|
Não havia absolutamente ninguém
nas ruas quando os generais Clark e Ridgway
entraram, de jipe, em Nápoles. Mas Clark logo se apercebeu de que muitos
olhos os espreitavam por detrás das venezianas. "Eu sentia que era
observado por milhões de pessoas, embora não vislumbrasse um único civil
durante todo o percurso. Era uma sensação arrepiante. Sentia-me como se
estivesse atravessando ruas mal-assombradas de uma cidade fantasma". Retorno à Europa
Na noite de 8 de setembro de 1943,
uma esquadra de invasão aliada navegava pelas águas calmas do Mar Tirreno,
aproximando-se das praias que orlam o Golfo de Salerno, na Itália
continental. Os navios que a integravam provinham de diferentes e distantes
portos, como Orã, Bizerta, Tripoli e Palermo, na Sicília. A bordo, os
soldados estavam animados, pois às 18h30 tinham ouvido o comandante-chefe
anunciar pelos alto-falantes dos navios a rendição da Itália. Se o General Eisenhower
pudesse adivinhar a reação dos homens do 5º Exército, de Mark Clark, à
momentosa notícia, teria esperado por oportunidade mais propícia para
transmiti-la, pois a tensão, que vinha aumentando à medida que os navios se
aproximavam da costa inimiga, se evaporara rapidamente. Desfeita a carga
emocional de que estava possuída, a tropa entrou em completa descontração,
rindo, pilheriando, arriando inteiramente a guarda, para usar linguagem da
crônica do boxe. Aquele estado de espírito estava, entretanto, em desacordo
com o que se iria verificar. Os soldados americanos e britânicos que compunham
o 5º Exército em breve descobririam que o aguerrimento da tropa alemã nada
sofrera com a perda dos italianos como aliados. Todo o planejamento da
operação de desembarque (de codinome Avalancha) perto de Nápoles fora
entregue ao 5º Exército dos Estados Unidos. Dois pontos de desembarque foram
considerados, um na planície costeira do Volturno, situada no Golfo de Gaeta,
ao norte de Nápoles (preferido por Mark Clark e pelos chefes da Força Aérea
Americana), e o outro ao sul de Nápoles, em Salerno, que dispunha de praias
muito favoráveis à aproximação das barcaças de desembarque, mas com as
saídas para Nápoles passando pelo alto e rochoso Monte Picenti, pois as
praias eram cercadas de montanhas. Os britânicos achavam que a área do Golfo
de Gaeta ficava fora do alcance de apoio aéreo eficaz e que mesmo as praias
de Salerno seriam de difícil cobertura, porque o tempo de vôo de um Spitfire
baseado na Sicília só lhe permitiria uns 20 minutos sobre a cabeça-de-praia.
Nas discussões realizadas, prevaleceu o ponto de vista dos britânicos, que
alimentavam a esperança de poder conquistar o aeródromo de Montecorvino,
situado na área de desembarque, para dar constante cobertura aérea aos navios
que deveriam descarregar suprimentos ao largo da costa. O 5º Exército consistia de
dois corpos, o X Corpo britânico, comandado pelo Tenente-General McCreery, e
o VI Corpo americano, pelo Major-General Dawley; o X Corpo foi encarregado
da parte norte da zona de desembarque e o VI Corpo ficou com o setor sul; o
Rio Sele, desaguando no mar, separava os dois corpos. Os primeiros desembarques
ocorreram muito bem; as tropas de assalto americanas avançaram rapidamente
para o interior e capturaram os altos picos de ambos os lados do Passo
Chiunzi, enquanto os commandos britânicos desembarcavam à sua direita, em
Vietri sul Mare, e avançaram, contra forte oposição, para a própria cidade de
Salerno. Mas os desembarques
principais, ao norte e sul do Rio Sele, fizeram-se de forma bem diferente um
do outro; ao norte, os navios, antes de se iniciar o assalto, despejaram forte
barragem de fogo, para debilitar a oposição, mas ao sul, as barcaças de,
desembarque aproximaram-se da praia, em silêncio e na escuridão, e a tropa
desceu sem problemas, sendo então repentinamente iluminados por foguetes
alemães e violentamente alvejados. Estabeleceu-se certo pânico, mas na manhã
seguinte a disciplina e o treinamento predominaram e os americanos organizaram-se.
A razão para que a Força de Ataque Sul abordasse a praia em silêncio deveu-se
à ordem de Mark Clark para que não houvesse barragem pré-desembarque no setor
americano, para ganhar o elemento surpresa, o que, infelizmente, não
aconteceu. O ardil fracassou. Durante os meses imediatamente
anteriores às operações aliadas na Itália meridional, os alemães haviam
decidido sobre as providências que tomariam se e quando seu aliado na
formação do Eixo resolvesse fazer um acordo de paz em separado com os Aliados.
Há muito tempo os alemães vinham desconfiando das intenções dos italianos, e
embora Kesseiring - Comandante-Chefe, Sul - trabalhasse em estreita
cooperação com os italianos no preparo de planos para repelir qualquer
tentativa de invasão por parte das forças aliadas, já em agosto Hitler
decidira ocupar a Itália e deslocara forças adicionais para aquele país,
aparentemente para aumentar as defesas contra uma possível invasão aliada.
Seu plano era estabelecer uma linha fortificada no setor norte dos Apeninos
e, se os italianos capitulassem, mandar Rommel para a Itália setentrional,
ordenando a Kesselring que se deslocasse do sul para juntar-se a Rommel, que
assumiria o comando-geral. Caso os Aliados invadissem a Itália antes da
capitulação desta, o Coronel-General von Vietinghoff - do 10º Exército alemão
- deveria repelir os desembarques, com apoio dos italianos, para manter
abertas as rotas de retirada para Roma. Feito o anúncio da
rendição da Itália somente na véspera dos desembarques em Salerno,
Vietinghoff teve de decidir o que fazer. Não podendo entrar em contato com
Kesselring, mas tranqüilizado pela atitude de muitos soldados italianos, que
se deixaram pacificamente desarmar, ou simplesmente abandonaram uniformes e
armas e desapareceram no interior da Itália, ele preferiu tentar repelir a
força invasora para o mar, concentrando, para tanto, suas forças em Salerno.
Kesselring aprovou a medida. Ao ter início a batalha, o
grosso da tropa alemã que dela iria participar foi lançado contra o setor britânico.
Por volta do dia 13 de setembro, Vietinghoff, dando com a brecha existente
entre os dois corpos, no Rio Sele, admitiu que os britânicos e americanos se
haviam afastado um do outro para facilitar uma retirada das praias.
Farejando a vitória, ele cabografou a Kesselring, declarando que a
resistência dos Aliados a seu 10° Exército estava desmoronando e anotou em
seu diário de guerra que a batalha de Salerno terminara. O Estado-Maior de Mark
Clark organizara planos para, se se fizesse preciso, evacuar a
cabeça-de-praia; dois planos foram preparados, um para cada corpo, embora
mais tarde se afirmasse que eles haviam sido feitos para que um corpo
pudesse, numa emergência, ser despachado para reforçar o outro. Seja qual
for a verdade, não há dúvida de que a situação das tropas aliadas em Salerno,
no dia 13 de setembro, era crítica. Entretanto, os homens da 82ª Divisão Aeroterrestre
americana saltaram na cabeça-depraia, o bombardeio aéreo e naval foi intensificado
até que se verificasse o envio de reforços ao 5° Exército, que se encontrava
em dificuldade. Por volta de 18 de setembro era evidente que os alemães
estavam recuando; seus ataques haviam sido contidos pelo bombardeio aéreo e
pelo fogo preciso dos canhões navais, e o 8° Exército britânico, que vinha da
Calábria, passou a constituir-se para eles, também, uma ameaça. Durante muitos dias, a
batalha de Salerno esteve na balança, e se os alemães houvessem lançado na
luta mais soldados, é possível que tivessem feito voltar ao mar o 5° Exército.
Mesmo assim, eles impediram que os Aliados fizessem lucratividade militar
real com a rendição da Itália, e a violência da luta pressagiava as batalhas
ainda a serem travadas, enquanto britânicos e americanos subiam lenta e
dificultosamente a peninsula italiana. |
|
Estratégia Às 18h30 de 8 de setembro
de 1943, o General Dwight D. Eisenhower, Comandante-Chefe das Forças Aliadas
no Mediterrâneo, anunciou pelo rádio que as hostilidades entre as Nações
Unidas e a Itália haviam cessado, por força do armistício assinado. Na verdade, o documento de
rendição havia sido assinado, na recém-conquistada ilha da Sicília, a 3 de
setembro, mas Eisenhower, para dar à tropa aliada o máximo de vantagem com a
retirada da Itália, decidiu silenciar sobre o fato, que afinal praticamente
não enfraquecera nada a resistência por ela encontrada. No momento, porém, em que
Eisenhower resolveu fazer a comunicação, alguns desses soldados estavam em
alto-mar, a caminho da planejada área de desembarque, na Baía de Salerno, situada
a uns 30 km ao sul do porto de Nápoles. O comunicado,
retransmitido pelo rádio dos navios, disparou, inevitavelmente, enorme
confusão entre os homens. Alguns puseram-se a imaginar se havia mesmo
necessidade da invasão; outros, naturalmente, achavam que o desembarque não
passaria de mera formalidade, pois a oposição seria insignificante. Em alguns
navios, os oficiais mais prudentes falavam a seus comandados sobre os perigos
da complacência, tentando preveni-los para o fato de que o armistício não faria
muita diferença, pois só os italianos estavam fora da guerra, não os
alemães, e que a batalha seria igualmente dura, se não pior, levando-se em
conta que o inimigo seriam soldados alemães bem treinados e livres de ser
contagiados pelo desânimo de que eram portadores os italianos. Os soldados que deram
atenção a esta mensagem e se desfizeram das ilusões foram sensatos e
afortunados, pois, chegado o momento da luta, não seriam desmoralizados pelo
choque da sua brutalidade. A adoção da estratégia que
levou à invasão de Salerno ficou estabelecida nos primeiros meses de 1943.
Na Conferência de Casablanca, realizada em janeiro de 1943, em plena campanha
tunisina, os Aliados concordaram que à campanha da África deveria seguir-se
a invasão da Sicília, visando a principalmente garantir as rotas marítimas no
Mediterrâneo, para eliminar a necessidade da longa viagem pelo Cabo da Boa
Esperança. Após essas duas operações, que, em termos estratégicos, poderiam
ser consideradas basicamente defensivas, começaram a aumentar as
perspectivas de uma campanha verdadeiramente ofensiva na frente européia, o
que, para os britânicos, significava, logicamente, um ataque à Itália
continental. Para discutir a questão italiana, entre outras medidas, os
britânicos convocaram uma conferência das potências aliadas, que teve início,
em Washington, a 12 de maio de 1943, à qual compareceram o Primeiro-Ministro
britânico, Winston Churchill, e o Presidente dos Estados Unidos, Franklin D.
Roosevelt, com seus vários chefes de Estado-Maior e consultores, no
"Salão Oval" da Casa Branca. Roosevelt recebeu os participantes da
reunião com um discurso em que salientou a intenção que tinha de empregar
contra o inimigo todos os recursos, em homens, material e munição, que
possuíam os Aliados. No seu entender, nada que pudesse contribuir para levar
à lona o inimigo deveria ser poupado. Todos concordaram com a sugestão do
supremo magistrado da grande nação americana. Em seguida, Winston
Churchill iniciou os debates propriamente ditos, focalizando algumas
diferenças de opinião que havia entre os dois Estados-Maiores, ao mesmo tempo
que se revelava otimista quanto à resolução tranqüila de tais diferenças,
pois se assentavam em problemas de ênfase e de prioridade. Ele apresentou
vários objetivos, começando com o Mediterrâneo, onde a grande meta seria
levar a Itália a retirar-se da guerra que, na frase pitoresca de Churchill,
provocaria um "calafrio de solidão" no povo alemão e talvez lhe
marcasse o começo do fim. E mesmo que a queda da Itália não fosse
necessariamente fatal para a Alemanha, ela teria vários outros efeitos:
exerceria favorável influência sobre o governo turco, que talvez fornecesse
bases de bombardeiros para limpar o Mar Egeu; teria repercussões nos Balcãs,
pois a retirada de grande número de soldados italianos faria com que a
Alemanha os abandonasse totalmente ou retirasse tropas da frente russa,
aliviando, assim, a pressão sobre a União Soviética; eliminaria a esquadra
italiana da guerra e liberaria os porta-aviões e couraçados britânicos para
serviço contra o Japão, na frente do Pacífico ou na Baía de Bengala. O segundo objetivo, depois
do Mediterrâneo, era tirar peso de cima da Rússia, que estava enfrentando
185 divisões alemãs na Frente Oriental. Ainda neste caso, seria vantajosíssimo
tentar a rápida eliminação da Itália como pais beligerante, para obrigar a
Alemanha a enviar grande número de soldados para defender os Balcãs. O terceiro objetivo seria,
como disse o Presidente, lançar contra o grande inimigo todo o poder de
ataque dos Aliados, para levá-lo a tontear e cair. O que fariam os soldados
entre o fim da operação na Sicília, que possivelmente se realizaria em
agosto, e a provável invasão da França pelo Canal da Mancha, marcada para
sete ou oito meses mais tarde? Eles certamente não poderiam ficar ociosos,
pois isso teria efeito muito sério sobre a Rússia. O Presidente, respondendo
a Churchill, disse ser essencial manter o grande exército e as forças navais aliadas
ativamente ocupados, salientando também que era urgente examinar a seguinte
questão: "Aonde iremos depois da Sicilia?" Porém, depois disso,
seus pontos de vista divergiram. O Presidente temia que a ocupação da
Sicília desgastasse muito os recursos dos Aliados ali empregados,
prejudicando as futuras operações no Mediterrâneo, e achava que a ocupação
da Itália talvez liberasse soldados alemães para lutar alhures. Ele achava
que talvez fosse melhor levar diretamente a luta à Alemanha, através de
operação pelo Canal da Mancha. Assim, com Churchill
vigorosamente favorável à operação contra a Itália, e os americanos, com
Roosevelt, nada convencidos, seus Estados-Maiores entregaram-se a freqüentes
discussões destinadas a eliminar as diferenças e estabelecer a estratégia a
ser adotada. Mas, a despeito dos seus esforços, quando o Presidente e o
Primeiro-Ministro aprovaram o relatório dos Chefes de Estado-Maior
Combinados, a 25 de maio, o documento não fazia qualquer referência a uma
possível ação na Itália, após a conquista da Sicília. O mais que fizeram, no
sentido de aparar as arestas, foi a aprovação de um documento declarando que
o Comandante-Chefe Aliado na África do Norte (General Eisenhower) receberia
instruções para "planejar medidas destinadas a fazer da
"Husky" (a invasão da Sicília) uma operação que redundasse na
retirada da Itália da guerra e retivesse o máximo de forças alemãs".
Aos Chefes de Estado-Maior Combinados reservava-se o direito de decidir
quanto à operação a ser montada. Churchill ficou
profundamente perturbado por não ter conseguido estabelecer o que pretendia,
isto é, atacar a Itália após a Sicília, pois sentia que o Estado-Maior
americano preferia uma operação contra a Sardenha. Ele devia ir a Argel
depois dessa visita aos Estados Unidos, para uma consulta com o General
Eisenhower, e, para ir mais além, ele conseguiu do Presidente a permissão de
levar consigo o General Marshall, para que dos debates participasse um
representante dos Estados Unidos do mais alto nível, para que não viesse a
ser acusado de haver exercido indevida influência pessoal com o objetivo de
modificar a decisão do Estado-Maior americano. Churchill e Marshall
fizeram uma viagem cordial a Argel, embora não chegassem a abordar a questão
italiana, que Churchill considerava crítica. Decidido a obter a decisão de
invadir a Itália antes de partir da África, ele não encontrou dificuldade
alguma em convencer seus colegas britânicos a concordar consigo. O General
Alexander, o Almirante Cunningham, o Marechal-do-Ar Todder e o General
Montgomery encaravam a conquista da Itália como conseqüência natural das
operações realizadas na África, desde El Alamein. O General Marshall,
contudo, permaneceu calado e enigmático. Quando da sua primeira
reunião oficial, na tarde de 29 de maio, o General Eisenhower também começou
a mostrar-se favorárl à operação contra a Itália. Após discutir vários
outros assuntos, ele chegou à questão da Itália e declarou que, para
retirarem aquele país da guerra, eles deveriam faze-lo imediatamente após a
Sicília, com todas as forças que tivessem à disposição. Se a Sicília fosse
uma operação fácil, eles deveriam ir diretamente para o território
continental da Itália que, na sua opinião, daria maiores resultados do que
qualquer ataque às ilhas. Eisenhower já então estava claramente convertido
aos planos de Churchill. O mesmo não acontecia com Marshall, e quando Eisenhower
pediu informações sobre o momento em que deveria apresentar seus planos para
levar a Itália à capitulação, Marshall disse-lhe que não se poderia tomar
qualquer medida nesse sentido enquanto os resultados do ataque à Sicília e a
situação na Rússia não fossem conhecidos. Marshall sugeriu a formação de duas
equipes de planejamento, uma para preparar o ataque à Córsega e à Sardenha, e
uma para traçar a operação no continente. A escolha só seria feita quando se
aclarasse toda a situação. Então, o equipamento necessário seria despachado
para a força encarregada da execução do plano escolhido. Eisenhower aceitara
sem reservas os méritos do plano de ataque à Itália e delarou que se a
Sicília caísse com facilidade, iria diretamente para o continente. Na reunião seguinte, a 31
de maio, Churchill tornou a frisar que seu grande desejo era invadir a
Itália Meridional, campanha muito mais gloriosa, como ele a descreveu, que
uma "mera medida de conveniência" que seria a operação contra a
Sardenha. Mas o General Marshall ainda exercia influência moderadora. Embora
compreendesse os sentimentos de Churchill sobre a operação, ele ainda achava
que a escolha da ação que deveria suceder o ataque à Sicília teria que ser
feita com bastante critério, por isso que era pelo adiamento da decisão para
depois de iniciado o ataque à ilha. Durante todo o período
dessas discussões, e no decorrer da operação siciliana propriamente dita, os
acontecimentos na Itália continental desenvolviam-se de tal maneira que
também exerceram influência sobre a questão que se encontrava em debate: a
invasão da Itália continental. Pelos arquivos das discussões
realizadas em Washington e Argel, é evidente que, embora os Aliados
estivessem ansiosos por forçar a saída da Itália da guerra, e confiantes em
que poderiam faze-lo, achavam que tal objetivo só seria alcançado através de
sucessos militares positivos, como a invasão da própria Sicília,
provavelmente a invasão do continente e possivelmente também a captura de
Roma. Porém, durante os
primeiros meses de 1943, os acontecimentos que se verificavam na Itália
rumavam para esse fim. O povo italiano, certo de que a guerra estava perdida,
confrontando a perspectiva de uma invasão aliada e sofrendo crítica escassez
de alimentos, à medida que as incursões de bombardeiros destruíam as
comunicações ferroviárias, estavam cada vez mais desiludidos com Mussolini e
a liderança fascista. Houve distúrbios no norte; as greves tornaram-se
comuns e palavras duras de dissidência eram ouvidas em público. Ao povo italiano
já não importava, absolutamente, a derrota na guerra, desde que isso os
livrasse do fascismo. Uma figura importante nessa crescente onda de
descontentamento era o Marechal Pietro Badoglio, ex-Chefe do Estado-Maior-Geral
italiano, embora na época estivesse reformado. Badoglio solicitou uma
audiência ao Rei Vitório Emanuel e fez-lhe longo relato das condições do país
e do estado de espírito do povo, depois do que sugeriu providências
radicais para dar solução a problemas tão graves. O Rei ouviu-o com atenção,
mas não deu qualquer resposta positiva. Contudo, no devido tempo, com o
encorajamento do Príncipe Herdeiro, Badoglio tomou as providências adequadas
para um golpe de estado, consultando discretamente o Chefe do
Estado-Maior-Geral, General Ambrósio, e os líderes dos três principais
partidos políticos do país, buscando apoio para promover a deposição de Mussolini.
Pelo final de junho, todo o trabalho de preparação do golpe estava bem
adiantado, tendo inicio então a busca dos meios para se livrarem dos alemães
e declarar um armistício. À medida que se ligavam os diversos segmentos do
complô, a pressão aumentava, com a aproximação do avanço aliado para suas
costas. A invasão da Sicília começou a 10 de julho, e em poucos dias o 8º
Exército Britânico e o 7º Exército americano já haviam penetrado bastante na
metade sul da ilha. A 18 de julho, o General Eisenhower pediu permissão dos
Chefes de Estad-Maior Conjuntos para invadir o continente. Uns cinco dias após
iniciado o ataque à Sicília, o General Ambrósio implorou a Mussolini que
transmitisse a Hitler o desejo dos italianos de não mais continuar na guerra.
A 18 de julho, Mussolini e Hitler reuniam-se num "parque fresco e
umbroso", em Feltre, perto de Rimini, mas Mussolini, sem dúvida por
falta de coragem, não conseguiu deixar claro a Hitler que os italianos não
podiam e não queriam continuar lutando. Ao retornar a Roma a 20 de julho,
Mussolini prometeu escrever uma carta a Hitler expondo seu ponto de vista,
mas não chegou a fazê-lo; e à medida que os bombardeiros aliados realizavam
ataques intensos contra os centros ferroviários e aeródromos das proximidades
de Roma, o povo italiano começou a pedir abertamente ao governo que
capitulasse. Diante de tanta oposição,
o governo faszista estava claramente condenado e vários dos membros
importantes do partido fascista estavam sendo privados dos seus cargos ou
tentando demitir-se. Nos dias 24 e 25 de julho, o Grande Conselho Fascista
realizou uma reunião de fim de semana, na qual a hostilidade geral a
Mussolini era clara. Ao término dessa reunião, o Conselho apresentou uma
resolução, apoiada por 16 dos seus 25 membros, declarando, após longo preâmbulo,
que "é essencial a imediata restauração de todos os órgãos do Estado,
de modo que a Coroa, o Grande Conselho, o Governo, o Parlamento e as
empresas possam cumprir as tarefas e responsabilidades a eles atribuídas pela
Constituição e leis do país" e resolvendo que o Conselho "convida o
Governo a solicitar ao Rei, para quem toda a nação se volta com lealdade e
confiança, que, pela honra e segurança do país, assuma o comando efetivo do
exército, da marinha e da força aérea..." Mussolini encerrou a sessão
com as seguintes palavras: "Os senhores provocaram uma crise no
regime". No domingo, 26 de julho, o descontentamento chegara às ruas.
Houve arruaças entre adversários políticos e os romanos que usavam o
distintivo fascista eram surrados pelos seus oponentes, já mais confiantes.
Na tarde daquele dia, Mussolini avistou-se com o Rei e o informou de que o
Grande Conselho aprovara um voto de censura contra ele, Mussolini. Este
tentou afirmar que a resolução era ilegal, mas o Rei, tomando a iniciativa,
e mostrando a força da sua decisão, observou que o Grande Conselho era um
órgão de Estado que o próprio Mussolini criara; que a sua criação fora
ratificada pela Câmara e Senado, e que toda a resolução por ele tomada era,
portanto, válida. A resposta de Mussolini a esta inesperada atitude de
oposição foi violenta e ele vituperou: "Então, na opinião de Vossa
Majestade, eu deveria demitir-me?" O Rei, com clareza igualmente
inesperada, respondeu, calmo: "Sim" e disse-lhe que aceitava a sua
demissão. Mussolini totalmente abatido só pôde murmurar: "Então minha
desgraça está completa". Este é, pelo menos, o
relato que Badoglio fez dos acontecimentos. Segundo o próprio
Mussolini, o Rei foi muito mais cordial, e quando entravam na sala de
recepção, disse: "Meu caro Duce, não dá mais certo. A Itália está em
ruínas... Neste momento, você é o homem mais odiado da Itália. Não pode
contar com mais de um amigo. Só lhe resta um, que sou eu. Eis por que lhe
digo, você não precisa temer por sua segurança pessoal, para a qual
assegurarei proteção. Estou certo de que o homem que deve ocupar seu cargo,
agora, é o Marechal Badoglio". Mussolini discutiu, mas
afinal, curvando-se à decisão do soberano, disse-lhe, finalmente: "Desejo
felicidades ao homem designado para enfrentar esta situação". Daí em diante, as duas
narrativas voltam a concordar em todos os pontos essenciais. O Rei levou
Mussolini até a porta, e este desceu os poucos degraus da casa até o carro,
que estava à sua espera. Ali deparou com um capitão dos Carabinieri, que lhe
disse: "Sua Majestade encarregou-me da proteção da sua pessoa". Um
pequeno grupo de Carabinieri e da policia secreta levou-o a uma ambulância,
que o aguardava, e os homens, prometendo conduzi-lo a lugar seguro, levaram-no
para um quartel dos Carabinieri. Era o fim do governo de Mussolini. Hitler
continuou apoiando o ditador, chegando mesmo a diligenciar no sentido de
retirá-lo do local em que se encontrava preso, num audacioso episódio da guerra.
Nada, entretanto pôde restaurar o poder de Mussolini. Era o fim do fascismo
na Itália. O Feldmarechal Badoglio
foi chamado pelo Rei, que lhe entregou a chefia do governo. Daí por diante,
não se viu mais um único distintivo fascista em Roma. A sede do partido foi
atacada, saqueada e multidões percorriam, jubilosos, as ruas da cidade,
solicitando a imediata retirada da Itália da guerra. Havia, no entanto,
problemas que impediam ao governo retirar de pronto o país do conflito, e o
que mais preocupação causava era a provável reação dos alemães. Se os
italianos abandonassem imediata e unilateralmente a guerra, era quase certo
que os alemães ocupassem toda a península itálica e, derrubassem o novo
governo, para criar um regime-títere inteiramente novo, segundo diretrizes
nazi-fascistas. O povo italiano ver-se-ia
então envolvido no regime nazista e voltaria à condição de inimigo, ainda que
relutante, dos Aliados, que se aproximavam. Os italianos tampouco teriam
meios de impedir que os alemães ocupassem todo o seu país. Eles possuíam
apenas 12 divisões, dispersadas por toda a Itália e virtualmente sem
equipamentos, após as perdas na Líbia, para enfrentar oito divisões alemãs
muito bem equipadas. Não obstante, o povo não
conseguia compreender, ou, mais corretamente, não percebia a existência de
tais dificuldades, e bombardeava Badoglio com mensagens, partidas de
indivíduos e organizações, implorando-lhe que declarasse a paz. Quando ele e
o Rei, em transmissões radiofônicas, declararam que a guerra continuaria, o
povo sentiu morrer dentro de si toda a ânsia de paz e, desiludido, assistia
aflito à atividade da aviação dos Aliados cercando Roma de escombros. O
resultado imediato foi uma sucessão de greves que causaram sérios danos à
economia italiana. Ao mesmo tempo que
afirmava pelo rádio que prosseguiriam as hostilidades contra os Aliados,
Badoglio iniciou negociações para fazer uma paz em separado, e com o
prosseguimento destas, o General Eisenhower e seus planejadores começaram a
examinar, com renovado entusiasmo, as várias possibilidades de invasão do
continente. Nos primeiros dias da
"Operação Husky" na Sicília, quando o 8° Exército se deslocava
quase que livremente pela costa leste da ilha, Montgomery achava que talvez
fosse possível alcançar, praticamente sem obstáculos, a outra margem do
Estreito de Messina, penetrando na Calábria, na ponta da "bota"
italiana. Porém, a idéia abruptamente se esfumou, ao chegarem reforços alemães
que mantiveram o 8° Exército fora de Catânia, deixando claro que a Sicília
teria de ser conquistada antes que se realizassem desembarques na Calábria. Pelo dia 17 de julho,
embora o 8° Exército, de Montgomery, ainda estivesse detido pelos alemães na
planície diante de Catânia, o 7º Exército, de Patton, fazia progressos
suficientes para permitir a ressurreição da idéia e até para autorizar o
planejamento de outras operações. Eisenhower, Alexander, Cunningham e Tedder
concordaram em que a ação principal se fixaria num desembarque em Taranto, no
salto da bota, que daria aos exércitos que subissem a Itália, vindos do sul,
uma excelente base naval para abastecimento. Ainda melhor que Taranto era o
porto de Nápoles, e se a operação na Sicília viesse a demonstrar que a
resistência italiana estava enfraquecendo e, esta a grande esperança, que
italianos e alemães recuavam para o norte, acreditava-se que o porto poderia
ser atacado numa operação terrestre de Calábria para o norte. Essa ordem de
ênfase manteve-se ativa até 25 de julho, quando os Aliados receberam a
notícia da queda de Mussolini. No dia seguinte, os Comandantes Supremos
reuniram-se em Cartago e concordaram em que seria sensato planejar numa base
mais otimista. Nessa conformidade, o General Mark Clark, cujo 5º Exército
fora formado no mês de janeiro anterior, foi encarregado do planejamento de
uma operação inteiramente nova, um desembarque anfíbio na região de Nápoles,
de codinome "Avalancha". O General Clark
entregou-se ao trabalho com grande entusiasmo, recebendo instruções para
apresentar seus planos para o desembarque a 7 de agosto, ficando estabelecido
que a operação se realizaria a 7 de setembro. Aparentemente, seis semanas
era muito tempo para planejar uma invasão que, feita mais cedo, para
aproveitar a confusa situação reinante na Itália, seria muito mais
facilmente realizada, mas o atraso foi imposto pela crítica escassez de
homens e barcaças de desembarque. Todos os homens disponíveis estavam
seriamente ocupados na Sicília, e embora houvesse todas as possibilidades de
um bom resultado a longo prazo, ainda se estava em meados de julho e com
muitas lutas violentas pela frente. Além disso, as operações anfíbias em
grande escala ainda eram uma técnica nova e todas as barcaças de desembarque
estavam empenhadas no apoio às tropas que lutavam na Sicília. Foram feitas
estimativas sobre o tempo necessário à limpeza integral da ilha, e ao
Estado-Maior da marinha dirigiram-se recomendações para que estabelecesse a
data mais próxima, depois da conquista da Sicília, para se fazer o
desembarque. Segundo as fases da lua, ele deveria ocorrer entre 7 e 10 de
setembro. Havia também o problema da
localização exata do desembarque. Duas alternativas principais se ofereciam.
Algumas fontes, mal-informadas, sugeriam a própria Baía de Nápoles, mas os
táticos anfíbios, mais sérios e previdentes, achavam que os acessos fortemente
minados, os empecilhos à navegação e as redes, além de número superior a quarenta
posições de canhões pesados, eram demais para uma força atacante de três
divisões; por isso, a sugestão foi logo posta de lado. A área mais promissora era
a planície costeira do Volturno, ao norte de Nápoles: a única área da região
não cercada de montanhas; o terreno, plano, era ideal para blindados e não
havia obstáculos a um avanço veloz para Nápoles, no sul. Ademais, o desembarque
no Golfo de Gaeta lançaria poderosas forças aliadas atrás das linhas alemãs
e bloquearia quaisquer reforços que eles tentassem trazer do norte. O próprio
Clark era favorável a este plano e por duas vezes foi a Argel para discuti-lo
com as equipes de planejamento. As autoridades da marinha não se mostravam
muito entusiasmadas com o plano, por não serem as águas da região tão bem
protegidas quanto as que, no outro plano, atuariam as unidades navais, mas
os chefes da força aérea americana estavam plenamente satisfeitos, pois
consideravam a área bem dentro do alcance efetivo da cobertura aérea, com o
que não concordavam os britânicos, que alegavam situar-se ela fora do alcance
da cobertura aérea eficaz. Clark abordou a questão com o Comandante-Chefe da
Força Aérea no Mediterrâneo, o Marechal-do-Ar Sir Arthur Tedder, que
declarou, obstinadamente, que não se poderia dar apoio aéreo ao norte de
Nápoles. Portanto, Clark concordou em abandonar esse plano e todos os seus
esforços passaram a concentrar-se no plano defendido pelo representante de
Eisenhower, General Alexander, para desembarque ao sul de Nápoles, no Golfo
de Salerno. Esta era, em certos aspectos, uma escolha desaconselhável como
local de desembarque. É certo que possuía várias vantagens: as praias
dispunham de 30 quilômetros de boa costa com acesso direto às áreas do
interior e o gradiente submarino era ideal para as barcaças de desembarque
irem direto para as praias, sem quaisquer obstruções naturais. Mas havia uma
deficiência séria: o golfo era todo cercado de montanhas que formavam uma
barreira quase impenetrável e de fácil defesa contra uma saída imediata da
praia para a planície de Nápoles. O mais importante é que as saídas
rodoviárias da planície costeira para Nápoles passavam pelo Monte Picenti,
rochoso e particularmente dificil. A situação ali era ideal para a defesa.
Quaisquer forças que desembarcassem teriam não só de enfrentar um formidável
bombardeio de artilharia, como também o pouco espaço para as manobras necessárias
a atravessar as montanhas e dominar os desfiladeiros. Era evidente que um
desembarque de surpresa talvez conseguisse um ponto de apoio na costa, mas
que a batalha dali para Nápoles provavelmente seria de excepcional
dificuldade. Nas circunstâncias, pode parecer estranho que Salerno chegasse a
ser considerada área de desembarque. A chave do plano, porém, era a
necessidade de cobertura aérea e Alexander se recusava a aceitar qualquer
plano que não satisfizesse essa exigência. Mas, mesmo neste aspecto, havia
problemas: partindo das bases aéreas mais próximas, situadas na Sicília, um
caça Spitfire, com um tanque suplementar, poderia patrulhar o Golfo de
Salerno somente durante uns 20 minutos; além disso, se houvesse chuvas
fortes na Sicilia, as pistas de pouso improvisadas tornar-se-iam inutilizáveis.
A única parte do problema da cobertura de caças que deixava alguma esperança
era a existência de uma excelente pista de pouso, o aeródromo de
Montecorvine, quase adjacente às praias da Baía de Salerno. Assim,
planejou-se utilizá-la logo no começo da operação. Resolvida a questão do
local do ataque, o General Clark passou ao detalhamento do plano e apresentou
seu trabalho aos Chefes de Estado-Maior, em Cartago, na reunião de 17 de
agosto. O 5º Exército, de Clark,
consistiria de dois corpos, o VI Corpo americano e o X Corpo britânico. O VI
Corpo, sob o comando do General-de-Divisão Ernest J. Dawley, compreenderia a
34ª e a 36ª Divisões de Infantaria, a 1ª Divisão Blindada e a 82ª Divisão
Aeroterrestre. O X Corpo, comandado pelo Tenente-General Sir Richard
McCreery, teria como base a 46ª e a 56ª Divisões de Infantaria, a 7ª Divisão
Blindada e a 1ª Divisão Aeroterrestre. As forças navais, sob o controle-geral
do almirante britânico Sir Andrew Cunningham, seriam comandadas pelo
Almirante H. Kent Hewitt, zarpando com o 5º Exército em sua nave-capitânia,
o USS Ancon, que também seria o Q-G do próprio Clark até os desembarques.
Para o desembarque em Salerno, iam sob o comando de Hewitt uma Força de
Ataque Norte, formada sobretudo de navios britânicos, comandada pelo Comodoro
G.N. Oliver. e uma Força de Ataque Sul, principalmente de navios americanos,
comandada pelo Contra-Almirante John L. Hall. Uma pequena força anfíbia foi
colocada no flanco esquerdo (norte) do ataque, sob o comando do
Contra-Almirante Richard L. Connolly, que, embora fosse superior a Oliver,
ofereceu-se para servir sob o seu comando, a fim de participar da operação. Dentre os muitos problemas
que desafiavam os planejadores da "Operação Avalancha", havia a
perene confusão sobre o número de barcaças de desembarque que estariam à
disposição. A Sicília fora invadida sem perdas significativas e aproximadamente
dois terços das barcaças de desembarque utilizadas naquela operação seriam
usadas nos desembarques em Salerno. Além disso, o comandante-chefe conseguiu
permissão para incluir na força de ataque 48 torpedeiras cujo retorno à
Grã-Bretanha já havia sido ordenado. Como resultado destas e de outras
incertezas, os planejadores, com o comboio já a caminho das praias, no
Dia-"D" menos 1, ainda não sabiam o número exato de navios com que
contariam para reforços e abastecimento. Desde as questões
estratégicas aos problemas logísticos, a operação parecia inteiramente
envolvida nas malhas da conveniência, da incerteza e da improvisação. Porém,
a característica mais curiosa do ataque surgiu em sua fase mais crítica,
quando o General Clark, considerando a importância do elemento surpresa,
ordenara que não se fizesse nenhum bombardeio preliminar no setor dos corpos
americanos. O Almirante Levitt tentou dissuadi-lo, apresentando razões para
bater previamente o alvo com artilharia, pois, afirmava, os alemães não deixariam
de ver o que estava acontecendo, o que eliminava toda e qualquer
possibilidade de os surpreender. Já a 17 e 18 de agosto eles haviam montado
duas incursões, de 80 Ju-88 cada uma, sobre as concentrações de barcaaças de
desembarque em Bizerta; além disso, com um mínimo de informações, eles
poderam perceber claramente que o Golfo e Salerno era o mais provável local
para onde se encaminharia a frota reunida em Bizerta, sendo mais que evidente
que os comboios não completariam a viagem até as praias de Salerno sem serem
perseguidos pelos aviões de reconhecimento alemães. Com o desenrolar dos
acontecimentos, tornou-se cada vez mais óbvio que poderoso apoio de fogo de
artilharia naval teria sido imensamente valioso no lançamento do ataque, mas
Clark, a despeito dos apelos de vários comandantes, manteve-se fiel a seu
plano e não houve, de fato, bombardeio preliminar. Quando se chegou a este
ponto da operação, os acontecimentos na Itália também haviam alcançado um
estágio critico, à medida que as complexas negociações da rendição da
Itália se desenrolavam. A primeira indicação que
os Aliados tiveram de que os italianos ansiavam por dar por encerrada a sua
participação na guerra, pelo menos do lado do Eixo, ocorrera a 16 de agosto,
quando um emissário italiano, General Castellano, procurou o embaixador
britânico em Madri e, afirmando estar autorizado a falar em nome do novo
governo italiano, pediu que representantes dos Aliados se encontrassem com
ele em Lisboa. O general parecia sincero, embora não posssuísse credenciais
escritas. Como sua informação coincidisse com as notícias provindas do
Vaticano e da Suíça, Eisenhower mandou seu Chefe de Estado-Maior, General
Bedell Smith, e o Chefe do Serviço de Inteligência, Brigadeiro Kenneth
Strong, a Lisboa a fim de debater com o oficial italiano o problema e talvez
providenciar a rendição das forças italianas. Como o próprio Eisenhower
registrou, mais tarde, este foi o começo de uma série de missões secretas e
reuniões clandestinas, de subterfúgios e planos fracassados, que o próprio
mundo da ficção teria ignorado. Castellano não se atreveu
a retornar a Roma senão depois de nove dias após a primeira reunião,
temeroso de que os alemães descobrissem que se cogitava de armistício, e
passou o tempo oculto à espera de um trem especial. Nessa primeira reunião,
Strong e Bedell Smith disseram a Castellano que os únicos termos que os
Aliados aceitariam eram de rendição incondicional. Castellano achava que isto
era demasiado rigoroso e observou que se deslocara para Lisboa a fim de estudar
com as autoridades aliadas a forma de pôr a Itália ao lado das Nações Unidas,
contra a Alemanha. Na verdade, os Aliados
estavam perfeitamente dispostos a abrir mão do rigor da exigência da
rendição incondicional e só a haviam apresentado como base para discussão.
Mesmo assim, havia muitas arestas a aparar, pois cada lado procurava obter
para si o melhor possível. Castellano tinha sempre em mente as conseqüências
da medida para a Itália, o tratamento que receberia dos alemães se se
rendesse sem proteção adequada dos Aliados. Para evitar a tragédia, no seu
entender, inevitável, que se abateria sobre a Itália, ele propôs aguardar que
se desse o desembarque aliado para anunciar a rendição e declarar guerra aos
alemães imediatamente. Aos Aliados, a idéia agradava, pois também não queriam
dar aos alemães tempo para reformular o seu sistema defensivo, uma vez fora
da guerra os italianos. O problema era que, para tomar essas providências,
Castellano queria saber detalhes dos planos aliados. Estes, naturalmente,
não estavam absolutamente dispostos a prejudicar a segurança, revelando seus
planos a quem quer que fosse, muito menos ao representante do governo de um
país com o qual ainda estavam tecnicamente em guerra. Castellano tinha inclusive
recomendações a fazer sobre a força necessária para os desembarques. Ele
sugeriu um desembarque na área de Livorno, com pelo menos 15 divisões, e um
segundo desembarque, com igual massa de forças, no lado oposto da Itália, em
Ancona, formando as duas hastes de uma pinça que cortaria a Itália em dois, a
uns 300 km ao norte de Roma. Para os oficiais do Estado-Maior aliado
envolvidos nessas discussões, que estavam planejando desembarcar com três
divisões, e que não podiam proporcionar cobertura de caça nem mesmo até Nápoles,
deve ter sido difícil conservarem-se sérios ante tais sugestões, muito mais
ainda manter a ilusão de que promoveriam o desembarque com forças muito
grandes. Os pontos em que mais
insistiram os representantes dos Aliados, em todo o transcurso das
discussões, foram que a rendição recebesse a assinatura de alguém autorizado
diretamente por Badoglio, e que esses termos permanecessem secretos.
Badoglio receberia então dos Aliados instruções sobre o momento de anunciar
a rendição, o que seria feito um dia antes da invasão. Castellano objetou
que seu país estava sendo obrigado a aceitar termos impossíveis, a trabalhar
de olhos vendados, lutando insistentemente para que o anúncio do armistício
fosse feito depois que os Aliados tivessem invadido a Itália continental e
estivessem firmemente estabelecidos em terra. Os negociadores aliados
desconfiavam de que os italianos atavam tentando jogar dos dois lados, para
ficar com quem de fato viesse a levar a melhor. Diante disso, negavam-se a
concordar com qualquer sugestão que implicasse a permanência dos italianos
na guerra, matando soldados aliados, após iniciada a invasão, uma vez
aceitos os termos de rendição. Depois de discutidos todos
esses arranjos, e depois de passar o tempo necessário oculto, Castellano
voltou a Roma, no dia 28 de Agosto, e apresentou os termos do armistício a
Badoglio. Este os estudou durante um dia, discutiu-os com o Rei e ordenou a
Castellalo que fosse à Sicília, como se concordara, levar aos Aliados a
reação italiana. Ele deveria dizer-lhes que os italianos não estavam em
condições de cumprir os termos de armistício conforme apresentados, porque
suas forças armadas eram fracas demais, em comparação com as dos alemães, e
seriam logo eliminadas. O governo italiano celebraria o armistício quando os
Aliados tivessem desembarcado pelo menos 15 divisões na Itália, num local
adequado. Bedell Smith disse-lhe em
resposta que os termos oferecidos aos italianos não estavam abertos a novas
discussões, e que o governo italiano podia aceitá-los ou recusá-los. Contudo,
para estimular o moral italiano, ele se prontificou a enviar uma divisão
aeroterrestre, a 82ª americana, para tomar os aeródromos de Roma e
defendê-los contra os alemães até que as forças do desembarque anfíbio pudessem
juntar-se a ela. Desnecessário dizer que quando Eisenhower comunicou a
Clark a intenção de lhe retirar a única divisão aeroterrestre que possuía,
este teve um acesso de fúria, alegando que a remoção da divisão, a qual
pretendia fazer saltar ao longo do rio Volturno, para impedir que as divisões
Panzer corressem para o sul e bloqueassem as gargantas entre Salerno e Nápoles,
seria o mesmo que lhe cortar o braço esquerdo. Quando Eisenhower lhe garantiu
que a divisão retornaria ao seu controle após o salto, só lhe ocorreu
observar, com pitoresco sarcasmo, que a divisão estaria então a 300 km de
distância, o que equivaleria a conceder a alguém o direito à metade,
apenas, da esposa. Contudo, não tendo sido
tocado neste aspecto do plano, reforçou-se o moral dos italianos,
esgotando, por outro lado, os argumentos que apresentavam com o intuito de
assinar o armistício depois do desembarque aliado. Bedell Smith também
contribuiu para que os italianos se decidissem, ameaçando, a menos que os
termos fossem aceitos, impor-lhes condições muito mais rigorosas, arrasar as
principais cidades da Itália, inclusive Roma, e destruir a indústria do
país. A 1º de setembro, de volta
a Roma, Castellano transmitiu a Badoglio e a dois colegas graduados tudo quanto
foi dito e prometido na reunião com as autoridades aliadas e Badoglio
comunicou-os ao Rei. Decidiu-se então que os termos do armisticio eram
aceitáveis e Castellano tornou a ir à Sicília. Neste ponto, nova complicação
surgiu. Castellano, meio incerto quanto aos poderes que tinha, afirmou que
não estava autorizado a assinar pessoalmente o armistício. Aí o General
Alexander interveio. Envergou seu melhor uniforme de gala, para causar a
máxima impressão, e passou uma reprimenda muito desagradável em Castellano.
Este comunicou-se imediatamente com Roma, pedindo que lhe dissessem se tinha
ou não autoridade para assinar, e Badoglio respondeu: "A resposta
afirmativa dada em nosso telegrama n° 5 contém implicitamente aceitação das
condições do armistício". Esse palavreado oco não ajudou a ninguém, só
aumentou a confusão. Três horas depois entretanto, chegou outro comunicado
cancelando a versão ambígua anterior e declarando claramente que o General
Castellano estava "autorizado pelo governo italiano a assinar a
aceitação das condições do armistício". Às 17h15 de 3 de setembro,
ele assinou, e a nação italiana ficou oficialmente fora da guerra. Naquele mesmo dia,
exatamente quatro anos depois que a Grã-Bretanha declarou guerra à Alemanha,
as forças aliadas fizeram sua primeira invasão do continente europeu,
quando o 8° Exército, de Montgomery, apoiado por maciço bombardeio de artilharia,
naval e aéreo, cruzou o Estreito de Messina e desembarcou sem oposição na
ponta da bota italiana. Estava especificado nos
documentos chegados a Roma no dia 5 de setembro que o armistício entraria em
vigor entre 10 e 15 de setembro. O General Bedell Smith disse a governo
italiano que talvez isso viesse a ocorrer a 12 de setembro. Entrementes, a
atividade de capa-e-espada continuava, às vezes com conseqüências hilariantes
e ridículas. Em determinado momento, Castellno afirmou que precisava de um
Estado-Maior. Um grupo de oficiais foi então reunido e levado de Roma, a
bordo de uma lancha-torpedeira italiana, para uma ilha ao norte da Sicília,
de onde foram transferidos para outra lancha que os levaria à extremidade
oeste da ilha e, dali, num avião Dakota, para a África do Norte, onde o Q-G
de Alexander estava sendo estabelecido para a "Operação Avalancha".
Quando eles chegaram a Túnis, ninguém ali se encontrava para recebê-los. O
oficial de Estado-Maior britânico encarregado de cuidar deles viu-se então
obrigado a um esforço, dando vàrios telefonemas do aeródromo, para localizar
a comissão de boas-vindas. Entrementes, a tarefa se complicava, e a segurança
corria sérios riscos, porque todo o grupo decidira viajar em uniforme de
gala, inclusive dois Alpini e dois Bersaglieri, com seus capacetes
magnificamente emplumados, os primeiros com penas de águia, os segundos com
rabos de galo. A medida que subia a temperatura, enquanto o sol ganhava
altura, os infelizes italianos já não agüentavam de tanto suar, dentro do
Dakota, com ordem expressa para que não se aproximassem das janelas, até que
o oficial britânico recebeu ordens do Q-G da Força Aliada para levá-los a
Bizerta. Ali, o Chefe do Serviço de Inteligência de Eisenhower, Brigadeiro
Strong, os aguardava, juntamente com o próprio Castellano, submeteu seu novo
Estado-Maior a uma violenta invectiva, que durou cinco longos minutos, pela
indiscrição que cometeram, viajando uniformizados. Uma jornada igualmente
fascinante, infinitamente mais perigosa e de muito maior conseqüência, foi
feita no dia anterior ao Dia-"D" pelo Brigadeiro-General Maxwell
Taylor. Devido aos perigos excepcionais que envolviam o plano de desembarque
de uma divisão aeroterrestre em Roma, como prelúdio do ataque, julgou-se
essencial enviar um oficial graduado à cidade, para uma avaliação dos
problemas e enviar um relatório ao Q-G. Taylor, Subcomandante da 82ª Divisão
Aeroterrestre, foi o escolhido. Ele viajou de torpedeira, subindo o rio
Tibre, chegando à casa de Badoglio às 02 h de 8 de setembro, acompanhado de
um oficial americano, o Coronel William Tudor Gardiner, do Serviço de
Inteligência da Força Aérea, e de um oficial italiano, o General Carboni, que
comandava todas as tropas italianas em Roma. Por coincidência, este não era o
primeiro encontro entre Taylor e Badoglio, pois Taylor era cadete da
Academia de West Point quando, em 1921, Badoglio fez uma visita àquela escola
de formação de oficiais. Conforme Eisenhower veio a registrar, a missão de
Taylor acrescentou mais um capítulo a essa história cheia de aventuras
emocionantes. Os riscos que Taylor correu, observou Eisenhower, foram
superiores a todos os enfrentados por qualquer dos emissários seus durante a
guerra. Indiferente ao risco de a qualquer momento ser descolberto, e morto,
ele cumpriu à perfeição as tarefas todas que lhe foram confiadas. Toda essa tensa missão
teve curso dentro das melhores tradições da ficção de espionagem. Taylor
levava consigo uma palavra-código (segundo um observador, era a palavra
"certamente"), que deveria incluir em qualquer mensagem por ele
enviada, recomendando o cancelamento do desembarque aeroterrestre. Mesmo que
ele fosse capturado e obrigado a enviar uma mensagem, a não-inclusão da
palavra "certamente" a cancelaria e impediria que a 82ª Divisão
Aeroterrestre caísse numa armadilha. Tão logo chegou à casa de
Badoglio, Taylor deixou claro que a divulgação do armistício era iminente e
poderia até ser feita naquele mesmo dia. Compreensivelmente, Badoglio ficou
irritado ao descobrir que fora levado a crer que isso só ocorreria dali a
alguns dias: evidentemente, a divisão aeroterrestre agora não poderia desembarcar
antes do armistício. Ele implorou por um adiamento nos saltos e na
divulgação do armistício, a fim de se preparar para aquele desembarque. Do
contrário, afirmaram ele e Carboni, com 48.000 soldados alemães nas vizinhanças,
não poderiam cooperar. Badoglio fez o rascunho de um telegrama que iria
enviar ao General Eisenhower insistindo no adiamento do armisticio até 12 de
setembro. Se a examinarmos do ponto de vista de Badoglio e dos italianos, a
insistência no adiamento era perfeitamente compreensível, embora seja
difícil admitir que as suas razões pudessem influenciar os Aliados, que, evidentemente,
trabalhavam em obediência a um plano meticuloso e de longo alcance, e que já
fora acionado. Seu telegrama, de fato, chegou ao Q-G aliado, em Bizerta,
quase que ao mesmo tempo que a mensagem cifrada de Taylor que, devido à
incerteza da cooperação italiana e aos efetivos, pelo menos aparentes, das
forças alemãs, recomendava o cancelamento da operação aeroterrestre. Aliás,
o cancelamento do ataque aeroterrestre foi, provavelmente, um erro dos
Aliados. Eles estavam erroneamente informados sobre os efetivos de que
dispunham os alemães nos arredores de Roma, enquanto que um ataque de
pára-quedistas era o que mais temia o Feldmarechal Kesselring, Comandante
alemão na Itália Meridional, alertado sobre a iminência do ataque aliado.
Tendo apenas dois batalhões defendendo os aeródromos, ele passou a maior
parte daquele dia atento a qualquer salto de páraquedistas aliados. Com a
82ª, a guarnição italiana de Bersaglieri, de cinco divisões ao todo, poderia
ter defendido a cidade e bloqueado eficazmente as comunicações alemãs,
tornando incomparavelmente mais fácil a eventual saída de Salerno para o
Norte. Os apelos de Badoglio,
longe de levar os Aliados ao adiamento da "Operação Avalancha", só
conseguiram provocar um violento acesso de fúria em Eisenhower, coisa
bastante incomum. Ele e os demais comandantes reuniram-se numa pequena sala
de aula; na sua opinião, o telegrama de Badoglio significava que os
italianos pretendiam mudar de lado somente quando o pulo perdesse qualquer
significação de risco, ou seja, quando os Aliados houvessem desembarcado
quantidade de tropa capaz de garantir o sucesso; quando vissem as pequenas
forças que os Aliados iriam desembarcar em Salerno, eles poderiam muito bem
não mudar de lado! Os Aliados eram,
entretanto, suficientemente realistas para não confiar em qualquer ajuda
efetiva dos italianos no combate aos alemães, mas consideravam que sua repentina
ausência da batalha ajudaria a anular, durante breve período, os
dispositivos defensivos dos alemães. Eisenhower, normalmente
tranqüilo e de atitudes educadas, perdeu por completo a calma e passou
violenta descompostura em Castellano, que se fazia presente à reunião. Após
breve discussão, e ainda com o rosto afogueado, ele exigiu que o levassem a
um telefone através do qual ditou, "aos berros", egundo o oficial
cujo telefone ele usou, o seguinte telegrama dirigido a Badoglio:
"Pretendo divulgar a existência do armistício na hora aprazada. Se
você, ou qualquer parcela das suas forças armadas, não cooperar, como ficou
acordado, publicarei para o mundo inteiro toda a história deste caso. Hoje é
seu Dia-"X" e espero que cumpra a sua parte". Depois, Eisenhower acalmou-se
e passou a aguardar o efeito do seu telegrama, decidido a fazer a prometida
transmissão, independente de qualquer providência que viesse a tomar o
governo italiano. Este não enviou qualquer notícia até às 18h30. Eisenhower
entrou então no ar e anunciou a rendição. Na verdade, seu telegrama
fora recebido em Roma uma hora antes da transmissão e provocara um rebuliço
entre os italianos. Badoglio reuniu o Ministro da Casa Real, os Ministros das
Relações Exteriores, Exército, Marinha e da Força Aérea, o Chefe do Estado-Maior-Geral,
o Subchefe do Estado-Maior-Geral do Exército, General Carboni, e o Major
Marchesi, que fora com Castellano à Sicília para as primeiras negociações.
Toda esta comitiva foi ter com o Rei, ocorrendo uma breve discussão sobre se
deveriam ir em frente com o armistício, arriscando, possivelmente, uma
violenta reação alemã, ou repudiar o acordo de 3 de setembro. As opiniões
estavam muito divididas, e foi o próprio Rei, reconhecendo a impossibilidade,
naquele momento, de uma política diferente, quem resolveu a questão. A esse tempo, a
transmissão de Eisenhower fora ouvida e, com o apoio do Rei, Badoglio saiu
apressadamente da reunião, indo para a Rádio de Roma e transmitiu sua
proclamação. "Reconhecendo a
impossibilidade de continuar a guerra, diante da força esmagadora do
inimigo, e a fim de salvar a nação de outros desastres ainda maiores, o
governo italiano pediu ao General Eisenhower, Comandante-Chefe das Forças
Aliadas, um armistício. O pedido foi aceito. Em conseqüência, todas as
hostilidades pelas forças armadas italianas contra as forças britânicas e
americanas têm, agora, de cessar. Elas, contudo, repelirão ataques, venham de
onde vierem." "Aproxime-se a renda-se" No momento em que Eisenhower
fazia a transmissão radiofônica, a maior parte dos soldados envolvidos nos
desembarques de Salerno estava em seus comboios e já a caminho das posições
de desembarque no Golfo de Salerno. O efeito da transmissão
não foi o pretendido por Eisenhower. A tropa, de um modo geral, desarmou o
espírito, começou a relaxar. A tensão que normalmente precede as grandes
ações desapareceu, assim como perderam quase todos a determinação de lutar.
Eles acreditavam que, como se dirigiam em direção à Itália, e como aquele
país estava agora fora da guerra, não haveria contra quem combater.
Confrontados com essa lógica. aparentemente incontestável, os oficiais
ainda tentaram conscientizar a tropa de que ainda teriam de combater os alemães,
mas não conseguiram muita coisa. Como o Almirante Cunningham observou, muitos
ignoraram as advertências. A atmosfera também não desencorajava a atitude
dos soldados. Aquela noite foi bela, límpida e calma. Quando os navios se
aproximaram do Golfo de Salerno, do outro lado do Mar Tirreno, para muitos
observadores viajados, uma das mais belas vistas do mundo, os soldados podiam
ver luzes em terra, os lampiões dos pescadores ao largo de Amalfi, e a linha
do horizonte, acima da sua área de desembarque, destacando-se contra o azul
do mar e o céu que escurecia. A noite era bem mais de poesia e romance que de
luta e morte. Quase 600 navios formavam
os comboios de invasão e suas escoltas. Eles haviam zarpado dos respectivos
portos em diferentes momentos, a partir das 06h de 3 de setembro; vinham de
Trípoli, Palermo, Bizerta, Termini, Orã e Argel, todos com ordens de chegar
ao largo de Salerno em determinado horário, seguindo, porém, um padrão de
procedimento, intricado e minucioso, típico dos desembarques anfíbios. Ao largo de Salerno, o
submarino britânico HMS Shakespeare, que vinha operando naquelas águas há
dez dias, emergiu, e a tripulação instalou uma luz verde na sua torre de
comando, para ser vista da direção do mar, como um farol para orientar os
navios que se aproximavam. Pouco depois da meia-noite de 9 de setembro, os
primeiros transportes começaram a aproximar-se dos seus pontos de
lançamento, e com um ruído metálico as barcaças de assalto foram retiradas
dos seus turcos e baixadas nas águas calmas. Repletas de soldados, na maioria
com as faces enegrecidas e curvados ao peso do equipamento e das armas, as
barcaças de assalto soltaram amarras e partiram rumo às praias. Um grupo de soldados
altamente especializados tinha a tarefa crítica de tomar, ao norte, o porto
de Salerno propriamente dito, garantir a posse das elevações que dominam o
porto e cortar as comunicações rodoviárias e ferroviárias entre Salerno e
Nápoles, nos pontos em que elas passam pelas montanhas. Três batalhões de
tropas de assalto americanos deviam desembarcar em Maiori, e dois de
commandos britânicos em Vietri. As tropas de assalto, sob o comando do
Tenente-Coronel William O. Darby, foram transportadas em duas LSI (Navio de
Desembarque para Infantaria) e cinco LCL (Barcaça de Desembarque para Infantaria),
e começaram a desembarcar às 03h20. Como não encontrassem oposição, e à
medida que as levas de suprimentos as seguiam até a praia, as tropas de
assalto avançaram e, em três horas, haviam ocupado as elevações que dominam a
passagem de Chiunzi a Nápoles e as comunicações rodoviárias e ferroviárias
entre Salerno e Nápoles, incluindo a importante rede ferroviária de Nocera. A
operação parecia incomumente fácil. À direita, os commandos
britânicos, dirigidos pelo Brigadeiro Robert Laycock, deviam desembarcar em
Vietri, tomar as defesas costeiras e as elevações que dominam o desfiladeiro
de Molina, outro caminho que leva a Nápoles. Mas eles não desfrutariam do
desembarque tranqüilo com que foram presenteados seus colegas americanos. Assim
que se aproximaram da costa, exatamente na hora marcada para seu ataque, às
03h30, uma bateria de canhões alemã abriu fogo e os do HMS Blackmore
revidaram, para silenciá-la. A primeira leva da força de assalto os homens do
Commando n° 2 do Exército, dirigidos pelo Tenente-Coronel. Jack Churchill,
desembarcou e correu pelas dunas antes que os defensores alemães tomassem
consciência da sua presença. Quando as metralhadoras alemãs foram acionadas,
já os commandos estavam no meio delas e, depois de corpo-a-corpo, seus
primeiros prisioneiros estavam sendo levados para a praia. Atrás deles, meia
hora depois, veio o 41º Commando dos Royal Marines, dirigido pelo
Tenente-Coronel Bruce Lumsden. Seus homens logo foram alvejados por fogo de
metralhadora e vários deles foram feridos, mas a maior parte dos commandos
desembarcou a salvo e avançou rapidamente. No caminho, encontraram um tanque
Tigre, destruindo-o com uma granada que lhe conseguiram enfiar pela torreta,
e partiram céleres para capturar Vietri, o primeiro objetivo. Ao chegarem ao
passo de Molina, onde se entrincheiraram, repeliram um contra-ataque da
infantaria alemã, apoiada por tanques, e ficaram ali aguardando a força principal.
Durante essa luta, as baterias de 88 mm continuaram trocando tiros com os
destróieres e cruzadores e, embora os navios pulverizassem os alvos que
conseguiam identificar, várias posições não atingidas por muito bem ocultas,
assim que os navios de abastecimento começaram a tentar a aproximação das
praias, por volta das 06h30, dispararam tão intenso fogo de morteiro e
metralhadora, que eles e as barcaças de desembarque foram repelidos. Na confusão
da luta, uma mensagem inteiramente errada chegou ao Q-G dos commandos, dizendo
que os alemães haviam retomado a praia e, assim, eles tinham de passar alguns
dias sem receber suprimentos. Apesar das dificuldades,
os britânicos dominaram o desfiladeiro e, portanto, as comunicações
rodoviárias e ferroviárias; as tropas de assalto americanas também controlavam
as passagens na sua área. Vietri e Maiori foram tomadas e os objetivos situados
ao norte, pelo menos, haviam sido alcançados. Essas duas operações de
commando, embora de imenso valor, foram subsidiárias aos desembarques
principais, realizados mais ao sul. O plano do General Clark dividia o
ataque principal em duas partes, as Forças de Assalto Norte e Sul. A cerca de
10 km ao sul de Salerno estavam as praias a serem atacadas pela Força de
Assalto Norte, integrada pela 46ª e pela 56ª Divisões que, juntamente com os
commandos e as tropas de assalto, formavam o X Corpo britânico. A área de
desembarque da 46ª Divisão foi designada Uncle (Tio) e dividida em duas
praias, a Vermelha e a Verde. A divisão, sob o comando do Major-General
Hawkesworth, deveria dirigir-se para o norte, após o desembarque, tomar as
elevações situadas atrás de Salerno e dividir-se em duas colunas, uma para
tentar a tomada de Salerno e a outra, deslocando-se pelo Vale de Picentino,
para tomar Mercato, situada ao norte de Salerno. O oficial da marinha
encarregado dos desembarques nas praias Uncle, Almirante Conolly,
aproximou-se do seu objetivo no USS Biscayne e, por volta de 01h50, de 9 de
setembro, seus navios haviam aberto um canal através do campo minado e ele
levara seus três destróieres da classe Hunt para suas posições, a apenas
1.500 m das praias, prontos para dar combate a quaisquer instalações
terrestres. Os capitães desses navios tinham recebido ordens do Almirante
Hewitt, na noite anterior, para não abrirem fogo contra quaisquer defesas
costeiras, a menos que estas atirassem primeiro, pois as baterias talvez
fossem guarnecidas por soldados italianos que, em vista do armistício, não
eram mais inimigos. Mas as baterias de terra abriram fogo, o que levou
Conolly a ordenar que seus destróieres respondessem. Às 02h25, os disparos de
terra começaram a rarear e Conolly mandou que se iniciasse o ataque. Quando a
primeira leva de barcaças de assalto se dirigiu para as duas praias Uncle,
canhoneiras se aproximaram da terra, para funcionarem no apoio de fogo,
função antes cumprida pelos destróieres. Na Praia Vermelha, uma barcaça de
desembarque, equipada com foguetes, disparou 790 deles contra a praia, para
anular qualquer campo minado, e os primeiros soldados desembarcaram na hora
certa, às 03h30. O efeito causado pelos foguetes da barcaça de desembarque,
apelidada "cerca viva", foi tremendo. As explosões lançavam para o
alto montes de areia e escombros, por entre os quais se viam soldados
alemães vagando aparentemente atordoados; houve também um pequeno vagalhão
formado pelos foguetes. Esse ataque, contudo, não conseguiu eliminar toda a
oposição e, quando os soldados desembarcaram no Setor Vermelho das praias
Uncle, encontraram vigorosa resistência. Todavia, após intensa luta, eles
abriram caminho, as levas sucessivas trouxeram artilharia e munição e, às
06h45, o brigadeiro e seu Estado-Maior estavam em terra. Sua parte, na
operação, saíra perfeitamente de acordo com o plano. À sua direita, no Setor
Verde das praias Uncle, as forças atacantes encontraram problemas muito
piores. As dificuldades começaram guando as barcaças de desembarque
dispararam seus foguetes, errando o alvo em 800m, abrindo um caminho pela
praia à direita da sua, a praia designada Sugar Amber (Açúcar Ambasr). De
acordo com o plano, as tropas de assalto, se os foguetes errassem o alvo,
iriam para onde caíssem os foguetes, pois se considerava mais importante
percorrer o caminho aberto do que obedecer ao plano teórico e arriscar-se a
gandes perdas nos campos minados. A primeira leva de soldados destinada à
Uncle Verde, obedeceu corretamente à ordem e desembarcou na Sugar Amber,
sendo seguida, a intervalos de 15 minutos, por três outras levas. O resultado
foi uma confusão que até hoje não ficou bem esclarecida. Alguns soldados da
46ª Divisão se misturaram aos da 56ª, que foram parcialmente empurrados para
fora da sua própria praia. Ao que parece, dois batalhões de assalto do
Regimento Royal Hampshire desembarcaram no lado errado do Rio Asa e, ao
tentarem retornar, uma companhia subiu por um caminho estreito, enfrentando
diretamente um contra-ataque alemão. Dispondo apenas de armas portáteis
para enfrentar os tanques alemães, seus integrantes quase foram eliminados. Não tendo sido
inteiramente perfeito o ataque dos foguetes, um ponto forte ficou intato na
Praia Uncle Verde e os disparos feitos desse ponto forte foram de tal ordem
incômodos, que levou Conolly a suspender a descarga de suprimentos na Uncle
Verde pouco antes das 09h e a desviá-los para a Uncle Vermelha. Durante todo
aquele primeiro dia, a Uncle Verde permaneceu inutilizável, numa
demonstração dos terríveis problemas que podem surgir quando ocorre um único
erro no complexo plano de um grande desembarque anfíbio. E, enquanto se
desenrolavam esses sangrentos encontros, os navios que manobravam ao largo,
sobretudo os que apoiavam os desembarques na Uncle, duelavam com posições de
canhões alemães, chegando às vezes a disparar contra tanques e grupos de
soldados de infantaria que avistavam; além disso, tiveram também de se pegar
com a Luftwaffe. Os aviões alemães montaram seu ataque principal entre as
04h17 e 05h37, acertando em cheio o USS Nauset, e algumas outras bombas
caíram nas proximidades. Quando a tripulação tentava encalhar o navio, com a
ajuda de um rebocador, houve tremenda explosão, que fez em dois o navio e
matou ou feriu 59 homens da sua tripulação, de 113 homens. Todas as LST foram vítimas
do fogo das baterias defensivas. Uma delas, ao dirigir-se para a praia Uncle
Verde, sob pesado fogo de artilharia, bateu numa mina, sofrendo 43 baixas.
Outra foi atingida por cinco vezes, mas ainda assim conseguiu desembarcar a
tripulação na Uncle Vermelha. Outra, a LST 375, foi atingida por duas vezes,
durante a descarga, e só conseguiu retirar os veículos do seu convés principal
depois que se afastou para reparos. À tarde, já em condições de operar, fez
descer os veículos, depois do que, acertando-a em cheio, uma bomba fê-la
explodir. Em contraste com o que se
passava no setor Uncle, a batalha foi relativamente calma, durante o
Dia-"D" nos setores Sugar e Roger, ao sul. A 56ª Divisão, sob o
comando do Major-General D. A. Graham, deveria desembarcar nessas praias e
capturar o valioso aeródromo de Montecorvino, o que melhoraria muito o
trabalho dos caças, em sua atividade de cobertura. Em seguida, ela deveria
rumar para a Ponte Sele, a 16 km mais para o interior. A preparação dos desembarques
obedecia à direção do Comodoro Oliver, que, depois que os caça-minas
retiraram do caminho cerca de doze minas, mandou que os transportes se
aproximassem da praia. À 01h15, eles começaram a lançar ao mar suas barcaças
de assalto e de apoio. No setor Sugar, dividido em Amber, ao norte, e Green,
ao sul, as primeiras levas desembarcaram, com atraso de uns 10 minutos e,
quando a segunda leva chegou, a praia em que deveria descer, a Amber, estava
inteiramente tomada pelos soldados da Uncle, que se haviam desviado do rumo
em virtude da imprecisão dos disparos dos foguetes, amontoando-se na praia
Verde, contribuindo ainda mais para a confusão geral. Felizmente, o inimigo
não reagira e houve tempo para ajeitar as coisas. Depois do amanhecer, os
defensores abriram fogo de poderosas baterias nas praias Sugar, mas os
destróieres Laforey e Lookout aproximaram-se para dar-lhes combate e
continuaram dando valioso apoio durante todo o dia. O Setor Roger, à direita
do Sugar, foi igualmente dividido em duas praias, Ambar e Verde. Também ali
houve um engano na orientação e a primeira leva para a praia Verde
desembarcou a uns 1.500 m fora do rumo, mas, como a praia à qual se destinava
realmente estava bem protegida por poderosa bateria alemã, esse erro foi
afortunado. As levas subseqüentes foram vítimas de alguns disparos, mas os
desembarques prosseguiram sem grandes baixas. Além disso, nessas praias,
dotadas de alguns dos gradientes mais favoráveis, as primeiras levas logo
foram apoiadas por unidades LST, que desembarcaram suas cargas durante todo o
dia e, antes do anoitecer, já estavam a caminho, em comboio, para uma área
segura. Durante todo o Dia-"D",
uma caractecística sem dúvida importante da batalha foi a atividade dos
navios, cuja eficiência permitiu que a artilharia das tropas de desembarque
pudesse ser levada para terra. Os commandos e as tropas de assalto desfrutaram,
cada qual, da cobertura de um destróier e de uma barcaça de desembarque
armada de canhões de 4,7 pol., chamados LCG (Launching Craft-Guns, Barcaças
de Desembarque para Canhões). Na Uncle, a 46ª Divisão dispunha de três
destróieres e três LCG a dar-lhe apoio, e nos setores Roger e Sugar a 56ª
Divisão tinha três destróieres e quatro LCG. Além disso, todo o X Corpo
tinha à sua disposição, sob o comando direto do Comodoro Oliver, um esquadrão
de cruzadores, com os HMS Mauritius, Uganda, Orion, o monitor Roberts e dois
destróieres, mas, devido a dificuldades de comunicação, não se fez com
eficiência o apoio dos cruzadores no Dia-"D", correndo por conta
dos destróieres a maior parte do trabalho. Dos navios de porte, o que atuou
de modo realmente proveitoso foi a capitânia do Almirante Conolly, o USS
Biscayne, do qual o próprio Conolly viu uma bateria disparar de uma colina ao
sul de Salerno e mandou que seu navio se aproximasse da costa para atacá-la.
Doze salvas dos seus canhões de 5 pol. fizeram o serviço, depois do que o
navio voltou a afastar-se. Dos destróieres, vários
foram atingidos, alguns por granadas de 88 mm, outros por fogo mais fraco,
mas a ajuda que prestaram foi inestimável. Os que se encontravam em terra
informaram que seus disparos haviam reduzido muitos dos canhões alemães a sucata,
produzindo também numerosas baixas entre os alemães, não havendo dúvidas de
que, sem o castigo imposto pelos navios, sobretudo pelos destróieres, a
atividade dos defensores poderia muito bem ter impedido que as tropas do X
Corpo conseguissem um ponto de apoio. As praias de desembarque
do VI Corpo foram divididas em quatro, designadas pelos nomes Vermelha,
Verde, Amarela e Azul, a partir do norte para o sul. A Praia Vermelha estava,
de fato, a 12 km de distância da area de desembarque mais meridional do X
Corpo britânico, o que dava às duas forças muito pouca esperança de sé
apoiarem mutuamente no flanco, mas esta disposição era considerada
necessária devido aos bancos de areia encontrados perto da foz do rio Sele,
que dividia em duas partes a cabeçade-praia. As quatro praias estavam diante
dos Templos de Pesto, dois templos gregos perfeitos, e das colunas em ruínas
de um terceiro, quase tudo o que restava da cidade grega de Poseidonia,
fundada no século VI a.C. e dedicada ao deus Netuno. Embora um prazer visual
para qualquer entusiasta do clássico, a área era impraticável para a guerra
moderna que em pouco troaria ao seu redor. Situava-se ela a uns 5 km das
praias. Mais próximo destas erguiam-se várias torres de vigia, construídas
em tempos mais modernos (cerca de mil anos mais tarde), para dar aos
habitantes aviso imediato de incursões sarracenas. Estas seriam novamente
úteis, por se constituírem em excelentes pontos de referência para os
navegadores das barcaças de desembarque. Atrás de Pesto, duas montanhas
dominavam o campo de batalha, o Monte Soprano com 1.174 m, e o Monte
Sottane, com 686 m; entre eles aninhava-se a pequena cidade de Capaccio. De
modo geral, o objetivo do ataque do VI Corpo era dar proteção ao flanco direito
dos Aliados em seu avanço na direção de Nápoles e travar contato com as
unidades avançadas do 8° Exército, de Montgomery, que vinha do sul. Para o desembarque, o VI
Corpo foi dividido em dois grupos regimentais de combate, o 142º GRC, que
desembarcaria nas duas praias mais setentrionais, e o 141º GRC, que desceria
nas outras duas; ambos os grupos pertenciam à 36ª Divisão de Infantaria, sob
o comando do Major-General Fred L. Walker. Eles deviam desembarcar em seis
levas de barcos, tomar a ferrovia situada atrás dos templos, deslocar-se para
o sopé dos montes e assenhorear-se da área. A 45ª Divisão de Infantaria,
também dividida em dois grupos regimentais de combate, ficaria como reserva,
a bordo, desembarcando no dia seguinte. Exatamente uma hora antes
da Hora-"H", às 02h30, quatro velozes lanchas-canhoneiras, com os
motores equipados com silenciadores, aproximaram-se lentamente no mar calmo
e tomaram posição ao largo das suas respectivas praias. O Segundo-Tenente G.
Anderson parou a uns 400 m ao largo da Praia Vermelha e ligou sua luz
vermelha na direção do mar. Ao largo da Praia Verde, depois de orientar-se
pela Torre de Pesto, construída na Idade Média, o Tenente R. Galloway
aproximou-se a 100 m da praia e às 03h10 ligou sua luz verde. O
Segundo-Tenente J.G. Donnell também se orientou pela torre para encontrar
sua posição ao largo da Praia Amarela, e o Segundo-Tenente R.E. Schumann
acomodou-se, à espera das levas de assalto, na Praia Azul, depois de
orientar-se pelo Monte Sottane. Atrás deles, os caça-minas
trabalhavam na abertura de um canal através de um campo minado cuja
existência havia sido pouco antes comunicada embora a tarefa fosse excessiva
para ser realizada no tempo disponível. Uma barcaça de desembarque veio a
bater numa dessas minas, explodindo. A seguir, vieram os barcos
de assalto e, à parte o ruído surdo dos seus motores, não havia muito barulho
e a estranha calma provocada pela ausência de bombardeio de apoio tornou a
suscitar dúvidas quanto à sensatez de se tentar obter surpresa tática,
dúvidas estas intensificadas pelas explosões, ouvidas a distância, do
bombardeio de apoio às tropas britânicas, ao norte. A decisão de tentar o
assalto sem apoio de fogo de artilharia foi uma das mais infelizes da
guerra, pois os defensores estavam vendo tudo, dedo no gatilho. Há informes de que, embora
se discuta a, sua veracidade, quando o primeiro soldado desceu à praia, ouviu
através de um sistema de alto-falantes dizerem num inglês carregado:
"Aproxime-se e renda-se. Você está sob nossa mira". O indiscutível é que,
quando os barcos de assalto pararam e os soldados começaram a adear as águas,
as defesas começaram a atirar com 88 mm, morteiros, metralhado-as e armas
portáteis, enquanto a Luftwafe realizava bombardeios repetidos e corridas de
metralhamento pelas praias. Os barcos estavam
ligeiramente atrasados. Os desembarques se realizavam entre cinco e sete
minutos após a Hora-"H". Nas Praias Vermelha e Verde, o 142º GRC
ficou retido por algum tempo pelo fogo disparado da Torre di Pesto, mas
pequenos grupos de soldados, muitas vezes sem oficiais ou suboficiais,
conseguiram avançar, e às 05h30 receberam satisfeitos o apoio de artilharia
desembarcada de três LST. Uma vez mais o congestionamento se constituiu em
problema, e quando a reserva do 143º GRC chegou e começou a desembarcar na
Praia Vermelha, às 06h30, os que a integravam acotovelaram-se com os que se
encontravam já nas praias, incapazes de avançar por demasiadamente forte a
barragem de fogo do inimigo. Estava difícil desmanchar a confusão formada,
até que os próprios soldados começaram a compreender o problema; assim, por
volta das 07h56, quando seu comandante, o General Walker, desembarcou na
Praia Vermelha, eles já haviam capturado Pesto e se dirigiam para o objetivo
que lhes fora designado, o Monte Soprano. Na Praia Verde, o 2º
Batalhão do 142º Grupo Regimental de Combate enredou-se em alambrados e
campos minados da defesa e também encontrou dificuldade em sair da praia. Sua
segunda leva de barcaças de desembarque, batendo, algumas, em minas,
atrasou-se, mas, por volta das 05h30, cerca de 30 DUKW haviam desembarcado
com obuseiros de 105 mm e munição, o que ajudou os homens a alcançar a área
de reunião usada pelas tropas da Praia Vermelha. Um fator crítico era a
captura da torre, pelo 531º de Engenharia de Costa, com a conseqüente
destruição não só das metralhadoras localizadas no alto da torre, mas também
dos tanques posicionados entre as casas existentes em torno dela. Essa
unidade de sapadores trabalhou com eficiência excepcional, abrindo estradas
pelas praias e assentando grades de metal, sendo objeto de ataque provindo
das torres durante todo o tempo de trabalho. As duas outras praias, a
Amarela e a Azul, mostraram-se ainda mais difíceis. Os defensores se haviam
entrincheirado muito bem e ambas as praias estavam sob o fogo constante das
baterias costeiras de Agropoli. Na Praia Amarela, o 3º Batalhão do 142º GRC
foi retido a uns 400 m da orla marítima, e na Praia Azul as primeiras levas
do 1º Batalhão foram retidas durante 20 horas, em virtude do atraso de suas
levas de apoio, determinado pelo choque de barcaças de desembarque contra
minas ou pelas dificuldades de desembarque impostas pelo pesado fogo da
artilharia defensiva. Finalmente, uma barcaça conseguiu desembarcar suas
armas pesadas e um oficial entrou de pronto em ação, com um canhão de 75 mm,
destruindo um tanque e um ninho de metralhadoras. Mas isto não bastava para
virar a sorte, e durante a tarde a Praia Azul permaneceu inteiramente
impedida. Como acontecera no setor
britânico, os soldados, dentro das limitações impostas pela falta de
experiência, haviam lutado bem e corajosamente, mas não teriam, por certo,
podido defender suas posições nas praias, e muito menos fazer qualquer progresso,
sem o apoio da artilharia naval. Durante a primeira parte
do Dia-"D", o HMS Abercrombie, operando a mais de 25 km da costa,
realizou inestimável bombardeio das baterias de canhões, das concentrações
de tanques inimigos e da cidade de Capaccio, até que, à tarde, bateu numa
mina e adernou, sendo obrigado a retornar a Palermo. O cruzador USS Savannah
atendeu a 11 pedidos de apoio de fogo durante o Dia-"D", disparando
645 granadas de 6 pol. contra formações de infantaria, concentrações de
tanques, baterias de artilharia e novamente contra a cidade de Capaccio. A
nave-capitânia Philadelphia entrou em ação durante a manhã, primeiro contra
uma bateria inimiga e, depois, tendo lançado um avião de observação, contra
uma ponte da qual se aproximavam unidades de reforço dos grupamentos panzers.
Pouco depois do meio-dia, o Philadelphia aproximou-se mais da costa, tendo à
frente um caça-minas, e atirou contra outra bateria alemã. Mais tarde,
tendo-se colocado a distância menos vulnerável, ele disparou granadas de 6
pol. contra um grupo de mais de 30 tanques alemães ocultos num bosque e,
juntamente com o Savannah, destruiu sete deles, antes que o restante recuasse
para distância mais segura. O Philadelphia também contribuiu para orientar o
fogo dos destróieres contra alvos proveitosos. O Bristol e o Edison operavam
eficazmente, à distância de 5.000 a 6.000 m da costa, contra posições de
artilharia e tanques, sendo, por sua vez, alvejados por canhões
posicionados em lugares bem dissimulados, mas não foram atingidos. O destróier
Ludlow acompanhou um caça-minas até 1.500 m da costa do flanco direito do VI
Corpo, na Praia Azul, e calou uma das baterias que disparava contra os
soldados retidos naquele setor. No transcurso do Dia-"D", o Ludlow
disparou 465 cartuchos em apoio da força terrestre. Esta enérgica ação dos
navios, sobretudo dos destróieres, que penetravam as áreas minadas para
disparar de pequena distância, foi muito apreciada pelo exército. O comandante
da artilharia divisional da 36ª Divisão enviou a seguinte mensagem de
agradecimento aos tripulantes dos navios que se encarregaram do apoio de
fogo: "Às unidades da Marinha, sem cujo apoio não teríamos saído das
praias Azul e Amarela, o nosso eterno reconhecimento. Formulo a Deus votos
de felicidade a esses valorosos batalhadores". A contagem, no final do
Dia-"D", graças sobretudo ao eficiente apoio de fogo dos navios,
registrou vantagem, ainda que modesta, para os Aliados, embora não conseguissem
alcançar o que deles esperavam os planejadores, que pretendiam que a linha da
cabeça-de-praia abrangesse Salerno, Battipaglia, Eboli e a Ponte Sele, onde o
X Corpo se teria juntado ao VI Corpo e, então, atravessado as montanhas,
indo para bem distante de Altavilla e Albanella, ultrapassando a cidade de
Capaccio e os picos gêmeos do Monte Soprano e do Monte Sottane. Este plano,
ambicioso, sem dúvida, mas não inalcançável, teria dado à força invasora
espaço suficiente para manobrar nas praias e, também, posições dominantes
sobre toda a cabeça-de-praia, bem como uma posição firme para avançar para o
norte, na direção de Nápoles. Mas, por vários motivos, inclusive o resoluto
comportamento dos defensores, os acontecimentos não se harmonizaram com os
planos, e a linha, naquela noite, ia de uns 5 km a sudeste de Salerno, cerca
de 3 km para o interior, e retornava à costa, a 6 km da foz do rio Sele. O VI
Corpo deslocara-se da cabeça-de-praia para o interior e tomara a cidade de
Cappacio, e uma companhia da 36ª Divisão estava a caminho para tomar o Monte
Sottane, embora o flanco direito da Praia Azul ainda estivesse sob fogo
intenso, permanecendo rétido ali. Assim, havia uma brecha de 11 km entre os
corpos britânico e americano, por onde pairava a agourenta ameaça de um
contra-ataque alemão. O pior de tudo é que os três mais almejados objetivos
do Dia-"D", o aeródromo de Montecorvino, o porto de Salerno e
Battipaglia, não tinham sido tomados. Não obstante, o General
Clark mais tarde registraria que, embora o ataque não alcançasse a
velocidade ideal, fora feito o que, no seu entender, seria possível esperar,
no primeiro dia de combate. Batalha pela cabeça-de-praia Nos dias seguintes ao
Dia-"D" registraram-se lutas confusas, ataques e contra-ataques
esporádicos, homens aprisionados, homens mortos, pontos fortes tomados e
abandonados e, às vezes, até retomados. O único fato evidente era
que o grosso dos efetivos alemães estava reunido no flanco esquerdo dos
Aliados, contra o X Corpo britânico. Respondendo ao
desembarque, Kesselring, o comandante alemão no teatro de guerra italiano,
logo pedira reforços. A Divisão Hermann Göring e parte da 15ª Divisão
Panzergrenadier deslocaram-se para Salerno e a 3ª Divisão Panzergrenadier
foi de Orvieto para o sul, liberada da tarefa de defender Roma. Ao mesmo
tempo, todo o LXXVI Corpo, tendo rompido contato com o 8º Exército de
Montgomery, dirigia-se apressadamente para o norte, sob o comando do General
Herr. Vietinghoff, Comandante do
10º Exército, também deslocara, durante a noite, a 16ª Divisão Panzer do
setor americano, para concentrar-se contra os britânicos, acreditando que a
29ª Divisão Panzergrenadier estava para chegar e poderia encarregar-se da
defesa contra o VI Corpo. Contra esta defesa formidável, os britânicos começaram a fazer sondagens no dia 10 de setembro bem cedo, embora soubessem todos, sem qualquer sombra de dúvida, que a crista da montanha que tinham pela frente, com 660 m de altura e repleta de artilharia alemã bem embasada, dificultaria demais o avanço. Na verdade, |