Genocídio

A destruição das minorias raciais

 

 

As tampas, em forma de cogumelo, dos tubos ventiladores das câmaras da morte que pontilhavam o verdejante gramado eram retiradas e as cápsulas de cianureto desciam através deles. Depois de algum tempo, os infelizes nelas confinados, ao efeito do gás mortífero, atiravam-se endoidecidos contra a porta de saída, buscando inutilmente a fuga. A morte levava de cinco a quinze minutos, dependendo das condições atmosféricas.

Ward Rutherford

 

 

Uma ciência nova e pervertida

 

Esta é a narrativa da escalada do doloroso tratamento dispensado pelos alemães aos judeus, do anti-semitismo, parte integrante do dogma do Partido Nacional-Socialista, à aplicação implacável do que Hitler chamou "Solução Final".

 

Terminada a Primeira Guerra Mundial, a Alemanha, cheia de frustrações e descontentamentos, oferecia todas as condições para a semeadura do racismo. Judeus e bolchevistas ali estavam para servir de bodes expiatórios dos reveses por ela sofridos, e a atribuição do fracasso às maquinações e atividades subversivas desses grupos ajudou a tornar mais aceitável, por muitos alemães, o problema que tais reveses criaram. O Partido Nacional-Socialista - em si mesmo produto da reação nacional à derrota e ao caos econômico do pós-guerra - divulgou, em fevereiro de 1924, um manifesto em que formulou em linguagem muito clara a doutrina racista que adotaria. A cidadania alemã, segundo o manifesto, só deveria ser concedida aos de sangue alemão, especificando que, portanto, nenhum judeu seria um nacional. Mesmo antes da publicação do manifesto do partido, Hitler já havia tornado público o sentimento anti-semita que alimentava. O Mein Kampf (Minha Luta), escrito durante o período de reclusão que cumpriu após o fracassado putsch de Munique, de 1923, acusava francamente os judeus de haver contribuído para o solapamento do esforço de guerra da Alemanha.

 

Com o ódio aos judeus colocado como parte integrante da filosofia nazista, seguia-se que os primeiros a esposar a causa nacional-socialista seriam os que compartilhassem do anti-semitismo fanático de Hitler, porque, no momento, o partido não era tão bem sucedido a ponto de atrair seguidores ansiosos por ingressar nele. Um dos elementos da "primeira geração" nazista que mais dispostos se mostraram a adotar o absurdo da superioridade racial nórdica foi Heinrich Himmler.

 

Desenvolvendo inicialmente uma atividade não-remunerada dentro do partido, Himmler acabou recompensado com um cargo remunerado e, mais tarde, foi indicado para o cargo aparentemente insignificante de subcomandante das SS, pequeno grupo integrante das onipotentes SA de Ernst Röhm. Esse grupo, no começo insignificante, aumentaria e obscureceria com sua sombra sinistra o grupo em cujo seio colheu a cevadura que lhe deu força sos tentáculos para dominar os instrumentos de poder do

estado totalitário.

 

Hermann Goering na realidade criou a infame Polícia Secreta do Estado, ou Gestapo, e inaugurou, em 1933, os campos de concentração para onde os desgraçados rotulados de inimigos do estado eram levados sem-cerimoniosamente. Mas foi Himmler quem assumiu afinal o controle dessas organizações de terror e de morte. Quando Himmler criou o Departamento de Inteligência das SS (o SD), indicou Reinhard Heydrich, um jovem de aparência nórdica e força física satisfatória, a verdadeira antitese do próprio Reichsführer-SS, para o chefiar. Estes dois homens se completavam; um permanentemente preocupado em inventar teorias raciais malucas, o outro perseguindo sempre o poder pessoal e a autoglorificação. Eles faziam uma dupla formidável, e, bem servidos por homens como Adolf Eichmann, os dois puseram-se a aplicar a selvagem política racial do Führer, megalomaníaco e insensível.

 

Semanas depois que Hitler subiu ao poder, em 1933, os judeus ocupantes de cargos públicos começaram a ser implacavelmente removidos, e os profissionais liberais e homens de negócios judeus, a ser boicotados e hostilizados. Daí por diante, a perseguição a esses infelizes ganhou velocidade incontrolável, passando da hostilização ao aviltamento, à prisão e deportação, chegando à "Solução Final" - o aniquilamento total. À medida que as conquistas da Alemanha aumentavam, também aumentava o número de judeus que caíam nas garras das SS de Himmler. O gráfico das mortes de judeus apresentava uma tendência ascendente constante.

 

Para acompanhar o fluxo crescente de vitimas, fazia-se necessário o aperfeiçoamento dos métodos de executá-los. Na primavera de 1942, as câmaras de gás de Auschwitz-Birkenau começaram a funcionar, cada qual com capacidade de aplicar a "Solução Final" a 2.000 desgraçados de cada vez. O gás era introduzido nas câmaras lançando-se cristais de Zyklon B nos tubos dos ventiladores e os corpos das vítimas eram depois levados sos fornos nos crematórios das proximidades. O funcionamento da usina da morte adquiria um ar de irrealidade com a música de Lehar e Strauss executada, durante a horrenda operação, por uma orquestra de vitimas potencisis. Os nomes dos campos de concentração - Treblinka, Sobibor, Majdanek, Belsec, Chelmno, Dachau, Dora, Mauthausen, Ravensbrück, Sachsenhausen e Buchenwald - tornaram-se sombriamente evocativos, fazendo-nos recordar as filmagens feitas pelas autoridades aliadas desses campos à medida que eram tomados, registrando para a posteridade a terrível condição de prisioneiro político do Terceiro Reich: figuras esqueléticas, envoltas em farrapos, que mal se distinguiam dos seus camaradas mortos; sobreviventes quase incapazes de compreender que finalmente haviam sido "libertados".

 

Esses homens são as glórias de batalha das unidades da "Caveira" das SS, criadas para povoar de sombras os inacreditáveis campos de concentração, sombras que eram homens, mulheres e crianças de raças "inferiores", expiando crimes não cometidos, condenados à morte por acidente de nascimento.

 

Mesmo com tantos campos trabalhando febrilmente para executar as ordens do Führer, era difícil acompanhar o ritmo de chegada dos trens carregados de infelizes trazidos de toda parte da Europa; e assim as vítimas eram obrigadas a sofrer a indignidade levada ao absurdo, a promiscuidade mais cruciante, até serem amontoadas nas câmaras de gás. Apinhadas, com as mãos para o alto e com criancinhas jogadas em cima delas, as vítimas eram maltratadas até o último instante de vida.

 

Como o autor observa, a perseguição sos judeus não era novidade. Por toda a História, a raça judaica tem sido alvo de medidas discriminatórias - muitas vezes com total apoio da lei - nalguns países, havendo exemplos, anteriores a Hitler, de massacres dirigidos contra ela. Mas os seguidores de Hitler acrescentaram outra dimensão a essas medidas. Enquanto os excessos a que nos referimos, cometidos antes de Hitler, foram perpetrados em clima de exaltação de ânimo, em hora de aturdimento, Himmler, Heydrich e gente da sua espécie levaram a efeito o genocídio calma, desumana e friamente planejado. Milhões de judeus morreram nos campos de concentração da Alemanha nazista, vitimas de uma pervertida forma de ver as razões por que aqui estamos.

 

 

Os predecessores dos nazistas

 

Por certo, nada justifica melhor a famosa definição de "História", de Gibbons, para quem ela é "pouco mais do que o registro dos crimes, loucuras e desgraças da humanidade", do que o tratamento das minorias judaicas. Durante quase 2.000 anos os não-judeus têm demonstrado gratidão àqueles que lhes deram uma visão única da sua relação com o Infinito, e que proporcionaram o meio, intelectual e geográfico, para o nascimento do Cristianismo, por perseguições que, com o correr dos séculos, só têm mudado no fato de que cresceram em magnitude e engenhosidade. Como Bernard Levin escreveu recentemente, ao fazer a crítica de um livro sobre esses dois milênios, enquanto que a maioria das religiões e povos tem sido perseguida por alguém em determinado momento "somente os judeus sempre foram perseguidos por todo o mundo".

 

Mas se a civilização cristã e pós-cristã tem demonstrado uma distinção peculiar nesse aspecto, a raça já vinha sofrendo muito antes do nascimento de Cristo. Ela conheceu a ocupação da sua nação-estado praticamente desde o seu surgimento; seu povo sofreu deportação e exílio forçado, sob os assírios, egípcios e babilônios. Tentativas de obrigá-los a abandonar seu Deus único em troca do panteão do estado foram feitas por quase todos esses opressores e, mais tarde, pela Grécia e por Roma. Esforços nesse sentido, feitos por Antioco III, o selêucida, levaram à bem sucedida rebelião de Judas Macabeu em 167 a.C.

 

Quando Tibério se tornou imperador, em 14 d.C., sua política para com os membros judeus do Império Romano se assemelhava à de Hitler: "o extermínio de toda a raça judia". Os romanos escandalizaram-se com a desfaçatez de uma pequenina nação que se atrevia a considerar sua religião superior à deles.

 

No ano 30 d.C., o Sinédrio, Supremo Tribunal Judeu, perdeu a jurisdição sobre seu próprio povo. Em 70 d.C., o Templo de Jerusalém foi destruído por Tito, após uma revolta judia. No ano 132 d.C. teve início a rebelião de Bar-Cochba, que foi impiedosamente sufocada pelos romanos. Esta revolta, a última que os judeus tentaram contra um algoz estrangeiro até o levante do gueto de Varsóvia, em 1943, levou os romanos a expulsa-los de Jerusalém, destruindo totalmente a cidade.

 

A expulsão dos judeus de Jerusalém é em geral considerada o começo do período da Diáspora, ou dispersão. Na verdade, sob o estímulo das constantes perseguições em sua pátria, comunidades judias já haviam emigrado para outros países.

 

Se, contudo, os romanos achavam que á nação judia e seu povo haviam desaparecido da face da terra, estavam enganados. Um ou dois anos após a queda da sua capital religiosa e política, um desastre do tipo que precedera o eclipse total de outras nações, os judeus tornaram a reunir-se em torno de sua fé. Um novo centro foi iniciado em Jamnia, na costa mediterrânea, onde novas escolas rabínicas foram fundadas e onde o Sinédrio foi restabelecido.

 

Mas, estes não eram senão grupos e, como o povo exilado de uma nação reprimida, os judeus buscavam um santuário onde quer que pudessem encontrá-lo. Eles normalmente eram bem recebidos, até que Constantino fez do cristianismo religião do Império Romano. Quando o império se dividiu, os judeus perderam todos os privilégios que lhes haviam sido concedidos na Europa Ocidental. A principio, não havia intenção de separá-los, mas apenas cuidar para que os postos importantes fossem ocupados por professantes da fé recém-adotada. Contudo, nos séculos seguintes, a perseguição de parte dos cristãos se tornaria tão generalizada, tão diversa nas suas formas, que não existe um só aspecto da tirania nazista para o qual não se encontrem exemplos anteriores.

 

Cada vez mais separados dos seus semelhantes, os judeus foram transformados num painel em que os vícios humanos estavam todos representados. Eles eram deicidas (não haviam eles permitido a crucificação de Cristo?); eram os envenenadores de poços; eram infanticidas, repetindo a crucificação em crianças cristãs batizadas e usando seu sangue para fazer o Pão da Páscoa.

 

O ponto de vista da Igreja Católica é adequadamente resumido numa série de oito sermões feitos por São João Crisóstomo em 387. Os judeus, afirmou ele, eram carnais, lascivos, avarentos; eram bêbados, bordeleiros e criminosos. Sua opinião, e outras idênticas, encontraram eco pelos séculos afora, e foi esposada por muitos líderes cristãos. Há os que procuram explicar o anti-semitismo com razões de ordem econômica - pura manifestação de inveja dos que têm sofrido a competição dessa minoria em geral diligente e talentosa. A História absolutamente não apóia esse ponto de vista. A perseguição aos judeus era fomentada do alto, pelos que não sofriam tal competição. Na Idade Média, assim como na Alemanha hitlerista, o europeu comum repudiava as perseguições e perdia mais do que se beneficiava com elas.

 

O espetáculo do sofrimento dos judeus, daqueles que cravaram na cruz o Redentor do homem, era considerada edificante, tal como as execuções públicas também o eram, por demonstrarem o triunfo da justiça divina e temporal e por se constituírem numa advertência terrível quanto aos resultados da impenitência obstinada.

 

Os pogrom e massacres de guetos promovidos pelos "cruzados" da Nova Ordem de Hitler emulavam os modelos mais antigos, pois cada uma das Cruzadas foi precedida de massacres "dos sarracenos em nosso meio", os saqueadores da Terra Santa, na França, Alemanha, Espanha e Inglaterra. Quando Benedito, o líder da comunidade judia de York, foi a Londres, em 1189, levando presentes para a coroação de Ricardo Coração de Leão, foi recompensado com a morte, juntamente com dezenas de patrícios seus, na cidade. Sua morte foi seguida de massacres em Norwich, Stamford e Kings Lynn, culminando com o realizado na própria cidade de York. Ali, um grupo de judeus finalmente preferiu o suicídio à violência da ralé.

 

Assim como as leis de cidadania nazistas tornaram os judeus cidadãos de segunda classe, o mesmo aconteceu na Inglaterra medieval, onde eles eram propriedade do rei. Assim como suas sinagogas foram incendiadas na Alemanha, também o foram em Roma e na Espanha. Assim como os nazistas extorquiam dinheiro aos judeus, o mesmo o faziam antigamente os reis e prelados da Europa Cristã. Algumas grandes igrejas e catedrais que se constituem em orgulho da Cristandade foram em grande parte construídas com essas verbas. Assim como os nazistas forçaram a emigração e determinaram a expulsão dos judeus, também estes haviam sido expulsos da Inglaterra e da França.

 

As acusações, contra os judeus, de conspiração vêm da Idade Média. Na Espanha, o clero, pregava a necessidade de o país livrar-se dos judeus. Os judeus, diziam os padres, planejavam a escravização de todos os espanhóis, a começar pelo rei. Milhares morreram nos massacres assim inspirados.

 

A Idade Média também serviu de berço ao sistema de gueto, no qual o judeu era segregado do ariano, sistema que seria usado largamente na Polônia e na Rússia nos anos 40. Por mais amargo que fosse o insulto, isto pelo menos dava certa segurança aos judeus, que voltavam aos guetos, onde encontravam segurança e oportunidade de introspecção, sempre que o perigo os ameaçava.

 

Assim como os alemães instituíram o regime do assassinato organizado, o mesmo fez Torquemada, o primeiro Grande Inquisidor, digno predecessor de Heydrich e Eichmann.

 

Assim como Himmler pregava a virtude transcendental da pureza do sangue, também na Espanha setecentista a limpieza de sangre serviu de desculpa para o ataque aos poluidores judeus. Assim como os nazistas reescreveram a História para imputar aos judeus os problemas que enfrentavam, também na Idade Média as massas aprenderam que os judeus eram a tribo de Judas Iscariotes, o traidor do Cristo.

Quando sua existência na Europa Ocidental se tornou intolerável, os judeus começaram a mudar-se para o Leste. Ali, disseram-lhes, predominavam atitudes mais racionais. E assim foi, a princípio. Na Áustria, seus direitos como seres humanos e cidadãos foram respeitados. Na Polônia, Hungria, Romênia, no nível do povo comum, judeus e cristãos conviviam. Mas a Igreja Católica inquietava-se com a aliança que estabeleceram.

 

Houve uma oportunidade de acabar com os judeus quando estourou a guerra entre russos e poloneses. Na Polônia, disseram que os judeus estavam mancomunados com a Rússia; nesta, que eles estavam mancomunados com os poloneses. Milhares foram assassinados.

 

Assim como os judeus, segundo testemunhas, enfrentavam os fuzilamentos nazistas sem pedir piedade, também iam para a fogueira cantando salmos, virando as costas à oportunidade de salvar-se, mas não admitindo a retratação e a conversão. Na história dessas mortes em massa nas fogueiras, tomamos conhecimento do caso de um menino que encorajava e consolava seu irmão mais novo que se mostrava aterrado diante das chamas aonde estava prestes a ser jogado, dizendo-lhe que ele ia para o Paraíso. Também mais tarde, pais, mães, avós e irmãos mais velhos consolariam os jovens aterrorizados diante das covas da morte em Ponary e nas câmaras de gás de Auschwitz.

 

Mesmo com o Iluminismo, não houve alívio. A ciência foi destorcida para justificar a perseguição, e a razão era mantida em xeque. O próprio Voltaire chegou a quebrar a sua reconhecida lógica para censurar os judeus de ignorantes, bárbaros, avarentos, supersticiosos e cheios de ódio.

 

Na Rússia, o pogrom tornara-se instrumento de política do governo, aplicado sempre que o povo se mostrava inquieto. Mesmo na guerra de 1914, com a Alemanha, a perseguição aos judeus não sofreu solução de continuidade. Ela ainda estava acesa quando, como aconteceu na Alemanha, mais tarde, pôs em perigo o curso da guerra.

 

E foi pelo próprio Czar Nicolau, em sua residência de campo, Tsarskoye Selo, em 1905 - o ano da revolução fracassada - que o notório livro Protocolos dos Sábios do Sião foi promulgado. Trabalho de um escritor pago pelo governo, era uma amálgama de todos os absurdos atribuídos aos judeus desde a Idade Média, como complôs internacionais etc., e que Hitler usou como prova trinta anos depois. Contudo, o Czar Nicolau II não era homem para quem a razão significasse muita coisa quando se tratava de atacar judeus: ele dissera ao Kaiser Guilherme II, da Alemanha, sobre os ingleses: "O inglês é um judeu".

 

No resto da Europa, os movimentos populistas e democratizantes dos meados do século XIX produziram um novo açoite para surrar os judeus e foram responsáveis pela introdução da palavra "anti-semitismo". Para os anti-semitas adversários dos movimentos democráticos, como Gobineau, os judeus eram comunistas e socialistas. Para os socialistas anti-semitas, como Drumont, então os judeus eram as eminências negras financeiras do capitalismo.

 

Joseph Arthur, Conde de Gobmeau (1816-82), procurou, em seus quatro volumes do Essai sur L'inégalité des Races Humaines, explicar a história em termos raciais, ressaltando o eterno conflito entre as raças dolicocéfalas (ou de cabeça longa) e as raças braquicéfalas (ou de cabeça larga). Os principais entre os dolicocéfalos eram os povos nórdicos louros. Os judeus, naturalmente, eram braquicéfalos. Tão penetrantes foram suas idéias, que os propagandistas ingleses aplicavam pejorativamente aos alemães o termo "braquicéfalo".

 

Edouard Drumont (1844-1917) relacionou o anti-semitismo com o socialismo e o oculto - uma combinação também encontrada entre os nazistas. E foi um dos seus seguidores, Jacques de Biez, que cunhou o nome "Nacionais-Socialistas". Ele disse, em 1899: "Somos nacionais-socialistas porque estamos atacando as finanças internacionais. Queremos a França para os franceses". Substituindo-se as palavras: "Alemanha" e "os alemães" nesta última frase, o trecho poderia ter saído da pena do Dr. Goebbels.

 

As perseguições ocorridas na Rússia, Polônia, Romênia e Hungria levaram os judeus a retornar para o oeste. Muitos não foram além da Áustria, mas números menores chegaram à Alemanha, França e mais além. Eles foram aceitos, mas não considerados bem-vindos. Criados em guetos, desenvolveu-se neles o instinto natural para se manterem unidos, apegando-se a seus hábitos, costumes e linguagem, sempre temerosos de novos pogrom.

 

A Igreja Católica viu neles, uma vez mais, uma ameaça à fé do seu rebanho, afirmando que o judaísmo era a antítese do cristianismo. Ademais, como a História demonstrava que os judeus eram inconversíveis, eles tinham de ser expulsos. Mesmo os judeus batizados eram tidos como "espiões dentro da Igreja" e, como medida de proteção do cristianismo, tinham de ser tratados como os seus concidadãos não-batizados. As organizações comerciais viam-nos como competidores. Os judeus da classe média assimilada de Viena e Berlim votavam-lhes franca aversão, considerando-os parentes pobres que de repente se haviam abatido sobre o seu lar, e contrariaram-se quando descobriram que, além disso, os não judeus se recusavam a aceitar os protestos dos judeus assimilados de que os judeus que chegavam haviam chegado sem "serem convidados". "Isto", diziam os não judeus entre si, "é o que acontece quando se deixa um judeu entrar. Antes de você perceber, ele trouxe a tribo toda".

 

Havia outros fatores em ação na Alemanha. À Guerra Franco-Prussiana de 1870 seguira-se uma crise econômica, enquanto o movimento de unificação dos estados alemães, iniciado por Bismarck, ainda estava em andamento. Era inevitável que isto focalizasse a atenção sobre a raça, sobre "germanidade".

 

Os emigrados do leste, com seus estranhos costumes e trajes, não se enquadravam na imagem racial germânica. Numa comunidade de estados que de repente se conscientizou de que era um só povo, não havia lugar para os homens de olhos tristes, com seus longos casacos pretos, barbas, cabelos cacheados nas têmporas e chapéus chatos. "Os judeus são o nosso azar", disse um autor do século XIX. Esta frase viria a tornar-se um lema nazista.

 

Se, entretanto, sua vida se tornasse difícil (esta a opinião geral) eles talvez fossem embora, e os movimentos anti-semitas dirigiram esforços nesse sentido. Já havia sido publicada muita literatura anti-semita, cada vez mais violenta. A princípio os judeus eram "estranhos" ou "decadentes", como tornaram a sê-lo na linguagem nazista de 1933-35; antes do fim do século, passaram a ser "parasitas", "subgente" que só servia para ser "pisoteada".

 

A teoria da evolução de Darwin, que a princípio abalou muita ilusão que a humanidade alimentava na década de 1850-60, foi rapidamente aplicada ao cenário social, por intérpretes que compensavam em dogmatismo o que lhes faltava em compreensão. Do ponto de vista da evolução, o anti-semitismo merecia certa credibilidade científica. Estes falsos conceitos também seriam adotados pelo nazismo, que representava para seus adeptos "a vontade biológica do povo".

 

Milhares de portas até então abertas aos judeus na Alemanha e na Áustria foram-lhes abruptamente fechadas. Os grêmios estudantis adotaram resoluções que baniam os judeus de seu seio. Os regimentos de elite e a reserva de oficiais do exército não mais os aceitavam. Clubes, sociedades e câmaras de comércio concordaram tacitamente em não permitir o ingresso de judeus.

 

Neste aspecto, franceses e alemães, inimigos noutros campos, fizeram causa comum, pois foram os franceses que "bolaram" o que os alemães afinal adotaram. Havia, por exemplo, uma Sociedade Gobinesu em Freiburg. Mas os franceses, povo afeito às especulações intelectuais, até hoje raramente agem com base nas suas próprias especulações. Com os alemães, no entanto, dava-se o contrário. Até a filosofia mais absurda era aplicada com seriedade.

 

Gobineau fora amigo pessoal de Richard Wagner, o compositor, que atacara a memória do falecido Mendelssohn, de quem só recebera estímulo e apoio, por ser ele judeu. Para o compositor de "Tannhäuser" e de "O Anel dos Nibelúngios", a música de Mendelssohn passou a ser por ele considerada "estranha, fria, bizarra, medíocre, antinatural e pervertida". Por certo foi o anti-semitismo de Wagner, além de sua música, que o recomendou a Hitler.

 

A casa de Wagner era um ponto de encontro para o anti-semitismo "intelectual" e Hitler seria um dos seus futuros visitantes. Mas um visitante anterior fora Stewart Houston-Chamberlain (1855-1927), o antisemita britânico e propagandista alemão da Primeira Guerra Mundial. Chamberlain foi o biógrafo de Wagner e casou com sua filha. A ele é que devemos a primeira afirmação logicamente coerente da posição do anti-semita: "Odeio os judeus. Odeio sua estrela e sua cruz", manifestando seu ódio tanto ao judaísmo como ao cristianismo.

 

O resultado da Primeira Guerra Mundial fez recrudescer o ímpeto contra os semitas. A derrota de seus grandes impérios foi uma experiência profundamente traumática para alemães e austríacos. Durante as últimas semanas de outubro de 1918, o exército alemão estava avançando. Na semana seguinte, a 7 de novembro, cuidava-se do armistício, ficando a Alemanha à mercê das Potências Aliadas, que jamais a deixaram de considerar, mesmo depois de colocada sob um governo liberal, como militarista e agressiva.

 

A fúria contra ela era ainda maior porque os que a combateram jamais conseguiram dobrá-la na frente de batalha. Milhares de soldados alemães não-derrotados retornaram à Alemanha, encontrando-a economicamente falida e incapaz de sustentá-los. Alguma coisa, raciocinaram eles, deve ter acontecido além do óbvio, além do motim de marinheiros comunistas em Kiel e do rigor do bloqueio britânico, para provocar essa situação.

 

Era certo que, após tantos séculos de difamação e opressão, e do aumento incessante do anti-semitismo como força intelectual, que mais cedo ou mais tarde haveria uma erupção. Foi assim que os judeus passaram a responsáveis pela "punhalada nas costas" da Alemanha. Os judeus, que encontraram melhor compreensão sob o governo liberal alemão, chegando a fazer parte desse mesmo governo, foram considerados partícipes de uma grande conspiração visando á derrubada da Alemanha; e o anti-semitismo, verdadeira idéia fixa de certos indivíduos e grupos, passou a força poderosa. Como se fosse uma nova religião, entregou-se ele a ativo proselitismo.

 

 

 

 

 

Os anos de tormento

 

Hitler mostrou-se anti-semita desde os primeiros pronunciamentos que fez. Sua muito citada frase no Mein Kampf, declarando que se uns 15.000 "desses inimigos hebreus" tivessem sido asfixiados no transcurso da Primeira Guerra Mundial "o sacrifício de milhões de seres na frente de batalha não teria sido em vão", provavelmente foi criada em 1923, quando ele se encontrava preso na Fortaleza de Landsberg, mas ele já expressara sentimentos semelhantes num discurso pronunciado em 1920 e numa carta, em 1919.

 

Suas idéias sobre o assunto surgiram certamente durante os dias de dificuldade que viveu em Viena - época em que seu orgulho não o impedia de aceitar o dinheiro que lhe enviava um judeu amigo de sua família. Seus associados, uns amargos freqüentadores dos albergues - antimarxistas, anti-semitas e pangermanistas - passavam o tempo, seu único bem grátis, na vã procura de bodes expiatórios para as desgraças da Alemanha, que acreditavam ser a causa das suas próprias desgraças.

 

Os historiadores que buscam uma base filosófica para o anti-semitismo de Hitler têm sugerido várias fontes, entre as quais as nações do monge cisterciense, Adolf Lenz. Suas opiniões, propagadas no Arioheröiken, correspondem em grande parte com as de Hitler. Também aquele apoiava a teoria da "superioridade" ariana e defendia a eliminação dos judeus por meio de esterilização e deportação. A verdade é que tudo quanto sugerem esses historiadores não tem qualquer fundamento. O anti-semitismo de Hitler jamais se apoiou em razões filosóficas e intelectuais. Na intimidade, ele demonstrava até desprezo pelas teorias raciais pangermânicas de Alfred Rosenberg e Walter Darré. Visto que tinha de justificar sua posição de quando em vez, seus argumentos eram tirados a esmo de conceitos de Gobineau, Nietzsche, com seu Super-homem, Darwin (Hitler não parava de falar sobre a "sobrevivência do mais capaz" e de "seleção natural") e, em particular, do "anti-semitismo de salão" dos Wagners e de Stewart Houston-Chamberlain.

 

O anti-semitismo de Hitler, como acontece com todo racismo verdadeiro, era emocional e subjetivo. Quando se começa a analisar os motivos psicológicos, é preciso considerar-se que Hitler era um inadaptado e um frustrado sexual. Pois, assim como os racistas brancos de hoje falam da suposta luxúria e grandes pênis dos negros, também Hitler escrevia sobre jovens judeus lascivamente à espreita de jovens alemães para seduzi-las. No delírio das fantasias que criava, essas imagens podiam levá-lo a paroxismos de fúria. Não há razão para considerá-lo impotente ou, como os mexericos de tempo de guerra sugeriam, sexualmente deformado. A evidência da autópsia que os russos apresentaram demonstra isso. Há, no entanto, razão para se supor que ele não era atraente para as garotas, sobretudo nos seus tempos de jovem pobre. Fora a terrível pobreza - para ele sem dúvida uma degradação - havia nele defeitos insuportáveis, como a grosseria, a fúria incontida, o fanatismo louco. E não é por coincidência que ele constantemente se referia ao caráter corruptor das finanças judias, pois o dinheiro é, com freqüência, um símbolo inconsciente de sangue, e a "corrupção" do sangue das jovens arianas era precisamente o que ele via os jovens judeus fazer, em seu pesadelo.

 

No Nationalsozialistische Deutsche Arbeiter-Partei, para dar ao partido nazista seu título completo e adequado, seu anti-semitismo logo recebeu corporificação política. Os Pontos 4 e 5 do manifesto do NSDAP, publicado em fevereiro de 1924, declarava que a cidadania alemã estava disponível "somente aos de sangue alemão, independente de credo religioso". No caso de o significado dessa frase parecer ambíguo, a frase seguinte torna-a bem específica: "Nenhum judeu", declara ela, "pode, portanto, ser um nacional". Isto é desenvolvido no ponto seguinte, que declara que os que não possuem cidadania do estado são sujeitos "às leis aplicáveis aos estrangeiros".

 

Estes princípios foram incorporados não só à ideologia do partido como ao seu comportamento. Sempre paramilitar em caráter (ela afirmava estar travando uma batalha contra os comunistas), a milícia do partido eram os Sturmabteilung (Destacamentos de Assalto ou, mais popularmente, Tropas de Assalto) do Capitão Ernst Röhm. Quando não estavam desfilando ou combatendo os moinhos de vento do bolchevismo, eles estavam intimidando os judeus ou provocando intimidação com discursos pronunciados nas esquinas.

 

Contudo, já um novo grupo estava surgindo dentro da própria milícia. Em 1922, uma unidade especial das SA havia sido formada e recebera o nome de Schutzstaffeln (Formações de Proteção) ou, abreviado, SS. Três anos depois, um bávaro insignificante e míope, com um queixo azulado e pequeno, um homem que não apresentava outras qualidades além de ser um minucioso executor dos deveres do partido, cujo nome era Heinrich Himmler, ingressou nas SS. Em 1926, com as SS tendo então cerca de 200 homens, com a tarefa principal de servir às reuniões do partido, Himmler foi nomeado seu subcomandante. Em 1929, por ordem direta de Hitler, Himmler, que tinha então 28 anos, foi nomeado substituto de Erhard Neiden como comandante, ou Reichsführer das SS. O grupo aumentara em oito homens, mas se conservava subordinado às SA e Röhm.

 

Se Himmler dava a impressão de não ser muito imaginativo, a verdade é que, como Hitler, sua vida interior era cheia de fantasia, povoada de personagens das lendas germânicas. Ele começou a admitir que tudo aquilo poderia concretizar-se através das SS. Elas se tornariam uma força poderosa e independente no nazismo e na Alemanha, um estado dentro do estado, constituindo-se numa mistura adoidada da antiga Ordem dos Cavaleiros Teutônicos e dos Jesuítas - pois seus sonhos sempre tinham uma tintura de misticismo.

 

Uniformizadas em negro, altamente disciplinadas, em contraste com as rebeldes SA, o ingresso nas SS passou a ser o sonho dos jovens alemães. Entretanto, o ingresso na corporação tornou-se bastante difícil (os futuros recrutas tinham de provar a pureza do seu sangue nórdico remontando a 1750). Somente um em cada grupo de dez candidatos satisfazia às exigências da seleção. Quando da invasão da Polônia as SS totalizavam 26.000 membros.

 

Em junho de 1931, um jovem louro e de olhos azuis, vindo de Waldtrudering, e que recentemente ingressara nas SS, foi apresentado a Himmler por um dos membros da sua equipe. Era Reinhard Heydrich, que fora atraído para o nazismo por sua noiva, Lina von Osten, depois de obrigado a demitir-se da Marinha, após um escândalo que envolveu a filha de um diretor de estaleiro, mas que no fundo revelou firmeza de caráter de parte de Heydrich.

 

Na época, Himmler tinha planos para a criação de um Serviço de Inteligência dentro das SS, embora um dos seus companheiros de partido, Hermann Goering, sempre demonstrasse considerar a polícia e a segurança áreas de sua propriedade. Portanto, o esforço de Himmler fatalmente seria uma competição, mas ele sempre foi um mestre da maquinação. Ele nomeou o jovem Heydrich para dirigir seu novo departamento ao qual deu o nome de Sicherheitsdienst (SD), ou serviço de segurança, que tinha inclusive autoridade para investigar e manter arquivos até mesmo sobre os membros mais altos do partido. Assim, deu-se a união de dois homens que, entre si, tinham traços de caráter muito diferentes e que viriam a cobrar alto tributo à vida humana. Himmler era um homem convencido pelas teorias excêntricas de "sangue e solo" cujo destino o colocara em posição de aplicá-las. Ele não era sádico; não sentia prazer com o sofrimento que viria a impor. Ao contrário, como um Inquisidor, deplorava a necessidade de ter de adotá-lo. A única vez que presenciou uma execução, em Praga, em 1941, teve um acesso de histeria, foi chamado à atenção pelo comandante da cerimônia Heydrich - e desmaiou. Mas ele deu ordens que mataram milhões.

 

Tampouco havia indícios de que Heydrich fosse homem sádico e sanguinário no sentido estrito dos termos, e, ao contrário de Himmler, não era devoto de nenhuma teoria. Na verdade, é provável que secretamente ridicularizasse tais coisas. Contudo, era homem muito ambicioso e dotado, como seu chefe, de grande vocação para a intriga, superando-o mesmo. Era em suma um amoral, com desenvolvido faro para descobrir onde estava a vantagem, e sabia como aproveitá-la. Outros nazistas pelo menos afirmavam ter experimentado certo conflito interior antes de se decidirem a cumprir algumas ordens recebidas. Heydrich nem uma vez mostrou qualquer sinal de perturbação. Se o Partido Nazista fosse baseado no conceito de que a presença dos judeus na Alemanha lhe era altamente favorável e que eles deveriam ser recompensados por sua simples existência, Heydrich poderia tranqüilamente ter cumprido o dever de homenageá-los com o mesmo zelo, sobretudo por ter ele próprio algum sangue judeu.

 

Himmler, que sofria de terríveis conflitos (os quais provavelmente lhe causavam as cãibras estomacais dos últimos anos da guerra), superou-os pela crença na "pureza do sangue", coisa que considerava suficientemente importante para vencer todos os escrúpulos, incluindo a lealdade ao seu chefe, Ernst Röhm. No verão de 1934, um ano e meio depois que o Presidente Hindenburg nomeou Hitler Chanceler, Himmler participou de um complô entre os nazistas que temiam as SA como um exército privado. Isto levou ao assassinato de Röhm e de centenas de subordinados seus, na "noite das longas facas". A desculpa era que Röhm estava planejando um golpe, ou Putsch, contra Hitler e tal foi o sucesso que a destruição de Röhm e seu grupo causou, que as SS de Himmler ficaram com o controle virtual do campo. As SA haviam dado à Alemanha muita notoriedade internacional, pela brutalidade franca e desenfreada com que tratavam os judeus - sobretudo depois que os comunistas foram atirados à clandestinidade. As SS eram claramente mais disciplinadas e mais formais no seu procedimento; numa palavra, mais cavalheirescas. Não obstante, muitas pessoas compreendiam que, em Himmler e Heydrich, elas tinham uma dupla mais satânica e mais perigosa do que o ingenuamente selvagem Röhm.

 

Enquanto ocorriam essas convulsões, sem que a maioria do povo alemão soubesse ou lhes desse importância, o NSDAP, já no poder, começou a avivar as chamas do anti-semitismo, espalhando-as por toda a pátria. O manifesto do partido, escrito quase dez anos antes, declarara que os judeus deviam ser tratados como estrangeiros. O país anfitrião sempre pode pedir aos estrangeiros que "voltem para sua casa". Mas os judeus da Alemanha, ao contrário dos outros estrangeiros, não tinham casa; ademais, muitos deles viviam no país havia gerações. Para eles, a Alemanha vinha antes do judaísmo. A política, de início aplicada mais ou menos ao acaso, mas que mais tarde o seria com mais propósito e oficialmente, era tornar para eles as condições na Alemanha tão insuportáveis que muitos desses "estrangeiros" prefeririam partir. Mas uma partida em termos só possíveis para os ricos e influentes que tinham contatos que lhes permitiriam ser acolhidos em outros locais. Assim, se a política de Hitler fez alguma coisa, ela forçou a deixar a Alemanha exatamente as pessoas que ele mais temia e (se seus argumentos fossem seguidos) as obrigaria a se tornarem um grupo coeso entre os inimigos da Alemanha.

 

Não obstante, já na primavera de 1933, semanas após a ascensão de Hitler ao poder, os judeus começaram a ser demitidos de todos os cargos públicos; advogados, médicos e lojistas tiveram suas atividades cerceadas. Os que recusavam deixar-se intimidar, eram fotografados e tinham seus retratos publicados nos jornais locais. Mas, como o cônsul americano em Leipzig observou, o público não gostava do boicote. A gente mais pobre era obrigada a usar as lojas aprovadas pelos nazistas, e que aumentavam seus preços à medida que a competição diminuía; outros detestavam o princípio de tal perseguição. Fora da Alemanha, conforme crescia a consciência do que estava acontecendo naquele país, a aversão que isso fez gerar repercutia nas relações diplomáticas e comerciais.

 

Qualquer grupo menos obsessionado pelo racismo talvez tivesse percebido ser chegado o momento de abandonar a política anti-semita, mas os nazistas chegaram mesmo a destorcer as críticas estrangeiras para servirem a seus propósitos, justificando a perseguição com o argumento de que era em represália às atrocidades e ameaças dos judeus no exterior.

 

Quando um ministro sul-africano, em visita à Alemanha, sugeriu a Hitler que ele devia encontrar uma solução para o problema judeu de modo que não antagonizasse a Grã-Bretanha, o Führer começou uma de suas diatribes sobre o anti-semitismo que incluía a ameaça de que "um dia os judeus desapareceriam da Europa". Para o Ministro das Relações Exteriores da Checoslováquia, Hitler foi ainda mais claro: "Destruiremos os judeus... O dia do ajuste de contas chegou".

 

Todavia, diante das críticas, as medidas anti-semitas tinham de ser disfarçadas em lei. Muita gente na Alemanha, assim como em outros países, acreditava que os judeus tinham influência e autoridade desproporcionais aos seus números. Por isso, as pressões sobre a comunidade judia, por meio de leis restritivas, eram consideradas simples medidas de correção desse desequilíbrio, e foram feitas de modo a parecerem comuns. Tais medidas tiveram o efeito de separar o judeu do não judeu, tornar a existência do judeu mais dura e, por fim, criar os meios e a justificativa para a total segregação da comunidade minoritária.

 

Se os judeus fossem culpados de tudo o que se lhes atribuía; se as teorias genéticas adotadas pelos nazistas merecessem aprovação da ciência verdadeira, ainda assim não seriam admissíveis tanta perseguição, tanta provocação, tanto desrespeito à condição humana deles. Estes atos foram talvez apenas ligeiramente menos repelentes do que as medidas tornadas comuns, mais tarde. De um lado havia os rufiões e os sádicos compulsivos, indiferentes à identidade dos que estavam à sua mercê, fossem ou não judeus. Eram vítimas postas à sua disposição pelo governo, e isto lhes bastava; do outro lado, os administradores ambiciosos que, na ânsia de impressionar os superiores, arrancaram de suas almas os últimos resquícios de decência.

 

A realidade é que a desculpa dos nazistas para a perseguição dos judeus tinha poucas pretensões à seriedade intelectual. Era simplesmente o modo de satisfazer à necessidade de "inimigos", ao mesmo tempo que justificava a ineficiência e as opressões dos tiranos.

 

As características opressivas do regime tornaram-se de imediato óbvias a todos os alemães, judeus ou não. Entre tantas provas disso, salientava-se o fato de a liderança nazista, uma vez no poder, haver-se arrogado o poder de polícia. Imediatamente após a ascensão de Hitler à Chancelaria, foi Goering, e não Himmler, quem abriu os primeiros campos de concentração aos inimigos políticos. Menos de um mês após a nomeação de Hitler, a 28 de fevereiro de 1933, o dia seguinte ao incêndio do Reichstag, oficializaram-se as primeiras medidas extraordinárias permitindo a prisão de cidadãos comuns e sua condenação à "custódia protetora" por período indefinido e sem direito a apelação. A execução desse decreto também foi feita por Goering. Por volta de abril, só na Prússia, mais de 16.000 pessoas haviam sido privadas da liberdade. Pelo Natal de 1933, o número de prisioneiros assumiu tais proporções que Hitler foi obrigado a anunciar uma anistia para 27.000 detentos, por absoluta falta de espaço para contê-los.

 

Os campos onde foram encarcerados logo se transformaram em cativeiros cujos encarregados não eram responsáveis perante ninguém. Himmler deu início a seus ensaios nesse setor, já tendo desafiado Goering com a existência do seu SD, e inaugurou um campo de concentração "modelo" em Dachau, a 20 km de Munique. Ali, os ideais himmlerianos de ordem e disciplina foram postos em prática. Caracteristicamente, a administração do campo obedecia a regulamentos que previam todas as eventualidades, indo da forma como se executavam as surras de chicote e os enforcamentos, à maneira como se pagava o prisioneiro-carrasco pelos seus serviços (três cigarros!). Embora extremamente imorais esses regulamentos, sobretudo quando sabemos que se referiam a homens e mulheres contra os quais jamais pesou qualquer acusação específica, eles eram, em contraste com os regulamentos dos campos de Goering, destinados a assegurar uma administração organizada.

 

Para os que cumpririam os deveres de guardas em Dachau, deveres, diga-se, para uma pessoa normal, difíceis, extremamente dolorosos, Himmler criou outro departamento das SS, as Totenkopj Verbände, ou unidades da Caveira (a Caveira sendo o emblema das SS). Entre os que ingressaram no pessoal de Dachau desse modo, estava um jovem chamado Adolf Eichmann, destinado a subir bastante na hierarquia das SS.

 

Assim, pelo final de 1934, Himmler assegurara para si próprio um lugar quase inatacável, exceto pelo próprio Hitler, no novo estado. Em suas Formações de Proteção havia um serviço secreto para fazer calar os inimigos do estado e escolher os lugares para onde seriam enviados e mantidos. Himmler diligenciava febrilmente no sentido de tornar-se o que realmente veio a ser, o segundo homem mais poderoso no Terceiro Reich.

 

Em 1934, assim como em 1933, não houve nenhuma diminuição nos tormentos infligidos aos judeus, contra quem era dirigida toda a sorte de hostilização. As autoridades locais exorbitaram muito da esfera dos direitos legítimos e até mesmo desprezaram a constituição alemã. Os judeus foram proibidos de freqüentar parques, andar de ônibus e nadar em piscinas e, em alguns lugares, os funcionários públicos viram-se obrigados a assinar uma declaração de que haviam rompido todas as relações sociais com quaisquer judeus que conhecessem. Os nazistas às vezes evitavam tais práticas, pelo efeito que teriam no exterior, e na medida em que os tormentos se baseavam em estatuto ou decreto, eram sempre justificados pelos nazistas com a alegação de "conveniência". Assim, quando se começou a calcular o ingresso de judeus em escolas alemães com base no número deles no conjunto da população, a desculpa apresentada é que se desejava "impedir excesso de alunos" nas escolas alemães.

 

Em 1935, a primeira das Leis de Nuremberg sobre a cidadania do Reich, que punha em vigor a decisão do partido de transformar os judeus em estrangeiros, foi anunciada por Hitler numa das Reuniões Anuais do Partido, realizada naquela cidade a 15 de setembro. Os moderados do partido (cujo número era grande, embora muito pouco influenciasse as decisões partidárias) aceitaram tais leis na suposição de que fossem definitivas nas suas disposições - na realidade elas foram ampliadas por cerca de 13 decretos suplementares. Alguns chegaram mesmo a acolhê-las como uma forma de regularizar a situação vigente, dando aos judeus uma visão de sua posição perante a lei e certa proteção, mesmo que somente como estrangeiros, o que não tinham no estado de coisas anterior. A verdade é que o isolamento social legalizado dos judeus, criado pelas leis de 1935, não só tornaram as medidas subseqüentes mais rigorosas, como jurídica e psicologicamente mais facilitadas. Os decretos estabeleciam a criação de duas classes de cidadão: O Reichsbürger, que tinha de ser de puro sangue alemão, e o Staatsangehöriger que, embora fossem súditos, não tinham direito à cidadania. Tal divisão de homens não existia legalmente desde o Império Romano.

 

As primeiras Leis de Nuremberg proscreveram os judeus de muitas atividades, inclusive o exercício do serviço público. Elas proibiam o casamento com arianos e, mais que isto, davam para os judeus uma definição tão ampla que nem pela cabeça dos arruaceiros e verdugos daquela gente havia passado. Como conseqüência, alemães praticantes da fé cristã e de outras religiões descobriram horrorizados que, em vez de serem "bons alemães" como se julgavam, eram rotulados como judeus e cidadãos de segunda classe. Contudo, fato notável é que as Leis de Nuremberg, nem em 1935 nem posteriormente, tentaram definir com precisão os judeus. Eles eram sempre descritos vagamente como "estrangeiros". Mesmo no verão de 1943, Himmler proibiu a publicação de um decreto que definia a condição de judeu. "Tal dogmatismo nos tolhe", observou ele.

 

A reação mundial às Leis de Nuremberg foi fortemente demonstrada. Berlim fora escolhida sede dos "Jogos Olímpicos" de 1936, mas fez-se uma representação ao Comitê Olímpico Internacional pedindo a mudança de local, alegando-se que a política do governo alemão estava em conflito com o espírito dos jogos. Hitler estava decidido a realizar as olimpíadas em Berlim e as Leis de Nuremberg foram atenuadas, para que os milhares de visitantes não testemunhassem os chocantes fatos. Os jogos foram realizados e tornaram-se um clássico nos anais olímpicos. Uma vez terminados, o fluxo de legislação anti-semita prosseguiu sistemática e impiedosamente, corroendo a posição da comunidade judaica. Firmas judias tinham de distinguir-se e registrarem-se. Judeus eram expulsos das profissões liberais e das universidades e, em muitos casos, obrigados a emigrar. Assim teve início o enorme êxodo de homens e mulheres, muitos dos quais, como Freud, Einstein e Max Planck, eram figuras de fama mundial.

 

Do ponto de vista nazista, a intensificação sistemática das medidas de Nuremberg não era o suficiente. Hitler estava preocupado com o efeito poluidor das finanças judias sobre a economia ariana. Portanto, os judeus tinham de ser obrigados a abandonar a atividade econômica. Mas, para fazer isto, eram necessárias leis de amplas conseqüências e estas precisavam ser justificadas não só perante a opinião pública alemã como perante a opinião mundial.

 

O ato seguinte do drama das relações nazistas foi provocado por um incidente fora da Alemanha. A 7 de novembro de 1938, um judeu alemão de 17 anos de idade, Herschel Grünspan, que visitava um tio em Paris, compareceu à Embaixada Alemã solicitando audiência ao embaixador, o Graf Johannes von Welczek. Um terceiro secretário, Ernst von Rath - funcionário mais importante do que um estranho, que comparecia a uma grande embaixada sem ser convidado, tinha o direito de esperar - atendeu-o. Grünspan sacou de um revólver e atirou nele, alegando mais tarde ter confundido esse jovem funcionário com o embaixador. Havia várias circunstâncias suspeitas nesse episódio: primeiro, a alegação supostamente feita pelo assassino de que tivesse confundido um homem tão jovem com o embaixador; segundo, a suposição implícita de que funcionários diplomáticos de carreira recebem visitantes desconhecidos nas escadas; e terceiro, o fato de que von Rath era            um antinazista já sob vigilância da Gestapo. Ademais, na Alemanha, houve todos os indícios de que a explosão de violência subseqüente a este acontecimento havia sido       intencionalmente preparada e uma das razões é que os que poderiam ter sido acusados de incitá-la haviam-se dado ao trabalho de se armar com álibis.

 

O Völkischer Beobachter (Observador Popular) que, sob o lema Ein Volk, Ein Reich, Ein Führer (Uma Raça, Um Estado, Um Líder), esclarecia a diretriz oficial do partido, publicou um pequeno editorial sobre o assassinato a 7 de novembro, dia em que o mesmo ocorreu. "Evidentemente", dizia ele, "o povo alemão é capaz de tirar suas próprias conclusões sobre este novo ultraje". Na noite de 9 de novembro, Hitler compareceu a um jantar em Munique, comemorativo do complô da Cervejaria de 1923, e foi lá que Josef Goebbels, Reichsminister da Propaganda e sem dúvida inspirador, se não autor daquele editorial, revelou que as represálias - referindo-se a distúrbios de rua     - já estavam ocorrendo.

 

Depois do discurso de Goebbels, os que ali estavam reunidos não tinham muitas dúvidas de que os líderes partidários, em todos os níveis, iriam organizar e supervisionar a execução de distúrbios, ao mesmo tempo que cuidariam para não serem identificados como seus instigadores. Portanto, nisto, eles seguiam o exemplo dos seus chefes, que estavam num jantar em Munique e não se poderia ligá-los à violência. A única pessoa que não tinha esse álibi era Goering, mas ele tratou de estar num trem a caminho de Berlim, enquanto que o único homem que poderia, sozinho, pôr em ação o "pessoal da represália", Reinhard Heydrich, estava em Nuremberg. Mas existe um telegrama que ele enviou naquele dia, instruindo os chefes de policia para que cumprissem o que lhes cabia nos distúrbios que provavelmente ocorreriam. Incumbia-lhes cuidar, entre outras coisas, para que nenhuma propriedade ariana fosse danificada, impedir o saque de lojas e residências, embora permitindo sua destruição, e assegurar-se que nenhuma sinagoga fosse incendiada, se situada em lugar onde o sinistro pudesse pôr em perigo propriedades adjacentes. Outra mensagem veiculada por um dos seus assistentes mandava que a polícia do estado prendesse entre 20 a 30 mil judeus, especialmente os ricos, e tomasse os arquivos das sinagogas.

 

Durante aquela noite, um furacão de violência se abateu sobre os judeus em todas as grandes cidades alemães. Quadrilhas de rua, sem que a polícia as atrapalhasse, destruíram 7.500 lojas, incendiaram pelo menos 171 prédios de apartamentos e quase 200 sinagogas, incluindo a famosa e histórica, de Nuremberg, cidade onde Heydrich estava. Ele fingiu surpreender-se com a notícia.

 

Apenas 117 desordeiros foram presos, mas 36 judeus morreram (mais tarde este número foi aumentado para 91) e outros 36 foram feridos; 20.000 foram colocados sob custódia "para sua própria proteção". Assim, a "ira espontânea" do povo alemão pelo assassinato de um desconhecido diplomata, em Paris, voltou-se não contra os residentes franceses no país mas contra os judeus alemães.

 

Dos judeus detidos, cerca de 10 mil foram enviados para o campo de concentração de Buchenwald, de onde, aliás, muitos saíram mediante resgate.

 

Grünspan não era, sem dúvida, um subordinado da Gestapo, mas provavelmente foi instigado por um dos seus agentes provocadores para disparar o que veio a ser chamado de Kristallnacht (erroneamente traduzido como "A Noite das Vidraças Quebradas"). Na verdade, os distúrbios prosseguiram por mais de uma semana, servindo de desculpa a nova ação contra os judeus alemães, da qual logo se tirou partido.

 

Não se sabe ao certo que papel teria desempenhado Hitler na Kristallnacht. De qualquer modo, sua reação a ela foi típica de quem, como ele, votava aos judeus ódio cego, pois ele aceitou imediata e incondicionalmente a responsabilidade deles pelo ocorrido e mandou um diktat a Goering, instruindo-o para que a questão judaica fosse "coordenada e resolvida de uma vez por todas".

 

A 12 de novembro, três dias após o início dos distúrbios, com as quadrilhas ainda vagando pelas ruas, Goering convocou uma reunião, no seu Ministério da Aviação, para examinar as instruções de Hitler. As deliberações dos chefes nazistas foram interrompidas por uma questão resultante dos distúrbios: é que os prédios, em muitos casos, em que judeus exploravam seu comércio pertenciam a pessoas sem qualquer vínculo com a raça, e que sofreram prejuízos que montavam a milhões de marcos com os danos causados às suas propriedades, em particular com a quebra de vitrinas, e que passaram a cobrar às companhias de seguros. Se estas pagassem, iriam à falência; se não pagassem, a credibilidade das companhias de seguro alemães ficaria vulnerável. Ficou então estabelecida na reunião a imposição de uma multa comunitária aos judeus para cobrir os danos - o que dá boa percepção das atitudes nacional-socialistas - e os representantes das companhias de seguro presentes à reunião receberam a promessa de Goering de que no futuro não se quebrariam tantas vitrinas.

 

No devido tempo, as minutas dessa reunião circularam; elas estipulavam o método de perseguição que se repetiria sempre que a ordem nazista o determinasse. Os judeus perderiam as propriedades que possuíssem, recebendo por elas ridícula compensação em dinheiro. Nas semanas e meses seguintes, as

recomendações apresentadas por uma comissão escolhida e nomeada pela reunião foram postas em vigor. Os judeus foram proibidos de freqüentar escolas alemães, cinemas e teatros. Planos seriam preparados para o recrutamento de judeus para turmas de trabalhos forçados; redigiu-se uma lei de inquilinato estipulando que a propriedade de judeus só poderia ser alugada a judeus - a base de um sistema de gueto. Independente das outras evidências, a rapidez com que estas medidas foram introduzidas após o incidente de Paris indicava que as forças do anti-semitismo estavam preparadas.

 

Se havia qualquer dúvida quanto ao destino que aguardava os judeus alemães, a reunião de Goering a eliminou. Anunciando a multa comunitária de um bilhão de marcos para pagar os danos, Goering disse: "Se no futuro próximo o Reich Alemão entrar em conflito com potências estrangeiras, não é preciso dizer que nós, na Alemanha, primeiramente ajustaremos contas com os judeus".

 

Um artigo publicado na revista das SS, Das Schwarze Korps, a 24 de novembro - uma quinzena após a reunião no gabinete de Goering - era ainda mais esclarecedor. O autor declarava que os judeus que ainda estivessem na Alemanha após o começo de uma guerra seriam "aniquilados".

 

Por mais importantes que possam ser essas questões raciais e ideológicas, Heydrich, Goering e seus colegas viam que, a curto prazo, poderiam obter vantagens econômicas usando os judeus para levar a efeito uma chantagem internacional de vulto. Heydrich já vinha "permitindo" a imigração de judeus em troca de pagamentos em moeda estrangeira de que a Alemanha necessitava e, desde a Kristallnacht, ele tinha 20.000 judeus sob custódia e propositadamente submetidos a tais condições, em Buchenwald, que sem dúvida estariam dispostos a pagar as quantias mais extorsivas pela liberdade.

 

Mas as tentativas da Alemanha de resolver seu chamado "problema judeu" não se limitavam a esforços internos. Em comum com a Romênia e a Polônia, a Alemanha tinha convencido o mundo de que outros paises poderiam ajudar na concretização do desejo em que se encontravam de se livrar de parte de sua população. Para este fim, por iniciativa do Presidente Roosevelt, realizara-se uma conferência de 32 nações, em Evian, na França, em julho de 1938, onde se discutiu o problema dos judeus indesejados naqueles três países - sem resultado. A conferência foi suspensa sem que qualquer dos países presentes se dispusesse a receber sequer as crianças judias. Para Hitler e seus anti-semitas, o fracasso da conferência, embora ainda os deixasse às voltas com seu "próprio problema judeu", era prova de que o mundo em geral não se importava com o destino dos judeus. O que os alemães fizessem então com os judeus, estariam fazendo em grande parte como que um favor aos demais países do mundo, que, pelo que demonstraram na conferência, aceitaram implicitamente a responsabilidade pelo destino dos judeus alemães. A Kristallnacht fora um resultado imediato do fracasso da reunião.

 

Examinou-se uma variedade de planos, todos destinados a livrar a Alemanha da sua população judia de modo a evitar a afronta direta à opinião mundial. Um plano apresentado pelo Ministro da Economia alemão, Hjalmar Schacht, para usar bens judeus no financiamento de um empréstimo para ajudar a "emigração organizada dos judeus", e que foi até Londres para exame em dezembro de 1938, fracassou quando Hitler brigou com Schacht. Outro plano foi o famoso Projeto de Madagáscar, segundo o qual os judeus alemães seriam acomodados numa "reserva" naquela colônia francesa. Diz-se que a idéia partira do Ministro das Relações Exteriores francês, que afirmou que seu governo estava pensando em mandar 10.000 judeus para lá. Nenhuma dessas propostas foi aplicada.

 

A Europa estava caminhando para a situação que os judeus alemães, que desde Evian sabiam não ter amigos, mais temiam: a guerra da Alemanha com as grandes potências. Ao mesmo tempo, o número de judeus em mãos alemães estava aumentando com o acréscimo de novos territórios. A anexação da Áustria havia colocado 185.000 sob o domínio nazista e o mesmo tipo de tormenta usado no Reich foi aplicado lá. O resultado disso - satisfatório para o jovem Tenente Adolf Eichmann, que fora encarregado da emigração em Viena - foi a partida para o exterior de 45.000 judeus austríacos em oito meses, contra apenas 19.000 da própria Alemanha. Na Checoslováquia, 300.000 judeus haviam caído nas garras dos alemães e também ali, Eichmann, promovido a capitão, desdobrou-se para obrigar os judeus a deixar o país numa taxa ainda maior do que na Áustria.

 

E, para desestimular qualquer hesitação por parte dos que podiam dar-se ao luxo de deixar o país, Hitler acrescentou seu endosso pessoal às previsões de Goering e de Das Schwarze Korps. Ele disse ao Reichstag a 20 de janeiro de 1939: "Se os financistas judeus internacionais... tiverem novamente êxito em provocar uma guerra mundial, o resultado não será a bolchevização da terra e, assim, a vitória da judiaria, mas o aniquilamento da raça judaica na Europa inteira".

 

No mesmo ano deu-se a consolidação de todos os serviços de segurança, sob as SS, no chamado RSHA (Reichssicherheitshaupamt, ou Departamento Geral de Segurança do Reich), com Heydrich na sua direção. Foi no ano seguinte que se reconheceu todo o talento de Eichmann, quando ele foi nomeado chefe do Departamento IVA4b, o responsável pelos judeus, instalado em edifício próprio, de quatro andares, na Kurfürstenstrasse, n° 116.

 

Mas a "emigração" ainda prosseguia, o que significava apenas uma coisa: a expulsão de judeus de todos os territórios do Reich. Passagens de navio eram adquiridas pela comunidade judia em geral e os emigrantes partiam, muitas vezes com pouquíssima possibilidade de serem aceitos pelos países a que se destinavam, mas na certeza de que o retorno à Alemanha representava a morte, lenta e penosa, num campo de concentração. Com a ajuda de Conselhos Judeus, instalados onde possível (com base num existente que os alemães haviam criado em Praga), os judeus eram mantidos sob permanente vigilância. A 6 de julho de 1939, o "Décimo Decreto, suplementando a Lei de Cidadania do Reich", submeteu a união das organizações de ajuda e caridade judias, na própria Alemanha, a um departamento de estado controlado pelo RSHA. Nos termos do mesmo decreto, as firmas judias remanescentes foram expropriadas sem compensação.. Privados dos seus negócios, proibidos de exercer qualquer atividade, exceto nos batalhões de trabalhos forçados que, de qualquer modo, só poderiam absorver uma pequena proporção - cerca de um quinto - os judeus alemães, juntamente com os da Áustria e do "Protetorado" (as regiões desmembradas da República Tchecoslovaca e colocadas sob o domínio alemão) foram atirados à miséria e aos guetos que tinham sido preparados para eles pela lei de inquilinato nazista.

 

Já virtuais prisioneiros do estado (eles dificilmente poderiam ser chamados de reféns, porque o esforço do exterior para resgata-los fracassara por indiferença), eles se tornaram prisioneiros reais, quando a Grã-Bretanha e a França declararam guerra à Alemanha, no dia 3 de setembro de 1939. Na verdade, a emigração, em escala limitada, para países neutros continuou, entre os judeus que conseguiam os meios e os contatos para lhes garantir entrada no território a que se destinavam; essa emigração prosseguiu, mesmo após a queda da França. Esses errantes da nova Diáspora se espalharam até Xangai, onde as forças de ocupação japonesas os encontraram, em 1942. Pela liberdade, os fugitivos tinham de pagar elevado preço, que às vezes ia diretamente para as SS - pois Himmler considerava essas trapaças legítima fonte de renda; às vezes para os bolsos de oficiais corruptos do RSHA, que forneciam os documentos necessários, quase sempre forjados. Esses "defensores" da pureza racial desenvolveram seu comércio nas barbas de Hitler, até quase o último dia da guerra.

 

 

Começa o movimento para o leste

 

Por estranho que pareça, os judeus imaginavam perfeitamente justificável a esperança de que a eclosão da guerra lhes aliviasse as penas, pois os líderes alemães estariam por demais preocupados para continuar a persegui-los. E não poderia haver lugar para eles num grande conflito, como acontecera em 1914? Essas esperanças não eram de todo infundadas, pois a guerra trouxe certa melhora para pequeno setor da população judaica. Houve tal escassez de médicos e dentistas, que se tornou necessário devolver muitos judeus à prática da profissão.

 

Contudo, na Polônia, onde havia três milhões de judeus, o maior grupo até então encurralado pelos alemães, a história foi diferente. À medida que os alemães avançavam, os pogrom, como os da Kristallnacht, embora em escala imensuravelmente maior, ganharam impulso, já agora sem considerar a possibilidade de produzir danos a propriedades alemães. A população das cidades polonesas, à medida que eram invadidas, sentia-se encorajada a descarregar seus sentimentos pela derrota e ocupação contra os judeus. As histórias fabricadas pelos alemães diziam que eles é que haviam traído a

Polônia. Isto aconteceu a despeito de, in extremis, tendo o governo polonês oferecido garantias e feito promessas à população judaica, que perseguira e maltratara durante três séculos, milhares deles se terem alistado nas forças polonesas, tombando 30.000 deles nas três semanas de luta.

 

Os que se entregaram aos pogrom eram os anti-semitas locais mais perniciosos, em geral criminosos conhecidos, estimulados por alguns rufiões do exército alemão. Contudo, a verdadeira sombra inspiradora de toda essa reação era sem dúvida Heydrich, que fornecia os agitadores profissionais.

 

Mesmo onde os habitantes locais não participavam, os nazistas observaram, com satisfação, que eles eram menos sensíveis do que os alemães ao sofrimento dos judeus, assistindo sem se deixar sensibilizar aos excessos contra eles cometidos. O anti-semitismo polonês ocasionou a separação total das duas comunidades, de modo que não se registravam protestos por parte dos poloneses em defesa dos seus "bons judeus", um hábito alemão que havia sido alvo de muita demonstração de desprezo por parte de Himmler, Heydrich e Eichmann. Alguns protestos que ocorreram partiram de elementos do exército alemão.

 

Se o papel de Heydrich como maligno marionetista por trás dos pogrom é conjetural, elementos das suas forças e das SS desempenharam papéis mais evidentes. Durante a anexação da Áustria, supostamente para dar boas-vindas aos seus concidadãos, fortes medidas de repressão foram consideradas necessárias para que o país fosse submetido sem problemas. Para ajudar nessa tarefa, organizaram-se forças-tarefas motorizadas da Polícia de Segurança e do Serviço de Segurança (SD), com "deveres especiais de policia política", como rezava o documento oficial para tanto aprovado. Estes Grupos de Ação móveis (ou Einsatzgruppen) provaram tão completamente a sua eficiência. que foram utilizados nos Sudetos e na Tchecoslováquia, com ordem para reproduzir nestes dois lugares o desem penho demonstrado na Polônia, onde sua missão foi classificada como "a supressão de todos os elementos hostis ao Reich e à Alemanha atrás da linha de batalha". Era evidente, aqui como em outros lugares, quem estava incluído na lista dos "elementos hostis ao Reich". Não foram ordenadas especificamente execuções de judeus na Polônia. Aliás, as linhas de controle não estavam tão claramente demarcadas nessa campanha,    como o foram mais tarde, de modo que, tecnicamente, elas ficaram sob o controle dos comandantes-de-exército, embora as ordens na realidade fossem dadas por Himmler. Contudo, as atividades combinadas contra os judeus da Polônia haviam provocado cerca de 250.000 baixas de setembro           até o fim de 1939.

 

Desde o começo da campanha, um Einsatzgruppe estava realizando, por iniciativa própria, fuzilamentos em massa. Essa unidade, comandada pelo Tenente-Coronel Udo von Woyrsch, mais tarde foi retirada a pedido do exército. A 24 de outubro, um batalhão das SS, em Wloclawek, tendo obrigado os judeus locais a usar um sinal distintivo (a primeira experiência com a estrela amarela de Davi, mais tarde universalizada), prendeu cerca de 800 e fuzilou muitos deles "quando tentavam fugir".

 

Num incidente anterior, embora menor, ocorrido a 14 de setembro, 50 judeus foram levados para dentro de uma sinagoga e fuzilados. Os perpetradores do crime - homens das SS - foram submetidos a julgamento, sendo, porém, perdoados pela anistia geral decretada por Hitler a 4 de outubro.

 

Até essa época, atrocidades eram cometidas esporadicamente, sem no entanto denunciar que por trás delas houvesse um plano que as sistematizariam. Mas a 21 de setembro foi tomada a primeira providência evidentemente planejada: esta foi um relatório de uma conferência secreta presidida por Heydrich, e que circulou entre os comandantes-de-exército mais graduados na Polônia. O plano se cumpriria em três etapas: (I) o movimento de todos os judeus para "comunidades" (um eufemismo designativo de "guetos") de não menos de 500 pessoas cada uma e próximas de linhas férreas; (II) a nomeação de Conselhos Judeus e (III) o registro de todos os judeus pelos Einsatzgruppen. Os judeus do Reich seriam deportados para a Polônia - a primeira lufada daquele vento cortante que sopraria sobre os judeus nos anos seguintes. É significativo que Heydrich classificasse como "provisórias" tais providências, pois haveria, disse ele, um "objetivo final", cuja realização demoraria mais. Este relatório, tomado em conjunto com a ordem de situar as "comunidades" perto de linhas férreas, tem levado comentaristas à conclusão de que o "objetivo final" era realmente a Solução Final - o total extermínio dos judeus. Mas, neste estágio, a providência era encarada como medida destinada a facilitar a colocação dessa gente numa reserva judaica a ser criada em Lublin.

 

Na medida do possível, em meio à guerra, ainda havia tentativas para forçar a emigração judia. Mesmo na Polônia houve esforços para empurrá-los para além de uma linha de demarcação entre os setores alemão e russo - pois também os russos haviam marchado sobre as províncias orientais da Polônia. Grandes grupos de judeus foram levados a atravessar para a outra margem do Rio San, que marcava essa fronteira na maior parte do seu curso. Alguns tiveram a sorte de lhes permitirem passar; outros, mais tarde, foram recapturados pelos alemães, na guerra com a Rússia; alguns conseguiram chegar à segurança das fábricas de armamentos nos Urais e na Sibéria. Os que não puderam entrar, foram obrigados a cruzar novamente o San ou o Bug, sendo muitos deles fuzilados, quando não acontecia serem mortos por afogamento. Os poucos que evitaram esses dois destinos foram aprisionados.

 

O resultado da vitória alemã na Polônia fora a divisão da região do país submetida a seu controle em duas partes: as províncias polonesas mais ocidentais, até Lodz, foram incorporadas ao Reich; o resto da Polônia transformou-se no "Governo-Geral", uma espécie de grande lixeira humana, com oportunidades obviamente tentadoras para as experiências demográficas com que Hitler e Himmler há muito sonhavam. Estas estavam para ser realizadas através de um plano conhecido como o "Fortalecimento do Povo Alemão" para o qual Himmler foi nomeado Reichskommissar a 12 de outubro. Este plano acarretaria movimentos de populações inteiras. Os alemães que se encontravam no exterior seriam trazidos de volta e colocados em colônias criadas nos territórios poloneses incorporados à Alemanha. Os poloneses já ali instalados (com suas terras confiscadas) seriam subjugados por meios tão irrealistas quanto brutais, visando-se também à deportação em massa de judeus para a região do Governo-Geral.

 

A execução do reagrupamento dos judeus planejado por Heydrich na realidade foi mais lenta do que ele imaginara, pois sempre fora um planejador totalmente irrealista. Somente em setembro do ano seguinte é que foi emitida a ordem geral que delimitava a área de residência judaica, abrindo caminho para colocá-los nos guetos. Uma das causas do atraso foi que Hans Frank, nomeado por Hitler para dirigir a administração civil