores e se dirigiram
para os navios americanos e australianos e foram ouvidos pelos americanos que
comunicaram a presença de aviões não identificados sobre eles. Ainda assim,
os vasos japoneses não foram avistados. À 01:00 h do dia 9 de agosto, um
avião do Chokai lançou foguetes luminosos sobre os transportes americanos. Ao
mesmo tempo, os navios japoneses navegaram entre o Blue e o Ralph Talbot
protegidos pela escuridão. Nem o radar nem os vigias informaram da presença
dos intrusos, embora o Blue, em particular, estivesse muito perto dos navios
inimigos que passavam pelo canal. Uma vez cruzada a entrada, Mikawa mandou que se aumentasse a
velocidade para 30 nós. Então seus navios abriram fogo e lançaram torpedos
contra o Canberra e o Chicago; a marinha americana estava prestes a sofrer
uma das suas mais desastrosas derrotas. O Canberra foi destruído e seu casco
arruinado acabou de ser afundado, na manhã seguinte, por destróieres
americanos. O Chicago ficou avariado, tendo sua proa arrancada. Agindo com
precisão, a força de Mikawa dividiu-se em duas, com quatro vasos dirigindo-se
para nordeste e três para norte. A 01:45 h, os navios japoneses atacaram o
Astoria, o Quincy e o Vincennes; os comandados por Mikawa iluminaram os
navios americanos com seus refletores e desfecharam terrível ataque com
granadas de 8 polegadas e torpedos. O Astoria revidou, mas foi destruído pelo
fogo, afundando no dia seguinte. O Quincy foi a pique às 02:00 h. Quinze
minutos depois, o Vincennes afundou. Mikawa conseguira a mais espantosa
vitória naval. Os transportes americanos estavam indefesos à sua frente. Se
Mikawa tivesse avançado e os destruído, é possível que o rumo da campanha de
Guadalcanal, e mesmo da guerra do Pacífico, tivesse sido diferente, mas o
almirante não fez nada disso. Havia várias razões para sua cautela. Uma
granada do Astoria destruíra a praça de controle do Chokai; seus navios
tinham demorado a se reagrupar, e havia a possibilidade de que aviões dos
porta-aviões da "Força-Tarefa 61" destruíssem a sua força. Levando
tudo isso em conta, o Almirante Mikawa entendeu que tinha feito o bastante.
Às 02:23 h ele ordenou que seus navios se retirassem. Na entrada do canal, ao
largo da Ilha de Savo, houve breve combate com o Ralph Talbot em meio a
violenta tempestade e o navio americano foi danificado antes que os japoneses
ficassem fora do seu alcance. Mikawa retornou a Rabaul e às saudações dos seus conterrâneos.
Houve uma tranqüila palavra de reprovação do seu superior, Almirante
Yamamoto, Comandante-Chefe da Frota Combinada, por não ter também atacado os
transportes, mas, no todo, os japoneses trataram a Batalha da Ilha de Savo como
a vitória retumbante que realmente fora. Mesmo o fato de Mikawa haver perdido
um navio, o Kako, afundado por um submarino americano na viagem de volta, não
diminuiu a significação de seus esforços. Desde as primeiras horas da manhã de 9 de agosto, os barcos de
salvamento estiveram ocupados no recolhimento dos sobreviventes ao largo de
Guadalcanal. Em cinco horas, cerca de 700 homens foram levados para terra. Os
relatos desses sobreviventes deram aos fuzileiros navais, na ilha, uma idéia
muito clara da extensão da vitória japonesa durante a noite. Num esforço para
evitar que o público no país ficasse deprimido, King demorou algumas semanas
para liberar os detalhes da derrota ao largo de Ironbottom Sound, como veio a
ser chamada a ação. Quando ele veio a saber da plenitude da derrota naval
sofrida pelos navios comandados por Crutchley, a imprensa desfechou violenta
campanha contra o infeliz inglês. O desastre da Ilha de Savo justificou os desejos de Fletcher de
retirar sua força-tarefa da área de perigo. O resto das horas diurnas de 9 de
agosto foi gasto nos preparativos para a partida. Ao anoitecer, a
"Força-Tarefa 61" afastou-se de Guadalcanal, deixando os fuzileiros
navais entregues à própria sorte. Contra-ataque
Em Guadalcanal, Vandegrift
examinou a situação, cujas
perspectivas não eram nada encorajadoras. Os americanos haviam perdido o
controle dos mares em torno das Salomão e a fonte mais próxima de apoio aéreo
era Espírito Santo, nas Novas Hébridas. Não houvera tempo para descarregar
metade dos suprimentos antes que a "Força-Tarefa 61" fosse embora,
e já havia séria escassez de alimentos e materiais. Estava baixo o moral dos
soldados, que sofriam da terrível combinação do calor e da umidade, e
desanimados diante do que consideravam a deserção da marinha. Vandegrift decidiu que não estava em posição de atacar, e o
plano que traçou salientava vigorosamente a defesa. O projeto mais importante
e imediato era fazer com que o aeródromo ficasse em condições de operar. Até
que isto fosse feito, ele formaria um muro defensivo em torno do mesmo; essa
linha de defesa se estendia desde a área do Lunga até o Rio Ilu. Ao mesmo
tempo, seus navais tinham de estar alerta, à espera de um ataque japonês pelo
mar. Era o caso de entrincheirar-se, e foi exatamente isso que os fuzileiros
fizeram. Uma linha de tocas fortificadas circundava o perímetro da área a ser
defendida; instalaram-se metralhadoras de calibres .30 e .50, apoiadas por
canhões de 37 mm. Canhões antiaéreos de 90 mm foram colocados ao redor do
aeródromo e Vandegrift deu ordens para que seus blindados estivessem em
constante prontidão para entrar em combate. Felizmente o tempo em agosto, embora opressivo, era bom. Só mais
tarde é que as chuvas chegaram. Entrementes, era preciso enfrentar os
mosquitos transmissores de malária e doenças tropicais. Havia também os
bombardeios japoneses a pequena altitude e os bombardeios esporádicos, de
navios e submarinos, ao largo da costa de Guadalcanal. Vandegrift despachou patrulhas de sondagem e se tornou evidente
que os japoneses haviam recuado para oeste e estavam acampando às margens do
Rio Matanikau, perto de Kukum. Quaisquer patrulhas americanas que se
aventuravam a atravessar esse rio eram repelidas pelo fogo certeiro de armas
portáteis, às vezes com perdas de vida. Foi perto do Matanikau que Vandegrift
perdeu seu oficial do serviço de inteligência, Tenente-Coronel Goettge, e
mais de 20 homens de uma patrulha despachada para investigar o informe de um
prisioneiro, segundo o qual os japoneses, na área, estavam esperando para se
renderem. A patrulha sofreu uma emboscada e somente três homens escaparam com
vida. Muitos dos fuzileiros navais em Guadalcanal achavam que tinham
sido largados ali para morrer, comparando sua situação com a dos homens
deixados em Bataan. A sensação de isolamento que os assaltava diminuiu um
pouco a 14 de agosto, quando três transportes-destróieres, o Little, o Mckean
e o Gregory, sofrendo embora as aperturas dos ataques de aviões e navios
inimigos, conseguiram desembarcar combustível, munição e suprimentos vários. A 17 de agosto, preocupado com a proximidade dos japoneses na
margem oeste do Matanikau, Vandegrift realizou uma pequena operação para
proteger suas linhas, fazendo recuar o inimigo. O empreendimento, com três
pontas, foi bem sucedido, mas Vandegrift ficou intranqüilo com o número de
detalhes que saíram errados. Três companhias de fuzileiros receberam
instruções para atacar os japoneses. Uma, sob o comando do Capitão Lyman
Spurlock, penetraria uns 800 m, cruzaria o rio e então atacaria de volta, na
direção do mar, isto é, na direção de onde tinha iniciado sua progressão. O
fogo de cobertura seria proporcionado da margem leste do rio, por uma
companhia comandada pelo Capitão William Hawkins, que mais tarde cruzaria o
rio, se possível. O Capitão Bert Hardy Jr. levaria a terceira companhia, de
barco, até 3.200 m a oeste do rio, desembarcaria em Kokumbona e avançaria
para o leste. A operação teve lugar a 19 de agosto, dois dias depois de
planejada, e tornou-se o primeiro encontro considerável entre as duas foiças
inimigas, em Guadalcanal. Destacado para proporcionar o fogo de cobertura,
Hawkins verificou que sua própria companhia estava retida por metralhadores
japoneses instalados do outro lado do Matanikau. Contudo, Spurlock levou sua
companhia avante, com algumas perdas, até a aldeia de Matanikau. Como
acontecia com freqüência, as comunicações pelo rádio se interromperam e a
terceira companhia, comandada por Hardy, atrasou-se muito, porque seu pequeno
barco fora bombardeado por um submarino japonês enquanto costeava a ilha. A guarda avançada de Spurlock já estava sendo atacada. Ele
decidiu não romper contato com o inimigo, e deu ordens para avançar. Os
japoneses reagruparam-se e desfecharam um ataque a baioneta, um dos famosos
ataques Banzai, contra os americanos; as automáticas Browning mataram 65
japoneses e o resto fugiu. Entrementes, a companhia de Hardy, tendo evitado o submarino,
encontrou-se com dois destróieres japoneses, mas conseguiu escapar e
completar um desembarque atrasado, perto da aldeia de Kokumbona, ocupada pelo
inimigo. Depois de breve combate, os japoneses fugiram para a selva; os
americanos haviam garantido suas linhas e tornado sua cabeça-de-praia um
pouco mais segura. Vandegrift ficou satisfeito com esta sua primeira ação
terrestre, mas estava longe de se sentir contente com a situação geral. Ele
não dispunha de homens ou suprimentos suficientes para avançar, e tinha
dúvidas quanto à capacidade dos seus homens de repelir um ataque constante de
forças japonesas mais fortes, opinião esta partilhada por Ghormley, que
advertiu King de que os japoneses poderiam rechaçar os fuzileiros, fazendo-os
voltar para o mar, a menos que se lhes enviassem reforços. Em Washington,
prevalecia na cúpula militar o sentimento de que, embora o desembarque nas
Salomão tivesse sido bem sucedido, não houvera planejamento ou preparativo
suficiente para a guerra de atrito que parecia aproximar-se. Poucos membros
dos Chefes Conjuntos de Estados-Maiores teriam concordado com os termos da
mensagem do Presidente Roosevelt a Stalin, de 19 de agosto: "Conseguimos
um ponto de apoio no sudoeste do Pacífico, de onde os japoneses terão muita
dificuldade em nos desalojar... e vamos manter o inimigo sob intensa
pressão". Felizmente para a causa Aliada, o comando militar japonês
parecia estar tão confuso com a campanha de Guadalcanal quanto os americanos.
Em Tóquio, a princípio acreditava-se que os americanos em pouco abandonariam
essa ilha "insignificante". Quando se tornou evidente que
Vandegrift estava-se entrincheirando, aí então foram apressados planos para
desalojá-lo. O Tenente-General Haruyoshi Hyakutake e o 17o
Exército receberam ordens para retomar Guadalcanal e Tulagi antes de passarem
à tarefa mais importante de capturar Port Moresby. Havia 50.000 homens na
força de Hyakutake, mas não estavam todos no mesmo lugar. A 2a
Divisão encontrava-se em Java e nas Filipinas e outras unidades, na Nova
Guiné e em Guam. O general não estava indevidamente preocupado com sua falta
de efetivos. Julgava ele que uma unidade de combate de elite deveria bastar
para expulsar os americanos das Salomão. O Coronel Kiyanao Ichiki e o 28o
Regimento de Infantaria, de Guam, deviam ser capazes de realizar a tarefa
antes que o resto do 17o Exército se reagrupasse e atacasse a Nova
Guiné. O Coronel Ichiki era um oficial valente e experimentado: Lutara
com distinção na China. Os acontecimentos mostraram ser ele rude e impetuoso.
Em agosto de 1942 ele foi considerado o homem ideal para retomar Guadalcanal.
Suas ordens eram para "recapturar rapidamente os aeródromos em
Guadalcanal. Se não for possível, este destacamento ocupará uma parte de
Guadalcanal e aguardará a chegada de tropas a sua retaguarda". Ichiki
recebeu ordens para formar uma ponta-de-lança de 900 soldados, levá-la em
seis destróieres e desembarcar na Ponta de Taivu, a cerca de 32 km dos
americanos, logo depois da meia-noite de 18 de agosto. Os 2.500 homens
restantes do seu destacamento viriam logo atrás, por certo dentro de sete
dias. Em Guadalcanal, o General Vandegrift continuava despachando
patrulhas. A 14 de agosto, um jovem inglês, barbado e maltrapilho,
apresentou-se ao QG americano, tendo passado pelas linhas japonesas com 20
nativos, transportando oferendas de frutas frescas! Era Martin Clemens, a
sentinela costeira e ex-delegado distrital. Vandegrift aceitou grato a oferta
de ajuda do inglês. Os relatórios do serviço de inteligência sobre os
movimentos dos navios mercantes japoneses lhe tinham sido enviados, enquanto
o próprio Clemens confirmava o aumento de forças japonesas no leste. Clemens
e seus exploradores, entre os quais o Sargento-Ajudante Jacob Vouza, um
policial reformado que se tinha apresentado para oferecer seus serviços, ao
irromperem as hostilidades nas Salomão, realizou várias patrulhas em
cooperação com os fuzileiros navais. Por volta de meia-noite de 18 de agosto, as sentinelas postadas
na praia de Guadalcanal ouviram o marulho de navios que passavam. Eram os
destróieres da ponta-de-lança de Ichiki, prestes a desembarcar soldados a 35
km a leste da cabeça-de-praia americana. Na manhã seguinte, o
Sargento-Ajudante Vouza foi despachado, à frente de pequena patrulha, para
ver o que podia descobrir. Naquela mesma manhã, o Capitão Charles Brush,
acompanhado de quatro policiais das Ilhas Salomão e 80 fuzileiros navais da
Companhia Able, do 1o RFN, dirigiram-se para leste, rumo à Ponta
de Koli, em idêntica empresa de busca. Alguns soldados japoneses foram
avistados ao meio-dia, e soube-se que pertenciam à força de Ichiki. Brush
tomou posição diante dos japoneses e mandou seu oficial executivo, Tenente
Joseph Jachym, para a direita, a fim de tomar posição à esquerda e atrás
deles. Os dois grupos de fuzileiros abriram fogo ao mesmo tempo, matando 31
dos 34 japoneses. Ao serem examinados os mortos, descobriu-se que eram
pessoal do exército, e não os homens da marinha que antes vinham combatendo
os americanos em Guadalcanal. Também havia elevada proporção de oficiais
entre os mortos. E mais importante ainda era o fato de que alguns dos
oficiais traziam consigo mapas exatos da área de Tenaru, salientando os
pontos fracos da defesa dos fuzileiros navais. Mais tarde, descobriu-se que
os japoneses, do Monte Austen, haviam examinado as linhas americanas com
extremo cuidado. Era evidente que forças do exército japonês haviam desembarcado
e que seu serviço de inteligência era bom. O que não era tão evidente era o
momento do ataque e a sua direção. Vandegrift deu ordens para que toda sua
força ficasse em constante estado de alerta. Enquanto o Capitão Brush e a Companhia Able tinham estado
eliminando os japoneses, a patrulha de Vouza também travara combate com o
inimigo. Na verdade, ele foi capturado e os japoneses amarraram-no a uma
árvore e o interrogaram, dizendo-lhe que seria morto se não revelasse a
localização de todas as tropas americanas na área. Vouza manteve-se calado,
recebendo golpes de baioneta no rosto, no pescoço e no peito. Seu braço foi
talhado com uma espada e deixaram-no como morto. Depois que os japoneses se
foram, Vouza conseguiu soltar-se e arrastar-se até as linhas americanas,
fazendo um relatório sobre os efetivos japoneses, antes de ser hospitalizado.
Por seu heroísmo, Vouza foi agraciado com a "Estrela de Prata" e a
"George Medal Britânica". Foi bem cedo, na manhã de 21 de agosto, que Ichiki iniciou seu
ataque à linha americana, perto da foz do Arroio Aligátor, no Rio Ilu (que os
americanos ainda conheciam como Tenaru). Ichiki decidira que os 900 homens
que tinha consigo bastavam para a tarefa e não precisava esperar pelos 2.500
que ainda seriam transportados para Guadalcanal. Chegara a hora do
contra-ataque japonês. Este ocorreu às 02:40 h. A "Operação Ka", a tentativa
japonesa de retomar Guadalcanal, estava em andamento. Ichiki reuniu seus
homens na selva, a leste do rio, defronte ao banco de areia. Sua artilharia
leve abriu fogo contra os americanos do outro lado do rio e suas
metralhadoras pesadas Nambu também entraram em ação. A seguir, Ichiki liderou
500 dos seus homens numa investida Banzai pelo banco de areia. Os americanos
abriram fogo com tudo o que tinham: metralhadoras, fuzis automáticos,
morteiros e granadas. Muitos japoneses morreram ao atravessar o rio; alguns
alcançaram a outra margem e foram detidos pelo arame farpado e massacrados
enquanto tentavam livrar-se. Os sobreviventes voltaram em fuga para a margem
leste do rio. Às 05:00 h eles tentaram novamente. Desta feita, Ichiki conduziu
seus homens flanqueando o banco de areia, na foz do rio, passando pela
arrebentação que vinha do mar. Canhões e morteiros lhes davam pouca
cobertura. O objetivo do seu ataque era a posição americana na praia, muito
menos fortificada do que as outras. Esta era comandada pelo Tenente-Coronel
Edwin Pollock, chefe do II Batalhão do 1o RFN. Berros de
"Fuzileiro, você morrer!" anunciaram a chegada dos japoneses. Os
bons atiradores de Pollock alvejaram-nos um a um, e uma vez mais Ichiki foi
obrigado a recuar, com seu comando dizimado. Mas alguns dos japoneses permaneceram; era possível ouvi-los
movendo-se pela selva, do lado leste do rio, erroneamente considerado como o
Tenaru. O Coronel Gerald Thomas, Oficial de Operações da Divisão, insistiu
junto a Vandegrift para que este ordenasse um avanço imediato. Centenas de
corpos de japoneses jaziam no banco de areia e nas duas margens do rio. Um
ataque rápido poderia envolver os sobreviventes e expulsá-los para o mar.
Vandegrift concordou e foi ao posto de comando de Cate para dar a instrução.
O batalhão de reserva, o (I/1o RFN de Cate), sob o comando do
Tenente-Coronel Creswell, recebeu ordens para cruzar o rio mais acima, dobrar
à direita e empurrar os japoneses para o mar, enquanto o de Pollock
desfechava uma chuva mortífera de artilharia, do outro lado do rio. Um
pelotão de tanques leves seria trazido para ajudar no empreendimento. Também
se poderia usar aviões dos fuzileiros. A operação teve sucesso. Os fuzileiros navais de Creswell
atravessaram o rio e expulsaram os japoneses das suas tocas. Com a pista de
pouso livre de empecilhos, puderam os aviões sair para operações de
bombardeio. A artilharia de Pollock e o fogo das armas automáticas
contribuíram para a carnificina, enquanto os tanques que atravessavam
pesadamente o banco de areia esmagavam cadáveres com suas lagartas, até que,
nas palavras de Vandegrift, "as traseiras dos tanques pareciam máquinas
de moer carne". No final da tarde, a Batalha de Tenaru (Ilu) terminara; 800
japoneses haviam sido mortos, 15 feitos prisioneiros e muitos dos
sobreviventes morreram na selva, em conseqüência de ferimentos. Os americanos
tiveram 43 mortos. O Coronel Ichiki estava entre os sobreviventes que
conseguiram chegar a Taivu. Com ele, sua bandeira regimental. O coronel
despejou óleo sobre a bandeira esfrangalhada, queimou-a e, depois, matou-se. |