No centro de um círculo riscado na praia por seu pai, o poeta, ainda
criança, se hipnotiza pela “leitura branca” do brilho da areia.
Leitura vasta, “avant la lettre”, que, como os rebrilhos concêntricos
desenhados pela água ao engolir uma pedra, reverbera depois no círculo
fechado dessa areia agora transplantada: nada feito nada, “eco seco / de
nadas”. Desse sulco fechado, esfera infinita de Pascal cujo centro está
em toda parte e a circunferência em nenhuma, a poesia de Frederico
Barbosa começa a irradiar os seus “blues” e calores.
A areia branca da praia, vista agora na confluência de rios de leituras
e percepções, reverbera a famosa página em branco
de Mallarmé, mas também a página brocada de outras
tantas vozes que se dobram e desdobram como onda sobre onda, fulgindo aqui
e ali “punti luminosi” sobre o texto em que se incrustam fragmentos da
memória, da tradição poética e de seu olhar
sobre as coisas. Os fragmentos assomam e somem na superfície que
se decifra e recifra nessa praia em que se inscreve o poema, e a poesia
surge, quase em silêncio, do roçar de uma evocação
com a mineração de novas leituras.
Sobre esse círculo, vejo o poeta justapondo o guarda-sol de Lawrence
– que os homens fabricam para abrigá-los e debaixo do qual traçam
um firmamento e escrevem suas convenções – para cuidadosamente
rasgá-lo até o céu fazendo passar “um pouco do caos
livre e tempestuoso e enquadrar numa luz brusca, uma visão que aparece
através da fenda, primavera de Woodsworth ou maçã
de Cézanne”, como nos lembram Deleuze e Gauattari. Se a turba de
imitadores remenda o guarda-sol e a dos glosadores recheia a fenda com
opiniões, o poeta está sempre atento para operar outros rasgos
que possam lançar outras luzes sobre as mesmas e várias coisas,
animando-as: “O pintor não pinta sobre uma tela virgem, nem o escritor
escreve sobre uma página branca, mas a página ou a tela estão
de tal maneira cobertas de clichês preexistentes, preestabelecidos,
que é preciso de início apagar, limpar, laminar, mesmo estraçalhar
para fazer passar uma corrente de ar, saída do caos, que nos traga
a visão”.
Fiel ao projeto de rigor e experimentação que se esboçou
desde Rarefato (Iluminuras, 1990, considerado um dos melhores livros
de poesia do ano), Frederico nos brinda agora com este seu Nada feito Nada,
poemas quase todos permeados por uma reflexão metalingüística
sobre a terra devastada da poesia e sua possibilidade nesse “agora pós-tudo”,
como refere Augusto de Campos na contracapa do livro. Fende ainda mais
fundo seu guarda-sol expondo-se, manifestamente, à linguagem dos
poetas que se negam à facilidade, que recusam o banal, como se lê
em “sem nem” – que dialoga , em níveis diversos, com o poema “NÃO”
de Augusto, também uma espécie de afirmação
da poesia pelo que ela não é, abrindo espaço às
avessas para seus possíveis. Neste seu poema, despojadamente batido
à máquina como o “NÃO” (contrastando com a silenciosa
riqueza gráfico-ornamental de todo o conjunto, afinado contraponto
planejado pelo artista plástico, músico e cantor Carlos Fernando),
Frederico Barbosa diz não crer em nada, nem no apocalipse das vanguardas
nem na linguagem concreta, nem nas funções da poesia nem
no silêncio do nada. Mas essa negação sugere sobretudo
uma “resistência” à tristonha crise das linguagens, com sua
vertigem da autenticidade na caótica voragem pós-moderna,
sem que se veja a esfinge em ruínas ou vozes criando vida no pano
de fundo da História.
Em Nada feito Nada, a poesia parece operar por deslocamentos, há
um jogo de reflexos que o “eco seco de nadas” arma entre as cinco seções
que formam o livro, palavras migrando na órbita de um único
poema, um nada contra a corrente, movimentada via de mão dupla entre
o poeta, suas menções e referências, o achado dos anúncios
de jornal dos idos de 1840-41 rolando as pérolas redondas d’“A língua
deste povo”, um choque de registros que conversam: “em cada nova leitura
/ uma antiga descoberta / reverbera”.
Como Valéry, o poeta faz sem crer. Olha o abismo que existe entre
o real e a verdade, e justamente aí, nesse hiato, lima com calma
o fio que religa o falar e o calar, faca de dois gumes e um só corte,
um só rasgo no guarda-sol remendado. Nessa fresta, nesse “entre”
se move Frederico Barbosa, entre o dia e a noite de seu “Labyrintho difficultoso”,
entre o claro-escuro de Duda Machado, “lúcido que era um suicídio”,
mirando o branco como “alvo”, voltando sobre seus passos com jeito de quem,
em suas próprias palavras, “ruma para o nada, que na poesia, assim
como no mito pessoano, é tudo”.
Dentro dessa clara poética da recusa o bom mesmo é que, como
na “canzo” de Guilhelm de Peltieu, cujos dois versos iniciais servem de
epígrafe ao livro, no fim da canção o poeta vai passá-la
a alguém “que a levará ainda além”. E o que interessa
da poesia de Nada feito Nada e de Nada feito Nada na poesia
escapa agora ao sulco circular desta resenha – aliás, título
de um dos poemas do livro, que sugere um acróstico em que se insinua
a palavra “áporo” (do grego “áporos”, ‘sem passagem’): um
problema de solução difícil, um grupo de poesia experimental
ou, quem sabe, inseto raro pousado sobre a página.
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