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A estratégia definitiva dos
Aliados na Sicília seria, em última análise, função do comportamento do
inimigo, isto é, se ia haver, por parte dele, resistência feroz ou colapso
total. Os Aliados conseguiram seu objetivo, a conquista da ilha, mas um
punhado de tropas alemães e italianas opôs tremenda resistência a dois
exércitos Aliados. O primeiro
ataque à Europa
A invasão da Sicília, em julho de 1943, assinalou o retorno dos
Aliados à Europa e foi o primeiro passo que deram no sentido de libertar o
continente europeu das garras de Hitler. O fato se deu três anos após haver
ele entrado na posse, por assim dizer, da Europa ocidental, com a queda da
França e a expulsão dos britânicos do continente. Em retrospecto, a carga sobre a grande ilha da Itália, que se
constituiu num êxito expressivo, pois em cinco dias ficou inteiramente livre
de tropas alemães e italianas, foi na realidade um salto arriscado e cercado
de incertezas. Embora o desembarque dos Aliados no Noroeste da África - África
do Norte Francesa - no mês de novembro anterior houvesse encontrado, no
início, considerável oposição por parte de tropas francesas, o desembarque na
Sicília foi o primeiro, à parte as incursões marítimas, em que os Aliados
tiveram de enfrentar e vencer forças inimigas reais. O êxito do
empreendimento deveu-se em grande parte à série de erros e dissidências
havidos no lado oposto, entre os líderes do inimigo. Um deles foi a
relutância de Mussolini em consentir que os alemães desempenhassem papel
importante na defesa do território italiano, por medo e inveja do célebre
comparsa que tinha. Outro foi a crença de Hitler, contrariamente à de
Mussolini, de que a Sicília não seria, naquele momento, o objetivo dos
Aliados - e para isso muito concorreu o "plano de despistamento"
posto em execução pelos britânicos. O terceiro e mais importante dos erros
cometidos foi o orgulho demonstrado por Mussolini e Hitler no esforço por
manter a África do Norte dominada por tempo excessivo - decisão basicamente
apoiada no desejo de "salvar as aparências", sem a devida
consideração das conseqüências estratégicas. Isto foi mais surpreendente por parte de Hitler, pois ele e seu
Estado-Maior-Geral sempre hesitaram em empenhar-se em expedições ultramarinas
ao alcance do poderio marítimo britânico, discrepando desse procedimento
quando enviaram uma pequena força sob o comando de Rommel para evitar o
colapso dos italianos em fevereiro de 1941 e, posteriormente, abstiveram-se
de lhe enviar reforços suficientes para prosseguir na série notável de
vitórias sobre os britânicos. Mas, na última fase da campanha norte-africana,
Hitler e seu Estado-Maior, de acordo com Mussolini, despejaram muitas tropas
na Tunísia, sacrificando assim as chances de defesa da Europa. Não fosse o fato de essas forças, num total de quase 250.000
homens, ficarem retidas na Tunísia - e de costas para o mar, poderiam ter-se
constituído numa defesa muito poderosa da Sicília - e as chances de os
Aliados lograrem sucesso na invasão se teriam esvaziado. Mesmo assim, as
tropas italianas ali reunidas chegavam a quase dois mil - mas de moral baixo
quando os invasores chegaram. A maior parte das melhores tropas italianas
tinha-se perdido na África. O fardo principal da defesa da Sicília recaiu
sobre o pequeno número de soldados alemães que haviam sido mandados para lá
como reforço, que chegaram a somar sessenta mil homens quando a batalha se
aproximava do fim, que demorou mais a chegar devido à tenacidade com que se
bateram para tentar eliminar o efeito catastrófico dos primeiros dias da
campanha. Seria difícil encontrar alguém mais bem qualificado para
escrever a história da campanha siciliana do que Martin Blumenson. Durante a
última década ele fez um estudo profundo e prolongado das operações anfíbias.
Após haver-se saído bem ao narrar a história da campanha coreana no começo
dos anos 50, incumbiram-no de escrever a história oficial do Exército
Americano no segundo estágio da campanha da Normandia, registrada no volume
intitulado.Breakout and Pursuit, e posteriormente escreveu um livro bastante
esclarecedor sobre o mesmo assunto, The Duel for France. Desde então, passou
a dedicar-se principalmente às campanhas do Mediterrâneo e escreveu livros
importantes sobre Anzio e o Passo de Kasserine, demonstrando de modo notável
que é possível um historiador oficial mesclar meticulosidade e narrativa
vívida. Ele inicia o livro com um capítulo muito interessante sobre os
contratempos do desembarque aerotransportado preliminar e a seguir passa a um
exame lúcido da "Estratégia Aliada" e dos motivos que levaram à
decisão de invadir a Europa pela Sicília - e não pela Sardenha e Córsega -
como inicialmente preferiam os planejadores americanos e britânicos. O
terceiro capítulo focaliza "A Situação do Eixo". O quarto, mais longo,
descreve e analisa os desembarques marítimos, tratando o quinto da
"Reação do Eixo". Estes capítulos expõem de maneira esclarecedora
os riscos e as incertezas da invasão. O capítulo seguinte, o sexto, retorna
aos problemas e dificuldades que o transporte aéreo da força invasora criou
para a operação, enquanto que o sétimo se prende à brecha surgida na aliança
do Eixo. O Capítulo 8 então delineia o desenvolvimento da invasão, sobretudo
o avanço dos americanos, pelo 7° Exército de Patton, para o lado oeste da
ilha. Seguem-se os capítulos sobre a tomada alemã da chefia das operações, as
mudanças de plano feitas pelos Aliados e a queda de Mussolini. A seguir vem um capítulo sobre a linha do Etna e a vigorosíssima
resistência dos alemães ali, à medida que recuavam para o ângulo nordeste da
Sicília, e o longo capítulo 13 sobre "A Evacuação". Segue-se um
breve "à parte" sobre "O Incidente da Bofetada" que pôs
em perigo a carreira de Patton. O último capítulo, o 15, é um bom sumário
sobre a campanha e discute se ela deve ser considerada "Vitória ou
Derrota?" Estrategicamente, foi uma vitória aliada, mas, taticamente, o
inimigo saiu-se tão bem, em circunstâncias extremamente adversas, e resistiu
tão prolongadamente, após o colapso inicial, que, na opinião do autor, a
"vitória moral" lhe coube. O livro de Martin Blumenson é um relato extraordinariamente
claro de uma campanha complexa, um episódio-chave da guerra. Ele dá às
questões sobre as quais diferiam americanos e britânicos um tratamento
bastante equilibrado. Contudo, não infere que o prolongamento da campanha, e
suas momentosas conseqüências em atrair os Aliados para uma campanha muito
mais prolongada na Itália, se deveu a qualquer defeito de planejamento por
parte do Alto Comando Britânico. |
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O começo O céu estava límpido, com aquele azul-claro característico dos
céus da África do Norte no verão, mas o sol ardia como aço derretido e o
calor era opressivo nos aeródromos, onde pesados aviões de carga, alguns
atados a esguios planadores, estavam passivamente alinhados, recebendo as
atenções de suarentas turmas de inspeção de último momento. Nas proximidades, na agradável sombra oferecida por grupos de
árvores ou pelas paredes dos prédios, soldados arrumavam seu equipamento,
limpavam e examinavam suas armas. Reunidos em torno de tenentes, grupos de
soldados recebiam instruções finais. Cada homem usava uma braçadeira branca,
ostentando uma pequena bandeira americana ou britânica, para identificação.
Não se brincava. Todos observavam os caminhões que partiam para os campos de
pouso no fim da tarde e os soldados que embarcavam nos planadores e colocavam
seu equipamento nos lugares reservados à bagagem. Com a aproximação da noite, os soldados aerotransportados
britânicos, sobrecarregados com seus equipamentos e armas individuais,
partiram para os aeródromos, tomando lugar nos planadores. Os pilotos dos
aviões deram partida aos motores e às 18h45, simultaneamente de vários
aeródromos, os primeiros dos 109 C-47, americanos, e, 35 Albemarles,
britânicos, começaram a percorrer a pista, ganhando o ar, cada qual rebocando
um planador, Waco ou Horsa, repleto de soldados. Sete aviões e planadores, por uma razão ou por outra, não
conseguiram chegar à costa norte-africana e retornaram. Os demais,
reuniram-se sobre as ilhas Kuriate e rumaram para Malta. O sol estava-se
pondo quando os aviões se aproximaram da ilha, mas o farol de sinalização era
visível para todos os pilotos, exceto alguns que iam na retaguarda da coluna. Enquanto anoitecia sobre o Mediterrâneo, sombreando a cor do
mar, o vento aumentou, encrespando as águas e desviando do rumo, aviões e
planadores, fazendo-os sacudir muito. Uma corda de reboque partiu-se e um
planador mergulhou no Mediterrâneo. Os pilotos lutavam por manter-se em posição, mas as formações se
abriram. Alguns esquadrões foram empurrados bem para leste da rota
estabelecida; outros, na retaguarda, foram impelidos para a frente,
ultrapassando as unidades de vanguarda. Dois pilotos perderam o caminho sobre
o mar e voltaram para o sul, retornando à África do Norte. Um terceiro soltou
acidentalmente o planador que rebocava e este caiu ao mar. Os outros, 133
aviões e planadores, ao todo, chegaram ao Cabo Passero, ponto de verificação,
situado na extremidade sudeste da Sicília. Os pilotos mal podiam distinguir a
massa escura de terra, que era de tonalidade pouco mais acentuada do que o
escuro do mar. Dois deles não puderam orientar-se no sentido da terra e
retornaram à África do Norte. Os restantes, agora muito misturados, desviaram-se para o norte
do Cabo Passero e depois rumaram para nordeste, procurando os pilotos,
ansiosamente, o ponto de soltura dos planadores, ao largo da costa leste e
logo ao sul de Siracusa, mas o vento os fustigava. O curso em ziguezague que
lhes fora designado, e que tentavam seguir, fez que a maioria deles fossem
lançados fora do rumo. Quando a noite envolveu a Sicília, os pilotos dos
transportes dificilmente identificavam o ponto certo de soltura. Cerca de 25
retornaram à África e os restantes, uns 115, soltaram os planadores que rebocavam. Os planadores que foram soltos transportavam cerca de 1.200
homens. Isto estaria bem, pois os que haviam planejado a operação esperavam a
ocorrência de acidentes, admitindo que 1.200, ou mesmo 1.000, soldados sobre
a área do alvo seriam suficientes para realizar a missão a eles designada.
Mas, dos 115 planadores que foram soltos mais ou menos nas proximidades do
ponto demarcado, mais de metade caiu ao mar. Apenas 54 planadores pousaram na
Sicília. Destes, somente 12 estavam nas zonas de pouso corretas ou próximo
delas. A maioria dos que caíram no mar se perdeu por afogamento; muitos dos
que se encontravam nos planadores que pousaram em terra ficaram feridos no
pouso. Alguns dos que escaparam aos riscos do pouso em terra estranha e
durante as horas da noite toparam com unidades inimigas e foram mortos,
feridos ou capturados. Diante disso, em lugar de pelo menos 1.000 homens, como se
esperava, apenas um punhado de soldados aerotransportados, menos de 100,
conseguiu chegar ao solo em segurança e próximo do local designado para o
pouso; mas eles se reuniram, orientaram-se e puseram-se a caminho nas
primeiras horas do dia 10 de julho de 1943, quando ainda escuro, na direção
do seu objetivo, a Ponte Grande, logo ao sul de Siracusa. Duas horas depois que as tropas aerotransportadas começaram a
deixar os aeródromos na África do Norte, com o sol se pondo, os primeiros dos
222 C-47, carregando 3.400 pára-quedistas americanos, decolaram. O vento
soprava a cerca de 48 km/h e, desde o começo, os grupos aéreos perderam a
coesão; uma lua em quarto-crescente surgiu, mas dava pouca visibilidade aos
pilotos. Suas luzes de formação noturna eram fracas e ajudavam apenas a
promover o contato visual entre os aviões e, no vôo baixo sobre o
Mediterrâneo, pouco acima da superfície das águas, os pilotos tiveram seus
pára-brisas obscurecidos pelas partículas de água salgada lançadas pelo mar
agitado. Inexperientes em vôo noturno, eles se desgarraram, perderam a
direção, erraram pontos de verificação e se aproximaram da Sicília de todas
as direções. Dois pilotos desistiram e retornaram à África com seus
pára-quedistas. Um terceiro caiu ao mar. Apenas uns poucos pilotos tiveram a sorte suficiente para seguir
a rota planejada e alcançar e reconhecer os pontos de verificação em Linoso,
Malta e na costa sudeste da Sicília - mas até mesmo eles descobriram que as
características finais estavam obscurecidas pela névoa, poeira e fumaça. A
foz do rio Acate e o lago Biviere, tão claros nos mapas, mal podiam ser
vistos, quanto mais identificados. Enquanto os pilotos se esforçavam para
evitar colisões, devido ao vento e ao escuro, e trabalhavam para resolver o
problema da orientação, granadas antiaéreas foram disparadas de Gala, Ponte
Olivo, Niscemi - oito aviões seriam derrubados depois de lançarem seus
pára-quedistas. As poucas formações que vinham mantendo uma estrutura
precária, separaram-se completamente. O problema dos pilotos passou então a ser outro. Eles não
estavam mais preocupados em lançar seus pára-quedistas sobre as zonas corretas
de salto; em vez disso, esforçavam-se febrilmente para levar seus aviões a
qualquer ponto da ilha, para que os soldados que carregavam não viessem a
saltar no mar, pelo risco de afogamentos. Como conseqüência, os pára-quedistas foram dispersados aos quatro
ventos. Várias centenas de homens de um batalhão chegaram ao solo
relativamente intactos, mas a 40 km da zona certa de salto. Apenas partes de
três companhias tocaram o solo próximo do alvo. O resto foi espalhado pelo
sudeste da Sicília. Em lugar da força considerável que os planejadores esperavam que
viesse a ocupar as elevações chamadas Piano Lupo, escolhidas devido ao
importante entroncamento rodoviário ali existente, menos de 200 homens
tomaram o objetivo ao amanhecer do dia 10 de julho. A estratégia aliada A decisão de invadir a Sicília foi um meio-termo a que chegaram,
depois de muito discutirem, americanos e britânicos sobre a melhor maneira de
dobrarem as potências européias do Eixo, Alemanha e Itália. O acordo não era
inteiramente satisfatório para nenhum dos dois parceiros aliados - mas
diversos interesses nacionais tornavam impossível um acordo melhor e mais
completo. Os Aliados estavam trabalhando nos termos da estratégia
"Europa Primeiro" - o que significava que contra o Japão seriam tomadas
posições defensivas, até que fosse alcançada a vitória na Europa. Mas a
maneira de alcançar o triunfo na principal área operacional era uma questão
discutida. A estratégia que os americanos defendiam consistia em buscar uma
demonstração de força diante da Alemanha. Com este objetivo, seus líderes
militares queriam concentrar grandes forças no Reino Unido, cruzar o Canal da
Mancha e invadir o noroeste europeu, e então enfrentar o grosso das forças
inimigas ao longo dos caminhos que levavam ao território alemão. Isso, no
entanto, dependia de uma concentração maciça de recursos na Grã-Bretanha,
impondo assim um adiamento de pelo menos um ano - talvez mais - antes que se
pudesse iniciar uma invasão através do Canal. Para empenhar o mais rapidamente possível tropas americanas em
combate na arena européia, a fim de ajudar as forças britânicas que
suportavam extrema pressão por parte do Eixo no Egito, e para desviar forças
do inimigo da frente russa, os americanos concordaram com a invasão da África
Noroeste Francesa. Mas eles então verificaram que os desembarques na África
do Norte, em novembro de 1942, e a campanha subseqüente que esperavam
terminar logo, desviara para lá tão grande quantidade de recursos aliados a
ponto de pôr em risco os preparativos para uma operação através do Canal da
Mancha, em 1943. Isto perturbou seriamente os americanos. Os britânicos, no
entanto, estavam menos preocupados; prevendo uma eventual expulsão das forças
do Eixo de toda a África do Norte, eles visavam a explorar a vitória
prosseguindo nas operações na área do Mediterrâneo, especificamente pela
invasão da Sicília, da Sardenha, da Itália continental ou do sul da França.
Esperavam também que a ação militar na região leste do Mediterrâneo induzisse
a Turquia a entrar na guerra do lado aliado. Assim procedendo, os britânicos desenvolveriam o que mais tarde
seria chamada de estratégia periférica - estirando as forças do Eixo por toda
a periferia da Europa ocupada, ameaçando invadir a costa do Canal da Mancha e
mordiscando os acessos meridionais do continente. Basicamente, eles queriam
eliminar a Itália da guerra, isolando e enfraquecendo, assim, os alemães,
tornando-os mais vulneráveis à derrota pela eventual invasão através do Canal
da Mancha, que os britânicos encaravam como o ponto culminante da guerra -
desembarques que teriam de ser indubitavelmente bem sucedidos. Em contraste, pelo final de 1942 os americanos propuseram uma
estratégia decorrente de três elementos básicos: uma concentração de homens e
material no Reino Unido para uma invasão pelo Canal da Mancha em 1943; uma
grande ofensiva aérea contra a Alemanha a partir de bases na Grã-Bretanha,
África do Norte e Oriente Médio; e maior bombardeio aéreo da Itália, para pôr
no chão o moral do italiano e eliminar aquela nação da guerra. Eles não
desejavam ampliar nem mesmo prosseguir a guerra na área do Mediterrâneo; ao
contrário disso, queriam uma ação direta contra a Alemanha, desfechando
poderoso ataque através do Canal o mais depressa possível. A divergência que se estabeleceu entre os dois aliados,
divergência de ordem estratégica, deu origem a uma conferência de alto nível
realizada em janeiro de 1943. O Presidente Roosevelt e o Primeiro-Ministro
Churchill, juntamente com seus conselheiros militares, se reuniram em Casablanca,
Marrocos, para determinar o que fazer assim que a campanha africana
terminasse. Que se deveria fazer com as consideráveis forças na África do
Norte para impedi-las de ficar na ociosidade? Onde os Aliados deveriam atacar
a seguir? Os Chefes de Estado-Maior Conjuntos americanos, liderados pelo
General George Marshall, receavam que os britânicos insistissem, em invadir a
Sardenha, pois os americanos preferiam transferir os recursos do Mediterrâneo
imediatamente para o Reino Unido, para um esforço através do Canal da Mancha.
Ironicamente, os Chefes do Estado-Maior britânicos, liderados pelo General
Sir Alan Brooke, estavam apreensivos quanto a virem os americanos a insistir
na invasão da Sardenha, pois os britânicos preferiam tomar a Sicília, que,
segundo acreditavam, eliminaria a Itália da guerra e obrigaria os alemães a
estenderem-se mais, em substituição aos italianos na ocupação e defesa da
costa da Itália. Considerando que a campanha norte-africana, durando mais do que
o esperado, tornava claramente impossível um esforço pelo Canal da Mancha em
1943, Marshall concordou com a invasão da Sicília. Mas, depois, perguntou
ele: "Era a operação contra a Sicília apenas um meio para se atingir um
fim, ou um fim em si? Deveria ser ela parte de um plano para vencer a guerra,
ou simplesmente o aproveitamento de uma oportunidade?" Não havia resposta possível, pois os parceiros estavam divididos
quanto aos métodos a aplicar. Como Churchill observara, os americanos tinham
um "gosto exagerado por decisões lógicas definidas", ao passo que
os britânicos inclinavam-se por uma abordagem oportunista da estratégia.
Portanto, decidiu-se apenas invadir a Sicília após o término da campanha
norte-africana - a fim de, com o grande número de soldados disponíveis na
África do Norte, tentar a eliminação da Itália da guerra, obrigando, desse
modo, a Alemanha a desdobrar-se para cobrir as posições defendidas pelos
italianos. Para realizar a invasão da Sicília, os Chefes de Estado Maior
Combinados - os chefes americanos e britânicos reunidos - nomearam o General
Dwight Eisenhower, o Comandante Supremo Aliado na área do Mediterrâneo, para
comandante-geral. Abaixo dele, o General Sir Harold Alexander dirigiria as
forças de terra; o Almirante Sir Andrew Cunningham, as forças navais, e o
Marechal-do-Ar Sir Arthur Tedder, as forças aéreas. Mas não se pôde determinar se a campanha da Sicília seria a
última campanha no Mediterrâneo ou o início de uma ação mais ampla naquela
região. Os americanos não desejavam envolver-se em "operações intermináveis
no Mediterrâneo", enquanto que os britânicos achavam "impossível
dizer exatamente onde devemos parar". Quatro meses depois, em maio, os líderes aliados reuniram-se em
Washington, e uma vez mais, numa conferência formal, tentaram aplainar suas
diferenças. A pergunta principal a que procuravam responder era o que fazer
depois de terem conquistado a Sicília - pois a campanha norte-africana
terminara com êxito e os Aliados dominavam toda a costa sul do Mediterrâneo e
se voltavam para a Sicília e mais além. Se a campanha da Sicília provocasse o
colapso das forças italianas, como os Aliados esperavam, ou se isso não se
verificasse, de que maneira se moldaria o curso da guerra? As alternativas pareciam claras. Os americanos eram por uma
operação através do Canal da Mancha; os britânicos preferiam continuar
mantendo o impulso ofensivo e a pressão na área do Mediterrâneo. Especificamente no Mediterrâneo, os Aliados poderiam deslocar-se
da Sicília para uma série de lugares, mas cada um deles tinha desvantagens.
Um ataque ao sul da França, por exemplo, só daria resultado se empreendido em
conjunção com uma carga pelo Canal da Mancha; à Sardenha e à Córsega
dificilmente poderia redundar no colapso da Itália, sem a conquista da
Sicília que, uma vez feita, derrubaria naturalmente as duas, isto é, a
Sardenha e a Córsega. A Itália continental, cheia de problemas de segurança
interna e de natureza política, era uma área perigosa e conduzia somente até
a barreira formidável dos Alpes; o terreno dos Bálcãs era ainda menos
convidativo para forças militares mecanizadas como as dos Aliados. Os planejadores de Eisenhower voltaram-se para a tomada da
Sardenha e da Córsega, para obter mais aeródromos a fim de dar cobertura a
operações anfíbias desfechadas próximo de Gênova ou Roma, enquanto que
Eisenhower optava pela invasão da Itália continental imediatamente após o
término da campanha da Sicília, a menos que isto interferisse nos
preparativos para um ataque através do Canal da Mancha. Os chefes militares
britânicos, tendo-se concentrado nas operações pós-Sicília, recomendavam uma
descida à "ponta da bota" italiana, seguida de um ataque ao
"tacão" e, finalmente, um avanço "bota" acima. Isto
implicava o adia mento da carga pelo Canal da Mancha para um futuro
indefinido. Os americanos, que não simpatizavam com o adiamento do ataque
através do Canal, achavam também que a penetração na Itália levaria os
Aliados a empenhar quantidades cada vez maiores de homens e materiais no que
logo se transformaria numa grande campanha, localizada num campo de operações
apenas secundário. Os dois grandes Aliados concordaram então em que considerariam
as operações subseqüentes à tomada da Sicília somente em termos de se estas
facilitariam e acelerariam a invasão do noroeste europeu pelo Canal da
Mancha. Com base nisto, os americanos aceitaram afinal a eliminação da Itália
da guerra como requisito prévio para o retorno à parte noroeste do
continente; embora insistissem para que as operações mediterrâneas em geral
fossem limitadas, em âmbito e no número de tropas empregadas. Dali, os Aliados passaram a um meio-termo. Decidiram desfechar
um ataque pelo Canal da Mancha em maio de 1944, tentando, entrementes,
eliminar a Itália da guerra com os recursos disponíveis no Teatro do
Mediterrâneo, menos sete divisões, que seriam transferidas para a Inglaterra
por volta de novembro de 1943. Mas a maneira como se daria a eliminação da Itália como
beligerante e para onde ir após a campanha siciliana não puderam ser
solucionadas. O melhor que os Chefes de Estado-Maior Combinados puderam fazer
foi ordenar a Eisenhower que planejasse a operação contra a Sicília como lhe
parecesse melhor, "eliminar a Itália da guerra" e "conter o
máximo de forças alemães". Isto estava longe de ser uma orientação firme. Numa tentativa
para encontrar uma base melhor para operações pós-Sicília, Churchill,
acompanhado de Marshall e Brooke, foi a Argel, ao término da conferência de
Washington, para uma entrevista com Eisenhower. O Comandante Supremo Aliado estava inclinado a partir da Sicília
para a Itália continental através da Calábria - isto é, pelo Estreito de
Messina - mas quando Marshall sugeriu a Sardenha e a Córsega como alvos
alternativos adequados, os conferencistas chegaram a uma decisão preliminar.
Eisenhower instalaria dois Q-Gs de planejamento separados, um para preparar a
invasão da Sardenha e da Córsega e outro para aprontar uma invasão da Itália
continental. Depois que os Aliados invadissem realmente a Sicília e se
defrontassem com a força - ou a fraqueza - da oposição é que seria tomada a
decisão final. Só então, e à luz dos critérios estabelecidos pelos Chefes
Combinados - eliminar a Itália da guerra e conter o máximo de tropas alemães
- é que Eisenhower recomendaria a operação, ou operações, que julgasse mais
vantajosa e os Chefes Combinados dariam então a palavra final. Assim, em última análise, a estratégia aliada dependeria em
grande parte de uma coisa: resistiria ou não o inimigo ao ataque à Sicília. Situada a 144 km do Cabo Bon, na Tunísia, a uns três quilômetros
ao largo da Calábria, na Itália continental, menor do que o Estado de Sergipe
a Sicília sempre teve importância estratégica, desde a antiguidade. Um
trampolim para invasores romanos, cartagineses, mouros, vikings e normandos,
a Sicília, por volta dos anos 40, fora transformada - pelo menos na opinião
de Mussolini - num gigantesco "porta-aviões estacionário".
Esquadrilhas de aviões italianos e alemães, operando de aeródromos
sicilianos, haviam obrigado os britânicos a abandonar sua rota marítima
tradicional entre Gibraltar e Alexandria, e somente Malta, a 80 km de
distância - sitiada, bombardeada e virtualmente isolada - ainda desfraldava a
bandeira britânica. Uma invasão bem sucedida da Sicília exigiria primeiro uma
redução considerável dos efetivos aéreos do Eixo baseados na ilha. Sendo uma ilha triangular, chamada Trinacria pelos gregos, o
solo da Sicília é acidentado e montanhoso. As Montanhas Caronie, situadas a
nordeste, são as mais altas, culminando com o Monte Etna, que tem um sopé de
32 km de diâmetro e ergue-se a 3.300 m de altura. Toda a costa norte consiste
de rochedos íngremes e alcantilados, voltados para o mar. A única região
plana e de tamanho considerável da ilha situa-se em torno de Catânia, e nessa
região, bem como nas estreitas planícies ao longo das costas leste e sul, é
que se situavam os aeródromos - 19 ao todo, mais 10 pistas de pouso, situados
a 24 km da costa, no máximo. Eles seriam um alvo importante para os invasores
aliados. Ao longo da área costeira as estradas eram boas, mas as situadas
no interior eram mal revestidas e estreitas, com curvas fechadas e greides
íngremes, pois as aldeias e pequenas cidades - fundadas nos tempos medievais,
ou antes - ocupam os altos das colinas, para facilitar a defesa, e os acessos
sinuosos que vão até elas, bem como suas ruas, estreitas, foram planejados
para pedestres e carroças. A maioria dos 4 milhões de sicilianos vivia nessas
cidades e aldeias. Há na costa numerosas praias de areia e cascalho, bem como
vários portos importantes - Messina, próximo da ponta nordeste da ilha,
Catânia e Siracusa, na costa leste, e Palermo, a cidade maior, ao norte,
perto do lado ocidental. Messina, o maior porto e terminal do serviço de
barcas para o continente, era claramente, do ponto de vista estratégico, o principal
objetivo, pois, se rapidamente conquistada, isolaria os defensores da Sicília
e bloquearia qualquer reforço ou fuga. Mas as poderosas fortificações
sabidamente existentes no Estreito de Messina eliminavam a idéia de um ataque
direto ali, e defesas idênticas circundavam Siracusa, a base naval de
Augusta, e Palermo. Os Aliados teriam de desembarcar nos trechos não-fortificados da
costa. Mas, como a técnica do desembarque de suprimentos pelas praias não
havia sido ainda sequer experimentada, a preocupação girava em torno da
tomada de pelo menos um porto. Também influenciando a escolha dos locais de
desembarque estava o alcance dos aviões Aliados, pois a distância das bases
situadas em Malta e na África do Norte dificultava aos caças fornecer
adequada proteção aos ataques anfíbios em várias outras praias, sob muitos
aspectos favoráveis. Os Chefes Combinados haviam destacado duas forças-tarefas para a
invasão da Sicília, uma britânica e uma americana, e para o comando das
forças de terra britânicas Eisenhower nomeou o General Sir Bernard
Montgomery, comandante do 8° Exército, que fez recuar o exército
ítalo-germânico do Feldmarechal Rommel 2.400 km, desde o Egito, para o oeste,
através da Líbia, à Tunísia, sem conseguir, no entanto, enredar Rommel. Para liderar
as forças americanas, Eisenhower escolheu o Major-General George Patton, que
comandara a Força-Tarefa Ocidental na invasão da África do Norte, e mais
tarde o II Corpo, na Tunísia, e dirigiria o 7° Exército na Sicília. É difícil imaginar-se dois comandantes mais contrastantes.
Montgomery gostava da coisa "arrumadinha", era meticuloso e
cauteloso; Patton era do tipo "despachado", arrojado e exuberante. Imediatamente acima deles estava Alexander, que comandara as
forças britânicas na Birmânia e servira como comandante de grupo de exércitos
na Tunísia. Seu Estado-Maior de planejamento chamava-se Força 141, por causa
do número do quarto do Hotel Saint George, em Argel, onde oficiais americanos
e britânicos se haviam reunido para planejar a invasão da Sicília. Este
Estado-Maior se tornaria o QG do 15° Grupo de Exércitos, de que se valeria
Alexander para dirigir a guerra terrestre na ilha. Os Chefes de Estado-Maior Combinados sugeriram uma invasão por
meio de dois ataques simultâneos, um próximo de Palermo, o outro próximo de
Catânia. Isto daria aos aliados dois dos principais portos e acesso fácil à
maioria dos aeródromos, também subentendendo um duplo avanço, tendo como
ponto de convergência a cidade de Messina: um ao longo da costa norte e o
outro na costa leste. O plano envolvia algumas desvantagens - o número de
soldados e embarcações necessários aos dois desembarques seria muito maior do
que para um único ataque concentrado; e duas forças de invasão muito
separadas não se poderiam apoiar mutuamente; isto é, uma ação inimiga
dirigida contra um desembarque poderia repeli-lo para o mar, sem que a outra
força de desembarque pudesse ajudá-la. Alexander examinou a possibilidade de desembarcar as tropas de
Montgomery e as de Patton, concentradas no canto sudeste da Sicília, mas seu
Estado-Maior entendia que os portos de Catânia, Siracusa e Augusta, mesmo que
fossem capturados imediatamente, seriam inadequados para escoar as forças
aliadas exigidas para a operação. Em vez disso, procurando instalações
portuárias e a eliminação da maioria dos aeródromos inimigos, os planejadores
recomendaram dois ataques simultâneos, um pelos americanos, na parte
ocidental da Sicília, e o outro pelos britânicos, no sudeste, ambos
desembarcando em largos trechos de praia, para não oferecer alvos tentadores
a aviões e artilharia inimigos. Isto coincidia, de modo geral, com o conceito
dos Chefes de Estado-Maior Combinados e, em fevereiro, Alexander emitiu um
esboço experimental do plano, de acordo com essas diretrizes. Montgomery objetou, por ser contrário a que seu exército
desembarcasse disperso pela ponta sudeste da Sicília, numa distância
considerável - uns 160 km - de Gela até Catânia. Os soldados, disse ele,
estariam tão espalhados que seriam vulneráveis a qualquer contra-ação. E
sugeriu: por que não esquecer os desembarques em Gela e Licata, na costa sul
e, em vez disso, manter o exército forte e unido no lado leste? Isto
importaria em deixar de lado alguns aeródromos, mas, na sua opinião, valia a
pena abrir mão da possibilidade de capturar alguns aeródromos em favor de um
ataque anfíbio fortalecido. Cunningham e Tedder ficaram escandalizados. Os desembarques
concentrados, disse Tedder, "afetariam gravemente toda a situação aérea
no canto sudeste da Sicília" e "aumentariam seriamente o perigo de
perda dos grandes navios envolvidos nalguns desses ataques". Ele
considerava vital a superioridade aérea, para garantir portos adequados, e
importantíssima, para debilitar a oposição, a captura dos aeródromos, embora
planejasse pegar-se com as forças aéreas inimigas. Concordando com Tedder,
Cunningham advogava o desembarque de forças bem dispersas, em vez de
concentradas, mais vulneráveis, enfrentando a parte mais fortemente defendida
da ilha. Aceitando tais objeções, mas também sensível ao ponto de vista
de Montgomery, Alexander colocou uma divisão americana no setor britânico -
sob o controle de Montgomery - para realizar os desembarques em Gela e
Licata, permitindo assim que Montgomery mantivesse suas outras forças
concentradas. Para compensar a retirada de uma divisão de Patton e, desse
modo, enfraquecendo a força-tarefa americana, Alexander propôs que os
americanos desembarcassem vários dias mais tarde, depois que os britânicos
estivessem bem instalados em terra. Patton objetou. Os mesmos argumentos, disse ele, se aplicavam
aos seus desembarques próximo de Palermo. Se uma divisão americana fosse
desviada para o setor britânico, ele ficaria impossibilitado de tomar vários
aeródromos, que acabariam por interferir em seu próprio ataque. Seu ponto de
vista, embora válido, foi ignorado. Apesar da insatisfação que se generalizou
por todos os lados, Eisenhower aceitou o novo plano de Alexander, devido ao
fato de ser vital para todo o projeto o êxito inicial no sudeste", disse
ele. Então os britânicos receberam outra divisão e os navios
necessários para reforçar o ataque de Montgomery, e Alexander devolveu a
divisão americana a Patton, mantendo, porém, as características dos
desembarques escalonados, com os britânicos na frente. Ninguém estava satisfeito. Pelo final de abril, Montgomery enviou uma mensagem a Alexander,
abrindo de novo a questão. "O planejamento até agora", escreveu
ele, "tem sido baseado na suposição de que a oposição será fraca e que a
Sicília será capturada com facilidade. Nunca houve erro maior. Os alemães e
os italianos estão lutando desesperadamente agora na Tunísia e farão o mesmo
na Itália". Ele ainda queria confinar os desembarques britânicos num espaço
menor, ao longo da linha costeira, para fortalecer seu ataque. Especificamente,
ele defendia a idéia de restringir os desembarques britânicos ao Golfo de
Noto, ao sul de Siracusa, e a ambos os lados da Península de Pachino, na
ponta sudeste. Estas praias estavam dentro do raio de ação dos caças baseados
em Malta e, dali, ele poderia capturar o porto de Siracusa rapidamente, em
seguida estender-se para o norte, a fim de tomar Augusta e Catânia, avançando
finalmente para Messina. Assim, os desembarques concentrados poderiam ser
desenvolvidos facilmente para tomar os portos necessários. "E quanto aos aeródromos?" - perguntaram Cunningham e
Tedder. Eles apontaram para os aeródromos perto de Gela e Comiso, que haviam
sido ignorados no plano de Montgomery. Os aviões desses aeródromos, disseram
eles, poderiam causar devastação entre as forças de desembarque. Para resolver os problemas, Eisenhower convocou uma conferência
dos chefes, em Argel, a 29 de abril, quando um oficial que representava
Montgomery apresentou o que parecia ser uma nova idéia. Por que não fazer com
que as forças americanas e britânicas ataquem juntas o canto sudeste,
desembarcando os britânicos ao longo do Golfo de Noto e os americanos, de
ambos os lados da Península de Pachino? Cunningham protestou. As técnicas anfíbias, disse ele, exigiam
que as forças de desembarque se dispersassem e que fossem tomados
imediatamente todos os aeródromos inimigos, a fim de proteger os navios
ancorados ao largo das praias - e Tedder o apoiou. Não chegando eles a decisão que parecesse ideal, Eisenhower
convocou outra reunião, para 2 de maio. Alexander não pôde comparecer, mas
Montgomery foi pessoalmente, usou de persuasão, argumentou interminavelmente
e tornou-se cansativo, chegando mesmo a seguir o Major-General Bedell Smith,
chefe de Estado-Maior de Eisenhower, até o banheiro e, parado perto do
mictório, continuou a falar, tentando convencê-lo de que um ataque
concentrado excluiria a possibilidade de derrota. No fim, Montgomery conseguiu o que queria. No dia seguinte,
Eisenhower anunciou que a invasão da Sicília seria feita através de um ataque
concentrado à parte sudeste da ilha, tirando de cogitação qualquer investida
independente perto do canto ocidental. Tampouco haveria assaltos escalonados.
Num movimento único e simultâneo, os americanos desembarcariam ao longo do
Golfo de Gela, de Licata à Península de Pachino, e os britânicos chegariam a
terra na costa leste, desde a Península Pachino até quase Siracusa. Isto anulava a afirmação dos Chefes de Estado-Maior Combinados
de que era necessário tomar rapidamente os portos e aeródromos importantes.
Os americanos não teriam nenhuma baía importante ao longo de todo o seu
trecho de costa e ficariam na dependência das operações de descarga na praia
para obter suprimentos. Além disso, não haveria nenhum movimento imediato
para tomar os agrupamentos importantes de aeródromos no sudoeste de Catânia e
arredores. E, finalmente, a campanha subseqüente teria de ser improvisada
assim que as forças de desembarque estivessem em terra. Tedder e Cunningham permaneceram perturbados - e de tal forma
que Eisenhower teve que procurar uma forma de contornar as objeções que
faziam e a insatisfação em que se encontravam; ele a encontrou na ilha de
Pantelleria. Se pudesse tomar Pantelleria no que chamava de "experiência
de laboratório", que exigiria o investimento de relativamente poucos
recursos, isso talvez se constituísse num reforço do plano de invasão. A situação do Eixo
Pantelleria é uma ilha que mede 8 km por 13, de solo muito
acidentado, com rochedos íngremes erguendo-se do mar. Situada a uns 192 km a
sudoeste de Palermo, a mesma distância que Malta está de Catânia, ela possuía
uma população civil de 12.000 pessoas, uma guarnição de 12.000 soldados, um
comandante competente e um aeródromo que podia receber cerca de 80 aviões
monomotores. Os hangares subterrâneos eram abertos na rocha, onde funcionavam
oficinas de reparo à prova de bombardeios, e o núcleo de sua defesa consistia
de uma força de cinco batalhões de infantaria italianos, a maioria sem
qualquer experiência de combate, apoiados por baterias antiaéreas guarnecidas
por reservistas. Quando Eisenhower se decidiu pela invasão concentrada da Sicília
pelo canto sudeste, resolveu tomar Pantelleria primeiro. Esta, em mãos
aliadas, resultaria em muitas vantagens - eliminaria a séria ameaça que os
aviões italianos ali baseados ofereciam aos desembarques aliados na Sicília,
negaria a ilha como base de reabastecimento a navios de superfície e
submarinos italianos e alemães, eliminaria os radiogoniômetros do Eixo e as
estações de observação de navios, proporcionaria aos Aliados excelentes
estações de ajuda à navegação e uma base soberba de salvamento aeronaval e,
principalmente, tornaria possível uma melhor cobertura aérea aos desembarques
americanos e, desse modo, maior oposição aos aviões inimigos baseados nos
aeródromos sicilianos que não seriam tomados de imediato. Eisenhower pretendia tomar Pantelleria por meio de uma operação
que, segundo dizia, seria "uma espécie de experiência de laboratório
para determinar o efeito dos bombardeios concentrados sobre uma linha
costeira defendida". Ele ordenou a Tedder que "concentrasse
tudo" - todos os bombardeiros disponíveis - e martelasse fortemente a
ilha, até que os danos causados à guarnição, ao equipamento e ao moral dos
defensores da ilha fossem "tão sérios que tornassem o desembarque uma
coisa muito simples". A 1a Divisão de Infantaria britânica
faria esse desembarque e ocuparia não só Pantelleria como também as ilhas
menores que lhe ficavam próximas, de Lampedusa, Linoso e Lampione. A idéia era arrojada, pois a propaganda fascista proclamava que
Pantelleria era uma fortaleza inexpugnável. E parecia sê-lo. Mas, apesar do
que afirmavam os fascistas, os bombardeios aéreos cada vez mais violentos e
um poderoso bombardeio naval logo reduziram Pantelleria a escombros. As
baixas italianas foram pequenas, mas os danos causados às casas, estradas e
comunicações foram amplos. Por volta de 1° de junho, o porto estava em
ruínas, a cidade destruída e a usina elétrica danificada. Escassez de água,
munição e suprimentos, além das incessantes explosões, começavam a afetar o
moral da população e dos soldados da ilha. Durante os dez primeiros dias de junho, mais de 3.500 aviões
despejaram quase 5.000 toneladas de bombas sobre Pantelleria, folhetos
instando-a a render-se e, finalmente, um ultimato de rendição. O comandante
da ilha, Almirante Gino Pavasi, nesse tempo possuía apenas uma única estação
de rádio em funcionamento, e através dela informou Roma que não se daria ao
trabalho de responder ao ultimato aliado. Alguns dias depois, comunicou-se
com o comando italiano, em Roma, informando haver recebido outro ultimato e
que se recusaria a lhe dar resposta. "Apesar de tudo", Pavasi
assegurou: "Pantelleria continuará resistindo". Mensagens sucessivas davam conta de que a resistência era cada
vez menor em Pantelleria, mas Pavasi não falava em render-se. Na manhã de 11 de junho, com bom tempo, mar calmo e céu claro, a
frota Aliada, tendo a bordo a 1a Divisão Britânica, colocou-se a
cerca de 13 km da entrada do porto de Pantelleria. Ali, os navios baixaram as
barcaças de desembarque, embora praticamente não pudessem ver Pantelleria,
pois a ilha estava envolta numa nuvem de poeira provocada por um bombardeio
aéreo realizado cerca de uma hora antes. Naquela manhã, Pavasi informou ao comando italiano que os
bombardeiros aliados haviam lançado Pantelleria "num furacão de fogo e
fumaça", acrescentando: "a situação é desesperadora; todas as
possibilidades de resistência eficaz esgotaram-se". Apesar disso, Pavasi não quebrou a rotina diária. Ao dirigir-se
ao local em que diariamente se reunia com seu Estado-Maior, fez uma breve
inspeção para ver o que se passava ao redor da ilha, não dando com a presença
da esquadra aliada em virtude da grossa nuvem de poeira e fumaça formada pelo
bombardeio. Pavasi e seu Estado-Maior, depois de muito discutirem, chegaram
à conclusão de que a defesa da ilha, devido à falta de água, ao perigo de
doença e à escassez de munição, era impossível. Não restava um só avião do
Eixo em Pantelleria - todos haviam sido derrubados ou levados para lugar mais
seguro. Sem poder esperar qualquer ajuda externa, todos, civis e militares,
estavam chegando ao fim da resistência. Pavasi ordenou então ao comandante da esquadra aérea da ilha que
desfraldasse uma grande bandeira branca no aeródromo para indicar
capitulação. Como a notícia da sua decisão de render-se demoraria cerca de
duas horas para chegar a todos os postos, Pavasi fixou para as 11h00 o
momento da cessação das hostilidades. Depois disso, ele subiu à superfície da
ilha. As nuvens de pó e fumaça, tendo-se esgarçado bastante, ele viu os
navios aliados ao largo. Era mais ou menos o momento em que as barcaças de desembarque
iniciavam a corrida para as praias. Havia um silêncio estranho, quase
tranqüilizador, quebrado apenas pelo ruído dos motores das barcaças de
assalto e o ronco de uma esquadrilha de caças; mas o silêncio não demorou
muito. Às 11h00, os cruzadores aliados abriram fogo contra as posições de
bateria de costa e, 30 minutos depois, os destróieres também começaram a
disparar. Não houve resposta da ilha, nem qualquer comunicação de que seu
comandante decidira render-se. Às 11h35 a bandeira branca ainda não aparecera
no aeródromo, e as Fortalezas-Voadoras americanas fizeram o que um observador
chamou de "o mais perfeito bombardeio de precisão, de intensidade
inimaginável". Dez minutos depois disso, o comandante da esquadra de invasão
liberou as barcaças de desembarque; ao meio-dia, as tropas britânicas estavam
em terra, sem encontrar oposição. Bandeiras brancas tremulavam em alguns
prédios da administração da ilha e lençóis igualmente brancos desciam das
janelas das poucas residências que não sofreram danos. Em Lampedusa, o comandante não deu atenção ao ultimato de
rendição dos aliados, limitando-se a comunicar ao comando italiano: "Os
bombardeios prosseguem quase que sem interrupção, tanto aéreos como navais.
Necessitamos urgentemente de apoio aéreo" - mas a resposta que recebeu
foi uma estimulante exortação. "Estamos convencidos", radiografou
Roma, "que vocês infligirão o maior dano possível ao inimigo. Viva a
Itália!" Ressentido com a reação de Roma à sua mensagem, sentindo, como
Pavasi, que cumprira seu dever, dentro das suas limitações, o comandante da
ilha mandou que fossem hasteadas as bandeiras de rendição. Linoso caiu no dia seguinte. Lampione estava desocupada. Apesar das afirmações da propaganda fascista, as ilhas haviam
sido defendidas por soldados inexperientes, muitos dos quais eram dali mesmo
e que, quando os Aliados atacaram, preferiram cuidar das suas famílias. De
qualquer modo, eles praticamente não poderiam fazer nada, contra o poderio
dos navios e aviões aliados, com o equipamento inadequado e obsoleto que
tinham à disposição. A 20 de junho, os aviões britânicos principiaram a operar de
Lampedusa e, seis dias depois, um grupo de P-40 americanos foi baseado em
Pantelleria. A "experiência de laboratório" de Eisenhower fora um
sucesso, resultando na obtenção de um canal mais seguro para os navios no
Mediterrâneo Central e de valiosos aeródromos mais próximos da Sicília. No dia seguinte à queda de Pantelleria, Mussolini pronunciou um
discurso, em Roma, em que explicou que a perda da ilha deveu-se à carga que
desencadearam contra ela, com bombardeios aéreos e navais que permitiram que
a infantaria o ocupasse. O que ele não disse, por não se sentir obrigado a
ser explícito, é que os Aliados tinham superioridade esmagadora em
artilharia, aviões e outras armas e equipamento, e que, se Pantelleria
representava o início da batalha pela pátria italiana, o início dessa batalha
fora ruim para ela. Quer os Aliados se voltassem a seguir para a Sicília, a
Sardenha ou a Itália continental, a possibilidade de contê-los era muita
pequena. Para o povo italiano, há muito cansado da guerra e ansiando pelo
fim dos bombardeios, das agruras, sofrimentos e dores, aflições que Mussolini
prometia fazer desaparecer, afirmando que a vitória não demorava, a queda de
Pantelleria foi um choque. Até as forças militares perderam a confiança e a
esperança no triunfo. O prestígio de Mussolini entre seus aliados alemães, no
seu próprio estabelecimento militar, entre seus colegas políticos e,
sobretudo, no seio do povo, já totalmente farto de tudo, declinou. Tornava-se
cada vez mais claro que as promessas e garantias dos fascistas não passavam
de um grande blefe. Com a propagação do derrotismo, o Rei Vitório Emanuel III disse
a Mussolini que terminasse a aliança com a Alemanha e fizesse a paz com os
Aliados; mas ele queria fazê-lo honrosamente, apenas com o consentimento alemão,
pois estava preocupado não só com as medidas protocolares, mas também em
evitar que os alemães reagissem com violência contra o que considerariam
defecção traiçoeira. Ele acreditava que ninguém na Itália; melhor que
Mussolini, pudesse solucionar o problema enormemente difícil e delicado de
pôr fim à aliança e retirar-se da guerra. A aliança, um pacto entre os regimes nacional-socialista e
fascista, na realidade era uma união pessoal dos dois ditadores, Hitler e
Mussolini, cada qual dirigindo o governo e as forças armadas das respectivas
pátrias. Mas a estreita cooperação e assistência mútua concertadas naquilo
que Mussolini chamara de suas guerras paralelas transformara-se numa via de
mão única - os alemães dando, e os italianos recebendo, armas, equipamento,
combustível e unidades de tropas. A concentração de forças alemães na Itália coincidiu com o
crescimento de poder e influência do Feldmarechal Albert Kesselring. Enviado
à Itália, à frente do Segundo Corpo Aéreo Alemão, em dezembro de 1941, nomeado
comandante de todas as forças armadas alemães na Itália em outubro de 1942,
quando os alemães sentiram o começo de maior atividade aliada na área do
Mediterrâneo, seu controle foi ampliado em janeiro de 1943, para incluir os
dois exércitos alemães na Tunísia. Kesselring era o "comandante do
teatro de operações" o representante de Hitler junto a Mussolini e o
ponto de contato com o Alto Comando das Forças Armadas Italianas. Como Hitler admirava Mussolini, ele se submetera ao fingimento
de respeitar a hegemonia italiana na área do Mediterrâneo. Por conseguinte,
os soldados alemães foram colocados sob o comando nominal dos italianos, mas
a presença de Kesselring assegurava a proteção dos interesses alemães; e os
italianos aceitavam que era melhor obter a cooperação alemã do que impor
rigidamente a autoridade italiana. À medida que aumentava a influência dos alemães na Itália,
Mussolini duvidava cada vez mais da possibilidade de vitória militar. Por
isso, sugeriu a Hitler que as potências do Eixo fizessem uma paz em separado
com a União Soviética, ou pelo menos retirasse suas forças para uma linha
mais curta e defensável na URSS, a fim de concentrarem efetivos contra os
anglos-americanos. Mas Hitler não toleraria qualquer interferência em sua
"guerra santa" contra o bolchevismo. Desencantado, Mussolini nomeou o Generale d'Armata Vittorio
Ambrosio chefe do Comando Supremo, em fevereiro de 1943. A dupla tarefa de
Ambrosio, especificou Mussolini, seria trazer de volta o maior número
possível de divisões italianas comprometidas na Rússia e nos Bálcãs e
enfrentar os alemães. As estreitas e cordiais relações pessoais e oficiais
que haviam orientado a cooperação entre os militares alemães e italianos
terminaram. Em fevereiro e março, as tensões entre os parceiros do Eixo se
agravaram, quando Mussolini insistiu para que Hitler terminasse a guerra no
leste, com Ambrosio e o Alto Comando das Forças Armadas alemão (OKW)
discutindo sobre a divisão de deveres militares nos Bálcãs; enquanto isso, a
máquina de guerra italiana começava a enguiçar por falta de suprimentos
alemães. Parte da dificuldade resultava do fato de o Eixo encontrar-se na
defensiva e sem qualquer estratégia clara que pudesse levar à vitória. A
guerra submarina era a única atividade ofensiva que os germânicos
sustentavam. Até mesmo a Luftwaffe deixara de ser uma força importante na
guerra. Por volta de maio, as forças aéreas combinadas alemã e italiana, na
área do Mediterrâneo, tinham menos de 1.000 aviões, muitos dos quais
caminhando para o obsoletismo. Centenas deles haviam sido destruídos em
terra, por não terem sido dispersados ou camuflados e devido à ineficácia das
armas antiaéreas. Até mesmo a poderosa esquadra de batalha italiana estava
imobilizada em La Spezia, por falta de combustível. Ambrosio só via esperança para a Itália se Mussolini pudesse
romper a aliança com a Alemanha. Mas o regime fascista se manteria firme
enquanto houvesse possibilidade de vitória e, sem os alemães, a vitória era
impossível. Se Mussolini quisesse romper com os alemães, quanto menos
soldados germânicos houvesse na Itália, melhor; se desejasse opor-se à
invasão aliada, então quanto mais alemães, melhor. Ambrosio, Mussolini e o estado fascista estavam num dilema. À medida que a popularidade de Mussolini diminuía, o mesmo acontecia
com o moral italiano. Partidos políticos clandestinos tornaram-se mais
vigorosos e a primeira greve franca, desde o estabelecimento do estado
fascista, teve lugar em março, enquanto que os sindicatos realizavam
abertamente demonstrações no Dia do Trabalho. Os alemães não tinham ilusões quanto à força italiana. Um
relatório sobre a eficiência de combate das forças armadas italianas,
preparado em maio, foi brutalmente franco. Os italianos, disse o OKW,
"até agora não cumpriram as missões que lhes foram entregues nesta
guerra e, na realidade, tem falhado por toda parte, devido à inadequação e
insuficiência de suas armas e equipamento, mau treinamento de oficiais e
falta de entusiasmo no seio das tropas, resultante da certeza da
derrota". Mas os alemães não abandonariam os italianos, pois custaria
menos suportá-los e fortalecê-los do que preencher o vácuo que eles criariam
se se retirassem de vez do conflito. Portanto, em junho, Hitler declarou que estava disposto a enviar
mais aviões, tanques, canhões autopropulsados e corpos de tropa para ajudar
os italianos a defender seu país. E,
embora o número adicional de soldados alemães estacionados na Itália a
fizesse parecer um território ocupado, a queda de Pantelleria convenceu
Ambrosio, com a concordância de Mussolini, da necessidade de aceitar mais
assistência. Pelo fim de junho, havia cinco divisões alemães na Itália; duas
delas na Sicília. O QG do 6° Exército Italiano, incumbido da defesa costeira,
estava na Sicília desde o outono de 1941, mas na primavera de 1943, quando a
campanha tunisiana terminou, suas responsabilidades foram ampliadas. O
Comandante do exército também foi nomeado Comandante das Forças Armadas na
Sicília, a ele entregue todo o controle tático de elementos do exército,
marinha, aeronáutica italianos e das tropas terrestres alemães ali
estacionadas. Através de um alto comissário para assuntos civis, o comandante
controlava também a administração de nove prefeitos provinciais. Os elementos
aeronavais germânicos continuariam separados e sob controle alemão. Em maio de 1943 nomeou-se novo comandante. Era o Generale
d'Armata Alfre do Guzzoni, então com 66 anos de idade e havia dois anos já na
reforma. Ele jamais; estivera na Sicília nem demonstrara o menor interesse
pela ilha, mas era um soldado dedicado e altamente profissional. Seu chefe de
Estado-Maior, Coronel Emílio Faldello, era jovem e capaz, mas também não
conhecia a Sicília. Contrariamente à doutrina italiana que orientava a
seleção de comandante e chefe de Estado-Maior, Guzzoni e Faldello não haviam
servido juntos antes, mas na Sicília eles fariam uma boa dupla. Quando Guzzoni examinou o estado de coisas na Sicília, ficou
chocado. Ele tinha uns poucos canhões antinavais, apenas um canhão antitanque
para cada 8 km de costa e deficiências em todos os tipos de artilharia.
Verificou que precisava de 8.000 toneladas diárias de suprimentos para
atender as necessidades civis e militares, mas estava recebendo entre 1.500 e
2.000 toneladas. O moral do povo estava baixo, por causa dos bombardeios
aéreos aliados, das restrições no suprimento de alimentos e das atividades
generalizadas do mercado-negro. Tanto quanto Guzzoni podia ver, todos queriam
apenas o fim da guerra. As forças italianas sob seu comando contavam cerca de 200.000
homens, organizados em quatro divisões de infantaria, e uma variedade de
unidades, costeiras, totalizando, talvez, o equivalente de oito divisões. Os
batalhões costeiros, que tinham a missão de repelir invasores à beira-mar,
eram formados de homens mais velhos e em geral mal comandados. Freqüentemente
lhes atribuíam responsabilidades por setores grandes demais para a capacidade
que tinham - em alguns casos, uma linha costeira de 40 km de comprimento. Não
tinham virtualmente transporte algum e, na maioria, seus canhões e
equipamento eram antiquados. Mesmo as divisões de infantaria, um pouco mais
fortes, não eram muito boas. As Divisões Aosta e Napoli estavam mal treinadas
e, juntamente com a Divisão Assietta, operavam com efetivo e equipamento
organizacionais reduzidos. Somente a Divisão Livorno dispunha de efetivos
autorizados e tinha um complemento total de transportes. Mas em todas as
quatro divisões não havia munição de artilharia ou, quando havia, era escassa
e as comunicações variavam de medíocres a totalmente inadequadas. As três bases navais da Sicília contavam com artilharia
antinaval e antiaérea e suas defesas marítimas eram eficazmente organizadas.
Mas, reservistas inseguros, por falta de adequado adestramento, guarneciam
muitos canhões, na maioria peças antigas, de pequeno calibre e reduzido
alcance. Não houve muitos preparativos para a defesa contra um ataque por
terra. Excetuando-se as bases navais, não havia nenhum sistema contínuo
de defesas costeiras. Obstáculos, campos minados, trincheiras antitanques e
fortificações de concreto estavam muito separados uns dos outros. Vários
postos de defesa careciam de guarnições, armas e abrigos, que, quando
existiam, eram mal camuflados. No interior, apenas uns poucos obstáculos
haviam sido erguidos, quase todos ineficientes. Uma linha interna de
bloqueio, atrás das fortificações costeiras, e que devia ser uma poderosa
barreira, consistia de um traço feito cuidadosamente com lápis de cor sobre o
mapa. Os 30.000 soldados alemães que se encontravam na ilha eram outra
coisa. A 15a Divisão Panzergrenadier, comandada pelo Major-General
Eberhard Rodt, e a Divisão Hermann Göring, sob o comando do Major-General
Paul Conrath, estavam bem treinadas e equipadas. Elas operavam sob o comando
de Guzzoni, mas o QG do 14o Corpo Panzer, do General de Panzers
Hans Valentine Hube, localizado no sul da Itália, os administrava e
abastecia. O Tenente-General Fridolin von Senger und Etterlin era o oficial
de ligação com o 6o Exército para coordenar o emprego das tropas
alemães. Um único QG unificado, conhecido como Comando do Estreito de
Messina, sob a direção do Coronel Ernest Günther Baade, reunia as instalações
do exército, da marinha e da força aérea alemães naquela área e era
responsável pelo transporte, um serviço de barcas do continente, depósitos e
por cerca de 70 baterias antiaéreas situadas em ambos os lados do Estreito. Guzzoni não podia esperar assistência das forças navais do Eixo.
Era duvidoso que Mussolini se atrevesse a empenhar a esquadra de batalha e,
mesmo que o fizesse, as belonaves levariam um dia para cobrir a distância
entre La Spezia e as águas sicilianas. Os alemães só tinham uma flotilha de
barcos pequenos em Messina. Guzzoni tampouco podia esperar muita ajuda aérea. A força aérea
italiana estava apenas dotada de aviões já obsoletos que, após a queda da
Tunísia, em maio, se retiraram da Sicília para o continente. Os alemães
assumiram a proteção aérea da Sicília a partir de seus próprios aeródromos,
mas sofreram pesadas baixas, em maio e junho, devido à inferioridade numérica
e técnica dos seus.aviões. A fraqueza das forças aérea e naval do Eixo depositou nos ombros
das forças de terra todo o fardo da defesa da Sicília. Como as unidades
italianas careciam de mobilidade, em comparação com as formações alemães,
Guzzoni decidiu fazer que as forças italianas enfrentassem e resistissem aos
invasores próximo das praias, até que se identificassem os locais dos
principais ataques aliados; então as divisões alemães contra-atacariam e
repeliriam os invasores para o mar. Portanto, Guzzoni estabeleceu seu QG próximo de Enna, no centro
da ilha. O 16o Corpo, sob o comando do Generale di Corpo d'Armata
Caeto Rossi, defenderia a metade oriental da ilha, com as Divisões Napoli e
Livorno. O 12o Corpo, sob
o Generale di Corpo d'Armata Francesco Zingales, cuidaria da metade
ocidental, com as Divisões Aosta e Assietta. A 15a Divisão
Panzergrenadier foi dividida em três forças-tarefas, com o grosso dos seus
efetivos no oeste. A Divisão Hermann Göring, dividida em dois grupamentos de
combate, foi orientada para o sul e leste. Esperando que os Aliados atacassem em meados de julho, Guzzoni
faria o melhor que pudesse; mas ele tinha dúvidas sobre o resultado da
batalha, pois estava plenamente de acordo com um colega, que dissera:
"Podemos fazer uma defesa honrosa contra um desembarque em grande
escala, mas não temos chance de repelir o inimigo". A menos, é claro,
que os alemães enviassem ajuda maciça. Os desembarques
Os alemães poderiam ter mandado mais de duas divisões para a
Sicília, se não tivessem sido iludidos e desorientados pelas operações
dissimuladoras aliadas, destinadas a disfarçar a intenção de invadir a
Sicília e levar à expectativa alemã de desembarques na Sardenha e na Grécia.
Um elemento importante da dissimulação foi "o homem que nunca
existiu", inventado pelo Serviço de Inteligência britânico. Um soldado
que morrera de pneumonia e cujos pulmões apresentavam características de
morte por afogamento, foi vestido como oficial portador de documentos com uma
valise oficial atada ao pulso por uma corrente, foi lançado à água, por um
submarino, ao largo da costa da Espanha, que era neutra, onde as correntes
marítimas o levariam à praia. Ostensivamente, ele fora vítima de um acidente
aéreo ocorrido no mar. Três dias
depois, Londres foi informada de que o corpo fora entregue ao Adido Naval
Britânico em Madri, mas não antes que uma carta fictícia contida na valise
tivesse sido aberta e lida pela polícia espanhola e comunicada aos alemães. A
carta dava instruções a Alexander para fazer um ataque simulado na Sicília,
enquanto se preparava para invadir a Sardenha; ela também "mandava"
o General Sir H. Maitland Wilson, comandante do Oriente Médio, disfarçar seu
ataque à Grécia mediante uma ação simulada contra as ilhas do Dodecaneso.
Aceitando como autênticas tais medidas, os alemães reforçaram suas defesas
costeiras na Sardenha e na Grécia. Entrementes, na África do Norte, os Aliados preparavam a invasão
da Sicília. Um ataque concentrado à parte sudeste da ilha não significava que
as tropas desembarcariam amontoadas. Significava, antes, que mais de sete
divisões, precedidas por partes de duas divisões aeroterrestres que saltariam
sobre a ilha, desembarcariam simultaneamente ao longo de 160 km de costa. As
forças de Montgomery em 48 km de praia, as de Patton numa frente de 11 km. Em
termos de tamanho de frente e de forças de ataque iniciais, a invasão da
Sicília foi muito maior e muito mais dispersada do que os desembarques na
Normandia, um ano mais tarde. O 8o Exército de Montgomery iniciaria seu ataque com
desembarques de tropas transportadas em planadores, para tomar Ponte Grande,
a fim de facilitar a ocupação de Siracusa; se possível, elas também
capturariam as baterias costeiras das proximidades e uma base de hidraviões.
Isto porque, quatro dias depois, tropas de Comandos chegariam por mar, para
eliminar uma grande bateria costeira situada no Cabo Murro di Porci, a vários
quilômetros ao sul de Siracusa, e só então é que se daria o assalto
principal. O 13o Corpo, do Tenente-General Sir Miles Dempsey, mandaria a 5a Divisão para terra, para atacar Cassibile, e depois rumaria para o norte, a fim de apoderar-se de Siracusa; a 59a Divisão tomaria Avola e protegeria o flanco esquerdo do corpo. O 30o Corpo, do Tenente-General Sir Oliver Leese, enviaria o 231o |