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As tampas, em forma de cogumelo, dos tubos ventiladores das câmaras da morte que pontilhavam o verdejante gramado eram retiradas e as cápsulas de cianureto desciam através deles. Depois de algum tempo, os infelizes nelas confinados, ao efeito do gás mortífero, atiravam-se endoidecidos contra a porta de saída, buscando inutilmente a fuga. A morte levava de cinco a quinze minutos, dependendo das condições atmosféricas. Ward Rutherford Uma ciência nova
e pervertida
Esta é a narrativa da escalada
do doloroso tratamento
dispensado pelos alemães aos judeus, do anti-semitismo, parte integrante do
dogma do Partido Nacional-Socialista, à aplicação implacável do que Hitler
chamou "Solução Final". Terminada a Primeira Guerra Mundial, a Alemanha, cheia de
frustrações e descontentamentos, oferecia todas as condições para a semeadura
do racismo. Judeus e bolchevistas ali estavam para servir de bodes
expiatórios dos reveses por ela sofridos, e a atribuição do fracasso às maquinações
e atividades subversivas desses grupos ajudou a tornar mais aceitável, por
muitos alemães, o problema que tais reveses criaram. O Partido
Nacional-Socialista - em si mesmo produto da reação nacional à derrota e ao
caos econômico do pós-guerra - divulgou, em fevereiro de 1924, um manifesto
em que formulou em linguagem muito clara a doutrina racista que adotaria. A
cidadania alemã, segundo o manifesto, só deveria ser concedida aos de sangue
alemão, especificando que, portanto, nenhum judeu seria um nacional. Mesmo
antes da publicação do manifesto do partido, Hitler já havia tornado público
o sentimento anti-semita que alimentava. O Mein Kampf (Minha Luta), escrito
durante o período de reclusão que cumpriu após o fracassado putsch de
Munique, de 1923, acusava francamente os judeus de haver contribuído para o
solapamento do esforço de guerra da Alemanha. Com o ódio aos judeus colocado como parte integrante da
filosofia nazista, seguia-se que os primeiros a esposar a causa
nacional-socialista seriam os que compartilhassem do anti-semitismo fanático
de Hitler, porque, no momento, o partido não era tão bem sucedido a ponto de
atrair seguidores ansiosos por ingressar nele. Um dos elementos da
"primeira geração" nazista que mais dispostos se mostraram a adotar
o absurdo da superioridade racial nórdica foi Heinrich Himmler. Desenvolvendo inicialmente uma atividade não-remunerada dentro
do partido, Himmler acabou recompensado com um cargo remunerado e, mais
tarde, foi indicado para o cargo aparentemente insignificante de
subcomandante das SS, pequeno grupo integrante das onipotentes SA de Ernst
Röhm. Esse grupo, no começo insignificante, aumentaria e obscureceria com sua
sombra sinistra o grupo em cujo seio colheu a cevadura que lhe deu força sos
tentáculos para dominar os instrumentos de poder do estado totalitário. Hermann Goering na realidade criou a infame Polícia Secreta do
Estado, ou Gestapo, e inaugurou, em 1933, os campos de concentração para onde
os desgraçados rotulados de inimigos do estado eram levados
sem-cerimoniosamente. Mas foi Himmler quem assumiu afinal o controle dessas
organizações de terror e de morte. Quando Himmler criou o Departamento de
Inteligência das SS (o SD), indicou Reinhard Heydrich, um jovem de aparência
nórdica e força física satisfatória, a verdadeira antitese do próprio
Reichsführer-SS, para o chefiar. Estes dois homens se completavam; um
permanentemente preocupado em inventar teorias raciais malucas, o outro
perseguindo sempre o poder pessoal e a autoglorificação. Eles faziam uma
dupla formidável, e, bem servidos por homens como Adolf Eichmann, os dois
puseram-se a aplicar a selvagem política racial do Führer, megalomaníaco e
insensível. Semanas depois que Hitler subiu ao poder, em 1933, os judeus
ocupantes de cargos públicos começaram a ser implacavelmente removidos, e os
profissionais liberais e homens de negócios judeus, a ser boicotados e
hostilizados. Daí por diante, a perseguição a esses infelizes ganhou
velocidade incontrolável, passando da hostilização ao aviltamento, à prisão e
deportação, chegando à "Solução Final" - o aniquilamento total. À
medida que as conquistas da Alemanha aumentavam, também aumentava o número de
judeus que caíam nas garras das SS de Himmler. O gráfico das mortes de judeus
apresentava uma tendência ascendente constante. Para acompanhar o fluxo crescente de vitimas, fazia-se
necessário o aperfeiçoamento dos métodos de executá-los. Na primavera de
1942, as câmaras de gás de Auschwitz-Birkenau começaram a funcionar, cada
qual com capacidade de aplicar a "Solução Final" a 2.000
desgraçados de cada vez. O gás era introduzido nas câmaras lançando-se
cristais de Zyklon B nos tubos dos ventiladores e os corpos das vítimas eram
depois levados sos fornos nos crematórios das proximidades. O funcionamento
da usina da morte adquiria um ar de irrealidade com a música de Lehar e
Strauss executada, durante a horrenda operação, por uma orquestra de vitimas
potencisis. Os nomes dos campos de concentração - Treblinka, Sobibor,
Majdanek, Belsec, Chelmno, Dachau, Dora, Mauthausen, Ravensbrück,
Sachsenhausen e Buchenwald - tornaram-se sombriamente evocativos, fazendo-nos
recordar as filmagens feitas pelas autoridades aliadas desses campos à medida
que eram tomados, registrando para a posteridade a terrível condição de prisioneiro
político do Terceiro Reich: figuras esqueléticas, envoltas em farrapos, que
mal se distinguiam dos seus camaradas mortos; sobreviventes quase incapazes
de compreender que finalmente haviam sido "libertados". Esses homens são as glórias de batalha das unidades da
"Caveira" das SS, criadas para povoar de sombras os inacreditáveis
campos de concentração, sombras que eram homens, mulheres e crianças de raças
"inferiores", expiando crimes não cometidos, condenados à morte por
acidente de nascimento. Mesmo com tantos campos trabalhando febrilmente para executar as
ordens do Führer, era difícil acompanhar o ritmo de chegada dos trens
carregados de infelizes trazidos de toda parte da Europa; e assim as vítimas
eram obrigadas a sofrer a indignidade levada ao absurdo, a promiscuidade mais
cruciante, até serem amontoadas nas câmaras de gás. Apinhadas, com as mãos
para o alto e com criancinhas jogadas em cima delas, as vítimas eram
maltratadas até o último instante de vida. Como o autor observa, a perseguição sos judeus não era novidade.
Por toda a História, a raça judaica tem sido alvo de medidas discriminatórias
- muitas vezes com total apoio da lei - nalguns países, havendo exemplos,
anteriores a Hitler, de massacres dirigidos contra ela. Mas os seguidores de
Hitler acrescentaram outra dimensão a essas medidas. Enquanto os excessos a
que nos referimos, cometidos antes de Hitler, foram perpetrados em clima de
exaltação de ânimo, em hora de aturdimento, Himmler, Heydrich e gente da sua
espécie levaram a efeito o genocídio calma, desumana e friamente planejado.
Milhões de judeus morreram nos campos de concentração da Alemanha nazista,
vitimas de uma pervertida forma de ver as razões por que aqui estamos. Os predecessores dos nazistas
Por certo, nada justifica
melhor a famosa definição
de "História", de Gibbons, para quem ela é "pouco mais do que
o registro dos crimes, loucuras e desgraças da humanidade", do que o
tratamento das minorias judaicas. Durante quase 2.000 anos os não-judeus têm
demonstrado gratidão àqueles que lhes deram uma visão única da sua relação
com o Infinito, e que proporcionaram o meio, intelectual e geográfico, para o
nascimento do Cristianismo, por perseguições que, com o correr dos séculos,
só têm mudado no fato de que cresceram em magnitude e engenhosidade. Como
Bernard Levin escreveu recentemente, ao fazer a crítica de um livro sobre
esses dois milênios, enquanto que a maioria das religiões e povos tem sido
perseguida por alguém em determinado momento "somente os judeus sempre
foram perseguidos por todo o mundo". Mas se a civilização cristã e pós-cristã tem demonstrado uma
distinção peculiar nesse aspecto, a raça já vinha sofrendo muito antes do
nascimento de Cristo. Ela conheceu a ocupação da sua nação-estado
praticamente desde o seu surgimento; seu povo sofreu deportação e exílio
forçado, sob os assírios, egípcios e babilônios. Tentativas de obrigá-los a
abandonar seu Deus único em troca do panteão do estado foram feitas por quase
todos esses opressores e, mais tarde, pela Grécia e por Roma. Esforços nesse
sentido, feitos por Antioco III, o selêucida, levaram à bem sucedida rebelião
de Judas Macabeu em 167 a.C. Quando Tibério se tornou imperador, em 14 d.C., sua política
para com os membros judeus do Império Romano se assemelhava à de Hitler:
"o extermínio de toda a raça judia". Os romanos escandalizaram-se
com a desfaçatez de uma pequenina nação que se atrevia a considerar sua
religião superior à deles. No ano 30 d.C., o Sinédrio, Supremo Tribunal Judeu, perdeu a
jurisdição sobre seu próprio povo. Em 70 d.C., o Templo de Jerusalém foi
destruído por Tito, após uma revolta judia. No ano 132 d.C. teve início a
rebelião de Bar-Cochba, que foi impiedosamente sufocada pelos romanos. Esta
revolta, a última que os judeus tentaram contra um algoz estrangeiro até o
levante do gueto de Varsóvia, em 1943, levou os romanos a expulsa-los de
Jerusalém, destruindo totalmente a cidade. A expulsão dos judeus de Jerusalém é em geral considerada o
começo do período da Diáspora, ou dispersão. Na verdade, sob o estímulo das
constantes perseguições em sua pátria, comunidades judias já haviam emigrado
para outros países. Se, contudo, os romanos achavam que á nação judia e seu povo
haviam desaparecido da face da terra, estavam enganados. Um ou dois anos após
a queda da sua capital religiosa e política, um desastre do tipo que
precedera o eclipse total de outras nações, os judeus tornaram a reunir-se em
torno de sua fé. Um novo centro foi iniciado em Jamnia, na costa
mediterrânea, onde novas escolas rabínicas foram fundadas e onde o Sinédrio
foi restabelecido. Mas, estes não eram senão grupos e, como o povo exilado de uma
nação reprimida, os judeus buscavam um santuário onde quer que pudessem
encontrá-lo. Eles normalmente eram bem recebidos, até que Constantino fez do
cristianismo religião do Império Romano. Quando o império se dividiu, os
judeus perderam todos os privilégios que lhes haviam sido concedidos na
Europa Ocidental. A principio, não havia intenção de separá-los, mas apenas
cuidar para que os postos importantes fossem ocupados por professantes da fé
recém-adotada. Contudo, nos séculos seguintes, a perseguição de parte dos
cristãos se tornaria tão generalizada, tão diversa nas suas formas, que não
existe um só aspecto da tirania nazista para o qual não se encontrem exemplos
anteriores. Cada vez mais separados dos seus semelhantes, os judeus foram
transformados num painel em que os vícios humanos estavam todos
representados. Eles eram deicidas (não haviam eles permitido a crucificação
de Cristo?); eram os envenenadores de poços; eram infanticidas, repetindo a
crucificação em crianças cristãs batizadas e usando seu sangue para fazer o
Pão da Páscoa. O ponto de vista da Igreja Católica é adequadamente resumido
numa série de oito sermões feitos por São João Crisóstomo em 387. Os judeus,
afirmou ele, eram carnais, lascivos, avarentos; eram bêbados, bordeleiros e
criminosos. Sua opinião, e outras idênticas, encontraram eco pelos séculos
afora, e foi esposada por muitos líderes cristãos. Há os que procuram explicar
o anti-semitismo com razões de ordem econômica - pura manifestação de inveja
dos que têm sofrido a competição dessa minoria em geral diligente e
talentosa. A História absolutamente não apóia esse ponto de vista. A
perseguição aos judeus era fomentada do alto, pelos que não sofriam tal
competição. Na Idade Média, assim como na Alemanha hitlerista, o europeu
comum repudiava as perseguições e perdia mais do que se beneficiava com elas. O espetáculo do sofrimento dos judeus, daqueles que cravaram na
cruz o Redentor do homem, era considerada edificante, tal como as execuções
públicas também o eram, por demonstrarem o triunfo da justiça divina e
temporal e por se constituírem numa advertência terrível quanto aos
resultados da impenitência obstinada. Os pogrom e massacres de guetos promovidos pelos
"cruzados" da Nova Ordem de Hitler emulavam os modelos mais
antigos, pois cada uma das Cruzadas foi precedida de massacres "dos
sarracenos em nosso meio", os saqueadores da Terra Santa, na França,
Alemanha, Espanha e Inglaterra. Quando Benedito, o líder da comunidade judia
de York, foi a Londres, em 1189, levando presentes para a coroação de Ricardo
Coração de Leão, foi recompensado com a morte, juntamente com dezenas de
patrícios seus, na cidade. Sua morte foi seguida de massacres em Norwich,
Stamford e Kings Lynn, culminando com o realizado na própria cidade de York.
Ali, um grupo de judeus finalmente preferiu o suicídio à violência da ralé. Assim como as leis de cidadania nazistas tornaram os judeus
cidadãos de segunda classe, o mesmo aconteceu na Inglaterra medieval, onde
eles eram propriedade do rei. Assim como suas sinagogas foram incendiadas na
Alemanha, também o foram em Roma e na Espanha. Assim como os nazistas
extorquiam dinheiro aos judeus, o mesmo o faziam antigamente os reis e
prelados da Europa Cristã. Algumas grandes igrejas e catedrais que se
constituem em orgulho da Cristandade foram em grande parte construídas com
essas verbas. Assim como os nazistas forçaram a emigração e determinaram a
expulsão dos judeus, também estes haviam sido expulsos da Inglaterra e da
França. As acusações, contra os judeus, de conspiração vêm da Idade
Média. Na Espanha, o clero, pregava a necessidade de o país livrar-se dos
judeus. Os judeus, diziam os padres, planejavam a escravização de todos os
espanhóis, a começar pelo rei. Milhares morreram nos massacres assim
inspirados. A Idade Média também serviu de berço ao sistema de gueto, no
qual o judeu era segregado do ariano, sistema que seria usado largamente na
Polônia e na Rússia nos anos 40. Por mais amargo que fosse o insulto, isto
pelo menos dava certa segurança aos judeus, que voltavam aos guetos, onde
encontravam segurança e oportunidade de introspecção, sempre que o perigo os
ameaçava. Assim como os alemães instituíram o regime do assassinato
organizado, o mesmo fez Torquemada, o primeiro Grande Inquisidor, digno
predecessor de Heydrich e Eichmann. Assim como Himmler pregava a virtude transcendental da pureza do
sangue, também na Espanha setecentista a limpieza de sangre serviu de
desculpa para o ataque aos poluidores judeus. Assim como os nazistas
reescreveram a História para imputar aos judeus os problemas que enfrentavam,
também na Idade Média as massas aprenderam que os judeus eram a tribo de
Judas Iscariotes, o traidor do Cristo. Quando sua existência na Europa Ocidental se tornou intolerável,
os judeus começaram a mudar-se para o Leste. Ali, disseram-lhes, predominavam
atitudes mais racionais. E assim foi, a princípio. Na Áustria, seus direitos
como seres humanos e cidadãos foram respeitados. Na Polônia, Hungria,
Romênia, no nível do povo comum, judeus e cristãos conviviam. Mas a Igreja
Católica inquietava-se com a aliança que estabeleceram. Houve uma oportunidade de acabar com os judeus quando estourou a
guerra entre russos e poloneses. Na Polônia, disseram que os judeus estavam
mancomunados com a Rússia; nesta, que eles estavam mancomunados com os
poloneses. Milhares foram assassinados. Assim como os judeus, segundo testemunhas, enfrentavam os
fuzilamentos nazistas sem pedir piedade, também iam para a fogueira cantando
salmos, virando as costas à oportunidade de salvar-se, mas não admitindo a
retratação e a conversão. Na história dessas mortes em massa nas fogueiras,
tomamos conhecimento do caso de um menino que encorajava e consolava seu
irmão mais novo que se mostrava aterrado diante das chamas aonde estava
prestes a ser jogado, dizendo-lhe que ele ia para o Paraíso. Também mais
tarde, pais, mães, avós e irmãos mais velhos consolariam os jovens
aterrorizados diante das covas da morte em Ponary e nas câmaras de gás de
Auschwitz. Mesmo com o Iluminismo, não houve alívio. A ciência foi
destorcida para justificar a perseguição, e a razão era mantida em xeque. O
próprio Voltaire chegou a quebrar a sua reconhecida lógica para censurar os
judeus de ignorantes, bárbaros, avarentos, supersticiosos e cheios de ódio. Na Rússia, o pogrom tornara-se instrumento de política do
governo, aplicado sempre que o povo se mostrava inquieto. Mesmo na guerra de
1914, com a Alemanha, a perseguição aos judeus não sofreu solução de
continuidade. Ela ainda estava acesa quando, como aconteceu na Alemanha, mais
tarde, pôs em perigo o curso da guerra. E foi pelo próprio Czar Nicolau, em sua residência de campo,
Tsarskoye Selo, em 1905 - o ano da revolução fracassada - que o notório livro
Protocolos dos Sábios do Sião foi promulgado. Trabalho de um escritor pago
pelo governo, era uma amálgama de todos os absurdos atribuídos aos judeus
desde a Idade Média, como complôs internacionais etc., e que Hitler usou como
prova trinta anos depois. Contudo, o Czar Nicolau II não era homem para quem
a razão significasse muita coisa quando se tratava de atacar judeus: ele
dissera ao Kaiser Guilherme II, da Alemanha, sobre os ingleses: "O
inglês é um judeu". No resto da Europa, os movimentos populistas e democratizantes
dos meados do século XIX produziram um novo açoite para surrar os judeus e
foram responsáveis pela introdução da palavra "anti-semitismo".
Para os anti-semitas adversários dos movimentos democráticos, como Gobineau,
os judeus eram comunistas e socialistas. Para os socialistas anti-semitas,
como Drumont, então os judeus eram as eminências negras financeiras do
capitalismo. Joseph Arthur, Conde de Gobmeau (1816-82), procurou, em seus
quatro volumes do Essai sur L'inégalité des Races Humaines, explicar a
história em termos raciais, ressaltando o eterno conflito entre as raças
dolicocéfalas (ou de cabeça longa) e as raças braquicéfalas (ou de cabeça
larga). Os principais entre os dolicocéfalos eram os povos nórdicos louros.
Os judeus, naturalmente, eram braquicéfalos. Tão penetrantes foram suas
idéias, que os propagandistas ingleses aplicavam pejorativamente aos alemães
o termo "braquicéfalo". Edouard Drumont (1844-1917) relacionou o anti-semitismo com o
socialismo e o oculto - uma combinação também encontrada entre os nazistas. E
foi um dos seus seguidores, Jacques de Biez, que cunhou o nome
"Nacionais-Socialistas". Ele disse, em 1899: "Somos
nacionais-socialistas porque estamos atacando as finanças internacionais.
Queremos a França para os franceses". Substituindo-se as palavras:
"Alemanha" e "os alemães" nesta última frase, o trecho
poderia ter saído da pena do Dr. Goebbels. As perseguições ocorridas na Rússia, Polônia, Romênia e Hungria
levaram os judeus a retornar para o oeste. Muitos não foram além da Áustria,
mas números menores chegaram à Alemanha, França e mais além. Eles foram
aceitos, mas não considerados bem-vindos. Criados em guetos, desenvolveu-se
neles o instinto natural para se manterem unidos, apegando-se a seus hábitos,
costumes e linguagem, sempre temerosos de novos pogrom. A Igreja Católica viu neles, uma vez mais, uma ameaça à fé do
seu rebanho, afirmando que o judaísmo era a antítese do cristianismo.
Ademais, como a História demonstrava que os judeus eram inconversíveis, eles
tinham de ser expulsos. Mesmo os judeus batizados eram tidos como
"espiões dentro da Igreja" e, como medida de proteção do
cristianismo, tinham de ser tratados como os seus concidadãos não-batizados.
As organizações comerciais viam-nos como competidores. Os judeus da classe
média assimilada de Viena e Berlim votavam-lhes franca aversão,
considerando-os parentes pobres que de repente se haviam abatido sobre o seu
lar, e contrariaram-se quando descobriram que, além disso, os não judeus se
recusavam a aceitar os protestos dos judeus assimilados de que os judeus que
chegavam haviam chegado sem "serem convidados". "Isto",
diziam os não judeus entre si, "é o que acontece quando se deixa um judeu
entrar. Antes de você perceber, ele trouxe a tribo toda". Havia outros fatores em ação na Alemanha. À Guerra
Franco-Prussiana de 1870 seguira-se uma crise econômica, enquanto o movimento
de unificação dos estados alemães, iniciado por Bismarck, ainda estava em
andamento. Era inevitável que isto focalizasse a atenção sobre a raça, sobre
"germanidade". Os emigrados do leste, com seus estranhos costumes e trajes, não
se enquadravam na imagem racial germânica. Numa comunidade de estados que de
repente se conscientizou de que era um só povo, não havia lugar para os
homens de olhos tristes, com seus longos casacos pretos, barbas, cabelos
cacheados nas têmporas e chapéus chatos. "Os judeus são o nosso
azar", disse um autor do século XIX. Esta frase viria a tornar-se um lema
nazista. Se, entretanto, sua vida se tornasse difícil (esta a opinião
geral) eles talvez fossem embora, e os movimentos anti-semitas dirigiram
esforços nesse sentido. Já havia sido publicada muita literatura anti-semita,
cada vez mais violenta. A princípio os judeus eram "estranhos" ou
"decadentes", como tornaram a sê-lo na linguagem nazista de
1933-35; antes do fim do século, passaram a ser "parasitas",
"subgente" que só servia para ser "pisoteada". A teoria da evolução de Darwin, que a princípio abalou muita
ilusão que a humanidade alimentava na década de 1850-60, foi rapidamente
aplicada ao cenário social, por intérpretes que compensavam em dogmatismo o
que lhes faltava em compreensão. Do ponto de vista da evolução, o
anti-semitismo merecia certa credibilidade científica. Estes falsos conceitos
também seriam adotados pelo nazismo, que representava para seus adeptos
"a vontade biológica do povo". Milhares de portas até então abertas aos judeus na Alemanha e na
Áustria foram-lhes abruptamente fechadas. Os grêmios estudantis adotaram
resoluções que baniam os judeus de seu seio. Os regimentos de elite e a
reserva de oficiais do exército não mais os aceitavam. Clubes, sociedades e
câmaras de comércio concordaram tacitamente em não permitir o ingresso de
judeus. Neste aspecto, franceses e alemães, inimigos noutros campos,
fizeram causa comum, pois foram os franceses que "bolaram" o que os
alemães afinal adotaram. Havia, por exemplo, uma Sociedade Gobinesu em
Freiburg. Mas os franceses, povo afeito às especulações intelectuais, até
hoje raramente agem com base nas suas próprias especulações. Com os alemães,
no entanto, dava-se o contrário. Até a filosofia mais absurda era aplicada
com seriedade. Gobineau fora amigo pessoal de Richard Wagner, o compositor, que
atacara a memória do falecido Mendelssohn, de quem só recebera estímulo e
apoio, por ser ele judeu. Para o compositor de "Tannhäuser" e de
"O Anel dos Nibelúngios", a música de Mendelssohn passou a ser por
ele considerada "estranha, fria, bizarra, medíocre, antinatural e
pervertida". Por certo foi o anti-semitismo de Wagner, além de sua
música, que o recomendou a Hitler. A casa de Wagner era um ponto de encontro para o anti-semitismo
"intelectual" e Hitler seria um dos seus futuros visitantes. Mas um
visitante anterior fora Stewart Houston-Chamberlain (1855-1927), o antisemita
britânico e propagandista alemão da Primeira Guerra Mundial. Chamberlain foi
o biógrafo de Wagner e casou com sua filha. A ele é que devemos a primeira
afirmação logicamente coerente da posição do anti-semita: "Odeio os
judeus. Odeio sua estrela e sua cruz", manifestando seu ódio tanto ao
judaísmo como ao cristianismo. O resultado da Primeira Guerra Mundial fez recrudescer o ímpeto
contra os semitas. A derrota de seus grandes impérios foi uma experiência
profundamente traumática para alemães e austríacos. Durante as últimas
semanas de outubro de 1918, o exército alemão estava avançando. Na semana
seguinte, a 7 de novembro, cuidava-se do armistício, ficando a Alemanha à
mercê das Potências Aliadas, que jamais a deixaram de considerar, mesmo
depois de colocada sob um governo liberal, como militarista e agressiva. A fúria contra ela era ainda maior porque os que a combateram
jamais conseguiram dobrá-la na frente de batalha. Milhares de soldados alemães
não-derrotados retornaram à Alemanha, encontrando-a economicamente falida e
incapaz de sustentá-los. Alguma coisa, raciocinaram eles, deve ter acontecido
além do óbvio, além do motim de marinheiros comunistas em Kiel e do rigor do
bloqueio britânico, para provocar essa situação. Era certo que, após tantos séculos de difamação e opressão, e do
aumento incessante do anti-semitismo como força intelectual, que mais cedo ou
mais tarde haveria uma erupção. Foi assim que os judeus passaram a
responsáveis pela "punhalada nas costas" da Alemanha. Os judeus,
que encontraram melhor compreensão sob o governo liberal alemão, chegando a
fazer parte desse mesmo governo, foram considerados partícipes de uma grande
conspiração visando á derrubada da Alemanha; e o anti-semitismo, verdadeira
idéia fixa de certos indivíduos e grupos, passou a força poderosa. Como se
fosse uma nova religião, entregou-se ele a ativo proselitismo. |
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Os anos de tormento Hitler mostrou-se anti-semita desde os primeiros pronunciamentos
que fez. Sua muito citada frase no Mein Kampf, declarando que se uns 15.000
"desses inimigos hebreus" tivessem sido asfixiados no transcurso da
Primeira Guerra Mundial "o sacrifício de milhões de seres na frente de
batalha não teria sido em vão", provavelmente foi criada em 1923, quando
ele se encontrava preso na Fortaleza de Landsberg, mas ele já expressara
sentimentos semelhantes num discurso pronunciado em 1920 e numa carta, em
1919. Suas idéias sobre o assunto surgiram certamente durante os dias
de dificuldade que viveu em Viena - época em que seu orgulho não o impedia de
aceitar o dinheiro que lhe enviava um judeu amigo de sua família. Seus
associados, uns amargos freqüentadores dos albergues - antimarxistas,
anti-semitas e pangermanistas - passavam o tempo, seu único bem grátis, na vã
procura de bodes expiatórios para as desgraças da Alemanha, que acreditavam
ser a causa das suas próprias desgraças. Os historiadores que buscam uma base filosófica para o
anti-semitismo de Hitler têm sugerido várias fontes, entre as quais as nações
do monge cisterciense, Adolf Lenz. Suas opiniões, propagadas no Arioheröiken,
correspondem em grande parte com as de Hitler. Também aquele apoiava a teoria
da "superioridade" ariana e defendia a eliminação dos judeus por meio
de esterilização e deportação. A verdade é que tudo quanto sugerem esses
historiadores não tem qualquer fundamento. O anti-semitismo de Hitler jamais
se apoiou em razões filosóficas e intelectuais. Na intimidade, ele
demonstrava até desprezo pelas teorias raciais pangermânicas de Alfred
Rosenberg e Walter Darré. Visto que tinha de justificar sua posição de quando
em vez, seus argumentos eram tirados a esmo de conceitos de Gobineau,
Nietzsche, com seu Super-homem, Darwin (Hitler não parava de falar sobre a
"sobrevivência do mais capaz" e de "seleção natural") e,
em particular, do "anti-semitismo de salão" dos Wagners e de
Stewart Houston-Chamberlain. O anti-semitismo de Hitler, como acontece com todo racismo
verdadeiro, era emocional e subjetivo. Quando se começa a analisar os motivos
psicológicos, é preciso considerar-se que Hitler era um inadaptado e um
frustrado sexual. Pois, assim como os racistas brancos de hoje falam da
suposta luxúria e grandes pênis dos negros, também Hitler escrevia sobre
jovens judeus lascivamente à espreita de jovens alemães para seduzi-las. No
delírio das fantasias que criava, essas imagens podiam levá-lo a paroxismos
de fúria. Não há razão para considerá-lo impotente ou, como os mexericos de
tempo de guerra sugeriam, sexualmente deformado. A evidência da autópsia que
os russos apresentaram demonstra isso. Há, no entanto, razão para se supor
que ele não era atraente para as garotas, sobretudo nos seus tempos de jovem
pobre. Fora a terrível pobreza - para ele sem dúvida uma degradação - havia
nele defeitos insuportáveis, como a grosseria, a fúria incontida, o fanatismo
louco. E não é por coincidência que ele constantemente se referia ao caráter
corruptor das finanças judias, pois o dinheiro é, com freqüência, um símbolo
inconsciente de sangue, e a "corrupção" do sangue das jovens
arianas era precisamente o que ele via os jovens judeus fazer, em seu
pesadelo. No Nationalsozialistische Deutsche Arbeiter-Partei, para dar ao
partido nazista seu título completo e adequado, seu anti-semitismo logo recebeu
corporificação política. Os Pontos 4 e 5 do manifesto do NSDAP, publicado em
fevereiro de 1924, declarava que a cidadania alemã estava disponível
"somente aos de sangue alemão, independente de credo religioso". No
caso de o significado dessa frase parecer ambíguo, a frase seguinte torna-a
bem específica: "Nenhum judeu", declara ela, "pode, portanto,
ser um nacional". Isto é desenvolvido no ponto seguinte, que declara que
os que não possuem cidadania do estado são sujeitos "às leis aplicáveis
aos estrangeiros". Estes princípios foram incorporados não só à ideologia do
partido como ao seu comportamento. Sempre paramilitar em caráter (ela
afirmava estar travando uma batalha contra os comunistas), a milícia do
partido eram os Sturmabteilung (Destacamentos de Assalto ou, mais
popularmente, Tropas de Assalto) do Capitão Ernst Röhm. Quando não estavam
desfilando ou combatendo os moinhos de vento do bolchevismo, eles estavam
intimidando os judeus ou provocando intimidação com discursos pronunciados
nas esquinas. Contudo, já um novo grupo estava surgindo dentro da própria
milícia. Em 1922, uma unidade especial das SA havia sido formada e recebera o
nome de Schutzstaffeln (Formações de Proteção) ou, abreviado, SS. Três anos
depois, um bávaro insignificante e míope, com um queixo azulado e pequeno, um
homem que não apresentava outras qualidades além de ser um minucioso executor
dos deveres do partido, cujo nome era Heinrich Himmler, ingressou nas SS. Em
1926, com as SS tendo então cerca de 200 homens, com a tarefa principal de
servir às reuniões do partido, Himmler foi nomeado seu subcomandante. Em
1929, por ordem direta de Hitler, Himmler, que tinha então 28 anos, foi
nomeado substituto de Erhard Neiden como comandante, ou Reichsführer das SS.
O grupo aumentara em oito homens, mas se conservava subordinado às SA e Röhm. Se Himmler dava a impressão de não ser muito imaginativo, a
verdade é que, como Hitler, sua vida interior era cheia de fantasia, povoada
de personagens das lendas germânicas. Ele começou a admitir que tudo aquilo
poderia concretizar-se através das SS. Elas se tornariam uma força poderosa e
independente no nazismo e na Alemanha, um estado dentro do estado,
constituindo-se numa mistura adoidada da antiga Ordem dos Cavaleiros
Teutônicos e dos Jesuítas - pois seus sonhos sempre tinham uma tintura de
misticismo. Uniformizadas em negro, altamente disciplinadas, em contraste
com as rebeldes SA, o ingresso nas SS passou a ser o sonho dos jovens
alemães. Entretanto, o ingresso na corporação tornou-se bastante difícil (os
futuros recrutas tinham de provar a pureza do seu sangue nórdico remontando a
1750). Somente um em cada grupo de dez candidatos satisfazia às exigências da
seleção. Quando da invasão da Polônia as SS totalizavam 26.000 membros. Em junho de 1931, um jovem louro e de olhos azuis, vindo de
Waldtrudering, e que recentemente ingressara nas SS, foi apresentado a
Himmler por um dos membros da sua equipe. Era Reinhard Heydrich, que fora
atraído para o nazismo por sua noiva, Lina von Osten, depois de obrigado a
demitir-se da Marinha, após um escândalo que envolveu a filha de um diretor
de estaleiro, mas que no fundo revelou firmeza de caráter de parte de
Heydrich. Na época, Himmler tinha planos para a criação de um Serviço de
Inteligência dentro das SS, embora um dos seus companheiros de partido,
Hermann Goering, sempre demonstrasse considerar a polícia e a segurança áreas
de sua propriedade. Portanto, o esforço de Himmler fatalmente seria uma
competição, mas ele sempre foi um mestre da maquinação. Ele nomeou o jovem
Heydrich para dirigir seu novo departamento ao qual deu o nome de
Sicherheitsdienst (SD), ou serviço de segurança, que tinha inclusive
autoridade para investigar e manter arquivos até mesmo sobre os membros mais
altos do partido. Assim, deu-se a união de dois homens que, entre si, tinham
traços de caráter muito diferentes e que viriam a cobrar alto tributo à vida
humana. Himmler era um homem convencido pelas teorias excêntricas de
"sangue e solo" cujo destino o colocara em posição de aplicá-las.
Ele não era sádico; não sentia prazer com o sofrimento que viria a impor. Ao
contrário, como um Inquisidor, deplorava a necessidade de ter de adotá-lo. A
única vez que presenciou uma execução, em Praga, em 1941, teve um acesso de
histeria, foi chamado à atenção pelo comandante da cerimônia Heydrich - e
desmaiou. Mas ele deu ordens que mataram milhões. Tampouco havia indícios de que Heydrich fosse homem sádico e
sanguinário no sentido estrito dos termos, e, ao contrário de Himmler, não
era devoto de nenhuma teoria. Na verdade, é provável que secretamente
ridicularizasse tais coisas. Contudo, era homem muito ambicioso e dotado,
como seu chefe, de grande vocação para a intriga, superando-o mesmo. Era em
suma um amoral, com desenvolvido faro para descobrir onde estava a vantagem,
e sabia como aproveitá-la. Outros nazistas pelo menos afirmavam ter
experimentado certo conflito interior antes de se decidirem a cumprir algumas
ordens recebidas. Heydrich nem uma vez mostrou qualquer sinal de perturbação.
Se o Partido Nazista fosse baseado no conceito de que a presença dos judeus
na Alemanha lhe era altamente favorável e que eles deveriam ser recompensados
por sua simples existência, Heydrich poderia tranqüilamente ter cumprido o
dever de homenageá-los com o mesmo zelo, sobretudo por ter ele próprio algum
sangue judeu. Himmler, que sofria de terríveis conflitos (os quais
provavelmente lhe causavam as cãibras estomacais dos últimos anos da guerra),
superou-os pela crença na "pureza do sangue", coisa que considerava
suficientemente importante para vencer todos os escrúpulos, incluindo a
lealdade ao seu chefe, Ernst Röhm. No verão de 1934, um ano e meio depois que
o Presidente Hindenburg nomeou Hitler Chanceler, Himmler participou de um
complô entre os nazistas que temiam as SA como um exército privado. Isto
levou ao assassinato de Röhm e de centenas de subordinados seus, na
"noite das longas facas". A desculpa era que Röhm estava planejando
um golpe, ou Putsch, contra Hitler e tal foi o sucesso que a destruição de Röhm
e seu grupo causou, que as SS de Himmler ficaram com o controle virtual do
campo. As SA haviam dado à Alemanha muita notoriedade internacional, pela
brutalidade franca e desenfreada com que tratavam os judeus - sobretudo
depois que os comunistas foram atirados à clandestinidade. As SS eram
claramente mais disciplinadas e mais formais no seu procedimento; numa
palavra, mais cavalheirescas. Não obstante, muitas pessoas compreendiam que,
em Himmler e Heydrich, elas tinham uma dupla mais satânica e mais perigosa do
que o ingenuamente selvagem Röhm. Enquanto ocorriam essas convulsões, sem que a maioria do povo
alemão soubesse ou lhes desse importância, o NSDAP, já no poder, começou a
avivar as chamas do anti-semitismo, espalhando-as por toda a pátria. O manifesto
do partido, escrito quase dez anos antes, declarara que os judeus deviam ser
tratados como estrangeiros. O país anfitrião sempre pode pedir aos
estrangeiros que "voltem para sua casa". Mas os judeus da Alemanha,
ao contrário dos outros estrangeiros, não tinham casa; ademais, muitos deles
viviam no país havia gerações. Para eles, a Alemanha vinha antes do judaísmo.
A política, de início aplicada mais ou menos ao acaso, mas que mais tarde o
seria com mais propósito e oficialmente, era tornar para eles as condições na
Alemanha tão insuportáveis que muitos desses "estrangeiros"
prefeririam partir. Mas uma partida em termos só possíveis para os ricos e
influentes que tinham contatos que lhes permitiriam ser acolhidos em outros
locais. Assim, se a política de Hitler fez alguma coisa, ela forçou a deixar
a Alemanha exatamente as pessoas que ele mais temia e (se seus argumentos
fossem seguidos) as obrigaria a se tornarem um grupo coeso entre os inimigos
da Alemanha. Não obstante, já na primavera de 1933, semanas após a ascensão
de Hitler ao poder, os judeus começaram a ser demitidos de todos os cargos
públicos; advogados, médicos e lojistas tiveram suas atividades cerceadas. Os
que recusavam deixar-se intimidar, eram fotografados e tinham seus retratos
publicados nos jornais locais. Mas, como o cônsul americano em Leipzig
observou, o público não gostava do boicote. A gente mais pobre era obrigada a
usar as lojas aprovadas pelos nazistas, e que aumentavam seus preços à medida
que a competição diminuía; outros detestavam o princípio de tal perseguição.
Fora da Alemanha, conforme crescia a consciência do que estava acontecendo
naquele país, a aversão que isso fez gerar repercutia nas relações
diplomáticas e comerciais. Qualquer grupo menos obsessionado pelo racismo talvez tivesse
percebido ser chegado o momento de abandonar a política anti-semita, mas os
nazistas chegaram mesmo a destorcer as críticas estrangeiras para servirem a
seus propósitos, justificando a perseguição com o argumento de que era em
represália às atrocidades e ameaças dos judeus no exterior. Quando um ministro sul-africano, em visita à Alemanha, sugeriu a
Hitler que ele devia encontrar uma solução para o problema judeu de modo que
não antagonizasse a Grã-Bretanha, o Führer começou uma de suas diatribes
sobre o anti-semitismo que incluía a ameaça de que "um dia os judeus
desapareceriam da Europa". Para o Ministro das Relações Exteriores da
Checoslováquia, Hitler foi ainda mais claro: "Destruiremos os judeus...
O dia do ajuste de contas chegou". Todavia, diante das críticas, as medidas anti-semitas tinham de
ser disfarçadas em lei. Muita gente na Alemanha, assim como em outros países,
acreditava que os judeus tinham influência e autoridade desproporcionais aos
seus números. Por isso, as pressões sobre a comunidade judia, por meio de
leis restritivas, eram consideradas simples medidas de correção desse
desequilíbrio, e foram feitas de modo a parecerem comuns. Tais medidas
tiveram o efeito de separar o judeu do não judeu, tornar a existência do
judeu mais dura e, por fim, criar os meios e a justificativa para a total
segregação da comunidade minoritária. Se os judeus fossem culpados de tudo o que se lhes atribuía; se
as teorias genéticas adotadas pelos nazistas merecessem aprovação da ciência
verdadeira, ainda assim não seriam admissíveis tanta perseguição, tanta
provocação, tanto desrespeito à condição humana deles. Estes atos foram
talvez apenas ligeiramente menos repelentes do que as medidas tornadas
comuns, mais tarde. De um lado havia os rufiões e os sádicos compulsivos,
indiferentes à identidade dos que estavam à sua mercê, fossem ou não judeus.
Eram vítimas postas à sua disposição pelo governo, e isto lhes bastava; do
outro lado, os administradores ambiciosos que, na ânsia de impressionar os
superiores, arrancaram de suas almas os últimos resquícios de decência. A realidade é que a desculpa dos nazistas para a perseguição dos
judeus tinha poucas pretensões à seriedade intelectual. Era simplesmente o
modo de satisfazer à necessidade de "inimigos", ao mesmo tempo que
justificava a ineficiência e as opressões dos tiranos. As características opressivas do regime tornaram-se de imediato
óbvias a todos os alemães, judeus ou não. Entre tantas provas disso,
salientava-se o fato de a liderança nazista, uma vez no poder, haver-se
arrogado o poder de polícia. Imediatamente após a ascensão de Hitler à
Chancelaria, foi Goering, e não Himmler, quem abriu os primeiros campos de
concentração aos inimigos políticos. Menos de um mês após a nomeação de
Hitler, a 28 de fevereiro de 1933, o dia seguinte ao incêndio do Reichstag,
oficializaram-se as primeiras medidas extraordinárias permitindo a prisão de
cidadãos comuns e sua condenação à "custódia protetora" por período
indefinido e sem direito a apelação. A execução desse decreto também foi
feita por Goering. Por volta de abril, só na Prússia, mais de 16.000 pessoas
haviam sido privadas da liberdade. Pelo Natal de 1933, o número de
prisioneiros assumiu tais proporções que Hitler foi obrigado a anunciar uma
anistia para 27.000 detentos, por absoluta falta de espaço para contê-los. Os campos onde foram encarcerados logo se transformaram em
cativeiros cujos encarregados não eram responsáveis perante ninguém. Himmler
deu início a seus ensaios nesse setor, já tendo desafiado Goering com a
existência do seu SD, e inaugurou um campo de concentração "modelo"
em Dachau, a 20 km de Munique. Ali, os ideais himmlerianos de ordem e
disciplina foram postos em prática. Caracteristicamente, a administração do
campo obedecia a regulamentos que previam todas as eventualidades, indo da
forma como se executavam as surras de chicote e os enforcamentos, à maneira
como se pagava o prisioneiro-carrasco pelos seus serviços (três cigarros!).
Embora extremamente imorais esses regulamentos, sobretudo quando sabemos que
se referiam a homens e mulheres contra os quais jamais pesou qualquer
acusação específica, eles eram, em contraste com os regulamentos dos campos
de Goering, destinados a assegurar uma administração organizada. Para os que cumpririam os deveres de guardas em Dachau, deveres,
diga-se, para uma pessoa normal, difíceis, extremamente dolorosos, Himmler
criou outro departamento das SS, as Totenkopj Verbände, ou unidades da
Caveira (a Caveira sendo o emblema das SS). Entre os que ingressaram no
pessoal de Dachau desse modo, estava um jovem chamado Adolf Eichmann,
destinado a subir bastante na hierarquia das SS. Assim, pelo final de 1934, Himmler assegurara para si próprio um
lugar quase inatacável, exceto pelo próprio Hitler, no novo estado. Em suas
Formações de Proteção havia um serviço secreto para fazer calar os inimigos
do estado e escolher os lugares para onde seriam enviados e mantidos. Himmler
diligenciava febrilmente no sentido de tornar-se o que realmente veio a ser,
o segundo homem mais poderoso no Terceiro Reich. Em 1934, assim como em 1933, não houve nenhuma diminuição nos
tormentos infligidos aos judeus, contra quem era dirigida toda a sorte de
hostilização. As autoridades locais exorbitaram muito da esfera dos direitos
legítimos e até mesmo desprezaram a constituição alemã. Os judeus foram
proibidos de freqüentar parques, andar de ônibus e nadar em piscinas e, em
alguns lugares, os funcionários públicos viram-se obrigados a assinar uma
declaração de que haviam rompido todas as relações sociais com quaisquer
judeus que conhecessem. Os nazistas às vezes evitavam tais práticas, pelo
efeito que teriam no exterior, e na medida em que os tormentos se baseavam em
estatuto ou decreto, eram sempre justificados pelos nazistas com a alegação
de "conveniência". Assim, quando se começou a calcular o ingresso
de judeus em escolas alemães com base no número deles no conjunto da
população, a desculpa apresentada é que se desejava "impedir excesso de
alunos" nas escolas alemães. Em 1935, a primeira das Leis de Nuremberg sobre a cidadania do
Reich, que punha em vigor a decisão do partido de transformar os judeus em
estrangeiros, foi anunciada por Hitler numa das Reuniões Anuais do Partido,
realizada naquela cidade a 15 de setembro. Os moderados do partido (cujo
número era grande, embora muito pouco influenciasse as decisões partidárias)
aceitaram tais leis na suposição de que fossem definitivas nas suas
disposições - na realidade elas foram ampliadas por cerca de 13 decretos
suplementares. Alguns chegaram mesmo a acolhê-las como uma forma de
regularizar a situação vigente, dando aos judeus uma visão de sua posição
perante a lei e certa proteção, mesmo que somente como estrangeiros, o que
não tinham no estado de coisas anterior. A verdade é que o isolamento social
legalizado dos judeus, criado pelas leis de 1935, não só tornaram as medidas
subseqüentes mais rigorosas, como jurídica e psicologicamente mais
facilitadas. Os decretos estabeleciam a criação de duas classes de cidadão: O
Reichsbürger, que tinha de ser de puro sangue alemão, e o Staatsangehöriger
que, embora fossem súditos, não tinham direito à cidadania. Tal divisão de
homens não existia legalmente desde o Império Romano. As primeiras Leis de Nuremberg proscreveram os judeus de muitas
atividades, inclusive o exercício do serviço público. Elas proibiam o
casamento com arianos e, mais que isto, davam para os judeus uma definição
tão ampla que nem pela cabeça dos arruaceiros e verdugos daquela gente havia
passado. Como conseqüência, alemães praticantes da fé cristã e de outras
religiões descobriram horrorizados que, em vez de serem "bons
alemães" como se julgavam, eram rotulados como judeus e cidadãos de
segunda classe. Contudo, fato notável é que as Leis de Nuremberg, nem em 1935
nem posteriormente, tentaram definir com precisão os judeus. Eles eram sempre
descritos vagamente como "estrangeiros". Mesmo no verão de 1943,
Himmler proibiu a publicação de um decreto que definia a condição de judeu.
"Tal dogmatismo nos tolhe", observou ele. A reação mundial às Leis de Nuremberg foi fortemente
demonstrada. Berlim fora escolhida sede dos "Jogos Olímpicos" de
1936, mas fez-se uma representação ao Comitê Olímpico Internacional pedindo a
mudança de local, alegando-se que a política do governo alemão estava em
conflito com o espírito dos jogos. Hitler estava decidido a realizar as
olimpíadas em Berlim e as Leis de Nuremberg foram atenuadas, para que os
milhares de visitantes não testemunhassem os chocantes fatos. Os jogos foram
realizados e tornaram-se um clássico nos anais olímpicos. Uma vez terminados,
o fluxo de legislação anti-semita prosseguiu sistemática e impiedosamente,
corroendo a posição da comunidade judaica. Firmas judias tinham de
distinguir-se e registrarem-se. Judeus eram expulsos das profissões liberais
e das universidades e, em muitos casos, obrigados a emigrar. Assim teve
início o enorme êxodo de homens e mulheres, muitos dos quais, como Freud,
Einstein e Max Planck, eram figuras de fama mundial. Do ponto de vista nazista, a intensificação sistemática das
medidas de Nuremberg não era o suficiente. Hitler estava preocupado com o
efeito poluidor das finanças judias sobre a economia ariana. Portanto, os
judeus tinham de ser obrigados a abandonar a atividade econômica. Mas, para
fazer isto, eram necessárias leis de amplas conseqüências e estas precisavam
ser justificadas não só perante a opinião pública alemã como perante a
opinião mundial. O ato seguinte do drama das relações nazistas foi provocado por
um incidente fora da Alemanha. A 7 de novembro de 1938, um judeu alemão de 17
anos de idade, Herschel Grünspan, que visitava um tio em Paris, compareceu à
Embaixada Alemã solicitando audiência ao embaixador, o Graf Johannes von
Welczek. Um terceiro secretário, Ernst von Rath - funcionário mais importante
do que um estranho, que comparecia a uma grande embaixada sem ser convidado,
tinha o direito de esperar - atendeu-o. Grünspan sacou de um revólver e
atirou nele, alegando mais tarde ter confundido esse jovem funcionário com o
embaixador. Havia várias circunstâncias suspeitas nesse episódio: primeiro, a
alegação supostamente feita pelo assassino de que tivesse confundido um homem
tão jovem com o embaixador; segundo, a suposição implícita de que
funcionários diplomáticos de carreira recebem visitantes desconhecidos nas
escadas; e terceiro, o fato de que von Rath era um antinazista
já sob vigilância da Gestapo. Ademais, na Alemanha, houve todos os indícios
de que a explosão de violência subseqüente a este acontecimento havia sido intencionalmente preparada e uma das
razões é que os que poderiam ter sido acusados de incitá-la haviam-se dado ao
trabalho de se armar com álibis. O Völkischer Beobachter (Observador Popular) que, sob o lema Ein
Volk, Ein Reich, Ein Führer (Uma Raça, Um Estado, Um Líder), esclarecia a diretriz oficial do partido, publicou um
pequeno editorial sobre o assassinato a 7 de novembro, dia em que o mesmo ocorreu.
"Evidentemente", dizia ele, "o povo alemão é capaz de tirar
suas próprias conclusões sobre este novo ultraje". Na noite de 9 de
novembro, Hitler compareceu a um jantar em Munique, comemorativo do complô da
Cervejaria de 1923, e foi lá que Josef Goebbels, Reichsminister da Propaganda
e sem dúvida inspirador, se não autor daquele editorial, revelou que as
represálias - referindo-se a distúrbios de rua - já estavam ocorrendo. Depois do discurso de Goebbels, os que ali estavam reunidos não
tinham muitas dúvidas de que os líderes partidários, em todos os níveis,
iriam organizar e supervisionar a execução de distúrbios, ao mesmo tempo que
cuidariam para não serem identificados como seus instigadores. Portanto,
nisto, eles seguiam o exemplo dos seus chefes, que estavam num jantar em
Munique e não se poderia ligá-los à violência. A única pessoa que não tinha
esse álibi era Goering, mas ele tratou de estar num trem a caminho de Berlim,
enquanto que o único homem que poderia, sozinho, pôr em ação o "pessoal
da represália", Reinhard Heydrich, estava em Nuremberg. Mas existe um
telegrama que ele enviou naquele dia, instruindo os chefes de policia para
que cumprissem o que lhes cabia nos distúrbios que provavelmente ocorreriam.
Incumbia-lhes cuidar, entre outras coisas, para que nenhuma propriedade
ariana fosse danificada, impedir o saque de lojas e residências, embora
permitindo sua destruição, e assegurar-se que nenhuma sinagoga fosse
incendiada, se situada em lugar onde o sinistro pudesse pôr em perigo
propriedades adjacentes. Outra mensagem veiculada por um dos seus assistentes
mandava que a polícia do estado prendesse entre 20 a 30 mil judeus,
especialmente os ricos, e tomasse os arquivos das sinagogas. Durante aquela noite, um furacão de violência se abateu sobre os
judeus em todas as grandes cidades alemães. Quadrilhas de rua, sem que a
polícia as atrapalhasse, destruíram 7.500 lojas, incendiaram pelo menos 171
prédios de apartamentos e quase 200 sinagogas, incluindo a famosa e
histórica, de Nuremberg, cidade onde Heydrich estava. Ele fingiu
surpreender-se com a notícia. Apenas 117 desordeiros foram presos, mas 36 judeus morreram (mais
tarde este número foi aumentado para 91) e outros 36 foram feridos; 20.000
foram colocados sob custódia "para sua própria proteção". Assim, a
"ira espontânea" do povo alemão pelo assassinato de um desconhecido
diplomata, em Paris, voltou-se não contra os residentes franceses no país mas
contra os judeus alemães. Dos judeus detidos, cerca de 10 mil foram enviados para o campo
de concentração de Buchenwald, de onde, aliás, muitos saíram mediante
resgate. Grünspan não era, sem dúvida, um subordinado da Gestapo, mas
provavelmente foi instigado por um dos seus agentes provocadores para
disparar o que veio a ser chamado de Kristallnacht (erroneamente traduzido
como "A Noite das Vidraças Quebradas"). Na verdade, os distúrbios
prosseguiram por mais de uma semana, servindo de desculpa a nova ação contra
os judeus alemães, da qual logo se tirou partido. Não se sabe ao certo que papel teria desempenhado Hitler na
Kristallnacht. De qualquer modo, sua reação a ela foi típica de quem, como
ele, votava aos judeus ódio cego, pois ele aceitou imediata e
incondicionalmente a responsabilidade deles pelo ocorrido e mandou um diktat
a Goering, instruindo-o para que a questão judaica fosse "coordenada e
resolvida de uma vez por todas". A 12 de novembro, três dias após o início dos distúrbios, com as
quadrilhas ainda vagando pelas ruas, Goering convocou uma reunião, no seu
Ministério da Aviação, para examinar as instruções de Hitler. As deliberações
dos chefes nazistas foram interrompidas por uma questão resultante dos distúrbios:
é que os prédios, em muitos casos, em que judeus exploravam seu comércio
pertenciam a pessoas sem qualquer vínculo com a raça, e que sofreram
prejuízos que montavam a milhões de marcos com os danos causados às suas
propriedades, em particular com a quebra de vitrinas, e que passaram a cobrar
às companhias de seguros. Se estas pagassem, iriam à falência; se não
pagassem, a credibilidade das companhias de seguro alemães ficaria
vulnerável. Ficou então estabelecida na reunião a imposição de uma multa comunitária
aos judeus para cobrir os danos - o que dá boa percepção das atitudes
nacional-socialistas - e os representantes das companhias de seguro presentes
à reunião receberam a promessa de Goering de que no futuro não se quebrariam
tantas vitrinas. No devido tempo, as minutas dessa reunião circularam; elas
estipulavam o método de perseguição que se repetiria sempre que a ordem
nazista o determinasse. Os judeus perderiam as propriedades que possuíssem,
recebendo por elas ridícula compensação em dinheiro. Nas semanas e meses
seguintes, as recomendações apresentadas por uma comissão escolhida e nomeada
pela reunião foram postas em vigor. Os judeus foram proibidos de freqüentar
escolas alemães, cinemas e teatros. Planos seriam preparados para o
recrutamento de judeus para turmas de trabalhos forçados; redigiu-se uma lei
de inquilinato estipulando que a propriedade de judeus só poderia ser alugada
a judeus - a base de um sistema de gueto. Independente das outras evidências,
a rapidez com que estas medidas foram introduzidas após o incidente de Paris
indicava que as forças do anti-semitismo estavam preparadas. Se havia qualquer dúvida quanto ao destino que aguardava os
judeus alemães, a reunião de Goering a eliminou. Anunciando a multa
comunitária de um bilhão de marcos para pagar os danos, Goering disse:
"Se no futuro próximo o Reich Alemão entrar em conflito com potências
estrangeiras, não é preciso dizer que nós, na Alemanha, primeiramente
ajustaremos contas com os judeus". Um artigo publicado na revista das SS, Das Schwarze Korps, a 24
de novembro - uma quinzena após a reunião no gabinete de Goering - era ainda
mais esclarecedor. O autor declarava que os judeus que ainda estivessem na
Alemanha após o começo de uma guerra seriam "aniquilados". Por mais importantes que possam ser essas questões raciais e
ideológicas, Heydrich, Goering e seus colegas viam que, a curto prazo,
poderiam obter vantagens econômicas usando os judeus para levar a efeito uma
chantagem internacional de vulto. Heydrich já vinha "permitindo" a
imigração de judeus em troca de pagamentos em moeda estrangeira de que a
Alemanha necessitava e, desde a Kristallnacht, ele tinha 20.000 judeus sob
custódia e propositadamente submetidos a tais condições, em Buchenwald, que
sem dúvida estariam dispostos a pagar as quantias mais extorsivas pela
liberdade. Mas as tentativas da Alemanha de resolver seu chamado
"problema judeu" não se limitavam a esforços internos. Em comum com
a Romênia e a Polônia, a Alemanha tinha convencido o mundo de que outros
paises poderiam ajudar na concretização do desejo em que se encontravam de se
livrar de parte de sua população. Para este fim, por iniciativa do Presidente
Roosevelt, realizara-se uma conferência de 32 nações, em Evian, na França, em
julho de 1938, onde se discutiu o problema dos judeus indesejados naqueles
três países - sem resultado. A conferência foi suspensa sem que qualquer dos
países presentes se dispusesse a receber sequer as crianças judias. Para
Hitler e seus anti-semitas, o fracasso da conferência, embora ainda os
deixasse às voltas com seu "próprio problema judeu", era prova de
que o mundo em geral não se importava com o destino dos judeus. O que os
alemães fizessem então com os judeus, estariam fazendo em grande parte como
que um favor aos demais países do mundo, que, pelo que demonstraram na
conferência, aceitaram implicitamente a responsabilidade pelo destino dos
judeus alemães. A Kristallnacht fora um resultado imediato do fracasso da
reunião. Examinou-se uma variedade de planos, todos destinados a livrar a
Alemanha da sua população judia de modo a evitar a afronta direta à opinião
mundial. Um plano apresentado pelo Ministro da Economia alemão, Hjalmar
Schacht, para usar bens judeus no financiamento de um empréstimo para ajudar
a "emigração organizada dos judeus", e que foi até Londres para
exame em dezembro de 1938, fracassou quando Hitler brigou com Schacht. Outro
plano foi o famoso Projeto de Madagáscar, segundo o qual os judeus alemães
seriam acomodados numa "reserva" naquela colônia francesa. Diz-se
que a idéia partira do Ministro das Relações Exteriores francês, que afirmou
que seu governo estava pensando em mandar 10.000 judeus para lá. Nenhuma
dessas propostas foi aplicada. A Europa estava caminhando para a situação que os judeus
alemães, que desde Evian sabiam não ter amigos, mais temiam: a guerra da
Alemanha com as grandes potências. Ao mesmo tempo, o número de judeus em mãos
alemães estava aumentando com o acréscimo de novos territórios. A anexação da
Áustria havia colocado 185.000 sob o domínio nazista e o mesmo tipo de
tormenta usado no Reich foi aplicado lá. O resultado disso - satisfatório
para o jovem Tenente Adolf Eichmann, que fora encarregado da emigração em
Viena - foi a partida para o exterior de 45.000 judeus austríacos em oito meses,
contra apenas 19.000 da própria Alemanha. Na Checoslováquia, 300.000 judeus
haviam caído nas garras dos alemães e também ali, Eichmann, promovido a
capitão, desdobrou-se para obrigar os judeus a deixar o país numa taxa ainda
maior do que na Áustria. E, para desestimular qualquer hesitação por parte dos que podiam
dar-se ao luxo de deixar o país, Hitler acrescentou seu endosso pessoal às
previsões de Goering e de Das Schwarze Korps. Ele disse ao Reichstag a 20 de
janeiro de 1939: "Se os financistas judeus internacionais... tiverem
novamente êxito em provocar uma guerra mundial, o resultado não será a
bolchevização da terra e, assim, a vitória da judiaria, mas o aniquilamento
da raça judaica na Europa inteira". No mesmo ano deu-se a consolidação de todos os serviços de
segurança, sob as SS, no chamado RSHA (Reichssicherheitshaupamt, ou
Departamento Geral de Segurança do Reich), com Heydrich na sua direção. Foi
no ano seguinte que se reconheceu todo o talento de Eichmann, quando ele foi
nomeado chefe do Departamento IVA4b, o responsável pelos judeus, instalado em
edifício próprio, de quatro andares, na Kurfürstenstrasse, n° 116. Mas a "emigração" ainda prosseguia, o que significava
apenas uma coisa: a expulsão de judeus de todos os territórios do Reich. Passagens
de navio eram adquiridas pela comunidade judia em geral e os emigrantes
partiam, muitas vezes com pouquíssima possibilidade de serem aceitos pelos
países a que se destinavam, mas na certeza de que o retorno à Alemanha
representava a morte, lenta e penosa, num campo de concentração. Com a ajuda
de Conselhos Judeus, instalados onde possível (com base num existente que os
alemães haviam criado em Praga), os judeus eram mantidos sob permanente
vigilância. A 6 de julho de 1939, o "Décimo Decreto, suplementando a Lei
de Cidadania do Reich", submeteu a união das organizações de ajuda e
caridade judias, na própria Alemanha, a um departamento de estado controlado
pelo RSHA. Nos termos do mesmo decreto, as firmas judias remanescentes foram
expropriadas sem compensação.. Privados dos seus negócios, proibidos de
exercer qualquer atividade, exceto nos batalhões de trabalhos forçados que,
de qualquer modo, só poderiam absorver uma pequena proporção - cerca de um
quinto - os judeus alemães, juntamente com os da Áustria e do
"Protetorado" (as regiões desmembradas da República Tchecoslovaca e
colocadas sob o domínio alemão) foram atirados à miséria e aos guetos que
tinham sido preparados para eles pela lei de inquilinato nazista. Já virtuais prisioneiros do estado (eles dificilmente poderiam
ser chamados de reféns, porque o esforço do exterior para resgata-los
fracassara por indiferença), eles se tornaram prisioneiros reais, quando a
Grã-Bretanha e a França declararam guerra à Alemanha, no dia 3 de setembro de
1939. Na verdade, a emigração, em escala limitada, para países neutros
continuou, entre os judeus que conseguiam os meios e os contatos para lhes
garantir entrada no território a que se destinavam; essa emigração
prosseguiu, mesmo após a queda da França. Esses errantes da nova Diáspora se
espalharam até Xangai, onde as forças de ocupação japonesas os encontraram,
em 1942. Pela liberdade, os fugitivos tinham de pagar elevado preço, que às
vezes ia diretamente para as SS - pois Himmler considerava essas trapaças legítima
fonte de renda; às vezes para os bolsos de oficiais corruptos do RSHA, que
forneciam os documentos necessários, quase sempre forjados. Esses
"defensores" da pureza racial desenvolveram seu comércio nas barbas
de Hitler, até quase o último dia da guerra. Começa o movimento para o leste
Por estranho que pareça, os
judeus imaginavam
perfeitamente justificável a esperança de que a eclosão da guerra lhes
aliviasse as penas, pois os líderes alemães estariam por demais preocupados
para continuar a persegui-los. E não poderia haver lugar para eles num grande
conflito, como acontecera em 1914? Essas esperanças não eram de todo
infundadas, pois a guerra trouxe certa melhora para pequeno setor da
população judaica. Houve tal escassez de médicos e dentistas, que se tornou
necessário devolver muitos judeus à prática da profissão. Contudo, na Polônia, onde havia três milhões de judeus, o maior
grupo até então encurralado pelos alemães, a história foi diferente. À medida
que os alemães avançavam, os pogrom, como os da Kristallnacht, embora em
escala imensuravelmente maior, ganharam impulso, já agora sem considerar a
possibilidade de produzir danos a propriedades alemães. A população das
cidades polonesas, à medida que eram invadidas, sentia-se encorajada a descarregar
seus sentimentos pela derrota e ocupação contra os judeus. As histórias
fabricadas pelos alemães diziam que eles é que haviam traído a Polônia. Isto aconteceu a despeito de, in extremis, tendo o
governo polonês oferecido garantias e feito promessas à população judaica,
que perseguira e maltratara durante três séculos, milhares deles se terem
alistado nas forças polonesas, tombando 30.000 deles nas três semanas de
luta. Os que se entregaram aos pogrom eram os anti-semitas locais mais
perniciosos, em geral criminosos conhecidos, estimulados por alguns rufiões
do exército alemão. Contudo, a verdadeira sombra inspiradora de toda essa
reação era sem dúvida Heydrich, que fornecia os agitadores profissionais. Mesmo onde os habitantes locais não participavam, os nazistas
observaram, com satisfação, que eles eram menos sensíveis do que os alemães
ao sofrimento dos judeus, assistindo sem se deixar sensibilizar aos excessos
contra eles cometidos. O anti-semitismo polonês ocasionou a separação total
das duas comunidades, de modo que não se registravam protestos por parte dos
poloneses em defesa dos seus "bons judeus", um hábito alemão que
havia sido alvo de muita demonstração de desprezo por parte de Himmler,
Heydrich e Eichmann. Alguns protestos que ocorreram partiram de elementos do
exército alemão. Se o papel de Heydrich como maligno marionetista por trás dos
pogrom é conjetural, elementos das suas forças e das SS desempenharam papéis
mais evidentes. Durante a anexação da Áustria, supostamente para dar
boas-vindas aos seus concidadãos, fortes medidas de repressão foram
consideradas necessárias para que o país fosse submetido sem problemas. Para
ajudar nessa tarefa, organizaram-se forças-tarefas motorizadas da Polícia de
Segurança e do Serviço de Segurança (SD), com "deveres especiais de
policia política", como rezava o documento oficial para tanto aprovado.
Estes Grupos de Ação móveis (ou Einsatzgruppen) provaram tão completamente a
sua eficiência. que foram utilizados nos Sudetos e na Tchecoslováquia, com
ordem para reproduzir nestes dois lugares o desem penho demonstrado na Polônia, onde sua missão foi classificada
como "a supressão de todos os elementos hostis ao Reich e à Alemanha
atrás da linha de batalha". Era evidente, aqui como em outros lugares,
quem estava incluído na lista dos "elementos hostis ao Reich". Não
foram ordenadas especificamente execuções de judeus na Polônia. Aliás, as
linhas de controle não estavam tão claramente demarcadas nessa campanha, como o foram mais tarde, de modo que, tecnicamente, elas ficaram
sob o controle dos comandantes-de-exército, embora as ordens na realidade
fossem dadas por Himmler. Contudo, as atividades combinadas contra os judeus
da Polônia haviam provocado cerca de 250.000 baixas de setembro até o fim de 1939. Desde o começo da campanha, um Einsatzgruppe estava realizando,
por iniciativa própria, fuzilamentos em massa. Essa unidade, comandada pelo
Tenente-Coronel Udo von Woyrsch, mais tarde foi retirada a pedido do
exército. A 24 de outubro, um batalhão das SS, em Wloclawek, tendo obrigado
os judeus locais a usar um sinal distintivo (a primeira experiência com a
estrela amarela de Davi, mais tarde universalizada), prendeu cerca de 800 e
fuzilou muitos deles "quando tentavam fugir". Num incidente anterior, embora menor, ocorrido a 14 de setembro,
50 judeus foram levados para dentro de uma sinagoga e fuzilados. Os
perpetradores do crime - homens das SS - foram submetidos a julgamento,
sendo, porém, perdoados pela anistia geral decretada por Hitler a 4 de
outubro. Até essa época, atrocidades eram cometidas esporadicamente, sem
no entanto denunciar que por trás delas houvesse um plano que as
sistematizariam. Mas a 21 de setembro foi tomada a primeira providência
evidentemente planejada: esta foi um relatório de uma conferência secreta
presidida por Heydrich, e que circulou entre os comandantes-de-exército mais
graduados na Polônia. O plano se cumpriria em três etapas: (I) o movimento de
todos os judeus para "comunidades" (um eufemismo designativo de
"guetos") de não menos de 500 pessoas cada uma e próximas de linhas
férreas; (II) a nomeação de Conselhos Judeus e (III) o registro de todos os
judeus pelos Einsatzgruppen. Os judeus do Reich seriam deportados para a
Polônia - a primeira lufada daquele vento cortante que sopraria sobre os
judeus nos anos seguintes. É significativo que Heydrich classificasse como
"provisórias" tais providências, pois haveria, disse ele, um
"objetivo final", cuja realização demoraria mais. Este relatório,
tomado em conjunto com a ordem de situar as "comunidades" perto de
linhas férreas, tem levado comentaristas à conclusão de que o "objetivo
final" era realmente a Solução Final - o total extermínio dos judeus.
Mas, neste estágio, a providência era encarada como medida destinada a facilitar
a colocação dessa gente numa reserva judaica a ser criada em Lublin. Na medida do possível, em meio à guerra, ainda havia tentativas
para forçar a emigração judia. Mesmo na Polônia houve esforços para
empurrá-los para além de uma linha de demarcação entre os setores alemão e
russo - pois também os russos haviam marchado sobre as províncias orientais
da Polônia. Grandes grupos de judeus foram levados a atravessar para a outra
margem do Rio San, que marcava essa fronteira na maior parte do seu curso.
Alguns tiveram a sorte de lhes permitirem passar; outros, mais tarde, foram
recapturados pelos alemães, na guerra com a Rússia; alguns conseguiram chegar
à segurança das fábricas de armamentos nos Urais e na Sibéria. Os que não
puderam entrar, foram obrigados a cruzar novamente o San ou o Bug, sendo
muitos deles fuzilados, quando não acontecia serem mortos por afogamento. Os
poucos que evitaram esses dois destinos foram aprisionados. O resultado da vitória alemã na Polônia fora a divisão da região
do país submetida a seu controle em duas partes: as províncias polonesas mais
ocidentais, até Lodz, foram incorporadas ao Reich; o resto da Polônia
transformou-se no "Governo-Geral", uma espécie de grande lixeira
humana, com oportunidades obviamente tentadoras para as experiências demográficas
com que Hitler e Himmler há muito sonhavam. Estas estavam para ser realizadas
através de um plano conhecido como o "Fortalecimento do Povo
Alemão" para o qual Himmler foi nomeado Reichskommissar a 12 de outubro.
Este plano acarretaria movimentos de populações inteiras. Os alemães que se
encontravam no exterior seriam trazidos de volta e colocados em colônias
criadas nos territórios poloneses incorporados à Alemanha. Os poloneses já
ali instalados (com suas terras confiscadas) seriam subjugados por meios tão
irrealistas quanto brutais, visando-se também à deportação em massa de judeus
para a região do Governo-Geral. A execução do reagrupamento dos judeus planejado por Heydrich na realidade foi mais lenta do que ele imaginara, pois sempre fora um planejador totalmente irrealista. Somente em setembro do ano seguinte é que foi emitida a ordem geral que delimitava a área de residência judaica, abrindo caminho para colocá-los nos guetos. Uma das causas do atraso foi que Hans Frank, nomeado por Hitler para dirigir a administração civil |