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Em dezembro de 1942, quando os
Aliados corriam para ocupar a Tunísia, a campanha do Norte da África parecia
virtualmente terminada. Foi então que dois fatores ocorreram. A chuva
interrompeu o avanço e Rommel, deixando a Líbia, atingiu a Tunísia. Dentro de
semanas, os exércitos aliados batiam em retirada, passando a lutar pela
própria sobrevivência Lições
aprendidas de maneira difícil
Até fins de 1942, a guerra para os americanos, os mais novos
parceiros da Aliança, não foi motivo de preocupações demasiadas, e após o
choque inicial de Pearl Harbor e dos reveses sofridos diante da expansão
japonesa no teatro do Pacífico, o público americano fora levado a crer no
completo desenvolvimento do potencial do seu país. A propaganda divulgada e
bem feita, aliada ao otimismo e à autoconfiança naturais de um país jovem, o
deixaram com a crença quase inabalável na invencibilidade do seu exército. Os primeiros acontecimentos decorridos na África do Norte vieram
confirmar essa crença. Os soldados que integravam a "Operação
Tocha" e que desembarcaram em Casablanca, Oran e Argel foram muito bem
recebidos pelos habitantes locais e não tiveram grandes dificuldades em
vencer a oposição encontrada. Eles tinham desfrutado da fama de soldados
vitoriosos e não conseguiam compreender a razão por que os britânicos
demoraram tanto para livrar do inimigo a margem leste do Mediterrâneo. Então veio o Passo de Kasserine. No decurso dos últimos meses de
1942, a batalha da África do Norte se concentrara na Tunísia. No começo de
novembro, nove dias após o início da segunda Batalha de El Alamein, o
Partzerarmee Afrika, de Rommel, esgotado e maltratado por enfrentar os
recursos superiores do 8° Exército de Montgomery, começou sua retirada para
oeste, ao longo da costa norte da África. Apesar da costumeira ordem de
Hitler no sentido de negar permissão para recuar, a pressão imposta por
Montgomery o obrigara a recuar, por estádios, até que, em meados de dezembro,
Rommel já estava em El Agheila, bem a oeste. Ao mesmo tempo, as tropas britânicas e americanas que haviam
desembarcado a 8 de novembro, na "Operação Tocha", avançavam para
leste. Um outro fator nesse estádio era a atitude dos franceses sob o governo
de Vichy, que se mostravam por demais evasivos, e indecisos quanto a um
armistício com os Aliados até que Hitler precipitou os acontecimentos e
invadiu a parte desocupada da França, a 8 e 9 de novembro. A resposta dos
alemães diante disso resumiu-se em ocupar a Tunísia com grande número de
homens e, pelo final do mês, uma força de 15.000 soldados alemães e 9.000
italianos, com cerca de 100 tanques, estava firmemente estabelecida ali. O Feldmarechal Kesselring, comandante-geral das forças alemães
do Mediterrâneo, fez tudo para aumentar e fortalecer a cabeça-de-ponte tunisiana,
e pelo Natal de 1942 conseguira realmente deter o avanço do 1° Exército do
Leste. Linhas de abastecimento bastante longas, o predomínio dos ares pelo
Eixo, com seus aeródromos de Túnis, e os efetivos superiores dos blindados
germânicos contribuíram para deter aquele avanço desenfreado dos Aliados, de
modo que o General Eisenhower, comandante aliado, nada mais pôde fazer além
de dar aos colegas a desalentadora notícia: "Senhores, perdemos a
corrida para Túnis". Os inexperientes americanos, as tropas britânicas e as mal
equipadas, o que era de lamentar, forças francesas que agora se reuniram aos
Aliados, perderam a iniciativa em favor das tropas, de grande experiência, do
Afrika Korps, de Rommel. Embora doente e um tanto desanimado, Rommel, o mestre
da guerra no deserto; ainda assim tinha uma saída, um plano engenhoso, que
foi a sua "Operação Frühlingswind". Com esta "Brisa da
Primavera" ele pretendia atravessar as linhas de abastecimento inimigas
por trás da frente tunisiana, isolar aquela massa de homens e materiais
avançados e alcançar as bases dos aliados de Constantina e Bône. Foi desse plano que se originou a batalha do Passo de Kasserine,
e, ali, as esperanças de vitória alimentadas pelas tropas aliadas na África
do Norte finalmente foram destruídas. Porém, no fim, Ward Rutherford, baseado em sua inteligente
análise dos fatos e lúcida interpretação deles, atestou que os Aliados,
apesar de suas perdas de material e potencial humano, tiveram uma boa
compensação: é que finalmente aprenderam a criar uma liderança unificada de
uma coalizão de comandantes nacionais. Foi uma lição que lhes seria muito
útil nas batalhas subseqüentes. |
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"Senhores, Perdemos a corrida para Tunis" A chuva fria caindo formava uma cortina tremeluzente: enormes
gotas d'água que saltavam como milhões de pequeninas explosões vermelhas. Ela
invadia o ar com seu ruído característico; seus gorgolejos sedentos e sua
corrida desenfreada enchiam os leitos dos rios e as pontes, que uma semana
antes pareciam uma piada irônica naquela terra árida, tornando-se
necessidades bastante raras. Por elas, naquela noite de Natal de 1942, pequenos grupos de
oficiais Aliados - americanos, britânicos e franceses - convergiam para uma
fazenda isolada. Nos rostos molhados havia aquela expressão decidida de
homens que acabavam de sofrer sério desapontamento. Eles se reuniram, lentos e calados, no único refúgio de tamanho
suficiente para acomodá-los todos - uma cocheira -, sentindo o cheiro da
chuva e ouvindo seu martelar nas janelas e no telhado. Sentado numa das cadeiras perto da mesa à sua frente, o General
Sir Kenneth Anderson, comandante da Força-Tarefa Leste britânica, estava com
os olhos baixos, as faces do seu rosto estreito chupadas e a boca ainda mais
abatida que de hábito. Ao seu lado, o General Dwight Eisenhower, comandante-chefe de
todas as Forças Aliadas da Tunísia, com a boca, de lábios finos, transformada
numa linha rígida, olhava os homens à sua frente: o General Orlando Ward,
comandante da 1a Divisão Blindada americana, um dos homens mais
graduados ali presentes, oficial muito respeitado, e que parecia um eficiente
mestre-escola; o General-de-Brigada Raymond McQuillin, chefe do Comando de
Combate "A" da 1a Divisão Blindada, outro oficial
graduado de grande reputação; o General-de-Brigada Paul Robinett, do Comando
de Combate "B", soldado culto e inteligente e amigo pessoal de
Eisenhower; o Coronel Robert Stack, líder do terceiro dos comandos de combate
da 1a Divisão Blindada - que, em termos britânicos, correspondia
aproximadamente a uma Brigada -; os oficiais britânicos envergando trajes
displicentes e nada soldadescos: Brigadeiro McNabb, chefe de estado-maior de
Anderson; Brigadeiro Cameron Nicholson, assistente do comandante da 6a
Divisão Blindada britânica; Brigadeiro Charles Dunphie, comandante da 26a
Brigada Blindada; os generais franceses, Henri Giraud, Alphonse Juin e
Louis-Marie Koeltz, homens que haviam confiado sua sorte e suas tropas aos
Aliados. Eisenhower, verificando que já ali estavam todos os homens por
quem havia esperado, ergueu-se para falar e o que lhes tinha a dizer era nada
menos que uma notícia realmente sombria, e a resumiu em poucas palavras:
"Senhores, perdemos a corrida para Túnis". Em 1942, apareceram os primeiros e vagos indícios de que o Eixo,
até então vitorioso, já mostrava algumas rachaduras; o Exército Vermelho não
cedera ante o poderoso golpe de mão dos adversários e, em vez disso, agora
começava a secar a Wehrmacht. Na África do Norte, Montgomery derrotara Rommel
- Rommel, o imbatido, o aparentemente invencível - em El Alamein. Agora o
Exército Panzer ítalo-germânico da Raposa do Deserto estava em retirada,
travando pouco mais que ações de retaguarda pela Cirenaica e através da jóia
do império colonial italiano, a Líbia. Ele se dirigia para a Tunísia e para o que acreditava ser a
única linha de defesa restante, a cadeia de fortes de concreto construída
antes da guerra pelos franceses, que previa a ameaça de incursões dos
italianos expansionistas de Mussolini, e chamavam-na de Linha Mareth. Ele
estava certo de que ali poderia resistir e manter um exército na África,
conservando à distância as forças adversárias. A resposta dos Aliados, tão logo adivinharam suas intenções,
fora a "Operação Tocha", os desembarques na África do Norte,
destinados a impedir que Rommel se estabelecesse naquela Linha. O ponto de
desembarque mais próximo que poderia ser usado era na Argélia, pois a
tentativa de alcançar a própria Tunísia teria colocado os Aliados na situação
de presas das forças do Eixo na Itália Meridional. A princípio foi tudo bem. Os alemães admitiram que a
"Tocha" os surpreendeu. Os franceses sob o governo de Vichy, na
Argélia, com quem se faziam negociações secretas há algum tempo, mudaram de
lado, permitiram que se dessem os desembarques sem qualquer oposição e ainda
colocaram suas tropas a disposição dos Aliados. Eisenhower, contando com reduzidos recursos - apenas uma divisão
de infantaria formada de elementos de várias nacionalidades, mais um
regimento de tanques com número abaixo dos seus efetivos -, lançou-se à
arrojada corrida para o leste, para chegar antes da Rommel a Túnis, situada a
900 km de distância. Até agora conseguira, pois os alemães estavam confinados
numa cabeça-de-ponte mais ou menos retangular nas planícies da Tunísia, que
os Aliados haviam penetrado duas semanas após os desembarques. Então, o que saíra errado? Primeiro, os alemães, de pronto recuperados da surpresa,
reagiram e conseguiram impedir a repetição, na Tunísia, do fracasso
acontecido na Argélia. Os franceses não tiveram chance de mudar de lado. O
país foi ocupado em poucas horas e logo se organizou uma força defensiva. Também haviam mostrado que, tão logo os Aliados entrassem na
Tunísia, eles os combateriam em toda a linha, pois para isso, no momento,
possuíam os efetivos suficientes. Era duro de reconhecer, mas, nestas circunstâncias, as
inexperientes tropas de Eisenhower teriam de enfrentar uma luta obstinada
contra os veteranos do Eixo. Já a 1° de dezembro, a 10a Divisão
Panzer alemã, que mais tarde desempenharia papel tão importante, desfechou um
ataque de duas pontas contra Terbourba e El Bathan, ambas situadas na
extremidade norte da linha aliada. No fim de três dias de luta em que foram
envolvidas unidades britânicas e americanas, Terbourba teve de ser evacuada. A batalha destacou a disparidade de experiência dos exércitos
adversários. Nas palavras de Eisenhower, o esforço aliado "violara todos
os princípios de guerra reconhecidos". As únicas tropas melhor treinadas - conhecedoras das condições
da região eram as francesas, mas estavam tão mal equipadas em termos de
quantidade e qualidade, que era um ato de temeridade absoluta enfrentar as
forças alemães tão bem equipadas e blindadas. Entretanto, o Eixo não fora o derradeiro e o mais implacável dos
inimigos. Ao desembarcar, Eisenhower sabia que suas forças enfrentavam
dois competidores, e não um, na sua corrida. O segundo adversário eram as
condições do tempo. Se quisesse atingir seu objetivo, que seria, de um só
golpe, atravessar a cabeça-de-ponte inimiga, atingir Rommel pelas costas e
dar aos Aliados um segundo porto de abastecimento, tão desesperadamente
carentes, teria de fazê-lo antes que a estação chuvosa transformasse as
colinas e as planícies secas num grande atoleiro. Fora a compreensão de que isto é que detivera a ofensiva: a
chegada prematura de chuvas incomumente pesadas no norte da Tunísia o golpe
mais difícil de suportar. O General Anderson, que, normalmente lacônico, parecia estar
procurando as palavras adequadas, disse aos oficiais alojados naquela cocheira
que mandara seus homens tentar mover os veículos de vários tamanhos e que
eles se confessaram incapacitados de poder fazê-lo. E nem precisava ter-lhes dito nada. Eisenhower e seu grupo
tinham visto quatro homens tentar empurrar uma motocicleta para fora do
aeródromo onde haviam pousado a fim de usá-la para comparecerem à reunião. Alguém do local, com quem Anderson conversara, disse que as
chuvas tendiam piorar durante todo o mês de janeiro e grande de parte de
fevereiro. Nada se podia fazer, portanto; a ofensiva teria de ser
interrompida até a primavera. "Assim", disse Anderson num despacho ao Ministro da
Guerra britânico, "não há mais esperanças de capturar Túnis de assalto.
Agora estava bem claro que quando chegasse o momento de desfechar novo ataque
seria preciso fazê-lo numa escala muito maior e enfrentar oposição bem mais
forte. Era uma decisão triste, mas inevitável, por causa das más condições do
tempo". Esta foi, portanto, a desagradável notícia transmitida aos
homens alojados naquela cocheira. Eles sabiam muito bem que isso tinha um significado muito maior
que a perda de uma simples batalha. Também sabiam que cada passo dado pelos
Aliados naquela fase da luta representava uma parte integrante da enorme
estratégia preparada pelos seus líderes e presa a um cronograma muito rígido.
A derrota iminente do Eixo na África do Norte teria liberado os britânicos,
os americanos e agora algumas centenas de milhares de soldados franceses que
lutavam ali. Eles poderiam então ter atravessado o Mediterrâneo indo até a
ponta da bota italiana, penetrado pela Europa Meridional, juntando-se na
ocasião oportuna às forças de invasão que atravessariam o Canal da Mancha em
direção ao norte da Europa. Mas tudo isto fora agora adiado. O fracasso na corrida para
Túnis representara não apenas a perda de uma batalha mas o prolongamento
indefinido da guerra. Nasce o 5o Exército Panzer Anderson, ao registrar que a nova ofensiva enfrentaria um
inimigo bastante fortalecido, deve ter endossado o pensamento de todos os
oficiais do QG do 5o Corpo, naquela noite de Natal. O Eixo reunira suas forças na Tunísia com espantosa rapidez. O
estoque minguante de potencial humano fora arrebanhado apressadamente e
reunido num novo 15o Corpo de Exército. A 16 de novembro, apenas
uma semana após os desembarques da "Tocha", seu comandante, General
Walther Nehring, chegou à Tunísia a fim de estabelecer seu QG ali. Ao chegar, encontrou o ambiente cheio de confusão. Devido à
pressa em reunir forças; ainda não se organizara um comando. No QG não havia
máquinas de escrever, nem meios de comunicação, e o único transporte
restringia-se a táxis franceses. Ele, porém, logo providenciou destacamentos
de segurança. Em El Aroussa, ao sul do rio Medjerda, que corta a planície
tunisiana, uma força de reconhecimento do 5° Regimento de Pára-quedistas
alemão já travara uma batalha regular com um batalhão de infantaria aliado
que contava com o apoio de uns 12 tanques britânicos. No fim, embora a força
aliada chegasse à beira da derrota, os alemães de repente suspenderam a luta,
devido à necessidade de poupar as forças tão valiosas para enfrentar o
esperado ataque principal. Com esforços deste tipo, Nehring conseguira
ampliar vigorosamente a cabeça-de-ponte do Eixo até onde julgava possível. Enquanto isso acontecia, um serviço de ponte aérea dos grandes
transportes Junker 52 negros estava trazendo soldados à razão de quase 1.000
por dia. Em pouco tempo, a cabeça-de-ponte continha não um corpo mas um
exército. Nessas circunstâncias, o que se precisava era de um
comandante-de-exército, e o Alto Comando alemão decidiu nomeá-lo na pessoa do
Coronel-General Jürgen von Arnim. O coronel-general era um Junker, misto de aristocrata e soldado
prussiano que percorrera a senda ortodoxa até o comando. Fiel às suas origens,
permanecia tradicionalista ferrenho, mas também hábil comandante de
blindados. Sua aparência não inspirara simpatia; o quepe de oficial, de
frente alta, cobria-lhe o rosto de rato-silvestre ornado de um pequeno bigode
- algo parecido com o do Führer; as botas bem engraxadas apenas atraíam
atenção para um pé esquerdo defeituoso que o obrigava a claudicar um pouco. Ele era o verdadeiro protótipo daquela classe que provocava da
parte de Hitler as críticas mais ferinas: os "cavalheiros" que
escreviam "von" precedendo o nome e a quem o resto da Europa vira
como a personificação do "militarismo prussiano". Porém, sua natural e inflexível tenacidade foi o que
provavelmente o recomendara para a missão que tinha a cumprir: defender a
manutenção da cabeça-de-ponte tunisiana contra qualquer intruso. Ele foi
chamado da Rússia, onde estava comandando o 39° Corpo Panzer, para o Covil do
Lobo, QG avançado de Hitler, em Rastemburgo, na Prússia Oriental, e viajou em
companhia do Tenente-General Heinz Ziegler. Hitler apresentou aos dois seu
plano para manter uma cabeça-de-ponte permanente na Tunísia com o 5o
Exército Panzer comandado por Arnim e tendo Ziegler como subchefe "com
plenos poderes". A nomeação de Ziegler fora criada, disse o Führer, para
evitar que se repetisse a situação enfrentada por Rommel, em que tudo
dependia da personalidade de um só homem. O comandante precisava ter alguém
de igual posição com quem pudesse confidenciar. Isto significava também que
enquanto ele estivesse visitando unidades que, na África do Norte, podiam
estar espalhadas por centenas de quilômetros quadrados, haveria alguém em seu
lugar, habilitado para agir. Esperava-se que isto assegurasse a atividade
constante da maquinaria de tomada de decisão nas vinte e quatro horas do dia. Os dois oficiais, porém, estavam mais interessados nas tropas
que iriam receber para levar avante sua missão. Keitel, também presente,
comunicou-lhes que receberiam três divisões blindadas e três de artilharia
motorizada, até fins de março. Nelas estaria incluída a divisão de elite da
Luftwaffe, a Hermann Göring. Arnim, sabedor que o trecho compreendido entre a Itália e a
Tunísia estava sob ataque constante, arriscou-se a perguntar se tal força
poderia ser levada pelo Mediterrâneo com segurança. Seu líder estava serenamente otimista: Naturlich, replicou. Explicaram-lhes ainda que eles estariam sob as ordens diretas do
Feldmarechal Albert Kesselring, o Comandante Sul, e nominalmente sob o
Comando Supremo italiano, porque a África ainda era - pelo menos na aparência
- um teatro italiano, fato que mais tarde levaria a complicações
intermináveis. Em seguida foram fazer a costumeira visita de cortesia, às
pressas, a Mussolini, em Roma. Quatro dias depois, com a cabeça cheia de
idéias conflitantes e muito vagas sobre geografia e política do seu setor e
dos objetivos da campanha, assumiram o comando. Nehring, que não fora
informado dessa nomeação, viu-se, de uma hora para outra, frente a frente, em
seu QG improvisado, com os dois homens que vinham substituí-lo. Deste evento originou-se a criação do 5o Exército
Panzer alemão. A cabeça-de-ponte tunisiana, de Arnim, sendo restrita (e ele sem
dúvida aprendera o valor de uma cabeça-de-ponte mais restrita, pelo uso que o
Exército Vermelho fazia delas) oferecia certas vantagens. Os suprimentos levados através da Europa até a Itália tinham de
percorrer um trecho marítimo curto, mas perigoso, como observou Arnim, indo
da Sicília até os portos acessíveis da Tunísia. Sua principal linha de
abastecimento para a frente tinha apenas 80 km de extensão e ele revestira
com asfalto as pistas dos aeródromos. Por contraste, os Aliados só podiam contar com o trampolim da
"Tocha" de Gibraltar para seu abastecimento e, atrás desse, a
própria Grã-Bretanha, a milhares de quilômetros de distância pela costa
atlântica da Europa, cuja maior parte estava ocupada pelos alemães.
Alternativamente, e quase eqüidistantes, ficavam os Estados Unidos. Uma seção
dos comboios da "Tocha", por exemplo, havia zarpado de Clyde,
enquanto que o restante partira de Portland, Maine e Norfolk, na Virgínia,
para participar da invasão. O porto disponível mais próximo era Bône, na Argélia, e ficava a
uns 480 km de distância da frente. O inimigo estava perfeitamente cônscio da
situação e a expôs à atividade da força aérea concentrada, o que prejudicou
deveras o movimento. Os únicos outros portos sob controle dos aliados estavam
em Argel e Oran, mais distantes ainda. Tudo isto estava criando sérios problemas de ordem
administrativa. E para agravar ainda mais as coisas, havia grande escassez de
locomotivas e material rodante, tornando difícil a utilização plena das
poucas ferrovias que cruzavam o país. Não havia reserva de transporte
motorizado e a necessidade de reequipar os franceses para que pudessem
desempenhar a parte que lhes cabia estava aumentando ainda mais as
dificuldades existentes. Excetuando-se um aeródromo em Youks les Bains, no sudeste, que
tinha a pista de pouso revestida de aço, todas as bases aéreas aliadas era
chão de terra batida. Entretanto, linhas de abastecimento mais curtas e eficientes não
eram as únicas prerrogativas do Eixo. Também se verificara, assim que os Aliados tiveram de enfrentar
oposição, que o inimigo era superior em todas as armas importantes da moderna
guerra motorizada. Britânicos e americanos nada tinham que pudesse competir com o
canhão antitanques alemão de 88 mm, cujas guarnições haviam aprendido a usar
provocando efeito tão mortífero. O tanque-padrão dos invasores, o M-3
americano, ou Grant, era leve demais e mal armado para enfrentar os Pzkw Mark
IV especiais. Demoraria um pouco até que houvesse no teatro o número
necessário de M-4, ou Sherman, que eram mais eficientes, para reequipar as
unidades blindadas americanas e britânicas, ou mesmo antes que houvesse a
possibilidade de retirar essas unidades da linha de montagem. Nessa época também havia boatos da existência de um novo e
gigantesco tanque alemão na Tunísia e que, segundo se dizia, podia destruir o
que quer que fosse que os Aliados pusessem em ação. Era o Pzkw Mark VI, ou tanque
Tigre. Quando ele surgiu, verificou-se que era de fato tão destruidor quanto
os boatos diziam ser. Uma nova arma de artilharia alemã também não demoraria a
aparecer. Tratava-se do Nebelwerfer, uma peça de múltiplos canos, com
cadência de tiro devastadoramente alta (Para torná-lo ainda mais
desagradável, ele se acompanhava do som de um guincho forte). Rommel
assistira uma demonstração do Nebelwerfer algum tempo antes e ficara bastante
impressionado com seu desempenho, a ponto de querer receber tantos quantos
pudesse. Levando em conta todos esses fatos, e a maior experiência de
combate demonstrada pelas tropas alemães, era bem evidente que para os
Aliados, quando a campanha recomeçou na primavera, havia uma assustadora
perspectiva a enfrentar. Não obstante, a longo e curto prazo, eles tinham todas as razões
para estar confiantes. É verdade que o Eixo, cuja cabeça-de-ponte ocupava a
planície tunisiana, gozava de certa vantagem na defesa, mas a posição aliada
ainda se podia dizer que era boa. A Tunísia, de modo geral, é uma região com dois nivelamentos em
sua topografia: atrás da planície, até a fronteira oriental, os montes Atlas
lançam contrafortes que vão desde a costa norte até os pântanos salgados do
Sul. Estes terminam em duas serras que atravessam o país como
vértebras. Esta similaridade ocorrera a outras montanhas, pois elas são
chamadas de Dorsais Oriental e Ocidental, ao longo das quais, em dezembro de
1942, se estendia a linha aliada, e a única maneira de penetrá-la era
contornar a extremidade sul do Dorsal, em Gafsa, ou rompe-la através dos
Passos montanheses, situados em Pichon, Fondouk, Faïd e Maknassy. A Dorsal Ocidental, ou Pequeno Dorsal, é uma serra menor que se
junta à serra oriental no Norte, para depois divergir e culminar a sudoeste
de Thelepte e Feriana, de modo que as duas cadeias de montanhas formam um
grande "V" invertido. Seus passos ficavam em Maktar, Sbiba,
Kasserine e Feriana. Dessa forma, os Aliados possuíam uma linha defensiva dupla. Os
passos podiam ser bloqueados com forças relativamente pequenas e os atacantes
teriam primeiro de penetrar um passo pela Dorsal Oriental e depois, outro,
pela Dorsal Ocidental, antes de obterem qualquer chance de chegar aos seus
pontos de concentração na retaguarda. Para achar um caminho que levasse até o coração aliado, seria
exigido grande esforço dos talentos táticos de um Rommel e ele ainda estava a
centenas de quilômetros de distância, perseguido pelo 8° Exército de
Montgomery. A linha é reorganizada
Por enquanto, não havia razões para que os Aliados não se
deixassem ficar acomodados atrás das suas defesas, acumulando
sistematicamente os suprimentos, familiarizando os soldados com os novos
tanques que começavam a chegar, ao mesmo tempo que adquiriam experiência de
combate e mantinham o inimigo ocupado com ataques esporádicos. Visto por este
prisma, o adiamento trazia grandes vantagens. Além disso, esse estado de coisas talvez facilitasse a solução
de pelo menos um dos problemas que afligiam o QG das Forças aliadas. Os
franceses, na Argélia, não só haviam mudado de lado como também lançaram em
combate rápida e arrojadamente todo o peso de suas forças junto com os
Aliados. O General Giraud fora nomeado comandante-chefe das forças
francesas, com o General Juin à frente das forças terrestres. Além de
destacamentos sediados bem no interior do Saara argelino, ele também tinha,
na Argélia Oriental e na Tunísia, as Divisões "Argel",
"Tunisina" e "Constantina", comandadas em conjunto pelo
enérgico e ardiloso General Koeltz. A capacidade dessas forças em lutar e superar todas as
dificuldades era um grande e elogiável exemplo de iniciativa e força de
vontade. A França, em sua maior parte, estava ocupada havia mais de dois
anos, enfrentando toda espécie de problemas concomitantes de escassez e de inflação
generalizada. Nessas circunstâncias, só quem podia ter satisfeitas, ainda que
por enquanto, as suas necessidades eram as forças coloniais. Desde que a
guerra começou, deixou de haver reposições de veículos, era grande a falta de
peças sobressalentes e a gasolina era tão escassa, que muitos veículos tinham
sido adaptados para substituí-la por álcool ou por gasogênio. Suas armas eram projetadas somente para lhes permitir repelir
ataques nativos ou esmagar insurreições, não para guerrear um inimigo bem
equipado. Um mês antes, a 19 de novembro, suas deficiências em equipamento
foram postas abertamente em evidência. O setor da linha no ponto-chave de
Medjez el Bab, defendido pela Divisão "Tunisina", do General
Georges Barre, havia ignorado desdenhosamente o ultimato dos alemães para que
se rendesse. Os atacantes foram repelidos por duas vezes, mas devido à falta
de equipamento moderno, os franceses foram obrigados a recuar, na noite de 20
de novembro. O reequipamento dessas forças, que na realidade fora uma das
condições para que eles permitissem desembarques sem oposição, recebera alta
prioridade entre os outros Aliados. Uma outra complicação vinha da recusa
obstinada do comandante-chefe francês, General Giraud, no sentido de colocar
suas tropas sob comando britânico. O homem mais diretamente atingido por essa intransigência dos
franceses era o General Anderson, comandante da Força-Tarefa Oriental, cujas
pontas-de-lança dirigiam o avanço pela Tunísia. Anderson era daqueles escoceses magros e austeros para quem
talvez se tenha cunhado a palavra "casmurro". Os que estão
informados sobre a chamada "casmurrice" dos escoceses sabem que
esta muitas vezes é oriunda de extrema timidez. E os que conseguiram vencer a
reserva do tímido sabem que esta muitas vezes encobre nada menos que uma
desmedida ambição. Infelizmente, este tipo de personalidade só muito raramente é
capaz de inspirar em alguém a espécie de entusiasmo de que se precisa numa
guerra. Quando era citado o nome de Anderson nas discussões de oficiais
colegas seus, de repente pairava o silêncio, até que um deles talvez
dissesse: "Naturalmente, ele tem uma reputação notável". Anderson, porém, fizera o máximo para resolver a contento o
problema do comando dos franceses, chegando ao ponto de oferecer sua demissão
e retornar à Inglaterra. Afinal chegou-se a uma solução, embora temporária, com a
aprovação de Giraud: o próprio Eisenhower deveria assumir o comando na
frente, com Anderson dirigindo a Força-Tarefa Oriental, no Norte, enquanto
que os franceses instalados nas colinas centrais estariam no comando das suas
próprias forças e das forças americanas, no Sul. A Força-Tarefa Oriental, de Anderson, foi rebatizada como o 1°
Exército, e Eisenhower abriu um posto de comando avançado em Constantina, sob
a direção do General-de-Divisão Lucian Truscott, como subchefe do
Estado-Maior. Uma terceira etapa nesta reorganização refere-se à indicação do
General Juin para o comando das forças francesas. Ele na verdade estava
controlando duas zonas em separado, a Divisão "Tunisina" do General
Barre, no norte, e as divisões comandadas pelo General Koeltz, no centro. Em vez de desfechar o ataque a Túnis e para assegurar-se de que
os alemães se manteriam inteiramente espalhados e sem oportunidade de se
estabelecerem, Eisenhower também decidira atacar com o 2o Corpo
americano, agora reunindo-se em Tebessa, o porto de Stax. Isto levaria a
batalha para o sul, onde as condições do tempo eram bem mais favoráveis. Uma das primeiras providências adotadas, para tomar essa decisão,
foi transferir o Comando de Combate "B" de Robinett, com outros
elementos americanos, do setor do 1° Exército para a frente do 2o
Corpo americano no Sul. Embora um tanto indeciso, Eisenhower nomeara um comandante para
esse corpo. A escolha recaiu no General-de-Divisão Lloyd Fredendall. Este,
com quase 60 anos de idade, mas com aparência de muito mais jovem, via-se
como um verdadeiro executivo americano. Não gostava dos britânicos e sentia
tanto desprezo pelos franceses, que a bravura e o destemor deles não
conseguiam despertar, de sua parte, a menor admiração ou até mesmo piedade,
se fosse o caso. Fredendall adquirira a reputação de comandante resoluto e
vigoroso. Era notado pela sua obediência às formalidades militares: os trajes
informais e às vezes excêntricos que outros oficiais aliados gostavam de usar
não tinham aceitação em seu QG, e segurança era nele quase mania. Isto mais o
hábito de se expressar em linguagem baseada em máximas agressivas davam às
suas mensagens uma idiossincrasia de estilo que o situava entre Damon Runyon
e William Faulkner. O aspecto mais sério do seu caráter, porém, era a incapacidade
de delegar autoridade. Segundo declaração de um oficial, ele sofria da
"tendência de controlar as cartas, em vez de distribuir entre seus subordinados
tarefas e os meios para bem desempenhá-las, e deixá-los inteiramente
responsáveis pelos resultados obtidos". A 4 de janeiro, Fredendall mudou o QG do 2o Corpo, de
Oran para Constantina. Despachou-se um posto de comando avançado para Tebessa e, nesse
meio tempo, os engenheiros começavam a trabalhar no intricado labirinto de
corredores e escritórios subterrâneos talhados bem no interior da encosta e
que se destinariam ao QG do Corpo sediado naquela cidade. Rommel fora criticado por "estar presente em toda parte do
campo de batalha". Fredendall, no entanto, dava a impressão de que
dificilmente se poderia imaginá-lo nas mesmas condições. A fim de desfechar um ataque a Sfax, ele recebera ordens de
concentrar e preparar todas as suas forças, que, de início, consistiriam da 1a
Divisão Blindada do General Ward com apoio de infantaria. Na época, Ward se
considerara o melhor indicado para ocupar o posto de Fredendall, por ser o
comandante americano mais graduado, e talvez apenas por esse motivo existia
uma acentuada aversão entre os dois. Um era de tal forma a antítese do outro,
que a aversão mútua existente logo se transformou em ódio. Fredendall
extravasava esse sentimento através de espalhafatosas e constantes
reclamações contra seu subordinado; da parte de Ward, o ódio se manifestou
por um desprezo calmo e implacável diante de seu adversário. A tarefa do 2o Corpo implicava em que os Aliados
agora estavam espalhados por uma frente de 400 km, defendida por exércitos de
três nações, cada uma, porém, mantendo sua própria autonomia. Na extremidade
sul da linha, o 2o Corpo americano ocupava-se em reunir os
suprimentos para o ataque a Sfax. Este setor estendia-se desde os postos
avançados mais meridionais de El Guettar, até Hadjeb el Aioun, ponto situado
a uns 30 km ao sul do passo montanhês de Pichon. A zona das montanhas
centrais do Dorsal Oriental estava sob a defesa dos franceses até uns 16 km
de Bou Arada. Dali até a costa, a responsabilidade da defesa cabia ao 1°
Exército britânico. Nos primeiros tempos, Rommel criticara o 8o Exército
por usar seus blindados em "pacotinhos". Ao estender-se a linha na
Tunísia, havia indícios de que essa deficiência se repetiria ali. Em meados de janeiro outra providência para resolver o problema
de comando foi tomada no Marrocos Francês, tendo-se iniciado ali, no dia 14,
a Conferência de Casablanca. Eisenhower estava presente para fazer um
relatório e durante as conversações, Churchill sugerira, e apoiado por
Roosevelt, a nomeação do General Sir Harold Alexander para preencher a vaga
de Subchefe do Estado-Maior. Isto venceria as objeções dos franceses quanto
ao fato de estar no comando-geral um oficial britânico. Para facilitar a execução destes planos, Alexander foi chamado
do Cairo para juntar-se a Eisenhower, ocorrendo, então, segundo as palavras
de Churchill, "perfeito entendimento entre ambos". Era inevitável que se mencionasse a questão do ataque a Sfax,
proposto por Eisenhower. O General Sir Alan Brooke, Chefe do
Estado-Maior-Geral Imperial, já contestara as justificativas referentes aos
riscos implicados, e Alexander observou que o 8° Exército não poderia chegar
ao porto de Trípoli antes do fim de janeiro, talvez no momento exato em que
se deveria começar o ataque, além de que estaria então com escassez de
suprimentos enquanto aguardava que aquele porto ficasse livre dos obstáculos,
ou minas, que o inimigo tivesse ali colocado, ou reativado. Assim sendo, o 8o
Exército não poderia impedir a marcha do exército de Rommel, que talvez fosse
levado a fazer um contra-ataque contra os americanos que, nessas
circunstâncias, teriam de resistir sozinhos. Após mais alguns debates com Alexander, Eisenhower convenceu-se,
afinal, que deveria cancelar a operação de Sfax, e deixou Casablanca
aparentemente muito satisfeito com os resultados da conferência e mais a
aquisição de um subcomandante capaz e famoso. Só houve uma dificuldade:
Alexander ainda levaria um mês para saldar seus compromissos no Cairo antes
de assumir o novo cargo. A Eisenhower restava a esperança de que não houvesse
quaisquer contratempos na sua frente durante esse período. Suas esperanças, no entanto, não passaram de ilusão, pois ao
chegar à Tunísia encontrou-a em plena batalha, no centro, com os franceses em
luta pela própria sobrevivência. No dia de Ano Novo de 1943, Anderson, após abandonar o avanço
para leste, dera novas ordens para o 5o Corpo no sentido de manter
pressão constante sobre o inimigo, bem como desfechar ataques limitados
visando capturar, sempre que possível, terreno favorável a quaisquer
atividades futuras. Os três destes "ataques limitados" de fato
realizados resultaram em fracasso, embora o segundo, feito pela 6a
Divisão Blindada, tenha causado pesadas baixas às unidades atacantes, neste
caso o 6o de Fuzileiros de Inniskilling. Mais ou menos na mesma época, as tropas francesas sob o comando
de Barre e Mathenet, que avançavam na área da Brecha de Karachoum, repeliram
a 1a Divisão "Superga" italiana numa operação que, de
acordo com os planos, iria ajudar a ofensiva de Sfax. Este feito compensou,
de alguma forma, as perdas francesas que se deram noutra parte. É que os
alemães, conhecedores já então do ponto fraco do inimigo, montaram vigoroso
ataque blindado e também aéreo contra Fondouk, um dos passos que atravessa o
Dorsal Oriental; os defensores não conseguiram repeli-lo e a área foi tomada. Nessa época, a perda de terreno sofrida pelos italianos na área
da Brecha de Karachoum era motivo de grande preocupação para Arnim. Caso
houvesse mais perdas semelhantes, seu próprio ponto de concentração na Cidade
Santa muçulmana de Kairouan estava ameaçada e o caminho estaria livre para um
ataque que, sem dúvida, iria interromper as comunicações de Rommel com os
principais portos de Túnis e Bizerta. A 14 de janeiro ele preparou uma operação na área de Bou Arada-Robaa-Vale
do Ousseltia para tentar resolver a situação. Esta recebeu o codinome de "Eilbote" (Mensageiro
Especial) e foi programada para iniciar-se a 18 de janeiro. A ação era um
ataque típico alemão de duas pontas que envolveriam os franceses, uma pela
retaguarda e a outra pela frente, de maneira consecutiva. Um ataque diversivo feito no Vale de Bou Arada por elementos da
10a Divisão Panzer foi surpreendido pela Divisão Blindada
britânica, que o rechaçou facilmente e ainda conseguiu despachar canhões
antitanques para ajudar os franceses. Naquela tarde, porém, as forças alemães principais que avançavam
sobre Robaa e Ousseltia atacaram as tropas francesas nos limites de duas das
suas divisões. Desceram as trilhas do vale escoltados de infantaria de ambos
os lados - tirando partido da falta de armas antitanques da parte dos
franceses -, mas pela manhã de 19 de janeiro, uma força alemã estava
avançando vigorosamente para Robaa, enquanto a outra limpava a Brecha de
Karachoum e se preparava para avançar pela estrada Kairouan - Ousseltia. Ao anoitecer daquele dia, Juin comunicava que a situação era
crítica e pedia ajuda. Eisenhower ordenou a Fredendall que enviasse os
reforços necessários. Este, ignorando os costumes e a ética normais da
hierarquia, em vez de procurar Ward, seu subordinado mais graduado, foi
direto a um dos seus comandantes de unidade, Robinetti. De qualquer modo, Robinett era uma boa escolha. Oficial da maior
competência e ardiloso, compreendia seus problemas, e tendo freqüentado a
escola de cavalaria francesa de Saumur, dominava bem o idioma inglês e, para
coroar, tratava-se de um homem inteligente e culto. Contrastando com seu
comandante-de-corpo, ele se comunicava num inglês bem articulado e elegante,
dando toda a impressão de ser alguém preparado para empenhar todas as suas
faculdades na solução do problema à mão. A mensagem que Robinett recebeu era um típico criptograma de
Fredendall: "Mude seu comando, isto é, os rapazes a pé, as espingardas,
a turma de Baker e a turma que é o contrário da de Baker e o grandalhão para
M, que fica ao norte de onde você está agora, o mais depressa possível. Diga
para seu patrão" - a mensagem foi mandada por um oficial de Estado-Maior
- "apresentar-se ao cavalheiro francês cujo nome começa com J, num lugar
que começa com D, que fica a cinco quadras à esquerda de M" Com certa frieza Robinett comenta que provavelmente demorou
tanto tempo para decifrar a mensagem quanto os alemães que por acaso a tenham
captado. Recorrendo a um mapa e com a ajuda do seu oficial-de-ligação
francês, ambos chegaram à conclusão de que M representava Maktar, que "o
cavalheiro francês" era o General Juin e D representava seu QG em
Djerissa. Robinett partiu imediatamente, e após uma longa e árdua marcha,
o Comando de Combate "B" chegou afinal à zona de batalha, ao
meio-dia de 21 de janeiro. Ali, ele recebeu ordens do General Koeltz no
sentido de contra-atacar para leste, ao longo da Estrada Ousselti-Kairouan.
Após a marcha, Robinett estava decidido a não desperdiçar suas forças em ataques
esporádicos e, por conseguinte, seu contra-ataque para reabrir o Passo de
Kairouan só começou às 15h, quando então os aviões já haviam bombardeado as
posições alemães e podia contar com o apoio suficiente da artilharia. O
ataque avançou sistematicamente, enfrentando vigorosa resistência até o
anoitecer, mas não conseguiu desalojar os blindados alemães da posição de
bloqueio da estrada, muito embora, durante a noite, eles recuassem para um
perímetro defensivo, permitindo com isso que algumas tropas francesas, que
haviam sido isoladas, escapassem. Longe dali, em Tebessa, o 2o Corpo desempenhava seu
papel. Homens cuja espécie de temperamento os impossibilita de delegar
qualquer autoridade quase sempre se desculpam quando não podem confiar
tarefas a terceiros. Do seu QG situado num canyon - muito distante para que
ele pudesse ter a apreciação, de minuto a minuto, dos acontecimentos,
necessária para a conduta de uma batalha - era constante o envio de
instruções e exortações aos comandantes-de-campanha americanos e franceses.
Devido à sua falta de confiança nas tropas locais, toda unidade que se pôde
reunir foi mandada às pressas ao teatro da batalha, até mesmo sem terem
recebido as devidas instruções especificas. Quando Robinett perguntou o que se deveria fazer com elas, foi
simplesmente informado de que as unidades recém-chegadas seriam controladas
pelos franceses, mas sob o comando direto de Fredendall, que não iria dividir
com ninguém a direção da batalha. Ao mesmo tempo que emitia suas minuciosas instruções, no local
onde uma coordenação era da maior importância - em terra - ela inexistia.
Estabeleceu-se ligação com os britânicos no norte, mas não havia transmissão
radiofônica. A coordenação com os franceses só podia ser através de um
oficial-de-ligação. Quando um oficial de Estado-Maior, do 2o Corpo,
General-de-Divisão Russell Akers, chegou ao local, confessou seu espanto
diante da maneira e dos mínimos detalhes como seu próprio QG estava tentando
dirigir a batalha. Perguntou a Robinett o que faria se o deixassem com as
próprias decisões, e este respondeu que usaria todas as tropas presentes na
área, muitas das quais ainda inativas, sem qualquer missão, apesar da renhida
luta que se desenrolava ao seu redor, e repeliria com elas os alemães. Akers
gostou da idéia e telefonou para o 2o Corpo tentando obter
permissão para executá-la. Como resposta, Robinett recebeu novas ordens no
sentido de posicionar tropas que horas antes já tinham sido liberadas. Então, o comandante francês, General Agadon Deligne, disse que
todo o plano aliado fora mesmo mudado. Robinett agora recebia ordens de
contra-atacar no vale do Ousseltia e dirigir-se para o norte, na direção dos
britânicos, de modo a interceptar as comunicações alemães. Esta linha de ataque mostrava-se de fato bem mais promissora;
infelizmente, porém, a cadeia de comando era muito desigual para realizar
esta tão rápida mudança de tática e desfechar um contragolpe veloz. De
qualquer modo, a munição e os suprimentos com que Robinett contava não haviam
chegado e o plano teve de ser abandonado. Na prática, tudo o que se pôde fazer não foi além de apenas
mordiscar o inimigo. Não fosse o fato de os alemães estarem tendo problemas
de transporte, estando interrompidas as comunicações radiofônicas e com a
estrada que ligava duas das suas unidades temporariamente cortada pelo fogo
britânico, seus ganhos teriam sido ainda maiores. Acontece que quando a linha se firmou, eles se estabeleceram tão
bem no Passo de Kairouan e nas terras altas ao norte de Ousseltia, que as
tentativas no sentido de repeli-los redundaram em fracasso, contra a
resistência entrincheirada. Se nada mais tivessem feito, os ataques a Ousseltia vieram
provar que era impraticável a tentativa de controlar três exércitos nacionais
independentes situados ao longo de uma extensa frente de 400 km de largura
sem nenhuma coordenação-geral. Os alemães souberam escolher muito bem o ponto
de ataque; investiram entre o 5o Corpo britânico e os franceses,
obrigando o adversário a tentar um difícil trabalho de ligação entre seus
limites, além de envolver o 2o Corpo em algumas medidas
corretivas. Isto também veio mostrar que os três exércitos não podiam ser
controlados do Posto de Comando avançado de Eisenhower, em Constantina. Por conseguinte, a 21 de janeiro, ele nomeou Anderson para a
missão de "coordenar" toda a frente, tendo-se-lhe associado, para
sua nova função, o General-de-Brigada Laurence Kuter, do Corpo Aéreo do
Exército americano, para coordenar as atividades da Força Aérea americana e
da RAF. Embora isso fosse um melhoramento, não deixava de ser apenas
contemporização, já que a necessidade real persistia. Afinal de contas, teria
de haver uma pessoa credenciada para comandar toda a frente. Entre outras
complicações existentes, havia a suscetibilidade dos franceses, que
reivindicava o comando dos reforços britânicos e americanos que iam para seu
setor. Anderson, no cumprimento da nova tarefa, viajou mais de 1.600 km
em quatro dias, pois este era o único meio de confabular com os vários
comandantes-de-corpo. As distâncias envolvidas eram por demais extensas para
usar o rádio ou o telefone, e as condições climáticas impossibilitavam as
viagens aéreas. Além disso, quase que por definição, "coordenação"
requer debates e acordos de ambos os lados e estes só podiam ser obtidos
através de conversações pessoais. Em sua viagem ele percebeu que, devido aos esforços feitos nos
primeiros dias de luta para conter o Eixo na menor cabeça-de-ponte possível,
a linha excessivamente estendida tinha precária defesa em muitos pontos. A 3 de fevereiro tomaram-se as primeiras providências no sentido
de deslindar a mistura de nacionalidades existentes ao longo da linha. Os
franceses, no centro, foram integrados no 19o Corpo, que deveria
incluir todas as suas unidades, independente do local em que estivessem até
então, e o comandante seria o General Koeltz. Giraud acabara de voltar de Casablanca e trazia um acordo
assinado pelo Presidente Roosevelt, referente ao abastecimento de material
para três divisões blindadas e oito de infantaria, além de uns 1.000 aviões,
e assim se aproveitaria a oportunidade para reequipá-las, enquanto se tomavam
outras providências. Pelo menos para os franceses, parecia que o adiamento forçado
antes do prosseguimento da ofensiva estava sendo bem utilizado. Ou tê-lo-ia
sido não fora o acontecimento ocorrido em fins de janeiro, isto é, a
travessia da frente sul da Tunísia pelo Exército Panzer ítalo-germânico de
Rommel. O Eixo agora possuía uma linha continua que atravessava todo o
país e protegida na sua extremidade sul pelas forças recém-chegadas de
Rommel. Somente após três semanas é que Alexander assumiu seu novo posto em
Constantina. Ninguém sabia quanto tempo Montgomery levaria para ficar em
posição de ocupar seu velho adversário e Rommel não era homem de ficar
inativo. Na verdade, durante a longa marcha para o norte, ele vinha pensando
na melhor maneira de utilizar a vantagem de tempo que o destino lhe dera e
até já apresentara uma proposta ao Comando Supremo. Esta se referia a um
golpe desfechado na Tunísia pelo seu próprio exército em união com o de Arnim
contra as forças de Eisenhower. Com uma derrota nesta frente, esses mesmos
exércitos poderiam então voltar-se contra Montgomery e, deste modo, mediante
dois ataques sucessivos, haveria a destruição completa dos Aliados na África
do Norte. A primeira fase do plano consistia de uma penetração através dos
passos montanheses onde ele esperava repetir o feito realizado na França, em
1940 - incapacitar o inimigo destruindo suas instalações de retaguarda - neste
caso, a área de preparação do 2o Corpo, em Tebessa. Assim, ele planejava atacar exatamente o local onde, segundo
suas próprias palavras, a defesa girava em torno de um homem que nada fizera
para inspirar confiança durante a batalha do vale do Ousseltia e de um
subordinado com o qual suas relações não eram das melhores. Eisenhower, desde sua volta de Casablanca, e enquanto aguardava
a chegada de Alexander, dera ordens para que todas as unidades ficassem
"pensando defensivamente" E Fredendall estava esforçando-se por obedecer aquela ordem.
Suas instruções incluíam a tarefa de proteger e apoiar os franceses no
centro, bem como ao 1o Exército, mais ao norte. Ele também tinha
de pensar em sua própria base de abastecimento, em Tebessa, e nos aeródromos
avançados de Thelepte e Feriana, localizados na extremidade sul do Dorsal
Ocidental. Para garantir sua linha, ele teria duas alternativas: podia
reforçar as tropas aliadas sediadas no Passo de Faïd, que ficava numa das
estradas principais que levavam ao centro do país; ou, então, poderia ocupar
Maknassy, a 80 km da costa, e o passo adjacente. Giraud e Juin aconselharam,
agora que os alemães estavam de posse de Fondouk e que os Aliados não podiam
mais dar-se ao luxo de perder outros passos no Dorsal Oriental, que Faïd
devia ser defendida o máximo que fosse possível. Para Fredendall, a ação agressiva apresentava um atrativo
imediato. Decidiu atacar Maknassy alegando que sua tomada protegeria, de
fato, o Passo de Faïd, ao mesmo tempo que infligia danos certeiros ao
inimigo. Antes de desfechar o ataque a Maknassy, ele teve a idéia de
fazer uma incursão "de passagem" num dos lugares por onde os
atacantes teriam de passar, a Estação de Sened, uma parada na ferrovia de
bitola estreita que vai de Tozeur, nas planícies salobras do sul, para a
costa leste. Assim que o perceberam, Orlando Ward, comandante da 1a
Divisão Blindada, e o General Welvert, comandante da Divisão
"Constantina", protestaram com veemência, alegando que esta ação
poderia denunciar os planos para o ataque principal. Mesmo assim, Fredendall,
que encarava a incursão como um exercício para levantar o moral, foi em
frente. O ataque, realizado na noite de 24/25 de janeiro, foi dirigido
pelo Coronel Stack e desfechado por uma força do seu Comando de Combate
"C". Foi um êxito que agradou. Só houve uma resistência: a da
infantaria italiana; alguns homens recuaram, mas outros acabaram
entregando-se aos incursores americanos, que saltaram aos berros sobre eles
como índios peles-vermelhas. Em pouco mais de três horas, a partir do início da barragem de
artilharia, o local fora dominado e as unidades incursoras organizaram-se
para o regresso. Pelas 18h, elas já estavam de volta ao bivaque, tendo levado
consigo 96 prisioneiros e calculando quase o mesmo número entre mortos e
feridos. E ainda trouxeram equipamento alemão. As baixas americanas resumiram-se em dois homens feridos, e como
prejuízo, houve um tanque avariado por uma mina e outro, por fogo de
artilharia. No 2o Corpo, todos estavam muito satisfeitos. Fredendall
chegou inclusive ao ponto de telefonar a Eisenhower para lhe dar a boa nova. Embora Eisenhower possa ter ficado contente com a notícia, ele
tinha, no momento, assuntos mais importantes a tratar. A 28 de janeiro, as forças de Arnim renovaram seu ataque a
Robaa, usando mais uma vez os tanques Tigre. Os alemães agora tinham pela
frente o 5o Buffs da 36a Brigada, além de elementos do
2o Batalhão da 16a de Infantaria americana. Estes
resistiram e até destruíram cinco dos tanques inimigos, incluindo dois
Tigres. A 31 de janeiro o inimigo foi obrigado a cancelar o ataque; era
evidente, porém, que Arnim ainda estava interessado em defesa
"ativa". Assim como os Aliados, ele tinha seus próprios problemas
administrativos e de comando, pois se o Alto Comando aliado achava-se
distante do centro de atividade, o do Eixo estava mais distante ainda. Hitler
sempre insistira que a África do Norte era um teatro italiano, mesmo quando o
número de forças alemães tornou-se superior ao do seu aliado. O 5° Exército
Panzer de Arnim, como o de Rommel, estava submisso às ordens vindas de Roma.
A distância e a divergência de filosofias militares alemã e italiana haviam
dado às ordens emanadas do Comando Supremo um caráter oracular. Esta
semelhança, chegando ao ponto de uma ambigüidade délfica, tornou-se mais
marcante à medida que a campanha prosseguia em seu curso. Tendo conquistado o espaço necessário para manobrar e aliviado
as pressões imediatas ao seu redor, Arnim decidia agora assumir o controle
das rotas por intermédio das quais os Aliados da Tunísia Central procurariam
destruir suas forças. Escolheu para o ataque o local exato que os generais franceses
haviam aconselhado Fredendall a dar o máximo de proteção: Faïd. O Comando
Supremo aprovou seu objetivo, mas acreditando como sempre acontecia, que todo
plano feito no local podia ser melhorado pela sua própria intervenção a
distância, mandou Arnim levar a ofensiva até o oásis e centro rodoviário de
Gafsa, na extremidade inferior do Dorsal Oriental. |