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As selvas da Nova Guiné
constituem um dos piores palcos para operações militares: pântanos, floresta
inundada, serpentes, escorpiões, centopéias, formigas gigantes, mosquitos,
sanguessugas, malária, tifo. A luta nessa terra primitiva, de doenças
tropicais e clima martirizante, mataria 100.000 japoneses. E foram eles que
quiseram levar a luta para lá. A escrita na
parede
O êxito obtido pelo Japão em
Pearl Harbor foi o
detonador da explosiva expansão pelo Pacífico Ocidental e Sudeste Asiático.
Num ponto da orla da área da explosão estava a Nova Guiné - e a valiosa base
de Port Moresby. Para poderem contar com uma autêntica linha defensiva nessa
direção, era vital para os invasores que essa área fosse por eles tomada.
Mas, infelizmente para os nipônicos, os australianos se decidiram a
enfrentá-los ali mesmo. Antes do começo das hostilidades no Pacifico, a opinião dos
australianos sobre a probabilidade do envolvimento do Japão numa guerra
mundial, apesar das advertências dos líderes militares, que há quarenta anos
vinham chamando a atenção para o "perigo amarelo", refletia o ponto
de vista de todo o mundo ocidental. O que predominava era uma idéia otimista
baseada em concepção totalmente errônea do estado de apronto do Japão. Em
particular, a crença ridícula, embora tranqüilizante, de que a indústria
nipônica só produzia cópias medíocres das máquinas ocidentais desfrutava de
grande aceitação; e isto apesar das evidências desalentadoras do teatro de
guerra chinês. A verdade é que os japoneses possuíam uma marinha moderna e
maior que a Esquadra Americana do Pacifico, uma volumosa força aérea de
bombardeiros e caças brilhantemente pilotados - incluindo o respeitabilíssimo
Zero, e um exército eficiente e muito bem treinado. O choque paralisador da
desilusão que se corporificou quando, disciplinados e bem equipados, saíram
os nipônicos varrendo tudo à sua frente, numa Blitzkrieg oriental, despertou
o continente do doce sonho para o amargo pesadelo da realidade. Compreensivelmente, muitos australianos temiam que seu país
fosse o próximo da lista. Acontece que o Japão não tinha planos imediatos
para a invasão, mas os ataques ao continente poderiam ser facilmente
encarados como o começo de uma operação preliminar de debilitação, pois nada,
ao que parecia, se encontrava para além do alcance da ambição inflamada dos
conquistadores. A Nova Guiné e Port Moresby passaram a ser vistos como o
último baluarte da defesa. Para os japoneses, a operação seria da mesma natureza de tantas outras,
um procedimento que se tornara habitual. Não haviam eles derrotado milhares
de soldados aliados na Malásia, nas Filipinas e nas Índias Orientais
Holandesas? A Nova Guiné não constituiria exceção, seria, sem dúvida, fácil. Porém, vários fatores conspiraram para que fosse exatamente o
contrário. Havia as dificuldades da rota terrestre pela Serra Owen Stanley, o
único acesso prático a Port Moresby. Originariamente, em quase toda a sua
extensão, uma trilha de largura suficiente para permitir a passagem de apenas
um homem, ela atravessava a selva fechada, escalava montanhas e mergulhava em
ravinas. A simples manutenção dos suprimentos nessa "estrada" era
um problema. Outro, eram as dificuldades climáticas que, além do mais,
freqüentemente transformava a trilha numa torrente lamacenta que propiciava a
rápida deterioração do equipamento. Ainda outro, o tormento das pragas,
parasitas e doenças associadas ao clima, que transformavam combatentes aptos
em sombras trêmulas em poucos dias. E por último, mas igualmente importante,
embora as circunstâncias referidas fossem também adversas para eles, a
persistência, a coragem e a obstinação dos australianos em conter
resolutamente o avanço japonês, chegando mesmo a repeli-lo. Lembremo-nos,
também, de que nos primeiros e vitais estágios da guerra os australianos eram
soldados praticamente destreinados, lutando contra os experimentados e
confiantes vencedores de uma dúzia de campanhas. Só bem mais tarde é que
receberam a ajuda de veteranos da guerra do Oriente Próximo e de
consideráveis forças americanas. Durante toda a campanha da Nova Guiné, as forças aliadas
estiveram sob o comando supremo do General Douglas MacArthur. A narrativa
muito franca de John Vader mostra vividamente, na história aqui contada, os
perigos das incompreensões e conflitos entre comando e as tropas em campanha.
MacArthur, preocupado e, ao que parece, distanciado das peculiaridades
daquele campo de batalha e da natureza da guerra que ali se travava, insistia
em avanços espetaculares e enérgicos. No seu entender, os soldados e oficiais
hesitavam, não demonstravam a agressividade que ele exigia, e isto declarava
francamente. Na verdade, naquele tipo de guerra, quase toda verdadeira luta
de guerrilha, os homens estavam lutando - nas piores condições que se possa
imaginar - de maneira inteligente, econômica e com suprema bravura. Qualquer
ressentimento que pudessem demonstrar, por mais profundo, diante do que lhes
seria licito interpretar, como calúnia, dada a coragem com que se vinham
batendo, era sem dúvida perdoável. Entretanto, às críticas mais amargas, produto de opinião
malformada, responderam eles com seu magnífico espírito de luta e seu humor
lacônico. Eles foram em frente e deram as primeiras provas alentadoras de que
o inimigo podia ser não só detido, mas até repelido. O que isto produziu no
moral da tropa na Birmânia e nas outras áreas foi totalmente desproporcional
à importância estratégica dos acontecimentos e provocou um calafrio de
apreensão nas fileiras das forças armadas japonesas. A luta pela Nova Guiné começou com uma batalha naval - no Mar de
Coral - e as chances do Japão finalmente terminaram com outra - no Mar de
Bismarck. Os dois anos decorridos entre estes dois combates foram uma
miniatura do curso da guerra em geral. No começo, os Aliados eram fracos,
indefesos, quase, diante de um adversário muito bem preparado.
Implacavelmente, porém, foram revidando golpe por golpe à medida que se
robusteciam, até que afinal montaram grandes ataques frontais às posições
básicas do inimigo. Embora as questões às vezes fossem decididas por simples
punhados de homens, em comparação com o que se passava noutras frentes,
quando centenas de milhares de soldados se digladiavam, em nenhum outro
teatro de guerra houve mais dedicação altruista, mais atos merecedores de
elogios. |
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O Japão vai à guerra
Quando a guerra chegou às portas da Austrália, em dezembro de
1941, os chefes militares não se surpreenderam, pois havia quarenta anos
vinham prevendo uma corrida do "perigo amarelo" pelo Pacífico. O
australiano médio, porém, embora não se mostrasse de todo insuspeitoso, fora
levado a crer que um Japão militarmente fraco (assim pensavam eles) não se
envolveria numa guerra mundial. Eles ficaram bastante apreensivos quando os
aviadores japoneses afundaram a maior parte da Esquadra Americana do Pacífico
em Pearl Harbor. Semanas depois, transportes desembarcaram soldados,
violentos e implacáveis, nas ilhas ao norte do continente australiano. Um novo inimigo entrara na guerra e, de repente, ele não era
mais o soldadinho mal equipado, míope e amador que os australianos julgavam
que fosse, mas, ao contrário, um combatente decidido, capaz, valente,
disciplinado, bem equipado, bem alimentado, e apoiado, para surpresa de
todos, não por pequeninas belonaves e aviões antiquados, mas por uma moderna
marinha, maior que a Esquadra Americana do Pacifico, e por uma força aérea
bem volumosa, formada de bombardeiros e caças brilhantemente pilotados. A
notícia do avanço japonês provocou violento choque entre militares e civis do
país inteiro. O General Karl von Clausewitz (o Liddell Hart do século XIX), um
oficial prussiano presente a toda a campanha russa de Napoleão, disse que o
objetivo da guerra era derrubar o inimigo e ditar os termos, ou fazer algumas
conquistas na fronteira do país inimigo e conservá-las para fazê-las
funcionar como elemento de barganha no acordo de paz. Obviamente, os
estrategistas japoneses fizeram guerra pelo segundo objetivo. Mas se tivessem
seguido Clausewitz acuradamente, teriam dado mais atenção à delicada situação
oriunda daquele objetivo. "O conquistador, numa guerra", disse o
prussiano, "nem sempre tem condições de dominar completamente o
adversário. Muitas vezes, na verdade quase sempre, há na vitória um ponto
culminante... É necessário saber até onde a preponderância pode ser
alcançada, para não se ultrapassar aquele ponto e, em lugar de novas
vantagens, colher desastre... ultrapassar o ponto em que a ofensiva se
transforma em defensiva é mais que simples gasto inútil de poder, é um passo
destrutivo que provoca reação, e a reação, segundo a experiência, produz às
vezes os mais surpreendentes efeitos". Criou-se uma situação delicada na arremetida dos japoneses
contra a Nova Guiné e seus lideres não podiam crer que, tendo derrotado
dezenas de milhares de soldados aliados na Malásia, nas Filipinas e nas
Índias Orientais Holandesas, fossem retidos por forças australianas e
repelidos ao longo de uma estreita trilha na selva, cruzando a Serra Owen
Stanley, exatamente quando o Japão era do ponto de vista numérico bem
superior ao adversário. Essa extraordinária batalha pela Nova Guiné teve a duração de
dois anos, começando com escaramuças de guerrilheiros, realizadas por homens
inexperientes contra os adestradíssimos guerreiros do Japão, que eram, além
disso, apoiados por forças navais e aéreas superiores, e terminando quando os
Aliados puderam montar grandes ataques frontais contra as fortes posições
básicas do inimigo. Foi um exemplo local do curso da guerra ampla, com os
Aliados a princípio fracos e quase indefesos, e depois revidando à medida que
se forjava sua poderosa máquina de guerra. Ela começou com uma batalha naval
- no Mar de Coral - e as chances do Japão, finalmente, terminaram com outra -
no Mar de Bismarck. No período decorrido entre essas duas ações no mar, os
japoneses tentaram a conquista de seu último objetivo no Pacífico, Port
Moresby, enviando um exército por terra, que foi parado e gradualmente
obrigado a recuar pelas montanhas doentias e cobertas de selva. Num movimento
de flanco, na Baía de Milne, eles foram decisivamente batidos e empurrados
para trás. A campanha da Nova Guiné foi a guerra dos australianos, até que,
perto do final, ombro a ombro com eles estiveram seus aliados americanos. O pretexto dos japoneses para a expansão imperialista que
empreenderam era a ampliação da por eles inventada "Esfera de
Co-Prosperidade", o ideal de uma nova ordem no Leste. A princípio
denominaram o movimento de "Nova Ordem", mas acharam que o nome se
tornara impopular, por causa do uso que dele fizeram os nazistas, e aplicaram
o termo "Co-Prosperidade", supondo fosse mais atraente para os
povos do Sudeste Asiático. De qualquer modo, tudo não passava de um truque;
os nativos das mais antigas possessões coloniais do Japão - Coréia e Formosa
- há anos vinham sendo explorados sem que jamais recebessem quaisquer
benefícios da falsa co-prosperidade. E ninguém mais alimentava a ilusão de
que os japoneses lhe levassem riqueza. Ao contrário, todos lamentavam que o
Japão tivesse sido obrigado pelo Almirante Peary, em 1854, a abrir seus
portos e restabelecer relações com o mundo. Antes que os Aliados tentassem
inverter o efeito Peary, o Japão, sentindo escassez de divisas estrangeiras,
procurou consegui-las, vendendo produtos baratos a um mundo que se recuperava
de forte depressão - bens que todos ansiavam por adquirir, criando-se desde
então a crença de que os produtos japoneses eram baratos, mas de qualidade
inferior. Se fosse possível a efetivação da "Esfera de
Co-Prosperidade", tendo os japoneses como elemento dominante, estes
achavam, talvez corretamente, que a economia dos seus súditos melhoraria.
Como os alemães, os nipônicos tinham indiscutível talento para a organização
e as duas raças viam na disciplina importante componente da Natureza. Fora a ânsia de romper o bloqueio ao petróleo e outras
matérias-primas imposto pela Grã-Bretanha, Estados Unidos e Holanda, e o
desejo de se expandir à força para a "Região Sul", o Movimento da
Federação do Leste Asiático (Toa Renmei Undo) estabelecera desde o início de
sua criação, pelo General-de-Divisão Kanii Ishihara, na Manchúria, em 1931,
doutrinas expansionistas. Seu plano visava somente o domínio da Manchúria e
da China e, ao impor a "Federação" à Manchúria, o resultado foi o
Incidente da China, guerra que o Japão poderia ter perdido simplesmente
devido ao bloqueio feito pelos Aliados. São do Coronel Masanobu as seguintes
palavras: "O cordão umbilical do regime de Chunking o liga à Inglaterra
e aos Estados Unidos. Se ele não for logo cortado, a guerra sino japonesa se arrastará
interminavelmente". Contudo, o Partido da Guerra Japonês há muito
cobiçava a riqueza dos países do Pacífico sudoeste e seus agentes, bem antes
da declaração do conflito, puseram-se a planejar a forma de conquistá-la.
Para eles, a riqueza da China era seu potencial humano; as Índias, a Malásia,
as Filipinas e Bornéu tinham riquezas no subsolo e na superfície. Esperando
e, sem dúvida, rezando para que a Alemanha vencesse, os guerreiros japoneses
decidiram arriscar tudo e agarram, de início, um bom bocado. Enviariam em
seguida suas tropas, com experiência adquirida na luta na China, às terras do
eterno verão e expulsariam os 300.000 brancos que estavam
"oprimindo" 100.000.000 de nativos e que, segundo também esperavam
e, sem dúvida, para tanto rezavam, lhes dariam enorme poderio em troca da
coalizão. E foram preparando-se cuidadosamente. O Estado-Maior de
Planejamento do exército viveu quase um ano em condições tropicais
primitivas, onde desenvolveram táticas e experimentaram armas e equipamento;
o resultado foi um meticuloso planejamento de grande originalidade. Para o
soldado comum, publicaram normas explicando todo o desdobramento da guerra -
os vários estágios, viagens, desembarques, ação, sobrevivência e higiene. A
pergunta: "Por que temos de lutar?" era cinicamente respondida:
"Para obedecer a augusta vontade do Imperador, que é estabelecer a paz
no Extremo Oriente". Salientava-se que a malária era o Grande Inimigo:
"Tombar sob uma rajada de balas é morrer como herói, mas não há glória
alguma em morrer em virtude de doença ou acidente, por desatenção à higiene
ou falta de cuidado... em todas as campanhas que tiveram lugar em zonas
tropicais, desde os tempos antigos, muito mais gente morreu em virtude de
doenças do que em batalhas". Ensinaram-lhes a usar um pano sob o
capacete, para absorver o suor e impedir que escorresse sobre os olhos;
também a evitar o clarão do sol e mantê-lo o máximo possível às costas; a
lembrar-se de que as balas percorrem distância bem maior em ar aquecido; a
flanquear o inimigo em todas as oportunidades possíveis; a controlar os
pontos onde havia água e a desinfeta-la com cloreto de cálcio; a comer arroz
puro cozido e ameixas salgadas e a pôr sal no chá. Alimentos secos e
enlatados seriam distribuídos e os estrategistas da selva descobriram uma
substância, que distribuíam em tabletes, que protegeria o arroz cozido que
cada homem levaria como ração principal (e, de algum modo, descobriram também
que era perigoso tomar leite e bebida alcoólica quando comiam mangas); e que
um só caso de malária num grupo era uma fonte perigosa de infecção para
todos, pela ação do mosquito transmissor da moléstia. Desde as bicicletas
para os deslocamentos na Malásia aos tabletes para conservação do arroz, tudo
foi disposto em táticas muito sensatas. A grande estratégia era a parte mais
vital e sensível do plano geral, que, em suma, era o seguinte: os
planejadores estabeleceram um plano de ataque simultâneo a Pearl Harbor,
Malásia e Filipinas, seguindo-se um avanço para as Índias Orientais Holandesas,
ocupação da Birmânia e, por último, a garantia da "Região Sul",
formando-se ali um poderoso perímetro defensivo que ia desde a fronteira
indiana, passava pela Birmânia, pela Malásia, por Sumatra, Java, Timor, Nova
Guiné e pelo Arquipélago de Bismarck, até as ilhas Marshall e Gilbert,
cruzando a ilha Wake, indo terminar nas Curilas. A Austrália ficaria isolada,
pelas belonaves e forças aéreas japonesas, de qualquer ajuda imediata dos
Estados Unidos. Os nipônicos realizaram seus planos praticamente dentro do
cronograma preparado, sendo apenas frustrados no concernente à tomada de Port
Moresby e, também, pelos fuzileiros navais americanos, que passariam à
ofensiva nas Salomão, o grande grupo de ilhas a leste do arquipélago
capturado. Entrelaçando as ilhas com linhas de invasão, penetrando entre a
Indochina e as Filipinas, Bornéu e Malásia, Sumatra e Java, Bornéu e as
Celebes, atacando as principais bases aliadas com apenas um quarto dos
efetivos do seu exército, os japoneses - em cem dias - desmantelaram o poderio
aliado no Extremo Oriente; outra quarta parte das suas forças estava
preparada para o ataque à Rússia, pela Sibéria; a metade restante
encontrava-se em luta na China. Após mais cem dias, os generais e almirantes
inimigos, se quisessem ser honestos consigo mesmos, veriam que a vitória para
eles era totalmente impossível, a menos que a Alemanha os pudesse ajudar.
Mas, já então, a Alemanha estava contida. Os japoneses eram só confiança, confiança excessiva. Seu 25o
Exército avançou 1.000 km e conquistou a Malásia em setenta dias, façanha sem
paralelo na história militar. Cingapura, sem quaisquer defesas de retaguarda,
caiu ante uma blitzkrieg montada em bicicletas. O Alto Comando japonês
atribuiu o êxito ao ardor patriótico dos oficiais e soldados da linha de
frente e, uma vez mais, foram excessivamente confiantes, acreditando que
esses mesmos oficiais e soldados jamais cessariam de derrubar o que
encontrassem à frente. A campanha da Nova Guiné surgiu como resultado da
determinação persistente dos líderes japoneses em capturar um pequeno porto,
determinação que se foi transformando em mania à medida que o projeto deixava
de ser uma ação estratégica lógica para constituir um jogo. O embargo dos Aliados ao fornecimento de petróleo, ferro e aço
ao Japão também foi observado pela Austrália. Em 1938, o Primeiro-Ministro
Robert Menzies consentiu em algumas remessa, de sucata de metal para os
japoneses, sendo, por isso, apelidado de "Bob Ferro-Gusa" pelos
estivadores. Desde que os japoneses derrotaram a Rússia, na guerra de 1904-5,
os australianos passaram a desconfiar de que viessem os nipônicos a tentar
medidas expansionistas contra a China. Aquela guerra mudara a atitude
antimilitarista do povo, que, contudo, permanecia decidido a não participar
de qualquer empreendimento imperialista em que a Grã-Bretanha viesse a
envolver-se. O treinamento militar compulsório para a defesa. interna foi
oficializado, criando-se para tanto uma milícia; mas, caso a Austrália viesse
a envolver-se em guerra no além-mar, o serviço militar seria exclusivamente
voluntário - promessa que o Parlamento não quebrou até que os australianos
foram, ainda que de má vontade, envolvidos na guerra do Vietnã. Naqueles primeiros dias do "armar ou não armar", um
semanário literário e satírico de Sydney, The Bulletin, foi um defensor
persistente da vigilância contra os perigos que podiam vir da Ásia. Em 1917,
um dos colaboradores do aludido semanário, C. J. Dennis, escreveu um poema
profético sobre o comércio do seu país com o Japão; chamava-se The Glugs of
Gosh - a história de um povo que trabalhava o dia inteiro para o bem de Slosh
e sofria a hipocrisia e a impostura que as comunidades normalmente sofrem nas
mãos dos políticos. Os vilões eram os Ogs, o povo de Podge. e, nessa
história, Dennis advertiu contra a compra de quinquilharias ao Podge (Japão)
e a venda de matérias-primas de munição. Os Glugs trocavam pedras por
relógios de corda para oito dias, máquinas de costura, calandras, tesouras e
meias e, com efeito, um dia as pedras lhes foram jogadas de volta. Mas,
felizmente para os Glugs, os relógios e as máquinas de costura também podiam
ser atiradas. O Japão foi aliado da Grã-Bretanha na Primeira Guerra Mundial,
quando os australianos passaram pela primeira grande prova nos campos de
batalha. Eles lutaram bem, ainda que sem dramaticidade, na Guerra dos Boers e
ficaram satisfeitos com suas realizações na Primeira Guerra - em Gallipoli,
no Sinai e nas trincheiras da França. Eles haviam corrido a alistar-se em
1914, fazendo o mesmo, embora não em tão grandes números, em 1939. Uma
divisão da FIA (Força Imperial Australiana), a 6a - prosseguimento
numérico da FIA da Primeira Guerra - foi treinada e aprontada na Palestina,
quando a Itália transformou a África do Norte num campo de batalha,
declarando guerra aos Aliados em junho de 1940. Na própria Austrália, a situação da defesa foi drasticamente
alterada, ao serem os exércitos britânico e francês derrotados em junho de
1940. Naquela época, britânicos e australianos solicitaram aos Estados Unidos
apoio naval americano para Cingapura e maior pressão contra o Japão. Os
americanos responderam que sua marinha já estava totalmente ocupada com as
suas defesas. Dois meses mais tarde, Churchill cabografou-lhes, dizendo que
se houvesse por parte do Japão qualquer tentativa de invadir a Austrália ou a
Nova Zelândia, a Grã-Bretanha reduziria sua participação no Oriente Médio e
despacharia para seus domínios a esquadra do mediterrâneo e demais forças
consideradas necessárias à sua defesa e manutenção. Como resultado dessa
mensagem, uma segunda divisão australiana, a 7a, foi
confiantemente despachada para o Oriente Médio e, quando representantes da
Austrália, Birmânia, Índia e Nova Zelândia conferenciaram em Cingapura, com a
presença de um observador americano, tomou-se a decisão de reforçar a
Malásia. Mais tropas, incluindo a 8a Divisão da FIA, foram
mandadas para lá e a força aérea foi reforçada. Entrementes, a 6a
Divisão entrara em ação no deserto norte-africano e, semanas depois, parte da
7a e da 9a haviam iniciado a prolongada e gloriosa
resistência em Tobruk. O Primeiro-Ministro Menzies começava a pensar que a Austrália
confiara demais na Grã-Bretanha, e a demonstrar preocupação com o fato de o
governo britânico parecer desinteressado com a sorte de Cingapura. Na
verdade, os Chefes de Estado-Maior britânicos estavam muito preocupados com
ela. Vários militaristas japoneses admiravam a liderança e o caráter de
Churchill que, acreditavam, "conhecia o misticismo Zen". Com isso,
ao que parece, Menzies não concordava, pois chegou a informar ao Gabinete da
Guerra Australiano que "o Sr. Churchill não tem idéia dos Domínios
Britânicos como entidades separadas e que, quanto mais distante o problema do
coração do Império, menos o preocupa". Isto foi em meados de 1941,
oportunidade em que o governo americano retirou Douglas MacArthur da reforma
e lhe passou o comando das forças do exército americano no Extremo Oriente, e
quando os bens japoneses nos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Holanda foram
congelados. A incerteza da situação da guerra e a decrescente popularidade de
Menzies provocaram uma mudança do governo, em outubro daquele ano, assumindo
John Curtin, líder do Partido Trabalhista, o cargo de Primeiro-Ministro. Tendo combatido o alistamento compulsório para o serviço interno
dois anos antes, Curtin viu-se obrigado a aumentar o prazo de prestação de
tal serviço e a tomar outras decisões impopulares sobre a defesa interna. Era
evidente que a Austrália podia ser invadida em qualquer lugar da sua longa
costa, de modo que as áreas principais a serem defendidas, excetuando-se
lugares como Port Darwin, no norte, eram as regiões industriais do sudeste,
que se estendiam desde Newcastle, a 160 km ao norte de Sydney, até Port
Kembla, a 240 km ao sul. Claro que umas poucas divisões de milicianos e uma
pequena força aérea, mesmo que reforçadas cem vezes, não poderiam defender
todo um continente, de modo que se planejou deixar o norte entregue à própria
sorte em caso de invasão; o Trópico de Capricórnio, logo ao norte de
Brisbane, seria a linha de defesa, a "Linha Brisbane". Boiadeiros,
a gente do interior, transfeririam do norte o gado e os moradores das regiões
rurais seriam levados para as cidades. Mas os êxitos japoneses mudariam todos
esses planos e a guerra seria travada onde quer que fosse possível conter o
inimigo, quanto mais longe da Austrália, melhor. Os Aliados não saberiam que
o Japão não tinha quaisquer planos, pelo menos a curto prazo, para a
Austrália. Mar de Coral e Nova Guiné
O ataque aéreo a Pearl Harbor, que não foi nenhum exercício,
afundou ou avariou couraçados, cruzadores e destróieres. Estes não seriam
entretanto as armas navais decisivas da guerra do Pacífico, mas os
porta-aviões que, no momento em que a esquadra aérea de Nagumo atacou, não
havia nenhum no porto. O USS Lexington, ali baseado, estava em missão de
transporte de aviões para Midway - medida que muito contribuiu para o
resultado da importante batalha que se desenrolaria naquela ilha em junho e
que, felizmente, poupou o porta-aviões, que fez relevante contribuição - mas
fatal para ele - para a Batalha do Mar de Coral. Nessa guerra oceânica, um
porta-aviões valeria dez couraçados. Na Europa, onde a superioridade aérea
era de suma importância, as forças de ar dispunham de aeródromos, ao passo
que no Pacífico os Aliados tinham os conveses dos porta-aviões, e o lado que
mantivesse o maior número de conveses poderia destruir a força aérea
adversária. A 7 de dezembro, a Austrália e a Nova Zelândia estavam em
situação desesperada. Praticamente todos os seus marinheiros, soldados e
aviadores treinados se encontravam no além-mar; havia poucos aviões e nenhum
navio de linha em condições de impedir um ataque realmente forte desencadeado
pelo inimigo. O governo australiano tentou obter com urgência a ajuda da
Grã-Bretanha, esperando uma reação imediata e benéfica da "mãe
pátria", em cuja defesa os australianos (e neozelandeses) já se haviam
sacrificado no mar, em terra e no ar, em contribuições tão magníficas quanto
as feitas por quaisquer membros da Comunidade que acorreram em seu auxílio.
Uma divisão britânica provavelmente se teria saído bem na primeira campanha
do deserto, quando a Itália perdeu temporariamente a Líbia - e mais de
100.000 soldados - mas acontece que ela foi vencida pela 6a
Divisão australiana, apoiada por tanques e canhões britânicos; e aquela
divisão lutara na Grécia e em Creta; a 9a defendera Tobruk e a 7a
Brigada da 6a ajudara a destruir o exército de Vichy, na Síria. A Austrália esperava esforço recíproco da Grã-Bretanha, mas as
dificuldades eram grandes demais, as distâncias, extensas demais, os
suprimentos, escassos demais e a importância estratégica da área parecia
insignificante. Churchill declarou guerra ao Japão antes que Roosevelt o
fizesse. Roosevelt decidira pedir ao Congresso que declarasse guerra ao
Japão, mas não à Alemanha. Então, declarando guerra aos Estados Unidos, a 11
de dezembro, Hitler deixou Churchill imensamente satisfeito. Mais tarde,
lembrou ele, "eu pensei num comentário que Edward Grey me fizera há mais
de trinta anos - que os Estados Unidos são como uma caldeira gigantesca.
Depois de se acender o fogo debaixo dela, não há limite para a força que pode
gerar. Eu estava saturado de emoções e sensações, deitei-me e dormi o sono
dos salvos e agradecidos". Em Tóquio, o General Tojo não deveria mais
ter outra noite de sono tranqüila, pois entrara numa guerra total com um
propósito limitado, e a possibilidade de vitória dependia de um bocado de
devaneios. A Austrália voltou-se para os Estados Unidos. O inimigo comum
estava pronto para atacar, ameaçando os dois paises e particularmente as
ilhas - desde as Filipinas até a Nova Guiné - que até bem pouco eram
consideradas uma barreira. Seus interesses comuns coincidiam. O Gabinete da
Guerra acreditava que, após as Índias Orientais, a Austrália seria o próximo
objetivo lógico; os Estados Unidos ansiavam por manter a Austrália, que
funcionaria como base de abastecimento das forças americanas nas Filipinas.
Assim, duas semanas após a declaração da guerra, Washington e Canberra
concertaram um acordo de ajuda mútua; 4.500 homens - poucos deles tropas de
combate - estavam a caminho, para desembarcar a 22 de dezembro. Uma divisão
de infantaria, a 41a, foi despachada em fevereiro e, pelo final de
maio, seguiram-se 36.000 soldados de apoio. Todos eles teriam chegado tarde
demais se os japoneses tivessem mantido o impulso para o sul; de qualquer
maneira, tarde demais para impedir um desembarque no norte da Austrália. Caso
isto houvesse ocorrido, toda a ajuda teria sido desviada para a Nova Zelândia.
Mas, como a invasão não ocorreu, a Austrália e a Nova Zelândia tornaram-se
parceiros firmes dos Estados Unidos e concordaram com a criação de uma Área
Anzac, sob um Comandante Supremo americano. O General MacArthur, comandante
da defesa final em Bataan, recebeu ordens para se retirar e, viajando numa
torpedeira e, posteriormente, numa Fortaleza Voadora, levou consigo seu
Estado-Maior, mulher e filho para Darwin, onde, a 17 de março, fez sua famosa
profecia: " . . . Consegui sair e voltarei". Ele foi recebido com
grande pompa; era um herói que ali fora para ajudar os australianos a repelir
o inimigo. Entretanto, quando o Comandante da 8a Divisão FIA,
General Gordon Bennett, escapou sem ter recebido ordens para tal, na época em
que o Comandante-Geral de Cingapura decidiu render-se, fugindo apenas para
colocar seus superiores a par dos pormenores do sucedido, foi severamente
repreendido pelo esforço que fez. Ele deveria ter ficado com seus soldados,
verberaram os duros e influentes generais e políticos em seu país. O primeiro incidente de perigo real para a Austrália ocorreu a
23 de janeiro, quando a guarnição, de 1.400 australianos, de Rabaul foi
vencida por força integrada por 5.300 nipônicos. Kavieng, na Nova Irlanda, e
o resto da Nova Britânia foram ocupados, no avanço do inimigo, por uma
avalancha de tropas que parecia inesgotável. Elas se haviam estendido por
milhares de quilômetros, a partir das suas ilhas metropolitanas, com seus
navios e aviões afundando belonaves aliadas e derrubando quase todos os aviões
aliados que encontraram no caminho. Com tal rapidez de expansão, era-lhes
muito fácil, protegidos, durante o deslocamento, por cruzadores e
destróieres, e sem muito receio de interceptação, desembarcar em ilhas
indefesas ou apenas parcialmente defendidas. O segundo incidente pareceu a
principio muito mais perigoso e, por certo, foi mais dramático: Darwin, base
naval e aérea situada na costa noroeste da Austrália, foi bombardeada a 19 de
fevereiro. Nagumo, o Almirante japonês que dirigira o ataque a Pearl
Harbor, com os porta-aviões Akagi, Hiryu, Kaga e Soryu, conduziu a mesma
força-tarefa para o Mar de Banda, perto de Timor, e desfechou o ataque em
manhã clara e ensolarada. Suas tripulações aéreas eram a elite das forças de
ar do seu país, e seu bombardeio, de mergulho e nivelado, era bem mais
preciso que o de qualquer força aérea aliada, na época. Os aviões da Real
Força Aérea Australiana estacionados em Darwin compreendiam 11 bombardeiros
Hudson tripulados e 14 monomotores de treinamento Wirraway. Por puro acaso,
também havia 10 P-40 da Força Aérea Americana na base, onde pousaram, para
reabastecer, a caminho do inútil vácuo de Java. No porto estavam o destróier
americano Peary, o tênder de hidroplanos americano William B. Preston, duas
chalupas e cinco corvetas da Real Marinha Australiana, além de 38 outros
navios mercantes e de guerra, sendo o maior o transporte de 12.000 toneladas,
o Meigs. Além disso, havia dois aerobotes Catalinas da marinha americana e um
aerobote quadrimotor, Qantas. Quando os bombardeiros e os caças Zero se aproximaram, havia
cinco P-40 patrulhando nos arredores da base, enquanto o Comandante do
Esquadrão, Major Pell, pousara os outros cinco para reabastecimento; eles
decolaram rapidamente, para juntar-se aos demais e foram destruídos quando
levantavam vôo. Quatro dos P-40 que se encontravam no ar foram derrubados,
escapando apenas um, internando-se nas nuvens após haver destruído dois
Zeros. Esta oposição praticamente não afetou o decidido ataque do inimigo
enquanto seus aviões bombardeavam e metralhavam o porto e a cidade. O Meigs e
sete outros navios mercantes foram afundados ou encalhados, o navio-hospital
da Real Marinha Australiana, o Manunda, foi avariado, o Peary afundado; a RMA
perdeu um lugre e um barco de suprimento; os Catalinas foram destruídos (o
aerobote Qantas foi protegido pela fumaça de um navio em chamas) e quando os
incursores se retiravam, um navio que se encontrava, em chamas, atracado ao
cais foi pelos ares, por efeito da explosão das bombas de profundidade que
carregava. Duas horas depois, formações de bombardeiros de alto nível,
baseados em terra, aproximaram-se, vindos de direções opostas e, ao reunir-se
sobre a base da RAAF, soltaram suas bombas. Os hangares principais, os
armazéns, as cabanas e galpões foram destruídos ou danificados. Ao todo,
entre civis e militares, houve 240 mortos e 150 feridos. Os japoneses
perderam 15 aviões. A Austrália acreditava que o ataque aéreo seria seguido do
desembarque de uma força de invasão, descendo o moral do povo a ponto muito
baixo. Na realidade, Nagumo estava apenas destruindo as belonaves e a força
aérea de Darwin, enquanto soldados japoneses desembarcavam em Timor, a ilha
luso-holandesa situada a 640 km a noroeste dali, onde um grupo de
australianos continuaria lutando como guerrilheiros. O nervosismo da
Austrália continuou até que os batalhões avançados da 6a e da 7a
Divisões retornaram do Oriente Médio, com algumas unidades indo logo para
Darwin e Perth, enquanto as outras se preparavam para lutar nas selvas do norte.
Houve outros ataques aéreos contra Darwin, Wyndham, o pequeno porto e base
aérea em Broome, e as estações ilhoas de Katherine e Daly Waters, mas a
ameaça de invasão pareceu terminar, e o norte foi reforçado com aviões
Kittyhawks da RAAF e uma brigada da FIA. O Almirante Yamamoto, chefe do planejamento dos ataques no
Pacífico, deve ter achado que Port Moresby seria fácil, como tantas outras
invasões contra pontos pouco defendidos o haviam sido; ele tinha Rabaul como
base aeronaval e seus transportes podiam navegar livremente por quase todos
os mares do Pacífico Ocidental. De Port Moresby, Rabaul e das Salomão (e,
quando pudesse tomá-las, de Nova Caledônia, Samoa e as Fiji), ele poderia
estender as operações aéreas contra o norte da Austrália, patrulhar as rotas
marítimas dos seus acessos orientais - uma tentativa tíbia de isolar o pais
dos suprimentos americanos - e, com sorte, obrigar a Austrália a sair da
guerra. A confiança de Yamamoto era intensificada pelo fato de até 1o
de maio suas perdas haverem sido de apenas 23 belonaves - nenhuma delas maior
que um destróier - e 67 transportes. Os Estados-Maiores da marinha e do
exército faziam seus planos, mas eram sempre influenciados por Yamamoto,
Chefe da Esquadra Combinada japonesa. Ele previa que uma luta prolongada com
os Estados Unidos seria fatal e a maneira óbvia de conservar suas conquistas
seria através do afundamento da marinha americana. Para isto, ele precisava
primeiro destruir os porta-aviões, e esta foi a razão que apresentou para a
captura de mais bases ilhoas, especialmente Johnson e Midway, que ficavam a
distância de bombardeio do Havaí, e defendeu operações da esquadra que
provocassem a saída dos porta-aviões americanos, para que pudesse afundá-los. Irritantemente, um esquadrão de bombardeiros Mitchell B-25,
dirigido pelo Tenente-Coronel James Doolittle, atacou Tóquio, decolando do
porta-aviões USS Hornet, a 18 de abril. Ainda mais irritante, a marinha
americana interferiu na "Operação MO", o plano para ocupar Tulagi,
nas Salomão, que deveriam ser usadas como base japonesa extra para cobrir o
desembarque em Port Moresby. Isto exigia que 11 transportes desembarcassem o
Destacamento do Exército dos Mares do Sul e uma força de desembarque naval;
um grupo de apoio também estabeleceria uma base nas Luisíadas. A
interferência foi causada pelo Almirante Chester Nimitz, Comandante-Chefe da
Esquadra Americana do Pacífico (CINCPAC), que tinha um trunfo: O Serviço de
Inteligência Naval do Havaí decifrara o código naval japonês (trabalho muito
mais difícil do que interpretar a escrita cuneiforme ou os hieróglifos) e os
monitores simplesmente ouviram as demoradas discussões japonesas sobre seus
planos, que incluíam o movimento de um porta-aviões leve, transportes de
guarda e dois porta-aviões pesados de uma força de ataque prestes a entrar no
Mar de Coral, comandada pelo Almirante Inouye. O CINCPAC ponderou,
acertadamente, que os japoneses pretendiam tomar Port Moresby. Nimitz combinou duas forças-tarefas, centradas no Lexington e no
Yorktown e seus cruzadores pesados de apoio e destróieres, comandados pelos
Almirantes Fitch e Fletcher (que recebera o comando tático), para se
encontrarem com os cruzadores australianos, Australia e Hobart, comandados pelo Contra-Almirante Crace, que também recebeu o USS Chicago e
o destróier Perkins. Eles foram mandados para as águas do Mar de Coral, que
se estendem da ponta leste da Nova Guiné à Nova Caledônia e banham a costa
nordeste australiana - onde os porta-aviões se reabasteceram a 1° de maio.
Dois dias depois, Fletcher foi informado de que os japoneses estavam
desembarcando em Tulagi, que fora uma base de reabastecimento dos Catalinas
da RAAF e, na manhã seguinte, um ataque feito pelos bombardeiros de mergulho
do Yorktown avariou um destróier inimigo e afundou vários caça-minas e
barcaças - uma pequena vitória. O porta-aviões partiu a reunir-se com o
Lexington. Os japoneses pararam de tagarelar pelo rádio e uma nuvem de
mistério cobriu a força invasora; foi difícil encontrá-la. A 6 de maio,
japoneses e aliados ouviram a notícia da rendição do último baluarte,
Corregidor, nas Filipinas; na manhã seguinte teve início a batalha naval.
Aviões de exploração dos porta-aviões japoneses encontraram o destróier
americano Sims, o primeiro navio a ir a pique, e o navio-tanque americano
Neosho foi fatalmente bombardeado. Fletcher destacara os navios de Crace para
tentar interceptar a força de invasão e os cruzadores aliados resistiram a
ataques dos japoneses e, por engano, de bombardeiros americanos, sem porém
travar contato com os transportes. Inouye vira o perigo e mandara que os
transportes invasores se afastassem até que se decidisse a batalha entre os
porta-aviões. Os aviões dos dois porta-aviões americanos deram com um
porta-aviões japonês, o Shoho, afundando-o, perdendo-se, no processo, seis
aparelhos. O Comandante Dixon, líder dos bombardeiros de mergulho Dauntless
do Lexington, radiografou seu famoso relatório: "Risque um
porta-aviões!" A ação foi interrompida, perdendo-se o contato, durante
as manobras, por efeito do tempo, muito fechado. Somente na manhã do dia 8 é
que os porta-aviões adversários se encontraram: o Shokaku e o Zuikaku contra
o Lexington e o Yorktown, contando os japoneses com duas vantagens: torpedos
superiores aos dos adversários e tripulações aéreas mais experimentadas. O
Shokaku foi incendiado e retirou-se para Truk. A seguir, o Yorktown foi
atingido, sofrendo apenas danos leves, o mesmo acontecendo com o Lexington,
mas as avarias por este sofridas, causadas por um torpedo, lhe foram fatais,
pois os vapores de combustível incendiaram-se, provocando uma série de
explosões que, uma hora depois, acabou com a belonave. Naquela noite, o que
restava do Lexington foi posto a pique, por torpedos do destróier americano
Phelps. Os americanos haviam perdido mais navios que os japoneses, que
perderam um porta-aviões e tiveram outro posto fora de combate por bom
período de tempo. Esta foi a primeira batalha entre porta-aviões da história naval
e, no sentido físico, pode ser considerada um "empate". Houve,
porém, uma vitória: a abordagem naval japonesa a Port Moresby foi impedida e,
embora as tropas que se encontravam nesses navios viessem mais tarde a
combater os australianos e americanos, a base vitalmente importante no sul da
Nova Guiné experimentou uma trégua. O resultado da Batalha do Mar de Coral
também teve efeito animador no ânimo do povo da Austrália, que esperava um
desembarque bem mais perto da sua terra desde o bombardeio de Darwin. O moral
dos australianos subiu muito mais ainda - assim como o de todos os Aliados -
quando quatro porta-aviões japoneses que haviam participado dos ataques a
Pearl Harbor e a Darwin (embora ninguém soubesse então quais eram os
porta-aviões) foram afundados pelo Hornet, Enterprise e Yorktown na Batalha
de Midway, nos dias 4 e 5 de junho. Infelizmente, o bravo Yorktown perdeu-se
naquele explosivo encontro. Como resultado dessa batalha, o equilíbrio de
poder ajustou-se um pouco. Os japoneses, porém, ainda eram particularmente
fortes em cruzadores e destróieres que, além de protegerem os transportes e
navios mercantes em missões de invasão, também podiam transportar tropas. Frustrados na tentativa de tomar Moresby desembarcando numa
praia próxima, os japoneses decidiram tomá-la por terra, descendo pelo lado
norte da Guiné onde, em Lae e Salamaua, haviam desembarcado a 8 de março para
estabelecer bases a 320 km diretamente ao norte de Port Moresby. Os poucos
homens de comunicações da RAAF e voluntários locais, muito sensatamente,
retiraram-se para as colinas, a fim de se manterem em vigília, observando o
trabalho, do inimigo, de preparação de um aeródromo em Lae e, também, de
envio de grupos de tropas ao longo do vale do rio Markham. Os
"olhos" dos Aliados eram alguns aviões de reconhecimento que
operavam de bases em Moresby, Darwin e Townsville, bem como uma coleção
extraordinária de observadores espalhados pelas ilhas. Os observadores
costeiros se revelariam de inestimável utilidade nas operações terrestres,
navais e aéreas futuras, sobretudo em Papua-Nova Guiné e nas Salomão. A formação de um serviço de observação costeira foi uma das mais
simples e mais práticas idéias adotadas em toda a história militar para
manter sob vigilância pessoal o inimigo; sistema este realçado pelo
desenvolvimento dos aparelhos de rádio. Uma prerrogativa naval, a observação
costeira fora uma tarefa emocionante e agradável realizada pelos Lobinhos na
Grã-Bretanha durante a Primeira Guerra Mundial; guardando as praias e
descobrindo movimentos de traineiras, hidraviões avariados, minas flutuantes
e vôos de Zepelins. Aqueles meninos brincavam na orla da guerra; mas, para os
adultos, a observação costeira nas Ilhas do Pacífico era um jogo de vida ou
morte, um dos deveres de tempo integral mais desagradáveis e perigosos. Já
houvera uma guerra na Nova Guiné, em 1914, quando uma pequena força
australiana derrotou uma igualmente pequena força de alemães em território
sobre o qual exerciam os germânicos mandato. No fim daquele entrevero, a Real
Marinha Australiana montou um serviço de observação costeira entre os civis
do continente, formando o núcleo de uma unidade de observação para funcionar
numa emergência naval ou terrestre futura. Mais tarde, a marinha estendeu o
serviço até a Nova Guiné e as Salomão e, em 1939, havia cerca de 700
plantadores, oficiais e soldados treinados nos misteres de observação e
comunicação. Quando a guerra voltou ao Pacífico, Eric Feldt, um
ex-capitão-de-corveta da RMA e que fora oficial distrital do governo na Nova
Guiné, foi nomeado pelo Serviço de Inteligência da Marinha para assumir a
direção dos Observadores Costeiros. Civis foram alistados na RMA, ou em
qualquer das outras armas, para que não fossem tratados como espiões em caso
de captura; infelizmente, de qualquer modo, eles estavam condenados à
execução se caíssem nas mãos do inimigo, destino certo de vasto número
daqueles homens de grande coragem. Os observadores costeiros cobriam todos os
estreitos e passagens, desde San Cristobal, nas Salomão do sul, passando pela
ponta superior da Nova Guiné, indo até as ilhas do Almirantado, além de cobrirem
também todos os pontos principais de Papua-Nova Guiné. Quando os japoneses
fizeram suas várias incursões e desembarques, a corrente foi parcialmente
rompida, com os observadores fugindo ou sendo capturados. A Nova Britânia, uma ilha bem grande, tinha pequenas colônias
européias em Arawe, Gasmata e Talasea, bem como na cidade da colina vulcânica
de Rabaul. No interior, o terreno, acidentado e selvagem, era lugar adequado
para observar e esconder-se e os observadores puderam descrever os acontecimentos
conforme ocorriam ali. Em, Salamaua, no outro lado do Golfo de Huon, defronte
a Lae, na Nova Guiné, as altas colinas ali existentes, além de proteção,
permitiam ampla observação da área, de onde um assistente de oficial
distrital, L. G. Vial, podia comunicar todos os vôos inimigos que partiam de
Lae. Como as colinas da parte de trás de Moresby bloqueavam as telas de radar
da RAAF, os avisos prévios de Vial sobre os ataques foram inestimáveis para
os pilotos de caça dos Kittyhawks que faziam as interceptações e para os
artilheiros antiaéreos do exército que protegiam as pistas de pouso e o
porto. O sistema de aviso de Vial operou por seis meses, até que ele foi
substituído. Os veteranos da Nova Guiné eram as únicas pessoas que podiam
realizar bem esse trabalho, pois falavam a língua nativa e sabiam como viver
da terra. Homens como Vial permitiram que Moresby sobrevivesse às arremetidas
que seriam feitas pelos caças inimigos de Lae e também dos bombardeiros
baseados em Rabaul. Se as defesas da RAAF e, mais tarde, as da USAAF tivessem
sido arrasadas em Moresby, o inimigo talvez se sentisse tentado a fazer outro
ataque naval. A maior ilha do mundo, a Nova Guiné, fora esparsamente
colonizada pelos europeus, desde a sua descoberta, por navegantes
desconhecidos, muitos séculos atrás. Em 1512, dois marinheiros portugueses
ali desembarcaram, na parte leste, a que deram o nome de ilhas dos Papuas -
ilhas da gente de cabelos crespos. Em 1545, Ynigo Ortis de Retoz, um
espanhol, desembarcou na ponta leste, batizando aquela área de Nova Guiné,
porque lhe lembrava muito a costa da Guiné, na África. Nos séculos seguintes,
poucos visitantes ficaram ali por muito tempo ou se arriscaram a embrenhar-se
pelo interior, pois os nativos tinham ótima pontaria com suas flechas e machados
de pedra. Assim, somente em meados do século XIX é que exploradores,
equipados com armas de fogo, ocuparam a região. Eles descobriram que os
nativos eram bons negociantes, mas mortíferos se julgassem estar sendo
fraudados. Mesmo nos anos 50 havia ainda aldeias onde nunca se viu um homem
branco, e quando este entrou em contato com elas, alguns chefes guerreiros.
sentiram-se tão indefesos diante das patrulhas armadas, tão impotentes para
impedir a violação de seus direitos de senhores absolutos dos seus distritos,
que se encheram de ódio. Na verdadeira corrida que os europeus fizeram, na década de
1880, para colonizar, a Grã-Bretanha reivindicou o sudeste da Nova Guiné, a
Holanda a metade ocidental e a Alemanha anexou o nordeste da Nova Guiné
(Kaiser Wilhelmslad ou Terra do Imperador Guilherme), Nova Britânia (Neu
Pommern ou Nova Pomerânia), Nova Irlanda (Neu Mecklenburg ou Novo
Mecklemburgo) e outras ilhas menores. Na guerra de 1914-18, os australianos
arrancaram esses territórios aos alemães com algumas escaramuças; depois da
guerra, a Liga das Nações deu à Austrália um mandato para administrar os
Territórios de Papua e Nova Guiné. A descoberta de ouro, nos anos 30, levou à
ilha, onde a maioria dos europeus ali estabelecidos se compunha de
missionários, numerosos garimpeiros e investidores. Em 1920, o Parlamento
australiano aprovou a Lei da Nova Guiné, em cujos termos o governo
"promoveria ao máximo o bem-estar material e moral e o progresso social
dos habitantes do território". Em comparação com a maioria dos países
primitivos colonizados, os nativos da Nova Guiné não eram explorados, sendo
tratados com simpatia e compreensão pelos militares e pelos funcionários
distritais da administração, que enfrentavam a difícil tarefa de introduzir a
justiça ocidental onde predominava o feudalismo da idade da pedra. As tribos melanésias viviam em grande isolamento (algumas ainda
vivem) nas montanhas acidentadas, em elevados platôs dos vales que se
estendem entre elas e nas pantanosas planícies costeiras. O homem já estava
ali há 50.000 anos e uma nova imigração ocorrera há uns 5.000 anos quando,
possivelmente, gente da Indonésia chegou durante uma "Revolução
Neolítica", levando consigo taro, inhame, alguns tipos de banana, coco,
porcos, cães e galinhas para suplementar a produção local de sagüeiro,
cana-de-açúcar e várias qualidades de banana e fruta-pão. A fauna local é
composta de uma variedade de marsupiais, notadamente o canguru arbóreo,
setenta espécies de cobras, inclusive a taipan, a víbora e a coral anelada, crocodilos
e miríades de insetos - escorpiões, centopéias, formigas, biriguis e muita
malária e muito tifo. Nesse paraíso aterrador encontram-se alguns dos mais
belos pássaros e borboletas do mundo. A melhor ave comestível é o grande
pombo de crista, e a pior é o casuar, que, afirma-se, deve ser cozido com uma
pedra dentro da panela: quando a pedra estiver pronta para comer, o casuar
também estará. Guerreiros e donos de grandes plantações, ou ardilosos
feiticeiros, eram chefes de aldeias de 100 a 300 pessoas, ou de aldeolas
familiares. Havia também casas isoladas, construídas de folhas de palmeira
sobre estruturas de troncos de árvores. Da sua língua original desenvolveu-se
um grupo de línguas, com dialetos subsidiários, e a língua franca, difundida
pelos nativos que trabalhavam com os militares e os comerciantes, que é o
pidgin English (um inglês corrompido). Não é difícil entendê-la, palavra por
palavra, mas falada rapidamente e com a aglutinação dos termos, perceber-lhe
o sentido vira problema. Por exemplo, quando Rabaul foi tomada aos alemães,
em 1914, a proclamação foi mais ou menos assim: "Todos rapazes têm um lugar, você sabe grande chefe ele vem
agora, ele novo sujeito chefe, ele chefe forte também muito, você olha ele
todos navios param lugar... Você olha ele novo sujeito bandeira; você saber?
Ele pertence inglês... ele olha bem ao longo você; ele dá boa gente kai-kai
(comida; comer) ... Você não lutar outro sujeito homem preto outro sujeito
lugar, você não homem kai-kai ... Eu falar você agora, agora você dar três
vivas bom sujeito pertence novo sujeito chefe. Não mais "um Kaiser; Deus
Salve Um Rei". Esta linguagem cômica, composta de alguns termos do
vocabulário do inglês comercial, melanésio é algumas palavras alemães, era
essencial para os Aliados - e japoneses - na sua tarefa de recrutamento de
milhares de carregadores durante as operações da Nova Guiné. Na primeira
parte da campanha, o transporte humano conquistou para os Aliados a batalha
das linhas de abastecimento. Australianos, americanos e japoneses logo
aprenderam o "pidgin" - o mesmo acontecendo com os membros de
aparência assustadora das tribos recrutadas nas serras e vales distantes.
Houve gente, nos altiplanos centrais e ocidentais, que nada viu da guerra -
ou dos homens brancos - ao passo que outras sofreram sob a ocupação japonesa
e em ação de combate. Os japoneses eram-lhes completamente estranhos, a
princípio indignos de confiança e logo temidos e odiados pela crueldade com
que os tratavam. Papua-Nova Guiné, a área oriental da ilha onde se desenvolveu a
maior parte da luta, tem até 960 km de largura e 1.600 km de comprimento. Há
neve nas montanhas mais altas, que se erguem até 5.000 m de altura numa longa
serra central, ramificando-se numa série de serras costeiras. Na costa, há
muitos pântanos, formados pela maré, infestados de crocodilos, sendo as
aldeias construídas sobre estacas; dos sopés das colinas até 2.000 m de
altitude, há densas florestas equatoriais, com espessas cúpulas que impedem
que a luz do sol chegue à vegetação rasteira, formada de trepadeiras e lianas
que podem constituir uma barreira impenetrável; acima de 3.600 m as árvores
são principalmente coníferas e acima dos 3.700 m um musgo denso e capinzais
crescem ao ar frio. No lado sul, na área de Port Moresby, existe um bolsão
incomumente seco, onde crescem vários tipos de eucaliptos, enquanto que nas
montanhas e na costa norte chove até na estação "seca"; quando as
monções noroeste chegam, vindo depois os ventos alísios do sudeste, parece
que a chuva não pára nunca. Moresby é úmida desde janeiro até abril, mais ou
menos, depois do que passa a ser um lugar seco e poeirento. Aquele atrasadíssimo ponto do globo, cheio de doenças tropicais
e castigado por clima terrível, seria palco de uma campanha que custaria aos
japoneses 100.000 vidas. E foram os japoneses que escolheram o local para a
campanha, para defender sua ocupação e lutar até o último homem. Os Aliados viram que Port Moresby era tão importante para eles
quanto para os japoneses; era a base lógica para operações defensivas e
ofensivas e podia ser eficazmente usada por um lado ou pelo outro para esses
fins. A capital do Território de Papua poderia ter sido desenvolvida como
base muito antes, se a vulnerabilidade de Cingapura tivesse sido mais
atentamente considerada. As defesas de Moresby eram espantosamente frágeis:
compunham-se de uma bateria de defesa costeira, uma brigada de jovens
milicianos e parte de um regimento de artilharia de campanha. Logo no
primeiro mês a tropa ali posicionada começou a ser reduzida, primeiro por
efeito da disenteria, vindo depois as baixas causadas pela malária e o
dengue. Muitos deles convocados, alguns voluntários, a idade média dos
soldados girava em torno dos 19 anos; seu treinamento era reduzido e seu
moral estava baixo. Após a queda de Rabaul, a 23 de janeiro, o comandante de
Moresby, General-de-Divisão Basil Morris, teve nas mãos uma população-nativa
em pânico. Seiscentas mulheres e crianças européias foram evacuadas dos
Territórios e todos os "homens brancos fisicamente capazes" foram
convocados para o serviço militar. Os habitantes nativos da cidade talvez não soubessem a razão por
que os japoneses estavam invadindo a Nova Guiné, mas por certo sabiam que os
perigos eram muito reais. Ataques por aviões de Rabaul e de porta-aviões eram
esperados e seus pilotos sabiam que as defesas não eram fortes. A RAAF
dispunha de uns poucos aerobotes Catalina, bombardeiros Hudson e aviões de
treinamento Wirraway - NA-33, Harvard - para defender todas as ilhas, e
ninguém, nem mesmo o comandante, sabia se as reservas seriam levadas para lá.
Antes da batalha do Mar de Coral, antes que se soubesse que os porta-aviões
da marinha americana estariam disponíveis para uso contra invasões marítimas
e antes que se anunciasse quaisquer planos concretos para o fortalecimento de
Moresby, as bombas japonesas caíram - a 3 de fevereiro. Quando um falso
alarma soou, os nativos fugiram e se mantiveram distanciados dali por dois
dias; quando as bombas realmente caíram, eles se internaram no mato -
deixando empregos na cidade, nos navios costeiros e as prisões (com seus
guardas). Não se concretizando as invasões, esperadas após cada bombardeio,
as fugas para o mato diminuíram, embora nativos e brancos passassem a dormir
fora da cidade. O moral entre os civis e soldados melhorou quando o
Comandante-de-Esquadrão John Jackson chegou com seu Esquadrão n° 75, da RAAF,
de Kittyhawks P-40. Eles foram atacados pelos artilheiros antiaéreos da
guarnição, que supunham japonesas quaisquer esquadrilhas, grandes e voando
baixo, que dali se aproximassem. Os soldados pararam de atirar e deram largas
ao seu entusiasmo somente quando dois dos Kittyhawks derrubaram na baía um
bimotor de reconhecimento japonês. Todavia, um esquadrão de Kittyhawks e a 30a Brigada
da Milícia não seriam capazes de impedir as invasões em grande escala que os
japoneses viessem a montar nas costas norte, leste ou sul dos dois
Territórios; na verdade, os defensores não eram móveis e estavam virtualmente
retidos em Moresby, à espera da invasão e prontos para se retirar em direção
às colinas se o inimigo desembarcasse em grande número. Os Kittyhawks
enfrentaram com êxito os Zeros e os bombardeiros que sobrevoavam o local e
atacaram a "Esquadrilha Lae" inimiga em sua pista de pouso, na
costa norte. Hudsons, Catalinas e os B-17 que às vezes vinham de Townsville
faziam serviço de reconhecimento e a infantaria treinava. O Brigadeiro Porter, ex-comandante-de-batalhão da FIA, chegou
para assumir o comando da brigada e Morris passou a cuidar da
administração-geral, incluindo a organização militar dos assuntos nativos - a
Unidade Administrativa Australiana da Nova Guiné (Angau). Tendo comandado o
2/31o Batalhão na Síria, Porter provavelmente foi tomado de
desânimo ao ver os soldados mal treinados e sem grande entusiasmo da 30a
Brigada. Diante disso, mandou buscar oficiais e praças graduados de grupos da
FIA na Austrália para reforçar seu novo comando e intensificou o treinamento
da tropa. Mas eles estavam longe de poderem ser considerados aptos quando o
General Blamey comunicou que "um ataque sério contra você e as tropas
sob seu comando ocorrerá no futuro imediato". Isto foi a 8 de maio,
quando o Segundo-Tenente-Aviador Pennycuik radiografou do seu Hudson que um
porta-aviões inimigo, escoltando transportes, ia na direção de Moresby - o
informe que pôs os navios aliados em ação no Mar de Coral. O ataque marítimo, de três pontas, do General Horii contra
Moresby foi adiado. Baixo e gordo, parecendo um boneco de óculos, no estilo
Imperador, em seu cavalo branco, Horii comandara tropas na China, em Guam,
Rabaul e Salamau. Ignora-se se ele condenava o fato de seus soldados
massacrarem, com baionetas, os prisioneiros australianos, amarrados em
troncos de coqueiros, crime cometido após a queda de Rabaul. Outros infelizes
membros da guarnição morreram encerrados no navio-prisão nipônico, o
Montevideo Maru, que foi torpedeado por um submarino americano. Sob o comando
do General-de-Divisão Tomitaro, a Força Destacada para os mares do Sul, de
Horii (Nankai Shitaí), experiente e até então vitoriosa, retornou a Rabaul
para aguardar a próxima decisão de Yamamoto concernente a Moresby. Sua Ala
Lae continuou lutando e sofreu muitas baixas contra o esquadrão de
Kittyhawks. Os australianos estavam reduzidos aos seus últimos caças quando
esquadrões de P-39 da Força Aérea Americana entraram em cena. Em 44 dias eles
destruíram 50 aviões inimigos, contra a perda de 22 Kittyhawks e 12 pilotos.
Yamamoto acreditava, acertadamente, que a aproximação por mar seria o modo
mais rápido e seguro de tomar Moresby, mas a Batalha de Midway impediria a
medida, levando-o finalmente a sair para um ataque de duas pontas, por terra:
desembarcar em Buna, cerca de 160 km de distância de Moresby, na costa norte,
e na Baía de Milne, a uns 380 km para leste (veja o mapa 619-2). De Buna, a
aproximação seria feita pela Serra Owen Stanley, e, da Baía de Milne, ele
seguiria a costa. Entrementes, forças adversárias reuniam-se e a batalha pelo
próprio Japão estava prestes a começar, a milhares de quilômetros de
distância das ilhas metropolitanas, no sul do Pacífico Sudoeste - em
Guadalcanal, na Baía de Milne e pelos altiplanos da Nova Guiné. Todo um programa de defesa e ataque em grande escala estava
sendo elaborado pelos Aliados em Washington e Melbourne (o QG militar da
Austrália). Os aeródromos de Moresby e da Ilha de Horn seriam ampliados e,
outros, construídos, em Mareeba, Cooktown e Coen, no norte de Queensland.
Duas das três divisões australianas da FIA haviam retornado ou estavam a
caminho, vindas do Oriente Médio, a fim de se aprontarem para a luta nos
trópicos. Voltar ao local que servira de palco para a derrota que sofrera
afigurava-se o objetivo principal de MacArthur e isso influiu nos planos
estratégicos gerais quando nomeado Comandante Supremo - ou Comandante-Chefe,
título que ele preferia - da Área do Pacífico Sudoeste. O General-de-Brigada
Dwight Eisenhower, um dos mais respeitados planejadores do exército dos
Estados Unidos, aconselhara o General Marshall a criar uma base avançada na
Austrália com tropas e suprimentos que em dezembro haviam sido desviados para
Brisbane. O General George Brett foi designado para o comando da Força
Aérea Americana na Austrália, com a promessa de que receberia caças e
bombardeiros. O General Wavell, Comandante aliado no Oriente, que estava em
Java, achava que os Estados Unidos viriam em socorro da Austrália e que os
veteranos da FIA no Oriente Médio deviam ser mandados para Java, plano este
defendido por Churchill e Roosevelt. O Primeiro-Ministro John Curtin enviou
enérgicas mensagens focalizando o destino a ser dado à FIA, causando o que
Churchill classificou de "episódio doloroso", pelos ressentimentos
que provocou nos círculos políticos e militares de Londres. Os políticos, ao
que parecia, desejavam travar guerras sem generais e estes sem os políticos,
o que tornava inevitáveis os choques de opinião sobre estratégia e
prioridades, e sobre quem deveria ser o líder em campanha. Em fevereiro,
Churchill e Roosevelt concordaram em que a Grã-Bretanha se incumbisse da
frente do Oceano Índico e os Estados Unidos, do "flanco direito" do
Pacífico. A guerra em geral seria dirigida pelos Chefes de Estado-Maior
Combinados, enquanto que os Chefes de Estado-Maior Conjuntos dos Estados
Unidos exerceriam o controle operacional no Pacífico: a APSO (Área do
Pacífico Sudoeste) seria de responsabilidade do exército e a Área do Oceano
Pacífico, da armada, com o General Marshall e o Almirante King como seus
chefes. Tomadas essas decisões, o Primeiro-Ministro Curtin recebeu satisfeito
MacArthur como comandante na Austrália; desse modo, estaria garantida a
concentração de forças. O que a opinião pública australiana sabia acerca do
comandante era o que a ampla cobertura que lhe deu a imprensa deixava ver, ou
seja, que era muito eficiente. Tudo o que a Austrália emprestasse aos
americanos, e todos os armamentos e equipamentos que estes lhe enviassem,
para uso pelos australianos, seriam levados à conta da Lei de Empréstimo e
Arrendamento. Em junho, as forças de terra disponíveis somavam já 104.000
homens da FIA, 265.000 milicianos e 38.000 americanos; muito poucos destes
eram soldados de linha de frente treinados. Os comandantes de batalhão,
brigada e divisão da FIA que retornavam talvez não tivessem experiência de
batalha nos trópicos, mas haviam combatido os italianos, alemães e franceses
de Vichy, sendo de esperar que os mais altos oficiais fossem nomeados para o
Estado-Maior de MacArthur, o que não sucedeu. Embora o General Marshall lhe
houvesse solicitado fizesse isso, MacArthur afirmou que não havia oficiais qualificados
- australianos ou holandeses - disponíveis e lotou as posições superiores com
americanos que haviam, à exceção de três, trabalhado com ele nas Filipinas.
Era também desejo seu que um general americano assumisse o comando das forças
terrestres, mas Washington inclinou-se pela nomeação do comandante
australiano do Oriente Médio, General Sir Thomas Blamey. Tom Blamey fora Chefe de Estado-Maior do General Sir John
Monash, notável líder da FIA na Primeira Guerra, que sobre ele escreveu:
"possui cultura muito superior à média, é bem informado, alerta e
perspicaz." (sic). Após a guerra, Blamey foi nomeado Chefe do
Departamento de Polícia de Victoria, demitindo-se, após alguns anos, devido à
descoberta, contrária ao que havia sido apurado, feita pela Comissão Real
encarregada de investigar as circunstâncias da morte de um dos seus
superintendentes. Como resultado, ele ficou no ostracismo até que a loucura
de Munique alertou o governo australiano para a necessidade de preparar-se
para uma possível guerra. Quando se planejou a formação de uma segunda FIA; o
governo foi influenciado a examinar a possibilidade de entregar a Blamey o
comando da força, não porque parlamentares que eram ex-soldados, como Sir
Henry Gullett e Richard Casey, fossem seus patrocinadores, mas porque não
havia ninguém melhor que se encontrasse disponível. Ao contrário do australiano típico, em geral alto e magro,
Blamey tinha 1,70 m de altura e era robusto. Ele foi nomeado OE-M III
(Inteligência) da 1a Divisão, sob o comando de Bridges, em 1915,
após haver trabalhado no Setor de Inteligência do Ministério da Guerra;
estava na Inglaterra quando, em 1914, teve inicio o conflito. Desceu em
Gallipoli após alguns dias de viagem e, à exceção de breves períodos em
comando de batalhão e brigada, estivera completamente entregue ao trabalho de
planejamento durante a Primeira Guerra Mundial: como OE-M III e OE-M I da 1a
Divisão e, em 1918, como Chefe de Estado-Maior de Monash. A grande reputação
de Monash baseava-se em sua maior parte na excelência do trabalho realizado
pelos seus oficiais de Estado-Maior; se Blamey tivesse ocupado seu lugar em
1918, é muito provável que as façanhas do Corpo na França tivessem sido
igualmente grandes. Diz-se que Blamey foi o autor da idéia que resultou na
Batalha de Amiens, o começo do fim da Primeira Grande Guerra; Blamey
discutira a idéia com Monash e ambos acreditavam, contra a hesitação de Foch
e dos comandantes mais graduados britânicos, que a deterioração da frente
alemã abria a oportunidade para o desencadeamento de uma grande ofensiva e
penetração para destruir a "Linha Hindenburg". Tendo os corpos
australiano e canadense como ponta-de-lança, esta ofensiva logrou êxito e
conduziu ao armistício três meses depois. Foi, portanto, uma decisão sensata
a sua escolha para dirigir a FIA na Segunda Guerra Mundial. Sobre Blamey, Monash escreveu: "Algum dia, o conjunto de
ordens que ele preparou para a longa série de operações militares que farão
história, e nas quais colaboramos, servirá de modelo para o ensino ministrado
nas Escolas de Estado-Maior. Eram ordens precisas, escritas em linguagem
lúcida, perfeitas nos detalhes e sempre uma interpretação exata da minha
intenção. Raramente eu achava que minhas ordens ou instruções poderiam ter
sido mais bem expressas". Mas sua implacável determinação em vencer era
da verdadeira tradição dos que herdavam o "complexo de Napoleão";
um obstáculo difícil para amigos e inimigos superarem - eles tinham
simplesmente de aceitá-lo. Na Grécia, ele foi o Comandante-Geral do Corpo Anzac, as duas
divisões de australianos e neozelandeses reunidos pela primeira e última vez
como corpo na Segunda Guerra Mundial, embora, como divisão australiana e
divisão neozelandesa, combatessem com o 8° Exército em El Alamein. Blamey era
bastante astuto para perceber desde o começo que a ajuda à Grécia continental
não passava de gesto inútil, preferindo fazer uma resistência mais decidida
em Creta e Rodes. Após a Grécia, Blamey foi nomeado Comandante-Chefe em exercício
no Oriente Médio, conservando a condição de Oficial-Comandante da FIA.
Visitando a Austrália, em novembro de 1941, ele foi até a Malásia, onde ficou
preocupado com a atmosfera reinante no seio da "Guarnição Indiana".
Na Austrália, disse aos australianos que eles eram "um bando de gazelas
num prado à margem de uma selva", que não compreendiam que a guerra
contra a Alemanha tinha que ser encarada como uma autêntica batalha pela
sobrevivência. Eles só deram crédito à afirmação de Blamey depois que o
"perigo amarelo" tornou a guerra uma realidade. A arremetida japonesa foi um êxito tão violento que, após a
queda da Malásia, o Chefe do Estado-Maior-Geral, Sturdee, disse ao
Primeiro-Ministro que havia somente uma "pequena probabilidade" de
se defender o pais, mesmo que a FIA fosse trazida de volta. A perda da 8a
Divisão na Malásia fora um golpe sem dúvida sério. Pouco depois do bombardeio
de Darwin, Blamey fora chamado de volta. Com as comunicações aéreas
interrompidas, ele voou até a África do Sul, onde embarcou no Queen Mary e,
durante a viagem, ouviu a notícia de que MacArthur fora nomeado Comandante
Supremo da Área do Pacífico Sudoeste. Sua reação foi citada em Blamey, livro
escrito por John Hetherington: "Acho que isto é a melhor coisa que
poderia ter acontecido à Austrália... MacArthur estará tão longe do seu
próprio governo, que este não interferirá em nada, e quanto ao nosso governo,
ele não lhe dará a mínima atenção". Apesar da sua simpatia por outro
general que poderia ser controlado por políticos, a indicação de MacArthur,
embora o houvesse desapontado, foi, em última análise, considerada por Blamey
uma atitude política sensata, pois havia necessidade urgente de forças
americanas e um chefe nominal americano não seria impopular junto às tropas
australianas. Ele admirava os dotes militares de MacArthur. Ainda que por
vezes viesse a entrar em conflito com ele, por causa de certo egocentrismo
revelado por MacArthur, Blamey admitiria: "As melhores e as piores
coisas que se ouvem sobre ele [MacArthur] são verdades". A Primeira Força Imperial Australiana, que começou a formar-se
no dia em que a Austrália declarou guerra, em 1914, havia formado cinco
divisões, e quando a Segunda FIA foi formada, em 1939, o número das divisões
começou em seis; assim, o primeiro batalhão da Segunda FIA foi o 2/1o
Batalhão da 16a Brigada da 6a Divisão (havia 3 brigadas
de infantaria por divisão). As cores das ombreiras continuaram sendo as
mesmas, só que orladas de cinza, para denotar que se tratava da Segunda FIA.
As divisões da Milícia foram numeradas a partir da 1a Divisão (uma
unidade de treinamento) e preenchidas com voluntários e recrutas. Entre as
guerras, os milicianos treinavam nos fins de semana e passavam uma quinzena
por ano acampados. Foi das suas fileiras que saíram praticamente todos os
oficiais e praças graduados da força voluntária da FIA. O soldo de um soldado
raso era de cinco xelins por dia, mais um xelim que ficava retido até sua
baixa, além de abonos para os casados e suas famílias; a taxa foi aumentada
em mais um xelim em 1942. Começa a luta em terra No país, após os acontecimentos perturbadores de Darwin e
Rabaul, o moral melhorara. Quando um minissubmarino entrou sorrateiramente
por baixo da barreira flutuante da Baía de Sydney e, errando o USS Chicago
com a parte mais mortífera de uma salva de torpedos, destruiu uma velha barca
da marinha, não houve pânico. Ao serem Newcastle e Sydney atingidas por
algumas granadas disparadas a esmo por outro submarino, muito pouca gente
deixou as cidades e ainda menor foi o número dos que mandaram suprimentos
enlatados para Alice Springs, no centro da Austrália, onde esperavam aguardar
tranqüilos o fim da guerra. À medida que aumentava o número de soldados, da
FIA e da RAAF, que voltavam, também aumentava a confiança em que os japoneses
não conseguiriam nada se tentassem invadir. A Divisão Blindada - a única -
estava recebendo seus tanques; novos Kittyhawks vinham chegando para
substituir os destruídos, assim como mais bombardeiros e caças pilotados por
americanos. Além disso, havia a 9a Divisão da FIA no Oriente Médio
- uma reserva sólida, se sobrevivesse ao encontro com Rommel. Os caças
Boomerang, de fabricação local, podiam decolar e voar "a cerca de"
480 km/h, bombardeiros também seriam construídos no país e um jovem chamado
Evelyn Owen inventara uma metralhadora leve que suportava bem a umidade e a
lama dos trópicos. Fuzis, metralhadoras, morteiros, artilharia e munição já
estavam sendo produzidos em quantidade satisfatória nas fábricas locais,
incumbindo-se a organização de potencial humano do governo da qualidade e da
quantidade da produção. O racionamento de alimentos não chegou a tornar-se
insuportável para os civis, enquanto que as tropas, sobretudo os americanos,
recebiam alimentação saudável e farta. Menos, é claro, como sempre acontece,
na linha de frente. Quando os dois lados examinavam seu equipamento e reservas, as
escaramuças de guerrilheiros começaram no Vale de Markham e na serra Owen
Stanley. Um inglês do Lancashire, o Cabo (mais tarde Major) McAdam, era
funcionário florestal e membro dos Fuzileiros Voluntários da Nova Guiné
quando foi recrutado para observador costeiro nos arredores de Salamaua. Ele,
mais tarde, descreveu como evitaram os japoneses, que começaram a caçá-los um
mês após o desembarque: "Só usávamos nossas próprias trilhas e tomávamos
o máximo cuidado para nunca deixar marcadas as trilhas principais, de modo
que, sempre que as examinávamos, elas eram um verdadeiro livro a contar-nos o
que os japoneses estavam fazendo. Nossas trilhas eram tão invisíveis que
somente um bom bosquimano poderia encontrá-las. Não deixávamos marcas naquela
região avançada. Caminhávamos cuidadosamente sobre raízes e pedras;
arrancamos os saltos das nossas botas. Quando necessário, andávamos com
nossos nativos atrás de nós para que suas pegadas descalças cobrissem as que
deixávamos... em pares de exploradores avançados, levávamos cada um uma
pistola, uma boa e uma incerta. Nossa única defesa era a rapidez. Podíamos
ver qualquer japonês antes que ele nos visse e se tivéssemos uma vantagem de
dez metros, era-nos perfeitamente possível escapar... Durante os quatro meses
em que estive ali, não conseguimos um único fuzil-metralhadora. Havia uns
seis nos FVNG, mas não tínhamos nenhum". Os nativos que viviam perto do
seu primeiro campo sofreram por ajudá-los, levando McAdam a instalá-lo em
outro local, para evitar mais dificuldades para eles. Em torno de Lae, além dos observadores costeiros, havia também
membros dos FVNG ávidos por hostilizar o inimigo. O Cabo Clark entrou em Lae
para uma inspeção mais minuciosa, rodeou o aeródromo e voltou trazendo
etiquetas de bombas, para comprovar o reconhecimento que fez. O Vale de
Markham era, obviamente, um lugar ideal para começar operações com alguns dos
Comandos da FIA, dos quais já havia oito companhias formadas, com três delas em
bom estado de treinamento. A 2/1a Companhia Independente estava
espalhada desde as Ilhas do Almirantado até as Novas Hébridas, a 2/2a
encontrava-se em Timor, a 2/3a na Nova Caledônia, a 2/4a
no Território Norte, e a 2/5a foi mandada para Port Moresby, para
a "Operação Markham". A 23 de maio, aquela companhia, um
destacamento de morteiro e o QG do pequeno grupo chamado Força Kanga, sob o
comando do Major Fleay, foram levados por transporte aéreo até Wau, onde
recolheram um pelotão de fuzileiros, parte de duas companhias dos FVNG. A
Força Kanga contava então 450 recém-chegados aptos e 250 FVNG cansados. Eles planejavam um ataque a Salamaua. Para começar, estudaram o
local tão de perto, que parecia estarem sondando uma aldeia amistosa.
Reconheceram todas as trilhas que partiam dali e escolheram o aeródromo, os
depósitos de suprimentos e a estação de rádio como objetivos principais. Um
fazendeiro escocês de Java, Capitão Winning, dirigiu o ataque noturno, de
quatro pelotões desfechado a 28 de junho. Eles mandaram pelos ares ou
fuzilaram os japoneses que se encontravam em cabanas e em posições
defensivas, cerca de 100 deles; destruíram três caminhões e trouxeram consigo
algumas peças do equipamento japonês, alguns mapas, cópias de ordens e um
diário. Para o ataque a Lae, dois homens dos FVNG conceberam a seguinte
idéia: eles desceriam numa balsa o rio Markham, à noite, até perto de Lae e
sabotariam o aeródromo. Entretanto, não lhes foi possível levar a balsa para
perto da margem e, por correrem o risco de ser avistados pelo inimigo, eles
emborcaram a balsa, para destruir os suprimentos que levavam, nadaram para a
margem e voltaram a pé. Em outras incursões, conseguiu a Força Kanga,
perdendo embora alguns homens, infligir ao inimigo baixas bem maiores que as
por ela sofridas. Finalmente, porque faltassem aviões, a situação do
suprimento piorou, fato que prejudicaria as operações durante os primeiros
meses da campanha. Ameaçados pelos japoneses, os carregadores nativos
começaram a manifestar medo de trabalhar para os australianos, e a falta de
alimento em coisa alguma contribuiu para manter elevado o moral de qualquer
guerrilheiro. Assim, quando um navio-transporte desembarcou mais inimigos e
suprimentos em Salamaua, e quando, em agosto, cerca de 1.000 soldados fizeram
um avanço de três pontas para a sua base, em Mubo, o Major Fleay recuou
através da selvagem região de Kukukuku (e pelo não menos selvagem povo
Kukukuku) até o começo da "Trilha Bulldog". Bulolo e Wau foram
virtualmente oferecidas a um inimigo que, nervoso e desconfiado, demorou
demais a ocupar as aldeias e a pista de pouso abandonadas. Um caminho que os nativos há séculos usavam como elo de
comunicação entre tribos de ambos os lados da serra Owen Stanley passou a ser
a passagem principal da tropa de invasão japonesa. Eles a haviam traçado nos
mapas, em seus planos, antes de desembarcarem na costa da Nova Guiné, mas
provavelmente ignoravam que a trilha fosse tão difícil. Os australianos
sabiam que as distâncias por essa rota primitiva não eram contadas em quilômetros,
e sim em horas de subida e escalada, às vezes andando e às vezes
arrastando-se; de Buna e de Moresby, a trilha sinuosa era cortada, a meio
caminho, pela aldeia e pelo aeródromo de Kokoda, chamando-se por isso
"Trilha Kokoda". Era impossível levar qualquer veículo pela trilha,
que se formara pelo pisar dos passantes. A única maneira de percorre-la -
pelas suas cristas, vales, colinas, montanhas, selvas e cursos de água - era
a pé. Japoneses e aliados cobiçavam a Baía de Milne e Buna, para a
instalação de bases. Ignorando as advertências de que a área de Buna-Gona
seria ocupada primeiro pelo inimigo, o QG-Geral estabeleceu em seus primeiros
planos mudar-se para lá alguns dias depois da data em que os fuzileiros
navais deveriam desembarcar em Guadalcanal, no começo de agosto. Um dos
objetivos da tropa aliada na Nova Guiné era estabelecer uma pista de pouso,
que pudesse ser usada em qualquer condição climática, nas planícies cobertas
de capim a 24 km ao sul de Buna - em Dobodura - para uma ofensiva contra os
japoneses em Lae e Salamaua. Aproveitando a oportunidade, 1.800 soldados
japoneses desembarcaram entre Buna e Gona na noite de 21 para 22 de julho,
tendo sobrevivido aos ataques a seus transportes desfechados por Fortalezas e
Marauders. O bombardeio aliado durante esse período foi lamentável.
Felizmente, os Aliados tiveram mais sorte na Baía de Milne, chegando lá
primeiro, com a 7a Brigada de Milicianos e uma força de sapadores
americanos que estabeleceram posições defensivas e começaram a cortar coqueiros
e construir pistas de pouso. Uma destas ficou pronta no começo de agosto,
podendo acomodar dois esquadrões de Kittyhawks e alguns bombardeiros de
reconhecimento Hudson, da RAAF. Quando a 7a Brigada ocupava a Baía de Milne, sob o
comando do Brigadeiro Field, seu único oficial com experiência naquele tipo
de guerra, um pequeno destacamento, a Força Maroubra, foi despachada de
Moresby, pela trilha além de Kokoda, em missão de reconhecimento. Eles
estavam numa posição que dominava a planície costeira do norte, sobre Buna e
Gona, e o mar, mais além, quando os japoneses desembarcaram. O Coronel
Yokoyama, oficial do grupamento de sapadores, conduziu alguns homens, por seu
lado da "Trilha Kokoda", para fazer o reconhecimento da área e
levantar o caminho que poderia levar o exército de Horii até Moresby. Seu
movimento foi contestado pelos milicianos australianos, que logo se viram
obrigados a recuar, com os experimentados japoneses infiltrando-se e
flanqueando os inexperientes australianos que lhes faziam oposição, até que,
pelo final do mês, a aldeia de Kokoda e seu aeródromo foram tomados. Tendo-se
saído tão bem em apenas sete dias e com uma força relativamente pequena, o QG
do 7° Exército japonês determinou a Horii que explorasse ao máximo o êxito
obtido e a visível fraqueza dos australianos para fazer um ataque através da
velha trilha. Kokoda tornou-se a base avançada do inimigo, recebendo
suprimentos e reforços. Mais tropas foram, de Rabaul, para ali transferidas. Este era um momento ideal para o General Hyakutake, Comandante
do 17° Exército, iniciar a segunda fase do ataque de duas pontas que montara
contra Port Moresby e mandar uma força de assalto para a Baía de Milne.
Entretanto, ele recebeu dois choques que, afinal, não detiveram sua operação,
embora o primeiro reduzisse o número de tropas que poderia empregar na Nova
Guiné. A 1a Divisão de Fuzileiros Navais, do General-de-Divisão
Vandergrift, desembarcou em Guadalcanal e tomou o Campo Henderson - uma
ofensiva que Hyakutake não acreditava ocorresse tão cedo - e a Baía de Milne
já estava ocupada por tropas aliadas. Ao largo da ponta sudeste de Papua fica
uma pequena ilha que atraía Hyakutake devido à sua posição e ao seu nome -
Samarai. Fazia parte de seu plano ocupá-la também, mas ele teria de concentrar
suas forças contra quem construiu e fortificou a pista de pouso na Baia de
Milne. Como medida de segurança, os rádios dos Kittyhawks da RAAF permaneciam
calados desde sua chegada até 4 de fevereiro, quando uma patrulha de cinco
aviões encontrou quatro Zeros e um bombardeiro de mergulho, com este último
sendo derrubado. Um dos Zeros estava com o trem de aterrissagem abaixado,
provavelmente porque o piloto nipônico supunha que a base fosse japonesa. Os
Zeros escaparam aos Kittyhawks e sem dúvida foram os primeiros a comunicar o
que se passava na Baia de Milne. A 26 de agosto, os japoneses iniciaram uma
ofensiva geral na "Trilha Kokoda" e despacharam barcaças e navios
carregados de tropas para tomar a Baía de Milne. Na tarde de 4 de agosto, um batalhão estava realizando um
exercício no seu acampamento, em Queensland, quando o motorista J. Ferguson
chegou no carro do Estado-Maior, com uma mensagem do brigadeiro, solicitando
a presença do comandante no QG da brigada. No caminho, houve a seguinte
conversa: Ferguson - É isto, senhor. O Comandante - Isto o quê? Ferguson - Vamos partir, senhor. O Comandante - Partir para onde? Ferguson - Nova Guiné, senhor. O Comandante - E como é que você sabe? Ferguson - Um dos cozinheiros da Divisão me disse, senhor. O Comandante - Então deve ser verdade. Este diálogo foi extraído da história do 2/10° Batalhão da FIA e é um verdadeiro exemplo da origem dos boatos. O 2/10° foi realmente para a Nova Guiné, de acordo com os boatos, com o 2/9° e o 2/12° que formavam a 18a Brigada. Com eles foi a 7a Brigada da Milícia, formada de Queenslanders da 9a, o 25° e o 61° Batalhões, cujo comandante, Brigadeiro Field, já havia comandado o 2/12°. Quando eles desembarcaram, no começo de agosto, o chão estava suficientemente firme para que os caminhões pudessem levá-los pela estrada que orlava a baía, passando pela pista de pouso, feita de placas de metal, até a área do campo. As estradas não duraram muito, pois eram feitas de coral mole, que se partia sob o peso dos veículos, de modo que foi preciso os homens transportarem o equipamento e os mantimentos às costas. A princípio, houve períodos de céu claro, embora a chuva, quando caía, fosse forte. A pista de pouso fora construída pelo 43° Regimento de Engenharia americano e pela 24a Companhia de Engenharia de Campanha, miliciana; uma segunda pista de pouso e as posições defensivas estavam sendo preparadas, com a infantaria trabalhando também na sua construção |