Nova Guiné

Os Japoneses Contidos

 

 

As selvas da Nova Guiné constituem um dos piores palcos para operações militares: pântanos, floresta inundada, serpentes, escorpiões, centopéias, formigas gigantes, mosquitos, sanguessugas, malária, tifo. A luta nessa terra primitiva, de doenças tropicais e clima martirizante, mataria 100.000 japoneses. E foram eles que quiseram levar a luta para lá.

 

A escrita na parede

 

O êxito obtido pelo Japão em Pearl Harbor foi o detonador da explosiva expansão pelo Pacífico Ocidental e Sudeste Asiático. Num ponto da orla da área da explosão estava a Nova Guiné - e a valiosa base de Port Moresby. Para poderem contar com uma autêntica linha defensiva nessa direção, era vital para os invasores que essa área fosse por eles tomada. Mas, infelizmente para os nipônicos, os australianos se decidiram a enfrentá-los ali mesmo.

 

Antes do começo das hostilidades no Pacifico, a opinião dos australianos sobre a probabilidade do envolvimento do Japão numa guerra mundial, apesar das advertências dos líderes militares, que há quarenta anos vinham chamando a atenção para o "perigo amarelo", refletia o ponto de vista de todo o mundo ocidental. O que predominava era uma idéia otimista baseada em concepção totalmente errônea do estado de apronto do Japão. Em particular, a crença ridícula, embora tranqüilizante, de que a indústria nipônica só produzia cópias medíocres das máquinas ocidentais desfrutava de grande aceitação; e isto apesar das evidências desalentadoras do teatro de guerra chinês. A verdade é que os japoneses possuíam uma marinha moderna e maior que a Esquadra Americana do Pacifico, uma volumosa força aérea de bombardeiros e caças brilhantemente pilotados - incluindo o respeitabilíssimo Zero, e um exército eficiente e muito bem treinado. O choque paralisador da desilusão que se corporificou quando, disciplinados e bem equipados, saíram os nipônicos varrendo tudo à sua frente, numa Blitzkrieg oriental, despertou o continente do doce sonho para o amargo pesadelo da realidade.

 

Compreensivelmente, muitos australianos temiam que seu país fosse o próximo da lista. Acontece que o Japão não tinha planos imediatos para a invasão, mas os ataques ao continente poderiam ser facilmente encarados como o começo de uma operação preliminar de debilitação, pois nada, ao que parecia, se encontrava para além do alcance da ambição inflamada dos conquistadores. A Nova Guiné e Port Moresby passaram a ser vistos como o último baluarte da defesa.

 

Para os japoneses, a operação seria da mesma natureza de tantas outras, um procedimento que se tornara habitual. Não haviam eles derrotado milhares de soldados aliados na Malásia, nas Filipinas e nas Índias Orientais Holandesas? A Nova Guiné não constituiria exceção, seria, sem dúvida, fácil.

 

Porém, vários fatores conspiraram para que fosse exatamente o contrário. Havia as dificuldades da rota terrestre pela Serra Owen Stanley, o único acesso prático a Port Moresby. Originariamente, em quase toda a sua extensão, uma trilha de largura suficiente para permitir a passagem de apenas um homem, ela atravessava a selva fechada, escalava montanhas e mergulhava em ravinas. A simples manutenção dos suprimentos nessa "estrada" era um problema. Outro, eram as dificuldades climáticas que, além do mais, freqüentemente transformava a trilha numa torrente lamacenta que propiciava a rápida deterioração do equipamento. Ainda outro, o tormento das pragas, parasitas e doenças associadas ao clima, que transformavam combatentes aptos em sombras trêmulas em poucos dias. E por último, mas igualmente importante, embora as circunstâncias referidas fossem também adversas para eles, a persistência, a coragem e a obstinação dos australianos em conter resolutamente o avanço japonês, chegando mesmo a repeli-lo. Lembremo-nos, também, de que nos primeiros e vitais estágios da guerra os australianos eram soldados praticamente destreinados, lutando contra os experimentados e confiantes vencedores de uma dúzia de campanhas. Só bem mais tarde é que receberam a ajuda de veteranos da guerra do Oriente Próximo e de consideráveis forças americanas.

 

Durante toda a campanha da Nova Guiné, as forças aliadas estiveram sob o comando supremo do General Douglas MacArthur. A narrativa muito franca de John Vader mostra vividamente, na história aqui contada, os perigos das incompreensões e conflitos entre comando e as tropas em campanha. MacArthur, preocupado e, ao que parece, distanciado das peculiaridades daquele campo de batalha e da natureza da guerra que ali se travava, insistia em avanços espetaculares e enérgicos. No seu entender, os soldados e oficiais hesitavam, não demonstravam a agressividade que ele exigia, e isto declarava francamente. Na verdade, naquele tipo de guerra, quase toda verdadeira luta de guerrilha, os homens estavam lutando - nas piores condições que se possa imaginar - de maneira inteligente, econômica e com suprema bravura. Qualquer ressentimento que pudessem demonstrar, por mais profundo, diante do que lhes seria licito interpretar, como calúnia, dada a coragem com que se vinham batendo, era sem dúvida perdoável.

 

Entretanto, às críticas mais amargas, produto de opinião malformada, responderam eles com seu magnífico espírito de luta e seu humor lacônico. Eles foram em frente e deram as primeiras provas alentadoras de que o inimigo podia ser não só detido, mas até repelido. O que isto produziu no moral da tropa na Birmânia e nas outras áreas foi totalmente desproporcional à importância estratégica dos acontecimentos e provocou um calafrio de apreensão nas fileiras das forças armadas japonesas.

 

A luta pela Nova Guiné começou com uma batalha naval - no Mar de Coral - e as chances do Japão finalmente terminaram com outra - no Mar de Bismarck. Os dois anos decorridos entre estes dois combates foram uma miniatura do curso da guerra em geral. No começo, os Aliados eram fracos, indefesos, quase, diante de um adversário muito bem preparado. Implacavelmente, porém, foram revidando golpe por golpe à medida que se robusteciam, até que afinal montaram grandes ataques frontais às posições básicas do inimigo. Embora as questões às vezes fossem decididas por simples punhados de homens, em comparação com o que se passava noutras frentes, quando centenas de milhares de soldados se digladiavam, em nenhum outro teatro de guerra houve mais dedicação altruista, mais atos merecedores de elogios.

 

 

 

 

 

O Japão vai à guerra

 

Quando a guerra chegou às portas da Austrália, em dezembro de 1941, os chefes militares não se surpreenderam, pois havia quarenta anos vinham prevendo uma corrida do "perigo amarelo" pelo Pacífico. O australiano médio, porém, embora não se mostrasse de todo insuspeitoso, fora levado a crer que um Japão militarmente fraco (assim pensavam eles) não se envolveria numa guerra mundial. Eles ficaram bastante apreensivos quando os aviadores japoneses afundaram a maior parte da Esquadra Americana do Pacífico em Pearl Harbor. Semanas depois, transportes desembarcaram soldados, violentos e implacáveis, nas ilhas ao norte do continente australiano.

 

Um novo inimigo entrara na guerra e, de repente, ele não era mais o soldadinho mal equipado, míope e amador que os australianos julgavam que fosse, mas, ao contrário, um combatente decidido, capaz, valente, disciplinado, bem equipado, bem alimentado, e apoiado, para surpresa de todos, não por pequeninas belonaves e aviões antiquados, mas por uma moderna marinha, maior que a Esquadra Americana do Pacifico, e por uma força aérea bem volumosa, formada de bombardeiros e caças brilhantemente pilotados. A notícia do avanço japonês provocou violento choque entre militares e civis do país inteiro.

 

O General Karl von Clausewitz (o Liddell Hart do século XIX), um oficial prussiano presente a toda a campanha russa de Napoleão, disse que o objetivo da guerra era derrubar o inimigo e ditar os termos, ou fazer algumas conquistas na fronteira do país inimigo e conservá-las para fazê-las funcionar como elemento de barganha no acordo de paz. Obviamente, os estrategistas japoneses fizeram guerra pelo segundo objetivo. Mas se tivessem seguido Clausewitz acuradamente, teriam dado mais atenção à delicada situação oriunda daquele objetivo. "O conquistador, numa guerra", disse o prussiano, "nem sempre tem condições de dominar completamente o adversário. Muitas vezes, na verdade quase sempre, há na vitória um ponto culminante... É necessário saber até onde a preponderância pode ser alcançada, para não se ultrapassar aquele ponto e, em lugar de novas vantagens, colher desastre... ultrapassar o ponto em que a ofensiva se transforma em defensiva é mais que simples gasto inútil de poder, é um passo destrutivo que provoca reação, e a reação, segundo a experiência, produz às vezes os mais surpreendentes efeitos".

 

Criou-se uma situação delicada na arremetida dos japoneses contra a Nova Guiné e seus lideres não podiam crer que, tendo derrotado dezenas de milhares de soldados aliados na Malásia, nas Filipinas e nas Índias Orientais Holandesas, fossem retidos por forças australianas e repelidos ao longo de uma estreita trilha na selva, cruzando a Serra Owen Stanley, exatamente quando o Japão era do ponto de vista numérico bem superior ao adversário.

 

Essa extraordinária batalha pela Nova Guiné teve a duração de dois anos, começando com escaramuças de guerrilheiros, realizadas por homens inexperientes contra os adestradíssimos guerreiros do Japão, que eram, além disso, apoiados por forças navais e aéreas superiores, e terminando quando os Aliados puderam montar grandes ataques frontais contra as fortes posições básicas do inimigo. Foi um exemplo local do curso da guerra ampla, com os Aliados a princípio fracos e quase indefesos, e depois revidando à medida que se forjava sua poderosa máquina de guerra. Ela começou com uma batalha naval - no Mar de Coral - e as chances do Japão, finalmente, terminaram com outra - no Mar de Bismarck. No período decorrido entre essas duas ações no mar, os japoneses tentaram a conquista de seu último objetivo no Pacífico, Port Moresby, enviando um exército por terra, que foi parado e gradualmente obrigado a recuar pelas montanhas doentias e cobertas de selva. Num movimento de flanco, na Baía de Milne, eles foram decisivamente batidos e empurrados para trás. A campanha da Nova Guiné foi a guerra dos australianos, até que, perto do final, ombro a ombro com eles estiveram seus aliados americanos.

 

O pretexto dos japoneses para a expansão imperialista que empreenderam era a ampliação da por eles inventada "Esfera de Co-Prosperidade", o ideal de uma nova ordem no Leste. A princípio denominaram o movimento de "Nova Ordem", mas acharam que o nome se tornara impopular, por causa do uso que dele fizeram os nazistas, e aplicaram o termo "Co-Prosperidade", supondo fosse mais atraente para os povos do Sudeste Asiático. De qualquer modo, tudo não passava de um truque; os nativos das mais antigas possessões coloniais do Japão - Coréia e Formosa - há anos vinham sendo explorados sem que jamais recebessem quaisquer benefícios da falsa co-prosperidade. E ninguém mais alimentava a ilusão de que os japoneses lhe levassem riqueza. Ao contrário, todos lamentavam que o Japão tivesse sido obrigado pelo Almirante Peary, em 1854, a abrir seus portos e restabelecer relações com o mundo. Antes que os Aliados tentassem inverter o efeito Peary, o Japão, sentindo escassez de divisas estrangeiras, procurou consegui-las, vendendo produtos baratos a um mundo que se recuperava de forte depressão - bens que todos ansiavam por adquirir, criando-se desde então a crença de que os produtos japoneses eram baratos, mas de qualidade inferior. Se fosse possível a efetivação da "Esfera de Co-Prosperidade", tendo os japoneses como elemento dominante, estes achavam, talvez corretamente, que a economia dos seus súditos melhoraria. Como os alemães, os nipônicos tinham indiscutível talento para a organização e as duas raças viam na disciplina importante componente da Natureza.

 

Fora a ânsia de romper o bloqueio ao petróleo e outras matérias-primas imposto pela Grã-Bretanha, Estados Unidos e Holanda, e o desejo de se expandir à força para a "Região Sul", o Movimento da Federação do Leste Asiático (Toa Renmei Undo) estabelecera desde o início de sua criação, pelo General-de-Divisão Kanii Ishihara, na Manchúria, em 1931, doutrinas expansionistas. Seu plano visava somente o domínio da Manchúria e da China e, ao impor a "Federação" à Manchúria, o resultado foi o Incidente da China, guerra que o Japão poderia ter perdido simplesmente devido ao bloqueio feito pelos Aliados. São do Coronel Masanobu as seguintes palavras: "O cordão umbilical do regime de Chunking o liga à Inglaterra e aos Estados Unidos. Se ele não for logo cortado, a guerra sino japonesa se arrastará interminavelmente". Contudo, o Partido da Guerra Japonês há muito cobiçava a riqueza dos países do Pacífico sudoeste e seus agentes, bem antes da declaração do conflito, puseram-se a planejar a forma de conquistá-la. Para eles, a riqueza da China era seu potencial humano; as Índias, a Malásia, as Filipinas e Bornéu tinham riquezas no subsolo e na superfície. Esperando e, sem dúvida, rezando para que a Alemanha vencesse, os guerreiros japoneses decidiram arriscar tudo e agarram, de início, um bom bocado. Enviariam em seguida suas tropas, com experiência adquirida na luta na China, às terras do eterno verão e expulsariam os 300.000 brancos que estavam "oprimindo" 100.000.000 de nativos e que, segundo também esperavam e, sem dúvida, para tanto rezavam, lhes dariam enorme poderio em troca da coalizão.

 

E foram preparando-se cuidadosamente. O Estado-Maior de Planejamento do exército viveu quase um ano em condições tropicais primitivas, onde desenvolveram táticas e experimentaram armas e equipamento; o resultado foi um meticuloso planejamento de grande originalidade. Para o soldado comum, publicaram normas explicando todo o desdobramento da guerra - os vários estágios, viagens, desembarques, ação, sobrevivência e higiene. A pergunta: "Por que temos de lutar?" era cinicamente respondida: "Para obedecer a augusta vontade do Imperador, que é estabelecer a paz no Extremo Oriente". Salientava-se que a malária era o Grande Inimigo: "Tombar sob uma rajada de balas é morrer como herói, mas não há glória alguma em morrer em virtude de doença ou acidente, por desatenção à higiene ou falta de cuidado... em todas as campanhas que tiveram lugar em zonas tropicais, desde os tempos antigos, muito mais gente morreu em virtude de doenças do que em batalhas". Ensinaram-lhes a usar um pano sob o capacete, para absorver o suor e impedir que escorresse sobre os olhos; também a evitar o clarão do sol e mantê-lo o máximo possível às costas; a lembrar-se de que as balas percorrem distância bem maior em ar aquecido; a flanquear o inimigo em todas as oportunidades possíveis; a controlar os pontos onde havia água e a desinfeta-la com cloreto de cálcio; a comer arroz puro cozido e ameixas salgadas e a pôr sal no chá. Alimentos secos e enlatados seriam distribuídos e os estrategistas da selva descobriram uma substância, que distribuíam em tabletes, que protegeria o arroz cozido que cada homem levaria como ração principal (e, de algum modo, descobriram também que era perigoso tomar leite e bebida alcoólica quando comiam mangas); e que um só caso de malária num grupo era uma fonte perigosa de infecção para todos, pela ação do mosquito transmissor da moléstia. Desde as bicicletas para os deslocamentos na Malásia aos tabletes para conservação do arroz, tudo foi disposto em táticas muito sensatas. A grande estratégia era a parte mais vital e sensível do plano geral, que, em suma, era o seguinte: os planejadores estabeleceram um plano de ataque simultâneo a Pearl Harbor, Malásia e Filipinas, seguindo-se um avanço para as Índias Orientais Holandesas, ocupação da Birmânia e, por último, a garantia da "Região Sul", formando-se ali um poderoso perímetro defensivo que ia desde a fronteira indiana, passava pela Birmânia, pela Malásia, por Sumatra, Java, Timor, Nova Guiné e pelo Arquipélago de Bismarck, até as ilhas Marshall e Gilbert, cruzando a ilha Wake, indo terminar nas Curilas. A Austrália ficaria isolada, pelas belonaves e forças aéreas japonesas, de qualquer ajuda imediata dos Estados Unidos.

 

Os nipônicos realizaram seus planos praticamente dentro do cronograma preparado, sendo apenas frustrados no concernente à tomada de Port Moresby e, também, pelos fuzileiros navais americanos, que passariam à ofensiva nas Salomão, o grande grupo de ilhas a leste do arquipélago capturado. Entrelaçando as ilhas com linhas de invasão, penetrando entre a Indochina e as Filipinas, Bornéu e Malásia, Sumatra e Java, Bornéu e as Celebes, atacando as principais bases aliadas com apenas um quarto dos efetivos do seu exército, os japoneses - em cem dias - desmantelaram o poderio aliado no Extremo Oriente; outra quarta parte das suas forças estava preparada para o ataque à Rússia, pela Sibéria; a metade restante encontrava-se em luta na China. Após mais cem dias, os generais e almirantes inimigos, se quisessem ser honestos consigo mesmos, veriam que a vitória para eles era totalmente impossível, a menos que a Alemanha os pudesse ajudar. Mas, já então, a Alemanha estava contida.

 

Os japoneses eram só confiança, confiança excessiva. Seu 25o Exército avançou 1.000 km e conquistou a Malásia em setenta dias, façanha sem paralelo na história militar. Cingapura, sem quaisquer defesas de retaguarda, caiu ante uma blitzkrieg montada em bicicletas. O Alto Comando japonês atribuiu o êxito ao ardor patriótico dos oficiais e soldados da linha de frente e, uma vez mais, foram excessivamente confiantes, acreditando que esses mesmos oficiais e soldados jamais cessariam de derrubar o que encontrassem à frente. A campanha da Nova Guiné surgiu como resultado da determinação persistente dos líderes japoneses em capturar um pequeno porto, determinação que se foi transformando em mania à medida que o projeto deixava de ser uma ação estratégica lógica para constituir um jogo.

 

O embargo dos Aliados ao fornecimento de petróleo, ferro e aço ao Japão também foi observado pela Austrália. Em 1938, o Primeiro-Ministro Robert Menzies consentiu em algumas remessa, de sucata de metal para os japoneses, sendo, por isso, apelidado de "Bob Ferro-Gusa" pelos estivadores. Desde que os japoneses derrotaram a Rússia, na guerra de 1904-5, os australianos passaram a desconfiar de que viessem os nipônicos a tentar medidas expansionistas contra a China. Aquela guerra mudara a atitude antimilitarista do povo, que, contudo, permanecia decidido a não participar de qualquer empreendimento imperialista em que a Grã-Bretanha viesse a envolver-se. O treinamento militar compulsório para a defesa. interna foi oficializado, criando-se para tanto uma milícia; mas, caso a Austrália viesse a envolver-se em guerra no além-mar, o serviço militar seria exclusivamente voluntário - promessa que o Parlamento não quebrou até que os australianos foram, ainda que de má vontade, envolvidos na guerra do Vietnã.

 

Naqueles primeiros dias do "armar ou não armar", um semanário literário e satírico de Sydney, The Bulletin, foi um defensor persistente da vigilância contra os perigos que podiam vir da Ásia. Em 1917, um dos colaboradores do aludido semanário, C. J. Dennis, escreveu um poema profético sobre o comércio do seu país com o Japão; chamava-se The Glugs of Gosh - a história de um povo que trabalhava o dia inteiro para o bem de Slosh e sofria a hipocrisia e a impostura que as comunidades normalmente sofrem nas mãos dos políticos. Os vilões eram os Ogs, o povo de Podge. e, nessa história, Dennis advertiu contra a compra de quinquilharias ao Podge (Japão) e a venda de matérias-primas de munição. Os Glugs trocavam pedras por relógios de corda para oito dias, máquinas de costura, calandras, tesouras e meias e, com efeito, um dia as pedras lhes foram jogadas de volta. Mas, felizmente para os Glugs, os relógios e as máquinas de costura também podiam ser atiradas.

 

O Japão foi aliado da Grã-Bretanha na Primeira Guerra Mundial, quando os australianos passaram pela primeira grande prova nos campos de batalha. Eles lutaram bem, ainda que sem dramaticidade, na Guerra dos Boers e ficaram satisfeitos com suas realizações na Primeira Guerra - em Gallipoli, no Sinai e nas trincheiras da França. Eles haviam corrido a alistar-se em 1914, fazendo o mesmo, embora não em tão grandes números, em 1939. Uma divisão da FIA (Força Imperial Australiana), a 6a - prosseguimento numérico da FIA da Primeira Guerra - foi treinada e aprontada na Palestina, quando a Itália transformou a África do Norte num campo de batalha, declarando guerra aos Aliados em junho de 1940.

 

Na própria Austrália, a situação da defesa foi drasticamente alterada, ao serem os exércitos britânico e francês derrotados em junho de 1940. Naquela época, britânicos e australianos solicitaram aos Estados Unidos apoio naval americano para Cingapura e maior pressão contra o Japão. Os americanos responderam que sua marinha já estava totalmente ocupada com as suas defesas. Dois meses mais tarde, Churchill cabografou-lhes, dizendo que se houvesse por parte do Japão qualquer tentativa de invadir a Austrália ou a Nova Zelândia, a Grã-Bretanha reduziria sua participação no Oriente Médio e despacharia para seus domínios a esquadra do mediterrâneo e demais forças consideradas necessárias à sua defesa e manutenção. Como resultado dessa mensagem, uma segunda divisão australiana, a 7a, foi confiantemente despachada para o Oriente Médio e, quando representantes da Austrália, Birmânia, Índia e Nova Zelândia conferenciaram em Cingapura, com a presença de um observador americano, tomou-se a decisão de reforçar a Malásia. Mais tropas, incluindo a 8a Divisão da FIA, foram mandadas para lá e a força aérea foi reforçada. Entrementes, a 6a Divisão entrara em ação no deserto norte-africano e, semanas depois, parte da 7a e da 9a haviam iniciado a prolongada e gloriosa resistência em Tobruk.

 

O Primeiro-Ministro Menzies começava a pensar que a Austrália confiara demais na Grã-Bretanha, e a demonstrar preocupação com o fato de o governo britânico parecer desinteressado com a sorte de Cingapura. Na verdade, os Chefes de Estado-Maior britânicos estavam muito preocupados com ela. Vários militaristas japoneses admiravam a liderança e o caráter de Churchill que, acreditavam, "conhecia o misticismo Zen". Com isso, ao que parece, Menzies não concordava, pois chegou a informar ao Gabinete da Guerra Australiano que "o Sr. Churchill não tem idéia dos Domínios Britânicos como entidades separadas e que, quanto mais distante o problema do coração do Império, menos o preocupa". Isto foi em meados de 1941, oportunidade em que o governo americano retirou Douglas MacArthur da reforma e lhe passou o comando das forças do exército americano no Extremo Oriente, e quando os bens japoneses nos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Holanda foram congelados. A incerteza da situação da guerra e a decrescente popularidade de Menzies provocaram uma mudança do governo, em outubro daquele ano, assumindo John Curtin, líder do Partido Trabalhista, o cargo de Primeiro-Ministro.

 

Tendo combatido o alistamento compulsório para o serviço interno dois anos antes, Curtin viu-se obrigado a aumentar o prazo de prestação de tal serviço e a tomar outras decisões impopulares sobre a defesa interna. Era evidente que a Austrália podia ser invadida em qualquer lugar da sua longa costa, de modo que as áreas principais a serem defendidas, excetuando-se lugares como Port Darwin, no norte, eram as regiões industriais do sudeste, que se estendiam desde Newcastle, a 160 km ao norte de Sydney, até Port Kembla, a 240 km ao sul. Claro que umas poucas divisões de milicianos e uma pequena força aérea, mesmo que reforçadas cem vezes, não poderiam defender todo um continente, de modo que se planejou deixar o norte entregue à própria sorte em caso de invasão; o Trópico de Capricórnio, logo ao norte de Brisbane, seria a linha de defesa, a "Linha Brisbane". Boiadeiros, a gente do interior, transfeririam do norte o gado e os moradores das regiões rurais seriam levados para as cidades. Mas os êxitos japoneses mudariam todos esses planos e a guerra seria travada onde quer que fosse possível conter o inimigo, quanto mais longe da Austrália, melhor. Os Aliados não saberiam que o Japão não tinha quaisquer planos, pelo menos a curto prazo, para a Austrália.

 

 

Mar de Coral e Nova Guiné

 

O ataque aéreo a Pearl Harbor, que não foi nenhum exercício, afundou ou avariou couraçados, cruzadores e destróieres. Estes não seriam entretanto as armas navais decisivas da guerra do Pacífico, mas os porta-aviões que, no momento em que a esquadra aérea de Nagumo atacou, não havia nenhum no porto. O USS Lexington, ali baseado, estava em missão de transporte de aviões para Midway - medida que muito contribuiu para o resultado da importante batalha que se desenrolaria naquela ilha em junho e que, felizmente, poupou o porta-aviões, que fez relevante contribuição - mas fatal para ele - para a Batalha do Mar de Coral. Nessa guerra oceânica, um porta-aviões valeria dez couraçados. Na Europa, onde a superioridade aérea era de suma importância, as forças de ar dispunham de aeródromos, ao passo que no Pacífico os Aliados tinham os conveses dos porta-aviões, e o lado que mantivesse o maior número de conveses poderia destruir a força aérea adversária.

 

A 7 de dezembro, a Austrália e a Nova Zelândia estavam em situação desesperada. Praticamente todos os seus marinheiros, soldados e aviadores treinados se encontravam no além-mar; havia poucos aviões e nenhum navio de linha em condições de impedir um ataque realmente forte desencadeado pelo inimigo. O governo australiano tentou obter com urgência a ajuda da Grã-Bretanha, esperando uma reação imediata e benéfica da "mãe pátria", em cuja defesa os australianos (e neozelandeses) já se haviam sacrificado no mar, em terra e no ar, em contribuições tão magníficas quanto as feitas por quaisquer membros da Comunidade que acorreram em seu auxílio. Uma divisão britânica provavelmente se teria saído bem na primeira campanha do deserto, quando a Itália perdeu temporariamente a Líbia - e mais de 100.000 soldados - mas acontece que ela foi vencida pela 6a Divisão australiana, apoiada por tanques e canhões britânicos; e aquela divisão lutara na Grécia e em Creta; a 9a defendera Tobruk e a 7a Brigada da 6a ajudara a destruir o exército de Vichy, na Síria.

 

A Austrália esperava esforço recíproco da Grã-Bretanha, mas as dificuldades eram grandes demais, as distâncias, extensas demais, os suprimentos, escassos demais e a importância estratégica da área parecia insignificante. Churchill declarou guerra ao Japão antes que Roosevelt o fizesse. Roosevelt decidira pedir ao Congresso que declarasse guerra ao Japão, mas não à Alemanha. Então, declarando guerra aos Estados Unidos, a 11 de dezembro, Hitler deixou Churchill imensamente satisfeito. Mais tarde, lembrou ele, "eu pensei num comentário que Edward Grey me fizera há mais de trinta anos - que os Estados Unidos são como uma caldeira gigantesca. Depois de se acender o fogo debaixo dela, não há limite para a força que pode gerar. Eu estava saturado de emoções e sensações, deitei-me e dormi o sono dos salvos e agradecidos". Em Tóquio, o General Tojo não deveria mais ter outra noite de sono tranqüila, pois entrara numa guerra total com um propósito limitado, e a possibilidade de vitória dependia de um bocado de devaneios.

 

A Austrália voltou-se para os Estados Unidos. O inimigo comum estava pronto para atacar, ameaçando os dois paises e particularmente as ilhas - desde as Filipinas até a Nova Guiné - que até bem pouco eram consideradas uma barreira. Seus interesses comuns coincidiam. O Gabinete da Guerra acreditava que, após as Índias Orientais, a Austrália seria o próximo objetivo lógico; os Estados Unidos ansiavam por manter a Austrália, que funcionaria como base de abastecimento das forças americanas nas Filipinas. Assim, duas semanas após a declaração da guerra, Washington e Canberra concertaram um acordo de ajuda mútua; 4.500 homens - poucos deles tropas de combate - estavam a caminho, para desembarcar a 22 de dezembro. Uma divisão de infantaria, a 41a, foi despachada em fevereiro e, pelo final de maio, seguiram-se 36.000 soldados de apoio. Todos eles teriam chegado tarde demais se os japoneses tivessem mantido o impulso para o sul; de qualquer maneira, tarde demais para impedir um desembarque no norte da Austrália. Caso isto houvesse ocorrido, toda a ajuda teria sido desviada para a Nova Zelândia. Mas, como a invasão não ocorreu, a Austrália e a Nova Zelândia tornaram-se parceiros firmes dos Estados Unidos e concordaram com a criação de uma Área Anzac, sob um Comandante Supremo americano. O General MacArthur, comandante da defesa final em Bataan, recebeu ordens para se retirar e, viajando numa torpedeira e, posteriormente, numa Fortaleza Voadora, levou consigo seu Estado-Maior, mulher e filho para Darwin, onde, a 17 de março, fez sua famosa profecia: " . . . Consegui sair e voltarei". Ele foi recebido com grande pompa; era um herói que ali fora para ajudar os australianos a repelir o inimigo. Entretanto, quando o Comandante da 8a Divisão FIA, General Gordon Bennett, escapou sem ter recebido ordens para tal, na época em que o Comandante-Geral de Cingapura decidiu render-se, fugindo apenas para colocar seus superiores a par dos pormenores do sucedido, foi severamente repreendido pelo esforço que fez. Ele deveria ter ficado com seus soldados, verberaram os duros e influentes generais e políticos em seu país.

 

O primeiro incidente de perigo real para a Austrália ocorreu a 23 de janeiro, quando a guarnição, de 1.400 australianos, de Rabaul foi vencida por força integrada por 5.300 nipônicos. Kavieng, na Nova Irlanda, e o resto da Nova Britânia foram ocupados, no avanço do inimigo, por uma avalancha de tropas que parecia inesgotável. Elas se haviam estendido por milhares de quilômetros, a partir das suas ilhas metropolitanas, com seus navios e aviões afundando belonaves aliadas e derrubando quase todos os aviões aliados que encontraram no caminho. Com tal rapidez de expansão, era-lhes muito fácil, protegidos, durante o deslocamento, por cruzadores e destróieres, e sem muito receio de interceptação, desembarcar em ilhas indefesas ou apenas parcialmente defendidas. O segundo incidente pareceu a principio muito mais perigoso e, por certo, foi mais dramático: Darwin, base naval e aérea situada na costa noroeste da Austrália, foi bombardeada a 19 de fevereiro.

 

Nagumo, o Almirante japonês que dirigira o ataque a Pearl Harbor, com os porta-aviões Akagi, Hiryu, Kaga e Soryu, conduziu a mesma força-tarefa para o Mar de Banda, perto de Timor, e desfechou o ataque em manhã clara e ensolarada. Suas tripulações aéreas eram a elite das forças de ar do seu país, e seu bombardeio, de mergulho e nivelado, era bem mais preciso que o de qualquer força aérea aliada, na época. Os aviões da Real Força Aérea Australiana estacionados em Darwin compreendiam 11 bombardeiros Hudson tripulados e 14 monomotores de treinamento Wirraway. Por puro acaso, também havia 10 P-40 da Força Aérea Americana na base, onde pousaram, para reabastecer, a caminho do inútil vácuo de Java. No porto estavam o destróier americano Peary, o tênder de hidroplanos americano William B. Preston, duas chalupas e cinco corvetas da Real Marinha Australiana, além de 38 outros navios mercantes e de guerra, sendo o maior o transporte de 12.000 toneladas, o Meigs. Além disso, havia dois aerobotes Catalinas da marinha americana e um aerobote quadrimotor, Qantas.

 

Quando os bombardeiros e os caças Zero se aproximaram, havia cinco P-40 patrulhando nos arredores da base, enquanto o Comandante do Esquadrão, Major Pell, pousara os outros cinco para reabastecimento; eles decolaram rapidamente, para juntar-se aos demais e foram destruídos quando levantavam vôo. Quatro dos P-40 que se encontravam no ar foram derrubados, escapando apenas um, internando-se nas nuvens após haver destruído dois Zeros. Esta oposição praticamente não afetou o decidido ataque do inimigo enquanto seus aviões bombardeavam e metralhavam o porto e a cidade. O Meigs e sete outros navios mercantes foram afundados ou encalhados, o navio-hospital da Real Marinha Australiana, o Manunda, foi avariado, o Peary afundado; a RMA perdeu um lugre e um barco de suprimento; os Catalinas foram destruídos (o aerobote Qantas foi protegido pela fumaça de um navio em chamas) e quando os incursores se retiravam, um navio que se encontrava, em chamas, atracado ao cais foi pelos ares, por efeito da explosão das bombas de profundidade que carregava. Duas horas depois, formações de bombardeiros de alto nível, baseados em terra, aproximaram-se, vindos de direções opostas e, ao reunir-se sobre a base da RAAF, soltaram suas bombas. Os hangares principais, os armazéns, as cabanas e galpões foram destruídos ou danificados. Ao todo, entre civis e militares, houve 240 mortos e 150 feridos. Os japoneses perderam 15 aviões.

 

A Austrália acreditava que o ataque aéreo seria seguido do desembarque de uma força de invasão, descendo o moral do povo a ponto muito baixo. Na realidade, Nagumo estava apenas destruindo as belonaves e a força aérea de Darwin, enquanto soldados japoneses desembarcavam em Timor, a ilha luso-holandesa situada a 640 km a noroeste dali, onde um grupo de australianos continuaria lutando como guerrilheiros. O nervosismo da Austrália continuou até que os batalhões avançados da 6a e da 7a Divisões retornaram do Oriente Médio, com algumas unidades indo logo para Darwin e Perth, enquanto as outras se preparavam para lutar nas selvas do norte. Houve outros ataques aéreos contra Darwin, Wyndham, o pequeno porto e base aérea em Broome, e as estações ilhoas de Katherine e Daly Waters, mas a ameaça de invasão pareceu terminar, e o norte foi reforçado com aviões Kittyhawks da RAAF e uma brigada da FIA.

 

O Almirante Yamamoto, chefe do planejamento dos ataques no Pacífico, deve ter achado que Port Moresby seria fácil, como tantas outras invasões contra pontos pouco defendidos o haviam sido; ele tinha Rabaul como base aeronaval e seus transportes podiam navegar livremente por quase todos os mares do Pacífico Ocidental. De Port Moresby, Rabaul e das Salomão (e, quando pudesse tomá-las, de Nova Caledônia, Samoa e as Fiji), ele poderia estender as operações aéreas contra o norte da Austrália, patrulhar as rotas marítimas dos seus acessos orientais - uma tentativa tíbia de isolar o pais dos suprimentos americanos - e, com sorte, obrigar a Austrália a sair da guerra. A confiança de Yamamoto era intensificada pelo fato de até 1o de maio suas perdas haverem sido de apenas 23 belonaves - nenhuma delas maior que um destróier - e 67 transportes. Os Estados-Maiores da marinha e do exército faziam seus planos, mas eram sempre influenciados por Yamamoto, Chefe da Esquadra Combinada japonesa. Ele previa que uma luta prolongada com os Estados Unidos seria fatal e a maneira óbvia de conservar suas conquistas seria através do afundamento da marinha americana. Para isto, ele precisava primeiro destruir os porta-aviões, e esta foi a razão que apresentou para a captura de mais bases ilhoas, especialmente Johnson e Midway, que ficavam a distância de bombardeio do Havaí, e defendeu operações da esquadra que provocassem a saída dos porta-aviões americanos, para que pudesse afundá-los.

 

Irritantemente, um esquadrão de bombardeiros Mitchell B-25, dirigido pelo Tenente-Coronel James Doolittle, atacou Tóquio, decolando do porta-aviões USS Hornet, a 18 de abril. Ainda mais irritante, a marinha americana interferiu na "Operação MO", o plano para ocupar Tulagi, nas Salomão, que deveriam ser usadas como base japonesa extra para cobrir o desembarque em Port Moresby. Isto exigia que 11 transportes desembarcassem o Destacamento do Exército dos Mares do Sul e uma força de desembarque naval; um grupo de apoio também estabeleceria uma base nas Luisíadas. A interferência foi causada pelo Almirante Chester Nimitz, Comandante-Chefe da Esquadra Americana do Pacífico (CINCPAC), que tinha um trunfo: O Serviço de Inteligência Naval do Havaí decifrara o código naval japonês (trabalho muito mais difícil do que interpretar a escrita cuneiforme ou os hieróglifos) e os monitores simplesmente ouviram as demoradas discussões japonesas sobre seus planos, que incluíam o movimento de um porta-aviões leve, transportes de guarda e dois porta-aviões pesados de uma força de ataque prestes a entrar no Mar de Coral, comandada pelo Almirante Inouye. O CINCPAC ponderou, acertadamente, que os japoneses pretendiam tomar Port Moresby.

 

Nimitz combinou duas forças-tarefas, centradas no Lexington e no Yorktown e seus cruzadores pesados de apoio e destróieres, comandados pelos Almirantes Fitch e Fletcher (que recebera o comando tático), para se encontrarem com os cruzadores australianos, Australia e Hobart, comandados

pelo Contra-Almirante Crace, que também recebeu o USS Chicago e o destróier Perkins. Eles foram mandados para as águas do Mar de Coral, que se estendem da ponta leste da Nova Guiné à Nova Caledônia e banham a costa nordeste australiana - onde os porta-aviões se reabasteceram a 1° de maio. Dois dias depois, Fletcher foi informado de que os japoneses estavam desembarcando em Tulagi, que fora uma base de reabastecimento dos Catalinas da RAAF e, na manhã seguinte, um ataque feito pelos bombardeiros de mergulho do Yorktown avariou um destróier inimigo e afundou vários caça-minas e barcaças - uma pequena vitória. O porta-aviões partiu a reunir-se com o Lexington. Os japoneses pararam de tagarelar pelo rádio e uma nuvem de mistério cobriu a força invasora; foi difícil encontrá-la. A 6 de maio, japoneses e aliados ouviram a notícia da rendição do último baluarte, Corregidor, nas Filipinas; na manhã seguinte teve início a batalha naval. Aviões de exploração dos porta-aviões japoneses encontraram o destróier americano Sims, o primeiro navio a ir a pique, e o navio-tanque americano Neosho foi fatalmente bombardeado. Fletcher destacara os navios de Crace para tentar interceptar a força de invasão e os cruzadores aliados resistiram a ataques dos japoneses e, por engano, de bombardeiros americanos, sem porém travar contato com os transportes. Inouye vira o perigo e mandara que os transportes invasores se afastassem até que se decidisse a batalha entre os porta-aviões.

Os aviões dos dois porta-aviões americanos deram com um porta-aviões japonês, o Shoho, afundando-o, perdendo-se, no processo, seis aparelhos. O Comandante Dixon, líder dos bombardeiros de mergulho Dauntless do Lexington, radiografou seu famoso relatório: "Risque um porta-aviões!" A ação foi interrompida, perdendo-se o contato, durante as manobras, por efeito do tempo, muito fechado. Somente na manhã do dia 8 é que os porta-aviões adversários se encontraram: o Shokaku e o Zuikaku contra o Lexington e o Yorktown, contando os japoneses com duas vantagens: torpedos superiores aos dos adversários e tripulações aéreas mais experimentadas. O Shokaku foi incendiado e retirou-se para Truk. A seguir, o Yorktown foi atingido, sofrendo apenas danos leves, o mesmo acontecendo com o Lexington, mas as avarias por este sofridas, causadas por um torpedo, lhe foram fatais, pois os vapores de combustível incendiaram-se, provocando uma série de explosões que, uma hora depois, acabou com a belonave. Naquela noite, o que restava do Lexington foi posto a pique, por torpedos do destróier americano Phelps. Os americanos haviam perdido mais navios que os japoneses, que perderam um porta-aviões e tiveram outro posto fora de combate por bom período de tempo.

 

Esta foi a primeira batalha entre porta-aviões da história naval e, no sentido físico, pode ser considerada um "empate". Houve, porém, uma vitória: a abordagem naval japonesa a Port Moresby foi impedida e, embora as tropas que se encontravam nesses navios viessem mais tarde a combater os australianos e americanos, a base vitalmente importante no sul da Nova Guiné experimentou uma trégua. O resultado da Batalha do Mar de Coral também teve efeito animador no ânimo do povo da Austrália, que esperava um desembarque bem mais perto da sua terra desde o bombardeio de Darwin. O moral dos australianos subiu muito mais ainda - assim como o de todos os Aliados - quando quatro porta-aviões japoneses que haviam participado dos ataques a Pearl Harbor e a Darwin (embora ninguém soubesse então quais eram os porta-aviões) foram afundados pelo Hornet, Enterprise e Yorktown na Batalha de Midway, nos dias 4 e 5 de junho. Infelizmente, o bravo Yorktown perdeu-se naquele explosivo encontro. Como resultado dessa batalha, o equilíbrio de poder ajustou-se um pouco. Os japoneses, porém, ainda eram particularmente fortes em cruzadores e destróieres que, além de protegerem os transportes e navios mercantes em missões de invasão, também podiam transportar tropas.

 

Frustrados na tentativa de tomar Moresby desembarcando numa praia próxima, os japoneses decidiram tomá-la por terra, descendo pelo lado norte da Guiné onde, em Lae e Salamaua, haviam desembarcado a 8 de março para estabelecer bases a 320 km diretamente ao norte de Port Moresby. Os poucos homens de comunicações da RAAF e voluntários locais, muito sensatamente, retiraram-se para as colinas, a fim de se manterem em vigília, observando o trabalho, do inimigo, de preparação de um aeródromo em Lae e, também, de envio de grupos de tropas ao longo do vale do rio Markham. Os "olhos" dos Aliados eram alguns aviões de reconhecimento que operavam de bases em Moresby, Darwin e Townsville, bem como uma coleção extraordinária de observadores espalhados pelas ilhas. Os observadores costeiros se revelariam de inestimável utilidade nas operações terrestres, navais e aéreas futuras, sobretudo em Papua-Nova Guiné e nas Salomão.

 

A formação de um serviço de observação costeira foi uma das mais simples e mais práticas idéias adotadas em toda a história militar para manter sob vigilância pessoal o inimigo; sistema este realçado pelo desenvolvimento dos aparelhos de rádio. Uma prerrogativa naval, a observação costeira fora uma tarefa emocionante e agradável realizada pelos Lobinhos na Grã-Bretanha durante a Primeira Guerra Mundial; guardando as praias e descobrindo movimentos de traineiras, hidraviões avariados, minas flutuantes e vôos de Zepelins. Aqueles meninos brincavam na orla da guerra; mas, para os adultos, a observação costeira nas Ilhas do Pacífico era um jogo de vida ou morte, um dos deveres de tempo integral mais desagradáveis e perigosos. Já houvera uma guerra na Nova Guiné, em 1914, quando uma pequena força australiana derrotou uma igualmente pequena força de alemães em território sobre o qual exerciam os germânicos mandato. No fim daquele entrevero, a Real Marinha Australiana montou um serviço de observação costeira entre os civis do continente, formando o núcleo de uma unidade de observação para funcionar numa emergência naval ou terrestre futura. Mais tarde, a marinha estendeu o serviço até a Nova Guiné e as Salomão e, em 1939, havia cerca de 700 plantadores, oficiais e soldados treinados nos misteres de observação e comunicação. Quando a guerra voltou ao Pacífico, Eric Feldt, um ex-capitão-de-corveta da RMA e que fora oficial distrital do governo na Nova Guiné, foi nomeado pelo Serviço de Inteligência da Marinha para assumir a direção dos Observadores Costeiros. Civis foram alistados na RMA, ou em qualquer das outras armas, para que não fossem tratados como espiões em caso de captura; infelizmente, de qualquer modo, eles estavam condenados à execução se caíssem nas mãos do inimigo, destino certo de vasto número daqueles homens de grande coragem. Os observadores costeiros cobriam todos os estreitos e passagens, desde San Cristobal, nas Salomão do sul, passando pela ponta superior da Nova Guiné, indo até as ilhas do Almirantado, além de cobrirem também todos os pontos principais de Papua-Nova Guiné. Quando os japoneses fizeram suas várias incursões e desembarques, a corrente foi parcialmente rompida, com os observadores fugindo ou sendo capturados.

 

A Nova Britânia, uma ilha bem grande, tinha pequenas colônias européias em Arawe, Gasmata e Talasea, bem como na cidade da colina vulcânica de Rabaul. No interior, o terreno, acidentado e selvagem, era lugar adequado para observar e esconder-se e os observadores puderam descrever os acontecimentos conforme ocorriam ali. Em, Salamaua, no outro lado do Golfo de Huon, defronte a Lae, na Nova Guiné, as altas colinas ali existentes, além de proteção, permitiam ampla observação da área, de onde um assistente de oficial distrital, L. G. Vial, podia comunicar todos os vôos inimigos que partiam de Lae. Como as colinas da parte de trás de Moresby bloqueavam as telas de radar da RAAF, os avisos prévios de Vial sobre os ataques foram inestimáveis para os pilotos de caça dos Kittyhawks que faziam as interceptações e para os artilheiros antiaéreos do exército que protegiam as pistas de pouso e o porto. O sistema de aviso de Vial operou por seis meses, até que ele foi substituído. Os veteranos da Nova Guiné eram as únicas pessoas que podiam realizar bem esse trabalho, pois falavam a língua nativa e sabiam como viver da terra. Homens como Vial permitiram que Moresby sobrevivesse às arremetidas que seriam feitas pelos caças inimigos de Lae e também dos bombardeiros baseados em Rabaul. Se as defesas da RAAF e, mais tarde, as da USAAF tivessem sido arrasadas em Moresby, o inimigo talvez se sentisse tentado a fazer outro ataque naval.

 

A maior ilha do mundo, a Nova Guiné, fora esparsamente colonizada pelos europeus, desde a sua descoberta, por navegantes desconhecidos, muitos séculos atrás. Em 1512, dois marinheiros portugueses ali desembarcaram, na parte leste, a que deram o nome de ilhas dos Papuas - ilhas da gente de cabelos crespos. Em 1545, Ynigo Ortis de Retoz, um espanhol, desembarcou na ponta leste, batizando aquela área de Nova Guiné, porque lhe lembrava muito a costa da Guiné, na África. Nos séculos seguintes, poucos visitantes ficaram ali por muito tempo ou se arriscaram a embrenhar-se pelo interior, pois os nativos tinham ótima pontaria com suas flechas e machados de pedra. Assim, somente em meados do século XIX é que exploradores, equipados com armas de fogo, ocuparam a região. Eles descobriram que os nativos eram bons negociantes, mas mortíferos se julgassem estar sendo fraudados. Mesmo nos anos 50 havia ainda aldeias onde nunca se viu um homem branco, e quando este entrou em contato com elas, alguns chefes guerreiros. sentiram-se tão indefesos diante das patrulhas armadas, tão impotentes para impedir a violação de seus direitos de senhores absolutos dos seus distritos, que se encheram de ódio.

 

Na verdadeira corrida que os europeus fizeram, na década de 1880, para colonizar, a Grã-Bretanha reivindicou o sudeste da Nova Guiné, a Holanda a metade ocidental e a Alemanha anexou o nordeste da Nova Guiné (Kaiser Wilhelmslad ou Terra do Imperador Guilherme), Nova Britânia (Neu Pommern ou Nova Pomerânia), Nova Irlanda (Neu Mecklenburg ou Novo Mecklemburgo) e outras ilhas menores. Na guerra de 1914-18, os australianos arrancaram esses territórios aos alemães com algumas escaramuças; depois da guerra, a Liga das Nações deu à Austrália um mandato para administrar os Territórios de Papua e Nova Guiné. A descoberta de ouro, nos anos 30, levou à ilha, onde a maioria dos europeus ali estabelecidos se compunha de missionários, numerosos garimpeiros e investidores. Em 1920, o Parlamento australiano aprovou a Lei da Nova Guiné, em cujos termos o governo "promoveria ao máximo o bem-estar material e moral e o progresso social dos habitantes do território". Em comparação com a maioria dos países primitivos colonizados, os nativos da Nova Guiné não eram explorados, sendo tratados com simpatia e compreensão pelos militares e pelos funcionários distritais da administração, que enfrentavam a difícil tarefa de introduzir a justiça ocidental onde predominava o feudalismo da idade da pedra.

 

As tribos melanésias viviam em grande isolamento (algumas ainda vivem) nas montanhas acidentadas, em elevados platôs dos vales que se estendem entre elas e nas pantanosas planícies costeiras. O homem já estava ali há 50.000 anos e uma nova imigração ocorrera há uns 5.000 anos quando, possivelmente, gente da Indonésia chegou durante uma "Revolução Neolítica", levando consigo taro, inhame, alguns tipos de banana, coco, porcos, cães e galinhas para suplementar a produção local de sagüeiro, cana-de-açúcar e várias qualidades de banana e fruta-pão. A fauna local é composta de uma variedade de marsupiais, notadamente o canguru arbóreo, setenta espécies de cobras, inclusive a taipan, a víbora e a coral anelada, crocodilos e miríades de insetos - escorpiões, centopéias, formigas, biriguis e muita malária e muito tifo. Nesse paraíso aterrador encontram-se alguns dos mais belos pássaros e borboletas do mundo. A melhor ave comestível é o grande pombo de crista, e a pior é o casuar, que, afirma-se, deve ser cozido com uma pedra dentro da panela: quando a pedra estiver pronta para comer, o casuar também estará.

 

Guerreiros e donos de grandes plantações, ou ardilosos feiticeiros, eram chefes de aldeias de 100 a 300 pessoas, ou de aldeolas familiares. Havia também casas isoladas, construídas de folhas de palmeira sobre estruturas de troncos de árvores. Da sua língua original desenvolveu-se um grupo de línguas, com dialetos subsidiários, e a língua franca, difundida pelos nativos que trabalhavam com os militares e os comerciantes, que é o pidgin English (um inglês corrompido). Não é difícil entendê-la, palavra por palavra, mas falada rapidamente e com a aglutinação dos termos, perceber-lhe o sentido vira problema. Por exemplo, quando Rabaul foi tomada aos alemães, em 1914, a proclamação foi mais ou menos assim:

 

"Todos rapazes têm um lugar, você sabe grande chefe ele vem agora, ele novo sujeito chefe, ele chefe forte também muito, você olha ele todos navios param lugar... Você olha ele novo sujeito bandeira; você saber? Ele pertence inglês... ele olha bem ao longo você; ele dá boa gente kai-kai (comida; comer) ... Você não lutar outro sujeito homem preto outro sujeito lugar, você não homem kai-kai ... Eu falar você agora, agora você dar três vivas bom sujeito pertence novo sujeito chefe. Não mais "um Kaiser; Deus Salve Um Rei". Esta linguagem cômica, composta de alguns termos do vocabulário do inglês comercial, melanésio é algumas palavras alemães, era essencial para os Aliados - e japoneses - na sua tarefa de recrutamento de milhares de carregadores durante as operações da Nova Guiné. Na primeira parte da campanha, o transporte humano conquistou para os Aliados a batalha das linhas de abastecimento. Australianos, americanos e japoneses logo aprenderam o "pidgin" - o mesmo acontecendo com os membros de aparência assustadora das tribos recrutadas nas serras e vales distantes. Houve gente, nos altiplanos centrais e ocidentais, que nada viu da guerra - ou dos homens brancos - ao passo que outras sofreram sob a ocupação japonesa e em ação de combate. Os japoneses eram-lhes completamente estranhos, a princípio indignos de confiança e logo temidos e odiados pela crueldade com que os tratavam.

 

Papua-Nova Guiné, a área oriental da ilha onde se desenvolveu a maior parte da luta, tem até 960 km de largura e 1.600 km de comprimento. Há neve nas montanhas mais altas, que se erguem até 5.000 m de altura numa longa serra central, ramificando-se numa série de serras costeiras. Na costa, há muitos pântanos, formados pela maré, infestados de crocodilos, sendo as aldeias construídas sobre estacas; dos sopés das colinas até 2.000 m de altitude, há densas florestas equatoriais, com espessas cúpulas que impedem que a luz do sol chegue à vegetação rasteira, formada de trepadeiras e lianas que podem constituir uma barreira impenetrável; acima de 3.600 m as árvores são principalmente coníferas e acima dos 3.700 m um musgo denso e capinzais crescem ao ar frio. No lado sul, na área de Port Moresby, existe um bolsão incomumente seco, onde crescem vários tipos de eucaliptos, enquanto que nas montanhas e na costa norte chove até na estação "seca"; quando as monções noroeste chegam, vindo depois os ventos alísios do sudeste, parece que a chuva não pára nunca. Moresby é úmida desde janeiro até abril, mais ou menos, depois do que passa a ser um lugar seco e poeirento.

 

Aquele atrasadíssimo ponto do globo, cheio de doenças tropicais e castigado por clima terrível, seria palco de uma campanha que custaria aos japoneses 100.000 vidas. E foram os japoneses que escolheram o local para a campanha, para defender sua ocupação e lutar até o último homem.

 

Os Aliados viram que Port Moresby era tão importante para eles quanto para os japoneses; era a base lógica para operações defensivas e ofensivas e podia ser eficazmente usada por um lado ou pelo outro para esses fins. A capital do Território de Papua poderia ter sido desenvolvida como base muito antes, se a vulnerabilidade de Cingapura tivesse sido mais atentamente considerada. As defesas de Moresby eram espantosamente frágeis: compunham-se de uma bateria de defesa costeira, uma brigada de jovens milicianos e parte de um regimento de artilharia de campanha. Logo no primeiro mês a tropa ali posicionada começou a ser reduzida, primeiro por efeito da disenteria, vindo depois as baixas causadas pela malária e o dengue. Muitos deles convocados, alguns voluntários, a idade média dos soldados girava em torno dos 19 anos; seu treinamento era reduzido e seu moral estava baixo. Após a queda de Rabaul, a 23 de janeiro, o comandante de Moresby, General-de-Divisão Basil Morris, teve nas mãos uma população-nativa em pânico. Seiscentas mulheres e crianças européias foram evacuadas dos Territórios e todos os "homens brancos fisicamente capazes" foram convocados para o serviço militar.

 

Os habitantes nativos da cidade talvez não soubessem a razão por que os japoneses estavam invadindo a Nova Guiné, mas por certo sabiam que os perigos eram muito reais. Ataques por aviões de Rabaul e de porta-aviões eram esperados e seus pilotos sabiam que as defesas não eram fortes. A RAAF dispunha de uns poucos aerobotes Catalina, bombardeiros Hudson e aviões de treinamento Wirraway - NA-33, Harvard - para defender todas as ilhas, e ninguém, nem mesmo o comandante, sabia se as reservas seriam levadas para lá. Antes da batalha do Mar de Coral, antes que se soubesse que os porta-aviões da marinha americana estariam disponíveis para uso contra invasões marítimas e antes que se anunciasse quaisquer planos concretos para o fortalecimento de Moresby, as bombas japonesas caíram - a 3 de fevereiro. Quando um falso alarma soou, os nativos fugiram e se mantiveram distanciados dali por dois dias; quando as bombas realmente caíram, eles se internaram no mato - deixando empregos na cidade, nos navios costeiros e as prisões (com seus guardas). Não se concretizando as invasões, esperadas após cada bombardeio, as fugas para o mato diminuíram, embora nativos e brancos passassem a dormir fora da cidade. O moral entre os civis e soldados melhorou quando o Comandante-de-Esquadrão John Jackson chegou com seu Esquadrão n° 75, da RAAF, de Kittyhawks P-40. Eles foram atacados pelos artilheiros antiaéreos da guarnição, que supunham japonesas quaisquer esquadrilhas, grandes e voando baixo, que dali se aproximassem. Os soldados pararam de atirar e deram largas ao seu entusiasmo somente quando dois dos Kittyhawks derrubaram na baía um bimotor de reconhecimento japonês.

 

Todavia, um esquadrão de Kittyhawks e a 30a Brigada da Milícia não seriam capazes de impedir as invasões em grande escala que os japoneses viessem a montar nas costas norte, leste ou sul dos dois Territórios; na verdade, os defensores não eram móveis e estavam virtualmente retidos em Moresby, à espera da invasão e prontos para se retirar em direção às colinas se o inimigo desembarcasse em grande número. Os Kittyhawks enfrentaram com êxito os Zeros e os bombardeiros que sobrevoavam o local e atacaram a "Esquadrilha Lae" inimiga em sua pista de pouso, na costa norte. Hudsons, Catalinas e os B-17 que às vezes vinham de Townsville faziam serviço de reconhecimento e a infantaria treinava.

 

O Brigadeiro Porter, ex-comandante-de-batalhão da FIA, chegou para assumir o comando da brigada e Morris passou a cuidar da administração-geral, incluindo a organização militar dos assuntos nativos - a Unidade Administrativa Australiana da Nova Guiné (Angau). Tendo comandado o 2/31o Batalhão na Síria, Porter provavelmente foi tomado de desânimo ao ver os soldados mal treinados e sem grande entusiasmo da 30a Brigada. Diante disso, mandou buscar oficiais e praças graduados de grupos da FIA na Austrália para reforçar seu novo comando e intensificou o treinamento da tropa. Mas eles estavam longe de poderem ser considerados aptos quando o General Blamey comunicou que "um ataque sério contra você e as tropas sob seu comando ocorrerá no futuro imediato". Isto foi a 8 de maio, quando o Segundo-Tenente-Aviador Pennycuik radiografou do seu Hudson que um porta-aviões inimigo, escoltando transportes, ia na direção de Moresby - o informe que pôs os navios aliados em ação no Mar de Coral.

 

O ataque marítimo, de três pontas, do General Horii contra Moresby foi adiado. Baixo e gordo, parecendo um boneco de óculos, no estilo Imperador, em seu cavalo branco, Horii comandara tropas na China, em Guam, Rabaul e Salamau. Ignora-se se ele condenava o fato de seus soldados massacrarem, com baionetas, os prisioneiros australianos, amarrados em troncos de coqueiros, crime cometido após a queda de Rabaul. Outros infelizes membros da guarnição morreram encerrados no navio-prisão nipônico, o Montevideo Maru, que foi torpedeado por um submarino americano. Sob o comando do General-de-Divisão Tomitaro, a Força Destacada para os mares do Sul, de Horii (Nankai Shitaí), experiente e até então vitoriosa, retornou a Rabaul para aguardar a próxima decisão de Yamamoto concernente a Moresby. Sua Ala Lae continuou lutando e sofreu muitas baixas contra o esquadrão de Kittyhawks. Os australianos estavam reduzidos aos seus últimos caças quando esquadrões de P-39 da Força Aérea Americana entraram em cena. Em 44 dias eles destruíram 50 aviões inimigos, contra a perda de 22 Kittyhawks e 12 pilotos. Yamamoto acreditava, acertadamente, que a aproximação por mar seria o modo mais rápido e seguro de tomar Moresby, mas a Batalha de Midway impediria a medida, levando-o finalmente a sair para um ataque de duas pontas, por terra: desembarcar em Buna, cerca de 160 km de distância de Moresby, na costa norte, e na Baía de Milne, a uns 380 km para leste (veja o mapa 619-2). De Buna, a aproximação seria feita pela Serra Owen Stanley, e, da Baía de Milne, ele seguiria a costa. Entrementes, forças adversárias reuniam-se e a batalha pelo próprio Japão estava prestes a começar, a milhares de quilômetros de distância das ilhas metropolitanas, no sul do Pacífico Sudoeste - em Guadalcanal, na Baía de Milne e pelos altiplanos da Nova Guiné.

 

Todo um programa de defesa e ataque em grande escala estava sendo elaborado pelos Aliados em Washington e Melbourne (o QG militar da Austrália). Os aeródromos de Moresby e da Ilha de Horn seriam ampliados e, outros, construídos, em Mareeba, Cooktown e Coen, no norte de Queensland. Duas das três divisões australianas da FIA haviam retornado ou estavam a caminho, vindas do Oriente Médio, a fim de se aprontarem para a luta nos trópicos.

 

Voltar ao local que servira de palco para a derrota que sofrera afigurava-se o objetivo principal de MacArthur e isso influiu nos planos estratégicos gerais quando nomeado Comandante Supremo - ou Comandante-Chefe, título que ele preferia - da Área do Pacífico Sudoeste. O General-de-Brigada Dwight Eisenhower, um dos mais respeitados planejadores do exército dos Estados Unidos, aconselhara o General Marshall a criar uma base avançada na Austrália com tropas e suprimentos que em dezembro haviam sido desviados para Brisbane.

 

O General George Brett foi designado para o comando da Força Aérea Americana na Austrália, com a promessa de que receberia caças e bombardeiros. O General Wavell, Comandante aliado no Oriente, que estava em Java, achava que os Estados Unidos viriam em socorro da Austrália e que os veteranos da FIA no Oriente Médio deviam ser mandados para Java, plano este defendido por Churchill e Roosevelt. O Primeiro-Ministro John Curtin enviou enérgicas mensagens focalizando o destino a ser dado à FIA, causando o que Churchill classificou de "episódio doloroso", pelos ressentimentos que provocou nos círculos políticos e militares de Londres. Os políticos, ao que parecia, desejavam travar guerras sem generais e estes sem os políticos, o que tornava inevitáveis os choques de opinião sobre estratégia e prioridades, e sobre quem deveria ser o líder em campanha. Em fevereiro, Churchill e Roosevelt concordaram em que a Grã-Bretanha se incumbisse da frente do Oceano Índico e os Estados Unidos, do "flanco direito" do Pacífico. A guerra em geral seria dirigida pelos Chefes de Estado-Maior Combinados, enquanto que os Chefes de Estado-Maior Conjuntos dos Estados Unidos exerceriam o controle operacional no Pacífico: a APSO (Área do Pacífico Sudoeste) seria de responsabilidade do exército e a Área do Oceano Pacífico, da armada, com o General Marshall e o Almirante King como seus chefes. Tomadas essas decisões, o Primeiro-Ministro Curtin recebeu satisfeito MacArthur como comandante na Austrália; desse modo, estaria garantida a concentração de forças. O que a opinião pública australiana sabia acerca do comandante era o que a ampla cobertura que lhe deu a imprensa deixava ver, ou seja, que era muito eficiente. Tudo o que a Austrália emprestasse aos americanos, e todos os armamentos e equipamentos que estes lhe enviassem, para uso pelos australianos, seriam levados à conta da Lei de Empréstimo e Arrendamento.

 

Em junho, as forças de terra disponíveis somavam já 104.000 homens da FIA, 265.000 milicianos e 38.000 americanos; muito poucos destes eram soldados de linha de frente treinados. Os comandantes de batalhão, brigada e divisão da FIA que retornavam talvez não tivessem experiência de batalha nos trópicos, mas haviam combatido os italianos, alemães e franceses de Vichy, sendo de esperar que os mais altos oficiais fossem nomeados para o Estado-Maior de MacArthur, o que não sucedeu. Embora o General Marshall lhe houvesse solicitado fizesse isso, MacArthur afirmou que não havia oficiais qualificados - australianos ou holandeses - disponíveis e lotou as posições superiores com americanos que haviam, à exceção de três, trabalhado com ele nas Filipinas. Era também desejo seu que um general americano assumisse o comando das forças terrestres, mas Washington inclinou-se pela nomeação do comandante australiano do Oriente Médio, General Sir Thomas Blamey.

 

Tom Blamey fora Chefe de Estado-Maior do General Sir John Monash, notável líder da FIA na Primeira Guerra, que sobre ele escreveu: "possui cultura muito superior à média, é bem informado, alerta e perspicaz." (sic). Após a guerra, Blamey foi nomeado Chefe do Departamento de Polícia de Victoria, demitindo-se, após alguns anos, devido à descoberta, contrária ao que havia sido apurado, feita pela Comissão Real encarregada de investigar as circunstâncias da morte de um dos seus superintendentes. Como resultado, ele ficou no ostracismo até que a loucura de Munique alertou o governo australiano para a necessidade de preparar-se para uma possível guerra. Quando se planejou a formação de uma segunda FIA; o governo foi influenciado a examinar a possibilidade de entregar a Blamey o comando da força, não porque parlamentares que eram ex-soldados, como Sir Henry Gullett e Richard Casey, fossem seus patrocinadores, mas porque não havia ninguém melhor que se encontrasse disponível.

 

Ao contrário do australiano típico, em geral alto e magro, Blamey tinha 1,70 m de altura e era robusto. Ele foi nomeado OE-M III (Inteligência) da 1a Divisão, sob o comando de Bridges, em 1915, após haver trabalhado no Setor de Inteligência do Ministério da Guerra; estava na Inglaterra quando, em 1914, teve inicio o conflito. Desceu em Gallipoli após alguns dias de viagem e, à exceção de breves períodos em comando de batalhão e brigada, estivera completamente entregue ao trabalho de planejamento durante a Primeira Guerra Mundial: como OE-M III e OE-M I da 1a Divisão e, em 1918, como Chefe de Estado-Maior de Monash. A grande reputação de Monash baseava-se em sua maior parte na excelência do trabalho realizado pelos seus oficiais de Estado-Maior; se Blamey tivesse ocupado seu lugar em 1918, é muito provável que as façanhas do Corpo na França tivessem sido igualmente grandes. Diz-se que Blamey foi o autor da idéia que resultou na Batalha de Amiens, o começo do fim da Primeira Grande Guerra; Blamey discutira a idéia com Monash e ambos acreditavam, contra a hesitação de Foch e dos comandantes mais graduados britânicos, que a deterioração da frente alemã abria a oportunidade para o desencadeamento de uma grande ofensiva e penetração para destruir a "Linha Hindenburg". Tendo os corpos australiano e canadense como ponta-de-lança, esta ofensiva logrou êxito e conduziu ao armistício três meses depois. Foi, portanto, uma decisão sensata a sua escolha para dirigir a FIA na Segunda Guerra Mundial.

 

Sobre Blamey, Monash escreveu: "Algum dia, o conjunto de ordens que ele preparou para a longa série de operações militares que farão história, e nas quais colaboramos, servirá de modelo para o ensino ministrado nas Escolas de Estado-Maior. Eram ordens precisas, escritas em linguagem lúcida, perfeitas nos detalhes e sempre uma interpretação exata da minha intenção. Raramente eu achava que minhas ordens ou instruções poderiam ter sido mais bem expressas". Mas sua implacável determinação em vencer era da verdadeira tradição dos que herdavam o "complexo de Napoleão"; um obstáculo difícil para amigos e inimigos superarem - eles tinham simplesmente de aceitá-lo.

 

Na Grécia, ele foi o Comandante-Geral do Corpo Anzac, as duas divisões de australianos e neozelandeses reunidos pela primeira e última vez como corpo na Segunda Guerra Mundial, embora, como divisão australiana e divisão neozelandesa, combatessem com o 8° Exército em El Alamein. Blamey era bastante astuto para perceber desde o começo que a ajuda à Grécia continental não passava de gesto inútil, preferindo fazer uma resistência mais decidida em Creta e Rodes.

 

Após a Grécia, Blamey foi nomeado Comandante-Chefe em exercício no Oriente Médio, conservando a condição de Oficial-Comandante da FIA. Visitando a Austrália, em novembro de 1941, ele foi até a Malásia, onde ficou preocupado com a atmosfera reinante no seio da "Guarnição Indiana". Na Austrália, disse aos australianos que eles eram "um bando de gazelas num prado à margem de uma selva", que não compreendiam que a guerra contra a Alemanha tinha que ser encarada como uma autêntica batalha pela sobrevivência. Eles só deram crédito à afirmação de Blamey depois que o "perigo amarelo" tornou a guerra uma realidade.

 

A arremetida japonesa foi um êxito tão violento que, após a queda da Malásia, o Chefe do Estado-Maior-Geral, Sturdee, disse ao Primeiro-Ministro que havia somente uma "pequena probabilidade" de se defender o pais, mesmo que a FIA fosse trazida de volta. A perda da 8a Divisão na Malásia fora um golpe sem dúvida sério. Pouco depois do bombardeio de Darwin, Blamey fora chamado de volta. Com as comunicações aéreas interrompidas, ele voou até a África do Sul, onde embarcou no Queen Mary e, durante a viagem, ouviu a notícia de que MacArthur fora nomeado Comandante Supremo da Área do Pacífico Sudoeste. Sua reação foi citada em Blamey, livro escrito por John Hetherington: "Acho que isto é a melhor coisa que poderia ter acontecido à Austrália... MacArthur estará tão longe do seu próprio governo, que este não interferirá em nada, e quanto ao nosso governo, ele não lhe dará a mínima atenção". Apesar da sua simpatia por outro general que poderia ser controlado por políticos, a indicação de MacArthur, embora o houvesse desapontado, foi, em última análise, considerada por Blamey uma atitude política sensata, pois havia necessidade urgente de forças americanas e um chefe nominal americano não seria impopular junto às tropas australianas. Ele admirava os dotes militares de MacArthur. Ainda que por vezes viesse a entrar em conflito com ele, por causa de certo egocentrismo revelado por MacArthur, Blamey admitiria: "As melhores e as piores coisas que se ouvem sobre ele [MacArthur] são verdades".

 

A Primeira Força Imperial Australiana, que começou a formar-se no dia em que a Austrália declarou guerra, em 1914, havia formado cinco divisões, e quando a Segunda FIA foi formada, em 1939, o número das divisões começou em seis; assim, o primeiro batalhão da Segunda FIA foi o 2/1o Batalhão da 16a Brigada da 6a Divisão (havia 3 brigadas de infantaria por divisão). As cores das ombreiras continuaram sendo as mesmas, só que orladas de cinza, para denotar que se tratava da Segunda FIA. As divisões da Milícia foram numeradas a partir da 1a Divisão (uma unidade de treinamento) e preenchidas com voluntários e recrutas. Entre as guerras, os milicianos treinavam nos fins de semana e passavam uma quinzena por ano acampados. Foi das suas fileiras que saíram praticamente todos os oficiais e praças graduados da força voluntária da FIA. O soldo de um soldado raso era de cinco xelins por dia, mais um xelim que ficava retido até sua baixa, além de abonos para os casados e suas famílias; a taxa foi aumentada em mais um xelim em 1942.

 

 

Começa a luta em terra

 

No país, após os acontecimentos perturbadores de Darwin e Rabaul, o moral melhorara. Quando um minissubmarino entrou sorrateiramente por baixo da barreira flutuante da Baía de Sydney e, errando o USS Chicago com a parte mais mortífera de uma salva de torpedos, destruiu uma velha barca da marinha, não houve pânico. Ao serem Newcastle e Sydney atingidas por algumas granadas disparadas a esmo por outro submarino, muito pouca gente deixou as cidades e ainda menor foi o número dos que mandaram suprimentos enlatados para Alice Springs, no centro da Austrália, onde esperavam aguardar tranqüilos o fim da guerra. À medida que aumentava o número de soldados, da FIA e da RAAF, que voltavam, também aumentava a confiança em que os japoneses não conseguiriam nada se tentassem invadir. A Divisão Blindada - a única - estava recebendo seus tanques; novos Kittyhawks vinham chegando para substituir os destruídos, assim como mais bombardeiros e caças pilotados por americanos. Além disso, havia a 9a Divisão da FIA no Oriente Médio - uma reserva sólida, se sobrevivesse ao encontro com Rommel. Os caças Boomerang, de fabricação local, podiam decolar e voar "a cerca de" 480 km/h, bombardeiros também seriam construídos no país e um jovem chamado Evelyn Owen inventara uma metralhadora leve que suportava bem a umidade e a lama dos trópicos. Fuzis, metralhadoras, morteiros, artilharia e munição já estavam sendo produzidos em quantidade satisfatória nas fábricas locais, incumbindo-se a organização de potencial humano do governo da qualidade e da quantidade da produção. O racionamento de alimentos não chegou a tornar-se insuportável para os civis, enquanto que as tropas, sobretudo os americanos, recebiam alimentação saudável e farta. Menos, é claro, como sempre acontece, na linha de frente.

 

Quando os dois lados examinavam seu equipamento e reservas, as escaramuças de guerrilheiros começaram no Vale de Markham e na serra Owen Stanley.

 

Um inglês do Lancashire, o Cabo (mais tarde Major) McAdam, era funcionário florestal e membro dos Fuzileiros Voluntários da Nova Guiné quando foi recrutado para observador costeiro nos arredores de Salamaua. Ele, mais tarde, descreveu como evitaram os japoneses, que começaram a caçá-los um mês após o desembarque: "Só usávamos nossas próprias trilhas e tomávamos o máximo cuidado para nunca deixar marcadas as trilhas principais, de modo que, sempre que as examinávamos, elas eram um verdadeiro livro a contar-nos o que os japoneses estavam fazendo. Nossas trilhas eram tão invisíveis que somente um bom bosquimano poderia encontrá-las. Não deixávamos marcas naquela região avançada. Caminhávamos cuidadosamente sobre raízes e pedras; arrancamos os saltos das nossas botas. Quando necessário, andávamos com nossos nativos atrás de nós para que suas pegadas descalças cobrissem as que deixávamos... em pares de exploradores avançados, levávamos cada um uma pistola, uma boa e uma incerta. Nossa única defesa era a rapidez. Podíamos ver qualquer japonês antes que ele nos visse e se tivéssemos uma vantagem de dez metros, era-nos perfeitamente possível escapar... Durante os quatro meses em que estive ali, não conseguimos um único fuzil-metralhadora. Havia uns seis nos FVNG, mas não tínhamos nenhum". Os nativos que viviam perto do seu primeiro campo sofreram por ajudá-los, levando McAdam a instalá-lo em outro local, para evitar mais dificuldades para eles.

 

Em torno de Lae, além dos observadores costeiros, havia também membros dos FVNG ávidos por hostilizar o inimigo. O Cabo Clark entrou em Lae para uma inspeção mais minuciosa, rodeou o aeródromo e voltou trazendo etiquetas de bombas, para comprovar o reconhecimento que fez. O Vale de Markham era, obviamente, um lugar ideal para começar operações com alguns dos Comandos da FIA, dos quais já havia oito companhias formadas, com três delas em bom estado de treinamento. A 2/1a Companhia Independente estava espalhada desde as Ilhas do Almirantado até as Novas Hébridas, a 2/2a encontrava-se em Timor, a 2/3a na Nova Caledônia, a 2/4a no Território Norte, e a 2/5a foi mandada para Port Moresby, para a "Operação Markham". A 23 de maio, aquela companhia, um destacamento de morteiro e o QG do pequeno grupo chamado Força Kanga, sob o comando do Major Fleay, foram levados por transporte aéreo até Wau, onde recolheram um pelotão de fuzileiros, parte de duas companhias dos FVNG. A Força Kanga contava então 450 recém-chegados aptos e 250 FVNG cansados.

 

Eles planejavam um ataque a Salamaua. Para começar, estudaram o local tão de perto, que parecia estarem sondando uma aldeia amistosa. Reconheceram todas as trilhas que partiam dali e escolheram o aeródromo, os depósitos de suprimentos e a estação de rádio como objetivos principais. Um fazendeiro escocês de Java, Capitão Winning, dirigiu o ataque noturno, de quatro pelotões desfechado a 28 de junho. Eles mandaram pelos ares ou fuzilaram os japoneses que se encontravam em cabanas e em posições defensivas, cerca de 100 deles; destruíram três caminhões e trouxeram consigo algumas peças do equipamento japonês, alguns mapas, cópias de ordens e um diário. Para o ataque a Lae, dois homens dos FVNG conceberam a seguinte idéia: eles desceriam numa balsa o rio Markham, à noite, até perto de Lae e sabotariam o aeródromo. Entretanto, não lhes foi possível levar a balsa para perto da margem e, por correrem o risco de ser avistados pelo inimigo, eles emborcaram a balsa, para destruir os suprimentos que levavam, nadaram para a margem e voltaram a pé. Em outras incursões, conseguiu a Força Kanga, perdendo embora alguns homens, infligir ao inimigo baixas bem maiores que as por ela sofridas. Finalmente, porque faltassem aviões, a situação do suprimento piorou, fato que prejudicaria as operações durante os primeiros meses da campanha. Ameaçados pelos japoneses, os carregadores nativos começaram a manifestar medo de trabalhar para os australianos, e a falta de alimento em coisa alguma contribuiu para manter elevado o moral de qualquer guerrilheiro. Assim, quando um navio-transporte desembarcou mais inimigos e suprimentos em Salamaua, e quando, em agosto, cerca de 1.000 soldados fizeram um avanço de três pontas para a sua base, em Mubo, o Major Fleay recuou através da selvagem região de Kukukuku (e pelo não menos selvagem povo Kukukuku) até o começo da "Trilha Bulldog". Bulolo e Wau foram virtualmente oferecidas a um inimigo que, nervoso e desconfiado, demorou demais a ocupar as aldeias e a pista de pouso abandonadas.

 

Um caminho que os nativos há séculos usavam como elo de comunicação entre tribos de ambos os lados da serra Owen Stanley passou a ser a passagem principal da tropa de invasão japonesa. Eles a haviam traçado nos mapas, em seus planos, antes de desembarcarem na costa da Nova Guiné, mas provavelmente ignoravam que a trilha fosse tão difícil. Os australianos sabiam que as distâncias por essa rota primitiva não eram contadas em quilômetros, e sim em horas de subida e escalada, às vezes andando e às vezes arrastando-se; de Buna e de Moresby, a trilha sinuosa era cortada, a meio caminho, pela aldeia e pelo aeródromo de Kokoda, chamando-se por isso "Trilha Kokoda". Era impossível levar qualquer veículo pela trilha, que se formara pelo pisar dos passantes. A única maneira de percorre-la - pelas suas cristas, vales, colinas, montanhas, selvas e cursos de água - era a pé.

 

Japoneses e aliados cobiçavam a Baía de Milne e Buna, para a instalação de bases. Ignorando as advertências de que a área de Buna-Gona seria ocupada primeiro pelo inimigo, o QG-Geral estabeleceu em seus primeiros planos mudar-se para lá alguns dias depois da data em que os fuzileiros navais deveriam desembarcar em Guadalcanal, no começo de agosto. Um dos objetivos da tropa aliada na Nova Guiné era estabelecer uma pista de pouso, que pudesse ser usada em qualquer condição climática, nas planícies cobertas de capim a 24 km ao sul de Buna - em Dobodura - para uma ofensiva contra os japoneses em Lae e Salamaua. Aproveitando a oportunidade, 1.800 soldados japoneses desembarcaram entre Buna e Gona na noite de 21 para 22 de julho, tendo sobrevivido aos ataques a seus transportes desfechados por Fortalezas e Marauders. O bombardeio aliado durante esse período foi lamentável. Felizmente, os Aliados tiveram mais sorte na Baía de Milne, chegando lá primeiro, com a 7a Brigada de Milicianos e uma força de sapadores americanos que estabeleceram posições defensivas e começaram a cortar coqueiros e construir pistas de pouso. Uma destas ficou pronta no começo de agosto, podendo acomodar dois esquadrões de Kittyhawks e alguns bombardeiros de reconhecimento Hudson, da RAAF.

 

Quando a 7a Brigada ocupava a Baía de Milne, sob o comando do Brigadeiro Field, seu único oficial com experiência naquele tipo de guerra, um pequeno destacamento, a Força Maroubra, foi despachada de Moresby, pela trilha além de Kokoda, em missão de reconhecimento. Eles estavam numa posição que dominava a planície costeira do norte, sobre Buna e Gona, e o mar, mais além, quando os japoneses desembarcaram. O Coronel Yokoyama, oficial do grupamento de sapadores, conduziu alguns homens, por seu lado da "Trilha Kokoda", para fazer o reconhecimento da área e levantar o caminho que poderia levar o exército de Horii até Moresby. Seu movimento foi contestado pelos milicianos australianos, que logo se viram obrigados a recuar, com os experimentados japoneses infiltrando-se e flanqueando os inexperientes australianos que lhes faziam oposição, até que, pelo final do mês, a aldeia de Kokoda e seu aeródromo foram tomados. Tendo-se saído tão bem em apenas sete dias e com uma força relativamente pequena, o QG do 7° Exército japonês determinou a Horii que explorasse ao máximo o êxito obtido e a visível fraqueza dos australianos para fazer um ataque através da velha trilha. Kokoda tornou-se a base avançada do inimigo, recebendo suprimentos e reforços. Mais tropas foram, de Rabaul, para ali transferidas.

 

Este era um momento ideal para o General Hyakutake, Comandante do 17° Exército, iniciar a segunda fase do ataque de duas pontas que montara contra Port Moresby e mandar uma força de assalto para a Baía de Milne. Entretanto, ele recebeu dois choques que, afinal, não detiveram sua operação, embora o primeiro reduzisse o número de tropas que poderia empregar na Nova Guiné. A 1a Divisão de Fuzileiros Navais, do General-de-Divisão Vandergrift, desembarcou em Guadalcanal e tomou o Campo Henderson - uma ofensiva que Hyakutake não acreditava ocorresse tão cedo - e a Baía de Milne já estava ocupada por tropas aliadas. Ao largo da ponta sudeste de Papua fica uma pequena ilha que atraía Hyakutake devido à sua posição e ao seu nome - Samarai. Fazia parte de seu plano ocupá-la também, mas ele teria de concentrar suas forças contra quem construiu e fortificou a pista de pouso na Baia de Milne. Como medida de segurança, os rádios dos Kittyhawks da RAAF permaneciam calados desde sua chegada até 4 de fevereiro, quando uma patrulha de cinco aviões encontrou quatro Zeros e um bombardeiro de mergulho, com este último sendo derrubado. Um dos Zeros estava com o trem de aterrissagem abaixado, provavelmente porque o piloto nipônico supunha que a base fosse japonesa. Os Zeros escaparam aos Kittyhawks e sem dúvida foram os primeiros a comunicar o que se passava na Baia de Milne. A 26 de agosto, os japoneses iniciaram uma ofensiva geral na "Trilha Kokoda" e despacharam barcaças e navios carregados de tropas para tomar a Baía de Milne.

 

Na tarde de 4 de agosto, um batalhão estava realizando um exercício no seu acampamento, em Queensland, quando o motorista J. Ferguson chegou no carro do Estado-Maior, com uma mensagem do brigadeiro, solicitando a presença do comandante no QG da brigada. No caminho, houve a seguinte conversa:

 

Ferguson - É isto, senhor.

O Comandante - Isto o quê?

Ferguson - Vamos partir, senhor.

O Comandante - Partir para onde?

Ferguson - Nova Guiné, senhor.

O Comandante - E como é que você sabe?

Ferguson - Um dos cozinheiros da Divisão me disse, senhor.

O Comandante - Então deve ser verdade.

 

Este diálogo foi extraído da história do 2/10° Batalhão da FIA e é um verdadeiro exemplo da origem dos boatos. O 2/10° foi realmente para a Nova Guiné, de acordo com os boatos, com o 2/9° e o 2/12° que formavam a 18a Brigada. Com eles foi a 7a Brigada da Milícia, formada de Queenslanders da 9a, o 25° e o 61° Batalhões, cujo comandante, Brigadeiro Field, já havia comandado o 2/12°. Quando eles desembarcaram, no começo de agosto, o chão estava suficientemente firme para que os caminhões pudessem levá-los pela estrada que orlava a baía, passando pela pista de pouso, feita de placas de metal, até a área do campo. As estradas não duraram muito, pois eram feitas de coral mole, que se partia sob o peso dos veículos, de modo que foi preciso os homens transportarem o equipamento e os mantimentos às costas. A princípio, houve períodos de céu claro, embora a chuva, quando caía, fosse forte. A pista de pouso fora construída pelo 43° Regimento de Engenharia americano e pela 24a Companhia de Engenharia de Campanha, miliciana; uma segunda pista de pouso e as posições defensivas estavam sendo preparadas, com a infantaria trabalhando também na sua construção