Desde então, percebem-se as obsessões essenciais de uma poesia
formada sobretudo pela intertextualidade e pela alusão à
cultura cult da modernidade. Não se duvide ser a inaugural
palavra "nenhuma" a evocação emblemática de um primeiro
verso de um primeiro poema de Mallarmé, ''Rien'' - Rien, cette
écume, vierge vers - e mesmo de Guimarães Rosa, na soberba
abertura de Grande Sertão: Veredas: Nonada. Assim,
à consideração feita por Sebastião Uchôa
Leite, de que o poeta está vinculado à linhagem dos poetas
intelectuais, prefiro considerá-lo um poeta remissivo, um
poeta que concebe cada poema seu como uma torrente de alusões e
citações, como se cada verso fosse um asterisco que remetesse
a um verbete. Apesar de, na sua pequena introdução, Sebastião
Uchôa Leite afirmar que o poeta de Rarefato já contém
complexidades de quem conhece bem o território poético,
permito-me supor que não são essas complexidades a característica
do poeta, de resto comuns a muitos poetas recém-publicados. O poema
moderno precisa, definitivamente, livrar-se da vocação
para o palimpsesto e preservar-se do perigo da informação,
estigmas que vêm convertendo o leitor e o crítico em meros
decifradores, em vozes da arqueologia universitária que se satisfazem
com o prazer da decodificação e do reconhecimento da confraria
espiritual dos poetas.
A surpresa de estréia de Frederico Barbosa, no entanto, é
a afirmação de sua qualidade: não se trata de um poeta
niilista. Sua poesia não é uma toada culta que despreza a
própria literatura, atitude comum dos que não sabem fazê-la
sequer pelo avesso. É poesia afeiçoada pelo fragmento, mas
não pela destruição. E que, enfim, ao incluir em seus
versos um vasto paideuma, não o faz com o sentido do rompimento
e da negação, mas sim da preservação de um
cânon literário. Significativamente, um dos seus poemas conclui:
Frederico Barbosa não recusa o lirismo nem a força verbal
essencial do verso; valoriza as aliterações, explorando-as
até o limite de um trocadilho, e insiste nas rimas internas e na
rima toante - esta última, uma influência notável da
poesia de João Cabral de Melo Neto. Sua contenção,
traduzida nos poemas curtos e nas bem realizadas experiências com
o fragmento, se define mais pelo quem tem a dizer do que pelo que não
tem, muito ao contrário da experiência nanica e intelectualmente
débil da geração de 70. Numa breve comparação,
a poesia de Frederico Barbosa carece do humor típico da experiência
marginal daqueles anos, oriundo da leitura de Oswald de Andrade (muito
embora filtrada pelo sucesso do tropicalismo). No que se refere à
sua organização espacial, a sua poesia é muito semelhante
à de Ronaldo Brito, como se nota, entre outros, no poema "O Ano
Passado em São Silvestre''. Mas
evita a qualidade auto-destrutiva que pude assinalar em outro artigo,
sobre o autor de
Quarta do Singular (1989),
e não elege a dessacralização literária como
tema primordial.
Assim, a poesia de Frederico Barbosa consegue recuperar uma tradição
do lirismo sem confessar remorsos. Não é reducionista, mas
preocupada com a pluralidade. Pode-se aproximar, sobretudo no tocante às
linguagens não-literárias, a poesia de Frederico Barbosa
à de Armando Freitas Filho. Ambas possuem a inventividade e a evolução
daquilo que Erich Auerbach denominava de mistura de estilos
- Stilmischung. Imagens de grande força, como
revelam um poeta também afeito à meditação e às definições aforismáticas; ao mesmo tempo, num poema de tom intimista e erótico, este achado:
Rarefato consegue superar a tradição dos poetas que interpretaram desleixadamente alguma máximas da modernidade, que podem estar engastadas em duas afirmações de Paul Valéry, esse discípulo angustiado de Mallarmé: em Regards Sur le Monde Actuel, ele explica que nós somos os brinquedos das coisas ausentes; e, nos Mélanges, informa que o eu não é, talvez, mais do que uma noção convencional, tão vazia quanto o verbo ser. Não creio que a poesia de Frederico Barbosa esteja atrelada a essas concepções que induziram muitos ao minimalismo. Houve, sim algumas hesitações, como se lê nos versos de um dos sete poemas de “Austinlights”.
o que, aliás, está
bem ao gosto de Sebastião Uchôa Leite, seu apresentador, que
escreveu no poema “A Morte dos Símbolos”, do livro Isso Não
É Aquilo (1982): Vamos destruir a máquina das metáforas?
Como se vê, a modernidade é muitas vezes um sintoma da sedução
provocada, enfim, por um sentimento (auto)destrutivo.
Não está Frederico Barbosa alheio aos temas da ausência,
da memória e do silêncio; nem mesmo ao franco exercício
da intertextualidade. Mas em poemas como “Lascaux” e “Do Contra”, momentos
culminantes do livro, o poeta consegue ultrapassar a mera referência
cultural. As cavernas de Lascaux já tinham sugerido a Georges Bataille
algumas inquisições sobre o sentido da religião, do
jogo e do nascimento da arte. Para o autor de Rarefato as cavernas
representam um ritmo de evocações intercruzadas, que se definem
por variados ícones:
O segundo poema é uma interpretação da morte do poeta
e da morte da poesia, talvez o único instante em que a visão
sarcástica se volta contra o poema.
A estréia de Frederico Barbosa, estréia rara, parece importante
por mais de um motivo, entre os quais o de reorientar muitos dos artifícios
modernos da poesia praticada no Brasil. É mesmo, na definição
de um verso do próprio poeta que a ele se desenvolve, um acidente
branco em campo minado.
Sua poesia, oriunda de uma formação de leituras acadêmicas,
zela pelos sentidos em fragmentação; é uma
poesia de rigor – mas, paradoxalmente, de abandono de dogmas.
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